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CRÍTICA LITERÁRIA 
 
ARTIGOS DO GLOSSÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS 
PRIMEIRA PARTE 
 
 
M. H. Abrams 
Cornell University 
 
A Glossary of Literary Terms, 7th edition 
Heinle & Heinle, 1999 
 
traduzido do inglês por Bruna T. Gibson 
em dezembro de 2009 
 
 
 
NOTA DO TRADUTOR. A partir da obra A Glossary of Literary Terms, de M. H. Abrams, 
membro do Departamento de Inglês da Cornell University, selecionei os artigos relaci-
onados às diversas correntes de crítica literária. Esta primeira parte inclui os textos: 
Criticism; Current Theories of Criticism; Influence and the Anxiety of Influence; Arche-
typal Criticism; Aestheticism, or the Aesthetic Movement; Speech-act Theory; Decon-
struction; e Dialogic Criticism. 
 
 
 
Crítica literária 
 
Crítica, ou mais especificamente crítica literária, é o termo geral para os estudos 
relacionados à definição, classificação, análise, interpretação e avaliação de obras lite-
rárias. A crítica teórica propõe uma teoria explícita da literatura – no sentido de prin-
cípios gerais – juntamente com um conjunto de termos, distinções e categorias a se-
rem aplicados na identificação e análise de obras literárias, e também o critério (pa-
Bruna T. Gibson
Sticky Note
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drões ou normas) pelos quais essas obras e seus autores devem ser avaliados. O mais 
antigo e duradouramente importante tratado de crítica teórica foi a Poetics [Poética] 
de Aristóteles (século IV a.C.). Dentre os críticos teóricos mais influentes nos séculos 
seguintes estão Longino, na Grécia; Horácio, em Roma; Boileau e Sainte-Beuve, na 
França; Baumgarten e Goethe, na Alemanha; Samuel Johnson, Coleridge e Matthew 
Arnold, na Inglaterra; e Poe e Emerson, nos EUA. Marcos da crítica teórica na primeira 
metade do século XX são Principles of Literary Criticism [Princípios da crítica literária] 
(1924), de I. A. Richards; The Philosophy of Literary Form [A filosofia da forma literária] 
(1941, rev. 1957), de Kenneth Burke; Mimesis [Mimese] (1946), de Eric Auerbach; 
Critics and Criticism [Críticos e crítica] (1952), de R. S. Crane (ed.); e Anatomy of 
Criticism [Anatomia da crítica] (1957), de Northrop Frye. 
Desde a década de 1970 surgiu um grande número de escritos – continentais, 
americanos e ingleses – que propunham novas, diferentes e radicais formas de teoria 
crítica. Estes estão listados e datados no artigo Teorias críticas atuais; cada teoria na 
lista também possui um artigo individual neste Glossário. Para uma discussão dos usos 
especiais do termo “teoria” nesses movimentos críticos atuais, ver Pós-estruturalismo. 
A crítica prática, ou crítica aplicada, se ocupa da discussão de obras e autores em 
particular; numa crítica aplicada, os princípios teóricos que controlam o modo de aná-
lise, interpretação e avaliação são frequentemente deixados implícitos, ou apresenta-
dos apenas quando a ocasião exige. Dentre as obras mais influentes de crítica literária 
na Inglaterra e nos EUA estão os ensaios literários de Dryden no Restoration [Restau-
ração]; Lives of the English Poets [Vida dos poetas ingleses] (1779-81), do Dr. Johnson; 
os capítulos de Coleridge sobre a poesia de Wordsworth, na Biographia Literaria 
(1817), e também suas palestras sobre Shakespeare; as palestras de William Hazlitt 
sobre Shakespeare e os poetas ingleses, nas segunda e terceira décadas do século XIX; 
Essays in Criticism [Ensaios de crítica] (1865 e seguintes), de Matthew Arnold; Practical 
Criticism [Crítica prática] (1930) de I. A. Richards; Selected Essays [Ensaios escolhidos], 
de T. S. Eliot; e os diversos ensaios críticos de Virginia Woolf, F. R. Leavis e Lionel 
Trilling. The Well Wrought Urn [A urna bem forjada] (1947), de Cleanth Brooks, exem-
plifica a “leitura próxima” de textos em particular que era a forma típica de crítica prá-
tica na Nova Crítica norte-americana. 
A crítica prática às vezes se divide em crítica impressionista e judicial: 
A crítica impressionista procura representar em palavras as qualidades sentidas 
de uma passagem ou obra em particular, e expressar as respostas (a “impressão”) que 
a obra evoca diretamente no crítico. Como William Hazlitt colocou em seu ensaio “On 
Genius and Common Sense” [Sobre o gênio e o senso comum] (1824): “Você decide a 
partir do sentimento, e não da razão; quer dizer, da impressão que as coisas exercem 
sobre a mente... apesar de não poder analisar ou explicar os particulares.” E Walter 
Pater disse posteriormente que, na crítica, “o primeiro passo para ver um objeto como ele 
realmente é, é conhecer a própria impressão como ela realmente é, discriminá-la, com-
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preendê-la distintamente”, e colocou como a questão básica – “O que é esta música ou 
imagem... para mim?” (prefácio do Studies in the History of the Renaissance [Estudos sobre 
a história da Renascença], 1873). Levada ao seu extremo, essa forma de crítica se torna, na 
frase de Anatole France, “as aventuras de uma alma sensível entre obras-primas.” 
A crítica judicial, por outro lado, procura não meramente comunicar, mas analisar 
e explicar os efeitos de uma obra, referindo-se a seu tema, organização, técnicas e 
estilo, e basear os julgamentos individuais do crítico em critérios específicos de exce-
lência literária. Raramente essas duas formas de crítica se distinguem agudamente na 
prática, mas bons exemplos de comentários primariamente impressionistas podem ser 
encontrados em Longino (ver a caracterização da Odisséia, em seu tratado On the 
Sublime [Sobre o sublime]), Hazlitt, Walter Pater (o locus classicus do impressionismo 
em sua descrição da Mona Lisa de Da Vinci, em The Renaissance [A Renascença], 
1873), e em alguns dos ensaios críticos do século XX de E. M. Forster e Virginia Woolf. 
Os tipos de teorias críticas tradicionais e de crítica aplicada podem ser proveito-
samente diferenciados tendo como referência, no momento da explicação e julgamen-
to de uma obra literária, o fato de relacionarem a obra principalmente ao mundo ex-
terno, ao leitor, ao autor, ou então tratá-la como uma entidade em si mesma: 
 
1. A crítica mimética vê a obra literária como uma imitação, reflexo ou repre-
sentação do mundo e da vida humana, e o critério primário aplicado à obra é 
o da “verdade” da sua representação em relação ao assunto que representa, 
ou deveria representar. Essa forma de crítica, que primeiramente apareceu 
em Platão e (de forma qualificada) em Aristóteles, permanece característica 
das teorias modernas de realismo literário. (Ver imitação.) 
2. A crítica pragmática vê a obra como algo que é construído com o objetivo de 
alcançar certos efeitos na audiência (tais como prazer estético, instrução ou 
espécies de emoção), e tende a julgar o valor da obra de acordo com o suces-
so no alcance desse objetivo. Essa abordagem, que amplamente dominou as 
discussões literárias desde o versificado Art of Poetry [Arte da poesia], do ro-
mano Horácio (século I a.C.), e por todo o século XVIII, foi revivida na recente 
crítica retórica, que enfatiza as estratégias artísticas pelas quais um autor en-
gaja e influencia as respostas dos leitores em relação aos temas representa-
dos numa obra literária. A abordagem pragmática também foi adotada por 
alguns estruturalistas que analisam o texto literário como jogo sistemático de 
códigos que afetam as respostas interpretativas do leitor. 
3. A crítica expressiva trata a obra literária principalmente em relação a seu au-
tor. Define a poesia como uma expressão, transbordamento, ou declaração 
de sentimentos, ou como o produto da imaginação do poeta operando em 
suas percepções, pensamentos e sentimentos;

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