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pouco como a noção de eletricidade: todos sabemos usá-la e até falamos 
sobre isso, mas nunca temos certeza do que se trata exatamente. 
 
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O ponto de interseção de a e b é o mesmo ponto de interseção de b e c. Temos o mesmo 
ponto com nomes distintos: ponto de interseção de a e b e ponto de interseção de b e c. 
Portanto, esses nomes são modos de apresentação de uma mesma referência, ou seja, sentidos 
distintos para nos levar a uma mesma referência no mundo, e isso nos traz alguma 
informação sobre o mundo. O mesmo podemos dizer das expressões a estrela da manhã e a 
estrela da tarde; essas expressões têm a mesma referência no mundo, mas possuem sentidos 
diferentes. 
 Retomemos, agora, o quadro em (2), incluindo a classificação de sentido proposta por 
Frege: 
 
(19) Classificação de Frege para Sentido e Referência (quadro adaptado de Chierchia 
e McConnell Ginet, 1990: 58) 
_______________________________________________________________ 
 
 Expressão Referência Sentido 
 ________________________________________________________________ 
 
 Categoria SNs referenciais objetos conceitos individuais 
 
 Exemplo: a estrela da manhã Vênus o conceito da estrela que 
 é a última a desaparecer 
 na manhã 
 __________________________________________________________________ 
 
 Categoria SVs classe de conceitos 
 objetos 
 
 Exemplo: é italiano os italianos o conceito de ser 
 italiano 
 __________________________________________________________________ 
 
 Categoria Ss verdadeiro proposições 
 ou falso 
 
 Exemplo: “Pavarotti é italiano.” verdadeiro a proposição de que 
 Pavarotti é italiano 
 __________________________________________________________________ 
 
Alinhar as colunas do quadro 
 
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 Reiterando, a noção de sentido de Frege não pode ser pensada como uma entidade 
psicológica ou mental. Por exemplo, o sentido da sentença Pavarotti é italiano não é aquilo 
que cada um entende quando a ouve, mas é aquilo que nos permite comunicar com o outro e, 
como tal, tem que ser objetivo. Portanto, a noção de sentido de Frege deve ser entendida 
como o conteúdo informacional que captamos ao entender uma sentença. A esse conteúdo, 
chamaremos de “proposição”, em outras palavras, a proposição é o sentido da sentença. 
 Vale, aqui, abrir parênteses para se esclarecer um pouco mais a noção de proposição. 
Proposição é usada como sendo uma abstração que pode ser captada pela mente de uma 
pessoa. Nesse sentido, uma proposição é um objeto do pensamento. O que não devemos é 
equacionar pensamento à proposição, porque pensamentos são geralmente associados a 
processos mentais particulares, pessoais, enquanto proposições são públicas, no sentido de 
que a mesma proposição é acessível a diferentes pessoas. Ainda mais, uma proposição não é 
um processo, enquanto o pensamento pode ser visto como um processo ocorrendo na mente 
individual de cada um. Assumo, pois, que processos mentais são pensamentos, que entidades 
semânticas abstratas são proposições, que entidades linguísticas são sentenças e que 
proferimentos são ações. Podemos pensar em um tipo de relação em que uma simples 
proposição pode ser expressa por várias sentenças e cada uma dessas sentenças pode ser 
proferida um número infinito de vezes. 
 Retomando a noção de sentido, podemos naturalmente conceber essa distinção de 
Frege, sem assumir essa visão radical de que o sentido está fora da mente. Por exemplo, 
pode-se transferir a ideia do sentido para a caracterização das estruturas comuns que a nossa 
representação mental deve ter, visto que a nossa comunicação é tão bem sucedida. Como 
propõem, por exemplo, os mentalistas. Além de termos uma parte subjetiva em nossa mente, 
também temos estruturas mentais sistematizadas, onde podemos alocar a noção do sentido. 
Fica claro perceber que não só a definição de sentido, mas também a sua natureza não é uma 
questão facilmente solucionável. Entretanto, como observa Chierchia & McConnell-Ginet 
(1990), felizmente é possível continuar a investigação semântica, usando a distinção 
sentido/referência, ainda que não se tenha uma completa compreensão a respeito da natureza 
do sentido. Outra maneira de tornar essa questão mais clara é dando argumentos sobre a 
 
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utilidade de se distinguir sentido na explicação do que seja o significado. Esse é o raciocínio 
de Frege que será exposto a seguir
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. 
 
 
2.1 Argumentos de Frege Favoráveis à Utilização do Sentido no Significado 
 
 Além dos problemas considerados por Kempson (1977) contra a utilização exclusiva 
de uma teoria de referência para a explicação do significado, podemos ainda considerar dois 
outros argumentos, mostrados por Frege, a favor da utilização do sentido na composição do 
significado. Consideremos os exemplos: 
 
 (20) a. A estrela da manhã é a estrela da manhã. 
 b. A estrela da manhã é a estrela da tarde. 
 
 Primeiramente, façamos uma análise das expressões em (20), utilizando somente a 
ideia de que significado é a relação de referência. A sentença (20a) terá x como um valor para 
a expressão referencial a estrela da manhã, que é a mesma para o sujeito e para o 
complemento da sentença; então, teremos x = x, pois o verbo ser, nesse contexto, tem a 
função de equivaler as duas expressões. Em (20b), como as duas expressões estrela da 
manhã e estrela da tarde têm a mesma referência no mundo, o planeta Vênus, associamos às 
duas expressões um mesmo valor x, e teremos x = x. Concluindo, não teremos diferença de 
significado para as duas sentenças em (20), pois teremos a equação x = x para ambas. 
Entretanto, qualquer falante do português sabe afirmar, com certeza, que as duas sentenças 
acima são diferentes em relação à sua significação. A sentença (20b) passa uma informação 
sobre o mundo, enquanto a (20a) não traz nenhuma informação nova a respeito do mundo, 
apesar de ser uma sentença boa gramaticalmente. Diz-se que a sentença (20a) é uma sentença 
analítica ou tautológica, pois é uma verdade óbvia, já que afirma que um objeto é idêntico a si 
 
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 Ideias similares a essa de Frege foram exploradas por outros pesquisadores de linhas independentes. Por 
exemplo, Saussure (1916) faz a distinção entre significação (signification) e significado (signifié), que parece 
ser a concepção similar à distinção de Frege entre referência e sentido. Carnap (1947), a partir dos trabalhos 
de Frege, substitui a noção de referente por extensão e sentido por intensão, que são noções menos vagas, 
definíveis formalmente. 
 
 
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mesmo, o que é sempre verdade; nem precisamos ir ao mundo para constatar a sua verdade. 
Nesse tipo de sentença, a verdade é exclusivamente um fato linguístico. Já a sentença (20b) é 
a chamada sentença sintética, pois seu valor de verdade depende do que sabemos sobre o 
mundo. É fácil constatar que pode existir alguém que não saiba se a sentença em (20b) é falsa 
ou verdadeira, dependendo do seu conhecimento sobre estrelas e planetas. Entretanto, a 
sentença em (20a) será aceita como verdadeira por qualquer falante do português, 
independentemente do seu conhecimento sobre estrelas e planetas. Portanto,

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