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Prof. Me. Cavalcante 
(Org.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aluno(a): ................................................................ 
Turma : 
.............................................................
 
 
 
 PLANO DE AULA DO PROFESSOR 
CURSO: PSICOLOGIA 
DISCIPLINA: Teoria Humanista Existencial CÓDIGO: 3986 PERÍODO: 6 
PRÉ-REQUISITO: CARGA HORÁRIA: 45 CRÉDITOS: 3 
Mês Enc Data Conteúdo 
A
G
O
S
T
O
 
1º. 5  Webinar: Palestras, orientações e planejamento 
2º. 12 
 Apresentações pessoais, de conteúdo e critérios de avaliação. 
 Antecedentes conceituais: “essência e existência” 
 Existencialismo: conceito, divisão e autores. 
3º. 19  O existencialismo cristão de Sören Kierkegaard 
4º. 26  O existencialismo cristão de Sören Kierkegaard 
 O existencialismo ateu de Friedrich Nietzsche 
S
E
T
E
M
B
R
O
 
5º. 2  O existencialismo de J. P. Sartre 
6º. 9  O existencialismo de J. P. Sartre 
7º. 16  Fenomenologia de Husserl 
8º. 23  Seminário: Grupos 1,2,3,4 
9º. 30  Aplicação da V1 
O
U
T
U
B
R
O
 10º. 7  Fenomenologia de Husserl 
11º. 14  Seminário: Grupos 5,6,7 
12º. 21  Antecedentes históricos da Psicologia: o humanismo 
13º. 28  A Psicologia humanista de A. Maslow 
N
O
V
E
M
B
R
O
 14º. 4 
 Seminário: Grupos 8,9 
 A Psicologia humanista de A. Maslow 
15º. 11  A Psicologia humanista de C. Rogers 
16º. 18  A Psicologia humanista de C. Rogers 
17º. 25  A Psicologia humanista de C. Rogers 
D
E
Z
E
M
B
R
O
 18º. 2 Aplicação da V2 
19º. 9 Devolução e correção da V2. Convocação para VS 
20º. 16 Aplicação da VS 
 
GRUPOS E TEMAS DOS TRABALHOS 
Grup Integrantes 
Data 
Apres 
1 Fenomenologia de Husserl 
23/09 
2 Fenomenologia aplicada à Psicologia 
MASLOW, A.H. Introdução à psicologia do ser. Tradução de Álvaro Cabral. Coleção anima 
3 Cap. 3 “Crescimento por motivação e crescimento por deficiência”. 
23/09 
4 Cap. 4 “Defesa e Crescimento” 
5 Cap.10 “Criatividade nas pessoas individuacionantes” 
14/10 6 Cap.11 “Dados psicológicos e valores humanos” 
7 Cap. 12 “Valores, crescimento e saúde” 
8 Cap. 13 “A Saúde como Transcendência do Ambiente” 
4/11 
9 Cap. 14 “Proposições Básicas de uma Psicologia do Crescimento e da Individuação” 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 3 
 
 
 
Orientações sobre as VTs 
 
VT individual (5,0 pontos) MANUSCRITA: 
 Um fichamento, em forma de tópicos, das ideias centrais de K 
Kierkegaard, Nietzsche e Sartre (nota: 0,0 – 2,0). 
 Questionário da Fenomenologia (nota: 0,0 – 1,5). 
 Um fichamento, em forma de tópicos, das ideias centrais de 
Maslow e Rogers (nota: 0,0 – 1,5). 
 
 
Seminários (5,0 pontos) DIGITADA: 
 
ITEM AVALIAÇÃO NOTA O QUE SE REQUER 
Texto digitado 
(5-6 páginas) 
Grupo 1,0 
Texto digitado nas normas técnicas. A 
nota é para todo o grupo. Entrega na 
apresentação. 
Participação Individual 1,0 
Todos os integrantes devem estar em 
sala e apresentar, 
Domínio tema Individual 1,5 
O(a) aluno(a) deve demonstrar que 
estudou e tem domínio do assunto 
apresentado. 
Resposta às 
perguntas 
Grupo 1,5 
O grupo será sabatinado: qualquer 
pergunta, sobre qualquer assunto 
para qualquer integrante. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 4 
 
ORIENTAÇÕES IMPORTANTES 
MIA1 - MANUAL INFORMATIVO DO ALUNO - SÍNTESE 
 
OBS 1. Nenhum aluno poderá assistir aulas sem que tenha [assinado] o “Contrato 
de Prestação de Serviços” e preenchido …o plano de estudos..(p. 11) 
 
XI - A LICENÇA ESPECIAL SERÁ CONCEDIDA NAS SEGUINTES 
SITUAÇÕES: (p. 13) 
a) doenças diversas (Dec. Lei 1.044/69) 
b) gestantes (Lei 6.202/75) 
c) Qualquer solicitação do aluno referente aos benefícios … deverá ser feita por 
intermédio de requerimento, na Tesouraria da Universidade. O interessado 
deverá procurar o Protocolo... 
Portanto, não cabe ao Professor receber/apreciar/aceitar atestado médico em 
nenhuma circunstância. 
DAS AVALIAÇOES E FREQUÊNCIA (p. 19-21) 
I – O aluno será submetido a 3 (três) avaliações no semestre: 
a) V1 = toda a matéria dada até a data da prova (valor de 0 a 10 x 2); 
b) VT = verificação de trabalhos individuais ou em grupo (valor de 0 a 10); 
c) V2 = toda a matéria ministrada no semestre (valor de 0 a 10 x 2). 
III – A VS não poderá ter aproveitamento inferior a 5 (cinco) 
V – Em qualquer caso, o aluno deverá ter o mínimo de 75% (setenta e cinco 
por cento) de frequ ̈.ncia nos cursos presenciais (MEC). 
 
§ 2º - O aluno só terá direito a realizar 2ª chamada de no máximo duas disciplinas 
de uma das avaliações (VI ou VII). 
O discente terá 48h para requerer 2a. Chamada. Após, precisará de dois 
procedimentos: 
 Recurso Acadêmico; (se for deferido) 
 Pedido de 2a. chamada. 
 
Não existe segunda chamada de VT ou de VS. Exceto em caso de LICENÇA 
ESPECIAL. 
Não deixe de ler o MIA e conhecer seus DIREITOS e OBRIGAÇÕES! 
 
 
 
1 Disponível em http://www.universo.edu.br/portal/goiania/files/ 2010/ 11/ MIA-2-2013-em-
28-05-2013.pdf. Acessado em 01/08/13. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
PARTE I 
FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS 
DA PSICOLOGIA HUMANISTA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 6 
 
1. EXISTENCIALISMO 
1.1 CONCEITO 
O existencialismo é uma corrente filosófica que busca 
o conhecimento da realidade através da experiência imediata da própria 
existência. Não existe, no entanto, nenhuma teoria precisa ou exata que defina o 
que quer dizer existencialismo. 
O que é dado por certo é que este movimento da filosofia destaca o ser 
humano individual como criador do significado da sua vida. A temporalidade 
do sujeito, a sua existência concreta no mundo, é aquilo que constitui o ser e não 
uma suposta essência mais abstrata. 
Os existencialistas não concordam que o indivíduo seja uma parte de 
um todo. São antes da opinião de que cada ser humano é uma integridade livre 
por si mesma. A existência própria de uma pessoa (a sua vivência) é o que define 
a sua essência e não uma condição humana geral. 
Por outras palavras, o ser humano existe a partir do momento em que 
é capaz de formular qualquer tipo de pensamento. O pensamento faz com que a 
pessoa seja livre: sem liberdade, não há lugar à existência. 
Esta mesma liberdade faz com que o indivíduo seja responsável pelos 
seus atos. Há, por conseguinte, uma ética da responsabilidade individual. A 
pessoa deve assumir os atos que realiza no exercício da sua liberdade. 
1.2 DIVISÃO 
Esta corrente pode dividir-se em diversas escolas, como: 
 existencialismo teísta (reflete sobre a existência de Deus e do Espírito, Gabriel 
Marcel); 
 o existencialismo ateu (nega o divino - Sartre ,1905-1980; e Albert Camus 
1913-1960); e o 
 existencialismo agnóstico (considera que a existência de Deus é irrelevante 
para a existência humana). 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 7 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - EXISTENCIALISMO 
 
1. O que caracterizou a Filosofia entre os séculos IV a.C e o século XVIII d.C. 
Explique. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
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______________________________________________________________________ 
2 Conceitue existencialismo. 
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______________________________________________________________________ 
3. Cite as divisões do existencialismo e indique os autores que integram cada 
uma. 
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______________________________________________________________________ 
4. Como o existencialismo trata a questão da liberdade? 
______________________________________________________________________
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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 8 
 
1.3 SÖREN KIERKGAARD 2 (1813-1855) 
Toda obra de Kierkegaard é a pura expressão de sua própria vida. Seu 
pensamento surgiu da luta de consciência perante sua condição de existir. A 
condição absoluta de sua filosofia, e até a única razão de seu viver, estava na 
relação estreita entre existir como pessoa e a consciência desse existir. Foi, na 
verdade, o primeiro representante da filosofia existencial e o primeiro a se 
preocupar em compreender a existência. 
Kierkegaard defendia a ideia de que existe uma verdade subjetiva: 
“uma verdade que seja pra mim encontrar uma ideia pela qual eu possa viver ou morrer” 
(1974). Sua religião – luterana – se opunha a esta concepção. Tornou-se um 
filósofo solitário por não conseguir se adaptar às ideias religiosas então impostas, 
assim como pela angústia do pecado e da sensualidade que o invadiam na época. 
A filosofia resumia-se na tomada de consciência das exigências 
absolutas feitas a qualquer pessoa que quisesse viver uma existência 
verdadeiramente autêntica. Para ele, pensar não é existir, mas tornar-se um 
espectador dessa vivência. Oposto ao racionalismo de Descartes. No 
racionalismo, o sujeito é objeto para si mesmo, deixando de existir como pessoa, 
e é ai que reside a grande diferença de Kierkegaard: o sujeito e o objeto são uma coisa 
só, ou melhor, são partes de uma mesma estrutura. Basta compreender-se existindo; 
viver a experiência ao invés de observá-la de fora. A verdade é própria existência, 
não havendo, por isso, uma verdade absoluta. Ela existe para o indivíduo na 
medida em que, por ação, a produz. 
A escolha constitui uma das noções mais importantes de sua filosofia, 
pois era vista como uma espécie de núcleo da existência humana. A escolha é 
desprovida de lógica, mas não de um sentido psicológico: o que o indivíduo faz, 
depende do que ele quer, do que ele escolhe, não do que compreende. Entretanto, 
nenhuma opção se realiza sem angústia. Cada escolha é um risco pela sua própria 
incerteza. Existir é escolher-se. Sendo artífice de si mesmo, realizando a sua 
essência, uma pessoa se expõe ao risco. A escolha é necessária e livre: o indivíduo 
 
2 Disponível em: http://psicologado.com/abordagens/humanismo/existencialismo-sorenaabyekierkegaard# 
ixzz3A2UxiiDv 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 9 
 
é obrigado a fazer opções para existir, embora essas opções não sejam 
constrangedoras. 
Ao mesmo tempo, existir implica em angústia e desespero. A 
obrigação de escolher, assim como o risco a que se está exposto, desespera. 
1.3.1 Os três estágios da existência humana 
Analisando a existência humana, percebe que essa se processa em três 
estágios: estético, ético e religioso. Não se tratam de estados que todos os 
indivíduos passariam sucessivamente, mas opções que cada um realiza no 
decorrer da existência. 
1.3.1.1 Estético 
O primeiro, estético, é causado por um hedonismo onde impera a dor 
e o tédio. Buscando um sentido para a sua existência, o indivíduo se coloca ao 
sabor dos impulsos. As possibilidades que o indivíduo realiza neste modo de 
vida não proporcionam uma realização plena, mas apenas uma atualização 
transitória. A ameaça do tédio é uma constante neste estágio, o que pode 
conduzir ao desespero. 
1.3.1.2 Ético 
O segundo estágio é o ético. Diante disso, e frustrado em seu objetivo, 
o indivíduo passa para o segundo estágio. Este está ligado ao dever, às regras e 
às exigências a que o indivíduo está exposto. O mais importante aí não é a 
quantidade de dever, mas a sua intensidade sentida pelo indivíduo. A liberdade 
agora está limitada pelo social. O extremo da etapa ética leva à contradição. Com 
a ideia de pecado, essa etapa fracassa, pois surge o arrependimento, sentimento 
supremo nesse momento. 
1.3.1.3 Religioso 
O religioso é o terceiro estágio. Acredita-se então que é necessário 
ultrapassar esse estágio, chegando à outra etapa, a religiosa. Neste caso, a escolha 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 10 
 
do indivíduo independe de critérios pulsivos, racionais ou ainda de regras 
universais. Entretanto, o desespero e a ansiedade são fortes sinais que ajudam o 
indivíduo a escolher. É pela religiosidade que o indivíduo atinge uma relação 
com o Absoluto e encontra a existência que tanto almeja. 
1.3.2 Angústia 
Falar do sentido existencial da angústia é enfatizar a centralidade da 
questão. Não pode ser equiparada a inquietação, ansiedade ao temor ou 
desespero. A angústia abordada por Kierkegaard é a angústia existencial que não 
é momentânea nem tem um objeto específico. 
1.3.2.1 Angústia 
A partir de Kierkegaard o tema da angústia assume uma importância 
central dentro da filosofia, sobretudo para a corrente existencialista, da qual ele 
é considerado o iniciador. A angústia está ligada ao nada, ao vazio. Neste estado 
o sujeito é pura possibilidade, ainda não está determinado. 
Segundo Kierkegaard, a angústia é a vertigem da liberdade. O 
indivíduo sente ao mesmo tempo uma repulsa e uma atração. Daí Kierkegaard 
dizer ser a angústia ambígua e que tem uma importância não só filosófica como 
também teológica. A angústia torna-se uma categoria fundamental para 
Kierkegaard expor a natureza do pecado. 
Em O conceito de angústia, Kierkegaard redefine a angústia como 
sendo: " uma determinação do espírito sonhador (...) é a realidade da liberdade 
como puro possível” (Kierkegaard, 1968, p. 45). 
 A origem da angústia 
Kierkegaard começa sua análise do conceito de angustia a partir do 
[relato] da queda de Adão e Eva. De acordo com Kierkegaard eles são colocados 
diante da possibilidade de escolher. [A escolha que fazem os levam] à queda... 
[Mas é pela “escolha” que] eles entram na existência. 
Ou seja ... a existência humana implica [em] decisão, escolha. [A 
existência] não [é] mais determinada pela natureza. Enquanto [Adão e Eva] no 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 11 
 
paraíso eles não conheciam a possibilidade da escolha. Assim, é a partir da queda 
que a angustia instaura sua morada na existência, torna-se presente no ser 
humano e o homem será desde então um ser angustiado. 
 O Homem é pura “possibilidade” [antes de escolher] 
Segundo Kierkegaard o homem em um primeiro momento é pura 
possibilidade, neste estágio, o que existe é o nada. E afirma Kierkegaard em O 
Conceito de Angúsita: 
Porém existe, ao mesmo tempo, outra coisa que, entretanto, não é 
perturbação nem luta, porque não existe nada com que lutar. O que existe 
então? Nada. Que efeito produz, porém este nada? Este nada dá 
nascimento à angustia. (Kierkegaard. 1968. P. 45) 
Kierkegaard escreve que Adão e Eva, ainda no paraíso, no estado de 
inocência, foram advertidospara não comerem do “fruto de uma árvore” do 
conhecimento. Eles não podiam entender do que se tratava, porém, esta 
advertência, ou melhor a proibição é que desperta neles a possibilidade de 
liberdade. Neste momento eles são repelidos e ao mesmo tempo atraídos por esta 
situação. Eles estão agora diante da possibilidade de fazerem uma escolha; a 
proibição desperta-lhes o desejo de ser como “Deus”, estão diante de uma 
possibilidade. A proibição desperta neles o desejo de conhecer. 
1.3.3 Desespero 
Ao lado da angustia, Kierkegaard coloca também outra categoria 
humana, que é o desespero. O desespero humano está ligado ao fracasso da 
condição, do absurdo, do paradoxo, ou seja, o homem é finito e ao mesmo tempo 
deseja o infinito, quer transcender a essa condição de finitude. De acordo com a 
filosofia kierkegaardiana, o desespero surge quando o espírito quer a síntese de 
finito (matéria) e infinito (espírito) para surgir o “eu existencial ”. 
 O Homem é finitude (matéria)-infinitude (espírito) 
O homem é o único ser que jamais consente-se o que é; assim, ele está 
sempre buscando, ele é desejo, é busca. Somente ele sente profundamente o vazio 
de sua existência. Não aceita a sua existência como simples trajetória entre o 
nascer e o morrer. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 12 
 
E é justamente neste ponto que repousa a sua (i) grandeza e seu (ii) 
problema. Sua grandeza porque sendo finito (matéria) e infinito (espirito), 
“porque o EU é uma síntese de finito que delimita e de infinito que ilimita” 
(KIERKEGAARD, 1988, p. 208) ele tem que administrar esta tensão entre estes 
dois elementos para construir formas de dar sentido à sua existência, para que 
esta não se reduza a um simples “estar no mundo”. O problema é que esta 
situação faz do homem um “eterno viajante” em busca de sentido para sua vida, 
para construir uma existência autêntica. 
1.3.4 A angústia positiva (“salto qualitativo” - o caso de Abraão3) 
Em Temor e tremor, Kierkegaard chama atenção para o cavaleiro da fé, 
que é diferente do herói. Segundo ele, não obstante todas as glórias conquistadas 
pelo herói, estas ainda não se aproximam daquilo que é o ideal de homem, o 
cavaleiro da fé, que nesta obra de Kierkegaard é representado por Abraão. 
Soa estranho quando Abraão decide oferecer seu único filho, o filho 
da promessa em sacrifício a Deus. Aqui, não fala mais a moralidade, pois Abraão 
naquele momento está na instância da fé, Ele vive a angústia mas silencia, 
descreve Kierkegaard, por isso ele afirma que “a fé é esse paradoxo, e o indivíduo 
não pode de forma alguma fazer-se compreender por ninguém” (Kierkegaard. 
1959, p.126) 
I 
E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: toma o teu filho, o teu único filho, aquele 
que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre 
uma das montanhas que te indicarei. 
 
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, albardou os burros, deixou a 
sua casa com Isaac, enquanto da janela Sara os via descer pelo vale até se 
perderem de vista. Caminharam em silêncio durante três dias. Na manhã 
do Segto dia, Abraão continuou sem dizer palavra, mas, erguendo o 
olhar, viu ao longe os montes de Morija. 
Despediu então os servidores e, tomando Isaac pela mão, trepou pela 
montanha. E Abraão dizia para si: Não posso mais ocultar-lhe aonde 
conduz este andar. Deteve-se, pousou a mão sobre a cabeça do filho para 
abençoa-lo e Isaac inclinou-se para receber a bênção. O rosto de Abraão 
era o de um bom pai: o olhar doce e a voz exortavam. Mas Isaac não podia 
compreendê-lo; a sua alma não lograva elevar-se tão alto; abraçou os 
joelhos de Abraão, rojou-se-lhe aos pés, pediu-lhe piedade, implorou 
 
3 KIERKGAARD, S. A. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho. São Paulo: Abril editora. 1 ed. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 13 
 
pela sua juventude e pelas mais doces esperanças, falou das alegrias da 
casa paterna, evocou a tristeza e a solidão. 
Então Abraão levantou-o, pegou-lhe na mão e caminhou e a sua voz 
exortava e consolava. Mas Isaac não podia compreendê-lo. Abraão subiu 
a montanha de Morija; Isaac não o compreendia. Foi então que, tendo-se 
afastado um pouco do filho, Isaac lhe tornou a ver o rosto, desta vez 
alterado, o olhar feroz, as feições aterradoras. 
Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o por terra e disse-lhe: - Estúpido! 
Supões que sou teu pai? Sou um idólatra! Crês que obedeço às ordens de 
Deus? Faço o que me apetece! Então Isaac fremente e com grande 
angústia, gritou: - Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, 
tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra! 
Mas Abraão ciciava: Deus do Céu, dou-te graças. Vale mais que me 
julgue um monstro do que perca a fé em ti. 
Quando chega o tempo do desmame, a mãe enegrece o seio, porque 
manter o seu atrativo será prejudicial ao filho que o deve abandonar. 
Assim ele acredita que a mãe mudou, embora o coração dela continue 
firme e o olhar conserve a mesma ternura e amor. Feliz aquele que não 
tenha de recorrer a meios ainda mais terríveis para desmamar o seu filho! 
II 
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, abraçou Sara, companheira da 
sua velhice, e Sara deu um beijo a Isaac, que a havia preservado do 
escárnio e era seu orgulho e esperança para toda a posteridade. 
Caminharam em silêncio. Abraão conservou o olhar obstinadamente fixo 
no solo até o Segto dia. Só então levantou os olhos e vendo no horizonte 
a montanha de Morija, baixou-os de novo. Em silêncio preparou o 
holocausto e ligou Isaac; em silêncio puxou da faca; então viu o carneiro 
que Deus provera. Sacrificou-o e regressou... A partir desse dia Abraão 
envelheceu; não pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira. Isaac foi 
crescendo, mas os olhos de Abraão haviam perdido o brilho; nunca mais 
tornou a ver a alegria. 
Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, 
pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mãe. Feliz o filho que 
não perdeu a mãe de outro modo! 
1.3.4 O totalmente Outro 
Se o homem não possuísse consciência eterna, se um poder selvagem e 
efervescente produtor de tudo, grandioso ou fútil, no torvelinho das 
paixões obscuras, existisse só no fundo de todas as coisas; se sob elas se 
escondesse infinito vazio que nada pudesse encher, que seria da vida 
senão o desespero? Se assim fosse, se um vínculo sagrado não cingisse 
a humanidade; se as gerações se não renovassem como se renovam as 
folhas das florestas; se umas atrás das outras se fossem extinguindo como 
o canto dos pássaros nos bosques, atravessando o mundo como a nave o 
oceano, ou o vento o deserto estéril e cego; se o esquecimento eterno, 
sempre esfomeado, tivesse força suficiente para lhe arrebatar a presa 
espiada, quão vã e desoladora seria a vida! Mas tal não é o caso. 
É da doutrina Kierkegaardiana que os filósofos existenciais derivam 
seus conceitos. Precisavam, no entanto, de um método de reflexão e de análise 
apropriado, e foram buscá-lo em Edmond Husserl. 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 14 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - KIERKGAARD 
1. Quais os estágios da existência, segundo Kierkegaard? Explique-os 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
2. Como Kierkegaard compreende a “angústia”? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
3. Segundo o autor, qual a origem da angústia? 
____________________________________________________________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
4. O que é o “desespero” na filosofia de Kierkegaard? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
5. Explique a angústia positiva e o “salto qualitativo” em kierkegaard. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
6. Quais os temas da teologia cristã estão presentes no pensamento 
kierkgaardiano? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
______________________________________________________________________ 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 15 
 
1.4 FRIEDRICH NIETZSCHE4 
O contexto histórico de sedimentação das Ciências é de fundamental 
importância para compreender aspectos importantes do pensamento de 
Nietzsche. 
1.4.1 Vontade de potência 
O mundo é a vontade de poder, e nada mais. É o segredo de toda a força 
psíquica, orgânica ou mecânica, e a sua essência é a expansão e a 
dominação. No entanto, a vontade de poder não vai até ao fim de si 
mesma em todos os seres, é susceptível de graus e de qualidades 
diferentes. E como todos os juízos de valor que o homem faz expressam 
a sua vontade de poder, o valor das suas apreciações depende da 
qualidade desta vontade. Daí a possibilidade de estabelecer uma 
hierarquia axiológica que representa o retorno das velhas tabelas de 
valores. 
O que é que é bom? Tudo aquilo que eleva no homem o sentimento 
do poder, a vontade de poder. 
O que é que é mau? Tudo o que provém da fraqueza. 
Ora, é a fraqueza que é a fonte de todos os valores comumente recebidos 
e, em primeiro lugar, dos valores morais e religiosos: o amor pelos 
inimigos, a humildade, a piedade são características de almas "moles" e 
servis. Isto não quer dizer que os seres medíocres não tenham vontade 
de poder: têm-na, só que se encontra disfarçada no seu contrário, 
degradada, e envereda pelas vias sinuosas do ressentimento. Oprimidos 
e humilhados pelos fortes, os fracos vingam-se desacreditando a força e 
exaltando a debilidade e a pequenez. 
Os valores ligados à crença no verdadeiro têm também origem na 
fraqueza: é o ressentimento contra o mundo real que leva o filósofo a identificar 
o ser verdadeiro com o suprassensível; por outro lado, Nietzsche vê no homem 
objetivo, impessoal, que se quer mero espelho dos fatos, uma "espécie de 
escravo", um instrumento de precisão não uma vontade. 
Como é que se pode restabelecer e "elevar" no homem a vontade de 
poder? Pela negação da existência de qualquer outro mundo e pelo sentido da 
terra. Pela renúncia ao culto da verdade, que paralisa a vontade criadora e 
prejudica a vida, que tem como suportes necessários a ilusão e o erro: aliás, um 
 
4 Maurice Dupuy, A Filosofia Alemã, trad. Rosa Carreira, Edições 70, Lisboa, 1987, pp. 75-78 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 16 
 
mundo identificador com a vontade de poder, isto é, com o devir não pode 
proporcionar um conhecimento verdadeiro; se tudo é fluido e fugidio, não há 
fatos, há unicamente interpretações que variam conforme as perspectivas. Por 
último, o homem superior não deve pactuar com as "virtudes" dos fracos, deve 
libertar-se da má consciência, amar-se a si mesmo e ousar ser ele próprio; para 
criar e impor os seus valores, "é necessário ser-se duro e capaz de infligir grandes 
sofrimentos": não por egoísmo, mas por "amor do longínquo", do futuro, pelo 
qual se sente responsável. Deve também dominar-se a si mesmo e modelar-se, 
pois o "tipo homem" só pode ser elevado pela "arte perpétua de se vencer a si 
mesmo". O desabrochar da autêntica vontade de poder anuncia e prepara a 
aparição do super-humano anunciado por Zaratrusta: "Um dia virá até nós esse 
homem libertador... esse antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada." A sua 
adesão total à vida e ao amor do destino darão origem a uma alegria que de modo 
algum impedirá a aquiescência à dor. 
1.4.2 Eterno retorno do mesmo 
Mas "a alegria quer a eternidade". Num mundo onde o devir é a única 
realidade, esta eternidade só é concebível sob a forma do eterno retorno do 
mesmo: "Homem, reencontrarás cada uma das tuas dores e cada uma das tuas 
alegrias." Assumir este pensamento que imprime ao devi r o carácter do ser, 
querê- -lo constantemente, é a mais alta expressão de afirmação de vida e a forma 
superior de vontade de poder.» 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 17 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - NIETZSCHE 
1. O que é a “vontade de potencia” em Nietzsche? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
2. Segundo Nietzsche, por que não são todos os homens que desenvolvem a 
vontade de potência? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
3. Como Nietzsche interpreta as virtudes cristãs? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
4. O que é o “eterno retorno no mesmo” 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 18 
 
1.5 JEAN-PAUL SARTRE: O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO5 
 “Gostaria de defender, aqui, o existencialismo de uma 
série de críticas que lhe foram feitas. 
 Em primeiro lugar, acusaram-no de incitar as pessoas a 
permanecerem no imobilismo do desespero; todos os 
caminhos estando vedados, seria necessário concluir que a 
ação é totalmente impossível neste mundo; tal consideração 
desembocaria, portanto, numa filosofia contemplativa – o que, 
aliás, nos reconduz a uma filosofia burguesa, visto que a 
contemplação é um luxo. São estas, fundamentalmente, as 
críticas dos comunistas. 
 Por outro lado, acusaram-nos de enfatizar a ignomínia 
humana, de sublinhar o sórdido, o equívoco, o viscoso, e de 
negligenciar certo número de belezas radiosas, o lado 
luminoso da natureza humana; por exemplo, segundo a 
senhorita Mercier, crítica católica, esquecemos o sorriso da 
criança. Uns e outros nos acusam de haver negado a 
solidariedade humana, de considerar que o homem vive 
isolado; segundo os comunistas, isso se deve, em grande parte, 
ao fato de nós partirmos da pura subjetividade, ou seja, do 
penso cartesiano, ou seja ainda, do momento em que o homem 
se apreende em sua solidão – o que me tornaria incapaz de 
retornar, em seguida, à solidariedade com os homens queexistem fora de mim e que eu não posso alcançar no cogito. 
 Na perspectiva cristã, somos acusados de negar a 
realidade e a seriedade dos empreendimentos humanos, já 
que, suprimindo os mandamentos de Deus e os valores 
inscritos na eternidade, resta apenas a pura gratuidade; cada 
qual pode fazer o que quiser, sendo incapaz, a partir de seu 
 
 
1ª. CRÍTICA 
......................... 
......................... 
........................ 
 
 
 
 
 
 
2ª. CRÍTICA 
......................... 
......................... 
........................ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3ª. CRÍTICA 
......................... 
......................... 
........................ 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 19 
 
ponto de vista, de condenar os pontos de vistas e os atos 
alheios. Tais são as várias acusações a que procuro hoje 
responder e a razão que me levou a intitular esta pequena 
exposição de: “O Existencialismo é um Humanismo”. Muitos 
poderão estranhar que falemos aqui de humanismo. 
Tentaremos explicitar em que sentido o entendemos. De 
qualquer modo, o que podemos desde já afirmar é que 
concebemos o existencialismo como uma doutrina que torna a 
vida humana possível e que, por outro lado, declara que toda 
verdade e toda ação implicam um meio e uma subjetividade 
humana. A crítica básica que nos fazem é, como se sabe, de 
enfatizarmos o lado negativo da vida humana. Contaram-me, 
recentemente, o caso de uma senhora que, tendo deixado 
escapar, por nervosismo, uma palavra vulgar, se desculpou 
dizendo: “Acho que estou ficando existencialista”. A feiura é, 
por conseguinte, assimilada ao existencialismo e é por isso que 
dizem sermos naturalistas. Se o somos, é estranho que 
assustemos e escandalizemos muito mais do que o 
naturalismo propriamente dito assusta ou escandaliza hoje em 
dia. Aqueles que digerem tranquilamente um romance de 
Zola, como A Terra, ficam repugnados quando leem um 
romance existencialista; outros, que se utilizam da sabedoria 
das nações – profundamente tristes –, acham-nos mais tristes 
ainda. Mas será que existe algo mais desesperançado do que o 
provérbio: “A caridade bem dirigida começa por si próprio”, 
ou “Ama quem te serve e serás desprezado; castiga quem te 
serve e serás amado”? São notórios os lugares-comuns que 
podem ser utilizados neste assunto e que significam sempre a 
mesma coisa: não se deve lutar contra os poderes 
estabelecidos, não se deve lutar contra a força, não se deve dar 
passos maiores do que as pernas, toda ação que não se insere 
 
 
 
 
O existencialismo 
torna a vida 
humana possível 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 20 
 
numa tradição é romantismo, toda ação que não se apóia numa 
experiência comprovada está destinada ao fracasso; e a 
experiência mostra que os homens tendem sempre para o mais 
baixo e que são necessários freios sólidos para detê-los, caso 
contrário instala-se a anarquia. No entanto, as pessoas que 
ficam repetindo esses tristes provérbios são as mesmas que 
acham muito humano todo e qualquer ato mais ou menos 
repulsivo, as mesmas que se deleitam com canções realistas: 
são estas as pessoas que acusam o existencialismo de ser 
demasiado sombrio, a tal ponto que eu me pergunto se elas 
não o censuram, não tanto pelo seu pessimismo, mas, 
justamente pelo seu otimismo. Será que, no fundo, o que 
amedronta na doutrina que tentarei expor não é fato de que ela 
deixa uma possibilidade de escolha para o homem? Para sabê-
lo, precisamos recolocar a questão no plano estritamente 
filosófico. O que é o existencialismo? 
 A maioria das pessoas que utilizam este termo ficaria 
bastante embaraçada se tivesse de justificá-lo: hoje em dia a 
palavra está na moda e qualquer um afirma sem hesitação que 
tal músico ou tal pintor é existencialista. Um cronista de Clartés 
assina o Existencialista. Na verdade, esta palavra assumiu 
atualmente uma amplitude tal e uma tal extensão que já não 
significa rigorosamente nada. Está parecendo que, na ausência 
de uma doutrina de vanguarda análoga ao surrealismo, as 
pessoas, ávidas de escândalo e de agitação, estão se voltando 
para esta filosofia, que, aliás, não pode ajudá-la em nada nesse 
campo; o existencialismo, na realidade, é a doutrina menos 
escandalosa e a mais austera; ela destina-se exclusivamente 
aos técnicos e aos filósofos. Todavia, pode ser facilmente 
definida. O que torna as coisas complicadas é a existência de 
dois tipos de existencialistas: por um lado, os cristãos – entre 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O que é 
existencialismo? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Divisão do 
existencialismo 
 
 
 
 
Para todos os 
existencialista a 
existência 
precede a 
essência. 
 
 
Analogia do 
corta-papel 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 21 
 
os quais colocarei Jaspers e Gabriel Marcel, de confissão 
católica – e, por outro, os ateus – entre os quais há que situar 
Heidegger, assim como os existencialistas franceses e eu 
mesmo. O que eles têm em comum é simplesmente o fato de 
todos considerarem que a existência precede a essência, ou, se 
se preferir, que é necessário partir da subjetividade. O que 
significa isso exatamente? 
 Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, 
um livro ou um corta-papel; esse objeto foi fabricado por um 
artífice que se inspirou num conceito; tinha, como referencias, 
o conceito de corta-papel assim como determinada técnica de 
produção, que faz parte do conceito e que, no fundo, é uma 
receita. Desse modo, o corta-papel é, simultaneamente, um 
objeto que é produzido de certa maneira e que, por outro lado, 
tem uma utilidade definida: seria impossível imaginarmos um 
homem que produzisse um corta-papel sem saber para que tal 
objeto iria servir. Podemos assim afirmar que, no caso do 
corta-papel, a essência – ou seja, o conjunto das técnicas e das 
qualidades que permitem a sua produção e definição – precede 
a existência; e desse modo, também, a presença de tal corta-
papel ou de tal livro na minha frente é determinada. Eis aqui 
uma visão técnica do mundo em função da qual podemos 
afirmar que a produção precede a existência. 
 Ao concebermos um Deus criador, identificamo-lo, na 
maioria das vezes, com um artífice superior, e, qualquer que 
seja a doutrina que considerarmos – quer se trate de uma 
doutrina como a de Descartes ou como a de Leibniz –, 
admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos o 
entendimento ou, no mínimo, que o acompanha, e que Deus, 
quando cria, sabe precisamente o que está criando. Assim, o 
conceito de homem, no espírito de Deus, é assimilável ao 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aplicação da 
analogia 
segundo os 
cristãos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O “ateísmo” dos 
filósofos até o 
século XVIII não 
eliminou os 
valores 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 22 
 
conceito de corta-papel, no espírito do industrial; e Deus 
produz o homem segundo determinadas técnicas e em função 
de determinada concepção, exatamente como o artífice fabrica 
um corta-papel segundo uma definição e uma técnica. Desse 
modo, o homem individual materializa certo conceito que 
existe na inteligência divina. No século XVIII, o ateísmo dos 
filósofos elimina a noção de Deus, porém não suprime a ideia 
de que a essência precede a existência. Essa é uma ideia que 
encontramos com frequência: encontramo-la em Diderot, em 
Voltaire e mesmo em Kant. O homem possui uma natureza 
humana; essa natureza humana, que é o conceitohumano, 
pode ser encontrada em todos os homens, o que significa que 
cada homem é um exemplo particular de um conceito 
universal: o homem. Em Kant, resulta de tal universalidade 
que o homem da selva, o homem da Natureza, tal como o 
burguês, devem encaixar-se na mesma definição, já que 
possuem as mesmas características básicas. Assim, mais uma 
vez, a essência do homem precede essa existência histórica que 
encontramos na Natureza. 
 O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. 
Afirma que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual 
a existência precede a essência, um ser que existe antes de 
poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem, 
ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, 
aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, 
em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, 
surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal 
como o existencialista o concebe, só não é passível de uma 
definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será 
alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, 
não existe natureza humana, já que não existe um Deus para 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O significado da 
“existência 
preceder a 
essência” 
 
 
 
 
 
Não existe 
“natureza 
humana” porque 
“não existe Deus” 
 
 
 
O homem é suas 
escolhas 
 
 
 
 
 
O homem é o 
que se projeta no 
futuro 
 
 
 
 
Não há um 
“acima” nem um 
“abaixo”. Só há o 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 23 
 
concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se 
concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe 
após a existência, como ele se quer após esse impulso para a 
existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de 
si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. É 
também a isso que chamamos de subjetividade: a 
subjetividade de que nos acusam. Porém, nada mais queremos 
dizer senão que a dignidade do homem é maior do que a da 
pedra ou da mesa. Pois queremos dizer que o homem, antes de 
mais nada, existe, ou seja, o homem é, antes de mais nada, 
aquilo que se projeta num futuro, e que tem consciência de 
estar se projetando no futuro. De início, o homem é um projeto 
que se vive a si mesmo subjetivamente ao invés de musgo, 
podridão ou couve-flor; nada existe antes desse projeto; não há 
nenhuma inteligibilidade no céu, e o homem será apenas o que 
ele projetou ser. Não o que ele quis ser, pois entendemos 
vulgarmente o querer como uma decisão consciente que, para 
quase todos nós, é posterior àquilo que fizemos de nós 
mesmos. Eu quero aderir a um partido, escrever um livro, 
casar-me, tudo isso são manifestações de uma escolha mais 
original, mais espontânea do que aquilo a que chamamos de 
vontade. Porém, se realmente a existência precede a essência, 
o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro 
passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do 
que ele é de submetê-lo à responsabilidade total de sua 
existência. Assim, quando dizemos que o homem é 
responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem 
é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que 
ele é responsável por todos os homens. A palavra subjetivismo 
tem dois significados, e os nossos adversários se aproveitaram 
desse duplo sentido. Subjetivismo significa, por um lado, 
homem e suas 
escolhas. 
 
 
 
 
 
 
O homem é 
inteiramente 
responsável pelo 
que é. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A escolha de um 
indivíduo implica 
todos os homens. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 24 
 
escolha do sujeito individual por si próprio e, por outro lado, 
impossibilidade em que o homem se encontra de transpor os 
limites da subjetividade humana. É esse segundo significado 
que constitui o sentido profundo do existencialismo. Ao 
afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos 
dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer 
também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De 
fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem 
que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma 
imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser. 
Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o 
valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca 
escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode 
ser bom para nós sem o ser para todos. Se, por outro lado, a 
existência precede a essência, e se nós queremos existir ao 
mesmo tempo que moldamos nossa imagem, essa imagem é 
válida para todos e para toda a nossa época. Portanto, a nossa 
responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, 
pois ela engaja a humanidade inteira. Se eu sou um operário e 
se escolho aderir a um sindicato cristão em vez de ser 
comunista, e se, por essa adesão, quero significar que a 
resignação é, no fundo, a solução mais adequada ao homem, 
que o reino do homem não é sobre a terra, não estou apenas 
engajando a mim mesmo: quero resignar-me por todos e, 
portanto, a minha decisão engaja toda a humanidade. Numa 
dimensão mais individual, se quero casar-me, ter filhos, ainda 
que esse casamento dependa exclusivamente de minha 
situação, ou de minha paixão, ou de meu desejo, escolhendo o 
casamento estou engajando não apenas a mim mesmo, mas a 
toda a humanidade, na trilha da monogamia. Sou, desse modo, 
responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Conceitos 
exustencialistas 
de: 
 
Angustia: 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
.............................. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 25 
 
imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras 
palavras: escolhendo-me, escolho o homem. 
 Tudo isso permite-nos compreender o que subjaz a 
palavras um tanto grandiloquentes como angústia, 
desamparo, desespero. Como vocês poderão constatar, é 
extremamente simples. Em primeiro lugar, como devemos 
entender a angústia? O existencialista declara frequentemente 
que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o 
homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas 
aquele que escolheu ser, mas também um legislador que 
escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, 
não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda 
responsabilidade. É fato que muitas pessoas não sentem 
ansiedade, porém nós estamos convictos de que estas pessoas 
mascaram a ansiedade perante si mesmas, evitam encará-la; 
certamente muitos pensam que, ao agir, estão apenas 
engajando a si próprios e, quando se lhes pergunta: mas se 
todos fizessem o mesmo?, eles encolhem os ombros e 
respondem: nem todos fazem o mesmo. Porém, na verdade, 
devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo 
mundo fizesse como nós? e não podemos escapar a essa 
pergunta inquietante a não ser através de uma espécie de má 
fé. Aquele que mente e que se desculpa dizendo: nem todo 
mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua 
consciência, pois o fato de mentir implica um valor universal 
atribuído à mentira. Mesmo quando ela se disfarça, a angústia 
aparece. É esse tipo de angústia que Kierkegaard chamava de 
angústia de Abraão. Todos conhecem a história: um anjo 
ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Está tudo certo se foi 
realmente um anjo que veio e disse: tu és Abraão e sacrificarás 
teu filho. Porém, para começar, cada qual pode perguntar-se: 
 
 
 
 
 
 
 
Angústia de 
AbraãoTeoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 26 
 
será que era verdadeiramente um anjo? ou: será que sou 
mesmo Abraão? Que provas tenho? Havia uma louca que 
tinha alucinações: falavam-lhe pelo telefone dando-lhe ordens. 
O médico pergunta: “Mas afinal, quem fala com você?” Ela 
responde: “Ele diz que é Deus”. Que provas tinha ela que, de 
fato, era Deus? Se um anjo aparece, como saberei que é um 
anjo? E se escuto vozes, o que me prova que elas vêm do céu e 
não do inferno, ou do subconsciente ou de um estado 
patológico? O que prova que elas se dirigem a mim? Quem 
pode provar-me que fui eu, efetivamente, o escolhido para 
impor a minha concepção do homem e a minha própria 
escolha à humanidade? Não encontrei jamais prova alguma, 
nenhum sinal que possa convencer-me. Se uma voz se dirige a 
mim, sou sempre eu mesmo que terei de decidir que essa voz 
é a voz do anjo; se considero que determinada ação é boa, sou 
eu mesmo que escolho afirmar que ela é boa e não má. Nada 
me designa para ser Abraão, e, no entanto, sou a cada instante 
obrigado a realizar atos exemplares. Tudo se passa como se a 
humanidade inteira estivesse de olhos fixos em cada homem e 
se regrasse por suas ações. E cada homem deve perguntar a si 
próprio: sou eu, realmente, aquele que tem o direito de agir de 
tal forma que os meus atos sirvam de norma para toda a 
humanidade? E, se ele não fazer a si mesmo esta pergunta, é 
porque estará mascarando sua angústia. Não se trata de uma 
angústia que conduz ao quietismo, à inação. Trata-se de uma 
angústia simples, que todos aqueles que um dia tiveram 
responsabilidades conhecem bem. Quando, por exemplo, um 
chefe militar assume a responsabilidade de uma ofensiva e 
envia para a morte certo número de homens, ele escolhe fazê-
lo, e, no fundo, escolhe sozinho. Certamente, algumas ordens 
vêm de cima, porém são abertas demais e exigem uma 
A angustia 
existencial não a 
mesma angústia 
psíquica 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A angústia gera 
ação, 
engajamento 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Desamparo: Deus 
não existe e isso 
deve ser levado 
às últimas 
consequências 
 
 
 
 
 
 
No 
existencialismo, A 
negação de Deus 
deve ser, também, 
a negação de toda 
moral. Diferente- 
mente da negação 
de Deus dos 
séculos anteriores 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 27 
 
interpretação: é dessa interpretação – responsabilidade sua – 
que depende a vida de dez, catorze ou vinte homens. Não é 
possível que não exista certa angústia na decisão tomada. 
Todos os chefes conhecem essa angústia. Mas isso não os 
impede de agir, muito pelo contrário: é a própria angústia que 
constitui a condição de sua ação, pois ela pressupõe que eles 
encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um 
caminho, eles se deem conta de que ele não tem nenhum valor 
a não ser o de ter sido escolhido. Veremos que esse tipo de 
angústia – a que o existencialismo descreve – se explica 
também por uma responsabilidade direta para com os outros 
homens engajados pela escolha. Não se trata de uma cortina 
entreposta entre nós e a ação, mas parte constitutiva da própria 
ação. 
 Quando falamos de desamparo, expressão cara a 
Heidegger, queremos simplesmente dizer que Deus não existe 
e que é necessário levar esse fato às últimas consequências. O 
existencialista opõe-se frontalmente a certo tipo de moral laica 
que gostaria de eliminar Deus com o mínimo de danos 
possível. Quando, por volta de 1880, os professores franceses 
tentaram constituir uma moral laica, disseram mais ou menos 
o seguinte: Deus é uma hipótese inútil e dispendiosa; vamos 
suprimi-la: porém, é necessário – para que exista uma moral, 
uma sociedade, um mundo policiado – que certos valores 
sejam respeitados e considerados como existentes a priori; é 
preciso que seja obrigatório, a priori, ser honesto, não mentir, 
não bater na mulher, fazer filhos etc., etc. Vamos portanto 
realizar uma pequena manobra que nos permitirá demonstrar 
que esses valores existem, apesar de tudo, inscritos num céu 
inteligível, se bem que, como vimos, Deus não exista. É essa, 
creio eu, a tendência de tudo o que é chamado na França de 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Se não existe 
Deus, não existem 
valores, a não ser 
os que cada 
indivíduo cria para 
si. 
 
 
 
 
 
“Se não existe, 
tudo é permitido" 
(Dostoievski) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“O homem está 
condenado a ser 
livre ... e é 
responsável por 
tudo que faz”. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 28 
 
radicalismo: por outras palavras, a inexistência de Deus não 
mudará nada; reencontramos as mesmas normas de 
honestidade, de progresso, de humanismo e teremos assim 
transformado Deus numa hipótese caduca, que morrerá 
tranqüilamente por si própria. O existencialista, pelo contrário, 
pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, 
pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade 
de encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir 
nenhum bem a priori, já que não existe uma consciência infinita 
e perfeita para pensá-lo; não está escrito em nenhum lugar que 
o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos 
mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que 
só existem homens. Dostoievski escreveu: “Se Deus não 
existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do 
existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, 
e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não 
encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. 
Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a 
existência precede a essência, nada poderá jamais ser 
explicado por referência a uma natureza humana dada e 
definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, 
o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não 
encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam 
legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de 
nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, 
nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem 
desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está 
condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si 
mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado 
no mundo, é responsável por tudo o que faz. O existencialismo 
não acredita no poder da paixão. Ele jamais admitirá que uma 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cada homem tem 
um futuro a 
construir. 
 
 
Exemplo de 
desamparo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 29 
 
bela paixão é uma corrente devastadora que conduz o homem, 
fatalmente, a determinados atos, e que, consequentemente, é 
uma desculpa. Ele considera que o homem é responsável por 
sua paixão. O existencialista não pensará nunca, também, que 
o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o 
oriente no mundo, pois considera que é o próprio homem 
quem decifra o sinal como bem entende. Pensa, portanto, que 
o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a inventar o 
homem a cada instante. Ponge escreveu, num belíssimo artigo: 
“O homem é o futuro do homem”. É exatamente isso. Apenas, 
se por essas palavras se entender que o futuro está inscrito no 
céu, que Deus pode vê-lo, então a afirmação está errada, já que, 
assim, nem sequer seria um futuro. Se se entender que, 
qualquer que seja o homem que surja no mundo, ele tem um 
futuro a construir, um futuro virgem que o espera, então a 
expressão está correta. Porém, nesse caso, estamos 
desamparados. Tentarei dar-lhes um exemplo que permita 
compreender melhor o desamparo; contarei o caso de um dos 
meus alunos, que veio procurar-me nas seguintes 
circunstâncias: o pai estava brigando com a mãe e tinha 
tendências colaboracionistas; o irmão mais velhomorrera 
durante a ofensiva alemã de 1940; e esse jovem, com 
sentimentos um pouco primitivos, mas generosos, desejava 
vingá-lo. A mãe vivia só com ele, muito perturbada pela 
semitraição do pai e pela morte do filho mais velho, e ele era 
seu único consolo. Esse jovem tinha, naquele momento, a 
seguinte escolha: partir para a Inglaterra e alistar-se nas Forças 
Francesas Livres, ou seja abandonar a mãe, ou permanecer 
com a mãe e ajudá-la a viver. Ele tinha consciência de que a 
mãe só vivia em função dele e que o seu desaparecimento, 
talvez a sua morte, a mergulharia no desespero. Tinha também 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sob qualquer 
circunstância, a 
decisão diante de 
qualquer dilema, e 
exclusivamente do 
individuo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 30 
 
consciência de que, no fundo, cada ato que ele fazia em relação 
à mãe tinha uma resposta concreta, no sentido de que ele a 
ajudava a viver, enquanto cada ato que ele fizesse para partir 
e combater seria ambíguo, poderia perder-se na areia, não 
servir para nada; por exemplo: partindo para a Inglaterra, ele 
poderia permanecer indefinidamente num campo espanhol ao 
passar pela Espanha; poderia chegar à Inglaterra, ou a Argel, e 
ser colocado num escritório preenchendo papéis. Encontrava-
se, assim, perante dois tipos de ação muito diferentes; uma 
delas concreta, imediata, porém dirigida a um só indivíduo; a 
outra, dirigida a um conjunto infinitamente mais vasto, uma 
coletividade nacional, mas, por isso mesmo, ambígua, e 
podendo ser interrompida a meio caminho. Simultaneamente, 
ele hesitava entre dois tipos de moral. De um lado, uma moral 
da simpatia, da devoção individual; e, de outro lado, uma 
moral mais ampla, mas de uma eficácia mais contestável. 
Precisava escolher uma das duas. Quem poderia ajudá-lo a 
escolher? A doutrina cristã? Não. A doutrina cristã diz: sede 
caridosos, amai o próximo, sacrificai-vos por vosso 
semelhante, escolhei o caminho mais árduo etc., etc. Mas qual 
é o caminho mais árduo? Quem devemos amar como irmão, o 
combatente ou a mãe? Qual a utilidade maior: aquela, vaga, de 
participar de um corpo de combate, ou a outra, precisa, de 
ajudar um ser específico a viver? Quem pode decidir a priori? 
Ninguém. Nenhuma moral estabelecida tem uma resposta. A 
moral kantiana diz-nos: nunca trate os outros como um meio, 
trate-os como um fim. Muito bem; se eu ficar junto de minha 
mãe, estarei tratando-a como um fim e não como um meio, 
mas, por isso mesmo, estarei correndo o risco de tratar como 
meio aqueles que combatem à minha volta, e, vice-versa, se eu 
me juntar àqueles que combatem, estarei tratando-os como fim 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 31 
 
e, pelas mesmas razões, posso estar tratando minha mãe como 
meio. 
 Já que os valores são vagos e que eles são sempre amplos 
demais para o caso preciso e concreto que consideramos, só 
nos resta confiar em nosso instinto. Foi o que o jovem tentou 
fazer; e, quando nos encontramos, ele dizia: no fundo, o que 
conta é o sentimento; eu deveria escolher aquilo que 
verdadeiramente me impele em determinada direção. Se eu 
sentir que gosto da minha mãe o bastante para lhe sacrificar 
todo o resto – meu desejo de vingança, meu desejo de ação, 
meu desejo de aventuras –, fico com ela. Se, pelo contrário, eu 
sentir que meu amor por minha mãe não é suficiente, então eu 
parto. Mas como determinar o valor de um sentimento? O que 
é que constituía o valor do sentimento que ele tinha por sua 
mãe? Precisamente o fato de que ele permanecera, por ela. 
Posso dizer: amo tal amigo o suficiente para lhe sacrificar tal 
soma de dinheiro; mas só poderei dizê-lo se o fizer. Posso 
dizer: amo minha mãe o bastante para ficar junto dela; mas não 
posso determinar o valor dessa afeição a não ser, precisamente, 
que eu pratique um ato que a confirme e a defina. Ora, como 
eu desejo que esse afeto justifique os meus atos, acabo sendo 
arrastado num circulo vicioso. 
 Por outro lado, Gide disse, e muito bem, que um 
sentimento representado e um sentimento vivido são duas 
coisas quase indiscerníveis: decidir que amo minha mãe 
ficando junto dela, ou representar uma comédia que me levará 
a ficar, por causa de minha mãe, é mais ou menos a mesma 
coisa. Por outras palavras: o sentimento constrói-se através dos 
atos praticados; não posso, portanto, pedir-lhe que me guie. O 
que significa que não posso nem procurar em mim mesmo a 
autenticidade que me impele a agir, nem buscar numa moral 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 32 
 
os conceitos que me autorizam a agir. Vocês dirão: pelo menos, 
o jovem procurou o professor para pedir-lhe conselho. Porém, 
se vocês procurarem um padre, por exemplo, para que eles os 
aconselhe, vocês estarão escolhendo esse padre, e, no fundo, 
vocês já estarão sabendo, aproximadamente, o que ele lhes irá 
aconselhar. Ou seja: escolher o conselheiro é, ainda, engajar-se. 
A prova disso está em que, se vocês forem cristãos, dirão: 
consulte um padre. Existem, no entanto, padres 
colaboracionistas, padres oportunistas, padres resistentes. 
Qual deles escolher? E, se o jovem escolher um padre resistente 
ou um padre colaboracionista, já estará decidindo o tipo de 
conselho que irá receber. Assim, vindo procurar-me, ele sabia 
a resposta que eu lhe daria, e eu só tinha uma única resposta: 
você é livre; escolha, isto é, invente. Nenhuma moral geral 
poderá indicar-lhe o caminho a seguir; não existem sinais no 
mundo. Os católicos argüirão: sim, existem sinais. Admitamos 
que sim; de qualquer modo, ainda sou eu mesmo que escolho 
o significado que têm. Quando estive preso, conheci um 
homem assaz notável, que era jesuíta, havia ingressado na 
ordem dos jesuítas da seguinte forma: tinha experimentado 
uma série de dolorosos fracassos; ainda criança, seu pai 
morrera deixando-o pobre; entrou como bolsista numa 
instituição religiosa onde faziam questão de lembrar-lhe a todo 
instante que ele era aceito por caridade; em seguida, perdera 
diversas distinções honoríficas que tanto agradam às crianças; 
mais tarde, por volta dos dezoito anos, fracassou numa 
aventura sentimental; finalmente, aos vinte e dois anos, falhou 
em sua preparação militar, fato bastante pueril que, no 
entanto, constituiu a gota que fez transbordar o jarro. Esse 
jovem podia portanto considerar que fracassara em tudo; era 
um sinal, mas um sinal de quê? Poderia refugiar-se na 
 
 
 
 
 
O “desamparo” 
implica que nos 
escolhemos o 
nosso ser 
(essencia). 
 
Desamparo: não 
existe bondade 
humana. O 
indivíduo só pode 
contar com a 
própria vontade e 
com o que estiver 
no âmbito de suas 
possibilidades. 
 
 
 
 
 
 
Por não poder 
contar senão 
consigo próprio, o 
individuo deve 
“agir sem 
esperança”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 33 
 
amargura ou no desespero. Porém, muito habilmente para si 
próprio, considerou que seus insucessos eram um sinal de que 
ele não nascera para os triunfos seculares, e que só os triunfos 
da religião, da santidade, da fé, estavam ao seu alcance. Viu, 
portanto, nesse sinal, a vontade de Deus e ingressou na 
Ordem. Quem poderia deixar de perceber que a decisão sobre 
o significado do sinal foi tomada por ele e só por ele? Seria 
possível deduzir outra coisa dessa série de insucessos: por 
exemplo, que seria melhor se ele fosse carpinteiro ou 
revolucionário. Ele carrega, portanto, a total responsabilidadeda decifração. O desamparo implica que somos nós mesmos 
que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia caminham 
juntos. 
Quanto ao desespero, trata-se de um conceito 
extremamente simples. Ele significa que só podemos contar 
com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de 
probabilidades que tornam a nossa ação possível. Quando se 
quer alguma coisa, há sempre elementos prováveis. Posso 
contar com a vinda de um amigo. Esse amigo vem de trem ou 
de ônibus; sua vinda pressupõe que o ônibus chegará na hora 
marcada e que o trem não descarrilhará. Permaneço no reino 
das possibilidades; porém, trata-se de contar com os possíveis 
apenas na medida exata em que nossa ação comporta o 
conjunto desses possíveis. A partir do momento em que as 
possibilidades que estou considerando não estão diretamente 
envolvidas em minha ação, é preferível desinteressar-me 
delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o 
mundo e seus possíveis à minha vontade. No fundo, quando 
Descartes afirmava: “É melhor vencermo-nos a nós mesmos do 
que ao mundo”, ele queria dizer a mesma coisa: agir sem 
esperança. Os marxistas, com quem conversei, retrucam-me: 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não existe 
bondade humana 
porque não existe 
Deus. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 34 
 
“Em sua ação, que estará, evidentemente, limitada por sua 
morte, você pode contar com a ajuda dos outros. Isso significa 
contar, simultaneamente, com o que os outros farão alhures 
para ajudá-lo, na China, na Rússia, e com o que eles farão mais 
tarde, depois de sua morte, para retomar sua ação e conduzi-
la até sua completa realização, ou seja, à revolução. Você deve 
contar com isso, caso contrário estará demonstrando falta de 
moral”. Antes de mais nada devo dizer que contarei sempre 
com meus companheiros de luta, na medida em que esses 
companheiros estão engajados comigo numa luta concreta e 
comum, na unidade de um partido ou de um grupo que eu 
posso, em linhas gerais, controlar; ou seja, ao qual eu pertenço 
como militante, e de cujos movimentos estou ciente a cada 
instante. Nesse caso, contar com a unidade e com a vontade 
desse partido é exatamente como contar com o fato de que o 
ônibus chegará na hora certa e o trem não descarrilhará. Não 
posso, porém, contar com homens que não conheço, 
fundamentando-me na bondade humana ou no interesse do 
homem pelo bem-estar da sociedade, já que o homem é livre e 
que não existe natureza humana na qual possa me apoiar. Não 
sei qual será o futuro da revolução russa; posso admirá-la e 
tomá-la como exemplo, na medida em que tenho provas, hoje, 
de que o proletariado desempenha, na Rússia, um papel que 
ele não desempenha em nenhuma outra nação. Mas não posso 
afirmar que tal situação irá forçosamente conduzir ao triunfo 
do proletariado; devo ater-me ao que vejo; não posso ter 
certeza de que meus companheiros de luta retomarão o meu 
trabalho após minha morte para o conduzir à máxima 
perfeição, visto que esses homens são livres e decidirão 
livremente, amanhã, sobre o que será o homem; amanhã, após 
minha morte, alguns homens podem decidir instaurar o 
 
 
 
 
 
 
 
“o homem nada 
mais é do que o 
seu projeto; só 
existe na medida 
em que se realiza; 
não é nada além 
do conjunto de 
seus atos, nada 
mais que sua 
vida”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 35 
 
fascismo, e outros podem ser bastante covardes ou fracos para 
permitir que o façam; nesse momento, o fascismo será a 
verdade humana e pior para nós; na realidade, as coisas serão 
como o homem decidir que elas sejam. Isso significa que eu 
deva abandonar-me ao quietismo? De modo algum. Primeiro, 
tenho que me engajar; em seguida, agir segundo a velha 
fórmula: “não é preciso ter esperança para empreender”. Isso 
não quer dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas 
que não deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder. Por 
exemplo, se eu perguntar a mim mesmo: a coletivização, 
enquanto tal, será um dia implantada? Como vou saber? Sei 
apenas que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que 
ela o seja; eu o farei; para além disso, não posso contar com 
mais nada. O quietismo é a atitude daqueles que dizem: os 
outros podem fazer o que eu não posso. A doutrina que lhes 
estou apresentando é justamente o contrário do quietismo, 
visto que ela afirma: a realidade não existe a não ser na ação; 
aliás, vai mais longe ainda, acrescentando: o homem nada mais 
é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; 
não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua 
vida. Em função disso, podemos entender por que nossa 
doutrina horroriza certo número de pessoas. Freqüentemente, 
elas dispõem de um único recurso para suportar a sua miséria, 
e é o de pensar o seguinte: “As circunstâncias estavam contra 
mim; eu valia muito mais do que aquilo que fui; é certo que 
não tive nenhum grande amor ou nenhuma grande amizade, 
mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher 
dignos de tal sentimento; se não escrevi livros muito bons, foi 
porque não tive tempo livre suficiente para fazê-lo; se não tive 
filhos a quem me dedicar, foi porque não encontrei o homem 
com quem teria podido construir a minha vida. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não existe uma 
natureza 
(essência) 
humana, pois não 
existe Deus. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 36 
 
Permaneceram, portanto, em mim, inutilizadas e inteiramente 
viáveis, uma porção de disposições, de inclinações, de 
possibilidades que me conferem um valor que o simples 
conjunto de meus atos não permitem inferir”. Ora, na verdade, 
para o existencialista, não existe amor senão aquele que se 
constrói; não há possibilidade de amor senão a que se 
manifesta num amor; não há gênio senão aquele que se 
expressa em obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das 
obras de Proust; o gênio de Racine é a série de tragédias que 
escreveu; para além disso, não há nada. Por que atribuir a 
Racine a possibilidade de escrever uma outra tragédia, se, 
justamente, ele não o fez? Um homem compromete-se com sua 
vida, desenha seu rosto e para além desse rosto, não existe 
nada. Evidentemente, tal pensamento pode parecer difícil de 
aceitar por alguém que tenha fracassado em seus projetos de 
vida. Mas, por outro lado, ele leva as pessoas a entenderem 
que só a realidade conta, que os sonhos, as esperas, as 
esperanças, só permitem que o homem se defina como sonho 
malogrado, como esperanças abortadas, como esperas inúteis; 
ou seja, que ele se defina em negativo e não em positivo; 
todavia, quando se diz: “tu nada mais és do que tua vida...”, 
isso não implica que o artista seja julgado unicamente por suas 
obras de arte; mil outras coisas contribuem igualmente para 
defini-lo. O que queremos dizer é que um homem nada mais é 
do que uma série de empreendimentos, que ele é a soma, a 
organização, o conjunto das relações que constituem esses 
empreendimentos. 
(...) 
 Além disso, se bem que seja impossível encontrar em 
cada homem uma essência universal que seria a natureza 
humana, consideramos que exista uma universalidade 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 37 
 
humana de condição. Não é por acaso que os pensadores 
contemporâneos falam mais frequentemente da condição do 
homem do que de sua natureza. Por condição, eles entendem, 
mais ou menos claramente, o conjunto dos limites a priori que 
esboçam a sua situação fundamentalno universo. As situações 
históricas variam: o homem pode nascer escravo numa 
sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. O que não 
muda é o fato de que, para ele, é sempre necessário estar no 
mundo, trabalhar, conviver com os outros e ser mortal. Tais 
limites não são nem subjetivos nem objetivos; ou, mais 
exatamente, têm uma face objetiva e uma face subjetiva. São 
objetivos na medida em que podem ser encontrados em 
qualquer lugar e são sempre reconhecíveis; são subjetivos 
porque são vividos e nada são se o homem os não viver, ou seja, 
se o homem não se determinar livremente na sua existência em 
relação a eles. E, embora os projetos humanos possam ser 
diferentes, pelo menos nenhum deles permanece inteiramente 
obscuro para mim, pois todos eles não passam de tentativas 
para transpor esses limites, ou para afastá-los, ou para negá-
los, ou para se adaptar a eles. Consequentemente, qualquer 
projeto, por mais individual que seja, tem um valor universal. 
Todo projeto, mesmo o do chinês, do indiano ou do negro, 
pode ser entendido por um europeu. Poder ser compreendido 
significa que o europeu de 1945, a partir de uma situação que 
ele concebe, pode projetar-se para os seus limites, da mesma 
maneira, e pode reconstituir em si mesmo o projeto do chinês, 
do indiano ou do africano. Existe uma universalidade em todo 
projeto no sentido em que qualquer projeto é inteligível para 
qualquer homem. Isso não significa de modo algum que esse 
projeto defina o homem para sempre, mas que ele pode ser 
reencontrado. Temos sempre a possibilidade de entender o 
 
 
 
O existencialismo 
é um esforço para 
tirar todas as 
consequências de 
uma postura ateia 
coerente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 38 
 
idiota, a criança, o primitivo ou o estrangeiro, desde que 
tenhamos informações suficientes. Nesse sentido, podemos 
dizer que há uma universalidade do homem; porém, ela não é 
dada, ela é permanentemente construída. Construo o 
universal, escolhendo-me; construo-o entendendo o projeto de 
qualquer outro homem, de qualquer época que seja. Esse 
absoluto da escolha não elimina a relatividade de cada época. 
O que o existencialismo faz questão de mostrar é a ligação 
existente entre o caráter absoluto do engajamento livre – pelo 
qual cada homem se realiza, realizando um tipo de 
humanidade – engajamento sempre compreensível em 
qualquer época e por qualquer pessoa, e a relatividade do 
conjunto cultural que pode resultar dessa escolha; é preciso 
sublinhar, simultaneamente, a relatividade do cartesianismo e 
o caráter absoluto do engajamento cartesiano. É nesse sentido 
que podemos dizer que cada um de nós é absoluto respirando, 
comendo, dormindo ou agindo de um modo qualquer. Não 
existe diferença alguma entre ser livremente, ser como projeto, 
como existência que escolhe a sua essência, e ser absoluto; não 
existe nenhuma diferença entre ser um absoluto 
temporariamente situado, ou seja, que se localizou na história, 
e ser universalmente compreensível. 
(...) 
Após essas reflexões, vemos que nada é mais injusto do 
que as acusações de que fomos alvo. O existencialismo nada 
mais é do que um esforço para tirar todas as consequências de 
uma postura ateia coerente. Esta não pretende, de modo 
algum, mergulhar o homem no desespero. Mas se, tal como 
fazem os cristãos, se decide chamar desespero a qualquer 
atitude de descrença, nossa postura parte do desespero 
original. O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 39 
 
em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele 
declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada 
mudaria; eis nosso ponto de vista. Não que acreditemos que 
deus exista, mas pensamos que o problema não é o de sua 
existência; é preciso que o homem se reencontre e se convença 
de que nada pode salvá-lo dele próprio, nem mesmo uma 
prova válida da existência de Deus. Nesse sentido, o 
existencialismo é um otimismo, uma doutrina de ação, e só por 
má fé é que os cristãos, confundindo o seu próprio desespero 
com o nosso, podem chamar-nos de desesperados. 
(...)” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 40 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - SARTRE 
01. Explique: “A existência precede a essência”. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
02. Segundo Sartre o que é: 
“angustia”? “desamparo” e “desespero”? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
“desamparo”? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
 “desespero”? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
03. Como o existencialismo ateu analisa a questão da “natureza humana”? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
04. Compare o conceito de “angustia” em Kierkegaard e Sartre. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
05. Quais diferenças e semelhanças podem ser apontadas na ideia de desespero, 
em Sartre e Kierkegaard? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 41 
 
 
 
PARTE II 
ELEMENTOS 
DA FENOMENOLOGIA: 
E. HURSSERL 
E 
M. HEIDEGGER 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 42 
 
2.1 FENOMENOLOGIA6 
Fenomenologia é, em primeiro lugar, um modo de se fazer filosofia. Isso 
não quer dizer que ela seja um método entre outros possíveis para se chegar ao 
mesmo objetivo. É que seguindo o modo fenomenológico de pensar, o lugar em 
que se chega é próprio; tem a coloração do caminho percorrido. Nesse sentido, 
melhor seria chamá-lo de paradigma. 
Um olhar histórico sobre isso ajuda a esclarecer o assunto. No fim do séc. 
XIX e começo do séc. XX, Edmund Husserl, fundador do movimento 
fenomenológico, tinha diante de si duas respostas para a questão dos caminhos 
do conhecimento (Husserl, 1954/2004, 1920/2005). De um lado, a ciência 
positivista, baseada em fatos, mensurações e verificações. Como resultados 
concretos já apareciam as fabulosas máquinas inventadas pela tecnologia: a vida 
humana do dia-a-dia havia mudado bastante e haveria de mudar ainda; o 
progresso científico impressionava a todos. De outro lado, a filosofia. Aqui as 
coisas eram mais caóticas. Cada cabeça, uma sentença; cada filósofo, uma 
proposta. Além disso, havia a dificuldade de se encontrar um "juiz" ou um 
critério objetivo que permitisse discernir o que era válido e o que não era. Como 
consequência, uma espécie de ceticismo generalizado: o sentimento de que não 
há possibilidade de se chegar a uma verdade; o máximo que se pode fazer é 
comentar criticamente o que os outros disseram. Até hoje, nos meiosfilosóficos, 
as dissertações e teses defendidas são, na maioria das vezes, estudos históricos: o 
que pensou um determinado autor sobre tal ou tal assunto. 
Diante da ciência, Husserl percebeu que, apesar de todo seu sucesso no 
desvendamento prático do funcionamento das coisas, ela deixava a desejar 
porque não trazia por si mesma uma resposta que satisfizesse a toda necessidade 
de saber do ser humano. A ciência ficava limitada ao âmbito permitido por seu 
método, o âmbito do empírico, do positivo, do imediatamente verificável. A 
questão do significado da realidade ou do sentido do mundo ficava fora do 
método científico. Desvendar o mundo medindo suas extensões: essa é a 
 
6 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2009000100010 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 43 
 
linguagem e esse é o limite da ciência que Husserl tinha diante de si. Trazendo 
um exemplo muito significativo em tempos posteriores, a ciência criou armas 
poderosas para a guerra, mas não disse qual o sentido de se guerrear. No campo 
da psicologia, pode-se dizer que a ciência mediu a inteligência, mas quando Binet 
foi questionado sobre o que era inteligência, ele teria respondido que era o que 
seus testes mediam (Gauquelin et al., 1980). 
A partir disso, pode-se dizer com Merleau-Ponty (1951/1973) que a ciência 
faz muitas afirmações sobre a realidade, mas ela não sabe o que é essa realidade. 
Foi-se perdendo o sentido da realidade: esse tipo de questão foi sendo deixado 
de lado. Husserl falou sobre essa perda de significados no seu texto sobre a crise 
das ciências européias (Husserl, 1954/2004). Ele estava interessado em encontrar 
um caminho para se chegar a esse sentido esquecido, para além da ciência 
convencional: uma reflexão que resgatasse a experiência comum, que dissesse de 
quê a ciência está falando e como é essa realidade que se nos apresenta. Isso não 
podia ser feito em laboratórios, pois envolve o ser humano e sua produção de 
significados. 
Diante da filosofia, algo parecido foi acontecendo. Falando em uma 
linguagem mais psicológica, poder-se-ia expressar assim a intuição de Husserl: 
se o homem pudesse considerar sua experiência, com tudo que nela está 
implicado, abstendo-se do julgamento espontâneo da realidade que ela encerra, 
ele poderia chegar a conclusões seguras acerca do conhecimento e seu alcance. 
Por esse caminho seria possível afirmar coisas sobre os atos da consciência, e isso 
mesmo seria um acesso à verdade que desacreditaria o ceticismo generalizado e 
daria uma base sólida para as discussões. A esse projeto Husserl chamou de 
"filosofia como ciência rigorosa" e de "fenomenologia" (English, 1984). Foi por ter 
aberto essa possibilidade de um pensamento efetivo, que transcendesse o 
relativismo, que logo se formou em torno dele um grupo de discípulos e um 
movimento. 
Que caminho é esse, então? É o da consideração da experiência em si 
mesma, independentemente dos juízos de realidade ou de valor que 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 44 
 
espontaneamente somos levados a fazer. Esses juízos correspondem ao que 
Husserl denominou atitude natural. Se estou vendo um ladrão roubando meu 
carro, por exemplo, imediatamente passo a tomar alguma providência para me 
proteger ou para evitar o roubo. Há aí um juízo implícito de realidade; não paro 
para considerar a experiência em si mesma. Se, pelo contrário, fizer exatamente 
isso - considerar minha experiência e deixar de me transportar espontaneamente 
para a realidade - estarei exercendo uma outra atitude: não a natural, mas a 
fenomenológica. Efetuar essa passagem também foi chamado de redução. É claro 
que muitos psicólogos iriam gostar disso, pois é o que eles fazem: ouvir o que a 
outra pessoa diz e, apesar de não se perguntarem se é verdade ou não, 
conectarem-se com um sentido desse dizer. 
Normalmente ouvimos falar de "redução de" alguma coisa. Redução dos 
juízos de realidade ou valor, equivalendo a colocar entre parênteses esses juízos. 
Mas o certo seria falar de "redução a": redução ao que imediatamente se 
apresenta. A isso que se apresenta chamou-se fenômeno. Trata-se do aparecer 
das coisas. Essa outra expressão de Husserl, "voltar às coisas mesmas" (English, 
2001), deve ser entendida como uma volta ao que aparece na experiência quando 
adotamos a atitude fenomenológica. Um retorno às coisas mesmas na linha da 
atitude natural seria o equivalente à introspecção, ou seja, um olhar para dentro 
de si procurando o que existe "na" consciência. Na fenomenologia essa volta seria 
muito mais à consciência como ato do que à consciência como lugar. O que 
aparece, então, é a característica de autotranscendência da consciência: a 
intencionalidade. Toda consciência enquanto ato é sempre "de algo". Não existe 
consciência pura sem intencionalidade nenhuma, assim como não existe 
conhecimento puro sem intencionalidade nenhuma. Não existe afeto puro sem 
remeter a nada. Perceber que uma pessoa está com raiva não é perceber tudo que 
se passa com ela. É necessário perceber também a que, ou a quem, essa raiva se 
dirige - ou seja, qual é o seu sentido. Para Rogers e Rosenberg (1977), a atitude 
empática leva a entrar em contato não somente com o sentimento puro, mas com 
seu significado. Isso equivale a dizer que a empatia capta o movimento 
intencional da experiência. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 45 
 
Husserl escreveu coisas, depois dessas intuições iniciais, que podiam ser 
interpretadas como idealismo: nada mais existe que o pensamento; a realidade 
está no pensamento. Muitos dos primeiros participantes do movimento 
fenomenológico debandaram nessa época dizendo que não era por isso que se 
haviam reunido ali, mas justamente pelo contrário: queriam um caminho real 
para a verdade, por mais difícil que fosse. Merleau-Ponty não concordou com 
essas críticas ao mestre, e disse que não há propriamente idealismo em Husserl 
porque o mundo já está dado como pressuposto do próprio pensamento 
(Merleau-Ponty, 1945/1996, 1964/1992). Se nos instalarmos no interior do 
pensamento e tentarmos deduzir daí o mundo como realidade externa, jamais o 
conseguiremos. Se nos fecharmos no pensamento, nada nos fará sair dele. Só há 
um meio: compreender que o mundo já está dado como um pressuposto, algo 
que podemos ver no próprio pensamento, ou na consciência, desde que 
tenhamos uma atitude fenomenológica. É a intencionalidade que nos restitui o 
mundo; através dela percebemos que ele sempre esteve lá. 
Neste momento da reflexão, surge um outro conceito da fenomenologia: o 
de mundo vivido (lebenswelt, em alemão), experiência pré-reflexiva, mundo que 
nos é dado antes de elaborarmos conceitos sobre ele. É do mundo vivido que 
nascem nossos pensamentos. Não se trata da natureza enquanto realidade 
objetiva (estudada pela ciência positivista), mas do mundo que se dá na relação, 
que se mostra como fenômeno primeiro e que pode ser depois elaborado no 
pensamento. Conhecer esse mundo é, então, conhecer nosso estar nele, conhecer 
nossas relações. A natureza enquanto realidade objetiva é uma abstração a partir 
do mundo vivido. O conhecimento deste nos inclui e, portanto, dá-se a partir de 
nosso estar e agir no mundo. Esse mundo é o pressuposto da ciência. 
Nesse sentido compreende-se que o caminho fenomenológico do 
pensamento tenha sido designado no início como um caminho "psicológico"; e 
mesmo mais tarde, desfeitas as ambiguidades no uso desses termos, Husserl 
propôs como método próprio de uma nova psicologia descritiva a "redução 
fenomenológico-psicológica" (Husserl, 1954/2004, p.264). 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 46 
 
Para uma visão mais global é preciso acrescentar, nessa compreensão aqui 
apresentada, que o contexto daexperiência é interpessoal: nascemos em um 
grupo humano e vivemos junto a outros. O mundo vivido nos é dado também 
socialmente; aparece aqui a intersubjetividade. O modo fenomenológico de 
pensar caracteriza-se pela consideração da experiência intencional no encontro 
das subjetividades envolvidas com o mundo. 
2.1.1 Fenomenologia e psicologia 
A principal tarefa que Husserl se propôs foi esclarecer o caminho 
fenomenológico para o pensamento humano: qual o alcance do conhecimento, 
como são os atos da consciência, como se apresenta o mundo. Mas depois, no 
interior do movimento fenomenológico, vários outros aspectos ou setores da 
experiência foram sendo abordados. Heidegger (1995) voltou-se para o 
esclarecimento do ser e da existência; Scheler (1994) abordou os valores; Merleau-
Ponty (1942/1972), o comportamento humano; Jaspers (1913/1979) inovou a 
visão da psicopatologia; Buber (1977), embora não fizesse parte do grupo 
original, descreveu fenomenologicamente o encontro humano. 
Quando a fenomenologia estuda a imaginação, a percepção, a linguagem, 
a relação inter-humana ou os estados perturbados da mente, por exemplo, ela 
esta se voltando para os mesmos objetos que a psicologia também considera. Mas 
a psicologia positivista (a que se refere Husserl) faz isso a partir de um enfoque 
empírico, por meio de mensurações, separando sujeito e objeto. Já a 
fenomenologia considera esses objetos enquanto vivências cuja natureza quer 
elucidar (sem se ocupar diretamente com medidas ou relações quantitativas). 
Nesse sentido, a fenomenologia não é essa psicologia, mas uma reflexão sobre a 
realidade da qual ela também se ocupa. Fazendo isso, a fenomenologia está ao 
mesmo tempo manifestando os fundamentos dessa psicologia e refletindo sobre 
seus limites: constitui-se, pois, também como uma espécie de instância crítica da 
psicologia. 
Ocorre ainda que esses desdobramentos da fenomenologia revelaram-se 
úteis até mesmo no interior do próprio fazer psicológico (e psiquiátrico), e por 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 47 
 
esse caminho acabaram construindo um saber próprio, voltado para o campo 
profissional dos psicólogos. Tal saber nasce no interior da filosofia e consiste em 
elaborações teóricas e práticas sobre os modos de ser humano, baseadas na 
reflexão da experiência pelo caminho proposto pela fenomenologia. Binswanger 
(1946/1971, 1956/1977), Boss (1975) (inspirando-se em Heidegger), Frankl (1989) 
e muitos outros, aplicaram esse saber (que eles ajudaram a construir) ao campo 
da psicoterapia. Ao cabo, esses desdobramentos constituem mais um significado 
para a expressão psicologia fenomenológica (diferenciada da filosofia 
propriamente dita, por visar um esclarecimento da vida humana). Isso vai além 
do que Husserl fazia (que era propriamente filosofia), embora sem se contrapor 
a ele. 
Tomando uma direção um pouco diferente, em alguns lugares fala-se de 
uma psicologia fenomenológica como um saber que se constrói e se exerce não 
a partir do interior da filosofia (se bem que sempre inspirado nela), mas, agora, a 
partir do interior da própria psicologia enquanto um fazer científico. Alguns 
autores trabalharam nesse sentido: Giorgi (1978) e Keen (1979), por exemplo. 
Com ênfases diferentes, esses autores pretenderam construir uma psicologia de 
inspiração fenomenológica husserliana (mais do que heideggeriana) e que 
pudesse ser considerada um fazer científico, embora trabalhasse em uma direção 
descritiva qualitativa e não quantitativa (não confundir com o uso do termo 
fenomenologia em medicina: descrição das manifestações de algo latente, os 
sintomas de uma doença). É nesse sentido que se pratica uma psicologia 
fenomenológica no contexto da psicologia humanista: elucidação do vivido 
baseada na consideração de experiências concretas e situadas, conduzindo a uma 
compreensão teórica que possibilite lidar melhor com o fenômeno. 
Resumindo, pode-se dizer que além da fenomenologia como caminho 
filosófico propriamente dito, o que inclui uma fenomenologia da psicologia 
enquanto ciência positivista, existe uma psicologia fenomenológica que 
consiste em um desdobramento filosófico fenomenologicamente conduzido na 
direção dos assuntos que interessam aos psicólogos e psiquiatras, ou 
simplesmente ao viver humano (e que poderia também ser denominada de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 48 
 
fenomenologia psicológica), e existe ainda uma outra forma de psicologia 
fenomenológica que, embora também inspirada na filosofia fenomenológica, 
é exercida a partir do interior da psicologia enquanto um saber científico, mas 
agora concebido em uma direção qualitativa. Em todos esses sentidos a 
psicologia fenomenológica volta-se para a experiência, para o vivido. Mas no 
terceiro sentido aqui enunciado, enquanto desdobramento direto da filosofia, ela 
está mais ligada à experiência comum, podendo ser evocada a partir da reflexão. 
E no Segto sentido ou seja, enquanto um saber inspirado na fenomenologia, mas 
que se exerce no interior da psicologia, volta-se para uma experiência específica 
e situada que se recebe por meio de um depoimento experiencial depois 
trabalhado de forma sistemática nos moldes como se costuma fazer em 
procedimentos científicos. 
2.1.2 Psicologia fenomenológica humanista 
Uma vez situados os diversos sentidos da psicologia fenomenológica, 
podemos nos concentrar no segundo sentido definido acima (exercida a partir 
do interior da psicologia enquanto um saber científico, mas agora concebido em 
uma direção qualitativa), que é o mais usual no contexto da psicologia 
humanista. Como podemos caracterizar essa psicologia? 
Além da inspiração fenomenológica, existe nela uma preocupação de 
aproximação com o mundo científico. Enquanto pesquisa, ela deve começar com 
um encontro com o fenômeno em alguma situação concreta; isso corresponde à 
coleta de dados de qualquer pesquisa científica. Pode ser feita sob a forma de 
entrevistas, observação participante ou pesquisa de intervenção, por exemplo. O 
pesquisador recolhe informações não apenas a partir de sua reflexão pessoal 
sobre sua experiência enquanto expressiva da experiência comum da 
humanidade (como acontece na fenomenologia filosófica); recolhe informações 
sistematicamente, entrando em alguma situação previamente escolhida ou de 
alguma forma planejada. Desde o acesso a esses dados da experiência subjetiva 
ou a essas vivências, o enfoque já é fenomenológico, e os dados, bem como seus 
significados, formam um todo. No entanto, o pesquisador sai de seu gabinete, vai 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 49 
 
para uma situação onde possa se encontrar com o fenômeno e de alguma forma 
anota, grava, registra em sua memória, para depois transformar em narrativas. 
Na situação ele pergunta, dialoga, questiona, observa e facilita o acesso do 
entrevistado à própria experiência subjetiva, que inclui memórias e significados. 
Depois, de volta ao seu gabinete, ele exerce um segundo olhar, o analítico (de 
novo fenomenológico), sobre aqueles dados assim construídos. Husserl não 
elaborou a psicologia fenomenológica com essa concretude com a qual tem sido 
praticada nas academias no contexto de dissertações e teses de mestrado e 
doutorado na área da psicologia. 
A grande questão aqui é: seria válida essa psicologia fenomenológica? 
Conseguiria ela ir além de um arremedo de ciência? E, além disso: que 
contribuição ela poderia trazer para a prática psicológica? Respostas a essas 
perguntas requerem um retorno à psicologia. 
As pesquisas e as práticas psicológicas seguem teorias diversas, nem 
sempre compatíveis uma com a outra. Pode-se, no entanto, simplificar essa 
diversidade para o fim que interessa a essa reflexão. Do ponto de vista da 
psicologia humanista, pode-se falar de dois grandes pressupostos teóricos que 
embasam as diversasabordagens: o pressuposto determinista e o pressuposto 
da autonomia. 
No pressuposto determinista, o ser humano é pensado como algum tipo 
de mecanismo. Tudo que ele faz, assim como tudo que lhe acontece, tem uma 
causa determinante. A arte do atendimento consiste em descobrir essa causa e 
intervir no sentido de modificá-la ou substituí-la por outra. As causas 
determinantes das condutas humanas podem ser internas (além de uma energia 
interna, compreendem-se as cognições, representações sociais, motivações 
inconscientes, resíduos da história passada, por exemplo, que dão a essa energia 
sua direção); ou externas (estímulos do ambiente físico ou social, isoladamente 
ou em configurações complexas, que acionam e dão direção a uma fonte de 
movimento) (Baum, 1999). Dentro deste pressuposto do determinismo 
psicológico, o atendimento, para que seja eficaz, exige um olhar analítico da 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 50 
 
situação. Este olhar configura-se como um diagnóstico. A partir dele, uma 
estratégia de intervenção é montada para dirigir a ação terapêutica para os fins 
visados: uma troca de causas determinantes. As pesquisas, quando estão a 
serviço dessa forma de trabalho com pressuposto metodológico determinista, 
visam estabelecer ligações genéricas de causalidade (para esclarecer o que se 
passa nos casos particulares e orientar a intervenção), ou então visam quantificar 
a distribuição de determinado fenômeno em um determinado campo (orientando 
decisões no plano de uma política de saúde mental, por exemplo). Em ambos os 
casos são pesquisas voltadas para práticas de intervenção controladora. Quando 
se trata de pesquisa básica, ela ainda assim visa instrumentalizar a intervenção, 
fornecendo-lhe uma base remota mais segura, ou então, e em qualquer caso, 
concebe o conhecimento nos moldes de um acúmulo de informações 
quantitativas. 
O pressuposto humanista da autonomia é diferente. Nele o ser humano 
não é visto como simples resultado de múltiplas influências, mas como o 
iniciador de coisas novas. A pessoa não é vista principalmente como efeito de 
causas anteriores modificáveis, mas como um ser desafiado pela vida e chamado 
a responder criativamente (Merleau-Ponty, 1996; Frankl, 1989). Isso quer dizer 
que se supõe que o ser humano tenha algum poder sobre as determinações que 
o afetam. O trabalho psicológico consiste fundamentalmente em oferecer um 
contexto dialógico no qual a liberação desse poder seja promovida. Aposta-se na 
autonomia crescente da pessoa e na fecundidade de uma relação humana honesta 
para promover essa autonomia. A autonomia é entendida como a capacidade que 
o ser humano tem de orientar sua própria vida de forma positiva para si mesmo 
e para a coletividade. 
Nessa perspectiva, o atendimento não se baseia em um diagnóstico, mas 
na afirmação de uma tendência inata e criativa ao crescimento, e não é concebido 
como uma intervenção direcionada a efeitos específicos, mas sim como uma 
relação libertadora dessa tendência na pessoa. A qualidade dessa relação adquire 
importância capital, pois é a partir dela que a capacidade de ver claramente e de 
orientar a própria conduta por parte da pessoa que se relaciona com o psicólogo 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 51 
 
vai se estabelecendo. A palavra "diagnóstico" ainda pode ser útil, mas agora com 
uma compreensão abrangente, que se constrói juntamente com o cliente e a 
serviço dele, ao longo do atendimento, e que inclui uma visão de seu modo de 
ser, da natureza da situação e também dos rumos que poderiam dar um sentido 
positivo à dinâmica da vida. 
As pesquisas que estão a serviço desta forma humanista de atendimento 
são principalmente qualitativas, descritivas de vivências subjetivas, buscando 
explicitar seus significados potenciais em relação a algum contexto e habilitando 
o profissional com uma visão mais ampla do ser humano, pois é isso que o torna 
mais apto a oferecer aquela relação libertadora. Quanto à pesquisa básica, ela 
tende a fornecer uma base mais segura para um conhecimento do ser humano, 
conhecimento este que não é concebido como acúmulo de informações 
quantitativas, mas como compreensão cada vez mais abrangente dos significados 
envolvidos e dos contextos. 
Voltemos então para aquelas perguntas sobre a pesquisa fenomenológica 
em psicologia. Na linha dos pressupostos deterministas, a pesquisa 
fenomenológica seria apenas de ajuda indireta e secundária. Já na linha dos 
pressupostos humanistas e existenciais, ela é essencial e primária, enquanto as 
pesquisas quantitativas são de ajuda somente indireta e subsidiária. Pode-se 
dizer que o tipo de pensamento mobilizado na pesquisa quantitativa, bem como 
na pesquisa de causa e efeito, é de mesma natureza que o exercido na intervenção 
de pressuposto determinista. Paralelamente, o tipo de pensamento mobilizado 
na pesquisa fenomenológica é de mesma natureza que o exercido na intervenção 
de tipo existencial humanista. Existe uma consistência interna nos dois modelos, 
envolvendo intervenção e pesquisa. No entanto, as palavras "instrumento" e 
"intervenção" servem mais ao modelo do pressuposto determinista, enquanto no 
modelo humanista as palavras "compreensão" e "relação dialógica" são mais 
convenientes. A pesquisa fenomenológica não "instrumentaliza" o profissional, 
mas qualifica-o para uma melhor atuação, com a possibilidade de uma 
compreensão mais ampla. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 52 
 
Será que essas considerações, válidas para a psicologia fenomenológica 
em geral, aplicam-se também ao Segto sentido elencado anteriormente, na sua 
forma humanista que estamos agora considerando? A resposta será positiva se 
levarmos em conta que a prática psicológica pode requerer mais que 
esclarecimentos de fundamentos, e pedir elucidações de experiências vividas em 
contextos bem específicos; só assim o psicólogo estará mais familiarizado com 
certas situações e mais capaz de se relacionar compreensivamente e 
criativamente com as pessoas nelas envolvidas. Além disso, importa considerar 
que a profissão de psicólogo constitui-se no contexto de uma formação científica 
(mais do que filosófica), por um lado, e por outro lado o fato de que o psicólogo 
humanista trabalha principalmente ouvindo pessoas. É natural, então, que as 
pesquisas partam de um ouvir sistemático, concreto, específico, e não apenas um 
ouvir genérico, consultando a experiência comum a partir da reflexão e propondo 
generalizações naturalísticas. A linguagem científica pode trazer contribuições 
válidas para o rigor do conhecimento que embasa a prática. Nada disso, no 
entanto, dispensa o psicólogo humanista de uma reflexão filosófica mais 
aprofundada e que permita uma construção mais ampla de teorias, como será 
ilustrado a seguir. 
2.2 Conceitos básicos 
Dentre os principais conceitos desenvolvidos por Husserl, destacam-se: 
2.2.1 Fenomenologia 
A palavra fenomenologia pode ser definida nos seguintes termos: 
“descrição daquilo que aparece ou ciência que tem como objetivo ou projeto essa 
descrição” (ABBAGNANO, 2000, p. 437). A fenomenologia está relacionada 
diretamente ao conceito de fenômeno o qual pode ser definido como “aquilo que 
aparece ou se manifesta”. 
A filosofia husserliana traz consigo um novo método de investigação que 
irá exercer grande influência no meio acadêmico, o que fará da fenomenologia 
um marco imprescindível na filosofia contemporânea. “Como um método de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 53 
 
pesquisa, a fenomenologia é uma forma radical de pensar” (MARTINS, 2006, p. 
18). 
2.2.2 Ciência positiva 
Refere-se às ciências da Natureza, vinculadas à exatidão da experiência. 
Husserl não via “com bons olhos” os métodos empregados, por exemplo, pela 
psicologia experimental. “Enquanto a ciência positivista restringeseu campo de 
análise ao experimental, a fenomenologia abre-se a regiões veladas para esse 
método, buscando uma análise compreensiva e não explicativa dos fenômenos” 
(LAPORTE e VOLPE, 2009, p. 52 ). 
2.2.3 Intencionalidade 
Para Husserl, “a palavra intencionalidade significa apenas a característica 
geral da consciência de ser consciência de alguma coisa”. A intencionalidade 
seria a marca fundamental da consciência, uma vez que a consciência está o 
tempo todo voltada para fora de si. 
(...) O princípio de intencionalidade é que a consciência é sempre 
‘consciência de alguma coisa’, que ela só é consciência estando dirigida a 
um objeto (sentido de intentio). Por sua vez, o objeto só pode ser definido 
em sua relação à consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito. (...) 
Isto não quer dizer que o objeto está contido na consciência como que 
dentro de uma caixa, mas que só tem seu sentido de objeto para uma 
consciência (DARTIGUES, 2005, p. 212). 
A intencionalidade comporta, ainda, os subconceitos: 
 “intenção” o conteúdo significativo de alguma coisa. Exemplo: um livro 
sobre a mesa. Temos a intenção de um objeto quando possuímos apenas o 
significado intencional desse objeto não há necessidade da presença física do livro 
e da mesa. 
 Se nos colocamos diante do objeto livro, temos uma “intuição”. A 
“intuição” é o preenchimento duma intenção. 
 A evidência é a consciência da intuição. O livro deve estar materialmente 
evidenciado e apresentar-se à minha consciência. O “grau” da evidência pode se 
deparar com dificuldades: fatores tais quais a distância e a luminosidade, etc. 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 54 
 
2.2.4 hylé 
Para Husserl, a hylé seria a “matéria subjetiva” que compõe uma 
percepção qualquer. A consciência de um objeto qualquer se daria sobre “dados 
hiléticos” que seriam “dados constituídos pelos conteúdos sensíveis, que 
compreendem, além das sensações denominadas externas, também os 
sentimentos, impulsos, etc.” (ABBAGNANO, 2000, p. 499) 
2.2.5 Epoché ou redução fenomenológica 
Tomando emprestado da filosofia antiga o termo grego epoché, que os 
antigos céticos traduziam por “suspensão” do juízo a respeito das coisas, Husserl 
o adota sob outra perspectiva. A epoché husserliana consiste em pôr "entre 
parênteses" o mundo quando da apreensão do fenômeno. 
Dito de outra forma, a epoché consiste numa suspensão momentânea da 
“atitude natural” com a qual nós nos relacionamos com as coisas do mundo. Isso 
consiste em deixar provisoriamente de lado todos os preconceitos, teorias, 
definições, etc., que nós utilizamos para conferir sentido às coisas. 
Tal suspensão da nossa atitude natural diante do mundo tem como escopo 
apreender na consciência as coisas no sentido de captá-las como elas são em si 
mesmas: "a fenomenologia procura enfocar o fenômeno, entendido como o que 
se manifesta em seus modos de aparecer, olhando-o em sua totalidade, de 
maneira direta, sem a intervenção de conceitos prévios que o definam e sem 
basear-se em um quadro teórico prévio que enquadre as explicações sobre o 
visto". 
 a redução psicológica: os juízos relativos ao mundo que nos circunda são 
postos “fora de circuito”, não entrando na avaliação que se faz das coisas. Não 
duvida da existência das coisas, apenas suspende, momentaneamente, todo juízo 
de valor em relação às mesmas. 
 redução transcendental. É o estágio de “consciência pura”; é chegar “às 
coisas em si”. Segundo Husserl, “na ‘consciência pura’ ou ‘transcendental’, as 
vivências perdem inteiramente o seu caráter psicológico e existencial para 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 55 
 
conservarem apenas a relação pura do sujeito plenamente purificado ao objecto 
enquanto consciente...” (FRAGATA, 1962, p. 30). 
Noema e Noese 
 O noema seria "o aspecto objetivo da vivência (ex., árvore verde, iluminada, 
não iluminada, percebida, lembrada, etc.)" (ABBAGNANO, 2000, p. 713). Dito de 
outra maneira, o noema seria o mundo transcendente tal qual ele nos é dado. 
 A noese "é o aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos de 
compreensão que visam a apreender o objeto, tais como perceber, lembrar, 
imaginar, etc." 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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PARTE III 
FUNDAMENTOS DA 
PSICOLOGIA HUMANISTA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 57 
 
3 ANTECEDENTES HISTÓRICOS E PRINCIPAIS PRESSUPOSTOS DA PSICOLOGIA 
HUMANISTA 
 
Para abordar a questão da proposta conceitual da Psicologia Humanista, 
em especial o conceito de tendência à auto atualização de Carl Rogers, é 
importante a fundamentação da mesma. Assim, faremos um breve apanhado 
histórico sobre esta força em psicologia. 
3.1 A superação do Teocentrismo 
Segundo Aquino (1986), o termo Humanismo, citado na Idade Moderna, 
designou um movimento de ruptura com o sistema escolástico medieval de 
pensamento. Seu apogeu ocorreu durante o Renascimento. É necessário, antes de 
dar continuidade ao que significou o Humanismo em si, que se entenda o 
movimento cultural da Renascença. 
Ainda na perspectiva de Aquino (1986), a descoberta de novos 
continentes, a visão antropocêntrica do mundo, a afirmação dos estados 
nacionais e a difusão de variadas formas artísticas inspiradas no mundo Greco-
Latino definiram a configuração do Renascimento, um brilhante período da 
cultura europeia que se seguiu à Idade Média. Como Renascimento designa-se o 
poderoso movimento artístico e literário que surgiu na Itália dos séculos XV e 
XVI, irradiando-se depois para a Europa, promovendo em toda parte um 
pronunciado florescimento da arquitetura, escultura, pintura e das artes 
decorativas, da literatura e da música e um novo enfoque da política. 
Este movimento conclamou a um Antropocentrismo em contrapartida ao 
Teocentrismo que prevaleceu por cerca de um milênio na Europa Ocidental. O 
homem passou a ser considerado a peça-chave, sendo inclusive comparado ao 
Todo-Poderoso já no sentido de colocar a nova mundividência em vigor. De 
acordo com Cerqueira e Lopes (1995), o Humanismo Renascentista deve ser 
considerado um movimento intelectual de valorização da Antiguidade Clássica. 
Embora não sendo a rigor uma filosofia, representou um movimento de 
glorificação do homem, tornado centro de todas as indagações e preocupações. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 58 
 
Foi de grande valia que esse movimento ocorresse para que o homem 
fosse colocado no centro das preocupações e descobrisse que os acontecimentos 
não se davam graças a um Deus, mas graças à determinação humana em resolver 
os problemas que a vida lhe apresentava. Isso fez com que o homem deixasse de 
lado aquela sua concepção de um simples agente passivo frente ao mundo: 
Na ética humanista o bem é a afirmação da vida, o desenvolvimento das 
capacidades do homem. A virtude consiste em assumir-se a 
responsabilidade por sua própria existência. O mal constitui a mutilação 
das capacidades do homem; o vício reside na irresponsabilidade perante 
si mesmo. (FROMM, 1974, p.27-28). 
3.2 Humanismo e Psicologia 
O Humanismo afeta a psicologia não como uma teoria específica nem 
mesmo como uma escola, mas como um lugar comum onde se encontravam 
todos aqueles psicólogos insatisfeitos com a visão de homem implícita nas 
psicologias oficiais vigentes. O rótulo de psicologia humanista é apenas um 
episódio momentâneo de algo que tem um sentido maior: a presença de uma 
atitude humanista no interior da psicologia. 
Neste sentido, a Psicologia Humanista aparece como uma forma de 
responder aos anseios da sociedade, com concepções que garantem a 
possibilidade de transformação que dependaapenas da vontade individual, 
como uma forma de as pessoas conceberem-se com base em suas próprias 
perspectivas, com suas particularidades. Ela retoma, resgata a individualidade, a 
subjetividade, as emoções próprias e particularidades de cada ser humano. 
Para se compreender melhor o que isto significou, voltaremos à 
maneira como ocorreu o surgimento da proposta da Psicologia Humanista no 
contexto do saber psicológico. 
De acordo com Boainaim Júnior (1999), a Psicologia Humanista, criada 
por Abraham Harold Maslow e Anthony Sutich, dentre outros autores, surge 
entre as décadas de 50 e 60 em contraposição ao Behaviorismo e à Psicanálise 
clássica. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 59 
 
Maslow era psicólogo experimental na Universidade de Brandeis, mas 
seus interesses eram pouco ortodoxos, o que tendia a levá-lo ao isolamento 
profissional e intelectual. Desta forma, Maslow foi um crítico vigoroso do 
comportamentalismo e da psicanálise, particularmente da abordagem de 
personalidade de Sigmund Freud. 
Segundo Maslow, quando os psicólogos estudam somente exemplos 
anormais e emocionalmente perturbados da humanidade, ignoram qualidades 
humanas positivas, como felicidade, satisfação e paz de espírito. Em meados dos 
anos 50 criou uma rede de correspondência, Rede Eupsiquiana, através da qual 
mantinha contato com psicólogos cujas ideias eram parecidas com as dele. O 
interesse dessa rede era a saúde psicológica, negligenciada, segundo Maslow, 
pelas duas forças anteriores: 
Devo confessar que acabei pensando nessa tendência humanista da 
Psicologia como uma revolução no mais verdadeiro e mais antigo sentido 
da palavra, o sentido em que Galileu, Darwin, Einstein, Freud e Marx 
fizeram revoluções, isto é, novos caminhos de perceber e de pensar, 
novas imagens do homem e da sociedade, novas concepções éticas e 
axiológicas, novos rumos por onde enveredar. (MASLOW, 1968, p.11). 
Sutich foi o principal integrante da rede e ao lado de Maslow criou a 
revista intitulada Revista de Psicologia Humanista, dando origem, em 1961, à 
Psicologia Humanista. No início do movimento e no lançamento da Revista de 
Psicologia Humanista, a seguinte introdução foi utilizada para assim descrever a 
proposta: 
A Revista de Psicologia Humanística foi fundada por um grupo de 
psicólogos e de profissionais de outras áreas, de ambos os sexos, 
interessados naquelas capacidades e potencialidades humanas que não 
encontram uma consideração sistemática nem na teoria positivista ou 
behaviorista, nem na teoria psicanalítica clássica, tais como criatividade, 
amor, self, crescimento, organismo, necessidades básicas de satisfação, 
auto realização, valores superiores, transcendência do ego, objetividade, 
autonomia, responsabilidade, identidade, saúde psicológica, etc. 
(SUTICH apud BOAINAIM JÚNIOR, 1999, p. 29). 
A partir do sucesso da revista, em 1963, foi fundada a Associação 
Americana de Psicologia Humanista e em 1964 esse novo movimento foi 
consolidado em uma conferência na qual compareceram grandes nomes 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 60 
 
inspiradores do movimento, inclusive Carl Rogers. Com sua rápida e sólida 
difusão a Psicologia Humanista se mostra hoje uma Força firmemente 
estabelecida e respeitada no panorama da psicologia mundial, 
generalizadamente reconhecida nos campos teórico, acadêmico e de aplicação. 
3.3 Alternativa ao Behaviorismo e à Psicanálise 
Paralelamente às questões da Psicologia Humanista em si, vale uma 
breve consideração sobre a teoria behaviorista e a teoria psicanalítica, só assim 
ficará claro o motivo pelo qual os psicólogos humanistas se uniram em 
“oposição” a estas teorias. 
Segundo Schultz e Schultz (1998), os psicólogos humanistas 
acreditavam que o Behaviorismo, que foi inaugurado em 1913 pelo americano 
John B. Watson, era uma abordagem estreita, artificial e relativamente estéril da 
natureza humana. Isto aconteceu pelo fato do Behaviorismo postular o 
comportamento como objeto da Psicologia. A ênfase no comportamento 
manifesto era, na visão dessa nova classe de psicólogos que surgia, 
desumanizante, pois reduzia-nos a animais ou máquinas. 
Esses novos psicólogos rejeitavam as visões deterministas e aquelas 
que vinculavam o homem ao seu ambiente. Acreditavam que uma psicologia 
baseada em respostas condicionadas discretas faz da pessoa um organismo 
mecanizado que apenas responde aos estímulos apresentados. Para tais 
psicólogos, os indivíduos não são organismos vazios, por isso não podem ser 
objetificados, quantificados e reduzidos a unidades de estímulo-resposta. 
Segundo Rogers,7 
Nos Estados Unidos, a psicologia Acadêmica poderia dar 
excelente aconselhamento e ajuda a governos ditatoriais. Acho que, se qualquer 
autoridade diz “ queremos que as pessoas sejam mudadas desta forma”, a 
psicologia acadêmica sabe muito bem como mudar as pessoas, gradualmente, no 
sentido que se quiser. E vejo isso como um grande perigo. A psicologia 
 
77 Por Fabíola I.de Oliveira. Entrevista concedida por Carl Rogers, em 1977 a revista “Veja” e 
gentilmente cedida para publicação no site. Revista VEJA no. 441- 16 de fevereiro de 1977. p. 3, 4 
e 6. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 61 
 
humanista seria uma valiosa conselheira a uma forma de governo democrático, 
pois ela o ajudaria a ser cada vez mais democráticos, a compreender as 
capacidades, os direitos e a habilidade do cidadão de ser responsável. 
De acordo com Milhollan et al (1978), Skinner via a realidade como 
algo objetivo, logicamente dedutível. Na perspectiva do Behaviorismo Radical 
(nome dado à epistemologia criada por Skinner), o homem é um produto de seu 
meio, ou seja, está sempre em função das contingências ambientais as quais está 
exposto. Sendo assim, segundo essa premissa, desde que haja um determinado 
controle ambiental, obtém-se do indivíduo as respostas (comportamentos) 
desejadas. 
A partir disso, a Psicologia Humanista sustenta a posição de que as 
imagens de homem apresentadas por esses dois sistemas teóricos apenas são 
partes que contribuem para um todo maior e, portanto, incompletas. Assim, foi 
em resposta à forma limitadora de psicologia promovida pelo Behaviorismo e 
pela Psicanálise que os psicólogos humanistas apresentaram sua alternativa 
como a terceira força em psicologia: 
Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a 
metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher agora a outra 
metade sadia. Talvez essa Psicologia da Saúde nos proporcione mais 
possibilidades para controlar e aperfeiçoar as nossas vidas e fazer de nós 
melhores pessoas. Talvez isso seja mais proveitoso do que indagar “como 
ficar não doente”. (MASLOW, 1968, p.30). 
Deste modo, a terceira força, coloca o homem, a pessoa humana e sua 
experiência, no centro de seus interesses. As suas prioridades são determinadas, 
pois, pelos autênticos problemas humanos que surgem à vista, nitidamente 
enfocados. É extremamente sensível e resistente à sedutora tentação de modelar 
o homem de acordo com uma teoria, em vez de talhar uma teoria que revele o 
homem em sua plenitude e esteja em mais íntima harmonia com a natureza 
humana. 
A Psicologia Humanista enfatiza a saúde, o bem-estar e o potencial 
humano de crescimento e de auto realização. Assim, a volta ao humano como 
objeto de estudo é uma das bandeiras do movimento, importante a ponto de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 62 
 
fornecer-lhe o título designativo. Qualidades e capacidades humanas, tais como 
valores, criatividade, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, auto 
realização, entre outros, fornecem temas de estudo típicos das abordagens 
humanistas. 
Em relação à Psicanálise criada por Sigmund Freud em 1886, Schultz 
e Schultz (1998) afirmam que os humanistasse opunham às tendências 
deterministas encontradas na abordagem freudiana da psicologia, bem como à 
sua minimização do papel da consciência. A crítica centra-se, sobretudo, na visão 
pessimista, determinista e psicopatologizante, que atribuem à teoria de Freud, 
assim como na impessoalidade da técnica transferencial. 
3.4 Influências 
Este movimento sofreu influência da psicologia alemã, em especial a 
visão holista e organísmica do ser humano e seu envolvimento ambiental, além 
da Psicologia da Gestalt (Max Wertheimer, Kurt Koffka, Wofgang Köhler). 
Segundo Wertheimer citado por SCHULTZ e SCHULTZ (1998), os 
gestaltistas acreditavam que a psicologia deveria abordar a consciência a partir 
da perspectiva da totalidade. Alguns psicólogos afirmaram que a semelhança 
entre a psicologia da Gestalt e a psicologia humanista é tão forte que não há razão 
para dar ao movimento mais novo nenhum outro nome. Eles acreditam que o 
rótulo Gestalt é adequado para descrever os temas compreendidos pela 
psicologia humanista. 
As obras existencialistas também auxiliaram de forma efetiva na 
construção da psicologia humanista, principalmente a partir de 1959, quando 
Rollo May organiza o primeiro simpósio americano sobre psicologia existencial, 
para o qual são convidados expoentes e futuros líderes do movimento 
humanista, como Abraham Harold Maslow e Carl Ransom Rogers. 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 63 
 
3.5 Postulados e orientações da Psicologia humanista 
1. [...] o homem, como homem, é mais do que a soma das partes; 
2. o homem tem seu ser num contexto humano: sua natureza se expressa na 
relação com outros homens; 
3. o homem é consciente: seja qual for o grau de consciência, esta é a parte 
essencial do ser humano; 
4. o homem tem a capacidade de escolha: quando consciente, o homem é 
consciente de ser mais que mero espectador – sente-se participante da 
experiência; 
5. o homem é intencional: busca, a um tempo, situação homeostática e 
desequilíbrio, variedade. (JUSTO, 1987, p.191-192). 
As seis orientações são: 
1. [...] a Psicologia Humanista preocupa-se com o homem: é fundamentada 
sobre o interesse do homem pelo homem, sendo uma expressão deste 
interesse; 
2. quanto à metodologia, a Psicologia Humanista valoriza mais o significado do 
que o procedimento; 
3. busca validações humanas preferencialmente a não-humanas: o critério 
último é a experiência humana; 
4. aceita o relativismo de todo conhecimento: postula um universo de infinitas 
possibilidades – todo conhecimento é sujeito a mudança; 
5. enfatiza a direção fenomenológica: insiste em que o foco de seu interesse é a 
experiência do ser humano; 
6. não relega as contribuições de outros pontos de vista, mas tenta 
complementá-las e situá-las numa concepção mais ampla da experiência 
humana. (JUSTO, 1987, p.192). 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 64 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - ANTECEDENTES 
1. Quais ideias integravam a visão teocêntrica do mundo? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
2. O que é o humanismo e como este se relaciona com a Psicologia? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
3. Sintetize os conceitos das duas Escola de Psicologia a quem a Psicologia se 
coloca como “terceira via” explique no que a proposta humanista é diferente. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
______________________________________________________________________ 
4. Cite três pressupostos da Psicologia humanista. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
______________________________________________________________________ 
 
 
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4. ABRAHAM MASLOW (1908 – 1970) 
Abraham Maslow nasceu no Brooklin, Nova York em 1º de abril de 
1908. Seus pais eram imigrantes russos pobres. Começou estudando direito na 
faculdade pela vontade de seu pai, depois transferiu para psicologia na 
Universidade de Wisconsin, em 1928. 
Expoente e co-fundador da psicologia humanista, Maslow buscava 
compreender e explicar as necessidades e o comportamento humano, o qual, 
segundo ele, é guiado por necessidades. Durante toda a sua carreira interessou-
se profundamente pelo estudo do crescimento e desenvolvimento pessoais, e 
pelo uso da psicologia como um instrumento de promoção do bem estar social e 
psicológico. 
Na perspectiva de Schultz e Schultz (1998), Maslow, considerado o pai 
espiritual da psicologia humanista, desviou-se dos caminhos de profissionais e 
acadêmicos behavioristas e freudianos para postular uma teoria mais esclarecida 
sobre a raça humana. Desejava compreender as mais elevadas realizações que os 
seres humanos são capazes de alcançar. Segundo Maslow citado por SCHULTZ 
(2004), “quando os psicólogos estudam somente exemplos anormais e 
emocionalmente perturbados da humanidade, ignoram qualidades humanas 
positivas, como felicidade, satisfação e paz de espírito.” (p.290). 
Os conceitos de personalidade sadia de Abraham Maslow estão 
profundamente enraizados na matriz de sua teoria da natureza intrínseca e 
potenciais de crescimento do homem. Assim, o desenrolar do potencial humano 
é visto a partir de um conceito de progressiva gratificação de necessidades. 
A gratificação de necessidades assenta na convicção de Maslow de que 
o núcleo interno da personalidade, em seu estado nascente, é bom, digno de 
confiança, ético e deve permitir-se que se afirme. Os comportamentos negativos 
ou destrutivos são epifenômenos, sintomas resultantes de uma negação ou 
privação dessas necessidades. 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 66 
 
4.1 Vir-a-ser e ser 
Maslow distingue entre os dois modos sadios básicos de uma 
personalidade sadia: (i) vir-a-ser e ser e esclarece suas relações mútuas. Vir-a-ser 
é um processo direcional, centrado no crescimento, processo este que pode 
expandir-se e abranger toda a gama hierárquica de necessidades instintóides 
"inferiores" e "superiores''. Portanto, vir-a-ser representa um programa para a 
vida inteira que poderá transcender as motivações de deficiência e ingressar num 
status mais individualizante ou auto-realizador. 
(ii) o ser são os estados de experiências finais relativamente temporárias e 
desmotivadas. Tais "episódios" de ser representam amiúde um estado passivo, 
receptivo, que permite ao organismo uma expressão plenamente integrada de 
seus potenciais e uma expressão de suas car acterísticas mais singulares e 
estilísticas, como na arte, música, natureza, comunicação interpessoal e sexo. 
4.2 Desenvolvimento autônomo 
Segundo Maslow, o ser humano possui leis intrínsecas que se distinguem 
das leis da realidade natural, de uma realidade não-humana. A personalidade 
sadia, embora inclua o êxito do comportamento interatuante apropriado,o 
domínio efetivação e competência na interação deve também incluir 
transcendência do ambiente, a independência em relação a este e a resistência à 
enculturação. Uma pessoa que cede facilmente às forças de distorção presentes 
na cultura é menos sadia que aquela que resiste ativamente a tais forças. 
4.3 Valores S e metanecessidades 
O conceito de metanecessidades tem por base a ideia de que as pessoas 
que vivem em condição de gratificação de suas necessidades básicas têm em vista 
uma preocupação com o que Maslow denomina de Valores S. Esses valores 
seriam: “verdade, beleza, justiça, perfeição” (MASLOW, 2001, p.50); “integração, 
unificação e tendência em direção à unidade” (MASLOW, 2001, p.171); “ordem” 
(MASLOW, 2001, p.181), entre outros. As pessoas prezam e aproximam-se dos 
valores S em sociedades nas quais há sinergia (MASLOW, 2001, p.152). 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 67 
 
4.4 Auto realização 
Suas primeiras investigações sobre auto realização foram inicialmente 
estimuladas por sua vontade de entender de uma forma mais completa os dois 
professores que mais o influenciaram, Ruth Benedickt e Max Wertheimer. 
Maslow não somente os considerava cientistas brilhantes e extraordinários, mas 
seres humanos profundamente realizados e criativos. Assim, iniciou seu próprio 
estudo para procurar tentar descobrir o que os fazia tão especiais. 
Para Maslow (1971), a auto atualização é um processo contínuo de 
desenvolvimento das potencialidades individuais. Isso significa usar suas 
habilidades e inteligência e “trabalhar para fazer bem aquilo que queremos 
fazer.” (MASLOW, 1971, p.48). Não é uma “coisa” que alguém tem ou não tem, 
mas um processo jamais findo que se refere a uma maneira de viver, trabalhar e 
relacionar-se com o mundo. “Significa experienciar de modo pleno, intenso e 
desinteressado, com plena concentração e total absorção.” (MASLOW, 1971, 
p.45). 
Se pensarmos a vida como um processo de escolhas, a auto atualização 
significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento. Escolher o 
crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras, arriscar o novo e 
o desconhecido. Maslow (1971) escreve que indivíduos auto atualizadores são 
atraídos por problemas mais desafiantes e intrigantes, por questões que exigem 
grandes e criativos esforços. Estão dispostos a enfrentar a incerteza e a 
ambiguidade. “Explorar, manipular, experimentar [...] podem ser consideradas 
atributos do puro Ser e, no entanto, levam ao Vir a Ser, embora de um modo 
acidental, fortuito, imprevisto e não programado.” (MASLOW, 1968, p. 73). 
Assim, o crescimento é visto não só como a satisfação progressiva de 
necessidades básicas, até ao ponto em que elas ‘desaparecem’, mas 
também na forma de motivações específicas do crescimento, além e 
acima dessas necessidades básicas, por exemplo, talentos, capacidades, 
tendências criadoras, potencialidade constitucionais. Dessa maneira, 
somos também ajudados a compreender que necessidades básicas e 
individuação não se contradizem entre si mais do que a infância e a 
maturidade. Uma pessoa transita de uma para outra e a primeira é 
condição prévia e necessária da segunda. (MASLOW, 1968, p.53). 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 68 
 
Maslow definia a questão da auto realização como "o uso e a 
exploração pleno de talentos, capacidades, potencialidades, etc. Eu penso no 
homem que se auto atualiza não como um homem comum a que alguma coisa 
foi acrescentada, mas sim como um homem comum de quem nada foi tirado. O 
homem comum é um ser humano completo com poderes e capacidades 
amortecidos inibidos". 
Maslow (1971) faz algumas considerações a respeito dos modos pelos 
quais os indivíduos se auto realizam: 
 Auto realização significa experienciar de modo pleno, intenso e 
desinteressado, com plena concentração e total absorção. Em geral estamos 
alheios ao que acontece dentro de nós e ao nosso redor. 
 Se pensarmos na vida como um processo de escolhas, então a auto realização 
significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento. Escolher o 
crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras, mas arriscar o 
novo e o desconhecido. 
 Auto realizar é aprender a sintonizar-se com sua própria natureza íntima. 
Isto significa decidir sozinho se gosta de determinadas coisas, independente 
das ideias e opiniões dos outros. 
 A honestidade e o assumir responsabilidade de seus próprios atos são 
elementos essenciais na auto realização. 
 Ao invés de, dar respostas calculadas para agradar outra pessoa ou dar a 
impressão de sermos bons Maslow pensa que as respostas devem ser 
procuradas em nós mesmos. 
 Auto realização é também um processo contínuo de desenvolvimento das 
próprias potencialidades. Isto significa usar suas habilidades e inteligência 
para trabalhar e fazer bem, aquilo que queremos fazer. 
 Um passo para além da auto realização é reconhecer as próprias defesas e 
então trabalhar para abandoná-las. Precisamos nos tornar mais conscientes 
das maneiras pelas quais distorcemos nossa autoimagem e a do mundo 
exterior através da repressão, projeção e outros mecanismos de defesa. 
Maslow acentua que o crescimento ocorre através do trabalho de auto 
realização. Auto realização representa um compromisso a longo prazo, com o 
crescimento e o desenvolvimento máximo das capacidades. O trabalho de auto 
realização envolve a escolha de problemas criativos e valiosos. Maslow afirma 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 69 
 
que, indivíduos auto realizados são atraídos por problemas mais desafiantes e 
intrigantes, por questões que exigem os maiores e mais criativos esforços. Estão 
dispostos a enfrentar a incerteza e a ambiguidade e preferem o desafio à soluções 
fáceis. 
4.5 Auto atualização 
Maslow começou a estudar a auto atualização mais formalmente 
através da análise das vidas, valores e atitudes das pessoas que considerava mais 
saudáveis e criativas. Tinha dois critérios para incluir pessoas em seu estudo 
inicial. Primeiro, todos os sujeitos estavam relativamente livres de neurose ou de 
problemas pessoais maiores. Segundo, todos aqueles que foram estudados 
usavam da melhor forma possível seus talentos, capacidades e outras forças. 
Encontrou características comuns entre os participantes e denominou-
as “características de pessoas auto atualizadoras”. São elas: 
 Percepção clara da realidade; 
 aceitação de si, dos outros e da natureza; 
 espontaneidade, simplicidade e naturalidade; 
 dedicação a uma causa; 
 independência e necessidade de privacidade; 
 vigor de apreço; 
 experiências culminantes; 
 interesse social; 
 relações interpessoais profundas; 
 tolerância e aceitação dos outros; 
 criatividade e originalidade; 
 resistência a pressões sociais. 
Maslow chamou de “individuação” o interesse pessoal de cada um em 
se tornar criadoramente ativo no mundo, sendo a auto realização criadora o que 
mais importava. 
escrever, se quiser ficar, em última instância, em paz consigo mesmo. O 
que um homem pode fazer, ele deve fazer. Esta necessidade podemos 
chamar de auto atualização. Ela se refere ao desejo de auto atualização 
do homem, ou seja, a tendência de se tornar verdadeiramente o que ele é 
potencialmente: de se tornar tudo que alguém pode se tornar. 
(MASLOW, 2001, p.3). 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 70 
 
4.6 Hierarquia das necessidades humanas 
Maslow é reconhecido por sua Hierarquia das Necessidades e pelo 
conceito de auto realização como principal força motivadora; acreditava que os 
seres humanos aspiravam tornarem-se auto realizados. 
O homem, tal como Maslow o vê, segue sua vida dentro do contexto de 
uma hierarquia de necessidades instintóides que abrange todo o repertório e 
espectro de desejos e potenciais humanos, desde o homem impelido pela fome 
que buscaalimento até ao- júbilo humano na experiência e fruição do êxtase 
estético. As necessidades prepotentes, respectivamente, de satisfação fisiológica, 
segurança, amor, amor-próprio e auto realização manifestam-se numa sequência 
relativamente ordenada e previsível, à medida que cada uma delas é satisfeita, 
por seu turno (vide abaixo). 
Esta Hierarquia das Necessidades surgiu a partir da observação de que 
algumas necessidades fisiológicas, em níveis muito elevados, monopolizam a 
atenção do ser humano, mas, uma vez satisfeitas, dão espaço a outras 
necessidades. Não somos impulsionados por todas as necessidades ao mesmo 
tempo. Geralmente, apenas uma dominará nossa personalidade. Qual delas será 
vai depender de quais das outras terão sido satisfeitas. Essas necessidades 
podem ser influenciadas ou anuladas pelo aprendizado, pelas expectativas 
sociais e pelo medo de desaprovação. Embora venhamos dotados dessas 
necessidades ao nascer, os comportamentos que efetuamos para satisfazê-las são 
aprendidos e, portanto, sujeitos a variação de uma pessoa para outra. Sendo 
assim, as necessidades foram divididas por Maslow em cinco categorias, cada 
uma delas representada por um “degrau” da hierarquia: 
 
Uma relação adicional entre segurança e crescimento deve ser 
especialmente mencionada. Segundo parece, o crescimento tem lugar, 
habitualmente, através de pequenos passos e cada passo em frente só é 
possível mediante a sensação de se estar seguro, de se operar em campo 
desconhecido a partir de uma base de apoio onde se pode regressar em 
segurança, de se avançar com audácia porque a retirada é possível. ( 
MASLOW, 1968, p.76). 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 71 
 
 
 
MEIA-IDADE (5) Necessidades de Autorrealização 
 (4) Necessidades de Estima 
ADOLESCÊNCIA (3) Necessidades Afetivo-sociais 
 (2) Necessidades Segurança 
INFÂNCIA (1) Necessidades Fisiológicas 
 
Maslow teoriza que as cinco categorias estão dispostas numa hierarquia, 
desde as necessidades de ordem mais baixa (fisiológicas), até as de ordem mais alta 
(auto realização). Esta hierarquia determina a prioridade que estará em vigência 
quando houver mais de um tipo de necessidade insatisfeita. Segundo Maslow (1968), 
as diferentes necessidades básicas relacionam-se numa ordem hierárquica, de tal 
modo que a satisfação de uma necessidade e sua consequente remoção do centro do 
palco provocam o aparecimento, na consciência, de outra necessidade “mais alta”; a 
carência e o desejo continuam, mas em nível “superior”. 
I. necessidades fisiológicas — compreendem os impulsos (drive), acrescidos da 
dinâmica da homeostase e da ideia de apetite (que introduz a escolha de 
alimentos pela pessoa ao tema da fome); 
II. necessidades de segurança — que Maslow entende ser uma classificação 
grosseira. Por necessidade de segurança depreende-se a inexistência de 
ameaças percebidas no ambiente. Maslow cita os trabalhos experimentais 
realizados com crianças para ilustrar seu conceito, e trabalhos clínicos com 
neuróticos obsessivo-compulsivos, que procuram organizar o mundo de 
forma a evitar suas ameaças inesperadas, e com lesionados cerebrais que 
evitam tudo o que lhes é estranho ou não familiar. Assim, o conceito de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 72 
 
segurança de Maslow compreende certa estabilidade, entendimento e 
controle dos padrões de mudança do ambiente em que a pessoa se 
encontra; 
III. necessidades de pertença e amor — entendidas como o 
compartilhamento de afeto com pessoas em um círculo de amizade e 
intimidade. Embora a sexualidade possa fazer parte desse contexto de 
intimidade, o conceito de amor não se reduz ao de sexo. O comportamento 
sexual é multideterminado e pode ser enfocado na ótica das necessidades 
fisiológicas; 
IV. necessidades de estima —compreendem a imagem que a pessoa tem de 
si (autoestima ou autorrespeito) e o desejo de obter a estima dos outros. 
Maslow divide essas necessidades em dois conjuntos. No primeiro, ele 
situa o desejo de realização, adequação, maestria e competência, que 
possibilita confiança com relação ao mundo, independência e liberdade. 
No segundo conjunto ele situa a busca de reputação ou prestígio, status, 
dominância, reconhecimento, atenção, importância ou apreciação. A base 
desse conjunto de necessidades é encontrada na teoria psicanalítica 
adleriana, e a influência psicopatológica da falta de gratificação dessas 
necessidades é exemplificada com estudos de neuróticos de guerra; 
V. necessidades de auto realização ou auto atualização — compreendem a 
ideia, defendida por muitos autores (como Jung, 1987, por exemplo), de 
que as pessoas têm um potencial interno que necessita tornar-se ato. 
Maslow dedica dois capítulos à autorrealização, nos quais mostra dados 
colhidos a partir de análises biográficas de figuras históricas, estudo de 
pessoas contemporâneas de destaque e jovens que pareciam estar se 
desenvolvendo rumo à auto atualização; 
• desejos de saber e de entender(4) — que Maslow considera menos 
conhecidos, porque não possuem implicações clínicas, a principal base do 
conjunto de categorias desenvolvido por ele. Entretanto, ele as considera 
como necessidades e sujeitas à gratificação como as demais. Elas são 
postuladas por Maslow (1954, p.97) como “um desejo de entender, de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 73 
 
sistematizar, de organizar, de analisar, de procurar por relações e 
significados, de construir um sistema de valores”; 
• necessidades estéticas — que Maslow entende como os impulsos à 
beleza, à simetria e, possivelmente, à simplicidade, à inteireza e à ordem. 
Ele afirma que observou essas necessidades em crianças saudáveis, mas 
que se encontram indícios delas em todas as culturas e em todas as idades. 
Desta forma, Maslow demonstra que o comportamento é sempre 
determinado pela categoria de necessidades de mais baixa ordem que permanecer 
insatisfeita. Sendo assim “o apetite de crescimento é estimulado pela satisfação, não 
aliviado” (MASLOW, 1968, p.57). Conforme Chiavenato citado por Bueno (2002), a 
escalada da pirâmide não depende apenas de condições oferecidas, mas também das 
circunstâncias de vida de cada pessoa. 
Segundo Schultz (2004), as necessidades superiores surgem mais tarde na 
vida, as fisiológicas e de segurança (1,2) emergem na infância, as de afiliação e de 
estima aparecem na adolescência (3,4) e a de auto realização apenas na meia-idade 
(5): 
Portanto, podemos considerar o processo de crescimento sadio uma série 
interminável de situações de livre escolha, com que cada indivíduo se 
defronta a todo instante, ao longo da vida, quando deve escolher entre 
os prazeres da segurança e do crescimento, dependência e 
independência, regressão e progressão, imaturidade e maturidade. A 
segurança tem suas angústias e seus prazeres; o crescimento tem suas 
angústias e seus prazeres. Progredimos quando os prazeres do 
crescimento e a ansiedade da segurança são maiores do que a ansiedade 
do crescimento e os prazeres da segurança. (MASLOW, 1968, p.74). 
O desajustamento psicológico é definido como doenças de carência, 
causadas pela privação de certas necessidades básicas, assim como a falta de 
vitaminas causa doenças. Outras necessidades, segundo Maslow, também devem 
ser satisfeitas para manter a saúde. 
Maslow afirma que, um exame acurado do comportamento animal ou 
humano revela outro tipo de motivação. Quando um organismo não está com 
fome, dor e medo novas motivações emergem, tais como curiosidade e alegria. 
Sob estas condições, as atividades podem ser desfrutadas como fins em si 
mesmas, nem sempre buscadas apenas como meio de gratificação de 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 74 
 
necessidades. A este tipo de motivação denomina motivação do ser, pois, refere-
se principalmente ao prazer e a satisfaçãono presente ou ao desejo de procurar 
uma meta considerada positiva. Por outro lado, a motivação de deficiência inclui 
uma necessidade de mudar o estado da coisa atual porque este é sentido como 
insatisfatório ou frustrador. 
 4.7 O self 
Maslow define o self como essência interior da pessoa ou sua natureza, 
inerente a seus próprios gostos, valores e objetivos. Compreender a própria 
natureza interna e agir de acordo com ela é essencial para atualizar o self. 
Maslow aborda a compreensão do self através do estudo daqueles 
indivíduos que estão em maior harmonia com suas próprias naturezas, daqueles 
que fornecem os melhores exemplos de autoexpressão ou auto atualização. 
Em síntese, o trabalho de Maslow, ofereceu uma contribuição 
considerável tanto prática quanto teórica para os fundamentos de uma 
alternativa para o Behaviorismo e a Psicanálise, correntes estas que segundo ele, 
tendem a ignorar e ou deixar de explicar a criatividade, o amor, o altruísmo e os 
outros grandes feitos culturais, sociais e individuais da natureza humana. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 75 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - MASLOW 
1. O que, para Maslow, caracterizaria a tendência da auto realização. 
______________________________________________________________________
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______________________________________________________________________ 
2. Como Maslow entende o self? 
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______________________________________________________________________ 
3. Como explica a “hierarquia das necessidades humanas”? 
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4. Quais as características do indivíduo auto-atualizado? 
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5. Explique a tendência auto-atualizante segundo Maslow. 
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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 76 
 
5. CARL ROGERS (1902-1987) 
5.1 Vida e formação 
Carl Ramson Rogers nasceu em janeiro de 1902, em Ork Park, 
subúrbio de Chicago, onde morou até 12 anos de idade, quando seu pai comprou 
uma fazenda, onde foram viver. Membro de uma família cuja religião era 
rigorosamente fundamentalista, Rogers viveu numa atmosfera familiar 
repressiva (ROGERS, 1977). 
No campo, Rogers se ocupava de zoologia e botânica. Ao ingressar no 
Liceu da Wisconsin, dedicou-se à agricultura. Neste ambiente passou a 
interessar-se pelos métodos experimentais da agricultura e da criação de gado, 
dedicando-se intensamente a estes estudos. Segundo o próprio autor 
“Desde estes primeiros contatos com o método experimental, nunca mais 
deixei de sentir uma atração e um respeito cada vez maiores pela maneira 
científica de abordar um problema e de promover o conhecimento.” 
(ROGERS, 1977, p.145). 
Antes de 1942 publica Counselling and Psychotherapy, descrevendo o 
que, de alguma maneira, lhe parecia ser uma orientação mais eficaz da terapia. 
De 1944 a 1957, Rogers fica em Chicago, leciona psicologia e cria um centro de 
aconselhamento na universidade. Em 1947 é eleito presidente da Associação 
Americana de Psicologia: 
Em 1947, esbocei uma série provisória de proposições teóricas relativas à 
organização da personalidade (Some observations on the organization of 
personality). Quatro anos mais tarde, iniciei um primeiro ensaio de 
apresentação de uma teoria da personalidade e da terapia (Client-
Centered Therapy). (ROGERS, 1977, p.144). 
Do seu primeiro livro em diante, Rogers passa a desenvolver trabalhos e 
publicar vários livros e artigos. Ele criou e promoveu a “terapia centrada no cliente”, 
foi o pioneiro no movim ento de grupos de encontro e um dos fundadores da 
Psicologia Humanista. Em 1964 muda-se para La Jolla, Califórnia, onde passa a 
dedicar-se à psicoterapia e as atividades de grupo, permanecendo neste local até sua 
morte em 1987. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 77 
 
5.2 Principais etapas de sua teoria 
Rogers apresenta uma ilustração das “batatas” para sintetizar sua 
teoria. Afirma: 
O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. 
É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem 
interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção 
ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. Costumo 
exemplificar esse processo lembrando batatas que guardávamos no 
porão da nossa casa na fazenda. Elas criavam brotos porque havia uma 
janelinha no Segto. Era uma tentativa inútil, mas parte da tentativa do 
organismo de se satisfazer. Você consegue um produto muito diferente 
quando planta uma batata na terra, e comparo esse processo ao que pode 
ser encontrado em delinquentes e em pessoas que são tidas como doentes 
mentais: o modo como suas vidas se desenvolveram pode ser muito 
bizarro, anormal; no entanto, tudo o que elas estão fazendo é uma 
tentativa para crescer, para atualizar seus potenciais. O fato de essa 
tentativa causar maus resultados situa-se mais no meio ambiente do que 
na tendência básica do indivíduo. A pedra fundamental da 
psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é, portanto essa crença 
de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo. 8 
5.2.1 O “Eu” e o “Eu ideal” 
Os próximos conceitos a serem discutidos são o de “Eu” e “Eu Ideal”. 
Rogers considera o “eu” como sendo uma “configuração experiencial” composta 
de percepções, valores, sentimentos e emoções que se referem ao próprio 
indivíduo, às suas relações com o outro, com o meio e com a vida em geral. Para 
ele, tal configuração se encontra num estado de fluxo contínuo, isto é, muda 
constantemente, ainda que seja sempre organizada e coerente. Rogers em uma 
entrevista a Evans diz: 
A meu ver, o “eu” inclui todas as percepções que o indivíduo tem de seu 
organismo, de sua experiência, e do modo como essas percepções se 
relacionam com outra percepção e objetos no seu ambiente, e com todo o 
mundo exterior. (ROGERS in: EVANS, 1979, p.49). 
O “eu” não é uma entidade estável, imutável; Rogers usa esse termo 
para se referir ao contínuo processo de reconhecimento. É a visão que a pessoa 
 
8 Revista VEJA. Op. cit. p. 3, 4 e 6. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 78 
 
tem de si própria, baseada em experiências passadas, estimulações presentes e 
expectativas futuras. 
Características funcionais do “eu”: 
(i) por intermédio do “eu” se institui a interação do “organismo” com o 
mundo existencial; 
(ii) o “eu” pode ou não incorporar características alheias ou valores do 
“outro”, percebendo-os como seus; 
(iii) busca obter firmeza, constância e coerência para a eficiência do 
ajustamento pessoal e social; 
(iv) o “organismo” reage de forma coerente com o “eu”, garantindo-lhe o 
equilíbrio global; 
(v) toda e qualquer experiência que não seja condizente com a estrutura do 
“eu” será percebida como ameaçadora; 
(vi) à medida que a pessoa muda,como resultado de novas aprendizagens, 
novas experiências e da própria maturidade psíquica, a estrutura do “eu” 
também sofrerá mudanças. 
Em relação ao “Eu Ideal”, podemos dizer que tal conceito se refere ao 
“conjunto das características que o indivíduo desejaria poder reclamar como 
descritivas de si mesmo.” (ROGERS; KINGET, 1977, p.165). 
Segundo Fadiman e Frager (1979), a extensão da diferença entre o “eu” 
e o “eu ideal”, é um indicador de desconforto, insatisfação e dificuldades 
neuróticas. 
Aceitar-se como se é na realidade, e não como se quer ser, é um sinal 
de saúde mental. Como diz Rogers em sua entrevista a Evans: “O desajuste 
ocorre quando eu persisto em conservar uma imagem de mim mesmo que não 
corresponde ao que está realmente acontecendo no meu organismo.” (ROGERS 
in EVANS, 1979, p.50). 
A imagem do “eu ideal” é um obstáculo ao crescimento pessoal 
quando se diferencia do comportamento e dos valores reais de uma pessoa. 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 79 
 
5.2.2 Congruência e incongruência 
Outros conceitos centrais na teoria rogeriana são os de “Congruência” 
e “Incongruência”. Nos dizeres de Rogers e Stevens (1991), a “congruência” é 
facilitada quando um indivíduo, numa relação de ajuda, é aquilo que é, quando 
as suas relações com um outro são autênticas e sem máscaras, exprimindo 
abertamente os sentimentos e atitudes que nele surgem durante a relação. Sendo 
assim, o indivíduo entra num encontro pessoal direto com o outro, encontrando-
o de pessoa para pessoa. 
5.2.3 Tendência atualizante 
A noção de tendência atualizante é o postulado fundamental da teoria 
criada por Rogers e condição sine qua non para que seja possível a terapia centrada 
no cliente. 
Rogers vai além de Maslow ao dizer que a tendência atualizante não 
visa apenas à satisfação das necessidades a que este chamou de “necessidades 
por deficiência”, ou seja, a manutenção das condições elementares de 
subsistência. A vida é um processo ativo, e não passivo. Independente da 
proveniência do estímulo, se externo ou interno, ou das condições ambientais, 
um organismo sempre se comportará em direção à sua manutenção, crescimento 
e reprodução. Essa é a própria natureza do processo a que chamamos vida. Em 
qualquer ocasião, a tendência atualizante está em ação. 
Promove, pois, o crescimento total, assim como o enriquecimento do 
“organismo” num processo de vir-a-ser constante. No que se refere ao organismo 
humano, em especial, ela se revela tanto a nível físico como psíquico. Naquele, 
atua na promoção da manutenção alimentar, no calor necessário para a sua 
sobrevivência e, ainda, na regulação dos processos químicos orgânicos; neste, ela 
se apresenta impulsionando o homem para uma maior “abertura à experiência” 
e ao relacionamento interpessoal. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 80 
 
Conforme Rogers (1977), a operação da tendência atualizante tem por 
efeito dirigir o desenvolvimento do “organismo” no sentido da autonomia e da 
unidade. O que tal tendência procura atingir é aquilo que o sujeito percebe como 
valorizador ou enriquecedor – não necessariamente o que é objetiva ou 
intrinsecamente enriquecedor. 
Respondendo à VEJA9 acerca da “pessoa emergente”, diz Rogers: 
Vejo a pessoa emergente como a que tomou o risco de viver de um 
modo novo e mais humano numa sociedade que não encoraja esse tipo 
de aprendizagem. Portanto, seu caminho não é fácil. São pessoas que não 
estão ligadas a coisas materiais, embora possam aprecia-las se as 
possuírem. Em termos de autoridade, vejo pessoas emergentes como 
alguém que tem um sentimento bastante profundo, de que 
somente dentro de si existe a maior fonte de autoridade, na qual pode 
confiar. Esta pessoa está pronta a ouvir qualquer autoridade, mas 
quando se trata de seu próprio comportamento, a escolha está 
unicamente, dentro de si mesma. Ela é quem avalia toda experiência e 
autoridade, e toma decisões baseadas no que ela quer fazer. Na verdade, 
sempre existiu uma ou outra pessoa assim. No entanto, ter um grande 
grupo de indivíduos tomando decisões por si mesmo, como aconteceu 
nos Estados Unidos, durante a guerra do Vietnam, quando um vasto 
número de jovens simplesmente se recusou a ir para a guerra, é 
realmente um novo aspecto da sociedade. 
5.2.4 Relação de ajuda 
Uma “relação de ajuda” define-se como uma “relação na qual pelo 
menos uma das partes procura promover na outra o crescimento, o 
desenvolvimento, a maturidade, um melhor funcionamento e uma maior 
capacidade de enfrentar a vida.” (ROGERS, 1977, p.43). Para Rogers (1977), 
qualquer relação pessoa/pessoa que se enquadre na definição acima pode ser 
considerada uma “relação de ajuda”: 
Talvez esta enumeração sirva para provar que uma grande parte das 
relações nas quais nós e os outros estamos envolvidos entram nesta 
categoria de interações em que existe o propósito de promover o 
desenvolvimento, uma maior maturidade e um mais adequado 
funcionamento. (ROGERS, 1977, p.44). 
Em suas obras Rogers enfatiza com frequência a questão da 
“congruência” no âmbito da relação terapêutica. Para ele tanto terapeuta quanto 
 
9 Op. cit. p. 3, 4 e 6. 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 81 
 
cliente devem se manter congruentes ao longo do processo para que se possa 
observar mudanças representativas na personalidade daquele que busca a 
psicoterapia. 
Em relação ao cliente, Rogers (1977) diz que a importância de haver a 
“congruência” é no sentido de obter uma relação mais estreita e verdadeira entre 
suas experiências e o “eu”, a fim de que a pessoa seja capaz de tomar consciência 
daquilo que está vivendo. 
A “congruência” por parte do terapeuta é de extrema importância 
porque, segundo Rogers e Stevens (1991), quanto mais autêntico e congruente ele 
for, maior a probabilidade de ocorrer mudança na personalidade do cliente: 
[...] se o terapeuta é congruente ou transparente, então as suas palavras 
estão de acordo com os seus sentimentos, em vez destes elementos 
divergirem; se o terapeuta tem uma simpatia incondicional pelo cliente, 
se o terapeuta compreende os sentimentos essenciais do cliente como eles 
surgem ao próprio cliente – então há uma forte probabilidade de que essa 
relação de ajuda seja eficaz. (ROGERS, 1977, p.53). 
Por outro lado, a “incongruência”, nos dizeres de Rogers (in EVANS, 
1979), ocorre quando a experiência do indivíduo é muito discrepante do modo 
como ele se organizou, quando há discrepância entre a imagem que tem de si 
mesmo e aquilo que está de fato vivendo. 
5.3 Tornar-se pessoa: Como ajudar os outros 
Ao se indaga como ajudar os outros, Rogers conclui que as abordagens 
intelectuais não tem em si os elementos que tragam êxito a esse propósito. E 
conclui: “O fracasso de quaisquer destas abordagens através do intelecto me 
forçou a reconhecer que a mudança parece surgir por meio da experiência em 
uma relação”. Passa, então, a oferecer três hipóteses para uma relação de ajuda. 
Diz: “Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra pessoa 
descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para crescer, e 
mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão. 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 82 
 
1 Relação: primeira tese 
“Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? 
 Descobri que quanto mais conseguir ser genuíno na relação, mais útil esta 
será. Isso significa que devo estar consciente de meus próprios sentimentos, 
o mais que puder, ao invés de apresentar uma fachada externa de uma 
atitude, ao mesmo tempo em que mantenho uma outra atitude em um nível 
mais profundo ou inconsciente. Ser genuíno também envolve a disposição 
para ser e expressar, em minhas palavras e em meu comportamento, os 
vários sentimentos e atitudes que existem em mim. 
 Como uma segundacondição, acho que quanto mais aceitação e apreço sinto 
com relação a esse indivíduo, mais estarei criando uma relação que ele 
poderá utilizar. Por aceitação, quero dizer uma consideração afetuosa por ele 
enquanto uma pessoa de autovalia incondicional — de valor, independente 
de sua condição, de seu comportamento ou de seus sentimentos... 
 Também acho que a relação é significativa na medida em que sinto um desejo 
contínuo de compreender — uma empatia sensível com cada um dos 
sentimentos e comunicações do cliente como estes lhe parecem no momento. 
Aceitação não significa muito até que esta envolva a compreensão. É somente 
à medida que compreendo os sentimentos e pensamentos que parecem tão 
terríveis para você, ou tão fracos, ou tão sentimentais, ou tão bizarros — é 
somente quando eu os vejo como você os vê, e os aceito como a você, que 
você se sente realmente livre para explorar todos os cantos recônditos e 
fendas assustadoras de sua experiência interior e frequentemente enterrada. 
 Essa liberdade constitui uma condição importante da relação. Aqui está 
implicada uma liberdade para explorar a si próprio tanto em níveis 
conscientes quanto inconscientes, o mais rápido que se puder embarcar nessa 
busca perigosa. Há também uma liberdade completa de qualquer tipo de 
avaliação moral ou diagnóstica, já que todas estas avaliações são, a meu ver, 
sempre ameaçadoras. 
 Dessa forma, a relação que considerei útil é caracterizada por um tipo de 
transparência de minha parte, onde meus sentimentos reais se mostram 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 83 
 
evidentes; por uma aceitação desta outra pessoa como uma pessoa separada 
com valor por seu próprio mérito; e por uma compreensão empática 
profunda que me possibilita ver seu mundo particular através de seus olhos. 
Quando essas condições são alcançadas, torno-me uma companhia para o 
meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde 
ele agora se sente livre para ingressar. 
2 A motivação para a mudança: segunda tese 
“... A segunda frase em minha hipótese geral era que o indivíduo 
descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar essa relação para crescer. Tentarei 
apontar algo do significado que esta frase encerra para mim. Gradualmente, 
minha experiência me fez concluir que o indivíduo traz dentro de si a capacidade 
e a tendência, latente se não evidente, para caminhar rumo à maturidade. Em um 
clima psicológico adequado, essa tendência é liberada, tornando-se real ao invés 
de potencial. Isto se mostra evidente na capacidade do indivíduo para 
compreender aqueles aspectos da vida e de si mesmo que lhe estão causando dor 
e insatisfação, uma compreensão que investiga, por detrás do conhecimento 
consciente de si mesmo, aquelas experiências que escondeu de si devido à sua 
natureza ameaçadora. Isso se revela na tendência para reorganizar sua 
personalidade e sua relação com a vida em maneiras que são tidas como mais 
maduras. Seja chamando a isto uma tendência ao crescimento, uma propensão 
rumo à auto realização ou uma tendência direcionada para frente, esta constitui 
a mola principal da vida, e é, em última análise, a tendência de que toda 
psicoterapia depende. E a necessidade que se faz evidente em toda a vida 
orgânica e humana — de expandir, estender, tornar-se autônoma, desenvolver, 
amadurecer — a tendência de expressar e ativar todas as capacidades do 
organismo, ao ponto em que tal ativação aprimore o organismo ou a pessoa. Essa 
tendência pode se tornar profundamente oculta sob camadas de defesas 
psicológicas incrustadas que se sobrepõem; pode estar escondida atrás de 
fachadas elaboradas que negam sua existência; porém sustenho que ela existe em 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 84 
 
cada indivíduo, e aguarda somente pelas condições apropriadas para ser liberada 
e expressa. 
3 Resultados: terceira tese 
A terceira frase de minha afirmação geral era que a mudança e o 
desenvolvimento pessoal ocorreriam. Minha hipótese é que nessa relação o 
indivíduo se organizará tanto no nível consciente quanto naqueles mais 
profundos de sua personalidade de maneira a enfrentar sua vida de uma forma 
mais construtiva, mais inteligente, assim como mais socializada e satisfatória. 
Aqui posso deixar a especulação e incluir o corpo cada vez maior de 
dados consistentes de pesquisa que se vêm acumulando. Sabemos agora que os 
indivíduos que experienciam essa relação mesmo por um número relativamente 
limitado de horas apresentam profundas e significativas mudanças em 
personalidade, atitudes e comportamento, mudanças que não ocorrem em 
grupos de controle combinados. Nesse relacionamento, o indivíduo se torna mais 
integrado, mais efetivo. Exibe menos daquelas características que são 
normalmente intituladas neuróticas ou psicóticas, e mais daquelas características 
da pessoa sadia e em bom funcionamento. Ele muda a percepção que tem de si 
mesmo, tornando-se mais realista em suas visões do eu. Torna-se mais 
semelhante à pessoa que deseja ser. Ele se valoriza mais. Mostra-se mais 
autoconfiante e autodirigido. Apresenta uma melhor compreensão de si mesmo, 
tornando-se mais aberto à sua experiência, negando ou reprimindo menos a 
mesma. Torna-se mais aceitador em suas atitudes com relação aos outros, vendo-
os como mais semelhantes a si mesmo. Em seu comportamento exibe mudanças 
similares. Mostra-se menos frustrado pelo estresse, recuperando-se do mesmo 
mais rapidamente. Torna-se mais maduro em seu comportamento cotidiano, 
sendo isto observado pelos amigos. É menos defensivo, mais adaptativo, mais 
apto a enfrentar situações de forma criativa”. 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 85 
 
5. 4 Tornar-se pessoa: Como poderei criar uma relação de ajuda? 
Diz Rogers: “Creio que todos aqueles dentre nós que trabalham no 
domínio das relações humanas enfrentam um problema semelhante quando se 
trata de saber como aplicar os conhecimentos que a investigação nos trouxe”. 
Apresenta, então, dez características de uma relação de ajuda. 
1 Poderei conseguir ser de uma maneira que possa ser apreendida pela outra 
pessoa como merecedora de confiança, como segura ou consistente no sentido 
mais profundo do termo? ... Parecia-me que se eu preenchesse todas as condições 
exteriores que inspirassem confiança — a pontualidade nas entrevistas, o 
respeito pela natureza confidencial das entrevistas, etc. — e se eu agisse da 
mesma maneira durante as entrevistas, essas condições estariam cumpridas. A 
experiência, porém, ensinou-me que, por exemplo, o fato de me comportar com 
uma atitude permanente de aceitação, se na realidade me sentir irritado, cético 
ou com qualquer outro sentimento de não-aceitação, acabaria por fazer com que 
fosse considerado inconsistente ou não merecedor de confiança. Comecei a 
reconhecer que ser digno de confiança não implica ser coerente de uma forma 
rígida, mas sim que se possa confiar em mim como realmente sou. Empreguei o 
termo “congruente” para descrever o modo como gostaria de ser. Com este termo 
pretendo dizer que qualquer atitude ou sentimento que estivesse vivenciando’ 
viria acompanhado da consciência dessa atitude. Quando isso é verdade, sou, 
naquele momento, uma pessoa unificada e inteirada e é então que posso ser o 
que sou no mais íntimo de mim mesmo. Esta é uma realidade que, por 
experiência, proporciona aos outros, confiança. 
2 A segunda questão relaciona-se de muito perto com a primeira: poderei ser 
suficientemente expressivo enquanto pessoa para que o que sou possa ser 
comunicado sem ambiguidades? ... Quando estou vivenciando uma atitude de 
irritação para com outra pessoa e não tomo consciência dela, a minha 
comunicação passa a encerrar mensagens contraditórias... 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 86 
 
3 A terceira questão é: serei capaz de vivenciaratitudes positivas para com o 
outro — atitudes de calor, de atenção, de afeição, de interesse, de respeito? Isto 
não é fácil. Reconheço em mim mesmo e descubro nos outros muitas vezes um 
certo receio em relação a esses sentimentos. 
4 Há uma outra questão cuja importância pude perceber ao longo da minha 
experiência: poderei ser suficientemente forte como pessoa para ser 
independente do outro? Serei capaz de respeitar corajosamente meus próprios 
sentimentos, minhas próprias necessidades, assim como as da outra pessoa? 
Poderei possuir e, se for necessário, exprimir os meus próprios sentimentos como 
alguma coisa que propriamente me pertence e que é independente dos 
sentimentos do outro? Serei bastante forte na minha independência para não ficar 
deprimido com sua depressão, assustado com seu medo ou envolvido por sua 
dependência? O meu eu interior será suficientemente forte para sentir que eu não 
sou nem destruído por sua cólera, nem absorvido por sua necessidade de 
dependência, nem escravizado por seu amor, mas que existo independentemente 
dele ... 
5 A questão seguinte está estreitamente ligada à anterior. Estarei suficientemente 
seguro no interior de mim mesmo para permitir ao outro ser independente? Serei 
capaz de lhe permitir ser o que é — sincero ou hipócrita, infantil ou adulto, 
desesperado ou presunçoso? Poderei dar-lhe a liberdade de ser? Ou sinto que ele 
deveria seguir meus conselhos, ou permanecer um pouco dependente de mim, 
ou ainda tomar-me como modelo? ... 
6 poderei permitir-me entrar completamente no mundo dos sentimentos do 
outro e das suas concepções pessoais e vê-los como ele os vê? Poderei entrar no 
seu universo interior tão plenamente que perca todo desejo de avaliá-lo ou julgá-
lo? Poderei entrar com suficiente delicadeza para me movimentar livremente, 
sem esmagar significações que lhe são preciosas? Poderei compreender esse 
universo tão precisamente que apreenda, não apenas as significações da sua 
experiência que são evidentes para ele, mas também as que são só implícitas e 
que ele não vê senão obscura e confusamente? 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 87 
 
7. ... outra questão é saber se posso aceitar todas as facetas que a outra pessoa me 
apresenta. Poderei aceitá-la como ela é? Poderei comunicar-lhe essa atitude? Ou 
poderei apenas colhê-la condicionalmente. Aceitando alguns aspectos da sua 
maneira de sentir e desaprovando outros, silenciosa ou abertamente? ... 
8. Um aspecto bastante prático surge da questão precedente: serei capaz de agir 
com suficiente sensibilidade na relação para que meu comportamento não seja 
percebido como uma ameaça? 
9. ... poderei libertá-lo do receio de ser julgado pelos outros? Na maior parte das 
fases da nossa vida — em casa, na escola, no trabalho achamo-nos dependentes 
das recompensas e dos castigos que são os juízos dos outros... Desse modo, 
cheguei à conclusão de que quanto mais conseguir manter uma relação livre de 
qualquer juízo de valor, mais isso permitirá à outra pessoa atingir um ponto em 
que ela própria reconhecerá que o lugar do julgamento, o centro da 
responsabilidade, reside dentro de si mesma. 
10 Uma última questão: serei capaz de ver esse outro indivíduo como uma pessoa 
em processo tornar-se ela mesma, ou estarei prisioneiro do meu passado e do seu 
passado? Se, no meu encontro com ele, o trato como uma criança imatura, como 
um aluno ignorante, como uma personalidade neurótica ou um psicopata, cada 
um desses conceitos limita o que ele poderia ser na nossa relação. Martin Buber, 
o filósofo existencialista da Universidade de Jerusalém, emprega a expressão 
“confirmar o outro”, expressão que teve para mim um grande significado. Disse 
ele: “Confirmar significa (...) aceitar todas as potencialidades do outro (...) Eu 
posso reconhecer nele, conhecer nele a pessoa que ele foi (...) criado para se tornar 
(...) Confirmo-o em mim mesmo e nele em seguida, em relação a essas 
potencialidades (...) que agora podem se desenvolver e evoluir”. 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 88 
 
EXERCITANDO A REFLEXÃO - CARL ROGERS 
1. Explique a “congruência e incongruência” no pensamento rogeriano. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
2. O que Rogers defende como tendência auto-atualizante? 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
3. Rogers indaga: “Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? 
No aspecto “relação” indique 3 respostas dadas pelo autor extraídas da sua 
própria experiência. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
4. Distinga, segundo o pensamento rogeriano, o “eu” do “eu ideal”. 
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________ 
5. Faça uma síntese de 5 condições que podem criar um ambiente adequado para 
uma “relação de ajuda”. 
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CONCLUSÃO - EXISTENCIALISMO COMO FUNDAMENTAÇÃO 
FILOSÓFICA DA GESTALT-TERAPIA 
 
Ao se questionar sobre as bases filosóficas da Gestalt-terapia deve-se 
ter em mente tratar se de um projeto aberto, em fase de desenvolvimento. 
Uma vez que se toma o curso da gestalt-terapia como parte do 
movimento da "psicologia humanística" (Bühler/ Allen 1974) que abrange 
diferentes conceitos teóricos e práticos, os limites entre ela e estes são fluidos. 
Por isso só podemos esboçar a base filosófica comum, considerando que as mais 
diversas correntes estão contidas no desenvolvimento. 
A gestalt-terapia bem como a psicologia humanística são deci- 
sivamente influenciadas pelo existencialismo, especialmente pelos exis- 
tencialistas franceses (Camus, Sartre, Mareei, Merleau-Ponty). 
Os conceitos gestálticos centrais, como por exemplo, concentração 
sobre o ser concreto, concentração sobre a existência individual em relação a 
outros, auto-responsabilidade, possibilidades de escolha significativa etc., são 
também base dos existencialistas franceses. Eis, brevemente, os sete princípios 
básicos dos existencialistas como Storig (1974, vol. 2, p. 293) os resumiu: 
(1) Por existência os existencialistas entendem a existência do ser humano. 
O ser humano é o centro, portanto, essa filosofia é "humanística". Este ponto 
de partida a "psicologia humanística" e a gestalt-terapia têm em comum 
(o ser humano no centro). 
(2) "Existência é sempre existência individual". Nesse sentido a filosofia 
existencialista é subjetiva. A ênfase na existência individual concreta, na 
experiência individual é um princípio gestáltico. No caso de Fritz Perls já 
se pode falar de individualismo, como em nossa opinião também se torna 
evidente na "prece da gestalt". 
(3) O ser humano não pode ser medido em categorias materiais. Ele é sua 
própria medida.Não possui, como por exemplo os objetos, características 
definidas, ele é que se faz. Aqui se torna evidente o princípio da auto- 
responsabilidade e .da possibilidade da própria pessoa dar forma à sua 
existência. Uma clara limitação em relação aos conceitos biológicos 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 90 
 
behavioristas. 
(4) Quanto ao método, os existencialistas são fenomenólogos. 
Diferentemente de Husserl, entretanto, eles não estão tão preocupados em 
encontrar "substâncias" pessoais e é a existência concreta que está em 
primeiro plano em suas observações. Conceitos como o estar 
consciente, o aqui-e-agora, a ênfase no "como" ao invés do "por que", 
têm uma indiscutível importância. _ 
(5) "A filosofia existencialista é dinâmica". A existência é compreendida 
não como ser imutável e sim como ser no tempo. O princípio dinâmico é 
um outro marco para a abordagem de gestalt. 
(6) A existência humana é sempre um "ser(estar)-no-mundo" e é sempre 
um "ser (estar)-com-os-outros": nesse sentido, a psicologia existencialista não 
é individualista. Essa afirmação não representa de modo algum 
contradição ao segundo fundamento, pois os existencialistas tomam a 
existência humana como unidade com dois pólos: "'existência humana 
como existência individual" e "existência humana como "ser-( estar) -no- 
mundo-com-os-outros". Nesta altura depara-se com um problema específico 
da gestalt -terapia. O perigo do individualismo está, em nossa opinião, muito 
próximo na abordagem de Perls, especialmente no seu trabalho prático. 
Assim, em Perls, a ênfase no "estar-com-os-outros" é prejudicada. 
( 7) O pensamento da psicologia (sic) existencialista reveste-se de um cunho 
muito pessoal e determinado pela vivência. O que é também característica 
da psicologia humanística. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Humanista Existencial – Prof. Me. J.A.S. Cavalcante - 91 
 
REFERÊNCIAS 
KIERKEGAARD, Sören Abbye. Temor e Tremor. 3. ed. São Paulo: Abril Editora. 
MASLOW, Abraham Harold. Introdução à Psicologia do Ser. 2.ed. Rio de 
Janeiro: Eldorado, 1968. Tradução Álvaro Cabral. 
_________________________. Motivación y Personalidad. Madrid: Díaz de 
Santos, 1991. 
ROGERS, Carl Ransom et al. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente 
àAbordagem Centrada na Pessoa. São Paulo: Summus, 1983. 
________________________. Liberdade para Aprender: uma visão de como a 
educação deve vir a ser. 3.ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1975. Tradução Edgar 
de Godoi da Mata Machado e Márcio Paulo de Andrade 
_________________________. Um Jeito de Ser. São Paulo: EPU, 1983. 
TraduçãoAfonso Henrique L. da Fonseca. 
ROGERS, Carl Ransom; KINGET, G. Marian. Psicoterapia e Relações Humanas: 
teoria e prática da terapia não-diretiva. Tradução Maria Luísa Bizzotto.2. ed., 
vol.1, Belo Horizonte: Interlivros, 1977. 
ROGERS, Carl Ransom. Tornar-se pessoa. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1977. 
Tradução Manuel José do Carmo Ferreira. 
SARTRE, J. P. Sartre. O existencialismo é um humanismo. 3. ed. São Paulo: Abril 
Editora. 
SCHULTZ, Duane P; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da Psicologia Moderna. 
10.ed., rev. e ampl. São Paulo: Cultrix, 1998. Tradução Álvaro Cabral. 
SCHULTZ, P. D. Teorias da Personalidade. São Paulo: Pioneira Thomson, 2004. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Anexo 1 - FICHAMENTO 1 
CAVALCANTE, J.A.S. Existencialismo e Kierkegaard 
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CAVALCANTE, J.A.S. 
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Anexo 2 - FICHAMENTO 2 
CAVALCANTE, J.A.S. Friedrich Nietzsche 
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CAVALCANTE, J.A.S 
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Anexo 3 - FICHAMENTO 3 
CAVALCANTE, J.A.S. Jean Paul Sartre 
p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAVALCANTE, J.A.S. 
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CAVALCANTE, J.A.S. Jean Paul Sartre 
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CAVALCANTE, J.A.S. 
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Anexo 4 - FICHAMENTO 4 
CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia 
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CAVALCANTE, J.A.S. 
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CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia. 
p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAVALCANTE, J.A.S. Fenomenologia. 
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Anexo 5 - FICHAMENTO 5 
CAVALCANTE, J.A.S. Abraham Maslow e Carl Rogers 
p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CAVALCANTE, J.A.S. Abraham Maslow e Carl Rogers 
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CAVALCANTE, J.A.S 
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