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Prof. Me. Cavalcante (Org.) Aluno(a): ................................................................ Turma : ............................................................. PLANO DE AULA DO PROFESSOR CURSO: PSICOLOGIA DISCIPLINA: Teoria Humanista Existencial CÓDIGO: 3986 PERÍODO: 6 PRÉ-REQUISITO: CARGA HORÁRIA: 45 CRÉDITOS: 3 Mês Enc Data Conteúdo A G O S T O 1º. 5 Webinar: Palestras, orientações e planejamento 2º. 12 Apresentações pessoais, de conteúdo e critérios de avaliação. Antecedentes conceituais: “essência e existência” Existencialismo: conceito, divisão e autores. 3º. 19 O existencialismo cristão de Sören Kierkegaard 4º. 26 O existencialismo cristão de Sören Kierkegaard O existencialismo ateu de Friedrich Nietzsche S E T E M B R O 5º. 2 O existencialismo de J. P. Sartre 6º. 9 O existencialismo de J. P. Sartre 7º. 16 Fenomenologia de Husserl 8º. 23 Seminário: Grupos 1,2,3,4 9º. 30 Aplicação da V1 O U T U B R O 10º. 7 Fenomenologia de Husserl 11º. 14 Seminário: Grupos 5,6,7 12º. 21 Antecedentes históricos da Psicologia: o humanismo 13º. 28 A Psicologia humanista de A. Maslow N O V E M B R O 14º. 4 Seminário: Grupos 8,9 A Psicologia humanista de A. Maslow 15º. 11 A Psicologia humanista de C. Rogers 16º. 18 A Psicologia humanista de C. Rogers 17º. 25 A Psicologia humanista de C. Rogers D E Z E M B R O 18º. 2 Aplicação da V2 19º. 9 Devolução e correção da V2. Convocação para VS 20º. 16 Aplicação da VS GRUPOS E TEMAS DOS TRABALHOS Grup Integrantes Data Apres 1 Fenomenologia de Husserl 23/09 2 Fenomenologia aplicada à Psicologia MASLOW, A.H. Introdução à psicologia do ser. Tradução de Álvaro Cabral. Coleção anima 3 Cap. 3 “Crescimento por motivação e crescimento por deficiência”. 23/09 4 Cap. 4 “Defesa e Crescimento” 5 Cap.10 “Criatividade nas pessoas individuacionantes” 14/10 6 Cap.11 “Dados psicológicos e valores humanos” 7 Cap. 12 “Valores, crescimento e saúde” 8 Cap. 13 “A Saúde como Transcendência do Ambiente” 4/11 9 Cap. 14 “Proposições Básicas de uma Psicologia do Crescimento e da Individuação” Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 3 Orientações sobre as VTs VT individual (5,0 pontos) MANUSCRITA: Um fichamento, em forma de tópicos, das ideias centrais de K Kierkegaard, Nietzsche e Sartre (nota: 0,0 – 2,0). Questionário da Fenomenologia (nota: 0,0 – 1,5). Um fichamento, em forma de tópicos, das ideias centrais de Maslow e Rogers (nota: 0,0 – 1,5). Seminários (5,0 pontos) DIGITADA: ITEM AVALIAÇÃO NOTA O QUE SE REQUER Texto digitado (5-6 páginas) Grupo 1,0 Texto digitado nas normas técnicas. A nota é para todo o grupo. Entrega na apresentação. Participação Individual 1,0 Todos os integrantes devem estar em sala e apresentar, Domínio tema Individual 1,5 O(a) aluno(a) deve demonstrar que estudou e tem domínio do assunto apresentado. Resposta às perguntas Grupo 1,5 O grupo será sabatinado: qualquer pergunta, sobre qualquer assunto para qualquer integrante. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 4 ORIENTAÇÕES IMPORTANTES MIA1 - MANUAL INFORMATIVO DO ALUNO - SÍNTESE OBS 1. Nenhum aluno poderá assistir aulas sem que tenha [assinado] o “Contrato de Prestação de Serviços” e preenchido …o plano de estudos..(p. 11) XI - A LICENÇA ESPECIAL SERÁ CONCEDIDA NAS SEGUINTES SITUAÇÕES: (p. 13) a) doenças diversas (Dec. Lei 1.044/69) b) gestantes (Lei 6.202/75) c) Qualquer solicitação do aluno referente aos benefícios … deverá ser feita por intermédio de requerimento, na Tesouraria da Universidade. O interessado deverá procurar o Protocolo... Portanto, não cabe ao Professor receber/apreciar/aceitar atestado médico em nenhuma circunstância. DAS AVALIAÇOES E FREQUÊNCIA (p. 19-21) I – O aluno será submetido a 3 (três) avaliações no semestre: a) V1 = toda a matéria dada até a data da prova (valor de 0 a 10 x 2); b) VT = verificação de trabalhos individuais ou em grupo (valor de 0 a 10); c) V2 = toda a matéria ministrada no semestre (valor de 0 a 10 x 2). III – A VS não poderá ter aproveitamento inferior a 5 (cinco) V – Em qualquer caso, o aluno deverá ter o mínimo de 75% (setenta e cinco por cento) de frequ ̈.ncia nos cursos presenciais (MEC). § 2º - O aluno só terá direito a realizar 2ª chamada de no máximo duas disciplinas de uma das avaliações (VI ou VII). O discente terá 48h para requerer 2a. Chamada. Após, precisará de dois procedimentos: Recurso Acadêmico; (se for deferido) Pedido de 2a. chamada. Não existe segunda chamada de VT ou de VS. Exceto em caso de LICENÇA ESPECIAL. Não deixe de ler o MIA e conhecer seus DIREITOS e OBRIGAÇÕES! 1 Disponível em http://www.universo.edu.br/portal/goiania/files/ 2010/ 11/ MIA-2-2013-em- 28-05-2013.pdf. Acessado em 01/08/13. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 5 PARTE I FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA PSICOLOGIA HUMANISTA Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 6 1. EXISTENCIALISMO 1.1 CONCEITO O existencialismo é uma corrente filosófica que busca o conhecimento da realidade através da experiência imediata da própria existência. Não existe, no entanto, nenhuma teoria precisa ou exata que defina o que quer dizer existencialismo. O que é dado por certo é que este movimento da filosofia destaca o ser humano individual como criador do significado da sua vida. A temporalidade do sujeito, a sua existência concreta no mundo, é aquilo que constitui o ser e não uma suposta essência mais abstrata. Os existencialistas não concordam que o indivíduo seja uma parte de um todo. São antes da opinião de que cada ser humano é uma integridade livre por si mesma. A existência própria de uma pessoa (a sua vivência) é o que define a sua essência e não uma condição humana geral. Por outras palavras, o ser humano existe a partir do momento em que é capaz de formular qualquer tipo de pensamento. O pensamento faz com que a pessoa seja livre: sem liberdade, não há lugar à existência. Esta mesma liberdade faz com que o indivíduo seja responsável pelos seus atos. Há, por conseguinte, uma ética da responsabilidade individual. A pessoa deve assumir os atos que realiza no exercício da sua liberdade. 1.2 DIVISÃO Esta corrente pode dividir-se em diversas escolas, como: existencialismo teísta (reflete sobre a existência de Deus e do Espírito, Gabriel Marcel); o existencialismo ateu (nega o divino - Sartre ,1905-1980; e Albert Camus 1913-1960); e o existencialismo agnóstico (considera que a existência de Deus é irrelevante para a existência humana). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 7 EXERCITANDO A REFLEXÃO - EXISTENCIALISMO 1. O que caracterizou a Filosofia entre os séculos IV a.C e o século XVIII d.C. Explique. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2 Conceitue existencialismo. ____________________________________________________________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Cite as divisões do existencialismo e indique os autores que integram cada uma. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. Como o existencialismo trata a questão da liberdade? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 8 1.3 SÖREN KIERKGAARD 2 (1813-1855) Toda obra de Kierkegaard é a pura expressão de sua própria vida. Seu pensamento surgiu da luta de consciência perante sua condição de existir. A condição absoluta de sua filosofia, e até a única razão de seu viver, estava na relação estreita entre existir como pessoa e a consciência desse existir. Foi, na verdade, o primeiro representante da filosofia existencial e o primeiro a se preocupar em compreender a existência. Kierkegaard defendia a ideia de que existe uma verdade subjetiva: “uma verdade que seja pra mim encontrar uma ideia pela qual eu possa viver ou morrer” (1974). Sua religião – luterana – se opunha a esta concepção. Tornou-se um filósofo solitário por não conseguir se adaptar às ideias religiosas então impostas, assim como pela angústia do pecado e da sensualidade que o invadiam na época. A filosofia resumia-se na tomada de consciência das exigências absolutas feitas a qualquer pessoa que quisesse viver uma existência verdadeiramente autêntica. Para ele, pensar não é existir, mas tornar-se um espectador dessa vivência. Oposto ao racionalismo de Descartes. No racionalismo, o sujeito é objeto para si mesmo, deixando de existir como pessoa, e é ai que reside a grande diferença de Kierkegaard: o sujeito e o objeto são uma coisa só, ou melhor, são partes de uma mesma estrutura. Basta compreender-se existindo; viver a experiência ao invés de observá-la de fora. A verdade é própria existência, não havendo, por isso, uma verdade absoluta. Ela existe para o indivíduo na medida em que, por ação, a produz. A escolha constitui uma das noções mais importantes de sua filosofia, pois era vista como uma espécie de núcleo da existência humana. A escolha é desprovida de lógica, mas não de um sentido psicológico: o que o indivíduo faz, depende do que ele quer, do que ele escolhe, não do que compreende. Entretanto, nenhuma opção se realiza sem angústia. Cada escolha é um risco pela sua própria incerteza. Existir é escolher-se. Sendo artífice de si mesmo, realizando a sua essência, uma pessoa se expõe ao risco. A escolha é necessária e livre: o indivíduo 2 Disponível em: http://psicologado.com/abordagens/humanismo/existencialismo-sorenaabyekierkegaard# ixzz3A2UxiiDv Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 9 é obrigado a fazer opções para existir, embora essas opções não sejam constrangedoras. Ao mesmo tempo, existir implica em angústia e desespero. A obrigação de escolher, assim como o risco a que se está exposto, desespera. 1.3.1 Os três estágios da existência humana Analisando a existência humana, percebe que essa se processa em três estágios: estético, ético e religioso. Não se tratam de estados que todos os indivíduos passariam sucessivamente, mas opções que cada um realiza no decorrer da existência. 1.3.1.1 Estético O primeiro, estético, é causado por um hedonismo onde impera a dor e o tédio. Buscando um sentido para a sua existência, o indivíduo se coloca ao sabor dos impulsos. As possibilidades que o indivíduo realiza neste modo de vida não proporcionam uma realização plena, mas apenas uma atualização transitória. A ameaça do tédio é uma constante neste estágio, o que pode conduzir ao desespero. 1.3.1.2 Ético O segundo estágio é o ético. Diante disso, e frustrado em seu objetivo, o indivíduo passa para o segundo estágio. Este está ligado ao dever, às regras e às exigências a que o indivíduo está exposto. O mais importante aí não é a quantidade de dever, mas a sua intensidade sentida pelo indivíduo. A liberdade agora está limitada pelo social. O extremo da etapa ética leva à contradição. Com a ideia de pecado, essa etapa fracassa, pois surge o arrependimento, sentimento supremo nesse momento. 1.3.1.3 Religioso O religioso é o terceiro estágio. Acredita-se então que é necessário ultrapassar esse estágio, chegando à outra etapa, a religiosa. Neste caso, a escolha Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 10 do indivíduo independe de critérios pulsivos, racionais ou ainda de regras universais. Entretanto, o desespero e a ansiedade são fortes sinais que ajudam o indivíduo a escolher. É pela religiosidade que o indivíduo atinge uma relação com o Absoluto e encontra a existência que tanto almeja. 1.3.2 Angústia Falar do sentido existencial da angústia é enfatizar a centralidade da questão. Não pode ser equiparada a inquietação, ansiedade ao temor ou desespero. A angústia abordada por Kierkegaard é a angústia existencial que não é momentânea nem tem um objeto específico. 1.3.2.1 Angústia A partir de Kierkegaard o tema da angústia assume uma importância central dentro da filosofia, sobretudo para a corrente existencialista, da qual ele é considerado o iniciador. A angústia está ligada ao nada, ao vazio. Neste estado o sujeito é pura possibilidade, ainda não está determinado. Segundo Kierkegaard, a angústia é a vertigem da liberdade. O indivíduo sente ao mesmo tempo uma repulsa e uma atração. Daí Kierkegaard dizer ser a angústia ambígua e que tem uma importância não só filosófica como também teológica. A angústia torna-se uma categoria fundamental para Kierkegaard expor a natureza do pecado. Em O conceito de angústia, Kierkegaard redefine a angústia como sendo: " uma determinação do espírito sonhador (...) é a realidade da liberdade como puro possível” (Kierkegaard, 1968, p. 45). A origem da angústia Kierkegaard começa sua análise do conceito de angustia a partir do [relato] da queda de Adão e Eva. De acordo com Kierkegaard eles são colocados diante da possibilidade de escolher. [A escolha que fazem os levam] à queda... [Mas é pela “escolha” que] eles entram na existência. Ou seja ... a existência humana implica [em] decisão, escolha. [A existência] não [é] mais determinada pela natureza. Enquanto [Adão e Eva] no Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 11 paraíso eles não conheciam a possibilidade da escolha. Assim, é a partir da queda que a angustia instaura sua morada na existência, torna-se presente no ser humano e o homem será desde então um ser angustiado. O Homem é pura “possibilidade” [antes de escolher] Segundo Kierkegaard o homem em um primeiro momento é pura possibilidade, neste estágio, o que existe é o nada. E afirma Kierkegaard em O Conceito de Angúsita: Porém existe, ao mesmo tempo, outra coisa que, entretanto, não é perturbação nem luta, porque não existe nada com que lutar. O que existe então? Nada. Que efeito produz, porém este nada? Este nada dá nascimento à angustia. (Kierkegaard. 1968. P. 45) Kierkegaard escreve que Adão e Eva, ainda no paraíso, no estado de inocência, foram advertidospara não comerem do “fruto de uma árvore” do conhecimento. Eles não podiam entender do que se tratava, porém, esta advertência, ou melhor a proibição é que desperta neles a possibilidade de liberdade. Neste momento eles são repelidos e ao mesmo tempo atraídos por esta situação. Eles estão agora diante da possibilidade de fazerem uma escolha; a proibição desperta-lhes o desejo de ser como “Deus”, estão diante de uma possibilidade. A proibição desperta neles o desejo de conhecer. 1.3.3 Desespero Ao lado da angustia, Kierkegaard coloca também outra categoria humana, que é o desespero. O desespero humano está ligado ao fracasso da condição, do absurdo, do paradoxo, ou seja, o homem é finito e ao mesmo tempo deseja o infinito, quer transcender a essa condição de finitude. De acordo com a filosofia kierkegaardiana, o desespero surge quando o espírito quer a síntese de finito (matéria) e infinito (espírito) para surgir o “eu existencial ”. O Homem é finitude (matéria)-infinitude (espírito) O homem é o único ser que jamais consente-se o que é; assim, ele está sempre buscando, ele é desejo, é busca. Somente ele sente profundamente o vazio de sua existência. Não aceita a sua existência como simples trajetória entre o nascer e o morrer. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 12 E é justamente neste ponto que repousa a sua (i) grandeza e seu (ii) problema. Sua grandeza porque sendo finito (matéria) e infinito (espirito), “porque o EU é uma síntese de finito que delimita e de infinito que ilimita” (KIERKEGAARD, 1988, p. 208) ele tem que administrar esta tensão entre estes dois elementos para construir formas de dar sentido à sua existência, para que esta não se reduza a um simples “estar no mundo”. O problema é que esta situação faz do homem um “eterno viajante” em busca de sentido para sua vida, para construir uma existência autêntica. 1.3.4 A angústia positiva (“salto qualitativo” - o caso de Abraão3) Em Temor e tremor, Kierkegaard chama atenção para o cavaleiro da fé, que é diferente do herói. Segundo ele, não obstante todas as glórias conquistadas pelo herói, estas ainda não se aproximam daquilo que é o ideal de homem, o cavaleiro da fé, que nesta obra de Kierkegaard é representado por Abraão. Soa estranho quando Abraão decide oferecer seu único filho, o filho da promessa em sacrifício a Deus. Aqui, não fala mais a moralidade, pois Abraão naquele momento está na instância da fé, Ele vive a angústia mas silencia, descreve Kierkegaard, por isso ele afirma que “a fé é esse paradoxo, e o indivíduo não pode de forma alguma fazer-se compreender por ninguém” (Kierkegaard. 1959, p.126) I E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas que te indicarei. Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, albardou os burros, deixou a sua casa com Isaac, enquanto da janela Sara os via descer pelo vale até se perderem de vista. Caminharam em silêncio durante três dias. Na manhã do Segto dia, Abraão continuou sem dizer palavra, mas, erguendo o olhar, viu ao longe os montes de Morija. Despediu então os servidores e, tomando Isaac pela mão, trepou pela montanha. E Abraão dizia para si: Não posso mais ocultar-lhe aonde conduz este andar. Deteve-se, pousou a mão sobre a cabeça do filho para abençoa-lo e Isaac inclinou-se para receber a bênção. O rosto de Abraão era o de um bom pai: o olhar doce e a voz exortavam. Mas Isaac não podia compreendê-lo; a sua alma não lograva elevar-se tão alto; abraçou os joelhos de Abraão, rojou-se-lhe aos pés, pediu-lhe piedade, implorou 3 KIERKGAARD, S. A. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho. São Paulo: Abril editora. 1 ed. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 13 pela sua juventude e pelas mais doces esperanças, falou das alegrias da casa paterna, evocou a tristeza e a solidão. Então Abraão levantou-o, pegou-lhe na mão e caminhou e a sua voz exortava e consolava. Mas Isaac não podia compreendê-lo. Abraão subiu a montanha de Morija; Isaac não o compreendia. Foi então que, tendo-se afastado um pouco do filho, Isaac lhe tornou a ver o rosto, desta vez alterado, o olhar feroz, as feições aterradoras. Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o por terra e disse-lhe: - Estúpido! Supões que sou teu pai? Sou um idólatra! Crês que obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece! Então Isaac fremente e com grande angústia, gritou: - Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra! Mas Abraão ciciava: Deus do Céu, dou-te graças. Vale mais que me julgue um monstro do que perca a fé em ti. Quando chega o tempo do desmame, a mãe enegrece o seio, porque manter o seu atrativo será prejudicial ao filho que o deve abandonar. Assim ele acredita que a mãe mudou, embora o coração dela continue firme e o olhar conserve a mesma ternura e amor. Feliz aquele que não tenha de recorrer a meios ainda mais terríveis para desmamar o seu filho! II Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, abraçou Sara, companheira da sua velhice, e Sara deu um beijo a Isaac, que a havia preservado do escárnio e era seu orgulho e esperança para toda a posteridade. Caminharam em silêncio. Abraão conservou o olhar obstinadamente fixo no solo até o Segto dia. Só então levantou os olhos e vendo no horizonte a montanha de Morija, baixou-os de novo. Em silêncio preparou o holocausto e ligou Isaac; em silêncio puxou da faca; então viu o carneiro que Deus provera. Sacrificou-o e regressou... A partir desse dia Abraão envelheceu; não pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira. Isaac foi crescendo, mas os olhos de Abraão haviam perdido o brilho; nunca mais tornou a ver a alegria. Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mãe. Feliz o filho que não perdeu a mãe de outro modo! 1.3.4 O totalmente Outro Se o homem não possuísse consciência eterna, se um poder selvagem e efervescente produtor de tudo, grandioso ou fútil, no torvelinho das paixões obscuras, existisse só no fundo de todas as coisas; se sob elas se escondesse infinito vazio que nada pudesse encher, que seria da vida senão o desespero? Se assim fosse, se um vínculo sagrado não cingisse a humanidade; se as gerações se não renovassem como se renovam as folhas das florestas; se umas atrás das outras se fossem extinguindo como o canto dos pássaros nos bosques, atravessando o mundo como a nave o oceano, ou o vento o deserto estéril e cego; se o esquecimento eterno, sempre esfomeado, tivesse força suficiente para lhe arrebatar a presa espiada, quão vã e desoladora seria a vida! Mas tal não é o caso. É da doutrina Kierkegaardiana que os filósofos existenciais derivam seus conceitos. Precisavam, no entanto, de um método de reflexão e de análise apropriado, e foram buscá-lo em Edmond Husserl. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 14 EXERCITANDO A REFLEXÃO - KIERKGAARD 1. Quais os estágios da existência, segundo Kierkegaard? Explique-os ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. Como Kierkegaard compreende a “angústia”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Segundo o autor, qual a origem da angústia? ____________________________________________________________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. O que é o “desespero” na filosofia de Kierkegaard? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 5. Explique a angústia positiva e o “salto qualitativo” em kierkegaard. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 6. Quais os temas da teologia cristã estão presentes no pensamento kierkgaardiano? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 15 1.4 FRIEDRICH NIETZSCHE4 O contexto histórico de sedimentação das Ciências é de fundamental importância para compreender aspectos importantes do pensamento de Nietzsche. 1.4.1 Vontade de potência O mundo é a vontade de poder, e nada mais. É o segredo de toda a força psíquica, orgânica ou mecânica, e a sua essência é a expansão e a dominação. No entanto, a vontade de poder não vai até ao fim de si mesma em todos os seres, é susceptível de graus e de qualidades diferentes. E como todos os juízos de valor que o homem faz expressam a sua vontade de poder, o valor das suas apreciações depende da qualidade desta vontade. Daí a possibilidade de estabelecer uma hierarquia axiológica que representa o retorno das velhas tabelas de valores. O que é que é bom? Tudo aquilo que eleva no homem o sentimento do poder, a vontade de poder. O que é que é mau? Tudo o que provém da fraqueza. Ora, é a fraqueza que é a fonte de todos os valores comumente recebidos e, em primeiro lugar, dos valores morais e religiosos: o amor pelos inimigos, a humildade, a piedade são características de almas "moles" e servis. Isto não quer dizer que os seres medíocres não tenham vontade de poder: têm-na, só que se encontra disfarçada no seu contrário, degradada, e envereda pelas vias sinuosas do ressentimento. Oprimidos e humilhados pelos fortes, os fracos vingam-se desacreditando a força e exaltando a debilidade e a pequenez. Os valores ligados à crença no verdadeiro têm também origem na fraqueza: é o ressentimento contra o mundo real que leva o filósofo a identificar o ser verdadeiro com o suprassensível; por outro lado, Nietzsche vê no homem objetivo, impessoal, que se quer mero espelho dos fatos, uma "espécie de escravo", um instrumento de precisão não uma vontade. Como é que se pode restabelecer e "elevar" no homem a vontade de poder? Pela negação da existência de qualquer outro mundo e pelo sentido da terra. Pela renúncia ao culto da verdade, que paralisa a vontade criadora e prejudica a vida, que tem como suportes necessários a ilusão e o erro: aliás, um 4 Maurice Dupuy, A Filosofia Alemã, trad. Rosa Carreira, Edições 70, Lisboa, 1987, pp. 75-78 Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 16 mundo identificador com a vontade de poder, isto é, com o devir não pode proporcionar um conhecimento verdadeiro; se tudo é fluido e fugidio, não há fatos, há unicamente interpretações que variam conforme as perspectivas. Por último, o homem superior não deve pactuar com as "virtudes" dos fracos, deve libertar-se da má consciência, amar-se a si mesmo e ousar ser ele próprio; para criar e impor os seus valores, "é necessário ser-se duro e capaz de infligir grandes sofrimentos": não por egoísmo, mas por "amor do longínquo", do futuro, pelo qual se sente responsável. Deve também dominar-se a si mesmo e modelar-se, pois o "tipo homem" só pode ser elevado pela "arte perpétua de se vencer a si mesmo". O desabrochar da autêntica vontade de poder anuncia e prepara a aparição do super-humano anunciado por Zaratrusta: "Um dia virá até nós esse homem libertador... esse antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada." A sua adesão total à vida e ao amor do destino darão origem a uma alegria que de modo algum impedirá a aquiescência à dor. 1.4.2 Eterno retorno do mesmo Mas "a alegria quer a eternidade". Num mundo onde o devir é a única realidade, esta eternidade só é concebível sob a forma do eterno retorno do mesmo: "Homem, reencontrarás cada uma das tuas dores e cada uma das tuas alegrias." Assumir este pensamento que imprime ao devi r o carácter do ser, querê- -lo constantemente, é a mais alta expressão de afirmação de vida e a forma superior de vontade de poder.» Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 17 EXERCITANDO A REFLEXÃO - NIETZSCHE 1. O que é a “vontade de potencia” em Nietzsche? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. Segundo Nietzsche, por que não são todos os homens que desenvolvem a vontade de potência? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Como Nietzsche interpreta as virtudes cristãs? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. O que é o “eterno retorno no mesmo” ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 18 1.5 JEAN-PAUL SARTRE: O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO5 “Gostaria de defender, aqui, o existencialismo de uma série de críticas que lhe foram feitas. Em primeiro lugar, acusaram-no de incitar as pessoas a permanecerem no imobilismo do desespero; todos os caminhos estando vedados, seria necessário concluir que a ação é totalmente impossível neste mundo; tal consideração desembocaria, portanto, numa filosofia contemplativa – o que, aliás, nos reconduz a uma filosofia burguesa, visto que a contemplação é um luxo. São estas, fundamentalmente, as críticas dos comunistas. Por outro lado, acusaram-nos de enfatizar a ignomínia humana, de sublinhar o sórdido, o equívoco, o viscoso, e de negligenciar certo número de belezas radiosas, o lado luminoso da natureza humana; por exemplo, segundo a senhorita Mercier, crítica católica, esquecemos o sorriso da criança. Uns e outros nos acusam de haver negado a solidariedade humana, de considerar que o homem vive isolado; segundo os comunistas, isso se deve, em grande parte, ao fato de nós partirmos da pura subjetividade, ou seja, do penso cartesiano, ou seja ainda, do momento em que o homem se apreende em sua solidão – o que me tornaria incapaz de retornar, em seguida, à solidariedade com os homens queexistem fora de mim e que eu não posso alcançar no cogito. Na perspectiva cristã, somos acusados de negar a realidade e a seriedade dos empreendimentos humanos, já que, suprimindo os mandamentos de Deus e os valores inscritos na eternidade, resta apenas a pura gratuidade; cada qual pode fazer o que quiser, sendo incapaz, a partir de seu 1ª. CRÍTICA ......................... ......................... ........................ 2ª. CRÍTICA ......................... ......................... ........................ 3ª. CRÍTICA ......................... ......................... ........................ 5 SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 19 ponto de vista, de condenar os pontos de vistas e os atos alheios. Tais são as várias acusações a que procuro hoje responder e a razão que me levou a intitular esta pequena exposição de: “O Existencialismo é um Humanismo”. Muitos poderão estranhar que falemos aqui de humanismo. Tentaremos explicitar em que sentido o entendemos. De qualquer modo, o que podemos desde já afirmar é que concebemos o existencialismo como uma doutrina que torna a vida humana possível e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação implicam um meio e uma subjetividade humana. A crítica básica que nos fazem é, como se sabe, de enfatizarmos o lado negativo da vida humana. Contaram-me, recentemente, o caso de uma senhora que, tendo deixado escapar, por nervosismo, uma palavra vulgar, se desculpou dizendo: “Acho que estou ficando existencialista”. A feiura é, por conseguinte, assimilada ao existencialismo e é por isso que dizem sermos naturalistas. Se o somos, é estranho que assustemos e escandalizemos muito mais do que o naturalismo propriamente dito assusta ou escandaliza hoje em dia. Aqueles que digerem tranquilamente um romance de Zola, como A Terra, ficam repugnados quando leem um romance existencialista; outros, que se utilizam da sabedoria das nações – profundamente tristes –, acham-nos mais tristes ainda. Mas será que existe algo mais desesperançado do que o provérbio: “A caridade bem dirigida começa por si próprio”, ou “Ama quem te serve e serás desprezado; castiga quem te serve e serás amado”? São notórios os lugares-comuns que podem ser utilizados neste assunto e que significam sempre a mesma coisa: não se deve lutar contra os poderes estabelecidos, não se deve lutar contra a força, não se deve dar passos maiores do que as pernas, toda ação que não se insere O existencialismo torna a vida humana possível Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 20 numa tradição é romantismo, toda ação que não se apóia numa experiência comprovada está destinada ao fracasso; e a experiência mostra que os homens tendem sempre para o mais baixo e que são necessários freios sólidos para detê-los, caso contrário instala-se a anarquia. No entanto, as pessoas que ficam repetindo esses tristes provérbios são as mesmas que acham muito humano todo e qualquer ato mais ou menos repulsivo, as mesmas que se deleitam com canções realistas: são estas as pessoas que acusam o existencialismo de ser demasiado sombrio, a tal ponto que eu me pergunto se elas não o censuram, não tanto pelo seu pessimismo, mas, justamente pelo seu otimismo. Será que, no fundo, o que amedronta na doutrina que tentarei expor não é fato de que ela deixa uma possibilidade de escolha para o homem? Para sabê- lo, precisamos recolocar a questão no plano estritamente filosófico. O que é o existencialismo? A maioria das pessoas que utilizam este termo ficaria bastante embaraçada se tivesse de justificá-lo: hoje em dia a palavra está na moda e qualquer um afirma sem hesitação que tal músico ou tal pintor é existencialista. Um cronista de Clartés assina o Existencialista. Na verdade, esta palavra assumiu atualmente uma amplitude tal e uma tal extensão que já não significa rigorosamente nada. Está parecendo que, na ausência de uma doutrina de vanguarda análoga ao surrealismo, as pessoas, ávidas de escândalo e de agitação, estão se voltando para esta filosofia, que, aliás, não pode ajudá-la em nada nesse campo; o existencialismo, na realidade, é a doutrina menos escandalosa e a mais austera; ela destina-se exclusivamente aos técnicos e aos filósofos. Todavia, pode ser facilmente definida. O que torna as coisas complicadas é a existência de dois tipos de existencialistas: por um lado, os cristãos – entre O que é existencialismo? Divisão do existencialismo Para todos os existencialista a existência precede a essência. Analogia do corta-papel Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 21 os quais colocarei Jaspers e Gabriel Marcel, de confissão católica – e, por outro, os ateus – entre os quais há que situar Heidegger, assim como os existencialistas franceses e eu mesmo. O que eles têm em comum é simplesmente o fato de todos considerarem que a existência precede a essência, ou, se se preferir, que é necessário partir da subjetividade. O que significa isso exatamente? Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um livro ou um corta-papel; esse objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito; tinha, como referencias, o conceito de corta-papel assim como determinada técnica de produção, que faz parte do conceito e que, no fundo, é uma receita. Desse modo, o corta-papel é, simultaneamente, um objeto que é produzido de certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida: seria impossível imaginarmos um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que tal objeto iria servir. Podemos assim afirmar que, no caso do corta-papel, a essência – ou seja, o conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição – precede a existência; e desse modo, também, a presença de tal corta- papel ou de tal livro na minha frente é determinada. Eis aqui uma visão técnica do mundo em função da qual podemos afirmar que a produção precede a existência. Ao concebermos um Deus criador, identificamo-lo, na maioria das vezes, com um artífice superior, e, qualquer que seja a doutrina que considerarmos – quer se trate de uma doutrina como a de Descartes ou como a de Leibniz –, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos o entendimento ou, no mínimo, que o acompanha, e que Deus, quando cria, sabe precisamente o que está criando. Assim, o conceito de homem, no espírito de Deus, é assimilável ao Aplicação da analogia segundo os cristãos O “ateísmo” dos filósofos até o século XVIII não eliminou os valores Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 22 conceito de corta-papel, no espírito do industrial; e Deus produz o homem segundo determinadas técnicas e em função de determinada concepção, exatamente como o artífice fabrica um corta-papel segundo uma definição e uma técnica. Desse modo, o homem individual materializa certo conceito que existe na inteligência divina. No século XVIII, o ateísmo dos filósofos elimina a noção de Deus, porém não suprime a ideia de que a essência precede a existência. Essa é uma ideia que encontramos com frequência: encontramo-la em Diderot, em Voltaire e mesmo em Kant. O homem possui uma natureza humana; essa natureza humana, que é o conceitohumano, pode ser encontrada em todos os homens, o que significa que cada homem é um exemplo particular de um conceito universal: o homem. Em Kant, resulta de tal universalidade que o homem da selva, o homem da Natureza, tal como o burguês, devem encaixar-se na mesma definição, já que possuem as mesmas características básicas. Assim, mais uma vez, a essência do homem precede essa existência histórica que encontramos na Natureza. O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Afirma que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem, ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para O significado da “existência preceder a essência” Não existe “natureza humana” porque “não existe Deus” O homem é suas escolhas O homem é o que se projeta no futuro Não há um “acima” nem um “abaixo”. Só há o Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 23 concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que chamamos de subjetividade: a subjetividade de que nos acusam. Porém, nada mais queremos dizer senão que a dignidade do homem é maior do que a da pedra ou da mesa. Pois queremos dizer que o homem, antes de mais nada, existe, ou seja, o homem é, antes de mais nada, aquilo que se projeta num futuro, e que tem consciência de estar se projetando no futuro. De início, o homem é um projeto que se vive a si mesmo subjetivamente ao invés de musgo, podridão ou couve-flor; nada existe antes desse projeto; não há nenhuma inteligibilidade no céu, e o homem será apenas o que ele projetou ser. Não o que ele quis ser, pois entendemos vulgarmente o querer como uma decisão consciente que, para quase todos nós, é posterior àquilo que fizemos de nós mesmos. Eu quero aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso são manifestações de uma escolha mais original, mais espontânea do que aquilo a que chamamos de vontade. Porém, se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência. Assim, quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. A palavra subjetivismo tem dois significados, e os nossos adversários se aproveitaram desse duplo sentido. Subjetivismo significa, por um lado, homem e suas escolhas. O homem é inteiramente responsável pelo que é. A escolha de um indivíduo implica todos os homens. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 24 escolha do sujeito individual por si próprio e, por outro lado, impossibilidade em que o homem se encontra de transpor os limites da subjetividade humana. É esse segundo significado que constitui o sentido profundo do existencialismo. Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. Se, por outro lado, a existência precede a essência, e se nós queremos existir ao mesmo tempo que moldamos nossa imagem, essa imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Portanto, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira. Se eu sou um operário e se escolho aderir a um sindicato cristão em vez de ser comunista, e se, por essa adesão, quero significar que a resignação é, no fundo, a solução mais adequada ao homem, que o reino do homem não é sobre a terra, não estou apenas engajando a mim mesmo: quero resignar-me por todos e, portanto, a minha decisão engaja toda a humanidade. Numa dimensão mais individual, se quero casar-me, ter filhos, ainda que esse casamento dependa exclusivamente de minha situação, ou de minha paixão, ou de meu desejo, escolhendo o casamento estou engajando não apenas a mim mesmo, mas a toda a humanidade, na trilha da monogamia. Sou, desse modo, responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada Conceitos exustencialistas de: Angustia: .............................. .............................. .............................. .............................. .............................. .............................. .............................. .............................. .............................. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 25 imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem. Tudo isso permite-nos compreender o que subjaz a palavras um tanto grandiloquentes como angústia, desamparo, desespero. Como vocês poderão constatar, é extremamente simples. Em primeiro lugar, como devemos entender a angústia? O existencialista declara frequentemente que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade. É fato que muitas pessoas não sentem ansiedade, porém nós estamos convictos de que estas pessoas mascaram a ansiedade perante si mesmas, evitam encará-la; certamente muitos pensam que, ao agir, estão apenas engajando a si próprios e, quando se lhes pergunta: mas se todos fizessem o mesmo?, eles encolhem os ombros e respondem: nem todos fazem o mesmo. Porém, na verdade, devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós? e não podemos escapar a essa pergunta inquietante a não ser através de uma espécie de má fé. Aquele que mente e que se desculpa dizendo: nem todo mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência, pois o fato de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. Mesmo quando ela se disfarça, a angústia aparece. É esse tipo de angústia que Kierkegaard chamava de angústia de Abraão. Todos conhecem a história: um anjo ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Está tudo certo se foi realmente um anjo que veio e disse: tu és Abraão e sacrificarás teu filho. Porém, para começar, cada qual pode perguntar-se: Angústia de AbraãoTeoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 26 será que era verdadeiramente um anjo? ou: será que sou mesmo Abraão? Que provas tenho? Havia uma louca que tinha alucinações: falavam-lhe pelo telefone dando-lhe ordens. O médico pergunta: “Mas afinal, quem fala com você?” Ela responde: “Ele diz que é Deus”. Que provas tinha ela que, de fato, era Deus? Se um anjo aparece, como saberei que é um anjo? E se escuto vozes, o que me prova que elas vêm do céu e não do inferno, ou do subconsciente ou de um estado patológico? O que prova que elas se dirigem a mim? Quem pode provar-me que fui eu, efetivamente, o escolhido para impor a minha concepção do homem e a minha própria escolha à humanidade? Não encontrei jamais prova alguma, nenhum sinal que possa convencer-me. Se uma voz se dirige a mim, sou sempre eu mesmo que terei de decidir que essa voz é a voz do anjo; se considero que determinada ação é boa, sou eu mesmo que escolho afirmar que ela é boa e não má. Nada me designa para ser Abraão, e, no entanto, sou a cada instante obrigado a realizar atos exemplares. Tudo se passa como se a humanidade inteira estivesse de olhos fixos em cada homem e se regrasse por suas ações. E cada homem deve perguntar a si próprio: sou eu, realmente, aquele que tem o direito de agir de tal forma que os meus atos sirvam de norma para toda a humanidade? E, se ele não fazer a si mesmo esta pergunta, é porque estará mascarando sua angústia. Não se trata de uma angústia que conduz ao quietismo, à inação. Trata-se de uma angústia simples, que todos aqueles que um dia tiveram responsabilidades conhecem bem. Quando, por exemplo, um chefe militar assume a responsabilidade de uma ofensiva e envia para a morte certo número de homens, ele escolhe fazê- lo, e, no fundo, escolhe sozinho. Certamente, algumas ordens vêm de cima, porém são abertas demais e exigem uma A angustia existencial não a mesma angústia psíquica A angústia gera ação, engajamento Desamparo: Deus não existe e isso deve ser levado às últimas consequências No existencialismo, A negação de Deus deve ser, também, a negação de toda moral. Diferente- mente da negação de Deus dos séculos anteriores Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 27 interpretação: é dessa interpretação – responsabilidade sua – que depende a vida de dez, catorze ou vinte homens. Não é possível que não exista certa angústia na decisão tomada. Todos os chefes conhecem essa angústia. Mas isso não os impede de agir, muito pelo contrário: é a própria angústia que constitui a condição de sua ação, pois ela pressupõe que eles encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, eles se deem conta de que ele não tem nenhum valor a não ser o de ter sido escolhido. Veremos que esse tipo de angústia – a que o existencialismo descreve – se explica também por uma responsabilidade direta para com os outros homens engajados pela escolha. Não se trata de uma cortina entreposta entre nós e a ação, mas parte constitutiva da própria ação. Quando falamos de desamparo, expressão cara a Heidegger, queremos simplesmente dizer que Deus não existe e que é necessário levar esse fato às últimas consequências. O existencialista opõe-se frontalmente a certo tipo de moral laica que gostaria de eliminar Deus com o mínimo de danos possível. Quando, por volta de 1880, os professores franceses tentaram constituir uma moral laica, disseram mais ou menos o seguinte: Deus é uma hipótese inútil e dispendiosa; vamos suprimi-la: porém, é necessário – para que exista uma moral, uma sociedade, um mundo policiado – que certos valores sejam respeitados e considerados como existentes a priori; é preciso que seja obrigatório, a priori, ser honesto, não mentir, não bater na mulher, fazer filhos etc., etc. Vamos portanto realizar uma pequena manobra que nos permitirá demonstrar que esses valores existem, apesar de tudo, inscritos num céu inteligível, se bem que, como vimos, Deus não exista. É essa, creio eu, a tendência de tudo o que é chamado na França de Se não existe Deus, não existem valores, a não ser os que cada indivíduo cria para si. “Se não existe, tudo é permitido" (Dostoievski) “O homem está condenado a ser livre ... e é responsável por tudo que faz”. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 28 radicalismo: por outras palavras, a inexistência de Deus não mudará nada; reencontramos as mesmas normas de honestidade, de progresso, de humanismo e teremos assim transformado Deus numa hipótese caduca, que morrerá tranqüilamente por si própria. O existencialista, pelo contrário, pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori, já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em nenhum lugar que o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que só existem homens. Dostoievski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. O existencialismo não acredita no poder da paixão. Ele jamais admitirá que uma Cada homem tem um futuro a construir. Exemplo de desamparo Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 29 bela paixão é uma corrente devastadora que conduz o homem, fatalmente, a determinados atos, e que, consequentemente, é uma desculpa. Ele considera que o homem é responsável por sua paixão. O existencialista não pensará nunca, também, que o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois considera que é o próprio homem quem decifra o sinal como bem entende. Pensa, portanto, que o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a inventar o homem a cada instante. Ponge escreveu, num belíssimo artigo: “O homem é o futuro do homem”. É exatamente isso. Apenas, se por essas palavras se entender que o futuro está inscrito no céu, que Deus pode vê-lo, então a afirmação está errada, já que, assim, nem sequer seria um futuro. Se se entender que, qualquer que seja o homem que surja no mundo, ele tem um futuro a construir, um futuro virgem que o espera, então a expressão está correta. Porém, nesse caso, estamos desamparados. Tentarei dar-lhes um exemplo que permita compreender melhor o desamparo; contarei o caso de um dos meus alunos, que veio procurar-me nas seguintes circunstâncias: o pai estava brigando com a mãe e tinha tendências colaboracionistas; o irmão mais velhomorrera durante a ofensiva alemã de 1940; e esse jovem, com sentimentos um pouco primitivos, mas generosos, desejava vingá-lo. A mãe vivia só com ele, muito perturbada pela semitraição do pai e pela morte do filho mais velho, e ele era seu único consolo. Esse jovem tinha, naquele momento, a seguinte escolha: partir para a Inglaterra e alistar-se nas Forças Francesas Livres, ou seja abandonar a mãe, ou permanecer com a mãe e ajudá-la a viver. Ele tinha consciência de que a mãe só vivia em função dele e que o seu desaparecimento, talvez a sua morte, a mergulharia no desespero. Tinha também Sob qualquer circunstância, a decisão diante de qualquer dilema, e exclusivamente do individuo. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 30 consciência de que, no fundo, cada ato que ele fazia em relação à mãe tinha uma resposta concreta, no sentido de que ele a ajudava a viver, enquanto cada ato que ele fizesse para partir e combater seria ambíguo, poderia perder-se na areia, não servir para nada; por exemplo: partindo para a Inglaterra, ele poderia permanecer indefinidamente num campo espanhol ao passar pela Espanha; poderia chegar à Inglaterra, ou a Argel, e ser colocado num escritório preenchendo papéis. Encontrava- se, assim, perante dois tipos de ação muito diferentes; uma delas concreta, imediata, porém dirigida a um só indivíduo; a outra, dirigida a um conjunto infinitamente mais vasto, uma coletividade nacional, mas, por isso mesmo, ambígua, e podendo ser interrompida a meio caminho. Simultaneamente, ele hesitava entre dois tipos de moral. De um lado, uma moral da simpatia, da devoção individual; e, de outro lado, uma moral mais ampla, mas de uma eficácia mais contestável. Precisava escolher uma das duas. Quem poderia ajudá-lo a escolher? A doutrina cristã? Não. A doutrina cristã diz: sede caridosos, amai o próximo, sacrificai-vos por vosso semelhante, escolhei o caminho mais árduo etc., etc. Mas qual é o caminho mais árduo? Quem devemos amar como irmão, o combatente ou a mãe? Qual a utilidade maior: aquela, vaga, de participar de um corpo de combate, ou a outra, precisa, de ajudar um ser específico a viver? Quem pode decidir a priori? Ninguém. Nenhuma moral estabelecida tem uma resposta. A moral kantiana diz-nos: nunca trate os outros como um meio, trate-os como um fim. Muito bem; se eu ficar junto de minha mãe, estarei tratando-a como um fim e não como um meio, mas, por isso mesmo, estarei correndo o risco de tratar como meio aqueles que combatem à minha volta, e, vice-versa, se eu me juntar àqueles que combatem, estarei tratando-os como fim Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 31 e, pelas mesmas razões, posso estar tratando minha mãe como meio. Já que os valores são vagos e que eles são sempre amplos demais para o caso preciso e concreto que consideramos, só nos resta confiar em nosso instinto. Foi o que o jovem tentou fazer; e, quando nos encontramos, ele dizia: no fundo, o que conta é o sentimento; eu deveria escolher aquilo que verdadeiramente me impele em determinada direção. Se eu sentir que gosto da minha mãe o bastante para lhe sacrificar todo o resto – meu desejo de vingança, meu desejo de ação, meu desejo de aventuras –, fico com ela. Se, pelo contrário, eu sentir que meu amor por minha mãe não é suficiente, então eu parto. Mas como determinar o valor de um sentimento? O que é que constituía o valor do sentimento que ele tinha por sua mãe? Precisamente o fato de que ele permanecera, por ela. Posso dizer: amo tal amigo o suficiente para lhe sacrificar tal soma de dinheiro; mas só poderei dizê-lo se o fizer. Posso dizer: amo minha mãe o bastante para ficar junto dela; mas não posso determinar o valor dessa afeição a não ser, precisamente, que eu pratique um ato que a confirme e a defina. Ora, como eu desejo que esse afeto justifique os meus atos, acabo sendo arrastado num circulo vicioso. Por outro lado, Gide disse, e muito bem, que um sentimento representado e um sentimento vivido são duas coisas quase indiscerníveis: decidir que amo minha mãe ficando junto dela, ou representar uma comédia que me levará a ficar, por causa de minha mãe, é mais ou menos a mesma coisa. Por outras palavras: o sentimento constrói-se através dos atos praticados; não posso, portanto, pedir-lhe que me guie. O que significa que não posso nem procurar em mim mesmo a autenticidade que me impele a agir, nem buscar numa moral Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 32 os conceitos que me autorizam a agir. Vocês dirão: pelo menos, o jovem procurou o professor para pedir-lhe conselho. Porém, se vocês procurarem um padre, por exemplo, para que eles os aconselhe, vocês estarão escolhendo esse padre, e, no fundo, vocês já estarão sabendo, aproximadamente, o que ele lhes irá aconselhar. Ou seja: escolher o conselheiro é, ainda, engajar-se. A prova disso está em que, se vocês forem cristãos, dirão: consulte um padre. Existem, no entanto, padres colaboracionistas, padres oportunistas, padres resistentes. Qual deles escolher? E, se o jovem escolher um padre resistente ou um padre colaboracionista, já estará decidindo o tipo de conselho que irá receber. Assim, vindo procurar-me, ele sabia a resposta que eu lhe daria, e eu só tinha uma única resposta: você é livre; escolha, isto é, invente. Nenhuma moral geral poderá indicar-lhe o caminho a seguir; não existem sinais no mundo. Os católicos argüirão: sim, existem sinais. Admitamos que sim; de qualquer modo, ainda sou eu mesmo que escolho o significado que têm. Quando estive preso, conheci um homem assaz notável, que era jesuíta, havia ingressado na ordem dos jesuítas da seguinte forma: tinha experimentado uma série de dolorosos fracassos; ainda criança, seu pai morrera deixando-o pobre; entrou como bolsista numa instituição religiosa onde faziam questão de lembrar-lhe a todo instante que ele era aceito por caridade; em seguida, perdera diversas distinções honoríficas que tanto agradam às crianças; mais tarde, por volta dos dezoito anos, fracassou numa aventura sentimental; finalmente, aos vinte e dois anos, falhou em sua preparação militar, fato bastante pueril que, no entanto, constituiu a gota que fez transbordar o jarro. Esse jovem podia portanto considerar que fracassara em tudo; era um sinal, mas um sinal de quê? Poderia refugiar-se na O “desamparo” implica que nos escolhemos o nosso ser (essencia). Desamparo: não existe bondade humana. O indivíduo só pode contar com a própria vontade e com o que estiver no âmbito de suas possibilidades. Por não poder contar senão consigo próprio, o individuo deve “agir sem esperança”. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 33 amargura ou no desespero. Porém, muito habilmente para si próprio, considerou que seus insucessos eram um sinal de que ele não nascera para os triunfos seculares, e que só os triunfos da religião, da santidade, da fé, estavam ao seu alcance. Viu, portanto, nesse sinal, a vontade de Deus e ingressou na Ordem. Quem poderia deixar de perceber que a decisão sobre o significado do sinal foi tomada por ele e só por ele? Seria possível deduzir outra coisa dessa série de insucessos: por exemplo, que seria melhor se ele fosse carpinteiro ou revolucionário. Ele carrega, portanto, a total responsabilidadeda decifração. O desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia caminham juntos. Quanto ao desespero, trata-se de um conceito extremamente simples. Ele significa que só podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível. Quando se quer alguma coisa, há sempre elementos prováveis. Posso contar com a vinda de um amigo. Esse amigo vem de trem ou de ônibus; sua vinda pressupõe que o ônibus chegará na hora marcada e que o trem não descarrilhará. Permaneço no reino das possibilidades; porém, trata-se de contar com os possíveis apenas na medida exata em que nossa ação comporta o conjunto desses possíveis. A partir do momento em que as possibilidades que estou considerando não estão diretamente envolvidas em minha ação, é preferível desinteressar-me delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o mundo e seus possíveis à minha vontade. No fundo, quando Descartes afirmava: “É melhor vencermo-nos a nós mesmos do que ao mundo”, ele queria dizer a mesma coisa: agir sem esperança. Os marxistas, com quem conversei, retrucam-me: Não existe bondade humana porque não existe Deus. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 34 “Em sua ação, que estará, evidentemente, limitada por sua morte, você pode contar com a ajuda dos outros. Isso significa contar, simultaneamente, com o que os outros farão alhures para ajudá-lo, na China, na Rússia, e com o que eles farão mais tarde, depois de sua morte, para retomar sua ação e conduzi- la até sua completa realização, ou seja, à revolução. Você deve contar com isso, caso contrário estará demonstrando falta de moral”. Antes de mais nada devo dizer que contarei sempre com meus companheiros de luta, na medida em que esses companheiros estão engajados comigo numa luta concreta e comum, na unidade de um partido ou de um grupo que eu posso, em linhas gerais, controlar; ou seja, ao qual eu pertenço como militante, e de cujos movimentos estou ciente a cada instante. Nesse caso, contar com a unidade e com a vontade desse partido é exatamente como contar com o fato de que o ônibus chegará na hora certa e o trem não descarrilhará. Não posso, porém, contar com homens que não conheço, fundamentando-me na bondade humana ou no interesse do homem pelo bem-estar da sociedade, já que o homem é livre e que não existe natureza humana na qual possa me apoiar. Não sei qual será o futuro da revolução russa; posso admirá-la e tomá-la como exemplo, na medida em que tenho provas, hoje, de que o proletariado desempenha, na Rússia, um papel que ele não desempenha em nenhuma outra nação. Mas não posso afirmar que tal situação irá forçosamente conduzir ao triunfo do proletariado; devo ater-me ao que vejo; não posso ter certeza de que meus companheiros de luta retomarão o meu trabalho após minha morte para o conduzir à máxima perfeição, visto que esses homens são livres e decidirão livremente, amanhã, sobre o que será o homem; amanhã, após minha morte, alguns homens podem decidir instaurar o “o homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida”. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 35 fascismo, e outros podem ser bastante covardes ou fracos para permitir que o façam; nesse momento, o fascismo será a verdade humana e pior para nós; na realidade, as coisas serão como o homem decidir que elas sejam. Isso significa que eu deva abandonar-me ao quietismo? De modo algum. Primeiro, tenho que me engajar; em seguida, agir segundo a velha fórmula: “não é preciso ter esperança para empreender”. Isso não quer dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas que não deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder. Por exemplo, se eu perguntar a mim mesmo: a coletivização, enquanto tal, será um dia implantada? Como vou saber? Sei apenas que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que ela o seja; eu o farei; para além disso, não posso contar com mais nada. O quietismo é a atitude daqueles que dizem: os outros podem fazer o que eu não posso. A doutrina que lhes estou apresentando é justamente o contrário do quietismo, visto que ela afirma: a realidade não existe a não ser na ação; aliás, vai mais longe ainda, acrescentando: o homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida. Em função disso, podemos entender por que nossa doutrina horroriza certo número de pessoas. Freqüentemente, elas dispõem de um único recurso para suportar a sua miséria, e é o de pensar o seguinte: “As circunstâncias estavam contra mim; eu valia muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive nenhum grande amor ou nenhuma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher dignos de tal sentimento; se não escrevi livros muito bons, foi porque não tive tempo livre suficiente para fazê-lo; se não tive filhos a quem me dedicar, foi porque não encontrei o homem com quem teria podido construir a minha vida. Não existe uma natureza (essência) humana, pois não existe Deus. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 36 Permaneceram, portanto, em mim, inutilizadas e inteiramente viáveis, uma porção de disposições, de inclinações, de possibilidades que me conferem um valor que o simples conjunto de meus atos não permitem inferir”. Ora, na verdade, para o existencialista, não existe amor senão aquele que se constrói; não há possibilidade de amor senão a que se manifesta num amor; não há gênio senão aquele que se expressa em obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das obras de Proust; o gênio de Racine é a série de tragédias que escreveu; para além disso, não há nada. Por que atribuir a Racine a possibilidade de escrever uma outra tragédia, se, justamente, ele não o fez? Um homem compromete-se com sua vida, desenha seu rosto e para além desse rosto, não existe nada. Evidentemente, tal pensamento pode parecer difícil de aceitar por alguém que tenha fracassado em seus projetos de vida. Mas, por outro lado, ele leva as pessoas a entenderem que só a realidade conta, que os sonhos, as esperas, as esperanças, só permitem que o homem se defina como sonho malogrado, como esperanças abortadas, como esperas inúteis; ou seja, que ele se defina em negativo e não em positivo; todavia, quando se diz: “tu nada mais és do que tua vida...”, isso não implica que o artista seja julgado unicamente por suas obras de arte; mil outras coisas contribuem igualmente para defini-lo. O que queremos dizer é que um homem nada mais é do que uma série de empreendimentos, que ele é a soma, a organização, o conjunto das relações que constituem esses empreendimentos. (...) Além disso, se bem que seja impossível encontrar em cada homem uma essência universal que seria a natureza humana, consideramos que exista uma universalidade Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 37 humana de condição. Não é por acaso que os pensadores contemporâneos falam mais frequentemente da condição do homem do que de sua natureza. Por condição, eles entendem, mais ou menos claramente, o conjunto dos limites a priori que esboçam a sua situação fundamentalno universo. As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. O que não muda é o fato de que, para ele, é sempre necessário estar no mundo, trabalhar, conviver com os outros e ser mortal. Tais limites não são nem subjetivos nem objetivos; ou, mais exatamente, têm uma face objetiva e uma face subjetiva. São objetivos na medida em que podem ser encontrados em qualquer lugar e são sempre reconhecíveis; são subjetivos porque são vividos e nada são se o homem os não viver, ou seja, se o homem não se determinar livremente na sua existência em relação a eles. E, embora os projetos humanos possam ser diferentes, pelo menos nenhum deles permanece inteiramente obscuro para mim, pois todos eles não passam de tentativas para transpor esses limites, ou para afastá-los, ou para negá- los, ou para se adaptar a eles. Consequentemente, qualquer projeto, por mais individual que seja, tem um valor universal. Todo projeto, mesmo o do chinês, do indiano ou do negro, pode ser entendido por um europeu. Poder ser compreendido significa que o europeu de 1945, a partir de uma situação que ele concebe, pode projetar-se para os seus limites, da mesma maneira, e pode reconstituir em si mesmo o projeto do chinês, do indiano ou do africano. Existe uma universalidade em todo projeto no sentido em que qualquer projeto é inteligível para qualquer homem. Isso não significa de modo algum que esse projeto defina o homem para sempre, mas que ele pode ser reencontrado. Temos sempre a possibilidade de entender o O existencialismo é um esforço para tirar todas as consequências de uma postura ateia coerente. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 38 idiota, a criança, o primitivo ou o estrangeiro, desde que tenhamos informações suficientes. Nesse sentido, podemos dizer que há uma universalidade do homem; porém, ela não é dada, ela é permanentemente construída. Construo o universal, escolhendo-me; construo-o entendendo o projeto de qualquer outro homem, de qualquer época que seja. Esse absoluto da escolha não elimina a relatividade de cada época. O que o existencialismo faz questão de mostrar é a ligação existente entre o caráter absoluto do engajamento livre – pelo qual cada homem se realiza, realizando um tipo de humanidade – engajamento sempre compreensível em qualquer época e por qualquer pessoa, e a relatividade do conjunto cultural que pode resultar dessa escolha; é preciso sublinhar, simultaneamente, a relatividade do cartesianismo e o caráter absoluto do engajamento cartesiano. É nesse sentido que podemos dizer que cada um de nós é absoluto respirando, comendo, dormindo ou agindo de um modo qualquer. Não existe diferença alguma entre ser livremente, ser como projeto, como existência que escolhe a sua essência, e ser absoluto; não existe nenhuma diferença entre ser um absoluto temporariamente situado, ou seja, que se localizou na história, e ser universalmente compreensível. (...) Após essas reflexões, vemos que nada é mais injusto do que as acusações de que fomos alvo. O existencialismo nada mais é do que um esforço para tirar todas as consequências de uma postura ateia coerente. Esta não pretende, de modo algum, mergulhar o homem no desespero. Mas se, tal como fazem os cristãos, se decide chamar desespero a qualquer atitude de descrença, nossa postura parte do desespero original. O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 39 em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria; eis nosso ponto de vista. Não que acreditemos que deus exista, mas pensamos que o problema não é o de sua existência; é preciso que o homem se reencontre e se convença de que nada pode salvá-lo dele próprio, nem mesmo uma prova válida da existência de Deus. Nesse sentido, o existencialismo é um otimismo, uma doutrina de ação, e só por má fé é que os cristãos, confundindo o seu próprio desespero com o nosso, podem chamar-nos de desesperados. (...)” Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 40 EXERCITANDO A REFLEXÃO - SARTRE 01. Explique: “A existência precede a essência”. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 02. Segundo Sartre o que é: “angustia”? “desamparo” e “desespero”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ “desamparo”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ “desespero”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 03. Como o existencialismo ateu analisa a questão da “natureza humana”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 04. Compare o conceito de “angustia” em Kierkegaard e Sartre. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 05. Quais diferenças e semelhanças podem ser apontadas na ideia de desespero, em Sartre e Kierkegaard? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 41 PARTE II ELEMENTOS DA FENOMENOLOGIA: E. HURSSERL E M. HEIDEGGER Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 42 2.1 FENOMENOLOGIA6 Fenomenologia é, em primeiro lugar, um modo de se fazer filosofia. Isso não quer dizer que ela seja um método entre outros possíveis para se chegar ao mesmo objetivo. É que seguindo o modo fenomenológico de pensar, o lugar em que se chega é próprio; tem a coloração do caminho percorrido. Nesse sentido, melhor seria chamá-lo de paradigma. Um olhar histórico sobre isso ajuda a esclarecer o assunto. No fim do séc. XIX e começo do séc. XX, Edmund Husserl, fundador do movimento fenomenológico, tinha diante de si duas respostas para a questão dos caminhos do conhecimento (Husserl, 1954/2004, 1920/2005). De um lado, a ciência positivista, baseada em fatos, mensurações e verificações. Como resultados concretos já apareciam as fabulosas máquinas inventadas pela tecnologia: a vida humana do dia-a-dia havia mudado bastante e haveria de mudar ainda; o progresso científico impressionava a todos. De outro lado, a filosofia. Aqui as coisas eram mais caóticas. Cada cabeça, uma sentença; cada filósofo, uma proposta. Além disso, havia a dificuldade de se encontrar um "juiz" ou um critério objetivo que permitisse discernir o que era válido e o que não era. Como consequência, uma espécie de ceticismo generalizado: o sentimento de que não há possibilidade de se chegar a uma verdade; o máximo que se pode fazer é comentar criticamente o que os outros disseram. Até hoje, nos meiosfilosóficos, as dissertações e teses defendidas são, na maioria das vezes, estudos históricos: o que pensou um determinado autor sobre tal ou tal assunto. Diante da ciência, Husserl percebeu que, apesar de todo seu sucesso no desvendamento prático do funcionamento das coisas, ela deixava a desejar porque não trazia por si mesma uma resposta que satisfizesse a toda necessidade de saber do ser humano. A ciência ficava limitada ao âmbito permitido por seu método, o âmbito do empírico, do positivo, do imediatamente verificável. A questão do significado da realidade ou do sentido do mundo ficava fora do método científico. Desvendar o mundo medindo suas extensões: essa é a 6 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2009000100010 Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 43 linguagem e esse é o limite da ciência que Husserl tinha diante de si. Trazendo um exemplo muito significativo em tempos posteriores, a ciência criou armas poderosas para a guerra, mas não disse qual o sentido de se guerrear. No campo da psicologia, pode-se dizer que a ciência mediu a inteligência, mas quando Binet foi questionado sobre o que era inteligência, ele teria respondido que era o que seus testes mediam (Gauquelin et al., 1980). A partir disso, pode-se dizer com Merleau-Ponty (1951/1973) que a ciência faz muitas afirmações sobre a realidade, mas ela não sabe o que é essa realidade. Foi-se perdendo o sentido da realidade: esse tipo de questão foi sendo deixado de lado. Husserl falou sobre essa perda de significados no seu texto sobre a crise das ciências européias (Husserl, 1954/2004). Ele estava interessado em encontrar um caminho para se chegar a esse sentido esquecido, para além da ciência convencional: uma reflexão que resgatasse a experiência comum, que dissesse de quê a ciência está falando e como é essa realidade que se nos apresenta. Isso não podia ser feito em laboratórios, pois envolve o ser humano e sua produção de significados. Diante da filosofia, algo parecido foi acontecendo. Falando em uma linguagem mais psicológica, poder-se-ia expressar assim a intuição de Husserl: se o homem pudesse considerar sua experiência, com tudo que nela está implicado, abstendo-se do julgamento espontâneo da realidade que ela encerra, ele poderia chegar a conclusões seguras acerca do conhecimento e seu alcance. Por esse caminho seria possível afirmar coisas sobre os atos da consciência, e isso mesmo seria um acesso à verdade que desacreditaria o ceticismo generalizado e daria uma base sólida para as discussões. A esse projeto Husserl chamou de "filosofia como ciência rigorosa" e de "fenomenologia" (English, 1984). Foi por ter aberto essa possibilidade de um pensamento efetivo, que transcendesse o relativismo, que logo se formou em torno dele um grupo de discípulos e um movimento. Que caminho é esse, então? É o da consideração da experiência em si mesma, independentemente dos juízos de realidade ou de valor que Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 44 espontaneamente somos levados a fazer. Esses juízos correspondem ao que Husserl denominou atitude natural. Se estou vendo um ladrão roubando meu carro, por exemplo, imediatamente passo a tomar alguma providência para me proteger ou para evitar o roubo. Há aí um juízo implícito de realidade; não paro para considerar a experiência em si mesma. Se, pelo contrário, fizer exatamente isso - considerar minha experiência e deixar de me transportar espontaneamente para a realidade - estarei exercendo uma outra atitude: não a natural, mas a fenomenológica. Efetuar essa passagem também foi chamado de redução. É claro que muitos psicólogos iriam gostar disso, pois é o que eles fazem: ouvir o que a outra pessoa diz e, apesar de não se perguntarem se é verdade ou não, conectarem-se com um sentido desse dizer. Normalmente ouvimos falar de "redução de" alguma coisa. Redução dos juízos de realidade ou valor, equivalendo a colocar entre parênteses esses juízos. Mas o certo seria falar de "redução a": redução ao que imediatamente se apresenta. A isso que se apresenta chamou-se fenômeno. Trata-se do aparecer das coisas. Essa outra expressão de Husserl, "voltar às coisas mesmas" (English, 2001), deve ser entendida como uma volta ao que aparece na experiência quando adotamos a atitude fenomenológica. Um retorno às coisas mesmas na linha da atitude natural seria o equivalente à introspecção, ou seja, um olhar para dentro de si procurando o que existe "na" consciência. Na fenomenologia essa volta seria muito mais à consciência como ato do que à consciência como lugar. O que aparece, então, é a característica de autotranscendência da consciência: a intencionalidade. Toda consciência enquanto ato é sempre "de algo". Não existe consciência pura sem intencionalidade nenhuma, assim como não existe conhecimento puro sem intencionalidade nenhuma. Não existe afeto puro sem remeter a nada. Perceber que uma pessoa está com raiva não é perceber tudo que se passa com ela. É necessário perceber também a que, ou a quem, essa raiva se dirige - ou seja, qual é o seu sentido. Para Rogers e Rosenberg (1977), a atitude empática leva a entrar em contato não somente com o sentimento puro, mas com seu significado. Isso equivale a dizer que a empatia capta o movimento intencional da experiência. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 45 Husserl escreveu coisas, depois dessas intuições iniciais, que podiam ser interpretadas como idealismo: nada mais existe que o pensamento; a realidade está no pensamento. Muitos dos primeiros participantes do movimento fenomenológico debandaram nessa época dizendo que não era por isso que se haviam reunido ali, mas justamente pelo contrário: queriam um caminho real para a verdade, por mais difícil que fosse. Merleau-Ponty não concordou com essas críticas ao mestre, e disse que não há propriamente idealismo em Husserl porque o mundo já está dado como pressuposto do próprio pensamento (Merleau-Ponty, 1945/1996, 1964/1992). Se nos instalarmos no interior do pensamento e tentarmos deduzir daí o mundo como realidade externa, jamais o conseguiremos. Se nos fecharmos no pensamento, nada nos fará sair dele. Só há um meio: compreender que o mundo já está dado como um pressuposto, algo que podemos ver no próprio pensamento, ou na consciência, desde que tenhamos uma atitude fenomenológica. É a intencionalidade que nos restitui o mundo; através dela percebemos que ele sempre esteve lá. Neste momento da reflexão, surge um outro conceito da fenomenologia: o de mundo vivido (lebenswelt, em alemão), experiência pré-reflexiva, mundo que nos é dado antes de elaborarmos conceitos sobre ele. É do mundo vivido que nascem nossos pensamentos. Não se trata da natureza enquanto realidade objetiva (estudada pela ciência positivista), mas do mundo que se dá na relação, que se mostra como fenômeno primeiro e que pode ser depois elaborado no pensamento. Conhecer esse mundo é, então, conhecer nosso estar nele, conhecer nossas relações. A natureza enquanto realidade objetiva é uma abstração a partir do mundo vivido. O conhecimento deste nos inclui e, portanto, dá-se a partir de nosso estar e agir no mundo. Esse mundo é o pressuposto da ciência. Nesse sentido compreende-se que o caminho fenomenológico do pensamento tenha sido designado no início como um caminho "psicológico"; e mesmo mais tarde, desfeitas as ambiguidades no uso desses termos, Husserl propôs como método próprio de uma nova psicologia descritiva a "redução fenomenológico-psicológica" (Husserl, 1954/2004, p.264). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 46 Para uma visão mais global é preciso acrescentar, nessa compreensão aqui apresentada, que o contexto daexperiência é interpessoal: nascemos em um grupo humano e vivemos junto a outros. O mundo vivido nos é dado também socialmente; aparece aqui a intersubjetividade. O modo fenomenológico de pensar caracteriza-se pela consideração da experiência intencional no encontro das subjetividades envolvidas com o mundo. 2.1.1 Fenomenologia e psicologia A principal tarefa que Husserl se propôs foi esclarecer o caminho fenomenológico para o pensamento humano: qual o alcance do conhecimento, como são os atos da consciência, como se apresenta o mundo. Mas depois, no interior do movimento fenomenológico, vários outros aspectos ou setores da experiência foram sendo abordados. Heidegger (1995) voltou-se para o esclarecimento do ser e da existência; Scheler (1994) abordou os valores; Merleau- Ponty (1942/1972), o comportamento humano; Jaspers (1913/1979) inovou a visão da psicopatologia; Buber (1977), embora não fizesse parte do grupo original, descreveu fenomenologicamente o encontro humano. Quando a fenomenologia estuda a imaginação, a percepção, a linguagem, a relação inter-humana ou os estados perturbados da mente, por exemplo, ela esta se voltando para os mesmos objetos que a psicologia também considera. Mas a psicologia positivista (a que se refere Husserl) faz isso a partir de um enfoque empírico, por meio de mensurações, separando sujeito e objeto. Já a fenomenologia considera esses objetos enquanto vivências cuja natureza quer elucidar (sem se ocupar diretamente com medidas ou relações quantitativas). Nesse sentido, a fenomenologia não é essa psicologia, mas uma reflexão sobre a realidade da qual ela também se ocupa. Fazendo isso, a fenomenologia está ao mesmo tempo manifestando os fundamentos dessa psicologia e refletindo sobre seus limites: constitui-se, pois, também como uma espécie de instância crítica da psicologia. Ocorre ainda que esses desdobramentos da fenomenologia revelaram-se úteis até mesmo no interior do próprio fazer psicológico (e psiquiátrico), e por Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 47 esse caminho acabaram construindo um saber próprio, voltado para o campo profissional dos psicólogos. Tal saber nasce no interior da filosofia e consiste em elaborações teóricas e práticas sobre os modos de ser humano, baseadas na reflexão da experiência pelo caminho proposto pela fenomenologia. Binswanger (1946/1971, 1956/1977), Boss (1975) (inspirando-se em Heidegger), Frankl (1989) e muitos outros, aplicaram esse saber (que eles ajudaram a construir) ao campo da psicoterapia. Ao cabo, esses desdobramentos constituem mais um significado para a expressão psicologia fenomenológica (diferenciada da filosofia propriamente dita, por visar um esclarecimento da vida humana). Isso vai além do que Husserl fazia (que era propriamente filosofia), embora sem se contrapor a ele. Tomando uma direção um pouco diferente, em alguns lugares fala-se de uma psicologia fenomenológica como um saber que se constrói e se exerce não a partir do interior da filosofia (se bem que sempre inspirado nela), mas, agora, a partir do interior da própria psicologia enquanto um fazer científico. Alguns autores trabalharam nesse sentido: Giorgi (1978) e Keen (1979), por exemplo. Com ênfases diferentes, esses autores pretenderam construir uma psicologia de inspiração fenomenológica husserliana (mais do que heideggeriana) e que pudesse ser considerada um fazer científico, embora trabalhasse em uma direção descritiva qualitativa e não quantitativa (não confundir com o uso do termo fenomenologia em medicina: descrição das manifestações de algo latente, os sintomas de uma doença). É nesse sentido que se pratica uma psicologia fenomenológica no contexto da psicologia humanista: elucidação do vivido baseada na consideração de experiências concretas e situadas, conduzindo a uma compreensão teórica que possibilite lidar melhor com o fenômeno. Resumindo, pode-se dizer que além da fenomenologia como caminho filosófico propriamente dito, o que inclui uma fenomenologia da psicologia enquanto ciência positivista, existe uma psicologia fenomenológica que consiste em um desdobramento filosófico fenomenologicamente conduzido na direção dos assuntos que interessam aos psicólogos e psiquiatras, ou simplesmente ao viver humano (e que poderia também ser denominada de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 48 fenomenologia psicológica), e existe ainda uma outra forma de psicologia fenomenológica que, embora também inspirada na filosofia fenomenológica, é exercida a partir do interior da psicologia enquanto um saber científico, mas agora concebido em uma direção qualitativa. Em todos esses sentidos a psicologia fenomenológica volta-se para a experiência, para o vivido. Mas no terceiro sentido aqui enunciado, enquanto desdobramento direto da filosofia, ela está mais ligada à experiência comum, podendo ser evocada a partir da reflexão. E no Segto sentido ou seja, enquanto um saber inspirado na fenomenologia, mas que se exerce no interior da psicologia, volta-se para uma experiência específica e situada que se recebe por meio de um depoimento experiencial depois trabalhado de forma sistemática nos moldes como se costuma fazer em procedimentos científicos. 2.1.2 Psicologia fenomenológica humanista Uma vez situados os diversos sentidos da psicologia fenomenológica, podemos nos concentrar no segundo sentido definido acima (exercida a partir do interior da psicologia enquanto um saber científico, mas agora concebido em uma direção qualitativa), que é o mais usual no contexto da psicologia humanista. Como podemos caracterizar essa psicologia? Além da inspiração fenomenológica, existe nela uma preocupação de aproximação com o mundo científico. Enquanto pesquisa, ela deve começar com um encontro com o fenômeno em alguma situação concreta; isso corresponde à coleta de dados de qualquer pesquisa científica. Pode ser feita sob a forma de entrevistas, observação participante ou pesquisa de intervenção, por exemplo. O pesquisador recolhe informações não apenas a partir de sua reflexão pessoal sobre sua experiência enquanto expressiva da experiência comum da humanidade (como acontece na fenomenologia filosófica); recolhe informações sistematicamente, entrando em alguma situação previamente escolhida ou de alguma forma planejada. Desde o acesso a esses dados da experiência subjetiva ou a essas vivências, o enfoque já é fenomenológico, e os dados, bem como seus significados, formam um todo. No entanto, o pesquisador sai de seu gabinete, vai Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 49 para uma situação onde possa se encontrar com o fenômeno e de alguma forma anota, grava, registra em sua memória, para depois transformar em narrativas. Na situação ele pergunta, dialoga, questiona, observa e facilita o acesso do entrevistado à própria experiência subjetiva, que inclui memórias e significados. Depois, de volta ao seu gabinete, ele exerce um segundo olhar, o analítico (de novo fenomenológico), sobre aqueles dados assim construídos. Husserl não elaborou a psicologia fenomenológica com essa concretude com a qual tem sido praticada nas academias no contexto de dissertações e teses de mestrado e doutorado na área da psicologia. A grande questão aqui é: seria válida essa psicologia fenomenológica? Conseguiria ela ir além de um arremedo de ciência? E, além disso: que contribuição ela poderia trazer para a prática psicológica? Respostas a essas perguntas requerem um retorno à psicologia. As pesquisas e as práticas psicológicas seguem teorias diversas, nem sempre compatíveis uma com a outra. Pode-se, no entanto, simplificar essa diversidade para o fim que interessa a essa reflexão. Do ponto de vista da psicologia humanista, pode-se falar de dois grandes pressupostos teóricos que embasam as diversasabordagens: o pressuposto determinista e o pressuposto da autonomia. No pressuposto determinista, o ser humano é pensado como algum tipo de mecanismo. Tudo que ele faz, assim como tudo que lhe acontece, tem uma causa determinante. A arte do atendimento consiste em descobrir essa causa e intervir no sentido de modificá-la ou substituí-la por outra. As causas determinantes das condutas humanas podem ser internas (além de uma energia interna, compreendem-se as cognições, representações sociais, motivações inconscientes, resíduos da história passada, por exemplo, que dão a essa energia sua direção); ou externas (estímulos do ambiente físico ou social, isoladamente ou em configurações complexas, que acionam e dão direção a uma fonte de movimento) (Baum, 1999). Dentro deste pressuposto do determinismo psicológico, o atendimento, para que seja eficaz, exige um olhar analítico da Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 50 situação. Este olhar configura-se como um diagnóstico. A partir dele, uma estratégia de intervenção é montada para dirigir a ação terapêutica para os fins visados: uma troca de causas determinantes. As pesquisas, quando estão a serviço dessa forma de trabalho com pressuposto metodológico determinista, visam estabelecer ligações genéricas de causalidade (para esclarecer o que se passa nos casos particulares e orientar a intervenção), ou então visam quantificar a distribuição de determinado fenômeno em um determinado campo (orientando decisões no plano de uma política de saúde mental, por exemplo). Em ambos os casos são pesquisas voltadas para práticas de intervenção controladora. Quando se trata de pesquisa básica, ela ainda assim visa instrumentalizar a intervenção, fornecendo-lhe uma base remota mais segura, ou então, e em qualquer caso, concebe o conhecimento nos moldes de um acúmulo de informações quantitativas. O pressuposto humanista da autonomia é diferente. Nele o ser humano não é visto como simples resultado de múltiplas influências, mas como o iniciador de coisas novas. A pessoa não é vista principalmente como efeito de causas anteriores modificáveis, mas como um ser desafiado pela vida e chamado a responder criativamente (Merleau-Ponty, 1996; Frankl, 1989). Isso quer dizer que se supõe que o ser humano tenha algum poder sobre as determinações que o afetam. O trabalho psicológico consiste fundamentalmente em oferecer um contexto dialógico no qual a liberação desse poder seja promovida. Aposta-se na autonomia crescente da pessoa e na fecundidade de uma relação humana honesta para promover essa autonomia. A autonomia é entendida como a capacidade que o ser humano tem de orientar sua própria vida de forma positiva para si mesmo e para a coletividade. Nessa perspectiva, o atendimento não se baseia em um diagnóstico, mas na afirmação de uma tendência inata e criativa ao crescimento, e não é concebido como uma intervenção direcionada a efeitos específicos, mas sim como uma relação libertadora dessa tendência na pessoa. A qualidade dessa relação adquire importância capital, pois é a partir dela que a capacidade de ver claramente e de orientar a própria conduta por parte da pessoa que se relaciona com o psicólogo Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 51 vai se estabelecendo. A palavra "diagnóstico" ainda pode ser útil, mas agora com uma compreensão abrangente, que se constrói juntamente com o cliente e a serviço dele, ao longo do atendimento, e que inclui uma visão de seu modo de ser, da natureza da situação e também dos rumos que poderiam dar um sentido positivo à dinâmica da vida. As pesquisas que estão a serviço desta forma humanista de atendimento são principalmente qualitativas, descritivas de vivências subjetivas, buscando explicitar seus significados potenciais em relação a algum contexto e habilitando o profissional com uma visão mais ampla do ser humano, pois é isso que o torna mais apto a oferecer aquela relação libertadora. Quanto à pesquisa básica, ela tende a fornecer uma base mais segura para um conhecimento do ser humano, conhecimento este que não é concebido como acúmulo de informações quantitativas, mas como compreensão cada vez mais abrangente dos significados envolvidos e dos contextos. Voltemos então para aquelas perguntas sobre a pesquisa fenomenológica em psicologia. Na linha dos pressupostos deterministas, a pesquisa fenomenológica seria apenas de ajuda indireta e secundária. Já na linha dos pressupostos humanistas e existenciais, ela é essencial e primária, enquanto as pesquisas quantitativas são de ajuda somente indireta e subsidiária. Pode-se dizer que o tipo de pensamento mobilizado na pesquisa quantitativa, bem como na pesquisa de causa e efeito, é de mesma natureza que o exercido na intervenção de pressuposto determinista. Paralelamente, o tipo de pensamento mobilizado na pesquisa fenomenológica é de mesma natureza que o exercido na intervenção de tipo existencial humanista. Existe uma consistência interna nos dois modelos, envolvendo intervenção e pesquisa. No entanto, as palavras "instrumento" e "intervenção" servem mais ao modelo do pressuposto determinista, enquanto no modelo humanista as palavras "compreensão" e "relação dialógica" são mais convenientes. A pesquisa fenomenológica não "instrumentaliza" o profissional, mas qualifica-o para uma melhor atuação, com a possibilidade de uma compreensão mais ampla. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 52 Será que essas considerações, válidas para a psicologia fenomenológica em geral, aplicam-se também ao Segto sentido elencado anteriormente, na sua forma humanista que estamos agora considerando? A resposta será positiva se levarmos em conta que a prática psicológica pode requerer mais que esclarecimentos de fundamentos, e pedir elucidações de experiências vividas em contextos bem específicos; só assim o psicólogo estará mais familiarizado com certas situações e mais capaz de se relacionar compreensivamente e criativamente com as pessoas nelas envolvidas. Além disso, importa considerar que a profissão de psicólogo constitui-se no contexto de uma formação científica (mais do que filosófica), por um lado, e por outro lado o fato de que o psicólogo humanista trabalha principalmente ouvindo pessoas. É natural, então, que as pesquisas partam de um ouvir sistemático, concreto, específico, e não apenas um ouvir genérico, consultando a experiência comum a partir da reflexão e propondo generalizações naturalísticas. A linguagem científica pode trazer contribuições válidas para o rigor do conhecimento que embasa a prática. Nada disso, no entanto, dispensa o psicólogo humanista de uma reflexão filosófica mais aprofundada e que permita uma construção mais ampla de teorias, como será ilustrado a seguir. 2.2 Conceitos básicos Dentre os principais conceitos desenvolvidos por Husserl, destacam-se: 2.2.1 Fenomenologia A palavra fenomenologia pode ser definida nos seguintes termos: “descrição daquilo que aparece ou ciência que tem como objetivo ou projeto essa descrição” (ABBAGNANO, 2000, p. 437). A fenomenologia está relacionada diretamente ao conceito de fenômeno o qual pode ser definido como “aquilo que aparece ou se manifesta”. A filosofia husserliana traz consigo um novo método de investigação que irá exercer grande influência no meio acadêmico, o que fará da fenomenologia um marco imprescindível na filosofia contemporânea. “Como um método de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 53 pesquisa, a fenomenologia é uma forma radical de pensar” (MARTINS, 2006, p. 18). 2.2.2 Ciência positiva Refere-se às ciências da Natureza, vinculadas à exatidão da experiência. Husserl não via “com bons olhos” os métodos empregados, por exemplo, pela psicologia experimental. “Enquanto a ciência positivista restringeseu campo de análise ao experimental, a fenomenologia abre-se a regiões veladas para esse método, buscando uma análise compreensiva e não explicativa dos fenômenos” (LAPORTE e VOLPE, 2009, p. 52 ). 2.2.3 Intencionalidade Para Husserl, “a palavra intencionalidade significa apenas a característica geral da consciência de ser consciência de alguma coisa”. A intencionalidade seria a marca fundamental da consciência, uma vez que a consciência está o tempo todo voltada para fora de si. (...) O princípio de intencionalidade é que a consciência é sempre ‘consciência de alguma coisa’, que ela só é consciência estando dirigida a um objeto (sentido de intentio). Por sua vez, o objeto só pode ser definido em sua relação à consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito. (...) Isto não quer dizer que o objeto está contido na consciência como que dentro de uma caixa, mas que só tem seu sentido de objeto para uma consciência (DARTIGUES, 2005, p. 212). A intencionalidade comporta, ainda, os subconceitos: “intenção” o conteúdo significativo de alguma coisa. Exemplo: um livro sobre a mesa. Temos a intenção de um objeto quando possuímos apenas o significado intencional desse objeto não há necessidade da presença física do livro e da mesa. Se nos colocamos diante do objeto livro, temos uma “intuição”. A “intuição” é o preenchimento duma intenção. A evidência é a consciência da intuição. O livro deve estar materialmente evidenciado e apresentar-se à minha consciência. O “grau” da evidência pode se deparar com dificuldades: fatores tais quais a distância e a luminosidade, etc. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 54 2.2.4 hylé Para Husserl, a hylé seria a “matéria subjetiva” que compõe uma percepção qualquer. A consciência de um objeto qualquer se daria sobre “dados hiléticos” que seriam “dados constituídos pelos conteúdos sensíveis, que compreendem, além das sensações denominadas externas, também os sentimentos, impulsos, etc.” (ABBAGNANO, 2000, p. 499) 2.2.5 Epoché ou redução fenomenológica Tomando emprestado da filosofia antiga o termo grego epoché, que os antigos céticos traduziam por “suspensão” do juízo a respeito das coisas, Husserl o adota sob outra perspectiva. A epoché husserliana consiste em pôr "entre parênteses" o mundo quando da apreensão do fenômeno. Dito de outra forma, a epoché consiste numa suspensão momentânea da “atitude natural” com a qual nós nos relacionamos com as coisas do mundo. Isso consiste em deixar provisoriamente de lado todos os preconceitos, teorias, definições, etc., que nós utilizamos para conferir sentido às coisas. Tal suspensão da nossa atitude natural diante do mundo tem como escopo apreender na consciência as coisas no sentido de captá-las como elas são em si mesmas: "a fenomenologia procura enfocar o fenômeno, entendido como o que se manifesta em seus modos de aparecer, olhando-o em sua totalidade, de maneira direta, sem a intervenção de conceitos prévios que o definam e sem basear-se em um quadro teórico prévio que enquadre as explicações sobre o visto". a redução psicológica: os juízos relativos ao mundo que nos circunda são postos “fora de circuito”, não entrando na avaliação que se faz das coisas. Não duvida da existência das coisas, apenas suspende, momentaneamente, todo juízo de valor em relação às mesmas. redução transcendental. É o estágio de “consciência pura”; é chegar “às coisas em si”. Segundo Husserl, “na ‘consciência pura’ ou ‘transcendental’, as vivências perdem inteiramente o seu caráter psicológico e existencial para Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 55 conservarem apenas a relação pura do sujeito plenamente purificado ao objecto enquanto consciente...” (FRAGATA, 1962, p. 30). Noema e Noese O noema seria "o aspecto objetivo da vivência (ex., árvore verde, iluminada, não iluminada, percebida, lembrada, etc.)" (ABBAGNANO, 2000, p. 713). Dito de outra maneira, o noema seria o mundo transcendente tal qual ele nos é dado. A noese "é o aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos de compreensão que visam a apreender o objeto, tais como perceber, lembrar, imaginar, etc." Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 56 PARTE III FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA HUMANISTA Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 57 3 ANTECEDENTES HISTÓRICOS E PRINCIPAIS PRESSUPOSTOS DA PSICOLOGIA HUMANISTA Para abordar a questão da proposta conceitual da Psicologia Humanista, em especial o conceito de tendência à auto atualização de Carl Rogers, é importante a fundamentação da mesma. Assim, faremos um breve apanhado histórico sobre esta força em psicologia. 3.1 A superação do Teocentrismo Segundo Aquino (1986), o termo Humanismo, citado na Idade Moderna, designou um movimento de ruptura com o sistema escolástico medieval de pensamento. Seu apogeu ocorreu durante o Renascimento. É necessário, antes de dar continuidade ao que significou o Humanismo em si, que se entenda o movimento cultural da Renascença. Ainda na perspectiva de Aquino (1986), a descoberta de novos continentes, a visão antropocêntrica do mundo, a afirmação dos estados nacionais e a difusão de variadas formas artísticas inspiradas no mundo Greco- Latino definiram a configuração do Renascimento, um brilhante período da cultura europeia que se seguiu à Idade Média. Como Renascimento designa-se o poderoso movimento artístico e literário que surgiu na Itália dos séculos XV e XVI, irradiando-se depois para a Europa, promovendo em toda parte um pronunciado florescimento da arquitetura, escultura, pintura e das artes decorativas, da literatura e da música e um novo enfoque da política. Este movimento conclamou a um Antropocentrismo em contrapartida ao Teocentrismo que prevaleceu por cerca de um milênio na Europa Ocidental. O homem passou a ser considerado a peça-chave, sendo inclusive comparado ao Todo-Poderoso já no sentido de colocar a nova mundividência em vigor. De acordo com Cerqueira e Lopes (1995), o Humanismo Renascentista deve ser considerado um movimento intelectual de valorização da Antiguidade Clássica. Embora não sendo a rigor uma filosofia, representou um movimento de glorificação do homem, tornado centro de todas as indagações e preocupações. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 58 Foi de grande valia que esse movimento ocorresse para que o homem fosse colocado no centro das preocupações e descobrisse que os acontecimentos não se davam graças a um Deus, mas graças à determinação humana em resolver os problemas que a vida lhe apresentava. Isso fez com que o homem deixasse de lado aquela sua concepção de um simples agente passivo frente ao mundo: Na ética humanista o bem é a afirmação da vida, o desenvolvimento das capacidades do homem. A virtude consiste em assumir-se a responsabilidade por sua própria existência. O mal constitui a mutilação das capacidades do homem; o vício reside na irresponsabilidade perante si mesmo. (FROMM, 1974, p.27-28). 3.2 Humanismo e Psicologia O Humanismo afeta a psicologia não como uma teoria específica nem mesmo como uma escola, mas como um lugar comum onde se encontravam todos aqueles psicólogos insatisfeitos com a visão de homem implícita nas psicologias oficiais vigentes. O rótulo de psicologia humanista é apenas um episódio momentâneo de algo que tem um sentido maior: a presença de uma atitude humanista no interior da psicologia. Neste sentido, a Psicologia Humanista aparece como uma forma de responder aos anseios da sociedade, com concepções que garantem a possibilidade de transformação que dependaapenas da vontade individual, como uma forma de as pessoas conceberem-se com base em suas próprias perspectivas, com suas particularidades. Ela retoma, resgata a individualidade, a subjetividade, as emoções próprias e particularidades de cada ser humano. Para se compreender melhor o que isto significou, voltaremos à maneira como ocorreu o surgimento da proposta da Psicologia Humanista no contexto do saber psicológico. De acordo com Boainaim Júnior (1999), a Psicologia Humanista, criada por Abraham Harold Maslow e Anthony Sutich, dentre outros autores, surge entre as décadas de 50 e 60 em contraposição ao Behaviorismo e à Psicanálise clássica. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 59 Maslow era psicólogo experimental na Universidade de Brandeis, mas seus interesses eram pouco ortodoxos, o que tendia a levá-lo ao isolamento profissional e intelectual. Desta forma, Maslow foi um crítico vigoroso do comportamentalismo e da psicanálise, particularmente da abordagem de personalidade de Sigmund Freud. Segundo Maslow, quando os psicólogos estudam somente exemplos anormais e emocionalmente perturbados da humanidade, ignoram qualidades humanas positivas, como felicidade, satisfação e paz de espírito. Em meados dos anos 50 criou uma rede de correspondência, Rede Eupsiquiana, através da qual mantinha contato com psicólogos cujas ideias eram parecidas com as dele. O interesse dessa rede era a saúde psicológica, negligenciada, segundo Maslow, pelas duas forças anteriores: Devo confessar que acabei pensando nessa tendência humanista da Psicologia como uma revolução no mais verdadeiro e mais antigo sentido da palavra, o sentido em que Galileu, Darwin, Einstein, Freud e Marx fizeram revoluções, isto é, novos caminhos de perceber e de pensar, novas imagens do homem e da sociedade, novas concepções éticas e axiológicas, novos rumos por onde enveredar. (MASLOW, 1968, p.11). Sutich foi o principal integrante da rede e ao lado de Maslow criou a revista intitulada Revista de Psicologia Humanista, dando origem, em 1961, à Psicologia Humanista. No início do movimento e no lançamento da Revista de Psicologia Humanista, a seguinte introdução foi utilizada para assim descrever a proposta: A Revista de Psicologia Humanística foi fundada por um grupo de psicólogos e de profissionais de outras áreas, de ambos os sexos, interessados naquelas capacidades e potencialidades humanas que não encontram uma consideração sistemática nem na teoria positivista ou behaviorista, nem na teoria psicanalítica clássica, tais como criatividade, amor, self, crescimento, organismo, necessidades básicas de satisfação, auto realização, valores superiores, transcendência do ego, objetividade, autonomia, responsabilidade, identidade, saúde psicológica, etc. (SUTICH apud BOAINAIM JÚNIOR, 1999, p. 29). A partir do sucesso da revista, em 1963, foi fundada a Associação Americana de Psicologia Humanista e em 1964 esse novo movimento foi consolidado em uma conferência na qual compareceram grandes nomes Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 60 inspiradores do movimento, inclusive Carl Rogers. Com sua rápida e sólida difusão a Psicologia Humanista se mostra hoje uma Força firmemente estabelecida e respeitada no panorama da psicologia mundial, generalizadamente reconhecida nos campos teórico, acadêmico e de aplicação. 3.3 Alternativa ao Behaviorismo e à Psicanálise Paralelamente às questões da Psicologia Humanista em si, vale uma breve consideração sobre a teoria behaviorista e a teoria psicanalítica, só assim ficará claro o motivo pelo qual os psicólogos humanistas se uniram em “oposição” a estas teorias. Segundo Schultz e Schultz (1998), os psicólogos humanistas acreditavam que o Behaviorismo, que foi inaugurado em 1913 pelo americano John B. Watson, era uma abordagem estreita, artificial e relativamente estéril da natureza humana. Isto aconteceu pelo fato do Behaviorismo postular o comportamento como objeto da Psicologia. A ênfase no comportamento manifesto era, na visão dessa nova classe de psicólogos que surgia, desumanizante, pois reduzia-nos a animais ou máquinas. Esses novos psicólogos rejeitavam as visões deterministas e aquelas que vinculavam o homem ao seu ambiente. Acreditavam que uma psicologia baseada em respostas condicionadas discretas faz da pessoa um organismo mecanizado que apenas responde aos estímulos apresentados. Para tais psicólogos, os indivíduos não são organismos vazios, por isso não podem ser objetificados, quantificados e reduzidos a unidades de estímulo-resposta. Segundo Rogers,7 Nos Estados Unidos, a psicologia Acadêmica poderia dar excelente aconselhamento e ajuda a governos ditatoriais. Acho que, se qualquer autoridade diz “ queremos que as pessoas sejam mudadas desta forma”, a psicologia acadêmica sabe muito bem como mudar as pessoas, gradualmente, no sentido que se quiser. E vejo isso como um grande perigo. A psicologia 77 Por Fabíola I.de Oliveira. Entrevista concedida por Carl Rogers, em 1977 a revista “Veja” e gentilmente cedida para publicação no site. Revista VEJA no. 441- 16 de fevereiro de 1977. p. 3, 4 e 6. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 61 humanista seria uma valiosa conselheira a uma forma de governo democrático, pois ela o ajudaria a ser cada vez mais democráticos, a compreender as capacidades, os direitos e a habilidade do cidadão de ser responsável. De acordo com Milhollan et al (1978), Skinner via a realidade como algo objetivo, logicamente dedutível. Na perspectiva do Behaviorismo Radical (nome dado à epistemologia criada por Skinner), o homem é um produto de seu meio, ou seja, está sempre em função das contingências ambientais as quais está exposto. Sendo assim, segundo essa premissa, desde que haja um determinado controle ambiental, obtém-se do indivíduo as respostas (comportamentos) desejadas. A partir disso, a Psicologia Humanista sustenta a posição de que as imagens de homem apresentadas por esses dois sistemas teóricos apenas são partes que contribuem para um todo maior e, portanto, incompletas. Assim, foi em resposta à forma limitadora de psicologia promovida pelo Behaviorismo e pela Psicanálise que os psicólogos humanistas apresentaram sua alternativa como a terceira força em psicologia: Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher agora a outra metade sadia. Talvez essa Psicologia da Saúde nos proporcione mais possibilidades para controlar e aperfeiçoar as nossas vidas e fazer de nós melhores pessoas. Talvez isso seja mais proveitoso do que indagar “como ficar não doente”. (MASLOW, 1968, p.30). Deste modo, a terceira força, coloca o homem, a pessoa humana e sua experiência, no centro de seus interesses. As suas prioridades são determinadas, pois, pelos autênticos problemas humanos que surgem à vista, nitidamente enfocados. É extremamente sensível e resistente à sedutora tentação de modelar o homem de acordo com uma teoria, em vez de talhar uma teoria que revele o homem em sua plenitude e esteja em mais íntima harmonia com a natureza humana. A Psicologia Humanista enfatiza a saúde, o bem-estar e o potencial humano de crescimento e de auto realização. Assim, a volta ao humano como objeto de estudo é uma das bandeiras do movimento, importante a ponto de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 62 fornecer-lhe o título designativo. Qualidades e capacidades humanas, tais como valores, criatividade, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, auto realização, entre outros, fornecem temas de estudo típicos das abordagens humanistas. Em relação à Psicanálise criada por Sigmund Freud em 1886, Schultz e Schultz (1998) afirmam que os humanistasse opunham às tendências deterministas encontradas na abordagem freudiana da psicologia, bem como à sua minimização do papel da consciência. A crítica centra-se, sobretudo, na visão pessimista, determinista e psicopatologizante, que atribuem à teoria de Freud, assim como na impessoalidade da técnica transferencial. 3.4 Influências Este movimento sofreu influência da psicologia alemã, em especial a visão holista e organísmica do ser humano e seu envolvimento ambiental, além da Psicologia da Gestalt (Max Wertheimer, Kurt Koffka, Wofgang Köhler). Segundo Wertheimer citado por SCHULTZ e SCHULTZ (1998), os gestaltistas acreditavam que a psicologia deveria abordar a consciência a partir da perspectiva da totalidade. Alguns psicólogos afirmaram que a semelhança entre a psicologia da Gestalt e a psicologia humanista é tão forte que não há razão para dar ao movimento mais novo nenhum outro nome. Eles acreditam que o rótulo Gestalt é adequado para descrever os temas compreendidos pela psicologia humanista. As obras existencialistas também auxiliaram de forma efetiva na construção da psicologia humanista, principalmente a partir de 1959, quando Rollo May organiza o primeiro simpósio americano sobre psicologia existencial, para o qual são convidados expoentes e futuros líderes do movimento humanista, como Abraham Harold Maslow e Carl Ransom Rogers. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 63 3.5 Postulados e orientações da Psicologia humanista 1. [...] o homem, como homem, é mais do que a soma das partes; 2. o homem tem seu ser num contexto humano: sua natureza se expressa na relação com outros homens; 3. o homem é consciente: seja qual for o grau de consciência, esta é a parte essencial do ser humano; 4. o homem tem a capacidade de escolha: quando consciente, o homem é consciente de ser mais que mero espectador – sente-se participante da experiência; 5. o homem é intencional: busca, a um tempo, situação homeostática e desequilíbrio, variedade. (JUSTO, 1987, p.191-192). As seis orientações são: 1. [...] a Psicologia Humanista preocupa-se com o homem: é fundamentada sobre o interesse do homem pelo homem, sendo uma expressão deste interesse; 2. quanto à metodologia, a Psicologia Humanista valoriza mais o significado do que o procedimento; 3. busca validações humanas preferencialmente a não-humanas: o critério último é a experiência humana; 4. aceita o relativismo de todo conhecimento: postula um universo de infinitas possibilidades – todo conhecimento é sujeito a mudança; 5. enfatiza a direção fenomenológica: insiste em que o foco de seu interesse é a experiência do ser humano; 6. não relega as contribuições de outros pontos de vista, mas tenta complementá-las e situá-las numa concepção mais ampla da experiência humana. (JUSTO, 1987, p.192). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 64 EXERCITANDO A REFLEXÃO - ANTECEDENTES 1. Quais ideias integravam a visão teocêntrica do mundo? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. O que é o humanismo e como este se relaciona com a Psicologia? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Sintetize os conceitos das duas Escola de Psicologia a quem a Psicologia se coloca como “terceira via” explique no que a proposta humanista é diferente. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. Cite três pressupostos da Psicologia humanista. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 65 4. ABRAHAM MASLOW (1908 – 1970) Abraham Maslow nasceu no Brooklin, Nova York em 1º de abril de 1908. Seus pais eram imigrantes russos pobres. Começou estudando direito na faculdade pela vontade de seu pai, depois transferiu para psicologia na Universidade de Wisconsin, em 1928. Expoente e co-fundador da psicologia humanista, Maslow buscava compreender e explicar as necessidades e o comportamento humano, o qual, segundo ele, é guiado por necessidades. Durante toda a sua carreira interessou- se profundamente pelo estudo do crescimento e desenvolvimento pessoais, e pelo uso da psicologia como um instrumento de promoção do bem estar social e psicológico. Na perspectiva de Schultz e Schultz (1998), Maslow, considerado o pai espiritual da psicologia humanista, desviou-se dos caminhos de profissionais e acadêmicos behavioristas e freudianos para postular uma teoria mais esclarecida sobre a raça humana. Desejava compreender as mais elevadas realizações que os seres humanos são capazes de alcançar. Segundo Maslow citado por SCHULTZ (2004), “quando os psicólogos estudam somente exemplos anormais e emocionalmente perturbados da humanidade, ignoram qualidades humanas positivas, como felicidade, satisfação e paz de espírito.” (p.290). Os conceitos de personalidade sadia de Abraham Maslow estão profundamente enraizados na matriz de sua teoria da natureza intrínseca e potenciais de crescimento do homem. Assim, o desenrolar do potencial humano é visto a partir de um conceito de progressiva gratificação de necessidades. A gratificação de necessidades assenta na convicção de Maslow de que o núcleo interno da personalidade, em seu estado nascente, é bom, digno de confiança, ético e deve permitir-se que se afirme. Os comportamentos negativos ou destrutivos são epifenômenos, sintomas resultantes de uma negação ou privação dessas necessidades. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 66 4.1 Vir-a-ser e ser Maslow distingue entre os dois modos sadios básicos de uma personalidade sadia: (i) vir-a-ser e ser e esclarece suas relações mútuas. Vir-a-ser é um processo direcional, centrado no crescimento, processo este que pode expandir-se e abranger toda a gama hierárquica de necessidades instintóides "inferiores" e "superiores''. Portanto, vir-a-ser representa um programa para a vida inteira que poderá transcender as motivações de deficiência e ingressar num status mais individualizante ou auto-realizador. (ii) o ser são os estados de experiências finais relativamente temporárias e desmotivadas. Tais "episódios" de ser representam amiúde um estado passivo, receptivo, que permite ao organismo uma expressão plenamente integrada de seus potenciais e uma expressão de suas car acterísticas mais singulares e estilísticas, como na arte, música, natureza, comunicação interpessoal e sexo. 4.2 Desenvolvimento autônomo Segundo Maslow, o ser humano possui leis intrínsecas que se distinguem das leis da realidade natural, de uma realidade não-humana. A personalidade sadia, embora inclua o êxito do comportamento interatuante apropriado,o domínio efetivação e competência na interação deve também incluir transcendência do ambiente, a independência em relação a este e a resistência à enculturação. Uma pessoa que cede facilmente às forças de distorção presentes na cultura é menos sadia que aquela que resiste ativamente a tais forças. 4.3 Valores S e metanecessidades O conceito de metanecessidades tem por base a ideia de que as pessoas que vivem em condição de gratificação de suas necessidades básicas têm em vista uma preocupação com o que Maslow denomina de Valores S. Esses valores seriam: “verdade, beleza, justiça, perfeição” (MASLOW, 2001, p.50); “integração, unificação e tendência em direção à unidade” (MASLOW, 2001, p.171); “ordem” (MASLOW, 2001, p.181), entre outros. As pessoas prezam e aproximam-se dos valores S em sociedades nas quais há sinergia (MASLOW, 2001, p.152). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 67 4.4 Auto realização Suas primeiras investigações sobre auto realização foram inicialmente estimuladas por sua vontade de entender de uma forma mais completa os dois professores que mais o influenciaram, Ruth Benedickt e Max Wertheimer. Maslow não somente os considerava cientistas brilhantes e extraordinários, mas seres humanos profundamente realizados e criativos. Assim, iniciou seu próprio estudo para procurar tentar descobrir o que os fazia tão especiais. Para Maslow (1971), a auto atualização é um processo contínuo de desenvolvimento das potencialidades individuais. Isso significa usar suas habilidades e inteligência e “trabalhar para fazer bem aquilo que queremos fazer.” (MASLOW, 1971, p.48). Não é uma “coisa” que alguém tem ou não tem, mas um processo jamais findo que se refere a uma maneira de viver, trabalhar e relacionar-se com o mundo. “Significa experienciar de modo pleno, intenso e desinteressado, com plena concentração e total absorção.” (MASLOW, 1971, p.45). Se pensarmos a vida como um processo de escolhas, a auto atualização significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento. Escolher o crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras, arriscar o novo e o desconhecido. Maslow (1971) escreve que indivíduos auto atualizadores são atraídos por problemas mais desafiantes e intrigantes, por questões que exigem grandes e criativos esforços. Estão dispostos a enfrentar a incerteza e a ambiguidade. “Explorar, manipular, experimentar [...] podem ser consideradas atributos do puro Ser e, no entanto, levam ao Vir a Ser, embora de um modo acidental, fortuito, imprevisto e não programado.” (MASLOW, 1968, p. 73). Assim, o crescimento é visto não só como a satisfação progressiva de necessidades básicas, até ao ponto em que elas ‘desaparecem’, mas também na forma de motivações específicas do crescimento, além e acima dessas necessidades básicas, por exemplo, talentos, capacidades, tendências criadoras, potencialidade constitucionais. Dessa maneira, somos também ajudados a compreender que necessidades básicas e individuação não se contradizem entre si mais do que a infância e a maturidade. Uma pessoa transita de uma para outra e a primeira é condição prévia e necessária da segunda. (MASLOW, 1968, p.53). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 68 Maslow definia a questão da auto realização como "o uso e a exploração pleno de talentos, capacidades, potencialidades, etc. Eu penso no homem que se auto atualiza não como um homem comum a que alguma coisa foi acrescentada, mas sim como um homem comum de quem nada foi tirado. O homem comum é um ser humano completo com poderes e capacidades amortecidos inibidos". Maslow (1971) faz algumas considerações a respeito dos modos pelos quais os indivíduos se auto realizam: Auto realização significa experienciar de modo pleno, intenso e desinteressado, com plena concentração e total absorção. Em geral estamos alheios ao que acontece dentro de nós e ao nosso redor. Se pensarmos na vida como um processo de escolhas, então a auto realização significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento. Escolher o crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras, mas arriscar o novo e o desconhecido. Auto realizar é aprender a sintonizar-se com sua própria natureza íntima. Isto significa decidir sozinho se gosta de determinadas coisas, independente das ideias e opiniões dos outros. A honestidade e o assumir responsabilidade de seus próprios atos são elementos essenciais na auto realização. Ao invés de, dar respostas calculadas para agradar outra pessoa ou dar a impressão de sermos bons Maslow pensa que as respostas devem ser procuradas em nós mesmos. Auto realização é também um processo contínuo de desenvolvimento das próprias potencialidades. Isto significa usar suas habilidades e inteligência para trabalhar e fazer bem, aquilo que queremos fazer. Um passo para além da auto realização é reconhecer as próprias defesas e então trabalhar para abandoná-las. Precisamos nos tornar mais conscientes das maneiras pelas quais distorcemos nossa autoimagem e a do mundo exterior através da repressão, projeção e outros mecanismos de defesa. Maslow acentua que o crescimento ocorre através do trabalho de auto realização. Auto realização representa um compromisso a longo prazo, com o crescimento e o desenvolvimento máximo das capacidades. O trabalho de auto realização envolve a escolha de problemas criativos e valiosos. Maslow afirma Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 69 que, indivíduos auto realizados são atraídos por problemas mais desafiantes e intrigantes, por questões que exigem os maiores e mais criativos esforços. Estão dispostos a enfrentar a incerteza e a ambiguidade e preferem o desafio à soluções fáceis. 4.5 Auto atualização Maslow começou a estudar a auto atualização mais formalmente através da análise das vidas, valores e atitudes das pessoas que considerava mais saudáveis e criativas. Tinha dois critérios para incluir pessoas em seu estudo inicial. Primeiro, todos os sujeitos estavam relativamente livres de neurose ou de problemas pessoais maiores. Segundo, todos aqueles que foram estudados usavam da melhor forma possível seus talentos, capacidades e outras forças. Encontrou características comuns entre os participantes e denominou- as “características de pessoas auto atualizadoras”. São elas: Percepção clara da realidade; aceitação de si, dos outros e da natureza; espontaneidade, simplicidade e naturalidade; dedicação a uma causa; independência e necessidade de privacidade; vigor de apreço; experiências culminantes; interesse social; relações interpessoais profundas; tolerância e aceitação dos outros; criatividade e originalidade; resistência a pressões sociais. Maslow chamou de “individuação” o interesse pessoal de cada um em se tornar criadoramente ativo no mundo, sendo a auto realização criadora o que mais importava. escrever, se quiser ficar, em última instância, em paz consigo mesmo. O que um homem pode fazer, ele deve fazer. Esta necessidade podemos chamar de auto atualização. Ela se refere ao desejo de auto atualização do homem, ou seja, a tendência de se tornar verdadeiramente o que ele é potencialmente: de se tornar tudo que alguém pode se tornar. (MASLOW, 2001, p.3). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 70 4.6 Hierarquia das necessidades humanas Maslow é reconhecido por sua Hierarquia das Necessidades e pelo conceito de auto realização como principal força motivadora; acreditava que os seres humanos aspiravam tornarem-se auto realizados. O homem, tal como Maslow o vê, segue sua vida dentro do contexto de uma hierarquia de necessidades instintóides que abrange todo o repertório e espectro de desejos e potenciais humanos, desde o homem impelido pela fome que buscaalimento até ao- júbilo humano na experiência e fruição do êxtase estético. As necessidades prepotentes, respectivamente, de satisfação fisiológica, segurança, amor, amor-próprio e auto realização manifestam-se numa sequência relativamente ordenada e previsível, à medida que cada uma delas é satisfeita, por seu turno (vide abaixo). Esta Hierarquia das Necessidades surgiu a partir da observação de que algumas necessidades fisiológicas, em níveis muito elevados, monopolizam a atenção do ser humano, mas, uma vez satisfeitas, dão espaço a outras necessidades. Não somos impulsionados por todas as necessidades ao mesmo tempo. Geralmente, apenas uma dominará nossa personalidade. Qual delas será vai depender de quais das outras terão sido satisfeitas. Essas necessidades podem ser influenciadas ou anuladas pelo aprendizado, pelas expectativas sociais e pelo medo de desaprovação. Embora venhamos dotados dessas necessidades ao nascer, os comportamentos que efetuamos para satisfazê-las são aprendidos e, portanto, sujeitos a variação de uma pessoa para outra. Sendo assim, as necessidades foram divididas por Maslow em cinco categorias, cada uma delas representada por um “degrau” da hierarquia: Uma relação adicional entre segurança e crescimento deve ser especialmente mencionada. Segundo parece, o crescimento tem lugar, habitualmente, através de pequenos passos e cada passo em frente só é possível mediante a sensação de se estar seguro, de se operar em campo desconhecido a partir de uma base de apoio onde se pode regressar em segurança, de se avançar com audácia porque a retirada é possível. ( MASLOW, 1968, p.76). Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 71 MEIA-IDADE (5) Necessidades de Autorrealização (4) Necessidades de Estima ADOLESCÊNCIA (3) Necessidades Afetivo-sociais (2) Necessidades Segurança INFÂNCIA (1) Necessidades Fisiológicas Maslow teoriza que as cinco categorias estão dispostas numa hierarquia, desde as necessidades de ordem mais baixa (fisiológicas), até as de ordem mais alta (auto realização). Esta hierarquia determina a prioridade que estará em vigência quando houver mais de um tipo de necessidade insatisfeita. Segundo Maslow (1968), as diferentes necessidades básicas relacionam-se numa ordem hierárquica, de tal modo que a satisfação de uma necessidade e sua consequente remoção do centro do palco provocam o aparecimento, na consciência, de outra necessidade “mais alta”; a carência e o desejo continuam, mas em nível “superior”. I. necessidades fisiológicas — compreendem os impulsos (drive), acrescidos da dinâmica da homeostase e da ideia de apetite (que introduz a escolha de alimentos pela pessoa ao tema da fome); II. necessidades de segurança — que Maslow entende ser uma classificação grosseira. Por necessidade de segurança depreende-se a inexistência de ameaças percebidas no ambiente. Maslow cita os trabalhos experimentais realizados com crianças para ilustrar seu conceito, e trabalhos clínicos com neuróticos obsessivo-compulsivos, que procuram organizar o mundo de forma a evitar suas ameaças inesperadas, e com lesionados cerebrais que evitam tudo o que lhes é estranho ou não familiar. Assim, o conceito de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 72 segurança de Maslow compreende certa estabilidade, entendimento e controle dos padrões de mudança do ambiente em que a pessoa se encontra; III. necessidades de pertença e amor — entendidas como o compartilhamento de afeto com pessoas em um círculo de amizade e intimidade. Embora a sexualidade possa fazer parte desse contexto de intimidade, o conceito de amor não se reduz ao de sexo. O comportamento sexual é multideterminado e pode ser enfocado na ótica das necessidades fisiológicas; IV. necessidades de estima —compreendem a imagem que a pessoa tem de si (autoestima ou autorrespeito) e o desejo de obter a estima dos outros. Maslow divide essas necessidades em dois conjuntos. No primeiro, ele situa o desejo de realização, adequação, maestria e competência, que possibilita confiança com relação ao mundo, independência e liberdade. No segundo conjunto ele situa a busca de reputação ou prestígio, status, dominância, reconhecimento, atenção, importância ou apreciação. A base desse conjunto de necessidades é encontrada na teoria psicanalítica adleriana, e a influência psicopatológica da falta de gratificação dessas necessidades é exemplificada com estudos de neuróticos de guerra; V. necessidades de auto realização ou auto atualização — compreendem a ideia, defendida por muitos autores (como Jung, 1987, por exemplo), de que as pessoas têm um potencial interno que necessita tornar-se ato. Maslow dedica dois capítulos à autorrealização, nos quais mostra dados colhidos a partir de análises biográficas de figuras históricas, estudo de pessoas contemporâneas de destaque e jovens que pareciam estar se desenvolvendo rumo à auto atualização; • desejos de saber e de entender(4) — que Maslow considera menos conhecidos, porque não possuem implicações clínicas, a principal base do conjunto de categorias desenvolvido por ele. Entretanto, ele as considera como necessidades e sujeitas à gratificação como as demais. Elas são postuladas por Maslow (1954, p.97) como “um desejo de entender, de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 73 sistematizar, de organizar, de analisar, de procurar por relações e significados, de construir um sistema de valores”; • necessidades estéticas — que Maslow entende como os impulsos à beleza, à simetria e, possivelmente, à simplicidade, à inteireza e à ordem. Ele afirma que observou essas necessidades em crianças saudáveis, mas que se encontram indícios delas em todas as culturas e em todas as idades. Desta forma, Maslow demonstra que o comportamento é sempre determinado pela categoria de necessidades de mais baixa ordem que permanecer insatisfeita. Sendo assim “o apetite de crescimento é estimulado pela satisfação, não aliviado” (MASLOW, 1968, p.57). Conforme Chiavenato citado por Bueno (2002), a escalada da pirâmide não depende apenas de condições oferecidas, mas também das circunstâncias de vida de cada pessoa. Segundo Schultz (2004), as necessidades superiores surgem mais tarde na vida, as fisiológicas e de segurança (1,2) emergem na infância, as de afiliação e de estima aparecem na adolescência (3,4) e a de auto realização apenas na meia-idade (5): Portanto, podemos considerar o processo de crescimento sadio uma série interminável de situações de livre escolha, com que cada indivíduo se defronta a todo instante, ao longo da vida, quando deve escolher entre os prazeres da segurança e do crescimento, dependência e independência, regressão e progressão, imaturidade e maturidade. A segurança tem suas angústias e seus prazeres; o crescimento tem suas angústias e seus prazeres. Progredimos quando os prazeres do crescimento e a ansiedade da segurança são maiores do que a ansiedade do crescimento e os prazeres da segurança. (MASLOW, 1968, p.74). O desajustamento psicológico é definido como doenças de carência, causadas pela privação de certas necessidades básicas, assim como a falta de vitaminas causa doenças. Outras necessidades, segundo Maslow, também devem ser satisfeitas para manter a saúde. Maslow afirma que, um exame acurado do comportamento animal ou humano revela outro tipo de motivação. Quando um organismo não está com fome, dor e medo novas motivações emergem, tais como curiosidade e alegria. Sob estas condições, as atividades podem ser desfrutadas como fins em si mesmas, nem sempre buscadas apenas como meio de gratificação de Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 74 necessidades. A este tipo de motivação denomina motivação do ser, pois, refere- se principalmente ao prazer e a satisfaçãono presente ou ao desejo de procurar uma meta considerada positiva. Por outro lado, a motivação de deficiência inclui uma necessidade de mudar o estado da coisa atual porque este é sentido como insatisfatório ou frustrador. 4.7 O self Maslow define o self como essência interior da pessoa ou sua natureza, inerente a seus próprios gostos, valores e objetivos. Compreender a própria natureza interna e agir de acordo com ela é essencial para atualizar o self. Maslow aborda a compreensão do self através do estudo daqueles indivíduos que estão em maior harmonia com suas próprias naturezas, daqueles que fornecem os melhores exemplos de autoexpressão ou auto atualização. Em síntese, o trabalho de Maslow, ofereceu uma contribuição considerável tanto prática quanto teórica para os fundamentos de uma alternativa para o Behaviorismo e a Psicanálise, correntes estas que segundo ele, tendem a ignorar e ou deixar de explicar a criatividade, o amor, o altruísmo e os outros grandes feitos culturais, sociais e individuais da natureza humana. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 75 EXERCITANDO A REFLEXÃO - MASLOW 1. O que, para Maslow, caracterizaria a tendência da auto realização. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. Como Maslow entende o self? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Como explica a “hierarquia das necessidades humanas”? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. Quais as características do indivíduo auto-atualizado? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 5. Explique a tendência auto-atualizante segundo Maslow. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 76 5. CARL ROGERS (1902-1987) 5.1 Vida e formação Carl Ramson Rogers nasceu em janeiro de 1902, em Ork Park, subúrbio de Chicago, onde morou até 12 anos de idade, quando seu pai comprou uma fazenda, onde foram viver. Membro de uma família cuja religião era rigorosamente fundamentalista, Rogers viveu numa atmosfera familiar repressiva (ROGERS, 1977). No campo, Rogers se ocupava de zoologia e botânica. Ao ingressar no Liceu da Wisconsin, dedicou-se à agricultura. Neste ambiente passou a interessar-se pelos métodos experimentais da agricultura e da criação de gado, dedicando-se intensamente a estes estudos. Segundo o próprio autor “Desde estes primeiros contatos com o método experimental, nunca mais deixei de sentir uma atração e um respeito cada vez maiores pela maneira científica de abordar um problema e de promover o conhecimento.” (ROGERS, 1977, p.145). Antes de 1942 publica Counselling and Psychotherapy, descrevendo o que, de alguma maneira, lhe parecia ser uma orientação mais eficaz da terapia. De 1944 a 1957, Rogers fica em Chicago, leciona psicologia e cria um centro de aconselhamento na universidade. Em 1947 é eleito presidente da Associação Americana de Psicologia: Em 1947, esbocei uma série provisória de proposições teóricas relativas à organização da personalidade (Some observations on the organization of personality). Quatro anos mais tarde, iniciei um primeiro ensaio de apresentação de uma teoria da personalidade e da terapia (Client- Centered Therapy). (ROGERS, 1977, p.144). Do seu primeiro livro em diante, Rogers passa a desenvolver trabalhos e publicar vários livros e artigos. Ele criou e promoveu a “terapia centrada no cliente”, foi o pioneiro no movim ento de grupos de encontro e um dos fundadores da Psicologia Humanista. Em 1964 muda-se para La Jolla, Califórnia, onde passa a dedicar-se à psicoterapia e as atividades de grupo, permanecendo neste local até sua morte em 1987. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 77 5.2 Principais etapas de sua teoria Rogers apresenta uma ilustração das “batatas” para sintetizar sua teoria. Afirma: O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. Costumo exemplificar esse processo lembrando batatas que guardávamos no porão da nossa casa na fazenda. Elas criavam brotos porque havia uma janelinha no Segto. Era uma tentativa inútil, mas parte da tentativa do organismo de se satisfazer. Você consegue um produto muito diferente quando planta uma batata na terra, e comparo esse processo ao que pode ser encontrado em delinquentes e em pessoas que são tidas como doentes mentais: o modo como suas vidas se desenvolveram pode ser muito bizarro, anormal; no entanto, tudo o que elas estão fazendo é uma tentativa para crescer, para atualizar seus potenciais. O fato de essa tentativa causar maus resultados situa-se mais no meio ambiente do que na tendência básica do indivíduo. A pedra fundamental da psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é, portanto essa crença de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo. 8 5.2.1 O “Eu” e o “Eu ideal” Os próximos conceitos a serem discutidos são o de “Eu” e “Eu Ideal”. Rogers considera o “eu” como sendo uma “configuração experiencial” composta de percepções, valores, sentimentos e emoções que se referem ao próprio indivíduo, às suas relações com o outro, com o meio e com a vida em geral. Para ele, tal configuração se encontra num estado de fluxo contínuo, isto é, muda constantemente, ainda que seja sempre organizada e coerente. Rogers em uma entrevista a Evans diz: A meu ver, o “eu” inclui todas as percepções que o indivíduo tem de seu organismo, de sua experiência, e do modo como essas percepções se relacionam com outra percepção e objetos no seu ambiente, e com todo o mundo exterior. (ROGERS in: EVANS, 1979, p.49). O “eu” não é uma entidade estável, imutável; Rogers usa esse termo para se referir ao contínuo processo de reconhecimento. É a visão que a pessoa 8 Revista VEJA. Op. cit. p. 3, 4 e 6. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 78 tem de si própria, baseada em experiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras. Características funcionais do “eu”: (i) por intermédio do “eu” se institui a interação do “organismo” com o mundo existencial; (ii) o “eu” pode ou não incorporar características alheias ou valores do “outro”, percebendo-os como seus; (iii) busca obter firmeza, constância e coerência para a eficiência do ajustamento pessoal e social; (iv) o “organismo” reage de forma coerente com o “eu”, garantindo-lhe o equilíbrio global; (v) toda e qualquer experiência que não seja condizente com a estrutura do “eu” será percebida como ameaçadora; (vi) à medida que a pessoa muda,como resultado de novas aprendizagens, novas experiências e da própria maturidade psíquica, a estrutura do “eu” também sofrerá mudanças. Em relação ao “Eu Ideal”, podemos dizer que tal conceito se refere ao “conjunto das características que o indivíduo desejaria poder reclamar como descritivas de si mesmo.” (ROGERS; KINGET, 1977, p.165). Segundo Fadiman e Frager (1979), a extensão da diferença entre o “eu” e o “eu ideal”, é um indicador de desconforto, insatisfação e dificuldades neuróticas. Aceitar-se como se é na realidade, e não como se quer ser, é um sinal de saúde mental. Como diz Rogers em sua entrevista a Evans: “O desajuste ocorre quando eu persisto em conservar uma imagem de mim mesmo que não corresponde ao que está realmente acontecendo no meu organismo.” (ROGERS in EVANS, 1979, p.50). A imagem do “eu ideal” é um obstáculo ao crescimento pessoal quando se diferencia do comportamento e dos valores reais de uma pessoa. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 79 5.2.2 Congruência e incongruência Outros conceitos centrais na teoria rogeriana são os de “Congruência” e “Incongruência”. Nos dizeres de Rogers e Stevens (1991), a “congruência” é facilitada quando um indivíduo, numa relação de ajuda, é aquilo que é, quando as suas relações com um outro são autênticas e sem máscaras, exprimindo abertamente os sentimentos e atitudes que nele surgem durante a relação. Sendo assim, o indivíduo entra num encontro pessoal direto com o outro, encontrando- o de pessoa para pessoa. 5.2.3 Tendência atualizante A noção de tendência atualizante é o postulado fundamental da teoria criada por Rogers e condição sine qua non para que seja possível a terapia centrada no cliente. Rogers vai além de Maslow ao dizer que a tendência atualizante não visa apenas à satisfação das necessidades a que este chamou de “necessidades por deficiência”, ou seja, a manutenção das condições elementares de subsistência. A vida é um processo ativo, e não passivo. Independente da proveniência do estímulo, se externo ou interno, ou das condições ambientais, um organismo sempre se comportará em direção à sua manutenção, crescimento e reprodução. Essa é a própria natureza do processo a que chamamos vida. Em qualquer ocasião, a tendência atualizante está em ação. Promove, pois, o crescimento total, assim como o enriquecimento do “organismo” num processo de vir-a-ser constante. No que se refere ao organismo humano, em especial, ela se revela tanto a nível físico como psíquico. Naquele, atua na promoção da manutenção alimentar, no calor necessário para a sua sobrevivência e, ainda, na regulação dos processos químicos orgânicos; neste, ela se apresenta impulsionando o homem para uma maior “abertura à experiência” e ao relacionamento interpessoal. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 80 Conforme Rogers (1977), a operação da tendência atualizante tem por efeito dirigir o desenvolvimento do “organismo” no sentido da autonomia e da unidade. O que tal tendência procura atingir é aquilo que o sujeito percebe como valorizador ou enriquecedor – não necessariamente o que é objetiva ou intrinsecamente enriquecedor. Respondendo à VEJA9 acerca da “pessoa emergente”, diz Rogers: Vejo a pessoa emergente como a que tomou o risco de viver de um modo novo e mais humano numa sociedade que não encoraja esse tipo de aprendizagem. Portanto, seu caminho não é fácil. São pessoas que não estão ligadas a coisas materiais, embora possam aprecia-las se as possuírem. Em termos de autoridade, vejo pessoas emergentes como alguém que tem um sentimento bastante profundo, de que somente dentro de si existe a maior fonte de autoridade, na qual pode confiar. Esta pessoa está pronta a ouvir qualquer autoridade, mas quando se trata de seu próprio comportamento, a escolha está unicamente, dentro de si mesma. Ela é quem avalia toda experiência e autoridade, e toma decisões baseadas no que ela quer fazer. Na verdade, sempre existiu uma ou outra pessoa assim. No entanto, ter um grande grupo de indivíduos tomando decisões por si mesmo, como aconteceu nos Estados Unidos, durante a guerra do Vietnam, quando um vasto número de jovens simplesmente se recusou a ir para a guerra, é realmente um novo aspecto da sociedade. 5.2.4 Relação de ajuda Uma “relação de ajuda” define-se como uma “relação na qual pelo menos uma das partes procura promover na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, um melhor funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida.” (ROGERS, 1977, p.43). Para Rogers (1977), qualquer relação pessoa/pessoa que se enquadre na definição acima pode ser considerada uma “relação de ajuda”: Talvez esta enumeração sirva para provar que uma grande parte das relações nas quais nós e os outros estamos envolvidos entram nesta categoria de interações em que existe o propósito de promover o desenvolvimento, uma maior maturidade e um mais adequado funcionamento. (ROGERS, 1977, p.44). Em suas obras Rogers enfatiza com frequência a questão da “congruência” no âmbito da relação terapêutica. Para ele tanto terapeuta quanto 9 Op. cit. p. 3, 4 e 6. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 81 cliente devem se manter congruentes ao longo do processo para que se possa observar mudanças representativas na personalidade daquele que busca a psicoterapia. Em relação ao cliente, Rogers (1977) diz que a importância de haver a “congruência” é no sentido de obter uma relação mais estreita e verdadeira entre suas experiências e o “eu”, a fim de que a pessoa seja capaz de tomar consciência daquilo que está vivendo. A “congruência” por parte do terapeuta é de extrema importância porque, segundo Rogers e Stevens (1991), quanto mais autêntico e congruente ele for, maior a probabilidade de ocorrer mudança na personalidade do cliente: [...] se o terapeuta é congruente ou transparente, então as suas palavras estão de acordo com os seus sentimentos, em vez destes elementos divergirem; se o terapeuta tem uma simpatia incondicional pelo cliente, se o terapeuta compreende os sentimentos essenciais do cliente como eles surgem ao próprio cliente – então há uma forte probabilidade de que essa relação de ajuda seja eficaz. (ROGERS, 1977, p.53). Por outro lado, a “incongruência”, nos dizeres de Rogers (in EVANS, 1979), ocorre quando a experiência do indivíduo é muito discrepante do modo como ele se organizou, quando há discrepância entre a imagem que tem de si mesmo e aquilo que está de fato vivendo. 5.3 Tornar-se pessoa: Como ajudar os outros Ao se indaga como ajudar os outros, Rogers conclui que as abordagens intelectuais não tem em si os elementos que tragam êxito a esse propósito. E conclui: “O fracasso de quaisquer destas abordagens através do intelecto me forçou a reconhecer que a mudança parece surgir por meio da experiência em uma relação”. Passa, então, a oferecer três hipóteses para uma relação de ajuda. Diz: “Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 82 1 Relação: primeira tese “Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? Descobri que quanto mais conseguir ser genuíno na relação, mais útil esta será. Isso significa que devo estar consciente de meus próprios sentimentos, o mais que puder, ao invés de apresentar uma fachada externa de uma atitude, ao mesmo tempo em que mantenho uma outra atitude em um nível mais profundo ou inconsciente. Ser genuíno também envolve a disposição para ser e expressar, em minhas palavras e em meu comportamento, os vários sentimentos e atitudes que existem em mim. Como uma segundacondição, acho que quanto mais aceitação e apreço sinto com relação a esse indivíduo, mais estarei criando uma relação que ele poderá utilizar. Por aceitação, quero dizer uma consideração afetuosa por ele enquanto uma pessoa de autovalia incondicional — de valor, independente de sua condição, de seu comportamento ou de seus sentimentos... Também acho que a relação é significativa na medida em que sinto um desejo contínuo de compreender — uma empatia sensível com cada um dos sentimentos e comunicações do cliente como estes lhe parecem no momento. Aceitação não significa muito até que esta envolva a compreensão. É somente à medida que compreendo os sentimentos e pensamentos que parecem tão terríveis para você, ou tão fracos, ou tão sentimentais, ou tão bizarros — é somente quando eu os vejo como você os vê, e os aceito como a você, que você se sente realmente livre para explorar todos os cantos recônditos e fendas assustadoras de sua experiência interior e frequentemente enterrada. Essa liberdade constitui uma condição importante da relação. Aqui está implicada uma liberdade para explorar a si próprio tanto em níveis conscientes quanto inconscientes, o mais rápido que se puder embarcar nessa busca perigosa. Há também uma liberdade completa de qualquer tipo de avaliação moral ou diagnóstica, já que todas estas avaliações são, a meu ver, sempre ameaçadoras. Dessa forma, a relação que considerei útil é caracterizada por um tipo de transparência de minha parte, onde meus sentimentos reais se mostram Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 83 evidentes; por uma aceitação desta outra pessoa como uma pessoa separada com valor por seu próprio mérito; e por uma compreensão empática profunda que me possibilita ver seu mundo particular através de seus olhos. Quando essas condições são alcançadas, torno-me uma companhia para o meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para ingressar. 2 A motivação para a mudança: segunda tese “... A segunda frase em minha hipótese geral era que o indivíduo descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar essa relação para crescer. Tentarei apontar algo do significado que esta frase encerra para mim. Gradualmente, minha experiência me fez concluir que o indivíduo traz dentro de si a capacidade e a tendência, latente se não evidente, para caminhar rumo à maturidade. Em um clima psicológico adequado, essa tendência é liberada, tornando-se real ao invés de potencial. Isto se mostra evidente na capacidade do indivíduo para compreender aqueles aspectos da vida e de si mesmo que lhe estão causando dor e insatisfação, uma compreensão que investiga, por detrás do conhecimento consciente de si mesmo, aquelas experiências que escondeu de si devido à sua natureza ameaçadora. Isso se revela na tendência para reorganizar sua personalidade e sua relação com a vida em maneiras que são tidas como mais maduras. Seja chamando a isto uma tendência ao crescimento, uma propensão rumo à auto realização ou uma tendência direcionada para frente, esta constitui a mola principal da vida, e é, em última análise, a tendência de que toda psicoterapia depende. E a necessidade que se faz evidente em toda a vida orgânica e humana — de expandir, estender, tornar-se autônoma, desenvolver, amadurecer — a tendência de expressar e ativar todas as capacidades do organismo, ao ponto em que tal ativação aprimore o organismo ou a pessoa. Essa tendência pode se tornar profundamente oculta sob camadas de defesas psicológicas incrustadas que se sobrepõem; pode estar escondida atrás de fachadas elaboradas que negam sua existência; porém sustenho que ela existe em Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 84 cada indivíduo, e aguarda somente pelas condições apropriadas para ser liberada e expressa. 3 Resultados: terceira tese A terceira frase de minha afirmação geral era que a mudança e o desenvolvimento pessoal ocorreriam. Minha hipótese é que nessa relação o indivíduo se organizará tanto no nível consciente quanto naqueles mais profundos de sua personalidade de maneira a enfrentar sua vida de uma forma mais construtiva, mais inteligente, assim como mais socializada e satisfatória. Aqui posso deixar a especulação e incluir o corpo cada vez maior de dados consistentes de pesquisa que se vêm acumulando. Sabemos agora que os indivíduos que experienciam essa relação mesmo por um número relativamente limitado de horas apresentam profundas e significativas mudanças em personalidade, atitudes e comportamento, mudanças que não ocorrem em grupos de controle combinados. Nesse relacionamento, o indivíduo se torna mais integrado, mais efetivo. Exibe menos daquelas características que são normalmente intituladas neuróticas ou psicóticas, e mais daquelas características da pessoa sadia e em bom funcionamento. Ele muda a percepção que tem de si mesmo, tornando-se mais realista em suas visões do eu. Torna-se mais semelhante à pessoa que deseja ser. Ele se valoriza mais. Mostra-se mais autoconfiante e autodirigido. Apresenta uma melhor compreensão de si mesmo, tornando-se mais aberto à sua experiência, negando ou reprimindo menos a mesma. Torna-se mais aceitador em suas atitudes com relação aos outros, vendo- os como mais semelhantes a si mesmo. Em seu comportamento exibe mudanças similares. Mostra-se menos frustrado pelo estresse, recuperando-se do mesmo mais rapidamente. Torna-se mais maduro em seu comportamento cotidiano, sendo isto observado pelos amigos. É menos defensivo, mais adaptativo, mais apto a enfrentar situações de forma criativa”. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 85 5. 4 Tornar-se pessoa: Como poderei criar uma relação de ajuda? Diz Rogers: “Creio que todos aqueles dentre nós que trabalham no domínio das relações humanas enfrentam um problema semelhante quando se trata de saber como aplicar os conhecimentos que a investigação nos trouxe”. Apresenta, então, dez características de uma relação de ajuda. 1 Poderei conseguir ser de uma maneira que possa ser apreendida pela outra pessoa como merecedora de confiança, como segura ou consistente no sentido mais profundo do termo? ... Parecia-me que se eu preenchesse todas as condições exteriores que inspirassem confiança — a pontualidade nas entrevistas, o respeito pela natureza confidencial das entrevistas, etc. — e se eu agisse da mesma maneira durante as entrevistas, essas condições estariam cumpridas. A experiência, porém, ensinou-me que, por exemplo, o fato de me comportar com uma atitude permanente de aceitação, se na realidade me sentir irritado, cético ou com qualquer outro sentimento de não-aceitação, acabaria por fazer com que fosse considerado inconsistente ou não merecedor de confiança. Comecei a reconhecer que ser digno de confiança não implica ser coerente de uma forma rígida, mas sim que se possa confiar em mim como realmente sou. Empreguei o termo “congruente” para descrever o modo como gostaria de ser. Com este termo pretendo dizer que qualquer atitude ou sentimento que estivesse vivenciando’ viria acompanhado da consciência dessa atitude. Quando isso é verdade, sou, naquele momento, uma pessoa unificada e inteirada e é então que posso ser o que sou no mais íntimo de mim mesmo. Esta é uma realidade que, por experiência, proporciona aos outros, confiança. 2 A segunda questão relaciona-se de muito perto com a primeira: poderei ser suficientemente expressivo enquanto pessoa para que o que sou possa ser comunicado sem ambiguidades? ... Quando estou vivenciando uma atitude de irritação para com outra pessoa e não tomo consciência dela, a minha comunicação passa a encerrar mensagens contraditórias... Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 86 3 A terceira questão é: serei capaz de vivenciaratitudes positivas para com o outro — atitudes de calor, de atenção, de afeição, de interesse, de respeito? Isto não é fácil. Reconheço em mim mesmo e descubro nos outros muitas vezes um certo receio em relação a esses sentimentos. 4 Há uma outra questão cuja importância pude perceber ao longo da minha experiência: poderei ser suficientemente forte como pessoa para ser independente do outro? Serei capaz de respeitar corajosamente meus próprios sentimentos, minhas próprias necessidades, assim como as da outra pessoa? Poderei possuir e, se for necessário, exprimir os meus próprios sentimentos como alguma coisa que propriamente me pertence e que é independente dos sentimentos do outro? Serei bastante forte na minha independência para não ficar deprimido com sua depressão, assustado com seu medo ou envolvido por sua dependência? O meu eu interior será suficientemente forte para sentir que eu não sou nem destruído por sua cólera, nem absorvido por sua necessidade de dependência, nem escravizado por seu amor, mas que existo independentemente dele ... 5 A questão seguinte está estreitamente ligada à anterior. Estarei suficientemente seguro no interior de mim mesmo para permitir ao outro ser independente? Serei capaz de lhe permitir ser o que é — sincero ou hipócrita, infantil ou adulto, desesperado ou presunçoso? Poderei dar-lhe a liberdade de ser? Ou sinto que ele deveria seguir meus conselhos, ou permanecer um pouco dependente de mim, ou ainda tomar-me como modelo? ... 6 poderei permitir-me entrar completamente no mundo dos sentimentos do outro e das suas concepções pessoais e vê-los como ele os vê? Poderei entrar no seu universo interior tão plenamente que perca todo desejo de avaliá-lo ou julgá- lo? Poderei entrar com suficiente delicadeza para me movimentar livremente, sem esmagar significações que lhe são preciosas? Poderei compreender esse universo tão precisamente que apreenda, não apenas as significações da sua experiência que são evidentes para ele, mas também as que são só implícitas e que ele não vê senão obscura e confusamente? Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 87 7. ... outra questão é saber se posso aceitar todas as facetas que a outra pessoa me apresenta. Poderei aceitá-la como ela é? Poderei comunicar-lhe essa atitude? Ou poderei apenas colhê-la condicionalmente. Aceitando alguns aspectos da sua maneira de sentir e desaprovando outros, silenciosa ou abertamente? ... 8. Um aspecto bastante prático surge da questão precedente: serei capaz de agir com suficiente sensibilidade na relação para que meu comportamento não seja percebido como uma ameaça? 9. ... poderei libertá-lo do receio de ser julgado pelos outros? Na maior parte das fases da nossa vida — em casa, na escola, no trabalho achamo-nos dependentes das recompensas e dos castigos que são os juízos dos outros... Desse modo, cheguei à conclusão de que quanto mais conseguir manter uma relação livre de qualquer juízo de valor, mais isso permitirá à outra pessoa atingir um ponto em que ela própria reconhecerá que o lugar do julgamento, o centro da responsabilidade, reside dentro de si mesma. 10 Uma última questão: serei capaz de ver esse outro indivíduo como uma pessoa em processo tornar-se ela mesma, ou estarei prisioneiro do meu passado e do seu passado? Se, no meu encontro com ele, o trato como uma criança imatura, como um aluno ignorante, como uma personalidade neurótica ou um psicopata, cada um desses conceitos limita o que ele poderia ser na nossa relação. Martin Buber, o filósofo existencialista da Universidade de Jerusalém, emprega a expressão “confirmar o outro”, expressão que teve para mim um grande significado. Disse ele: “Confirmar significa (...) aceitar todas as potencialidades do outro (...) Eu posso reconhecer nele, conhecer nele a pessoa que ele foi (...) criado para se tornar (...) Confirmo-o em mim mesmo e nele em seguida, em relação a essas potencialidades (...) que agora podem se desenvolver e evoluir”. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 88 EXERCITANDO A REFLEXÃO - CARL ROGERS 1. Explique a “congruência e incongruência” no pensamento rogeriano. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 2. O que Rogers defende como tendência auto-atualizante? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 3. Rogers indaga: “Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? No aspecto “relação” indique 3 respostas dadas pelo autor extraídas da sua própria experiência. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 4. Distinga, segundo o pensamento rogeriano, o “eu” do “eu ideal”. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 5. Faça uma síntese de 5 condições que podem criar um ambiente adequado para uma “relação de ajuda”. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 89 CONCLUSÃO - EXISTENCIALISMO COMO FUNDAMENTAÇÃO FILOSÓFICA DA GESTALT-TERAPIA Ao se questionar sobre as bases filosóficas da Gestalt-terapia deve-se ter em mente tratar se de um projeto aberto, em fase de desenvolvimento. Uma vez que se toma o curso da gestalt-terapia como parte do movimento da "psicologia humanística" (Bühler/ Allen 1974) que abrange diferentes conceitos teóricos e práticos, os limites entre ela e estes são fluidos. Por isso só podemos esboçar a base filosófica comum, considerando que as mais diversas correntes estão contidas no desenvolvimento. A gestalt-terapia bem como a psicologia humanística são deci- sivamente influenciadas pelo existencialismo, especialmente pelos exis- tencialistas franceses (Camus, Sartre, Mareei, Merleau-Ponty). Os conceitos gestálticos centrais, como por exemplo, concentração sobre o ser concreto, concentração sobre a existência individual em relação a outros, auto-responsabilidade, possibilidades de escolha significativa etc., são também base dos existencialistas franceses. Eis, brevemente, os sete princípios básicos dos existencialistas como Storig (1974, vol. 2, p. 293) os resumiu: (1) Por existência os existencialistas entendem a existência do ser humano. O ser humano é o centro, portanto, essa filosofia é "humanística". Este ponto de partida a "psicologia humanística" e a gestalt-terapia têm em comum (o ser humano no centro). (2) "Existência é sempre existência individual". Nesse sentido a filosofia existencialista é subjetiva. A ênfase na existência individual concreta, na experiência individual é um princípio gestáltico. No caso de Fritz Perls já se pode falar de individualismo, como em nossa opinião também se torna evidente na "prece da gestalt". (3) O ser humano não pode ser medido em categorias materiais. Ele é sua própria medida.Não possui, como por exemplo os objetos, características definidas, ele é que se faz. Aqui se torna evidente o princípio da auto- responsabilidade e .da possibilidade da própria pessoa dar forma à sua existência. Uma clara limitação em relação aos conceitos biológicos Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 90 behavioristas. (4) Quanto ao método, os existencialistas são fenomenólogos. Diferentemente de Husserl, entretanto, eles não estão tão preocupados em encontrar "substâncias" pessoais e é a existência concreta que está em primeiro plano em suas observações. Conceitos como o estar consciente, o aqui-e-agora, a ênfase no "como" ao invés do "por que", têm uma indiscutível importância. _ (5) "A filosofia existencialista é dinâmica". A existência é compreendida não como ser imutável e sim como ser no tempo. O princípio dinâmico é um outro marco para a abordagem de gestalt. (6) A existência humana é sempre um "ser(estar)-no-mundo" e é sempre um "ser (estar)-com-os-outros": nesse sentido, a psicologia existencialista não é individualista. Essa afirmação não representa de modo algum contradição ao segundo fundamento, pois os existencialistas tomam a existência humana como unidade com dois pólos: "'existência humana como existência individual" e "existência humana como "ser-( estar) -no- mundo-com-os-outros". Nesta altura depara-se com um problema específico da gestalt -terapia. O perigo do individualismo está, em nossa opinião, muito próximo na abordagem de Perls, especialmente no seu trabalho prático. Assim, em Perls, a ênfase no "estar-com-os-outros" é prejudicada. ( 7) O pensamento da psicologia (sic) existencialista reveste-se de um cunho muito pessoal e determinado pela vivência. O que é também característica da psicologia humanística. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 91 REFERÊNCIAS KIERKEGAARD, Sören Abbye. Temor e Tremor. 3. ed. São Paulo: Abril Editora. MASLOW, Abraham Harold. Introdução à Psicologia do Ser. 2.ed. Rio de Janeiro: Eldorado, 1968. Tradução Álvaro Cabral. _________________________. Motivación y Personalidad. Madrid: Díaz de Santos, 1991. ROGERS, Carl Ransom et al. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente àAbordagem Centrada na Pessoa. São Paulo: Summus, 1983. ________________________. Liberdade para Aprender: uma visão de como a educação deve vir a ser. 3.ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1975. Tradução Edgar de Godoi da Mata Machado e Márcio Paulo de Andrade _________________________. Um Jeito de Ser. São Paulo: EPU, 1983. TraduçãoAfonso Henrique L. da Fonseca. ROGERS, Carl Ransom; KINGET, G. Marian. Psicoterapia e Relações Humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva. Tradução Maria Luísa Bizzotto.2. ed., vol.1, Belo Horizonte: Interlivros, 1977. ROGERS, Carl Ransom. Tornar-se pessoa. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1977. Tradução Manuel José do Carmo Ferreira. SARTRE, J. P. Sartre. O existencialismo é um humanismo. 3. ed. São Paulo: Abril Editora. SCHULTZ, Duane P; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da Psicologia Moderna. 10.ed., rev. e ampl. São Paulo: Cultrix, 1998. Tradução Álvaro Cabral. SCHULTZ, P. D. Teorias da Personalidade. São Paulo: Pioneira Thomson, 2004. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 92 Anexo 1 - FICHAMENTO 1 CAVALCANTE, J.A.S. Existencialismo e Kierkegaard p. CAVALCANTE, J.A.S. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 93 Anexo 2 - FICHAMENTO 2 CAVALCANTE, J.A.S. Friedrich Nietzsche p. CAVALCANTE, J.A.S p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 94 Anexo 3 - FICHAMENTO 3 CAVALCANTE, J.A.S. Jean Paul Sartre p. CAVALCANTE, J.A.S. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 95 CAVALCANTE, J.A.S. Jean Paul Sartre p. CAVALCANTE, J.A.S. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 96 Anexo 4 - FICHAMENTO 4 CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia p. CAVALCANTE, J.A.S. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 97 CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia. p. CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 98 Anexo 5 - FICHAMENTO 5 CAVALCANTE, J.A.S. Abraham Maslow e Carl Rogers p. CAVALCANTE, J.A.S. p. Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 99 CAVALCANTE, J.A.S. Abraham Maslow e Carl Rogers p. CAVALCANTE, J.A.S p.