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2011_DanielaMountian_VOrig

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adequadamente esse ―colapso ontológico‖ (que 
de fato se realiza plenamente com o modernismo), então talvez seja preciso retroce-
der no tempo e considerá-lo dentro de uma ―grande onda de cultura‖, como propõe 
Vassíli Tolmachóv13, ao lado de Robert Curzius, Arnold Joseph Toinbee e Michel 
Foucault. A subjetividade baseada na liberdade do criador, ou a separação do sujeito 
e o objeto, que no modernismo se separa de si mesmo, teria começado entre os sé-
culos XVIII e XIX. O simbolismo, nesse fluxo cultural, traz em si um processo de reco-
nhecimento do subjetivo iniciado com o romantismo, e não se exclui o naturalismo 
disso (a propósito, conceito de escola pouco útil à literatura russa): 
[...] foi precisamente o simbolismo que problematizou a experiência da sub-
jetividade, acumulada no século XIX, e tentou desenvolvê-la, partindo de um 
princípio seu, o esteticismo e a utopia conservadora, para outro – a revolu-
ção, a utopia liberal do futuro. 
(TOLMACHÓV, 2005, p.33) 
Essa subjetividade acumulada no simbolismo, de acordo com Tolmachóv, já 
não é clássica, pois não traz o todo. Pela sua definição clássica, o símbolo é a possibi-
lidade de alcançar a totalidade ideal: 
O verbo ―simbolon‖ significa ―ligar‖. E ―símbolo‖ é a manifestação dessa liga-
ção, ligação da parte imperfeita e do ideal, o todo perfeito. [...] O símbolo, 
desse modo, é um atributo da aspiração à beleza superior, um signo material 
de reconhecimento de Deus, o qual abarca em maior ou menor grau todas 
as esferas da atividade humana, inclusive a criação. 
(TOLMATCHÓV, 2005, p.20) 
_____________ 
 
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 McGUINESS, Patrick (Org. e prefácio). Symbolism, Decadence and the Fin de siècle: French and 
European Perspectives. Exeter: UK, University of Exeter Press, 2006. 
13
 TOLMACHÓV, V. Sobre as fronteiras do simbolismo. In: CAVALIERE, A.; VÁSSINA, E.; SILVA, N. (Org.) 
Tipologia do simbolismo do simbolismo nas culturas russa e ocidental. São Paulo: Associação 
Editorial Humanitas, 2005. 
20 
 
No platonismo a busca do ideal envolve uma ―subjetividade clássica‖, na qual 
o criador não se coloca como criador, mas como parte da criação, e a mimetização 
mostra-se um meio coerente de se chegar à ―beleza superior‖. No simbolismo do 
século XIX esse ―todo perfeito‖ é a busca de um artista que se sabe artista, ―o ‗eu‘ 
estabelece uma auto-referência‘‖, e tudo se articula já por outro tipo de subjetivi-
dade, ―não clássica‖. Por isso, diz Vassíli Tolmachóv (2005, p.22), o simbolismo do sé-
culo XIX ―é radicalmente diferente do que havia na cultura medieval‖. 
A ideia de um aprofundamento de uma subjetividade ―não clássica‖ na cultura 
ocidental, ou de que entre os séculos XVIII e XX houve ―uma extensão cultural à parte 
[...] em que a história se transforma em contemporaneidade‖ (TOLMACHÓV, 2005, 
p.21), certamente liberta de alguma maneira o estudioso da velha divisão de estilos, 
mas, imbuído apenas dessa perspectiva, particularidades acabam por diluir-se. E não 
se quer perder a chance de entender por que, por exemplo, um simbolista teria cla-
mado por sinestesias e aliterações, enquanto um futurista pela abolição da métrica e 
da pontuação. 
O estudioso da arte precisa tentar articular sua análise, por mais singular que 
seja o tema, em vários planos de leitura. É preciso pensar que a subjetividade eviden-
ciada no simbolismo traz também uma forma única de expressão, assim como car-
rega marcas de um processo de subjetivação que nasce junto com a poética. A se-
miologia russa, cuja formação deve muito aos estudos de Vladímir Propp (1895-
1970), hoje representada por nomes como Iuri Lótman (1922-1993) e Eliazar 
Meletínski (1918-2005), articula com muita competência e originalidade elementos 
que se perpetuam ao mesmo tempo em que se transformam, sendo sobretudo por 
essa lógica que a pesquisa tentará se orientar. 
A propósito, Lótman enxerga no símbolo o paraíso da semiótica, uma 
semiótica simbolista. Ele assim o coloca: 
O símbolo atuará como algo não homogêneo ao seu espaço textual circun-
dante, como mensageiro de outras épocas culturais (=outras culturas), como 
21 
 
recordação das bases antigas (=eternas) da cultura. Por outro lado, o sím-
bolo correlaciona-se ativamente com o contexto cultural, transforma-se sob 
a influência deste e também o transforma
14
. 
2. Anotações do simbolismo russo 
 Ainda que a pesquisa não se oriente fixamente por uma divisão de escolas, 
não há como evitá-la, por isso ela será considerada, mas entre fronteiras fluidas. Além 
disso, a definição em si de simbolismo é um pouco lacunar, pois, como observou 
Tolmachóv (2005), apesar de haver excelentes estudos isolados, não se fez ainda uma 
tipologia do simbolismo que tenha levado em consideração seus diferentes repre-
sentantes entre meados do século XIX e início do XX. Ainda se sustenta como selo 
simbolista a imagem de um grupo de dândis alienados e da França como sua grande 
mentora intelectual: 
[...] a literatura francesa é reconhecida como o centro do simbolismo mun-
dial, e os tímidos esboços de simbolismo, em outros países, reduzem-se ao 
estabelecimento ou à negação da influência francesa. 
(TOLMACHÓV, 2005, p.16) 
A expressão multifacetada do movimento é normalmente ignorada: apesar da 
ascendência francesa, em cada parte se refletiu um contorno do simbolismo – houve 
o simbolismo alemão, o simbolismo italiano, o simbolismo belga, o simbolismo ro-
meno, entre outros tantos. Além de assumirem características particulares, esses sim-
bolismos não pertenceram ao mesmo período nem tiveram o mesmo impacto em 
suas culturas. 
O simbolismo russo evidenciou marcas muito singulares, pois, afora o fato de 
tratar-se de uma realidade sociocultural muito diferente da europeia, embebeu-se 
mais da própria cultura do que de influências externas: 
Os simbolistas russos aceitaram Dostoiévski como um mestre e precursor, ao 
lado de Vladímir Solovióv. Com efeito, não obstante as origens francesas, o 
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14
 LÓTMAN, I. O símbolo no sistema da cultura. In: CAVALIERE, A.; VÁSSINA, E.; SILVA, N. (Org.) 
Tipologia do simbolismo do simbolismo nas culturas russa e ocidental. São Paulo: Associação 
Editorial Humanitas, 2005, p.50. 
22 
 
simbolismo russo logo encontrou raízes nacionais para a sua reação ao posi-
tivismo, ao naturalismo e ao materialismo vulgar da época
15
. 
E a Rússia devolveu ao mundo um simbolismo ampliado, com perspectivas e 
conceituações originais, tornando-se ―um espelho do simbolismo ocidental‖: 
Ou seja, precisamente na Rússia, no primeiro decênio do século XX, o simbo-
lismo, inicialmente calcado no francês, foi em seguida enriquecido e apre-
sentou-se como problema de toda a cultura, que superou as fronteiras naci-
onais. 
(TOLMACHÓV, 2005, p.33) 
O movimento simbolista russo foi organizado na passagem do século XIX para 
o XX, e seu momento de evidente efervescência aconteceu no primeiro decênio dos 
1900. O poeta Dmítri Merejkóvski (1866-1941), com o ensaio de 1892 O pritchínakh 
upádka i o novykh tetchiéniyakh sovremiénnoi russkoi literatury (Sobre as causas do 
declínio e as novas tendências contemporâneas da literatura russa), é comumente 
apontado como o precursor do simbolismo russo, seguido de Nikolai Mínski (1855-
1937), Konstantin Balmont (1867-1942) e Valiéri Briussóv (1873-1924), sendo os dois 
últimos representantes de Moscou. Fiódor Sologub (1863-1927) é normalmente 
identificado com a primeira geração de simbolistas de Petersburgo. Com o fim da 
década de 1910, obras ligadas unicamente à corrente tornaram-se mais raras, tendo 
quase desaparecido na década seguinte, contrariamente aos reflexos do movimento. 
O simbolismo na Rússia,