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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA unidade I unidade II unidade III NEUROPSICOPEDAGOGIA: ESTRUTURA NEUROLÓGICA E APRENDIZAGEM Prof. Me. Weslei Jacob o cérebro e a aprendizagem aprendizagem: dimensão interna do desenvolvimento humano neurológico cérebro: o poder de se reprogramar e formar memórias O CÉREBRO E A APRENDIZAGEM DESENVOLVIMENTO DA MENTE E DO COMPORTAMENTO FORMAÇÃO DE MEMÓRIAS Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualida- de, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsa- bilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar – assume o compromisso de democra- tizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promo- ver a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cida- dãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com as demandas Reitor Wilson de Matos Silva palavra do reitor Direção UniceSUMar reitor Wilson de Matos Silva, Vice-reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-reitor de administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró-reitor de eaD Willian Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. neaD - núcleo De eDUcação a DiStância Direção de operações Chrystiano Mincoff, coordenação de Sistemas Fabrício Ricardo Lazilha, coordenação de Polos Reginaldo Carneiro, coordenação de Pós-Graduação, extensão e Produção de Materiais Renato Dutra, coordenação de Graduação Kátia Coelho, coordenação administrativa/Serviços compartilhados Evandro Bolsoni, Gerência de inteligência de Mercado/Digital Bruno Jorge, Gerência de Marketing Harrisson Brait, Supervisão do núcleo de Produção de Materiais Nalva Aparecida da Rosa Moura, Design educacional Nalva Moura, Diagramação José Jhonny Coelho, revisão textual Yasminn Zagonel, Fotos Shutterstock. neaD - núcleo de educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná | unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desen- volvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento aca- dêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja ser reconhecido como uma instituição univer- sitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de com- petências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão univer- sitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e adminis- trativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a edu- cação continuada. C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem. Weslei Jacob. Publicação revista e atualizada, Maringá - PR, 2014. 100 p. “Pós-graduação Núcleo Comum - EaD”. 1. Neuropsicopedagogia. 2. Neurológica. . 3. EaD. I. Título. CDD-22 ed. 370 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a UNICESUMAR tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, de- mocratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da edu- cação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informa- ção e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a co- nhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas fer- ramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da UNICesumar se propõe a fazer. Pró-Reitor de EaD Willian Victor Kendrick de Matos Silva boas-vindas sobre pós-graduação a importância da pós-graduação O Brasil está passando por grandes transformações, em especial nas últimas décadas, motivadas pela estabilização e crescimento da economia, tendo como consequência o aumento da sua impor- tância e popularidade no cenário global. Esta importância tem se refletido em crescentes investimentos internacionais e nacionais nas empresas e na infraestrutura do país, fato que só não é maior devido a uma grande carência de mão de obra especializada. Nesse sentindo, as exigências do mercado de trabalho são cada vez maiores. A graduação, que no passado era um diferenciador da mão de obra, não é mais suficiente para garantir sua emprega- bilidade. É preciso o constante aperfeiçoamento e a continuidade dos estudos para quem quer crescer profissionalmente. A pós-graduação Lato Sensu a distância da UNICESUMAR conta hoje com 21 cursos de especialização e MBA nas áreas de Gestão, Educação e Meio Ambiente. Estes cursos foram planejados pensando em você, aliando conteúdo teórico e aplicação prática, trazendo informações atualizadas e alinhadas com as necessida- des deste novo Brasil. Escolhendo um curso de pós-graduação lato sensu na UNICESUMAR, você terá a oportunidade de conhecer um conjun- to de disciplinas e conteúdos mais específicos da área escolhida, fortalecendo seu arcabouço teórico, oportunizando sua aplicação no dia a dia e, desta forma, ajudando sua transformação pessoal e profissional. Professor Dr. Renato Dutra Coordenador de Pós-Graduação , Extensão e Produção de Materiais NEAD - UNICESUMAR “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” Missão apresentação do material Prezado(a) acadêmico(a), é com enorme sa- tisfação que apresento a você nosso material de estudo, para que sirva de apoio peda- gógico para o componente curricular de Neuropsicopedagogia: Estrutura Neurológica e Aprendizagem, referente ao curso de pós- graduação em Psicopedagogia Institucional, oferecido pela Unicesumar. Permita-meuma breve apresentação. Sou graduado em Educação Física pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, mestre em Atividade Motora e Educação pela Universidade de Barcelona - Espanha e Doutorando em Atividade Física, Educação Física e Esporte, com a linha de pesquisa: Treinamento Esportivo, pela Universidade de Barcelona-Espanha. Atualmente, sou Professor na União de Faculdades Metropolitanas de Maringá - FAMMA, Professor convidado em módulos de Pós Graduação pelo Instituto Dimensão e pela Troposphera Soluções Empresariais e Educacionais e Professor de capacitações voltadas à Educação Infantil. Professor Mestre Weslei Jacob O desafio aqui é levar a você de forma simples, conhecimentos relacionados ao cérebro da maneira mais usual possível, para que você tenha a possibilidade de desfrutar ao máximo as informações abordadas por expertos da área, sem que perca o interes- se por essa disciplina e, consequentemente, pela especialização em desenvolvimento. Buscaremos apresentar os conteúdos atuais de forma que você compreenda importância deles, sua aplicabilidade e possibilidade de intervenção dentro ou fora da escola, permi- tindo assim, que o docente tenha condições de aplicar os conteúdos diários de modo que os alunos tenham maior probabilidade de alcançar o objetivo inicialmente traçado, elu- cidando todos os aspectos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Comumente, situações adversas e com- plicadas surgem em nosso cotidiano de trabalho, fazendo com que professores, pedagogos, psicólogos e tantos outros pro- fissionais que contribuem para educação em nosso país fiquem de mãos atadas, sem com- preender ou, muitas vezes, encontrar uma saída para solucionar todos os problemas que emergem de uma realidade social bem maior que apenas a escola. Será proposto um conhecimento biológico, científico e com caráter social para que seja possível encon- trar novas estratégias as quais possibilitem que o cérebro reaja bem aos novos estímu- los proposto por você, consequentemente, alcançando a mudança acadêmica que tanto esperamos em nossos alunos. Ao longo das três unidades propostas neste livro, discutiremos as bases cerebrais que interferem de modo positivo ou nega- tivo na aprendizagem humana, uma vez que tudo que sabemos ou conhecemos está ar- mazenado dentro de sofisticadas estruturas plásticas dentro de nosso cérebro. Tais com- ponentes neurológicos permitem uma vasta comunicação e integração entre todo nosso encéfalo e organismo por meio de estímu- los neurais. Na unidade I, serão abordados diferentes aspectos sobre o cérebro e discutiremos de qual forma é maior a possibilidade de se apren- der. Diante das diferenças entre os indivíduos, faz-se necessário compreender minimamente que uma atividade bem elaborada e direcio- nada, quando pautada em e preocupada com a maneira que o cérebro aprende, apresenta uma possibilidade de êxito, dentro do proces- so pedagógico, muito maior. Assim, sugere-se um alicerce para o aprendizado, tentando elucidar as principais preocupações que se deve ter ao elaborar um planejamento, para se ensinar de forma mais propícia a se chegar ao sucesso docente e discente. Ao longo de toda a unidade II, serão dis- cutidos os aspectos cognitivos relacionados ao nosso intelecto, nossos pensamentos, e uma breve entrada à memória. Aqui será relacionada a maneira pela qual ocorre aprendizagem do ponto de vista das bases neurológicas e todas as dimensões internas que promovem o desenvolvimento. Nesse momento, serão explanados aspectos desen- volvimentistas, principalmente ao longo das duas primeiras décadas de vida e os quais se prolongam, de modo mais simplista, até a terceira idade, apontando e esclarecendo aspectos relacionados ao cérebro e sistema nervoso, desenvolvimento da mente e do comportamento. Nessa segunda etapa, será bastante discutida a integração entre am- biente interno do ser humano, relacionado ao cérebro e sua ligação com o ambiente externo, diante do meio em que estamos inseridos e como essas influências ambien- tais podem produzir respostas satisfatórias para difundir, modificar e variar a aquisição de novos conhecimentos. Por fim, na unidade III, serão abordados, brevemente, os estudos sobre a evolução cerebral até os dias atuais, a capacidade de organização ou reorganização do cérebro, conseguida por um evento denominado neuroplasticidade. A explanação sobre a for- mação de memórias fecha nossa discussão, abordando suas fragmentações e como elas interagem entre si para realizar associações referentes aos conhecimentos repassados ou experimentados. Aqui, também, é direciona- do um pequeno fragmento de informações referentes à aquisição dos conhecimentos coordenativos relacionados à aprendizagem motora por meio de feedbacks. Esperamos que não se torne aqui um experto em Bases Neurológicas e Aprendizagem, mas que a utilização desse material, permita-lhe, de forma autônoma, alcançar o êxito em sua intervenção profis- sional. Espero que você desfrute e obtenha sucesso nessa longa caminhada em busca de novos e palpáveis conhecimentos. su m ár io 01 14 cérebro e aprendizagem 25 alicerce para o aprendizado 30 potenciais de membrana e ação 39 considerações finais O cérebrO e a aprendizagem 02 03 46 neurociência cognitiva 50 bases neurológicas e aprendizagem 53 dimensão interna do desenvolvimento 61 o cérebro e o sistema nervoso 66 desenvolvimento da mente e do comportamento 70 considerações finais 78 evolução do estudo do cérebro 81 neurônios em Rede 82 neuroplasticidade cerebral 86 formação de memórias 89 função e duração das memórias 90 feedback e aprendizagem 94 considerações finais aprendizagem: dimensãO interna dO desenvOlvimen- tO HumanO neurOlógicO cérebrO: O pOder de se reprOgramar e fOrmar memórias 1 O cérebrO e a aprendizagem Professor Mestre Weslei Jacob Plano de estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estu- dará nesta unidade: • O cérebro e a aprendizagem • Alicerce para o aprendizado • Potenciais de membrana e potenciais de açãoobjetivos de aprendizagem • Elucidar o processo de aprendizagem. • Conhecer os alicerces do aprendizado. • Conhecer o funcionamento do cérebro. Iniciamos, nesse momento, uma viagem pelo nosso cérebro, ou pelo menos buscaremos entender algumas situações que nele acontecem. Você já se perguntou como nos transformamos de um bebê frágil, indefeso, sem nenhum controle corporal ou in- telectual em um adulto, um médico, um engenheiro, professor e tantas outas profissões? O que você mais gosta de fazer? Prefere café ou achocolatado? Hoje, já é possível entender de qual forma o cérebro aprende, como ele se motiva e se modifica. É eviden- te que não precisamos ser neurocientistas para vivermos de uma forma satisfatória, sermos felizes ou aproveitarmos a vida, contudo, quanto mais conhecemos esse magnífico campo, mais compreen- demos os processos de amadurecimento e evolução da espécie humana. Quando falamos em cérebro, no contexto educacional, podemos sugeri-lo como sinônimo de aprendizagem, ou, pelo menos, um co- nhecimento adquirido que possibilitará desenvolvermos estratégias mais eficazes para o transcorrer do processo de ensino-aprendiza- gem. Para tanto, existem inúmeras estruturas especializadas que podem ser moldadas e remoldadas por nossa estimulação diária, por exemplo, os neurônios, dentro das suas características individu- ais podem aprender ou se adaptar a qualquersituação, desde que o mediador das atividades leve em consideração os caminhos para melhorar a atenção, a motivação e a prática, utilizando métodos diferentes e oportunizando a todos o acesso ao conhecimento. O aprendizado, o movimento motor, o controle dos olhos para ler, das mãos para escrever, estão não apenas armazenados em nosso cérebro, são dependentes das células nervosas que produzem energia dentro do nosso organismo, perfazendo, assim, a melhoria das nossas funções cognitivas e também motoras. A discussão nesse momento aponta a estreita relação do funcionamento físico-quí- mico cerebral e a estimulação para levar um aluno ao aprendizado. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 14 Atualmente, existe uma nova ciência, a qual abarca todas as demais linhas de estudo que envolvem o Sistema Nervoso. Tendo sua base dentro da biologia e comumente chamada de neurociência, essa ciência se for- taleceu na década de 90, conhecida como “a década do cérebro”, principalmente nos Estados Unidos (EUA), onde o governo de- cretou um período de estudo, investindo e contribuindo para a formação de laboratórios e, consequentemente, no desenvolvimento de pesquisas relacionadas com o funciona- mento do cérebro. Desse modo, falar nessa nova ciência é falar de bases neurológicas e aprendizagem, ou seja, de qual forma nosso cérebro aprende mesmo? Responda mental- mente. Isso mesmo, todos que disseram pela prática acertaram, porém, logo esclarecere- mos mais essa condição de aprendizagem. Aprendizagem nada mais é do que a mudança do cérebro pela experiência, é a maneira na qual ele se adapta e responde melhor, faz diferente na próxima vez. Na apren- dizagem, simplesmente é aprimorada uma determinada resposta cerebral a um problema. Ainda parece um pouco nebulosa essa informação, não é? Bem, façamos um teste: saia da sua casa, escritório ou qualquer lugar que esteja agora e vá até a avenida mais movimentada próxima de você. Ao chegar nesse local, vá até o meio da rua, deite-se no chão e espere um carro, caminhão ou ônibus passar... Esperou tempo suficiente? Alguns devem estar pasmos agora e dizendo que estou louco, estou errado? Bem, vamos tentar de novo, não precisa mais sair do local em que está, apenas vá até uma cozinha, acenda o fogão e espere por volta de três Cérebro e AprendizAgem Pós-Graduação | Unicesumar 15 minutos. Ao passar esse tempo, desligue a boca do fogão e coloque sua mão por sobre a “boca” desse eletrodoméstico, colocou? Já está feita a experiência? Novamente, muitos devem estar se perguntando, o que esse pro- fessor maluco está querendo? Simples, tenho absoluta certeza que hoje, com a maturida- de de cada um, as duas sugestões parecem absurdas, pois, na primeira, você poderia ser atropelado e até mesmo vir a óbito e, na segunda, você certamente iria se queimar. Estou certo? Pois bem meu(inha) amigo(a), isso é aprendizagem. Um dia você aprendeu que, para atravessar a rua, deve olhar para os dois lados e jamais, parar, sentar ou deitar em uma avenida, onde o risco é grande. Aprendeu também que, quando uma su- perfície está muito quente, você pode se queimar em níveis diferentes, mas qualquer tipo de queimadura agride muito nosso or- ganismo, sendo muito lesiva e gerando um desconforto muito grande. Assim, com essas duas experiências, exemplos, você já descobriu ou compre- endeu o que é aprendizagem. Em algum momento da sua vida você aprendeu o que essas situações supracitadas podem ocasio- nar. Resumindo, você aprendeu pela vivência, como experimentando, sentindo o que gera prazer ou dor, incômodo ou satisfação, nada mais nada menos do que seu cérebro res- pondendo a mesma situação diferentemente e quanto mais o tempo passa, quanto mais amadurecemos, mais se especializa essa fasci- nante estrutura que aprende a todo instante, do princípio da vida até a morte. Então como a neurociência pode ajudar na compreensão do aprendizado? Essa ciência pode nos ensinar muitas coisas atualmente, iniciando com o que é aprendizado, identifi- cando inúmeros fatores que podem interferir nesse processo, dentre outras possibilidades. Usar o cérebro muda o cérebro, a experiên- cia reorganiza algumas estruturas internas do nosso Sistema Nervoso Central, permitindo, assim, que o cérebro faça diferente. Em nosso corpo, acontecem inúme- ras “tempestades elétricas” (será explicada como elas ocorrem ainda nesse capítulo) que levam e trazem as diferentes informa- ções do nosso corpo, por exemplo, a dor devido a um beliscão, ou uma mordida, gera uma perturbação em receptores específi- cos para a dor localizados internamente, logo abaixo da nossa pele. Tais receptores são sensíveis somente para isso, não perce- bendo outras variações, como a de úmido, áspero ou gelado, para essas situações existem outros receptores. Pois bem, suponhamos que você, sem perceber, bateu o dedinho do seu pé na cadeira, e isso gerou uma dor bastante Uma criança superprotegida, que não tem a vivência de brincar, correr, pular e experimentar o mundo, aprenderá tanto ou tão bem como outra criança que passa por uma boa estimulação motora? Fonte: Autor. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 16 forte, que fez com que até desse pulinhos. De forma simplificada, os receptores de dor situados nos dedos de seu pé perceberão a situação e devem obrigatoriamente informar o cérebro. Como isso não é possível por tele- patia, a informação deve ir por uma estrada que é constituída por inúmeros neurônios que ligam os dois locais, os dedos dos pés e cérebro. Por essa estrada, passam potenciais de ação (eletricidade), fazendo com que as informações cheguem ao cérebro, conheci- das como informações aferentes, e depois de decodificadas, saiam do Sistema Nervoso como resposta, conhecidas como informa- ção eferente. O problema é que temos aproximada- mente 100 bilhões de neurônios em nosso corpo, os quais se comunicam entre si. Essa comunicação também acontece por meio de potenciais de ação, isso mesmo, por ele- tricidade. Antes que alguém me pergunte se é como um fio de energia que temos em nossa casa, que liga o interruptor da tomada à lâmpada presa ao teto, sim! É quase a mesma coisa, depois de um comando, a eletricidade é liberada, permitindo que a lâmpada acenda. A diferença é que dentro de nossa cabeça tudo é um pouco mais complexo e depende de muitas outras coisas. Se abrirmos nosso crânio e olharmos nosso encéfalo, nada, simplesmente nada irá acontecer; se colocarmos a mão por sobre nossa cabeça agora. Você também não tomará nenhum choque, nem sentirá nada, mas isso não quer dizer que nosso cérebro está desligado ou descansando, apenas não podemos ver. Para isso, foram criadas má- quinas que analisam a atividade cerebral, ou simplesmente a atividade elétrica em nossa cabeça. O problema é que temos diferentes tipos de neurônios, alguns mais finos e longos, outros menores e mais calibrosos, alguns re- vestidos com uma estrutura denominada bainha de mielina que faz com que o es- tímulo elétrico viaje por nosso corpo mais rapidamente, devido a uma condução de- nominada saltatória. Isso mesmo, o estímulo salta por partes desses neurônios, diminuin- do o trabalho e o tempo de transmissão da informação. Por essas estruturas que formam essa “estrada” serem diferentes, elas jamais se tocam, jamais encostam umas nas outras. Diante disso, pergunto: como faz para essa informação passar deum neurônio a outro? Como ele é levado à outra estrutura? Apenas lembrando que não vale condução saltató- ria, pois o estímulo não pode pular de um neurônio para outro. Claro que sempre pode ficar mais difícil... Vamos por partes, se essas estruturas não se tocam, teríamos em nossa “estrada” uma falha de construção, como uma ponte que passa sobre um rio que não foi constru- ída, certo? Então como eu chego até meu destino se não tem ponte, a estrada acaba? Para aqueles que disseram vai de barco, nadando, quase acertaram... A resposta é sinapse, isso mesmo, esse nome difícil, mas elegante. Já pensaram em nomear um filho assim? ...Brincadeira pessoal, mas, seguin- do com nossa ideia, sinapse é o nome do Pós-Graduação | Unicesumar 17 processo que leva a informação para o outro lado do rio, que transmite a informação de um neurônio para o outro. Como é mesmo que isso ocorre? Eletricidade, não é? Não! Agora, por mediadores químicos conhecidos como neurotransmissores (podem ser exci- tatórios ou inibitórios). Aí alguém já pensou, mas professor, eu tenho que decorar tudo isso? Eu respondo sim, você não precisa saber de todos os detalhes, mas tem de saber dife- renciar o que é potencial de ação e sinapse. Ambos estão intimamente ligados e, em consequência, ligados ao conhecimento ad- quirido pelo ser humano ao longo da vida. Vamos lá, quem nunca brincou de tele- fone sem fio na infância? Aquela brincadeira que cochichávamos no ouvido do colegui- nha e ele no do outro amiguinho, até chegar ao final de uma fila, de um círculo etc. O en- graçado é que nunca a informação chegava ao final perfeitamente, não é verdade?! Voltamos ao corpo humano, um potencial de ação é propagado por uma fibra nervosa (neurônio) e tem que levar a informação de jogar uma pedra no lado. Essa informação sai do sistema nervoso em direção aos braços, mãos e dedos do indivíduo, mas ao longo do caminho que a leva até o seu destino, o qual fará a pedra ser lançada, muitas vezes, essa in- formaçãoestará incompleta, quebrada, com um rio passando entre dois neurônios. Então, uma sinapse ocorrerá até o movimento ser executado (existem estruturas que contro- lam e corrigem o movimento para que ele seja executado perfeitamente). Mas o que tem a ver a brincadeirinha citada no início do parágrafo? Pense que os neurotransmis- sores que são liberados em uma sinapse são os “fofoqueiros”, são mediadores químicos que retransmitem a informa- ção que a eles chegam adiante. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 18 Um resumo de como ocorre a sinapse, de forma mais científica, poderia ser explicado assim: (1) Chega o potencial de ação; (2) Abertura dos canais vol- tagem-dependentes de cálcio; (3) Ativação das vesículas secretórias que contêm neuro- transmissores (exemplo. ACH - acetilcolina) em direção a membrana pré-sináptica; (4) Exocitose, liberação do neurotransmissor na fenda sináptica; (5) Neurotrasmissor se liga às proteínas situadas no botão pós-sináptico; (6) Enzima acetilcolinesterase atua sobre a ACH (se for esse neurotransmissor), quebrando-a em acetil e colina; (7) Abrem-se os canais de NA+; (8) Início de um novo potencial de ação; (9) Acetil e colina voltam para o botão pré-si- náptico para serem reaproveitadas; (10) Fim. Uma criança já nasce com muitas cone- xões sinápticas (conexão entre neurônios, atividade elétrica entre eles). Aos 12 meses de vida ela tem praticamente o dobro de sinap- ses que um cérebro adulto, com isso tem-se um maior gasto de energia. Acreditava-se que, com passar dos anos, iríamos aumentan- do cada vez mais o número dessas sinapses, no entanto, isso acontece basicamente nos primeiros anos de vida. Depois nosso cérebro se adapta, estabiliza e reorganiza essas si- napses, fazendo com que elas aconteçam de maneira direta e utilizando o menor caminho possível, economizando energia e trabalhando de maneira objetiva, ou seja, se as conexões servem para algum objetivo elas são fortalecidas, caso contrário elas são eliminadas. Esse é um processo natural no desenvolvimento humano. Diante dessa informação, podemos pressupor que um recém-nascido seja mais inteligente que um adulto, bem como sua capacidade de controlar o copo como um todo, desde o intelecto até o recurso motor mais com- plexo? E podemos afirmar, como muito se diz, que uma criança é um adulto em mi- niatura, estou certo? O que você acha? Para a primeira pergunta, aqueles que concorda- ram estão errados, pois façamos a seguinte analogia, quando você compra um copo, uma roupa, uma obra de arte ou até mesmo um carro, todos esses produtos para o seu gosto serão maravilhosos, lindos, bem aca- bados etc., mas eles sempre foram perfeitos assim? Boa parte de tudo o que consumimos passa por uma produção, onde a matéria-pri- ma bruta será lapidada até ficar exuberante como se deve, mesmo que para isso tenha de ser queimada, engraxada, banhada quimi- camente, destruída e remoldada. Pois bem, para uma criança, esse excesso de sinapses nada mais é do que matéria prima para o aprendizado, é a matéria bruta que deve ser lapidada, construída, moldada, e tudo isso só é conquistado pela experiência. Quem nunca escutou algumas histórias ou viven- ciou dentro da própria casa uma criança Por que um recém-nascido tudo que segura leva até a boca? Fonte: Elaborado pelo Autor. Pós-Graduação | Unicesumar 19 que estava em cima do sofá, olhando pela janela, ou mexendo na gaveta de facas, ou ainda quietinha, aprontando algo? Impossível nunca termos escutado ou visto essas situ- ações, mas porque crianças novinhas fazem isso mesmo? Responda essa indagação. Já chegou a resposta? Perfeito! Pela experiên- cia! Basicamente o que ela estava fazendo quando estava sobre o sofá, explorando o ambiente, nem que para isso ela tenha de se cortar na gaveta de facas, e não, não adianta falar que ela vai cair ou se cortar. Esse pequeno humano ainda não sabe pela sua própria vi- vência o que é a dor, a queda, o corte etc, ele tem de conhecer isso por conta própria. Então, se não quer que ele mexa na gaveta de facas, troque ela de lugar, se não quer que ele faça algo, esconda, pois certamente esse bebê irá, assim que possível, mexer, fuçar, co- nhecer e aprender pela experiência. Lembre-se, para a maioria, no início da vida, a boca é o lugar onde se conhece e se explora esse magnífico meio onde vivemos. Voltamos lá para o início do texto, você colocou a mão na chapa quente do fogão? Deitou na rua? Não, é claro que não, você sabe o que é cair, bater e se machucar, você sabe o que signi- fica e como dói o queimar do fogão, então se antecipa para que isso não aconteça. A criança deve e tem que aprender por conta própria, não estou aqui dizendo que tem que deixar ela se queimar ou cair de algum lugar muito alto, mas ela deve aprender também pela experiência, pela exploração do ambien- te. Não estamos aqui entrando em teorias Vygotskianas ou Piagetianas, apenas estou dizendo que a criança é curiosa por nature- za e buscará conhecer o mundo pelas suas próprias mãos ou pela própria boca. Quanto à segunda informação apontada lá atrás, uma criança é um adulto em minia- tura? Não! Uma criança é uma criança, bem diferente de um adulto, ela ainda está bus- cando, por tentativa e erro, a adaptação, o amadurecimento das conexões sinápticas, aprendendo um pouco sobre tudo que a cerca. Não se esqueça, você sabe que o fogão pode queimar e o que é queimar.A criança ainda tem de aprender isso, então nunca mais comparem uma criança com um adulto, no que se refere a esse aspecto, criança é uma criança. Em termos gerais e bastante abrangen- tes, toda essa tempestade elétrica que se tem na cabeça de uma criança é a matéria bruta que deve ser lapidada para se chegar ao conhecimento, ao aprendizado. É evidente que, para isso, podemos percorrer caminhos diferentes, errar, voltar e recomeçar até alcan- çarmos o êxito. Pense que essas conexões devem chegar a um objetivo final. Acredito que todos já tenham jogado ou praticado um labirinto, seja em uma folha de papel ou um labirinto dentro de um jardim ou parque de diversões. Muitas vezes, temos várias possi- bilidades de sair (objetivo) desse labirinto e sempre buscamos fazer isso de forma mais rápida. Isso não quer dizer que aquele in- divíduo que encontrou outro caminho, um pouco mais longo, não tenha aprendi- do. Sim, ele aprendeu, apenas encontrou outra forma de chegar ao aprendizado. À Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 20 medida que nosso cérebro, pela experiência, encontra uma resposta satisfatória a uma de- terminada situação ou problema. Por meio da ligação entre dois pontos, é identifica- do esse caminho sináptico como a principal via de acesso àquela informação requerida, passando assim a ser utilizada mais vezes, pouco a pouco, reforçando essa estrada de ligação para um significado ou objeti- vo específico. Em suma, quanto mais se usa o mesmo caminho, mais fácil será para en- contrar essa estrada em um momento futuro. Em nosso cérebro, isso sempre acontecerá, ou pelo menos deverá acontecer, na busca pelo caminho mais curto. Por esses motivos, é extremamente im- portante esse excesso de sinapses no início da vida, pois permite ao cérebro não só uma riqueza de conexões, mas sim uma riqueza de possibilidades que irão ser explora- das por uma criança em desenvolvimento. Evidentemente que o cérebro adulto pode tomar várias formas, dependendo do que se aprendeu, do que foi vivenciado na infância, ou seja, depende dessa remodelagem do cérebro que é ocasionada pelas experiên- cias de vida que cada um de nós passamos. Diante de tudo o que foi abordado até agora, você deve estar se perguntando: como faço para aumentar o número de sinapses, não é? Na verdade, você não quer muitas sinapses, mas sim as sinapses corretas, elas podem ser poucas, desde que façam sentido. Então, certamente, seu cérebro irá esculpir todo aquele emaranhado de conexões perdidas e sem lógica transformando-as em algo coerente, lógica e que tenha alguma finalidade real. Para isso, ocorrerá um enfraquecimento daquelas conexões que não fazem o menor sentido ou são pouco usuais e ocorrerá um fortalecimento daquelas que realmente servem para alguma coisa, para algum objetivo que seja importante para você, que, por exemplo, permita realizar um movimento certo, processar a informação de maneira significativa, encontrar uma respos- ta matemática eficaz, dentre outras tantas “esculturas” alcançadas pelo nosso cérebro. Diante do exposto até aqui, o ato de aprender trabalha simultaneamente em duas bases, fortalecer aquilo que é utiliza- do e enfraquecer ou até eliminar aquilo que não usamos. Caso ocorra alguma anomalia na forma- ção gênica do indivíduo, pode-se ocorrer um “congelamento” nessa readaptação ce- rebral, fazendo com que o cérebro desse indivíduo permaneça sempre em um estado infantil, com muitas possibilidades, mas sem nenhuma concretização das sinapses, sem nenhuma significação, o que, certamente, dificultará o aprendizado. Acredita-se que existe, nas crianças de modo geral, uma janela de aprendizado, um momento no qual devemos aproveitar ao máximo e ensinar o máximo possível a uma criança. Isso não quer dizer que devemos entupir uma criança de conteúdo ou afa- zeres, mas sim, embasar nossas práticas pedagógicas tanto dentro da escola, como professor, pedagogo, psicólogo, quanto simplesmente como pais, tias e irmãos, Pós-Graduação | Unicesumar 21 aproveitando esse momento no desenvol- vimento infantil que ocorre por volta dos 10 anos de idade, permitindo que uma criança, quando bem estimulada, aprenda mais facil- mente gramática, por exemplo. Daí surge à ideia de que quanto mais jovem, mais fácil se aprende um segundo idioma. Antes que você questione algo relacionado ao aprendi- zado de outra língua, pense comigo, alguém já viu o nascer de um bebê? O médico, a mãe ou alguém muda um botão na nuca da criança, para que ela aprenda o português, inglês, árabe, dentre tantos outros idiomas. Resumindo, podemos aprender qualquer tipo de gramática, fonética, escrita ou fala, tudo dependerá de qual lugar do mundo se irá nascer ou crescer. Talvez por esse motivo um adolescente que muda de país tenha mais dificuldade de aprender o novo idioma, devido à mudança de localidade ter ocorri- do após a primeira década de vida. Posto isso, é extremamente interessante a mudança no currículo escolar, a qual permita que o ensino de um segundo idioma ocorra ainda nas séries iniciais e não mais após os 11 anos, lá na fase final do ensino fundamen- tal, leva a perder, em partes, essa janela de aprendizagem. João, aluno do terceiro ano do ensino Fun- damental I com 8/9 anos. Ele é um aluno mediano, com aprendizado satisfatório para sua idade, comportamento normal, com relacionamento interpessoal bom com os colegas e professores, durante todo o ano de 2013 e início de 2014. A partir do fim do primeiro bimestre, o aluno começou a faltar, tornou-se agressivo, fechado para os ami- gos e perdeu o interesse para os estudos. A escola buscou a família para saber se estava acontecendo algo em casa e descobriu que o irmão mais velho é um usuário de drogas e contrabandista, e que a mãe é submissa a ele. Há desconfiança de que esse aluno também está usando drogas. Diante de tal situação, a professora tenta conquistar a confiança de João, para trazê -lo de volta à escola e proporcionar suporte emocional. Haverá uma tentativa de encami- nhá-lo a um psicólogo, a fim de solucionar ou amenizar o problema, uma vez que também cabe ao docente encontrar soluções inteli- gentes para proporcionar o melhor processo de ensino-aprendizagem possível. Fonte: Elaborado pelo Autor. O nome é fictício, mas o conteúdo do caso é real, com adaptações. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 22 Na adolescência, diferentemente do que se acreditava, ocorre uma nova fase de formação de muitas conexões sinápticas. Essa fase de exuberância sináptica proporciona ao adoles- cente um mundo de possibilidades que pode ser desenhado ou firmado em aprendizado. Agora, isso não quer dizer que perder essas janelas de aprendizagem, ou não ser influen- ciado a aprender outro idioma na primeira década de vida, torne impossível a aquisição desses conhecimentos na idade adulta. É pos- sível sim aprender tudo ou tão bem como uma criança, porém, fica claro, por nossa vivência e observação em nosso cotidiano, que com o avançar da idade algumas coisas ficam mais difíceis de serem adquiridas, armazenadas em nossa cabeça como novo conhecimento. Você já se deu conta de que nossos anciões, avós, pais, amigos ou qualquer pessoa que tenha uma idade mais avançada, em grande parte, têm uma dificuldade significativamente maior para compreender e aprender algo que gira em torno da tecnologia? Vamos lá, suponhamos que comprásse- mos um computador, lindo e novo.Quando tentássemos abrir um arquivo, página ou qualquer coisa, normalmente ele de modo rápido, dar-nos-ia as respostas que desejásse- mos por meio de um clique, correto? Agora, após dois anos de uso, esse computador já não é tão novo e, provavelmente, levará mais tempo para responder aos mesmos coman- dos. Comparar uma criança a um adulto ou a um ancião é a mesma coisa que fazer essa analogia com um computador ou até mesmo com um carro. Não quer dizer que é impossível se aprender depois de certa idade, mas com toda a certeza esse aprendizado demandará mais tempo. Talvez por isso torna-se compli- cado ensinar gramática, um segundo idioma ou a mexer em um computador, smartpho- ne, tablets etc. Dislexia em iDaDe De pré-alfabetização A criança com dislexia possui características que podem ser percebidas desde a Educação Infantil, tais como: atraso na linguagem, dificuldade de nomear objetos, cores etc., utilizar palavras incon- clusas (“tipo”, “coisa”...) ou alguns vícios de linguagem presentes na sociedade atual ou dependentes da localidade em que vive. Possui vocabulário pobre, dificuldade de aprender rimas, memorizar músicas ou não consegue expressar uma história dentro de uma sequência lógica. Existem ainda, as características motoras, como tropeçar com frequência, apresentar dificuldades para abotoar uma calça ou uma camisa, amarrar os cadarços em outras palavras, acabam por ser desastrados. As características apresentadas acima antecedem o período de alfabetização e se as intervenções pedagógicas forem efetivadas nessa fase (Educação Infantil) a dislexia poderá ser amenizada ou até superada logo. As intervenções envolvem a assimilação de fonemas (na alfabetização e letra- mento desde a Educação Infantil), trava-línguas, rimas, desenvolvimento do vocabulário, melhoria da compreensão e fluência da leitura. Outra maneira para ensinar as crianças disléxicas poderia ser pela utilização das vias táteis, identificando o traçado das letras, bem como a escrita em caixas de areia e tatearem letras escritas em lixas (folha de lixa). Fonte: Elaborado pelo autor. Pós-Graduação | Unicesumar 23 alguém poderia indagar o seguin-te: mas e uma pessoa com dislexia, por exemplo, ela não aprende como todas as outras pessoas, não é verdade? Exato, mas junto da pergunta já temos a resposta, é uma situação diferente, uma pessoa que tem algum distúrbio que interfere no pro- cessamento de informações, podendo ser hereditário, como é o caso da dislexia, mas isso não quer dizer que seu portador é incapaz de aprender. Esse indivíduo apenas tem di- ficuldade e sempre irá requerer ainda mais atenção de todos aqueles que trabalham com ele. Posto isso, nunca devemos dizer a uma criança, ou qualquer aprendiz, que ela não consegue aprender, que é “burra” ou algo do gênero, pelo contrário, devemos sempre trabalhar com incentivo, por exemplo, você consegue, continue tentando etc. Ante essa informação, devemos sempre incentivar, mas, se possível, evitar o incentivo utilizando a palavra inteligente, por exemplo, seu aluno acertou um cálculo matemático, e você o elogia, “nossa muito bem, como você é inteligente”, na verdade, deve incen- tivá-lo com “parabéns esse é o caminho, ficou muito bom, mas você pode melhorar”. São apenas sugestões, mas a base para a refle- xão gira em torno do seguinte: um aluno que se percebe pela fala do professor como uma pessoa inteligente, perfeita e que acertou, não arriscará perder essa imagem aos olhos do docente. Já aquele aluno que foi incen- tivado pela tentativa, pelo esforço, sempre tentará melhorar em uma busca incessan- te pelos elogios advindos do professor, pois isso massageia o ego, melhora a autoestima e a confiança, além, obviamente, de incluir em sua conduta a motivação extrema, com o intuito de se alcançar o aprendizado. É comum escutar, em nosso cotidiano, que meninas aprendem mais que meninos ou, ao menos, mais rápido. Você concorda com isso? Falamos em termos gerais, até agora, de processos superiores que possi- bilitaram o aprendizado, no entanto, não foi mencionado, em nenhum momento, sobre diferenças de aprendizado em cérebro mas- culino ou feminino, isso é mito. Os cérebros aprendem da mesma maneira, independen- temente se estão na cabeça de um homem ou uma mulher. O que muda é a motivação de cada um para aprender uma coisa ou outra, podendo obviamente estar relacio- nada diretamente por uma pré-disposição individual, por exemplo, ter maior facilida- de em matemática, quando comparada à gramática, sendo a primeira aquela que se aprende facilmente e normalmente é mais agradável. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 24 Diferenças no tamanho Do cérebro masculino e feminino Atualmente, sabe-se que um homem tem um cérebro 10% maior quando compara- dos ao do sexo feminino, no entanto, isso não representa que os homens sejam mais inteligentes ou apresentem um maior de- sempenho. O cérebro feminino atinge a ma- turidade por volta dos 11 anos e o masculino somente aos 14 anos, aproximadamente. Por outro lado, algumas regiões cerebrais envolvidas em raciocínio mecânico, concen- tração visual e raciocínio espacial amadure- cem até oito anos antes nos meninos. Talvez seja essa a explicação para que homens se- jam muito mais aptos para áreas de exatas, apresentam habilidades esportivas em dife- rentes modalidades, por exemplo, corridas automobilísticas. Mulheres, por outro lado, amadurecem mais rapidamente áreas que controlam a fluência verbal, escrita e reco- nhecimento fácil dos familiares. Estudos que utilizaram imagens de ressonân- cia magnética concluíram volumes diferentes do cérebro entre homens e mulheres, apre- sentando resultados que colaboram muito para a área da educação, uma vez que com- provam a diferença cerebral entre meninos e meninas, na escola ou no ensino superior. As imagens coletadas mostram que mulhe- res tem um volume 23% maior na área de Broca, no córtex pré-frontal dorsolateral e 13% maior na área de Wernicke, no córtex temporal superior, quando comparado aos homens. Assim, os estudos demonstram que mulheres tem maior habilidade na leitura e na fala. Fonte: Texto baseado no livro Relvas, M. P. Neuro- ciência e Educação: potencialidades dos gêneros humanos na sala de aula. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak Ed. 2010. 160 p. o intelecto entre homens e mulheres Existem diferenças intelectuais entre ho- mens e mulheres? As mulheres, imagino, sorriram e disseram que sim, que são mais inteligentes que os homens. O desempenho masculino é maior em raciocínios matemáti- cos, testes de manipulação de objetos diver- sos, testes de habilidades motoras com alvo e até de navegação de rotas. Já mulheres tem a capacidade de lembrar-se de palavras específicas, são melhores em tarefas manu- ais ou em um simples jogo de memória com cartas viradas, onde devemos lembrar-nos da localização dos pares. Estudos nessa li- nha de discussão comprovam que homens aprendem um caminho para chegar a algum local mais rapidamente que o sexo oposto, por outro lado, as mulheres têm a habilida- de de demarcar pontos estratégicos para a orientação espacial. Apesar das diferenças entre gêneros se- rem pequenas, podemos encontrar uma variação cognitiva bastante grande entre homens e mulheres e, ao contrário do que sempre se imaginou, tais diferenças iniciam- se por volta de 3 anos de idade, muito antes da puberdade. Fonte: Texto baseado no livro Relvas, M. P. Neuro- ciência e Educação: potencialidades dos gêneros humanos na sala de aula. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak Ed. 2010. 160 p. Pós-Graduação | Unicesumar 25 Diante do exposto até o presente momento,conseguimos traçar parâmetros e adquirir informações que nos propiciassem um alicerce para começarmos a en- tender ou compreender o aprendizado. Tome um papel e uma caneta, escreva a palavra APRENDIZADO no centro da folha, a partir daí iniciaremos nossa discussão da seguinte maneira, pense no que é importante para o aprendizado. Alguns provavelmente levantaram a repe- tição, isso está inteiramente correto, mas, dando um pequeno espaço, vá a folha de papel e escreva acima da palavra aprendizado um novo tópico denominado PRÁTICA. Posto isso, você, quando está em seu tempo livre, gosta de fazer o que? Sei que pensará em milhões de coisa, então permita que eu refaça a indagação, para realizar algo que goste, o que é necessário? Isso mesmo, prazer, então volte a folha e abaixo da palavra aprendizado escreva MOTIVAçãO. Para se ensinar qual- quer coisa, o que é necessário obter em sua conduta como docente, para facilitar o aprendizado de seu aluno? Quem disse estratégia também acertou. Volte a folha e escreva MÉTODOS ao lado esquerdo do aprendizado. Por fim, para fecharmos alicerce para o aprendizado Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 26 nossa estrutura que auxiliará na promoção do aprendizado, pense: adianta obter as melhores estratégias, os métodos mais atuais para ensinar se o aluno não quer aprender? Não, é claro que não. Então, fica evidente que esse alicerce se completa pela ATENçãO. Vá à folha e escreva essa palavra ao lado direito da palavra apren- dizado. Pronto, temos em nosso guia a palavra aprendizado ao centro, rodeada pelos nossos alicerces que propiciaram o ato de aprender. Abaixo a palavra mo- tivação, acima prática, à esquerda métodos e a direita atenção. Seguindo com nossa ideia, trace uma flecha da palavra prática até motivação e outra no sentido inverso, cruzando a palavra aprendizado. Todos devem con- cordar que aprendemos quando praticamos, devemos repetir e repetir quantas vezes forem necessárias até firmar aquilo que pretendemos em nossa memória e, para isso, devemos estar motivados, não existe prática sem motivação, ou você vai a academia de ginástica sem um objetivo? Você estuda sem que tenha que realizar uma prova? Pois bem, para aprender, devemos estar motivados, com vontade de praticar tal ação até que ela fique retida em nosso cérebro. Só recor- dando, temos em nosso cotidiano um tempo significativamente curto. Sendo assim, não podemos praticar muitas coisas ao longo de um dia. Sendo assim, devemos voltar nossos esforços a algumas coisas específicas, tornando-nos es- pecialistas em algo, por isso, também, é impossível ser ótimo em tudo. A motivação é fundamental por uma série de fatores, como encorajamento, a sinalização positiva que gera a perspectiva de que estamos no caminho correto, de que estamos fazendo certo e devemos continuar praticando, é ela quem nos proporciona um feedback sobre nossos atos, permitindo o querer melhorar in- dividual. A motivação também depende do nível de dificuldade, fácil demais é ruim e difícil de mais também é ruim. Inicia-se a partir daí um ciclo vicioso, quanto mais motivado, mais horas de prática, maior a motivação e assim por diante. É bem verdade que sem essa tal motivação não conseguimos aprender e o grande responsável por isso é o nosso cérebro. Todos nós temos estruturas intrín- secas localizadas no cérebro que são afetadas positivamente, sendo que centros específicos de prazer produzem uma substância chamada de dopamina, um neu- rotransmissor relacionado ao prazer. Sempre que temos essa substância liberada, uma situação de bem-estar será estimulada em nosso organismo, melhorando nossa atenção e reforçando todo o comportamento corporal para o objetivo em questão. Por outro lado, tarefas demasiadamente fáceis ou difíceis demais, frus- tram o cérebro e levam a desmotivação. Pós-Graduação | Unicesumar 27 Para os métodos, também acredito que não haverá discussão, mas vamos em frente. Posso afirmar que um professor deve ter na manga vários métodos de ensino, correto? Evidente que sim, pois a forma de ensino nem sempre deve ser a mesma, ela pode variar em função da necessidade. Alguns aprendem de um jeito, mas não quer dizer que todos os demais aprendam da mesma maneira ou na mesma velocidade, e é sua responsabilidade criar estratégias e oportunizar situações para que todos aprendam. Não confunda essas palavras com a im- plicação em obter 40 métodos diferentes para a mesma aula, mas você deverá estar atento as mais diversas possibilidades, proporcionando aos discentes as mais variadas condições de ensino, pois se um aluno não aprendeu não quer dizer que nunca poderá aprender. Apenas esteja antenado para alterar o método, quem sabe assim isso facilite o aprendizado dessa criança, jovem ou adulto. Para fecharmos essa terceira ideia referente aos métodos, os quais são diver- sos, pense em uma multiplicação de cabeça, em um cálculo mental, e outra em uma folha de papel. As formas de realizar as operações matemáticas são iguais? Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 28 Não. As operações convencionais, colocando um número abaixo do outro e reali- zando o cálculo por etapas e depois somando-o, são grandes demais para nossa memória de trabalho, que consegue guardar e armazenar de 6 a 8 informações a cada instante. Então, quando você tenta realizar o mesmo cálculo que seria re- alizado no papel de cabeça, normalmente, você se perde no meio. Talvez isso não ocorra para contas menores como de dois algarismos. Vamos lá, pense em uma multiplicação de cabeça, faça o seguinte cálculo matemático, multiplique 2 x 2; agora 5 x 4; 12 x 3; todos muito fáceis não é? Agora para que você entenda melhor o que eu estava tentando explicar, continue com operações matemáti- cas e, rapidamente, calcule para mim, 2 x2 x 4 ÷ 5 x 2 – 8 +16 +13, o resultado é? Confuso, eu sei, mas veja como seu cérebro foi sobrecarregado, mesmo com contas relativamente simples, pois ele deve lembrar qual é o problema, realizar o cálculo, multiplicar 2 com 2, igual a 4 e multiplicar com mais 4, 16 e assim suces- sivamente até o final das operações. Quando concluir, o cérebro deve se lembrar de qual era o problema inicial para gerar a resposta, ou seja, ele teria de realizar muitas contas lembrando da pergunta, sem esquecer de nada. Infelizmente, nossa memória de trabalho não consegue controlar e lembrar de tanta coisa, assim você se perde no meio do cálculo. Sobretudo, mesmo que esse fosse um método per- feito, nem todas as pessoas teriam facilidade de realizar operações matemáticas dessa maneira. Somos diferentes, e encontramos caminhos para realizar tarefas, até chegar ao aprendizado diferentemente, jamais se esqueça disso. Já ao falar em atenção, podemos apontar que o aprendizado está sugerido como algo que só é adquirido mediante o foco, a atenção sobre algo específico. Você só entende um trecho de um livro ou o livro todo se estiver focado nas palavras que está lendo, caso contrário, cairá em esquecimento e, ao final da leitura, não compreende- rá nada e deverá recomeçar a ler. Quantos já não passaram por isso em seus anos de estudo? Alguns (principalmente as mulheres), vão falar que é mentira, que mulher consegue realizar inúmeras coisas ao mesmo tempo, por exemplo, cuidar das crian- ças, falar no telefone, cuidar da comida, navegar na internet e ainda fazer contas. Pois bem, meu(inha) amigo(a), a mulher tem o dom sim de alternar o foco muito rapi- damente, mas do ponto de vista biológico isso é impossível, tanto homens quanto mulheres podem manter o foco apenas em uma coisa de cada vez. Pós-Graduação | Unicesumar 29 Leandro era um menino aparentementesem nenhum tipo de problema, sen- tava sempre no fundo da sala, realizava sempre as atividades propostas e não apresentava problemas de comportamento. Foi assim até o 1º ano. Ao iniciar o 2º ano, de imediato, a professora percebeu uma mudança, Leandro passara sempre a se posicionar de frente para qualquer pessoa que viesse a falar com ele, fosse coleguinha ou quando a professora solicitava alguma atividade. Foi ficando cada vez mais evidente que, se conversasse de costas para ele, Leandro acabava por não realizar a tarefa solicitada. Com essa observação, aliada ao diagnóstico clinico, constatou-se que Leandro estava com dificuldade auditiva. A partir de então, além de profissionais específicos que passaram a trabalhar com Leandro, a professora começou a buscar novas estratégias ou métodos para continuar ensinado de forma satisfatória, por exemplo, falar de forma mais lenta e espaçada, utilizar em seus lábios, batons com cores mais “vivas”, para facilitar a leitura labial, mantê-lo a frente dos demais alunos, sempre que possível apresentando as atividades de forma escrita e integrá-lo em brinca- deiras. Devido ao esforço e boa vontade da professora, para a alegria de todos, Leandro, em seis meses, já obtinha resultados muito satisfatórios. Fonte: Elaborado pelo autor. O nome é fictício, mas o conteúdo do caso é real, com adaptações. Posto isso, fechamos nossa ideia inicial de aprendizado, a qual expõe que, para que ele aconteça, devemos nos alicerçar em quatro pilares, motiva-ção, prática, métodos e atenção, sem eles, sozinhos e ao mesmo tempo interligados diretamente não é possível aprender nada. Também devemos considerar a oportunidade como ponto mais globalizado. Como se aprende a tocar piano? A chutar a bola? A andar de bicicleta? Somente tendo a oportunidade de conhecer e manusear um piano, uma bola ou uma bicicleta. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 30 poTenCiAiS de membrAnA e AÇÃo Potenciais de membrana são causados pela difusão de íons que passam de um lado para o outro da membrana celular. Fibras nervosas normais, como neurônios, são até 100 vezes mais permeáveis ao potássio que ao sódio. A Bomba de Sódio-Potássio transporta 3 moléculas de sódio para fora da célula e 2 moléculas de potássio para dentro da célula. Essa perda continua- da de cargas positivas pelo interior gera um grau adicional de negatividade. Pós-Graduação | Unicesumar 31 potencial de ação neural Segundo Guyton e Hall (2006), os sinais neurais são transmitidos por meio de po- tenciais de ação, que são variações muito rápidas do potencial de membrana. Cada potencial de ação começa com uma modificação abrupta do potencial de repouso negativo normal, para um potencial positivo, e em seguida, termina com a modi- ficação quase tão rápida para o potencial negativo. Para conduzir o sinal neural, o potencial de ação se desloca ao longo de toda a fibra nervosa até atingir seu término. As fases sucessivas do potencial de ação são as seguintes: Fase de Repouso: É o momento em que o potencial de membrana está, como sugerido pelo processo, em repouso. Antes de iniciar um potencial de ação. Nessa fase, diz-se que a membrana está “polarizada”. Fase de Despolarização: É o momento em que a membrana fica muito per- meável a íons de sódio, o que permite sua entrada para o interior do axônio em grande quantidade. O estado “polarizado” normal é de -90mV, quando for perdida essa tensão em repouso, com o potencial variando rapidamente na direção da positividade. Fase de Repolarização: Devido a poucos décimos de segundo após a mem- brana ter ficado permeável a íons de sódio, os canais de sódio começam a se fechar, enquanto os canais de potássio se abrem mais que o normal. Dessa forma, a rápida difusão do potássio para o exterior da célula restaura o po- tencial de membrana negativo normal do repouso. Permita-me tentar explicar rapidamente, de forma simplificada e com uma lin- guagem o mais informal possível, essa base de processos pelos quais é gerado o potencial de ação, como surge essa eletricidade dentro do nosso corpo. Somos seres vivos, e com isso obtemos várias estruturas celulares. Não caro(a) aluno(a), não quero que você aprenda biologia novamente, mas apenas que compreenda melhor alguns desses aspectos inerentes ao fenômeno denomi- nado potencial de ação. Pois bem, pense em uma célula, melhor, desenhe uma linha em um papel, uma linha espessa, feito isso, escolha um dos lados da linha e escreva a palavra INTRACELULAR e, do outro lado, a palavra ExTRACELULAR. Pense que isso é um círculo, uma célula, um lado é dentro (intra) da célula e outro fora (extra) da célula. Após isso, coloque várias letras K+ (íons de potássio) do lado Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 32 intracelular, e vários Na++ (íons de sódio) do lado extracelular. Posto isso, come- ça-se complicar um pouco mais, toda célula, em seu interior, é muito negativa e em seu exterior muito positiva. Pergunta, se os dois íons que coloquei a vocês são positivos, como isso é possível? Exatamente, existem outras cargas negativas dentro da célula e em grandes quantidades por sinal. Esses demais íons ficam próximos à membrana do lado interno da célula e as cargas positivas próximas às membranas do lado externo. No interior do axônio, existem muitos íons com carga negativa que não podem passar pelos canais. Eles incluem moléculas de proteína, muitos compostos orgâ- nicos de fosfato, compostos sulfatados e muitos outros. Devido a não poderem sair da fibra, qualquer déficit de íons positivos no interior da membrana leva a excesso de íons negativos impermeantes. Não entrarei em aspectos moleculares da membrana celular, saiba apenas que ela é formada por duas camadas de lipídios e nela teremos as cargas negati- vas e positivas que atraíram os íons opostos para próximo dela, tanto no interior quanto no exterior da célula, isso mesmo, uma reação similar a de um imã, onde os opostos se atraem. Seguindo com o funcionamento de um potencial de ação, volte à folha e coloque muitos Na++ do lado de fora da célula, mas muitos mesmo. Feito isso, temos estruturas na membrana celular que permitem a entrada de íons específicos, pode ocorrer difusão simples, facilidade ou mediada por carreadores. Simplificando, existem estruturas que permitem a passagem de íons pela membrana da célula, tanto para dentro quanto para fora, mas não aprofundaremos esses conhecimentos para o momento. Temos uma quantidade absurda de íons de Na++ do lado extrace- lular, correto? Mas faça a seguinte analogia, se você embarcar em um ônibus que está muito lotado na parte da frente, e você visualiza que, do outro lado, ao final do ônibus, está um pouco mais vazio, o que você faria? Certamente, como lei de sobrevivência humana, buscará o ambiente mais folgado, que não esteja muito lotado, correto? Com os íons acontece da mesma maneira, tem muito Na++ do lado de fora da célula, portanto, eles buscarão um lugar um pouco mais vazio. E onde tem pouco Na++ em nosso exemplo? Isso mesmo, dentro da célula, e mesmo com aquelas estruturas que transportam esses íons pela membrana boqueando a livre passagem, alguns felizardos conseguiram ir ao lado de dentro da célula, lado mais tranquilo e vazio. Assim, com a entrada de cargas positivas no meio in- tracelular, o que acontece? Dentro da célula era muito negativo correto? Com a entrada íons positivos, teremos uma curva crescente em direção a zero. Assim, a Pós-Graduação | Unicesumar 33 célula, aos poucos, deixa de ser tão negativa e começa a ficar lentamente positi- va. À medida que muitos íons de Na++ começam a passar de fora para dentro da célula, um evento ocorrerá na membrana e as portas seletivasaos íons positivos de Na++ se abrirão e como consequência, a célula terá seu interior inundado de cargas positivas. Nesse sentido, a célula que era negativa passa a ficar positiva e evento conhecido como despolarização da célula. A ativação dos canais de sódio acontece quando o potencial de membra- na fica menos negativo que durante o período de repouso, passando de -90 mV para zero. Esse potencial passa por uma voltagem, em geral, entre -70 e -50 mV, que provoca alteração conformacional da comporta de ativação, fazendo com que ela se abra. Isso é chamado de estado ativado; durante ele, os íons de sódio podem literalmente jorrar por esses canais, aumentando a permeabilidade ao sódio da membrana de 500 a 5.000 vezes (GUYTON, HALL, 2006). Para a inativação desses canais de sódio, o mesmo aumento da voltagem que abre a comporta de ativação também fecha a comporta de inativação. Contudo, o fechamento da comporta de inativação só ocorre após alguns décimos de milési- mos de segundo de sua abertura. Isto é, a alteração conformacional que modifica o canal de inativação para a posição fechada é um processo mais lento, enquan- to a alteração conformacional que abre a comporta de ativação é muito rápida. Como resultado, após o canal de sódio ter ficado aberto por alguns décimos mi- lésimos de segundo, ele se fecha e os íons de sódio não mais podem jorrar para o interior da membrana. A partir desse momento, o potencial de membrana começa a variar em direção ao valor vigente no estado de repouso da membra- na, o que constitui o processo de repolarização (GUYTON, HALL, 2006). Característica muito importante do processo de inativação do canal de sódio é a de que a comporta de inativação não voltará a se abrir até que o potencial de membrana retorne ao (ou bastante próximo) valor do potencial de membrana de repouso inicial. Como consequência, não é possível nova abertura dos canais de sódio até que a fibra nervosa se tenha repolarizado (GUYTON, HALL, 2006). Em seu estado de repouso, a célula é negativa em seu interior e positiva em seu exterior, se a célula tem cargas positivas em excesso no meio intracelular o que deve acontecer? Lembra-se do outro íon positivo que você escreveu na folha, que fica dentro da célula? Isso mesmo, estamos falando do K+, este não suporta ficar em lugar apertado, ainda mais misturado a excessivas quantidades de sódio. Assim, ele começa a se retirar da célula, migrando para o meio extracelular. Mas pense comigo, cargas positivas saindo de dentro da célula fará com que a curva Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 34 decresça em direção a zero e, consequentemente, a negatividade, correto? Isso mesmo, com o inchaço de íons de Na++dentro da célula, ocorre uma mudança na membrana que fecha as comportas seletivas a esse íon, e conforme inicia a saída de potássio, mais portas se abrem seletivamente para esse íon, permitindo que a célula volte a ficar negativa. Esse momento é conhecido como repolarização. O canal de potássio voltagem-dependente atua em dois estados distintos: durante o estado de repouso e próximo ao término do potencial de ação. Durante o estado de repouso, o canal de potássio fica fechado, e os íons de potássio são im- pedidos de passar por esse canal para o exterior. Quando o potencial de membrana começa a aumentar, a partir de -90 mV, em direção ao zero, essa variação de vol- tagem provoca alteração conformacional, abrindo o canal e permitindo aumento da difusão do potássio por ele. Contudo, esses canais de K+ são mais lentos tanto para abrir quanto para fechar, dessa forma, a célula não só fica negativa, mas devido à lentidão no fechamento dos canais, muito potássio sai da célula, fazendo com que seu interior fique muito negativo, mais do que seu normal em repouso, evento conhecido como hiperpolarização, a qual pode ser subdividida em hiperpolariza- ção absoluta ou refratária. Na absoluta, não é possível iniciar um novo potencial de ação nunca, já na refratária se um novo estímulo perturbar a membrana celular em uma magnitude muito grande é possível iniciar um novo evento elétrico. A causa do pós-potencial positivo é, em grande parte, que muitos canais de potássio permanecem abertos após o processo de repolarização da membrana ter se completado. Isso permite que excesso de íons de potássio se difunda para fora da fibra nervosa, deixando déficit extra de íons positivos no interior, o que implica negatividade. Enquanto esse estado de hiperpolarização persistir, não ocorrerá reexcitação, mas, gradativamente, a condutância excessiva do potássio (e o estado de hiperpolarização) diminui até desaparecer, o que permite que o potencial de membrana aumente até atingir o limiar para excitação, então, subi- tamente, aparece novo potencial de ação (GUYTON, HALL, 2006). Temos apenas um pequeno problema, volte a seu papel. No interior da célula, devem estar os íons de K+ e do lado de fora íons de Na++, portanto, algo não está correto. Depois de todo o evento, a célula que ficou positiva, voltou a ser negativa, até ai perfeito, mas a ordem dos íons está incorreta, está invertida, o que fazer? Como corrigir esse erro? E lá surge outro mocinho na história, conhecido como bomba de Na++/ K+, localizada na membrana celular, a qual é responsável pela reorganização iônica, enviando três íons de Na++ de dentro para fora da célula e simultaneamen- te, colocando dois íons de K+ que estavam fora para dentro da célula. Pós-Graduação | Unicesumar 35 bomba de sódio-potássio É o processo de transporte que bombeia íons de sódio para “fora” por meio da membrana celular, enquanto, ao mesmo tempo, bombeia íons de potássio de “fora” para “dentro”. Essa bomba está presente em todas as células do corpo, é responsável pela manutenção das diferenças de concentração de sódio potássio mediante a membrana celular, além de estabelecer um potencial elétrico negativo no interior da célula (GUYTON, HALL, 2006). A proteína carreadora tem três características: 1. Contém três sítios de fixação para os íons de sódio (voltados para a face interna da célula). 2. Contém dois sítios de fixação para os íons de potássio (voltados para a face externa da célula). 3. Próxima aos íons de fixação de sódio, existe atividade ATPase. Simplificando: A bomba de sódio-potássio impede que a célula inche até es- tourar, por isso transfere o sódio do interior para o exterior da célula, que levará juntamente com ele uma quantidade de água. Consequentemente criará um potencial negativo no interior celular e positivo em seu exterior. acomodação da membrana: falta de atividade apesar da elevação da voltagem Se o potencial da membrana se elevar de forma muito lenta durante vários milisse- gundos, em vez de em fração de milissegundo, as comportas lentas de inativação dos canais de sódio terão tempo suficiente para se fecharem ao mesmo tempo em que as comportas de ativação estiverem se abrindo. Como resultado, a aber- tura das comportas de ativação não será tão eficaz para promover o aumento do fluxo de íons de sódio, como ocorre normalmente. Portanto, o aumento lento do potencial interno de uma fibra nervosa vai exigir voltagem limiar mais elevada ou impede, completamente, a geração de potencial de ação; por vezes, até mesmo com elevações da voltagem até zero ou com voltagem positiva. Esse fenômeno é chamado de acomodação da membrana ao estímulo. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 36 propagação do potencial de ação Nos parágrafos precedentes, discutimos o potencial de ação como se ele ocor- resse em ponto único da membrana celular. Contudo, um potencial de ação gerado em qualquer ponto de uma membrana excitávelexcita, geralmente, as regiões adjacentes da membrana, resultando na propagação desse potencial de ação. Quando uma fibra nervosa é excitada, a permeabilidade aumenta para o sódio, forma um “circuito local” do fluxo de corrente entre as regiões despolarizadas da membrana e as áreas adjacentes da membrana em repouso; cargas elétricas po- sitivas, carreadas pelos íons de sódio que se difundem para o interior, fluem para o interior da fibra, por meio da região despolarizada e, em seguida, por vários mi- límetros, ao longo da parte central do axônio. Essas cargas positivas aumentam a voltagem, por distância de 1 a 3 mm nas fibras calibrosas, até valor acima do valor limiar da voltagem para geração do potencial de ação. Por conseguinte, os canais de sódio nessas novas áreas ficam imediatamente ativados enquanto o potencial de ação se propaga. Em seguida, essas novas áreas despolarizadas pro- duzem novos circuitos locais de fluxo de corrente com pontos mais distantes da membrana, causando mais e mais despolarizações. Dessa forma, o processo da despolarização trafega ao longo de toda a extensão da fibra. A transmissão do processo de despolarização ao longo de fibra nervosa ou muscular é chamada de impulso nervoso ou muscular (GUYTON, HALL, 2006). fibras nervosas mielínicas e amielínicas Fibras mais calibrosas são fibras mielínicas, enquanto as mais delgadas são amielínicas. Um tronco nervoso típico contém cerca de duas vezes mais fibras amielínicas que mielínicas. A parte central dessa fibra é o axônio, e sua membra- na representa a verdadeira membrana condutora formando aquela “estrada” que comentamos anteriormente, que tem a função de levar e trazer as informações. O interior do axônio é ocupado pelo axoplasma, que é um líquido intracelular Pós-Graduação | Unicesumar 37 bastante viscoso. Circundando o axônio, existe a bainha de mielina a qual, muitas vezes, é bem maior que o próprio axônio e que, a intervalos de cerca de 1 a 3 mm, ao longo de toda a extensão do axônio, é interrompida pelos nodos de Ranvier. A bainha de mielina é formada, em torno do axônio, pelas células de Schwann do seguinte modo: a membrana de uma célula de Schwann, inicial- mente, circunda o axônio. Em seguida, essa célula gira em torno do axônio por muitas voltas, depositando múltiplas camadas de sua membrana celular, que contém a substância lipídica esfingomielina. Essa substância é excelente isolan- te, capaz de diminuir o fluxo iônico por meio da membrana por cerca de 5.000 vezes, ao mesmo tempo em que reduz a capacidade da membrana por 50 vezes. Contudo, no ponto de junção entre duas células de Schwann sucessivas, ao longo do axônio, persiste pequena região não isolada, com apenas cerca de 2 a 3 µm de extensão, por onde os íons podem fluir, com facilidade, do líquido extracelular para o interior do axônio. Essa região é o nodo de Ranvier e é nesse ponto que ocorrerá mais facilmente, aqueles processos do potencial de ação citados anteriormente, a despolarização e repolarização da fibra que estava em repouso, permitindo assim que apenas partes do axônio sejam despolarizadas. Antes que perguntem, isso mesmo, o estímulo praticamente ganha asas e salta por sobre a camada isolantes de lipídios (bainha de mielina), pulando de nodo em nodo de Ranvier (GUYTON, HALL, 2006). condução “saltatória” nas fibras mielínicas Muito embora os íons não possam fluir com intensidade significativa através das espessas bainhas de mielina dos nervos mielinizados, eles podem fluir com grande facilidade pelos nodos de Ranvier. Por conseguinte, os potenciais de ação só podem ocorrer nos nodos. Assim, os potenciais de ação são conduzidos de nodo para nodo, processo chamado de condução saltatória. Isto é, a corrente elé- trica flui pelos líquidos extracelulares que circundam a fibra, mas também pelo axoplasma, de nodo a nodo, excitando sequencialmente os sucessivos nodos. Assim, o impulso nervoso salta ao longo da fibra, o que deu origem à designa- ção de “saltatória”. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 38 a condução saltatória é importante por duas razões. Primeira, por fazer com que a despolarização salte por sobre longos trechos, ao longo do eixo da fibra nervosa. Esse mecanismo aumenta muito a velocidade da transmissão neural nas fibras mielinizadas, de 5 a 50 vezes. Segunda, a condução saltatória conserva energia para o axônio, pois apenas os nodos despolarizam, permitindo perda de íons cerca de 100 vezes menor do que a que seria neces- sária, caso não ocorresse condução saltatória e, como resultado, exigindo pouca atividade metabólica para o restabelecimento das diferenças de concentração de sódio e potássio, através da membrana celular, após uma série de impulsos nervosos (GUYTON, HALL, 2006). Outra característica da condução saltatória nas grandes fibras mielínicas é a seguinte: o excelente isolamento criado pela membrana de mielina e a redução de 50 vezes da capacidade da membrana permitem que o processo de repola- rização ocorra com transferência muito reduzida de íons. Assim, ao término do potencial de ação, quando os canais de sódio começam a fechar, a repolariza- ção ocorre de modo tão rápido que, em geral, os canais de potássio ainda não estão abertos em número significativo. Como resultado, a condução do impulso nervoso por fibra nervosa mielínica é efetuada, quase que inteiramente, pelas variações sequenciais dos canais de sódio voltagem-dependentes, com contri- buição muito pequena dos canais de potássio. velocidade de condução nas fibras nervosas A velocidade de condução nas fibras nervosas varia desde o mínimo de 0,5 m/s, nas fibras amielínicas mais delgadas, até cerca de 100 m/s (o comprimento de um campo de futebol em um segundo), nas fibras mielínicas mais calibrosas. Em termos aproximados, essa velocidade de condução aumenta em proporção direta com o diâmetro nas fibras mielínicas e com a raiz quadrada do diâmetro da fibra nas amielínicas (GUYTON, HALL, 2006). Pós-Graduação | Unicesumar 39 considerações finais Nesta unidade, conseguimos compreender alguns fundamentos importantes para a elucidação do aprendizado e de qual forma ele acontece e se prende em nosso cérebro. Vimos que ao se tratar de aprendizagem, devem-se observar inú- meros processos intrínsecos que estão simultaneamente acontecendo dentro de nosso organismo. Em verdade, nós, seres humanos, mesmo que presos a uma redoma de vidro desde o nascimento, aprenderíamos muito e com toda a certeza iríamos nos desenvolver do ponto de vista biológico. Por outro lado, foi possível também iden- tificar que a estimulação ambiental, quando bem ofertada aos aprendizes, pode possibilitar caminhos mais fáceis para se alcançar um determinado estágio de conhecimento. Evidenciamos a necessidade de se preocupar globalmente com os processos e estratégias oferecidas dentro do contexto escolar. Sendo assim, poderíamos desenvolver um melhor alicerce para que não apenas se aprenda, mas se aprenda de maneira satisfatória. Fica lançado em nossa discussão inicial que não estamos totalmente prepara- dos para trabalhar com o aprendizado, uma vez que nem todos os métodos irão funcionar igualmente para todos. Podemos afirmar, então, que nossas capacita- ções realizadas até hoje, provavelmente, também não consideravam o cérebro e seu funcionamento, ou sua possibilidade de adaptação. Capacitações ou for- mação continuada vai muito além de um curso de pós-graduação ou de uma palestra municipal, é ir a campo, identificar falhas no sistema e proporcionar ao acadêmico um aprendizado alicerçado em bases científicas, com um trabalho cirúrgico, bem estruturado e direcionado também ao prazer.Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 40 atividades de autoestudo 1. É muito comum a discussão de como o ser humano aprende ou como apresentamos dificuldades para se alcançar o aprendizado desejado ou imposto, não importando a classe social ou sexo. Diante do exposto, como nosso cérebro aprende? 2. Muitos indivíduos, durante o processo de ensino-aprendizagem, não apre- sentam um resposta satisfatória diante das solicitações do docente, seja por estarem inclusos em um meio muito heterogêneo, ou por falta de vontade de aprender. Como podemos apontar os alicerces para o aprendizado e como você os utilizaria em seu campo de trabalho? Pós-Graduação | Unicesumar 41 filme Ao Mestre com Carinho Diretor: James Clavell Duração: 1:45 min Ano: 1967 País: Reino Unido Gênero: Drama Sinopse:Mark Thackeray (Sidney Poitier) é engenheiro, mas ficou desempregado e re- solveu dar aulas em Londres. Ele começa a ensinar alunos majoritariamente brancos em uma escola no bairro operário de East End. Thackeray se depara então com adolescen- tes indisciplinados e desordeiros, e que estão determinados a destruir suas aulas. Só que o engenheiro, acostumado com hostilidades, não se amedronta e enfrenta o desafio de ensinar uma turma de baderneiros. Ao receber um convite para voltar a atuar como en- genheiro, ele tem que decidir se pretende seguir como mestre ou voltar ao antigo cargo. filme Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 42 a ViDa De helen Keller Helen Adams Keller nasceu dia 27 de junho de 1880 em uma pequena cidade rural do Alabama, nos Estados Unidos (EUA), mas a vida de Helen começa a ser “destruída”, trans- formando-se em uma história de vida dramática, quando Helen adoece aos 19 meses de idade. Uma doença de natureza misteriosa, que perdurava dias, fazendo com que a família de Helen aguardasse o pior, que ela viesse a falecer. Os médicos da época chamaram de “Febre Cerebral”, já os médicos de nossos dias dizem que poderia se tratar de meningi- te ou escarlatina. Mas quando a febre baixou e a doença cessou, a família de Helen não podia esperar que algo complicado viesse a surgir mais uma vez, perceberam que Helen não respondia a gestos e sons e logo foi comprovado que a doença havia deixado Helen completamente cega e surda. Em consequência a essa situação, a infância de Helen se tornara muito complicada, trans- formando-a em uma criança muito difícil. Ela não tinha limites, quebrava muitas coisas, gritava e aterrorizava a todos, “um monstro que deveria ser internada numa instituição”. Quando a menina completara seis anos e com a família desesperada, a mãe de Helen, Kate Keller, tinha lido um livro de Charles Dickens, “Notas Americanas”, que tratava de um magnífico trabalho realizado com outra mulher cega e surda, Laura Bridgman. Após esse momento, a família de Helen, em uma consulta com um médico especialista, con- firmava que jamais a menina que nascera “perfeita” voltaria a enxergar e a ouvir, mas que todos familiares deveriam perder as esperanças, pois Helen ainda poderia ser ensinada. Um perito em crianças surdas, Alexander Perkins Bell, indicou aos Kellers, que buscas- sem um professor para Helen, Michael Anagnos, diretor do Instituto Perkins e Asylum Massachusetts para Cegos, o qual recomendou imediatamente uma aluna antiga da ins- tituição, senhora Anne Sullivan, que perdeu boa parte da visão aos cinco anos, mas após uma cirurgia recuperou boa parte da visão. Anne Sullivan encontra Helen em março de 1887 e passa a ensiná-la imediatamente, co- meçando com o soletrar da palavra “Boneca” com os dedos (presente que trouxera para Helen), após essa, outras palavras passaram a ser ensinadas, no entanto, Helen movia os dedos, mas não compreendia seus significados. Além de alfabetizá-la, Anne tinha de con- trolar e educar o mau gênio da menina, como melhorar a falta de educação e modos à mesa. Mesmo com muita dificuldade e os boicotes de Helen, Anne insistia, até que, em algumas semanas, o trabalho começou a surtir efeito e o comportamento da menina Helen passou a mudar, o “milagre” aconteceu, assim como os laços entre as duas. Várias foram as tentativas e estratégias utilizadas pela professora, uma delas foi um jato d’água despejado sobre uma das mãos de Helen, a qual na outra mão aprendia a sole- trar a palavra água. Depois a palavra bomba de água, depois professor e assim em pouco tempo Helen conhecia trinta e nove novas palavras. Logo, a professora ensinou-a a ler, em braile, com letras em alto relevo. Após Helen ser citada em um artigo por Michael Anagnos, chamando-a de “fenômeno”, ganha muita publicidade na mídia e em fotos, deixando um legado por possibilitar ou estimular diretamente o desenvolvimento de novas tecnologias e métodos de ensino para pessoas cegas e ou surdas. Fonte: Texto adaptado e extraído do site http://www.asurdosporto.org.pt/artigo.asp?idartigo=91, acesso em: 31 de agosto de 2014. Para saber mais acesse o site da associação de surdos do Porto http://www.asurdosporto.org.pt ou no filme “O Milagre de Anne Sullivan”. Pós-Graduação | Unicesumar 43 relato de caso O professor do 6º ano do ensino público regular nota em sua sala de aula, que uma das alunas não apresenta boa compreensão dos assuntos falados por ele quando se posi- ciona de costas para a classe, por exemplo, no momento que escreve na lousa e explica verbalmente, de modo simultâneo o conteúdo programático. Posto isso, o professor passa a perceber que Gabriela a aluna, apresenta uma grande fixação em seus lábios, o que indica possivelmente a tentativa de leitura labial. Logo após essa observação e com um diagnóstico dias depois, comprovando a desconfiança, foi detectada deficiência au- ditiva, a partir desse momento, o docente inicia um trabalho estratégico de se posicionar frente a aluna e falar de modo mais lento, permitindo que ela possa realizar a leitura labial. Como Gabriela, também passou a apresentar baixa visão quando chegou ao 8º ano do ensino público regular, no qual se fez necessário uma intérprete de livros para a aquisi- ção do conhecimento dentro do contexto escolar, a acadêmica passou a contar também com acompanhamento especial dos professores, da equipe pedagógica e atendimento psicológico, para melhor continuidade da aprendizagem escolar e otimização do con- vívio social. Até o presente momento o acompanhamento para a aluna na escola ocorre todos os dias e em todas as aulas, mas, quando porventura ocorre a ausência da intérprete, o pro- fessor regente realiza uma mudança nos métodos de ensino, voltando sua atenção de forma mais específica para ela. Com todo esse trabalho diferenciado e quase personaliza- do a aluna consegue apresentar muita habilidade na escrita, na ortografia e no raciocínio lógico, ou seja, mesmo com a ausência da audição e a baixa visão, mediante um esforço conjunto dentro do contexto escolar, Gabriela aprende tão bem quanto os demais alunos. Fonte: elaborado pelo autor. O nome é fictício, mas o conteúdo do caso é real, com adaptações. 2 aprendizagem: dimensãO interna dOdesenvOlvimentO HumanO neurOlógicO Professor Mestre Weslei Jacob Plano de estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Neurociência Cognitiva. • Bases Biológicas e Aprendizagem. • Dimensão Interna do Desenvolvimento. • O Cérebro e o Sistema Nervoso. • Desenvolvimento da Mente e do Comportamento. objetivos de aprendizagem • Identificar influências do processo de ensino-aprendizagem. • Conhecer como o cérebro aprende. • Compreender o desenvolvimento cerebral até a segunda década de vida. Ao direcionar nossos esforços para compreender o funcionamento do cérebro e como ele pode interferir no processo de ensino apren- dizagem, estudaremos os aspectos relacionados ao nível cognitivo, ao pensamento, ao aprendizadoe à memória, partindo da percep- ção do mundo que nos rodeia. A situação de aprendizagem também pode ser percebida de modo subjetivo, em que alguns conseguem aprender melhor. Outros têm um processo negativo ante a aquisição de informações novas. Tudo, de certo modo, está relacionado à captação de informações signifi- cativas pelas estruturas cerebrais, ou por outro lado, o bloqueio de algo devido à insegurança. Podemos apontar como é fundamental a experimentação de diferentes possibilidades e situações, devemos permitir que qualquer indivíduo tenha acesso ao conhecimento do mundo a sua volta, tocando, sentindo, ouvindo ou simplesmente vivendo, dentro da sua evolução natural. O cérebro permite que crianças, na primeira década de vida, possam adquirir muitos conhecimentos, uma vez que elas estão interna- mente propícias a isso. O aprendizado sempre acontece por meio dos nossos órgãos dos sentidos, sendo imprescindível conhecer as etapas da evolução motora e não se assustar com uma criança escalando o sofá ou a pia da cozinha, assim como se surpreender com contos e histórias que jamais havia sonhado. Explicaremos também, ou pelo menos buscaremos elucidar, o porquê de uma mudança tão grande do ponto de vista comportamental na segunda década de vida. O estudo e a compreensão do cérebro a nível cognitivo e desenvol- vimentista que discutiremos nessa unidade é imprescindível para que as intervenções aconteçam de forma pontual, levando em con- sideração todos os momentos de mudança ou abertura do cérebro humano para se adquirir novos conhecimentos. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 46 Caro(a) aluno(a), devido à grande elucidação dos conhecimentos inerentes ao cérebro e à aprendizagem, podemos iniciar de forma mais aprofundada o relacionamento desses temas dentro de bases neurológicas e de aprendizagem. Poderíamos falar um pouco mais sobre aspectos cognitivos ou da ciência que estuda essa condição, a neurociência. Não que já não tenhamos mencionado na primeira parte, mas falar de neurociência, como vimos, é falar de aprendizagem, e quando falamos de aprendizagem automa- ticamente devemos colocá-la do ponto de vista cognitivo, relacionando-a com todo o pensamento humano e memória. Neurociência cognitiva é o estudo do planejamento, do uso da linguagem e das diferenças entre memória para eventos es- pecíficos e memória para execução de habilidades motoras. Esses são exemplos da análise do nível cognitivo. Essa ciência atualmente é um misto de Neurofisiologia, Anatomia, Biologia Desenvolvimentista, Biologia Molecular e Celular e Psicologia Cognitiva. Pois bem, você precisa conhecer tudo isso para trabalhar no dia a dia? Evidente que não, mas relato aqui, apenas, para mostrar o tamanho dessa ciência e como muitas pro- fissões podem inferir no processo de ensino aprendizagem. Ou seja, ensinar ou aprender tem todo um aspecto de multidisciplinari- dade, em que todos são importantes para o êxito do aprender. Pois bem, inicialmente posso apontar que o aprendizado é decorrente da sensa- ção e percepção sensorial que são o ponto de partida para a pesquisa dos processos mentais. Você pode ter se assustado com neUroCiÊnCiA cognitiva Pós-Graduação | Unicesumar 47 esse início, mas aqui não teremos dificulda- des, posso apostar. Quem nunca estudou, seja na infância, faculdade ou em outros momentos da sua formação, aqueles famosos órgãos dos sentidos? Isso mesmo, o conhecimento é obtido por meio da experiência sensória, de tudo aquilo que nós vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos, degustamos (e olha que nem estamos falando de Psicomotricidade), do nosso nascimento até nossa morte. Daí a con- cepção de que sempre podemos aprender desde que nascemos e só paramos quando morremos. As experiências pelas quais passa- mos em nossas vidas são informações que chegam ao sistema nervoso central na forma de estímulos sensoriais. O encéfa- lo processa essas informações procurando compará-las com outras que foram previa- mente guardadas, reconhecendo-as ou não. Esse mecanismo não envolve apenas os as- pectos físicos dessa informação (cor, forma, tamanho), mas também as relacionando com os aspectos diretamente ligados aos sentimentos e emoções. Após seu pro- cessamento, um conjunto de sensações é memorizado com a informação recebida que pode ser agradável ou não. Lembra-se da criança e da gaveta de facas exemplifi- cada na unidade inicial desse material? Se cortarmos a mão na gaveta de facas, apren- deremos o que ela gera, normalmente dor, ou para que serve aquele objeto. Permita-me tentar explicar melhor - olhe a imagem ao lado e me responda: esse copo está meio cheio ou meio vazio? Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 48 Será esse o problema do Bullyng que afeta os dias atuais? Pela falta de expe- riências que permitam enxergarmos o mundo mais bonito? Fonte: Elaborado pelo Autor. Certamente obtivemos todos os tipos de res- posta, uns disseram que está vazio, outros, cheio e para, outros, ainda está no meio, pois bem, essas respostas emergiram da sua cabeça por todas as experiências já vividas até aqui, e é dependente sim do ponto de vista individual. Tem sido dito que a beleza está nos olhos de quem a vê. Como hipóte- se, essa ideia indica claramente o problema central da cognição. O mundo da experiên- cia é produzido pelo homem que a vivencia. riscos. Apagou? Analise o papel e veja se ele voltou a ser o mesmo papel que antes de riscar. Voltou? Analise bem, mesmo sem a marca de lápis, certamente uma marca ficou na folha em branco, mesmo aquele risco fra- quinho. Quando você passou a borracha, descascou um pouco a folha e ela nunca mais voltará a ser como antes, correto? Poderia dar outros comandos, risque com uma caneta ou amasse esse papel. Teria como deixá-lo como antes? Impossível. Pois bem, nosso cérebro, quando nascemos, é uma folha em branco. Devemos por meio de vários estímu- los, marcar de forma positiva a cabeça desses indivíduos e posso afirmar a todos aqui que sempre deixamos nossa marca, para alguns, ela é muito forte e, para outros, ela influen- cia alguma coisa, mesmo que seja como um risco fininho na cabecinha desses que estão aprendendo. Se ainda não ficou claro, reflita: se falar um palavrão. Certamente a criança ra- pidamente irá gravar, não é? As coisas boas também podem ser gravadas, é você quem deve ser um dos mediadores disso. Os órgãos dos sentidos são canais de captação dessas novas informações, mas eles apresentam algumas limitações, por exemplo, nem todas as frequências sonoras que chegam ao nosso sistema auditivo são percebidas pelo nosso cérebro, isto é, nem todos os sons que chegam à região auditiva serão processados, assim, consequentemen- te não iremos percebê-los ou identificá-los de modo consciente. Nosso cérebro ignora 99% das informa- ções que chegam até ele. Nossas percepções Vamos então supor que a mente pudesse ser, como se diz, um papel em branco sem quaisquer letras, sem quaisquer ideias. Como então ela poderia ser mobiliada? De onde vêm todos os materiais da razão e do pen- samento? Para isso, eu respondo em uma palavra: Experiência. Experiência que funda- menta todo nosso conhecimento e, a partir dela, em última análise, ele se origina. Pegue um papel em branco, pegue um lápis e faça um risco bem fino e fraco. Agora ainda com o lápis, faça um traço mais forte. Agora tome uma borracha e apague esses Pós-Graduação | Unicesumar 49 diferem-se qualitativamentedas proprieda- des físicas dos estímulos, visto que o sistema nervoso extrai somente determinadas partes da informação de cada estímulo, enquanto ignora outras, e assim interpreta esta informa- ção no contexto das estruturas encefálicas e das experiências prévias. Dessa forma, rece- bemos ondas eletromagnéticas de diferentes frequências, mas as percebemos como as cores vermelho, azul e verde. Recebemos ondas de pressão dos objetos vibrando em diferentes frequências, mas ouvimos sons, pa- lavras e músicas. Cores, sons, sabores e odores são criações mentais construídas pelo encé- falo a partir da experiência sensória. Elas não existem, como tal, fora do encéfalo. Para explicar melhor, nesse momento, ao ler esse material, inúmeros outros sons estão ao seu entorno, sejam eles, barulho de carro, de portas, do vento, de passarinhos, da televisão, do rádio, de pessoas conver- sando. Simplificando, inúmeros sons estão acontecendo e seu cérebro não os percebe, uma vez que sua atenção está somente nas palavras escritas nesse documento. Por exemplo, identifique os sons que estão acontecendo agora ao seu entorno. Agora os que mais gosto, você percebe a roupa em contato com a sua pele? Agora que voltou sua atenção para isso, certamente. Você percebe a pressão que seu glúteo exerce sobre a cadeira? Agora, certamente, pois voltou sua atenção para isso. É claro que quando viajamos durante horas na posição sentada, iremos perceber essa pressão, mas o que quero mostrar a você é que nosso cérebro escolhe e ordena aquilo que é mais importante em dado momento de nosso cotidiano, assim ele descarta muitos estí- mulos sensoriais que chegam a ele, com o intuito de priorizar tudo que julga ser mais importante naquele momento, agora, por exemplo, a leitura desse texto. Em outras palavras, tudo que sabemos sobre a realidade é medida não somente pelos órgãos dos sentidos, mas também por complexos sistemas que interpretam e rein- terpretam as informações sensoriais. O que é aprender? O que é Neurociência? Como ensinar da melhor maneira que os cérebros possam aprender? Como funciona o cérebro? Quais suas potencialidades e limitações? Como o conhecimento sobre esses assuntos aborda- dos podem ser aliados do professor? Quanta pergunta não é mesmo? Tentarei, ao longo dessas páginas, respondê-las e es- clarecer dúvidas inerentes à aprendizagem humana, e a partir de então, proporcionar um conhecimento mais palpável e interven- tivo a todos vocês. Começamos a responder a primei- ra pergunta, aprendizagem é um processo magnífico que ativa e fortalece sinapses, deixando-as cada vez mais intensas, a cada estímulo novo, a cada repetição de algo que queremos consolidar, circuitos neurais proces- sam as informações que deverão ser firmadas e guardadas em nosso cérebro. O que é Neurociência já foi explicado no item anterior, e chegamos ao seguinte questionamento: como o cérebro funciona? Bastante complexa essa questão, levaríamos uns dois anos para compreender e ter uma base de conhecimento ótima sobre o cérebro. Então partiremos de questões gerais que ser- virão de base para um aprofundamento maior. bASeS neUroLÓgiCAS & AprendizAgem Pós-Graduação | Unicesumar 51 Todos somos únicos, correto? Pelo menos aos olhos de nossos pais somos perfeitos, brin- cadeira pessoal. Falamos há pouco que, devido a nossa experiência de vida, e àquilo que percebemos do meio que nos rodeia, redes neuronais serão moldadas e firmadas e isso dependerá da história de cada um. Alguns crescem em metrópoles gigantescas, outros brincaram muito quando crianças, subindo em árvores, jogando pedras etc., parece pouco, mas acreditem, nos dias de hoje a falta de se- gurança e as condições sociais fazem que a nova geração tenha um repertório motor li- mitado, o que torna subir em árvore ou jogar uma pedra atividades complexas. Pois bem, se nascemos e crescemos em lugares diferen- tes, nosso cérebro é moldado de uma forma diferente. Isso ocorre até mesmo para irmãos gêmeos que foram criados na mesma casa e educados pelos mesmos pais e professores, eles podem ser diferentes, pois as motivações e influências ambientais os marcaram diferen- temente, ou seja, o cérebro é sempre igual para meninos e meninas do ponto de vista de uma estrutura anatômica, físico-química, mas somos diferentes, pois temos redes neuronais que nos tornam únicos. Dependendo da área do cérebro, os neurônios processam coisas específicas, por exemplo, as inteligências múltiplas conforme aponta Gardner em sua obra em 1983: 1. Inteligências Linguísticas: característica dos poetas, a capacidade mais comple- ta; Localização no Cérebro: Área de Broca. 2. Inteligências Lógico-Matemática: a Capacidade lógica e matemática, assim como capacidades científi- cas; Localização no Cérebro: Área de Broca. 3. Inteligência Espacial: a capacidade de formar um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo (Marinheiros, Engenheiros, cirurgiões, etc.); Localização: hemisfério direito do cérebro. 4. Inteligência Musical: possuir o dom da música como Mozart; Localização: he- misfério direito do cérebro. 5. Inteligência Corporal Cinestésica: capaci- dade de resolver problemas ou elaborar produtos utilizando o corpo (Dançarinos, Atletas, artistas, etc.); Localização: hemis- fério esquerdo do cérebro. 6. Inteligência Interpessoal: capacida- de de compreender outras pessoas (Vendedores, Políticos, Professores, etc.); Localização: Lobos Frontais. 7. Inteligência Intrapessoal: capacidade cor- relativa, voltada para dentro. Capacidade de formar um modelo acurado e verí- dico de si mesmo e de utilizar esse modelo para operar efetivamente na vida. Localização: Lobos Frontais. O cérebro humano funciona integralmente (desconsiderando patologias neurológicas), essa história que escutamos há tempos que utilizamos apenas uma parte do cérebro humano e que, quando formos capazes de controlar 100% dele, poderemos até nos comunicar por telepatia não é verdade Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 52 pessoal, nosso cérebro é sim algo a ser des- vendado, mas o usamos integralmente. O cérebro não só aprende, como também se reorganiza. Imagine uma pessoa cega e responda a seguinte indagação: ela nasce com uma capacidade tátil mais aguçada ou desenvolve? Aprimora essa condição pela ne- cessidade? Isso mesmo pessoal, uma criança que nasce cega, terá de adaptar outro órgão do sentido para minimizar os prejuízos da aprendizagem e da experiência, assim são aprimorados outros sentidos, como o tátil e o auditivo, por exemplo. O cérebro humano passa por um longo processo de maturação biológica durante 20 anos, ou seja, até o início da fase adulta nossas estruturas cerebrais estão sendo amadureci- das, então não caiam no erro de comparar uma criança com um adulto, pois essa his- tória de adulto em miniatura não é correta. O desenvolvimento humano é marcado por mudanças físicas no cérebro e por aqui- sições biológico-culturais específicas, que são possíveis graças à configuração físico- química do cérebro naquele determinado momento. A aprendizagem se efetua pela criação de novas memórias, ampliação e transformação das redes neuronais que guardam os conte- údos trabalhados anteriormente. Em síntese, a prática pedagógica que for planejada e executada sem levar em consideração os pro- cessos internos mentais da espécie humana terá grande possibilidadede conduzir o aluno a uma situação de não aprendizagem. Posto isso, os conhecimentos relacionados a esse magnífico órgão, devem ser esclarecedores para os profissionais que trabalham com a educação, uma vez que devem ser o alicer- ce na elaboração de métodos durante todo o processo de ensino-aprendizagem. Assim, a escola ideal deve estar focada no indivíduo e voltada ao entendimento e de- senvolvimento do perfil cognitivo do aluno, sem esquecer que todos somos diferentes. Nem todos aprendem da mesma maneira, uma vez que temos interesses e habilidades diferenciadas, então nos motivamos e man- temos a nossa atenção de forma distinta um dos outros. É impossível do ponto de vista humano, aprender tudo o que há para ser aprendido. É verdade que aprendemos até o momento de nossa morte, mas conhecer tudo, é impossível. Muito se fala em mudança de currícu- lo escolar, contudo não quero aqui discutir todos esses pontos, assim devemos consi- derar esse perfil cognitivo individual, pois não adianta mudar nada sem que se leve em consideração os objetivos e interesses desses discentes, permitindo, além de vários estilos de aprendizagem, uma ligação entre escola e comunidade, não apenas para alunos ditos “normais”, mas também para aqueles com perfis cognitivos incomuns. Esse papel também é do educador, que deve construir e transformar essas visões em realidade. Caro(a) aluno(a), nunca se esqueça de que todos têm algum talento, todos podem brilhar e para isso não há um modelo padrão. Pós-Graduação | Unicesumar 53 Quando a criança começa a falar, ela realiza uma série de aquisições que a levaram à fala, e da mesma maneira a levarão a es- crever e a ler. O simples brincar, não vou aqui defender a brincadeira, uma vez que é algo natural inerente à criança em pleno desenvolvimento, de maneira despreo- cupada já mobiliza áreas do cérebro que Segundo dados do Censo Es- colar 2013, o Brasil tem cer- ca de 40.366.236 estudantes matriculados na rede pública de educação básica, estadual e municipal. Os dados divul- gados no “Diário Oficial da União” apontam que ocorreu uma redução no número de matrículas em comparação ao ano de 2012, essa dimi- nuição representa cerca de 1,83%, redução de mais de 753 mil matrículas. Essa pes- quisa desconsidera a rede pública federal e particular. O Censo Escolar 2014 está sendo coletados desde 28 de maio e vai até 15 de agosto. Essa análise estatística tem por objetivo realizar diag- nóstico nacional de toda a educação básica, e a partir dos dados coletados propor- cionar melhorias em políticas públicas, aporte de recursos para utilização em transpor- te e merenda escolar, além do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educa- ção Básica e de Valorização dos Profissionais da Educa- ção (Fundeb). Fonte: Texto elaborado a partir de pesquisa ao site <http://portal.mec.gov.br> e matéria disponível no site <http://g1.globo.com, publi- cada em 23 de setembro de 2013.> fazem parte da aquisição de conhecimentos formais. Quando a criança brinca, redes neu- ronais são firmadas no córtex motor (área do cérebro onde boa parte dos movimen- tos aprendidos ficam guardados). Quando se repete movimentos várias vezes, se de- senvolve a perícia que será utilizada para o processo da escrita, por exemplo, advinhas, dimensão interna do Desenvolvimento Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 54 cantigas, podem servir de elementos que enriquecerão esse processo de escrever, além do poder de educar a atenção tão importante no processo de aprendizagem. Outro exemplo poderia ser o de desenhar, processo que antecede a alfabetização, ou em outras palavras, já faz parte da alfabetiza- ção. Então não precisamos “forçar” a criança, não há necessidade de saber escrever aos 3 anos, isso acontecerá naturalmente. Lembre-se que o cérebro tem tempo para amadurecer. Escola boa não é aquela que alfabetiza mais rápido, mas sim aquela que desenvolve a criança no tempo correto e leva em consideração as fases de amadu- recimento neural e motor. Quem dera os pais pudessem ler isso, não é?! Falamos há pouco dos órgãos dos sentidos, muito estudados no componente curricu- lar de Psicomotricidade, mas todo aquele processo de experienciação é parte de um desenvolvimento perceptivo que é a con- dição para a atenção e, consequentemente, formação de memórias. Essa educação dos sentidos é a base para a aprendizagem humana os quais se combinam, interagem, efetivando possibilidades de comportamen- to que são essenciais à espécie. Toda a percepção se dá no cérebro, ou seja, quando sofremos por amor, por exemplo, e aquela dor no peito aflora, na verdade a percepção de dor ocorreu em educação dos Sentidos nosso cérebro. Permita-me apresentar de outra maneira, imagine que você está na praia, olha que coisa boa, está tomando sol na areia e acaba dormindo, certamente o sol começará a queimar sua pele, mas, enquanto você dorme, seu corpo (receptores) está quase implorando ao seu cérebro (lembre-se ele é o chefe) para que saia do sol, pois está se quei- mando, mas dormindo você não percebe ou não gera uma ação resposta para aquela si- tuação e acaba por permanecer ali. Quando acorda, seu cérebro decodifica as informa- ções e percebe a dor, nesse momento, você já está queimado e nada mais poderá ser feito. Assim, acontece em uma anestesia, se Pós-Graduação | Unicesumar 55 o cérebro percebe a informação que chega a ele pelos órgãos dos sentidos, uma resposta será processada com base nas informações previamente guardadas em nossa memória. Em suma, depois que vivenciamos algo que é explorado pelos órgãos dos sentidos, uma informação fica gravada em nossa memória e sempre que passarmos por algo similar, nosso cérebro perceberá e informará todas as outras partes corporais envolvidas ou ne- cessárias naquele momento. O professor depende dessa capacida- de em promover experiências ou de formar novas memórias (pelos órgãos dos sentidos) para garantir que o conteúdo escolhido se efetive em conhecimento. Uma mãe teve dois filhos e os educou de formas diferentes. O primeiro filho foi su- perprotegido, educado de forma a se tornar dependente da mãe, inseguro em questões físicas e emocionais. Atualmente, é uma criança que tem dificuldades em controlar suas emoções e sua motricidade, por sem- pre ser limitada a vivenciar experiências que não lhe trouxeram grandes riscos. Obser- vando agora essa criança com quatro anos, percebemos a sua dependência total de um adulto, sem autonomia e bastante insegura que necessita de acompanhamento no sen- tido de estimular seu processo de desenvol- vimento global, passando por acompanha- mentos com psicólogos e psicomotricistas. Ao perceber essas dificuldades do primeiro filho a mãe quis aprender mais sobre desen- volvimento infantil, interessou-se pela pe- dagogia e percebeu alguns erros cometidos de forma que na educação do segundo filho possibilitou que o mesmo tivesse contato com estímulos diversificados, característicos da faixa etária. Percebemos sua autonomia, quanto a sua independência, auxilia o ir- mão mais velho no sentido de despertar a curiosidade levando-o a experimentar o que até então desconhecia. Portanto, compre- endemos como o ambiente, os estímulos, as mediações interferem no processo de aprendizagem de cada indivíduo, tornan- do-o único, além do cérebro que conforme os estímulos recebidos reorganizam suas ações, ampliando seus conhecimentos. Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em fatos reais.Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 56 A Leitura Como você sabe que cadeira é cadeira, ou mesa é uma mesa? Porque aprendi. Correto, mas poderia a palavra cadeira ser imaginada como uma mesa ou um ventilador? Nesse momento, não, pois alguém nos ensinou o significado de cada um dos objetos. Por exemplo, ao ler a palavra fogueira, uma imagem relaciona- da à fogueira apareceu na sua cabeça. Alguém, algum dia, te ensinou isso. Pois bem. Já perceberam uma criança em processo de aprendizagem por volta dos 2 anos? Passa na televisão uma imagem de um cavalo e a criança aprende a chamá -lo de “cabalo”, depois passa um cachorro, e a criança o chama de “cabalo”, depois um gato, o qual é também chamado de “cabalo”, ou seja, ela associa um animal que fica sob quatro patas a “cabalo”. Lentamente começamos a intervir e ensinar o nome de todos os animais e também lentamente a criança aprende e assimi- la essa informação na memória. Quando se começa a ler e a escrever, o processo de significação do que está escrito em um papel é compreendido com base no conhecimento que está na memória. Um grande erro do passado, foi a escola tentar nos ensinar o verbo to be sem que conhe- cêssemos o significado das palavras? Lembrem-se de que ordem natural é aprender a gerar significado aos sons, depois reproduzi-los (fala) e só no fim escrever. A leitura envolve percepção visual, auditiva e a memória, nesses mesmos componentes. A palavra é sonora, tanto na oralidade quanto no pensamento. Pós-Graduação | Unicesumar 57 Em outras palavras, parece que tem alguém falando dentro da nossa cabeça. Preste atenção, ao ler uma frase, parece que tem um homenzinho ou mulherzinha falando dentro da sua cabeça. Envolvendo também a memória visual e auditiva. A omissão desses componentes declina em problemas de leitura. emoção A emoção tem obviamente um papel fundamental na função adaptativa e de so- brevivência da espécie, ou ninguém tem medo de alguma coisa? Alguns chegam a ter síndromes do pânico, por exemplo, talvez você tenha medo de aranha porque há anos você assistiu àquele filme e desde então pensa que aranhas irão aparecer de todos os lugares. Esse medo é bom, auxilia na proteção da espécie. O sistema límbico, parte do cérebro onde se originam nossas emoções, parti- cipa dos processos de aprendizagem do ser humano, inclusive da aprendizagem dos conhecimentos escolares. Nossos processos de memória também são moldados pela emoção, algumas boas outras nem tanto. Desse modo, toda ação de ensino deve considerar as emoções. Mas pergunto a você: será que o currículo escolar está restrito apenas à escrita, leitura e aritmética? Onde devemos treinar ou ensinar apenas parte do potencial individual do ponto de vista cerebral? Ou o sistema educacional tem problemas em formar alguns talentos? Diante disso, é fundamental educar a emoção, aquela habilidade de motivar a si mesmo a persistir mediante os acertos e frustrações, controlar impulsos, centra- lizar emoções para situações específicas, motivar pessoas e fazê-las desenvolver seus melhores talentos (RELVAS, 2010). Será que a escola possibilita um aprendizado permitindo aos alunos correrem riscos, mas sem correrem perigo? Estamos preparando-os para a solução de problemas e a serem críticos socialmente? Fonte: Elaborado pelo Autor. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 58 Será então que nem todos são capazes de aprender? Como já estudamos até o momento, vimos que isso não é verdade, todos podemos evoluir e alcançar o co- nhecimento geral. Para tanto, torna-se fundamental que todo o sistema educacional atenda às exigências mínimas da atualidade oferecendo um ensino amplo apoiado nas novas tecnologias e sobretudo compreendendo o mínimo possível do funcio- namento cerebral e suas respostas a diversas situações, sem que esqueçamos das diferentes emoções que todos podemos sentir dado um momento específico. Como visto anteriormente, nosso cérebro trabalha integralmente, e poderíamos, quem sabe, trabalhar com a ideia de propor a reprodução de desenhos partindo de uma cópia em que o desenho base estaria de cabeça para baixo. Segundo a professora de arte da Califórnia Betty Edwards, citada por Relvas (2010, p. 114), esse método permitiria uma maior utilização do hemisfério direito do cérebro, havendo uma participação bem menor do hemisfério esquerdo, aquele dito que trabalha sempre quando os aspectos cognitivos estão mais evidentes. O problema é que reproduzir um desenho não deixa de ser um ato cognitivo, e o lado esquerdo do cérebro, por ser analítico e verbal, classificaria a figura e a cena antes de iniciar a cópia (detalhamento). A diferença é que, segundo a Edwards, esse método de virar o desenho de ponta cabeça deixaria a transcrição muito difícil, permitindo assim uma maior atuação do hemisfério direito, principalmente nas noções de posição, dimensionalidade e orientação. Outro ponto que chama muito a atenção é a educação emocional comparando os diferentes gêneros. Pois bem, são muito evidentes as influências que recebemos de “casa”. O meio social nos mostra que o homem é mais bruto e desleixado, já a mulher é mais meiga, dócil e organizada. O interessante é que isso acaba por se refletir no con- texto escolar, criando modelos de desempenho ou rendimento dentro da sala de aula, e essa realidade vem, cada vez mais, chamando a atenção de pais e profissionais. Diante desse contexto, muitos professores criam o seguinte modelo para bons alunos, o caderno deve ser limpo e caprichado, normalmente coisa de menina, in- terpretado muitas vezes como submissão, e aquele material oposto a isso é coisa de menino, normalmente considerado como desleixo. Segundo Relvas (2010), as professoras preferem ter, em suas salas de aula, alunas mais curiosas, que demonstre iniciativa, mas ainda com aquele velho padrão femi- nino de ser dóceis, meigas e tranquilas, tendo inúmeros desenhos coloridos em seu caderno., Por outro lado, as meninas em idade escolar já não se satisfazem com esse modelo de comportamento feminino, e apresentam no dia a dia uma condi- ção de independência que pode assustar os docentes, fazendo com que muitos Pós-Graduação | Unicesumar 59 de nós não nos sentamos preparados para trabalhar com as atuais tendências da sexualidade, respeitando os diferentes ritmos de desenvolvimento na infân- cia e na adolescência. A autora citada no parágrafo anterior também ressalta que professoras normalmente preferem alunos indisciplinados, desconsiderando o sexo, e se incomodam mais com alunos totalmente dependentes. Argumentam que mais vale um indisciplinado com boas notas e ótimo rendimento em sala, do que um que vai mal nas notas e com baixo poder de concentração. Cruzar esses estereótipos sociais no contexto educacional é injusto com os meninos, uma vez que essa subjetividade entra em cena e acaba por receber avaliações sempre negativas quando comparados às meninas. Essa competição entre os gêneros ocorre muito fortemente, no entanto, meninos normalmente rendem mais que meninas em atividades de explora- ção, que requerem iniciativa, seja para manipular experimentos em laboratório, trabalhar com mapas ou utilizar gráficos e tabelas. Mas se o menino apresenta um padrão negativo quando comparado às meninas, por que isso acontece? Lembre-se, todos chegaram à sala de aula com padrões sociais preestabelecidos, aquela educação trazida de casa, e se não fizermos nada, não daremos oportu- nidades para que as habilidades individuais apareçam. Sugiro que tente “inverter papéis”, em que todos os meninos e as meninas reali- zam atividades como cozinhar, consertar, jogar bola, organizar caixas de insetos etc.Proponha aos alunos que realizem tarefas “incomuns” para aquele tipo de gênero. Atenção Para que possamos aprender algo, devemos estar com nossa atenção voltada para aquele momento, objetivo ou situação. A aprendizagem depende da inten- sidade da atenção, sendo assim, é fundamental que esta seja educada. A formação de memórias de longa duração depende da retomada sucessiva do conteúdo para que fortaleçam as conexões que garantem a formação do conceito. O cérebro humano está sujeito a estímulos externos através dos sentidos, a estímulos internos advindos do organismo e a estímulos de ordem emocional. Com a atenção e o poder de concentração, não é diferente. Assim, há fatores ex- ternos e internos que facilitam ou dificultam a atenção. Cada um aprende de um jeito, estudamos de maneiras diferentes, correto? Na verdade, temos capacidades diferentes de manter nosso foco, nossa atenção. Alguns são facilmente distraídos Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 60 por sons externos que dificultam a leitura, por exemplo, outros, ao estudar para uma prova, necessitam de uma televisão ou rádio ligados. Tudo isso é treinado. Fonseca (2013) cita um modelo subdividindo o cérebro humano em três unidades básicas: a primeira é a unidade de alerta e atenção; a segunda de recep- ção, integração, codificação e processamento sensorial; e a terceira de execução motora, planificação e avaliação. Para o momento, manteremos brevemente nosso foco apenas na primeira unidade básica de alerta e atenção. Para o autor, elas são interdependentes, sele- cionam, filtram, alocam e refinam a integração de estímulos. Sua disfunção pode gerar hiperatividade, implicando em problemas de processamento (percepção + memória) e de planificação. Caro(a) colega, apenas cuide para não rotular um indivíduo que não segue um padrão aceitável dizendo que aquele aluno tem Síndrome de Déficit de Atenção, Hiperatividade etc. A escola do futuro deve atender às diversidades, aos diferentes estilos de aprendizagem (cada um aprende de um jeito). Esse é o grande desafio do pro- fissional: conhecer, perceber e identificar como cada aluno aprende para intervir com eficiência. Cristian é uma criança que ingressou na escola em idade normal, com 5 anos. Logo foi “rotulado” como um menino problema, agressivo ao extremo, “que- brava” a escola e materiais, apresentava problemas de comportamento e de conduta, além das dificuldades de aprendizagem. Com 12 anos, conseguiu concluir a 5º ano do ensino fundamental I. Era um aluno que vivia sob medicação, tomava Ritalina e Respiridona, o que ainda não controlava totalmente seus impulsos agressivos. Ainda no 5º ano, a pro- fessora percebeu a dificuldade de Cristian em fazer o registro do conteúdo e também da ortografia ilegível, no entanto, o seu raciocínio lógico matemático era muito rápido. Partindo dessa observação, passou-se então a ofertar a esse aluno atividades de raciocínio e lógica, o que fez com que ele aumentasse sua motivação e interesse nas atividades propostas. Dessa forma, esse aluno deixou de lado a agressividade e indisciplina, tornando-se mais participativo, sociável e interessado. Fonte: Elaborado pelo autor. O nome é fictício, mas o conteúdo do caso é real, com adap- tações. Pós-Graduação | Unicesumar 61 Caros(as) colegas, Não é querendo criticar, mas já criticando o currículo não só escolar, mas também o universitário, pergunto a vocês, quem aqui já aprendeu algo sobre o desenvolvimento humano? Desenvolvimento motor? Aprendizagem humana? Nada? Alguns certamente responderam que já, e aí vai outra indagação, aprendeu tudo em quanto tempo, um ou dois semestres? Pois bem, se nos propomos a trabalhar com pessoas, deve- ríamos conhecer as fases evolutivas humanas, não apenas em idade infantil, mas também na adolescência, na fase adulta e também durante o envelhecimento. Caso contrário, a probabilidade de nossas intervenções não surtirem efeitos, ou pelo menos não de forma tão satisfatória, é grande. Para iniciar, já posso colocar a seguinte in- formação: quando um bebê nasce já estão desenvolvidos o mesencéfalo e a medula, que são responsáveis pela frequência cardíaca (FC), respiração, funções vitais etc., ou alguém aqui já ensinou um bebê a respirar ou controlar os batimentos cardíacos? O córtex cerebral ainda é pouco desenvolvido, aquele responsável pela percepção de movimentos corporais, pensa- mento e linguagem. Por isso um bebê ao nascer parece uma “maria-mole”, ainda há de ser de- senvolvida muita coisa pelos próximos meses o cérebro e o sistema nervoso Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 62 de vida. E por fim, o córtex pré-frontal, que é a última coisa a ser desenvolvida, localizada logo atrás da testa, responsável pelo processamen- to executivo (BEE, 2011). Um dos princípios do desenvolvimento neurológico, é que o cérebro cresce em surtos mais do que de maneira suave. Já percebe- ram que o bebê de “maria-mole” logo passa a explorar o ambiente, aí ninguém mais segura essa criança, não é verdade? Toda fase de de- senvolvimento é acompanhado por uma fase de estabilização, em outras palavras, evolui, aprende algo, firma bem essa nova fase e somente depois desenvolve outra coisa. Na infância, os intervalos de crescimento e estabi- lidade são curtos, daí uma evolução tão rápida. Até os 5 meses de um bebê, os intervalos de evolução de uma fase para outra são de 1 mês, de passar a maior parte do tempo dormin- do ou chorando, de acompanhar movimentos com olhos, responder a carinhos com sorri- sos e sons, brincar com os cabelos de quem o segura, reconhecer as mãos e brincar com elas, sustentar a própria cabeça, pegar e manipular objetos e já reconhecer visualmente as pessoas que ficam com ele etc. Em pouco tempo, o bebê evolui consideravelmente em seu desen- volvimento. À medida que o bebê envelhece, seus períodos de crescimento e estabilização também passam a ser mais longos, ocorrendo em torno dos 8, 12 e 20 meses, processos de se arrastar, engatinhar, tentar pegar os objetos, sentir a ausência dos pais, gostar de jogar coisas no chão para aprender os barulhos que elas farão, gostar de passear, começar a ficar em pé e aprender a andar, adorar brincar com diversas coisas, e explorar o ambiente, mesmo que para isso tenha de abrir gavetas e explorá-las, tudo isso permite o início do processo de aquisição da linguagem, em que lentamente a criança irá nomear e apontar os objetos. O período entre os 2 e 4 anos, ocorre muito lentamente, nele se dá o desenvolvimento da fala (muito rica por sinal), no qual a criança aprende a sig- nificação de inúmeros objetos. Após os 4 anos, há um outro surto importante, como a fluên- cia da linguagem, tanto para entendimento quanto para a fala. Todos esses surtos de crescimento citados anteriormente no cérebro infantil ocorrem de forma restrita para algumas partes específi- cas, por exemplo, aos 20 meses, os marcos de desenvolvimento cognitivo, onde a maioria dos bebês evidenciam o planejamento di- rigido ao objetivo em seu comportamento. Nesse momento, a criança já pode arrastar uma cadeira para ficar alto o suficiente para alcançar algo proibido que esteja em um local mais alto, ou nunca ninguém viu uma criança elaborar um plano de ação para chegar à janela escalando o sofá ou ainda colocar uma cadeira, subir na cadeira, e a partir dela subir no balcão da cozinha e somente depois al- cançar o pote de balas talvez? Segundo Bee (2011), dois surtos do cres- cimento importantes ocorrem durante a meninice, onde por voltados 6-8 anos, tornam- se evidentes melhoras nas habilidades motoras finas e na coordenação olho-mão, processo inicial importante para que exista qualidade na escrita, por exemplo. Já aos 10-12 anos os lobos frontais do cérebro, focos no processamento Pós-Graduação | Unicesumar 63 da memória, lógica e planejamento. Ainda em consonância com a autora citada acima, outros dois surtos de cresci- mento cerebrais importantes acontecem na adolescência. O primeiro deles ocorre entre os 13 e 15 anos e o segundo por volta dos 17 anos até a fase adulta. No primeiro deles, podemos perceber uma melhora significativa da percepção espacial e das funções motoras, mas alguns leitores cer- tamente perguntarão: “mas se isso passa a ser bem desenvolvido, por quais razões adolescen- tes nessa faixa de idade são tão estabanados ou desastrados?“ A situação é a seguinte, normalmente no início da adolescência um surto de crescimento faz com que as estruturas corporais cresçam rápido demais, assim esses indivíduos acabam por não terem tempo suficiente para o cérebro perceber e calcular em pouco tempo a posição, a direção, a angulação para que os movimentos aconteçam. Em outras palavras, o cérebro está acostuma- do com uma mão menor, pé menor, cabeça, tronco de todas as outras estruturas corpo- rais menores, assim o cérebro ainda imagina um indivíduo, por exemplo, com 1,50m de altura quando na verdade já se tem 1,62m. Certamente a percepção ainda defasada e que logo será percebida pelo cérebro acaba ocasionando quedas constantes, derrubam e quebram copos, pratos etc. Talvez pela ne- cessidade de o cérebro perceber como está no espaço, esse novo corpo que cresceu, e aprender sua nova posição, que adolescen- tes ficam tanto tempo na frente do espelho. Nesse primeiro momento da adolescência, por volta de 13 e 15 anos, existe uma diferen- ciação bastante grande em relação àqueles alunos com idades escolares menores, em que os adolescentes já não aceitam mais sequer com as “crianças mais novas” uma vez que já são bem “crescidinhas”, possuem pensamen- tos abstratos e refletem sobre seus processos cognitivos. Algumas mudanças profundas no córtex pré-frontal ocorrerão e já terão nessa idade a capacidade de controlar consciente- mente seus pensamentos. Existe também nessa fase da evolução humana, do ponto de vista ce- rebral, uma rápida formação de novas sinapses em outras partes do cérebro, áreas que ainda necessitam de um melhor amadurecimento, esse excesso de sinapses é similar àquela que tínhamos no início da vida, em que éramos responsáveis por fortalecê-las aprimorando o processo de ensino-aprendizagem. Aqui cabe lembrá-lo(a) da importância de se fortalecer as sinapses da melhor maneira possível, assim como em um bebê, em que devemos estimular positivamente com o máximo de intensidade esse cérebro que está se reformulando. Ainda nessa fase, uma mudança significa- tiva assusta pais e professores, porque aquele garotinho ou aquela garotinha que adorava a companhia dos pais deixa de acompanhá-lo? Por que não gosta mais das mesmas coisas e dos mesmos brinquedos? Na verdade esses surtos de crescimento que ocorrem no cérebro são os responsáveis por isso. Não é que eles não “te amam mais”, apenas querem vivenciar e aprender novas coisas, ainda acima, disse que o cérebro, assim como de um bebê, está cheio de sinapses que devem ser remoldadas. Desse Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 64 modo eles querem vivenciar com suas pró- prias pernas, pelas suas próprias decisões. Essa mudança é natural, todos nós já passamos por isso e assim sempre será. O cérebro deles já não gostam mais das mesmas coisas, pois perderam o interesse. Estão desmotivados com aquelas vivências que tinham até esse momento. Ainda é nossa responsabilidade auxiliá-los para que façam as melhores escolhas, pois estão em um momento que não só querem, mas, pre- cisam experimentar novas situações e aí que mora o perigo, sem nossa interferência posi- tiva. Veja bem, não é proibindo e trancando dentro de casa ou amarrando em uma cadeira, mas sim, dialogando e permitindo que dúvidas boas fiquem na sua cabeça, que consigam di- ferenciar o certo do errado, pois como já não querem mais estar com você 24 horas por dia, virá a necessidade de se incluir em um grupo social, terão a necessidade de ser testados e é aí que mora o perigo, o mundo das drogas, da sexualidade, das vivências perigosas. Por isso, defendo que não é amarrá-los, mas sim dialo- gar e fazer com que aprendam a diferenciar o que irá gerar interesses, que mudará as marcas cerebrais, mas sem riscos à saúde ou à integri- dade física dos adolescentes e de todos ao seu entorno. Fiquem tranquilos, eles ainda te amam e respeitam, apenas precisam de espaço para começar a viver e aprender com suas próprias pernas, mas como sabemos que eles ainda não estão prontos para isso (algumas mães e pais jamais estarão) devemos sim interferir da melhor maneira nessa evolução desses indivíduos. O segundo surto de crescimento da ado- lescência acontece em torno dos 17 anos e se estende até a fase adulta. Os lobos frontais do córtex são o foco do desenvolvimento, contro- lam a lógica e o planejamento. Já conseguem lidar melhor com as situações problemas que requerem funções cognitivas (BEE, 2011). Nessa idade não necessariamente o cérebro está completamente maduro. Lembre-se, essa maturação pode ocorrer até os 20 anos de idade, é comum encontramos na mídia adolescentes ou quase adultos que se envolvem em diversos crimes ou aciden- tes de trânsito, por exemplo. Para muitos, já se imaginam adultos com total consciên- cia de seus atos, mas na verdade, o cérebro ainda está finalizando sua maturação e talvez ainda não tenha a noção de consequência, ou seja, se pegar o carro e estiver dirigindo a 180 km/h, a adrenalina, a estimulação que o cérebro precisa, estará sem dúvida acontecendo, no entanto certamente ele não estará prevendo que nessa velocidade ele pode colidir com outro carro e, além de morrer, levar ao óbito outras pessoas. Vou além, essa noção de consequência, muitas vezes, passa pela condição de conseguir pensar ou se colocar no lugar do próximo e antecipar o que os demais sentirão em virtude dos seus atos. Voltamos ao carro, dirigiu em alta velocidade, colidiu o veículo e matou algumas pessoas. A noção de consequência não deve ser apenas “nossa que besteira que fiz, matei algumas pessoas”, mas sim, pensar “matei pessoas inocentes e estou fazendo os familiares sobreviventes sofrerem muito, que besteira que fiz”, isso leva tempo para ser al- cançado. Isso vem com a maturidade: “se eu Pós-Graduação | Unicesumar 65 tivesse escutado mais meus pais e professo- res, certamente teria tido uma vida mais fácil”, não é assim? Maturidade pessoal, só o tempo traz, mas devemos sim interferir e influenciar positivamente esses indivíduos. mesmo acreditando que é machão, se ficar de madrugada em uma rua escura ele morrerá de medo, não é verdade? Então plante a dúvida na cabeça dele, coloque talvez dessa forma “você já pensou que quando voltar da festa pode não ter mais nenhum posto de combustível aberto e pode ficar sem gasolina de madrugada? Não é melhor verificar e se necessário passar no posto antes de ir?”, semeou a dúvida, aí para seu filho o resultado provavelmente será o se- guinte “eu decidi passar no posto e abastecer o carro”. Não é difícil, é apenas compreender a importância das fases dedesenvolvimento cerebral e criar métodos diferenciados. Como disse o ex-jogador de futebol Ronaldo “fenômeno” em comentário para a rede Globo de televisão durante o jogo do Brasil x Camarões, realizado no dia 23/06/2014 pela Copa do Mundo de Futebol da FIFA (Federação Internacional de Futebol), o jogador Neymar, com o gesto de cumprimentar todos os demais atletas da seleção brasileira antes da partida, chamando a responsabilidade para si, mesmo tendo somente 22 anos de idade, sendo mais novo que muitos outros jogado- res, talvez ainda não tenha noção do quão grandioso é esse gesto, do quão importante está sendo para aquele grupo de jogadores, “Neymar ainda não tem noção do quanto representa para esse grupo. Isso só a idade o fará perceber”, em outras palavras, logo o cérebro, com o passar da idade, perceberá o tamanho da pressão e responsabilidade que esse momento gerou para esses jogadores, principalmente para um dos líderes da seleção brasileira de futebol. Todos sabem que a realização do Exa- me Nacional do Ensino Médio (Enem) é muito importante para facilitar o in- gresso em alguma Instituição de En- sino Superior (IES), uma vez que mui- tas utilizam as notas atingidas em seu processo seletivo. Veja a quantidade de instituições de diversas regiões do país que irão utilizar em vestibulares 2015 o Enem 2014 ou o Sistema de Seleção Unificada (SiSU): Região Cen- tro-Oeste = 11 IES; Região Nordeste = 29 IES; Região Norte = 14 IES; Região Sudeste = 27 IES; Região Sul = 20 IES. Para conhecer a lista completa de Institui- ções que utilizam ou não o Enem ou SiSU em seus processos seletivos, acesse o site <http:// vestibular.brasilescola.com/enem/lista-ade- sao-enem.htm, ou http://enem.net/universi- dades-e-faculdades-enem-2014.html.> Texto extraído e elaborado a partir dos sites citados com acesso em 31 de agosto de 2014. Assisti a um vídeo interessantíssimo na inter- net que exemplificava isso de forma magnífica. Dizia basicamente o seguinte: se um filho com 18 anos pedir o carro para ir a uma festa e você autorizar, mas mandá-lo passar em um posto e abastecer o veículo, certamente ele não passará e ficará parado sem combustível. Lembra que disse a pouco que devemos influenciar, mas eles devem decidir por conta própria (aspectos cerebrais). Pois bem, adolescente é medroso, Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 66 O desenvolvimento da mente, na verdade ,é resultado da maturação do Sistema Nervoso, em outras palavras, é a possibili- dade de realizar atos motores e cognitivos à medida que a área que controla sua respec- tiva função, localizada no Sistema Nervoso, se desenvolve. A complexidade de nosso comportamen- to inicia por volta dos 2 meses de vida. Ainda no período gestacional, algumas células já podem disparar potências de ação que irão ativar outras células nervosas e musculares. O feto já é capaz de realizar movimentos como: piscar os olhos, abrir e fechar a boca, deglutir ou alguém aí já ensinou um bebê a movi- mentar os olhos ou as mãos? Claro que não, ele já nasce com os mús- culos responsáveis pelo movimento dos olhos maduros. O bebê acompanha diver- sos movimentos ao seu redor sem a intenção sensorial. Ele apenas está conhecendo o am- biente que o cerca, certamente busca olhar para outras pessoas que se movimentam, gosta de visualizar cores vivas ou qualquer outra coisa que se movimente ainda mais se mexer e emitir sons, um animal por exemplo. Posteriormente, além de acompanhar com os olhos, irá segurar e manipular objetos. desenvolvimento da mente e do comportamento Pós-Graduação | Unicesumar 67 Tudo isso está relacionado com modifica- ções biológicas que ocorrem de maneira intrínseca e que modificam o funcionamento do Sistema Nervoso. As progressões dessas mudanças vêm de dentro do próprio orga- nismo e são moduladas pelo ambiente. Não quero aqui abordar teorias Piagetianas ou Vigotskianas, apenas representar que nossas funções cerebrais são modificadas confor- me o meio em que vivemos. Nosso cérebro se adapta, em outras palavras, os neurô- nios realizaram sinapses diferenciadas de acordo com a necessidade ou estimulação ambiental. A criança é como uma planta, ela reve- la-se por si só, mas os fatores ambientais podem modificar sua progressão do desen- volvimento. A existência de estímulos como de adultos, brinquedos, luz etc. faz com que tudo seja mais intenso. Para trabalhar com criança devemos saber que as conexões existem, mas elas precisam ser estabilizadas e as sinapses reforçadas para um desenvol- vimento pleno de todas as funções. Bee (2011) aponta que os sistemas visual e auditivo de um bebê são imaturos ao nas- cimento, onde tudo é um misto desfocado, com sons ouvidos em um silêncio neutro, sem nenhum significado, apenas barulho. Com a progressão no desenvolvimento, com o manuseio de objetos serão adquiridas in- formações sobre formas e lugares. O mais importante é que a criança aprende pouco a pouco, no sentido de espaço e tempo, cada uma no seu ritmo. Você já ensinou um recém-nascido a mover os braços? Fonte: Autor. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Ins- tituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 24% da população Brasileira possui algum tipo de deficiência. O registro reali- zado em 2012 no Brasil aponta que o país conta com 45,6 milhões de pessoas com de- ficiências motora, visual, auditiva ou mental. Com base no Censo 2010, a maior incidência é a deficiência visual que atinge aproxima- damente 36 milhões de pessoas (aproxima- damente 19%) declararam ter dificuldade de enxergar, mesmo com óculos ou lentes de contato. Praticamente 10 milhões apresen- tam algum grau de deficiência auditiva, 13 milhões apresentam deficiências motoras e quase 3 milhões portam deficiência mental ou intelectual. Ainda de acordo com informações do IBGE, a região nordeste registra os maiores níveis para todas as deficiências. Já a região sul, apre- sentou o menor percentual de pessoas com deficiência visual, o centro-oeste tem a me- nor taxa de deficiência auditiva e motora, e a região norte tem menos deficientes mentais. Fonte: Texto extraído de <http://www.todosnos. unicamp.br:8080/lab/ibge-24-da-populacao-pos- sui-algum-tipo-de-deficiencia>. Acesso em: 31 de Agosto de 2014. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 68 Com a maturação do cérebro ocorren- do em seu tempo natural, alguns aspectos desenvolvimentistas ficam muito evidentes apenas pela observação. Ao final do 1º mês de vida, a musculatura do bebê já não é tão flácida, e a inervação motora já é muito mais eficiente (capaz de segurar objetos, mas não de manipulá-los, aos 10 meses é capaz de sentar e até de ficar em pé muitas vezes), possui grande habilidade com as mãos. Alguns meses depois é capaz de ficar em pé sem auxílio nenhum, aí ninguém mais segura esse bebê. Só permita aqui apontar minha indignação com aqueles andadores, vulgo “disquinho”, em algumas localidades, se alguém tem isso em casa, quebre. Não tenho condições aqui de afirmar se ocorrerão preju- ízos e em qual magnitude para essa criança, mas não é a ordem natural do desenvolvi- mento humano. Assim, existe a possibilidade do bebê se desenvolver de maneira frágil, uma queda e já ocorre uma fratura, talvez não aprenda que se cair deve se levantar sozinho etc., na sequência, pouco a pouco surgem as tentativas de se comunicar e as primeiras palavras (meninas normalmente andam e falam mais rápido que os meninos, se passarem dos dois anos e não houvernem a tentativa de se comunicar procure um es- pecialista). Ainda não consegue se socializar, mas o convívio social favorece o desenvol- vimento das emoções e da organização de suas ideias. Após os dois anos, então, o que é dele é dele. Dificilmente quer comparti- lhar com o próximo, diferentemente dos primeiros meses. Aos 2 anos já deixa de ser bebê. A compreensão das palavras ainda é restrita e ele precisa organizar sua experiên- cia mexendo, manuseando e apertando. Em outras palavras, explorando o ambiente, cuide das gavetas ou se tudo estiver quieto e silen- cioso, corra porque ele está aprontando. De 2 para 3 anos as mudanças são visíveis com o aumento da coordenação motora, e aos 3 anos já corre e pula demonstrando bastante equilíbrio. Nessa fase, ocorre o amadureci- mento das funções cognitivas e a criança torna-se capaz de prestar atenção e repetir sequências de números e histórias, tendo ela o hábito de ler e contar histórias, mesmo que elas já as conheça. Mude algum perso- nagem ou permita que elas faça isso, e que acima de tudo, elas perceba as mudanças, você também pode iniciar a história e para que ela termine, entre outras possibilidades. As mudanças nesses três primeiros anos de vida, quando abordamos o desenvolvi- mento do comportamento, são, sem dúvida, marcantes e sujeitas à intensa investigação. Já o desenvolvimento do corpo e da mente continua por muitos anos. No outro extremo, temos aspectos do desenvolvimento relacionados ao envelhe- cimento, que é inevitável, e os mais velhos também devem aprender, e da mesma forma podemos e devemos intervir, como já foi citado anteriormente, sobre a estimulação cognitiva de idosos, mas em termos simplis- tas, assim, como todos os nossos sistemas orgânicos, o nosso Sistema Nervoso também envelhece. Difícil delimitar quando isso se inicia, já Pós-Graduação | Unicesumar 69 que até a terceira década de vida os proces- sos de mielinização estão acontecendo, mas provavelmente o envelhecimento começa antes disso. Na verdade, envelhecimento é um processo extenso do desenvolvimento. Existem programas para conter ou retardar o envelhecimento, além da estimulação cogni- tiva, poderia apontar a reposição hormonal. Acredita-se que mutações e anomalias cromossômicas se acumulem ao longo da idade, assim como erros na duplicação do DNA que ocorrem de maneira aleatória se acumulam ao longo do tempo. Como os erros genéticos passam a ser grandes, a for- mação de proteínas aberrantes nos leva à senilidade (BEE, 2011). Apesar de muitos idosos terem suas capaci- dades intelectuais intactas, outros apresentam perda de memória e de funções cognitivas. O peso, os giros do córtex cerebral têm sulcos mais profundos apontando a atrofia do córtex, associada à perda neuronal (BEE, 2011). Até em virtude dessa condição de que quando utilizamos nossa memória ou o cérebro com frequência nos mantemos mais saudáveis do ponto de vista neurológico, para tanto atualmente está sendo bastante difundido o trabalho de estimulação cogniti- va para idosos, que pode ser entendido como atividades que buscam estimular as funções cognitivas superiores como memória, veloci- dade de processamento, linguagem, função executiva, dentre outras. O objetivo é ameni- zar ou mesmo sanar as possíveis dificuldades em uma ou mais dessas funções. Idosos que recebem estimulação, demoram mais para começar a sofrer pre- juízos na memória ou em outras funções cognitivas superiores quando comparados a idosos que não recebem nenhuma esti- mulação, além de gerar inúmeros benefícios para a qualidade de vida na velhice. Informações declaradas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apon- tam que os maiores índices de incidência de portadores de deficiência estão entre mulheres e idosos. Se compararmos todos os portadores de deficiência, cerca de 26 milhões são mulheres (26,5%), 20 milhões são homens (21,2%) e os idosos apresen- tam o maior índice com cerca de 67,7% das pessoas com mais de 65 anos apresentam algum tipo de deficiência. Fonte: Texto extraído de <http://noticias.uol.com. br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/06/29/idosos-e -mulheres-sao-maioria-entre-portadores-de-defi- ciencia-aponta-ibge.htm>, com acesso em: 31 de Agosto de 2014. Maiores informações no site www. ibge.gov.br Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 70 Do nascimento até a nossa morte aprende- mos coisas novas ou adaptamos informações antigas. Todo esse conhecimento é obtido por meio da experiência sensorial de tudo aquilo que nós vemos, ouvimos, sentimos, degustamos e cheiramos. A partir desse ponto, fica claro para todos nós que muitas vezes adultos podem atrapalhar o desenvol- vimento natural de um indivíduo saudável em constante evolução, pois “boicotamos” e impossibilitamos as experiências que conse- quentemente marcam o cérebro infantil nos momentos evolutivos adequados. Foi apresentado que a influência do am- biente é fundamental para moldar nossas conexões neurais e assim aprendermos. É como a história contada para uma criança da Educação Infantil, a literatura nesse caso é uma atividade de exploração do imaginário, onde desenvolverá a percepção visual pelas figuras do livro, observando personagens e até se tornando o ator principal, desenvol- vendo a atenção, despertando o interesse, trabalhando as emoções, possibilitando a aplicação de regras e tudo isso já fazendo parte do processo de aprendizagem sem que necessariamente ela tenha de ler ou escrever. Entendemos assim, que o “cantinho do castigo” para crianças de 3 anos é perda de tempo, uma vez que eles não têm ca- pacidade cognitiva para compreender as consequências de seus atos e ações, que a criança deve mexer, manipular, sentir as mais variadas possibilidades para adquirir conhecimentos diversos. Percebemos nessa discussão que adolescentes devem ser dire- cionados por meio de dúvidas plantadas na cabeça deles, já que para essas pessoas o im- portante é descobrir pelas próprias pernas. Nosso direcionamento é fundamental, mas não podemos obrigar o cérebro a ter atenção ou interesse em aprender tal informação que desejamos passar. Caro(a) colega,, ao fechar essa unidade, re- pensem as condutas utilizadas com crianças e adolescentes, pois os estudos do cérebro estão aí para auxiliar no transcorrer do pro- cesso e ser concluído com êxito. considerações finais Pós-Graduação | Unicesumar 71 1. Nós, seres humanos, nascemos já com o mínimo de conhecimento para a sobrevivência e logo nosso cérebro começa a mudar, crescendo em surtos, sempre com um período sequente de estabilização. Tais surtos podem acon- tecer em tempos e proporções diferentes. Quais são as principais idades em que essas mudanças ou esses surtos acontecem intensamente em nosso cérebro? 2. Se levarmos em consideração as dimensões internas do desenvolvimento de uma criança, podemos afirmar que ela realiza aquisições de conheci- mentos diversos para, a partir de então, começar a falar, ler e escrever. Um indivíduo que brinca naturalmente mobiliza áreas do cérebro e provavel- mente aprenderá mais facilmente os conteúdos formais. Dentro desse contexto, por qual motivo é interessante o desenvolvimento de atividades que levam em consideração e primam os órgãos dos sentidos? atividades de autoestudo Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 72 filme L’enfant Sauvage / O Menino Selvagem / O Garoto Selvagem / El Pequeño Selvaje. Elenco: Kevin Kline, Steven Culp,Embeth Davidtz Duração: 1h 49min Ano: 1970 País: França Gênero: Drama Sinopse: O autor François Truffaut, baseando-se em fatos reais, relata a história de um menino, encontrado em uma floresta na França por caçadores, que jamais teve algum tipo de convívio social com outras pessoas, onde o garoto não fala e não anda como humano, ele tem por volta de 11 ou 12 anos, e só vive em contato com animais. O menino foi levado para casa do Dr. Itard, onde com muitos cuidados foi ensinado a viver como humano, e aos poucos o menino foi desenvolvendo suas capacidades e surpreendeu a todos com seus esforços. filme Pós-Graduação | Unicesumar 73 córtex pré-frontal Versus emoções e tomaDa De Decisão Todos os documentos que tratam de aspectos cognitivos, emocionais, de aprendiza- gem, ou em outras palavras, primam pelo estudo voltado às funções cerebrais trazem consigo uma nota, um texto ou uma abordagem mais complexa sobre o famoso caso do trabalhador ferroviário “Phineas Gage”, em que aos 25 anos de idade, no ano de 1848, nos Estados Unidos (EUA). Foi exposto a uma explosão mal calculada que gerou uma de- sastrosa reação, possibilitando que uma barra de ferro de 1 m de comprimento, 3 cm de diâmetro e 6 kg, atravessasse o crânio do operário, gerando uma enorme lesão no cérebro e perda de um dos olhos. Com o acometimento da lesão, certamente pela falta de um tratamento médico satisfatório, até pela falta de pesquisas e de medicamentos que surtissem efeito, Gage, superando todas as expectativas, sobreviveu, e após dois meses estava com seu tratamento concluído. O mais impressionante é que mesmo sem todos os recursos médicos atuais, ele não demonstrava nenhum prejuízo em relação aos seus sentidos. Podia ouvir, falar, sentar, se movimentar e utilizar o olho restante para a visão sem nenhuma restrição. No entanto, os familiares e amigos que conheciam e con- viviam com o trabalhador relataram que “Gage já não era mais Gage”, antes uma pessoa persistente, eficiente, responsável e capaz, passou a ser, após a lesão, incapaz de realizar suas funções, irresponsável, irreverente, caprichoso, obsceno e socialmente inadequado. Obviamente perdeu sua família, amigos e emprego, morreu cedo aos 38 anos de idade e atualmente seu crânio e a barra de ferro estão expostos em um museu nos EUA. Pesquisadores passaram a utilizar esse caso como fonte ou inspiração para novas pesqui- sas, e com os recursos tecnológicos atualmente, foi possível compreender que o córtex pré-frontal é fundamental para o processamento emocional e para tomadas de decisão. Poderia relatar outro caso similar, que ocorreu com um brasileiro, Eduardo, que também sofreu uma lesão que atingiu a área frontal do cérebro, quando um vergalhão atravessou seu crânio em 2012. Naquela época acreditava-se que o brasileiro após perder 11% da massa encefálica ficaria mais desinibido, bem humorado, mas teria dificuldade em plane- jar o futuro, mudança comportamental e difícil relacionamento com familiares e amigos. Atualmente, Eduardo continua surpreendendo, uma vez que não apresenta nenhum tipo de sequela ou alteração de sua personalidade ou do comportamento, segue com uma vida normal. Esse é mais um dos maravilhosos casos que o cérebro se adapta para suprir a falta de alguma região específica que foi lesada (neuroplasticidade). Esse mis- terioso caso da medicina fez com que muitas autoridades médicas voltassem esforços para compreender esse fato e sugerem que como o caso de Phineas Gage, se torne alvo de estudos no futuro. Fonte: Texto baseado na obra de Lent, R. Neurociência da Mente ao Comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008, e na reportagem exibida pelo programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão em maio de 2014, estando disponível também em <http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/05/ brasileiro-ferido-por-vergalhao-e-estudado-por-neurocientistas-em-ny.html>, com acesso em: 31 de Agosto de 2014. Gestão de Negócios 74 relato de caso Em uma determinada escola, logo após as férias, houve uma grande compra de materiais pedagógicos. Dentre eles, havia uma quantidade enorme de bonecas fora do “padrão de beleza” para os dias atuais. As bonecas eram negras, com uma barriga saliente e “sem bumbum”, ou seja, com aspectos físicos desproporcionais diante dos tais padrões co- nhecidos pelas crianças. Cada turma recebeu uma quantidade dessas bonecas juntamente com outros brinquedos. A professora, sabendo da importância de ensinar as diferenças e influenciar positivamen- te essas crianças de 4 anos de idade, deixou as bonecas antigas, aquelas mais “bonitinhas” guardadas e levou para a sala apenas os novos brinquedos. Ao distribuí-las para iniciar a atividade, se surpreendeu com a rejeição de praticamente 100% da turma, e mesmo com a tentativa de incluir esses brinquedos, muitas meninas preferiam brincar de “carri- nho” com os meninos ou fazer atividades didáticas, mas não aceitaram as novas bonecas. Diante dessa situação, não houve alternativa, que não a de se reunir com a equipe pe- dagógica e demais professores, para tentar solucionar esse “problema” e encontrar uma estratégia para que as crianças passassem a aceitar essas bonecas “diferentes”. Ficou decidido após a reunião que: as bonecas antigas ficariam guardadas até que as crianças aceitassem e brincassem com os novos materiais. Deveria ser apresentada a história do livro “A menina bonita do laço de fita” que explora as diferenças, tanto no livro quanto na realidade; apresentação de diferentes gravuras onde os aspectos físicos fossem valorizados, utilizando recortes e colagens feitas pelos próprios alunos, além da exploração oral das imagens formadas; trabalho com aspectos emocionais, valorizando os sentimentos (todos temos os mesmos sentimentos, independentemente de nossos aspectos físicos, todos necessitam de afeto), respeitando ao próximo uma vez que as nossas capacidades não dependem de um padrão estético, cor, raça ou gênero. Após tantas tentativas e estratégias, as estimulações feitas pela professora começaram a surtir efeito e as crianças lentamente começaram a brincar com as novas bonecas. Logo as bonecas antigas voltaram a fazer parte das atividades. Fonte: Elaborado pelo autor e baseado em fatos reais. Pós-Graduação | Unicesumar 75 3 cérebrO: O pOder de se reprOgramare fOrmar memórias Professor Mestre Weslei Jacob Plano de estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Evolução do Estudo do Cérebro • Neuroplasticidade Cerebral • Formação de Memóriasobjetivos de aprendizagem • Conhecer a evolução do estudo cerebral e/ou neurológico. • Aprender sobre a capacidade de adaptação neuronal. • Entender como são formadas as memórias. São raras as pessoas que conseguem lembrar-se de uma parte de sua infância, principalmente nos quatro primeiros anos de vida, pelo fato das redes neuronais e toda a base cerebral ainda não estar to- talmente formada, bem como pelas informações que são levadas de um lado para o outro pelos neurônios ainda não estarem com- pletamente consolidadas. É interessante ressaltar o quão importante é para o cérebro e sua formação de memórias a estimulação nas idades corretas, como o fato de propor desenhos até os sete anos e do por que fortalecer a escrita e a matemática na adolescência. A ausência da prática da leitura e dos cálculos, bem como de qual- quer outra situação, pode levar à perda de nossas memórias, nosso cérebro, se não estimulado, pode vir a “falhar” durante a terceira idade. Formar memórias é mais do que moldar a personalidade, é promover conhecimento saudável ao longo de toda uma vida. Nesta última unidade, iremos descrever os aspectos principais de como o aprendizado fica retido em nossa memória e todos os seus mecanismos neurais. Aqui serão analisadas a evolução do estudo do cérebro e as redes neuronais.Será apontado também, como são formadas as memórias em todas as suas fases, funções e duração. Descrevem-se aqui os mecanismos de feedback ou retroalimen- tação que são essenciais para o aprendizado a nível cerebral das funções motoras que não deixam de fazer parte do aprendizado. Falar em aprendizado, é mencionar de maneira direta a formação de memórias, termo referente à aquisição de conhecimento ou de informações que ficam gravadas em nosso cérebro, essa aquisição é denominada aprendizagem. As memórias são codificadas nos neurônios, armazenadas em redes neuronais e evocadas por essas mesmas redes ou até mesmo por outras. Nossas memórias podem ser moldadas por emoções que vão além de estar triste ou alegre, fazem parte da exteriori- zação do desejo e das vontades do ser humano ao longo do seu desenvolvimento. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 78 A década de 90 foi considerada a década do cérebro, onde devido a uma necessi- dade histórica de se compreender não só o funcionamento desse órgão como um todo, mas para a solução de diversos pro- blemas sociais. Durante os primórdios da civilização humana na história, inúmeros são os relatos que tentavam compreender o cérebro humano e suas relações com as funções mentais, e a partir disso compreender todo o comportamento e funcionamento do corpo humano. Já em 1.700 a. C., com o passar dos séculos, alguns dos grandes alvos de estudos na tentativa de compreender as operações mentais eram o cérebro, coração e o fígado. Civilizações antigas do Egito, Mesopotâmia, Índia e China buscavam encontrar onde estava localizada a alma no corpo humano. A necessidade de desvendar o funciona- mento do corpo humano e tentar encontrar respostas do por que pessoas aparentemen- te perfeitas apresentavam características fora dos padrões sociais aceitáveis, assim, o cérebro continuava a ser alvo de muitos estudos e, lentamente, devido-a sua ativida- de elétrica, começou a ser mapeado. Assim, chegamos aos Estados Unidos no final do século xx, onde o governo auto- rizou e facilitou a liberação de verbas para estudos, construção de laboratórios e equi- pamentos que permitissem estudar ainda do estudo do cérebro eVoLUÇÃo Pós-Graduação | Unicesumar 79 mais o cérebro e quem sabe com isso resol- ver vários problemas de cunho neurológico. Evidentemente que muito rapidamente essa necessidade de continuar a desvendar o cérebro se espalhou por todo o mundo. Várias obras e pesquisas foram realizadas, ainda com o intuito de comparar o cérebro humano com uma máquina, um computa- dor, mas somos diferentes, pois tomamos decisões por conta própria, temos emoções e inúmeras funções que não se pode encontrar em um aparelho eletrônico. No entanto, po- deríamos destacar cinco importantes pontos que deixam claro a atuação do cérebro em qualquer momento do nosso cotidiano: (1) todos os processos mentais, inclusive os mais complexos, derivam de operações do cérebro; (2) os genes e seus produtos, as pro- teínas, são determinantes importantes dos padrões de interconexões entre neurônios cerebrais e dos detalhes do seu funcionamen- to; (3) da mesma forma que as combinações de genes contribuem para a conduta (in- cluindo conduta social), reciprocamente a conduta e os fatores sociais podem exercer ações sobre o cérebro, modificando a expres- são dos genes e, em consequência, alterando as funções dos neurônios e seus circuitos; (4) as modificações da expressão gênica, pro- duzidas pela aprendizagem, originam novos padrões de conexões neuronais; (5) de tal modo, a psicoterapia é eficaz para produ- zir mudanças a longo prazo na conduta de pacientes, fazendo isso provavelmente por meio da aprendizagem, que deve provo- car alterações na expressão dos genes que O cérebro humano é como um com- putador? Será possível que um robô tome decisões por conta própria? Fonte: Elaborado pelo autor. alteram a força das conexões sinápticas e modificações neuronais estruturais, as quais, por sua vez, mudam os padrões anatômicos das interconexões neuronais dos cérebros. Sobre os itens, poderíamos destacar que o dois e o três levam em consideração as interações entre dimensões biológicas e cul- turais dos sujeitos, e o três e o quatro, que a genética não é predominante no com- portamento dos sujeitos. Determinados genes propiciam comportamentos sociais inadequados, podendo ser corrigidos pela aprendizagem (modificação sináptica interneurônios). Determinados genes propiciam comportamentos sociais inadequa- dos, podendo ser corrigidos pela aprendizagem. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 80 Ainda na década de 90, o estudo do cérebro foi incrementado com as neuroimagens, as quais é possível acompanhar em tempo real o processo neuronal de um sujeito que está sendo testado. Pode-se apontar os seguintes testes: Imagem de Ressonância Magnética (IRM); Imagem por Ressonância Magnética Funcional (IRMF); Tomografia por Emissão de Pósitrons (TEP). Esses novos equipamentos subsidiaram a visualização de alguns processos cerebrais e, assim, o entendimento de certas dificuldades de aprendizagem devido à falta de funciona- mento de algumas partes do cérebro. Um exemplo bastante interessante é o de indivíduos com dislexia (não conseguem processar sons rápidos), dificuldade com fonemas, que ocorre normalmente porque no cérebro dessas pessoas existe a falta de conexões neurais, quando comparadas as de pessoas normais. Após a detecção desse distúrbio, cientistas utilizaram um programa de computador três horas por dia, durante quatro semanas. Como inicialmente a fala era lenta e os sons pro- longados, muito facilmente essas crianças que passaram por esse tratamento estavam aptas a processarem a fala em ritmo normal. O aluno apresentado nesse caso se desen- volvia dentro dos padrões normais até os 9 anos de idade, entretanto, após os 9 anos de idade, não conseguia mais aprender os con- teúdos escolares na íntegra, apresentando dificuldades na memorização e assimilação, apresentando prejuízos em seu desenvolvi- mento. Isso ocorreu devido a um acidente automobilístico, no qual o aluno teve perda de parte da massa encefálica. Para que esse aluno obtenha êxito na apren- dizagem dos conteúdos, é necessário que o professor desenvolva estratégias diversi- ficadas como: recursos áudio-visuais, jogos pedagógicos, atendimento individualizado, adaptações extracurriculares de pequeno porte, além de frequentar a sala de recursos no contraturno. Fonte: Elaborado pelo autor. Baseado em fatos reais. Pós-Graduação | Unicesumar 81 Já está bastante claro que os neurônios são células cerebrais responsáveis pela constru- ção do conhecimento. Como comentado na primeira unidade deste livro, essas estruturas nervosas têm a capacidade de conversar. São sim, consideradas “fofoqueiras”, ou seja, não conseguem guardar apenas a informação para si, se comunicando e espalhando as no- tícias a todos os demais neurônios à sua volta, que, por sua vez, também contaram a novi- dade para outros neurônios próximos deles e, assim, um efeito dominó será desencadeado. Em resumo, quando um neurônio estiver eletricamente ativo, outras áreas próximas a ele também ficam, deixando assim toda uma área ou região do cérebro com atividade elé- trica em intensa atividade. Isso fortalece o pensamento científico de que o processa- mento da informação, o qual concebem as memórias do mundo, que estão interligadas entre si, formam uma rede de significadosnecessários ao conhecimento. Permita-me tentar esclarecer um pouco melhor essa condição. Imagine, ou melhor, pense em um animal, uma vaca, por exemplo, pensou? O que mais você imaginou além da vaca? Certamente pode ter pensado no leite, nas manchinhas pretas, no sininho, no em rede Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 82 bezerro etc; mas por que isso aconteceu se o meu comando foi apenas para pensar na vaca? Pois bem, meu(inha) amigo(a), acima coloquei a seguinte informação, os neurônios são fofoqueiros, interligados por uma rede de informações e diversas representações si- milares a uma única palavra ou um conceito ligado entre fios. De forma simplista, nossos conhecimentos estão interconectados por uma similaridade padrão de informações, ou seja, se pedir para pensar na vaca, tudo o que se associa a essa palavra será lembrado, mesmo que indiretamente. Assim como falar da finalidade do papel, você logo pensará que é para escrever, mas para escrever preciso do lápis, que necessita de uma base sólida, talvez uma mesa, e assim sucessivamente. Mas veja, papel poderia ser utilizado em di- versos outros contextos, não apenas para escrever. Desse modo, quando aprendemos algo novo, tal informação será armazenada naquela ligação entre neurônios onde existir uma similaridade conceitual. Daí a ideia ou a metáfora de que o conhecimento é formado em uma rede. Se os neurônios são intimamente in- terligados, se um deles der “defeito”, os demais à sua volta também apresen- tarão problemas? Fonte: Elaborado pelo Autor. neUropLASTiCidAde CEREBRAL A ciência já conhece a capacidade de reorga- nização e reestruturação de nossas conexões neurais, neuroplasticidade. Técnicas de re- programação mental surgem a cada dia. Até quando continuaremos a vivenciar experiên- cias que culminem na obrigação de vivermos dentro de uma realidade insatisfatória e de- sagradável, se dentro de nós mesmos existe a possibilidade de fazer mudanças e trans- formar nossa realidade? Tudo depende da conscientização e da vontade de cada um. Todo tecido nervoso apresenta plas- ticidade, ou seja, propriedade do Sistema Nervoso de alterar sua função ou sua estru- tura em resposta às influências ambientais que o atingem. Pós-Graduação | Unicesumar 83 exemplo 1 Lesão traumática e cirurgia no cérebro podem levar a mudanças de posição de setores funcionais com o redireciona- mento de circuitos neurais. exemplo 2 Um simples fato novo: precisamos (essas informações que estão adquirindo ao longo da leitura) de alterações sinápticas moleculares que possibilitem a memo- rização desse novo fato por um longo tempo durante a vida. Tentarei explicar de forma mais simples. Volte ao exemplo 1 e imagine um indivíduo que sofreu Acidente Vascular Encefálico (AVE), antigamente conhecido como um Derrame Cerebral. Esse evento gera a morte de alguns neurônios e dependendo da magnitude o efeito colateral pode ser pequeno ou muito grande, e quem sabe levando essa pessoa a óbito. Mas vamos partir de uma lesão mais simples, após sofrer um AVE a pessoa certa- mente ficará com uma região do seu corpo paralisada, correto? Pois bem, esse indivíduo talvez desenvolva, a partir desse evento, a di- ficuldade de falar, manipular objetos e até mesmo andar. Então se iniciam as sessões de fisioterapia e acompanhamentos com fono- audiólogos e outros profissionais, tudo com a intenção de melhorar o funcionamento das funções afetadas, correto? Passando por um período de tratamento, as funções perdidas lentamente começam a apresentar melhoras, mas como isso pode acontecer se os neurô- nios morreram? Na verdade, nosso Sistema Nervoso se adaptou permitindo que um novo caminho de sinapses leve a informação até o músculo específico, e assim os movimentos de mãos, pés e boca acabam por melhorar. Ainda não está claro, não é? Ok, tentarei outra analogia, tudo bem? Pense na cidade em que você mora, sendo ela grande ou pequena, não importa, suponha que existam duas vias de acesso à sua cidade. A principal é por meio de uma ponte que passa sobre um rio muito extenso. Por um evento natural, choveu demais, a ponte foi levada pelo rio e com ela a principal vida de acesso à sua cidade. Ao incluir pessoas com deficiência no contexto escolar tornamos o ambiente mais propício à aprendizagem, partin- do do ponto de que somos únicos e os métodos devem ser direcionados tam- bém de maneira individual. Assim, ao oferecer muitos recursos, menos limites sociais e educacionais esse público en- contrará. Com a consolidação de direitos ou de políticas para a Educação Inclusiva, o Brasil em cinco anos (2007 – 2012) au- mentou em mais de 100% e em alguns estados brasileiros esse crescente in- gresso ultrapassou os 300% no número de alunos com deficiência em escolas regulares, passando de pouco mais de 300 mil para aproximadamente 620 mil alunos. O MEC vem auxiliando as redes públicas a deixarem para trás aquele modelo ultrapassado que segregava muitos cidadãos em idade escolar. Fonte: Disponivel em: <http://revistaesco- lapublica.uol.com.br/textos/37/inclusao-pa- ra-todos-308482-1.asp, acesso em: 31 ago. 2014. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 84 Quando eu me desloco até lá para ministrar uma aula, me deparo com a ponte caída e não tenho como passar (imagine aqui o AVE), se eu não posso entrar por esse caminho, o que poderia fazer? Muito bem, isso mesmo, tenho um acesso secundário. Muitas vezes o caminho não é tão bom, ou tão perto, assim terei de andar mais, por estradas que muitas vezes não foram feitas para esse tipo de acesso, mas independentemente desses fatores eu consigo chegar à cidade, mesmo que tenha que dar a volta no estado inteiro, correto? Pense aqui na neuroplasticidade ou plasticidade cerebral. Em outros termos, me adaptei para chegar ao meu destino. Isso ocorre com as estradas de ligação de estí- mulos dentro do nosso organismo. Se um caminho foi prejudicado por algum evento, meu corpo trabalhará para encontrar um novo caminho de ligação. “o que os olhos não Veem o cérebro sente” Quantos já não ouviram falar de uma si- tuação que acomete esses amputados, independentemente da forma com que ocorreram, a perceberem ou sentirem do- res no membro ausente? Isso mesmo, es- tamos falando da síndrome do membro- fantasma, muitos relatam sentir o membro ausente ainda presente, seja sentir dores, movimentos, posição e quaisquer outras sensações que poderiam experimentar se não o tivessem perdido, como ao levantar da cama e saírem caminhando, obviamen- te que acabarão caindo. Talvez isso ocorra pela representação cerebral realizada por neurônios vizinhos, que os fazem perceber mediante a comparação do membro intacto, o cérebro percebe ou pelo menos acredita, mediante o conhecimento corporal, que a parte ausente do corpo ainda está lá. Para que isso seja “arrumado” em nosso cére- bro, torna-se fundamental uma reorganiza- ção nas áreas funcionais do córtex cerebral. Em outras palavras, nosso cérebro tem de se reprogramar, ou reaprender que aquele membro já não existe mais, além é claro de todo um trabalho psíquico baseado em fa- tores fisiológicos, terapias e medicamentos que podem se tornar eficazes para a cura dessas sensações que acabam por não ape- nas serem dolorosas, mas enlouquecedoras. Fonte: artigo disponível em: <http://www.cien- ciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/ view/651/433>. Escrito pelos autores Demidoff, Pacheco e Franco. Acesso em: 31 ago. 2014. Pós-Graduação| Unicesumar 85 Do ponto de vista da aprendizagem, quanto mais novo o ser humano, maior a plasticida- de cerebral. Nesse momento, toda aquela adaptação e construção de sinapses, discu- tidas na primeira unidade deste livro, pode ser considerada plasticidade do cérebro. Em outras palavras, é o estabelecimento ou for- talecimento de milhares de sinapses que os cerca de 100 bilhões de neurônios existentes em nosso cérebro humano estão realizan- do, mediante as necessidades encontradas. A plasticidade permite que áreas do cérebro destinadas a uma função específi- ca possam desempenhar ou assumir outras funções, ou seja, volte ao AVE, os neurônios que formavam a estrada para movimentar o polegar após a lesão deverão movimen- tar músculos do antebraço, na verdade, é um acúmulo de funções. Se pararmos para analisar do ponto de vista animal, todos somos capazes de aprender, tudo é dependente da variedade comportamental e sobrevivência da espécie, no entanto, só absorvemos algo novo devido a uma série de sofisticadas estruturas neuro- nais, geneticamente determinadas a serem plásticas. A maior plasticidade neuronal humana ocorre até os três anos de idade. Durante este período, o bebê possui grande sensibi- lidade às influências externas, e acredita-se atualmente que ele desenvolve suas capa- cidades cognitivas proporcionalmente ao Uma mãe, com gestação complicada e risco de aborto decorrente de infec- ções, conseguiu concluir o período gestacional dentro do tempo estima- do (41 semanas), com realização de uma cesárea. Porém o organismo da mãe não reagiu à anestesia causando parada cardiorrespiratória, associado ao atraso do desenvolvimento fetal, o qual tinha tamanho e peso de prema- turo. Tudo sinalizava para uma crian- ça com muitas limitações, segundo o relatório médico, que praticamente afirmou que a criança nunca andaria e nem falaria no tempo considerado normal para sua idade. Desesperada, a mãe diante do fato adotou iniciati- vas que foram decisivas para o desen- volvimento da criança que apresen- tava pautas de autismo. A busca de conhecimento atrelado ao trabalho intenso de estimulação possibilitou resultados positivos, permitindo que a criança andasse e falasse dentro do tempo “normal”. Segundo o Neuropediatra, ocorreu uma adaptação cerebral para o de- senvolvimento específico de algumas funções motoras e cognitivas o que demonstra que devemos sempre acre- ditar nas possibilidades mais diversas, talvez até remotas, que possam ser desenvolvidas para uma criança. Fonte: Elaborado pelo autor. Caso fictício. nível de estímulo recebido. Por essa razão, neuropsicólogos passaram a recomendar o ensino de palavras e música durante esse período. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 86 O termo memória refere-se ao processo mediante ao qual adquirimos, formamos, conservamos e evocamos informação. A fase de aquisição é convencionalmente chamada de aprendizagem, enquanto o termo evo- cação recebe a denominação de expressão, recuperação e lembrança (LENT, 2007). Só é possível lembrar-se de algo que gravamos em nosso cérebro e só gravamos aquilo que aprendemos. Em outras palavras, não podemos fazer o que não sabemos, nem comunicar o que não conhecemos. O acervo de nossas memórias nos faz quem somos, um indivíduo único, sem outro idêntico. Temos “memórias” e memórias que dependem da experiência, algumas demoram mais outras menos para serem codificadas e armazena- das em nosso intelecto. As consequências disso para a aprendiza- gem na escola são bastante claras. Os alunos só memorizam certa informação na medida em que a mesma seja útil para suas ações, nem que seja apenas para “passar de ano”, ob- viamente, como discutido inicialmente neste livro, dependemos também, para a formação dessa memória ou aprendizado, de um aluno motivado e engajado com o conteúdo, que está atento a tudo, assim se aprende mais. formação de memórias Os conteúdos planejados e ensinados por você realmente são úteis ou interes- santes para seus alunos? Pense como aluno para chegar a essa resposta. Fonte: Elaborado pelo Autor. Pós-Graduação | Unicesumar 87 Nosso cérebro é tão magnífico que somos capazes de esquecer. Imagine um fato ou momento da sua vida que te incomoda e te deixa triste. Nosso cérebro é tão fascinante que é capaz de “lembrar” quais as memó- rias que não queremos evocar, daquilo que não nos faz bem. Esse obviamente é um esforço subconsciente que evita evocar más lembranças. Lent (2007) pressupõe que memórias de- terminam também a nossa personalidade. O ambiente em que fomos criados permite que sejamos diferentes. Aqueles que cres- ceram em locais atemorizantes podem se tornar pessoas mais medrosas, cuidadosas, introvertidas etc. Isso muitas vezes é influen- ciado mais por condições ambientais do que propriamente condições genéticas. Mas o que são nossas memórias mesmo? lanço o desafio de levantar da cadeira, sofá ou de qualquer lugar que esteja agora e colocar o dedo na tomada, topa? Está bem, tenta- mos outro então, vá até a cozinha, ascenda uma boca do fogão, deixe passar aproxima- damente dois minutos, vá até ele novamente e desligue a boca. Depois de ter feito esse processo coloque a mão sobre a “tampi- nha” do fogão, pode ser agora? Você pode ter sorrido, ou chamado de louco, mas por que não aceitou o desafio? Não aceitou, pois já conhece o resultado dessas ações que propus. Já sabe que irá tomar um choque ou se queimará, e isso, meu(inha) caro(a), são as memórias, ou nosso aprendizado, que durante anos foram sendo fortalecidas em nossa memória, devido às nossas vivências práticas, teóricas, mediadas por pais, pro- fessores e quaisquer outras influências que pudemos ter ao longo de nosso desenvol- vimento natural. Nossa memória pode, ao longo dos anos, passar por algumas deformações, uma vez que vamos perdendo aquilo que não nos interessa, aquilo que não nos marcou, ou incorporamos aquilo que nos fez bem em algum momento da nossa vida (lembrança). Quantos não gostariam de se recordar de momentos da infância não é mesmo? Mas poucas lembranças certamente nos restam daquela época. Mas busque em sua memória o que almoçou há duas semanas. Talvez, não se recorde nem do que almoçou hoje ou ontem. Olha que complicado, porque me lembro de um jantar ou momento de 2 anos Dos 3 anos até os 8 anos, Paulo mos- trava comportamento normal, era um bom aluno, dedicado em tirar boas notas na escola, se destacando por sua inteligência dos demais alunos. Porém, dos 9 anos em diante tudo mu- dou. Passou a sofrer bullyng, e em um certo dia, no intervalo das aulas, um grupo de alunos abaixou as calças de Paulo e todos da escola riram. A par- tir desse momento, o trauma nunca mais foi esquecido, trazendo mudan- ças comportamentais, se tornando um aluno desmotivado, desinteressado. Não respeitava mais os pais e nem os professores, fugia de casa e da escola, passava as noites na rua e falava fixa- mente em suicídio. Fonte: Elaborado pelo autor. Caso fictício. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 88 atrás perfeitamente, como se o tivesse viven- ciado há pouco, e não recordamos de um simples fato de poucos dias ou horas? Meu (inha) caro(a), nosso cérebro é surpreendente, mas já imaginou o tamanho de nossa cabeça se guardássemos em nossa memória tudo que vivemos até hoje? Seríamos pessoas com cabeças “alienígenas” de tão grande. Para que isso não ocorra, nosso cérebro descarta, joga fora, tudo aquiloque não é interessante, que é irrelevante para nossa vida. Guarda e forta- lece apenas aquilo que é importante. Pense neste livro, você está lendo-o e estudando a fundo (pelo menos é assim que gosto de pensar), e ficará sabendo muito sobre o assunto “Bases Neurológicas e Aprendizagem”, e tudo que lhe for pergun- tado agora será rapidamente respondido. Por outro lado, se não retomar essas infor- mações com frequência, se esquecer desse material na gaveta e daqui seis meses pre- cisar novamente desse conhecimento, você se lembrará de tudo como agora? Evidente que não, e é assim para tudo pessoal! Fortalecemos aquilo que usamos e des- cartamos aquilo que não é relevante para aquele período de tempo de nossas vidas. Sim, antes que questione aquele ditado que se “aprendemos a andar de bicicleta uma vez nunca mais esquecemos”, talvez no princí- pio o seu pedalar não seja tão coordenado e possivelmente se desequilibrará e até poderá cair, mas rapidamente retomamos do fundo de nossa memória esse aprendizado que nos marcou significativamente em algum momento de nossas vidas. Segundo o autor Lent (2007), nossas me- mórias podem ser subdivididas em memórias declarativas, explícitas procedimentais ou implícitas. Em um primeiro momento, as memórias declarativas ou explícitas são aquelas às quais que temos acesso consciente (exemplo: nossa história e o mundo que nos cerca). Podem ser também subdivididas em memória episódi- ca (exemplo: festa de 15 anos, casamento) e memória semântica (conhecimento sobre o ambiente que nos rodeia, no qual lembramos sem saber como). Participam na sua forma- ção regiões corticais (pré-frontais, entorrinal, parietal etc.) e o hipocampo, localizado no lobo temporal (transforma experiência em memória, depende de circuitos subcorticais). Indivíduos com amnésia são aqueles com falta ou algum distúrbio relacionado à memória declarativa que acabamos de citar. Em um segundo momento, essa subdi- visão ocorre em memórias procedimentais ou implícitas São aquelas informações sem acesso consciente, que ocorrem de forma automática, como, por exemplo, dirigir um carro ou digitar um documento. Certamente, você, se não estiver passan- do pelo processo de aprendizagem, não tem que pensar mais em pisar na embre- agem, passar a marcha e depois soltar o pé da embreagem lentamente e com o outro acelerar. Ao digitar esse documento a você, estou escrevendo sem ter que ficar fracionando meus pensamentos e depois lentamente juntar as letras para, na sequ- ência, formar as palavras e frases. Pós-Graduação | Unicesumar 89 Do ponto de vista funcional existe uma memória crucial no momento da aquisição ou evocação de qualquer memória, seja ela declarativa ou não: memória de trabalho ou operacional. Tem função de manter a infor- mação viva disponível enquanto está sendo processada e/ou percebida. Esta forma de memória é sustentada pela atividade elétri- ca de neurônios do córtex pré-frontal e sua interação com o córtex entorrinal, o hipo- campo e a amígdala (LENT, 2007). Funciona basicamente da seguinte maneira, a memória de curta duração tem a função de manter viva em nossa mente determinada informação que queremos ad- quirir, por um tempo médio de 30 minutos a 6 horas. Durante esse período, está atuando principalmente a memória de trabalho. Após esse momento, se nosso cérebro entender que tal informação é relevante, será transfor- mada em memória de longa duração, que pode durar muitas horas, dias ou até anos. A formação da memória de longa duração requer uma sequência de eventos moleculares por várias horas e é suscetível a diversas influências como, por exemplo, Figura: Os tipos e subtipos de memória e suas principais características Fonte: Lent (2007, p 246) função e duração das memórias Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 90 o hipocampo, que é interconectado com todas as regiões do cérebro que registram e modulam o caráter emocional das expe- riências e com aquelas que determinam se são novas ou não. O córtex entorrinal, que auxilia a região do hipocampo na forma- ção dessas memórias declarativas, recebe e emite fibras a vários núcleos da amígdala e do septo medial, do córtex pré-frontal me- diolateral (essencial para o processamento da memória de trabalho), do córtex parietal associativo da maior parte do córtex senso- rial (LENT, 2007). O hipocampo, a amígdala e o córtex entorrinal, pré-frontal e parietal recebem também vias de informação referentes ao estado de consciência, alerta e ansiedade. Memória de curta duração mantém a informação comportamentalmente disponí- vel enquanto a memória de longa duração ainda não foi adquirida de forma definitiva. Essa memória de curta duração acontece de maneira conjunta e paralela com a formação da memória de longa duração. Mesmo que sejam processadas na mesma região (o hipocampo, o córtex en- torrinal e o córtex parietal associativo) ambas são paralelas. Com a administração de farma- cológicos intra-hipocampal, intra-entorrinal ou intraparietal, pode cancelar a memória de curto prazo, deixar intacta a memória de longa duração. feedback e aprendizagem A utilização do feedback ou retroalimenta- ção tem funções importantes relacionadas à aprendizagem, pois de acordo com Schimidt e Wrisberg (2001), é a informação que é recebida pelo executante após realizar um movimen- to ou habilidade motora específica. Tem a finalidade de informar, reforçar e motivar; é normalmente transmitindo por meio de sím- bolos, gestos, imagens e voz. O feedback é auxiliador fundamental no fortalecimento de aprendizagem técnica ou motora, podendo ser desenvolvido por meio de feedbacks in- trínsecos (internos) ou extrínsecos (externos). Para Magill (2000), o feedback intrínse- co corresponde a uma informação interna e natural que surge pela percepção dos órgãos dos sentidos em decorrência de um movimento específico, durante ou após sua realização. Dentro desse contexto, quando um indivíduo percebe, por algum órgão sen- sorial, se o movimento foi ou não realizado de forma correta, durante a prática do pro- cesso de aprendizagem, já se torna possível perceber qual procedimento deve ser men- talizado para que ao final da execução ele aconteça da melhor forma possível. Pós-Graduação | Unicesumar 91 Pois bem, suponhamos a seguinte ideia, sabendo que todo movimento humano se inicia no cérebro humano, mais especifica- mente no sistema nervoso central (SNC), em uma área conhecida como córtex motor, local onde boa parte dos nossos conhecimentos motrizes estão guardados em nossa cabeça. Diante desse aspecto, sempre que que- remos realizar alguma ação que envolva movimentos, inúmeros são os eventos que acontecem em nosso corpo, iniciando em nossa cabeça. Suponha que quer iniciar um movimento de chutar uma bola no gol, ao pensar nessa situação, seu SNC irá decodificar essa vontade e buscará no seu córtex motor o movimento já aprendido, já armazenado em sua memória, obviamente que o cérebro não consegue realizar tudo sozinho, ele precisa da ajuda de outras estruturas como os músculos e o cerebelo, por exemplo. Pois bem, quando pensamos em chutar a bola no gol, meu sistema nervoso central busca no córtex motor a ha- bilidade já aprendida, e a partir desse ponto, a informação passará pelas células piramidais que saem do córtex motor, sendo levadas aos órgãos alvos. Nesse caso, principalmente os músculos da perna, não entrando emcondi- ções de que o córtex é auxiliado por outras duas áreas, sendo elas a área motora primária e as áreas motoras suplementares, ambas tra- balham principalmente para a boa execução dos movimentos esportivos, também é evi- dente que para realizar esse gesto técnico do futebol, outros músculos como os abdominais, os braços e tantos outros auxiliam no equilíbrio e na coordenação do movimento. Seguindo com essa ideia, pense no movimento que saiu do córtex motor em direção ao músculo efetor, segue igualmen- te uma cópia da mesma informação para o cerebelo, esse é responsável por compa- rar o movimento executado com aquele que deveria ser realizado inicialmente. Pois bem, a informação é levada ao músculo e também uma cópia para o cerebelo, os mús- culos executam o gesto técnico. Existem nos músculos estruturas chamadas propriocep- tores, que percebem todo o movimento, ângulo, tensão, alongamento etc., e têm a função de informar o cérebro de todas essas reações ou mudanças, adaptações corpo- rais localizadas em cada momento de cada novo movimento ou situação imposta pelo meio ambiente ou pelo esporte. Esses pro- prioceptores, estruturas neuromusculares localizadas nas articulações dos membros inferiores (das pernas), enviam uma informa- ção ao cerebelo dizendo como foi realizado, na realidade, o movimento ordenado pelo cérebro. O cerebelo, por sua vez, compara as duas informação, aquela inicial que veio do cérebro, e essa outra enviada pelos proprio- ceptores localizados nos membros inferiores. Caso essa comparação identifique uma falha no movimento, um feedback é direciona- do ao cérebro, solicitando uma mudança, um novo estímulo, para que o movimen- to técnico seja realizado de forma correta, assim todo o processo se reinicia, tornan- do-se cíclico até que o movimento realizado pelos músculos aconteça perfeitamente ou, pelo menos, da forma que o cérebro mandou. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 92 Em síntese, sai uma informação do córtex motor que é direcionado aos músculos e uma cópia ao cerebelo, os músculos realizam os movimentos, as estruturas neuromusculares localizadas junto às articulações informam o cerebelo de como foi realizado na prática o movimento, o cerebelo compara a infor- mação inicial com aquela realizada pelas estruturas musculares, se necessário gera um feedback para o cérebro solicitando uma cor- reção ou não, isso acontece inúmeras vezes até o movimento ficar perfeito. Talvez, por esse motivo, com a prática continuada, che- gamos à perfeição ou melhoria da técnica em qualquer movimento, sendo ele espor- tivo ou não (FOSS; FOx, 2010). Para Schmidt e Wrisberg (2001), o feedback extrínseco existe por necessitarmos de uma informação externa, vinda, por exemplo, de um instrutor, um vídeo ou qualquer infor- mação que poderia influenciar o aprendiz. Essas instruções externas são absorvidas Feedback para correção de movimentos técnicos Fonte: Foss e Fox (2010 apud JACOB, 2014. pelo sistema sensorial, e a partir desse ponto, servirá como informação para aprimoramen- to do rendimento técnico, pois o resultado final do movimento ou da tarefa servirá como complemento para o feedback intrínseco que foi abordado acima. Pós-Graduação | Unicesumar 93 Desse modo, por meio de um feedback extrínseco advindo da audição, visão, tato etc., o executante terá a percepção de gerar conclusões internas de como pode ou deve ser realizado tal gesto técnico, e após essa análise, tem a possibilidade de melhorar seu rendimento. Segundo Magill (2000), o feedback ex- trínseco é subdividido em dois tipos, sendo um relacionado com a própria realização, co- nhecimento da execução ou da performance (CP), e outro relacionado com o conhecimen- to do resultado obtido (CR). Ainda de acordo com Magill (2000), o CP é quando se recebe uma informação sobre o padrão da execução do movimento, das ca- racterísticas que o indivíduo produziu para desempenhar aquele gesto. Normalmente ,essa informação surge dos treinadores que buscam passar informações muitas vezes verbais para melhorar o rendimento em de- terminado movimento, como, por exemplo, quando um treinador de futebol diz ao jogador que está treinando cobranças de faltas: “coloque o pé de apoio mais próximo da bola no momento do chute”. O segundo tipo de feedback extrínseco é o CR, que também ocorre muitas vezes de forma verbal, for- necendo a informação sobre o movimento realizado em relação ao objetivo pretendido. Suponha, por exemplo, a informação sobre o resultado de uma ação, como quando um jogador acerta 10 (dez) finalizações a gol no primeiro tempo de um jogo e o seu treina- dor diz: “você realizou 10 (dez) finalizações a gol em 45 (quarenta e cinco) minutos”. Em resumo, o feedback intrínseco é im- portante para a percepção individual dos erros cometidos na realização do gesto motor aliado ao feedback extrínseco demonstrado por fontes externas, como, exemplo, o pro- fessor que por meio de informações verbais e ou visuais molda o padrão de movimento do aluno, lhe dando as informações do que tem que ser melhorado. Tanto o feedback intrín- seco como o extrínseco se complementam, sendo considerados fatores fundamentais para o aprendizado e para o rendimento de habilidades motoras específicas. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 94 considerações finais Ainda não se conhece definitivamente o mecanismo, ou os mecanismos, pelo qual o cérebro adquire, armazena e evoca as infor- mações. A hipótese é que haveria alteração da função sináptica criando novos circuitos neuronais e seriam essas novas ligações que codificariam as informações. Esse modelo tornou-se bastante plausível depois que se comprovou, experimentalmente, o aumento da resposta sináptica com a aplicação de es- tímulos repetitivos. Assim, acredita-se que o substrato da memória é o aumento da função sináptica (hipertrofia) ou a criação de novas sinapses. Esse modelo é bastante interessante, pois, além de esclarecer como são guardadas as informações, permite explicar, também, a atenuação das lembranças, fenômeno co- nhecido por todos e que ocorreria em virtude da diminuição da função sináptica causada pelo desuso. Desse modo, podemos apontar o cérebro humano ou a formação de memórias com a seguinte analogia: imagine um músculo qual- quer do nosso corpo; quando vamos para a academia de ginástica e trabalhamos alguns desses músculos eles acabam por aumentar seu tamanho, correto? Se nos afastarmos por um tempo significativo e pararmos de utiliza com uma alta intensidade nossos músculos, eles diminuirão seu tamanho, isso também é correto. Pois bem, nosso cérebro funciona da mesma maneira. Nós fortalecemos as conexões sinápticas, nosso conhecimen- to aumenta desde que submetamos nosso cérebro a trabalhos ou exigências que o façam se reorganizar, que ele realmente sinta a ne- cessidade de se adaptar. Se pararmos nosso cérebro, essas conexões acabam sendo enfra- quecidas e a partir de então, esquecemos. Em outras palavras, nosso “cérebro fica menor”. Diante dessa abordagem de aprendiza- do ou das nossas memórias, não é possível evocar uma informação, se ela não foi devi- damente arquivada. Para que o ser humano possa reter na memória determinada infor- mação, é necessário que sua atenção esteja voltada para isso. Sem atenção, não há qual- quer possibilidade de guardar um fato e, sem guardá-lo, não há como recuperá-lo depois. Lembrem-se,sem a atenção o aprendiza- do não acontece. Sabe aquele momento que você ou qualquer outra pessoa se pega olhando para uma questão de prova e a questão olha para você, você olha para ela, e assim permanece por longos minutos ou até horas? Pois é, nada vai acontecer. Você só se lembrará de uma resposta se a aprendeu, ou seja, como vai buscar em seu cérebro a res- posta para aquela questão se nunca estudou como deveria, se não aprendeu? Uma dica: não fique esperando por uma resposta do além ou uma “cola”, entregue a prova e apro- veite melhor o seu tempo. Pós-Graduação | Unicesumar 95 atividades de autoestudo 1. Sabendo que neurônios são células cerebrais responsáveis pela produção do conhecimento ou aprendizado, como são formadas nossas memórias? 2. Muito se sabe sobre o poder de adaptação ou de reprogramação cerebral sempre que necessário, por outro lado, pouco se sabe sobre o poder das estruturas encefálicas e de qual modo podem nos permitir uma vida mais satisfatória. Diante do exposto, o que significa neuroplasticidade cerebral? 3. Tanto se argumenta sobre patologias que nos levam à perda de memória, como a amnésia, por exemplo, ou coisas mais corriqueiras, como não se lembrar de algo, como lembrar com muita facilidade e jamais se esque- cer de algum evento ou situação. De acordo com o que foi supracitado, o que são memórias de curta e longa duração? E por que estão diretamen- te relacionadas? Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 96 conclusão Quem já se perguntou algo relacionado à aprendizagem humana? Você já re- fletiu sobre como conseguiu aprender tudo até esse momento da sua vida? Estranho, não é? Conhecemos tantas coisas, sabemos muito, mas ao mesmo tempo sabemos tão pouco sobre nós mesmos ou como chegamos até aqui. Sei que você pode ter falado que aprendeu graças a seus pais, avós ou professor. Pois bem, mas quem te ensinou a reconhecer o rosto da sua mãe se até os 5 meses aproximadamente não conseguia identificá-la pela forma representada em seus olhos? Verdade. Você só a reconhecia pelo cheiro ou pela voz. Mas como apren- deu a calcular, escrever, andar, correr, cantar, falar e tudo mais que aprendeu desde sua infância até agora? Todas as formas de aprendizagem são naturais em nosso cotidiano. Levanto agora pequenos problemas e agora parece ser ainda mais confuso. Para tentar responder parte dessas dúvidas, surge essa tal ciência que estuda o Sistema Nervoso Humano. Estudar o Sistema Nervoso é fundamental, pois é ele quem controla todas as funções do nosso organismo. Claro que existem outras partes que auxiliam nesse controle, mas o chefe, o patrão, é nosso Sistema Nervoso, e como íntimos dessa região, temos os neurônios que desempenham papéis importantíssimos em nosso dia a dia, desde toda a coordenação de movimentos até a resolução de problemas de cunho cognitivo. Vamos pensar o aprendizado de forma fragmentada, por etapas ou estágios. Primeiro, para aprendermos algo, temos que ter um contato, uma experiência concreta com o novo, com a informação que deverá ser aprendida futuramen- te. Após isso, em nossa cabeça, desenvolverão conexões abstratas do real, coisas que só existem para nosso mundo imaginário. Após esse momento, podemos tentar experimentar no real aquilo que imaginamos e ver se dará certo, e in- dependentemente do resultado, obteremos uma informação concreta. Já se pegou observando uma criança que vê os pais mexerem em uma gaveta e tiram de lá coisas diariamente, mas não deixam a criança se aproximar dessa gaveta? Suponha que é uma gaveta de facas, então, ela não pode se aproximar para não Pós-Graduação | Unicesumar 97 se cortar, pois é perigoso. Um detalhe, a criança não sabe o que é isso na reali- dade, ela imagina bilhões de possibilidades até ela abrir a gaveta e pegar a faca. Pode ser que ela se corte, aí sim ela saberá na realidade o significado daquele instrumento e provavelmente irá associar a um conhecimento novo de dor. Em outras palavras, obtemos uma informação e damos algum significado para ela, depois criamos novas ideias a partir deste significado e as colocamos em prática. Quando somos capazes de realizar essas etapas, inúmeras áreas do córtex cere- bral estão sendo estimuladas e de maneira natural serão geradas e firmadas as conexões neurais. Após esse processo, aprendemos de forma natural. Conhecer aspectos inerentes à base neurológica e seus aspectos intrínse- cos que se relacionam à aprendizagem humana não nos trará uma “receita de bolo”, como normalmente esperamos, mas, sem dúvida nenhuma, muitos cami- nhos serão mostrados. Quando se conhece essa base, podemos nortear nosso trabalho e ajudar o aluno/aprendiz a perceber que é ele quem está no controle, fazê-lo compreender o quanto tudo aquilo é e será importante para toda a sua vida e ajudá-lo a encontrar emoções, e o mais importante, ensiná-lo a lidar com ela. Lembre-se, sempre que a aprendizagem oferecer controle e a percepção de progresso, e sempre trará ao aluno uma sensação estimulante. Um erro comum ao discutir esse assunto e levantar a palavra “aluno” é que a associamos sempre com crianças em idade escolar. No entanto, todas as ques- tões relacionadas a essas informações se relacionam com o desenvolvimento de qualquer pessoa, em qualquer idade, com o intuito de melhorar o rendimento de discentes e docentes em busca de algo maior. Professores, o entendimento do conhecimento de como o cérebro funcio- na é fundamental para que haja um planejamento escolar viável e palpável, com estratégias diferenciadas para a aplicação dos métodos de aprendizagem dos conteúdos escolares. Também é imprescindível para que o planejamento seja adequado ao potencial neurológico dos alunos, isto é, nem banalizar o conteú- do, nem ir além da capacidade de compreensão de um grupo específico. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 98 filme Óleo de Lorenzo / Lorenzo’s Oil Diretor: George Miller Duração: 2:30 min Ano: 1992 País: Estados Unidos Gênero: Drama Sinopse: Um garoto levava uma vida normal até que, quando tinha seis anos, estranhas coisas acon- teceram, pois ele passou a ter diversos problemas de ordem mental que foram diagnosticados como ALD, uma doença extremamente rara que provoca uma incurável degeneração no cérebro, levando o paciente à morte em, no máximo, dois anos. Os pais do menino ficam frustrados com o fracasso dos médicos e a falta de medicamento para uma doença desta natureza. Assim, começam a estudar e a pesquisar sozinhos, na esperança de descobrir algo que possa deter o avanço da doença. reposição hormonal com células bioiDênticas Reposição de hormônios é um assunto tão difundido e ao mesmo tempo tão polêmico, não é? Quantos leitores já não escutaram que um praticante de academia “tomou bomba”, fez uso de reposição de hormô- nios, como a testosterona, por exemplo, ou de mulheres que estão entrando na menopausa e necessitam de estrogênio que acabam por diminuir com a idade. Evidentemente, com o passar dos anos, nosso or- ganismo passa a necessitar de hormônios que vão deixando de ser produzidos por inúmeros fatores. O mais interessante é que indústrias farmacêuticas encontram fórmulas mágicas para oferecer produtos manipulados, como os da tireoide, quase todas as mulheres já tomaram ou ouviram falar. Mas o espan- toso é que sintetizar hormônios produzidos por nosso organismo não é tão simples, como sugere o Dr. Lair Ribeiro, ao dizer que nosso organismo produz na quantidade ideal para um bom funcionamento do organismo. Então cuidado, ir correndo a uma farmácia de manipulação e comprar um hormônio “pareci- do” com aquele que seu corpo produz naturalmente não é o suficiente. Segundo oDoutor, nosso corpo é como uma chave e fechadura, temos hormônios ou chaves específicas para regiões corporais ou fecha- duras também específicas. Se for até a porta da sua casa e tentar abri-la com uma chave de outro lugar, irá machucar a fechadura a ponto de estragá-la e nenhuma chave mais funcionar, nem mesmo aquela es- pecífica. Pois bem, diante disso, poderíamos refletir do por que tantas pessoas acabam por desenvolver doenças diversas como: câncer de mama, enfartes, doenças cardiovasculares, dentre tantas outras. Será meramente coincidência? Não! Estudos já comprovam que a reposição desses hormônios parecidos podem fazer muito mal à saúde. Por outro lado, surge a reposição hormonal com células bioidênticas, hormônios com a mesma estrutura molecular produzida pelo nosso organismo. Cuidado! Não se engane pensando que só por ser também produzido em laboratório elas prejudicarão a saúde. É como se levasse a chave a um chaveiro. Ele moldará de forma perfeita para que a porta seja aberta sem danos. Assim são esses hor- mônios com estruturas moleculares idênticas àquelas produzidas naturalmente pelo nosso organismo. Tudo se fundamenta do ponto de vista de que se quando mais novos produzíamos hormônios em quantidades adequadas vivíamos muito bem, então porque não manter essa saúde ou qualidade de vida sem os sintomas desagradáveis do processo de envelhecimento? Homens e mulheres procurem um médico para evitar possíveis riscos desnecessários. Disponível em: http://www.lairribeiro.com.br/reposicao-hormonal-sem-riscos/>. Acesso em 31 ago. 2014. filme Pós-Graduação | Unicesumar 99 relato de caso A senhora Maria Madalena era professora do ensino fundamental. Como amava muito dar aulas de história, se especializou e ainda concluiu um mestrado. Após muitos anos como docente em sala de aula e tantos outros como diretora, Maria realizou mais um sonho quando pode abrir sua própria escola particular. Os anos passavam depressa, até que certo dia a professora, diretora e proprietária Maria passou a apresentar dificuldades no controle dos movimentos corporais. Após tantos exames, alguns realizados nos Estados Unidos, foi descoberta uma doença hereditária que acometia o Sistema Nervoso, a doença de Huntington, um distúrbio neurológico que quanto mais vezes é passada ao longo das gerações, mais cedo os sintomas aparecem. Com o passar dos meses seu quadro clínico começou a se agravar, Maria começou a apresentar diver- sos sintomas que prejudicavam sua atividade profissional, como: demência, movimentos anormais, reflexos anormais, passadas “saltitantes” e largas, fala hesitante ou de pouca enunciação. Como não existe tratamento que surte um efeito significativo, o uso de medicamentos e as tentativas de retar- dar os efeitos motores, fizeram com que a professora independente, forte e inteligente, tivesse de vender sua escola, largar suas aulas, mudar de cidade para viver sob os cuidados de seus filhos que estão em cursos universitários em outra localidade. Atualmente, Maria luta insistentemente contra a doença, tenta retardá-la na esperança de ser en- contrada a cura e quem sabe assim poder a voltar ministrar aulas. Os cuidados são inúmeros, Maria faz tratamento com Fonoaudiólogos, Neurologistas, profissionais da Educação Física e também Psicólogos. E até o presente momento ainda conta com o auxílio de familiares e amigos para diaria- mente renovar sua esperança. Fonte: Elaborado pelo autor. O nome é fictício, mas o conteúdo do caso é real, com adaptações. Neuropsicopedagogia: estrutura neurológica e aprendizagem 100 referências BEE, H.; BOYD, D. A Criança em Desenvolvimento. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. FONSECA, V. Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem: abordagem neuropsicológica e psicopedagógica. 6. ed. Editora Vozes Ltda., 2007. FOSS, M. L; KETEYIAN, S. J. FOX: Bases Fisiológicas do Exercício e do Esporte. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: a teoria das múltiplas inteligências. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. Publicado originalmente em inglês com o título: The framsof the mind: the Theory of Multiple Intelligences, em 1983. GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. LENT, R. 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