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Direito Processual Tributário Brasileiro TÍTULO III - PROCESSO JUDICIAL TRIBUTÁRIO 11. AÇÕES ORDINÁRIAS EM MATÉRIA TRIBUTÁRIA 11. AÇÕES ORDINÁRIAS EM MATÉRIA TRIBUTÁRIA SUMÁRIO: 1. Noções introdutórias. 2. Ação declaratória em matéria tributária. a. Conceito. b. Autotutela do ente tributante e impossibilidade de utilização da ação declaratória pela Fazenda Pública. c. Declaratividade positiva e declaratividade negativa. d. Eficácia da sentença declaratória. e. “Efeito dúplice” da ação declaratória tributária. f. Declaração de mero fato – inadmissibilidade. g. Sentença declaratória e “lei em tese”. h. Interesse de agir na declaratória- fiscal (condição da ação). i. Ação declaratória incidental. j. Antecipação de tutela na ação declaratória. k. Suspensão da exigibilidade do tributo na ação declaratória. l. Depósito na ação declaratória. m. Compatibilidade entre medida cautelar e ação declaratória. n. Ação declaratória de imunidade tributária. o. Ação declaratória (positiva) de créditos tributários escriturais. p. Ação declaratória de compensação. q. Execução fiscal e ação declaratória. 3. Ação anulatória em matéria tributária. a. Conceito. b. Críticas ao nomen iuris. c. Antiexacional imprópria de rito ordinário. d. Natureza constitutivo-negativa. e. Ação anulatória e o depósito preparatório. f. Anulatória e declaratória fiscal – distinção. g. Anulatória e declaratória negativa – cumulação. h. Ação anulatória e execução fiscal. i. Ação anulatória e embargos do devedor: litispendência. 4. A ação condenatória de repetição de indébito. a. Conceito. b. Objeto e causa de pedir. c. Fundamentos constitucionais e infraconstitucionais. d. Repetição de indébito e compensação. e. O prazo prescricional para o pedido de restituição ou repetição do indébito e a “norma interpretativa” da LC 118/2005. f. Legitimidade ativa para a ação de repetição de indébito e a retenção de tributos. g. A legitimatio ad causam fracionada. 5. Os Juizados Especiais Federais (Lei 10.259/2001) e processo tributário. 6. As Microrreformas do Código de Processo Civil, o CPC/2015 e o processo tributário. 7. As Prerrogativas e as Particularidades da Fazenda Pública em Juízo (o CPC e a Lei 10.522/2002). a. Prerrogativas ou “privilégios processuais” da Fazenda Pública. b. Antecipação de honorários e despesas de auxiliares de justiça. c. A “economia recursal” na Lei 10.522/2002. c.1. Dever de não recorrer e efeito persuasivo das decisões judiciais. d. Outras particularidades da atuação fazendária em juízo. 8. Ação de Consignação em Pagamento do Crédito Tributário. a. A consignação judicial do crédito tributário no CTN. a.1. Limitações materiais. a.2. Efeitos do depósito de tributos. a.3. Depósito integral, depósito insuficiente e depósito a maior. b. A ação de consignação em pagamento no CPC. b.1. A impossibilidade da consignação bancária. b.2. Relações jurídicas tributárias continuativas e consignatórias. b.3. A consignação em face da “incerteza subjetiva”. b.4. O rito especial da consignatória proposta por dúvida subjetiva. b.5. A conversão da consignatória em procedimento ordinário e a assistência litisconsorcial do contribuinte. c. O IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano e a consignatória. d. O ISS – Imposto sobre Serviços e a consignatória. d.1. O local da prestação de serviços. d.2. O ISS e a LC 116, de 31.07.2003. d.3. O ICMS, o ISS e a incerteza subjetiva na tributação dos provedores de Internet. 1. Noções introdutórias As ações ordinárias em matéria tributária são ações antiexacionais impróprias, de rito ordinário, manejadas pelo contribuinte com o escopo de obter tutela jurisdicional de controle da atividade fiscal (relação tributária entre Estado e cidadão-contribuinte) através de sentença de conteúdo declaratório (positivo ou negativo), anulatório (constitutivo negativo) ou condenatório em face da Fazenda Pública da União, dos Estados, dos Municípios, do Distrito Federal ou de quaisquer outros entes que exerçam atividade parafiscal. Examinadas sob o esquema geral de declaratórias, constitutivas ou condenatórias, seguem, em geral, o regime jurídico das ações concebido no bojo do direito processual civil.1-2 Apresentam-se como meios para provocar o processo judicial de conhecimento da matéria tributária litigiosa; são meios de invocação pelo contribuinte da tutela jurisdicional do Estado que se assentam no terreno das ações antiexacionais impróprias. São ações tributárias impróprias por estarem submetidas ao regime jurídico geral de processo civil e carecerem de disciplina legal própria de direito processual tributário, isto é, carecem as ações ordinárias em matéria tributária no Brasil de regime jurídico-processual específico para o trato das lides tributárias e por isso assumem o rito processual das ações ordinárias previsto no CPC/1973, arts. 282 e seguintes e art. 319 do CPC/2015.3 Ações ordinárias em matéria tributária | 457 São ações tributárias antiexacionais porque manejadas pelo contribuinte – na qualidade de autor da ação – com o escopo de obter o controle judicial da atividade fiscal do Estado (União, Estados, Municípios ou Distrito Federal) ou de entes que realizem atividades parafiscais (como, por exemplo, foi o INSS – Instituto Nacional do Seguro Social no âmbito de sua atividade de cobrança das contribuições parafiscais). São subjetivamente antiexacionais porque têm sempre o contribuinte no polo ativo e a Fazenda Pública no polo passivo e são objetivamente antiexacionais porque seus pedidos sempre conterão pretensão declaratória, anulatória ou condenatória que impliquem controle das relações tributárias entre Estado e cidadão-contribuinte. São as seguintes, a modo genérico, as espécies de ações ordinárias em matéria tributária: i) ação declaratória positiva em matéria tributária; ii) ação declaratória negativa em matéria tributária; iii) ação anulatória de ato impositivo; iv) ação condenatória de repetição de indébito. As espécies de ações ordinárias acima destacadas comportam variada gama de cumulações4 ou mesmo de especificidades, como: i) ação declaratória (positiva) de créditos tributários escriturais; ii) ação declaratória (negativa) de inexistência de relação jurídica tributária (ou inexistência de obrigação tributária); iii) ação declaratória (negativa) de ilegalidade ou inconstitucionalidade de norma tributária (inexistência de relação jurídica) cumulada com pedido de repetição de indébito (condenatória); iv) ação anulatória de lançamento (constitutiva negativa) cumulada com pedido de repetição de indébito (condenatória); v) ação anulatória de lançamento (constitutiva negativa) cumulada com pedido de condenação em perdas e danos; vi) ação declaratória de tributação indevida (negativa) cumulada com declaratória do direito de compensação (declaratória positiva); vii) ação revisional de parcelamento tributário (com pedidos declaratórios positivos e negativos) etc. Interessa-nos, por ora, as peculiaridades inerentes ao regime jurídico da ação declaratória quando aplicado às lides em matéria tributária. 2. Ação declaratória em matéria tributária a. Conceito. Pode-se definir a ação declaratória em matéria tributária como a ação antiexacional imprópria, de rito ordinário,5 aforada pelo contribuinte em face da Fazenda Pública ou em face de ente que exerça funções parafiscais, com a finalidade de ver reconhecida judicialmente (declarada) a existência, a forma (declaração positiva) ou a inexistência (declaração negativa) de determinado vínculo jurídico obrigacional de caráter tributário com o escopo de promover o acertamento da relação fiscal manchada pela incerteza.6-7 b. Autotutela do ente tributante e impossibilidade de utilização da ação declaratória pela Fazenda Pública. Somente o contribuinte poderá invocar interesse de agir em promover o acertamento judicial da relação fiscal (é, por isso, ação tipicamente antiexacional), uma vez que a Administração tributáriadetém a prerrogativa de promover a declaração administrativa (princípio da autotutela vinculada do ente tributante) do conteúdo da relação jurídica tributária, por intermédio do ato de lançamento fiscal, que, quando tornado definitivo, torna-se título executivo extrajudicial apto a aparelhar a execução forçada dos bens do contribuinte. Falece então, à Fazenda Pública, interesse de agir no pedido de acertamento judicial em matéria tributária por assistir-lhe a prerrogativa da autotutela declaratória a tornar despicienda a atuação do Poder Judiciário para fins meramente declaratórios. c. Declaratividade positiva e declaratividade negativa. A ação declaratória em matéria fiscal promovida pelo contribuinte com fundamento no art. 4.º, caput, do CPC,8-9pode consistir tanto na declaração positiva como na declaração negativa do conteúdo da relação fiscal manchada pela incerteza. Exemplificativamente, pode a ação declaratória conter pedido consistente no direito ao crédito tributário escritural decorrente de isenção de IPI ou ICMS em etapa anterior do ciclo de produção ou consumo (declaratividade positiva) ou, ainda, pode conter pedido consistente no reconhecimento da inexistência de vínculo tributário em virtude da inconstitucionalidade parcial ou total de norma tributária infraconstitucional (declaratividade negativa), tendo aqui efeitos diversos da ação anulatória de débito fiscal, o que permite até mesmo o ajuizamento conjunto das duas ações.10-11 d. Eficácia da sentença declaratória. As sentenças declaratórias em matéria tributária promanam efeitos palpáveis, especialmente nos casos em que dispensam qualquer providência executória ou mandamental, o que ocorre quando o pedido declaratório positivo se destina a legitimar a conduta do contribuinte na adoção de determinadas práticas contábeis, principalmente com relação ao lançamento de créditos ou de correção monetária em sua escrita fiscal, como nos casos de incerteza sobre a existência ou não do direito à utilização de créditos de ICMS – Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços ou IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados, ou nos casos de incerteza acerca do dies a quo. No tocante à correção monetária, a discussão também poderá versar acerca da ilegalidade de sua aplicação ao débito fiscal exigido pela Fazenda. Nesse caso, a ação declaratória também será cabível, e terá o efeito de impedir que a Fazenda cobre o débito aplicando a correção combatida, o que gera para o Fisco a obrigação de adotar um comportamento omissivo em relação ao direito do contribuinte, qual seja, o de permitir que o contribuinte recolha o quantum debeatur sem a correção exigida.12-13 O STF já se pronunciou no sentido de que “havendo isenção na importação da matéria- prima, há o direito de creditar-se do valor correspondente, na fase da saída do produto industrializado”, explicitando ainda o mesmo Tribunal Excelso, em outro acórdão, que “pacificou-se através do plenário de ambas as Turmas, a orientação no sentido de que é cabível a ação declaratória, para o reconhecimento do direito ao creditamento de ICM devido, se cuidando de matéria-prima importada com isenção”.14 O STJ esposa entendimento no mesmo sentido, divergindo, contudo, no tocante à correção monetária, ao afirmar não ser a ação declaratória meio adequado para o contribuinte discutir o cabimento, ou não, da aplicação de correção monetária de seus créditos.15 Independentemente do mérito da questão, os acórdãos em tela bem ilustram a qualidade dos efeitos da sentença declaratória em matéria tributária, quando se pretende atribuir certeza a procedimento Fisco-contábil da empresa-contribuinte, já que o pronunciamento judicial, mesmo quando se apresente com caráter meramente declaratório, é ato jurisdicional prescritivo, que atribui ao contribuinte o direito subjetivo de se comportar em conformidade com o conteúdo da sentença declaratória.16 O que não se pode pretender é que a Fazenda Pública, mesmo vencida na ação declaratória, seja obrigada a determinado comportamento comissivo (pois semelhante efeito somente seria obtido por intermédio de sentença condenatória ou mandamental), mas a declaratividade da sentença obriga o vencido, no mínimo, a adotar comportamento omissivo, isto é, comportamento omissivo no sentido de tolerar o procedimento do contribuinte que esteja de acordo com o conteúdo da sentença (definição judicial de determinada relação tributária), aceitando como bons os registros fiscais escorados na definição declarativa sentencial. Existem hipóteses como lembra o eminente Ministro José Delgado, nas quais o autor da ação declaratória, se quiser fazer com que a declaração obtida surta efeitos concretos, deve propor nova ação, agora de natureza condenatória.17 Frequentemente, entretanto, a sentença declaratória, valendo como preceito, cria a obrigação para a outra parte de conduzir- se conforme o declarado, como já afirmado anteriormente. Evidentemente em sede de ação declaratória que vise afirmar o direito de compensação tributária (conteúdo declaratório), não poderá o contribuinte receber da Fazenda o que eventualmente pagou a maior (conteúdo condenatório), a não ser que intente ação de repetição de indébito para esse fim, como já decidiu o TRF da 1.ª Região.18 e. “Efeito dúplice” da ação declaratória tributária. Julgado o mérito da ação declaratória desaparece a incerteza sobre a matéria submetida ao Poder Judiciário, mesmo que a ação tenha sido julgada improcedente.19 Proposta pelo contribuinte, v.g., ação declaratória de inexistência de relação jurídica tributária sob o fundamento de inconstitucionalidade de lei majoradora ou instituidora do tributo (hipótese bastante comum na lida forense), três resultados genéricos se apresentam possíveis para a mesma ação: i) sentença de procedência (sentença de mérito, art. 269 do CPC)20 que estabiliza (“acerta”) a relação fiscal declarando inexistente a relação tributária cujo contorno foi objeto do pedido (declaração negativa), tornando indiscutível a inexigibilidade do tributo; ii) sentença de improcedência (sentença de mérito) que estabiliza a relação fiscal declarando existente o vínculo tributário cuja incerteza motivou a propositura da ação (declaração positiva “a contrario sensu”) e tornando indiscutível a exigibilidade do tributo; iii) sentença de extinção do processo sem julgamento do mérito (sentença processual) que não estabiliza a relação jurídica incerta uma vez que não julga a lide posta sub judice e permite a repropositura da ação, ressalvados os casos de perempção (art. 268 do CPC/1973). f. Declaração de mero fato – inadmissibilidade. Doutrina e jurisprudência inadmitem a utilização da ação declaratória para o reconhecimento da existência ou inexistência de mero fato21 (exceptuando-se a declaração de falsidade de documento).22 O objeto da ação declaratória em matéria tributária, portanto, não se pode limitar simplesmente à declaração sobre a inexistência do fato jurídico tributário (ou fato imponível), mas sim à existência ou inexistência da relação jurídica tributária (obrigação tributária) que resulta da ocorrência de certo fato tributariamente tipificado. Inexistindo fato jurídico cujo conceito se enquadre na descrição contida na hipótese de incidência tributária, inexiste, por consequência jurídica, a obrigação tributária, esta sim objeto da declaração positiva ou negativa. Do mesmo modo, em hipótese inversa, declarada a existência do fato imponível declarar-se-á o efeito jurídico correspondente (imputação deôntica), i.e., será objeto da declaratividade contida na sentença a existência da obrigação tributária (relação jurídica tributária de caráter obrigacional). g. Sentença declaratória e “lei em tese”. Na mesma esteira da inadmissibilidade da ação declaratória para declaração de mero fato, também não se admite a utilização da ação declaratória como meio de consulta ou para a interpretação de direito em tese.23Nas províncias do direito processual tributário apresenta-se possível, sem que se cogite tratar-se de mera consulta ou de apreciação de lei em tese – porque, com efeito, disso não se trata –, a discussão de ilegalidade ou de inconstitucionalidade de norma jurídica tributária, de modo a que se declare a inexistência de vínculo tributário obrigacional entre o autor da ação (contribuinte) e a Fazenda Pública. Nesses casos a ilegalidade ou a inconstitucionalidade configuram-se em causa de pedir para o pedido de declaração de inexistência de relação jurídica tributária, isto é, a apreciação da ilegalidade ou da inconstitucionalidade impõe-se como questão prejudicial ao julgamento declaratório sobre a existência ou não da obrigação tributária (declaração da existência ou não da relação jurídica tributária). É fato que nesses casos em que se suscita a apreciação de questão exclusivamente de direito (em que não há a necessidade de comprovar a existência ou não do fato imponível, mas sim a mera exposição do autor às normas tributárias inquinadas de ilegais ou inconstitucionais) é possível a utilização do mandado de segurança para a proteção de direito “in natura”. h. Interesse de agir na declaratória-fiscal (condição da ação). Como condição para a propositura da ação declaratória (condição da ação) o contribuinte, naturalmente, haverá de comprovar seu interesse de agir (ou interesse processual), extraído da conjugação dos requisitos utilidade + necessidade do aforamento da ação. Deverá o contribuinte-autor demonstrar que a incerteza jurídica, que pretende seja superada por meio da sentença declarativa, é fundamentada em situação jurídica concreta24 e não em meras teses tributárias sem visível fio condutor entre a afirmação do direito e a situação fática vivenciada pelo autor.25 Na ação declaratória positiva em matéria tributária o interesse de agir consiste na utilidade e necessidade da declaração de existência de determinada relação jurídica sobre a qual paira a incerteza, e que é descrita na inicial para que seja declarada como existente (v.g., necessidade de declaração – obtenção de certeza jurídica – do direito de lançar créditos de ICMS decorrentes de isenção), servindo como causa eficiente do agir que é a vontade do autor.26 Isto é, descreve-se e comprova-se a situação jurídica (fato e suas consequências) que se pretende ver declarada como certa (existente) de modo a que desapareça a incerteza. Na ação declaratória negativa não há afirmação de existência de relação jurídica, mas apenas a descrição ideal27 do que se pretende seja declarado como inexistente (certeza de inexistência de relação jurídica). A demonstração de seu interesse de agir consistirá na comprovação fática de que em sua atividade particular enquanto pessoa física (v.g., nos casos de IRPF) ou jurídica exercendo atividade comercial (v.g., nos casos de ICMS), industrial (v.g., nos casos de IPI), ou de serviços (v.g., nos casos de ISS), está exposto a efeitos fiscais em sua esfera jurídica como decorrência da errônea qualificação dos fatos jurídicos tributários (ou, a contrario sensu, inexistência de fatos típicos tributários, como, por exemplo, a declaração de que certa atividade – composição gráfica – não está sujeita a IPI, mas apenas a ISS)28 ou da cogente incidência de normas sobre as quais pesa a afirmação de ilegalidade ou inconstitucionalidade (isto é, inexistência de obrigação fundada em norma desconforme ao ordenamento).29 A ação afigura-se útil como meio hábil para superação da situação de incerteza (v.g., inocorrência de fatos típicos tributários ou demonstração do autor de que sua atividade está sujeita à incidência cogente de normas fiscais que afirma estar em desconformidade com o ordenamento) através do reconhecimento judicial da inexistência da relação obrigacional; e necessária para que o contribuinte não remanesça indefinidamente exposto ao pagamento de tributos indevidos ou à espontânea, porém injurídica, inadimplência.30 Em não havendo a demonstração clara de sua exposição às normas tributárias que busca combater, carecerá de interesse de agir na propositura da ação, e o processo deverá ser extinto sem julgamento de mérito, nos termos do art. 267, VI, do CPC/1973, ao qual corresponde o art. 485 do CPC/ 2015.31 i. Ação declaratória incidental. Quando se objetiva que a questão prejudicial de mérito seja abrangida pela coisa julgada, pode-se propor ação declaratória incidentemente ao processo principal (declaratório, constitutivo ou condenatório), ampliando-se dessa forma os limites objetivos da coisa julgada (art. 5.º do CPC/1973).32 A declaração incidental pode recair sobre a causa de pedir que se constitua em questão prejudicial – que tenha sido objeto de contestação – como, por exemplo, a declaração do direito à isenção enquanto causa de pedir e a condenação na devolução do tributo pago indevidamente (repetição do indébito). Tal possibilidade, todavia, deixa de existir no CPC/2015, que não mais contempla a ação declaratória incidental. De fato, a ação declaratória incidental foi suprimida do CPC/2015, não mais havendo menção à possibilidade de resolução de questão prejudicial por esta via. Nada obstante art. 503 do CPC/2015, ao fazer referência aos limites da coisa julgada, estabelece o seguinte: “Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. § 1.º O disposto no caput aplica-se à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se: I – dessa resolução depender o julgamento do mérito; II – a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III – o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão principal. § 2.º A hipótese do § 1.º não se aplica se no processo houver restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da questão prejudicial. j. Antecipação de tutela na ação declaratória. Não há óbice à concessão de medida liminar de antecipação de tutela (art. 273 do CPC/1973 ou art. 294 do CPC/2015)33 no âmbito da ação declaratória em matéria tributária, pois mesmo a sentença declaratória comporta a antecipação de seus efeitos práticos. Exemplo típico é aquele em que o contribuinte pede a declaração positiva, por sentença, do seu direito em lançar créditos de ICMS ou de IPI em sua escrita fiscal, solicitando, já na petição inicial, a concessão de medida liminar que permita o lançamento provisório dos créditos sub judice (antecipação parcial dos efeitos práticos da sentença de mérito), desde que demonstre estarem reunidos os requisitos do art. 273 (a modo geral, a prova inequívoca e a verossimilhança, de modo a construir juízo de probabilidade autorizador da antecipação). Mesmo nos casos de declaratória negativa de existência (ou declaratória de inexistência) de relação jurídica tributária com fundamento em ilegalidade ou inconstitucionalidade, pode o contribuinte formular pedido de antecipação de tutela suspensivo da exigibilidade do tributo, antecipando desse modo um dos efeitos práticos da sentença final que declare a inexistência da obrigação tributária que consiste, axiomaticamente, na impossibilidade jurídica de a Fazenda Pública promover qualquer espécie de cobrança respeitante à matéria fiscal decidida. Note-se que o art. 273 do CPC/1973 teve seu § 3.º alterado e os §§ 6.º e 7.º inclusos pela Lei 10.444/2002, que ampliou a possibilidade de efetivação de antecipação de tutela. Nada obstante o fato de o CPC/2015 conferir tratamento diferenciado ao que o CPC/1973 denomina “tutela antecipada” (denominada, no CPC/2015 de tutela provisória), tais alterações, em sua maioria, são concernentes ao procedimento, bem como ao tratamento conjunto das tutelas antecipatória e cautelar. Sua natureza jurídica não se altera no novo diploma legal. Assim, a despeito do fatode haver nomenclatura diversa, não se alteram as conclusões acima expostas, sendo perfeitamente possível seja pleiteada liminarmente a antecipação dos efeitos da sentença na ação declaratória. k. Suspensão da exigibilidade do tributo na ação declaratória. A propositura da ação declaratória, per se, não suspende a exigibilidade do tributo, embora torne litigiosa a matéria tributária submetida à apreciação do Poder Judiciário, de modo que mesmo estando pendente a ação que questiona a existência ou não da obrigação tributária, a Fazenda Pública pode prosseguir com suas providências formalizadoras (apuração e lançamento) ou, já estando lançado o débito, pode aforar a respectiva execução fiscal.34 Com o fito de assegurar a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, pode, o contribuinte-autor, socorrer-se do pedido de antecipação de tutela ou fazer acompanhar a ação, da comprovação de realização do depósito integral do débito (causa de suspensão do crédito tributário, prevista art. 151, II, do CTN).35 l. Depósito na ação declaratória. Com o escopo de suspender a exigibilidade do tributo, é lícito ao contribuinte-autor fazer acompanhar a ação declaratória do depósito correspondente ao montante integral do crédito sub judice.36-37-38 Cumpre ao magistrado, no entanto, admitir o depósito para fins de declará-lo causa suspensiva nos termos do art. 151, II, do CTN, ouvindo para tanto a Fazenda Pública, que deve se pronunciar fundamentadamente sobre o seu montante, devendo este corresponder ao quantum debeatur, sob pena de operar apenas a suspensão parcial da exigibilidade. Não há a necessidade de concessão de “liminar para depósito” ou mesmo de “ação cautelar para depósito” uma vez que o efeito suspensivo decorrerá do depósito em si mesmo e não da medida liminar que é causa suspensiva distinta, prevista no art. 151, V, do CTN, já em conformidade com a LC 104/2001.39 m. Compatibilidade entre medida cautelar e ação declaratória. A ação declaratória, pelo fato de não possuir execução posterior, não está impedida de gerar efeitos concretos, palpáveis. Também pela ação declaratória, há – concretamente – entrega de segurança patrimonial, uma vez que o direito do contribuinte, v.g., de não ser compelido a recolher tributo por ter sido declarada a inexistência de relação jurídica tributária deverá ser respeitado pelo Fisco. Nesses casos, impõe-se à Fazenda Pública o dever de adotar comportamento omissivo em relação ao direito do contribuinte, o que caracteriza caráter mandamental. Justamente aqui reside a segurança patrimonial do direito do contribuinte, buscada por meio de ação declaratória em matéria tributária. Há de se concluir, portanto, pela compatibilidade entre o processo cautelar e a ação declaratória, como inclusive já decidiu o STJ.40-41 n. Ação declaratória de imunidade tributária. Expressivo exemplo da palpabilidade dos efeitos da ação declaratória em matéria tributária é o da ação que se afora com o específico fim de ver reconhecida (declarada) a imunidade tributária do contribuinte (hipótese bastante comum quando se trata de entidades de educação e assistência social sem fins lucrativos). Por se tratar de hipótese de imunidade em que se constata inexistência de relação jurídica tributária em face de preceito constitucional, pode-se utilizar da ação declaratória com o fito de ver declarada a imunidade do autor da ação, obtendo-se como efeito concreto da declaração judicial a certeza de que a Fazenda Pública não poderá cobrar tributos abrangidos pela regra imunizante em virtude da declaração de inexistência de relação jurídica tributária que possa fundamentar pretensão fiscal.42 o. Ação declaratória (positiva) de créditos tributários escriturais. Para os tributos que funcionam sob o regime de créditos escriturais (conta gráfica), como o IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados e o ICMS – Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços, é comum a utilização pelo contribuinte de ação declaratória com a finalidade de ver reconhecido seu direito ao lançamento contábil de créditos não reconhecidos pela Fazenda Pública Federal ou Estadual, conforme o caso. O fundamento da demanda consiste na afirmação do direito ao lançamento de tais créditos ou, como também ocorre frequentemente, do direito ao lançamento de correção monetária inadmitida pelo Fisco (denominado de escrituração ou lançamento extemporâneo). Não há necessidade de pedido condenatório, já que, como visto acima, a sentença declaratória tem o condão de legitimar a prática contábil do contribuinte referente aos lançamentos objeto do pedido. Nesse caso, deverá ser observado o regime jurídico administrativo próprio para a restituição, o ressarcimento ou a compensação de tributos (sobre esse tema vide Capítulo 7, item 9). p. Ação declaratória de compensação. Outra modalidade bastante utilizada de ação declaratória tem por objeto o reconhecimento (declaração) do direito à compensação de indébitos tributários como débitos vencidos ou vincendos do contribuinte. Esta ação tem fundamento material no art. 66 da Lei 8.383/1991 (com as alterações da Lei 9.069, de 29.05.1995) que autoriza ao contribuinte a efetuar a compensação nos casos de pagamento indevido ou a maior de tributos, contribuições federais, inclusive previdenciárias, e receitas patrimoniais, mesmo quando resultante de reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória.43 Diversos aspectos da regulamentação e aplicação desse dispositivo, como, por exemplo, quais os pagamentos que são considerados indevidos, quais os tributos que podem ser tidos como de mesma espécie para fins de compensação, qual a fórmula correta para o cômputo de correção monetária, acabam por gerar a necessidade de acertamento judicial (sobre o regime administrativo da compensação de tributos vide Capítulo 7, subitem 9.3). q. Execução fiscal e ação declaratória. Por não operar efeito suspensivo, a ação declaratória não obsta o aforamento da execução fiscal,44-45 exceto se estiver acompanhada do depósito correspondente ao débito (art. 151, II, do CTN) ou haja sido concedida liminar antecipatória antes da inscrição em dívida ativa.46 Pendente a ação declaratória e proposta a execução fiscal, esta deve ser distribuída por dependência – em razão da conexão – ao juízo onde tem curso a declaratória. Ajuizada a execução fiscal não há óbice à propositura da ação declaratória, que igualmente, deve ser distribuída por dependência ao foro da execução, mas até que esteja seguro o juízo, não pode ser recebida com o caráter de embargos à execução. Como os embargos à execução têm o caráter de ação de conhecimento, pode dar-se a litispendência, parcial ou total, entre a ação declaratória e os embargos à execução. 3. Ação anulatória em matéria tributária a. Conceito. A ação anulatória em matéria tributária ou ação anulatória fiscal afigura-se como ação antiexacional imprópria de rito ordinário e de natureza constitutivo-negativa, que pode ser proposta pelo contribuinte em face da Fazenda Pública ou em face de quem exerça atividade parafiscal, colimando a obtenção de sentença de conteúdo anulatório (modificativo ou extintivo) que anule total ou parcialmente ato administrativo de imposição tributária (lançamento tributário propriamente dito), ato administrativo de aplicação de penalidades (auto de infração). É, a ação anulatória, instrumento processual tido como de larga aplicação em matéria tributária – domina tutto il processo tributario diz Allorio47 – e reputada como modelo paradigmático de ação constitutiva no campo fiscal (Alberto Xavier).48 b. Críticas ao nomen iuris. Embora a doutrina adote o nomen iuris “ação anulatória de débito fiscal”, parece-nos mais acertado que se utilize a denominação genérica “ação anulatória em matéria tributária” ou, mais simplificadamente, “ação anulatória fiscal”, já que nem toda ação anulatória fiscal será necessariamente anulatória de ato de lançamento (ou“débito fiscal”), mas pode ter por objeto, v.g., a anulação de decisão administrativa denegatória de restituição de pagamento indevido (art. 169 do CTN). Por outras palavras, toda ação anulatória de débito fiscal será ação anulatória em matéria tributária, mas a recíproca não é verdadeira. Além disso, ainda que o objetivo da anulatória seja a desconstituição do débito, o que se anula judicialmente não é propriamente o “débito” (obrigação), mas o ato administrativo de lançamento que o declara, seja por conter vícios formais ou materiais.49 c. Antiexacional imprópria de rito ordinário. Embora expressamente prevista no art. 38 da Lei 6.830/1980 (Lei de Execução Fiscal) como ação antiexacional que pode ser utilizada para que o contribuinte promova a discussão da dívida ativa da Fazenda Pública, a ação anulatória do ato impositivo não encontra disciplina processual tributária específica, isto é, rege-se por disposições gerais de Processo Civil, razão pela qual é considerada ação tributária imprópria. A mera indicação constante do caput do art. 38 acima referido não é suficiente para que possa ser considerada ação tributária própria, já que se configura em ação de cognição de rito comum ordinário regida pelos arts. 282 e seguintes do CPC/1973 aos quais correspondem os arts. 319 e seguintes do CPC/2015. d. Natureza constitutivo-negativa. Por operar efeitos modificativos ou extintivos da obrigação tributária já formalizada a ação anulatória assume natureza constitutivo-negativa, isto é, por intermédio desta ação o contribuinte pretende modificar ou extinguir o conteúdo de relação jurídica tributária (principal ou acessória) já formalizada, já existente, já “constituída” (isto é, formalmente declarada) através do ato administrativo tributário.50 e. Ação anulatória e o depósito preparatório. A segunda parte do caput do art. 38 da Lei 6.830/1980 estabelece que a ação anulatória deve ser precedida do depósito preparatório do valor do débito (monetariamente corrigido e acrescido dos juros e multa de mora e demais encargos). Este depósito (tido como nova roupagem da anacrônica regra do solve et repete),51 no entanto, não se constitui em condição da ação ou sequer pressuposto de procedibilidade, conforme já há muito decidido pelo STF,52 sumulado pelo extinto Tribunal Federal de Recursos53 e reiterado pelo STJ,54-55 constituindo-se, em verdade, mera faculdade do contribuinte que deseje suspender a exigibilidade do tributo durante a pendência da ação, impedindo o aforamento da execução fiscal, consoante restou assentado pela jurisprudência do STF.56 É lícito, portanto, ao autor-contribuinte propor a ação anulatória do lançamento fiscal independentemente da realização do depósito preparatório, em homenagem ao princípio da tutela judicial efetiva em matéria tributária, que não se coaduna com criação de óbice material – visceralmente anti-isonômico – oposto inconstitucionalmente ao exercício do direito de ação.57-58 Ainda, destaque-se que o STF sumulou o entendimento de que é inconstitucional a exigência de depósito prévio como requisito de admissibilidade de ação judicial que pretenda discutir a exigibilidade do crédito tributário. Em verdade, esse entendimento sumular apenas ratifica entendimento já consolidado na jurisprudência pátria: “Súmula Vinculante n. 28: É inconstitucional a exigência de depósito prévio como requisito de admissibilidade de ação judicial na qual se pretenda discutir a exigibilidade de crédito tributário. Data de publicação (DJe n. 28 de 17.02.2010, p. 1. DOU de 17.02.2010, p. 1)”. f. Anulatória e declaratória fiscal – distinção.59 Diferentemente da ação declaratória a ação anulatória fiscal necessariamente pressupõe a existência de ato administrativo cuja desconstituição seja objeto do processo.60 Este ato administrativo pode ser tanto o ato de lançamento como outro ato qualquer promovido pela Administração tributária e que represente gravame à esfera jurídica do contribuinte, como, por exemplo, ato administrativo de classificação fiscal ou de apreensão de mercadorias. No primeiro caso a ação pode ser propriamente denominada de ação anulatória de lançamento e, no segundo caso, denomina-se, genericamente, de ação anulatória fiscal, ou como prefere Americo Lacombe, ação anulatória de ato administrativo.61 Já decidiu o STF, com acerto, que como o pressuposto da ação anulatória de ato declaratório da dívida ativa é o lançamento do crédito tributário não há sentido em protraí-lo ao ato de inscrição da dívida,62 o que significa dizer que se anulando o ato de lançamento perdem seu fundamento de validade os atos subsequentes que com ele guardem dependência formal e material, como os atos de cobrança administrativa e a própria inscrição em dívida ativa. Anulado o lançamento perderá axiomaticamente os efeitos o ato de inscrição em dívida. g. Anulatória e declaratória negativa – cumulação. Como a ação anulatória tem como pressuposto específico a existência de lançamento ou outro ato administrativo de caráter fiscal e a ação declaratória pode ter como objeto a declaração de inexistência de relação jurídica tributária, assume natureza jurídica distinta o que permite seu ajuizamento concomitante ou sua cumulação no mesmo processo.63-64 É possível, por exemplo, que o contribuinte pretenda por via de pedido anulatório a desconstituição de ato de lançamento fundado em norma tributária reputada inconstitucional, e concomitantemente, pretenda por via de pedido declaratório o reconhecimento da inexistência de relação jurídica tributária como fundamento na mesma inconstitucionalidade. Nesse caso o pedido anulatório afigura-se mais estreito porque tem em mira um determinado ato administrativo, enquanto o pedido declaratório é substancialmente mais amplo já que almeja o reconhecimento (declaração da certeza) de que não pode se dar nenhuma relação tributária entre o autor-contribunte e a Fazenda Pública com fundamento em norma tida como inconstitucional. Não são pedidos incompatíveis posto que seus objetos são distintos e podem ser cumulados uma vez que sua causa de pedir é a mesma (inconstitucionalidade da norma impositiva). h. Ação anulatória e execução fiscal. O ajuizamento da ação anulatória desacompanhada do depósito do montante integral do débito não obstaculiza a propositura da execução fiscal (art. 151, II, do CTN, art. 38 da Lei 6.830/1980, Súmula 112/STJ). Admite o STJ, contudo, que se dá a conexão entre a execução fiscal e a ação anulatória (ou mesmo a ação declaratória) devendo as ações ser reunidas para julgamento conjunto (arts. 103, 105 e 106 do CPC/1973, aos quais equivalem os arts. 55 e 58 do CPC/2015).65-66 Embora não caracterizem litispendência,67 o que há de comum entre a execução e a ação anulatória do débito fiscal e que deve induzir a conexão com a reunião das causas é justamente a causa de pedir remota (ou razão mediata do pedido), isto é, no primeiro caso, o lançamento como fundamento do título executivo (causa de pedir remota para a excutição dos bens do contribuinte devedor) e, no segundo caso, o próprio lançamento tido como viciado, agora como causa de pedir remota do pedido anulatório.68 Por sua afinidade, devem os processos (execução fiscal e anulatória) ser reunidos evitando-se a possibilidade de julgamentos contraditórios.69 Uma vez estando devidamente comprovado no bojo da ação anulatória a realização do depósito realizado nos termos da Súmula 112 do STJ70 não é lícito à Fazenda Pública a propositura da execução fiscal e se o fizer fica responsável por indenizar pelos danos porventura causados71 e, em contrapartida, já se entendeu que se for ajuizada a ação declaratória ainda no curso de Processo Administrativo Fiscal que venha a reconhecer a inexigibilidade do débito tributário, deve extinguir-se a ação judicial por perda de objeto mas não pode a Fazenda ser condenada nos ônus da sucumbência.72 i. Ação anulatória e embargos do devedor: litispendência. O objetoda ação executiva não se confunde com o objeto da ação de embargos do devedor ou com o pedido da ação anulatória de débito fiscal. Embora seu grau de afinidade pela causa de pedir remota recomende sua reunião por conexão (vide supra), apresentam-se, de outro turno, como ações de natureza e pedidos distintos que não habilitam a arguição de litispendência.73 Por outro lado, entre a ação anulatória e a ação de embargos à execução pode haver, além da identidade de partes, a coincidência entre a causa de pedir e o pedido (objeto) de modo a que exsurja a relação de litispendência (art. 301, §§ 1.º, 2.º e 3.º, do CPC/1973 e 337, §§ 1.º, 2.º e 3.º, do CPC/ 2015), uma vez que seja em sede de ação de embargos à execução, seja em sede de ação anulatória fiscal, o que pretende o contribuinte-autor é tutela jurisdicional constitutivo-negativa que desconstitua o título por vício formal ou material.74 4. A ação condenatória de repetição de indébito a. Conceito. A ação de repetição de indébito em matéria tributária é ação antiexacional imprópria de rito ordinário e de natureza condenatória, que pode ser proposta pelo contribuinte em face do ente tributante que tenha recebido tributos tidos como indevidos, com o escopo da obtenção de sentença de conteúdo condenatório que determine ao órgão exator a devolução dos ingressos indevidos. Mais amplamente sobre os conceitos de repetição, restituição e ressarcimento veja-se supra Capítulo 7, item 9. b. Objeto e causa de pedir. O pedido condenatório (objeto) da ação repetitória consiste na devolução de tributos, penalidades pecuniárias ou acréscimos como correção monetária e juros recolhidos indevidamente; sua causa de pedir pode estar assentada em erro material ou formal gerador do recolhimento procedido; anulabilidade do auto de infração ou do ato de lançamento; ou ainda a ilegalidade ou inconstitucionalidade da norma que embasou o recolhimento do tributo cuja devolução se requer. c. Fundamentos constitucionais e infraconstitucionais. A obrigação de devolução de tributos recolhidos indevidamente está tutelada tanto constitucionalmente quanto no Código Tributário Nacional. Seu fundamento constitucional está relacionado com a garantia do direito de propriedade, prevista no art. 5.º da CF/1988. Com efeito, “proíbe expressamente a Constituição Federal a apropriação ou confisco de bens econômicos dos contribuintes sem causa jurídica”.75-76 O Código Tributário Nacional prevê expressamente a possibilidade de restituição de tributos recolhidos indevidamente, através de seus arts. 165 a 169. A legalidade (estrita legalidade e tipicidade) é considerada como o princípio constitucional mais importante no campo da incidência tributária e a contrario sensu é fundamento elementar do direito à devolução: “Este concepto de la legalidad tributaria sirve perfectamente para fundamentar el reconocimiento del derecho del particular a la devolución de ingresos indebidos”.77 Também o princípio constitucional da capacidade contributiva é apontado como fundamento da devolução de tributos indevidos. “El derecho a la devolución desarrolla un papel de gran importancia porque reconduce a la ortodoxia constitucional vínculos de tributación que no respetan, en principio, el principio de capacidad contributiva. El derecho a la devolución de una suma ‘debida’ degrada el vínculo porque le priva de un rasgo esencial de la relación tributaria, el ser la causa de la atribución patrimonial, pero esta degradación produce que se salve de ser tachado de inconstitucional”.78 A devolução de valores pagos indevidamente, em qualquer caso, é reflexo precípuo de efetivação da justiça social, em conformidade com os parâmetros de conduta que norteiam a vida em sociedade. Além disso, é regra amplamente entabulada no ordenamento jurídico brasileiro, especialmente em se tratando da restituição de tributos recolhidos a maior. Além disso, a Constituição Federal ainda impõe a observância dos princípios da moralidade, da responsabilidade objetiva do Estado, da isonomia, da ampla defesa, da justa indenização, da equivalência, do devido processo legal, entre outros não menos importantes, todos afetos à confirmação do instituto acima descrito. d. Repetição de indébito e compensação. A decisão que julga pela procedência da Ação de Repetição de Indébito é composta por duas partes: uma declaratória e outra condenatória. Conforme bem expõe Aroldo Gomes de Matos: “Aliás, como toda sentença condenatória possui um grau de declaração, simplesmente basta que o sujeito passivo ajuíze a ação sem intitulação específica, com pedido apenas condenatório, porque o bojo da sentença contemplará automaticamente a parte declaratória negativa da relação jurídico-tributária”.79 O contribuinte que obtém sentença de procedência em ação de repetição de indébito, como no caso em análise, pode utilizar-se da carga declaratória da mesma para dar azo a compensação, inclusive sem necessidade de autorização da Fazenda Nacional, bastando comunicação em juízo de tal procedimento,80 através da conjugação da possibilidade de aproveitamento do efeito declaratório da sentença com a previsão legal da compensação presente no art. 66 da Lei 8.383, de 30.12.1991. Gabriel Troianelli, a respeito desta questão, observa que “nada impede, assim, que o contribuinte que tenha ajuizado anteriormente Ação de Repetição de Indébito compense, por sua conta e risco, o tributo indevido. Nessas hipóteses, a compensação não se dará na ação de repetição de indébito, mas apesar da ação. O contribuinte que compensa crédito tributário na pendência de ação de repetição de indébito relativa ao mesmo crédito apenas opta por uma outra via não judicial para obter o ressarcimento do indébito tributário”.81 Nos casos em que há decisão judicial transitada em julgado, o comando individual de natureza jurídica judicial contém os elementos necessários para a possibilidade de compensação.82-83-84-85 Como a sentença trânsita poderá ser utilizada administrativamente, deverá ser observado o regime jurídico administrativo próprio para a restituição, o ressarcimento ou a compensação de tributos (sobre esse tema vide Capítulo 7, subitem 9.a). e. O prazo prescricional para o pedido de restituição ou repetição do indébito e a “norma interpretativa” da LC 118/2005. Durante muito tempo observou-se viva controvérsia quanto à contagem do prazo para o pedido de restituição de tributo nos casos de lançamento por homologação, que o CTN trata como hipótese de antecipação de pagamento, sem que haja formalização por parte da autoridade administrativa. Veja-se que a regra do art. 168 do Código Tributário Nacional estipula que “o direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: (I) – Na hipótese dos incisos I e II do art. 165, da data da extinção do crédito tributário; (II) – Na hipótese do inciso III do art. 165, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória”.86 A dúvida, na hipótese do inc. I do art. 165, supracitado, está que se põe em causa o momento em que se dá a “extinção do crédito tributário” nos casos em que o contribuinte antecipa o pagamento do tributo que, posteriormente, é objeto do pedido de restituição, hipótese em que se aplicam os §§ 1.º e 4.º do art. 150, que disciplina a extinção nos seguintes termos: “§ 1.º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. (…) § 4.º Se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação”. De forma muito lúcida, aplicandocoerentemente esses dispositivos, o STJ – STJ pacificou entendimento no sentido de que se devem computar cinco anos a partir do pagamento, que é quando se dá a homologação tácita do tributo recolhido indevidamente (art. 150, § 4.º), somados de mais cinco anos referentes ao prazo prescricional que o CTN fixou (art. 168). Essa forma de cálculo do prazo prescricional foi vulgarmente denominada de “tese dos cinco mais cinco”. No entanto, reavivou-se controvérsia quando a LC 118, de 9.02.2005, em seus arts. 3.º e 4.º, dispôs diferentemente sobre a interpretação a ser atribuída ao inc. I do art. 168 do CTN, inserindo no sistema suposta norma interpretativa e atribuindo-lhe gravosa retroatividade: “Art. 3.º Para efeito de interpretação do inc. I do art. 168 da Lei 5.172, de 25.10.1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1.º do art. 150 da referida lei. Art. 4.º Esta Lei entra em vigor 120 (cento e vinte) dias após sua publicação, observado, quanto ao art. 3.º, o disposto no art. 106, inciso I, da Lei 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional”. Como se observa, sob o pretexto de promover “interpretação autêntica”87 do art. 168, I, do CTN, a LC 118/2005 busca obter os efeitos retroativos previstos pelo art. 106 do CTN quando se trate de lei “expressamente interpretativa”.88 Ocorre que, à toda evidência, mais que mera interpretação, o dispositivo produz inovação no sistema jurídico, constituindo-se em gravame intolerável ao princípio constitucional da irretroatividade das leis previsto genericamente no art. 5.º, XXXVI, da CF/1988 e particularmente para a matéria tributária, previsto no art. 150, III, “a”. Diante da evidência da violação constitucional em que incorreu a norma supostamente interpretativa, o próprio STJ já se pronunciou – acertadamente segundo pensamos – assentando o entendimento de que sua aplicação é insuscetível de ser retroativa, podendo aplicar-se tão somente aos pedidos de restituição de tributos formulados após a vigência do art. 3.º da LC 118/2005.89 No entanto, em virtude do forte teor constitucional das decisões do STJ, o STF, pronunciou- se em sede de recurso extraordinário, sobre a inconstitucionalidade parcial da LC 118/2005 (RE n. 566.621, rel. Min. Ellen Gracie, Tribunal Pleno, j. em 04.08.2011, publicado em 11.10.2011). Desse pronunciamento, podem-se inferir, finalmente, serem os seguintes os prazos a serem observados: (a) tributos indevidos recolhidos até 08.06.2010 – prazo de 5 (cinco) anos para repetição (partindo, logicamente, do pressuposto que não foi ajuizada nenhuma ação até 08.06.2005, para recuperar o indevido); (b) tributos indevidos recolhidos após 08.06.2010 – prazo de 5 (cinco) anos para repetição; (c) tributos indevidos recolhidos até 08.06.2010, com pedido formulado até a mesma data – prazo de 5 (cinco) anos para repetição; (d) tributos indevidos recolhidos até 08.06.2010, com pedido formulado após 08.06.2010 – prazo de 5 (cinco) anos para repetição; (e) tributos indevidos recolhidos até 08.06.2005, com pedido formulado até essa data – poderá recuperar os 10 (dez) anos de pagamento indevido; e (f) tributos indevidos recolhidos até 08.06.2005, com pedido formulado após essa data – prazo de 5 (cinco) anos para repetição. Para o exame dos demais aspectos referentes à prescrição no quadro da repetição do indébito, veja-se, supra, Capítulo 7.2, subitem 1.f. f. Legitimidade ativa para a ação de repetição de indébito e a retenção de tributos.90 A adoção pela Fazenda Pública de modelos de transferência de responsabilidade tributária, também conhecidas na doutrina europeia como “privatização da gestão tributária”, concernente à transferência para terceiros, geralmente pessoas jurídicas de direito privado, das funções de formalização e até mesmo de arrecadação tem sido crescente.91 E não se trata apenas da fenomenologia clássica, que afeta a retenção e o agente retentor (retención, retenedor) na relação do indébito.92 Variados e criativos mecanismos e denominações como substituição para trás, substituição para frente, monofasia, responsabilidade, retenção na fonte de rendimentos, retenção de receita, sub-rogação etc., produzem novos e insuspeitados vínculos jurídicos, alimentam vigorosas discussões doutrinárias e jurisprudenciais. Transformaram-se, de uma parte, em eficaz estratégia sob o prisma arrecadatório, mas de outra, fomentam graves problemas sob o prisma material e processual tributário. De fato, em numerosas situações, observa-se que novos conflitos entre substitutos e substituídos, retentores e retidos, demandam a adoção de um modo de pensar especificamente processual tributário, e não meramente processual civil.93 Situação comum é a que se encontra quando retentores (responsáveis tributários) e retidos (contribuintes) se veem diante de declaração de inconstitucionalidade em mero controle difuso pelo STF. Enquanto a inconstitucionalidade de tributo que opere sob regime de retenção for declarada em sede de controle difuso e não em caráter de controle concentrado, os contribuintes expostos ao mesmo regime necessitam promover suas ações individuais ou mesmo coletivas com o objetivo de assegurar seus interesses. O efeito prático de declaração incidental de inconstitucionalidade pelo STF pode consistir em: (a) servir como precedente para o aforamento pelos contribuintes retidos, de ações declaratórias de inexistência de relação jurídico-tributária (por inconstitucionalidade) cumuladas com pedido condenatório de repetição do indébito tributário; e (b) servir de fundamento jurídico pelos agentes retentores, para alicerçar a afirmação de liquidez e certeza do direito nos casos de impetração de mandado de segurança.94 A lei não prescreve que, caso o retentor não recolha, o retido terá que recolher. Ao contrário: não havendo o recolhimento pelo retentor, que é sujeito passivo da obrigação tributária na modalidade de responsável, esta é quem está exposta à inscrição em dívida ativa e sucessivos atos de cobrança, inclusive forçada, pela via do executivo fiscal. Nesse caso de obrigação retencional e de responsabilidade sub-rogatícia, a sujeição executiva – legitimação passiva para a execução fiscal – é exclusiva do agente retentor, eliminando por excludência a responsabilidade do retido. Embora essa compleição fático-jurídica sugira a aplicação dos arts. 121, II, e 128, primeira parte, do CTN,95 há evidente dificuldade semântica para seu perfeito enquadramento nas categorias tradicionalmente conhecidas. Inicialmente é preciso analisar, diante dessas normas, a situação do retido e da indústria retentora. Para o Código, o sujeito passivo é a pessoa obrigada ao pagamento, seja enquanto contribuinte ou na condição de responsável. Ora, o sujeito à retenção não é sujeito passivo da obrigação principal, já que não está obrigado ao pagamento de tributo ou mesmo de penalidade pecuniária, e, logo, embora seja contribuinte, não é sujeito passivo. Quem está obrigado à retenção e ao respectivo recolhimento é – por expressa injunção legal – tão somente o agente retentor. Por outro modo de dizer, embora o retentor não seja contribuinte stricto sensu, figura como sujeito passivo por responsabilidade. Ademais, pode- se afirmar que o retentor, embora exposto à sujeição passiva, não suporta economicamente o tributo, pois na qualidade de “agente de repasse” do tributo, tão somente transfere o valor que foi suportado pelo contribuinte stricto sensu. Devemos lembrar que as figuras do retido e do retentor, nos moldes como previstas na legislação, foram criadas para atender unicamente aos propósitos arrecadatórios. Aliás, não se trata aqui da vetusta discussão sobre contribuinte de fato e contribuinte de direito, que tanto atormenta a doutrina no tema da repetição do indébito tributário, mas, sim, de vínculoslegais de distinta natureza, o primeiro se constituindo em liame de natureza puramente econômica – o contribuinte suporta o ônus econômico do tributo – e o segundo laço jurídico se constituindo em sujeição passiva, de natureza puramente obrigacional, mas de raiz puramente arrecadatória. Há, também, muita flutuação conceitual quando da distinção entre a mecânica da retenção e a figura do substituto tributário.96-97 Diversas hipóteses não se ajustam propriamente à ideia de substituição tributária, embora essa locução possa ser encontrada em parte da jurisprudência e também em alguma fonte doutrinária – o que pode conduzir a equívocos. Estamos com a doutrina que distingue a responsabilidade da substituição da seguinte forma: (a) na responsabilidade tributária o contribuinte é trocado pelo responsável de modo que desaparece o vínculo material original, remanescendo, portanto, apenas o vínculo debitório entre o responsável e o ente tributante; e (b) na substituição tributária a legislação obriga terceiro vinculado ao fato gerador a cumprir com a obrigação, remanescendo, no entanto, também o vínculo original. Como nesse sistema de responsabilidade a obrigação do retentor elimina a obrigação do retido, sob esse critério tratar-se-ia de responsabilidade por sub-rogação.98 Pode-se dizer, então, que no regime dos arts. 121 e 128 do CTN, nem todo contribuinte é sujeito passivo do tributo (embora suporte economicamente a exação) e nem todo sujeito passivo é contribuinte (stricto sensu). Há, então, “contribuinte sem sujeição”, que corresponde à figura do retido e “sujeito passivo não contribuinte”, representado pela figura do retentor. Desse regime jurídico tipicamente de Direito Tributário devem fluir as necessárias consequências processuais tributárias a serem aplicadas no âmbito judicial, sobretudo referentes à legitimação para a causa. Evidentemente ambos, retido e retentor, são contribuintes em sentido lato, mas para fins da presente análise adotaremos a distinção entre contribuinte sem sujeição (contribuinte stricto sensu) e sujeito passivo não contribuinte, como forma de demarcar com fortes cores as diferentes posições jurídicas de cada uma dessas figuras. g. A legitimatio ad causam fracionada. Das peculiaridades do tratamento tributário surgirão, inexoravelmente, particularidades de natureza processual. Em primeiro plano, convém lembrar que as relações processuais que decorram desse sistema devem respeitar a condição de ambas essas figuras, sem criar embaraços à necessidade de defesa de ambos, contribuinte sem sujeição e sujeito passivo não contribuinte. O contribuinte retido, ao suportar o ônus econômico do tributo, fará jus à repetição do indébito, enquanto que o sujeito passivo retentor conserva o direito de discutir sua sujeição passiva, realizar o depósito e não ser compelido, sob nenhuma forma, à inadimplência. Ou seja, o contribuinte sem sujeição (retido) tem legitimação ad causam para formular o pedido de repetição do indébito e o sujeito passivo não contribuinte (retentor) tem legitimidade para discutir o vínculo enquanto responsável e fazer o depósito se assim desejar. De fato, tem reconhecido, acertadamente, o STJ, que o agente retentor tem legitimidade ad causam para discutir a incidência do tributo, mas não tem esta legitimidade para pedir repetição do indébito, legitimidade esta exclusiva do retido.99-100 Aliás, ainda segundo a linha pretoriana, para que o retentor possa estar legitimado a pleitear a restituição do indébito, teria que estar munido de autorização expressa dos retidos, nos moldes do art. 166 do CTN.101 Como se vê, não pode haver concorrência na legitimação para a causa, uma vez que autores distintos (contribuinte e sujeito passivo) não podem pleitear os mesmos efeitos materiais. A solução pretoriana, adequada à realidade fático-jurídica, promoveu o correto recorte nos bens jurídicos sob tutela, promovendo nessa esteira o fracionamento da legitimatio ad causam, de modo a conferir ao retentor (sujeito passivo não contribuinte) o direito de discutir sua relação obrigacional com a União enquanto responsável por sub-rogação, e, doutra parte, de forma a deferir ao retido (contribuinte sem sujeição) o direito de requerer a repetição do indébito que financeiramente suportou. 5. Os Juizados Especiais Federais (Lei 10.259/2001) e o processo tributário A Lei 10.259, de 12.07.2001, instituiu os Juizados Especiais Cíveis e Criminais da Justiça Federal, com competência para processar e julgar – e quando possível conciliar – os feitos de competência da Justiça Federal relativos às infrações criminais de menor potencial ofensivo e as causas que não excedam o valor correspondente a sessenta salários mínimos.102 Sua instalação em cada circunscrição judicial depende de decisão do Tribunal Regional Federal competente. Sobre o Juizado Especial Federal Cível, algumas relevantes características legais com referibilidade ao processo tributário devem ser destacadas: i) no foro onde estiver instalada Vara do Juizado Especial, sua competência é absoluta e abrange expressamente as ações para anulação de atos previdenciários e para anulação do lançamento tributário, não podendo ser remetidas ao Juizado, no entanto, as demandas aforadas até a data de sua instalação; ii) não se incluem em sua competência: (a) as causas entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e Município ou pessoa domiciliada ou residente no País; (b) as causas fundadas em tratado ou contrato da União com estado estrangeiro ou organismo internacional; (c) as ações de mandado de segurança; (d) as execuções fiscais; (e) as demandas sobre direitos ou interesses difusos, coletivos ou individuais homogêneos; iii) nas relações tributárias continuativas em que a pretensão recaia sobre parcelas vincendas, o valor da causa – para fins da fixação de competência do Juizado – corresponde apenas à soma de doze parcelas; iv) o regime recursal do Juizado consagra expressamente o princípio da irrecorribilidade das interlocutórias, o que significa que não cabe recurso de agravo de instrumento das decisões proferidas no curso do processo, inclusive das medidas liminares concessivas ou denegatórias da cautela requerida; v) não há para o INSS e a União ou para qualquer pessoa jurídica de Direito Público o benefício do prazo em quádruplo para contestar ou prazo em dobro para recorrer e, além disso, não haverá reexame necessário, isto é, não se aplica às causas de competência do Juizado a regra do “recurso ex officio”; vi) os representantes judiciais da União e do INSS estão autorizados a transigir ou desistir nos processos de competência do Juizado; vii) nos incidentes de uniformização sobre interpretação de lei federal versante sobre Direito material em que haja orientação da Turma de Uniformização que contrarie a súmula ou jurisprudência dominante do STJ, poderá ser provocada, diretamente, a manifestação desse tribunal. Nessa hipótese, havendo plausibilidade do direito invocado e fundado receio de dano de difícil reparação poderá ser concedida medida liminar determinando a suspensão dos processos nos quais a controvérsia esteja estabelecida; viii) ao processamento e julgamento do recurso extraordinário aplica-se o mesmo regime do incidente de uniformização; ix) nas hipóteses de repetição de indébito, após o trânsito em julgado da decisão, o pagamento de valor não superior a sessenta salários mínimos será feito no prazo de sessenta dias, independentemente de precatório. Complementarmente, a Lei 12.153, de 22.12.2009, criou disciplina específica para os denominados “Juizados Especiais da Fazenda Pública”, que se constituem em órgãos da justiça comum e integrantes do Sistema dos Juizados Especiais (Juizados Especiais Cíveis, Juizados Especiais Criminais e Juizados Especiais da Fazenda Pública). A utilização dos Juizados Especiais em matéria tributária – agora Juizados Especiais da Fazenda Pública– representa sensível avanço no trato judicial das causas de pequeno valor e deverá ser de ampla aplicação, principalmente para as pessoas físicas (notadamente no campo previdenciário), e para as microempresas e empresas de pequeno porte. Sem embargo das vantagens atinentes à redução dos prazos,103 das formalidades e dos incidentes processuais, como a supressão do recurso de agravo de instrumento e do benefício de elastecimento de prazo para a Fazenda Pública e a dispensa dos abomináveis precatórios requisitórios,104 somente a lida forense e o paulatino aprofundamento das investigações doutrinárias, no entanto, irão determinar os reais benefícios e as eventuais implicações no que tange à qualidade da prestação jurisdicional em matéria fiscal, particularmente no campo da conciliação e do juízo arbitral, institutos nem sempre assimiláveis aos rigores da relação obrigacional tributária.105 6. As Microrreformas do Código de Processo Civil, o CPC/2015 e o processo tributário O Código de Processo Civil de 1973 sofreu diversas alterações pontuais com o propósito de ajustá-lo às necessidades contemporâneas de eficácia e celeridade da prestação jurisdicional. Estas modificações operam-se através de pequenos blocos legislativos que são aprovados de tempos em tempos e são denominados de “microrreformas”. Tudo isso tendo culminado no texto do CPC/2015. Ao contrário do que se poderia pensar, a nova legislação processual não rompe drasticamente com o sistema em vigor. Diversamente, o novo diploma segue a mesma sistemática constante das microrreformas empreendidas no CPC/1973, mas de forma aperfeiçoada, na medida em que compõe um todo harmônico e coeso. Como ponto de partida, algumas etapas das modificações empreendidas no CPC/1973 são de particular interesse ao direito processual tributário – e merecem ser examinadas com o fito de contextualizar alguns aspectos do CPC/2015 – que é o ponto de chegada. A primeira fase objeto de nossas considerações é de 1994 e 1995 e teve como principal alteração, do ponto de vista do processo tributário, a inserção do regime de antecipação de tutela no bojo do art. 273 do CPC/1973 através da Lei 8.952 de 13.12.1994, sistema que se revelou, ao longo do tempo, como de grande aplicação em matéria tributária (sobre as peculiaridades da antecipação de tutela em matéria tributária, vide infra Subcapítulo 12.2, item 8). A segunda fase dessas microrreformas ocorreu nos anos de 2001 e 2002. As Leis nos 10.352, de 26.12.2001, e 10.358 de 27.12.2001 – e a Lei 10.444, de 07.05.2002 – promoveram diversas alterações no corpo do Código de Processo Civil de 1973. Algumas dessas modificações, ainda que gerais, têm particular aplicação ao campo processual tributário: i) reforçou-se a efetividade dos provimentos jurisdicionais mandamentais, liminares ou finais, através da possibilidade de cominação de multa não superior a vinte por cento do valor da causa em face de quem embarace o cumprimento das ordens judiciais – art. 14, V do CPC/ 1973. A possibilidade de cominação de multa foi incorporada no CPC/2015, prevista no seu art. 77, que também estabelece o dever de as partes cumprirem os provimentos judiciais, em seu inc. IV, que reza: “IV – cumprir com exatidão as decisões jurisdicionais, de natureza provisória ou final, e não criar embaraços à sua efetivação”; ii) estabeleceu-se, em autêntico desdobramento do princípio constitucional do juiz natural, nova regra de distribuição por dependência para os casos de extinção do processo, sem julgamento do mérito (nova redação dada pela Lei 11.280/2006) e sucessiva repropositura de ações, mesmo que em litisconsórcio com outros autores (essa prática – desistência e redistribuição – é muito comum em matéria tributária tendo em vista que a homogeneidade qualitativa das lides tributárias leva a parte a buscar – por meio da repropositura – uma chance a mais de distribuição do processo a magistrado favorável ao seu pleito nos casos em que já se tem prévio conhecimento da habitual linha decisória de cada juiz) – art. 253, II, do CPC/ 1973, ao qual equivale o art. 286, II, do CPC/2015. Ainda a Lei 11.280/2006 – elencou mais uma hipótese (inc. III do art. 253 do CPC/1973) determinante da distribuição por dependência, qual seja: “quando houver o ajuizamento de ações idênticas, ao juízo prevento”, regra que integra também o corpo do CPC/2015, no inc. III do art. 286; iii) suprimiu-se a obrigatoriedade de duplo grau de jurisdição (ou recurso ex officio) para as seguintes hipóteses: (a) condenação da Fazenda Pública ou procedência de embargos à execução fiscal em ação cujo valor não supere 60 (sessenta) salários mínimos; (b) quando a sentença estiver fundada em jurisprudência do plenário ou súmula do STF ou do “tribunal superior competente” (à expressão “súmula do tribunal superior competente” equivale dizer súmula do Tribunal Regional Federal ou Tribunal Estadual – Tribunal de Alçada ou Tribunal de Justiça – competente para apreciação do recurso ou mesmo súmula do STJ) – art. 475, §§ 2.º e 3.º do CPC/1973. O CPC/2015 trouxe alteração em relação às hipóteses de dispensa da remessa necessária, relacionando o valor da condenação com a parte que figura no processo. Assim, fica suprimida a obrigatoriedade do duplo grau quando a condenação ou o proveito econômico obtido nas causas de valor certo e líquido, inferior a 1000 (mil) salários mínimos, se a demandada for a União, suas autarquias e fundações de direito público; quando inferior a 500 (quinhentos) salários, se demandado o Estado, o Distrito Federal, suas respectivas autarquias e fundações de direito público, bem como os Municípios capitais de Estados; 100 (cem) salários mínimos para os demais municípios, suas respectivas autarquias e fundações de direito público. Já em relação à dispensa de duplo grau por sentença fundada em julgamento de Tribunal Superior, houve ampliação das hipóteses, a saber, (a) sentença fundada em súmula de tribunal superior; (b) sentença fundada em acórdão proferido pelo STF ou STJ em julgamento de recursos repetitivos; (c) sentença fundada em incidente de resolução de demandas repetitivas ou assunção de competência;106 (d) sentença fundada em entendimento coincidente com orientação vinculante, firmada no âmbito administrativo do próprio ente público, consolidada em manifestação, parecer ou súmula administrativa – art. 496, §§ 3.º e 4.º, do CPC/2015. iv) quando a sentença de mérito confirmar a antecipação dos efeitos da tutela, o respectivo recurso de apelação será recebido somente no efeito devolutivo, eliminando-se dessa forma a vetusta discussão sobre a suspensão da eficácia de medida liminar suspensiva da exigibilidade do tributo (art. 151, V do CTN) em face da interposição de apelação com efeito suspensivo – art. 520, VII do CPC/1973. A mesma regra consta do CPC/2015, em seu art. 1.012, que em seu inc. V contempla a mesma hipótese, com aperfeiçoamento de redação: “V – confirma, concede ou revoga tutela provisória”. v) com relação ao rito do agravo de instrumento e o prazo dos recursos especial e extraordinário quando houver interposição de embargos infringentes, são também dignas de nota as seguintes alterações, ainda que sendo de caráter mais geral não toquem tão diretamente com o processo tributário: (a) no tribunal, o relator ao receber recurso de agravo de instrumento poderá convertê-lo em agravo retido – art. 527, II do CPC/1973, nova redação;107 (b) também no recebimento do agravo de instrumento caberá ao relator deferir antecipação de tutela total ou parcialmente (positivação da construção doutrinária denominada agravo com efeito ativo) – art. 527, III do CPC/1973, ao qual equivale o art. 1.019, I, do CPC/2015; (c) quando da parte não unânime do acórdão forem interpostos embargos infringentes, o prazo para recurso extraordinário ou recurso especial, relativamente ao julgamento unânime, ficará sobrestado até a intimação da decisão nos embargos – art. 498, caputdo CPC/1973. (d) na hipótese de não interposição de embargos infringentes o prazo relativo à parte unânime da decisão terá como dia de início aquele em que transitar em julgado a decisão por maioria de votos – art. 498, parágrafo único do CPC/1973. No que concerne à possibilidade de conversão do agravo de instrumento em retido, ela não se verifica no CPC/2015, na medida em que o agravo na modalidade retida deixa de existir. Por outras palavras, salvo as hipóteses expressamente previstas em lei (nas quais é cabível agravo por instrumento), as decisões interlocutórias não são recorríveis. Ao contrário do que possa parecer inicialmente, a opção legislativa não é ruim, pelo contrário. Se, por um lado, o legislador suprimiu a possibilidade de se recorrer das interlocutórias, como regra geral, pelo outro, não mais se verifica o fenômeno da preclusão. Assim, todas as questões surgidas no curso da ação podem ser atacadas, por meio da interposição de recurso de apelação. Veja-se que o que a lei fez foi suprimir uma modalidade de apresentação de recurso, mas não tolheu da parte o direito de se insurgir de determinada decisão judicial. O que antes era objeto de agravo retido, no CPC/ 2015 passa a ser do recurso de apelação. Em relação às observações concernentes aos embargos infringentes, há importante alteração no CPC/2015. Não há mais previsão legal deste recurso. O que a nova lei processual prevê é uma técnica de julgamento, pois, ao tratar do julgamento do recurso de apelação prevê, no caso de julgamento não unânime, que o julgamento tenha prosseguimento, em sessão designada com a presença de outros julgadores – art. 942 do CPC/2015. Do ponto de vista geral, embora relevante, a etapa das microrreformas do Código de Processo Civil de 1973, de 2001 e 2002, não tem o mesmo alcance da reforma de 1994, quando, por exemplo, se modificou o art. 273 para nele criar a possibilidade ampla de utilização do pedido de antecipação de tutela. Permaneceu carente o sistema brasileiro de intervenção mais profunda, principalmente no campo recursal. Ainda hoje, por exemplo, uma decisão interlocutória proferida em primeiro grau de jurisdição pode, frequentemente, vir a ser reapreciada até pelo STJ mediante a utilização de sucessivos expedientes recursais. Aliás, no campo das liminares em matéria tributária, quase que a totalidade das decisões monocráticas nos juízos de primeiro grau são reapreciadas nos tribunais implicando desperdício de tempo e de recursos materiais. Do ponto de vista do Processo Judicial Tributário muito há que ser revisto para que se alcance a proximidade, a efetividade e a utilidade dos meios no que tange à lide tributária, principal matéria-prima e vasto ramo do ainda embrionário Direito Processual Público. Por essa razão, a terceira etapa das microrreformas do CPC/1973, de 2005 e 2006, procura atender, ainda que em parte, à necessidade de maior controle do sistema recursal e à redução radical do tempo no processo, mesmo que assumindo severos riscos nesse campo como se verá abaixo. Em verdade, o escopo explícito desta terceira etapa de reforma do CPC/ 1973 é o de dar efetividade ao princípio da razoável duração do processo, inserido ao texto constitucional a partir da Emenda n. 45/2004.108-109 Entre estas importantes alterações havidas se destacam aquelas referentes ao regime dos agravos de instrumento e retido (Lei 11.187/ 2005);110 ao processo de execução fundado em título executivo judicial (Lei 11.232/2005);111 à informatização do processo judicial (Lei 11.419/2006).112 São reformulações tipicamente processuais civis que devem ser examinadas no âmbito do Direito Processual Civil e que reflexamente influirão nas lides tributárias. No entanto, existem tópicos da reforma que devem receber menção específica no que se refere à sua inserção no processo tributário pelas suas próprias particularidades. Não estamos afirmando que aquelas reformas são menos importantes que estas, mas, apenas que certos territórios de disciplina processual são mais capazes de gerar problemas especificamente processuais fiscais. Com esse escopo, destacamos sinteticamente alterações abaixo, considerando suas possíveis repercussões no tratamento administrativo e judicial das lides fiscais. Alguns desses tópicos serão melhor desenvolvidos ou estarão referidos nos itens específicos, conforme indicado. É importante ressaltar que a edição do CPC/2015 não isenta o intérprete da compreensão das reformas procedidas no CPC/1973, na medida em que fortemente inspiradoras da nova lei. Veja-se que neste contexto, o CPC/2015 veio em boa hora. Senão vejamos. i) Súmula impeditiva de recursos. Instituiu-se a chamada súmula impeditiva de recurso que preceitua não poder o magistrado receber o recurso de apelação quando a sentença estiver em conformidade com súmulas do STJ ou do STF (Lei 11.276/2006). Como nestes tribunais é muito frequente a fixação de enunciados sumulares em matéria fiscal, esta norma poderá ser de dilargada aplicação nesse campo, com o que se potencializam os graves riscos inerentes a esse sistema de bloqueio recursal, sobretudo quando sua aplicação implicar agressão ao princípio constitucional expresso da ampla defesa e à garantia constitucional implícita do duplo grau de jurisdição. Em verdade, tal anômalo efeito bloqueador de recursos somente poderia ser cogitado em se tratando de súmula vinculante – que não é a hipótese, sob pena de incontornável inconstitucionalidade. Além disso, a validade jurídica do impedimento recursal está condicionada à validade jurídica da súmula que ganha potencial efeito geral e abstrato. Justamente por tal efeito, para a adoção lícita da súmula como impeditiva de recurso, o debate jurisprudencial deverá ser quantitativa e geograficamente representativo, qualitativamente completo e temporalmente maduro.113 No CPC/2015 a figura da súmula impeditiva de recursos não subsiste, embora seja possível constatar a existência de mecanismos que se assemelham ao fenômeno. Embora o recurso de apelação deva ser dirigido ao juízo de primeiro grau, nos termos do art. 1.010, § 3.º, os autos devem ser remetidos ao tribunal pelo juiz, independentemente de juízo de admissibilidade. Por outras palavras, o recurso de apelação sofrerá a análise dos seus pressupostos de cabimento pelo relator, no tribunal, não mais passando por um duplo juízo. Ao analisar os seus pressupostos, nos termos do que diz o art. 932, IV, pode o relator negar provimento ao recurso, dentre outras hipóteses, que for contrário à súmula do STF ou do STJ. ii) Julgamento liminar da lide. Acrescentou-se o art. 285-A ao CPC/1973 – doutrinariamente denominado “julgamento de ações ou processos repetitivos” – facultando ao magistrado a possibilidade de julgar liminarmente a lide, independentemente de citação do réu, quando constatar já terem sido proferidas sentenças de improcedência em casos idênticos (sentenças paradigmas) e desde que a questão controvertida seja unicamente de direito (Lei 11.277/2006). Como existe grande homogeneidade qualitativa nas lides tributárias, onde frequentemente discute-se a legalidade ou a inconstitucionalidade de normas introdutoras de obrigações fiscais, esta norma se afigura potencialmente lesiva aos contribuintes, sobretudo por desafiar os princípios constitucionais da inafastabilidade da tutela jurisdicional e da ampla defesa. De fato, a colidência com a Constituição se estabelece, pois, enquanto esta prescreve que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou a ameaça a direito” (art. 5.º, XXV), e também assegura aos litigantes em processo judicial “o contraditório e a ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes” (art. 5.º, LV), o julgamento liminar da lide preconizado pelo art. 285-A cria forma oblíqua, transversa, para afastar substancialmente a tutela judicial cognitiva, colimando eliminar – aparentemente para fins de propiciar economia no tempo do processo – o contraditórioe a ampla defesa no primeiro grau de jurisdição. A constitucionalidade desta nova regra processual deverá ser aferida de duas formas. Em um primeiro momento, esta regra deverá passar pelo crivo do processo legal e da razoável duração do processo. A celeridade processual promovida com o sacrifício de garantias fundamentais é tão indesejável quanto o processo demasiadamente moroso. Por outro lado, é necessário ponderar seu conteúdo em face das garantias do direito de ação e da ampla defesa, além do princípio hermenêutico da razoabilidade.114 Uma vez superado o controle de constitucionalidade abstrato, deve-se passar à sua aferição diante do caso concreto. Isto é, para que o magistrado utilize com propriedade este expediente processual, deverá proceder a uma análise rigorosa e criteriosa no sentido de verificar a adequação da sentença paradigma e a nova ação, através do contraste articulado entre todos os fundamentos da ação manejada pelo autor e todas as refutações expressas adotadas pelo magistrado.115-116 Note-se que o CPC/2015 não só manteve a possibilidade de julgamento de improcedência liminar do pedido como a ampliou. O magistrado está legalmente autorizado a julgar o pedido improcedente que contrariar o enunciado da súmula do STF ou do STJ ou o acórdão proferidos por estes tribunais em julgamento de recursos repetitivos; o entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou assunção de competência ou ainda quando contrariar a súmula de tribunal de justiça sobre direito local – art. 332 do CPC/2015. iii) Pronunciamento de ofício da prescrição. Conferiu-se nova redação ao § 5.º do art. 219 do CPC/1973 permitindo ao magistrado pronunciar, de ofício, a prescrição, independentemente de se tratar de questão de direitos patrimoniais (Lei 11.280/2006). Este dispositivo segue corretamente expressiva linha doutrinária e jurisprudencial no sentido de admitir, em matéria fiscal, o pronunciamento ex officio da prescrição,117 nos mesmos moldes do pronunciamento ex officio para a decadência (sobre o pronunciamento da prescrição e a exceção de pré- executividade vide Capítulo 15, subitem 6.a.1). Nos termos do CPC/2015 não só se autoriza o pronunciamento de ofício como pode o magistrado julgar o pedido liminarmente, nas hipóteses de decadência ou prescrição, consoante dispõe o art. 332, § 1.º, do CPC/2015. A Lei 11.280/2006 também alterou o art. 489 do CPC/1973 com o fim de possibilitar a concessão de medidas liminares e cautelares em ações rescisórias, ensejando na suspensão do cumprimento da sentença ou do acórdão rescindendo. De igual forma, esta alteração espelha a construção doutrinária e jurisprudencial que admite a hipótese de, em casos especiais, conceder-se medida liminar ou cautelar incidentalmente a ação rescisória (sobre a ação rescisória e seus efeitos em matéria tributária vide Capítulo 13, item 5 e seguintes). A mesma previsão está incorporada no CPC/2015, que estabelece expressamente a possibilidade de concessão de tutela provisória na ação rescisória – art. 969 do CPC/2015. iv) Recursos especiais repetitivos. A Lei 11.672/2008 instituiu, ao acrescentar o art. 543-C ao CPC/1973, novo procedimento relativo ao julgamento dos recursos especiais repetitivos. Inovou o dispositivo ao estabelecer que naqueles recursos especiais que possuem como fundamento idêntica questão de direito, o presidente do tribunal de origem deverá conhecer apenas um ou mais recursos “representativos da controvérsia”, suspendendo os demais feitos até o pronunciamento definitivo do STJ. Quando for publicado o acórdão do STJ – acórdão paradigma – os recursos especiais que até então estavam sobrestados, terão o seguimento negado se o acórdão recorrido estiver em consonância com a orientação do STJ. Já aqueles recursos cujos acórdãos recorridos divergirem do posicionamento adotado pelo STJ, deverão ser novamente examinados pelo tribunal de origem – como uma espécie de juízo de retratação. Por outro lado, caso seja mantida a opinião divergente, proceder-se-á novamente ao exame de admissibilidade do recurso especial e seu respectivo encaminhamento ao STJ. Observe- se, contudo, que não se trata de novo requisito de admissibilidade do recurso, mas sim de procedimento especial para o julgamento de processos repetitivos. Dois aspectos devem ser rigorosamente analisados pelo presidente do tribunal a quo. O primeiro diz respeito à enunciação do que venha a ser “fundamento idêntico”. Para serem considerados como repetitivos os recursos devem conter exatamente os mesmos argumentos articulados. E o segundo aspecto é relativo à escolha dos processos representativos da controvérsia, tendo em vista que deverão ser escolhidos aqueles que representem a melhor argumentação sobre o tema repetitivo, sob pena de gerar nulidade dos julgamentos por repetição.118-119 Na linha das reformas anteriormente empreendidas, o CPC/2015 prevê a mesma regra para os recursos extraordinários e especiais repetitivos, sempre que houver multiplicidade de tais recursos com fundamento em idêntica questão de direito. Além do aperfeiçoamento em seu processamento, é salutar a extensão da regra aos recursos extraordinários. Destaca-se a regra que determina que somente podem ser selecionados recursos admissíveis e que contenham argumentação abrangente e discussão sobre a questão a decidir – art. 1.036 do CPC/2015. v) Recurso extraordinário e repercussão geral. Acrescentou-se o art. 543-A ao CPC/1973, estabelecendo novo requisito de admissibilidade para o recurso extraordinário. Preceitua este dispositivo que somente serão conhecidos aqueles recursos cuja questão impugnada seja capaz de configurar a “repercussão geral”. Entende-se por capaz de produzir repercussão geral o tema decidendum capaz de configurar relevância do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico e que transcenda os interesses subjetivos postos em juízo. Uma vez negada a existência de repercussão geral, os demais recursos que versarem sobre matéria idêntica deverão ser liminarmente indeferidos (Lei 11.418/2006). No campo tributário, havendo questionamento sobre a constitucionalidade de norma jurídica instituidora ou majoradora de tributo, é axiomática a caracterização da repercussão geral, pois a decisão do STF influenciará necessariamente o conteúdo de milhões de relações obrigacionais fiscais qualitativamente idênticas, transcendendo, como regra os limites subjetivos da causa. Por tal razão tem o STF decidido pelo surgimento de repercussão geral em diversos temas fiscais, como, entre outros, exigência de lei complementar para dispor sobre prescrição e decadência em matéria tributária, progressividade da alíquota do ITCMD, alcance da imunidade da CSSL e, inclusive, responsabilidade solidária dos sócios ante contribuição social devida por pessoa jurídica.120 Ainda que possa ser considerado como mecanismo útil para evitar o manejo de recursos protelatórios – e desse modo reduzir o tempo no processo – este expediente deve ser utilizado com parcimônia e em interpretação extensiva, a fim de evitar a excessiva amputação competencial do STF. Além disso, como o efeito da repercussão geral é o de criar normas gerais e abstratas, sua adoção deve respeitar às características gerais de representatividade quantitativa e geográfica, completude qualitativa, maturidade temporal e adequação prescritiva.121 A necessidade de comprovação de repercussão geral se mantém no CPC/2015. Uma vez reconhecida a repercussão geral, o relator no STF determinará a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos que versem sobre a questão, em todo o território nacional – art. 1.035 do CPC/2015. vi) Disciplina das súmulas vinculantes do STF. Disciplinou-se o regime concernente à edição, revisão e cancelamento de “súmulas vinculantes” que podem ser editadas pelo STF conforme o permissivo do art. 103-A da CF/1988, incluído pela EC 45/2004 (Lei 11.417/2006). Dianteda grande susceptibilidade do direito tributário para receber enunciados sumulares, é de elevada relevância que os mecanismos de sua adoção sejam dotados de alta segurança e racionalidade, ganhando especial relevo o sistema de revisão e cancelamento de súmulas, particularmente quando de eficácia vinculante (sobre este assunto vide Capítulo 14, subitem 9.g). vii) Processo administrativo e súmula vinculante. Foram acrescentados os arts. 64-A e 64-B à Lei 9.784/1989 (LGPAF), dispondo que em havendo decisão contrária à súmula vinculante por parte da autoridade julgadora, esta deverá explicitar as razões da aplicabilidade ou inaplicabilidade da súmula, cabendo reclamação ao STF. Caso a reclamação seja acolhida pelo STF, a autoridade administrativa deverá ser notificada para adequar o entendimento em futuras decisões, sob pena de responsabilização pessoal (Lei 11.417/2006). Cuida-se de mecanismo de harmonização entre as esferas judicial e administrativa de julgamento, pois o controle da eficácia geral das súmulas obrigatórias sobre os processos administrativos representa a afirmação da eficácia das súmulas vinculantes sobre os atos da Administração Pública, inclusive aqueles com caráter de julgamento administrativo (sobre a aplicação de precedentes do STF e de súmulas no processo administrativo fiscal vide, respectivamente, Capítulo 7.1, subitens 8.3.k e 8.4.a). viii) Novo processo de execução por título extrajudicial. Especificamente quanto ao processo de execução, foram promovidas numerosas alterações no CPC, especialmente aquelas introduzidas pela Lei 11.382/2006. Como a execução fiscal é disciplinada em lei própria, que é a Lei 6.830/1980, conhecida como Lei de Execuções Fiscais – LEF, somente serão aplicáveis as novas disposições do CPC quando não conflitem diretamente com a LEF, pois o diploma processual civil tem função meramente subsidiária do diploma processual tributário, que é norma especial. Entre as numerosas novidades, um dos temas mais polêmicos se verifica na nova regra do CPC (com as alterações da Lei 11.382/2006) que não exige garantia de juízo para o recebimento dos embargos e retira o efeito suspensivo automático quando de seu ajuizamento, ao passo que a Lei 6.830/1980 – LEF, exige a garantia do juízo para a admissibilidade dos embargos e lhes atribui efeito suspensivo (pela sua extensão e particular importância, examinaremos mais adiante os critérios jurídicos para a solução desse e de outros conflitos potenciais entre as novas regras do CPC e a LEF, no Capítulo 15, subitem 6.d). Percebe-se que esta terceira etapa de reforma do CPC incorporou ao ordenamento jurídico brasileiro diversos mecanismos de standartização das decisões. Os regimes da súmula impeditiva de recursos, julgamento de recursos repetitivos e súmulas vinculantes foram criados com dois escopos bastante nítidos: conferir celeridade ao processo e promover a estabilidade às decisões judiciais (segurança). O cerne da questão reside em compatibilizar os princípios mencionados – quais sejam, da duração razoável do processo e o da segurança jurídica – com outras garantias processuais do indivíduo, tais como o contraditório e a ampla defesa, de idêntica estatura e relevo constitucional. 7. As Prerrogativas e as Particularidades da Fazenda Pública em Juízo (o CPC e a Lei 10.522/2002) a. Prerrogativas ou “privilégios processuais” da Fazenda Pública. No regime geral do Código de Processo Civil, a Fazenda Pública serve-se de algumas regras particulares, por muitos denominadas de “privilégios processuais”. Na verdade, determinadas normas do CPC conferem “prerrogativas processuais” que não podem ser confundidas com privilégios, uma vez que decorrem não apenas das condições materiais muitas vezes insuficientes para o atendimento de todas as demandas fazendárias, mas sobretudo do interesse público que deve demarcar a atuação dos procuradores da Fazenda em juízo. De um modo geral tais prerrogativas não vulneram a integridade do princípio da isonomia processual, senão que, ao contrário, fazem valer a regra isonômica no exato sentido de dispensar desigual tratamento às partes que, de fato, laboram no iter processual em desiguais condições.122-123 Assim, podemos citar os seguintes exemplos de prerrogativas processuais da Fazenda Pública: i) Sem que se possa dizer afetado o princípio da isonomia mas como manifestação de igualdade no contexto do procedural due process, o CPC/1973, em seu art. 188, adjudica à Fazenda Pública a prerrogativa da contagem em quádruplo do prazo para contestar e em dobro para recorrer. No CPC/2015 há pequena modificação da regra. A teor do que preconiza o art. 183, a Fazenda Pública goza de prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais. ii) Da mesma forma, a dispensa de preparo recursal prevista no § 1.º do art. 511 do CPC/ 1973 e no § 1.º do art. 1.007 do CPC/2015, ainda que relacionada com a regra isentiva inserta na Lei 9.494/1997, decorre de critérios relativos à isonomia e à tutela do interesse público. iii) Além dessas hipóteses, pode ser enumerada a disposição legal que – aplicando analogicamente o princípio da presunção de legitimidade dos atos administrativos – dispensa as pessoas jurídicas de Direito Público de autenticar as fotocópias dos documentos apresentados em juízo (art. 24 da Lei 10.522/2002). iv) A mesma lei torna dispensável, inclusive, a tradicional assinatura do procurador na petição inicial do processo de execução por título extrajudicial, que poderá receber mera chancela eletrônica ou mecânica (art. 25), dispositivo que acolhe a realidade concernente à completa mecanização que sofreu o ajuizamento de execuções fiscais no âmbito federal. b. Antecipação de honorários e despesas de auxiliares de justiça. De distinto matiz é o problema planteado com a interpretação das regras do art. 27 do CPC/1973124 e art. 91 do CPC/2015125 e do art. 39 da Lei das Execuções Fiscais (Lei 6.830/1980),126 segundo a qual serão pagas somente ao final, pelo vencido, as despesas dos atos processuais efetuados a requerimento da Fazenda. Em numerosas hipóteses, a aplicação do dispositivo dilatório do pagamento das despesas cria injurídico empobrecimento para peritos e oficiais de justiça que se veem na obrigação de custear despesas relativas a laudos periciais ou diligências requeridas pelos procuradores fazendários. Como a desoneração da Fazenda não pode ter como contrapartida o empobrecimento de auxiliares da justiça, a questão deu margem aos Enunciados nos 232 e 190 do STJ, segundo os quais, em acertado exercício hermenêutico, a Fazenda Pública não estará dispensada da exigência do depósito prévio dos honorários do perito, assim como deverá sujeitar-se à antecipação do numerário necessário para o custeio das despesas de transporte dos oficiais de justiça.127-128 Com efeito, a utilização distorcida da interpretação ou da possibilidade teórica da criação de prerrogativas processuais para a Fazenda Pública tem sido, em relevantes questões, coibida pelo Poder Judiciário. Exemplo eloquente de abuso na criação de prerrogativa processual foi a alteração, por via de medida provisória, do prazo da ação rescisória, em um primeiro momento fixando-o em 5 (cinco) anos quando se tratasse da Fazenda Pública.129 Rechaçada essa possibilidade pelo STF, buscou-se ainda a modificação do teor do art. 188 do CPC/ 1973,130 também por via de medida provisória, para a finalidade de proporcionar à Fazenda a contagem em dobro do prazo de 2 (dois) anos para o ajuizamento da ação rescisória131 (em cujo procedimento, aliás, a Fazenda Pública já conta com o benefício de estar desobrigada de realizar o depósito inicial de 5% do valor da causa segundo o art. 488, parágrafo único do CPC/1973 e art. 968, § 1.º, do CPC/2015). Diante de tais iniciativas despropositadas, o STF, além de lançar mão de argumentos formais relativos ao abuso da utilização das medidas provisórias em matéria processual, reconheceu que,embora a igualdade das partes seja inerente ao procedural due process of law, não pode ensejar utilização abusiva, devendo mostrar-se razoável e dotada de proporcionalidade.132 c. A “economia recursal” na Lei 10.522/2002. Mais além das prerrogativas processuais gerais há outro rol de peculiaridades que bem ilustram os problemas processuais tributários. É o que se observa de um expressivo número de dispositivos da Lei 10.522, de 19.07.2002, diploma que, apesar de preponderantemente cuidar dos aspectos legais do Cadin, se dedica também a regular a atuação processual da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional em situações que muito particularmente tocam com a matéria tributária. A principal novidade da lei em referência está em conferir autoridade de lei ordinária ao critério administrativo que já se adotava no âmbito da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, através do Dec. 2.346/1997, para o não aforamento de recursos e para a desistência daqueles ainda em tramitação. O art. 19 da Lei 10.522/2002 autoriza a Procuradoria a “não interpor recurso ou a desistir do que tenha sido interposto” nas hipóteses que especifica. Essa autorização legal tem grande valor prático. Em primeiro lugar por contribuir para um necessário desafogamento dos tribunais – em aplicação do princípio da economia processual (nesse caso, economia recursal) – uma vez que o volume de recursos da Fazenda Pública em matéria tributária é notoriamente imenso e, não raro, com pouca ou nenhuma chance de êxito, onerando desnecessariamente o aparato jurisdicional. Em segundo lugar porque retira do Procurador a responsabilidade, enquanto advogado, de servir-se de todos os recursos cabíveis na defesa da Fazenda. A “economia recursal” dar-se-á tanto nas hipóteses já previamente fixadas na própria lei em seu art. 18133 (e tão somente dependerá de manifestação específica no processo pelo procurador que atua no feito), como em respeito à jurisprudência já pacificada do STF ou do STJ, a depender, nesses casos, de ato declaratório do Procurador-Geral da Fazenda Nacional, a quem cumprirá avaliar quando a jurisprudência poderá ser considerada como pacífica para ensejar a economia recursal, submetendo o ato à aprovação do Ministro da Fazenda.134 c.1. Dever de não recorrer e efeito persuasivo das decisões judiciais. A Procuradoria- Geral da Fazenda Nacional emitiu parecer, que pretende examinar a “força persuasiva” dos precedentes do STF e do STJ com o propósito de descrever as situações nas quais os procuradores estão dispensados de aforar recursos e até mesmo impugnações e contestações (Parecer PGFN/CRJ/n. 492/10).135-136 De acordo com referido Parecer, para atender ao “efeito persuasivo” da jurisprudência, o comportamento da PGFN com relação a recursos e, inclusive, contestações e impugnações, deve ser o seguinte:137 i) não mais interpor recursos, ordinários ou extremos, contra as decisões judiciais, desfavoráveis à Fazenda Nacional, que se mostrarem consentâneas com precedente judicial formado sob a nova sistemática de julgamento prevista nos arts. 543-B e 543-C do CPC/1973 (aos quais equivalem os arts. 1.035 e 1.036 do CPC/2015); ii) não mais interpor REsp/RE contra acórdãos proferidos em consonância com jurisprudência reiterada e pacífica do STF/STJ (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CAST/CRJ); iii) não mais interpor agravo regimental contra decisões monocráticas de Relator (dos TRFs, do STJ ou do STF) que, com respaldo em jurisprudência reiterada e pacífica daqueles Tribunais Superiores (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CASTF/ CRJ), também adotada pela respectiva Turma, neguem seguimento a recursos, nos termos do art. 557 do CPC/1973 e art. 932 do CPC/2015; iv) não mais apresentar impugnação/contestação contra pedido(s) formulado(s) com respaldo em precedente judicial oriundo de julgamento submetido à sistemática prevista nos arts. 543-B e 543-C do CPC/1973 e arts. 1.035 e 1.036 do CPC/2015. A síntese esboçada acima – que cria o que podemos denominar de “dever de não recorrer” e, até mesmo, “dever de não contestar” – evidencia o esforço da Procuradoria da Fazenda Nacional em colaborar com o Poder Judiciário na redução do volume de recursos ou trâmites processuais desnecessários. Em nosso sentir, embora o Parecer PGFN/CRJ/n. 492/10 seja louvável em seus propósitos de adesão à nova sistemática processual e ao II Pacto Republicano, não podem ser desconsiderados os seguintes fatores que tornam discutível a força persuasiva dos precedentes: (a) quadro de decisões incoerentes entre os Tribunais; (b) possível carência de legitimidade democrática de decisões com efeitos tendentes a se afigurarem como gerais e abstratos; e (c) deficiência lógica e procedimental do tratamento dado aos recursos representativos de controvérsia. Esses fatores, cada um individualmente e, sobretudo, tomados em seu conjunto, tornam improvável que se possa coerentemente reconhecer, como quer a PGFN, que o “rito processual especial e destacado” gera “um grau excepcional de legitimidade”. Para que esse grau excepcional de legitimidade possa ser reconhecido é preciso, em nossa opinião, que todo enunciado que pretenda gerar a eficácia excepcional pretendida esteja adequado aos critérios que temos proposto, quais sejam: (a) debate jurisprudencial quantitativa e geograficamente representativo; (b) debate jurídico qualitativamente completo; (c) debate jurisprudencial temporalmente maduro; e (d) adequação prescritiva do enunciado. Inexistentes tais condições, não apenas carecerão os precedentes gerais do efeito persuasivo pretendido, como estará em jogo a própria eficácia coercitiva prevista no ordenamento processual e, logo, a legitimidade democrática do alcance das decisões.138 d. Outras particularidades da atuação fazendária em juízo. Ademais disso, a Lei 10.522/ 2002, entre outras inovações,139 cataloga particularidades de grande relevância para a atuação fazendária em juízo, pois permite, no processo em que o procurador manifeste expressamente seu desinteresse em recorrer, seja dispensado o duplo grau obrigatório, chamado, comumente, de recurso ex officio; também autoriza que o Secretário da Receita Federal do Brasil observe o teor dos atos declaratórios da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para fins de determinar que as matérias de que tratem ensejem a não constituição de créditos tributários, e, além disso, oportuniza a revisão ex officio de lançamento que já tenha sido realizado, para fins de adequá- lo ao ato declaratório da Procuradoria. A nota de particular relevância reside no correto foco legal consistente na adoção de técnicas que cuidem de tornar mais harmônicos os procedimentos administrativos e os Processos Judiciais Tributários em observância ao princípio fundamental da harmonização processual tributária (cf. supra, Capítulo 2, subitem 5.d). De fato, ao permitir à lei a vinculação entre decisões da Procuradoria adotadas para fins de providências em Processos Judiciais Tributários e as funções e atividades próprias da Secretaria da Receita Federal do Brasil, rompe-se o velho paradigma da separação absoluta entre Administração e Procuradoria, entre procedimento administrativo e Processo Judicial. Por isso mesmo, idêntico critério deve informar os julgamentos realizados das Delegacias de Julgamento e nos Conselhos de Contribuinte, aplicando-se aos Processos Administrativos Tributários, com força suficientemente vinculante, os entendimentos exarados através de atos declaratórios do Procurador-Geral da Fazenda, até mesmo porque recebem a chancela do Ministro da Fazenda. 8. Ação de Consignação em Pagamento do Crédito Tributário a. A consignação judicial do crédito tributário no CTN. Como, em geral, a Administração tributária não costuma criar obstáculos às iniciativas do contribuinte em pagar tributos,140 a utilização da consignatione não é muito difundida como modalidade deextinção do crédito tributário. Sem embargo, nos últimos anos se têm avolumado as disputas entre os entes tributantes sobre a titularidade ativa para a cobrança de tributos, em particular nas regiões de sobreposição espacial de competência entre Municípios, em casos de IPTU e de ISS, e, mais recentemente, como veremos abaixo, nos problemas de sobreposição material entre o Imposto sobre Serviços, de reserva municipal, e o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços, de atribuição competencial estadual, gerando, aos olhos dos contribuintes, incerteza subjetiva quanto ao sujeito ativo da obrigação tributária. O Código Tributário Nacional contempla a consignação em pagamento141 entre as modalidades de extinção do crédito tributário (art. 156, VIII)142 e elenca algumas situações que autorizam a utilização da consignação judicial (art. 164): I – recusa de recebimento, ou subordinação deste ao pagamento de outro tributo ou de penalidade, ou ao cumprimento de obrigação acessória; II – subordinação do recebimento ao cumprimento de exigências administrativas sem fundamento legal; III – de exigência, por mais de uma pessoa jurídica de Direito Público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. As duas primeiras hipóteses legais, em que o contribuinte se depara com obstáculos ao seu propósito de pagar a obrigação principal, caracterizam a mora accipiendi, isto é, a mora imputável à Administração tributária em exercitar, sem obstáculos artificiais, seu poder- dever de cobrar os créditos tributários. Ao contrário, a terceira hipótese cuida não da mora accipiendi, mas sim da pluralidade ou concorrência de credores, que pode ser descrita como a disputa de titularidade ativa estabelecida entre dois entes tributantes que se apresentam, simultaneamente, como credores da obrigação tributária nascida de um único fato jurídica tributário. Essa situação é justamente a que tem ocorrido – com indesejada frequência – com a cobrança do IPTU, do ISS e do ICMS, e, ao gerar para o sujeito passivo a incerteza subjetiva quanto ao verdadeiro credor da obrigação tributária, autoriza a propositura da consignatória. a.1. Limitações materiais. Com o escopo de estreitar a via consignatória, limita materialmente o CTN a utilização da ação ao dispor que “a consignação só pode versar sobre o crédito que o consignante se propõe a pagar” (art. 164, § 1.º), o que significa, em princípio, que o procedimento especial não pode albergar a discussão sobre o que o contribuinte não quer pagar. Esse recorte tem recebido temperamentos jurisprudenciais. De fato, apesar da limitação expressa contida no CTN, já se decidiu, de modo a dilargar o âmbito material que pode ser conhecido no bojo da consignatória, que inclusive invocações de inconstitucionalidade da progressividade do IPTU podem ser objeto de discussão em sede de ação de consignação em pagamento.143 De nossa parte, pensamos que discussão desse jaez deve ser reservada a ações ordinárias como a ação declaratória em matéria tributária, de mais alargado conteúdo cognitivo, e que também podem ser propostas acompanhadas de depósito judicial, independentemente da necessidade de medida cautelar (veja-se, infra, subcapítulo 12.2, item 1). a.2. Efeitos do depósito de tributos. Outro aspecto controvertido da consignatória no regime do CTN está nos efeitos do depósito. Prescreve o § 2.º do art. 164 que “julgada procedente a consignação, o pagamento se reputa efetuado e a importância consignada é convertida em renda; julgada improcedente a consignação no todo ou em parte, cobra-se o crédito acrescido de juros de mora, sem prejuízo das penalidades cabíveis”. Isso significa que uma vez julgada improcedente a consignatória, o contribuinte haveria de suportar não apenas a conversão do depósito em renda como também a cobrança de juros adicionais e, inclusive, multas de ofício. Semelhante disposição não se concilia com os efeitos lenitivos e preventivos que já são pacificamente reconhecidos nos tribunais aos depósitos judiciais,144 nem mesmo com a própria dicção do art. 151, II,145 do CTN, que atribui ao depósito o efeito suspensivo da exigibilidade do crédito tributário, tornando-o insuscetível de sofrer acréscimos como multas e juros moratórios. É indiscutível o efeito liberatório do depósito em qualquer ação judicial ou Processo Administrativo, sobretudo a partir da adoção do regime das Leis 9.703/1998146 e 10.482/2002,147 em que todos os depósitos de tributos federais, estaduais ou distritais, realizados nas instituições financeiras autorizadas, passaram a ser repassados diretamente para a conta única do Tesouro Nacional, do Estado ou do Distrito Federal, conforme o caso, de modo que, na prática, se convertem em pagamento antecipado do tributo sub judice, mas cuja devolução ao contribuinte estará à ordem da autoridade administrativa ou judicial (art. 39, § 4.º, da Lei 9.250/1995148). Estando os recursos depositados antecipadamente transferidos para as contas de tesouro de cada ente tributante, não há motivo para que não seja recebido com os efeitos liberatórios de qualquer acréscimo ou penalidade. Além disso, a disciplina do Código Tributário Nacional para o depósito na ação consignatória, ao preconizar que o pagamento se tem por efetivado e desde logo seja autorizada a conversão em renda initio litis, permite que se proceda a dedução do valor do depósito para fins do cômputo da base de cálculo do lucro real, ao contrário do que sucede nos processos de rito ordinário onde inexiste a possibilidade de conversão em renda antes do trânsito em julgado.149 Desde esse ponto de vista, a rápida conversão em renda do depósito, parcial ou total, beneficia não somente a Administração mas também o próprio contribuinte. a.3. Depósito integral, depósito insuficiente e depósito a maior. Para que o contribuinte depositante esteja absolutamente seguro quanto aos efeitos da consignação, deve realizar o depósito integral do valor do crédito disputado. Quando houver diferenças de critérios entre os entes tributantes em conflito, deverá realizar o depósito com base no maior valor exigido, sob pena de não lograr a plena liberação pretendida com a consignatória. Não há obrigação, como por vezes pretendem os entes políticos conflitantes, de fazer um depósito para cada suposto credor.150-151 Caso, no entanto, o depósito tenha sido realizado em quantia inferior à totalidade do crédito tributário, operará efeito liberatório parcial da dívida do contribuinte consignatore, que remanescerá ao desabrigo de proteção judicial quanto à parcela não depositada. Embora nos pareça insuscetível de dúvidas, cumpre-nos por cautela advertir que é de aplicação restrita a regra do § 1.º do art. 899 do CPC/1973, ao qual equivale o art. 545, § 1.º, do CPC/2015, que prescreve que quando “alegada a insuficiência do depósito, poderá o réu levantar, desde logo, a quantia ou a coisa depositada, com a consequente liberação parcial do autor, prosseguindo o processo quanto à parcela controvertida”, uma vez que essa regra tão somente aproveita às consignatórias tributárias promovidas com fundamento em mora accipiendi e não aproveita às consignações aforadas com fundamento em dúvida subjetiva, respectivamente, previstas no art. 164, incs. I e II e no art. 164, III, do CTN, pois ainda não estará determinado quem é o titular do crédito consignado. Nos casos em que o processo de consignação tem seu curso apesar da insuficiência do depósito, prescreve o Código que desde que o juiz tenha reunido elementos suficientes no curso do processo, poderá declarar o montante que remanesce devido pelo contribuinte. Embora a redação atribuída pela Lei 8.951/1994 ao § 2.º do art. 899,152 do CPC/1973, que equivale ao art. 545, § 2.º, do CPC/2015, prescreva que a sentença que declarar a existência de débito servirá como título executivo judicial a ser executado nos próprios autos, semelhante disposição, em nosso entendimento, afigura-se inaplicávelaos créditos tributários, já que estes gozam de regime especial de formação do título executivo e também de processo próprio de execução. Logo, quando a sentença derivada da ação consignatória declarar a existência de dívida tributária, esta declaração servirá, sem dúvida, para a inscrição em dívida ativa que permitirá a extração da respectiva certidão, denominada CDA, que tem natureza jurídica de título executivo extrajudicial e que aparelhará a competente ação de execução fiscal sob o rito da Lei 6.830/80. Sucedendo o contrário, isto é, havendo o contribuinte realizado depósito em quantia superior ao valor devido, o juiz declarará em sentença153 a extinção do crédito tributário e o direito do contribuinte ao levantamento do excedente além, naturalmente, dos direitos que tocam ao consignante relativos aos ônus inerentes ao princípio da sucumbência. b. A ação de consignação em pagamento no CPC. Embora o Código Tributário Nacional não tenha referenciado a ação de consignação em pagamento ao catalogar a consignação judicial como causa da extinção das obrigações tributárias, não há dúvida de que o regime processual adequado para o seu processamento é o do Código de Processo Civil. A ação de consignação em pagamento figura no CPC como um procedimento especial de jurisdição contenciosa, disciplinado nos arts. 890 e seguintes (CPC/1973) e arts. 539 e seguintes (CPC/2015) e sua inclusão topográfica entre os procedimentos especiais indica que não se trata, propriamente, de um procedimento ordinário nem mesmo uma medida cautelar, embora também já se tenha vislumbrado que a consignatória ostenta rasgos de cautelaridade em virtude do principal efeito que se busca, desde logo com seu aforamento e recebimento, que é a possibilidade de depósito como prevenção da mora debitoris. Seu procedimento sofreu importantes alterações com a reforma parcial do CPC promovida pela Lei 8.951/1994, sobretudo com a extinção da audiência de oblação que teve como contrapartida a introdução da possibilidade de utilização do depósito bancário para as dívidas em dinheiro. Não houve modificação de seu procedimento no CPC/ 2015. b.1. A impossibilidade da consignação bancária. Embora a mais importante inovação inserida pela reforma de 1994 no CPC/1973 seja a referente à consignação extrajudicial em instituição financeira (art. 890, § 1.º,154 do CPC/1973 e art. 539, § 1.º, do CPC/2015155), de modo a oportunizar ao credor que aceite ou recuse o pagamento antes da propositura da ação de consignação, este caminho não pode ser utilizado nas hipóteses em que a relação jurídica ensejadora do depósito remanesça sob o império de regime legal próprio, como é o caso, por exemplo, da consignatória de alugueres, prevista na Lei do Inquilinato, e também da consignação de crédito tributário prevista no CTN. De fato, não há previsão legal em matéria fiscal que atribua efeito jurídico extintivo da obrigação aos depósitos feitos extrajudicialmente, fora dos Processos Judiciais ou Administrativos, de modo que a opção do § 1.º do art. 890 do CPC/1973 (ao qual equivale o § 1.º do art. 539 do CPC/2015) deve ser tida como inaplicável às dívidas tributárias.156 b.2. Relações jurídicas tributárias continuativas e consignatórias. Não existe óbice à utilização da ação de consignação em pagamento para as hipóteses de relações jurídicas tributárias continuativas, como ocorre com tributos como o ISS ou o ICMS.157 Dispõe o CPC, em seu art. 892, que “tratando-se de prestações periódicas, uma vez consignada a primeira, pode o devedor continuar a consignar, no mesmo processo e sem mais formalidades, as que se forem vencendo, desde que os depósitos sejam efetuados até 5 (cinco) dias, contados da data do vencimento”. A mesma regra vem prevista no art. 541 do CPC/2015. Como se observa do dispositivo em tela, os pagamentos tributários decorrentes de relações continuativas podem ser feitos no curso da ação consignatória, assinalando o CPC o prazo de cinco dias contado da data do vencimento original da obrigação tributária, dentro do qual o depósito terá o efeito liberatório de que tratamos acima. Se, no entanto, houver atraso por parte do contribuinte, para que o depósito surta efeitos integrais deverá o consignante providenciar que seja efetuado já com o cômputo dos acréscimos legais. Sem embargo, se qualquer das prestações tributárias periódicas deixar de ser realizada, essa omissão não prejudica o mérito da ação consignatória, que surtirá regularmente seus efeitos legais com relação aos depósitos efetuados. Convém lembrar que o aforamento da ação de consignação não tem, per se, força jurídica para evitar os efeitos da mora, o que se obtém tão somente com a realização tempestiva dos depósitos judiciais. b.3. A consignação em face da “incerteza subjetiva”. O Código Tributário Nacional no art. 164, III,158 o Código Civil em seu art. 335, IV159 e o Código de Processo Civil de 1973, no art. 898 (no CPC/2015 a regra vem prevista no art. 547), contemplam expressamente a possibilidade jurídica de o devedor promover a consignação judicial do débito em havendo incerteza subjetiva quanto ao credor, isto é, a dúvida do devedor quanto a titularidade do sujeito ativo para a cobrança do tributo.160 Diz a norma processual que “se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o pagamento, o autor requererá o depósito e a citação dos que o disputam para provarem o seu direito”. Nesse caso não há mora accipiendi, já que inexiste obstáculo ao pagamento, mas se estabelece verdadeiro conflito de credores que se apresentam como titulares de uma mesma dívida. Tal circunstância de fato justifica para o devedor a existência de incerteza subjetiva que implica o risco de pagar a quem não poderia receber e, desse modo, ver-se obrigado a pagar duas vezes.161 Logo, o interesse de agir na consignatória reside na existência da dúvida gerada pela disputa entre entes tributários, daí nascendo a necessidade de tutela judicial que operará sob rito especial. Não basta que se trate, no entanto, de uma mera suspeita por parte do contribuinte de que há disputa sobre seu crédito, mas sim uma dúvida razoável, como se expressou Alexandre de Paula,162 ou uma situação caracterizada no dizer de Pontes de Miranda,163 e que devem ser suficientemente demonstradas pelo contribuinte em sua petição inicial. É certo quando houver notoriedade da disputa entre os entes tributantes, esta poderá ser invocada pelo contribuinte com a finalidade de isentar o proponente da ação da obrigação de prová-la nos termos do art. 334164 do CPC/ 1973; assim também a existência de acórdãos que deem conta do problema ocorrido com outros contribuintes libera o autor da consignatória de fazer outro tipo de prova. b.4. O rito especial da consignatória proposta por dúvida subjetiva. Nosso diploma processual desenhou um rito especial para a ação de consignação em pagamento quando esta estiver fundada na existência simultânea de dois pretendentes a um mesmo crédito tributário. Nos termos do art. 898 do CPC/1973 “quando a consignação se fundar em dúvida sobre quem deva legitimamente receber, não comparecendo nenhum pretendente, converter-se-á o depósito em arrecadação de bens de ausentes; comparecendo apenas um, o juiz decidirá de plano; comparecendo mais de um, o juiz declarará efetuado o depósito e extinta a obrigação, continuando o processo a correr unicamente entre os credores; caso em que se observará o procedimento ordinário”. Já o CPC/2015, em seus arts. 547 e 548 estabelece o seguinte: “Art. 547. Se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o pagamento, o autor requererá o depósito e a citação dos possíveis titulares do crédito para provarem o seu direito.” “Art. 548. No caso do art. 547: I – não comparecendo pretendente algum, converter-se-á o depósito em arrecadação de coisas vagas; II – comparecendo apenas um, o juiz decidirá de plano; III – comparecendo mais de um, o juiz declarará efetuado o depósito e extintaa obrigação, continuando o processo a correr unicamente entre os presuntivos credores, observado o procedimento comum”. Esta disciplina, quanto ao papel que devem desempenhar no processo de consignação os pretendentes ao crédito tributário, é que se constitui em nota de especial utilidade da ação de consignação em pagamento em matéria tributária. Além dos pesados ônus que impõe aos entes tributantes que não comparecerem para integrar a lide, permite ao contribuinte desonerar- se da obrigação tributária, deixando o litígio para quem – comparecendo à relação processual – lhe tenha dado causa. Isso significa que ao magistrado cumpre declarar a extinção da obrigação tão logo tenham comparecido ao processo os credores disputantes para formalizar sua pretensão sobre o crédito consignado, julgando extinto o processo unicamente com relação ao contribuinte, que desde logo se vê liberado da obrigação tributária. b.5. A conversão da consignatória em procedimento ordinário165 e a assistência litisconsorcial do contribuinte. Salientamos que a supracitada extinção do processo com relação ao contribuinte consignante somente ocorrerá quando se tratar de obrigação tributária instantânea, que não dependa da continuidade dos depósitos até o final do feito, e desde que não tenham os réus alegado a insuficiência da quantia consignada. Caso se estabeleça controvérsia sobre a quantia a ser depositada ou se a relação jurídica tributária for de natureza continuativa de modo a exigir a promoção de outros depósitos no curso do litígio, haverá o contribuinte que permanecer no feito, integrando a relação processual, até seu desfecho definitivo. Também poderá permanecer no processo para que possa fazer valer seus direitos sobre os ônus da sucumbência, que serão determinados em sentença pelo juiz, ou, ainda, para requerer eventual levantamento de crédito que remanesça a seu favor. A determinação da natureza jurídica da permanência do contribuinte no processo nem sempre será de fácil apreensão, pois a regra do art. 898 do CPC/1973 e art. 547 do CPC/ 2015 pode gerar uma situação processual bastante peculiar. O quadro ideal da consignatória nem sempre costuma ocorrer de modo que a liberação do contribuinte não ocorre com a simples aceitação do depósito. Registram-se circunstâncias, muito frequentes quando se trata de consignatória por dúvida subjetiva, em que o contribuinte, mesmo após ter realizado o depósito integral, mantém interesse jurídico na lide entre os entes tributantes que remanesce submetida ao Poder Judiciário. Isto se dá quando o regime tributário de um dos contendentes é mais benéfico para o contribuinte, seja por cobrar-lhe utilizando-se de uma menor alíquota, ou por admitir uma base de cálculo mais favorável (vejam-se, mais abaixo, exemplos referentes a IPTU, ISS e ICMS em que se examina esse problema). Nesses casos o contribuinte deverá permanecer no processo na condição de assistente litisconsorcial uma vez que a sentença final, em sua eficácia objetiva e subjetiva, haverá de declarar a existência ou inexistência de relações jurídicas que dizem respeito ao contribuinte consignatore. Em ocorrendo essa situação será aplicada a regra do art. 54166 do CPC/1973 que disciplina a assistência litisconsorcial.167 O mesmo regramento consta do art. 124 do CPC/2015, sem alteração redacional. c. O IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano e a consignatória. De um modo geral, a jurisprudência tem se defrontado com problemas simples relativos à duplicidade de lançamentos tributários em matéria de IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano, reconhecendo reiteradamente que a dúvida subjetiva quanto a legitimidade do credor168-169 ou a hipótese plausível de inquietação170 ou a dúvida razoável do contribuinte autorizam a utilização da ação de consignação em pagamento, afigurando-se irrelevante nesses casos a inexistência de óbice por parte da municipalidade ao recolhimento do tributo.171 No entanto, a faticidade ideal para a utilização da ação consignatória nem sempre ocorre. Vejamos, exemplificativamente. Admitamos que dois Municípios, “A” e “B”, disputam a cobrança de IPTU sobre um imóvel cuja posição geográfica enseja dúvidas quanto a titularidade ativa do mesmo tributo com idêntica base de cálculo, mesma alíquota e mesmo prazo de vencimento em ambos os Municípios. Nessa hipótese podemos considerar que o contribuinte realiza o depósito da quantia correta e que a relação tributária gerada pelo IPTU é instantânea (ao menos para aquele ano fiscal). Uma vez declarado efetuado o depósito pelo juiz e julgada extinta a obrigação pelo juiz, estará liberado o contribuinte que igualmente não terá o interesse jurídico na vitória de qualquer dos dois Municípios (assistente simples), nem mesmo – uma vez extinta a obrigação tributária – será sujeito de qualquer relação jurídica subjacente àquela que está em disputa (assistente litisconsorcial), remanescendo tão somente seu interesse nos honorários da sucumbência, que não implicam, propriamente, lide com qualquer dos réus, mas tão somente com seu interesse no desfecho definitivo da lide. Digamos, no entanto, que alíquota de IPTU do Município “A” seja de 2% e a alíquota do Município “B” seja de 1%. Nesse caso o contribuinte tem interesse jurídico na vitória do Município “B”, cujo regime fiscal lhe é substancialmente mais vantajoso, de modo que com a conversão da ação de consignação em procedimento ordinário poderá autuar como assistente litisconsorcial do Município “B”, submetendo-se às regras do art. 54 do CPC/1973, pois a eficácia subjetiva da sentença necessariamente atingirá o contribuinte, definindo se há ou não relação jurídica tributária entre o assistente litisconsorcial do Município “B” com o Município “A”. Não se trata, no exemplo vertente, de mero interesse jurídico do contribuinte na vitória do Município “B”, que permitira a atuação como assistente simples (art. 50 do CPC/1973 e art. 119 do CPC/2015),172 mas sim de relação de dependência jurídica entre a relação jurídica de Direito material (relação obrigacional tributária) e o deslinde da relação jurídica processual, caracterizando a nota litisconsorcial da assistência.173 d. O ISS – Imposto sobre Serviços e a consignatória. A rentável exação dos serviços, setor econômico de maior expansão da última década, tem movido as municipalidades a litigar entre si e com os Estados por uma importante fatia arrecadatória. Nesse setor econômico localizam-se algumas das atividades de maior movimento na atualidade, como os serviços de conservação, limpeza e também de vigilância, administrados por grandes empresas de terceirização de mão de obra, assim como os setores de aplicação intensiva de mão de obra, como no campo da engenharia e das construções de obras públicas e privadas. No entanto, a fatia mais disputada do setor, na atualidade, é aquela concernente aos serviços relacionados com o campo da informática, envolvendo não apenas o desenvolvimento e a comercialização de softwares, mas também uma rica gama de atividades voltadas para a comunicação e a transmissão de dados, voz e imagem, e que utiliza diversos caminhos para a consecução de seus objetivos, envolvendo a um só tempo Internet e comunicação via satélite. O caráter polifórmico e pluridisciplinar dessas atividades tecnológicas cria, com frequência, regiões cinzentas pelas quais transitam as pretensões tributárias de Estados e Municípios, buscando fios interpretativos a partir da Constituição com o objetivo de preencher as lacunas da legislação tributária naqueles pontos que se misturam as competências entre os entes políticos. d.1. O local da prestação de serviços. Não é nova a disputa entre municípios quanto a titularidade ativa para a cobrança de imposto sobre serviços, cuja controvérsia se estabeleceu em torno de critérios muitas vezes antagônicos para a determinação do local da incidência do tributo. A Constituição Federal de 1988, através do inc. III do seuart. 156, atribuiu aos Municípios a competência para mediante lei ordinária instituir imposto sobre serviços de qualquer natureza, não compreendidos no campo de incidência do ICMS e definidos em lei complementar. O Dec.-lei 406/1968, foi recepcionado pelo sistema constitucional com status de lei complementar ratione materiae, para fins de definir de forma pormenorizada a hipótese de incidência do tributo, delimitando, por conseguinte, os seus aspectos material, temporal, espacial, pessoal e quantitativo. O art. 12174 do Dec.-lei 406/1968, revogado pela LC 116/2003, estabelecia que se considera local da prestação do serviço o do estabelecimento prestador, ou, na falta de estabelecimento, o domicílio do prestador. A controvérsia gerada pelo dispositivo, aparentemente solucionada pelo art. 3.º da LC 116/ 2003, residia na incompatibilidade entre a competência municipal para instituir e cobrar o imposto sobre serviços, que impunha um raciocínio territorial, de raiz constitucional, segundo o qual a atividade de prestação de serviços realizada na circunscrição geográfica de um dado município estaria sujeita às normas de tributação desse mesmo ente político tributante. O STJ, em sucessivos arestos, tem expressado seu entendimento no sentido de que o critério definidor da competência municipal é o da concretização do fato gerador,175 figurando o local da prestação de serviço como elemento definidor do domicílio do prestador para fins fiscais,176 de modo a fixar-se a competência para a formalização e cobrança do tributo.177-178 Observa- se, por fim, que o próprio STF já exarou entendimento harmônico nesta direção.179-180 Esse conflito interpretativo leva ao choque de titularidade ativa tributária entre o Município em que se situa a sede da empresa prestadora de serviços e o Município no qual o serviço é efetivamente prestado, e conduz à sobreposição de pretensões tributárias municipais sobre um mesmo fato jurídico-tributário. Essa sobreposição de pretensões caracteriza o interesse de agir do contribuinte em propor a consignação em pagamento, pedindo a citação dos Municípios disputantes, para que, liberado o consignante de sua obrigação fiscal, litiguem entre si.181 d.2. O ISS e a LC 116, de 31.07.2003. O advento da LC 116, de 31.07.2003, trouxe novas diretrizes para o problema da competência municipal, com o visível escopo de harmonizar os conflitivos interesses dos Municípios. O art. 3.º, da LC 116/2003, mantém a primitiva regra geral, dispondo que “o serviço considera-se prestado e o imposto devido no local do estabelecimento prestador ou, na falta do estabelecimento, no local do domicílio do prestador”. Cria, no entanto, em 22 incisos, um largo elenco de exceções à regra do domicílio.182 Desde um ponto de vista amplo – a voo de pássaro – podemos observar que restaram fora da regra geral do domicílio os serviços cuja natureza mesma da prestação impõe a existência de submissão a controles administrativos municipais (como, por exemplo, à execução de obras, demolição, andaimes, palcos, estradas, pontes), ou mesmo realizados sob a permissão dos poderes municipais (como na execução de varrição, coleta, remoção, incineração, tratamento, reciclagem, separação e destinação final de lixo, rejeitos e outros resíduos, tratamento de efluentes de qualquer natureza etc.). A partir de uma óptica semelhante podem ser vislumbradas, entre outras, as atividades de reflorestamento, semeadura, guarda ou estacionamento de veículos, aeronaves ou embarcações, armazenamento ou depósito, já que também implicam presença física e de certa permanência do prestador de serviços no Município de sua realização, além de, em alguns casos, existir um certo controle municipal sobre essas atividades. Também em virtude de discrímen semelhante, a prestação de serviços de terceirização de mão de obra parte do pressuposto da existência de uma atividade de certa estabilidade, adicionando-se a isso a circunstância de que se tem atribuído responsabilidade tributária ao tomador dos serviços, que se vê obrigado, em muitos Municípios, a operar como agente retentor do ISS incidente sobre os contratos de fornecimento de mão de obra (veja-se o permissivo do art. 6.º183 da LC 116/2003). Em contrapartida, permanecem sob o critério do domicílio, e não do local da prestação, serviços que possuem uma natureza mais imaterial, ou intelectual, em que se destacam os serviços de informática,184 de análise de sistemas, programação ou processamento de dados, entre tantos outros que frequentemente são realizados na sede da empresa prestadora ou no domicílio do prestador, ainda que entregues em outro local. Segundo pensamos, os critérios adotados para a divisão de competências encetada pela LC 116/2003 guardam suficiente dose de respeito com a realidade dos fatos, guardam pertinência objetiva com a natureza da materialidade da prestação, e por isso, a priori, têm a virtude de solucionar habilmente um grande número de problemas. Essa virtude jamais teve o critério do domicílio, original do Dec.-lei 406/1968, na exata medida em que desconsiderava a dinamicidade e a riqueza do setor de serviços, outrora operando nas sombras da indústria e do comércio, mas que cada vez mais se desenha com múltiplas e inimagináveis facetas. Sem embargo, em que pese o esforço harmonizante dos interesses municipais, dada a variedade e a complexidade dos conceitos envolvidos, haverá hipóteses em que a constitucionalidade do critério adotado poderá ser posta em xeque, em particular quando o Município sentir-se recortado em sua competência tributária constitucionalmente conferida, ou quando setores específicos encontrarem suas atividades nas diversas e inevitáveis zonas de penumbra da nova Lei. Nesse aspecto, o caso da prestação de serviços de higiene, limpeza e conservação é ilustrativo por envolver conjugadamente diversas prestações. É comum, nesta atividade, que em um mesmo contrato, uma mesma empresa forneça mão de obra de empregados ou trabalhadores, avulsos ou temporários para realizar tarefas de dedetização, desinfecção, desinsetização, imunização, higienização, desratização, pulverização e congêneres, enquadrando-se então simultaneamente na regra do domicílio do estabelecimento prestador e na regra do local da prestação de serviços, gerando dúvida subjetiva quanto ao Município que terá a titularidade para a cobrança do tributo. A partir da nova lei de fixação de competências haverão que se pronunciar os tribunais, de modo a discernir e traçar as linhas divisórias que se prendem ao texto constitucional, provocados, no mais das vezes, pelos contribuintes que vierem a se encontrar comprimidos pelas disputas tributárias dos Municípios. Nesse ponto, a larga utilização da consignatione parece-nos inevitável. d.3. O ICMS, o ISS e a incerteza subjetiva na tributação dos provedores de Internet. Emblemática situação de incerteza subjetiva ocorre com a tributação das atividades dos provedores de Internet e outros serviços similares, sobre os quais se registra acirrada disputa entre Estados e Municípios. O punctum saliens do problema aloja-se na definição técnica do serviço prestado pelo provedor de acesso à Internet. Caso tenha características de serviço de comunicação estará sujeito à incidência do ICMS, se não, caracterizado o fato econômico como serviço de valor adicionado, estará no campo residual do ISS, no primeiro caso por disposição expressa do art. 155, II,185 da CF/1988 e no segundo por força da competência outorgada pelo art. 156, III,186 da CF/1988. O primeiro acórdão do STJ sobre a matéria – relatado pelo Ministro José Delgado – marcou o ponto de partida de vigorosa polêmica.187 Assenta-se na consideração de que o provedor se afigura como um intermediário físico entre o usuário e a Internet. Ou seja, o provedor, através da disponibilização de meios aptos (softwares e hardwares), possibilita que o usuário que intente acessar à Internet assim o faça. Teríamosentão um fato comunicacional estabelecido entre o usuário e o provedor, que ocorre através da conexão à linha telefônica e não estaria sujeita à incidência do ICMS com relação a estes sujeitos (quem é sujeito passivo do recolhimento de ICMS com relação a este fato comunicacional é quem dispõe dos meios físicos para estabelecer a comunicação, i.e., a empresa de telefonia). Porém, haveria um segundo fato comunicacional estabelecido entre usuário, provedor e Internet, no qual o usuário se afiguraria como tomador de serviços de comunicação com relação, desta vez, ao provedor, e não mais com relação à empresa de telefonia. Desse modo, de acordo com o aresto, “o usuário também é tomador de serviço, visto que contrata com o provedor a transmissão de dados seus para a Internet. O fato comunicacional final surge entre o usuário e a Internet, e é o provedor quem presta o serviço de comunicação: por seus computadores passarão todos os dados transmitidos entre o usuário e a Internet, servindo como canal físico”. Esta interpretação quanto ao fato comunicacional ajusta-se às pretensões tributárias dos Estados, pois – ainda que o prestador contrate serviços da Embratel para a transmissão de dados – não afasta a característica do provedor em ser prestador de serviço de comunicação, uma vez que seria contratado pelo usuário para transmitir dados à Internet e desse modo realizar a materialidade do tributo estadual. No entanto, o contraponto pretoriano surgiu com um novo acórdão do STJ, agora da lavra da Ministra Eliana Calmon que, com as seguintes conclusões que emprestaram outra inteligência à Lei 9.472/1997 (Lei Geral de Telecomunicações), avivou os debates: “(a) o provedor de serviço da rede internacional de computadores é tão usuário dos serviços de comunicação quanto aqueles que a ele recorrem para obter a conexão à rede maior; (b) o provedor de serviço da Internet propõe-se a estabelecer a comunicação entre o usuário e a rede, em processo de comunicação, segundo a Lei 9.472/1997 (art. 60, § 1.º); (c) o serviço prestado pelos provedores de comunicação enquadra-se, segundo as regras da lei específica (art. 61), no chamado serviço de valor adicionado; (d) o referido serviço é desclassificado como sendo serviço de telecomunicação (art. 61, § 1.º da Lei 9.472/1997); (e) se a lei específica retira da rubrica serviço de telecomunicação, o ‘Serviço de Valor Adicionado’, não poderá o intérprete alterar a sua natureza jurídica para enquadrá-lo na LC 87, de 13.09.1996, em cujo art. 2.º está explicitado que o ICMS incidirá sobre: prestações onerosas de Serviços de Comunicação, por qualquer meio, inclusive a geração, a emissão, a recepção, a transmissão, a retransmissão, a repetição e a ampliação de comunicação de qualquer natureza; (f) para ser aplicado o art. 2.º da LC 87/1996, que disciplina o ICMS, é preciso ter em apreciação a lei especial e posterior, que conceitua os serviços de comunicação; (g) independentemente de haver entre o usuário e o provedor ato negocial, a tipicidade fechada do direito tributário não permite a incidência do ICMS. Aliás, em se tratando de serviço, a única brecha em favor do Fisco seria uma lei que incluísse na lista de serviços o que a LGT excluiu como serviço de comunicação sujeito ao ICMS”.188 Já sob esse prisma exegético, com o qual nos alinhamos, não há fato comunicacional nas atividades dos provedores, mas serviço de valor agregado, pertencente – em havendo lei municipal instituidora – à competência exacional municipal.189 Tampouco contribuiu para a solução da controvérsia a nova lei do ISS, LC 116, de 31.07.2003, já que sua anexa Lista de Serviços, embora tenha introduzido no sistema tributário uma série de itens concernentes a atividades de “informática e congêneres” não contemplou especificamente aqueles relativos aos provedores da Internet (apesar de haver constado de um dos substitutivos finais que antecederam a votação da lei a descrição esclarecedora “acesso ao conteúdo e aos serviços disponíveis em redes de computadores, dados e informações, bem como suas interligações, provedores de acesso, Internet e congêneres”).190-191 De qualquer modo, enquanto não houver pronunciamento definitivo do STF, já que a matéria toca com a aplicação de dispositivos constitucionais,192 o conflito quanto à natureza jurídica do fato econômico praticado pelos provedores de acesso à Internet permanecerá existindo. Semelhante circunstância desenha a sobreposição material entre tributos (ISS e ICMS) cuja titularidade ativa é distinta, e, nessa esteira, provoca a incerteza subjetiva entre Estados e Municípios e evoca a previsão do art. 164, III, do CTN, quanto à possibilidade de depósito judicial do crédito tributário. Nessa hipótese cumpre ao contribuinte, para que possa liberar-se por completo dos riscos inerentes à incerteza quanto ao credor, depositar o valor mais alto que possa ser objeto da disputa, sob pena de sofrer a alegação de insuficiência do depósito (embora costumem ser mais altas as alíquotas de ICMS, por se tratar de um tributo teoricamente não cumulativo, enquanto as alíquotas de ISS não ultrapassam os 5%, é bem verdade que diante da disputa com os Municípios os Estados buscaram aprovar convênios com o propósito de reduzir a base de cálculo do ICMS sobre serviços de comunicação na modalidade acesso à Internet, de forma que a carga tributária não superasse os 5% do valor da prestação do serviço). Citados para apresentar suas defesas, Municípios e Estados deverão confirmar sua pretensão tributária e pronunciar-se-ão sobre o depósito. Não havendo alegação de insuficiência do depósito pelos réus, cumprirá ao magistrado declarar efetuado o depósito e extinta a obrigação. No entanto, por se tratar de relações jurídicas tributárias continuativas, esta extinção será parcial, atingindo tão somente o valor devido no momento da consignação, facultando-se ao contribuinte, por força do princípio da economia processual, a continuidade dos depósitos “sem maiores formalidades”, nos termos do art. 892 do CPC, como vimos supra. Além disso, poderá o contribuinte atuar facultativamente como litisconsorte (assistente litisconsorcial), na hipótese de que lhe seja juridicamente favorável a vitória de um dos entes tributantes. Não está, no entanto, obrigado a atuar como litisconsorte, mesmo porque – embora o CPC não seja claro nesse ponto – sua condição de autor da consignatória supõe que, independentemente da condição litisconsorcial, aproveitará dos efeitos da sentença que declarará a existência ou inexistência de relação jurídica tributária com cada um dos réus e, ademais, fixará as verbas sucumbenciais que digam respeito ao contribuinte consignatore. 1. “(…) la classificazione delle azioni nel processo tributario, che in esso si espone, può agevolmente, mutato il punto di riferimento, adattarsi ai tipi di processo o ai tipi di provvedimento giurisdizionale” (Enrico Allorio, Diritto Processuale Tributario, Turim: Unione Tipografico, 1963, p. 157). 2. “A função essencial e insuprimível realizada pela Jurisdição, no processo de conhecimento, constitui-se na declaração. É a partir da função declaratória que se marca a Jurisdição, com todas as outras funções e subfunções, que, de certa forma, são tributárias daquela. As demais funções, no processo de conhecimento, como a constitutiva e a condenatória, albergam também expressões práticas de declaração, às quais se acrescentam outros elementos que são os específicos, ou seja, na ação constitutiva temos a declaração, mais a modificação do direito declarado, e, na condenatória, a declaração mais a sanção, nas hipóteses de procedência” (Arruda Alvim, Tratado de direito processual civil, São Paulo: Ed. RT, 1990, p. 407). 3. Corresponde ao art. 282 do CPC/1973 no CPC/2015 o art. 319, cuja redação lhe é semelhante: “Art. 319. A petição inicial indicará: I – o juízo a que é dirigida; II – os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência deunião estável, a profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu; III – o fato e os fundamentos jurídicos do pedido; IV – o pedido com as suas especificações; V – o valor da causa; VI – as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados; VII – a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou de mediação. § 1.º Caso não disponha das informações previstas no inciso II, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção. § 2.º A petição inicial não será indeferida se, a despeito da falta de informações a que se refere o inciso II, for possível a citação do réu. § 3.º A petição inicial não será indeferida pelo não atendimento ao disposto no inc. II deste artigo se a obtenção de tais informações tornar impossível ou excessivamente oneroso o acesso à justiça”. 4. Na hipótese de cumulação entre a ação declaratória e a ação condenatória: “(…) haverá uma declaratividade para a ação declaratória, que a isso se restringe; e, outra declaratividade, inerente à ação condenatória, que diz respeito ao pedido nesta formulado, diferente, pois, do da ação declaratória. É isto, aliás, o que vem corretamente frisado no acórdão do STF, referida nossa opinião (RTJ 107/875)” (Arruda Alvim, Tratado de Direito Processual Civil, São Paulo: Ed. RT, 1990, p. 388). 5. Embora a ação declaratória possa tramitar sob rito sumário nas hipóteses em que a causa tenha valor não excedente de 60 (sessenta) vezes o salário mínimo (art. 275 do CPC), raros são os casos com referibilidade ao direito tributário que recebem a incidência dessa regra processual (Luiz Fernando Gama Pellegrini, “Ação Declaratória em Matéria Tributária”, Coleção Saraiva de Prática do Direito 32/ 15, São Paulo: Saraiva, 1988). 6. Denominada por Enrico Allorio de “azione di mero accertamento nel processo tributario”: “A rapporto tributario costituito, chi abbia interesse all’accertamento della sua esistenza e misura, indipendentemente dalla contestazione intorno alla legitimità di quel rapporto, può certamente rivolgersi ai tribunali ordinari per ottenere sentenza dichiarativa in argomento” (Op. cit., p. 161). 7. Especificamente sobre o tema consultem-se na doutrina: Cleide Previtalli Cais, O Processo Tributário, 2. ed., São Paulo: Ed. RT, 1996; Donaldo Armelin, Ação declaratória de imunidade tributária, RePro 26/21, abr.-jun./82; Eduardo Domingos Bottallo, Execução Fiscal, Ação declaratória e repetição do indébito, Revista de Direito Tributário 50/158, out.-dez. 1989; Hugo de Brito Machado, Imprescritibilidade da ação declaratória do direito de compensar tributo indevido, Problemas de processo judicial tributário – 2.º vol. (coord. Valdir de Oliveira Rocha), São Paulo: Dialética, 1998; José Augusto Delgado, Ação declaratória e medida cautelar, Revista dos Tribunais 587/273, set. 1984; Luiz Fernando Gama Pellegrini, Ação declaratória em matéria tributária, São Paulo: Saraiva, 1988; Lucia Valle Figueiredo, Ação declaratória de inexistência de relação jurídica entre contribuinte e Fisco – Proposição de cautelar incidente de depósito – Impossibilidade de ocorrência de decadência no curso da ação, Revista de Direito Tributário 71/136; Ruy Barbosa Nogueira, Curso de direito tributário, 10. ed., São Paulo: Saraiva, 1990; Teresa Arruda Alvim, James Marins e Eduardo Arruda Alvim (coord.), Repertório de Jurisprudência e Doutrina sobre Processo Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1994. 8. “O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I – da existência ou da inexistência da relação jurídica; II – da autenticidade ou falsidade de documento. Parágrafo único. É admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do direito” (Art. 4.º, CPC/1973). 9. Corresponde, no CPC/2015, ao art. 19, cuja redação é semelhante a do CPC/1973: “Art. 19. O interesse de autor pode se limitar à declaração: I – da existência, da inexistência ou do modo de ser de uma relação jurídica; II – da autenticidade ou da falsidade de documento”. 10. “Processo Civil e Tributário – Ação Declaratória (art. 4.º do CPC). 1. Pretensão declaratória que se ajusta com perfeição ao comando do art. 4.º do CPC. 2. Interesse juridicamente protegido, para saber se há incidência do ICMS sobre a matéria-prima que deu origem a produto avariado. 3. Recurso especial provido” (STJ, 2.ª T., REsp 26.124/SP, rel. Ministra Eliana Calmon, j. 28.09.1999). 11. “Ação declaratória negativa tem natureza jurídica e efeitos diferentes da ação anulatória de débito fiscal, possibilitando o ajuizamento concomitante” (TRF da 4.ª Região, Ap 35.013/SP, rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, j. 17.10.1984). 12. “Ação Declaratória – Pedido de declaração de inconstitucionalidade de correção monetária em débitos fiscais – Admissibilidade – Recurso provido para o prosseguimento da ação. A ação declaratória é meio hábil para obtenção de certeza da existência de uma obrigação tributária principal ou acessória” (Revista dos Tribunais 482/132). Em semelhante sentido: TRF da 3.ª Região, 6.ª T., AC 2000.03.99.074491-5, rel. Desembargadora Federal Marli Ferreira, DJU 07.01.2002, p. 94. 13. “Tributário e Processual Civil. Ação Declaratória. Cabimento. ICMS. Majoração da Alíquota de 17% para 18%. Creditamento na Escrita Fiscal. art. 166 do CTN. Aplicabilidade. (…) 4. É cabível a ação que, embora intitulada de declaratória, postula o reconhecimento do direito à repetição, por creditamento, de tudo que foi pago indevidamente, a título de ICMS, por força da majoração indevida da alíquota do imposto, de 17% para 18%, prevista na Lei Estadual Paulista n. 6.556/89, que teve sua inconstitucionalidade declarada pela Suprema Corte. Precedentes. 5. O art. 166 do CTN, que exige a comprovação da ausência de repercussão financeira dos tributos ditos indiretos, aplica-se não apenas aos casos de típica repetição de indébito, mas também aos pedidos de compensação ou de creditamento na escrita fiscal decorrentes de pagamentos indevidamente realizados. Precedentes. 6. Recurso especial não provido” (STJ, 2.ª T., REsp 766.682/SP, rel. Min. Castro Meira, DJe 30.05.2008). 14. Respectivamente RTJ 106/636 (Plenário) e RE 109.493/SP, Agravo Regimental, 2.ª T., rel., em ambos, o Min. Djaci Falcão (cf. Arruda Alvim, Tratado… cit., p. 427). 15. Explicitando a divergência referida, veja-se o entendimento do STF, in verbis: “(…) Em se tratando de ação declaratória, não cabem a correção monetária e os juros de mora. Precedentes do STF. Ressalva do ponto de vista pessoal do relator (…)” (STF, 2.ª T., RE 114.527/SP, rel. Min. Carlos Velloso, j. 12.05.1992) No mesmo sentido: “ICM – Creditamento – Correção Monetária. Classificada a ação como declaratória no acórdão recorrido, nos termos da jurisprudência prevalente na corte não cabe correção do crédito (…)” (STF, 1.ª T., RE 110.454/SP, rel. Min. Oscar Correa, j. 23.09.1986) Como afirmado, o STJ diverge ao entender cabível discutir correção monetária de créditos em ação declaratória: “Tributário – ICM – Importação de Matéria-prima do Exterior – Isenção – Creditamento: Possibilidade – Atualização Monetária: Necessidade. Precedentes do STJ. (…) I. Havendo isenção na importação de matéria-prima do exterior, deve ser reconhecido o direito ao creditamento do ICM. (…) II. Não há porque deixar de garantir a incidência da correção monetária em ação declaratória, objetivando o reconhecimento do creditamento do ICM referente à isenção na importação de matérias-primas do exterior” (STJ, 2.ª T., REsp 638/SP, rel. Min. Adhemar Maciel, j. 10.03.1998) No mesmo sentido: “É entendimento pacífico deste STJ que a ação declaratória é o meio próprio para se discutir o cabimento, ou não, de correção monetária dos saldos credores do ICMS” (STJ, 2.ª T., REsp 154.350/RS, rel. Min. Francisco Peçanha Martins,j. 06.04.2000). No mesmo sentido: STJ, 1.ª Seção, AEREsp 200302207963, rel. Min. Herman Benjamin, DJ 24.09.2007, p. 230. Ademais, veja-se decisão do STJ que aceita ação declaratória para discussão do cabimento – ou não – da correção monetária no creditamento do ICMS: “Processual Civil – Execução Fiscal – Taxa Selic – Controvérsia Pacificada em Recurso Repetitivo – Ação Declaratória – Abrangência Fixada de Forma Expressa no ‘Decisum’. 1. Está sedimentado neste Tribunal Superior – inclusive com julgamento em recurso repetitivo, pelo rito do art. 543-C do Código de Processo Civil – que os Estados podem adotar este índice de correção monetária e juros, se fizerem previsão expressa em seu ordenamento jurídico (REsp 879.844/MG, rel. Min. Luiz Fux, Primeira Seção, j. 11.11.2009, DJe 25.11.2009, pelo rito previsto no art. 543-C do CPC.) 2. A decisão proferida em ação declaratória limita-se aos termos ali consignados, não abrangendo situações não previstas no acórdão transitado em julgado. 3. In casu, a decisão judicial proferida na ação declaratória limitou o direito de creditamento de ICMS às operações mercantis especificadas naquela decisão que fossem ‘devidamente reconhecidas pela ré’ (Fisco), valores estes que não correspondem ao débito exigido na presente execução fiscal. Agravo regimental improvido” (STJ, 2.ª T., REsp 1.178.982/SP, rel. Min. Humberto Martins, DJe 29.04.2010). 16. Enfrentando a questão da eficácia da sentença declaratória, Arruda Alvim produziu inexcedível análise da questão em tela, em uma das raras passagens da doutrina nacional em que processualista de escol dedica-se ao exame de casuística processual tributária. Assenta sua conclusão nas lições de Lourival Villanova (As Estruturas Lógicas e o Sistema de Direito Positivo) para concluir que ainda que o provimento jurisdicional seja precipuamente declaratório, sua estrutura é por excelência prescritiva. Permitimo-nos, por essa razão, e pela qualidade e autoridade do autor, em tema da expressiva importância para o Processo Judicial tributário, reproduzir abaixo, em longa citação, boa parte de sua linha argumentativa (os grifos e destaques a seguir seguem o original): “É errôneo, todavia, como já se disse, pretender-se que da ação declaratória não dimanam efeitos palpáveis, e, suscetíveis, por isso mesmo, de justificar atividade sucessiva à sentença declaratória, calcada em tais efeitos, ainda que não se trate de atividade de execução. Basta referir um exemplo, que nos parece altamente significativo, e atual, qual seja, o de ação declaratória promovida para crédito de ICM (Imposto sobre Circulação de Mercadorias), em virtude de isenção. E esta hipótese prática, que serve como exemplo, é a de que a declaração desse direito de crédito é obtida por intermédio de ação declaratória, e, não por outra espécie de ação. (…) O contribuinte, vencedor, tem o direito de se comportar, em relação ao Fisco, em conformidade com o que consta da decisão precedente, não ‘precisando’, ou, mais precisamente ‘não devendo’ e nem podendo ir à Justiça para que esse direito subjetivo e adquirido possa vir a ser realidade, pois ele já o é com a sentença. E isso porque tal direito – definição de sua relação jurídica com o Fisco – já está definido, imutavelmente. Se, no exemplo de que ora nos servimos, há direito do contribuinte contra o Fisco, isto quer dizer que esse contribuinte tem o direito de se creditar; ou seja, sucessivamente à procedência de uma ação declaratória, há o direito de haver comportamento em conformidade com o que foi decidido. Esse comportamento está ao abrigo, precisamente, da eficácia da sentença declaratória. (…) O que é importante estabelecer é que, conquanto se aluda ou se refira a função jurisdicional como declarativa, necessário é clarificar o verdadeiro sentido desta expressão. Em verdade, quando se diz que a função jurisdicional é declarativa (e, ainda, quando o seja meramentedeclaratória), o que se quer dizer é que, por excelência, o ato jurisdicional é prescritivo. Esta colocação teórica, correta, explica satisfatoriamente, ‘como’, ‘em que medida’ e, ‘porque’ a sentença declaratória produz efeitos jurídicos, mais sensíveis do que normalmente ou desavisadamente se pensa” (Tratado… cit., p. 427, 428-429). 17. José Augusto Delgado, esposando este entendimento, assim se expressa: “Com efeito, a sentença oriunda da ação declaratória a nada condena. Somente declara, e, ao declarar, tem como esgotada a função jurisdicional. Tanto é assim que a doutrina tem consagrado o ensinamento de que o autor, depois de ser vitorioso na declaratória, se quiser exigir seu direito que já foi tornado certo por meio dessa decisão, está obrigado a propor uma nova ação, de natureza condenatória, isto é, com capacidade de gerar efeitos patrimoniais concretos” (Ação declaratória e medida cautelar, Revista dos Tribunais 587/274, set. 84). 18. “Tendo sido formulado pedido meramente declaratório, ficando garantido o direito de recolher o Finsocial nos moldes do Decreto-lei 1.940/82, até o advento da Lei Complementar 70/1991, não tem a empresa direito de receber o que pagou ‘a maior’, porque não pedida a repetição de indébito” (TRF da 1.ª Região, 4.ª T., Ag 120.843-7, rel. Juíza Eliana Calmon, j. 13.09.1996). Em análogo sentido, decisão do STJ versando sobre a oportunidade da ação declaratória cumulada com pedido de repetição de indébito: STJ, 1.ª T., REsp 902.458/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 30.03.2009. Nos Tribunais Regionais Federais, há manifestações em semelhante sentido: TRF2, 2.ª Turma Recursal/SP, Processo 00006939120074036313, Juiz Federal Uilton Reina Cecato, e-DJF3 Judicial 15.05.2013); (TRF1, 7.ª T., AC 200934000276616, Desembargador Federal Reynaldo Fonseca, e-DJF1 10.05.2013, p. 917). 19. Arruda Alvim, Tratado… cit., p. 425. 20. Corresponde, no CPC/2015, ao art. 487, cuja redação é semelhante à do CPC/1973 “Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz: I – acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou na reconvenção; II – decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a ocorrência de decadência ou prescrição; III – homologar: a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na reconvenção; b) a transação; c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção. Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1.º do art. 332, a prescrição e a decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às partes oportunidade de manifestar-se”. 21. Revista dos Tribunais 489/156, 489/73, 474/136, 382/185, RJTJSP 85/84, 62/209, JTACivSP 77/218; RP 6/244, 6/300; RJTJRS 133/ 251 (cf. Nelson Nery e Rosa Maria de Andrade Nery, Código de Processo Civil Comentado, 4. ed., São Paulo: Ed. RT, p. 379 e 380). 22. Arruda Alvim, Tratado… cit., p. 412. 23. Respectivamente: RJTJSP 105/91 e RTJ 113/1322; Revista dos Tribunais 672/228; RJTJSP 94/81 (cf. Nelson Nery e Rosa Maria de Andrade Nery, Código de Processo Civil Comentado, 4. ed., São Paulo: Ed. RT, p. 380 e 381). 24. Eduardo Bottallo, Execução fiscal, ação declaratória e repetição do indébito, Revista de Direito Tributário 50/158. 25. Sobre o assunto, assim manifestou-se o STJ, in verbis: “A ação declaratória exige, para sua propositura, que haja incerteza objetiva e jurídica, isto é, relativa a direitos e obrigações já existentes e atuais e não apenas possíveis, impondo-se ainda, haja dano para o autor” (STJ, 2.ª T., REsp 72.417/RJ, rel. Min. Peçanha Martins, j. 15.12.1998). Em idêntico sentido: TRF2, 4.ª Turma Especializada, AC 199851033007446, Desembargador Federal Alberto Nogueira, e-DJF2R 13.12.2010, p. 291; TRF1, Núcleo de Apoio ao Projeto Conciliação do Tocantins, AC 200234000317424, Desembargador Federal João Batista Moreira, e-DJF1 30.07.2010, p. 111). 26. Arruda Alvim, Tratado… cit., p. 430. 27. Idem, ibidem. 28. “Esse clima de incerteza foi encontrado no acórdão proferido pelo Tribunal Federal de Recursos na AMS 90.457, em julgamento realizadoem 06.06.1983 (DJ 29.09.1983) sendo Rel. o Ministro Torreão Braz: ‘Pela lei processual vigente, o interesse do autor pode limitar-se à declaração da existência ou da inexistência de relação jurídica (art. 4.º, I). No caso, o objeto da ação é declarar a inexistência de relação jurídico-tributária entre a União e o contribuinte no tocante à incidência do IPI. Decorre daí o legítimo interesse de agir da impetrante para dissipar uma incerteza atual, objetiva, jurídica e danosa. No mérito, é copiosa a jurisprudência no sentido de que os serviços de composição gráfica sujeitam-se, tão só, à incidência do ISS. Não há, ainda, porque distinguir entre a composição gráfica sob encomenda e aquela padronizada mas destinada a adquirente indeterminado.’” (Cleide Previtalli Cais, O Processo Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1996, p. 176). 29. Vide ementa de lavra do 1.º TACivSP: “Declaratória – Negativa de incidência de imposto – Admissibilidade – Incerteza acerca da existência de relação jurídica tributária de cunho patrimonial – Interesse processual evidenciado – Carência afastada (…)”. Destaque para o trecho do acórdão, transcrito a seguir: “Conforme decidiu o STF, o interesse de agir por meio de ação declaratória envolve a necessidade, concretamente demonstrada, de eliminar ou resolver a incerteza do direito ou relação jurídica. A declaratória tem por conteúdo o acertamento, pelo juiz, de uma relação jurídica” (Revista dos Tribunais 624/109). Em semelhante sentido: STJ, 1.ª T., REsp 747.306/MG, rel. José Delgado, DJ 20.02.2006, p. 230. 30. “O provimento declaratório não implica condenação, apenas declara, acerta, elucida, esclarece um determinado direito e seu preciso limite, não comportando, por isso, execução do declarado” (STJ, 1.ª T., REsp 2.130-0/RJ, rel. Min. Cesar Rocha, DJU 1 16.08.1993). Nesse sentido: “Processo Civil. Tributário. Execução Fiscal. Ação Declaratória de Inexistência de Relação Jurídica. Interesse de agir Configurado. Sentença Anulada. I – A ação declaratória é cabível para declarar a existência ou a inexistência de uma obrigação tributária, seja ela acessória, seja principal, possibilitando ao contribuinte uma decisão favorável, que venha a estabilizar, caracterizar e individualizar os limites da obrigação tributária em casos concretos. II – O entendimento doutrinário é no sentido de que a ação declaratória tem pleno cabimento, mesmo que seja posteriormente proposta à efetiva lesão a direito do sujeito passivo, haja vista o comando incerto no art. 4.º, p. único, do CPC que afirma ser possível a referida ação, ainda que tenha ocorrido violação do direito. III – O entendimento do STJ é que a ação declaratória exige para sua propositura, que haja incerteza objetiva e jurídica, isto é, relativa a direitos e obrigações já existentes e atuais e não apenas possíveis. IV – Recurso provido para anular a sentença” (TRF da 2.ª Região, 4.ª Turma Especializada, AC 2006.51.01.531173-9, rel. Desembargadora Federal Lana Regueira, E-DJF2R 27.04.2010, p. 198). 31. Cuja redação é a seguinte: “VI – verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual”. 32. “Se, no curso do processo, se tornar litigiosa a relação jurídica de cuja existência ou inexistência depender o julgamento da lide, qualquer das partes poderá requerer que o juiz a declare por sentença” (art. 5.º, CPC/1973). 33. O art. 294 do CPC/2015 tem a seguinte redação: “A tutela antecipada, de natureza satisfativa ou cautelar, pode ser concedida em caráter antecedente ou incidental. Parágrafo único. A tutela antecipada pode fundamentar-se em urgência ou evidência”. 34. “Processo Civil – Ação Declaratória de Inexigibilidade de Crédito Fiscal Desacompanhada de Depósito – Execução Fiscal – Descabimento de Suspensão. 1. Ação declaratória de inexigibilidade de crédito fiscal desacompanhada de depósito não impede a propositura da ação de execução ou a sua suspensão. (…)” (TRF da 4.ª Região, Ag 458.972-3, rel. Juíza Tania Escobar, j. 21.03.1996). Nesse sentido: STJ, 1.ª Seção, REsp 1.140.956/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 03.12.2010; STJ, 2.ª T., REsp 1.233.190/SC, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 29.03.2011. 35. Vide também o entendimento do STJ: “Tributário – Crédito – Suspensão – Exigibilidade – Ação Declaratória – Depósito – Necessidade. O ajuizamento de ação declaratória, sem o depósito do montante devido, não tem o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário” (STJ, 1.ª T., REsp 247.984/RS, rel. Min. Garcia Vieira, j. 04.05.2000). 36. Nesse sentido o TRF da 5.ª Região já há muito assentou o amplo cabimento do depósito nos Processos Judiciais Tributários e não apenas em ação declaratória, in verbis: “Tributário – Depósito – Admissibilidade. É cabível depósito, para suspensão de exigibilidade de crédito tributário, quer em ação declaratória de inexistência de relação tributária, quer em ação cautelar, quer em mandado de segurança” (TRF da 5.ª Região, AC 503.469-3, rel. Juiz Hugo Machado, j. 08.02.1990). 37. Decisão do STJ manifestou-se sobre a possibilidade de depósito integral para a suspensão da exigibilidade do crédito tributário: “Processual Civil e Tributário. Agravo Regimental. ICMS. Depósito Integral. Suspensão da Exigibilidade do Crédito Tributário. Art. 151, II, do CTN. Direito do Contribuinte. Desnecessidade de Autorização Judicial. 1. O depósito do montante integral do crédito tributário controvertido, a fim de suspender a exigibilidade do tributo, constitui direito do contribuinte, prescindindo de autorização judicial e podendo ser efetuado nos autos da ação principal (declaratória ou anulatória) ou via processo cautelar. (Precedentes: AgRg no REsp 517.937/PE, rel. Min. Herman Benjamin, 2.ª T., j. 28.04.2009, DJe 17.06.2009; EDcl no REsp 876.006/SP, rel. Ministra Eliana Calmon, 2.ª T., j. 04.11.2008, DJe 24.11.2008; REsp 466.362/MG, rel. Min. Luiz Fux, 1.ª T., j. 15.03.2007, DJ 29.03.2007; REsp 697.370/RS, rel. Min. Castro Meira, 2.ª T., publicado no DJ 04.08.2006; REsp 283.222/RS, rel. Min. João Otávio de Noronha, 2.ª T., publicado no DJ 06.03.2006; REsp 419.855/SP, rel. Min. Franciulli Netto, 2.ª T., publicado no DJ 12.05.2003; e REsp 324.012/RS, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, 1.ª T., publicado no DJ 05.11.2001. 2. O juízo de admissibilidade recursal é ato discricionário do relator, máxime quando efetuado o prequestionamento implícito e tratar-se de dissídio notório. 3. Agravo regimental desprovido” (STJ, 1.ª T., AgRg no REsp 976.148/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 09.09.2010. Também: STJ, 1.ª T., REsp 1.074.506/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 21.09.2009). 38. O STJ, em julgamento de recurso submetido à sistemática do art. 543-C do CPC/1973 analisou a questão, tendo proferido decisão no mesmo sentido: 1.ª Seção, REsp 1.140.956/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 03.12.2010. 39. Sobre o assunto manifestou-se o TRF da 4.ª Região: “Inexiste impedimento legal para que em ação declaratória de inexigibilidade fiscal seja feito o depósito do valor do tributo impugnado, a fim de que haja suspensão de sua exigibilidade, e evite-se os efeitos da mora. Ademais, a realização dos depósitos nos autos da ação principal é de toda recomendável, pois atende ao princípio da economia processual, ao evitar-se o ajuizamento da ação cautelar com essa finalidade” (TRF da 4.ª Região, 2.ª T., Ag 423.568-3, rel. Juiz José Fernando J. de Camargo, j. 26.08.1993) No mesmo sentido: TRF da 1.ª Região, 2.ª T., MS 116.182-2, rel. Juiz Gomes da Silva, j. 30.06.1992; e 3.ª T., na Ap 105.836-7, rel. Juiz Vicente Leal, j. 08.06.1992. 40. “É possível a utilização do processo cautelar em conexão com processo declaratório” (STJ, 1.ª T., REsp 3.458-2/SP, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 1 20.06.1994). 41. Ao decidir sobre suspensão da exigibilidade do crédito tributário, o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região entendeu como direito do contribuinte a propositura de ação cautelar com depósito suspensivo, mesmo que a ação principalseja declaratória, não julgando pois, como incompatíveis, a ação cautelar e a declaratória: “Em matéria fiscal é cabível medida cautelar de depósito, inclusive quando a ação principal for declaratória de inexistência de obrigação tributária” (TRF da 3.ª Região, Ac. n. 3.013.104-0/SP, rel. Juiz Fleury Pires, j. 31.10.1990). Em análogo sentido: STJ, 1.ª T., REsp 883.459/SC, rel. Min. José Delgado, DJ 07.05.2007, p. 292. O TRF já se manifestou em semelhante sentido: TRF1, 5.ª Turma Suplementar, AC 199838000162921, Juiz Federal Grigório Carlos dos Santos, e-DJF1 06.09.2013, p. 662; TRF2, 3.ª Turma Especializada, Ag 201302010019688, Desembargador Federal Ricardo Perlingeiro, e-DJF2R 12.07.2013. 42. Cf. Donaldo Armelin, “Ação Declaratória de Imunidade Tributária”, RePro 26, abr.-jun. de 1982. 43. Confira-se também acórdão do STJ em sede de julgamento de recursos repetitivos sobre ação declaratória para fins de compensação tributária: “1. A sentença declaratória que, para fins de compensação tributária, certifica o direito de crédito do contribuinte que recolheu indevidamente o tributo, contém juízo de certeza e de definição exaustiva a respeito de todos os elementos da relação jurídica questionada e, como tal, é título executivo para a ação visando à satisfação, em dinheiro, do valor devido” (REsp 614.577/SC, rel. Min. Teori Albino Zavascki). 2. A opção entre a compensação e o recebimento do crédito por precatório ou requisição de pequeno valor cabe ao contribuinte credor pelo indébito tributário, haja vista que constituem, todas as modalidades, formas de execução do julgado colocadas à disposição da parte quando procedente a ação que teve a eficácia de declarar o indébito. Precedentes da Primeira Seção: REsp 796.064-RJ, Primeira Seção, rel. Min. Luiz Fux, j. 22.10.2008; EREsp 502.618-RS, Primeira Seção, rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 8.6.2005; EREsp 609.266-RS, Primeira Seção, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 23.08.2006” (REsp 1.114.404/MG, rel. Min. Mauro Campbell Marques, 1.ª Seção, j. 10.02.2010, DJe 01.03.2010). 44. Vide § 1.º do art. 585 do CPC, in verbis: “A propositura de qualquer ação relativa ao débito constante do título executivo não inibe o credor de promover-lhe a execução”. 45. Luiz Fernando Gama Pellegrini comenta o assunto, lembrando do § 1.º do art. 585 do CPC e da norma inserta no art. 38 da Lei 6.830/ 80 (Ação declaratória em matéria tributária, Coleção Saraiva de Prática do Direito 32/16, São Paulo: Saraiva, 1988). 46. Veja-se nesse sentido o julgado do STF que recebeu a seguinte ementa: “1. Tributário. A devedora ajuizou ação declaratória da inexistência do débito, mas, na execução fiscal, ofereceu embargos e depositou o valor do crédito reclamado. 2. O que suspendeu a execução foram os embargos, estando seguro o juízo, e não a ação declaratória negativa. 3. Inexistência de violação do art. 585, § 1.º, do Código de Processo Civil” (STF, 1.ª T., RE 98.377/SP, rel. Min. Alfredo Buzaid, j. 23.08.1983). Em semelhante sentido: STJ, 1.ª Seção, AR n. 571/AL, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 18.12.2009. Veja-se também o seguinte entendimento: “1. O contribuinte pode se utilizar de Ação Ordinária, como meio para desconstituir o crédito tributário, antes ou depois do ajuizamento da Execução Fiscal. Respeito ao direito de ação, tutelado constitucionalmente” (TRF5, 3.ª T., AC 00142165120114058100, Desembargador Federal Élio Wanderley de Siqueira Filho, DJe 08.07.2013, p. 109). 47. “Dell’aplicazione della figura dell’azione costitutiva nel processo tributario, non è luogo a intrattennersi particolarmente, poichè l’azione constitutiva domina, in realtà, tutto il processo tributario. Costitutiva è l’azione d’impugnazione dell’imposizione asserita illegittima avanti I giudici tributari; costitutiva l’azione stessa ce prosegue avanti il magistrato ordinario, cumulata con l’azione di condanna al rimborso. Costitutiva infine l’azione d’accertamento in funzione di controllo el processo esecutivo, in tutte le forme testè ricordate, dove essa sempre è rivolta all’annulamento del titolo esecutivo o di singoli provvedimenti esecutivi” (Enrico Allorio, op. cit., p. 164). 48. Alberto Xavier, Do lançamento: teoria geral do ato, do procedimento e do processo tributário, Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 365 e 366. 49. Sobre a ação anulatória fiscal e as teorias que distinguem entre o debitum e a obligatio veja-se Américo Lacombe (“Ação Anulatória de Débito Fiscal”, Revista de Direito Tributário 45/110). Ainda sobre a denominação adverte o autor que é muito comum denominar- se de anulatória toda ação de importe na discussão da dívida tributária, inclusive quando, em verdade, se trata de ação declaratória (precedente ao lançamento) o que nem sempre se afigura correto. 50. Nas palavras de Pontes de Miranda: “A constitutividade muda em algum ponto, por mínimo que seja, o mundo jurídico” (Comentários ao Código de Processo Civil, t. V, Rio de Janeiro: Forense, 1974, p. 55). 51. Roque Antonio Carrazza, Curso de direito constitucional Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1991, p. 164. 52. “O depósito preparatório do valor do débito não é condição de procedibilidade da ação anulatória; apenas, na circunstância, não é impeditiva da execução fiscal, que com aquela não produz litispendência, embora haja conexidade. (…) A satisfação do ônus do depósito prévio da ação anulatória, por ter efeito de suspender a exigibilidade da execução fiscal” (STF, Ac. RE 103.400-9/SP, rel. Min. Rafael Mayer, DJ 01.02.1985). 53. Súmula 247 do extinto Tribunal Federal de Recursos: “Não constitui pressuposto da ação anulatória de débito fiscal o depósito de que cuida o art. 38 da Lei 6.830/80”. 54. STJ, 1.ª T., REsp 46.193/SP, rel. Min. Milton Luiz Pereira, j. 09.08.1995, DJU 1 11.09.1995, p. 28.792, v.u. 55. Em idêntico sentido: “(…) 1. A Ação Anulatória de Débito Fiscal não está condicionada ao depósito prévio de que trata o art. 38 da Lei 6.830/1990. Precedentes do STJ. 2. A contribuição de melhoria pressupõe a valorização do imóvel, devidamente apurada e demonstrada pelo Fisco. A singela alegação de que a pavimentação asfáltica necessariamente acarretou ganho em favor do proprietário é insuficiente para viabilizar a imposição tributária, mesmo porque se faz necessária a identificação do quantum. 3. Hipótese em que o Tribunal a quo consignou a ausência de comprovação da valorização do imóvel. 4. Agravo Regimental não provido” (STJ, 2.ª T., AgRg nos EDcl no Ag n. 1.107.172, rel. Min. Herman Benjamin, DJe 11.09.2009). 56. STF, RE 104.264/SP, 2.ª T., rel. Min. Aldir Passarinho: “Ação anulatória de débito fiscal – Depósito – O depósito prévio de que cuida o art. 38, da Lei 6.830/80 só é obrigatório se o sujeito passivo pretende impedir a Fazenda Pública de propor a execução fiscal” (Teresa Arruda Alvim, James Marins e Eduardo Alvim, Processo Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1994, p. 356). 57. Cf. Hugo de Brito Machado, “Ação Anulatória de Lançamento Fiscal sem Depósito Prévio”, Revista de Direito Tributário 35/198; Roque Antonio Carrazza, Curso de direito constitucional Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1991, p. 164 e 165; Humberto Theodoro Jr., Lei de Execução Fiscal, São Paulo: Saraiva, 1998, p. 378 e ss. 58. No sentido da constitucionalidade do depósito, confira-se: Cleide Previtalli Cais, O Processo Tributário, cit., p. 240. 59. Sobre a distinção da ação anulatória e da ação declaratória já se manifestou a 2.ª T. do STJ: “Considerando que na ação anulatória de débito fiscal ocorre o efeito constitutivo, são diferentes os reflexos provocados pela ação declaratória negativa e pela ação anulatória de débito fiscal. Como já foi assinalado, a ação anulatória demanda um lançamento contra o qual é voltada, enquanto a ação declaratória pode ser proposta, entre outros casos, visando declarar a inexistência de obrigação tributária; declarar a não incidência de determinado tributo;declarar a imunidade tributária; declarar isenção fiscal; declarar ocorrência de prescrição etc. Quando outorga a feição de declaratória negativa ao seu pedido, o autor não está pretendendo desconstituir o crédito tributário, mas, antecipando-se à sua constituição, requer uma sentença que afirme não ser devido determinado tributo. Como afirma Carreira Alvim, a ‘distinção que se há de fazer entre ação anulatória e declaratória é que a anulatória pressupõe um lançamento, que se pretende desconstituir ou anular; a declaratória não o pressupõe. Através desta pretende-se declarar uma relação jurídica como inexistente, pura e simplesmente’. (in O Processo Tributário, Ed. Revista dos Tribunais, 4. ed., p. 495/496). Consequentemente, afasta-se a tese do acórdão recorrido acerca da imprescritibilidade da presente demanda, posto que, conforme evidenciado, trata-se de hipótese cuja sentença é constitutiva negativa. Assim, na ausência de norma específica a regular a matéria, o prazo prescricional a ser observado é quinquenal, nos moldes do art. 1.º do Dec. 20.910/32” (EDcl no REsp 894.981/RJ, rel. Min. Luiz Fux, 1.ª T., j. 6.11.2008, DJe 27.11.2008). 2. O termo a quo para se questionar a constitucionalidade e legalidade do IPTU, e das taxas a ele vinculadas, é a notificação fiscal do lançamento, que, no presente caso, deu-se em período anterior a cinco anos, contados do ajuizamento da ação. Agravo regimental provido” (STJ, 2.ª T., AAREsp 200800193146, Ministro Humberto Martins, DJe 24.03.2009). 60. Nesse sentido já distinguia o extinto TFR: “Ação declaratória negativa e ação anulatória de débito fiscal – Distinção – A ação anulatória de débito fiscal distingue-se da ação declaratória negativa de débito fiscal, porque a primeira pressupõe o lançamento e tem por escopo anulá-lo, enquanto a segunda deve ser proposta antes do lançamento para que seja decla rado que não existe débito fiscal a ser pago” (TFR, Ap 35.013/SP, 4.ª T., rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, j. 17.10.1984, v.u., in Teresa Arruda Alvim, James Marins e Eduardo Alvim, Processo Tributário, São Paulo: Ed. RT, 1994, p. 356). 61. Op. cit., loc. cit. 62. STF, Ac. RE 103.400-9/SP, rel. Min. Rafael Mayer, DJ 01.02.1985. 63. “Declaratória negativa tem natureza jurídica e efeitos diferentes da ação anulatória de débito fiscal, possibilitando o ajuizamento concomitante” (TFR, 4.ª T., Ap 35.013/SP, rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, j. 17.10.1984). 64. “Administrativo. Contratos. Regularidade. 1. Cuidando-se de ação constitutiva negativa (validade ou não de cláusulas contratuais), cumulada com certa carga declaratória (quitação de dívida) e condenatória (repetição do indébito), hábil a utilização do procedimento comum ordinário, por conta do princípio da preferibilidade do rito ordinário, consagrado no art. 271 do CPC. 2. A escolha da parte autora, à época, pela aceitação da composição proposta pela empresa pública, ao invés de recorrer desde logo ao Judiciário, a fim de, neste âmbito, fazer valer as previsões contidas no pré-contrato, pela obtenção de provimento jurisdicional que substituísse a anuência da empresa pública a contratar o que havia prometido no referido ‘Protocolo’, foi produzida obviamente porque lhe era mais conveniente, importando esta aquiescência na necessária aceitação da validade e regularidade das condições inscritas naquele título obrigacional, mormente quanto aos encargos que formaram o montante da dívida. Trata-se de rotineira disposição de direito patrimonial, para o qual o ordenamento legal dá ampla margem de atuação à vontade dos contratantes. 3. Ausência de abusividade na avença” (TRF da 4.ª Região, 4.ª T., AC 2000.71.05.002683-9, rel. Marga Inge Barth Tessler, DE 14.09.2009). 65. “A ação anulatória de débito, ou a declaratória negativa de dívida fiscal, sem o depósito integral correspondente do crédito tributário, não inibe a consequente execução, efetivando-se a penhora. Isto ocorrendo, estadeada a conexão, as ações devem ser reunidas para julgamento conjunto. (…) Se julgada a anulatória por via de exceção, esta foi anteriormente apreciada, não suscitado o conflito, permanece a competência do Juízo onde foi processada e julgada a anulatória, homenageando-se a prevenção” (STJ, 1.ª T., REsp 46.193-6/SP, rel. Min. Milton Luiz Pereira, j. 09.08.1995, v.u.). Nesse mesmo sentido, o entendimento do STJ: “A jurisprudência desta Corte Federal Superior é firme em que ‘o ajuizamento de ação anulatória de débito fiscal, desacompanhada de depósito no montante integral, não tem o condão de suspender o curso de execução fiscal já proposta (Precedentes: REsp 216.318/SP, rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ 07.11.2005; REsp 747.389/RS, rel. Min. Castro Meira, DJ 19.09.2005; REsp 764.612/SP, rel. Min. José Delgado, DJ 12.09.2005; AgRg no Ag 606.886/SP, rel. Min. Denise Arruda, DJ 10.04.2005; e REsp 677.741/RS, rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ 07.03.2005)’ (REsp 758.270/RS, rel. Min. Luiz Fux, in DJ 04.06.2007). 5. Agravo regimental improvido” (STJ, 1.ª T., Ag n. 1.306.060/SP, rel. Min. Hamilton Carvalhido, DJe 03.09.2010). Nesse sentido também: TRF3, 6.ª T., AI n. 00244246720124030000, Juiz Convocado Herbert de Bruyn, e-DJF3 Judicial 1 20.09.2013. 66. “Reputam-se conexas duas ou mais ações, quando lhes for comum o objeto ou a causa de pedir” (CPC, art. 103). 67. “Embora não se configure litispendência entre a ação anulatória de débito fiscal e a execução fiscal, relativamente à mesma dívida, ocorre conexão a justificar o julgamento de ambas no mesmo juízo. Neste caso a conexão não deve ser tida como um critério modificador, mas como um fator de atribuição de competência ao juízo especializado” (TRF da 1.ª Região, 2.ª Seção, CC n. 95.01.09672-6/DF, rel. Juiz Olindo Menezes, j. 13.06.1995, DJU 2 11.09.1995, p. 59.095/6, m.v.). Mais recentemente, em semelhante sentido decidiu o TRF da 3.ª Região: AI 00081283320134030000, Desembargador Federal Nery Junior, e-DJF3 Judicial 1 13.09.2013. 68. Consoante a lição de Thereza Alvim “para maior facilidade de compreensão da causa de pedir, aceita-se sua classificação em remota e próxima. A causa de pedir remota será, por exemplo, em uma ação ordinária de cobrança de multa contratual, a existência do contrato, enquanto, a próxima, o inadimplemento, que originou a incidência da cláusula, por meio da qual os contratantes haviam estipulado a multa” (Direito Processual de estar em Juízo, São Paulo: Ed. RT, 1996, p. 129). Adotando-se a classificação em tela pode-se dizer que a causa de pedir remota (ou razão mediata do pedido) é a mesma tanto na execução fiscal como nos embargos do devedor (isto é, a existência do lançamento), enquanto a causa de pedir próxima (razão imediata do pedido), afigura-se, respectivamente, como sendo o inadimplemento que autoriza o pedido de execução forçada e o vício formal ou material do lançamento que fundamenta o pedido de anulação do ato administrativo. 69. “A inalterabilidade da competência em razão da matéria pela conexão ou continência não impede que a ação anulatória de débito fiscal seja julgada pelo mesmo juízo da execução fiscal, para que não subsista a possibilidade de sentenças contraditórias entre a anulatória e os embargos do devedor” (1.º TAC/SP, 6.ª Câmara, AC 559.304-4, rel. Juiz Jorge Farah, j. 10.10.1995, DJSP 1 24.11.1995, p. 97, v.u.); “(…) Muito embora a ação anulatória não iniba a exigibilidade do crédito tributário (art. 585, § 1.º do CPC), a conexão impõe a reunião das ações. 2. Constatada a conexão entre a ação de execução fiscal e a ação anulatória de débito fiscal, é imperiosa a reunião dos processos para julgamento simultâneo, evitando-se, assim, decisões conflitantes. – ‘O instituto da conexão provém da necessidade de segurança jurídica, bem como da aplicação do princípio da economia processual. A sua observância impede a produção de decisões conflitantes entre ações que contenham algum(ns) elemento(s) similar(es), mercê da economiaprocessual propícia, evitando que vários juízes julguem concomitantemente causas semelhantes, havendo, ainda que remotamente, a possibilidade de serem proferidas decisões conflitantes, ou alguma semelhança entre duas demandas, é conveniente que as ações sejam reunidas para fins de prolação de apenas uma sentença.’ Princípio que se deflui do REsp 100.435/SP, rel. Min. Adhemar Maciel, DJ 01.12.1997. 3. A conexão, por si só, não suspende o processo em que se discute a exigibilidade do crédito tributário. As hipóteses de suspensão da exigibilidade do crédito tributário estão elencadas, numerus clausus, no art. 151 do CTN. O ajuizamento de ação anulatória de débito fiscal, desacompanhada de depósito no montante integral, não tem o condão de suspender o curso de execução fiscal já proposta. 4. Deveras, proposta a ação declaratória sem depósito e prosseguindo a execução, o provimento do recurso da ação de nulidade do lançamento influi no levantamento do valor da expropriação, tal como influiria no levantamento do depósito prévio. Isto porque, havendo o depósito, a Fazenda não precisa executar, posto habilitada a levantá-lo como pagamento, acaso julgada improcedente a declaratória. 5. In casu, à luz dos princípios da efetividade e da economia processual impõe-se considerar o julgamento procedente da anulatória (art. 462 do CPC), para impedir não só o levantamento do produto da expropriação como também a eventual determinação, nesse estágio procedimental, de realização de qualquer depósito, até a última definição do litígio, provendo-se o recurso, somente para afastar a multa aplicada nos embargos de declaração. 6. Violação ao art. 535, II, do CPC caracterizada, porquanto o aresto recorrido omitiu-se acerca da aplicação das disposições legais pertinentes ao desate da lide, atribuindo a multa prevista no art. 538, parágrafo único, do CPC, por entender que os embargos de declaração opostos possuíam caráter procrastinatório. Afastamento da multa, porquanto a Súmula 98/STJ preceitua: ‘Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório.’ 7. Recurso especial parcialmente conhecido e em parte, também, provido” (Acórdão unânime da 1.ª Turma do STJ, REsp 450.443/RS, rel. Min. Luiz Fux, j. 03.02.2004, DJU 1 25.02.2004, p. 101, Revista Dialética de Direito Tributário 103/228). Em semelhante sentido: STJ, 1.ª Seção, CC n. 105.358/SP, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 22.10.2010. O TRF da 2.ª Região também manifestou entendimento harmônico: TRF2, 4.ª Turma Especializada, AC 200851010090870, Desembargador Federal Luiz Antonio Soares, e-DJF2R 05.10.2010, p. 159/160. 70. “O depósito somente suspende a exigibilidade do crédito tributário se for integral e em dinheiro” (Súmula 112 do STJ). 71. “Não pode a Fazenda Pública ajuizar execução fiscal, se for proposta a ação anulatória de débito fiscal, com prévio depósito do valor questionado, sob pena de a exequente responder pelos prejuízos que causar” (STJ, 1.ª T., Ação Anulatória de Débito Fiscal, REsp 4.089/SP, rel. Min. Geraldo Sobral, j. 27.02.1991, m.v.). 72. “Se proposta ação anulatória de débito fiscal antes de apreciado pedido de reconsideração na órbita administrativa, e acolhido este, foi julgada prejudicada, não há como condenar a ré em honorários de advogado” (TFR, Ac. Rem. Ex Officio n. 474.888/SP, rel. Min. Armando Rolemberg, DJ 14.08.1978). 73. “Define-se a competência pela prevenção em relação à ação anulatória de débito fiscal e ação de execução de mesma dívida, não pela litispendência, mas à base da conexão” (TFR, Ac. Confl. Comp. n. 3.000/RJ, rel. Min. Aldir G. Passarinho, DJ 16.02.1979). Em semelhante sentido também: TRF3, 2.ª Seção, CC n. 00078431620084030000, Desembargador Federal Andre Nabarrete, e-DJF3 Judicial 1 12.09.2013. Em análogo sentido: STJ, 1.ª T., Ag n. 793.473/MG, rel. Min. Denise Arruda, DJ 03.05.2007, p. 221. 74. “É extinto processo de embargos de devedor, por litispendência, em face de ação anulatória de débito fiscal entre as mesmas partes, versando a mesma causa de pedir e o mesmo objeto” (TJRS, Ac. Ap 3.045/87, rel. Des. Paulo Pinto, 26.06.1988) Reconhecendo a possibilidade e litispendência, manifestou-se o STJ: “1. No caso de os embargos do devedor opostos contra execução fiscal serem extintos, sem resolução do mérito, em razão de litispendência com ação anulatória, na qual não houve suspensão da exigibilidade do crédito tributário, os honorários advocatícios devem ser suportados pela parte executada. Precedente: REsp 1.040.781/PR, rel. Ministra Eliana Calmon, 2.ª T., DJe 17.03.2009. 2. Agravo regimental não provido” (STJ, 1.ª T., AGREsp 201101830360, Ministro Benedito Gonçalves, DJe 27.05.2013). 75. Aroldo Gomes de Mattos, “Repetição de Indébito, Compensação e Ação Declaratória”, Repetição de Indébito e Compensação no direito tributário, São Paulo: Dialética; Fortaleza, Icet, 1999, p. 49. 76. Com percuciência, o jurista José Mörschbächer ratifica a importância do instituto da restituição asseverando: “A exigibilidade do tributo encontra-se, ademais, cercada de garantias constitucionais específicas contra o eterno abuso dos governantes, cumprindo colocar em destaque os princípios da estrita legalidade (CF/1988, art. 150, I e da vedação do confisco (CF/1988, art. 150, IV). (…) Trata-se de um conjunto de normas inseridas no texto da Constituição, as quais deixam expresso, e por vezes implícito, o pensamento e o espírito de nossa ordem constitucional no sentido de necessário respeito, por parte do Estado, ao patrimônio dos particulares em seu sentido lato, e dentro desse, não restam dúvidas, o correspondente aos tributos cobrados indevidamente” (“Repetição de Indébito Tributário e Compensação”, Repetição de Indébito e Compensação no direito tributário, São Paulo: Dialética; Fortaleza, Icet, 1999, p. 49). 77. Cesar Garcia Novoa, La Devolución de Ingresos Tributarios Indebidos, Madri: Marcial Pons, 1992, p. 60. 78. Fernando Serrano Antón, Las Devoluciones Tributarias, Madri: Marcial Pons, 1996, p. 34. 79. Aroldo Gomes de Mattos, op. cit., p. 71. 80. Os tribunais pátrios têm entendido no mesmo sentido, considerando passível de compensação o crédito oriundo de sentença favorável ao contribuinte em Ação de Repetição de Indébito, por vontade da natureza declaratória que lhe reveste, da seguinte forma: “Processo Civil. Ação de Repetição de Indébito. Aproveitamento da Sentença para os Efeitos de Compensação Tributária, no Regime da Lei 8.383, de 1991 (art. 66). Se a execução da sentença que julgou procedente a ação de repetição de indébito lhe é menos conveniente do que a compensação dos créditos cuja existência foi reconhecida no julgado, o contribuinte pode, com base na carga declaratória da sentença, fazer esse encontro de contas no âmbito do lançamento por homologação, independentemente de autorização judicial – bastando comunicar ao juiz da causa que não executará a condenação. Recurso especial não conhecido” (2.ª Turma do STJ, REsp 136.162/AL, rel. Min. Ari Pargendler, j. 23.10.1997, publicado no DJ 02.02.1998) Nos mesmos termos: REsp 149.438/PE, rel. Min. Ari Pargendler, 2.ª Turma do STJ, j. 20.11.1997, publicado em 15.12.1997; REsp 150.882/PE, rel. Min. Ari Pargendler, 2.ª Turma do STJ, j. 20.11.1997, publicado em 09.12.1997. Além disso, o Ministro Demócrito Reinaldo, componente da 1.ª Turma do STJ, já se manifestou neste sentido, nos seguintes termos: “(…) na hipótese do deferimento de uma ação de repetição de indébito, quando a sentença transita em julgado, o crédito do contribuinte torna-se líquido e certo, e não há mais qualquer necessidade de ele ficar em fila para precatório, pois é verdadeiramente uma das hipóteses da compensação do tributo, prevista no art. 66 da Lei 8.383” (voto proferido pelo Ministro Demócrito Reinaldo nos Embargos de Divergência em REsp 78.301/BA, julgado pela 1.ª Seção do STJ, cuja ementa foi publicada no DJU I 28.04.1997.O trecho transcrito, extraído diretamente do acórdão, encontra-se na página 54 do mesmo. Apud Gabriel Lacerda Troianelli, “A Compensação do Indébito Tributário: Alguns Aspectos Processuais Polêmicos”, Problemas de Processo Judicial Tributário – 2.º Volume, São Paulo: Dialética, 1998, p. 69). Ainda sobre o tema, sugerimos a leitura dos seguintes julgados: STJ, 2.ª T., REsp 654.446/AL, rel. Min. Herman Benjamin, DJe 11.11.2009, RSTJ Vol. 00217, p. 00645; STJ, 1.ª T., REsp 951.233/SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 19.02.2009; STJ, 1.ª T., REsp 886.345/ SP, rel. Min. Luiz Fux, DJe 12.05.2008. 81. Gabriel Lacerda Troianelli, op. cit., p. 67. 82. A doutrina tem admitido largamente esta hipótese: Gabriel Troianelli (op. cit., p. 68) entende que “se pode o contribuinte, mesmo com ação de repetição de indébito em curso, compensar o crédito objeto dessa ação, pode, de igual forma, compensar crédito cuja restituição esteja assegurada por decisão judicial transitada em julgado, hipótese em que deverá, meramente, se abster de executar a decisão”; Cairon Ribeiro dos Santos (“Repetição do Indébito, Compensação e Ação Declaratória”, Repetição de Indébito e Compensação no direito tributário, São Paulo: Dialética, 1999, p. 78 e 79) também entende assim, ao dispor que “o contribuinte que optou pela ação de repetição, sendo vitorioso, poderá optar pelo pedido de liquidação de sentença, levantando o crédito respectivo contra a Fazenda, e optar pela compensação do mesmo, evitando o demorado procedimento do precatório. Bastando, para tanto, que formule o pedido, não para ter reconhecido o direito à compensação, até porque tal pedido é descabido na execução, mas de desistência da execução e consequentemente do precatório, pois pretende utilizar-se do instituto da compensação”. Ainda, Hugo de Brito Machado Segundo e Paulo de Tarso Vieira Ramos (“Repetição do Indébito Tributário e Compensação”, Repetição de Indébito e Compensação no direito tributário, São Paulo: Dialética, 1999, p. 155) asseveram que “sendo a compensação um direito potestativo, exercitável sem necessidade de controle judicial, e sob inteira responsabilidade do contribuinte, desnecessário se faz qualquer pedido de sua parte para que o Juiz a autorize, ainda mais porque a compensação não implica mudança substancial do pedido, como visto. Entendemos, assim, que o contribuinte pode exercer a opção pela compensação, devendo, porém, comunicá-lo ao Juiz e desistir da expedição do precatório”. Para outras manifestações doutrinárias no mesmo sentido, consulte-se a obra citada nestas notas de rodapé. 83. Quanto a este aspecto existem duas correntes divergentes: uma que entende pela impossibilidade visto que configuraria mudança do pedido, vedada por lei processual; a outra corrente, seguida pelos juristas Oswaldo Othon de Pontes Saraiva Filho, Ricardo Mariz de Oliveira, Schubert Machado, entre outros, defende o entendimento de que não se trata de mudança de pedido, mas de forma de execução da decisão que acolheu o pedido inicial. Hugo de Brito Machado, ao cuidar deste assunto, ensina que “realmente o pedido que não pode ser alterado é aquele que constitui um projeto da sentença pretendida pelo autor. Não pode ser alterado no âmbito do processo de conhecimento. Concluído este, com a sentença, a execução desta é outro processo” (Hugo de Brito Machado, “Apresentação e Análise Crítica”, Repetição de Indébito e Compensação no direito tributário, São Paulo: Dialética, 1999, p. 24). 84. Com efeito, em decisões administrativas e judiciais tem-se entendido pela possibilidade de opção do contribuinte, entre a compensação ou a restituição, na existência de decisão transitada em julgado: “Compensação de IOF com IRPF – Existindo sentença judicial transitada em julgado, que reconhece o direito de restituição do indébito, o pedido de compensação deve ser deferido. A compensação poderá ser efetuada entre quaisquer tributos ou contribuições sob a administração da SRF, ainda que não sejam da mesma espécie nem tenham a mesma destinação constitucional” (Acórdão unânime da 6.ª Câmara do 1.º Conselho de Contribuintes, Processo 13873.000154/96-07, rel. Cons. Sueli Efigênia Mendes de Brito, 22.08.2001, DOU 26.12.2001, p. 78, Revista Dialética de Direito Tributário 78/226); “Tributário. Opção por restituição ou compensação na fase executória. Possibilidade. 1. A própria Lei 8.383/1991 (art. 66, § 2.º) faculta ao contribuinte optar pelo pedido de restituição, pelo que – quiçá em atendimento ao princípio isonômico – pode o contribuinte optar pela compensação, ainda mais com o seu direito à devolução do indébito assegurado por decisão trânsita em julgado. Em tal situação, deve o credor, expressamente, desistir da execução, encaminhando ao Juízo tal pedido, e se já foi expedido o precatório com este permanecer. 2. Tema que se consubstancia em íntegro direito subjetivo do contribuinte. A compensação é um direito do contribuinte, que dele pode valer-se sem necessidade de prévia autorização judicial, a não ser obstado por determinação administrativa. 3. Em tal situação, deve o credor, expressamente, desistir da execução, encaminhando ao Juízo tal pedido, e se já foi expedido o precatório com este permanecer. 4. Recurso a que se nega seguimento (art. 38, da Lei 8.038/1990, c/c o art. 557, do CPC, e Súmula 83/STJ)” (Decisão proferida pelo STJ, REsp 329.270/SC, rel. Min. José Delgado, 17.08.2001, DJU 1-E 29.08.2001, p. 157, Revista Dialética de Direito Tributário 74/201); “Processual civil e tributário. Compensação. Repetição de indébito. Possibilidade de opção quando em execução de sentença. 1. Assentou-se o entendimento da Primeira Seção no sentido de ser possível ao autor, quando da execução da sentença, optar pela repetição de indébito, ainda que o pedido inicial tenha sido de compensação, sem que isso importe ofensa à coisa julgada. 2. Precedentes. 3. Recurso não provido” (Decisão proferida pelo STJ, REsp 227.857/RS, rel. Min. Milton Luiz Pereira, 19.08.2001, DJU 1 12.11.2001, p. 204/5, Revista Dialética de Direito Tributário 76/188); “(…) 1. Operado o trânsito em julgado da decisão que determinou a repetição do indébito, é facultado ao contribuinte manifestar a opção de receber o respectivo crédito por meio de precatório regular ou compensação, eis que constituem, ambas as modalidades, formas de execução do julgado colocadas à disposição da parte quando procedente a ação. 2. Não há na hipótese dos autos violação à coisa julgada, pois a decisão que reconheceu o direito do autor à compensação das parcelas pagas indevidamente fez surgir para o contribuinte um crédito que pode ser quitado por uma das formas de execução do julgado autorizadas em lei, quais sejam, a restituição via precatório ou a própria compensação tributária. 3. Por derradeiro, registre-se que todo procedimento executivo se instaura no interesse do credor CPC, art. 612 e nada impede que em seu curso o débito seja extinto por formas diversas como o pagamento propriamente dito – restituição em espécie via precatório, ou pela compensação. 4. Recurso Especial improvido” (Acórdão unânime da 2.ª Turma do STJ, REsp 551.184/ PR, rel. Min. Castro Meira, j. 21.10.2003, DJU 1 01.12.2003, p. 341, Revista Dialética de Direito Tributário 101/231). Em semelhante sentido: Recurso Voluntário n. 164.370, Processo 11080.102324/2004-97, 1.ª Câmara/1.ª Seção de Julgamento, Carf, data da sessão 24.11.2011, Acórdão 1103-00.588; STJ, 1.ª T., REsp 1.089.837/SP, rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 16.02.2011. 85. Nesse sentido também: TRF2, 4.ª Turma Especializada, AC 199902010585130, Desembargadora Federal Lana Regueira, DJU 11.12.2009, p. 101. 86. O art. 165 dispõe da seguinte forma: “O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4.º do art. 162, nos seguintes casos: (I) – cobrança ou pagamento espontâneo de tributoindevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; (II) – erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; (III) – reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória”. 87. Na ADIn 605-3 (DJ 05.03.1993), rel. Min. Celso de Mello, o STF estabeleceu a constitucionalidade, em tese, das leis que promovem a “interpretação autêntica”, ressalvando, contudo, que estão sempre expostas ao crivo do Poder Judiciário: “Ação direta de incons- titucionalidade – Medida provisória de caráter interpretativo – Leis interpretativas – A questão da interpretação de leis de conversão por medida provisória – Princípio da irretroatividade – Caráter relativo – Leis interpretativas e aplicação retroativa – Reiteração de medida provisória sobre matéria apreciada e rejeitada pelo Congresso Nacional – Plausibilidade jurídica – Ausência do periculum in mora – Indeferimento da cautelar. – É plausível, em face do ordenamento constitucional brasileiro, o reconhecimento da admissibilidade das leis interpretativas, que configuram instrumento juridicamente idôneo de veiculação da denominada interpretação autêntica. – As leis interpretativas – desde que reconhecida a sua existência em nosso sistema de direito positivo – não traduzem usurpação das atribuições institucionais do Judiciário e, em consequência, não ofendem o postulado fundamental da divisão funcional do poder. – Mesmo as leis interpretativas expõem-se ao exame e à interpretação dos juízes e tribunais. Não se revelam, assim, espécies normativas imunes ao controle jurisdicional. – A questão da interpretação de leis de conversão por medida provisória editada pelo Presidente da República. – O princípio da irretroatividade ‘somente’ condiciona a atividade jurídica do Estado nas hipóteses expressamente previstas pela Constituição, em ordem a inibir a ação do Poder Público eventualmente configuradora de restrição gravosa (a) ao status libertatis da pessoa (CF, art. 5.º XL), (b) ao ‘status subjectionis’ do contribuinte em matéria tributária (CF, art. 150, III, a) e (c) à ‘segurança’ jurídica no domínio das relações sociais (CF, art. 5.º, XXXVI). – Na medida em que a retroprojeção normativa da lei ‘não’ gere e ‘nem’ produza os gravames referidos, nada impede que o Estado edite e prescreva atos normativos com efeito retroativo. – As leis, em face do caráter prospectivo de que se revestem, devem, ‘ordinariamente’, dispor para o futuro. O sistema jurídico-constitucional brasileiro, contudo, ‘não’ assentou, como postulado absoluto, incondicional e inderrogável, o princípio da irretroatividade. – A questão da retroatividade das leis interpretativas”. 88. CTN, art. 106: “A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: I – em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados”. 89. “Tributário. Repetição de indébito. Verbas indenizatórias. Adesão ao PDV. Férias não gozadas. Imposto de renda. Tributo sujeito a lançamento por homologação. Prescrição. Orientação firmada pela 1.ª Seção do STJ, na apreciação do EREsp 435.835/SC. LC 118/ 2005: natureza modificativa (e não simplesmente interpretativa) do seu art. 3.º. Inconstitucionalidade do seu art. 4.º, na parte que determina a aplicação retroativa. Entendimento consignado no voto do EREsp 327.043/DF. 1. A 1.ª Seção do STJ, no julgamento do EREsp 435.835/SC, rel. p/ o acórdão Min. José Delgado, sessão de 24.03.2004, consagrou o entendimento segundo o qual o prazo prescricional para pleitear a restituição de tributos sujeitos a lançamento por homologação é de cinco anos, contados da data da homologação do lança-mento, que, se for tácita, ocorre após cinco anos da realização do fato gerador – sendo irrelevante, para fins de cômputo do prazo prescricional, a causa do indébito. Adota-se o entendimento firmado pela Seção, com ressalva do ponto de vista pessoal, no sentido da subordinação do termo a quo do prazo ao universal princípio da actio nata (voto-vista proferido nos autos do EREsp 423.994/SC, 1.ª Seção, Min. Peçanha Martins, sessão de 08.10.2003). 2. O art. 3.º da LC 118/2005, a pretexto de interpretar os arts. 150, § 1.º, 168, I, do CTN, conferiu-lhes, na verdade, um sentido e um alcance diferente daquele dado pelo Judiciário. Ainda que defensável a ‘interpretação’ dada, não há como negar que a Lei inovou no plano normativo, pois retirou das disposições interpretadas um dos seus sentidos possíveis, justamente aquele tido como correto pelo STJ, intérprete e guardião da legislação federal. Portanto, o art. 3.º da LC 118/2005 só pode ter eficácia prospectiva, incidindo apenas sobre situações que venham a ocorrer a partir da sua vigência. 3. O art. 4.º, segunda parte, da LC 118/2005, que determina a aplicação retroativa do seu art. 3.º, para alcançar inclusive fatos passados, ofende o princípio constitucional da autonomia e independência dos poderes (CF, art. 2.º) e o da garantia do direito adquirido, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (CF, art. 5.º, XXXVI). Ressalva, no particular, do ponto de vista pessoal do relator, no sentido de que cumpre ao órgão fracionário do STJ suscitar o incidente de inconstitucionalidade perante a Corte Especial, nos termos do art. 97 da CF. 4. Recurso especial a que se nega provimento” (STJ, 1.ª T., REsp 742.362/MG, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 17.05.2005, DJ 30.05.2005, p. 263). 90. Generalizamos nesse item as conclusões a que chegamos no estudo que fizemos sobre as consequências jurídico-processuais da inconstitucionalidade incidental do Funrural, sobretudo no que se refere à posição de agentes retentores (adquirentes da produção rural) e retidos (produtores rurais) no plano do processo de repetição de indébito. Para o exame completo, remetemo-nos ao trabalho intitulado “A Discussão Judicial do Funrural e Garantias Fundamentais – Retidos Versus Retentores”, Grandes Questões Atuais do direito tributário – 14.º volume (coord. Valdir de Oliveira Rocha), São Paulo: Dialética, 2010. 91. “Tuttavia, quando le imposte vengono riscosse mediante ritenuta alla fonte (…) i privati (datori di lavoro, banche) vengano delegati dallo Stato ad effetuare il prelievo, ed in quanto longa manus dello stesso Stato essi prestano la propria opera quali ausiliari dell’Amministrazione Finanziaria. Ad essi spetta di determinare la base imponibile, di liquidare límposta e versarla all’Erario” (Thomas Puhl, “Le Procedure e i Metodi di Accertamento Tributário alla Luce dei Principi Costitucionali”, L’Accertamento Tributario Nella Comunità Europea (coord. Adriano di Pietro), Milão, A. Giuffrè, 1997, p. 26). 92. V. Fernando Serrano Antón, Las devoluciones tributarias, Madri: Marcial Pons, 1996, p. 117. 93. Esse modo de raciocínio, que nasce da percepção da diferenciação da lide tributária foi originalmente fornecido por Carnelutti.: “Se per la composizione della lite tributaria il processo fosse fatto com’è fatto per ogni altro tipo di lite o, almeno, per quella che si può chiamare la lite comune, a questo punto il fenomeno tributario sarebbe governato dal diritto (processuale) comune. Ma questo é proprio il momento per chiedere se, invece, i caratteri particolari di questo fenomeno non determinino una disciplina particolare del processo, onde alla lite tributaria come specie differenziata dalla lite comune, corrisponda, nello stesso raporto rispeto al processo comune, il processo tributario” (Francesco Carnelutti, Introduzione allo Studio del Diritto Processuale Tributario, RDPS, Cedam, 1932, p. 112). 94. Sobre a diferenciação da lide tributária e suas consequências no âmbito processual tributário nos seguintes trabalhos, sugerimos a leitura de: James Marins, Princípios Fundamentais do direitoprocessual tributário, São Paulo: Dialética, 1998; James Marins, Defesa e vulnerabilidade do contribuinte cit. 95. “Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se: I – contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II – responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei (…). Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte”. 96. “Sin embargo, a pesar de la relativa concisión de la definición, la doctrina discrepa si considerar al retenedor como uma figura autônoma nacida después de la promulgación de la Ley General Tributaria, o si se trata de uma modalidad del sustituto contribuyente” (Fernando Serrano Antón, Las Devoluciones Tributarias, Madri: Marcial Pons, 1996, p. 118). O mesmo problema é detectado pela doutrina nacional: “Não obstante a falta de previsão no Código Tributário Nacional, ao lado da figura do responsável tributário tem-se ainda o substituto”. (Marcelo Fortes de Cerqueira, Repetição do Indébito Tributário, São Paulo: Max Limonad, p. 377). 97. Vejam-se os conceitos utilizados por Cesar Garcia Novoa: “Es precisamente esta condición de deudor, como consequência de la realización del presupuesto de hecho de la substitución del sustituto como posible titular del derecho a la devolución, puesto que el sustituto, al igual que el contribuyente, resulta obligado al ingreso del tributo, asumiendo la posición de deudor principal. Como hemos señalado, no exite ningún problema para admitir la condición de titular de derecho a la devolución del sustituto, dentro del que se incluiria el ‘sustituto com retención’, es decir, aquellos sujetos que están abligados ‘a detraer, com ocasión de los pagos que reacilen a otras personas, el gravamen tributario correspondiente’. En tanto este caso el sustituto se coloca en lugar del contribuyente sustituido, si há efectuado el ingreso indebido tiene derecho a solicitar la devolución cuando detraiga la totalidad de la deuda tributaria de outro sujeto e la ingrese de forma indebida” (Cesar Garcia Novoa, La Devolución de Ingresos Tributarios Indebidos, Madri, Instituto de Estudios Fiscales, p. 191 e 197). 98. No caso específico do Funrural, o critério de sub-rogação legal surge em virtude da previsão expressa do art. 30, IV, da Lei 8.212/1991, com a redação atribuída pelo art. 1.º da Lei 8.540/1992 e, nesse caso, o vetusto instituto de direito privado é utilizado como autorizador do direito do responsável em reter o valor devido do produtor rural retido. 99. “Tributário. Processual Civil. Negativa de Prestação Jurisdicional. Não Configuração. Contribuição para o Funrural. Pedido de Compensação. Legitimidade da Empresa Adquirente da Produção Rural. Existência de Documentos autorizando a Recorrente a buscar a Restituição. Súmula 7/STJ. 1. É entendimento sedimentado o de não haver omissão no acórdão que, com fundamentação suficiente, ainda que não exatamente a invocada pelas partes, decide de modo integral a controvérsia posta. 2. A jurisprudência do STJ é no sentido de admitir a legitimidade da empresa adquirente da produção rural para discutir a exigibilidade do Funrural, restando mantido, contudo, o entendimento que lhe nega legitimidade para postular a restituição ou a compensação dos tributos indevidamente recolhidos. Precedentes. 3. O recurso especial não pode ser conhecido quanto à alegação de que a inicial fora instruída com as autorizações dos produtores rurais para o pedido de compensação do indébito, vez que a apreciação desta tese exigiria o reexame do contexto fático- probatório da demanda, o que é vedado na via do recurso especial, a teor do que preconizado pela Súmula 07/STJ. 4. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, improvido” (STJ, 1.ª T., REsp 800.036/SC, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 20.10.2009, DJe 29.10.2009). 100. Sobre o assunto, vejam-se também: TRT, Turma Recursal-MS, Processo 00070065020064036201, Juiz Federal Moisés Anderson Costa Rodrigues da Silva, e-DJF3 Judicial 25.04.2012; TRT, Turma Recursal-MS, Processo 00062389020074036201, Juiz Federal Moisés Anderson Costa Rodrigues da Silva, e-DJF3 Judicial 25.04.2012. 101. “Tributário – Contribuição Social Previdenciária – Funrural – Ilegitimidade Ativa ad Causam das Cooperativas. 1. A jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que a cooperativa é responsável tributária pelo recolhimento da contribuição para o Funrural sobre a comercialização do produto agrícola, tendo legitimidade tão somente para discutir a legalidade ou constitucionalidade da exigência, mas não para pleitear em nome próprio a restituição ou compensação do tributo, a não ser que atendidos os ditames do art. 166 do CTN. Agravo regimental improvido” (STJ, 2.ª T., AgRg no REsp 737.583/RS, rel. Min. Humberto Martins, j. 21.02.2008, DJe 03.03.2008). 102. Ao regime jurídico dos Juizados Federais aplicam-se em caráter geral as disposições da Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995 (que disciplina os Juizados Especiais Cíveis e Criminais da Justiça Ordinária) naquilo que não houver conflito com a Lei 10.259/2001 que tem natureza de norma especial. 103. “(…) Descabe negar seguimento ao agravo de instrumento interposto via fac-símile sem antes conceder à parte o prazo de 5 dias previsto na Lei 9.800/1999 para a juntada das peças originais que acompanham o recurso. Precedentes do STJ. Ao prazo para o cumprimento de requisitório de pequeno valor cumpre aplicar as disposições específicas constantes das leis n. 10.259, de 12.06.2001, que dispõe sobre a instituição dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais no âmbito da Justiça Federal e a lei n. 12.153, de 22.12.2009, que dispõe sobre os Juizados Especiais da Fazenda Pública no âmbito dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, haja vista que nos termos das disposições contidas do art. 87 do ADCT foi permitido aos entes públicos definir a obrigação de pequeno valor, tendo em vista suas peculiaridades, tais como condições locais, tamanho de suas receitas e orçamento, não abrangendo, contudo, referida permissão, o prazo deve ser o mesmo para todos, sendo regulado pelas mencionadas leis, cujo procedimento restou estabelecido pela Res. 168/2011 do CJF. Agravo legal provido admitindo a interposição do agravo de instrumento. Agravo de instrumento desprovido” (TRF3, 1.ª T., AI n. 00110626120134030000, Desembargador Federal José Lunardelli, e-DJF3 07.08.2013). 104. “(…) ‘O STJ possui entendimento de que, no microssistema dos Juizados Especiais da Fazenda Pública, o art. 18 da Lei 12.153/ 2009 previu instrumento para uniformização de interpretação de lei, limitada às questões de direito material, qual seja, o pedido de uniformização de interpretação de lei’ (AgRg na Rcl 10.176/RS, rel. Min. Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe 1.º/2/13. 2. Hipótese em que foi interposto agravo regimental de decisão monocrática que não conheceu de Reclamação ajuizada contra decisão proferida pela Turma Recursal da Fazenda Pública do Estado do Rio Grande do Sul que reconheceu a prescrição do fundo de direito em ação de cobrança movida contra a Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos – FDRH. 3. ‘Nesse contexto, havendo procedimento específico e meio próprio de impugnação, não é cabível o ajuizamento da reclamação prevista na Res. 12/2009 do STJ’ (EDcl na Rcl 9.688/RS, rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, DJe 20/11/12). 4. Agravo regimental não provido. (STJ, 1.ª Seção, AGRRCL n. 201202019368, Ministro Arnaldo Esteves Lima, DJe 02.08.2013). 105. Sobre as transaçõese as confissões de débito tributário e os riscos da flexibilização do princípio da estrita legalidade tributária, vide, supra, Capítulo 7, subitem 10.1.a. 106. Nota marcante do CPC/2015 diz respeito à preocupação do legislador em incluir na nova lei instrumentos de uniformização de jurisprudência. Há diversos mecanismos no CPC/2015 com esse desiderato, com destaque para o incidente de resolução de demandas repetitivas e a assunção de competência. A iniciativa é louvável na medida em que a dispersão da jurisprudência é fenômeno não desejado, principalmente nos tribunais superiores, e nas causas envolvendo direito tributário. 107. Redação do inc. II, do art. 527, do CPC/1973, determinada pela Lei 11.187, de 19.10.2005. Observe-se o conteúdo do dispositivo legal em comento: “Art. 527. Recebido o agravo de instrumento no tribunal, e distribuído incontinenti, o relator: (…) II – converterá o agravo de instrumento em agravo retido, salvo quando se tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida, mandando remeter os autos ao juiz da causa. (…)”. 108. A EC 45/2004 foi editada com a finalidade explícita de reformar o Poder Judiciário de modo a combater a morosidade relativa à prestação da tutela jurisdicional. Para tanto, elevou à categoria de garantia fundamental a razoável duração do processo, ao inserir o inc. LXXVIII ao art. 5.º da CF/1988, com a seguinte redação: “a todos, em âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Interessante observar que ao estabelecer “meios que garantam a celeridade de sua tramitação”, trata-se de norma constitucional programática, ou seja, para que seja efetiva é necessário norma infralegal que a regulamente. Neste caso, a legislação processual que promoveu a terceira etapa de reforma do CPC é justamente o plexo de normas legais regulamentadoras do referido princípio constitucional. 109. Para estudo mais aprofundado sobre a EC 45/2004, bem como sobre o princípio da razoável duração do processo, e sua respectiva repercussão no processo tributário, consulte-se o nosso Defesa e vulnerabilidade do contribuinte cit., p. 59. 110. Esta Lei conferiu disciplina relativa às hipóteses de cabimento dos agravos retidos e de instrumento. O agravo retido passou a ser considerado como a regra geral, e caberá sua interposição em face de decisões interlocutórias, exceto nos casos em que a decisão causar à parte lesão grave e de difícil reparação e quando da inadmissão do recurso de apelação ou quanto aos efeitos em que é recebido. Outrossim, quando referidas decisões forem proferidas em audiência de instrução e julgamento, o agravo retido deverá ser interposto de forma oral e imediata – art. 522 do CPC/1973. 111. Alterou-se o regime referente ao processo de execução fundado em títulos judiciais que passa a ter curso nos próprios autos do processo de conhecimento, criando a chamada fase de cumprimento de sentença. Desta forma, a execução deverá ocorrer depois de findo o processo de conhecimento e posteriormente à liquidação de sentença de 1.º grau. Este regime acabou com a autonomia do processo de execução, ressalvados os casos de execução contra a Fazenda Pública (Lei 11.232/2005). 112. Foram acrescentados novos dispositivos ao Código de Processo Civil com o escopo de regulamentar a informatização do processo judicial. Possibilitou-se, desta forma, que a tramitação de processos judiciais, comunicação de atos e transmissão de peças processuais ocorram por meio eletrônico. O processo eletrônico poderá ser utilizado nas esferas cível, penal e trabalhista, bem como nos juizados especiais (Lei 11.419/2006). 113. Para o exame desses critérios consulte-se nosso Defesa e Vulnerabilidade do Contribuinte, São Paulo: Dialética, p. 71 e ss. 114. Anote-se que cumprirá obrigatoriamente ao STF pronunciar-se sobre esta questão em controle concentrado, uma vez que o art. 285-A do CPC/1973 é objeto de ação direta de inconstitucionalidade proposta pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (ADIn 3.695/DF), sob relatoria do Min. Cezar Peluso. 115. Vejam-se as decisões do STJ relacionadas ao tema: STJ, 1.ª T., EDcl no AgRg no Ag n. 1.161.425/RJ, rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 14.06.2010; STJ, 1.ª T., AgRg no Ag n. 1.161.425/RJ, rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 13.05.2010, LEXSTJ Vol. 00250, p. 00072; STJ, 4.ª T., RO n. 65/RJ, rel. Min. João Otávio de Noronha, DJe 03.05.2010; STJ, 2.ª T., RMS 31.585/PR, rel. Min. Castro Meira, DJe 14.04.2010. 116. Colacionamos também, a título exemplificativo, alguns acórdãos dos Tribunais Regionais Federais versados sobre o tema: TRF5, 1.ª T., MC n. 200705000295033, Desembargador Federal Rogério Fialho Moreira, DJe 14.10.2010, p. 246; TRF5, 1.ª T., AC 200680000075603, Desembargador Federal Rogério Fialho Moreira, DJe 14.10.2010, p. 207. 117. Cumpre noticiar, inclusive, que o STJ sumulou o seguinte entendimento: “Súmula 409. Em execução fiscal, a prescrição ocorrida antes da propositura da ação pode ser decretada de ofício”. 118. Recordem-se também acórdãos do STJ sobre o recurso especial repetitivo: STJ, 2.ª Seção, REsp 1.110.549/RS, rel. Min. Sidnei Beneti, DJe 14.12.2009, RSTJ Vol. 00217, p. 00788; STJ, 2.ª T., REsp 984.552/RS, rel. Ministra Eliana Calmon, DJe 25.03.2008; REsp 1.091.710/PR, rel. Min. Luiz Fux, Corte Especial, j. 17.11.2010, DJe 25.03.2011; STJ, 1.ª Seção, REsp 962.838/BA, rel. Min. Luiz Fux, j. 25.11.2009, DJe 18.12.2009; STJ, 1.ª Seção, REsp 1.140.956/SP, rel. Min. Luiz Fux, j. 24.11.2010, DJe 03.12.2010; STJ, 1.ª Seção, REsp 1.114.404/MG, rel. Min. Mauro Campbell Marques, j. 10.02.2010, DJe 01.03.2010; REsp 1.110.550/SP, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 22.04.2009, DJe 04.05.2009. 119. Há alguns pronunciamentos dos Tribunais Regionais Federais relacionados à disciplina legal do recurso repetitivo: TRF3, 3.ª T., APELREEX n. 00355259619964036100, Juíza Convocada Eliana Marcelo, e-DJF3 Judicial 1 27.09.2013; TRF5, 1.ª T., EDAC 20098400010809602, Desembargador Federal José Maria Lucena, DJe 26.09.2013, p. 183; TRF5, 1.ª T., AC 200805000731378, Desembargador Federal Manoel Erhardt, DJe 26.09.2013, p. 108. 120. Exemplificativamente, confiram-se as seguintes ementas do STF: “Repercussão geral: exigência de lei complementar para dispor sobre prescrição e decadência tributárias aplicáveis às contribuições sociais (art. 146, inc. III, da Constituição) para constituição do crédito tributário e da respectiva ação de cobrança” (RE 559.943-RG); “Tributo – Repetição de Indébito – LC 118/2005 – Repercussão Geral – Admissão. Surge com repercussão geral controvérsia sobre a inconstitucionalidade, declarada na origem, da expressão “observado, quanto ao art. 3.º, o disposto no art. 106, inciso I, da Lei 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional”, constante do art. 4.º, segunda parte, da LC 118/2005” (RE 561.908-RG); “Constitucional. Imposto sobre Transmissão Causa Mortis – ITCD. Alíquota Progressiva. Existência de Repercussão Geral. Questão relevante do ponto de vista econômico, social e jurídico que ultrapassa o interesse subjetivo da causa” (RE 562.045-RG); “Exportações – Contribuição Social sobre o Lucro. Surge com repercussão geral definir o alcance de imunidade quanto à Contribuição Social sobre o Lucro no que a Corte de origem refutou a não incidência do tributo” (RE 564.413-RG); “Contribuição Previdenciária Patronal – Remuneração – Parcelas Diversas – Sintonia com o Disposto no Inciso I do art. 195 da Constituição Federal – Definição – Recurso Extraordinário – Repercussão Geral Admitida. Surge com envergadura maior questionamento sobre o alcance da expressão “folha de salários” versada no art. 195, inciso I, da Carta da República, considerado o institutoabrangente da remuneração” (RE 565.160-RG); “Contribuição para a Seguridade Social – art. 13 da Lei 8.620/1993 – Responsabilidade Solidária dos Sócios – Repercussão Geral. Surge a repercussão geral da matéria veiculada no recurso extraordinário – a subsistência do art. 13 da Lei 8.620/1993, a prever a responsabilidade solidária dos sócios ante contribuição social devida por pessoa jurídica a revelar sociedade por cotas de responsabilidade limitada” (RE 567.932-RG); “Ementa: Agravo Regimental no Agravo de Instrumento. Recurso Extraordinário. Repercussão Geral. Preliminar Formal e Fundamentada. Inexistência. não Impugnação dos Fundamentos da Decisão Agravada. 1. O agravante não apresentou preliminar formal e fundamentada, no recurso extraordinário, da repercussão geral das questões constitucionais debatidas no caso, não tendo sido observado o disposto no art. 543-A, § 2.º, do Código de Processo Civil, introduzido pela Lei 11.418/2006. 2. O STF fixou entendimento no sentido da exigência da demonstração formal e fundamentada no recurso extraordinário da repercussão geral das questões constitucionais discutidas quando a intimação do acórdão recorrido tenha ocorrido a partir de 3.05.2007, data da publicação da Emenda Regimental n. 21, de 30 de abril de 2007. Precedente. 3. O agravante deve, em suas razões, impugnar todos os fundamentos da decisão atacada sob pena de não conhecimento do recurso interposto [art. 317, § 1.º, do RISTF]. Agravo regimental a que se nega provimento” (STF, 2.ª T., AI-AgRg n. 726.269, rel. Min. Eros Grau); “Ementa: 1. Agravo regimental. Interposição contra aplicação da sistemática da repercussão geral. Inadmissibilidade. 2. Constitucional. Tributário. IPTU. Alíquotas. Progressividade instituída antes da EC 29/2000. Inconstitucionalidade. Súmula 668 do STF. Agravo parcialmente conhecido e, nesta parte, desprovido” (RE-AgRg n. 397.759, rel. Min. Teori Zavascki, 18.12.2012); “Ementa: “1. O enquadramento eventual de uma Organização Social previamente reconhecida como Entidade Beneficente de Assistência Social depende da averiguação, em concreto, do preenchimento dos requisitos estabelecidos na norma infraconstitucional, e, para tanto, torna-se imprescindível o reexame fático-probatório, inviável na instância extraordinária. 2. Incide, no caso, o óbice da Súmula 279/ STF, verbis: Para simples reexame de prova não cabe recurso extraordinário. 3. O Plenário virtual do Supremo negou a repercussão geral do tema de fundo versado nos presentes autos, por ocasião do julgamento do RE 62.442, cuja ementa restou assim editada: ‘Recurso. Extraordinário. Inadmissibilidade. Imunidade tributária. Entidade beneficente de assistência social. Requisitos legais. Tema infraconstitucional. Precedentes. Ausência de repercussão geral. Recurso extraordinário não conhecido. Não apresenta repercussão geral recurso extraordinário que, tendo por objeto o preenchimento dos requisitos impostos pelo art. 55 da Lei 8.212/1991, aptos a caracterizar pessoa jurídica como entidade beneficente de assistência social, para efeitos de reconhecimento de imunidade tributária, versa sobre tema infraconstitucional.’ 4. Agravo Regimental a que se nega provimento” (STF, 1.ª T., AI-AgRg n. 848.643, rel. Min. Luiz Fux, 18.12.2012). Também consultar: STF, 2.ª T., AI-AgRg n. 726.795, rel. Min. Eros Grau; STF, 2.ª T., RE-AgRg n. 592.882, rel. Min. Eros Grau; RE-AgRg 630036, Rosa Weber, STF; STF, RE-AgR-terceiro n. 394.011, Luiz Fux, STF; entre outros. 121. Sobre esses critérios consulte-se nosso Defesa e vulnerabilidade do contribuinte cit., p. 71 e ss. 122. Para uma compreensão do problema vejam-se, com proveito: José Carlos Barbosa Moreira, “O Benefício da Dilação de Prazo para a Fazenda Pública”, RePro 1/51; Nelson Nery Jr., “O Benefício da Dilação do Prazo para o MP no Direito Processual Civil Brasileiro: Interpretação do art. 188 do CPC”, RePro 30/109; Sérgio Ferraz, “Privilégios Processuais da Fazenda Pública e o Princípio da Isonomia”, Revista de Direito Público 53/38. 123. Para o exame aprofundado das prerrogativas e particularidades da Fazenda Pública em Juízo, consulte-se a excelente sistematização realizada por Leonardo Carneiro da Cunha, em seu livro A Fazenda Pública em Juízo, 10. ed., São Paulo: Dialética, 2012. 124. CPC/1973, art. 27: “As despesas dos atos processuais, efetuados a requerimento do Ministério Público ou da Fazenda Pública, serão pagas a final pelo vencido”. 125. CPC/2015, art. 91: “As despesas dos atos processuais, efetuados a requerimento da Fazenda Pública, do Ministério Público ou da Defensoria Pública serão pagas a final pelo vencido”. 126. LEF, art. 39: “A Fazenda Pública não está sujeita ao pagamento de custas e emolumentos. A prática dos atos judiciais de seu interesse independerá de preparo ou de prévio depósito. Parágrafo único. Se vencida, a Fazenda Pública ressarcirá o valor das despesas feitas pela parte contrária”. 127. Sem embargo, a matéria nem sempre foi pacífica pois o antigo Tribunal Federal de Recursos (TRF) chegou a lançar duas súmulas nas quais desobrigava a Fazenda Pública da antecipação de despesas de oficial de justiça (Súmula 154) e de avaliador (Súmula 99). Também o TRF da 3.ª Região pacificou entendimento no sentido de dispensar a Fazenda Pública da antecipação de numerário para cobrir despesas de oficial de justiça (Súmula 4). 128. Sobre o tema, veja-se decisão do STJ: “Processual Civil e Tributário. Execução Fiscal. Fazenda Pública. Antecipação dos Honorários do Perito. Súmula 232/STJ. Inexistência de Violação do Art. 557, caput, do CPC. 1. Entendimento pacífico desta Corte no sentido de que ‘a Fazenda Pública, quando parte no processo, fica sujeita à exigência do depósito prévio dos honorários do perito’ (Súmula 232/ STJ). 2. Precedentes: AgRg no REsp 622.546/RJ, rel. Min. Denise Arruda, 1.ª T., DJ 01.02.2007; REsp 686.347/RS, rel. Min. Eliana Calmon, 2.ª T., DJ 19.12.2005; REsp 753.575/SP, rel. Min. José Delgado, 1.ª T., DJ 29.08.2005. 3. Segundo art. 557, caput, do CPC, é facultado ao relator decidir monocraticamente o recurso quando entendê-lo manifestamente improcedente, ou contrário a súmula ou entendimento já pacificado pela jurisprudência daquele Tribunal, ou de Cortes Superiores, em atenção à economia e celeridade processuais. 4. Recurso especial não provido” (STJ, 2.ª T., REsp 771.665/RS, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 22.08.2008. Também: STJ, 2.ª T., REsp 541.032/SC, rel. Min. Herman Benjamin, DJe 27.03.2009). Nesse mesmo sentido, têm se manifestado os Tribunais Regionais Federais: TRF1, 3.ª T., Ag 0003258-33.2012.4.01.0000, Desembargador Federal Catão Alves, e-DJF1 20.09.2013, p. 316; TRF3, 8.ª T., AI n. 00147881920084030000, Juíza Convocada Raquel Perrini, e-DJF3 Judicial 1 20.05.2013; TRF3, 2.ª T., AI n. 00358637520124030000, Desembargadora Federal Cecilia Mello, e-DJF3 Judicial 1 09.05.2013, entre outros. 129. MedProv 1.577-6/97. 130. O art. 183 do CPC/2015, que corresponde ao art. 188 do CPC/1973, dispõe expressamente que o prazo em dobro é deferido “para todas as suas manifestações processuais”. 131. MedProv 1.798-3/99. 132. “Quando uma das partes é o Estado, a jurisprudência tem transigido com alguns favores legais que, além da vetustez, têm sido reputados como não arbitrários por visarem compensar dificuldades de defesa em juízo das entidades públicas; se, ao contrário, desafiam a medida da razoabilidade ou da proporcionalidade, caracterizam privilégios inconstitucionais; parece ser esse o caso das inovações discutidas, de favorecimento unilateral aparentemente não explicável por diferenças reais entre as partes e que, somadas a outras vantagens processuais da Fazenda Pública, agravam a consequência perversa de retardar sem limites a satisfação do direito do particular já reconhecido em juízo” (STF, ADIn 1.753-2, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 16.04.1998, DJU 12.06.1998, v.u.). 133. O art. 18 da Lei 10.522/2002dispensa a constituição de créditos da Fazenda Nacional, a inscrição como Dívida Ativa da União, ou ajuizamento da respectiva execução fiscal, assim como o cancelamento do lançamento e da inscrição com relação aos seguintes tributos: I – à contribuição de que se trata a Lei 7.689/1988, incidente sobre o resultado apurado no período-base encerrado em 31.12.1988; II – ao empréstimo compulsório instituído pelo Dec.-lei 2.288/1986, sobre a aquisição de veículos automotores e de combustível; III – à contribuição ao Fundo de Investimento Social – Finsocial, exigida das empresas exclusivamente vendedoras de mercadorias e mistas, com fundamento no art. 9.º da Lei 7.689/1988; IV – ao IPMF, instituído pela LC 77/1993, relativo ao ano- base 1993, e às imunidades previstas no art. 150, inc. VI, alíneas “a”, “b”, “c” e “d” da CF/1988; V – à taxa de licenciamento de importação, exigida nos termos do art. 10 da Lei 2.145/1953, com a redação da Lei 7.690/1988, VI – à sobretarifa ao Fundo Nacional de Telecomunicações; VII – ao adicional de tarifa portuária, salvo em se tratando de operações de importação e exportação de mercadorias quando objeto de comércio de navegação de longo curso; VIII – à parcela da contribuição ao PIS exigida na forma dos Dec-lei n.º 2.445/ 1988 e 2.449/1988; IX – à Cofins, nos termos do art. 7.º da LC 70/1991, com a redação dada pelo art. 1.º da LC 85/1996; X – à Cota de Contribuição revigorada pelo art. 2.º do Dec.-lei 2.295, de 21.11.1986, com a redação dada pelo art. 3.º da Lei 11.051/2004. 134. A Lei 10.522/2002 sofreu alterações posteriores, sobretudo pelas Leis nºs 10.637/2002, 11.051/2004, 10.954/2004, 11.345/2006, 11.033/2004, 11.941/2009, 12.453, de 2011 e Lei 12.649, de 2012. 135. O Parecer em referência é da lavra da procuradora Luana Vargas de Macedo e, em seu trâmite peculiar, recebeu o “de acordo” do Coordenador de Consultoria Jurídica, João Batista de Figueiredo, do Coordenador-Geral de Representação Judicial da Fazenda Nacional, Claudio Xavier Seefelder Filho, do Procurador-Geral Adjunto de Consultoria e Contencioso Tributário, Fabrício Soller e, por fim, a “aprovação” da Procuradora-Geral da Fazenda Nacional, Adriana Queiroz de Carvalho. 136. Que, neste item, denominaremos apenas “Parecer” ou “Parecer PGFN/CRJ/n. 492/10”. 137. Fls. 27 do Parecer PGFN/CRJ/n. 492/10. 138. Essas foram as conclusões a que chegamos no artigo denominado “Força Persuasiva dos Precedentes e Legitimidade Democrática do STJ e do STF” (Grandes Questões Atuais do direito tributário, vol. 15, coord. de Valdir de Oliveira Rocha, São Paulo: Dialética, 2011), ao qual nos remetemos para exame mais aprofundado do tema. 139. Como, exemplificativamente: (i) arquivamento, sem baixa de distribuição, dos autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais); (ii) extinção das execuções que versem exclusivamente sobre honorários devidos à Fazenda Nacional de valor igual ou inferior a 100 Ufirs (cem unidades de referência); (iii) isenção do autor da demanda proposta contra a União (Fazenda Nacional), do pagamento dos honorários de sucumbência de natureza tributária, quando desista da ação e renuncie ao direito sobre que ela se funda, e desde que: I – a decisão proferida no processo de conhecimento não tenha transitado em julgado; II – a renúncia e o pedido de conversão tenham sido protocolizados até 15 de setembro de 1997. 140. “Atualmente é rara a ocorrência de situações nas quais a Fazenda Pública ponha obstáculos ao pagamento de tributos, até porque as normas do Código Tributário Nacional relativas aos efeitos do pagamento tornam sem sentido qualquer oposição” (Hugo de Brito Machado, Curso de direito tributário, São Paulo: Malheiros, 2002, p. 407). 141. “O pagamento mediante consignação funda-se no pressuposto de que, se o credor tem direito de cobrar, o devedor também tem direito subjetivo e interesse econômico e moral de pagá-lo, já pelas repercussões da mora em seu patrimônio e em seu crédito, já pelos incômodos que lhe poderão advir do inadimplemento da obrigação” (Aliomar Baleeiro, Direito Tributário Brasileiro, atual. por Misabel Abreu Machado Derzi. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 874). 142. “Art. 156. Extinguem o crédito tributário: (…) VIII – a consignação em pagamento, nos termos do disposto no § 2.º do art. 164. (…)”. 143. “As alegações relativas à inconstitucionalidade da progressividade do IPTU e da utilização da mesma base de cálculo para lançamento de taxas de serviço podem e devem também ser apreciadas em sede de ação de consignação em pagamento, em face do controle difuso de constitucionalidade das leis, único cabível em se tratando de inconstitucionalidade de lei municipal perante a Constituição Federal” (Revista dos Tribunais 780/260). 144. Parece-nos pertinente fazer uma breve distinção entre a modalidade de depósito e de consignação em pagamento. O depósito, contido no art. 151, inc. II do CTN, tem como pressuposto a posterior discussão do crédito tributário, que se entende por indevido. Em outros termos, o contribuinte depositante recorre à tutela jurisdicional do Estado, dentro da esfera administrativa ou da judicial, para discutir – mediante o depósito da quantia controvertida – a exigência do crédito tributário. Em contrapartida, na consignação em pagamento o consignante tem o seu animus postado na consciência de que o crédito tributário é devido, razão pela qual pretende adimpli-lo. No entanto, em virtude da ocorrência de alguma das hipóteses elencadas no art. 164 do CTN, o contribuinte não consegue efetuar o pagamento de seu débito, não obstante a sua concordância com a imposição tributária. Desse modo, utiliza-se da consignação em pagamento como instrumento processual apropriado à obtenção da quitação do crédito tributário. Podemos conferir tal distinção no seguinte trecho: “(…) a consignação em pagamento não se confunde com o depósito, ainda que em juízo, do valor do tributo. O depositante não quer pagar, quer discutir o questionado débito e, se vencedor, recobrar o depósito. Já o consignante não quer discutir o débito, quer pagá-lo. Não obstante, na pendência da ação de consignação, entendemos que a exigibilidade da obrigação fica suspensa, o que é confirmado pelo § 2.º, segunda parte, ao dizer que, julgada improcedente a consignação (e não antes), o crédito é cobrável” (Luciano Amaro, Direito Tributário Brasileiro, 16. ed., atual., São Paulo: Saraiva, 2010, p. 421-422). 145. “Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: (…) II – o depósito do seu montante integral. (…)”. 146. Lei 9.703, de 17.11.1998: “Art. 1.º Os depósitos judiciais e extrajudiciais, em dinheiro, de valores referentes a tributos e contribuições federais, inclusive seus acessórios, administrados pela Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda, serão efetuados na Caixa Econômica Federal, mediante Documento de Arrecadação de Receitas Federais – DARF, específico para essa finalidade. § 1.º O disposto neste artigo aplica-se, inclusive, aos débitos provenientes de tributos e contribuições inscritos em Dívida Ativa da União. § 2.º Os depósitos serão repassados pela Caixa Econômica Federal para a Conta Única do Tesouro Nacional, independentemente de qualquer formalidade, no mesmo prazo fixado para recolhimento dos tributos e das contribuições federais. § 3.º Mediante ordem da autoridade judicial ou, no caso de depósito extrajudicial, da autoridade administrativa competente, o valor do depósito, após o encerramento da lide ou do processo litigioso, será: I – devolvido ao depositante pela Caixa Econômica Federal, no prazo máximo de vinte e quatro horas, quando a sentença lhe for favorável ou na proporção em que o for, acrescido de juros, na forma estabelecida pelo § 4.º do art. 39 da Lei 9.250,de 26.12.1995, e alterações posteriores; ou II – transformado em pagamento definitivo, proporcionalmente à exigência do correspondente tributo ou contribuição, inclusive seus acessórios, quando se tratar de sentença ou decisão favorável à Fazenda Nacional. § 4.º Os valores devolvidos pela Caixa Econômica Federal serão debitados à Conta Única do Tesouro Nacional, em subconta de restituição. § 5.º A Caixa Econômica Federal manterá controle dos valores depositados ou devolvidos”. 147. A Lei 10.482/2002 foi revogada pela Lei 11.429, de 26.12.2006. Assim, no que tange ao depósito judicial referente a tributos, de competência dos Estados e do Distrito Federal, observe-se o disposto no art. 1.º da Lei 11.429/2006: “Art. 1.º Os depósitos judiciais em dinheiro referentes a tributos e seus acessórios, de competência dos Estados e do Distrito Federal, inclusive os inscritos em dívida ativa, serão efetuados em instituição financeira oficial da União ou do Estado, mediante a utilização de instrumento que identifique sua natureza tributária. § 1.º Os Estados e o Distrito Federal poderão instituir fundo de reserva destinado a garantir a restituição da parcela dos depósitos referidos no caput deste artigo que lhes seja repassada nos termos desta Lei. § 2.º Ao Estado e ao Distrito Federal que instituir o fundo de reserva de que trata o § 1.º deste artigo será repassada pela instituição financeira referida no caput deste artigo a parcela correspondente a 70% (setenta por cento) do valor dos depósitos de natureza tributária nela realizados. § 3.º A parcela dos depósitos não repassada nos termos do § 2.º deste artigo será mantida na instituição financeira recebedora, que a remunerará segundo os critérios originalmente atribuídos aos depósitos. (…)”. 148. Lei 9.250, de 26.12.1995: “Art. 39 A compensação de que trata o art. 66 da Lei 8.383, de 30.12.1991, com a redação dada pelo art. 58 da Lei 9.069, de 29.06.1995, somente poderá ser efetuada com o recolhimento de importância correspondente a imposto, taxa, contribuição federal ou receitas patrimoniais de mesma espécie e destinação constitucional, apurado em períodos subsequentes. (…) § 4.º A partir de 01.01.1996, a compensação ou restituição será acrescida de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia – Selic para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir da data do pagamento indevido ou a maior até o mês anterior ao da compensação ou restituição e de 1% relativamente ao mês em que estiver sendo efetuada”. 149. “Recurso Especial – Tributário – Rendimentos de Depósito Judicial – Incidência de Imposto de Renda – O depósito judicial não é, desde logo, pagamento liberatório da obrigação, pois visa a garantir o juízo e demonstrar, em princípio, a um tempo, a solvibilidade do contribuinte e seu propósito não procrastinatório. ‘Legalidade da Lei 8.541/1992, que proibiu expressamente a dedução dos depósitos do lucro real, sem violação ao art. 43 do CTN’ (REsp 226.978/PR, rel. Min. Eliana Calmon, DJU 05.02.2001). Não se conhece do recurso especial quando os dispositivos legais tidos por violados sequer foram prequestionados, aplicando-se, por analogia, a Súmula 282 do STF. Recurso especial não conhecido” (STJ, 2.ª T., REsp 144.837/RS, rel. Min. Franciulli Netto, DJU 03.06.2002). Em semelhante sentido: TRF1, 5.ª T., AC 200001000614566, Juiz Federal Wilson Alves de Souza, e-DJF1 14.08.2013, p. 101; TRF3, 4.ª T., AMS 00414827819964036100, Desembargadora Federal Alda Basto, e-DJF3 Judicial 1 12.08.2013, entre outros. 150. “Consignação em Pagamento – Débito fiscal. Dúvida sobre qual município estaria legitimado para o lançamento de tributos sobre o imóvel. Desnecessidade do depósito inicial em favor de ambos os entes políticos que ocupam o polo passivo, pois apenas um faz jus ao valor consignado. Preliminar de inépcia da inicial afastada. Recurso – Reexame necessário. Âmbito. Possibilidade de o Tribunal, ao apreciar a apelação, reexaminar a sentença de ofício, nos casos do art. 475 do CPC, independentemente de remessa expressa do magistrado de 1.º instância. Preliminar rejeitada. Consignação em Pagamento – Débito fiscal. Possibilidade jurídica do pedido. Hipótese em que o disposto no art. 12 e seus §§, do ADCT, não tem o alcance pretendido pelo recorrente. Preliminar de carência afastada. Consignação em Pagamento – Depósito fiscal. Imóvel objeto dos lançamentos tributários localizado no Município de São José do Rio Preto, em relação ao qual foi declarada extinta a obrigação dos autores, embora matriculado no Município de Bady Bassit, segundo o laudo pericial juntado aos autos. Competência de Instituto Geográfico e Cartográfico para demarcar as linhas divisórias entre municípios do Estado de São Paulo. Ação procedente. Recursos improvidos” (1.º TACSP, São José do Rio Preto, 9.ª Câmara, Ap 765.097-5, rel. Juiz Armindo Freire Mármora, j. 13.04.1999). 151. Ademais, o STJ tem reiteradamente decidido pelo não cabimento da ação consignatória para obtenção oblíqua do parcelamento: “Tributário. Agravo Regimental. Parcelamento. Ação Consignatória. Não cabimento. Denúncia Espontânea. Não Configurada. Taxa Selic. Aplicação Temporal. 1. Encontra-se pacificado o entendimento do STJ no sentido de que ‘[o] deferimento do parcelamento do crédito fiscal subordina-se ao cumprimento das condições legalmente previstas. Dessarte, afigura-se inadequada a via da ação de consignação em pagamento, cujo escopo é a desoneração do devedor, mediante o depósito do valor correspondente ao crédito, e não via oblíqua à obtenção de favor fiscal, em burla à legislação de regência’ (REsp 554.999/RS, rel. Min. Luiz Fux, 1.ª T., DJU 10.11.2003). 2. A referida ação possui natureza meramente declaratória, ou seja, objetiva somente liberar o devedor de sua obrigação tributária, com a quitação de seu débito, por meio de depósito judicial, e não obter o parcelamento do débito negado na esfera administrativa. 3. Prejudicada, portanto, a análise do art. 148 do CTN, na medida em que não há, no caso, hipótese de denúncia espontânea. 4. Em relação à aplicação da Taxa Selic, também é pacífica a orientação desta Corte Superior no sentido de sua aplicabilidade a partir de janeiro/1996. 5. Agravo regimental não provido” (STJ, 2.ª T., REsp 639.279/RS, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 04.02.2010). Também, nesse sentido: STJ, 1.ª T., REsp 200400022259, rel. Ministra Denise Arruda, DJ 17.09.2007, p. 209; TRF da 2.ª Região, 4.ª Turma Especializada, AC 200251010250639, Desembargador Federal Antonio Henrique C. da Silva, DJU 14.10.2009, p. 134. 152. “Art. 899. (…) § 2.º A sentença que concluir pela insuficiência do depósito determinará, sempre que possível, o montante devido, e, neste caso, valerá como título executivo, facultado ao credor promover-lhe a execução nos mesmos autos”. 153. “Considera-se a ação predominantemente declarativa, porque o ato de depósito, objeto do julgamento final, é da parte e não do juízo. A sentença se limita a reconhecer a eficácia liberatória do depósito promovido pelo devedor. O que extingue, portanto, a dívida não é a sentença, mas o depósito do devedor. A sentença proclama apenas essa extinção” (Humberto Theodoro Jr., Curso de Direito Processual Civil, vol. III, Rio de Janeiro: Forense, 1989, p. 1.457). 154. “Art. 890. Nos casos previstos em lei, poderá o devedor ou terceiro requerer, com efeito de pagamento, a consignação da quantia ou da coisa devida. § 1.º Tratando-se de obrigação em dinheiro, poderá o devedor ou terceiro optar pelo depósito da quantia devida, em estabelecimento bancário, oficial onde houver, situado no lugar do pagamento, em conta com correção monetária, cientificando-se o credor por carta com aviso de recepção, assinado o prazo de 10 (dez) dias para a manifestação de recusa. (…)”. 155. “Art. 539. Nos casos previstos em lei, poderá o devedor ou terceiro requerer, com efeito de pagamento, a consignação da quantiaou da coisa devida. § 1.º Tratando-se de obrigação em dinheiro, poderá o valor ser depositado em estabelecimento bancário, oficial onde houver, situado no lugar do pagamento, cientificando-se o credor por carta com aviso de recebimento, assinado o prazo de 10 (dez) dias para a manifestação de recusa”. 156. No mesmo sentido a opinião de Nelson Nery Jr. e Rosa Maria de Andrade Nery, Código de Processo Civil Comentado, São Paulo: Ed. RT, 2002, glosa n. 9 ao art. 890, p. 1.110 e 1.111. 157. Sobre relações tributárias instantâneas ou continuativas, veja-se, infra, Capítulo 13, item 3. 158. “Art. 164. A importância do crédito tributário pode ser consignada judicialmente pelo sujeito passivo, nos casos: (…) III – de exigência, por mais de uma pessoa jurídica de direito público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. (…)”. 159. Código Civil de 2002, art. 335, inc. IV: “A consignação tem lugar: (…) IV – se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o objeto do pagamento”. 160. Nesse sentido, pronunciou-se o STJ: “Processual Civil. Recurso Especial. Tributário. Ação de Consignação em Pagamento. Empresa Prestadora de Serviço de Conexão à Internet. Adequação da Via Eleita. Recurso Provido. 1. Não obstante o entendimento doutrinário no sentido de admitir a ação de consignação em pagamento, com base no art. 164, III, do CTN, apenas quando houver dúvida subjetiva em relação a entes tributantes que possuam a mesma natureza (Estado contra Estado e Município contra Município) – tese acolhida pelo Tribunal de origem –, a doutrina majoritária tem admitido a utilização da ação mencionada quando plausível a incerteza subjetiva, mesmo que se trate de impostos cobrados por entes de natureza diversa. 2. Acrescente-se que, nos termos do art. 895 do CPC, ‘se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o pagamento, o autor requererá o depósito e a citação dos que o disputam para provarem o seu direito’. Como bem esclarecem Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery, nessa hipótese, ‘a providência do devedor é acautelatória de seus direitos’, pois ‘quer pagar bem e não incorrer no risco que lhe adviria de pagar para quem não é o legítimo credor da prestação’ (Código de Processo Civil Comentado e legislação extravagante, 10. ed., São Paulo: Ed. Rev. dos Tribunais, 2007, pág. 1.151). 3. No caso concreto, considerando que a autora (ora recorrente) é prestadora de serviço de conexão à Internet, revela-se plausível a dúvida quanto ao imposto devido – ICMS ou ISS –, tendo em vista que ambos foram exigidos pelos respectivos entes tributantes. Assim, a circunstância de a dúvida recair sobre impostos diversos que incidem sobre um mesmo fato gerador, por si só, não enseja a inviabilidade da ação de consignação em pagamento com a consequente extinção do processo sem resolução de mérito. 4. Recurso especial provido” (STJ, 1.ª T., REsp 931.566/MG, rel. Ministra Denise Arruda, DJe 07.05.2009, RSTJ Vol. 00215, p. 00157). No mesmo sentido: “Ementa: Processual Civil e Tributário. Dúvidas sobre o Tributo: ISSQN ou ICMS e sobre o Ente Tributante: Estado ou Município. Ação de Consignação em Pagamento. Possibilidade. 1. ‘Não obstante o entendimento doutrinário no sentido de admitir a ação de consignação em pagamento, com base no art. 164, III, do CTN, apenas quando houver dúvida subjetiva em relação a entes tributantes que possuam a mesma natureza (Estado contra Estado e Município contra Município) (…), a doutrina majoritária tem admitido a utilização da ação mencionada quando plausível a incerteza subjetiva, mesmo que se trate de impostos cobrados por entes de natureza diversa.’ (REsp 931.566/MG, 1.ª T., Min. Denise Arruda, DJe 07.05.2009). 2. Recurso especial a que se nega provimento” (STJ, 1.ª T., REsp 200901880630, rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe 12.08.2011, RDDT n. 193, p. 188, RTFP vol. 100, p. 418). 161. Vejam-se, no Código Civil de 2002, os arts. 308 e 344, respectivamente: “O pagamento deve ser feito ao credor ou a quem de direito o represente, sob pena de só valer depois de por ele ratificado, ou tanto quanto reverter em seu proveito”; “O devedor de obrigação litigiosa exonerar-se-á mediante consignação, mas, se pagar a qualquer dos pretendidos credores, tendo conhecimento do litígio, assumirá o risco do pagamento”. 162. “A dúvida do devedor, que, para ser procedente, deve, ao menos, ser razoável, pode referir-se à legitimidade do titular do crédito ou à do representante autorizado a receber” (Alexandre de Paula, Código de Processo Civil Anotado, vol. IV, 5. ed. rev. e atual., São Paulo: Ed. RT, 1992, p. 3.365). 163. Indaga Pontes de Miranda: “Quando é que a prestação é ‘disputada’ por mais de um pretendente? Havemos de entender quando haja duas ou mais de duas pessoas que se digam com pretensão à prestação, o que supõe, não simples dúvida, ou suspeita, mas situação caracterizada de disputa; e.g., lide, prova de discussão sobre a legitimação de direito material extrajudicial” (Comentários ao Código de Processo Civil, t. XIII, Rio de Janeiro: Forense, 1977, p. 30). 164. “Art. 334. Não dependem de prova os fatos: I – notórios. (…)”. 165. Sobre o tema, conferir: “Agravo de Instrumento. Administrativo. SFH. Ação de Consignação em Pagamento. Conversão para o Rito Ordinário. Depósito. Valores Controversos. Relevante Razão de Direito e Risco de Dano Irreparável. 1 – A edição da Lei 10.931/2004 significou a positivação do entendimento jurisprudencial que admitia a efetivação de depósito de valores no âmbito das ações ordinárias, dispensando-se a propositura conjunta da ação consignatória para este fim. 2 – Não há razão para se sustentar a interposição de uma ação de consignação em pagamento que objetiva – além do depósito de valores – a revisão do contrato de financiamento habitacional, quando existe norma específica versante sobre tal hipótese, que admite o emprego do rito ordinário. 3 – No caso vertente não é aplicável o art. 50, § 4.º da Lei 10.931/2004, que expressa sobre a possibilidade de o autor ser dispensado do depósito da importância controvertida, em caso de relevante razão de direito e risco de dano irreparável ao autor, pois nesta causa tais pressupostos não se configuram” (TRF da 4.ª Região, 1.ª Turma Suplementar, AI n. 2005.04.01.019063-4, rel. Loraci Flores de Lima, DJ 08.03.2006, p. 763). Em semelhante sentido: TRF da 3.ª Região, 5.ª T., AI n. 00132615620134030000, Desembargador Federal Antonio Cedenho, e-DJF3 Judicial 1 10.09.2013; TRF da 2.ª Região, 5.ª Turma Especializada, Ag 200902010098240, Desembargador Federal Marcus Abraham, e-DJF2R 09.08.2013, entre outros. 166. “Art. 54. Considera-se litisconsorte da parte principal o assistente, toda vez que a sentença houver de influir na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido. Parágrafo único. (…)” 167. Sobre o regime processual da assistência litisconsorcial consulte-se, com grande proveito, Thereza Arruda Alvim, O Direito Processual de estar em Juízo, São Paulo: Ed. RT, 1996. 168. “Consignação em Pagamento – Imposto. Predial e territorial urbano. Lançamento tributário efetuado por dois municípios. Dúvida sobre quem seja o legítimo credor. Ação consignatória ajuizada pelo contribuinte. Procedimento correto, uma vez que só uma pessoa jurídica de direito público tem legitimidade para recebe-lo. Reconhecimento da legitimidade do Município de São José do Rio Preto. Ação procedente. Recursos improvidos” (1.º TACSP, São José do Rio Preto, 11.ª Câmara, Ap 910.322-2 – 40.539, rel. Juiz Antonio Marson, j. 22.02.2001). 169. Cf: “(…) Trata-se de consignação em pagamento em que o autor alega ser legítimo possuidor de um imóvel residencial composto pelo lote n. 001 da quadra 009, situado na Alameda das Acácias, Arujá, São Paulo, do loteamento denominado Arujá Country, consoante escritura de compra e venda de fls. 08/10. Assevera que o imóvel, apesar de localizado no Município de Arujá, ondesão recolhidos o IPTU e as taxas, encontra-se também cadastrado na Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba. Informa que, a partir de 1998 acentuaram-se as questões existentes em relação à linha divisória dos limites territoriais de ambos os municípios, levando-os a tributarem o mesmo imóvel de propriedade do autor. Diante de tal situação, sobreveio a dúvida a quem legitimamente deva pagar, razão pela qual depositou em juízo os valores atinentes aos tributos. Dos autos, infere-se ter sido deferido o pedido (fls. 17), sendo efetuado o depósito judicial na quantia de R$ 541,37, com base na cota única do lançamento do IPTU pela Prefeitura de Arujá do exercício de 2000 (fls. 18). Com a realização do depósito, declarou o magistrado de primeiro grau o cumprimento da obrigação tributária por parte do autor, determinando o prosseguimento do feito única e tão somente entre as rés, com suspensão dos autos até julgamento final da ação cominatória, havida entre as Municipalidades (processo n. 767/1997) – fls. 101 (…)” (Ap 9163148-30.2006.8.26.0000, rel. Camargo Aranha Filho Comarca, Santa Isabel, Órgão julgador: 18.ª Câmara de Direito Público, data do julgamento 20.10.2011, data de registro 18.01.2012, TJ-SP. Em semelhante sentido: Ap 0204831-35.2008.8.26.0000. Rel. Rubens Rihl Comarca, Paraguaçu Paulista, Órgão julgador: 8.ª Câmara de Direito Público, data do julgamento 30.11.2011, data de registro, 19.12.2011, TJ-SP). 170. “Consignação em Pagamento – Imposto. Predial e Territorial urbano. Municípios de Bady Bassit e São José do Rio Preto. Ação movida por proprietário de imóvel tributado por dois municípios. Dúvida sobre quem seja o legítimo credor. Hipótese plausível de inquietação, justificadora da ação. Extinção da obrigação diante do município onde, fisicamente, se encontra situado o imóvel tributado. Prova documental bastante para aclaramento da questão. Ação procedente. Recursos oficial e voluntário improvidos” (1.º TACSP, São José do Rio Preto, 6.ª Câmara, Ap 918.276-7, rel. Juiz Marciano da Fonseca, j. 17.10.2000). Em idêntico sentido: Tribunal de Justiça de São Paulo, 27.ª Câmara de Direito Privado, Ap 9162220-45.2007.8.26.0000, rel. Morais Pucci, 14.08.2012. 171. “Consignação em Pagamento – Débito fiscal. Alegação de que a Municipalidade nunca se recusou a receber os valores objeto do lançamento. Irrelevância. Hipótese em que o imóvel está sujeito a dois lançamentos de municípios diverso, ensejando razoável dúvida ao contribuinte e autorizando o ajuizamento desta ação. Art. 898 do CPC. Consignatória procedente. Recurso improvido” (1.º TACSP, São José do Rio Preto, 8.ª Câmara, Ap 763.102-3 – 31.285, rel. Juiz Maurício Ferreira Leite, j. 24.03.1999). Em linha semelhante: Tribunal de Justiça de São Paulo, Ap 9163148-30.2006.8.26.0000, rel. Camargo Aranha Filho, 20.10.2011; Tribunal de Justiça de São Paulo, 14.ª Câmara de Direito Público, Ap 0144053-70.2006.8.26.0000, rel. Gonçalves Rostey, 25.08.2011. 172. “Art. 50. Pendendo uma causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro, que tiver interesse jurídico em que a sentença seja favorável a uma delas, poderá intervir no processo para assisti-la. Parágrafo único. A assistência tem lugar em qualquer dos tipos de procedimento e em todos os graus da jurisdição; mas o assistente recebe o processo no estado em que se encontra”. Não houve alteração de redação no CPC/2015. 173. Sobre o regime processual da assistência litisconsorcial consulte-se, com grande proveito, Thereza Alvim, O Direito Processual de estar em Juízo, São Paulo: Ed. RT, 1996. 174. Assim preceituava o art. 12 do Dec.-lei 406/1968, revogado pela LC 116/2003: “Art. 12. Considera-se local da prestação do serviço:a) o do estabelecimento do prestador ou, na falta de estabelecimento, o do domícilio do prestador;b) no caso de construção civil o local onde se efetuar a prestação”. 175. “Embargos de Divergência. ISS. Competência. Local da prestação de serviço. Precedentes. I – para fins de incidência do ISS – Imposto Sobre Serviços –, importa o local onde foi concretizado o fato gerador, como critério de fixação de competência do município arrecadador e exigibilidade do crédito tributário, ainda que se releve o teor do art. 12, alínea ‘a’ do Dec.-lei 406/68. II – embargos rejeitados” (STJ, 1.ª Seção, EREsp 130.792/CE, rel. Min. Ari Pargendler, DJ 12.06.2000) No mesmo sentido: acórdão unânime da 1.ª Turma do STJ, AgRg nos Edcl no Agravo de Instrumento n. 468.839/DF, rel. Min. Francisco Falcão, j. 11.03.2003, DJU 1 05.05.2003, p. 234, Revista Dialética de Direito Tributário 94/232. 176. “ISS – Fato gerador – Domicílio tributário – Agravo desprovido. 1. Interpretando-se o art. 12 do Dec.-lei 406/1968, para fins de cobrança do ISS, considera-se o domicílio tributário do local onde se realizou o fato gerador (prestação do serviço) e não o do estabelecimento do prestador. 2. Agravo regimental desprovido” (STJ, 2.ª T., Agravo Regimental no Agravo de Instrumento n. 196.490/DF, rel. Ministra Eliana Calmon, DJ 29.11.1999). 177. “Tributário. ISS. Competência para imposição da obrigação fiscal – Local da prestação do serviço – Dec. Lei 406/1968, art. 12. 1. Para a incidência do ISS, quanto ao fato gerador, considera-se o local onde se efetiva a prestação do serviço, competindo ao município do território da atividade constitutiva daquele fato a imposição e o recolhimento do tributo. 2. Multiplicidade de precedentes jurisprudenciais. 2. Recurso improvido” (STJ, 1.ª T., REsp 720/MA, rel. Min. Milton Luiz Pereira, DJ 19.04.1995). 178. Outros julgados do STJ no mesmo sentido: REsp 130.792/CE, 1.ª T., rel. Min. José Delgado, DJ 17.11.1997; REsp 54.002/PE, 1.ª T., rel. Min. Demócrito Reinaldo, DJ 08.05.1995; REsp 23.371/SP, 1.ª T., rel. Min. Milton Luiz Pereira, DJ 31.08.1994; REsp 61.615/RN, 1.ª T., rel. Min. Demócrito Reinaldo, DJ 04.12.1995; REsp 41.867/RS, 1.ª T., rel. Min. Demócrito Reinaldo, DJ 25.04.1994. 179. Cf. “Tributário ISS Competência Local da Prestação do Serviço Decreto-lei 406/68 – Precedentes Alteração na L.C. 116/2003 – Lei Aplicável à Espécie. Entendimento que não vulnera a Cláusula de Reserva de Plenário. 1. As duas Turmas que compõem a Primeira Seção desta Corte, na vigência do art. 12 do Dec-lei n. 406/1968, revogado pela LC 116/2003, pacificaram entendimento no sentido de que a Municipalidade competente para realizar a cobrança do ISS é a do local da prestação dos serviços, onde efetivamente ocorre o fato gerador do imposto. 2. Equivocado entendimento do Tribunal ao aplicar a lei tributária vigente quando da prolação da sentença, distanciando-se da regra geral de direito tributário a qual determina a aplicação da lei vigente quando da ocorrência do fato gerador do tributo 3. Recurso especial provido” (STJ, 2.ª T., REsp 1.124.862, rel. Ministra Eliana Calmon, j. 17.11.2009. Em semelhante sentido decisão do TJ-SP: Ap 9118795-02.2006.8.26.0000, rel. Rodrigo Enout Comarca, São Paulo, Órgão julgador: 14.ª Câmara de Direito Público, data do julgamento 10.11.2011, data de registro 17.11.2011). 180. 5. “(…) Nos casos de ISS sobre serviços prestados em local diverso do domicílio do prestador, a competência tributária territorial é do Município no qual este é prestado, onde ocorre a exteriorização da riqueza. Nos casos de arrendamento mercantil, apesar de o domicílio virtual concentrado é um único ente federado (de alíquota usualmente reduzida), as operações são realizadas [p]or todo território nacional através das revendedoras. Ainda que conste do contrato localidade diversa, na realidade o arrendatário dirigiu-se à revendedora para obter o veículo, mesmo tendo feito isso por arrendamento mercantil (Ap. Civ. n. 2006.041613-9, Des. Francisco Oliveira Filho)” (STF, 1.ª T., AI-AgRg n. 843.914). 181. Cf. “Apelação – Ação consignatória. Dúvida sobre em qual município recolher o ISS sobre serviço de engenharia. Sentença que reconheceu como competente o município onde está sediada aautora – São Paulo. Serviço de engenharia consultiva integrado à construção civil. Tributo devido no município onde foi realizada a prestação de serviços, no caso Município de Getulina. Precedente do STJ. Decisão reformada em reexame necessário, para declarar o Município de Getulina credor dos depósitos, impondo o ônus da sucumbência para o Município de São Paulo. Prejudicado recurso voluntário do município de São Paulo” (Ap 9183606-10.2002.8.26.0000, rel. João Alberto Pezarini, 14.ª Câmara de Direito Público. j. 14.07.2011, TJ-SP). No mesmo sentido: Tribunal de Justiça de São Paulo, 14.ª Câmara de Direito Público, Ap 9106105-67.2008.8.26.0000, rel. Rodrigo Enout, 13.12.2012. 182. “Art. 3.º O serviço considera-se prestado e o imposto devido no local do estabelecimento prestador ou, na falta do estabelecimento, no local do domicílio do prestador, exceto nas hipóteses previstas nos incisos I a XXII, quando o imposto será devido no local: I – do estabelecimento do tomador ou intermediário do serviço ou, na falta de estabelecimento, onde ele estiver domiciliado, na hipótese do § 1.º do art. 1.º desta Lei Complementar; II – da instalação dos andaimes, palcos, coberturas e outras estruturas, no caso dos serviços descritos no subitem 3.05 da lista anexa; III – da execução da obra, no caso dos serviços descritos no subitem 7.02 e 7.19 da lista anexa; IV – da demolição, no caso dos serviços descritos no subitem 7.04 da lista anexa; V – das edificações em geral, estradas, pontes, portos e congêneres, no caso dos serviços descritos no subitem 7.05 da lista anexa; VI – da execução da varrição, coleta, remoção, incineração, tratamento, reciclagem, separação e destinação final de lixo, rejeitos e outros resíduos quaisquer, no caso dos serviços descritos no subitem 7.09 da lista anexa; VII – da execução da limpeza, manutenção e conservação de vias e logradouros públicos, imóveis, chaminés, piscinas, parques, jardins e congêneres, no caso dos serviços descritos no subitem 7.10 da lista anexa; VIII – da execução da decoração e jardinagem, do corte e poda de árvores, no caso dos serviços descritos no subitem 7.11 da lista anexa; IX – do controle e tratamento do efluente de qualquer natureza e de agentes físicos, químicos e biológicos, no caso dos serviços descritos no subitem 7.12 da lista anexa; X – (Vetado); XI – (Vetado); XII – do florestamento, reflorestamento, semeadura, adubação e congêneres, no caso dos serviços descritos no subitem 7.16 da lista anexa; XIII – da execução dos serviços de escoramento, contenção de encostas e congêneres, no caso dos serviços descritos no subitem 7.17 da lista anexa; XIV – da limpeza e dragagem, no caso dos serviços descritos no subitem 7.18 da lista anexa; XV – onde o bem estiver guardado ou estacionado, no caso dos serviços descritos no subitem 11.01 da lista anexa; XVI – dos bens ou do domicílio das pessoas vigiados, segurados ou monitorados, no caso dos serviços descritos no subitem 11.02 da lista anexa; XVII – do armazenamento, depósito, carga, descarga, arrumação e guarda do bem, no caso dos serviços descritos no subitem 11.04 da lista anexa; XVIII – da execução dos serviços de diversão, lazer, entretenimento e congêneres, no caso dos serviços descritos nos subitens do item 12, exceto o 12.13, da lista anexa; XIX – do Município onde está sendo executado o transporte, no caso dos serviços descritos pelo subitem 16.01 da lista anexa; XX – do estabelecimento do tomador da mão de obra ou, na falta de estabelecimento, onde ele estiver domiciliado, no caso dos serviços descritos pelo subitem 17.05 da lista anexa; XXI – da feira, exposição, congresso ou congênere a que se referir o planejamento, organização e administração, no caso dos serviços descritos pelo subitem 17.10 da lista anexa; XXII – do porto, aeroporto, ferroporto, terminal rodoviário, ferroviário ou metroviário, no caso dos serviços descritos pelo item 20 da lista anexa. § 1.º No caso dos serviços a que se refere o subitem 3.04 da lista anexa, considera-se ocorrido o fato gerador e devido o imposto em cada Município em cujo território haja extensão de ferrovia, rodovia, postes, cabos, dutos e condutos de qualquer natureza, objetos de locação, sublocação, arrendamento, direito de passagem ou permissão de uso, compartilhado ou não. § 2.º No caso dos serviços a que se refere o subitem 22.01 da lista anexa, considera-se ocorrido o fato gerador e devido o imposto em cada Município em cujo território haja extensão de rodovia explorada. § 3.º Considera-se ocorrido o fato gerador do imposto no local do estabelecimento prestador nos serviços executados em águas marítimas, excetuados os serviços descritos no subitem 20.01”. 183. “Art. 6.º Os Municípios e o Distrito Federal, mediante lei, poderão atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindo-a a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação, inclusive no que se refere à multa e aos acréscimos legais. § 1.º Os responsáveis a que se refere este artigo estão obrigados ao recolhimento integral do imposto devido, multa e acréscimos legais, independentemente de ter sido efetuada sua retenção na fonte. § 2.º Sem prejuízo do disposto no caput e no § 1.º deste artigo, são responsáveis: I – o tomador ou intermediário de serviço proveniente do exterior do País ou cuja prestação se tenha iniciado no exterior do País; II – a pessoa jurídica, ainda que imune ou isenta, tomadora ou intermediária dos serviços descritos nos subitens 3.05, 7.02, 7.04, 7.05, 7.09, 7.10, 7.12, 7.14, 7.15, 7.16, 7.17, 7.19, 11.02, 17.05 e 17.10 da lista anexa”. 184. Cf. Ap 0000106-18.2010.8.26.0452, rel. Mourão Neto Comarca, Piraju, Órgão julgador: 18.ª Câmara de Direito Público, data do julgamento 10.11.2011, TJ-SP; Tribunal de Justiça de São Paulo, 8.ª Câmara de Direito Público, Ap 9193104-23.2008.8.26.0000, rel. Erbetta Filho, 20.06.2013; Tribunal de Justiça de São Paulo, 8.ª Câmara de Direito Público, Ap 0147556-36.2005.8.26.0000, rel. João Carlos Garcia, 09.11.2011, entre outros. 185. “Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: (…) II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior. (…)”. 186. “Art. 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre: (…) III – serviços de qualquer natureza, não compreendidos no art. 155, II, definidos em lei complementar. (…)”. 187. Esse acórdão, da lavra do em. Ministro José Delgado, recebeu a seguinte ementa: “Tributário. Provedor da Internet. Prestação de Serviço de Comunicação, Espécie de Serviço de Telecomunicação. Relação de Natureza Negocial com o Usuário. Fato Gerador de ICMS Determinado. Incidência. LC 87/1996. Lei 9.472/1997. 1. Recurso Especial interposto contra v. Acórdão que entendeu que ‘o provedor de acesso à Internet não presta serviço de comunicação ou de telecomunicação, não incidindo sobre a atividade por ele desempenhada o ICMS’. 2. O Provedor da internet é um agente interveniente prestador de serviços de comunicação, definindo-o como sendo ‘aquele que presta, ao usuário, um serviço de natureza vária, seja franqueando o endereço na Internet, seja armazenando e disponibilizando o site para a rede, seja prestando e coletando informações etc. É designado, tecnicamente, de Provedor de Serviços de Conexão à Internet (PSC), sendo a entidade que presta o serviço de conexão à Internet (SCI)’. (Newton de Lucca, em artigo ‘Títulos e Contratos Eletrônicos’, na obra coletiva ‘Direito e Internet’, pág. 60). 3. O provedor vinculado à Internet tem por finalidade essencial efetuar um serviço que envolve processo de comunicação exigido pelo cliente, por deter meios e técnicas que permitem o alcancedessa situação fática. 4. O serviço prestado pelos provedores está enquadrado como sendo de comunicação, espécie dos serviços de telecomunicações. 5. A LC 87, de 13.09.1996, estabelece, em seu art. 2.º, que incide o ICMS sobre ‘prestações onerosas de serviços de comunicação, por qualquer meio, inclusive a geração, a emissão, a recepção, a transmissão, a retransmissão, a repetição a ampliação de comunicação de qualquer natureza’, círculo que abrange os serviços prestados por provedores ligados à Internet, quando os comercializam. 6. Qualquer serviço oneroso de comunicação está sujeito ao pagamento do ICMS. 7. A relação entre o prestador de serviço (provedor) e o usuário é de natureza negocial visando a possibilitar a comunicação desejada. É suficiente para constituir fato gerador de ICMS. 8. O serviço prestado pelo provedor pela via da Internet não é serviço de valor adicionado, conforme o define o art. 61, da Lei 9.472, de 16.07.1997. 9. Recurso provido”. 188. Acórdão da lavra da Relatora Ministra Eliana Calmon, REsp 456.650/PR, 2.ª Turma do STJ, j. 24.06.2003, DJU 1 08.09.2003, p. 291, Revista Dialética de Direito Tributário 98/148. Em idêntico sentido: STJ, 1.ª T., REsp 200500163382, rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 07.04.2009. 189. O STJ também pactua deste entendimento, por meio da edição da Súmula 334: “ICMS não incide nos serviços de provedores de acesso à internet”. 190. Trata-se da “Redação final do Substitutivo da Câmara dos Deputados ao Projeto de LC 1-B, de 1991, do Senado Federal PLS (Projeto de Lei do Senado) n. 161/89 – Complementar, na Casa de origem”. A redação deste substitutivo foi publicada em 19.12.2002 no Diário da Câmara dos Deputados, e inclui no tópico 1 – Serviços de informática e congêneres, item 1.08, da lista que lhe é anexa o seguinte serviço: “1.08 – Acesso ao conteúdo e aos serviços disponíveis em redes de computadores, dados e informações, bem como suas interligações, provedores de acesso, internet e congêneres”. Os itens sobre informática foram publicados com a seguinte redação na Lista Anexa da LC 116/2003: “1 – Serviços de informática e congêneres. 1.01 – Análise e desenvolvimento de sistemas. 1.02 – Programação. 1.03 – Processamento de dados e congêneres. 1.04 – Elaboração de programas de computadores, inclusive de jogos eletrônicos. 1.05 – Licenciamento ou cessão de direito de uso de programas de computação. 1.06 – Assessoria e consultoria em informática. 1.07 – Suporte técnico em informática, inclusive instalação, configuração e manutenção de programas de computação e bancos de dados. 1.08 – Planejamento, confecção, manutenção e atualização de páginas eletrônicas”. O único serviço constante da lista e que se aproxima dos serviços de conexão à Internet é o seguinte, incluído no tópico n. 15 – Serviços relacionados ao setor bancário ou financeiro, inclusive aqueles prestados por instituições financeiras autorizadas a funcionar pela União ou por quem de direito. “15.07 – Acesso, movimentação, atendimento e consulta a contas em geral, por qualquer meio ou processo, inclusive por telefone, fac-símile, Internet e telex, acesso a terminais de atendimento, inclusive vinte e quatro horas; acesso a outro banco e a rede compartilhada; fornecimento de saldo, extrato e demais informações relativas a contas em geral, por qualquer meio ou processo”. 191. Também nesse sentido decidiu o TJ-SP: “Ementa: Apelação – Ação declaratória – ISS – Acesso de provedor à Internet. Atividade enquadrada inadequadamente pela municipalidade no item 21 da Lei Municipal n. 10.423/87. Serviço não previsto na lista de serviços anexada ao Decreto-lei 406/68. Rol taxativo. Recurso não provido”. Ap 9211741-85.2009.8.26.0000, rel. João Alberto Pezarini, Comarca: São Paulo, Órgão julgador: 14.ª Câmara de Direito Público, data do julgamento 30.06.2011, data de registro 17.08.2011, TJSP. 192. Alertou Paulo de Barros Carvalho: “Recentemente, o STJ manifestou-se no sentido de serem os provedores de acesso à Internet contribuintes do ICMS, entendendo que haveria, no caso, prestação de serviço comunicacional. O assunto, entretanto, não se encontra pacificado, até mesmo porque, como envolve matéria constitucional, o STF é quem deverá pronunciar-se definitivamente sobre o tema” (Não incidência do ICMS na atividade dos provedores de acesso à Internet, Revista Dialética de Direito Tributário 73/97, nota 1). © desta edição [2016] 11. AÇÕES ORDINÁRIAS EM MATÉRIA TRIBUTÁRIA 11. AÇÕES ORDINÁRIAS EM MATÉRIA TRIBUTÁRIA