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MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 1 Prof. Florestan Rodrigo do Prado E-mail: 05/02/2016 CONCEITO DE MEDICINA LEGAL “É a medicina a serviço das ciências jurídicas e sociais”. (Genival Veloso de França) “Conjunto de conhecimentos médicos e paramédicos destinados a servir ao Direito, cooperando na elaboração, auxiliando na interpretação e colaborando na execução dos dispositivos legais, no seu campo de ação de medicina aplicada”. (Hélio Gomes) “É a aplicação dos conhecimentos médicos-biológicos na elaboração e execução das leis que deles carecem” (Flamínio Fávero) “É a ciência extrajurídica auxiliar, alicerçada em um conjunto de conhecimentos médios, paramédicos e biológicos, destinados a defender os direitos e os interesses dos homens e da sociedade” (Deldon Corce e Delton Croce Jr.) “Medicina legal é o ramo da medicina vinculado ao Direito, consistente no emprego de técnicas e procedimentos científicos utilizados para o esclarecimento de casos do interesse da justiça”. (Florestan) SINONÍMIAS Medicina judiciária, medicina forense, medicina pericial, jurisprudência médica, medicina criminal, medicina jurídica. Existem várias espécies de nomenclaturas. No Brasil, o termo mais empregado é Medicina Legal, que é a nomeclatura adotada pela “especialização médica”, ou seja, a área da medicina com determina particularidade que põe seus conhecimentos específicos a disposição da Justiça. Atualmente existe, no Brasil, a ABML – Associação Brasileira de Medicina Legal, formada por “médicos legistas” com título de especialidade. MEDICINA LEGAL É UMA CIÊNCIA AUTÔNOMA? Existem divergências doutrinárias quanto a Medicina Legal ser ou não uma ciência autônoma. Havendo ainda uma discussão se ela ainda é uma parte da Medicina (ramo das Ciências Médicas). Surgiram três correntes a este respeito: Corrente restritiva: Defende que ela não é uma ciência autônoma porque utiliza de conhecimentos das ciências médicas a favor do Direito. Sendo, portanto, um segmento da medicina. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 2 Corrente extensiva: Defende que ela é uma ciência autônoma porque é exercida por profissionais habilitados e capacitados para este fim, ou seja, os “médicos legistas”. Corrente eclética ou mista: Possui um posicionamento intermediário, aceitando em parte a autonomia científica da Medicina Legal (por ser formada por profissionais capacitados e por possuir técnicas e metodologias próprias), mas, ao mesmo tempo não desvinculando esta disciplina do campo das “Ciências Médicas”. No Brasil não há uma corrente predominante. No entanto, os maiores expoentes da literatura médico-legal adotam a corrente eclética (Flamínio Fávero, Hilário Veiga de Carvalho, etc.) ESCORÇO HISTÓRICO DA MEDICINA LEGAL Período antigo: a medicina era uma “arte”. Os médicos eram vinculados à religião (sacerdotes). O cadáver era sagrado, não podia ser estudado. Na China, haviam técnicas para estudar o cadáver e distinguir as lesões. Período Romano: os cadáveres eram analisados externamente. (O corpo de Júlio César foi periciado externamente por Antístio, médico). Com a vigência do Código de Justiniano (483 dC) a “mulher grávida” poderia ser submetida à perícia pela parteira para se constatar a gravidez. Idade Média: prevaleceram a Ordálias até 1215 dC. Na França em 1278, criou-se a figura dos cirurgiões juramentados junto à coroa. Em casos de morte violenta, determinou-se a necessidade de perícia (1507). Período Canônico: a partir do Decreto do Papa Inocêncio III, as perícias começaram a ser autorizadas. Em 1374, o Papa Gregório XI passou a autorizar necropsias em casos complexos. Somente em 1532, na Alemanha através de Carlos V, foi instituído o Código Criminal Carolina, onde as perícias criminais passaram a ser obrigatórias em caso de morte violenta. Período Moderno ou Científico: inicia-se em 1575, através dos estudos do cirurgião francês Abróise Paré. Em 1602 foi lançado o primeiro tratado de Medicina Legal através do médico Fartunatus Fidelis tratando de questões médico legais (traumatologia, sexologia, dentre outras). Em 1621, Paulo Zacharias publica a obra “Questiones medico legales *...+” com três volumes expondo tudo que sabia sobre medicina legal. Este livro é considerado, pela maioria dos autores, como o verdadeiro “marco” da Medicina Legal moderna. Medicina Legal no Brasil: no período colonial foi influenciada pelos franceses, italianos e alemães, sendo praticamente nula a participação portuguesa. Haviam apenas documentos médicos esparsos. Em 1832, com a regulamentação do Código de Processo Penal brasileiro, foram aplicadas várias regras sobre perícias criminais. O ensino prático de Medicina Legal no Brasil foi iniciado por Souza Lima em 1818 e aplicada na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A nacionalização da Medicina Legal MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 3 ocorreu pela criação da Escola Brasileira de Medicina Legal fundada por Raymundo Nina Rodrigues, na Bahia, no início do Séc. XX. Passou a ser disciplina obrigatória na USP em 1922. Desde então, muitos cursos de Direito e de Medicina adotam a disciplina de Medicina Legal. Seus principais expoentes são: Alcântara Machado, Delton Croce, Flamínio Fávero, Hélio Gomes, Hilário Veiga de Carvalho, Oscar Freire, Genival França, dentre outros. CLASSIFICAÇÃO HISTÓRICA DA MEDICINA LEGAL Medicina legal pericial: abrangeria o surgimento da Medicina Legal voltada para as pericias médicas e a solução dos problemas afetos à Justiça. Para a comprovação dos fatos depende-se de perícia. Medicina Legal Legislativa: envolveria aspectos legal, visando normatizar diversas condutas médico-legais com a criação de Leis compreendendo a Medicina Legal e o Direito. Medicina Legal Doutrinária: pretende contribuir para a discussão e fundamentação científica de institutos jurídicos ligados às áreas médicas. Medicina Legal Filosófica: discute assuntos ligados à ética do exercício da medicina, envolvendo assuntos relevantes no âmbito da reflexão filosófica, por exemplo: clonagem humana, emprego de células-tronco, relações entre médico e paciente, etc. RELAÇÃO DA MEDICINA LEGAL COM OUTROS RAMOS DO DIREITO Direito Penal e Direito Processual Penal: muitos crimes dependem de provas periciais realizadas sobre seus vestígios, como por exemplo, os crimes contra as pessoas (homicídio, infanticídio, aborto, lesões corporais, etc.) e os crimes contra a dignidade sexual (estupro, estupro de vulnerável, etc.) dentre outros. Também são realizadas pericias em crimes contra o patrimônio que deixam vestígios (arrombamento, escalada, etc.), em crimes contra a fé pública (falsificação de moeda, de documentos em geral, etc.) Obs: Na busca da solução de problemas judiciais, a Medicina Legal socorre-se de inúmeras fontes: Física (fotografia, radiografia, balística), Química (toxicologia, exames laboratoriais). Anatomia, Biologia, Parasitologia Psicologia, Psiquiatria, etc. Direito Penitenciário: no âmbito da execução da pena privativa de liberdade são realizados vários tipos de perícias psiquiátricas previstas na Lei de Execuções Penais – Lei 7.210/84. Existe o “Exame Criminológico” realizado como forma de individualização da pena e como instrumento para obtenção de benefícios legais (progressão de regimes, livramento condicional, etc.). Na execução das Medidas de Segurança são realizados os Exames de Cessação de Periculosidade. Direito do Trabalho e Direito Previdenciário: a Medicina Legal investiga os acidentes de trabalho e as doenças ocupacionais. Devem ser periciadas as lesões decorrentesdo trabalho e as condições de segurança do trabalho. Existem as perícias realizadas nos processos trabalhistas, a exemplo das lesões por esforços repetitivos (LER). Além disso, temos uma série MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 4 de benefícios previdenciários que envolvem doenças que precisam ser submetidas à perícia médica (Ex: auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, etc.). Direito Civil e Direito Processual Civil: A Medicina Legal atua no campo das capacidade civis. Em certos casos, é necessária a realização de perícia para se verificar se o indivíduo tem capacidade civil. (Ex. processo de interdição para verificar a existência de uma doença mental). Atua também no Direito de Família (exame de DNA no processo de investigação de paternidade), no âmbito da responsabilidade civil (perícia em acidentes, colisões de veículos, etc.). No processo civil, tais perícias podem ser determinadas pelo juiz ou a requerimento das partes. Direito de Trânsito: a Medicina Legal influencia o Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503/97), quando se refere a embriaguez e as consequências jurídicas provocadas por substâncias com efeitos análogos, como drogas. DIVISÃO OU CLASSIFICAÇÃO ESTRUTURAL DA MEDICINA LEGAL Parte Geral: envolve a introdução dos estudos de Medicina Legal. Abordando-se conceitos, importância, divisão, tipos de perícias e a forma de atuação dos peritos. Também visa o estudo dos deveres (Deontologia) e direitos (Diciologia) dos médicos (Ética médica, sigilo profissional, responsabilidade médica, etc.). Parte Especial: envolve as especialidades da Medicina Legal, compreendendo as questões de identidade das pessoas, o estudo das doenças mentais, da sexualidade humana, das lesões corporais e dos agentes traumáticos, da morte e dos fenômenos que a acompanham, das asfixias mecânicas em razão de causas externas, etc. DIVISÃO DIDÁTICA DA MEDICINA LEGAL Antropologia Forense Preocupa-se com a identidade (características próprias e exclusivas) e identificação (processo que se atribui a identidade a alguém) das pessoas e todos os procedimentos e métodos aplicados para tal finalidade. Ex: sistema datiloscópico. Traumatologia Forense Importa-se com o estudo das causas (traumas) e das consequências (lesões), provocadas a partir do emprego de determinados tipos de energia. Ex: lesões causados por instrumentos perfurantes, cortantes, contundentes, lesões causadas pelo calor, eletricidade, substâncias químicas, eletricidade, etc. Sexologia Forense Estuda a sexualidade normal e anormal, procurando correlaciona-la com as diversas doenças e perturbações envolvendo o comportamento sexual humano. Ex: patologias sexuais, etc. Asfixiologia Forense MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 5 Preocupa-se com os mecanismos diversos da privação de oxigênio fornecido ao cérebro e demais tecidos do corpo humano, objetivando fazer uma ligação com a morte ou alterações deles decorrentes. Ex: enforcamento, esganadura, estrangulamento, etc. Psicopatologia Forense Preocupa-se com o estudo da personalidade do ser humano e das doenças mentais que influenciam seu comportamento criminal. Ex: psicopatia, esquizofrenia, oligofrenia, neuroses, etc. Tanatologia Forense Estuda-se a morte em seus diversos aspectos, buscando, sobretudo, desvendar-lhe a causa, o tempo estimado de ocorrência, os fenômenos cadavéricos, etc. Toxicologia Forense Estuda-se os diversos casos de intoxicações exógenas (externas). Ex: envenenamentos, drogadições, alcoolismo, etc. MEDICINA LEGAL, CRIMINOLOGIA E CRIMINALÍSTICA Uma questão que sempre é levantada e que é muito comum em concursos públicos é aquele referente à diferença existente entre a Medicina Legal, Criminologia e Criminalística. MEDICINA LEGAL É a ciência ou o ramo da medicina aplicada ao Direito que emprega técnicas e procedimentos científicos, estudando alterações biopsicológicas do organismo humano (vivo ou morto) para a elucidação de casos do interesse da justiça. Objeto: corpo humano (vivo ou morto) e suas interações com o meio ambiente. CRIMINOLOGIA É a ciência multidisciplinar, não normativa, que estuda o crime como fenômeno social, o criminoso sob uma perspectiva objetiva e subjetiva, a vítima e sua participação no contexto do delito, bem como os mecanismos de controle social que operam em sociedade. CRIMINALÍSTICA É a ciência que estuda os vestígios deixados no local do crime, preocupa-se mais com a identificação do delinquente, com a produção de prova e coma dinâmica do evento criminoso. Ex: análise de secreções, fios de cabelo, impressões digitais, arma utilizada no crime, etc. 19/02/2016 PERÍCIAS – PERITO – DOCUMENTOS MÉDICO-LEGAIS CONCEITO DE PERÍCIA MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 6 As autoridades judiciárias não são obrigadas a conhecerem todos os campos científicos (economia, engenharia, medicina, etc.). Assim, a Justiça se socorre das perícias para o esclarecimento de diversos temas de seu interesse. Significado: do latim, “Peritia” que significa habilidade, destreza, conhecimento. As perícias são os exames realizados pelos técnicos (peritos) nas diversas áreas do conhecimento. Quando realizada por médicos, são chamadas de perícias médicas ou de diligências médico-legais. Perícia: é todo procedimento técnico-científico (Laboratorial, necroscópico, clínico, de exumação, etc.) realizado por pessoa qualificada para tal trabalho e sob solicitação exclusiva da Justiça, visando esclarecer fatos, dirimir dúvidas e fornecer provas concretas da materialidade de um fato delituoso. Pode ser entendida como sendo “a capacidade teórica e prática de alguém, em determinado campo científico, objetivando sempre esclarecer fatos que interessa à Justiça”; ou ainda, “uma modalidade de prova que requer conhecimentos científicos, técnicos ou artísticos”. A perícia é uma prova “Objetiva” ou “Matiral”. É o “visum et repertum” (ver e retratar). CLASSIFICAÇÃO GERAL DAS PERÍCIAS As perícias podem ser Médicas ou Não Médicas. Perícias médicas: envolvem psiquiatria, traumatologia, sexologia, tanatologia. Ex. laudo necroscópico. Perícias não médicas: envolvem áreas científicas diversas da medicina. Ex. perícia contábil, de engenharia, balística, documentoscópicas, etc. Perícias cíveis: são aquelas que refletem no âmbito civil. Ex: Exame de DNA para constatação da paternidade. Perícias trabalhistas: referem-se ao Direito do Trabalho. Ex: Laudo de caracterização e classificação da insalubridade e periculosidade do local de trabalho. Perícias Criminais: realizadas para a comprovação da materialidade do crime ou do fato que tenha importância no campo criminal. o CLASSIFICAÇÃO DAS PERÍCIAS NO ÂMBITO CRIMINAL Existem duas grandes vertentes pericias: Perícia de retratação (percipiendi): visa apenas a descrição pura e simples daquilo que foi observado pelo perito. É uma narração minuciosa daquilo que foi visto pelo perito. É a modalidade mais comum de exame pericial. Ex: Exame de local do crime. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 7 Perícia interpretativa (deducendi): é a realizada através de um método de interpretação dos fatos, no qual o perito, após analisar os elementos encontrados, lança uma conclusão técnica. Ex: Laudo necroscópico em que o perito determina a “causa mortis”. Outras classificações: Direta: quando realizada sobre a própria coisa ou pessoa sempre que o evento tenha deixado vestígio. Ex: corpo da vítima (Exame de corpo de delito – Art. 158, CPP). Indireta: quando utiliza dados anteriormente registradosem outros órgãos, v.g. fichas hospitalares ou prontuários clínicos (Art. 167, CPP). Retrospectiva: trata-se de uma perícia confeccionada no presente, mas que versa sobre matéria do passado. Ex: laudo psicológico para avaliar a inimputabilidade ou sua situação psicológica à época da conduta. (Ex: averiguação de estado puerperal); Prospectiva: objetiva o exame de situações presentes cujos efeitos deverão ocorrer no futuro. Ex. Exame de cessação de periculosidade. Falsa perícia: é uma perícia onde o perito presta informações inverídicas, consistindo: a) na afirmação de uma inverdade; b) na negação da verdade; c) no silêncio sobre a verdade. A constatação da falsa perícia pode gerar consequências ao perito que responderá por crime de “falsa perícia” previsto no Art. 342 do CP, além de consequências no âmbito civil e administrativo. Obs. Falsa perícia e Imperícia são coisas diferentes. Na “falsa perícia” o perito tem conhecimento sobre o assunto, mas dolosamente, nega a verdade. Já na “imperícia” o perito demonstra falta de conhecimentos técnicos-científicos para elaborar a perícia, ou seja, demonstra incapacidade técnica para a elaboração do laudo. Ambos podem sofrer penas administrativas. Perícias Compulsórias ou Obrigatórias: São aquelas em que o Juiz, o Promotor de Justiça ou o Delegado de Polícia não podem deixar de requisitar sua realização, ou seja, são obrigatórias tanto no inquérito policial como no inquérito civil ou no processo. Ocorrem nas seguintes hipóteses: a) quando a infração deixar vestígios; b) quando há dúvidas sobre a integridade mental do acusado, nesta hipótese, o juiz suspende o processo e o converte em diligências, a fim de submeter o réu a perícia psiquiátrica; c) quando a perícia é possível e tempestivamente requerida pela parte ou seu representante. Perícia Contraditória: quando dois peritos, num mesmo caso, chegam a conclusões divergentes, ou seja, quando os peritos divergirem sobre a conclusão do “visum et repertum”, então será nomeado o 3° perito a fim de dirimir a dúvida, divergindo daqueles, poderão ser nomeados outros dois peritos que elaborarão um novo laudo, tudo a critério de quem deverá emitir o juízo de valores, ou seja, da autoridade requisitante (Art. 180, CPP). Se o perito desempatador não for oficial, deverá prestar compromisso. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 8 SOBRE QUEM OU SOBRE O QUÊ RECAI UMA PERÍCIA? Todo crime material deixa vestígios de sua existência. As perícias são realizadas sobre esses vestígios. Os vestígios compõem o “Corpo de Delito”. “Corpo de Delito é o conjunto dos elementos materiais deixados pela conduta criminosa”. Conforme o Art. 158 do CPP, “quando a infração deixar vestígio será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado”. Obs.: não confundir “corpo de delito” com o “corpo da vítima”, pois são coisas diferentes. O “exame de corpo de delito” é a perícia que se realiza nos elementos materiais deixados pela infração. Esses vestígios deixados pelas infrações podem ser permanentes (delicta factis permanentis) ou transeuntes (delicta factis transeuntis). Pessoas Vivas: visam determinar a identidade, idade, sexo, altura, doenças físicas ou mentais, gravidez, embriaguez, lesão corporal, estupro, etc. Pessoas Mortas (Cadáveres): tem por objetivo diagnosticar o tempo da morte, a identificação do morto, diferenciar lesões causadas em vida “intra vitam” e causadas após a morte “post mortem”. Realizar exames toxicológicos das vísceras do morto, extrair projéteis do corpo, proceder a exumação, etc. Objetos: tem por finalidade a pesquisa de impressões digitais, exames de armas e projéteis, instrumentos médicos (em caso de abortos) manchas de saliva, esperma, sangue, fezes, etc. Animais: são perícias mais raras, mas podem ocorrer em alguns casos. Exemplo: tráfico de drogas com utilização de animais; ato libidinoso para esclarecer crimes sexuais envolvendo animais (zoofilia ou bestialismo); lesões nos animais (crueldade contra animais); e, exame bromatológico (alimentos deteriorados, envenenamento). O IML de São Paulo não realiza exames em animais, devendo a autoridade nomear veterinários como peritos louvados. Obs: Há uma especialidade denominada Entomologia Forense em que se estuda insetos e ácaros em processos criminais para desvendar a prática de crimes. CARACTERÍSTICAS GERAIS DA PERÍCIA A quem interessa a perícia: a) Ao advogado, para a defesa de seu cliente; b) A autoridade policial, para a elaboração do inquérito; c) Ao Promotor de Justiça, para iniciar a ação penal; d) Ao juiz, na formação de seu convencimento para prolatar a sentença. Quem determina a perícia: é determinada pela autoridade competente à frente do caso. Quem as requisita diretamente são os Delegados, os Juízes e os membros do Ministério Público. Os advogados podem requerem a realização de perícias, cabendo às autoridades determinarem ou não a sua realização (Art. 14, CPP). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 9 Formalização da perícia: a perícia é materializada em um documento (relatório) denominado “Laudo” ou “Auto” que pode ter natureza técnica, artística, científica, médico- legal ou criminalística. Limites da Perícia: embora seja prova técnica, objetiva e material, a perícia não tem valor absoluto, pois o Juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo rejeitá-lo no todo ou em parte (Art. 182, CPP), mesmo porque se aplica em matéria de Direito Penal, o princípio da Verdade Material ou Real. Prazo: uma perícia pode ser realizada em qualquer lugar, a qualquer dia ou hora. A perícia pode ser realizada em qualquer fase, policial ou judiciária, o prazo para encaminhar o Laudo é de 10 dias podendo, em casos excepcionais o perito requerer à autoridade requisitante para prorroga-la (Art. 160, Parágrafo único, CPP). Já para os laudos de insanidade mental o prazo não será superior a 45 dias, salvo se os peritos demonstrarem necessidade de maior prazo (Art. 150, §1°, CPP). Obs.: existem perícias complementares que podem ser realizadas quando o perito não puder concluir a natureza das lesões ou quando a lei determinar. Ex. para a constatação da lesão corporal grave a pericia é marcada para 30 dias após o fato lesivo. A Necropsia será feita, em regra, depois de 6 (seis) horas do óbito, podendo, em razão das evidências tanatológicas, ser realizada antes daquele prazo, devendo constar no laudo o incidente (Art. 162 “caput”, CPP), nos casos de morte violenta de causa não criminosa ou as lesões externas permitam determinar a causa da morte e não necessitar de exames internos poderá a necropsia ser realizada a qualquer momento, como por exemplo, no politraumatizado (Art. 162, Parágrafo único do CPP). Entende-se por cadáver quando as características que identificam o ser permanecem intactas; por esqueleto entende-se o conjunto completo de ossos que outrora fora de um ser humano, porém sem as suas características morfológicas; a ossada é parte incompleta de um esqueleto. OS PERITOS Perito: é a pessoa que tem conhecimentos técnicos e especializados em determinada ciência ou atividade que é convocado para intervir num certo processo. Ex: Médico-legista, perito forense ou perito criminal. O Perito pode ser Oficial; Nomeado (louvado) o Assistente Técnico. Perito Oficial: são aqueles que atuam por dever de ofício, ou seja, são funcionários públicos de nível superior concursados para a exercer a função de perito em diversas áreas. (Ex: os peritos do IML – Instituto Médico Legal, são os “médicos legistas” e peritos do IC – Instituto de Criminalística,são os “peritos criminais”, envolvendo diversas áreas do conhecimento científico: fotógrafos, papiloscopistas, biólogos, químicos, peritos em balística, grafotecnia, etc. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 10 Perito Nomeado (louvado): são os peritos não oficiais (não concursado) que atuam geralmente na esfera cível ou trabalhista. Pela diversidade da matéria, normalmente os exames são realizados por especialistas nomeados pelo juiz (Art. 465, caput e 1° do NCPC e 195 da CLT). Ex: perícia ser realizada por bioquímico especializado em medicina nuclear. Tais peritos devem prestar juramento e respondem por seus atos. Obs: pode acontecer de inexistirem peritos oficiais ou não oficiais na localidade dos fatos (região distante, pequenos municípios sem estrutura). Neste caso, o juiz poderá nomear duas pessoas idôneas, de nível superior, de preferência na área técnica específica, para a realização da perícia (Art. 159, §1°, CPP). Tais peritos são chamados de Peritos Leigos ou Peritos “ad hoc” (para o ato). Assistentes Técnicos: são os profissionais de confiança das partes, indicadas para acompanhar o exame do perito oficial (antes era possível apenas na área cível e trabalhista, agora é permitido também na área criminal – Art. 159, §3° e 5°, II do CPP). Aos assistentes técnicos não se aplicam as regras relativas à suspeição (Art. 466, §1° do NCPC). NÚMERO DE PERITOS Na esfera penal, o número de peritos sempre causou discussão ao longo do tempo. A redação do Art. 159 do CPP, antigamente, falava em “peritos” no plural, gerando dúvidas se seriam um ou dois técnicos. Isto gerou a figura do “segundo signatário”, ou seja, aquele que, embora não tendo realizado o laudo, assinava a título de confiança, como mero subscritor do trabalho do perito alheio. Em 1994 com a edição da Lei n° 8.862/94 a regra passou a ser mais clara, exigindo-se dois peritos obrigatoriamente. Na prática a determinação nunca foi cumprida, pois os exames continuaram a ser realizados por um único perito e assinado por um segundo. Finalmente, com o advento da Lei 11.690/2008, a distorção foi corrigida, autorizando-se a pericia por um perito oficial (atual redação do Art. 159 do CPP). Obs: Nada impede que, pela complexidade do laudo ou pelas várias áreas do conhecimento que envolvem o caso, dois peritos ou mais, oficiais venham a elaborar o laudo. No entanto, de regra um perito, excepcionalmente, dois ou mais. Após o laudo pronto, em juízo, será facultado ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos ou indicação de assistente técnico, que apresentarão pareceres (Art. 149, §§ 3° e 4° CPP) O INSTITUTO MÉDICO LEGAL (IML) E O INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA (IC) I.M.L.: o Instituto Médico Legal é o local onde estão lotados os peritos e todo o pessoal de apoio a estes (ex: auxiliar de necropsia, fotógrafos, etc.) tem por finalidade a elaboração das perícias médico-legais e toxicológicas. Até pouco tempo atrás, o IML era subordinado à Polícia Civil do Estado, mas recentemente ocorreu a desvinculação, passando a ser um órgão autônomo dentro da MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 11 Secretaria de Segurança Pública ligado à Superintendência da Polícia Científica com postos na capital e interior do Estado. São funções dos médicos legistas: exames de lesões corporais, exame de sanidade mental, necropsias, exumação, verificação de aborto recente, exame de conjunção carnal recente, perícias em ossos, dentes e pelos, pesquisas bacteriológicas, etc. I.C.: o Instituto de Criminalística se divide em várias seções e setores, realizando tanto perícia no local do crime, como em documentos ou objetos. São realizados inúmeros exames no I.C. atingindo a maioria das áreas do conhecimento humano. Ex: perícias em sons, imagens, balística, acidentes de trânsito, internet, engenharia, contabilidade, etc. Obs.: Em São Paulo, as impressões digitopapilares, identificação datiloscópica e expedição de Carteiras de Identidade (RG) são realizadas pelo IIRGD – Instituto de Identificação “Ricardo Gumbleton Daunt” ligado à Delegacia Geral de Polícia. LOCAL DO CRIME No local do crime é onde se encontram os vestígios do fato ocorrido. O local do crime precisa ser isolado e conservado. Os objetos que tem relação com o crime são apreendidos e periciados. Tais determinações constam nos manuais internos do I.C., bem como nos Artigos 6°, I, II, III e 169 do CPP. É necessário que o mesmo seja preservado em sua totalidade, com a intenção de que não se perca uma só informação que seja acerca do crime que ali aconteceu. É muito comum pessoas curiosas ou mesmo policiais despreparados realizarem a alteração do local de um crime dificultando as investigações. O local do crime pode conter muitos vestígios: roupas íntimas com sangue ou esperma, fios de cabelo, “bitucas” de cigarro, copos ou outros objetos com impressões digitais, todos esses materiais compreendem o “corpo de delito”. É realizado um registro pericial do local (descrição narrativa – relatório de tudo que o perito encontra no local) o local é fotografado e se elabora um “croqui”, ou seja, um desenho da cena do crime. Existem várias nomenclaturas para o Exame de local do crime: a) Exame perinecroscópico: vem de “peri”, que significa periferia. Consiste no exame realizado sobre a região periférica do cadáver (Art. 164 a 169 do CPP); b) Exame do local do crime: é uma perícia genérica destinada a análise de um local, sempre que nele ocorrer um crime que tenha deixado vestígios – Ex: furto qualificado, roubo, incêndio, etc. (Art. 151 a 173, CPP) c) Recognição visuográfica do local do crime: é um documento elaborado pelo Delegado de Polícia quando o mesmo comparece ao “local do crime”. O Delegado e o Escrivão de polícia anotam tudo que observam e realizam uma espécie de relatório, juntando todos os MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 12 dados no Inquérito Policial. Obs.: não é uma perícia, é um documento policial, pois não é confeccionado por um perito. Também não se confunde com a reconstituição do crime (Art. 7°, CPP) que é uma perícia, onde os peritos reproduzem (de maneira simulada) todo o “iter criminis” desenvolvido pelo agente. 26/02/2016 LAUDO PERICIAL É uma espécie de Relatório Médico-Legal redigido pelo próprio perito, após as investigações, consultas, análises, discussões e conclusões acerca do fato que determinou a perícia. É um documento médico-legal consistente na corporificação da perícia, onde é registrado, minuciosamente, tudo aquilo que se encontrou e analisou durante o ato pericial. Os relatórios médicos podem ser: a) ditados diretamente ao escrivão, na presença de testemunha (neste caso, são chamados de AUTO – ex: Auto de Exumação de Cadáver. b) redigidos posteriormente pelos próprios peritos, nesta hipótese são denominados de LAUDO – ex: Laudo cadavérico (Necropcia). No âmbito criminal os peritos oficiais, via de regra, elaboram o “Laudo Pericial” (eles mesmos produzem o laudo) e os peritos nomeados ou louvados participam do Auto, pois eles ditam suas conclusões ao escrivão (Art. 179 do CPP). Um Laudo Pericial é composto de várias partes: preâmbulo, quesitos, histórico, descrição, discussão, conclusão, e reposta aos quesitos. Essencialmente o laudo pericial trata-se de um relatório médico, então, na verdade é um documento médico legal que constantemente é requisitado pelos juízes para esclarecer fatos do processo. Não podemos confundir o laudo pericial com o auto. O laudo é realizado pelo próprio perito, já o auto pericial é umdocumento onde há a presença de um escrevente, alguém que auxilia o perito na escrituração do documento. A diferença formal é praticamente essa, a participação ou não de uma pessoa que auxilia o perito. ESTRUTURA DE UM LAUDO PERICIAL Preâmbulo: é a parte do documento onde consta a data, a hora, o local da perícia, os dados de identificação do periciado, a autoridade que requisitou o exame, o perito designado e os quesitos formulados. Histórico: são narrados dados relacionados com o fato, fornecidos pela autoridade solicitante e/ou pelo periciado. Deve ser sucinto e objetivo. É o relato, mais fiel possível dos MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 13 fatos acontecidos. É também chamado de “comemorativo”. Pode ser retirado do registro de ocorrência, da própria vítima, ou das informações descritas pela autoridade requisitante. Descrição: também pode ser chamada de “Exposição”, contém o “visum et repertum” (visto e referido), sendo a parte mais relevante do Laudo. Trata-se do relato de tudo aquilo que foi encontrado no exame físico da vítima, com expressão minuciosa dos procedimentos e técnicas empregados para tal. É a parte onde é colocada a descrição das lesões encontradas de forma clara e em linguagem adequada. Não há, neste momento, indagações subjetivas e hipotéticas dos peritos. Esta parte fornece a materialidade dos fatos. Se for necessário, pode constar na descrição croquis, desenhos, fotos, gráficos, esquemas, filmagens ou qualquer outro recurso. Discussão: nesta parte teremos a exteriorização da opinião dos peritos. Há uma reflexão e discussão dos dados colhidos durante a atuação. Gera-se um diagnóstico lógico, racionalmente embasado. Se realiza uma análise criteriosa dos dados encontrados, esclarecendo-se as controvérsias. Pode ser realizada a citação de bibliografia nesta parte. O laudo pode ou não ter a discussão em seu conteúdo (Ex. perícias de retratação não tem discussão). Conclusão: trata-se do resultado da descrição e da discussão do perito, onde ele faz o “diagnóstico” de tudo que foi observado. É o fechamento lógico do raciocínio desenvolvido na discussão. O perito deve sintetizar com clareza os pontos principais da perícia realizada, concluindo seu estudo neste tópico do laudo. Resposta aos quesitos: por fim, os peritos respondem aos questionamentos feitos pelas autoridades ou pelas partes no processo. São respostas específicas para cada tipo de laudo, devendo ser dadas de forma objetiva. Os quesitos não podem ficar sem responder, mesmo que as questões sejam indeterminadas. Os peritos podem dizer: “sim”, “não”, explicar sobre o instrumento que causou a lesão. Ex: “instrumento perfuro contuso”, ou pode dizer “sem elementos para responder”. No foro penal, os quesitos são previamente formulados (são chamados de quesitos oficiais). Nada impede do Juiz, Ministério Público, Delegado, advogado formularem quesitos antes da realização da perícia. OUTROS DOCUMENTOS MÉDICO-LEGAIS Atestados: são certificados médicos que afirmam situações relacionadas com o estado de saúde de uma determinada pessoa, informando o fato que justifica e possíveis consequências. A falta da verdade na redação de um atestado médico pode configurar o crime previsto no Art. 302 do CP, além de infração do Código de Ética Médica. O atestado pode conter ou não a menção do estado mórbido do paciente. Há posições no sentido de que isso viola o direito do paciente ao sigilo da doença (alguns são estigmatizantes: Aids, Hanseníase, etc.). É possível a citação do CID – Código Internacional de Classificação de Doenças. Existe vários tipo de atestados médicos: a) Graciosos: são emitidos sem motivos reais que o justifiquem. É o atestado falso. O médico atesta que a pessoa está incapaz, por causa de uma doença e não está e nem possui tal enfermidade; b) Oficiosos: são os solicitados pelo MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 14 paciente ao seu médico para que justifiquem faltas no trabalho, à escola, etc. Também é chamado de Atestado Clínico; c) Administrativos: são aqueles solicitados ao médico por repartições de trabalho ou pelo serviço público (ex. solicitação para fins de concessão de licença maternidade, aposentadoria, abonos por falta, etc.); d) Judiciários: são aqueles que interessam à Justiça, solicitados pelos Juízes, Tribunais, etc., para justificar ausência de testemunha, de réus, advogados, etc. Obs: existem regras para emissão de certos tipos de atestados, a exemplo do Atestado de óbito, Disciplinado pelo Conselho Federal de Medicina (Resolução 1779/2005). O atestado de óbito, em caso de morte suspeita ou violeta, só pode ser emitido pelos peritos oficiais do IML – médicos legistas. O atestado de óbito clínico, envolvendo morte natural, pode ser emitido por qualquer médico. Relatórios Médico-legais: são os registros minuciosos daquilo que se encontrou e analisou durante o ato pericial, sob requisição da autoridade competente à frente do caso. Existem dois tipos de relatórios médicos: AUTO PERICIAL: ditado diretamente ao escrivão, com presença de testemunhas (Ex. Auto de exumação; Auto de constatação). LAUDO PERICIAL: redigido pelos próprios peritos após observações, consultas, análises e discussões acerca do fato que determinou a perícia. Na prática, os “relatórios médico-legais” são os mais requeridos pelas autoridades (Juiz, Ministério Público, Delegado). Via de regra, na esfera criminal, os modelos já são padronizados, com quesitos padronizados, elaborado de acordo com o tipo de exame pericial. São conhecidos como QUESITOS OFICIAIS onde os peritos respondem tais indagações ao final do laudo. Nada impede a formulação de quesitos adicionais ou complementares. Principais laudos no âmbito penal: laudo de exame de corpo de delito; laudo de exame necroscópico; laudo de exame perinecroscópico; laudo de exame documentoscópico; etc. Parecer Médico-legal: é um documento consistente em uma resposta a um esclarecimento a um perito oficial ou a uma junta médica sobre um tema específico, ligado ou não a uma perícia realizada. É um documento que exprime a opinião técnica de um perito em resposta a eventuais dúvidas ou controvérsias presentes em um laudo. São requeridos pelas partes ou requisitado pelo Juiz. Se o parecer for falso, o entendimento da jurisprudência é de que o perito responderá por falsidade ideológica – Art. 299, CP (não se trata de laudo pericial, assim, não se enquadra no Art. 342 do CP – falsa perícia), salvo se tratar de opinião pessoa do parecerista, onde não haverá tipificação penal (deve ficar comprovado a intenção criminosa do perito). Notificações: são comunicações compulsórias às autoridades competentes da constatação de um fato médico relevante, especificamente sobre a existência de moléstias MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 15 graves e contagiosas (Ex. cólera, dengue, difteria, hepatites virais, HIV, tuberculose, sarampo, etc. – Portaria 05/2006 – Ministério da Saúde). Caso o médico, injustificadamente, não realize a notificação, responderá pelo crime previsto no art. 269 do CP – Omissão de notificação de doença. ANTROPOLOGIA FORENSE CONCEITO Antropologia (do grego: “anthropos” *homem+ + “logia” *estudo/conhecimento]) é a ciência que está ligada a medicina, que tem como objeto de estudo o “homem” e a “humanidade”. Antropologia Forense é o ramo da medicina legal que, pautado nos conhecimentos de antropologia geral, ocupa-se principalmente com as questões que envolvem a IDENTIDADE e o processo de IDENTIFICAÇÃO das pessoas. IDENTIDADE É o conjunto de elementos que permitem individualizaruma pessoa, fazendo-a diferente das demais. São caracteres próprios e exclusivos de cada ser humano (pode envolver também animais, coisas, objetos, etc.), cuja soma de sinais, marcas e caracteres (positivos ou negativos) individualizam esta pessoa, distinguindo-a das demais. Pode-se dizer que é o conjunto de características pessoais que diferenciam o indivíduo dos outros que lhe confere um status social único. IDENTIFICAÇÃO É a determinação da identidade ou a demarcação da individualidade. É o processo através do qual se determina a identidade de uma pessoa. Para se realizar a identificação de uma pessoa é necessário um conjunto de técnicas científicas, métodos e sistemas utilizados para se determinar a identidade de alguém. Todos os pontos duvidosos devem ser afastados para se estabelecer a identidade. Obs. a identificação é um processo científico e não pode ser confundida com “reconhecimento”. O reconhecimento é um processo empírico, desprovido de cientificidade (não realizado por perito e com baixo grau de precisão). Ex: reconhecimento pessoa pela vítima. FUNDAMENTOS OU PRINCÍPIOS DOS MÉTODOS DE IDENTIFICAÇÃO Os processos de identificação são baseados em sinais ou dados peculiares que cada indivíduo possui e que, somados, podem excluí-lo de todos os demais. Esses sinais e dados são chamados de “elementos sinaléticos”: cor e tipo dos cabelos, a cor dos olhos, a forma da orelha, a estatura, são elementos sinaléticos. Quando isolados, são MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 16 de pouco valor (muitas pessoas tem características iguais), mas quando esses elementos são associados com outros elementos, passa a existir uma restrição do número de pessoas, o que pode possibilitar a identificação. A associação de vários elementos sinaléticos constitui a base de todo o processo de identificação. Os elementos sinal éticos devem preencher quatro requisitos que também são chamados de princípios de identificação: A) Unicidade: o conjunto destes elementos deve ser exclusivo do indivíduo, de modo a distingui-lo dos demais. O ser é único, ou seja, não pode haver duas pessoas com os mesmos caracteres; B) Imutabilidade: a característica não pode mudar ao longo da existência, ou seja, não se pode alterar enquanto o indivíduo existe. Obs. alguns elementos sinaléticos não podem ser considerados, porque são mutáveis. Ex: peso, espessura da derme (mãos calosas), idade, etc. (outros não mudam, ex: o desenho das saliências papilares se formam no sexto mês de vida intrauterina e permanecem mesmo após a morte, antes da putrefação destruir a pele). C) Praticidade: os caracteres devem ser de fácil registro e obtenção. Devem ser manuseáveis (fichas, arquivos, fotos, etc.) de rápida localização e de manuseio prático; D) Classificabilidade: os caracteres devem poder ser catalogados, ordenados e, sobretudo, classificados. As informações sobre a identificação dos indivíduos não podem ser feita ao acaso. Os processos de identificação devem valer-se de elementos e sinais de fácil classificação. A busca dos arquivos deve ser célere (a qualquer momento). Obs. Além das saliências papilares, a cicatriz umbilical, o vórtice capilar, a íris possuem os cinco requisitos científicos, ou seja, são una, variável, imutável e classificável, mas ainda não são absolutamente práticas. INDENTIFICAÇÃO MÉDICO-LEGAL É o processo que utiliza de conhecimentos médicos legais para se estabelecer a identificação de alguém. Sua determinação pode ser feita em pessoas vivas, em cadáveres ou até mesmo em restos mortais ou ossadas (através de procedimentos científicos específicos). A identificação médico-legal inclui vários critérios: Identificação por raças: raças são subdivisões de uma mesma espécie (humana). Geneticamente, as populações se diferenciam na frequência de seus genes ou na estrutura de seus cromossomos. Há uma natural diversificação das populações (além de aspectos genéticos, também por fatores culturais ou ambientais). Este tipo de critério busca MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 17 determinados traços comuns aos diversos grupos étnicos, com a finalidade de reuni-los, por semelhança para se estabelecer a identidade. Existem várias classificações de raças. A mais comum é a de Salvatore Ottolenghi (1861-1934), que aponta cinco tipos fundamentais: a) Tipo caucásico: pele branca ou trigueira (moreno claro), cabelos crespos ou lisos, louros ou castanhos, íris azul ou castanha, contorno crânio-facial ovóide (rosto ovalado). Trata-se do homem branco comum. b) Tipo mongólico: pelo amarela, cabelos lisos e castanhos, face achatada da frente para trás, nariz curto e largo, olhos amendoados e maxilares pequenos e salientes. c) Tipo negroide: pelo de tonalidade castanho-escuro ou negra, cabelos crespos e crânio alongado, fronte alta e saliente, íris castanhas, nariz pequeno e côncavo (largo). d) Tipo indiano: pele amarelada, tendendo ao avermelhado, estatura elevada, cabelos lisos e pretos, olhos castanhos, orelhas pequenas e nariz saliente, maxilar inferior desenvolvido. e) Tipo australoide: estatura alta, pele amarelada ou trigueira, cabelos pretos, ondulados e longos, nariz curto com maxilar inferior desenvolvido. Este critério não é um critério de identificação absoluto, mas secundário. Essas classificações de raças tem certo valor histórico e parcial valor antropológico, pois são pautadas em critérios trazidos pela ótica americana e europeia, não se levando em conta a miscigenação das raças em vários outros lugares do mundo (Ex: no Brasil não temos raça definida: mamelucos [índio e branco]). Além disso, após o sequenciamento do genoma humano, a definição de raça baseado apenas em traços físicos ficou ultrapassado. Hoje está comprovado que pessoas fisicamente semelhantes podem apresentar carga genética significativamente diversa. Identificação por sexo médico-legal: a determinação do sexo na pessoa viva e no cadáver recente e sem mutilações do aparelho reprodutor e dos caracteres sexuais secundários não oferece dificuldade, mas em alguns casos há certa complexidade, como por exemplo, no cadáver putrefeito ou carbonizado, bem como no esqueleto ou na ossada humana, além dos casos de anomalias congênitas (hermafroditismo). Dentre outros, pode-se destacar os seguinte métodos: a) Gonadal: Masculino: presença de testículos; Feminino: presença de ovários; b) Genitália externa: Masculino: presença de pênis e escroto; Feminino: presença de vulva e vagina; e c) Genético: Masculino: constituição cromossômica 46XY; Feminino: constituição cromossômica 46XX. Obs. O útero é um órgão extremamente resistente à carbonização e putrefação, sendo possível a distinção através deste órgão. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 18 Obs. Na ausência da genitália externa ou de órgãos internos, a diferenciação é realizada através do “esqueleto”, dando-se especial atenção à bacia, que, anatomicamente, apresenta grandes diferenças entre o homem e a mulher. A bacia feminina tem constituição mais frágil que a do homem. Além disso, os diâmetros transversais são diferentes. O ângulo sacrovertebral do homem é mais fechado (107°) e o ângulo subpubiano da mulher é mais amplo (110°). Identificação por Idade: a determinação da idade também é de fundamental importância para a Medicina Legal. A determinação da idade é realizada principalmente, pelo tamanho e estado de desenvolvimento dos ossos. A calcificação óssea é um padrão para se estabelecer a idade. A dentição também é um item de reconhecimento da identidade, sobretudo em cadáveres e esqueletos encontrados. As vezes,sem impressões digitais ou na impossibilidade de obtenção de DNA para análise, restam os dentes e os ossos para a identificação do indivíduo. São várias as técnicas e inúmeras as maneiras de se estabelecer a idade através do estudo dos ossos e da dentição, lembrando o diagnóstico é sempre por “estimativa”, não sendo possível estabelecer, com exatidão precisa a idade de uma pessoa através deste critério. Exemplos: estudos radiológicos do sistema ósseo (punho, cotovelo, fêmur, joelho, vértebras, costelas, etc.); estudo dos ossos do crânio; análise dos dentes permanentes irrompidos; estudo do ângulo mandibular; etc. Fases da vida humana: Da concepção até o 3° mês embrião – vida intrauterina; Do 3° mês até o parto feto – vida intrauterina; Nascido que não recebeu cuidados higiênicos infante nascido; Nascido que já recebeu cuidados higiênicos recém-nascido; Até os 7 anos 1° infância; Dos 7 aos 12 anos 2° infância; Dos 12 aos 18 anos adolescência; Dos 18 aos 21 anos mocidade; Dos 22 aos 59 anos adulto; Dos 60 aos 80 anos velhice (aplica-se o Estatuto do Idoso); Acima dos 80 anos senilidade. Identificação por Estatura: também se pode determinar a identidade pela estatura (é mais um critério). Estatura diz respeito à medida de um ser humano em pé, tomando sua metragem do topo da cabeça até a planta do pé apoiada no solo. Não confundir com altura MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 19 que representa a medida do indivíduo também em pé e com os braços erguidos ao máximo que consiga. No caso da avaliação da estatura de um cadáver, a medida deverá ser tomada pelas linhas tangentes ao topo do crânio e da sola dos pés. Isto é feito através de uma régua métrica específica. Também é realizada a medição de ossos isolados para a constatação da estatura (Rádio, Tíbia, Fêmur, etc.). Existem várias tabelas para cálculos específicos da estatura à partir da medição dos ossos. Impressão Genética do DNA: O DNA é um aglomerado de moléculas que contém material genético. Esse material é determinante para o bom funcionamento dos seres vivos e da formação das características físicas (No Brasil é ADN em português: ácido desoxirribonucleico). Cada indivíduo possui o seu próprio DNA, que é único (são raras exceções com pessoas de DNA iguais – Ex: certas categorias de gêmeos). Com base neste princípio, na década de 80 (1984), foi possível desenvolver uma técnica que visa identificar porções de DNA. Designa-se esta técnica por Impressões Digitais Genéticas ou “impressão genética do DNA”. No DNA encontram-se as zonas de restrição, isto é, sequências que se repetem ao longo da molécula, cujo número e tamanho variam de indivíduo para indivíduo. A partir de uma pequena amostra de material biológico que contenha material genético (Ex.: saliva ou mesmo um fio de cabelo) é possível se realizar a extração do DNA. O DNA é fragmentado em pequenos pedações, em pequenas porções de tamanhos diferentes, depois de ser submetido a um trabalho científico é possível se estabelecer uma identificação. A Lei 12.654 de 28 de Maio de 2012 dispõe sobre a colheita de material e estruturação do banco de dados do perfil genético dos criminosos no Brasil. 04/03/2016 Identificação por Peso: existem tabelas teóricas de aproximação em quilos de acordo com a idade e altura. Como afirmado, são pesos teóricos em que se faz a equação e o cálculo com base na estatura e na idade da pessoa. Insta dizer que trata-se de uma “estimativa” não se levando em consideração a biotipologia dos diferentes indivíduos (magreza, adiposidade, etc.) Identificação por tipos sanguíneos: grupos ABO e Rh podem servir de parâmetros de investigação. Identificação por Malformações: os defeitos congênitos, como o lábio leporino, a sindactilia, a polidactilia, as malformações genitais, os vícios ósseos também são elementos valiosos para a identificação médico-legal. Características Psíquicas: as características psíquicas de uma pessoa, desde que delimitadas, podem servir de elemento de identificação. Entretanto, tais características são MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 20 secundárias (por serem mutáveis) e não são seguras para estabelecer uma identificação absoluta. Ex: presença de doenças ou transtornos mentais (transtornos bipolares, esquizofrenias, oligofrenias, etc) Identificação por Sinais Individuais: são sinais personalíssimos que todas pessoas possuem e que podem variar de um indivíduo para outro. Ex: forma e a disposição dos olhos, formato das orelhas, verrugas, desgastes na dentição, cáries, fraturas, amputações, cicatrizes, etc. Dinâmica Funcional: refere-se a comportamento e hábitos de todos indivíduo, levando-se em conta seu gestual, postura física, tom de voz, escrita, atitude diante de certas situações, etc. CARACTERÍSTICAS PARTICULARES FÍSICAS ADQUIRIDAS As características que estudamos até o momento são “naturais” de cada indivíduo, envolvendo estatura, peso, marcas de nascimento, malformações genéticas, etc. Ao lado destas, temos as características particulares adquiridas, que também são importantes para a identificação das pessoas. Sinais profissionais: são os estigmas de uma determinada profissão. Ex: calosidades nas mãos dos trabalhadores braçais, vestígios de chumbo no organismo de operários de indústrias insalubres, mutilações por acidente de trabalho, etc. Tatuagens: são adornos estéticos consistentes em pigmentos de tintas na derme. Podem ser: ornamentais, afetivas, religiosas, patrióticas, desportistas, etc. No âmbito da subcultura carcerária, as tatuagens representam códigos ou simbologia entre os detentos. IDENTIFICAÇÃO POLICIAL OU JUDICIÁRIA É o processo que utiliza de inúmeros métodos de identificação sem natureza médico- legal, extraídos de outras áreas técnicas ou científicas, ou até mesmo da prática policial para identificar criminosos. Ex: fotografias, impressões digitais, etc. Histórico: muitos sistemas remotos aplicavam a amputação de partes do corpo para identificar os criminosos (Código de Hamurabi) ou o Ferrete, que era a marcação de ferro em brasa (na testa). Muitos sistemas se aperfeiçoaram com o passar dos anos. SISTEMAS POLICIAS/JUDICIÁRIOS Assinalamento sucinto ou sumário: são as anotações das principais características do identificando, tais como raça, estatura, idade, cabelos, presença de tatuagens, sinais particulares, etc. Ainda é muito utilizado atualmente (temos o BIC – Boletim de Identificação Criminal); Sistema dermográfico de Bentham: idealizado pelo jurista inglês Benjamim Bentham, consistia na identificação através de tatuagem de todas as pessoas no momento do nascimento, facilitando a identificação de todos. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 21 Sistema antropométrico de Bertillon: são medidas tomadas do corpo da pessoa com base na antropometria (medida dos braços, pernas, crânio, etc.) utilizando-se de técnicas desenvolvidas para fins de identificação (as medidas eram classificadas e arquivadas). Sistema de Icard: previa a injeção de parafina em determinadas regiões do corpo, criando-se tumores perceptíveis ao tato. Se retirados, teríamos a presença da cicatriz. Sistema otométrico de Frigério: consistia na identificação através dos desenhos dos pavilhões auriculares e suas medidas. METODOS TRADICIONAIS E RECENTES: Fotografia: ainda muito utilizada até os dias de hoje. Consiste em um dos principais meios de identificação policial (simples e prático). Entretanto, não é absolutamente seguro pois há a possibilidade de modificações decorrentesda idade, disfarces, sócias, etc. Fotografia Sinaléptica: consiste na tomada de fotografias de frente e de perfil, sempre do mesmo tamanho, possibilitando a posterior comparação. Muitos países (inclusive o Brasil) utilizam este sistema. Retrato Falado: é uma reprodução artística da face do criminoso, baseada nas descrições fornecidas pela vítima ou testemunha. Antes se realizavam os desenhos “a mão”, mas atualmente existem programas de computador que auxiliam o desenhista policial. Prosopografia (descrição da face): é o reconhecimento que se faz através da imagem facial, seja por comparação ou por sobreposição fotográfica permitindo correlações e coincidências sobre pontos específicos de identidade buscada. Antes se fazia manualmente, hoje existem modernos recursos visuais e computadorizados que permitem o reconhecimento com exatidão. A BIOMETRIA Com o surgimento da computação e o aumento da capacidade e velocidade do processamento de dados, muitos métodos antigos de identificação (quase impraticáveis) passaram a ser reconsiderados. O sistema de identificação biométrico é um método automatizado de reconhecimento de padrões que busca a identidade de uma pessoa por algumas de suas características físicas comparando os dados de uma pessoa com os arquivos anteriormente gravados no sistema. É realizada uma “varredura” em toda uma base de dados. O método é comparativo, cuja finalidade é responder “quem é a pessoa pesquisada” partindo-se de “um” para “muitos”. A biometria detém sistemas de módulos informatizados, possuindo velocidade, aceitação e confiabilidade. Os principais sistemas biométricos envolvem: reconhecimento das impressões digitais; reconhecimento da face; reconhecimento da voz; reconhecimento da íris; reconhecimento de assinatura; reconhecimento da geometria das mãos; reconhecimento de fundo de olho (retina); etc. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 22 SISTEMA DATILOSCÓPICO “Dactiloscopia” que do grego, Dakylos(dedos) e Scopein (examinar) é a técnica que estuda os desenhos das extremidades digitais (impressão digital). Foi criado em 1891 por Juan Vacetih (1858 – 1925), o sistema datiloscópico estuda as impressões digitais ou os vestígios deixados pelas polpas dos dedos nos mais variados suportes. Juan Vucetich (1558 – 1925). Foi um antropólogo Croata que se naturalizou argentino e que criou em 1891 o notável sistema de identificação datiloscópico. É também chamado de “Sistema Datiloscópico de Vucetich” e foi adotado no Brasil à partir de 1903. Esse sistema foi considerado revolucionário uma vez que é extremamente prático, simples e eficiente, estabelecendo a identificação das pessoas de maneira absolutamente segura. Obs: Outros países adotam outros sistemas datiloscópicos (EUA – Sistema Henry; França – Sistema Bertillon e Locard). Os desenhos digitais dos dedos apresentam as seguintes características fundamentais: São perenes e imutáveis: as cristas papilares se formam no sexto mês de vida intrauterina e perduram por toda a vida, mesmo após a morte (antes da destruição do tecido) com exceções dos cortes na polpa digital. Mesmo pela queimadura de até segundo grau, não desaparecem, recompondo-se sem qualquer alteração do desenho original, em curto período. Há uma variedade e unicidade: cada desenho papilar é único. Não há duas impressões digitais idênticas, mesmo em gêmeos univitelinos são diferentes. Obs: alguns autores modernos questionam a individualidade das impressões digitais, sustentando a teoria de que os desenhos papilares são únicos quando as características biológicas são distintas, mas, dependendo do método de comparação (grau de detalhamento do exame realizado) é possível que as impressões digitais sejam 95% similares. Com o advento da informática, a característica da classificabilidade também permitiu difusão e a estruturação do método de Vucetich, tornando-o extremamente eficaz. PAPILOSCOPIA E DATILOSCOPIA De início, é necessário realizar uma diferenciação entre os termos Papiloscopia e Datiloscopia. Não são apenas as pontas dos dedos que apresentam desenhos formados por linhas e sulcos. Outras partes do corpo também possuem, tais como as faces palmares (das mãos) e as faces plantares (dos pés), que possuem esses padrões de desenhos, que tem origem na derme e são perenes e imutáveis. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 23 Assim, as “impressões papilares” englobam, além das impressões digitais, também as impressões palmares e as plantares. A “Papiloscopia” estuda o desenho de todas as impressões papilares (digito-papilares, das mãos e dos pés). A “Datiloscopia” envolve o estudo mais aprimorado da face interna dos dedos, buscando a identificação humana, uma vez que a região digital é a que oferece maior variabilidade de padrões de desenhos, facilitando a coleta e o arquivo das informações. O profissional especialista na área é o “Papiloscopista”. GÊNESE DOS DESENHOS PAPILARES A pele é o maior órgão do corpo humano, ela é uma espécie de “capa” para os órgãos internos. A pele é composta por: Epiderme: camada visível formada por células mortas ou prestes a morrer. Derme: fica logo abaixo da epiderme e contém a raiz dos pelos, terminações nervosas e vasos sanguíneos, além do colágeno, que dá elasticidade à pele. Hipoderme: onde ficam as gorduras, as veias e os músculos. O local em que a derme e a epiderme se encontram é “irregular”, pois elas se interpenetram formando ondulações denominadas “papilas dérmicas”. Onde a pele é mais espessa, como a palma das mãos e a sola dos pés, elas se tornam visíveis e possuem configurações distintas, peculiar a cada indivíduo. As papilas dérmicas são formadas por cristas papilares e sulcos interpapilares e se formam no sexto mês de gravidez, permanecendo imutáveis – aos olhos do perito papiloscópico – por toda a vida, até a putrefação. A pele contém glândulas sudoríparas que exalam suor através dos poros, que existem na palma das mãos e na planta dos pés, sendo encontradas também em outras regiões (axilas e genitais). É exatamente a secreção das glândulas sudoríparas que, depositadas sobre as cristas e sulcos papilares, irá criar a “tinta biológica” que permite sejam deixadas as impressões do desenho digital sobre vários objetos. Terminologias: Na epiderme há um conjunto de sulcos e cristas, que assumem configurações variadas, ao qual denominamos desenho papilar. No caso das pontas dos dedos, o nome aplicado ao desenho papilar é Desenho Digital. Esse “Desenho Digital” dos dedos formado pelas papilas dérmicas deixa a “Impressão Digital” onde as linhas negras são formadas pelas cristas papilares e os espaços em branco formados pelos sulcos interpapilares. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 24 A “impressão papilar” (digital, palmar ou plantar) é o reverso do desenho papilar (a impressão digital é o reverso do desenho digital). Ela pode estar inteira ou fragmentada e pode ser encontrada nos locais de crime, em objetos ou outros instrumentos relacionados. O “papilograma” é o local físico (papel, objeto, suporte, etc) onde são encontradas as impressões papilares. “Albodatilograma”: as vezes é possível identificar linhas transversais que acompanham as cristas papilares. São chamadas de linhas albodatiloscópicas ou linhas brancas. São alterações patológicas do desenho digital causadas geralmente por atividades profissionais e podem desaparecer durante a vida. IMPRESSÕES PAPILARES EM LOCAIS DE CRIMES Impressões visíveis: são aquelas deixadas com tinta, graxa, sangue ou outros pigmentos eque podem ser observadas a olho nu. É possível fotografá-las diretamente pelo pesquisador. Impressões moldadas: também são chamadas de modeladas são aquelas deixadas em suportes de consistência pastosa ou modelável, tais como sabão, cimento fresco, piche, resina, etc. Também podem ser fotografadas diretamente pelo pesquisador. Impressões latentes: são as mais comuns na cena do crime. São deixadas por dedos, mãos ou pés limpos, e que não podem ser visualizadas a olho nu. Para visualizar essas impressões, é necessário um procedimento especial, realizado com materiais próprios para revelar as impressões latentes. Impressões reveladas: são aquelas trazidas à visualização pela aplicação de materiais reveladores especiais. Marca de dedos: não são impressões, são meros esfregaços produzidos com os dedos ou com as mãos. Não há como fazer a identificação neste caso, são inúteis para fins de investigação da identidade. Suportes: são as superfícies que recebem as impressões papilares. Os melhores suportes são as superfícies lisas e polidas (vidro, metais, latas, plásticos objetos de louça, frutas de casca lisa, couro liso, papel, etc.). Tomada de impressões dígito-papilares no local do crime: ao chegar no local do crime os peritos procuram, incialmente, as impressões visíveis ou moldadas, para depois procurar as impressões latentes. Nas impressões latentes, ao ser localizado um possível suporte, sobre ele é aplicado um material “revelador” (pode ser pós magnéticos, grafites, materiais florescentes *antraceno, eosina, etc.], carbonatos de chumbo, etc.) que varia de acordo com a cor ou natureza do suporte. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 25 Os materiais são aplicados com pincéis próprios e, uma vez revelada a impressão, ela é fotografada no próprio local ou “levantada” para ser transportada até o Instituto de Identificação, através de fitas especiais. Na sede do Instituto, as impressões serão estudadas pelos papiloscopistas que irão realizar uma busca nas fichas datiloscópicas, através de aparelhos e programas de computação próprios. Tomada de impressões dígito-papilares das pessoas: A tomada de impressões digitais pode ocorrer na pessoa “viva” ou na pessoa “morta”. Na pessoa viva, o procedimento mais comum é o “entintamento dos dedos”. Deve-se utilizar um equipamento correto (tinta, rolo, suporte e o impresso destinado ao recebimento das impressões. (Impresso para a Identificação Civil, utilizado ao retirar o RG e o BIC – Boletim de Identificação Criminal). Também é possível colher o material datiloscópico através do “digitofotograma” (chapas radiográficas dos dedos). Na pessoa morta o procedimento de coleta do material depende muito do estado do cadáver. Se estiver em rigidez cadavérica não há tantos obstáculos, tornando-se apenas um pouco mais dificultosa a coleta. Quando o cadáver está em início de estado de putrefação (com o amolecimento excessivos do tecido) é preciso aplicar uma injeção subdérmica de parafina ou glicerina para devolver a conformação da extremidade digita. Nos corpos em estado de decomposição é necessária a retirada da “luva cadavérica”, onde, através de técnicas especiais se faz a retirada da pele que recobre os dedos da mão do cadáver. O pesquisador “veste” esta pele para fazer a tomada das impressões digitais. O SISTEMA DE “VUCETICH” – CLASSIFICAÇÃO O desenho digital é formado por cristas papilares (linhas pretas) e os sulcos (parte branca). Essas linhas se desenvolvem paralelamente formando desenhos. Essas “cristas papilares” formam três grupos que são chamados de “sistemas” (sistemas principais de linhas de datilograma) que formam figuras que vão constituir a base da classificação. São três sistemas: Marginal, Nuclear e Basilar. Sistema “Marginal” É constituído pelo conjunto de cristas papilares que estão nas bordas e nas extremidades da falange (extremidade da ponta dos dedos). Sistema Basilar ou “Basal” É formado pelas cristas papilares horizontais que se encontram próximas ao sulco articular entre as duas últimas falantes (base da ponta dos dedos). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 26 Sistema “Nuclear ou Central” Esta localizado na porção central do conjunto e limitado pelos outros dois sistemas (marginal e basilar). Delta Do encontro entre esses sistemas aparece o “Delta” que é um dos elementos mais importantes do desenho digital. O Delta é um pequeno ângulo formado pelo encontro dos três sistemas antes descritos (marginal, basal e nuclear). Assim, da junção de dois ou três sistemas lineares, forma-se o delta. Tipos fundamentais Com base na presença ou na ausência do Delta, sua posição no desenho digital e no sistema de linhas dos datilogramas, Vucetich classificou quatro tipos fundamentais: Verticilo, Presilha Externa; Presilha Interna e Arco. Verticilo Tem a presença de DOIS DELTAS (à direita e à esquerda do observador). O verticilo é designado pela letra “V” (polegar) e número “4” para os dedos das mãos (esquerda e direita) Presilha Externa Tem a presença de UM ÚNICO DELTA (à esquerda do observador). A presilha externa é designada pela letra “E” (polegar) e número “3” para os demais dedos das mãos (esquerda e direita) MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 27 Presilha Interna Tem a presença de UM ÚNICO DELTA (à direita do observador). A presilha interna é designado pela letra “l” (polegar) e número “2” para os demais dedos das mãos (esquerda e direita). Arco É a figura que NÃO APRESENTA DELTA. É constituído de linhas paralelas que vão “arqueando” da base para o ápice. O arco é designado pela letra “A” (polegar) e número “1” para os demais dedos das mãos (esquerda e direita). Observações: A indicação da posição do Delta é feita sempre com base na impressão digital e não diretamente no desenho digital do dedo considerado. O Arco também é chamado de “figura adeltica” ou “Adelta”. Percentuais: Arcos 5%; Presilhas (internas e externas) 60%; Verticilos 35%. Os sistemas de arquivos dividem-se “Decadatilar” (Planilhas com os dez dedos, colhidos no momento de tirar o RG ou quando da Identificação Criminal) e “Monodatilar” impressões colhidas em locais de crimes, envolvendo um ou alguns dos dedos das mãos. Fórmula Datiloscópica Para as figuras fundamentais dos polegares associa-se uma LETRA e aos tipos dos demais dedos da mão um NÚMERO. Polegares: Demais dedos: Verticilo “V” Verticilo “4” Presilha Externa “E” Presília Externa “3” Presilha Interna “I” Presilha Interna “2” Arco “A” Arco “1” As amputações são indicadas com o número “0”. E os dedos defeituosos ou com cicatrizes são representados pela letra “X” (inqualificável). Assim, analisando os dedos de ambos as mãos e exprimindo os tipos fundamentais, Vucetich estabeleceu uma “fórmula” com a finalidade de agrupar os indivíduos de acordo com as combinações extraídas das impressões digitais, a “Formula Datiloscópica”. A fórmula tem a seguinte sistemática: Dedos da mão direita: SÉRIE MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 28 Dedos da mão esquerda: SEÇÃO A fórmula é montada da seguinte maneira: Série V 4313 Seção I 2241 Significa que este indivíduo: Na mão direita tem: polegar (verticilo); indicador (verticilo), médio (presilha externa); Anular (arco), mínimo (presilha externa). Na mão esquerda tem: polegar (presilha interna); indicador (presilha interna); médio (presilha interna); Anular (verticilo); mínimo (arco). Série E 4441 SeçãoV 1112 Significa que este indivíduo: Na mão direita tem: polegar (presilha externa); indicador (verticilo), médio (verticilo); Anular (verticilo), mínimo (arco). Na mão esquerda tem: polegar (verticilo); indicador (arco); médio (arco); Anular (arco); mínimo (presilha interna). 11/03/2016 Observações: Existem muitas pessoas com a mesma fórmula datiloscópicas: segundo pesquisas, são 1.048.576 (um milhão, quarenta e oito mil, quinhentos e setenta e seis combinações). No entanto, à partir dai são realizadas outras SUBCLASSIFICAÇÕES de acordo com particularidades de cada tipo fundamental, que propiciam uma divisão ainda maior. Ex: Existem vários tipos de Arcos (plano, angular, bifurcado à direita, à esquerda, destro- apresilhado, sinistro-apresilhado) Presilhas (normal, invadida, dupla, ganchosa), Verticilo (circular, espiral, ovoidal, sinuoso, ganchoso). Fora essas circunstâncias, examinando as linhas dos desenhos papilares nota-se que umas são cheias, outras pontudas, outras interrompidas, bifurcadas, etc. Esses sinais são chamados de PONTOS CARACTERÍSTICOS. Em uma impressão digital existem cerca de 20 à 25 pontos característicos que permitem a identificação perfeita do indivíduo. Os principais pontos característicos são: o ponto, a ilhota, a cortada, a bifurcação, a Anastomose, o Encerro, etc. PONTOS CARACTERÍSTICOS MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 29 Ponto: é como se fosse um ponto final entre duas linhas. Ilhota: é maior que um ponto, sendo um pedaço de linha menor. Cortada: é um traço maior que a ilhota. Bifurcação: quando as linhas se separam em ângulo curvilíneo Anastomose: é uma ponte, quando duas linhas são ligadas por um segmento curto. Encerro: formado por uma abertura da linha e seu fechamento logo em seguida formando com isso uma espécie de “lago” na linha. Poros: Os poros são aberturas dos canais sudoríparos, localizados sobre as cristas papilares. Existem inúmeros poros nas saliências papilares (94 poros por cm2 de pele). Existe a possibilidade de, através de análise microscópica, estudar os poros da impressão digital. São analisados o tamanho dos poros, sua dimensão, sua forma, sua posição, etc. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 30 Tal técnica é chamada de “Poroscopia” que auxilia o sistema datiloscópico, estabelecendo-se uma identificação certa e segura. Anomalias As anomalias são defeitos que atingem os dedos das mãos ou dos pés. Podem ser congênitas ou adquiridas. Ex: amputações, polidactilia, dermatopatias, etc. As amputações são representadas pelo “0” e as anomalia que ocasionam a inqualificação, são representadas pela letra “X” na fórmula datiloscópica. No caso de polidactilia, a anotação é realizada à margem do polegar da mesma mão, empregando a letra minúscula correspondente a esse tipo. Na hipótese de ausência de impressões digitais em razão de Dermatopatias (Ex.: Síndrome de Naegeli-Francheschetti-Jadassohn), a pessoa deve ser individualizada por meio de outro métodos (ex. biometria). 18/03/2016 TRAUMATOLOGIA FORENSE Conceito de Traumatologia Forense “A traumatologia estuda as lesões e os estados patológicos imediatos ou tardios produzidos por violência sobre o corpo humano” (Genival França) “É o capítulo da Medicina Legal no qual se estudam as lesões corporais resultantes de traumatismos de ordem material ou moral, danosos ao corpo ou à saúde física ou mental” (Delton Groce) “É a área da Medicina Legal que estuda todas as formas de agressão à integridade física e à vida dos indivíduos. Por consequência, estuda os meios de atuação de todos os agentes lesivos, classificando-os e conhecendo seus efeitos” (Luís Renato Costa e Bruno Miranda Costa). Lesão Corporal (sob o ponto de vista penal) MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 31 No aspecto jurídico-penal “é qualquer ofensa à integridade corporal ou à saúde de outrem” – Espécies: Lesões leves (art. 129, caput, CP); Lesão Grave (art. 129, §1°, CP); Lesão Gravíssima (art. 129, §2°, CP); Lesão corporal seguida de morte (art. 129, §3°, CP). Nelson Hungria, conceituou como “todas as ofensas ocasionadas à normalidade funcional do corpo ou organismo humano, seja do ponto de vista anatômico , fisiológico ou psíquico”. Lesão Corporal e Trauma: trauma é sinônimo de ferimento ou lesão à integridade física (mais aplicado à Medicina Legal). Alguns autores (Del Campo) chamam de “energia”, uma vez que a energia gera a lesão corporal. O trauma seria a consequência da energia. Energias causadoras das Lesões Corporais Os danos causados ao corpo humano podem ser decorrentes de ação de várias formas de energia. Na medicina legal, há uma certa multiplicidade de nomenclaturas quanto a este tema. Alguns autores chama as energias de “agentes lesivos” (ou vulnerantes) que consistem no conjunto de objetos e meios capazes de produzir dano à integridade física ou à saúde do homem. Assim, a palavra “agente” e “energia”, para a medicina legal são “sinônimas”, ou seja, significam aquilo que causou o trauma ou a lesão. Trauma: é a consequência (lesão/dano). Energia: o agente causador do trauma. Existem vários tipos de energia capazes de gerar lesões: Mecânica, Física, Química, Físico-química, Bioquímica, Mistas, etc. Energias Mecânicas As energias mecânicas são aquelas que, incidindo sobre um corpo, são capazes de modificar o seu estado de repouso ou de movimento. (Del Campo) Existem vários tipos de agentes mecânicos. Alguns são materializados em forma de instrumentos (ex.: armas) outros são energias de qualquer natureza (ex.: desmoronamentos, terremotos, quedas, explosões, etc.). Poderá existir ou não a manipulação humana sobre a energia. A energia mecânica pode possuir um instrumento capaz de produzir o trauma. Assim, o instrumento é um agente mecânico manipulado pelo homem para causar uma lesão. O mesmo instrumento pode causar mais de um tipo de lesão. A faca pode ser empregada pelo homem em um crime e poderá produzir lesões cortantes ou perfurocortantes. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 32 Uma pedra, por exemplo, pode ou não ser um instrumento. Se a pedra for arremessada por uma pessoa contra a outra, teremos um instrumento contundente (energia ativa). Mas se a pessoa tropeçar e cair sobre uma pedra e bater sua cabeça nesta pedra (apoiada ao chão), a pedra funcionará como uma energia passiva (agente) e não será um instrumento. Exemplos de energias Mecânicas: Armas naturais: socos, pontapés, tapas, arranhões, cabeçadas, cotoveladas, mordidas, etc. Armas próprias: armas de fogo (revólver, pistola, fuzil, espingarda, etc.), armas brancas (com lâminas: facas, punhais, adagas, espadas, etc.); Armas propriamente ditas: soco- inglês, cassetete, tonfa, tacape, etc. Armas eventuais: foice, enxada, tijolo, garrafas, facas de cozinha, estiletes, barra de ferro, balaústre, etc. Animais: cães, cavalos, gado, cobras, macaco, onça, etc. Energias da natureza: desmoronamento, inundação, explosões naturais, queda de raios, incêndios não criminosos, terremotos, etc. Outras: quedas acidentais, acidentes automobilísticos, maquinismos e peças de máquinas, etc. Classificação dos instrumentos Mecânicos Os instrumentos mecânicos podem ser classificados de várias maneiras. Depende da sua forma de atuação, ou até das suas próprias características, tais como forma, tamanho, peso, tipo de bordas, etc. A maneira como o instrumento é manejado também pode ser levada em conta:força, velocidade, pressão, inclinação, etc. Os instrumentos mecânicos, segundo o contato com o corpo humano, o modo de ação e as características que estes imprimem às lesões podem receber inúmeras classificações (ex.: instrumentos perfurantes, cortantes, contundentes, perfurocortantes, perfurocontundentes, etc.). o Classificação quanto à relação entre o corpo e o instrumento Levando-se em consideração a relação entre o corpo e o instrumento causador da lesão, podemos estabelecer três classificações: Meio ativo: o instrumento vai de encontro ao corpo. Há uma ação do instrumento sobre o corpo (Ex.: atropelamento de um carro sobre uma pessoa imóvel); MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 33 Meio passivo: o instrumento fica inerte e o corpo vem sobre seu encontro. Há uma ação do corpo sobre o instrumento (Ex.: queda em que a pessoa cai sobre o solo); Forma Mista: ocorre a ação do corpo em movimento sobre o instrumento que também está em movimento, ou seja, um atua sobre o outro (Ex.: carro atropela ciclista em movimento). Obs: a gravidade da lesão vai depender da intensidade com que a energia atingiu o corpo, da natureza da lesão e da maior ou menor resistência do tecido humano atingido. INSTRUMENTOS PERFURANTES (PUNCTÓRIOS) Os instrumentos perfurantes ou “punctórios” apresentam uma ponta e não possuem gume (lâmina) agem por meio de pressão exercida em um ponto, afastando fibras, sem secciona-las. São instrumentos puntiformes, alongados, finos, compridos, pontiagudos, cilíndricos ou cônicos. Ex: furadores de papel, furadores de gelo, pregos, arames, agulhas, alfinetes, espetos de churrasco, estiletes agulhados, etc. As lesões produzidas por instrumentos perfurantes são chamadas de “lesões punctórias”. Quando o instrumento tem a ponta muito fina, as lesões dele decorrentes se caracterizam pelo pouco sangramento e por um minúsculo orifício ou lesão de entrada. Características da lesão punctória * O orifício de entrada é pequeno e consiste em um ponto colorido vermelho escuro. Quando o instrumento tem calibre maior, poderá ocorrer a presença de uma orla escoriada; são feridas de raro sangramento. Quando o instrumento for cônico e de maior calibre, o orifício de entrada (e, eventualmente, de saída) tomam forma de “botoeira” (casa de botão). A lesão punctória possui uma deformação devido ao fato das fibras do tecido serem dotadas de elasticidade. Nem sempre teremos uma correspondência entre o objeto vulnerante (instrumento) e a lesão por ele deixada. Há um predomínio marcante da profundidade sobre a superfície externa (que geralmente é pequena). Assim, as principais características da lesão punctória são a pouca extensão ou tamanho da ferida e a maior profundidade, provocando um ferimento mais profundo do que extenso e que pode causar a morte dependendo de onde atinge e da profundidade da lesão (ex.: lesões cavitárias que atravessam tecidos e invadem uma cavidade do corpo: tórax, addômen, etc.). Se o instrumento atravessa um segmento ou órgão do corpo, produzindo orifício de saída, o ferimento é chamado de ferimento punctório transfixante. o Leis de Filhos e Langer MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 34 As lesões punctórias tem menor diâmetro que o do instrumento causador em razão da elasticidade ou retratilidade dos tecidos cutâneos. Conforme mencionado, se o instrumento é de pequeno calibre a lesão será representada apenas por um pequeno ponto na pele. Se o instrumento é de médio calibre, teremos um afastamento maior do tecido e, por causa das linhas de tensão da pele, a lesão assumirá a conformação de um ferimento semelhante a uma “botoeira”, podendo, ainda, dependendo da região do corpo, assumir característica de “ponta de seta”, “triângulo” ou “quadrilátero”. As Leis de Filhos e Langer traçam uma série de direções das tensões dos tecidos do nosso corpo. Cada região do corpo humano tem uma tensão e um direcionamento que puxa a pele para um determinado lado. Assim, as lesões punctórias orientam-se segundo as linhas de Langer que existem em nossa pele e que vão dar forma às lesões. Eduard Filhos e Karl Ritter Vom Langer: realizaram diversos estudos em 1861 e detectaram que a grande maioria dos ferimentos punctórios tinham forma de “casa de botão” em razão da tensão da pele humana, criando algumas leis que auxiliam na interpretação destes ferimentos. Primeira Lei de Filhos: as feridas deixadas são semelhantes às produzidas por instrumentos de dois gumes e têm aparência de casa de botão. Segunda Lei de Filhos: quando estas lesões se produzem numa mesma região, o maior eixo da ferida está orientado no sentido das fibras musculares das subjacentes. Lei de Langer: nas regiões onde existe cruzamento de muitas fibras, a ferida toma forma de ponta de seta, triângulo ou quadrilátero. INSTRUMENTOS CORTANTES Os instrumentos cortantes agem por meio de pressão e deslizamento sobre a pele, tecido ou órgãos. São instrumentos que possuem borda afiada (gume/fio). São exemplos de instrumentos cortantes: lâminas de barbear (gilete), navalhas, bisturi, facas, estiletes, fragmentos de vidro, cerol, papel, etc. Geralmente possuem borda longa e fina. Atuam por pressão e deslizamento sobre seu fio ou gume. A profundidade depende da pressão e do fio, e a extensão da lesão depende do deslizamento do instrumento. As lesões produzidas por instrumentos cortantes são chamadas de “lesões incisas”. Segundo Genival França, as lesões incisas são apenas verificadas em cirurgia, sendo a melhor expressão “feridas cortantes”. No entanto, a grande maioria dos autores utilizam a expressão “lesões incisas”. Obs.: incisão ou abscisão é a ferida causada por médico em ato operatório (Delton Groce). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 35 o Características da lesão incisa (cortante) Nas lesões incisas, as extremidades são mais superficiais e a parte mediana é mais profunda. São ferimentos de forma linear, reta ou curvilínea, com predomínio do comprimento sobre a profundidade; O ferimento é extenso e raso (diferente do punctório que é pequeno e profundo) e apresenta duas caudas: uma de entrada (mais larga devido a maior pressão) e uma de saída (mais estreita devido a menor pressão e maior deslizamento). As bordas da lesão incisa são nítidas e regulares, as margens são livres de traumas (sem esmagamento do bordo) e esta lesão pode apresentar a chamada “cauda de saída ou de escoriação” que são escoriações localizadas junto à saída do instrumento ao nível da pele (extremidade distal). A “cauda de escoriação” consiste numa espécie de arranhão que caracteriza a diminuição da força de pressão sobre os tecidos. Sua descrição é fundamental, pois determina a direção da ação do instrumento no corpo da vítima. (direita, esquerda, acima, abaixo). A hemorragia é quase sempre abundante na lesão incisa, pois a lesão alcança vasos sanguíneos, seccionando-os (dependendo da vascularização da região). As feridas incisas são, habitualmente, pouco profundas não penetrando nas cavidades. No entanto, a profundidade da ferida incisa depende do gume afiado e da resistência dos tecidos. Dependendo da região, podem ocasionar lesões das articulações. No abdômen, se utilizado o instrumento cortante com intensa força agressora, em indivíduos magros, pode ocasionar a evisceração. As lesões incisas são frequentemente encontradas em suicídios, particularmente onde as vítimas cortam pescoços ou os pulsos. Também são características de ferimentos de defesa, em caso de agressão com armas brancas (facas, navalhas, etc.) hipótese em que os ferimentos recaem, quasesempre, nas mãos e braços. Em resumo as lesões incisas possuem as seguintes caraterísticas: Margens lisas e regulares; Ausência de contusão; Geralmente mais largas e profundas na porção média; Existência frequente da cauda de escoriação ou de saída; Hemorragia abundante. INSTRUMENTOS PERFURO-CORTANTES Os instrumentos perfuro-cortantes são representados, principalmente, pelas armas brancas, que, além da ponta (instrumento puntiforme) também possuem borda afiada (gume/fio). Agem pela força exercida em sua ponta e também cortam pelo gume que apresentam: perfuram + cortam. São exemplos de instrumentos perfuro-cortantes: punhais, canivetes, facas, “peixeiras”, adagas, lima, dentre outros. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 36 As lesões produzidas por instrumentos perfuro-cortantes são chamadas de “lesões perfuro-incisas”. Essas lesões correspondem à associação das lesões anteriormente explanadas (punctória + incisa), assumido características mistas. Em geral, apresentam bordas afastadas, mas, ao contrário das lesões incisas, possuem uma menor extensão e grande profundidade. Trata-se de uma lesão extremamente grave, uma vez que, via de regra, atingem órgãos internos (cavidade torácica, abdominal, etc.). o Características da lesão perfuro-incisa Há um predomínio da profundidade sobre o comprimento; as bordas são nítidas e lisas e as margens não apresentam traumas (contusão). Também possuem forma de botoeira (ângulo agudo e canto arredondado: instrumento com um só gume; ou ambos os ângulos agudos, nos instrumentos de dois gumes). Pode haver pequena cauda no local correspondente ao gume. O tamanho do ferimento nem sempre corresponde à largura da lâmina que o produziu, podendo ser menor em razão da elasticidade da pele (também são influenciados pela Lei de Filhos e Langer). Eventualmente, os instrumentos podem ter três gumes, onde a ferida terá forma triangular ou estrelada. É a lesão mais comum nos homicídios causados por armas brancas. As chamadas “lesões de defesa” encontradas na palma das mãos, nos antebraços, ombros, etc. demonstram o esforço da vítima na tentativa de salvar sua própria vida. Esgorjamento, Degolamento e Decapitação Tanto as lesões incisas como as lesões perfuro-incisas são comumente encontradas em suicídios ou homicídios atingindo a região do pescoço. Neste caso, as lesões produzidas na região do pescoço são chamadas de Esgorjamento, Degolamento e Decapitação. ESGORJAMENTO: são as lesões (incisas ou perfuro-incisas) localizadas na região anterior do pescoço (ou nas laterais do pescoço). A ferida pode ser única ou múltipla. No esgorjamento há um acentuado afastamento das margens da ferida em razão dos músculos e por causa da tonicidade do tecido. Pode atingir a coluna cervical dependendo da intensidade do manejo do instrumento. A morte decorre da anemia aguda em consequência da hemorragia fulminante (lesão dos vasos do pescoço – secção da carótida) e por asfixia (introdução de sangue nas vias respiratórias). DEGOLAMENTO: são as lesões provocadas por instrumentos cortantes ou perfuro- cortantes na região posterior do pescoço (nuca). A morte decorre por hemorragia, por lesão vascular importante ou por traumatismo raquimedular (lesão na medula), nos casos de golpe profundo e violento, atingindo a coluna cervical. Obs: via de regra, quando o esgorjamento ou o degolamento atingem a coluna cervical, a hipótese sugere homicídio. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 37 DECAPITAÇÃO: Se traduz pela separação da cabeça do corpo (separação do seguimento cefálico do tronco) e pode ser oriunda de outras formas de ação além da cortante. 01/04/2016 INSTRUMENTOS CONTUNDENTES Os instrumentos contundentes são os agentes mecânicos, líquidos, gasosos, sólidos, etc. que atuam por pressão, explosão, flexão, torção, sucção, percussão, distensão, arrastamento, deslizamento, fricção, dentre outras e que traumatizam o organismo do indivíduo. São exemplos de instrumentos contundentes: armas naturais (mãos, pés, cabeça, joelho, cotovelo, unhas, etc.); armas eventuais (pedaço de madeira, pedra, tijolo, barra de ferro, martelo, taco, etc.); saliências obtusas e as superfícies duras (solo, árvores, postes, pavimento, automóvel, etc.) armas de ataque (soco inglês, cassetete, tonfa, etc.) outros instrumentos: desmoronamentos, explosões, acidentes com máquinas, jatos de ar, superfície de água de uma piscina, etc. As lesões produzidas por instrumentos contundentes são chamadas de “lesões contusas” (ferimentos contusos) e podem ser superfícies ou profundas. Características da lesão contusa As lesões contusas, segundo Delton Croce englobam as “Contusões” e as “Feridas Contusas”. CONTUSÕES (lesões superficiais): as contusões são lesões contusas superficiais em que o instrumento atua sobre a superfície corporal sem muita força de impacto. As lesões atingem os tecidos mais superficiais, como a pele e o tecido subcutâneo. São irregulares e caracterizadas pela inexistência de um ferimento aberto (lesões fechadas) comprometendo a pele. São espécies de contusões: Rubefações: consistem na vasodilatação da pele atingida pelo objeto contundente (palma da mão, pedaço de madeira, etc.) de forma branda o suficiente para que não haja lesão tecidual. A vermelhidão (hiperemia) é fruto da dilatação dos vasos sanguíneos da região afetada. Tem caráter transitório, desaparecendo em algumas horas (Ex. tapas, bofetadas, etc.). Escoriações: é o que chamamos de “arranhões”, “ralados” ou “esfolados”, são lesões superficiais que atingem a superfície da pele (epiderme), arrancando algumas camadas de célula ou, eventualmente, a derme, provando sangramento de pequena intensidade, com coagulação e formação de crosta que tende a se soltar após alguns dias (abrasão). Não causam cicatrizes, pois há uma regeneração da epiderme e da derme, que readquire seu aspecto original (“restituo in integrum”). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 38 Equimose: também chamada de “equisema” é uma mancha na pele produzida pelo rompimento e infiltração de sangue nas malhas dos tecidos. São as comumente chamadas “manchas roxas”. A intensidade da equimose depende do instrumento e do grau de violência. Equimona: é o nome da equimose de grande proporção. A infiltração de sangue nos tecidos desencadeia um processo de reabsorção, com degradação da hemoglobina, produzindo alterações da coloração da lesão, com o passar do tempo. Essas modificações foram descritas por Legrad du Salle que as chamou de “espectro equimótico”. Espectro equimótico: é a transformação química porque passa a hemoglobina fora do vaso sanguíneo, causando um alteração da coloração da equimose. Segue a seguinte marcha: 1° dia: vermelho escuro; 2° ao 3°: violeta; 4° ao 6°: azulado; 7° ao 10°: verde escuro; 11° ao 12°: verde-amarelado; 12° ao 17°: amarelado; A partir do 22° dia: desaparece a equimose. Obs. esta cronologia é um referencial para se verificar o tempo de evolução da lesão e correlaciona-la com a data do crime. É importante nos casos de violência doméstica e maus- tratos. Equimoses com colorações diferentes indicam que uma criança vem sofrendo agressões continuamente. As equimoses só existem em “vida”, não há este tipo de lesão no cadáver (não são produzidas após a morte). Hematomas: são as lesões que ocorrem pelos mesmos mecanismos da equimose, porém de uma maneira mais intensa. No hematoma também ocorre o rompimento de vasos sanguíneos, no entanto, são mais calibrosos e volumosos, ocorrendo um maior sangramento, onde a lesão se manifesta como uma espécie de tumor (bolsa de sangue).A diferença da equimose para o hematoma é que, na equimose o sangue se espalha pelos tecidos subjacentes ao do impacto, enquanto no hematoma há a formação de uma bolsa de sangue, que fica represada numa pequena área. Dependendo da localização também segue o “espectro equimótico”. Edema traumático: é um aumento difuso de volume, por acúmulo de líquido intercelular (seroso) em razão de uma modificação traumática da permeabilidade dos vasos, onde ocorre um extravasamento de líquido no tecido. Ocorre nos impactos onde há resistência óssea (calota craniana). Desaparece em menos de 24 horas. Ex.: inchaço, vulgarmente conhecido como “galo”. Pode ter outras causas que não o trauma, por ex: doenças renais, vasculares, etc. FERIDAS CONTUSAS (Lesões profundas): são causadas pela força do instrumento, atuando com violência proporcionalmente grande, alcançando tecidos profundos, músculos, articulações, vísceras, ossos, etc. São exemplos: atropelamentos, acidentes automobilísticos, quedas de grande altura, explosões, etc. Podem ser fechadas ou feridas abertas. Podem ser citadas: Fratura: é a perda da continuidade óssea. Luxação: é a perda da continuidade articular (deslocamento de ossos) podendo ou não ser acompanhada da ruptura dos ligamentos articulares; Entorse: lesão nos ligamentos sem deslocamento dos ossos. RUPTURA VISCERAL: é a lesão de órgãos das cavidades, torácica, abdominal, etc. As vísceras mais frequentemente lesadas são o fígado e o baço. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 39 INSTRUMENTOS CORTO-CONTUNDENTES Os instrumentos corto-contundentes agem contundindo pela pressão aplicada e cortam pelo fio/gume grosseiro que apresentam. São objetos via de regra pesados, com gume pouco afiado. Não há deslizamento, mas pressão e impacto. São exemplos de instrumentos corto-contundentes: machado, enxada, grandes peixeiras, cutelos, dentes, facão, foice, etc. As lesões produzidas por instrumentos corto-contundentes são chamadas de “lesões corto-contusas” (ferimentos corto-contusos) e possuem as seguintes características: bordas irregulares e sem cauda; presença de equimose e edema traumático junto às margens (sinais típicos das contusões); grande extensão e profundidade, podendo provocar fraturas, dependendo do peso do instrumento e da força aplicada a ele. Trata-se de um ferimento hibrido, mesclando o ferimento inciso e o contuso. Obs. são lesões homicidas e podem também estar relacionadas a acidentes de trabalho. INSTRUMENTOS PERFURO-CONTUNDENTES Os instrumentos perfuro-contundentes agem “amassando” e despedaçando os tecidos por ação de sua ponta. São exemplos de instrumento perfuro-contundentes: projétil de arma de fogo (balas); chaves de fenda; brocas; ferros de construção; setas de flechas; etc. As lesões produzidas por instrumentos perfuro-contundentes são chamadas de “lesões perfuro-contusas” (ferimentos perfuro-contusos) e possuem as seguintes características: bordas irregulares; predomínio da profundidade sobre a superfície; caráter penetrante ou transfixante. Obs. as lesões perfuro-contusas são, classicamente, as lesões produzidas por projéteis de arma de fogo que agem por impulsão e rotação causando a formação de um orifício de entrada e zonas de contorno junto à pele. A forma do orifício e as zonas de contorno dependem da incidência do tiro e da distância (tiro a queima roupa, tiro encostado, tiro à distância, etc). INSTRUMENTOS LACERANTES OU DILACERANTES Os instrumentos lacerantes ou dilacerantes são aqueles com bordas irregulares, sem corte ou com corte cego, como facas com serra ou dentadas, chamas de ferro retorcidas (acidentes automobilísticos), etc. Ao invés de cortar o tecido como ocorre no ferimento inciso, a ação dilacerante, por não ter fio, rasga o tecido. O fio cego puxa a pele e os tecidos adjacentes até o seu rompimento. O ferimento apresenta caraterística amorfa ou irregular. Alguns peritos denominam “ferimento lacerocontuso”. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 40 Alguns autores (Delton Croce, Genival França, Del Campo) entendem que não existem ferimentos dilacerantes, que na verdade são ferimentos contundentes de grandes proporções, uma vez que os instrumentos podem causar lesões diversas, independente de sua natureza. ENERGIAS FÍSICAS As energias físicas são aquelas que, incidindo sobre um corpo, são capazes de modificar o seu estado físico e provocar lesões corporais ou a morte. Também podem ser chamados de agentes físicos, pois consistem em objetos, coisas ou fenômenos capazes de causar um trauma. As energias físicas também podem se materializar através de um instrumento criminoso. Ex. incêndio criminoso, armas de choque, etc.) Existem vários tipos de agentes físicos. Podemos classificar os agentes físicos em: Calor; Eletricidade; Frio; Pressão; e Radioatividade. AGENTE FÍSICO: CALOR O calor pode lesar o corpo humano de diversas formas, dependendo da maneira como atinge a pessoa. TERMONOSES: são resultantes da ação do calor difuso sobre a superfície corporal causando um desequilíbrio hidroeletrolítico (desidratação) e uma falha dos centros termorreguladores, causando uma elevação constante da temperatura do corpo, queda de pressão arterial, aceleração do pulso e da respiração, levando à perda da consciência e até a morte. Insolação: é causada pela exposição à luz solar (calor solar). Não se exige exposição direta, pode ser indireta também (mesmo ao abrigo do sol é possível a insolação através da canícula). Via de regra tem natureza acidental (alcoolismo, vestuário inadequado, etc.). Intermação: o calor age sobre o corpo em espaços confinados (calor industrial) sem arejamento. Pode ser acidental ou, excepcionalmente criminosa (Ex: fornalhas, caldeiras, bronzeadores artificiais, etc.). QUEIMADURAS: são resultantes da ação direta do calor, em qualquer de suas formas, em contato com o corpo, atuando sobre a pele ou sobre o organismo. A queimadura pode ser produzida através de: chama, sólido aquecido (metal incandescente), líquido aquecido, gás aquecido, etc. As queimaduras podem ser classificadas quanto a profundidade e extensão. A temperatura e o tempo de exposição serão relevantes para a natureza da queimadura. Classificação quanto a profundidade (intensidade): Queimaduras de 1° Grau: a pele fica avermelhada por causa da vasodilatação dos vasos sanguíneos da derme. Não há formação de cicatrizes, pois a camada geradora da pele não é atingida. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 41 Queimaduras de 2° Grau: há um acúmulo de líquido abaixo da epiderme com formação de bolhas (flictenas). No ser vivo, as bolhas detém um líquido seroso (plasma). No caso da queimadura “post mortem” não existe este líquido seroso nas flictenas. Queimaduras de 3° Grau: ocorre morte celular da pele e tecidos moles por coagulação, com formação de placas chamadas “escaras”. Esses tecidos são substituídos por outros, chamados de tecidos de granulação, resultante da cicatrização por segunda intenção (de dentro para fora). As cicatrizes são retrateis e queloides. Queimaduras de 4° Grau: é a mais grave de todas, ocorrendo a destruição dos tecidos moles e até dos ossos por ação direta do calor através da carbonização que pode ser local ou generalizada. Na carbonização generalizada há uma redução do volume do corpo por condensação dos tecidos. Esta redução pode ocorrer até a fração de um terço do corpo que fica em “posição de lutador”, em face da semiflexão dos membros superiores e dedos em regra. A pele se torna enegrecida e rígida, com exposição dos dentes. Pela ação do calor, pode ocorrer amputaçãode seguimentos do corpo. O tempo para o cadáver adulto ser reduzido a cinzas é de aproximadamente uma hora e meia, duas horas (crianças de cinquenta a setenta minutos). Existem outras classificações por profundidade, estabelecendo limites em até o sexto grau (Dupuytren), no entanto, essas são as mais tradicionalmente aceitas. Obs I: Nas carbonizações totais, a primeira preocupação é com a identificação do corpo. Neste caso, a arcada dentária é um importante elemento de identificação, já que os dentes não são destruídos. Obs II: A pericia também deve esclarecer se a morte foi por causa do fogo (ex. durante o incêndio) ou se o indivíduo estava morto quando alcançado pelas chamas. Verifica-se se a vítima respirou durante o incêndio através da presença de monóxido de carbono no sangue e fuligem nas vias respiratórias. Este procedimento é chamado de Sinal de Montalti. Além disso, as “bolhas” (flictenas) também são analisadas, verificando se elas possuem o conteúdo seroso, que está ausente no corpo do cadáver e presente no ser humano vivo (sinais de Janesie-Jeliac). Queimaduras por extensão: As queimaduras também podem ser classificadas por extensão, dependendo do percentual de comprometimento do corpo, da área vital comprometida e da idade da vítima. Um idoso ou uma criança com 5% ou 10% da área corporal atingia podem ser considerados grandes queimados. Um adulto, o percentual é 20% ou mais. Regra das Nove (Pulaski e Tennisan): é uma técnica onde se divide o corpo em frações correspondente a 9%, permitindo-se calcular com boa aproximação o percentual do corpo atingido. AGENTE FÍSICO: ELETRICIDADE MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 42 A eletricidade é uma energia física capaz de se transformar em calor ou passar pelo corpo, produzindo queimaduras, podendo levar a óbito. Condições individuais, tais como espessura da pele, umidade, resistência à corrente elétrica vão determinar o grau das lesões. Se a pele estiver molhada, oferecerá menor resistência à passagem da corrente elétrica, com lesões externas de menor gravidade, no entanto, a corrente passará com maior facilidade para o interior do corpo, acarretando sérios danos fisiológicos, podendo levar à morte por parada cardíaca. Os danos ocasionados pela eletricidade podem ser classificados da seguinte forma: ELETROPLESSÃO: É o dano corporal, com ou sem morte, desencadeado pela eletricidade artificial, doméstica ou industrial. Tem natureza acidental. A corrente elétrica determina lesões esbranquiçadas no ponto onde penetra o corpo, denominadas “Marcas elétricas de Jellinek”. A morte por eletroplessão admite três teorias: Morte por lesão cerebral: quando há uma grande descarga elétrica (acima de 1.200 volts); Morte por asfixia: correntes entre 120 e 1.200 volts que podem levar a uma paralisação dos músculos respiratórios e consequente parada respiratória; Morte por parada cardíaca: ocorre uma fibrilação ventricular quando uma corrente elétrica, mesmo de 120 volts, cruza o eixo do coração, alterando sua condição elétrica normal. FULMINAÇÃO: É determinada pela eletricidade cósmica (natural – raio) levando a óbito. O efeito da descarga elétrica atmosférica sobre o organismo humano é instantânea. Causa grandes traumatismos, amputações de membros, ruptura de vasos sanguíneos, etc. FULGURAÇÃO: Quando o resultado da eletricidade cósmica sobre o corpo humano causa lesões corporais. Tais lesões tem aspecto de “folhas de samambaias” decorrentes de fenômenos vasomotores, são também conhecidas como Marcas de Lichtemberg. ELETROCUSSÃO: É a execução judicial em cadeira elétrica, muito praticada ao longo de anos nos EUA e abolida em 2003, sendo substituída pela injeção letal por questões de humanidade. Obs.: as lesões por eletricidade dependem da frequência de voltagem e do trajeto da corrente. As correntes de baixa tensão (até 250 volts) não oferecem tanto perigo, mas, dependendo do trajeto pode levar a óbito, como ocorre na fibrilação ventricular. Além da marca elétrica que é o sinal de entrada da corrente elétrica no corpo, é possível encontrar ferimentos de saída, indicando onde a descarga elétrica deixou o corpo. A maioria dessas lesões encontram-se nos pés. 08/04/2016 AGENTE FÍSICO: FRIO MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 43 A temperatura corporal mínima é de 31°C. As lesões pelo frio são mais comuns em outros países. No Brasil, os casos envolvem o frio industrial (artificial): Câmaras frigoríficas, geladeiras, congeladores, etc. Via de regra em questões acidentais. As lesões produzidas pelo frio são chamadas de: “geladuras” e possuem aspecto pálido evoluindo para uma lesão mais grave, chegando até a necrose. Guardam certa semelhança com as lesões produzidas pelo calor. Alguns autores chamam de “queimaduras pelo frio”. O frio produz lesões locais e sistêmicas. A morte por congelamento se dá em consequência à exposição a temperaturas atmosféricas muito baixas. Pode ocorrer em situações naturais ou industriais. Podem ser classificadas em três graus: Eritema: primeiro grau (vermelhidão em razão da vasoconstrição da pele); Flictenas: segundo grau (bolhas similares à queimadura); Gangrena: terceiro grau (morte tecidual); A gangrena leva a necrose, que significa morte do tecido, principalmente nas extremidades corpóreas: nariz, orelha, dedos, etc. Pode destruir parte ou todo o segmento. Quando ocorre nos pés são chamados de “pés de trincheira” (em alusão aos soldados da primeira guerra mundial). Os efeitos sistêmicos são oriundos da queda do metabolismo e da insuficiência circulatória que se instala efeitos que são agravados pela fadiga, inanição, idade avançada, alcoolismo, etc. (ex. mendigos em regiões frias, alpinistas perdidos na neve). AGENTE FÍSICO: PRESSÃO A pressão atmosférica normal é de 760 mm de HG (milímetros de mercúrio) – pressão ao nível do mar. A pressão pode causar alteração do organismo do homem. O corpo precisa de um tempo para se adaptar à pressão, podendo ocorrer lesões ou até a morte. O organismo humano está adaptado a suportar a pressão de uma atmosfera dentro dos padrões normais. Quando ocorre variações intensas de pressão, sem a necessária adaptação, alguns fenômenos podem ocorrer. Esses fenômenos são chamados genericamente de “Baropatias”. São eles: Hiperbarismo: é o aumento acentuado da pressão, comum nos mergulhadores. É chamado de “mal dos caixões” ou “doença do escanfandro”, indicando sintomas de intoxicação pelo oxigênio, nitrogênio e gás carbônico. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 44 Quando o mergulhador retorna muito rápido à superfície há uma descompressão brusca formando bolhas de ar no sangue por causa da oxigenação realizada pelo cilindro de ar, que injeta mais ar nos pulmões à medida que a pressão aumenta. A cada 10 metros de profundidade há uma pressão equivalente a uma atmosfera e o volume de ar no organismo do mergulhador reduz pela metade. O volume de ar inspirado pelo mergulhador deve ser expirado gradativamente durante a subida para se evitar as lesões que são chamadas de “barotraumas”. Os barotraumas podem se manifestar através da perfuração do tímpano, rompimento dos alvéolos, embolia gasosa e até fraturas de dentes. Hipobarismo: é produzido pela refração de ar em grandes altitudes. À medida que a altura aumenta, o nível de oxigênio diminui. Para compensar o organismo produz mais glóbulos vermelhos. Pode também ocorrer vazamento de líquido para os pulmões, ocasionando a morte por asfixia. Quando não há tempo para adaptação, ocorre aumento dos batimentos cardíacos,náuseas, diarreia, vômitos, problemas hematológicos (epistaxe: diminuição das hemácias), desmaios e até morte. Tais problemas ocorrem em altitudes entre 4.600m e 6.100m. Esta espécie de “barotrauma” é chamada de “mal das montanhas” ou “mal dos aviadores”. AGENTE FÍSICO: RADIOATIVIDADE As radiações podem causar lesões e morte. As principais fontes de radiação, segundo Genival França são: raios X (ondas eletromagnéticas), o rádio (partículas beta) e a energia atômica (aniquilação de partículas). Os efeitos da radiação no organismo são: alterações genéticas; vários tipos de câncer; alterações de células do sangue, produzindo hemorragias, queimaduras podendo atingir o nível ósseo. As queimaduras produzidas pela radiação são chamadas tecnicamente de radiotermites e adquirem aspectos de eritemas (vermelhidão) ou, dependendo da intensidade, se manifestam através de úlceras, havendo uma necrose constante, sem cicatrização levando a alterações genéticas e reprodutivas através da multiplicação de células cancerosas. ENERGIAS QUÍMICAS As energias químicas são aquelas que atuam nos tecidos vivos através de substâncias que provocam alterações de natureza corporal, fisiológica ou psíquica, causando danos à saúde ou à vida da pessoa. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 45 As energias químicas também podem ser chamadas de agentes de ordem química, e atuam no organismo humano através da destruição (cáusticos ou corrosivos) ou por alterações metabólicas (venenos ou tóxicos). Os agentes químicos atuam através de ações acidentais (acidente de trabalho) ou por intermédio de ação criminosa (homicídio por envenenamento). AGENTE QUÍMICO: CÁUSTICOS Os cáusticos ou corrosivos são substâncias químicas que provocam profunda desorganização dos tecidos vivos, quer por desidratação (coagulantes) quer por dissolução (liquefacientes). Os cáusticos (do grego “Kaustikos” – aquilo que queima) destroem os tecidos vivos causando escaras secas e endurecidas ou lesões úmidas pelo amolecimento (liquefação) dos tecidos. São exemplos de cáusticos: a soda, o ácido clorídrico, o ácido sulfúrico, etc. O ácido sulfúrico também é chamado de vitriolo, de onde deriva a expressão “vitrolagem” para caracterizar as lesões cutâneas por agentes cáusticos ou corrosivos. A atuação dos agentes químicos corrosivos pode estar relacionada com homicídio, suicídio ou acidente. O arremesso de ácido na face, pescoço ou tórax podem causar lesões deformante (lesão gravíssima – Art. 129, §2°, IV, CP). É comum o suicídio por ingestão de soda cáustica. AGENTE QUÍMICO: VENENOS Existem várias definições para venenos ou tóxicos. São substâncias de qualquer natureza que, uma vez introduzidas no organismo e por ele assimilado e metabolizado, podem levar a danos à saúde física e mental. Dependendo da natureza ou da quantidade, em um plano genérico, tudo pode fazer mal à saúde, inclusive alimentos ou a própria água. E o inverso também é verdadeiro, pois, as drogas (remédios), em doses específicas podem fazer “bem” ao organismo. Para alguns a substância é veneno quando a “ação tóxica” é seu efeito habitual. Os venenos possuem uma dose tóxica, capaz de produzir um dano (intoxicação) ou uma dose letal, capaz de matar. São exemplos de venenos: inseticidas e raticidas domésticos, agrotóxicos, substâncias medicinais, produtos inflamáveis, alguns tipos de cosméticos, etc. Os envenenamentos podem ter etiologia acidental, suicida ou criminosa. O exame de local e a perícia toxicológica serão fundamentais para a comprovação do caso. As vias de penetração do veneno incluem o trato gastrointestinal, pele, mucosas, trato respiratório e sangue. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 46 Para firmar o diagnóstico de morte por envenenamento, a perícia deverá isolar, identificar e dosar, no sangue colhido, na urina, nas vísceras ou no tecido as substâncias tóxicas suspeitas. Existem várias classificações de envenenamentos: Envenenamento por medicamentos (psicotrópicos, ansiolíticos ingeridos em larga escala); Por produtos químicos (Estricnina; monóxido de carbono; cianeto; arsênico; chumbo; etc); Por plantas tóxicas (cicuta, rícino de mamona vermelha, etc.); e Por venenos de animais peçonhentos (cobras, aranhas, escorpiões, peixes venenosos, etc.) ASFIXIOLOGIA FORENCE (AGENTES FÍSICO-QUÍMICOS) Sob o título de energias de ordem físico-química iremos estudar a ASFIXIOLOGIA FORENSE, abordando o capítulo da medicina legal que estuda as asfixias. Asfixia, do grego, “asphuksia” significa “falta de pulso”, utilizado mais comumente para apontar a falta de respiração. A maioria da doutrina conceitua asfixia como “supressão da respiração” (privação de ar). Tecnicamente pode ser conceituada como “a insuficiência de oxigenação sistêmica ocorrendo a diminuição do teor de oxigênio no sangue e nos tecidos, causando danos e podendo levar à morte”. O termo “asfixia” é extremamente abrangente e pode englobar várias causas de morte. Para a medicina legal, interessa três espécies de asfixias: Primitiva, Violenta e Mecânica. ASFIXIA PRIMITIVA: aquela que é causa primária da morte, parte-se do critério temporal, onde a asfixia se apresenta como causa direta da morte (Asfixia Pura) e não como consequência de algum fenômeno orgânico prévio (doença cardíaca ou pulmonar, etc). ASFIXIA VIOLENTA: é o modo como a morte por asfixia se concretizou, por consequência de uma ação violenta, não natural. ASFIXIA MECÂNICA: é classificada quanto ao meio, tratando-se de asfixia em que “ocorre a privação de oxigênio ocasionada por um obstáculo mecânico à penetração do ar atmosférico e criando um déficit da ventilação pulmonar, incompatível com a sobrevivência” (Hofmann). Para que a respiração ocorra normalmente, é necessário um ambiente gasoso externo com teor de oxigênio em torno de 21% livre de gases tóxicos. Abaixo de 7% pode levar a graves alterações orgânicas e abaixo de 3% causa a morte. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 47 O indivíduo deve estar em condições normais de respiração, ou seja, sem nenhum tipo de impedimento orgânico (expansibilidade pulmonar, movimentação toracodiafragmática e circulação sanguínea compatível para transportar oxigênio até os tecidos) sob pena de iniciar- se um processo asfíxico. Sinais externos da asfixia: face cianótica (máscara equimótica azulada); globos oculares proeminentes (hemorragia na conjuntiva ocular); língua projetada; cogumelo de espuma (bolhas de espuma que cobre a boca). Sinais internos: sangue escuro nas cavidades cardíacas e acúmulo de sangue no fígado e rins. Nos casos de asfixia mecânica, os pulmões ficam com pequenas manchas avermelhadas (hemorrágicas) que decorrem de alta pressão arterial provocada pelo aumento da concentração de gás carbônico no sangue. Tais manchas são chamadas de “Manchas de Tardieu”. Esses sinais podem variar dependendo da espécie de asfixia. O número de movimentos respiratórios diminui com a idade, sendo de, aproximadamente, 40 a 45 por minutos em crianças e 16 (aproximadamente) em adultos. Quanto aos movimentos respiratórios, existem as seguintes classificações: Eupneia: respiração normal; Bradpneia ou oligopneia: número de movimentos respiratórios diminuídos; Polipneia ou hiperpneia: número de movimentos respiratórios aumentados; Dispneia: dificuldade para respirar ou respiração difícil (grau máximo é chamado de ortopneia); Apneia: parada respiratória. O tempo total de asfixia é de aproximadamente 7 (sete) minutos, dependendo da idade e da capacidade pulmonar da vítima.No afogamento o processo é mais rápido (4 a 5 minutos). No enforcamento pode durar até 10 minutos. No direito Penal, o homicídio praticado através da asfixia, qualifica o crime (Art. 121, §2°, III, CP). Existem os seguintes tipos de asfixia mecânica: ENFORCAMENTO O enforcamento consiste na espécie de asfixia mecânica em que ocorre a constrição do pescoço por intermédio de uma força aplicada pelo próprio corpo que pende sob o laço. Segundo Del Campo é a contrição do pescoço por baraço mecânico (corda ou outro objeto similar) tracionado pela força do peso do próprio corpo da vítima. A força ativa distende o laço com o peso do indivíduo. O laço pode ser de cordas, arames, fios elétricos, lençóis, camisetas, cortinas, gravatas, cintos, correntes, etc. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 48 O enforcamento é meio mais comum para a prática do “suicídio”, mas também pode ser acidental ou criminoso. A morte, pelo enforcamento, também é uma forma de execução da pena de morte em vários países. Sulco do Pescoço O sulco do pescoço é um elemento extremamente importante para o diagnóstico do enforcamento. O “sulco” (depressão linear na pele – lesão ou marca da corda na pele) no enforcamento tem as seguintes características: oblíquo (forma de “U”) e descontínuo (sendo interrompido na altura do nó), apergaminhado, com profundidade desigual (a profundidade do sulco é maior na região oposta ao nó). O tipo de nó, a natureza e a largura do laço (material áspero, material mole, etc.) o número de voltas, o peso do corpo e o tempo de suspensão podem interferir nas características do sulco. A permanência do sulco é proporcional a consistência do laço e ao tempo de suspensão do corpo. Dependendo da posição do nó, caso este venha a existir, o enforcamento é chamado de: Enforcamento típico: o nó está situado na região posterior do pescoço (nuca); Enforcamento atípico: na região anterior do pescoço ou na lateral. Quando não há nó (meio constritivo que pressione o pescoço para interromper a circulação), o enforcamento também é chamado de atípico. As veias jugulares podem ser bloqueadas com uma compressão local de 2 Kg; as artérias carótidas com 5 kg; a traqueia fecha-se com 15 kg. Para que ocorra, no enforcamento, um processo asfíxico, é necessária a compressão completa da traqueia. É também possível o fechamento da glote pela fratura da faringe. Não é necessário que o corpo fique completamente suspenso para a ocorrência do enforcamento. Quando o corpo permanece absolutamente suspenso, o enforcamento é chamado de enforcamento por suspensão completa. A morte pode acontecer mesmo quando a vítima permanece com os pés apoiados ao solo. É chamado de enforcamento por suspensão incompleta. A morte por enforcamento ocorre: Pela asfixia mecânica: quando a constrição do pescoço bloqueia as vias respiratórias, produzindo a morte; Por inibição: a constrição do pescoço lesa os nervos e a carótida, determinado uma parada cardiorrespiratória e a consequente morte; Por obstrução da circulação: a pressão exercida no pescoço interrompe a circulação sanguínea para o cérebro, ocasionando a morte. ESTRANGULAMENTO É a constrição do pescoço por corda ou outro mecanismo acionado por força estranha ao peso da pessoa. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 49 Caracteriza-se pela constrição através de um laço ou mecanismo similar acionado por qualquer força ativa (chave de braço, gravata, etc.), que não seja o peso do corpo da vítima, com obstrução da passagem de ar para os pulmões, interrupção da circulação cerebral e compressão dos nervos do pescoço. O estrangulamento é comum nos homicídios, mas é possível também no suicídio (auto estrangulamento através de um torniquete) e na execução por intermédio do “garrote vil”. O sulco do estrangulamento é transversal e horizontal, contínuo (não há nó típico como no enforcamento) e homogêneo em relação à profundidade (inexiste a ação do peso do corpo); pode ter mais de uma volta e também é apergaminhado (com lábios iguais). ESGANADURA É a asfixia mecânica pela constrição do pescoço produzida pela ação direta das mãos do agente. O aperto do pescoço pelas mãos do agente impede a passagem de ar pelas vias aéreas. A esganadura é uma asfixia essencialmente homicida, via de regra existindo superioridade de forças. A esganadura é comum no infanticídio e nos estupros qualificados pela morte. A doutrina médica afasta o suicídio na esganadura. Não existe sulco na esganadura. No seu lugar existem os chamados “estigmas ungueais” que são as arcas das unhas no pescoço da vítima (região ântero-lateral). É possível também encontrar equimoses localizadas bilateralmente na região do pescoço, correspondendo a ação compressiva dos dedos das mãos do agressor. A morte decorre da compressão do pescoço (inibição vagal) e consequente asfixia, podendo ocorrer a fratura do osso hioide. 29/04/2016 AFOGAMENTO O afogamento é a espécie de asfixia em que ocorre a penetração de um meio líquido (água) ou semilíquido (lama) nas vias aéreas da vítima, impedindo a passagem do ar até os pulmões. Não há necessidade de imersão total do corpo, bastando que as vias aéreas (orifícios respiratórios) estejam submersas, impedindo a respiração. A maioria dos afogamentos são acidentais, havendo casos de homicídio e de suicídio também. O crime de tortura pode ser praticado por intermédio do afogamento (ex.: caldo). Segundo a doutrina médica, existem dois tipos de afogados: o afogado azul (afogado real), que morreu em razão do afogamento, com sinais externos e internos típicos do afogamento e o afogado branco (afogado falso), ou seja, consistente na hipótese em que o corpo foi atirado sem vida na água. FASES DO AFOGAMENTO MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 50 Segundo Hoffman, a morte por afogamento é constituída de três fases: 1° Fase de Defesa ou Resistência: a vítima tenta conter a respiração o máximo possível, ocorrendo a contenção e a pausa, ou suspensão da respiração (apneia); 2° Fase da Exaustão: ocorre atos respiratórios desordenados (respiração forçada e difícil), por reflexo, a vítima começa a inspirar líquido profundamente (dispneia); 3° Fase de Asfixia: a vítima perde a consciência, tem convulsões e morre. Outros autores estabelecem etapas diferentes do afogamento. Ponsold descreve cinco etapas: 1° Fase: ao cair na água, a primeira reação da pessoa é efetuar uma inspiração profunda, antes de afundar; 2° Fase: há uma pausa respiratória voluntária (apneia inicial) para impedir a entrada de líquido nas vias respiratórias; 3° Fase: o aumento de gás carbônico provoca irritação dos centros nervosos, obrigando a vítima a fazer uma respiração forçada (dispneia); 4° Fase: começam a ocorrer convulsões asfíxicas em razão da inspiração de líquidos e estímulo dos centros nervosos; 5° Fase: há uma parada respiratória, a boca se abre e o corpo se encolhe, constituindo uma respiração agônica e anóxia cerebral irreversível, provocando a morte. O processo de afogamento pode levar em torno de 5 a 10 minutos, dependendo da resistência individual da vítima e do tipo de líquido onde há a imersão. SINAIS PRINCIPAIS DO AFOGAMENTO Os achados necroscópicos frequentes no afogamento são: Sinais externos: Pele anserina (enrugamento da pele, comumente chamado de “pele de galinha” (sinal de Bernt); Maceração epidérmica: a epiderme fica infiltrada de água, com aspecto esbranquiçado e rugosos (principalmente mãos e pés); Cianose da face: o rosto fica com coloração azulada/verde ou enegrecida(presente em todas as espécies de asfixias); Cristais e areias sob as unhas; Genitália externa aumentada de volume (genitália gigantóide); Lesões de arrasto: pelo embate do corpo no leito do curso a agua (nos pés, joelhos, mãos e cabeça); Cogumelo de espuma: formação de espuma na boca em razão da secreção das vias aéreas; Lesões “post mortem” produzidas por peixes ou outros animais aquáticos. Sinais internos: Diluição do sangue (em razão da ingestão de grande quantidade de líquido); Presença de agua no estômago; Enfisema hidroaéreo do pulmão; Manchas de “Paltauf” (Hemorragias pleurais no pulmão); Presença de plâncton e água nas vias respiratórias (nariz e boca); Presença de líquido nos ouvidos. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 51 SUFOCAÇÃO A sufocação é a asfixia mecânica decorrente do bloqueio direto ou indireto das vias respiratórias, impedindo a penetração do ar. SUFOCAÇÃO DIRETA: é a obstrução dos orifícios externos respiratórios (nariz e boca), através das próprias mãos ou por intermédio de agentes moles (panos, travesseiros, almofadas, etc.) de origem homicida. Também pode ocorrer através da aspiração de corpos estranhos (obstrução acidental), tais como alimentos, brinquedos, moedas, pequenos objetos, etc. Neste caso, há oclusão das vias respiratórias internas (traqueia, brônquios, etc.). SUFOCAÇÃO INDIRETA: ocorre através da compressão do tórax em grau suficiente para impedir os movimentos respiratórios e levando à asfixia. Pode ser acidental (sufocação por grandes multidões, acidentes de trabalho) ou criminosa. A sufocação tem como sinal a máscara equimótica (cianose); nos casos de sufocação direta acidental, o objeto estranho pode ser encontrado no interior das vias aéreas (ex. traqueia). Na indireta é possível lesões no esqueleto torácico e vísceras. SOTERRAMENTO Soterramento é a asfixia mecânica decorrente da obstrução das vias respiratórias por terra ou substância sólidas ou poeirentas (pó, cimento, areia, grãos, cascalho, etc). Normalmente é acidental, mas pode ser homicida ou suicida. A situação mais frequente envolve desmoronamento ou o desabamento. Nos achados necroscópicos é possível encontrar substâncias sólidas no interior das vias respiratórias, na boca, no esôfago. Também estão presentes os sinais gerais da asfixia. No soterrado, também se encontram lesões traumáticas de várias espécies, principalmente nas hipóteses de desabamento e desmoronamento, onde, por vezes, tais lesões, por si só, já causam o óbito da vítima (traumas de crânio, lesões no tórax, etc.). CONFINAMENTO Caracteriza-se pela permanência da pessoa em uma área restrita e fechada (ex. elevadores, celas, carros, caixas, etc.) sem haver renovação do ar ambiente, com consumo progressivo de oxigênio, aumento gradativo do gás carbônico, elevação da temperatura e saturação do ambiente, causando a asfixia da vítima. Na maioria das vezes o confinamento é acidental, mas também pode ser homicida ou suicida. Além dos sinais gerais da asfixia, podem ser vistas algumas lesões produzidas em ações desesperadas da vítima, como escoriações no pescoço, desgastes das unhas, ferimentos na face, etc. ASFIXIA POR MONÓXIDO DE CARBONO A ação do monóxido de carbono (CO) pode causar asfixia. Isto porque quando inalado demasiadamente se fixa na hemoglobina do sangue impedindo que ela leve oxigênio aos MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 52 tecidos, criando a “carboxiemoglobina”, levando à hematose que causa a asfixia tecidual. Segundo a doutrina médica não é uma intoxicação, mas uma asfixia. É muito comum em suicídio (abertura do gás para morrer), mas também existem muitos casos acidentais. O diagnóstico deste tipo de asfixia se faz quando o sangue periciado da vítima apresenta uma taxa entre 75 a 90% de carboxiemoglobina. Assim, há necessidade de perícia hematológica para a confirmação do diagnóstico. Os achados necroscópicos indicam: rigidez precoce; face rosada; sangue avermelhado em razão do monóxido de carbono; putrefação tardia. ENERGIAS MISTAS ENERGIAS BIOQUÍMICAS (Agentes Mistos) São aquelas que se manifestam de modo combinado, envolvendo fatores orgânicos e químicos. Alguns autores chamam de agentes mistos, pois incluem uma série de eventos que não são atribuíveis a somente uma causa. Há um fator relacionado com o excesso ou com a falta de alguma substância no organismo que interfere no estado de saúde da vítima, alterando sua capacidade de resistência. As energias bioquímicas podem atuar de forma negativa ou positiva, através da inanição ou das intoxicações. INANIÇÃO: para sobreviver e ter um desenvolvimento completo e sadio, o ser humano precisa de uma alimentação balanceada, rica em nutrientes fundamentais: carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, sais minerais e água. A ausência prolongada destes nutrientes podem causar transtornos ao organismo. A fome se manifesta após 24 horas de alimentação (média). Uma pessoa normal consegue resistir de 7 a 10 dias ingerindo apenas água. A desidratação decorre das alterações da concentração dos líquidos corporais em consequência de perda de água. A inanição é o enfraquecimento externo por falta ou redução exagerada de alimentos imprescindíveis para a sobrevivência humana. Sua etiologia pode ser acidental, voluntária, econômica, criminosa, etc. Inanição acidental pode ocorrer quando a pessoa fica presa por vários dias em algum lugar onde não tem acesso a alimentos ou água (quedas em buracos); Inanição voluntária pode ocorrer em situações de protesto (greve de fome); Inanição econômica é comum em países pobres onde predomina a miséria; Inanição criminosa pode ser observada em situações em que crianças, velhos ou enfermos são abondados sem alimentos (ex. infanticídio, abandono material, etc.). O grau máximo de inanição é chamado de “caqueixa”, que normalmente evolui para a morte. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 53 INTOXICAÇÕES ALIMENTARES: as intoxicações alimentares ocorrem quando o alimento ingerido contém substâncias ou microrganismos prejudiciais à saúde. As intoxicações alimentares mais comuns são a salmonelose e o botulismo, que tem como sintomatologia o vômito, a diarreia, etc. A etiologia mais comum é a acidental, quando a vítima ingere alimentos contaminados. INFECÇÕES: são perturbações causadas por organismos patogênicos (bactérias, fungos, vírus, etc.) podendo causar inúmeros malefícios ao homem. As infeções são, via de regra, acidentais. No entanto, existem crimes específicos descritos no Código Penal (Art. 130 do CP perigo de contágio venéreo e Art. 131, CP perigo de contágio de moléstia grave) FADIGA: é o conjunto de sintomas experimentados pelo organismo humano em razão de um regime de trabalho ou de um esforço que vai além da capacidade normal de resistência. Pode ser fadiga aguda ou crônica. Na fadiga aguda, a vítima realiza atividades físicas em excesso, de forma contínua, excedendo os limites orgânicos (ex. maratonas). Na fadiga crônica, a vítima não permite ao seu corpo o tempo de repouso e recuperação necessários, minando a resistência orgânica (estresse ou estafa). Os sintomas incluem a taquicardia, palpitações, depressão, insônia, diminuição da capacidade mental, etc. DOENÇAS PARASITÁRIAS (agentes biológicos): existem dois tipos de parasitas, os ectoparasitas e os endoparasitas. Os ectoparasitas vivem na superfície do corpo do hospedeiro, incluindo as aberturas e as cavidades naturais do corpo humano (fossas nasais, ouvidos, boca, ânus, olhos, etc.). São exemplos: escabiose (sarna); miíases (conhecidas vulgarmente por micoses/bicheiras);infestações por carrapatos, piolhos, pulgas, etc. Os ectoparasitas podem levar o hospedeiro, dependendo do grau de infestação, a um desconforto crônico, ocasionando o estresse. Os endoparasitas são aqueles que habitam órgãos ou sistemas de órgãos ou o interior dos tecidos. Se dividem em dois grupos: os helmintos e os protozoários e são responsáveis por várias doenças, tais como a Doença de Chagas, a malária, a leishmaniose, a esquistossomose, infestações por tênia (cisticercose), etc. Os ectoparasitas podem ser vetores de endoparasitas, como por exemplo a pulga do rato que transmite a peste bubônica. EMOÇÃO VIOLENTA E REPENTINA: a emoção pode causar uma morte mediata, ou seja, quando o trauma psíquico desencadeia uma doença subjacente, como o infarto. SEVÍCIAS: são várias modalidades de agressões caracterizando energias de ordem mista. Envolvem, segundo a doutrina médica, três situações: a Síndrome da criança maltratada; a Síndrome do ancião maltratado e a tortura. Síndrome da criança maltratada: também é chamada de síndrome da criança espancada ou síndrome de Silverman. Compreende um conjunto de lesões externas e internas apresentados por crianças submetidas a espancamentos, prisão, queimadura e outras sevícias (maus-tratos). A tipificação está prevista no Código Penal (Art. 136) e no Estatuto da Criança e Adolescente (Lei n.° 8.069/90). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 54 Em regra, os próprios pais ou alguém da família cometem as sevícias. Em geral, detém as seguintes características: o Atinge crianças na primeira infância (ate os 4 anos); o Lesões variadas em múltiplas regiões do corpo; o Lesões produzidas em épocas diversas; o Abuso no meio de correção, castigos corporais, privação de alimentos, abuso emocional, abuso sexual, etc.; o Fatores existentes: pobreza, deficiência física e mental da criança, dependência química dos pais, etc. Síndrome do ancião maltratado: o idoso, pela sua condição física, torna-se presa fácil dos agressores. São comuns os maus-tratos, o abandono, agressões físicas e psicológicas. Também é uma espécie de violência familiar, sendo também observada com frequência em hospitais, casas de repouso, asilos, etc. (Estatuto do Idoso Lei n.° 10.741/03). TORTURA: a tortura, no Brasil, está tipificada no art. 1° da Lei 9.455/97. Em resumo, tortura significa constranger a vítima a suportar um intenso sofrimento físico e psicológico (suplícios e dor) com a finalidade de fazê-la confessar algo ou prestar alguma informação ou firmar uma declaração. A tortura também pode ter natureza discriminatória (racial, religiosa, social, etc). Existem vários métodos de tortura (choques elétricos, submersão em água, extração de dentes, lesões sob a unha, etc.). A perícia, na tortura, é sempre muito difícil, pois quase sempre é praticada com a preocupação de não deixar vestígios. Os torturadores são pessoas, por vezes, treinadas, com habilidade e técnicas para se torturar. Os sobreviventes da tortura, além de sequelas físicas, também ficam acometidos de consequências psicológicas, tais como a síndrome pós-tortura, caracterizada por imagens recorrentes dos suplícios aplicados (desorientação, irritabilidade, isolamento, tendências suicidas, etc.). Alguns métodos de tortura são empregados comumente: “pau-de-arara”, “pimentinha”, “afogamento”, “cadeira do dragão”, “telefone”, dentre vários outros. 06/05/2016 LESÕES PERFURO-CONTUSAS Após as noções gerais de balística, vamos analisar as lesões causadas por instrumentos perfuro contundentes, isto é, aqueles que perfuram e contundem simultaneamente (lesões perfuro-contusas); Esses ferimentos apresentam bordas irregulares, com grande predomínio da profundidade sobre a superfície e caráter penetrante ou transfixante. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 55 As lesões perfuro-contusas mais típicas são aquelas produzidas por projéteis acionadas por arma de fogo, estes, agindo por impulsão e rotação, determinam a formação de um orifício e de zonas de contorno junto a pele. A forma desse orifício e de suas zonas de contorno depende da incidência do tiro (obliquo, perpendicular, etc) e de sua distância. O verdadeiro agente vulnerante das lesões perfuro-contusas, no caso de armas de fogo, é o projétil (a “bala” ou os grãos de chumbo), sempre impulsionados pela carga, pela força expansiva dos gases, que ocorre no momento da deflagração do disparo ou da detonação do tiro, da combustão da pólvora. O projétil de arma de fogo trata-se de um agente mecânico perfuro-contundente, que determina uma lesão de natureza perfuro-contusa. O estudo das lesões produzidas pela ação de projéteis de arma de fogo sejam eles unitários ou múltiplos, apresenta relevância especial, primeiro porque constituem número expressivo de ocorrências, em grande número de etiologia criminosa. Além disso, pela multiplicidade de características, geralmente fornecem elementos preciosos à investigação, determinação da causa jurídica do evento ou ainda da possível autoria. Na análise dos ferimentos produzidos por projéteis de arma de fogo, quatro são os pontos que devem merecer atenção: a) Determinação e descrição dos ferimentos de entrada e saída; b) A trajetória do projétil no interior do corpo, bem como a descrição das lesões internas; c) A orientação do disparo em relação à posição do corpo; d) A distância provável do disparo. FERIMENTOS DE ENTRADA As características dos ferimentos de entrada produzidos por projéteis de arma de fogo dependem, basicamente, de três fatores principais, quais sejam: tipo de munição empregada (projétil unitário ou projéteis múltiplos), ângulo de incidência e distancia do tiro. o As características do ferimento de entrada dependem: Do tipo de munição empregada Projétil único Projéteis múltiplos Do ângulo de incidência; e Da distância em que foi efetuado o disparo. FERIMENTOS DE SAÍDA Os ferimentos de saída somente existem, por óbvio, se o projétil transfixar o corpo. A importância médico-legal é relativa, salvo na determinação da trajetória, porque não possuem características próprias. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 56 Como regra, o ferimento de saída é irregular, maior que o de entrada, até porque o projétil frequentemente se deforma em sua passagem pelos tecidos orgânicos, e tem as bordas voltadas para fora. Alguns projéteis especiais, de alta energia, em razão das ondas de choque produzidas pelo seu deslocamento, costumam produzir ferimentos de saída de grandes proporções (Ex. disparo de fuzil). FERIMENTOS PRODUZIDOS POR PROJÉTEIS MÚLTIPLOS (BALINS) Nos disparos efetuados com cartuchos de munição de projéteis múltiplos (armas de alma lisa), o aspecto da lesão depende, basicamente, da distância em que foram realizados e da consequente abertura do cone de dispersão. Em tiros muito próximos ou encostados, os projéteis múltiplos causam grande destruição tecidual, muitas vezes acompanhada de significativa perda de substância. Nos disparos efetuados a distância, o que observamos é a existência de lesões múltiplas, como se produzidas por vários disparos unitários, distribuídas ao redor de um ponto central, e que se afastam mais uma da outra quanto maior for a distância entre o atirador e o alvo. O ângulo de tiro irá determinar o formato da lesão única (se o tiro for a curta distância) ou do desenho formado pela distribuição das múltiplas lesões (nos tiros a distância), que poderá ser circular, nos disparos perpendiculares ao alvo, e elíptico ou cônico, quando a carga de projéteis incidir de maneira obliqua sobreo alvo. FERIMENTOS PRODUZIDOS POR PROJÉTEIS UNITÁRIOS A lesão de entrada produzida por projétil de arma de fogo é geralmente circular “O”, na dependência do ângulo de incidência e das linhas de tensão que atuam sobre a pele (Leis de Filhós e Langer). Excepcionalmente, podem ter formato diverso ou atípico, quando o projétil se deforma, ou perde sua trajetória, para penetrar no corpo com sua face lateral, cilíndrica, determinando, assim, um ferimento de entrada com formato de letra “D”. A lesão também terá conformação atípica quando o projétil atingir tangencialmente a pele, “de raspão”, hipótese em que o ferimento irá apresentar-se como uma escoriação de formato alongado. Nesse caso, é claro, não se pode falar em ferimento de entrada, pois o projétil não penetrou no corpo. Apesar de haver certa correspondência de forma entre o tipo do projétil e o ferimento, não é possível determinar o calibre da arma pelo diâmetro da lesão, visto que, em razão da elasticidade da pele e das linhas de tensão, o orifício de entrada pode ser menor, maior ou igual ao diâmetro do projétil que lhe deu origem. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 57 O ferimento de entrada tem geralmente bordos invertidos, voltados para o interior do corpo, característica contrária à dos ferimentos de saída que possuem as bordas evertidas, levantadas, indicando claramente o sentido de sua trajetória. Como exceção, temos a câmara de Hoffmann ou câmara de mina, observada nos tiros encostados em regiões que recobrem tábuas ósseas, em que o ferimento de entrada tem os bordos evertidos, voltados para fora. Ao redor dos ferimentos de entrada produzidos por projéteis de arma de fogo, podemos observar algumas espécies de orlas (ou halos) e zonas, fenômenos que se apresentam de fundamental importância tanto para a caraterização da natureza do ferimento como para a determinação da distância em que foi realizado o disparo. As orlas (ou halos) são regiões circunscritas, regulares, que circundam o ferimento como pequenas auréolas, dando-lhe características especiais que permitem diferenciar as lesões produzidas por projétil de outras determinadas por instrumentos diversos. As zonas compreendem áreas maiores, irregulares, que podem ou não estarem presentes e que terão importância fundamental na determinação da distância do disparo. o Ferimento de entrada de projétil Orlas ou halos Escoriação Contusão Enxugo Zonas Esfumaçamento Chamuscamento Tatuagem ORLAS OU HALOS DE CONTUSÃO, ESCORIAÇÃO E ENXUGO A pele é constituída por duas camadas distintas, a epiderme e a derme. A primeira é mais fina e menos elástica, rompendo-se de imediato pelo embate do projétil. A segunda, a derme, mais elástica, acompanha o projétil, encapsulando-o parcialmente antes de se romper, para depois voltar à posição original. ORLA DE CONTUSÃO Em que pese o projétil ser mais ou menos pontiagudo, para ele penetrar ao corpo, tem que forçar a pele, produzindo ali uma contusão. Assim, a primeira orla produzida é a de contusão, que corresponde a “região equimótica” decorrente da lesão ocasionada pelo embate do projétil na pele. Trata-se de um halo (círculo) róseo que circunda o orifício de entrada e que é mais evidente nas pessoas de pele clara, sendo difícil de observar em peles de tonalidade mais escura. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 58 ORLA DE ESCORIAÇÃO Como a epiderme é menos elástica que a derme, após a passagem do projétil é possível observar uma pequena retração com consequente exposição da derme, como se tivéssemos dois anéis, um, de diâmetro maior, formado pela ruptura da epiderme (orla de contusão), e outro, de diâmetro menor, formado pela exposição da derme. A esse anel (de exposição da derme) denominamos orla ou halo de escoriação. A orla de escoriação é originada durante a formação do túnel de penetração do projétil, quando pequenos vasos sanguíneos são tracionados e rompidos, formando escoriações em torno do ferimento. Esta orla, que consiste um túnel hemorrágico, permite determinar o trajeto do projétil. OBS: os autores costumam agrupar as orlas de contusão e de escoriação como se formassem uma única “orla”, apresentando, também, como sinônimos os termos orla erosiva e anel ou orla de Fisch (Croce). A orla de contusão indica uma área maior, que circunda o ferimento, e é formada pelo halo decorrente da lesão dos vasos capilares da área atingida pela entrada do projétil. Na verdade, a orla de escoriação corresponde à diminuta exposição da derme sobre a lesão causada na epiderme, em razão da diferença de elasticidade entre as camadas. ORLA DE ENXUGO Quando o projétil passa pelo cano da arma, ele “se suja” com as impurezas ali existentes, e ao atravessar a pele, “se lava e enxuga”, deixando na epiderme a sua marca. É caracterizada por uma aréola apergaminhada, milimétrica, que circunda a borda do orifício, resultante do impacto e da pressão rotatória feita pelo projétil contra a pele, antes de rompê-la, limpando-o da ferrugem, óleo ou fumaça que traz. Geralmente tem cor escura, circular nos tiros perpendiculares e ovular ou elíptica nos tiros oblíquos. Assim, ao atravessar a derme, o projétil literalmente se enxuga. Limpa-se das sujeiras e impurezas trazidas do cano da arma, restos de pólvora e fuligem depositados em sua superfície, deixando na derme um anel enegrecido a que se convencionou chamar de orla de enxugo e que normalmente impede que observemos a orla de escoriação, que fica parcialmente sobreposta a ela. ZONAS DE CHAMUSCAMENTO, ESFUMAÇAMENTO E TATUAGEM Quando uma arma é disparada, juntamente com o projétil são expelidos pela boca do cano um considerável volume de gases em alta temperatura e em combustão, certa quantidade de fumaça (que varia de acordo com o propelente utilizado) e pequenos grãos de pólvora (combustos, semicombustos ou em combustão), assim como micropartículas metálicas oriundas da abrasão do projétil no cano da arma. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 59 Esses componentes são expelidos juntamente com o projétil, mas, como têm massa infinitamente menor, não possuem energia cinética para ir além de uns poucos centímetros da boca do cano da arma, podendo não atingir o alvo. ZONAS DE CHAMUSCAMENTO Resulta da ação do calor e dos gases quentes que saem pelo cano da arma, queimando os pelos e a epiderme. Também é chamada de zona de queimadura. Se o disparo for efetuado muito próximo do alvo, algo em torno de 5 cm, poderemos ter a zona de chamuscamento, que nada mais é que uma região onde a pele é literalmente queimada pela chama que sai pela boca do cano da arma. ZONA DE ESFUMAÇAMENTO Para uma distância maior, de até 30 cm, a fumaça decorrente do disparo poderá atingir o alvo e depositar-se ao redor do ferimento de entrada, produzindo a chamada zona de esfumaçamento. ZONA DE TATUAGEM Exatamente porque têm massa maior que as partículas de fuligem, restam os grãos de pólvora e as partículas metálicas decorrentes da abrasão do projétil no cano da arma, que incidem sobre o alvo como verdadeiros projéteis secundários, por vezes incrustando-se na pelo de tal maneira que formam verdadeiras tatuagens (zona de tatuagem). Os fenômenos aqui observados ocorrem porque o calor, a fumaça e os grânulos de pólvora combusta ou em combustão, além de outras impurezas que saem do cano da arma, alcançam a pele. São as hipóteses dos famosos “tiros à queima roupa” (curta distância). Esta nuvem de elementos forma um cone com a base voltada para o alvo. Esta base será maior quanto mais afastado do alvo for disparadoo projétil, tendendo a diminuir a medida que esta distância é reduzida. Logo, as características desse disparo dependem diretamente de fatores como a munição e o tipo de arma empregada, não podendo apresentar como regra uma distância categórica. O ferimento, nesses casos, é rico em elementos característicos, sendo formado por um orifício de bordas invertidas com orla de contusão, escoriação e enxugo e zona de esfumaçamento, chamuscamento e de tatuagem. Nos casos de tiros à distância (além de cinquenta centímetro) só o projétil alcança o alvo, formando um orifício de bordas invertidas com orla de contusão, escoriação e enxugo, sem as zonas de chamuscamento, esfumaçamento e de tatuagem. DISPAROS ENCONSTADOS MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 60 Nos disparos encostados temos de diferenciar duas situações distintas: os disparos que atingem unicamente tecidos moles e os que incidem sobre partes do corpo que recobrem ossos planos, por exemplo, os do crânio. Quando o disparo encontrado atinge unicamente tecidos moles, além do projétil, todos os demais elementos penetram no ferimento, causando uma lesão interna de grande monta. As zonas de chamuscamento, esfumaçamento e a tatuagem ficam todas no interior do corpo, mas o orifício de entrada permanece com sua configuração circular ou elíptica, com bordas invertidas. Por vezes, na dependência da força com que a arma foi pressionada sobre a região atingida, é possível evidenciar a marca do cano sobre a pele. Isso é chamado de Sinal de Werkgaertner. Esses ferimentos são frequentemente observados em suicídios. Neste tipo de disparo (tiro de encosto), o cano da arma fica intimamente encostado no alvo. O ferimento de entrada caracteriza-se por ser um orifício de bordas denteadas, desarranjadas e invertidas, sendo este último elemento decorrente da violenta força expansiva dos gases. A presença de pólvora na porção inicial do trajeto torna o orifício enegrecido. Quando logo abaixo da região atingida, existe uma tábua óssea, o projétil pode (ou não) conseguir perfura-la, mas os gases e as micropartículas certamente não. Nesses casos há um deslocamento dos tecidos e uma verdadeira explosão, no sentido inverso (de dentro para fora), pelo refluxo dos gases, formando um ferimento de conformação estrelada e de bordos evertidos (para fora), como se fosse uma “cratera”. Isto é denominado de câmara de mina ou câmara de Hoffmann. OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS Devemos ainda considerar o trajeto, que é o caminho percorrido pelo projétil em seu efeito danoso. Geralmente, é retilíneo e cilíndrico e quando transfixante termina no orifício de saída. Nas necrópsias, no trajeto percorrido pelo projétil dentro do corpo, pode-se encontrar restos do cartucho, como pólvora incombusta, a bucha, ou, ainda, fragmentos de roupa, pele, pelos, fragmentos ósseos, etc. No entanto, o trajeto pode ser diferente dependendo do tipo de projétil (ex. projéteis jaquetados ou encamisados “balas dum-dum”). O orifício de saída, nas lições de Benedito Soares de Camargo Júnior, é único e apresenta bordos evertidos (virados para fora), é irregular ou em fenda, maior que o orifício de entrada e maior que o diâmetro do projétil. Comumente há saída de matérias orgânicas: massa encefálica, ossos, muito sangue, etc. Não apresentam zonas de tatuagem, chamuscamento ou esfumaçamento. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 61 COMPARAÇÃO ESQUEMÁTICA EM RELAÇÃO AOS ORIFÍCIOS DE ENTRADA EM COMPARAÇÃO COM OS DE SAÍDA Entrada Saída Regular Dilacerado Invertido Evertido Proporcional ao projétil Desproporcional ao projétil (maior) Com orlas e zonas Sem orlas ou zonas A diferenciação tem grande importância, pois pode fornecer subsídios para o estudo da direção do disparo, de alta valia no estudo da natureza do evento letal. É imprescindível que o Médico-Legista, proceda a minuciosa descrição das características de ambos os orifícios (se existirem). Insta salientar que várias são as questões periciais de interesse jurídico que se apresentam, dentre as quais destacamos: o Natureza do fato: acidente, suicídio ou homicídio; o Distância do disparo, para estudo de autoria; o Identificação da arma, também visando o estabelecimento da autoria. 13/05/2016 TANATOLOGIA FORENSE CONCEITO DE TANATOLOGIA Tanatalogia é a ciência que estuda a morte e seus efeitos. “Thanatus” (do grego) significa morte. Assim, podemos dizer que: “Tanatologia forense é a parte da Medicina Legal que estuda a “morte”, bem como também o “morto” e suas consequências jurídicas, abordando os fenômenos morfológicos deles decorrentes”. CONCEITO DE MORTE O conceito mais simples de morte pode ser resumido na “cessão completa e definitiva das funções vitais”. A morte, em princípio, é um evento único e determinado, que ocorre em um instante preciso. No entanto, para a medicina, a morte é um processo mais complexo, dinâmico e prolongado, que envolve uma série de transformações. A morte começa nos centros vitais (cérebro e coração) e se propaga, progressivamente, para todos os órgãos e tecidos. Assim, o conceito técnico de morte é polêmico em Medicina Legal. Atualmente, no plano geral, admitem-se dois conceitos de morte: MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 62 Morte circulatória: corresponde à parada cardíaca irreversível; Morte cerebral: definida como a parada neurológica ou a morte encefálica geral. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O CONCEITO DE “MORTE” O Comitê de Ressuscitação e Transplante de órgãos da Sociedade Alemã de Cirurgia (1968) conclui que existem várias condições para determinar-se a realidade da morte: 1) Cérebro morto após 12 horas de inconsciência; 2) Falta de respiração espontânea; 3) EEG (eletroencefalograma) isoelétrico (plano, com linha reta); 4) Angiograma revelando cessação da circulação intracraniana; e 5) Ausência de batimentos cardíacos após o término dos procedimentos de ressuscitação. O Brasil vem adotando como o “momento da morte”, a morte encefálica, conforme dispõe o Art. 3° da Lei 9.434/97 (Lei de Transplante de Órgãos). ESPÉCIES DE “MORTES” Morte aparente: é um estado em que na verdade o indivíduo apenas parece morto em razão da baixa atividade metabólica e circulatória. Há inconsciência, relaxamento muscular, respiração, diminuída ou apnéia (falta de respiração). Ex. Termopatias, Catalepsias, etc. Obs: As leis municipais estabelecem o prazo de 24 horas para inumação. Morte histológica: é a morte das células que compõe os vários tecidos e órgãos. A morte é um fenômeno que se protrai no tempo. Mesmo após dias de inumação, pode-se encontrar células vivas no cadáver. Morte relativa: é o estado de parada cardíaca reversível, em que o organismo ainda não ultrapassou o “ponto de não retorno”, podendo ser submetido aos procedimentos de ressuscitação (massagem cardíaca, etc.) e retornar à vida. Morte real ou absoluta: é a morte propriamente dita, ou seja, a cessação de toda a atividade biológica do indivíduo. Morte clínica: na ausência de aparelhagem especial para a determinação do momento da morte, utiliza-se o conceito clássico de que ela ocorreu com a parada irreversível da respiração e circulação, isto é chamado de “morte clínica”. OBSERVAÇÕES Perda da sensibilidade: na prática o diagnóstico é realizado através da análise da sensibilidade em regiões mais sensíveis (sola do pé), espetando uma agulha para verificar alguma reação reflexa; Cessação dos movimentos respiratórios: é diagnosticada através da ausculta dos movimentos peitorais. Antigamente colocava-se um espelho próximo dasnarinas e boca para saber se havia entrada e saída de ar nos pulmões. Se o espelho embaçava é porque a pessoa MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 63 estava respirando. Outro meio era aproximação de uma vela acesa. Se a chama permanecesse imóvel era caso de morte, se agitava, pela presença da respiração, o indivíduo estava vivo. Outros diagnósticos: atualmente existem aparelhos próprios para verificar se a pessoa está viva (ex. aparelhos eletro cardiorrespiratórios ou eletrocardiogramas onde são medidas as frequência cardiológicas ou neurais), mas, na prática médica, ainda hoje, a circulação sanguínea é aferida pela auscultação (através do estetoscópio). TANATAGNOSE E CRONOTANATAGNOSE. Tanatagnose: é a parte da tanatologia forense que estuda a realidade da morte, analisando todos os fatores que envolvem o evento “morte”. Cronotanatagnose: se ocupa da determinação do tempo em que a morte ocorreu, pautando-se na questão “cronológica”. A morte não é um acontecimento instantâneo, mas um processo gradativo que vai evoluindo com o tempo. Ambas se pautam nos chamados “Fenômenos Cadavéricos”. FENÔMENOS CADAVÉRICOS A morte é uma sucessão de fenômenos que se prolongam no tempo. Os fenômenos cadavéricos são várias transformações por que passa o corpo na sua transição da vida para a morte. a) Fenômenos Abióticos: (avitais ou vitais negativos) que existem em todas as mortes; b) Fenômenos Transformativos: existem apenas em determinados tipos de mortes (variando de caso a caso). Os Fenômenos Cadavéricos Abióticos podem ser observados indiscriminadamente em todas as mortes. Se dividem em duas categorias: Fenômenos Abióticos Imediatos e Fenômenos Abióticos Mediatos (consecutivos). FENÔMENOS CADAVÉRICOS ABIÓTICOS IMEDIATOS São os fenômenos que surgem instantaneamente com a constatação do óbito. Podem ser chamados de “sinais imediatos de morte”. Constatada a morte, estão presentes os fenômenos abióticos imediatos, consistentes em um conjunto de sinais precoces sugestivos de morte, embora, nenhum deles, isoladamente, seja totalmente convincente. São fenômenos que insinuam a morte, indicando a “morte clínica”. Isto porque, não são sinais de certeza de morte em que o médico pode se basear, permitem diagnosticar “clinicamente” o óbito. Podem ser mencionados os seguintes fenômenos imediatos: Perda da consciência: a perda da consciência é total e irreversível, com ausência de respostas reflexas. Em muitos casos o indivíduo pode ter alterações e prejuízos da consciência, MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 64 como ocorrem em desmaios, anestesias gerais, confusões mentais, etc. Consciência significa o conhecimento do “eu” em relação ao meio circundante. Imobilidade: o cadáver não se move. Com a morte, ocorre a perda do tônus muscular e a abolição dos movimentos corpóreos (imobilidade cadavérica). Obs. há casos relatados por leigos em que o cadáver se mexeu ou que o morto foi encontrado em posição diversa daquele que foi sepultado. Isto realmente pode acontecer, tal fenômeno é chamado de “movimentação passiva” e ocorre por efeito dos gases de putrefação. Relaxamento dos esfíncteres: com a perda do tônus muscular, ocorre o relaxamento dos esfíncteres, com possível eliminação de fezes. Parada Cardíaca: há cessação da circulação sanguínea, com inércia do coração e ausência de circulação do sangue pelo corpo humano. A ausculta do coração e os exames de eletrocardiografia e de ecocardiografia são importantes para o diagnóstico da realidade da morte. Em função da parada cardíaca temos, por óbvio, a ausência de pulso do indivíduo. Parada respiratória: é a apneia, ou seja, a inexistência de atividade respiratória. Com a morte, a função respiratória é interrompida, cessando-se a captação de oxigênio do ar. Com a cessação da respiração/circulação, também ocorre a falta de distribuição de oxigênio para os tecidos. O exame de eletromiografia registra graficamente a atividade respiratória. Insensibilidade: a sensibilidade é um fenômeno vital e termina com a morte. Não há reflexo no cadáver. Facie hipocrática (máscara da morte): é a expressão fisionômica do cadáver. Em decorrência da perda do tônus muscular, o indivíduo morto perde as tensões de expressão da musculatura facial e passa a ter a seguinte aparência: fronte enrugada e árida, olhos fundos, nariz afilado com orla escura, têmporas deprimidas, lábios caídos, queixo enrugado e seco, pele seca e semblante carregado (França, 1998, p. 307). Em decorrência do relaxamento muscular, as pupilas do morto se dilatam, ocorrendo o relaxamento da íris, o que é chamado tecnicamente de midríase. FENÔMENOS CADAVÉRICOS ABIÓTICOS MEDIATOS OU CONSECUTIVOS Os fenômenos abióticos mediatos surgem logo após os imediatos, levando minutos, horas ou até dias para ocorrerem. Os fenômenos abióticos mediatos são também chamados de consecutivos ou tardios, pois vão se instalando progressivamente, de maneira paulatina. Não são instantâneos e nem sempre são visíveis a olho nu, podendo ser verificados no exame perinescroscópico. Esses fenômenos tem grande importância para determinar o tempo estimado da morte. Podem ser mencionados os seguintes fenômenos: MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 65 Resfriamento do corpo (algidez cadavérica): o resfriamento do corpo depende de vários fatores, tais como a temperatura do corpo no momento da morte, a temperatura e a umidade do ambiente, a idade do indivíduo, as vestimentas, etc. Crianças e idosos esfriam mais rapidamente que adultos. Obesos mais lentamente que magros, os vestidos mais lentamente que os com menos roupas ou nus. O esfriamento cadavérico é chamado de “algor mortis” ou algidez cadavérica (algor significa frio). O resfriamento do corpo acontece porque, com a morte, cessam-se as queimas metabólicas e o organismo sem vida não consegue manter a temperatura (o homem vivo é homeotérmico). Com a morte, progressivamente vai ocorrendo a equalização da temperatura do cadáver com à do meio ambiente. Há divergências entre os autores a respeito da velocidade do resfriamento. Desconsiderando fatores excepcionais de meio ambiente, entende-se que o corpo resfria, em regra 0,5°C nas primeiras três horas do óbito e, em seguida, 1°C por hora até encontrar o equilíbrio da temperatura ambiente (20 horas para crianças e idosos e 24 a 26 horas para adultos de compleição média). No entanto, tal critério está sujeito a um conjunto de elementos, entre eles: no frio, o processos é mais rápido, a nudez acelera o resfriamento; certas doenças protelam o esfriamento (doenças infecciosas, intoxicações, insolação, etc.); tamanho do corpo e obesidade protelam o esfriamento; cadáveres na água esfriam mais rapidamente, nível térmico inicial do indivíduo (febre, hipotermia, esforço físico) etc. Rigidez Cadavérica: também chamada de “rigor mortis” (rigor cadavérico). Com a morte, imediatamente ocorre um relaxamento muscular do indivíduo e, com o passar das horas, aos o óbito, vão se instalando as primeiras modificações moleculares teciduais no cadáver, ocorrendo um aumento do teor de ácido lático nos músculos, ocasionando o endurecimento do corpo. Segundo a Lei de Nysten, a rigidez atinge inicialmente a musculatura da mandíbula, para em seguida atingir os músculos do pescoço, do tórax, membros superiores, abdômen e membros inferiores (de cima para baixo). Em regra, a rigidez inicia-se de 3 a 5 horas após o óbito, se instalando completamente ente 8 a 12 horas. A rigidez permanece por um período de 12 a 36 horas no cadáver, retornando ao estado de flacidez. O processo reverso de desaparecimento da rigidezobedece à mesma ordem de instalação, ou seja, os primeiros músculos que se enrijeceram serão os primeiros a se tornarem flácidos. No entanto, tais números são relativos já que em certos casos a rigidez pode começar em trinta minutos após o óbito ou até seis horas depois da morte, dependendo de vários fatores. Há casos em que a rigidez começa após 36 horas do óbito e termina depois de 72 horas (dois ou três dias). O processo de rigidez pode se acelerar em pacientes desidratados, que sofreram convulsões, que tiveram hemorragia, em ambientes mais quentes, etc. MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 66 A rigidez é mais demorada em casos de pacientes com câncer, aids, doenças caquectizantes (por causa da redução da massa muscular), em caso de crianças de tenra idade (pouca musculatura) e nas hipóteses de corpo asfixiado por afogamento (submerso). Espasmo Cadavérico (rigidez cataléptica, rigidez plástica ou rigidez estatuária): a rigidez cadavérica não se confunde com o espasmo cadavérico. Em certos casos associados às mortes rápidas e violentas, a rigidez cadavérica pode se instalar de maneira abrupta, situação em que o cadáver assume a posição em que estava no momento de transição da vida para a morte (o corpo fica estático no momento do óbito). Alguns autores afirmam que o espasmo cadavérico resta de uma lesão natural (espontânea) ou traumática (provocada) do diencéfalo (localizado bem no centro do nosso cérebro). Trata-se de um fenômeno incomum, mas que pode acontecer em casos de aneurisma, lesões encefálicas, lesões destrutivas provocadas por projétil de arma de fogo, etc. O espasmo cadavérico é importante para a perícia porque demonstra a dinâmica assumida pela vítima no “momento da morte”. Hipóstases: são também chamadas manchas de hipóstases ou hipóstases cutâneas ou viscerais. Em razão da morte, o sangue não mais circula no cadáver (o coração para de com a posição do cadáver. Há um acúmulo passivo e progressivo de sangue através da força gravitacional que é encontrado também dentro dos órgãos e cavidades do corpo (rins, fígado, etc). As manchas tem uma coloração vermelha-arroxeada com tendência ao escurecimento. As hipóstases se formam nos locais de maior declive, ou seja, na parte do corpo do cadáver que esteja em contato com a superfície ou nos enforcados nas partes mais baixas. As manchas surgem, em geral, em tono de 2 a 3 horas após a morte e passadas 8 a 12 horas, não se modificam mais, mesmo que o corpo tenha sua posição alterada. SE antes de 08/12 horas após a morte, o cadáver mudar de posição, as hipóstases se deslocarão para as novas regiões deixando pequenas manchas nas suas posições primitivas. Este fenômeno é chamado de “migração das hipóstases”. As hipóteses tem grande importância na determinação da posição do cadáver no momento do óbito. Livores Cadavéricos: em contrapartida, nas áreas opostas às manchas e nas áreas em que o corpo está pressionado por algum objeto ou algum anteparo (chão, cadeira, corda, cinto, vestimenta apertada, etc.) surgirão áreas mais claras ou lívidas, denominadas de livores cadavéricos, cutâneos ou livores paradoxos. Os livores Cadavéricos (que são regiões claras do corpo do cadáver) existem porque os vasos sanguíneos, nesta área, não sofrem a congestão passiva do sangue, o mesmo acontece nas partes da pele que sejam submetidas a compressão, que fecha os vasos sanguíneos impedindo a formação das hipóstases. Nas pessoas de raça negra os livores cadavéricos são dificilmente observados a olho nu, sendo evidenciados com uso de um procedimento especial (colorímetro). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 67 Nas crianças recém nascidas as hipóstases são bastante evidentes, o que faz parecer, para os leigos, que a criança teria sofrido agressões por parte de alguma pessoa. Desidratação cadavérica (evaporação tegumentar): a evaporação da água que integra o organismo vivo, com o passar do tempo, leva a uma perda gradativa de peso, que varia de indivíduo para indivíduo, e é mais aguda nos recém nascidos, que possuem uma taxa de água corporal maior do que os adultos. A perda envolve 8/18 gramas por dia. Com a evaporação da água dos tecidos, a pele do cadáver se desseca, tornando-se apergaminhada e endurecida ao toque, semelhante ao couro dessecado e com coloração amarelada. A desidratação também se manifesta nos olhos, ocorrendo a perda da tensão do globo ocular e o surgimento de uma mancha escurecida na parte branca do olho (mancha esclerótica), com consequente turvação da córnea (perda do brilho), que fica opaca e leitosa (Sinal de Sommer & Lacher). FENÔMENOS CADAVÉRICOS TRANSFORMATIVOS Os fenômenos transformativos também são eventos progressivos e que alteram a aparência normal do cadáver. Isto porque, os tecidos do corpo se decompõem e ocorre uma modificação geral da estrutura do cadáver. É também chamado de processo de transformação “post mortem”. Os fenômenos cadavéricos transformativos podem se dividir da seguinte forma: Destrutivos: Autólise, Putrefação e Maceração; Conservadores: Mumificação e Saponificação. FENÔMENOS CADAVÉRICOS TRANSFORMATIVOS DESTRUTIVOS Autólise: trata-se da primeira fase da decomposição. Autólise é a autodestruição celular e tecidual do corpo em decorrência da falta de nutrição e oxigenação das células. É chamada também de destruição autolítica. O “pH” dos tecidos mortos se torna mais ácido logo após o óbito, promovendo a destruição de células e tecidos através da liberação de enzimas. As membranas celulares vão se rompendo e o s tecidos vão se desintegrando. Este processo se inicia no aparelho intestinal, mucosa gástrica e pâncreas, se espalhando para todo o corpo. A acidificação dos tecidos e células é um sinal evidente de morte e pode ser comprovada através de várias provas laboratoriais com o uso de substâncias químicas que medem essa acidez (Ex. Sinal de Labord). Putrefação: consiste na progressão da autólise, iniciando-se a decomposição do cadáver. A putrefação ocorre por causa da ação das bactérias e de suas toxinas que, após a morte, proliferam-se nos tecidos. Tais bactérias são aquelas que já possuímos em nosso corpo durante a vida e que são controladas pelo nosso organismo vivo (Ex. flora intestinal). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 68 O processo de putrefação é mais rápido no calor e mais lento no frio ou em lugares úmidos (no congelamento, impede). A putrefação ao ar livre é mais rápida que na água ou debaixo do solo (uma semana ao ar livre é igual a duas na água e a oito na terra). A putrefação se inicia, geralmente, no intestino grosso, dando origem à chamada “mancha verde abdominal” espalhando-se, posteriormente, para todo o organismo. A chamada “marca da putrefação” possui, segundo Denton Croce, as seguintes etapas: 1) fase da coloração; 2) fase gasosa; 3) fase coliquativa; 4) fase da esqueletização. 1) Fase da Coloração (fase cromática): surge com a mancha abdominal que é uma evidência da decomposição dos tecidos, pois ela surge onde justamente há uma maior abundância das bactérias, ou seja, nas alças intestinais. A mancha aparece entre 20 e 24 horas após a morte (no inverso, entre 36/48 horas) e pode durar até 7 até 12 dias. Este prazo depende de condições do clima, umidade, tipo de solo, temperatura do corpo, etc. A “macha abdominal” tem coloração verde-escura e aparece, geralmente, na fossa ilíaca direita (quadrante inferior direito do abdômen), espalhando-se por todo o corpo e adquirindo tonalidade mais escura. 2) Fase Gasosa (etapa enfisematosa): começa em 24 horas, momento em que são formados os “gasesda putrefação” no interior do corpo e pode durar até 30 dias. Com a morte, as enzimas bacterianas passam a decompor os tecidos, produzindo grande quantidade de gases (ex: metano, gás carbônico, gás sulfídrico, amônia, hidrogênio fosforado, etc.). Tais gases também geram o odor característico da putrefação, principalmente o gás sulfídrico. A força dos gases faz com que o sangue e as secreções sejam forçadas a sair pela boca e narina. Há uma grande quantidade de bolhas com conteúdo serosanguinolento espalhadas pela pele (flictenas putrefativas). O sangue é forçado para a periferia do corpo, dando origem ao desenho dos vasos na superfície da pele. Tais desenhos vasculares são chamados de “circulação póstuma” ou “circulação póstuma de Brouardel”. Os gases internos (também chamados de enfisemas) se espalham pelas vísceras ocas e pelo abdômen, fazendo com que o cadáver tenha uma aparência de agigantamento, onde os olhos e a língua sofrem protusão (os globos oculares saltam para fora e a língua aumenta e se projeta para fora das arcadas dentárias) e a genitália (nos homens) aumenta de tamanho, principalmente a bolsa escrotal. Nas mulheres grávidas, a compressão dos gases no útero é capaz de fazer expelir o feto, o que é chamado de “parto póstumo” ou parto de putrefação (parto “post mortem”). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 69 O corpo geralmente assume uma “Posição de Lutador”, pois os gases fazem com que o cadáver adote um aspecto de “boxeador”. 20/05/2016 3) Fase Coliquativa (Etapa da redução tecidual): é a fase da dissolução do cadáver pela ação das bactérias e da fauna cadavérica (dissolução pútrida). Há uma destruição e desintegração dos tecidos orgânicos, que amolecem e se “desmancham”. Praticamente teremos a liquefação do corpo cadavérico. A pele se rompe, os orifícios naturais se abrem, as partes moles começam a se desmanchar. Nesta etapa os gases desaparecem, o odor continua fétido e o corpo vai perdendo gradativamente sua forma. Nesta fase opera-se a ação dos insetos necrófagos que participam ativamente deste processo (moscas, mosquitos, besouros etc.). A ação de larvas surgidas dos ovos depositados pelos insetos destrói rapidamente os tecidos moles (“trabalhadores da morte”). O tempo desta etapa depende muito da resistência do corpo e do local onde foi inumado. Os cabelos, os dentes e os ossos resistem mais ao tempo. Começa em aproximadamente em um mês e pode durar meses ou até três anos, terminando pela esqueletização. 4) Fase de Esqueletização: é a fase final da putrefação. Inicia-se, aproximadamente, em quatro semanas, quando os ossos do cadáver começam a ficar expostos em decorrência da destruição das partes moles. O esqueleto humano será descoberto. O meio ambiente e a ação da fauna cadavérica contribuem para a esqueletização, pois os tecidos e os ligamentos articulares são destruídos por esses fatores, expondo os ossos e deixando-os completamente livres. Nos cadáveres expostos ao ar livre esta fase é mais rápida, em duas semanas já se inicia por causa de questões climáticas e do ataque da fauna cadavérica ao ar livre (oito legiões de insetos). Nos cadáveres inumados (sepultados) a fauna é menos exuberante que ao ar livre (fauna dos túmulos: escaravelhos, mariposas, etc.) e o processo será mais lento. A esqueletização completa do cadáver inumado poderá demorar até 36 meses (Delton Croce). Os ossos resistem anos a fio, mas, com o tempo, perdem sua estrutura, tornando-se mais leves e quebradiços, ficando frágeis e sendo reduzidos a pó. (“mor omnia solvit”: a morte dissolve tudo). Maceração: é um processo especial de transformação que ocorre quando o cadáver fica imerso em meio líquido. Isso se dá com os afogados e com os fetos retidos no útero (grávida que falece). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 70 No cadáver do afogado, a água penetra nos tecidos do organismo morto e as bactérias aceleram a putrefação. Os tecidos se soltam com mais facilidade e a pele fica extremamente enrugada. Nesta hipótese a maceração é chamada de “maceração séptica”, uma vez que o meio líquido é contaminado. Nesta etapa é possível a ação da “Fauna aquática”, pois os cadáveres imersos em água doce ou salgada podem apresentar inúmeras lesões produzidas por peixes, crustáceos, mamíferos, etc. No caso dos fetos retidos na cavidade uterina, a maceração é asséptica, pois o meio não é contaminado e a maceração pode ser considerada um fenômeno conservador. FENÔMENOS CADAVÉRICOS CONSERVADORES São aqueles fenômenos cadavéricos que preservam, de certa forma, o cadáver. Diferentemente dos destrutivos que alteram demasiadamente a aparência do corpo, os fenômenos cadavéricos conservadores, impedem o avanço da putrefação, porque a ação bacteriana é bloqueada, permanecendo estacionada na etapa da autólise. Os fenômenos conservadores dependem de ocorrências biológicas ou físico-químicas, sejam artificiais ou naturais, provocadas ou espontâneas, onde os tecidos orgânicos do cadáver ficam preservados. São eles: Mumuficação: trata-se de um processo rápido de dessecação do cadáver, ou seja, de uma aceleração da desidratação do corpo sem vida. Ocorrendo isto, as bactérias responsáveis pela putrefação serão mortas e a matéria orgânica do corpo sofrerá uma preservação, assumindo um aspecto enegrecido e endurecido, que fica com uma consistência de couro e com vagos traços fisionômicos, apresentando rugas e diminuição do volume corporal por causa da rápida desidratação (o peso corporal diminui até 70%). Unhas, dentes e cabelos ficam preservados. A mumificação pode ser natural ou artificial. A mumificação natural é também chamada de espontânea e ocorre nos seguintes casos: ambiente seco (abaixo de 6% de umidade); alta temperatura (acima de 40°C) e ventilação abundante (ex: cadáver no deserto, certos tipos de cavernas, etc.). Fatores individuais também contribuem: idade avançada; caqueixa; hemorragia aguda; desidratações severas, dentre outros fatores. A mumificação natural depende muito da intensidade dos fatores climáticos apontados e pode acontecer em aproximadamente três meses depois do óbito. A mumificação artificial é também conhecida por mumificação provocada ou embalsamento (tanatopraxia), e ocorre através do uso de substâncias químicas utilizadas no cadáver para inibir a proliferação bacteriana. Ex: arsênico, estricnina, antibióticos potentes, etc. As múmias dos faraós egípcios tinham todos os órgãos internos retirados e o corpo era submerso em água e sal por senta dias, sofrendo severa desidratação. Após, os cadáveres eram preenchidos por ervas aromáticas e depois cobertos por ataduras. Alguns autores apontam a possibilidade de mumificação mista, envolvendo os dois fatores (meio ambiente e processo artificial). MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 71 Saponificação: ocorre em solos extremamente úmidos (fossa, pântanos, terrenos argilosos ou alagados) ricos em sais calcários, onde, condições do corpo e enzimas microbianas podem transformar a gordura do corpo em cera. É um fenômeno raro. Nesses lugares a ausência de ventilação ou sua escassez pode gerar um processo em que os tecidos são convertidos em adipocera (substância amarelo-clara, semelhante a cera ou queijo, com um odor rançoso e desagradável). O processo químico consiste na hidratação e desidrogenização das gorduras do corpo, transformando-o em uma massa mole e engordurada. O processo ocorre devido a fatores que são intrínsecos ao cadáver e principalmente ao meio onde este permanece. Como condições individuais temos: a idade (facilidade nas crianças); obesidade; causamortis (intoxicações pelo álcool e pelo fósforo facilitam). E como condições ambientais temos: local úmido ou meio semilíquido com água que se escoa e se renova e solo argiloso que retém a água, ricos em sais de cálcio, transformando o terreno ao redor da cova, numa espécie de tanque de conservação. A adipocera transforma quimicamente todos os tecidos do cadáver. A pele é pouco alterada. As gorduras se transformam em sabões calcários, por ação dos sais de água, adquirindo o cadáver uma maior resistência à decomposição. A saponificação permite uma melhor identificação do cadáver, inclusive as impressões digitais costumam ser preservadas, assim como os principais traços fisionômicos. Essa transformação pode ocorrer em todo o corpo ou apenas em partes do cadáver (é comum ocorrer na face, membros, regiões glúteas, mamas e abdômen). Como é formada à partir das gorduras do corpo, é mais frequente nos indivíduos obesos. Não é um processos inicial. Para que a saponificação aconteça é necessário o início da putrefação do cadáver, pois as enzimas bacterianas vão hidrolisar as gorduras para que os ácidos sejam liberados. Pode se iniciar na primeira semana de morte, mas só é percebida externamente em três meses. Calcificação (petrificação): é a petrificação do corpo humano, um fenômeno transformador incomum que atinge fetos retidos na cavidade abdominal que podem sofrer uma incrustação de sais de cálcio, adquirindo uma aparência de pedra (são chamados de litopédios, que significa “criança de pedra”). Tal fenômeno pode acontecer nos embriões ou fetos mortos resultantes de gravidez tubária (fora do útero) e assim, em vez de entrar em maceração, sofrerá infiltração de sais de cálcio, originando um litopédio. Congelamento: a temperatura muito baixa possibilita a conservação quase indefinida do cadáver, já que o frio é um agente físico capaz de interromper a putrefação. Pode ser natural e artificial. Em 1991 foi descoberto um cadáver do período neolítico, chamado de “Homem do Gelo”. Seu corpo foi encontrado nos alpes situados na fronteira entre a Áustria e Itália a 3.210 MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 72 metros de altitude. O corpo foi amplamente estudado, chegando-se à conclusão de que o mesmo tinha mais de 5.000 anos de idade. Atualmente é muito utilizada a “criogenia” (congelamento em nitrogênio líquido a menos 196°C) para preservação de material biológico (embriões, óvulos, espermatozoides, etc). Também é possível o congelamento total do corpo (transplantes, pesquisas, etc). Alpinistas e esquiadores podem ser vítimas de congelamento natural em casos de avalanches, quedas em fendas, ou por inanição na neve. Seus corpos são encontrados depois de vários anos ou, quando houver degelo, na hipótese em que os cadáveres vem à tona. Corificação: é um fenômeno conservador muito raro, sendo encontrado em cadáveres sepultado em urnas metálicas (principalmente de zinco galvanizado) hermeticamente fechados. Há um ressecamento do corpo com consequente diminuição do volume. A putrefação chega a iniciar-se, no entanto é bloqueada pelas condições desfavoráveis do ambiente. A pele do cadáver adquire uma cor cinza-amarelada ou marrom (parecendo um couro curtido), mais macia e maleável que a pele mumificada. Os órgãos e a musculatura permanecem parcialmente conservadas e amolecidas (França, 2012). Segundo pesquisas, partículas de Zinco e de Arsênio da uma penetram nos tecidos do cadáver, intoxicando o corpo e impedindo a proliferação das bactérias. Este processo pode levar de um a dois anos. CALENDÁRIO TANATOLÓGICO (DELTON CROCE) A cronotanatagnose procura determinar o tempo da morte a partir das mudanças físico-químicas do cadáver. Trata-se de uma espécie de “relógio post mortem”. Por causa da significativa variação na velocidade dos fenômenos cadavéricos, o tempo de morte não pode ser apontado de uma forma exata, mas sim, estimada. A velocidade da decomposição e de esqueletização de um corpo depende de condições climáticas (temperatura, umidade, etc.), de características do próprio cadáver e da atividade da fauna cadavérica. Assim, o tempo dos fenômenos cadavéricos será “estimado” e não “preciso”. As assinalações de tempo compreendem uma avaliação aproximada, com pouca variação temporal. Vejamos: a) Corpo quente, flácido e sem livores – menos de 2 horas b) Rigidez a. Da face, nuca e mandíbula – 1 a 2 horas b. Dos músculos tóraco-abdominais – 2 a 4 horas c. Dos membros superiores – 4 a 6 horas d. Generalizada – mais de 8 e menos de 36 horas c) Manchas de hipóstase a. Início – 2 a 3 horas MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 73 b. Fixação macroscópica – 8 a 12 horas d) Manchas verde abdominal – entre 18 e 24 horas e) Extensão da verde abdominal – 3 a 5 dias f) Flacidez a. Inicio – cerca de 36 horas b. Generalizada – mais de 48 horas g) Mancha verde abdominal e flacidez generalizada – mais de 48 horas h) Gases de putrefação – entre 9 e 12 horas i) Fauna cadavérica a. 1° Legião – 8 a 15 dias; b. 2° Legião – 15 a 20 dias; c. 3° Legião – 3 a 6 meses; d. 4° Legião – 10 meses; e. 5° Legião – 10 meses; f. 6° Legião – 10 a 12 meses; g. 7° Legião – 12 a 24 meses; h. 8° Legião – Mais de 36 meses. j) Esqueletização – mais de 36 meses. FAUNA CADAVÉRICA A fauna cadavérica é o conjunto de animais de diferentes espécies, os quais se nutrem dos restos cadavéricos em decomposição, auxiliando na destruição da matéria orgânica apodrecida. São chamados de “trabalhadores da morte”. Há uma sequencia cronológica destes animais ao local onde o corpo se encontra e podem ser utilizados para a determinação do tempo da morte, principalmente nos corpos deixados ao ar livre. A fauna cadavérica é composta de todos os organismos vivos que concorrem para a destruição do cadáver. Para alguns autores, abrangem somente as larvas dos insetos, que possuem maior importância pericial. No entanto, a grande maioria indica a existência de várias tipos de fauna. Vejamos: Fauna terrestre: composta por cães, lobos, felinos, raposas, ratos, gambás, besouros não voadores, formigas, ácaros, etc. Fauna aquática: composta por piranhas, piraras, outros peixes, jacarés, tubarões, caranguejos, tartarugas e outros animais mamíferos (lontras, botos, golfinhos, etc.). Fauna aérea: composta por aves (urubus, gaviões, corujas e outras aves) e insetos voadores (moscas, besouros, gafanhotos, mariposas, baratas, etc.). Com asseverado, os insetos são os mais relevantes pois atuam através de uma “ação cronológica”, conforme o empo que gastam para chegar ao loca onde se encontra o corpo e a parte do cadáver que referidos insetos consomem. Tal fenômeno também é chamado de “sucessão entomológica” MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 74 As moscas são atraídas pelo cheiro dos gases da putrefação e procuram os cadáveres para depositar seus ovos nas narinas, boca, olhos, ouvidos, orifícios provocados por traumas. As larvas são muito numerosas e se proliferam rapidamente, causando uma destruição rápida das partes moles e das vísceras do cadáver. As moscas também se alimentam de sangue e de secreções do cadáver; existem besouros que devoram cartilagens e tecidos, que só atuarão depois de devoradas as partes moles. Cada legião de insetos aguarda que seus antecessores ajam, de maneira que deixem expostas partes, tecidos ou materiais que serão por eles devorados. Desta forma, o ciclo vital dos insetos necrófilos permite identificar uma cronologia dos fenômenos cadavéricos. Flamínio Fávero Identifica três faunas distintas: fauna ao ar livre, fauna dos túmulose fauna aquática. Fauna ao ar livre: é a mais rica de insetos, possui oito legiões consecutivas. Fauna dos túmulos: menos exuberante, com algumas espécies de insetos encontradas no corpo. Fauna aquática: [...] DESTINO DO CADÁVER O cadáver é o corpo morto com aparência humana, incluindo-se nesta acepção o feto expulso através do aborto após 180 dias (antes disso é chamado de natimorto). Restos mortais em estado de putrefação (despojos humanos), membros amputados, cinzas e esqueleto não se incluem neste conceito. Confirmada a morte, após o registro do óbito no cartório, o cadáver segue os seguintes destinos: inumação simples, inumação com necropsia; cremação; embalsamento; doação para fins científicos. Inumação simples: é o sepultamento em caixões próprios (existem regras especificas sobre inumação: Municipais, Estaduais, Federais). Ex: tamanho do caixão, profundidade da inumação (1,75 m) prazo para sepultamento: nunca antes de 24 horas, nem após 36 horas da morte. Obs: existem exceções – ex: epidemias, catástrofes, tec.). Inumação com necropsia: a necropsia é obrigatória em casos de morte violenta (ex: homicídios, suicídios, acidentes automobilísticos, etc.) ou de morte suspeita. Na morte natural se surgir alguma dúvida ou interesse científico no diagnóstico da morte a necropsia será realizada. O perito que verificará a situação em concreto e com a autorização ou determinação da autoridade policial (também com consentimento da família) realizará a perícia no prazo legal (Art. 162 do CPP). Cremação: é a incineração do cadáver, reduzindo-o a cinzas, que serão colocadas em uma urna, que poderá ser guardada, enterrada ou lançada em determinados lugares. Nos casos de morte violenta ou suspeita, o juiz é que vai autorizar a cremação, podendo ser MEDICINA LEGAL Kleber Luciano Ancioto Página 75 indeferida por interesse provatório. (Portarias da ANVISA e Legislação Funerária Municipal regulamentam a cremação). Embalsamento: consiste na introdução nos vasos sanguíneos do cadáver de líquidos desinfetantes conservadores que irão impedir o processo de putrefação. Está indicada nos casos em que o sepultamento será realizado em prazo superior a 4 dias (transporte para outra cidade, estado, país, etc). Doação para fins científicos: o cadáver pode ser doado para fins de científicos e de estudo pela família ou pela própria pessoa em vida (A USP mantém um programa de doação de corpo para estudo). Dispõe o art. 14 do Código Civil: “é válida, com objetivo científico ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte para depois da morte”. A Lei n° 8.501/92 dispõe sobre a utilização de cadáver não reclamado par afins de estudo ou pesquisas científicas. Obs. A Lei 9.434/97 regulamenta a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento médico. Exumação: do latim (ex, para fora + húmus, solo, terra) é o ato de retirar da sepultura o cadáver humano ou seus restos mortais, a fim de ser submetido à perícia médico-legal (Art. 163 e seguintes do CPP).