SUSTENTENTABILIDADE CONSENSO PERVERSO
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SUSTENTENTABILIDADE CONSENSO PERVERSO

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PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013).

Sustentabilidade: um consenso perverso?1
Ricardo Zagallo Camargo2
ESPM

Resumo
Tomamos emprestada a expressão da professora Evelina Dagnino (2004) para fazer a pergunta que intitula
este texto. Por perverso a autora se refere a um fenômeno cujas consequências contrariam sua aparência e
cujos efeitos são distintos do que se poderia esperar. Daí a pergunta e seus desdobramentos: Que projetos
antagônicos agrupam-se sob o consenso aparente acerca da sustentabilidade? Sob essa palavra o que está em
disputa na enunciação do social? Com o objetivo de oferecer algumas chaves para o entendimento dessas
questões o artigo, com característica de ensaio teórico, é constituído por um levantamento crítico da literatura
a respeito da temática da sustentabilidade, dividido em três blocos que abordam a articulação do conceito de
sustentabilidade com as noções de desenvolvimento, consumo e espaço público.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Consumo; Desenvolvimento; Espaço público

Tomamos emprestada a expressão confluência perversa utilizada pela professora Evelina

Dagnino (2004) para fazer a pergunta que intitula este texto. Por perverso a autora se refere a um
fenômeno cujas consequências contrariam sua aparência e cujos efeitos são distintos do que se

poderia esperar. Ela observa, a partir da década de 90, uma confluência perversa entre dois projetos

com identidade de propósitos aparente, construída por referências comuns e uma série de

“coincidências” no nível do discurso, que envolvem disputa de significados e deslizamentos

semânticos. De um lado, o processo democratizante e participativo que emerge da luta contra o

regime militar, envolvendo movimentos sociais e tendo com marcos a Constituição de 1988, a

democracia formal e a primeira eleição do presidente Lula. De outro, o projeto de Estado mínimo,

adequado ao modelo neoliberal, que se isenta de responsabilidades e as transfere para a sociedade

civil.

(...) a última década é marcada por uma confluência perversa entre esses dois projetos. A
perversidade estaria colocada, desde logo, no fato de que, apontando para direções opostas e
até antagônicas, ambos os projetos requerem uma sociedade civil ativa e propositiva. Essa

1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 10 – Comunicação, consumo, poder e discursos, do 3º Encontro de GTs -
Comunicon, realizado nos dias 10 e 11 de outubro de 2013.
2 Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Diretor Executivo e pesquisador
do Centro de Altos Estudos da ESPM (CAEPM) zagallo@espm.br.

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identidade de propósitos, no que toca à participação da sociedade civil, é evidentemente
aparente. Mas essa aparência é sólida e cuidadosamente construída através da utilização de
referências comuns, que tornam seu deciframento uma tarefa difícil, especialmente para os
atores da sociedade civil envolvidos, a cuja participação se apela tão veementemente e em
termos tão familiares e sedutores. A disputa política entre projetos políticos distintos assume
então o caráter de uma disputa de significados para referências aparentemente comuns:
participação, sociedade civil, cidadania, democracia. (DAGNINO, 2004, p.96-97)

Retomamos as colocações de Dagnino (2004) por acreditar que essa disputa continua

presente sob o aparente consenso acerca da temática da sustentabilidade, em especial quando esta

trata das questões sociais e de cidadania, com a prevalência da ótica gerencial, advinda do universo

das empresas.

Nesse sentido, Müller (2009, p.141-156) destaca a disseminação de modelos para ação

social a partir do olhar da empresa, fazendo uso dos conceitos, vocabulário e conjunto de imagens

do discurso empresarial, tais como a percepção da responsabilidade social como modelo de gestão e

o entendimento dos problemas sociais como carências e demandas por bens e serviços. A autora

observa que é compreensível que a incorporação de preocupações sociais e ambientais pelas

empresas implique a adequação dessas questões aos limites colocados pela lógica de mercado, com

a neutralização da dimensão política e potencial contestador. Chama a atenção, contudo, para o fato

de que a definição do social pela ótica empresarial está sendo aceita por amplas parcelas da

sociedade, alçando a teoria dos stakeholders (públicos de interesse das empresas) ao papel de teoria
social. Algo que reduz a compreensão da sociedade à identificação de partes interessadas em

relação aos gestores de recursos. Um cenário onde quem não é identificado não é percebido como

detentor de direitos nem tem voz para demandá-los.

Complementando as colocações da autora, observamos que quando a sociedade como um

todo tende a ser empresa a noção de direitos sai de cena. Como observa Almeida (2006) prevalece

uma proposta de cidadania que já não expressa medida de igualdade politicamente construída e

fundamentada em direitos, mas uma igualdade fundada no potencial empreendedor, que carece de

condições favoráveis para se desenvolver. Um conjunto que aponta para uma definição de interesse

público que não resulta de negociações políticas, mas pressupõe ausência delas, dando lugar a

parcerias pontuais e provisórias, articuladas aos interesses de empresas privadas.

Portanto, o consenso sustentável inclina-se a nosso ver para uma trajetória que diverge da

ampliação dos direitos do cidadão e da participação democrática, por meio de instâncias públicas

deliberativas. Algo compatível com o modo empresarial de lidar com as questões sociais, modo esse

marcado pela redução das questões ao âmbito da cadeia produtiva, associação da cidadania à

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produção e consumo e submissão dos aspectos políticos às decisões técnicas, advindas, sobretudo,

do âmbito econômico.

A inversão (submissão da técnica à política) não é tarefa que caiba às empresas e exige,

como lembra Sennett (2006), um trabalho de reinvenção. Não há como mantermos os direitos

trabalhistas, por exemplo, nos moldes em que foram idealizados, assim como não podemos aceitar

tranquilamente a substituição desses direitos por um campo aberto e desigual de negociações entre

trabalhadores isolados e conglomerados empresariais cada vez mais fortes. Como propõe esse autor

precisamos imaginar outros caminhos. Em diálogo com as empresas, acrescentamos. Mas cientes de

que não queremos a mesma coisa e sabendo que há interesses distintos em jogo.

Tendo esse quadro em vista, onde prevalece um olhar gerencial, este trabalho se propõe a

elencar autores e obras que nos ajudem a desvelar as propostas divergentes agrupadas sob o

consenso aparente acerca da temática da sustentabilidade.

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável

Marcel Bursztyn e José Augusto Drummond (2009) associam a noção de sustentabilidade às

preocupações sistemáticas com o desenvolvimento. “Sustentável” é, por esse prisma, uma entre

várias palavras ou expressões cunhadas para indicar direções para o desenvolvimento, tais como

“integrado”, “social” e “territorial”. Lembram, nesse sentido, que nos últimos três séculos foram

priorizados os seguintes eixos para busca do desenvolvimento: século XIX: foco na aceleração da

produção e produtividade econômicas; século XX: inclusão da dimensão social, a partir da

percepção da necessidade de melhorar as condições de vida