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Onde estão as b.girlsl MAGNANI, J.G.C. “Da periferia ao centro: Pedaços e trajetos". Reuista de Antropologia. São Paulo, 2 (2), 1992, p.203-191. _.Festa nopedaço: Cultura popular e lazer na cidade. São Paulo: Hucitec, 1998. _. "Tribos urbanas: Metáfora ou categoria?” In: Cadernos de Campo Reuista dos Alunos dePós-Craduação em Antropologia. São Paulo, 2 (2), 1992b, p.5i-48. MAGNANI, Jose Guilherme C.; TORRES, Lilian de Lucca (org ). NaMetrópole: Textos de antropologia urbana. São Paulo: Edusp, 1996. Capitulo 7 Entre o familiar e o exótico: Compartilhando experiências de campo naBoa Vista, Cabo Verde _. “De perto e de dentro: Notas para uma etnografia urbana". In: ReuistaBrasileira deCiências Sociais. 17 (49), 2002. MALINOWSKI, B. “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. In: Os Pensadores uol. XLII. São Paulo: Abril Cultural, 1976. OLIVEIRA, R. C. “O trabalho do antropólogo: Olhar, ouvir, escrever". In: Reuista de Antropologia. USP, 39(1), 1996. REVISTA RAP BRASIL. “Bambaataa Bombástico: Uma viagem pela história do hip hop e da música negra mundial”. Número 24, 2002, p. 29. Andréa deSouza Lobo TTabalho de campo é trabalho no campo. Trabalho de campo é, antes de tudo, um tipo de “trabalho", é uma experiência criatiua eprodutiua, apesar de suas “recompensas" não serem necessariamente percebidas damesmaforma como o são em outrasformas de trabalho. O antropólogo no campo trabalha; suas “horas de trabalho" são gastas entrevistando, observando e tomandonotas, tomando parte na vida social. ROY WAGNER. The invention of Culture. Introdução uando recebi a chamada de textos para a publicação de um livro que pretende colocar pesquisadoras em * '— diálogo sobre suas experiências em campo, pensei em tratar de discussões pós-modemas sobre o sentido da et¬ nografia, a autoridade do antropólogo emcampo, a discussão sobre a tal busca pelo ponto de vista nativo e sua tradução em textos que são sempre escritos por nós, etc. Ao começar a es¬ crever o texto, porém, nãome senti à vontade coma temática, primeiro porque estava mergulhada num trabalho de campo de duração de um ano e seis meses e discutir o sentido do 206 TTabalho de campo é trabalho no campo. é uma experiência criatiua e produtiua produtiua, Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo “estar em campo” me pareceu contraditório e pouco frutífero. Segundo, porque, para aprofundar tal discussão, precisaria de apoio bibliográfico denso, processo difícil quando contramosdistantes das referências bibliográficasedoconforto das bibliotecas universitárias, às quais podemos momento da escrita deum texto. Alémdisso, entendiqueapropostado livro eradeexplorar as experiências de mulheres antropólogas nas diversas situa¬ çõese “saiasjustas” quevivemosenquantoestamosrealizando o trabalho decampo. Imbuídapor essapropostae limitadapelas condições de estar escrevendo em campo, optei por apresen¬ tar aqui a minha experiência emCabo Verde e as dificuldades, constrangimentos e emoções que tal tarefa temme proporcio¬ nado. Não tenho a intenção de dar conselhos e muito deapresentarummanualdepesquisa-jásabemosquenâohá “receita de bolo” para se trabalhar em campo. Minha intenção é a de acrescentar à discussão a experiência de uma jovem antropóloga que, imbuída do romantismo dos clássicos buscavam o exótico emum “outro” distante, viu surgir diante de si Cabo Verde comouma opção viável depesquisa, decidiu fazer as malas e partir para além-mar. Antes de entrar mais diretamente nas considerações a respeito do campo, épreciso que contextualize a trajetória que me trouxeatéessepaís. Ainda estava fazendo ocurso demes¬ trado quando, de forma meio acidental, comecei a ouvir falar sobre Cabo Vferde através de uma colega que estava fazendo seu trabalhono arquipélago1equeme levoua conhecer alguns cabo-verdianos que estudavamnauniversidade que frequentᬠvamos.Meu contato direto coma realidade cabo-verdiana teve início na tarde de 13 de dezembro de 1999, quando desembar¬ quei no aeroporto do Sal, emmeio a um grupo de estudantes cabo-verdianos vindos doBrasilparapassar as férias escolares. Naquela ocasião passei três meses fazendo trabalho de cam¬ po na Cidade da Praia, capital do país, uma temporada curta e com alguns problemas estruturais, mas que acabou por gerar uma dissertação demestrado razoável e o estabelecimento de laços de amizade e contatos sólidos que vieram viabilizar uma segunda fase de pesquisa a qual me dediquei no período de fevereiro de 2004 atémaio de 2005. Terminado o mestrado, voltei a Cabo Verde por questões pessoais elávivipor cercadeumano emeio trabalhando como professora de sociologia no liceu da ilha da Boa Vista. Nesse intervalo de tempo tive um filho e me casei comum cabo-ver- diano que havia conhecido e me envolvido afetivamente na altura dapesquisa decampo demestrado-contrariando todos os conselhos dos “manuais" de trabalho de campo e de meu orientador dapesquisa. Apesar deestar “oficialmente” afastada da antropologia,2notei queumavez que temoso olhar treinado pela disciplina, estamos frequentemente atentos diante deste ou daquele traço social que marca determinada realidade. Sendo assim, a convivência não sistematizada, e por que não descui¬ dada, enquanto estrangeira naIlhadaBoaVista, acabouporme reaproximar daantropologiaaoperceber quehavia certasesferas da vida desta sociedade que se constituíam como verdadeiras "pérolas” para a investigação antropológica. Como iremos dis¬ cutir ao longo do texto, tais esferas -a vida familiar, a condição da mulher emigrante e da mulher que fica na ilha, as relações de casamento e de filiação - nâo me chamaram atenção por acaso, mas porqueme faziam refletir sobre a própria condição de mulher, mãe e estrangeira naquela sociedade. Como num jogo de espelhos, dialogar como outrome fez refletir sobremi- um nos en- recorrer no menos que 2 Digo -oficialmente' porquenãoeslavaligadaàUniversidadeenemrealizando qualquer trabalho de pesquisa sistemática. Por aquele período não estava vivendoemCaboVsrdeenquantopesquisadora,masenquanto estrangeira. imigrante, levada por questões pessoais e afetivas. Reflro-me ao trabalho de Juliana Braz Dias. Entre Partidas e Regressos: Tecendo relações familiares emCabo Verde. Dissertação deMestrado apre¬ sentada ao PPGS do Departamento de Antropologia da Universidade deBrasília. Brasilia. 2000. 208 209 nâohá “receita de bolo” para se trabalhar em campo Apesar de estar “oficialmente” afastada da antropologia,2notei queuma vez que temos o olhar treinado pela disciplina, estamos frequentemente atentos diante deste ou daquele traço social que marca determinada realidade. Com o num jogo de espelhos, dialogar com o outro me fez refletir sobre mi- Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico nha experiência pessoal e, emparte, tratarei dessa experiência ao longo do texto que se segue. Não resistindo aos chamados da disciplina, em fins de 2002 trabalhei comafinco e consegui reingressar noPPGAS da Universidade de Brasília e, em 2003. estava de volta ao Brasil iniciando o processo de escolha de tema de pesquisa para mi¬ nha tesededoutoramento. Comoemantropologia aescolhado tema consequentemente determina também a escolha de um lugar, parte daminha questão jáestava respondida, restando-me estruturar as idéias, refletir sobreoproblemadapesquisa, refinar percepções e organizar a experiência que já tinha coma socie¬ dade que pretendia estudar. Foi então que minha experiência enquanto imigrante falou mais alto e não pude deixar de optar pelo estudo da organização familiar daBoa Vista face aos fluxos migratórios que vêm caracterizando a ilha nos últimos anos. Boa Vista é uma das lO ilhas que formamo arquipélago de Cabo Verde, pequeno país insular localizado no meio do oceano Atlântico a 500 kmdo continenteafricano. É a terceira maior ilha em extensão territorial, porém, é a menos habitada, com uma população de cerca de 4.209 habitantes dispersos por oito povoações, sendo que a população feminina totaliza l.872 e a masculina 2.334.3 A principal povoação é a da Vila de Sal-Rei. que acolhe mais da metade da população total da ilha. Boa Vista foi uma das primeiras ilhas a serem descober¬ tas, mas foi habitada tardiamente, sempre foi pouco povoada e hoje se constitui como uma das ilhas periféricas no cenário nacional. Porém, por causa de suas famosas praias e dunas e pelo caráter “pacato” de seu povo, a ilha tem sido alvo de um desenvolvimento turístico intenso nos últimos cinco anos, despertando interesses depolíticos e investidores estrangeiros. Além disso, essa é uma ilha onde predomina a emigração de mulheres, o quegeraumaestrutura familiar diferentedopadrão considerado normal. Foi todo esse cenário que me chamou atenção para a realização de um estudo de sua organização familiar. O interesse era focar especificamente no comporta¬ mento doméstico das famílias boa-vistenses no processo de (re)produção da sociedade, processo que se encontra ligado a todo umuniverso de transformações que se equacionam face aos fluxos de pessoas, bens materiais, valores e simbolismos em jogo na movimentaçãomigratória e turística local. 1 Pensando sobre a Boa Vista: Oprojeto O projeto de pesquisa decompunha tal problemática a partir do conceito de domesticidade e, tomando o espaço do¬ méstico como palco principal para observar a vida cotidiana e os conflitos que surgem no seio do grupo familiar, incorporei a noção de domesticidade num contexto de encontro com a alteridade privilegiando as formas como a idéia de casa é per¬ cebida, vivida e experienciada na relação como “outro". Esse “outro” diz respeito aos estrangeiros quevêm trabalhar naBoa Vista trazidos pelo turismo, as gentes de outras ilhas que mo¬ vimentam o fluxo dasmigrações internas e as emigrantes que partem e retomam fazendo circular idéias e valores que têm se configurado como elos importantes nessa sociedade que privilegia e se reproduz no contato com o exterior. Com isso emmente, elaborei uma estratégia de pesquisa quedesseconta daperspectiva doboa-vistensenarelação com esses outros e as transformações que vinham ocorrendo no espaçodoméstico. Apesar denãoestar interessadanumestudo sobre emigração, naquela altura já percebia que não poderia fugir dela. É difícil falar deCabo Verde sem tocar na importância que a emigração exerce nesta sociedade, fenômeno que é es¬ sencialmente masculino e de importância fundamental no seu processo de reprodução. Boa Vista não foge a esse padrão, a não ser quando nos questionamos quem emigra. Desde os fins dos anos 60, esta é a principal ilha do arquipélago no qual a emigração é essencialmente feminina, o que traz algumas3 Dados obtidos no site do InstitutoNacional de Estatística de Cabo verde. 211210 nha experiência pessoal em antropologia a escolha do tema consequ entem ente determina também a escolha de um lugar, sociedade que privilegia e se reproduz no contato com o exterior. É difícilfalar de Cabo Verdesem tocar na importância que a emigração exerce nesta sociedade, Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo configurações interessantes para a constituição da família boa- vistense, especialmente para os filhos e companheiros dessas mulheres. A situação da Boa Vista demonstra, então, que, mesmosendopredominante, o fenômenomigratóriomasculino não éoúnicopadrão existente emCabo Verde,4e que, embora emmenor escala, a saída dasmulheresprovocamudanças im¬ portantes no comportamento local, mudanças que reforçam a idéia de que os papéis sociais são construídos de acordo com ocontextoeque, tomandoummesmo tema social soboponto de vista de atores em posições diferentes, podemos enxergar outros ângulos de visões da realidade. Além das emigrantes, identifiquei outros grupos que cir¬ culam na sociedade boa-vistense atraídos pela movimentação turística. Em termos da movimentação inter-ilhas, a entrada dos chamados badiuss é a mais importante a ser considerada, tanto pelo número daqueles que entram e fixam residência na ilha, quanto pelo tipo de reações negativas que sua presença ocasiona entre os locais. Numnívelexterno, temosumnúmero pequeno, mas importante, de italianos que se estabelecem na Boa Vista em virtude do turismo, fixando residência e sendo responsáveis pelo aumento da oferta de emprego verificada nos últimos anos. Existem também os chamadosmandjacos, africanos do continentequecirculampelas ilhas do arquipélago vendendo artigos artesanais e “bugigangas” em geral (pilhas, baterias, relógios, enfeitesparacabelos, perfumes, xampus, etc). Por causado turismoe dasconstruçõesdeunidadeshoteleiras, vem crescendo o número desses africanos do continente que passam a residir na ilha. O que buscava, ao trazer todos esses atores para a arena doméstica, era explorar a diversidade de valoresemjogonaelaboraçãodosprojetos individuais e familia¬ res,numa tentativade indicar asmaneiras pelas quais os fluxos migratórios e turísticos conduzem os assuntos familiares. Não posso deixar de salientar que todo esse processo de reflexão sobre o objeto de estudo esteve mediado por minha relação prévia com aquela sociedade. A condição demulher e de imigrante foi fundamental para um entendimento primeiro das práticas sociais das famílias caboverdianas, nas quais as mulheres são o componente fixo e estável, formando redes de relaçõesdeajudamútuanas tarefas e responsabilidadesdomés¬ ticas. Enquantomulher, mãee estando longe deminha família. muitas vezes lancei mão dessas redes buscando auxílio na criação demeu filho e no cumprimento das tarefas domésticas diárias. Porém, logo percebiquenãomanipulava o sentido des¬ sas relações eme via quebrando as normas de reciprocidade, descumprindo padrões de visitação, de trocas de alimentos, etc. Por outro lado, o tipo de relação que buscava estabelecer no casamento causava desconforto entre meus afins e certa inquietude aomeu companheiro. O fato de estar, diariamente, tendo que resolver tais questões, sem dúvida, influenciaria na elaboraçãodemeuproblemadepesquisa enas reflexões sobre o que implica ser mãe emulher na sociedade caboverdiana. 2 Viuendo em compo Comumprojeto bemdefinido nabagagem, retomei àBoa Vista em fevereiro de 2004 trazendo comigo um sentimento diferente dosmeus colegas que também seguiampara o cam¬ po em busca de uma nova realidade para estudar e vivendo a expectativa que o encontro como novo gera em todos nós. Meu sentimento era de reencontro, agora nãomais de vivência diária enquanto imigrante, mas deuma relação comnovos pa¬ râmetros. dentro da sistematicidadequea situação depesquisa exige. Minhas preocupações eram de como estabelecer uma nova relação e comomereposicionar diante depessoas que já me conheciam sob outros padrões de referência. 4 AlémdaBoaVista,masemmenor escala, temseobservadoumcrescimento daemigração femininaem todoopaís, espectalmentena ilhadaBrava. São Nicolau e até mesmo emSantiago (LESOURD, 1995). 5 São chamados assim os cabo-verdianos provenientes da Ilha deSantiago. A expressão temumcaráter pejorativo. 212 213 A situação da B oa Vista demonstra, então, que, mesmo sendo predominante, o fenômeno migratório masculino não éo único padrão existente em Cabo Verde, os papéis sociais são construídos de acordo com o contexto e que, tomando um mesmo tema socialsob o ponto de vista de atores em posições diferentes, podemos enxergar outros ângulos de visões da realidade. Minhas preocupações eram de como estabelecer uma nova relação e como me reposicionar diante depessoas quejá me conheciam sob outros padrões de referência. Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico disso, ainda náo tenho a dimensãodo entendimento dos boa- vistenses sobre o trabalho depesquisa. Foi difícil, por exemplo, estabelecer um lugar, ou melhor, uma função profissional ao longo de todo o trabalho decampo. Eles não entendiamporque eu não estava à procura de trabalho e, por diversas vezes, vi pessoas próximas amimpreocupadas emmeauxiliar na tarefa de “procurar” uma ocupação profissional. Como forma de solucionar essa “angústia" por parte de amigos e parentes afins, acabei por estabelecer uma rotina sistemática de pesquisa que começou comuma estratégia de aproximação e de divulgação demeu trabalho. Para isso, con¬ tratei duas jovens ajudantes quehaviamsidominhas alunas de sociologia no Liceu. A notícia foi divulgada entre os ex-alunos que me propuseram uma espécie de grupo de estudos em minha casa, para que falássemos de temas que a escola não permitia, tais como planejamento familiar, educação sexual, etc. Combinamos encontros semanais nos quais trocaríamos experiências, deixando bem claro que aquilo seria essencial para os dados deminhapesquisa. Concordaram, coma condi¬ ção de que eu resguardasse as identidades dos participantes. Os encontros eram riquíssimos eme forneceramumconjunto de dados sobre a concepção de jovens, filhos e netos sobre os mais diversos temas. Por outro lado, através do contato e da ajuda dessas meninas e alguns rapazes, em pouco tempo amplieiminha rede de relações paramuito além daqueles com quemmeumarido e sua família se relacionavam. Paralelamente a esse processo de aproximação com e através dos jovens, organizei uma aplicação sistemática de questionários aos grupos domésticos. Comodisse, o intuitoera duplo: primeiro demostrar umanovaposiçãonacomunidadee fazer circular anotícia deminhapesquisa e, segundo, de obter umaespéciedemapa queme fornecesseumguia da estrutura familiar, formas de habitação, estratégias de casamento, etc. Os conselhos deMalinowski (1978) foram decisivos na esco¬ lha de tal estratégia nessa fase de aproximação, período em Imbuída dessas preocupações, segui para o trabalho de campo. A chegada foi acolhedora, as pessoas me receberam como se eu fosseumdos seus retomando para casa apósum longo período de distância. Porém, logo percebi queminha au¬ sênciaprolongada havia sido tema de rumores e conflitos entre a família demeumarido eos chamadosfaladores (fofoqueiros), que afirmavam que eu havia abandonado a Boa Vista, fugido como filho, e quemeumarido estava pagando o preço por ter escolhido casar com uma estrangeira. Isso me fez perceber que, apesar da aparência de estar sendobemrecebida e de ter sido semprebemaceita pela comunidade, aminha posição de estrangeira estava muito bem marcada para eles. É claro que. dentreos estrangeiros queviviamna ilha, eu tinhaumaposição privilegiada e adquirida pelo fato de falar bem o Crioulo, de ser brasileira e. principalmente, por criar meu filho sem frescura e recorrendo às redes de solidariedade típicas das relações femi¬ ninas.Porém, era de fora e, decerta forma, uma rivalpara essas mesmas mulheres queme acolheram. Todo esseconflito acabouporme fornecer uma entrada no sentidodeexplicar essaausência prolongadae inserir meuretor¬ no no contexto da pesquisa, ou seja, saí para estudar e, como resultado desse estudo, elaborei umprojeto que foi aprovado, financiadoeo focodemeuestudo era aBoaVista. Agora estava voltando para realizar o aspecto prático de minha pesquisa e precisavadaajudade todosnesseempreendimento.Náoédifícil imaginar que, numacomunidadecomcercade4.000habitantes, anotícia correua ilha comumarapidez impressionanteelogome vlnumasituaçãodeser parabenizadapor alguns que sesentiam orgulhosos deverumestrangeiropromovendo sua ilha.6 Apesar 6 isso no caso de Cabo verde tem todo umsentido especial, pois há uma di¬ visão simbólica e económica entre o que eles classificamde ilhas centrais e periféricas: asprimeirassàoSantiago (onde fica a capitaldopaís). SáoVicente. chamadade ilha cultural, eaIlhadoSal. onde fica o aeroporto internacional do país. As segundas sâo todas as outras (BoaVista, SâoNicoiau, Santo Antáo. Brava, Fogo eMaio), nas quais impera o sentimento de abandono por pane dogoverno e depreconceito por pane dos que vivemnas ilhasprincipais. 215214 fase de aproximação Malinowski Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico cebi que um estudo que tem como questão principal concep¬ ções e ações em tomo do doméstico, deve adotar um tipo de estratégia metodológica que tente capturar a dinâmica do ciclo doméstico que temlugarno tempo.Nessesentido, lanceimãode duasperspectivas analíticas para dar conta da temporalidade de mães, avós, filhos, netos, irmãos e companheiros dentro da es¬ fera doméstica. Aprimeiraperspectiva, equivalenteà experiência distante, tenta recuperar o ciclo de desenvolvimento dos grupos domésticos dentro deumperíodo histórico que engloba três ge¬ rações. Começando por aí, dei atenção aos arranjos familiares e de casamentos, padrões de moradias e costumes tradicionais. Tais dados forneceramuma estrutura das relações das pessoas de uma mesma geração, destas com os filhos e com os filhos dos filhos numespaço temporal previamente estabelecido. Numa segunda perspectiva, explorei as qualidades e prᬠticas diárias focando nos mundos de vida dos atores sociais. Tenho coletado dados a partir das histórias de vida, dos ciclos dedesenvolvimento dasunidadesdomésticas, dashistórias dos agregados familiares, etc. Oqueé importantenessaperspectiva é dar atenção aos contextosnosquais as ações sedesenrolam, focando nos detalhes do comportamento coletivo e individual, enfatizandoocaráter fundamentaldadimensão vivida como ca¬ minhoprivilegiadodeacesso às visões demundo.Desta forma, busco estar atenta para a concretude dos eventos que fazema vida das pessoas naBoa Vista: rumores, brigas, rompimentos, casamentos, partidas e regressos, entre outros. O objetivo era de entrar a fundo nas práticas cotidianas e nas concepções que os nativos têm de higiene, dos cuidados domésticos, das técnicas do corpo, dos cuidadoscomascrian¬ ças, alimentação, divisão do trabalho doméstico, das relações de gênero e ocupação do espaço onde vivem. É interessante notar a relação que meus informantes estabeleceram com o fato de eu estar fazendo pesquisa e de sempre tentar deixar claro que anotava e escrevia sobre eles. Isso parecia não os incomodar e por diversas vezes, amigos me procuravampara que, segundo suas palavras, é sempre bom evitar assuntos delicados e temas complexos. Por intermédio dessas estratégias de aproximação, pude confirmar algumas intuições que tinha sobre a organização familiar: o alto nível de emigração feminina, a mobilidade das crianças entre as casas de familiares, o baixo número de ca¬ samentos e a grande incidência de uniões de fato, a tendência dos filhos de residirem até a idademadura nas casas dos pais. a importância da família, especialmente da avó. no processo de criação das crianças, etc. A aplicação desse inquérito grupos de conversa com meus ex-alunos foram frutíferos no sentido de identificar famílias e pessoas das quais poderia me aproximar para a realização de entrevistas e da observação participante. Como era de se esperar e graças à receptividade dos cabo-verdianos, verifiquei a disposição de todos em me receberem em suas casas e contarem suas histórias. Dedicava-me às visitas no período da tarde: pela manhã só frequentava algumas casasnas quais conseguiuma entrada privilegiada e umgrau de intimidade queme permitisse ajudar nas atividades domésticas e nos cuidados com as crianças. Essa relação mais íntima com cerca de 11 famílias foi construí¬ da de forma diferenciada e emmomentos diversos do trabalho de campo. É claro que construí relações de amizade enquanto vivi em Boa Vista e me utilizei destas para uma aproximação mais sistemática, porém,o processo de pesquisa se mostrou singular e mágico no fortalecimento de laços com mulheres, chefes de família, que me abriram suas casas, suas famílias e suashistórias devida.Entreumafazer eoutro, entre almoços e conversasnos quintais, fui apreendendo omododeser deuma casaboa-vistense, as concepções femininasdeespaçopúblico e doméstico, as relações entre mulheres e o papel secundário do homem enquanto companheiro, pai e provedor, porém es¬ sencial na vida dessasmulheres. Com essas conversas iniciais, abandonei o foco sobre “eventos paradigmáticos” que havia esboçado no projeto. Per- e os 217216 é sempre bom evitar assuntos delicados e temas complexos. cebi que um estudo que tem como questão principalconcep¬ ções e ações em tomo do doméstico, deve adotar um tipo de estratégia metodológica que tente capturar a dinâmica do ciclo domésticoque tem lugarno tempo. Per- duas perspectivas analíticas A primeira perspectiva, equivalenteà experiência distante, tenta recuperar o ciclo de desenvolvimento dos grupos domésticos dentro de um período histórico que englobatrêsge¬ rações. Numa segunda perspectiva, explorei as qualidades eprᬠticas diárias focando nos mundos de vida dos atores sociais. Nota autoadesiva Duas perspectivas analíticas Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo falar sobre eventos que poderiam “ajudar" na minha pesquisa. Minha caderneta decampo viroumotivo debrincadeiras entreos maispróximos e recebi o apelido de “amenina do cademinho”. Quandoacontecia algo inusitado, elesmeprocuravamediziam, “anota o queeu vou te contar no seu cademinho" e, revelando ter consciência de que suas vidas estavam ali dentro, sempre me recomendavamque eu o guardasse commuito cuidado. Saindo desse círculo mais restrito, no qual circulava desenvolturaemesentindoentre amigos, procureiestreitar con¬ tato com um grupo mais numeroso de unidades domésticas. Nesse sentido, realizei uma aproximação mais extensiva, ou seja, visitei pessoas, observei e fiz entrevistas com diferentes membros de cada unidade familiar contatada. Na minha rotina de trabalho, as tardes eramdedicadas a essas visitas, circulava de casa emcasa buscando conversas e observando situações domésticas. Além disso, circulava pela praça central, na qual sempre encontrava umbompapo, participava do encontro da família que era promovido pela igreja católica, etc. É preciso lembrar que fiz trabalho de campona Vila de Sal-Rei, localidade comcerca de 2.500habitantes eque, senão tinhauma relação mais íntima com todos, por outro lado, todos me conheciam e sabiam da pesquisa que estava realizando. É claro que a abor¬ dagem não foi uniforme e tive algumas dificuldades de acesso a certos temas e pessoas determinadas. Como forma de dimi¬ nuir constrangimentos advindos das simpatias pessoais e da delicadeza de alguns temas, encontrei uma saída possível nos rumores, que se constituíram como fundamentais para uma primeiraaproximação. Começarumarelação comentando sobre eventos ocorridos comoutros foiuma estratégia feliz, especial¬ menteporque, falar sobre a vida alheia é algomuito comumna sociabilidade dos boa-vistenses. Rumores e fofocas que versam sobre o ambiente familiar, infidelidade, práticas de poligamia, estratégias matrimoniais e outras relações da família boa-vistensemeofereceramuma via aberta para a análise das tensões e ambiguidades inerentes à organização familiar local. A idéia era de buscar diferentes ver¬ sões paraummesmo evento ou conflito familiar no sentido de perceber asperspectivasdehomens,mulheres, velhose jovens diante dos problemas cotidianos, da relação comos estrangei¬ ros, da situação daBoaVista faceaodesenvolvimento turístico, da emigração feminina, etc. Não é fácil trabalhar com rumores, pois nunca se obtémum relato em sua completude, o falador (fofoqueiro) é um ser que tem a voz perdida no blá-blá-blá da sociedade (TRAJANO FILHO, 1998). Quanto à narrativa, ela é sempre variante a depender de quem fala, bem como sua dis¬ seminação é variada, a depender do valor de seu significado. Trajano Filho (1998) ressalta a importância e a recorrência dos rumores nas sociedades crioulas a partir do estudo na Guiné-Bissau. Os rumores aparecem como um gênero de co¬ municação especializado em fazer a crónica da vida cotidiana, refletindo seus conflitose inconsistências.Naspalavras do autor, os rumores são um eficiente meio de pensar sobre as diferen¬ ças, conflitos de interessee sobrevários atributos da sociedade crioula, porque ele temum ser difuso, não individualizado que não é nadamais do que a sociedade crioula em si, com todas as suas contradições inerentes (Idem: 420). Enfim, foi explorandoboatos queconsegui abordar a ques¬ tão dos fluxosmigratóriosparaaBoaVistaechegar àpercepção que os boa-vistenses têm da vinda de estrangeiros e cabo-ver- dianos de outras ilhas. Tal movimentação se intensificou nos últimos cinco anoscomo aumento dos investimentos turísticos na ilha. Com uma população de menos de cinco mil habitan¬ tes que se dedicavam basicamente à pesca e à pastorícia, foi necessário a criação de uma política de incentivo à vinda de trabalhadores que viabilizassem tais projetos. Vieram emmas¬ sa, além dos empreendedores italianos, badius e africanos do continente que hoje constituem grande parte da máo-de-obra presente na ilha. A vinda desses outros tem gerado uma série de conflitos e eventos até então estranhos à população local. Assaltos, estupros e atos de vandalismos são sempre dissemi- com 218 219 Como forma de dimi¬ nuir constrangim entos advindos das simpatias pessoais e da delicadeza de alguns temas, encontrei uma saída Não é fácil trabalhar com rumores, pois nunca se obtém um relato em sua completude, ofalador (fofoqueiro) é um ser que tem a voz perdida no blá-blá-blá da sociedade ( Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico Nãoépreciso estarmuito temponaBoaVistaparaperceber que a mulher é figura central não apenas na esfera doméstica, mascomoprovedorae intermediadora entre ouniverso externo e o domínio doméstico. Minha condição de ter uma família em campo e de não ser uma cabo-verdiana, ou seja, de estar ao mesmo tempo dentro e fora de um sistema de relações com¬ plexo no que se refere às redes de ajuda mútua, me forneceu dados interessantes que advinham das situações ligadas aos cuidados como filho e com a casa. Observei que passava por constrangimentospelos quais nenhuma outramulher cabo-ver¬ diana enfrentava e que tais dificuldades tinham origem no fato denão ter família extensa consanguíneapresente. Pormais que tivesse boas relações comminha sogra e as outras mulheres da família, era estrangeira eafim. oquedificultava consideravel¬ mente meu acesso às redes de solidariedade. A condição de casada não facilitavamuito, poismeumarido não dominava as estratégias de acesso às redes femininas e só foi se dar conta da existência destas ao acompanhar meu processo de recolha de dados. Com o decorrer da pesquisa e uma crescente inti¬ midade com diversas mulheres chefes de família, percebi que as possibilidades de recorrer a tais redes foram se ampliando e passei a me utilizar delas quando precisava de auxílio em casa e, principalmente, com meu filho. Porém, nunca tive a desenvoltura das cabo-verdianas em acionar a rede em caso de saídas noturnas, viagens, mudanças, etc. Creio que minha má inserção nas redes femininas tinha também outra razão de ser, a relação commeumarido. A relação homem-mulher na Boa Vista merece questiona- mentos importantes. A instabilidade é a característica central das relações conjugais no sistema de organização familiar boa-vistense em particular e nos sistemas crioulos em geral. Além disso, são institucionalizadas relações extra-residenciais, não-domiciliares ou de visitaçáo, e com várias alternativas de padrão conjugal. Écomum que os homensmantenham casos com outras mulheres além daquela com quem residem ou nados por intermédio de rumores e atribuídos aos estranhos, aos que vieram de fora para estragar aBoa Vista. Realizar essa parte da pesquisa foi interessante porque revelou aspectos da relação entre os de dentro e os de fora que não conseguia apreender somente ao nível do discurso. Quando comecei a abordagem aos estrangeiros, percebi que minhaprópriacondiçãodeestrangeiramecolocavaentre osdois universos. Tive dificuldades para justificar, entre os boa-visten- ses, queumestudo sobre a Boa Vista deveria incluir tambéma relação comos de fora. Era especialmente difícil explicar minha presença emeventos realizados pelos africanos docontinente, os mandjacos. A relação entre esses grupos é marcada pelo distanciamento, é raro ver umboa-vistense conversando com ummandjaco. Por esse motivo, muitos não entendiam e até se preocupavam pelo fato de eu estar frequentando casas de mandjacos enão foi fáciladministrar essa relação comambosos grupos. A saída veio apartir deminha integração aumgrupo de técnicos da saúde que estavam desenvolvendo umprojeto de sensibilização a formas deprevenção aoHIV entre os africanos imigrantes na Boa Vista. A vinculaçáo a esse projeto foi mais intuitiva do que estratégica e, com sorte, vi meu trânsito entre os grupos facilitado e justificado para os boa-vistenses. Resta relatar, ainda, aminha relação comasmulheres. Logo departida, o trabalho depesquisa exigiuque eu reformulasse a atenção quepretendia dedicar a talaspecto dessa sociedade. Ao entrar na estrutura familiar, percebi que é impossível entendê-la senão por uma análise do processo de circulação, saída e per¬ manência demulheres.Emalguns trabalhossobreoarquipélago (conformeSolomon, 1992;Dias, 2000; Couto, 2001), éenfatiza¬ do que a estrutura familiar cabo-verdiana tende à formação de (ares matrifocais, onde as mulheres são os membros adultos estáveis e apresençamasculina é observada pela ausência ou fraca efetividade. O que os autores destacamé que existe uma rede de solidariedade entremulheres deumamesma família e a avó é figura central nesse contexto. 221220 Não é preciso estar muito tem po naBoa Vistapara perceber que a mulher é figura central não apenas na esfera doméstica, mas como provedora e intermediadora entre o universo externo e o domínio doméstico T Entre o familiar e 9 exótico Andréa de Souza Lobo mantêm uma relação mais duradoura. Essa mulher que pode¬ ria ser denominada de fixa, neste complexo emaranhado de relações amorosas instáveis que caracteriza o sexomasculino, é a chamadamãedefilho. Isso não significa que ele não tenha outrasmães defilhos, e sim que essa foi a primeira comquem o homemmanteve uma união informal, seja de coabitação ou não. A vantagemdaprimeiramãe defilho em relação às outras é o tempo que dura a relação comohomemeo fato de que ela já estaua quando as outras chegaram. Esses dois fatores dão a essamulher o direito sobre ohomeme a legitimidade de poder brigarpor ele. Porém, isso não garante a estabilidade da união, pois o homem, a qualquer momento, pode decidir abandonar a mãedefilho e estabelecer uma relação fixa comoutra mulher. Não deve ser difícil imaginar que esse padrão conjugal causoudificuldadesno relacionamento amoroso comumcabo- verdiano. Dificuldadesnão só internas ao relacionamento,mas compartilhada por amigos, conhecidos e potenciais mulheres riuals. Logo de início fugimos ao padrão local de moradia, ha¬ bitando neolocalmente mesmo antes de termos um filho. O comportamento dele com relação à família também fugia aos padrões, saíamos sempre acompanhados, ele cooperava de forma intensanos cuidados como filho ediminuiua frequência aos centrosde socializaçãomasculina, especialmente osbares. Isso eramotivodecomentáriospor homens, sempreno sentido dele estar sendo dominado pela mulher. Quanto às mulheres, enquanto algumas exclamavamque o “homemcabo-verdiano só é bom com as estrangeiras”, outras diziam admirar minha força em conseguir manter umhomem em casa eme pediam conselhos para evitar a infidelidade dos companheiros. Aproveitava essas abordagensemconversascommulheres econseguimuitosdadossobreainfidelidade, padrõesconjugais, demoradia ede filiação.Percebiqueainfidelidademasculinaéum conceito localambíguo, aomesmo tempoemqueéesperado, é negativo e gera conflitos dasmais diversas ordens. Porém, se o tipodearranjo familiar no qualestava inseridameaproximoudo universo feminino, me distanciou dos homens. A relação entre homensemulheresnaBoaVistaéenvoltaporumaesferadeinti¬ midade, amigosseabraçam, se tocamebrincamsensualmente. Sempre tivedificuldades emsaber quemnamoravaquemouse o que estava presenciando era apenas uma relação carinhosa entre amigos. Minha postura diante dos homens nunca passou pelo toque oupela intimidade e isso comcertezamarcouo tipo de relação que eles poderiam ter comigo. Por outro lado, a dificuldadedeacesso ao grupomasculino adveio do tipo de estratégia de abordagemque adotei: passava a maior parte dos meus dias nas casas das pessoas, um lugar ondeos homens raramentese encontram. Então, emvirtudede sua situação distante e ambígua no cenário doméstico, do seu caráter ausentenoambiente familiar e, por outro lado,pelo fatode eusermulher, casadaeterumarelaçãomuitoparticularcommeu marido, a abordagemdireta,pormeio deentrevistas, semostrou inviável. As poucas entrevistas que consegui não oferecem da¬ dos deboaqualidade enão chegama tratar de forma clarasuas concepçõessobrearelaçãocomos filhos, sobreolugar ocupado por eles dentro da casa e sobre as relações conjugais. Na buscapor solucionar essas dificuldades, lanceimãode estratégias que diminuíssema impossibilidade de ter umrelato direto. Como a abordagem por entrevistas se mostrou pouco eficazeconsiderava importanteobter dados sobreasperspecti¬ ves deste grupo, o que elespensamda família tal como elas se organizam,oqueachamdaautoridadedospais sobreos filhos, do comportamento da juventude, dasmulheres, dos estrangei¬ ros e delesmesmos, resolvi extrair tudo isso da observaçãodo comportamento, das conversas informais, das rodas de socia¬ bilidade (especialmentenosbares), edosconflitos. Lembrando das sugestões deEvans-Prltchard ( 1978), dequeo antropólogo éumapessoa até certoponto semsexo, pois está fora da vida social do grupo, minha condição revelou que as limitações de gênero dependem substancialmente do lugar que o antropó¬ logo assume dentro da sociedade. Minha referência mais forte 222 223 Percebique a infidelidademasculinaéum conceitolocalambíguo, aomesmo tempo em que é esperado, é negativo e gera conflitos das mais diversas ordens buscapor solucionaressas dificuldades, Evans-Prltchard ( o antropólogo é umapessoa atécerto ponto sem sexo, pois está fora da vida social do grupo, as limitações de gênero dependem substancialmente do lugar que o antropó¬ logo assume dentro da sociedade. Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo era enquanto mulher de um cabo-verdiano e isso sem dúvida influenciou o acesso aos universos masculinos e femininos e, consequentemente, aos dados que baseiamminha análise. Por fim, se é que se pode extrair algum ensinamento do relato de minha experiência em campo, gostaria de apontar dois: o primeiro é sobre a importância de se estabelecer trabalho diário sistemático e persistente. Como diz a epígrafe, o trabalho de campo é do tipo que não é realizado da forma que outros trabalhos e exige um nível de vigilância diᬠria. O segundo é sobre a importância de se cruzar estratégias metodológicas que auxiliemno processo de aproximação e de análise de um aspecto social. Acredito que a combinação de múltiplas perspectivas foi essencial para não me sentir refém das escolhas que fiz emcampo e facilitouminha busca por entendimentomenosrefratado darealidade. Por ter consciência . deminha situação de pesquisa, um tanto singular, vi nessa es¬ tratégia uma possibilidade de enxergar alternativas e caminhos diferenciados que viessem enriquecer as temáticas em jogo. Emqualquer situação depesquisa, creio queo cruzamento de abordagens analíticaspermitea apreensãodemúltiplosmodos dever, agir e representar a realidade, reforçando a idéia deque. tomandoummesmoaspecto darealidadesocialsobopontode vista de atores emposições diferenciadas, teremos uma visão mais próxima da concepção nativa. dia a noção da diferença mudou em antropologia e passou a englobar opróprio antropólogoemsuarelação comaalteridade, os outros dehoje estão nomundomoderno comonós. Algunspodemconcluir queo relato deminhaexperiênciade campo soa linear e que, na verdade, não passei por nenhuma “saia justa”. Sempre digo aosmeus amigos que fazer trabalho de campo em Cabo Vferde foi uma experiência sem traumas, o que não significa dizer quenão tive dificuldades de diversas ordens. Lidar com a situação de ser mulher, casada e com fa¬ mília ao longo do trabalho de pesquisa não foi fácil, ao longo de todo oprocesso depesquisa estive lidando comestratégias que dessem conta dessa condiçáo. Além disso, a saudade, a ausência de interlocutores que pudessem dividir as angústias e sucessos da pesquisame acompanhoupelos longos meses de trabalho. Agora, diante demeucomputador, diantedeminha mesa de trabalho, sinto também saudade dos amigos que fiz, da rotina que estabeleci e da família que deixei. Portanto, creio queamaior “saia justa” queenfrentei esteve permeando todososmeusmomentosemcampo. Quando lemos textos que se referem ao trabalho de campo (Da Matta, 1987; CardosodeOliveira, 1998;Evans-Pritchard, 1978), vemos relatos de encontros comum nativo que é quase a personificação da alteridadedoantropólogoeautilizaçãode técnicas, intuições, cir¬ cunstâncias quenosconduzemaumprocessode familiarização e de reconhecimento desinooutro.Umprocessomágicoeque fazda antropologia essa disciplina apaixonante desdeo paradig¬ máticocursodeIntrodução àAntropologia.Emoutromovimento, vemosaantropologiasevoltandoparaaprópriasociedadenuma busca de estranhamento de práticas familiares. E eu, afinal, que relação de alteridade era essa que estava construindo na pesquisa emBoa Vista? Se por um lado era es¬ trangeira e sentia o anthropologicalblues tal como foi brilhante¬ mente relatadopor DaMatta (1987), por outro, era casada com um cabo-verdiano, tinha um filho e fazia parte de uma família cabo-verdiana.Minha condição deum “ser entre doismundos” um mesma um 3 Considerações finais Influenciada pelo conceito clássico de etnografia, de tornar o estranho familiar, optei por me deslocar geograficamente e fazer pesquisa emumpaís estrangeiro. Porém, noprocesso de pesquisa tenho verificado que, diferentemente dos clássicos, nos quais o outro era um enigma a ser desvendado mediante procedimentos lentos e penosos de pesquisa e análise, para nós,contemporâneos, ooutronãosedefinecomoàparte,mas ele sesomaanós. Como afirmaMarizaPeirano (1995), hojeem 224 225 ensinamento importância de se estabelecer um trabalho diário sistemático e persistente. Caixa de texto 2 ensinamentos: importância de se cruzar estratégias metodológicas que auxiliem no processo de aproximação e de análise de um aspecto social. conceito clássico de etnografia, de tornar o estranho familiar, Porém,no processo de pesquisa tenho verificado que, diferentemente dos clássicos, nos quais o outro era um enigma a ser desvendado mediante procedimentos lentos e penosos de pesquisa e análise, para nós, contemporâneos,o outro não se definecomoàparte, mas elesesoma anós os outros de hoje estão no mundo moderno comonós. processo de familiarização e de reconhecimento de sino outro. Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico GEERTZ, Clifford. “Um jogo absorvente: Notas sobre a briga de galo balinesa” ln: Interpretação das culturas. Livros Técnicos eCientíficosEditora, 1986. LESOURD, Michel.État et sodeté aux lies duCap-Vert: Altematiuespour unpetit État insulaire. Paris: Karthala, 1995. MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas doPacífico Ocidental. Introdução. São Paulo: Abril Cultural, 1978. PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. RelumeDumará: Rio de Janeiro. 1995. ultrapassava a condição de pesquisa e, se por muitas vezes essa situação toda especial se constituiu enquanto uma boa entradaaouniverso estudado, emoutros casos gerava conflitos internos sobreminha própria posição enquanto mulher, mãe e profissionalnaquela sociedadeenaminha sociedadedeorigem. Se, como afirma Evans-Pritchard, o antropólogo volta transfor¬ mado de campo, devo dizer que, emmeu caso, o campo não me transformou somente na relação comomundo no qual fui socializada, mas transformouminha própria relação comCabo Verde e a posição que havia assumido naquela sociedade. O que fica como lição nesse jogo de espelhos incrível que é o fazer antropológico, e este é o maior desafio ao qual o an¬ tropólogo se lança no trabalho de campo, não é somente o da busca incansável (e nem sempre alcançável) do tal ponto de vista do nativo, bemcomooda tradução dos seus significados. paraos conceitosno interior denossa disciplina,mas éopróprio sentido dessafusão dehorizontes (OLIVEIRA, 1998) e o que ela produz emnós, antropólogos, nativos e leitores. Rio de Janeiro. SOLOMON,Maria Jill. “We can evenfeel that we arepoor, but wehavea strong andrich spirit": Learningfrom theHues and organization of the women of Tira Chapéu, Cape Verde. A dissertation in Education presented to the Graduate School of TheUniversity of Massachusetts in Partial Fulfillment of the requirements for the degree of Doctor of Education, 1992. TRAJANO FILHO, W. Polymorphic Creoledom: The creole society of Guinea-Bissau. 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