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Ventura, M. Direitos H e Saúde

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período apresentava, 
mesmo em suas maiores e principais cidades (Rio, São Paulo, 
Recife, Salvador, etc), uma estrutura urbana antiga, herdada 
do período colonial o que dificultava o estabelecimento de 
uma dinâmica capitalista na economia do país, o que já vi-
nha acontecendo a partir da Revolução Industrial nos países 
ocidentais industrializados da Europa e nos Estados Unidos 
(Silva, 2006). 
Nesse contexto, principalmente no Rio de Janeiro, a 
questão da habitação e da pobreza passa a se configurar como 
problemática central no debate sobre a modernização da cida-
de: a existência de cortiços que abrigavam milhares de pessoas 
com condições extremamente precárias de existência saltava aos 
olhos da população e se revelava antagônica com a imagem de 
cidade limpa, organizada e higienizada que se pretendia construir. 
Nesse ambiente proliferavam muitas doenças, como tuberculose, 
sarampo, tifo, hanseníase. Alastravam-se grandes epidemias de 
febre amarela, varíola e peste bubônica. (Valladares, 2005). Além 
do medo do contágio das doenças da pobreza, os sanitaristas argu-
mentavam como as habitações coletivas eram focos de irradiação de 
vícios de todos os tipos, tanto os biológicos, quanto os morais. Assim, 
predomina a noção de “pobres perigosos”, visão preponderante no 
panorama mundial do século XIX (Bresciani, 1982).
Aliavam-se a isso necessidades econômicas, pois o país vivia o 
desenvolvimento do modelo agroexportador como um dos pilares da eco-
nomia onde o saneamento dos portos e espaços públicos tornava-se uma 
prioridade para a consolidação deste modelo. (Smeke & Oliveira, 2001).
Neste contexto, seriam necessárias não só intervenções no sentido 
de limpar a cidade e imunizar a população das doenças, mas também 
um tratamento moral onde a educação seria uma forma de garantir a 
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adoção de hábitos mais condizentes com os de uma 
cidade limpa e moderna. Ciente desta necessidade o 
então presidente Rodrigues Alves designa Oswaldo 
Cruz, biólogo e sanitarista, para ser chefe do Depar-
tamento Nacional de Saúde Pública, que juntamente 
com o prefeito Pereira Passos, seriam os responsáveis 
pela reforma da cidade: se Pereira Passos foi o símbolo 
da transformação urbana, Osvaldo Cruz pode ser con-
siderado o principal responsável pela reforma sanitária 
desencadeada na cidade (Smeke & Oliveira, 2001. p.118).
No entanto, estas intervenções coercitivas e au-
toritárias atuando sobre os corpos e sobre a moral dos 
cidadãos, geravam um alto grau de descontentamento na 
população que incentivada pela participação de imigrantes 
europeus portadores de ideologias libertárias e anarquistas 
compunham uma cultura avessamente sensível às práticas de 
dominação e exploração, fortalecendo movimentos de resis-
tência como a Revolta da Vacina (Smeke & Oliveira, 2001). É 
importante salientar como a oligarquia paulista apoiada pelos 
cadetes da Praia Vermelha buscaram canalizar o movimento 
para a derrocada do governo republicano (Sevcenko, 1993; 
Chalhoub, 1996; Maihy e Bertolli Filho, 1995).
A Revolta da Vacina tornou-se emblemática da intervenção 
autoritária do Estado na saúde e intimidade dos cidadãos. A me-
táfora do corpo orgânico para falar da sociedade circula entre os 
médicos sanitaristas de forma que a medicalização da sociedade 
serviria para criação de condições ambientais que favorecessem a 
formação de corpos e mentes sadias condizentes com uma nação 
próspera e civilizada (Rago, 1985).
Conforme apontam Valla & Stotz (1994) as reformas urbanas 
e sanitárias empreendidas na cidade do Rio de Janeiro no início do 
século XX emergiram da necessidade capitalista de disciplinar corpos 
e espaços, garantindo a acumulação, tanto de condições favoráveis 
para a produção e circulação de mercadorias, quanto para a formação 
de uma forma de trabalho disciplinada, controlada e sadia. 
Nas décadas seguintes, principalmente a partir dos anos 50, a 
ação estatal na saúde se volta para a construção de um sistema pre-
videnciário para as categorias profissionais mais organizadas e com 
maior peso econômico e político através das Caixas de Aposentadoria 
(Faveret Filho e Oliveira, 1990). Dois movimentos estão presentes neste 
momento: as ações em saúde de caráter coletivo são esvaziadas em favor 
da expansão da assistência médica individual e a desresponsabilização 
do Estado e das políticas públicas no que se refere a intervenções nos 
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determinantes sociais da saúde da população, como 
a educação, o saneamento, a moradia, etc. As ações 
educativas em saúde ficam restritas a programas e 
serviços destinados a populações à margem do jogo 
político central, continuando a priorizar o combate das 
doenças infecciosas e parasitárias (Vasconcelos, 2001). 
Também nesse período se fortalece no país a mi-
tificação da ciência como discurso dominante sobre os 
fenômenos da saúde/doença em detrimento da visão 
religiosa e dos saberes populares que passam a assumir 
lugares cada vez mais marginais. A ideia de que as con-
dições de vida e principalmente de higiene tem grande 
influência nas condições de saúde da população, culminam 
com a responsabilização dos indivíduos da sua condição de 
miséria e consequentemente de insalubridade. 
Assim, a partir da década de 1960, fortaleceu-se a 
ideia da educação em saúde como forma de extinguir com-
portamentos de risco e adoção de hábitos saudáveis (práticas 
higiênicas, aceitar vacinação, fazer exames, etc). 
Paradoxalmente à ditadura militar em meados da década 
de 60, há espaço para a emergência de uma série de experiên-
cias inovadoras no campo da educação em saúde. O incremento 
das desigualdades sociais, do esvaziamento de partidos e sin-
dicatos e da omissão do Estado na garantia de direitos básicos 
levou ao fortalecimento de movimentos sociais e comunitários 
que engendraram novas formas de resistências que se refletiram 
igualmente campo da saúde. (Smeke & Oliveira, 2001). 
Assim uma série de iniciativas e movimentos que impulsiona-
ram a participação da população como associações de moradores, 
o movimento operário, as experiências das Comunidades Eclesiais 
de Base (CEB’s), etc;
Nessa época, a política de saúde se voltava para a expansão 
dos serviços médicos privados, especialmente hospitais e policlínicas 
conveniadas, nos quais as ações educativas não tinham espaço signi-
ficativo. O esforço médico, em geral, corre paralelo, dessincronizado e 
até mesmo em oposição ao esforço popular de combate aos problemas 
de saúde, investindo em tecnologias, maquinários e medicamentos que 
atuam apenas no campo biológico deixando o contexto sócio-cultural 
em segundo plano, quando não, desconsiderando-o por completo. Mui-
tos profissionais, intelectuais e acadêmicos, insatisfeitos com as práticas 
mercantilizadas e rotinizadas dos serviços de saúde se aproximaram da 
dinâmica de luta e resistência das classes populares e engajam-se no pro-
cesso de formação de uma nova organização política da saúde: no vazio 
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do descaso do Estado com os problemas populares, 
vão configurando-se iniciativas de busca de soluções 
técnicas construídas com base no diálogo entre o sa-
ber popular e o saber acadêmico (Vasconcelos, 2001).
A pobreza é então reconhecida como questão 
social e o novo porta-voz da pobreza passa a ser o 
cientista social, dentre eles os educadores. É nessa épo-
ca que as primeiras experiências de Educação Popular 
proposta por Paulo Freire ganham espaço no campo da 
saúde. A principal proposta da mesma é a valorização 
dos múltiplos