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Kierkegaard   A escola da angústia e psicoterapia

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e nada 
teme, pois não segue o que foi determinado 
como “isso é para temer”. A estória finda 
com o herói finalmente assustando-se com 
uma coisa aparentemente inofensiva, com 
pequenos peixes pulando em sua barriga 
enquanto dormia. Eles foram postos sobre o 
seu corpo por sua esposa, que não aguentava 
mais a insistência de João em se lamentar de 
que não conseguia aprender a ter medo. O 
que daí se pode apreender é que o susto de 
João se constitui numa situação cotidiana da 
existência, não adianta querer defini-lo por 
antecipação, fabricando filmes de terror. O 
autor (Grimm) parece estar, com este conto, 
acenando para a importância de aprender 
a angustiar-se.
Kierkegaard (1844/2010), sob o pseudô-
nimo Haufniensis, nem se preocupa com 
a resolução da estória. Ele prefere deixar o 
aventureiro seguir seu caminho e se detém em 
nos admoestar que o aprender a angustiar-se é 
“uma aventura pela qual todos têm de passar 
[...] para que não venham a perder, nem 
por jamais terem estado angustiados nem 
por afundarem na angústia” (Kierkegaard, 
1844/2010, p. 163). A angústia está aí, existir 
é angustiar-se. E por isso, podemos pensar 
uma escola da angústia, uma escola acerca 
de si mesmo. Vamos, a partir de agora, nos 
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO,
2015, 35(2), 572-583
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Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo, Débora Gill, Luiz José Veríssimo & Myriam Moreira Protasio
Kierkegaard, a Escola da Angústia e a Psicoterapia
1 Para este trecho, encon-
tramos outras traduções: 
em francês,“l’angoissante 
possibilité de pouvoir” 
(Kierkegaard, 1990, p. 
205); em espanhol, “a 
angustiosa possibilidad de 
poder” (Kierkegaard, 2012, 
p. 92); em português, 
numa edição de 1968, 
aparece “a aflitiva possibi-
lidade de poder” (Kierke-
gaard, 1968, p. 48). Em 
inglês, encontramos“pos-
sibility of being able” (Hong 
& Hong, 2000, p. 150). 
Esta última tradução nos 
pareceu a mais próxima 
da escolhida pelo profes-
sor Valls (2010), em sua 
versão do livro O Conceito 
de angústia (Kierkega-
ard, 1844/2010). Esta é 
a versão que está sendo 
utilizada neste nosso tex-
to. No entanto, achamos 
pertinente atentar para 
este detalhe, pois nos pa-
rece que o “ser-capaz-de” 
pode guardar algo como 
uma capacidade para, o 
que seria evitado se fosse 
mantida a tradução por 
“poder” que, a nosso ver, 
remete melhor ao sentido 
de possibilidade.
distanciar de João para pensarmos sobre a 
angústia como uma determinação existencial, 
a fim de compreendermos o que está em 
questão para o autor em relação à escola 
da angústia.
Considerações sobre angústia
Para que possamos pensar acerca da escola 
da angústia é necessário compreendermos, 
primeiramente, o que Haufniensis quis dizer 
com angústia, de forma a que possamos 
esclarecer o sentido de se pensá-la como 
uma escola e da possível relação dessa 
escola com a psicoterapia. Nesse sentido, 
temos a angústia como objeto da reflexão 
psicológica na obra O conceito de angústia 
(Kierkegaard, 1844/2010), trazida aos leitores 
como a atmosfera da possibilidade. Mas o 
que o pseudônimo Haufniensis (Kierkegaard, 
1844/2010) quis dizer com a angústia ser 
a atmosfera da possibilidade? Para respon-
dermos a esta pergunta somos levados pelo 
autor a pensarmos acerca de temas tais 
como a inocência, o eu (espírito), a culpa e 
a liberdade do individuo na existência. Para 
compreendermos cada um destes elementos 
faz-se necessário traçarmos suas relações com 
a própria angústia.
Segundo o autor, a angústia, de um modo ou 
de outro, é onde o homem sempre esteve, 
está e estará. Ela “é aquilo ao redor do que 
tudo gira” (Kierkegaard, 1844/2010, p. 47), 
mesmo que na inocência ela esteja apenas 
latente. Neste estado de inocência o homem é 
ignorância, ou seja, ele vive na fluidez dos atos 
e sem qualquer tipo de reflexão. E justamente 
por isso o autor nos diz que este estado é um 
nada, um nada que faz nascer angústia. E “esse 
é o segredo profundo da inocência, que ela 
ao mesmo tempo é angústia” (Kierkegaard, 
1844/2010, p. 45). Ao afirmarmos que neste 
estado o homem é ignorante de ser angústia, 
imediatamente surge a pergunta: então, como 
ela pode se desvelar para o homem? A res-
posta aponta para o fato de que não há como 
descrevermos, paulatinamente, as escadas ou 
etapas que levarão o homem a se angustiar. 
A angústia simplesmente se dá, aparece num 
entre e a partir de lugar algum. É como no 
instante de um susto, de uma diferença em que 
o homem, subitamente, treme ou se ruboriza. 
Quando o proibido se mostra como aquilo 
que não pode, a possibilidade se revela como 
angústia. Ou seja, a possibilidade de poder 
o que não pode desvela o próprio espaço de 
possibilidade, o poder sim ou o poder não, 
e é aí que a angústia se revela, abrindo o 
que Haufniensis chamou de “a angustiante 
possibilidade de ser-capaz-de” (2010, p. 48)1. 
A possibilidade para o poder sim ou poder não 
aponta para a própria liberdade do homem. 
E, por isso Kierkegaard (2010, p. 45), na voz 
de Haufniensis, acentua que “a angústia é a 
realidade da liberdade como possibilidade 
antes da possibilidade”, isto é, a angústia é a 
realidade da liberdade como possibilidade de 
ser-capaz-de, possibilidade de poder sim ou 
poder não. Isso significa que a liberdade acena 
para o caráter de possibilidade do homem.
Há uma relação direta entre liberdade e 
possibilidade, pois a liberdade oxigena pos-
sibilidades na realidade vivida. É o caráter 
de liberdade que nos faz sempre abertos aos 
possíveis. Isso leva-nos a concluir que não 
há como não termos possibilidades, não há 
como não sermos livres, mesmo que lidemos 
com nossa liberdade, ou seja, com nossas 
possibilidades, como se elas não existissem, 
como se tivéssemos apenas uma possibilidade 
tal qual um obsessivo, que não vê nada além 
do objeto de sua obsessão. Não há como fugir, 
pois, a liberdade está sempre aí, soprando 
possibilidades. Esse espaço de possibilidade é 
o próprio espaço da angústia, onde a liberdade 
que nós mesmos somos é desvelada. Será que 
a maioria dos homens vive a partir de uma 
entrega a este espaço de possibilidades, ou 
seja, será que os homens se tomam como 
liberdade? Guardemos esta pergunta para um 
pouco mais a frente nesta investigação.
Como vimos, na inocência a angústia está 
latente, pois se é ignorante de ser angústia, 
bem como o espírito - o eu - também se 
encontra latente neste estado de ignorân-
cia. A partir daí nos perguntamos, então, 
quando o espírito é posto? Para o pseudônimo 
Haufniensis (Kierkegaard, 1844/2010), o 
espírito não se mostra desde sempre, mas é 
posto no salto qualitativo, ou seja, é por um 
salto em que se instala a diferença de um 
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estado a outro, e a determinação do espírito 
é posta pela culpa, caracterizando a saída 
da inocência. Dessa maneira, é por um salto 
qualitativo que o homem sai da inocência 
e descobre a si mesmo como culpado, cujo 
caráter aponta para uma responsabilidade do 
existir, para a determinação do espírito. Este 
salto acena para um movimento que surge 
sabe lá de onde, e se refere a lugar algum do 
qual pode surgir a culpa, visto que o salto 
não garante uma determinação específica, 
mas revela o espaço angustiante de poder ser.
A angústia se refere, justamente, a esse lugar 
algum, à indeterminação do sabe-se lá da 
onde, à possibilidade para a possibilidade 
que parece muito distante, mas que num 
piscar de olhos pode estar muito perto. Isso 
significa que a culpa, bem como o espírito, 
surgem a partir de um salto qualitativo que 
não tem seu lugar determinado e nem pode 
ter. Este salto surge