A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
186 pág.
Ventura, M. Direitos H e Saúde

Pré-visualização | Página 38 de 50

saberes existentes para além das fronteiras 
e delimitações do saber formal ou acadêmico. Para Freire 
(1996) há necessidade do reconhecimento e valorização 
das potencialidades das diversas populações e não só dos 
seus aspectos negativos. Freire acreditava na educação 
como instrumento transformador da sociedade defendendo 
a docência como instrumento de liberdade respeitando o co-
nhecimento trazido pelos educandos e ao senso comum, em 
resposta ao autoritarismo muitas vezes presente nas práticas 
pedagógicas tradicionais.
Nos anos 70 com o regime militar, a questão da pobreza 
passa a ser considerada antagônica ao projeto de Brasil como 
o país do futuro e com a imagem de desenvolvimento acelerado 
que se procurava construir, sendo o debate da pobreza colocado 
à margem e o seu maior símbolo, as favelas, voltaram a ser alvos 
de políticas de controle e remoções (Valla, 1986). Os movimentos 
sociais ligados a saúde se fortalecem e passam a fomentar expe-
riências de ações e serviços comunitários em saúde desvinculadas 
do Estado e integradas a dinâmica social das localidades onde se 
desenvolveram (Stotz, 2005).
Nos anos 80 com a abertura política do país, movimentos po-
pulares, que já tinham avançado na discussão das questões de saúde, 
passam a reivindicar serviços públicos locais e a exigir participação 
no controle de serviços e unidades já existentes.
Dos anos 90 até os dias atuais verifica-se uma aproximação de 
variados atores e instituições como universidades e ONG’s, tanto da 
questão da pobreza, quanto das favelas como campo de pesquisa e 
intervenção. As experiências de educação popular tem se desenvolvido 
em sua grande maioria em nível local, muitas vezes atreladas a projetos 
e instituições do terceiro setor como organizações não-governamentais 
(ONG’s), organizações sociais (OS’s), organizações da sociedade civil de 
interesse público (OSCIP’s), etc. muitas vezes baseadas no discurso de 
ineficiência ou mesmo da falência do Estado, quando não da necessidade 
da filantropia.
João Vinicius dos Santos Dias e Jaqueline Ferreira A construção das intervenções educativas em saúde junto à pobreza
128
Nesta perspectiva algumas críticas são feitas. 
Valla (1999), por exemplo, aponta a necessidade 
imprescindível de um exercício crítico aponta sobre a 
ambiguidade na avaliação das propostas de educação 
popular. Segundo o autor, se por um lado as mesmas 
podem ser vistas como formas de organização e politi-
zação da população incitando a mobilizações frente à 
ineficácia de políticas públicas e inoperância do Estado, 
de outro podem ser consideradas como formas de subs-
tituir o Estado desresponsabilizando-o de suas atribuições 
e pactuando com a redução de gastos e investimentos nas 
políticas públicas sociais.
Numa conjuntura histórica, política e econômica onde 
a lógica do direito passa cada vez mais a ser substituída pela 
lógica da assistência social e pela regulação do mercado. 
Há de se atentar para o risco de que a expansão da esfera 
privada no campo da responsabilidade do Estado altere o 
tratamento político das necessidades sociais. 
A visão de carência tanto física como moral da população 
pobre, ainda hoje sobrevive e se manifesta na grande maioria 
dos programas compensatórios desenvolvidos em favelas. No 
entanto, como aponta Vasconcelos (2001b) ainda são poucos os 
estudos a respeito de como as classes populares estão enten-
dendo, elaborando e se apropriando das mensagens e saberes 
transmitidos nas ações oficiais de saúde (Vasconcelos, 2001b)
Devemos pensar a educação como processo contínuo, per-
manente nas trajetórias de vida dos sujeitos, indo além da peda-
gogia clássica, mas estando presente nas pequenas dimensões do 
cotidiano, no processo de apreensão e ressignificação do mundo, 
portanto, processo ativo de construção e desconstrução onde o su-
jeito a todo tempo imprime seu olhar à realidade transformando-a 
de acordo com sua história.
Nota: As opiniões expressas neste artigo são da inteira respon-
sabilidade do(a) autor(a).
Referências Bibliográficas
BRASIL. Caderno de educação popular e saúde. Ministério da Saúde, 
Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio 
à Gestão Participativa. - Brasília: Ministério da Saúde, 2007.
BRESCIANI, M. E. Londres e Paris no século XIX. O espetáculo da pobreza, 
São Paulo, Brasiliense, 1982.
João Vinicius dos Santos Dias e Jaqueline Ferreira A construção das intervenções educativas em saúde junto à pobreza
129
CHALHOUB, S. Cidade Febril. Cortiços e Epidemias na 
Corte Imperial. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 
1996.
FAVERET FILHO, P; OLIVEIRA, P.J., 1990, “A Universa-
lização Excludente: Reflexões sobre as Tendências do 
Sistema de Saúde”, Dados - Revista de Ciências Sociais, 
33, 2:257-283.
FREIRE, P. Política e Educação. Indaiatuba – SP: Villa das 
Letras, 2007.
_______ Pedagogia da autonomia: saberes necessários à 
prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
_______ Conscientização. Teoria e Prática da liberdade. Uma 
Introdução ao. Pensamento de Paulo Freire. 3ªed. S.P, Editora 
Moraes,. ______. (1980).
MEIHY, J.C.; BERTOLLI FILHO, C. Revolta da Vacina. São Paulo, 
Ática, 1995.
SEVCENKO, N. A Revolta da Vacina. São Paulo, Ed. Scipione, 1993.
SILVA, C. R. R.. Maré: a invenção de um bairro. Dissertação (Me-
strado profissionalizante em Bens Culturais e Projetos Sociais) 
– Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.
RAGO, M. Do Cabaré ao Lar. A Utopia da Cidade Disciplinar. Rio 
de Janeiro, 1985.
SILVA, C. R. R.; Maré: a invenção de um bairro. Dissertação (Me-
strado profissionalizante em Bens Culturais e Projetos Sociais) – 
Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.
SMEKE, E de L. M. e OLIVEIRA, N. L. S. Educação em saúde e con-
cepções de sujeito. In VASCONCELOS,E.M.(org). A Saúde na Palavras 
e nos Gestos: Reflexões da Rede Educação Popular e Saúde. São Paulo: 
HUCITEC, 2001.
STOTZ, E. “ A educação popular nos movimentos sociais da saúde: 
uma análise das experiências nas décadas de 1970 e 1980”. Trabalho 
Educação e Saúde. vol 3, n.1, p.9-30, 2005.
VALLA, V.V. Educação e Favela. Petrópolis, Vozes, 1986.
------------------ Educação popular, saúde comunitária e apoio social numa 
conjuntura de globalização. Cad. Saúde Pública, n.15, supl.2, p.7-14, 1999.
ArtigoJoão Vinicius dos Santos Dias e Jaqueline Ferreira 
130
VALLA, V.V.; STOTZ, E.N.; ALGEBAILE, E. (Orgs.). Para 
compreender a pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Con-
traponto/Escola de Governo em Saúde-ENSP, 2005. 
VALLADARES, L. D; Cem anos pensando a pobreza (ur-
bana) no Brasil. In: BOSCHI, R. (org.) Corporativismo e 
desigualdade: a construção do espaço público no Brasil. 
Rio de Janeiro, IUPERJ, Rio Fundo, 1991. p.81-112.
VALLADARES, L. D; A invenção da favela: do mito de origem 
a favela.com – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
VARELLA, D; BERTAZZO, I; JAQUES, P, B. Maré, vida na fa-
vela. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.
VASCONCELOS, E. M. Educação popular e a atenção à saúde 
da família. São Paulo: HUCITEC, 2001.
Artigo
131
João Vinicius dos Santos Dias e Jaqueline Ferreira 
COMUNIDADES LOCAIS NA PRO-
MOÇÃO DA SAúDE: REFLEXÕES EM 
TORNO DA IMPLEMENTAÇÃO DE MEDI-
DAS DE DESCENTRALIzAÇÃO NO SEC-
TOR RURAL DE ÁgUAS E SANEAMENTO 
EM MOÇAMBIQUE
Rehana Dauto Capurchande*
* Mestre em Análise e Gestão do Desenvolvimento Eco-
nómico e Social em África pelo Instituto Superior de 
Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Lisboa, Por-
tugal. Socióloga, docente e investigadora na Universidade 
Eduardo Mondlane (UEM), Maputo, Moçambique. E-mail: 
rehana.capurchande@uem.mz
Resumo: O presente artigo tem como objecto de análise 
a participação das comunidades locais na implementação 
das medidas e processos de descentralização do sector de 
abastecimento de águas