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Fichamento Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado

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a moeda operava evidentemente como fator compensatório da pressão deflacionária externa. A redução da carga fiscal se fazia principalmente em benefício dos grupos sociais de renda elevada. Por outro lado, a cobertura dos déficits com emissões de papel-moeda criava uma pressão inflacionária cujos efeitos imediatos se sentiam mais fortemente nas zonas urbanas. Assim, a depressão externa transformava-se internamente em um processo inflacionário.
O sistema monetário de que dispunha o país demonstrava ser totalmente inadequado para uma economia baseada no trabalho assalariado.
Com as correntes e outros fatores que incrementaram a economia, observou-se uma crescente disparidade no desenvolvimento econômico das regiões do país; enquanto na região norte se expandia a economia de subsistência, no Sul o desenvolvimento e crescimento eram tais que havia uma demanda cada vez maior ao governo imperial para que se investisse no setor público e para que houvesse uma descentralização administrativa. Tais anseios foram realizados quando da proclamação da república, quando foram criados os governos de estados.
“Se por um lado a descentralização administrativa deu maior flexibilidade político-administrativa ao governo no campo econômico, em benefício dos grandes interesses agrícola-exportadores, por outro, a ascensão política de novos grupos sociais – facilitada pelo regime republicano – cujas rendas não derivavam da propriedade, veio reduzir substancialmente o controle que antes exerciam aqueles grupos agrícola-exportadores sobre o governo central”.
PARTE CINCO: Economia de transição para um sistema industrial – século XX
30. A crise da economia cafeeira
A grande expansão da cultura cafeeira do final do século XIX teve lugar praticamente somente dentro do Brasil. As condições excepcionais que oferecia o país para essa cultura valeram aos empresários brasileiros a oportunidade de controlar ¾ da oferta mundial de café. Quando vem a tona a superprodução do café, ante a baixa constante nos preços e a desvalorização da moeda, foram definidas bases para a revalorização do produto, com a compra do excedente de produção por parte do governo, com financiamento de empréstimos estrangeiros, que seriam cobertos com um novo imposto (em ouro) sobre a saca exportada, e, em longo prazo, os governos estaduais deveriam desencorajar as expansões das plantações. 
Nessa época, com a expansão do café veio o crescimento da classe média urbana e sobrevieram os interesses regionais e os interesses de grupos civis e militares ligados ao governo, bem como os comerciantes importadores e os industriais, cujos interesses se opunham aos dos cafeicultores.
A compra dos excedentes da produção com capital estrangeiro foi executada por governos regionais (liderados por São Paulo), o que garantiu a hegemonia da economia cafeeira até 1930. A defesa dos preços proporcionava à cultura do café uma situação privilegiada entre os produtos primários que entravam no comércio internacional; essa vantagem relativa tendia a aumentar.
A produção de café, em razão de estímulos artificiais recebidos, cresceu fortemente na segunda metade do terceiro decênio do século XX. “Existia, portanto, uma situação perfeitamente caracterizada de desequilíbrio entre oferta e procura”. O equilíbrio entre oferta e procura dos produtos coloniais obtinha-se, do lado desta última, quando se atingia a saturação do mercado, e do lado da oferta quando se ocupavam todos os fatores de produção – mão de obra e terras – disponíveis para produzir o artigo em questão. Em tais condições era inevitável que os produtos coloniais apresentassem uma tendência, a longo prazo, à baixa de seus preços.
A política de acumulação de estoques de café criara uma pressão inflacionária. Com a crise de 1929, se evadiram todas as reservas resultantes de conversibilidades feitas pelo governo.
31. Os mecanismos de defesa e a crise de 1929
A produção máxima de café se daria em 1933, no ponto mais baixo da depressão como reflexo das plantações de 1927-28.
A solução que se apresentava de imediato seria a de abandonar os cafezais, sobrevindo ainda o dilema sobre como curar o mercado interno. A grande acumulação de estoques de 1929, a rápida liquidação das reservas metálicas brasileiras e as precárias perspectivas de financiamento das grandes safras previstas para o futuro aceleraram a queda do preço internacional do café, iniciada conjuntamente com a de todos os produtos primários em fins de 1929.
A baixa brusca do preço internacional do café e a conversibilidade acarretaram na queda do valor externo da moeda. A depreciação da moeda induzia o empresário brasileiro a continuar colhendo o café e a manter pressão sobre o mercado, o que acarretava nova depreciação da moeda e nova baixa nos preços, agravando ainda mais a crise.
Fazia-se indispensável evitar que os estoques invendáveis pressionassem sobre os mercados acarretando maiores baixas de preços. Era essa a única forma de evitar que o equilíbrio fosse obtido à custa do abandono puro e simples da colheita, isto é, com perdas concentradas no setor cafeeiro. A destruição dos excedentes das colheitas se impunha como uma consequência lógica da política de continuar colhendo mais café do que se podia vender. Para induzir o produtor a não colher, os preços teriam que baixar muito mais, particularmente se se tem em conta que os efeitos da baixa nos preços eram parcialmente anulados pela depreciação da moeda. O preço do café era condicionado pelos fatores que prevalecem ao lado da oferta, uma vez que a demanda era praticamente estável.
Ao garantir preços mínimos de compra, remuneradores para a grande maioria dos produtores, estava-se na realidade mantendo o nível de emprego na economia exportadora e, indiretamente, nos setores produtores ligados ao mercado interno.
Ao evitar-se uma contração de grandes proporções na renda monetária do setor exportador, reduziam-se proporcionalmente os efeitos do multiplicador de desemprego sobre os demais setores da economia.
32. Deslocamento do centro dinâmico
A política de defesa do café contribuiu para manter a procura efetiva e o nível de emprego nos outros setores da economia.
Nos anos da depressão, ao mesmo tempo em que se contraíam as rendas monetárias e real, subiam os preços relativos das mercadorias importadas, conjugando-se os dois fatores para reduzir a procura das importações. Em 1929, no ponto mais baixo da depressão, a renda monetária se reduziu entre 25 e 30% enquanto o índice de produtos importados subiu 33%. Passou-se a satisfazer a procura interna com oferta interna de parte do que antes era coberto com importações.
Ao manter-se a procura interna com mais firmeza que a externa, o setor que produzia para o mercado interno passa a oferecer melhores oportunidades de inversões que o setor exportador. Surge a preponderância do setor ligado ao mercado interno no processo de formação do capital. A capacidade reprodutiva dos cafezais foi reduzida à metade nos 15 anos que se seguiram da crise. Parte dos capitais desinvertidos foram destinados a outros setores – como o algodão, que se manteve estável durante a crise.
O fator dinâmico principal passa a ser o mercado interno. Durante a crise, ante o aumento nos preços dos produtos importados que teve como consequência o aumento na procura, os setores de produção interna se mantiveram estáveis ou se expandiram. O seu crescimento se dava ao mesmo tempo que decrescia o setor exportador, o que explica o desvio de verbas de um setor para outro.
Na primeira fase da expansão se aproveitou a estrutura já instalada no país, adquirindo-se equipamentos de segunda mão, posteriormente, de países industrializados em crise.
O crescimento da procura de bens de capital e a forte elevação dos preços de importação desses bens criaram condições propícias à instalação no país de uma indústria de bens de capital. Contudo, a procura desses bens coincide com a expansão das exportações, e em razão do tamanho do mercado, apresentava-se desvantagens relativas ao processo de