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2011_DanielaMountian_VOrig

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no portão com o talhe de uma feiticeira, vestida de preto e envolta na fumaça 
do seu cigarro: ―Ela fumava um cigarro numa piteira de cerejeira escura e sorria de 
leve, como se soubesse de algo que não se fala, mas que faz sorrir‖ (SOLOGUB, 2008, 
p. 23). Então sua figura ganha características da Baba-Iagá: seu caramanchão (―No 
meio do jardim, à sombra dos bordos esparramados, ficava o velho e cinzento cara-
manchão [...]‖)82 toma o lugar das habituais isbás dessas feiticeiras folclóricas, assim 
como Viérchina possui poderes mágicos (cartomancia) e gestos sedutores: ―Toda vez 
que Peredonov passava em frente ao jardim de Viérchina, ela o parava e, com movi-
mentos e palavras de feiticeira, atraía-o ao jardim‖ (SOLOGUB, 2008, p. 89). 
A Baba-Iagá, um dos personagens mais populares do folclore russo, não é 
uma figura inteiramente negativa, sendo que muitas vezes ela ajuda o herói. Ela é 
considerada uma das ―variantes do demônio da floresta‖, por isso o traço que a dis-
tingue das outras feiticeiras é seu casebre na floresta83, feito de pernas de galinha e 
com um cercado de ossos. Há outros jardins no romance, mas nenhum deles possui 
um caramanchão. Além disso, ao tentar seduzir Peredonov por meio de Marta, a vi-
úva realiza uma das atitudes típicas da Baba-Iagá, que atrai o herói por meio de jo-
_____________ 
 
82
 Fiódor Sologub. O Diabo Mesquinho. São Paulo: Kalinka, 2008, p. 25. 
83
 NOVIK, E. S. Sistema personagei rússkoi volchébnoi skázki. (O sistema dos personagens do conto de 
magia russo). In: NEKLÍUDOV, S. I.; MELETÍNSKI, E. M. (Org.) Tipologuítcheskie issledovánia po 
folklóru: Sb. St. pamiati Vladimira Iakovlevitcha Proppa (1895-1970) (Pesquisas tipológicas sobre 
folclore: coletâneas de artigos em memória de Vladímir Iákovlevitch Propp). Tradução Denise Regina 
Sales (obra não publicada). Moscou, 1975, p.214-246. 
98 
 
vens noivas. O sobrenome ―Viérchina‖, derivado de viércha, armadilha de pesca 
(PÁVLOVA, 2007), sublinha o comportamento da viúva, ou seja, seu intuito de apa-
nhar Peredonov. No conto de magia, como chama a atenção Novik (1975), o ―nome 
do personagem, via de regra, não desconsidera as ações que ele realiza‖ – Sologub 
aplica esse procedimento em outros personagens, como será visto pontualmente. 
A presença de Marta e do irmão dá à Viérchina também o papel de madrasta, 
uma figura sem importância no conto arcaico, mas fundamental ao conto de magia: 
―No sentido da ‗domesticação‘ da bruxa é importante a imagem da madrasta per-
versa que persegue a própria enteada‖ (MELETÍNSKI, 2002, p.187). Viérchina recebia 
os agrados de Marta como se esses fossem obrigatórios, sendo continuamente ser-
vida pela moça: 
Marta alegrou-se, mas estava um pouco assustada. Certamente ela queria 
que Peredonov fosse junto, ou melhor, Viérchina queria e havia transmitido 
esse desejo a ela com seus feitiços rápidos. (SOLOGUB, 2008, p.92) 
E a tratava com dura severidade: 
Viérchina não tentou segurá-lo dessa vez e despediu-se friamente. Ela estava 
duramente aborrecida: antes ainda havia alguma esperança de arranjar 
Marta com Peredonov, com isso, ela poderia ficar com Múrin para si mesma 
— mas de repente lá se ia a última esperança. E quem pagaria por isso hoje 
seria Marta! Ela teria boas razões para chorar. 
(SOLOGUB, 2008, p.264) 
Com o desenrolar da trama, o aspecto maravilhoso de Viérchina ganha mais 
evidência do que o social, o que acontece com todas as personagens. Peredonov, já 
ensandecido, não a reconhece de cara: ―[...] era como uma feiticeira preta soltando 
uma fumaça encantada, fazendo bruxarias‖ (SOLOGUB, 2008, p.235). 
De maneira geral, as mulheres do romance estão associadas a bruxas e feiti-
ceiras, seja pelo aspecto enrugado ou sujo, seja por algum atributo mágico, como 
Grúchina, que era cartomante e sabia fazer feitiços, assim como Erchova, a ex-senho-
ria dos Peredonov (a figura da Baba-Iagá pode também se ligar a das senhorias): 
―Ainda por muito tempo, ela [Erchova] ficou fazendo bruxarias sobre o chapéu (...)‖ 
(SOLOGUB, 2008, p.251). Varvara também toma atitudes de feiticeira: ―Varvara le-
vantou-se e, resmungando e praguejando, começou a tratá-lo com gotinhas especi-
99 
 
ais‖ (SOLOGUB, 2008, p.257). Essa conotação do aspecto feminino é também uma 
representação tradicional: 
A bruxa é o resultado não somente do rebaixamento, mas também da su-
peração dos últimos vestígios da ambivalência da antiga imagem demônica 
da Grande Mãe (em parte sob a pressão das tendências patriarcalistas na so-
ciedade). O duplo feminino começa a receber um registro negativo. Por isso 
a tradição não contradiz em absoluto a imagem de Sólokha, a ―velha (baba) 
bondosa‖, a ―velha diaba‖ e a ―bruxa‖, isto é, combina os traços da autêntica 
bruxa e a libertina comum. 
(MELETÍNSKI, 2002, p. 187) 
No conto de magia, a noiva – função de quase todas as personagens femini-
nas do romance − pode também se apresentar como bruxa, feiticeira ou vampira 
(NOVIK, 1975). A mistura de elementos diabólicos e mundanos é percebida nas prin-
cipais senhoritas da cidade: Varvara, ―(...) como se, pela força de algum feitiço despre-
zível, no corpo de uma ninfa tivesse sido grudada a cabeça murcha de uma mere-
triz‖84; Grúchina, ―[...] a um rápido olhar, ela até que não parecia tão imunda, mas 
logo causava a impressão contrária [...]; as irmãs Rutílov, ―[...] jovens e bonitas, e suas 
vozes soavam em tom alto e selvagem — as bruxas do Monte Calvo com certeza te-
riam inveja dessa roda‖. 
Não se pode deixar de mencionar as duas grandes referências femininas da 
história, retratadas também com elementos do demonismo: a princesa, que já apa-
rece numa articulação mítica, a ―Grande Mãe‖, e a própria nedotýkomka85, que, 
mesmo sendo uma criatura que agrega todas as personagens, não deixa de ter pri-
mordialmente uma identidade feminina − nedotýkomka é um neologismo feminino, 
terminado em ―a‖ e flexionado como tal. 
O gênero das personagens (masculino ou feminino) é característica de funda-
mental importância no conto de magia, assim como a definição dos seus laços de 
parentesco (pai, mãe, filho, enteada, etc.), sendo a oposição parente versus não pa-
rente uma derivação da dualidade mítica próprio versus alheio. Além de famílias in-
_____________ 
 
84
 SOLOGUB, 2008, p.81, p.53, p.183, respectivamente no parágrafo. 
85
 A construção da nedotýkomka será ainda analisada. 
100 
 
completas, os personagens principais, do núcleo de pequeno-burgueses, em grande 
parte não têm relações consanguíneas, mas no geral são parentes por afinidade 
(amasiado e amante, marido e mulher, madrasta e enteada, etc.), com exceção dos 
vários irmãos do romance, que nos contos muitas vezes aparecem em competição. 
De qualquer maneira, os conflitos que acontecem no espaço familiar ―baseiam-se, 
com frequência, na contraposição de relações de parentesco consanguíneo e não-
consanguíneo‖ (NOVIK, 1975). 
Nesse contexto, a figura mais subversiva certamente é a de Sacha, um órfão 
que chega à cidade tomado por uma menina disfarçada de menino e, nutrindo-se da 
malícia local, acaba travestido de gueixa no baile de máscaras. Aleksándr torna-se 
motivo de grandes angústias para Peredonov, que, para defender-se dele e de seus 
outros inimigos, utiliza-se de fofocas, atitudes descabidas e planos estapafúrdios. 
À diferença das mulheres, que, em geral, no romance vêm acompanhadas de 
mais esperteza − no conto de magia, a sabedoria não raro está associada à capaci-
dade de ludibriar e de ridicularizar (NOVIK, 1975) −, Peredonov, o ―diabo de óculos‖, 
incontáveis vezes nos é apresentado por meio de suas tolices – o diabo, no conto 
(NOVIK, 1975), também está relacionado com o tolo e o abobalhado.