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Memoria e biografia PIRRO de Élis

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Memória e biografia: elementos formulares na vida de Pirro
Gabriela Guimarães Gazzinelli 
Mestranda – UFMG 
Introdução
No prefácio à vida de Alexandre, Plutarco diz:
“ Não farei outro prefácio que pedir aos meus leitores que não reclamem se eu não contar todos os atos famosos desses homens e nem falar exaustivamente em cada caso particular, mas, em resumo, na maioria das vezes. Pois não escrevo histórias e, sim, vidas. Nos feitos mais ilustres nem sempre há manifestação de virtude ou vício. Algo ligeiro, como uma frase ou gesto, freqüentemente faz maiores revelações do caráter do que uma batalha onde caíram milhares, os maiores armamentos ou o sítio de cidades. (...) Pois, assim como os pintores destacam as semelhanças a partir do rosto e dos traços das feições, nos quais transparece o caráter, e consideram minimamente os demais membros, é nos necessário concentrar mais sobre os sinais da alma e, através deles, esboçar cada vida.”�
Com efeito, se a história antiga compreendia uma memória oficial dos feitos de toda uma nação, sobretudo militares e políticos, a biografia reproduzia formas mais pessoais da memória. Antes sumária do que exaustiva, nela ínfimos detalhes poderiam sobrepujar os fatos notáveis. Vários episódios, tintos por uma avaliação moral, evidenciavam censura ou louvor, inconciliáveis com a suposta neutralidade histórica. Por fim, não sendo necessariamente narrativas cronológicas, suas partes poderiam ser estruturadas conforme alguns princípios operadores de processos mnemônicos: contigüidade, segundo o qual se contempla eventos próximos a momentos importantes como nascimento, reconhecimento, exílio, morte; repetição e semelhança, em que se enfatiza episódios recorrentes em determinadas vidas, estabelecendo-se pois uma tipologia biográfica; relações causais, em que se tenta vislumbrar motivações secretas, que revelam certos aspectos de uma vida ou obra.
As biografias antigas apoiavam-se em fontes literárias e históricas, mas também em uma espécie de koinh& i9stori/a. Expressões formulares, como fa&si, le/getai, w(j mnhmnoneousin, que proliferam nos relatos biográficos, indicam a presença dessa história oral. A memória comum, conforme características da tradição oral, obedecia a convenções estilísticas. Evidencia-se, nela, uma estrutura padronizada, bem como um repertório de motivos convencionais. A recorrência desses elementos torna manifesto o aspecto formular do gênero biográfico, um aspecto que reforça a verossimilhança da vida narrada, comprometendo, talvez, a verdade histórica. 
	Pretendo, na seqüência, examinar brevemente três motivos recorrentes nas biografias de filósofos, ilustrando-os através de passagens da vida de Pirro: (i) a sua inclusão em uma sucessão de filósofos consagrados; (ii) a contaminação dos episódios da vida por seu posicionamento filosófico; (iii) invectivas de caráter derrogatório, nas quais transparecem rivalidades entre escolas. Parece-me que estes motivos, dentre outros, ao ordenarem a memória, concedem uma coerência abrangente ao conjunto de biografias, ao mesmo tempo em que estabelecem uma coerência interna a cada vida.
I. Linhagens filosóficas
	Nas biografias dos filósofos antigos, grande destaque era dado às ‘influências literárias’ do biografado. O estabelecimento de antecessores ilustres tinha várias finalidades. Em primeiro lugar, inseria o biografado em uma tradição consolidada, concedendo-lhe legitimidade histórica. Em outro, indicava esses antecessores como fonte de inspiração para as posições do herdeiro, identificando uma natural continuidade nos pensamentos. Por fim, sistematizava as relações filosóficas segundo um princípio de afinidade, de maneira a forjar sucessões coerentes nas escolas. 
A disposição dos filósofos em linhagens contínuas mediaria a evolução de seus pensamentos rumo a formas mais elaboradas. Decleva Caizzi (DECLEVA CAIZZI, 1984, p. 3) aponta que essa tendência historiográfica de aproximar os pensadores em sucessões recua a Sócio (sec. II a.C.), tendo sua formulação inicial em seu livro Sobre a sucessão dos filósofos. Por vezes, historicamente atestáveis, por vezes artificialmente forjadas, tais cronologias filosóficas tornam manifesta a maneira como os antigos percebiam e expunham suas filosofias. 
	Diógenes Laércio, ao tratar das influências literárias de Pirro, ressalta particularmente Demócrito e Homero e apresenta uma linha de descendência de Demócrito a Pirro.� Com pequenas variações, outras fontes, como Clemente de Alexandria, Eusébio e Galeno, confirmam esta sucessão.� Mas ela tem problemas. O mais óbvio é que quatro intermediários – Nessa, Metrodoro, Diógenes de Smirna e Anaxarco – parecem muito numerosos para o pequeno intervalo temporal que separa Pirro de Demócrito. Assim, vários comentadores consideram-na fictícia (cf. Bailey, 2002, p. 30-37). No entanto, uma afinidade de idéias (especialmente quanto ao pessimismo epistemológico que marca vários deles), pode justificar a aproximação conceitual entre esses filósofos, conduzindo à fabricação genealógica. 
O projeto ordenador de Diógenes Laércio é ainda mais ambicioso: uma linhagem é forjada desde Pitágoras (passando pelos eleatas, atomistas e pirrônicos) até Saturnino, discípulo de Sexto Empírico, compreendendo, ao todo, 23 nomes,� encerrando-se no século II d.C. Uma de suas intenções é, através de uma sucessão sem rupturas, conferir unidade ao ceticismo pirrônico, dando-lhe estatuto de escola (ai3resij), mesmo na ausência de um corpo dogmático doutrinal.
	Deduz-se, então, que, além de legitimar o posicionamento de determinado filósofo, tais sucessões tornam coeso o conjunto de biografias.
II. Simbiose entre vida e filosofia 
A composição da vida de um filósofo, norteada pelo critério de verossimilhança, resulta freqüentemente em uma vida exemplar coerente com as teorias que sustenta. O alheamento aos fatos históricos é interessante para se pensar em biografias como fonte também filosófica, uma vez que a narrativa embutiria conteúdos teóricos em sua composição. Sendo assim, as biografias de filósofos apresentam um conjunto de ações pelo qual se poderia julgar sua consistência, pois se espera uma conformidade entre prática e ensinamentos. 
 Segundo Sedley (SEDLEY, 1980, p. 10-11):
[N]ão era a verdade sobre Pirro que importava e sim a lenda que, por bem ou por mal, foi estabelecida permanentemente por seu discípulo e principal divulgador, Timão de Flio. Os versos de Timão retratavam Pirro como modelo vivo de vida cética, livre das mentiras e vaidades de filósofos menores, cheios de opiniões; e pode ter sido em grande parte devido ao seu exemplo moral que sentiram que Pirro abriu uma nova fase no ceticismo. 
	
De fato, o anedotário parece transpor posições pirrônicas às suas ações corriqueiras, fundando uma moral cética a partir do exemplo prático da vida de Pirro.
 	Várias anedotas ilustram os efeitos de uma disposição cética, como a tranqüilidade (a)taraci/a)� e a ausência de afecções (a)pa&qeia).� Outras exemplificam os modos pirrônicos, sistematizados por Enesidemo:� o primeiro modo (Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas I 40-79), segundo o qual não temos motivos para privilegiar as percepções humanas em relação às dos demais animais, é exemplificado pela admiração de Pirro por Homero, devido ao poeta comparar, como semelhantes, seres humanos, insetos e animais (Diógenes Laércio 9.67); já as viagens ao oriente, na expedição de Alexandre, e o contato que travou com os magoi persas e os gimnosofistas indianos lembram o décimo modo, que contempla a variação dos costumes, leis e crenças em sociedades diferentes (Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas I 145-63). 
III. Anedotas derrogatórias
	Do mesmo modo como os episódios de uma vida podem ilustrar favoravelmente um posicionamento filosófico, podem também representá-lo desfavoravelmente. Nestes casos, as ações são consistentes com os ensinamentos, todavia, levam a conseqüências práticas absurdas. Revela-se,