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Onde estão as b.girlsl
MAGNANI, J.G.C. “Da periferia ao centro: Pedaços e trajetos".
Reuista de Antropologia. São Paulo, 2 (2), 1992, p.203-191.
_.Festa nopedaço: Cultura popular e lazer na cidade.
São Paulo: Hucitec, 1998.
_. "Tribos urbanas: Metáfora ou categoria?” In:
Cadernos de Campo Reuista dos Alunos dePós-Craduação
em Antropologia. São Paulo, 2 (2), 1992b, p.5i-48.
MAGNANI, Jose Guilherme C.; TORRES, Lilian de Lucca (org ).
NaMetrópole: Textos de antropologia urbana. São Paulo:
Edusp, 1996.
Capitulo 7
Entre o familiar e o exótico:
Compartilhando experiências de
campo naBoa Vista, Cabo Verde
_. “De perto e de dentro: Notas para uma etnografia
urbana". In: ReuistaBrasileira deCiências Sociais. 17 (49), 2002.
MALINOWSKI, B. “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. In:
Os Pensadores uol. XLII. São Paulo: Abril Cultural, 1976.
OLIVEIRA, R. C. “O trabalho do antropólogo: Olhar, ouvir,
escrever". In: Reuista de Antropologia. USP, 39(1), 1996.
REVISTA RAP BRASIL. “Bambaataa Bombástico: Uma viagem
pela história do hip hop e da música negra mundial”. Número
24, 2002, p. 29.
Andréa deSouza Lobo
TTabalho de campo é trabalho no campo. Trabalho
de campo é, antes de tudo, um tipo de “trabalho", é
uma experiência criatiua eprodutiua, apesar de suas
“recompensas" não serem necessariamente percebidas
damesmaforma como o são em outrasformas de
trabalho. O antropólogo no campo trabalha; suas “horas
de trabalho" são gastas entrevistando, observando e
tomandonotas, tomando parte na vida social.
ROY WAGNER. The invention of Culture.
Introdução
uando recebi a chamada de textos para a publicação
de um livro que pretende colocar pesquisadoras em
* '— diálogo sobre suas experiências em campo, pensei
em tratar de discussões pós-modemas sobre o sentido da et¬
nografia, a autoridade do antropólogo emcampo, a discussão
sobre a tal busca pelo ponto de vista nativo e sua tradução em
textos que são sempre escritos por nós, etc. Ao começar a es¬
crever o texto, porém, nãome senti à vontade coma temática,
primeiro porque estava mergulhada num trabalho de campo
de duração de um ano e seis meses e discutir o sentido do
206
TTabalho de campo é trabalho no campo.
é uma experiência criatiua e produtiua
produtiua,
Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo
“estar em campo” me pareceu contraditório e pouco frutífero.
Segundo, porque, para aprofundar tal discussão, precisaria de
apoio bibliográfico denso, processo difícil quando
contramosdistantes das referências bibliográficasedoconforto
das bibliotecas universitárias, às quais podemos
momento da escrita deum texto.
Alémdisso, entendiqueapropostado livro eradeexplorar
as experiências de mulheres antropólogas nas diversas situa¬
çõese “saiasjustas” quevivemosenquantoestamosrealizando
o trabalho decampo. Imbuídapor essapropostae limitadapelas
condições de estar escrevendo em campo, optei por apresen¬
tar aqui a minha experiência emCabo Verde e as dificuldades,
constrangimentos e emoções que tal tarefa temme proporcio¬
nado. Não tenho a intenção de dar conselhos e muito
deapresentarummanualdepesquisa-jásabemosquenâohá
“receita de bolo” para se trabalhar em campo. Minha intenção
é a de acrescentar à discussão a experiência de uma jovem
antropóloga que, imbuída do romantismo dos clássicos
buscavam o exótico emum “outro” distante, viu surgir diante
de si Cabo Verde comouma opção viável depesquisa, decidiu
fazer as malas e partir para além-mar.
Antes de entrar mais diretamente nas considerações a
respeito do campo, épreciso que contextualize a trajetória que
me trouxeatéessepaís. Ainda estava fazendo ocurso demes¬
trado quando, de forma meio acidental, comecei a ouvir falar
sobre Cabo Vferde através de uma colega que estava fazendo
seu trabalhono arquipélago1equeme levoua conhecer alguns
cabo-verdianos que estudavamnauniversidade que frequentá¬
vamos.Meu contato direto coma realidade cabo-verdiana teve
início na tarde de 13 de dezembro de 1999, quando desembar¬
quei no aeroporto do Sal, emmeio a um grupo de estudantes
cabo-verdianos vindos doBrasilparapassar as férias escolares.
Naquela ocasião passei três meses fazendo trabalho de cam¬
po na Cidade da Praia, capital do país, uma temporada curta e
com alguns problemas estruturais, mas que acabou por gerar
uma dissertação demestrado razoável e o estabelecimento de
laços de amizade e contatos sólidos que vieram viabilizar uma
segunda fase de pesquisa a qual me dediquei no período de
fevereiro de 2004 atémaio de 2005.
Terminado o mestrado, voltei a Cabo Verde por questões
pessoais elávivipor cercadeumano emeio trabalhando como
professora de sociologia no liceu da ilha da Boa Vista. Nesse
intervalo de tempo tive um filho e me casei comum cabo-ver-
diano que havia conhecido e me envolvido afetivamente na
altura dapesquisa decampo demestrado-contrariando todos
os conselhos dos “manuais" de trabalho de campo e de meu
orientador dapesquisa. Apesar deestar “oficialmente” afastada
da antropologia,2notei queumavez que temoso olhar treinado
pela disciplina, estamos frequentemente atentos diante deste ou
daquele traço social que marca determinada realidade. Sendo
assim, a convivência não sistematizada, e por que não descui¬
dada, enquanto estrangeira naIlhadaBoaVista, acabouporme
reaproximar daantropologiaaoperceber quehavia certasesferas
da vida desta sociedade que se constituíam como verdadeiras
"pérolas” para a investigação antropológica. Como iremos dis¬
cutir ao longo do texto, tais esferas -a vida familiar, a condição
da mulher emigrante e da mulher que fica na ilha, as relações
de casamento e de filiação - nâo me chamaram atenção por
acaso, mas porqueme faziam refletir sobre a própria condição
de mulher, mãe e estrangeira naquela sociedade. Como num
jogo de espelhos, dialogar como outrome fez refletir sobremi-
um nos en-
recorrer no
menos
que
2 Digo -oficialmente' porquenãoeslavaligadaàUniversidadeenemrealizando
qualquer trabalho de pesquisa sistemática. Por aquele período não estava
vivendoemCaboVsrdeenquantopesquisadora,masenquanto estrangeira.
imigrante, levada por questões pessoais e afetivas.
Reflro-me ao trabalho de Juliana Braz Dias. Entre Partidas e Regressos:
Tecendo relações familiares emCabo Verde. Dissertação deMestrado apre¬
sentada ao PPGS do Departamento de Antropologia da Universidade deBrasília. Brasilia. 2000.
208 209
nâohá “receita de bolo” para se trabalhar em campo
Apesar de estar “oficialmente” afastada da antropologia,2notei queuma vez que temos o olhar treinado pela disciplina, estamos frequentemente atentos diante deste ou daquele traço social que marca determinada realidade.
Com o num jogo de espelhos, dialogar com o outro me fez refletir sobre mi-
Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico
nha experiência pessoal e, emparte, tratarei dessa experiência
ao longo do texto que se segue.
Não resistindo aos chamados da disciplina, em fins de
2002 trabalhei comafinco e consegui reingressar noPPGAS da
Universidade de Brasília e, em 2003. estava de volta ao Brasil
iniciando o processo de escolha de tema de pesquisa para mi¬
nha tesededoutoramento. Comoemantropologia aescolhado
tema consequentemente determina também a escolha de um
lugar, parte daminha questão jáestava respondida, restando-me
estruturar as idéias, refletir sobreoproblemadapesquisa, refinar
percepções e organizar a experiência que já tinha coma socie¬
dade que pretendia estudar. Foi então que minha experiência
enquanto imigrante falou mais alto e não pude deixar de optar
pelo estudo da organização familiar daBoa Vista face aos fluxos
migratórios que vêm caracterizando a ilha nos últimos anos.
Boa Vista é uma das lO ilhas que formamo arquipélago
de Cabo Verde, pequeno país insular localizado no meio do
oceano Atlântico a 500 kmdo continenteafricano. É a terceira
maior ilha em extensão territorial, porém, é a menos habitada,
com uma população de cerca de 4.209 habitantes dispersos
por oito povoações, sendo que a população feminina totaliza
l.872 e a masculina 2.334.3 A principal povoação é a da Vila
de Sal-Rei. que acolhe mais da metade da população total da
ilha. Boa Vista foi uma das primeiras ilhas a serem descober¬
tas, mas foi habitada tardiamente, sempre foi pouco povoada
e hoje se constitui como uma das ilhas periféricas no cenário
nacional. Porém, por causa de suas famosas praias e dunas
e pelo caráter “pacato” de seu povo, a ilha tem sido alvo de
um desenvolvimento turístico intenso nos últimos cinco anos,
despertando interesses depolíticos e investidores estrangeiros.
Além disso, essa é uma ilha onde predomina a emigração de
mulheres, o quegeraumaestrutura familiar diferentedopadrão
considerado normal. Foi todo esse cenário que me chamou
atenção para a realização de um estudo de sua organização
familiar. O interesse era focar especificamente no comporta¬
mento doméstico das famílias boa-vistenses no processo de
(re)produção da sociedade, processo que se encontra ligado a
todo umuniverso de transformações que se equacionam face
aos fluxos de pessoas, bens materiais, valores e simbolismos
em jogo na movimentaçãomigratória e turística local.
1 Pensando sobre a Boa Vista: Oprojeto
O projeto de pesquisa decompunha tal problemática a
partir do conceito de domesticidade e, tomando o espaço do¬
méstico como palco principal para observar a vida cotidiana e
os conflitos que surgem no seio do grupo familiar, incorporei
a noção de domesticidade num contexto de encontro com a
alteridade privilegiando as formas como a idéia de casa é per¬
cebida, vivida e experienciada na relação como “outro". Esse
“outro” diz respeito aos estrangeiros quevêm trabalhar naBoa
Vista trazidos pelo turismo, as gentes de outras ilhas que mo¬
vimentam o fluxo dasmigrações internas e as emigrantes que
partem e retomam fazendo circular idéias e valores que têm
se configurado como elos importantes nessa sociedade que
privilegia e se reproduz no contato com o exterior.
Com isso emmente, elaborei uma estratégia de pesquisa
quedesseconta daperspectiva doboa-vistensenarelação com
esses outros e as transformações que vinham ocorrendo no
espaçodoméstico. Apesar denãoestar interessadanumestudo
sobre emigração, naquela altura já percebia que não poderia
fugir dela. É difícil falar deCabo Verde sem tocar na importância
que a emigração exerce nesta sociedade, fenômeno que é es¬
sencialmente masculino e de importância fundamental no seu
processo de reprodução. Boa Vista não foge a esse padrão,
a não ser quando nos questionamos quem emigra. Desde os
fins dos anos 60, esta é a principal ilha do arquipélago no qual
a emigração é essencialmente feminina, o que traz algumas3 Dados obtidos no site do InstitutoNacional de Estatística de Cabo verde.
211210
nha experiência pessoal
em antropologia a escolha do tema consequ entem ente determina também a escolha de um lugar,
sociedade que privilegia e se reproduz no contato com o exterior.
É difícilfalar de Cabo Verdesem tocar na importância que a emigração exerce nesta sociedade,
Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo
configurações interessantes para a constituição da família boa-
vistense, especialmente para os filhos e companheiros dessas
mulheres. A situação da Boa Vista demonstra, então, que,
mesmosendopredominante, o fenômenomigratóriomasculino
não éoúnicopadrão existente emCabo Verde,4e que, embora
emmenor escala, a saída dasmulheresprovocamudanças im¬
portantes no comportamento local, mudanças que reforçam a
idéia de que os papéis sociais são construídos de acordo com
ocontextoeque, tomandoummesmo tema social soboponto
de vista de atores em posições diferentes, podemos enxergar
outros ângulos de visões da realidade.
Além das emigrantes, identifiquei outros grupos que cir¬
culam na sociedade boa-vistense atraídos pela movimentação
turística. Em termos da movimentação inter-ilhas, a entrada
dos chamados badiuss é a mais importante a ser considerada,
tanto pelo número daqueles que entram e fixam residência na
ilha, quanto pelo tipo de reações negativas que sua presença
ocasiona entre os locais. Numnívelexterno, temosumnúmero
pequeno, mas importante, de italianos que se estabelecem na
Boa Vista em virtude do turismo, fixando residência e sendo
responsáveis pelo aumento da oferta de emprego verificada
nos últimos anos. Existem também os chamadosmandjacos,
africanos do continentequecirculampelas ilhas do arquipélago
vendendo artigos artesanais e “bugigangas” em geral (pilhas,
baterias, relógios, enfeitesparacabelos, perfumes, xampus, etc).
Por causado turismoe dasconstruçõesdeunidadeshoteleiras,
vem crescendo o número desses africanos do continente que
passam a residir na ilha. O que buscava, ao trazer todos esses
atores para a arena doméstica, era explorar a diversidade de
valoresemjogonaelaboraçãodosprojetos individuais e familia¬
res,numa tentativade indicar asmaneiras pelas quais os fluxos
migratórios e turísticos conduzem os assuntos familiares.
Não posso deixar de salientar que todo esse processo de
reflexão sobre o objeto de estudo esteve mediado por minha
relação prévia com aquela sociedade. A condição demulher e
de imigrante foi fundamental para um entendimento primeiro
das práticas sociais das famílias caboverdianas, nas quais as
mulheres são o componente fixo e estável, formando redes de
relaçõesdeajudamútuanas tarefas e responsabilidadesdomés¬
ticas. Enquantomulher, mãee estando longe deminha família.
muitas vezes lancei mão dessas redes buscando auxílio na
criação demeu filho e no cumprimento das tarefas domésticas
diárias. Porém, logo percebiquenãomanipulava o sentido des¬
sas relações eme via quebrando as normas de reciprocidade,
descumprindo padrões de visitação, de trocas de alimentos,
etc. Por outro lado, o tipo de relação que buscava estabelecer
no casamento causava desconforto entre meus afins e certa
inquietude aomeu companheiro. O fato de estar, diariamente,
tendo que resolver tais questões, sem dúvida, influenciaria na
elaboraçãodemeuproblemadepesquisa enas reflexões sobre
o que implica ser mãe emulher na sociedade caboverdiana.
2 Viuendo em compo
Comumprojeto bemdefinido nabagagem, retomei àBoa
Vista em fevereiro de 2004 trazendo comigo um sentimento
diferente dosmeus colegas que também seguiampara o cam¬
po em busca de uma nova realidade para estudar e vivendo
a expectativa que o encontro como novo gera em todos nós.
Meu sentimento era de reencontro, agora nãomais de vivência
diária enquanto imigrante, mas deuma relação comnovos pa¬
râmetros. dentro da sistematicidadequea situação depesquisa
exige. Minhas preocupações eram de como estabelecer uma
nova relação e comomereposicionar diante depessoas que já
me conheciam sob outros padrões de referência.
4 AlémdaBoaVista,masemmenor escala, temseobservadoumcrescimento
daemigração femininaem todoopaís, espectalmentena ilhadaBrava. São
Nicolau e até mesmo emSantiago (LESOURD, 1995).
5 São chamados assim os cabo-verdianos provenientes da Ilha deSantiago.
A expressão temumcaráter pejorativo.
212 213
A situação da B oa Vista demonstra, então, que, mesmo sendo predominante, o fenômeno migratório masculino não éo único padrão existente em Cabo Verde,
os papéis sociais são construídos de acordo com
o contexto e que, tomando um mesmo tema socialsob o ponto de vista de atores em posições diferentes, podemos enxergar outros ângulos de visões da realidade.
Minhas preocupações eram de como estabelecer uma nova relação e como me reposicionar diante depessoas quejá me conheciam sob outros padrões de referência.
Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico
disso, ainda náo tenho a dimensãodo entendimento dos boa-
vistenses sobre o trabalho depesquisa. Foi difícil, por exemplo,
estabelecer um lugar, ou melhor, uma função profissional ao
longo de todo o trabalho decampo. Eles não entendiamporque
eu não estava à procura de trabalho e, por diversas vezes, vi
pessoas próximas amimpreocupadas emmeauxiliar na tarefa
de “procurar” uma ocupação profissional.
Como forma de solucionar essa “angústia" por parte de
amigos e parentes afins, acabei por estabelecer uma rotina
sistemática de pesquisa que começou comuma estratégia de
aproximação e de divulgação demeu trabalho. Para isso, con¬
tratei duas jovens ajudantes quehaviamsidominhas alunas de
sociologia no Liceu. A notícia foi divulgada entre os ex-alunos
que me propuseram uma espécie de grupo de estudos em
minha casa, para que falássemos de temas que a escola não
permitia, tais como planejamento familiar, educação sexual,
etc. Combinamos encontros semanais nos quais trocaríamos
experiências, deixando bem claro que aquilo seria essencial
para os dados deminhapesquisa. Concordaram, coma condi¬
ção de que eu resguardasse as identidades dos participantes.
Os encontros eram riquíssimos eme forneceramumconjunto
de dados sobre a concepção de jovens, filhos e netos sobre
os mais diversos temas. Por outro lado, através do contato e
da ajuda dessas meninas e alguns rapazes, em pouco tempo
amplieiminha rede de relações paramuito além daqueles com
quemmeumarido e sua família se relacionavam.
Paralelamente a esse processo de aproximação com e
através dos jovens, organizei uma aplicação sistemática de
questionários aos grupos domésticos. Comodisse, o intuitoera
duplo: primeiro demostrar umanovaposiçãonacomunidadee
fazer circular anotícia deminhapesquisa e, segundo, de obter
umaespéciedemapa queme fornecesseumguia da estrutura
familiar, formas de habitação, estratégias de casamento, etc.
Os conselhos deMalinowski (1978) foram decisivos na esco¬
lha de tal estratégia nessa fase de aproximação, período em
Imbuída dessas preocupações, segui para o trabalho de
campo. A chegada foi acolhedora, as pessoas me receberam
como se eu fosseumdos seus retomando para casa apósum
longo período de distância. Porém, logo percebi queminha au¬
sênciaprolongada havia sido tema de rumores e conflitos entre
a família demeumarido eos chamadosfaladores (fofoqueiros),
que afirmavam que eu havia abandonado a Boa Vista, fugido
como filho, e quemeumarido estava pagando o preço por ter
escolhido casar com uma estrangeira. Isso me fez perceber
que, apesar da aparência de estar sendobemrecebida e de ter
sido semprebemaceita pela comunidade, aminha posição de
estrangeira estava muito bem marcada para eles. É claro que.
dentreos estrangeiros queviviamna ilha, eu tinhaumaposição
privilegiada e adquirida pelo fato de falar bem o Crioulo, de ser
brasileira e. principalmente, por criar meu filho sem frescura e
recorrendo às redes de solidariedade típicas das relações femi¬
ninas.Porém, era de fora e, decerta forma, uma rivalpara essas
mesmas mulheres queme acolheram.
Todo esseconflito acabouporme fornecer uma entrada no
sentidodeexplicar essaausência prolongadae inserir meuretor¬
no no contexto da pesquisa, ou seja, saí para estudar e, como
resultado desse estudo, elaborei umprojeto que foi aprovado,
financiadoeo focodemeuestudo era aBoaVista. Agora estava
voltando para realizar o aspecto prático de minha pesquisa e
precisavadaajudade todosnesseempreendimento.Náoédifícil
imaginar que, numacomunidadecomcercade4.000habitantes,
anotícia correua ilha comumarapidez impressionanteelogome
vlnumasituaçãodeser parabenizadapor alguns que sesentiam
orgulhosos deverumestrangeiropromovendo sua ilha.6 Apesar
6 isso no caso de Cabo verde tem todo umsentido especial, pois há uma di¬
visão simbólica e económica entre o que eles classificamde ilhas centrais e
periféricas: asprimeirassàoSantiago (onde fica a capitaldopaís). SáoVicente.
chamadade ilha cultural, eaIlhadoSal. onde fica o aeroporto internacional do
país. As segundas sâo todas as outras (BoaVista, SâoNicoiau, Santo Antáo.
Brava, Fogo eMaio), nas quais impera o sentimento de abandono por pane
dogoverno e depreconceito por pane dos que vivemnas ilhasprincipais.
215214
fase de aproximação
Malinowski
Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico
cebi que um estudo que tem como questão principal concep¬
ções e ações em tomo do doméstico, deve adotar um tipo de
estratégia metodológica que tente capturar a dinâmica do ciclo
doméstico que temlugarno tempo.Nessesentido, lanceimãode
duasperspectivas analíticas para dar conta da temporalidade de
mães, avós, filhos, netos, irmãos e companheiros dentro da es¬
fera doméstica. Aprimeiraperspectiva, equivalenteà experiência
distante, tenta recuperar o ciclo de desenvolvimento dos grupos
domésticos dentro deumperíodo histórico que engloba três ge¬
rações. Começando por aí, dei atenção aos arranjos familiares e
de casamentos, padrões de moradias e costumes tradicionais.
Tais dados forneceramuma estrutura das relações das pessoas
de uma mesma geração, destas com os filhos e com os filhos
dos filhos numespaço temporal previamente estabelecido.
Numa segunda perspectiva, explorei as qualidades e prá¬
ticas diárias focando nos mundos de vida dos atores sociais.
Tenho coletado dados a partir das histórias de vida, dos ciclos
dedesenvolvimento dasunidadesdomésticas, dashistórias dos
agregados familiares, etc. Oqueé importantenessaperspectiva
é dar atenção aos contextosnosquais as ações sedesenrolam,
focando nos detalhes do comportamento coletivo e individual,
enfatizandoocaráter fundamentaldadimensão vivida como ca¬
minhoprivilegiadodeacesso às visões demundo.Desta forma,
busco estar atenta para a concretude dos eventos que fazema
vida das pessoas naBoa Vista: rumores, brigas, rompimentos,
casamentos, partidas e regressos, entre outros.
O objetivo era de entrar a fundo nas práticas cotidianas e
nas concepções que os nativos têm de higiene, dos cuidados
domésticos, das técnicas do corpo, dos cuidadoscomascrian¬
ças, alimentação, divisão do trabalho doméstico, das relações
de gênero e ocupação do espaço onde vivem. É interessante
notar a relação que meus informantes estabeleceram com o
fato de eu estar fazendo pesquisa e de sempre tentar deixar
claro que anotava e escrevia sobre eles. Isso parecia não os
incomodar e por diversas vezes, amigos me procuravampara
que, segundo suas palavras, é sempre bom evitar assuntos
delicados e temas complexos.
Por intermédio dessas estratégias de aproximação, pude
confirmar algumas intuições que tinha sobre a organização
familiar: o alto nível de emigração feminina, a mobilidade das
crianças entre as casas de familiares, o baixo número de ca¬
samentos e a grande incidência de uniões de fato, a tendência
dos filhos de residirem até a idademadura nas casas dos pais.
a importância da família, especialmente da avó. no processo
de criação das crianças, etc. A aplicação desse inquérito
grupos de conversa com meus ex-alunos foram frutíferos no
sentido de identificar famílias e pessoas das quais poderia me
aproximar para a realização de entrevistas e da observação
participante. Como era de se esperar e graças à receptividade
dos cabo-verdianos, verifiquei a disposição de todos em me
receberem em suas casas e contarem suas histórias.
Dedicava-me às visitas no período da tarde: pela manhã
só frequentava algumas casasnas quais conseguiuma entrada
privilegiada e umgrau de intimidade queme permitisse ajudar
nas atividades domésticas e nos cuidados com as crianças.
Essa relação mais íntima com cerca de 11 famílias foi construí¬
da de forma diferenciada e emmomentos diversos do trabalho
de campo. É claro que construí relações de amizade enquanto
vivi em Boa Vista e me utilizei destas para uma aproximação
mais sistemática, porém,o processo de pesquisa se mostrou
singular e mágico no fortalecimento de laços com mulheres,
chefes de família, que me abriram suas casas, suas famílias e
suashistórias devida.Entreumafazer eoutro, entre almoços e
conversasnos quintais, fui apreendendo omododeser deuma
casaboa-vistense, as concepções femininasdeespaçopúblico
e doméstico, as relações entre mulheres e o papel secundário
do homem enquanto companheiro, pai e provedor, porém es¬
sencial na vida dessasmulheres.
Com essas conversas iniciais, abandonei o foco sobre
“eventos paradigmáticos” que havia esboçado no projeto. Per-
e os
217216
é sempre bom evitar assuntos delicados e temas complexos.
cebi que um estudo que tem como questão principalconcep¬ ções e ações em tomo do doméstico, deve adotar um tipo de estratégia metodológica que tente capturar a dinâmica do ciclo domésticoque tem lugarno tempo.
Per-
duas perspectivas analíticas
A primeira perspectiva, equivalenteà experiência distante, tenta recuperar o ciclo de desenvolvimento dos grupos domésticos dentro de um período histórico que englobatrêsge¬ rações.
Numa segunda perspectiva, explorei as qualidades eprᬠticas diárias focando nos mundos de vida dos atores sociais.
Nota autoadesiva
Duas perspectivas analíticas
Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo
falar sobre eventos que poderiam “ajudar" na minha pesquisa.
Minha caderneta decampo viroumotivo debrincadeiras entreos
maispróximos e recebi o apelido de “amenina do cademinho”.
Quandoacontecia algo inusitado, elesmeprocuravamediziam,
“anota o queeu vou te contar no seu cademinho" e, revelando
ter consciência de que suas vidas estavam ali dentro, sempre
me recomendavamque eu o guardasse commuito cuidado.
Saindo desse círculo mais restrito, no qual circulava
desenvolturaemesentindoentre amigos, procureiestreitar con¬
tato com um grupo mais numeroso de unidades domésticas.
Nesse sentido, realizei uma aproximação mais extensiva, ou
seja, visitei pessoas, observei e fiz entrevistas com diferentes
membros de cada unidade familiar contatada. Na minha rotina
de trabalho, as tardes eramdedicadas a essas visitas, circulava
de casa emcasa buscando conversas e observando situações
domésticas. Além disso, circulava pela praça central, na qual
sempre encontrava umbompapo, participava do encontro da
família que era promovido pela igreja católica, etc. É preciso
lembrar que fiz trabalho de campona Vila de Sal-Rei, localidade
comcerca de 2.500habitantes eque, senão tinhauma relação
mais íntima com todos, por outro lado, todos me conheciam e
sabiam da pesquisa que estava realizando. É claro que a abor¬
dagem não foi uniforme e tive algumas dificuldades de acesso
a certos temas e pessoas determinadas. Como forma de dimi¬
nuir constrangimentos advindos das simpatias pessoais e da
delicadeza de alguns temas, encontrei uma saída possível nos
rumores, que se constituíram como fundamentais para uma
primeiraaproximação. Começarumarelação comentando sobre
eventos ocorridos comoutros foiuma estratégia feliz, especial¬
menteporque, falar sobre a vida alheia é algomuito comumna
sociabilidade dos boa-vistenses.
Rumores e fofocas que versam sobre o ambiente familiar,
infidelidade, práticas de poligamia, estratégias matrimoniais e
outras relações da família boa-vistensemeofereceramuma via
aberta para a análise das tensões e ambiguidades inerentes à
organização familiar local. A idéia era de buscar diferentes ver¬
sões paraummesmo evento ou conflito familiar no sentido de
perceber asperspectivasdehomens,mulheres, velhose jovens
diante dos problemas cotidianos, da relação comos estrangei¬
ros, da situação daBoaVista faceaodesenvolvimento turístico,
da emigração feminina, etc. Não é fácil trabalhar com rumores,
pois nunca se obtémum relato em sua completude, o falador
(fofoqueiro) é um ser que tem a voz perdida no blá-blá-blá da
sociedade (TRAJANO FILHO, 1998). Quanto à narrativa, ela é
sempre variante a depender de quem fala, bem como sua dis¬
seminação é variada, a depender do valor de seu significado.
Trajano Filho (1998) ressalta a importância e a recorrência
dos rumores nas sociedades crioulas a partir do estudo na
Guiné-Bissau. Os rumores aparecem como um gênero de co¬
municação especializado em fazer a crónica da vida cotidiana,
refletindo seus conflitose inconsistências.Naspalavras do autor,
os rumores são um eficiente meio de pensar sobre as diferen¬
ças, conflitos de interessee sobrevários atributos da sociedade
crioula, porque ele temum ser difuso, não individualizado que
não é nadamais do que a sociedade crioula em si, com todas
as suas contradições inerentes (Idem: 420).
Enfim, foi explorandoboatos queconsegui abordar a ques¬
tão dos fluxosmigratóriosparaaBoaVistaechegar àpercepção
que os boa-vistenses têm da vinda de estrangeiros e cabo-ver-
dianos de outras ilhas. Tal movimentação se intensificou nos
últimos cinco anoscomo aumento dos investimentos turísticos
na ilha. Com uma população de menos de cinco mil habitan¬
tes que se dedicavam basicamente à pesca e à pastorícia, foi
necessário a criação de uma política de incentivo à vinda de
trabalhadores que viabilizassem tais projetos. Vieram emmas¬
sa, além dos empreendedores italianos, badius e africanos do
continente que hoje constituem grande parte da máo-de-obra
presente na ilha. A vinda desses outros tem gerado uma série
de conflitos e eventos até então estranhos à população local.
Assaltos, estupros e atos de vandalismos são sempre dissemi-
com
218 219
Como forma de dimi¬ nuir constrangim entos advindos das simpatias pessoais e da delicadeza de alguns temas, encontrei uma saída
Não é fácil trabalhar com rumores, pois nunca se obtém um relato em sua completude, ofalador (fofoqueiro) é um ser que tem a voz perdida no blá-blá-blá da sociedade (
Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico
Nãoépreciso estarmuito temponaBoaVistaparaperceber
que a mulher é figura central não apenas na esfera doméstica,
mascomoprovedorae intermediadora entre ouniverso externo
e o domínio doméstico. Minha condição de ter uma família em
campo e de não ser uma cabo-verdiana, ou seja, de estar ao
mesmo tempo dentro e fora de um sistema de relações com¬
plexo no que se refere às redes de ajuda mútua, me forneceu
dados interessantes que advinham das situações ligadas aos
cuidados como filho e com a casa. Observei que passava por
constrangimentospelos quais nenhuma outramulher cabo-ver¬
diana enfrentava e que tais dificuldades tinham origem no fato
denão ter família extensa consanguíneapresente. Pormais que
tivesse boas relações comminha sogra e as outras mulheres
da família, era estrangeira eafim. oquedificultava consideravel¬
mente meu acesso às redes de solidariedade. A condição de
casada não facilitavamuito, poismeumarido não dominava as
estratégias de acesso às redes femininas e só foi se dar conta
da existência destas ao acompanhar meu processo de recolha
de dados. Com o decorrer da pesquisa e uma crescente inti¬
midade com diversas mulheres chefes de família, percebi que
as possibilidades de recorrer a tais redes foram se ampliando
e passei a me utilizar delas quando precisava de auxílio em
casa e, principalmente, com meu filho. Porém, nunca tive a
desenvoltura das cabo-verdianas em acionar a rede em caso
de saídas noturnas, viagens, mudanças, etc. Creio que minha
má inserção nas redes femininas tinha também outra razão de
ser, a relação commeumarido.
A relação homem-mulher na Boa Vista merece questiona-
mentos importantes. A instabilidade é a característica central
das relações conjugais no sistema de organização familiar
boa-vistense em particular e nos sistemas crioulos em geral.
Além disso, são institucionalizadas relações extra-residenciais,
não-domiciliares ou de visitaçáo, e com várias alternativas de
padrão conjugal. Écomum que os homensmantenham casos
com outras mulheres além daquela com quem residem ou
nados por intermédio de rumores e atribuídos aos estranhos,
aos que vieram de fora para estragar aBoa Vista.
Realizar essa parte da pesquisa foi interessante porque
revelou aspectos da relação entre os de dentro e os de fora
que não conseguia apreender somente ao nível do discurso.
Quando comecei a abordagem aos estrangeiros, percebi que
minhaprópriacondiçãodeestrangeiramecolocavaentre osdois
universos. Tive dificuldades para justificar, entre os boa-visten-
ses, queumestudo sobre a Boa Vista deveria incluir tambéma
relação comos de fora. Era especialmente difícil explicar minha
presença emeventos realizados pelos africanos docontinente,
os mandjacos. A relação entre esses grupos é marcada pelo
distanciamento, é raro ver umboa-vistense conversando com
ummandjaco. Por esse motivo, muitos não entendiam e até
se preocupavam pelo fato de eu estar frequentando casas de
mandjacos enão foi fáciladministrar essa relação comambosos
grupos. A saída veio apartir deminha integração aumgrupo de
técnicos da saúde que estavam desenvolvendo umprojeto de
sensibilização a formas deprevenção aoHIV entre os africanos
imigrantes na Boa Vista. A vinculaçáo a esse projeto foi mais
intuitiva do que estratégica e, com sorte, vi meu trânsito entre
os grupos facilitado e justificado para os boa-vistenses.
Resta relatar, ainda, aminha relação comasmulheres. Logo
departida, o trabalho depesquisa exigiuque eu reformulasse a
atenção quepretendia dedicar a talaspecto dessa sociedade. Ao
entrar na estrutura familiar, percebi que é impossível entendê-la
senão por uma análise do processo de circulação, saída e per¬
manência demulheres.Emalguns trabalhossobreoarquipélago
(conformeSolomon, 1992;Dias, 2000; Couto, 2001), éenfatiza¬
do que a estrutura familiar cabo-verdiana tende à formação de
(ares matrifocais, onde as mulheres são os membros adultos
estáveis e apresençamasculina é observada pela ausência ou
fraca efetividade. O que os autores destacamé que existe uma
rede de solidariedade entremulheres deumamesma família e
a avó é figura central nesse contexto.
221220
Não é preciso estar muito tem po naBoa Vistapara perceber que a mulher é figura central não apenas na esfera doméstica, mas como provedora e intermediadora entre o universo externo e o domínio doméstico
T
Entre o familiar e 9 exótico Andréa de Souza Lobo
mantêm uma relação mais duradoura. Essa mulher que pode¬
ria ser denominada de fixa, neste complexo emaranhado de
relações amorosas instáveis que caracteriza o sexomasculino,
é a chamadamãedefilho. Isso não significa que ele não tenha
outrasmães defilhos, e sim que essa foi a primeira comquem
o homemmanteve uma união informal, seja de coabitação ou
não. A vantagemdaprimeiramãe defilho em relação às outras
é o tempo que dura a relação comohomemeo fato de que ela
já estaua quando as outras chegaram. Esses dois fatores dão a
essamulher o direito sobre ohomeme a legitimidade de poder
brigarpor ele. Porém, isso não garante a estabilidade da união,
pois o homem, a qualquer momento, pode decidir abandonar a
mãedefilho e estabelecer uma relação fixa comoutra mulher.
Não deve ser difícil imaginar que esse padrão conjugal
causoudificuldadesno relacionamento amoroso comumcabo-
verdiano. Dificuldadesnão só internas ao relacionamento,mas
compartilhada por amigos, conhecidos e potenciais mulheres
riuals. Logo de início fugimos ao padrão local de moradia, ha¬
bitando neolocalmente mesmo antes de termos um filho. O
comportamento dele com relação à família também fugia aos
padrões, saíamos sempre acompanhados, ele cooperava de
forma intensanos cuidados como filho ediminuiua frequência
aos centrosde socializaçãomasculina, especialmente osbares.
Isso eramotivodecomentáriospor homens, sempreno sentido
dele estar sendo dominado pela mulher. Quanto às mulheres,
enquanto algumas exclamavamque o “homemcabo-verdiano
só é bom com as estrangeiras”, outras diziam admirar minha
força em conseguir manter umhomem em casa eme pediam
conselhos para evitar a infidelidade dos companheiros.
Aproveitava essas abordagensemconversascommulheres
econseguimuitosdadossobreainfidelidade, padrõesconjugais,
demoradia ede filiação.Percebiqueainfidelidademasculinaéum
conceito localambíguo, aomesmo tempoemqueéesperado, é
negativo e gera conflitos dasmais diversas ordens. Porém, se o
tipodearranjo familiar no qualestava inseridameaproximoudo
universo feminino, me distanciou dos homens. A relação entre
homensemulheresnaBoaVistaéenvoltaporumaesferadeinti¬
midade, amigosseabraçam, se tocamebrincamsensualmente.
Sempre tivedificuldades emsaber quemnamoravaquemouse
o que estava presenciando era apenas uma relação carinhosa
entre amigos. Minha postura diante dos homens nunca passou
pelo toque oupela intimidade e isso comcertezamarcouo tipo
de relação que eles poderiam ter comigo.
Por outro lado, a dificuldadedeacesso ao grupomasculino
adveio do tipo de estratégia de abordagemque adotei: passava
a maior parte dos meus dias nas casas das pessoas, um lugar
ondeos homens raramentese encontram. Então, emvirtudede
sua situação distante e ambígua no cenário doméstico, do seu
caráter ausentenoambiente familiar e, por outro lado,pelo fatode
eusermulher, casadaeterumarelaçãomuitoparticularcommeu
marido, a abordagemdireta,pormeio deentrevistas, semostrou
inviável. As poucas entrevistas que consegui não oferecem da¬
dos deboaqualidade enão chegama tratar de forma clarasuas
concepçõessobrearelaçãocomos filhos, sobreolugar ocupado
por eles dentro da casa e sobre as relações conjugais.
Na buscapor solucionar essas dificuldades, lanceimãode
estratégias que diminuíssema impossibilidade de ter umrelato
direto. Como a abordagem por entrevistas se mostrou pouco
eficazeconsiderava importanteobter dados sobreasperspecti¬
ves deste grupo, o que elespensamda família tal como elas se
organizam,oqueachamdaautoridadedospais sobreos filhos,
do comportamento da juventude, dasmulheres, dos estrangei¬
ros e delesmesmos, resolvi extrair tudo isso da observaçãodo
comportamento, das conversas informais, das rodas de socia¬
bilidade (especialmentenosbares), edosconflitos. Lembrando
das sugestões deEvans-Prltchard ( 1978), dequeo antropólogo
éumapessoa até certoponto semsexo, pois está fora da vida
social do grupo, minha condição revelou que as limitações de
gênero dependem substancialmente do lugar que o antropó¬
logo assume dentro da sociedade. Minha referência mais forte
222 223
Percebique a infidelidademasculinaéum conceitolocalambíguo, aomesmo tempo em que é esperado, é negativo e gera conflitos das mais diversas ordens
buscapor solucionaressas dificuldades,
Evans-Prltchard (
o antropólogo é umapessoa atécerto ponto sem sexo, pois está fora da vida social do grupo,
as limitações de gênero dependem substancialmente do lugar que o antropó¬ logo assume dentro da sociedade.
Entre o familiar e o exótico Andréa de Souza Lobo
era enquanto mulher de um cabo-verdiano e isso sem dúvida
influenciou o acesso aos universos masculinos e femininos e,
consequentemente, aos dados que baseiamminha análise.
Por fim, se é que se pode extrair algum ensinamento do
relato de minha experiência em campo, gostaria de apontar
dois: o primeiro é sobre a importância de se estabelecer
trabalho diário sistemático e persistente. Como diz a epígrafe,
o trabalho de campo é do tipo que não é realizado da
forma que outros trabalhos e exige um nível de vigilância diá¬
ria. O segundo é sobre a importância de se cruzar estratégias
metodológicas que auxiliemno processo de aproximação e de
análise de um aspecto social. Acredito que a combinação de
múltiplas perspectivas foi essencial para não me sentir refém
das escolhas que fiz emcampo e facilitouminha busca por
entendimentomenosrefratado darealidade. Por ter consciência .
deminha situação de pesquisa, um tanto singular, vi nessa es¬
tratégia uma possibilidade de enxergar alternativas e caminhos
diferenciados que viessem enriquecer as temáticas em jogo.
Emqualquer situação depesquisa, creio queo cruzamento de
abordagens analíticaspermitea apreensãodemúltiplosmodos
dever, agir e representar a realidade, reforçando a idéia deque.
tomandoummesmoaspecto darealidadesocialsobopontode
vista de atores emposições diferenciadas, teremos uma visão
mais próxima da concepção nativa.
dia a noção da diferença mudou em antropologia e passou a
englobar opróprio antropólogoemsuarelação comaalteridade,
os outros dehoje estão nomundomoderno comonós.
Algunspodemconcluir queo relato deminhaexperiênciade
campo soa linear e que, na verdade, não passei por nenhuma
“saia justa”. Sempre digo aosmeus amigos que fazer trabalho
de campo em Cabo Vferde foi uma experiência sem traumas,
o que não significa dizer quenão tive dificuldades de diversas
ordens. Lidar com a situação de ser mulher, casada e com fa¬
mília ao longo do trabalho de pesquisa não foi fácil, ao longo
de todo oprocesso depesquisa estive lidando comestratégias
que dessem conta dessa condiçáo. Além disso, a saudade, a
ausência de interlocutores que pudessem dividir as angústias
e sucessos da pesquisame acompanhoupelos longos meses
de trabalho. Agora, diante demeucomputador, diantedeminha
mesa de trabalho, sinto também saudade dos amigos que fiz,
da rotina que estabeleci e da família que deixei.
Portanto, creio queamaior “saia justa” queenfrentei esteve
permeando todososmeusmomentosemcampo. Quando lemos
textos que se referem ao trabalho de campo (Da Matta, 1987;
CardosodeOliveira, 1998;Evans-Pritchard, 1978), vemos relatos
de encontros comum nativo que é quase a personificação da
alteridadedoantropólogoeautilizaçãode técnicas, intuições, cir¬
cunstâncias quenosconduzemaumprocessode familiarização
e de reconhecimento desinooutro.Umprocessomágicoeque
fazda antropologia essa disciplina apaixonante desdeo paradig¬
máticocursodeIntrodução àAntropologia.Emoutromovimento,
vemosaantropologiasevoltandoparaaprópriasociedadenuma
busca de estranhamento de práticas familiares.
E eu, afinal, que relação de alteridade era essa que estava
construindo na pesquisa emBoa Vista? Se por um lado era es¬
trangeira e sentia o anthropologicalblues tal como foi brilhante¬
mente relatadopor DaMatta (1987), por outro, era casada com
um cabo-verdiano, tinha um filho e fazia parte de uma família
cabo-verdiana.Minha condição deum “ser entre doismundos”
um
mesma
um
3 Considerações finais
Influenciada pelo conceito clássico de etnografia, de tornar
o estranho familiar, optei por me deslocar geograficamente e
fazer pesquisa emumpaís estrangeiro. Porém, noprocesso de
pesquisa tenho verificado que, diferentemente dos clássicos,
nos quais o outro era um enigma a ser desvendado mediante
procedimentos lentos e penosos de pesquisa e análise, para
nós,contemporâneos, ooutronãosedefinecomoàparte,mas
ele sesomaanós. Como afirmaMarizaPeirano (1995), hojeem
224 225
ensinamento
importância de se estabelecer um trabalho diário sistemático e persistente.
Caixa de texto
2 ensinamentos:
importância de se cruzar estratégias metodológicas que auxiliem no processo de aproximação e de análise de um aspecto social.
conceito clássico de etnografia, de tornar
o estranho familiar,
Porém,no processo de pesquisa tenho verificado que, diferentemente dos clássicos, nos quais o outro era um enigma a ser desvendado mediante procedimentos lentos e penosos de pesquisa e análise, para nós, contemporâneos,o outro não se definecomoàparte, mas elesesoma anós
os outros de hoje estão no mundo moderno comonós.
processo de familiarização e de reconhecimento de sino outro.
Andréa de Souza LoboEntre o familiar e o exótico
GEERTZ, Clifford. “Um jogo absorvente: Notas sobre a briga
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Livros Técnicos eCientíficosEditora, 1986.
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PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. RelumeDumará: Rio
de Janeiro. 1995.
ultrapassava a condição de pesquisa e, se por muitas vezes
essa situação toda especial se constituiu enquanto uma boa
entradaaouniverso estudado, emoutros casos gerava conflitos
internos sobreminha própria posição enquanto mulher, mãe e
profissionalnaquela sociedadeenaminha sociedadedeorigem.
Se, como afirma Evans-Pritchard, o antropólogo volta transfor¬
mado de campo, devo dizer que, emmeu caso, o campo não
me transformou somente na relação comomundo no qual fui
socializada, mas transformouminha própria relação comCabo
Verde e a posição que havia assumido naquela sociedade.
O que fica como lição nesse jogo de espelhos incrível que
é o fazer antropológico, e este é o maior desafio ao qual o an¬
tropólogo se lança no trabalho de campo, não é somente o da
busca incansável (e nem sempre alcançável) do tal ponto de
vista do nativo, bemcomooda tradução dos seus significados.
paraos conceitosno interior denossa disciplina,mas éopróprio
sentido dessafusão dehorizontes (OLIVEIRA, 1998) e o que ela
produz emnós, antropólogos, nativos e leitores.
Rio de Janeiro.
SOLOMON,Maria Jill. “We can evenfeel that we arepoor, but
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presented to the faculties of the University of Pennsylvania in
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Dissertação (Mestrado em Antropologia), Universidade de
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EVANS-PRITCHARD, E. Bruxaria, oráculos emagia entre os
Azande. Apêndice IV Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
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Evans-Pritchard, o antropólogo volta transfor¬ mado de campo
jogo de espelhos incrível que é o fazer antropológico
fusãodehorizontes

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