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mais do que todos. 
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 GÓGOL, N. Teatro completo. Tradução Arlete Cavaliere. São Paulo, Ed. 34, 2009, p.256. 
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A atmosfera carregada de mentiras, na qual são todos impostores, uns trapa-
ceando os outros, impossibilita a presença do amor – a impostura geral evidencia o 
princípio do caos em todas as esferas do cotidiano social, que se reflete vazio e de-
monizado. 
 Quanto à presença de Almas Mortas, uma das mais sublinhadas pela crítica, 
ela se evidencia com mais concretude pela retomada das andanças de Tchítchikov, o 
comprador de almas mortas, aos dignitários da cidade. Como Tchítchikov, Peredonov, 
que visita os figurões da província em busca de ―proteção‖, funciona como o 
elemento intruso – como alguém de fora, não pertencente a esse universo, ele revela 
o mundo dos ―superiores‖. 
Sologub não estiliza apenas a forma da ação, mas certos traços das autorida-
des de Almas Mortas estão evidenciados nas de O Diabo Mesquinho. O proprietário 
de terras Sobakêvitch, de Almas Mortas, por exemplo, reflete-se no procurador 
Avinovítski, e ambos desvelam o pensamento da antiga nobreza russa. Aqui 
Sobakêvitch conversa com sua esposa: 
– Ora, queridinha – disse Sobakêvitch –, não sou eu que faço essas coisas, e 
posso dizer-te sem rodeios, eu é que não vou comer essas porcarias. Uma rã, 
podes trazê-la empanada com açúcar, que eu não ponho na boca, e uma 
ostra, menos ainda: eu sei com que se parece esta ostra. Mas prove este car-
neiro – continuou ele, dirigindo-se a Tchítchikov –, isto aqui é lombo de car-
neiro com papa de trigo! Isto não tem nada a ver com o fricassé que fazem 
nas cozinhas dos outros senhores, de carne de carneiro que ficou rolando na 
feira durante quatro dias! Isso são invenções dos doutores alemães e 
franceses; eu os enforcaria a todos por isso! Inventaram a tal da dieta, a cura 
pela fome! Só porque a natureza germânica dele é de ossos finos e sangue 
ralo, pensam que podem manobrar com o estômago russo! Nada disso, está 
tudo errado, é tudo... – Aqui Sobakêvitch até sacudiu a cabeça de raiva. – 
Falam de progresso, progresso, e esse tal de progresso – pfu! [...]
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E o procurador Avinovítski, a quem Peredonov fez uma visita, fala de seu filho: 
— Agora as pessoas são diferentes — uma paródia de ser humano — trove-
java Avinovítski. — Consideram a saúde uma coisa vulgar. Os alemães in-
ventaram a fufáika
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. Se fosse eu, mandaria esse alemão aos trabalhos força-
dos. De repente vestem no meu Vladímir uma fufáika! Mas ele, no campo, 
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63 GÓGOL, N. Almas mortas. Tradução Tatiana Belinky. São Paulo, Abril Cultural, 1987, p.115. 
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 Fufáika: jaqueta acolchoada. 
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durante o verão todo, não calçou botas sequer uma vez. No frio, ele sai cor-
rendo nu do banho e rola na neve, e eu deveria fazê-lo vestir a fufáika?! Cem 
chicotadas nesse maldito alemão. 
(SOLOGUB, 2008, p.120) 
Apesar de o episódio ter sido tomado basicamente por estilização – a estru-
turas narrativas dos discursos são similares, e os mundos descritos também –, 
Tchítchikov em princípio é parodiado. Peredonov, mesmo se utilizando de artifícios 
para alcançar seu almejado lugar de impostor, esses são sempre descabidos, assim 
como seu modo de pensar. No fim, ele acaba sendo vítima de trapaças e fracassa em 
todos os seus desejos. Enquanto Tchítchikov, um grande impostor, é lógico e tem a 
mente ordenada: 
Tchítchikov está mais próximo à formação posterior do impostor que trapa-
ceia através do cálculo, que pratica a malandragem como uma variante da 
atividade normal ‗burguesa‘ [...] Tchítchikov já não é marginal, diferente-
mente do pícaro espanhol. Ele constitui um membro normal da sociedade
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. 
Mas, à semelhança de Peredonov, Tchítchikov, também relacionado com ima-
gens demoníacas (―o terrível verme cresceu dentro dele‖; ―o maldito satanás seduziu-
o‖, etc.), articula-se ainda como o trickster arcaico: ―É assim que há toda uma revira-
volta arquetípica. A trapaça e o demonismo, de modo geral, estão ligados agora a um 
arquétipo mais primordial, à figura mitológica do trickster‖ (MELETÍNSKI, 2002, p.207). 
Quando isso se fortalece, Peredonov e Tchítchikov seguem a mesma direção, 
rumo ao impostor arcaico, ao trickster mítico. O professor, no entanto, é um pícaro, 
não um impostor que ―trapaceia pelo cálculo‖, e traz, contrariamente ao comprador 
de almas mortas, desde o princípio o caos em sua pessoa. Tchítchkov é como que 
semiparodiado, mas a convivência com o Hermann do Púchkin e com um universo 
ambivalente dá o sentido paródico a mais essa incorporação. 
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 MELETÍNSKI, E. M. Os arquétipos literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002, p.205. 
 
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3.3. Outros cantos 
Não apenas Púchkin e Gógol deixaram rastos em O Diabo Mesquinho. Ao ler o 
romance, nota-se forte presença de outros escritores, como de Fiódor Dostoiévski e 
de Anton Tchékhov. 
Quanto a Dostoiévski, sua marca potencializa-se quando o princípio do caos 
passa a simbolizar Peredonov, então nos deparamos com o homem do subsolo, 
Goliádkin (O Sósia), Raskólnikov (Crime e Castigo), etc66. Como em muitos persona-
gens de Dostoiévski, o caos e o demonismo foram reunidos em Peredonov na ex-
pressão de uma maldade intrínseca e original, mas sem o aprofundamento psicoló-
gico, que Sologub retirou de suas personagens. 
Há, no entanto, uma marca de Dostoiévski que antecede todas. O título da 
obra, Miélkii Biés − literalmente ―pequeno demônio‖ − claramente parodia Biéssy (Os 
demônios), nome do romance de Dostoiévski publicado em 1872 (e também o de um 
poema de Púchkin). Esse rebaixamento do título de antemão relaciona os enredos, 
que podem ser comparados em várias direções, mas não se fará uma ligação entre os 
dois romances (motivo de outra pesquisa). Apenas se observará que Ardalión 
Peredonov, que, desde Hermann vai incorporando anti-heróis da literatura russa, 
pode ser também considerado um reflexo de Stravóguin, o personagem principal de 
Os Demônios. Como observou Meletínski (2002, p.248), ―[Stravóguin] constitui um 
protótipo das personagens da literatura decadentista do século XX‖. 
Além de Stravóguin e Peredonov estarem envolvidos num tipo semelhante de 
caos diabólico, que vai se alastrando ao longo da obra, eles igualam-se na extrava-
gância, na violência e no comportamento escatológico: 
No nível moral, desde as insolências extravagantes (por exemplo: puxou 
Gaganov pelo nariz, deu [Stravóguin] uma mordida na orelha do governador, 
a ‗libertinagem desenfreada‘, ‗a conduta animalesca com uma senhora da 
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 Alguns traços de Dostoiévski presentes no romance serão retomados no capítulo III, com a citação 
das obras aqui citadas. 
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boa sociedade‘ (x, 36), o estupro da pobre menina, as injúrias intermináveis 
pelo ‗prazer de ofender‘, a ligação com a escória [...] 
(MELETÍNSKI, 2002, p. 247) 
Peredonov, entre várias outras atitudes incoerentes e animalescas, cospe, por 
exemplo, no rosto de Varvara (SOLOGUB, 2008, cap. II), e é no geral violento com os 
alunos e principalmente com a amante. Afora isso, também ao lado de Stravóguin, o 
professor está imbuído de uma apatia demoníaca. 
Com relação à presença de Tchékhov, como em outros casos, ela é precisa-
mente indicada pela narração: 
— E o senhor leu ―O Homem no Estojo‖, de Tchékhov? — perguntou ela. — 
Não é verdade que é arguto? 
Como essa pergunta foi dirigida a Volódin, ele sorriu amavelmente e per-
guntou: 
— O que é, um artigo ou um romance? 
— Um conto — explicou Nadiejda Vassílievna. 
— Do senhor Tchékhov, a senhora está querendo dizer — certificou-se 
Volódin. 
— Sim, Tchékhov — disse