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Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 1 MICROBIOLOGIA DAS INFECÇÕES ODONTOGÊNICAS 1. Etiologia → as bactérias que causam infecção são mais comumente as bactérias nativas, em geral, que vivem sobre ou no interior do hospedeiro. 2. Essas bactérias fazem parte da flora bucal normal que compreendem a placa bacteriana, as que são achadas em superfície da mucosa e aquelas achadas nos sulcos gengivais. 3. São principalmente: cocos aeróbicos gram+, cocos anaeróbios gram + e bastonetes anaeróbicos gram -. o Cocos anaeróbios GRAM + são Streptococcus e Peptostreptococcus. o Bastonetes anaeróbicos GRAM - são Prevotella e Fusobacterium spp 4. Podem causar diversas doenças, como cáries, gengivites e periodontites. 5. Quando essas bactérias obtêm acesso para tecidos mais profundos, através da polpa dentária necrótica, ou através da bolsa periodontal profunda, causam infecções odontogênicas. 6. Composição microbiológica das Infecções Odontogênicas → múltiplas bactérias → natureza polimicrobiana → tolerância ao oxigénio. o Bactérias encontradas na I.O: anaeróbias e aeróbias (50%). 7. As bactérias aeróbicas predominantes em infecções odontogênicas (encontradas em aproximadamente 65% dos casos) são do grupo Streptococcus milleri, o qual é composto por três membros do grupo de bactéria S. viridans: S. anginosus, S. intermedius e S. constellatus. Esses organismos facultativos, os quais podem crescer na presença e na ausência de oxigênio, podem iniciar o processo de invasão aos tecidos profundos. o Iniciam o processo de invasão aos tecidos profundos. o Os produtos metabólicos oriundos dos estreptococos criam, então, um ambiente favorável para o crescimento dos anaeróbicos: liberação de nutrientes essenciais, diminuição do pH nos tecidos e consumo do oxigênio local. o Infecções causadas somente por bactérias aeróbicas constituem cerca de 6% de todas as infecções odontogênicas, ao passo que infecções odontogênicas somente com bactérias anaeróbicas representam 44%. Por sua vez, infecções odontogênicas causadas por bactérias aeróbicas e anaeróbicas constituem 50%. 8. As bactérias anaeróbias predominam e causam necrose de liquefação dos tecidos pela síntese de colagenases. Como o colágeno subjacente é fragmentado, ocorre invasão leucocitária, lise e necrose, são formados microabscessos que podem fundir-se dentro de um abscesso clinicamente reconhecível. 9. Progressão da infecção o 3 primeiros dias: há uma tumefação branda, levemente endurecida, que representa o estágio de inoculação, no qual a invasão de estreptococos está apenas começando a colonizar o hospedeiro. o 3 a 5 dias: a tumefação torna-se mais endurecida, avermelhada e agudamente dolorosa, a flora com infecção mista estimula uma resposta inflamatória intensa, representando o estágio de celulite. o 5 a 7 dias: os micro-organismos anaeróbicos começam a predominar, causando um abscesso liquefeito ao centro da área de tumefação. Este é o estágio de abscesso. o 8 dias em diante: quando o abscesso é drenado espontaneamente por meio da pele ou da mucosa ou é drenado cirurgicamente, o estágio de resolução inicia-se e o sistema imune começa a destruir as bactérias infectantes, o que resulta no processo de cura e reparo. HISTÓRIA NATURAL DA PROGRESSÃO DAS INFECÇÕES ODONTOGÊNICAS Etiologia 1. Periapical → cárie dentária 2. Periodontal → Gengivite → bolsa periodontal Pericoronarite A origem periapical é a mais comum na infecção odontogênica. A localização de uma infecção oriunda de um determinado dente é estabelecida por dois fatores principais: o A espessura do osso que é superposta ao ápice do dente; o A relação do local da perfuração no osso com as inserções musculares na maxila e na mandíbula. Necrose pulpar Infecção periapical Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 2 A necrose da polpa dentária resultante de cárie profunda cria uma via para as bactérias penetrarem nos tecidos periapicais. Disseminação da infecção o A infecção se dissemina através do osso esponjoso até encontrar uma lâmina cortical. o Se a lâmina cortical for fina, a infecção profunda perfurará o osso e penetrará nos tecidos moles localizados ao redor. Na mandíbula, as infecções dos incisivos, caninos e pré-molares, em geral, perfuram a lâmina facial cortical superior à inserção dos músculos dos lábios inferiores, resultando em um abscesso vestibular. Uma vez que a infecção tenha perfurado o osso, a sua localização exata no tecido mole será determinada pela posição da perfuração às inserções musculares. As infecções dos dentes molares inferiores perfurarão através do osso cortical lingual com mais frequência que os dentes anteriores. As infecções no primeiro molar poderão drenar por vestibular ou lingual. Infecções no segundo molar podem perfurar a vestibular ou lingual (usualmente lingual) e no terceiro molar quase sempre drenam para a lâmina cortical lingual. O músculo milo-hioideo determina se a infecção que drena pelo lado lingual se dirigirá superiormente a ele para dentro do espaço sublingual ou inferiormente a ele se dirigindo para dentro do espaço submandibular. Na maioria dos dentes maxilares, a erosão óssea provocada pela infecção se dá através da lâmina cortical vestibular. A infecção também pode perfurar o osso abaixo das ligações dos músculos que se inserem na maxila, o que significa que a maioria dos abscessos dentários na maxila aparece, inicialmente, como abscessos vestibulares. Mais comumente, os molares superiores apresentarão infecções que perfuram o osso em posição superior à inserção do músculo bucinador, resultando em uma infecção do espaço bucal. Da mesma forma, em certas ocasiões, a raiz longa de um canino superior irá perfurar o osso superior à inserção do músculo elevador do ângulo da boca e causará uma infecção do espaço infraorbitário (canino). A infecção odontogênica mais comum no espaço facial profundo é o abscesso no espaço vestibular O tratamento da polpa necrosada por meio de tratamento endodôntico convencional ou a extração do dente resolverá a infecção. Antibióticos, apenas, evitarão a progressão da infecção, mas essa irá recidivar quando a antibioticoterapia chegar ao fim e não houver o tratamento da causa dentária. o Portanto, o tratamento primário da infecção pulpar é o tratamento endodôntico ou a extração do dente em vez da antibioticoterapia. PRINCÍPIOS DO TRATAMENTO DAS INFECÇÕES ODONTOGÊNICAS Princípio 1 → Determinar a gravidade da infecção História completa o Queixa principal o Determinar a quanto tempo a infecção está presente o Elucidar os sintomas do paciente Resposta inflamatória – os sinais e sintomas são: dor, tumor, calor, rubor e perda de função. o O dentista deve pergunta como o paciente se sente de forma geral. o Investigação do tratamento Perguntar ao paciente se tomar algum medicamento. Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 3 A história médica completa do paciente deve ser obtida de maneira comum, por entrevista ou questionário, por preenchimento pelo próprio paciente com lembretes verbais de quaisquer dados significantes. Exame físico o Coletar os sinais vitais – temperatura, pulso,pressão sanguínea e taxa respiratória. o Inspeção da aparência geral do paciente: A cabeça e o pescoço Verificar áreas de tumefação o Exame intra-oral o Exame radiográfico Após o exame físico, o profissional deve procurar saber em que estágio está à infecção presente. Em resumo, o edema representa a fase inicial, o estágio de inoculação da infecção que é mais facilmente tratado. A celulite é uma infecção aguda e dolorosa, com tumefação mais intensa e limites difusos. Além disso, tem consistência dura à palpação e não contém pus. Um abscesso agudo é uma infecção mais madura com dores mais localizadas, menos tumefação e limites bem delimitados. O abscesso é flutuante à palpação porque é uma cavidade preenchida por pus. Um abscesso crônico, em geral, é de crescimento mais lento e menos grave que uma celulite, especialmente se ele é drenado de forma espontânea para o meio ambiente externo. Princípio 2 → Avaliar o estado dos mecanismos de defesa do Hospedeiro Condições médicas que comprometem a defesa do hospedeiro Fármacos que comprometem a defesa do hospedeiro o Agentes quimioterápicos. o Medicamentos imunossupressores – ciclosporina, corticosteroides e azatioprina (Imuran). Princípio 3 → Decidir se o paciente dever ser tratado por um dentista clínico geral ou um cirurgião oral e maxilofacial Três critérios principais levam à internação hospitalar de emergência devido à possibilidade iminente de obstrução das vias aéreas superiores: o História de infecção de progressão rápida o Dificuldade de respiração (dispneia) o Dificuldade de deglutição (disfagia) Princípio 4 → Tratamento Cirúrgico da infecção O princípio básico do tratamento das infecções odontogênicas é executar uma drenagem cirúrgica e remover a causa da infecção. Tratamento endodôntico ou extração. Profilaxia antibiótica antes da cirurgia. Teste de cultura e sensibilidade - deve-se considerar a obtenção de uma amostra antes da incisão cirúrgica. Protocolo cirúrgico Incisão - deve ser curta, não mais que 1 cm de comprimento. Divulsão - com a pinça hemostática - ela entra fechada para dentro da cavidade do abscesso e então é aberta em várias direções para quebrar todas as loculações ou cavidade de pus. Após a remoção de toda secreção purulenta, insere-se um dreno para manter a abertura e manter a drenagem. O dreno é, então, suturado no local com fio de sutura não absorvível. A sutura deve ser feita em tecido viável para evitar a perda do dreno em consequência do Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 4 rompimento de tecidos sem vitalidade pelo fio de sutura. O dreno deve permanecer no local até que cesse a drenagem do abscesso, em geral dois a cinco dias. A retirada é feita por simples corte na sutura e deslizamento do dreno para fora da ferida. Princípio 5 → Suporte médico para o paciente A resistência sistêmica do hospedeiro deve ser considerada em três áreas: sistema imune comprometido, controle da doença sistêmica e reservas fisiológicas. 1. Sistema imune comprometido → Infecções odontogênicas que ocorrem em pacientes com sistema imunes comprometidos devem ser tratadas por um especialista. Frequentemente, consultas médicas e hospitalização são necessárias. A equipe do tratamento seleciona terapias designadas para melhorar a resposta imune, combater a infecção com antibióticos bactericidas e otimizar o tratamento cirúrgico da infecção. Doenças que comprometem o sistema imune: 2. Controle da doença sistêmica → Muitas doenças sistêmicas também reduzem a capacidade do paciente em resistir à infecção e suportar o tratamento. No diabetes, por exemplo, o controle do nível de açúcar no sangue está diretamente correlacionado com a resistência da infecção. A resposta do hospedeiro para uma infecção significante aumenta os níveis de açúcar no sangue e, portanto, há necessidade de insulina para o indivíduo diabético. Doenças cardiovasculares diminuem a capacidade do hospedeiro para responder ao estresse da infecção e da cirurgia. Dessa forma, o controle otimizado da hipertensão, das disritmias cardíacas e da cardiopatia aterosclerótica é essencial para um tratamento bem-sucedido das infecções odontogênicas. Medicamentos podem, também, afetar o tratamento dessas infecções. O paciente recebendo terapia anticoagulante com warfarina (Coumadin) deve interrompê-la antes dos procedimentos cirúrgicos, para que a cirurgia possa ser feita de maneira segura. 3. Reservas fisiológicas → Mesmo pacientes sem doenças sistemicamente comprometedoras podem ter reservas fisiológicas alteradas ou reduzidas para circunscrever e combater uma infecção odontogênica. Princípio 6 → Escolher e prescrever os antibióticos apropriados Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 5 Esses antibióticos são efetivos contra estreptococos e aeróbicos facultativos (com exceção do metronidazol) e anaeróbicos orais. O metronidazol é efetivo somente contra bactérias obrigatoriamente anaeróbicas. Uso de Antibióticos de Espectro Reduzido Quando um antibiótico é administrado para um paciente, muitas bactérias suscetíveis são mortas. Se o antibiótico é de curto espectro, ele matará uma estreita faixa de bactérias. Por exemplo, a penicilina matará estreptococos e bactérias orais anaeróbicas, mas terão pouco efeito sobre estafilococos da pele e quase nenhum efeito sobre bactérias do trato gastrintestinal. Em resumo, antibióticos que possuem atividade de espectro reduzido contra micro-organismos infecciosos são tão efetivos quanto antibióticos que possuem atividade de amplo espectro, sem os problemas de modificar a microflora normal de o hospedeiro aumentar a chance de surgimento de bactérias resistentes. Princípio 7 → Administrar o antibiótico apropriadamente Uma vez que é tomada a decisão de prescrever um antibiótico para o paciente, a medicação deve ser administrada em dose e intervalos corretos. O clínico deve deixar claro ao paciente que a prescrição deve ser usada em sua totalidade. Se por alguma razão o paciente é aconselhado a parar de usar o antibiótico precocemente, todos os comprimidos ou cápsulas remanescentes devem ser descartados. Princípio 8 → Avaliar frequentemente o paciente O paciente tratado com cirurgia e recebendo antibioticoterapia deve ser acompanhado cuidadosamente para controle da resposta ao tratamento e das complicações. Na maioria das situações, deve-se solicitar ao paciente que retorne ao dentista dois dias após a terapia inicial. O dentista deve checar o local de ID para determinar se o dreno deve ser removido naquele momento. Outros parâmetros, como temperatura, trismo, tumefação e melhoras subjetivas que o paciente vem sentindo, devem ser também avaliados. Se não há resposta adequada ao tratamento, o paciente deve ser examinado cuidadosamente para buscar os indícios da razão da falha. Finalmente, o dentista deve acompanhar, cuidadosamente, o paciente para verificar uma possível infecção recorrente. A recorrência pode ser vista em pacientes que foram submetidos à terapia incompleta para infecção. Se houver uma infecção recorrente, a intervenção cirúrgica e a reinstituição da antibioticoterapia devem ser consideradas. PRINCÍPIOS DAPREVENÇÃO DAS INFECÇÕES Princípio 1: Procedimento deve ter risco significativo de infecção Para antibióticos administrados profilaticamente com o objetivo de reduzir a incidência de infecção, o processo cirúrgico deve ter uma incidência elevada o suficiente de infecção para esta ser reduzida pela antibioticoterapia. Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 6 Princípio 2: Escolha correta do antibiótico A escolha do antibiótico correto para profilaxia contra as infecções após cirurgia na cavidade bucal deve se basear nos seguintes critérios: O antibiótico deve ser efetivo contra o organismo mais provável de causar infecção na cavidade oral. Como previamente discutido, estreptococos facultativos são, originariamente, organismos invasores na infecção oral. O antibiótico escolhido dever ser um antibiótico de curto espectro. O antibiótico deve ser o menos tóxico disponível para o paciente. A droga selecionada deve ser um antibiótico bactericida. Considerando esses quatro critérios, o antibiótico de escolha para profilaxia antes da cirurgia oral é a penicilina ou a amoxicilina. Esses antibióticos são efetivos contra micro-organismos (p. ex., Streptococcus), são de espectro curto, têm baixa toxicidade e são bactericidas. Para pacientes alérgicos à penicilina, a melhor escolha é a clindamicina. A terceira escolha para administração oral para profilaxia é azitromicina. A azitromicina, razoavelmente, é efetiva contra micro- organismos comuns e é de espectro curto, mas também é bacteriostática. Princípio 3: O nível plasmático do antibiótico deve ser elevado Quando antibióticos são usados profilaticamente, o seu nível plasmático deve ser mais alto que quando são usados com fins terapêuticos. A recomendação geral para profilaxia é que a droga deve ser administrada em dosagem pelo menos duas vezes maior que a dose terapêutica usual. Para a penicilina ou a amoxicilina, essa dose é 2g; para clindamicina, 600mg; e para azitromicina, 500mg. Princípio 4: Tempo correto de administração do antibiótico Para o antibiótico ter a eficácia máxima na prevenção da infecção pós-operatória, deve ser administrado 2 horas ou menos, antes do início da cirurgia. Para a via oral, esse período é de, geralmente, 1 hora; na administração intravenosa, o menor intervalo de dosagem pré-operatória possível. A administração de antibióticos após a cirurgia tem a sua eficácia amplamente reduzida e não tem qualquer efeito na prevenção da infecção. Há evidência que indica que antibióticos administrados profilaticamente 2 horas ou mais após a cirurgia pode aumentar o risco de infecções da ferida. Se a cirurgia for prolongada e doses adicionais de antibióticos forem necessárias, os intervalos das doses transoperatórias devem ser encurtados (p. ex., a metade do intervalo da dose terapêutica usada). Portanto, a penicilina e a clindamicina devem ser administradas a cada 3 horas. Isso assegura que o pico do nível plasmático de antibiótico permanecerá adequadamente alto e evitará períodos de nível inadequado nos fluidos teciduais. Princípio 5: Usar o menor tempo possível de exposição aos antibióticos que seja eficaz Para que a profilaxia antibiótica seja efetiva, o antibiótico deve ser administrado antes de a cirurgia começar, e níveis plasmáticos adequados devem ser mantidos durante o procedimento cirúrgico. Se o procedimento é uma operação curta, uma única dose pré-operatória de antibióticos é adequada. PRINCÍPIOS DA PROFILAXIA CONTRA INFECÇÃO METASTÁTICA A infecção metastática é definida como uma infecção que ocorre em uma localização distante da porta de entrada das bactérias. Exemplo: endocardite bacteriana, que surge a partir de bactérias que são introduzidas na circulação como resultado de uma extração dentária. Princípios do tratamento e prevenção de Infecções Odontogênicas 7 O algoritmo apresentado é uma orientação para decisão do tratamento de infecções odontogênicas não complicadas.