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2011_DanielaMountian_VOrig

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3.1. Espadas em riste 59 
3.2. Este rei sou eu 71 
3.3. Outros cantos 78 
4. Orquestração 80 
Capítulo III 
1. Mito do herói 85 
2. Maravilhosos impostores 90 
2.1. Diabos, bruxas e feiticeiras 95 
3. Rumo ao caos 105 
4. As batalhas de Dom Peredonov 113 
4.1. Nedotýkomka 117 
4.2. Mas era mesmo um menino? 122 
4.3. Chapéu dos diabos 127 
4.4. O sacrifício 132 
Referências bibliográficas 
 
9 
 
Novos rumos 
 
Mal sabia eu que, quando meu pai me entregara cadernos e cadernos manus-
critos com a tradução de um romance de Fiódor Sologub (1863-1927), assinalava-se 
um novo percurso em minha vida. Era a primeira versão em nosso português de O 
Diabo Mesquinho (1892-1902). Isso aconteceu em 2004, pouco depois de eu concluir 
a Faculdade de História. Desde então iniciei um diálogo com o livro que perdura sete 
anos. Delinearam-se novos rumos pessoais e profissionais. Da etapa de editoração do 
livro, que finalizei em 2008, nasceram a editora Kalinka e o meu projeto de mestrado. 
Contrariamente ao que seria o caminho natural, foi a minha participação na 
publicação do romance – para a qual contribui com a pesquisa, a preparação do 
texto e a editoria – o que me levou à dissertação. O desenvolvimento desse projeto 
editorial significou um momento importante, em que acompanhei o processo de 
tradução ao lado de meu pai, cujo russo é a primeira língua, e da escritora, ensaísta, 
tradutora e professora Aurora Bernardini, que assinou a revisão estilística do livro. Ao 
longo de meses de trabalho com ela, soube da urgência de traduzir-se o ―espírito da 
obra‖, por vezes se abrindo mão da literalidade da palavra, da importância do ritmo 
poético e de ler-se o texto ―em voz alta!‖ Hoje começo a dar meus primeiros passos 
como tradutora, agarrada ao dicionário e ainda tropeçando nas declinações, mas 
tropeços que não terão sido culpa de meus primeiros e exigentes mestres. 
Desde que passei a frequentar os cursos e eventos oferecidos pelo 
Departamento de Línguas Orientais, em 2005, a Rússia ganhou ainda mais relevância 
na minha vida, não apenas pela sua literatura, mas pelos seus teóricos, com 
abordagens sempre originais e abrangentes. No departamento tive a oportunidade 
de conhecer a ensaísta, tradutora e professora Arlete Cavaliere, que me levou à 
semiologia russa, às teorias da paródia e ao riso de Gógol. 
Pelas mãos de Sologub cheguei também à Petersburgo, sua cidade natal, onde 
pude ver, num instituto localizado quase às margens do Rio Nevá, suas anotações e o 
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imenso acervo de sua obra. Dificilmente um apreciador da arte russa não se sentirá 
ao menos um pouco tocado com o pulsar secular dessa cidade mítica, que se con-
funde com a própria história de sua literatura. Foi um dos ápices de um caminho, que 
talvez ainda não tenha alcançado seu fim. 
À parte com os percursos pessoais, o estudo do livro e do contexto em que ele 
esteve inserido trouxe uma visão ampliada da literatura russa, especialmente do seu 
simbolismo. Ao familiarizar-me um pouco mais com os simbolistas russos, pude per-
ceber o grande legado que esse singular e inebriante grupo de artistas trouxe à arte 
e à filosofia russas. Nas últimas décadas o simbolismo, bastante repudiado durante o 
período soviético, tem recebido muitas reavaliações, nas quais se dá cada vez mais 
importância às suas contribuições. 
Anna Akhmátova (1889-1966), que na efervescência do início do século XX se 
distanciou de alguns simbolistas, no fim da vida, na época em que escreve seu Poema 
sem herói (1962), percebe no simbolismo um movimento amalgamado com a cultura 
russa, sem as rígidas fronteiras que a crítica costuma apontar: 
Em seus últimos anos de vida, Akhmátova repetia que o simbolismo tinha 
sido, talvez, ―o último grande movimento‖ da literatura russa. Tendo absor-
vido muito das tradições dos seus próprios clássicos e dos modernistas oci-
dentais, o simbolismo russo transformou-se num fenômeno complexo e de 
muito prestígio
1
. 
Fiódor Sologub, um dos nomes da ―velha geração‖ dos simbolistas de Peters-
burgo, traz com O Diabo Mesquinho uma das grandes expressões dessa fusão. É um 
romance que retoma com evidência a poderosa tradição russa oitocentista, 
incorpora-a ao simbolismo e lança-a à contemporaneidade. 
 Poderia me valer da opinião de críticos como Mikhail Bakhtin, que considerou 
O Diabo Mesquinho um ―dos melhores romances do século XX‖, ou de Zara Mints, 
Viktor Eroféiev, Margarita Pávlova, Stanley Rabinowitz, Bruce Holl, ou ainda de poetas 
e escritores, como Aleksándr Blok, Andrei Biély, Evguéni Zamiátin, Gueórgui 
_____________ 
 
1
 VOLKOV, S. São Petersburgo. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 175. 
11 
 
Tchulkhóv, Teffi, Vladisláv Kodassiévitch, entre tantos outros, para afirmar que a 
figura estranha e sombria de Fiódor Sologub merece destaque definitivo nas letras 
russas, mas parece que, ao menos na Rússia, sua posição já está assegurada. 
O ex-professor de matemática Fiódor Sologub possui uma vasta obra, escre-
veu e publicou proficuamente e por mais de 30 anos, são incontáveis poemas, con-
tos, romances, ensaios críticos e peças de teatro, e possivelmente com O Diabo Mes-
quinho ele alcançou seu auge como prosador. 
Em Miélkii Biés, o nome russo da obra, Ardalión Boríssytch Peredonov, um 
professor de literatura do ginásio de uma pequena província russa do fim do século 
XIX, tendo em vista um lugar de inspetor escolar, deposita suas esperanças na in-
fluência da princesa Voltchánskaia, com quem como criada trabalhou Varvara, a 
amante do professor. Com a promessa do cargo, Varvara pretende agarrá-lo num 
casamento, assim como quase todas as moças da cidade. Entre peripécias picarescas 
e acontecimentos descabidos, o perverso e tolo impostor Peredonov passa a ser 
perseguido por estranhas criaturas, como a nedotýkomka, que o entrelaçam numa 
loucura mítica, alimentada pelo caos que corporifica e que surge também dos 
impostores da cidade. 
A primeira dificuldade de fazer um estudo sobre o romance é circunscrever 
uma temática. É uma obra que incorpora um leque variegado de questões, 
envolvendo desde polêmicas políticas e sociais de seu tempo; mitos de São 
Petersburgo; conversas estreitas com muitos autores, como Miguel de Cervantes, 
Aleksándr Púchkin, Nikolai Gógol, Mikhail Saltikóv-Schedrin, Fiódor Dostoiévski, 
Anton Tchékhov; forte presença do folclore russo e de arquétipos míticos; relações 
com o simbolismo, na linguagem e na filosofia; etc.: 
―O que é Peredonov‖, perguntaram a Sologub. ―Uma prole do caos primor-
dial, um degenerado do princípio demoníaco, ‗da alma da noite‘ do mundo, 
algo da natureza, parente de certas almas dissecadas por Dostoiévski? Ou 
simplesmente um produto do meio, eco dos tártaros, de uma geração nas-
cida sob um regime de condições sociais e culturais rebaixadas?‖ Sologub 
respondeu: ―Eu trabalhei sobre ‗Miélkii Biés‘ dez anos consecutivos. Traba-
lhando tanto assim sobre uma obra, evidentemente, é impossível contentar-
se com o reflexo de apenas um lado, com a construção de um traço particu-
lar, dado tudo o que vi e senti ao longo da vida. Em Peredonov, nesse vilão 
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das profundezas, há indubitavelmente tudo o que vocês elencaram, além de 
muitos outros elementos dos quais a vida é formada em sua manifestação 
multifacetada
2
. 
Assim, sendo este também provavelmente o primeiro trabalho acadêmico 
sobre do autor no Brasil, optou-se por uma configuração de tese em parte 
direcionada, em parte panorâmica. 
Uma breve contextualização do simbolismo russo, encerrada no capítulo I, foi 
o primeiro passo dado. Os ensaios reunidos no livro Tipologia do simbolismo nas 
culturas russa