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TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 1 Aula 2: Interpretação constitucional ........................................................................................ 2 Introdução ............................................................................................................................ 2 Conteúdo............................................................................................................................... 4 O mundo globalizado e a aproximação de sistemas .................................................... 4 O sistema jurídico brasileiro e a common law ............................................................... 4 Emenda Constitucional nº 45/2004 ................................................................................. 5 Transconstitucionalismo e a cross fertilization .............................................................. 5 Aproximação da civil law e common law – algumas notas introdutórias ................ 6 Sistema jurídico brasileiro e o sistema de common law .............................................. 7 Civil Law ................................................................................................................................. 8 Fatores condicionantes na organização dos fatores jurídicos brasileiro .................. 9 A aproximação do sistema jurídico brasileiro ao sistema de common law ........... 10 Sistema de common law .................................................................................................. 12 Súmula vinculante .............................................................................................................. 15 Poder Judiciário brasileiro ................................................................................................ 17 O transconstitucionalismo e as fertilizações cruzadas entre sistemas .................... 18 Transconstitucionalismo e interconstitucionalidade .................................................. 20 As formas de transconstitucionalidade entre ordens jurídicas ................................. 21 Entre direito estatal e direito internacional público .................................................... 23 Fatores de ordem judicial ................................................................................................. 24 Atividade proposta ............................................................................................................. 26 Notas .................................................................................................................................... 26 Aprenda Mais ..................................................................................................................... 27 Referências ......................................................................................................................... 27 Exercícios de fixação ........................................................................................................ 29 ........................................................................................................... 35 Chaves de resposta TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 2 Introdução À medida que a globalização se expande, cresce igualmente a necessidade de interação entre sistemas. Há muito tempo, discute-se a oposição antitética entre o sistema anglo-saxão da common law e o sistema continental, também chamado pelos common lawyers de sistema da civil law (ou sistema românico- germânico, como também denominamos entre nós). Essa virtual oposição teórica fazia parecer que estávamos diante de sistemas absolutamente antagônicos e opostos. Hoje, as posições que observam os dois sistemas a partir de uma summa divisio são cada vez mais raras. A percepção de aproximação dos dois sistemas fundamentais ocidentais trouxe à tona a necessidade de aprofundar, sob a perspectiva teórica, quais os motivos que nos levam a essa direção e qual a consequência dessa situação para o constitucionalismo. No Brasil, as influências entre sistemas jurídicos vão sendo observadas não apenas por essa aproximação entre common law e civil law, mas, também, pelos recentes estudos de fenômenos como o da transconstitucionalização e o da cross fertilization. Todos apontam para uma tendência de influências recíprocas entre sistemas jurídicos, principalmente a partir da ascensão do paradigma jusfilosófico neoconstitucional, conforme vimos na aula 1. Tratemos de enfrentar, então, a temática, fazendo as devidas conexões! Boa aula! TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 3 Objetivos: 1. Analisar as características das escolas jurídicas da common law e da civil law e suas formas de aproximação com os sistemas constitucionais ocidentais, o brasileiro em especial; 2. Estabelecer as características fundamentais da transconstitucionalização como fenômeno que conecta a constituição à uma visão necessariamente global, plural e interconectável entre sistemas. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 4 Conteúdo O mundo globalizado e a aproximação de sistemas Na aula anterior, você conheceu o neoconstitucionalismo. Nesta aula, aprofundaremos sobre o termo transconstitucionalidade. Vamos lá! O crescimento da globalização e da internacionalização tem evidentes consequências no mundo hodierno. Não era razoável considerar que o mundo jurídico escapasse a essa lógica. Dois fenômenos de aproximação entre as diversas ordens parecem ser objeto de maior estudo por parte dos estudiosos do direito, em particular dos constitucionalistas: a aproximação entre a common law e a civil law (sistemas há pouco considerados antagônicos entre si) e o crescente diálogo mantido entre as ordens constitucionais. O tema é vasto, e, neste momento, a pretensão é não somente apontar para as novas discussões surgidas no campo jurídico, mas, também, inspirar novos e enriquecedores debates. Começaremos pelo tema menos original, mas ainda pouco analisado (proximidade entre common law e civil law), para depois adentrarmos na temática que começa a ganhar maior fôlego no país, que é o da transconstitucionalidade (para alguns, interconstitucionalidade). O sistema jurídico brasileiro e a common law Como vimos, no fim dos anos 90, começam a ser disseminadas no Brasil, principalmente no âmbito acadêmico, as correntes teóricas de autores neoconstitucionalistas (classificação atualmente concedida por grande parte da doutrina). Ao defenderem a natureza normativa dos princípios, acabaram por incentivar uma revolução no processo de interpretação das normas jurídicas, incumbindo os juízes de tarefas de preenchimento de lacunas legais cada vez mais frequentes em um ambiente social cada vez mais complexo. A ausência de estudos mais aprofundados das linhas metodológicas utilizadas por esses autores provocou uma onda interpretacionista um tanto caótica, gerando um ambiente de grande insegurança jurídica. Concomitantemente, por TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 5 seu lado, seguiam os tribunais brasileiros abarrotados de processos, que, com a mesma causa de pedir e com o mesmo pedido, tinham as mais díspares decisões, ainda em situações nas quais o Supremo Tribunal Federal já havia cristalizado posição em relação ao tema. Emenda Constitucional nº 45/2004 Com a promulgação da Emenda Constitucional nº 45/2004, a qual acrescentou ao texto constitucional o Artigo 103-A, conferiu-se poderes ao Supremo Tribunal Federal para aprovar súmulas contendo eficácia vinculante (e não apenas persuasivas) sobre decisões futuras, acirrando, no âmbito do direito pátrio, a discussão sobre uma possível aproximação do sistema jurídicobrasileiro – historicamente construído na tradição da civil law (germânico- romana) – com o sistema da common law (anglo-americano). Por outro lado, igualmente relacionado ao fenômeno de aproximação de sistemas em um mundo globalizado, vem sendo frequentemente observado nas sessões do STF, não apenas a menção a institutos típicos de sistemas jurídicos estrangeiros, mas também a construção de linhas de fundamentação de decisões que utilizam base jurisprudencial do direito alienígena ou, ao menos, em rationes decidendi estabelecidas por cortes estrangeiras. É a chamada racionalidade transversal entre sistemas jurídicos, fenômeno cada vez mais percebido e naturalizado. Transconstitucionalismo e a cross fertilization Sobre essas temáticas, surgem algumas questões que servem como guia para um maior aprofundamento sobre o tema. São elas: Procede tal afirmação de que existe uma aproximação do sistema brasileiro às características que tradicionalmente se julgavam típicas dos sistemas vinculados à common law? O instituto da súmula vinculante pode ser considerado uma consequência direta de tal aproximação? TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 6 Existindo tal aproximação do nosso sistema com a common law, isto aperfeiçoaria o sistema jurídico brasileiro ou, ao contrário, criaria um antagonismo com sua linha tradicional? O que representam o transconstitucionalismo e a cross fertilization em um contexto de racionalidade transversal entre sistemas jurídicos? Para fins didáticos, entendemos que seja mais adequado iniciar nossa abordagem pelo estudo de aproximação entre a civil law e a common law, não apenas por ser um tema já apontado pelos estudiosos no Brasil (embora, sem aprofundar os fundamentos), mas, principalmente, por estar ele relacionado a uma temática analisada na aula anterior, o que facilita o caminho a ser percorrido. Logo após, partiremos para análise do transconstitucionalismo, fenômeno que só agora parece ser percebido pelos estudiosos e que vem ganhando destaque no universo jurídico-constitucional brasileiro. Aproximação da civil law e common law – algumas notas introdutórias Sob uma perspectiva teórica e para fins cognitivos, é possível estabelecer linhas que distinguem os modelos common law e civil law. O intuito aqui não é discutir todas as diferenças, mas focar naquelas que mais dados podem nos oferecer para responder às questões acima formuladas. Segundo os comparatistas, as características a seguir são pontos tradicionalmente tidos como de afastamento e distinção entre as duas grandes famílias. Se, por um lado, a civil law (que traduz ius civile do latim) descende do direito romano, o direito da common law deita raízes em uma tradição autóctone. Se, na civil law, há uma longa tradição de codificação e de lei (em seu sentido estrito) como fonte do direito – recusando-se a ideia de ser a jurisprudência (precedentes) como fonte autônoma do direito –, por outro lado, a tradição TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 7 anglo-americana, mesmo quando se utiliza da codificação, como em vários Estados americanos (statutes), apresenta-a como consolidação jurisprudencial. Se, por um lado, na civil law, prevalece o pensamento abstrato-dedutivo, tipicamente logicista, por outro, na common law, prevalece um raciocínio mais concreto, ligado a uma tradição empiricista (e mesmo pragmática), própria da cultura anglo-saxã. Se, por um lado, para a maior parte dos autores, a civil law identifica como característica típica o primado do público sobre o privado, na common law, ao contrário, entende-se que há o primado da perspectiva privada sobre a pública. Se, por um lado, o tipo de racionalidade utilizada na civil law é predominantemente de tipo lógico, na common law, utiliza-se predominantemente aquela de natureza pragmática. Se, por um lado, o tipo de sistema de direito utilizado pela civil law é predominantemente legislado, não judicialista, o da common law é preponderantemente judicialista, de forma que, nos sistemas irmãos, os juízes tradicionalmente exercem papéis bastante diferenciados. Sistema jurídico brasileiro e o sistema de common law Mesmo reconhecendo a importância de todas perspectivas de análise acima apresentadas, parece-nos que o ponto cardeal da discussão para tratar de uma aproximação do sistema jurídico brasileiro com o sistema de common law se refere não necessariamente a todas as características citadas (embora se possa verificar também, em algumas delas, um certo movimento de aproximação por parte do sistema brasileiro com a common law), mas, principalmente, no que diz respeito à última das características mencionadas, ou seja, o papel desenvolvido pelos juízes e pela jurisprudência no processo de produção do direito. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 8 Essa posição baseia-se não apenas por ser a questão de maior relevância do problema, mas, principalmente, devido às repercussões que esse ângulo de análise tem suscitado atualmente no Brasil, a partir da ascensão das concepções jurídico-filosóficas neoconstitucionais no nosso país e em diversos sistemas jurídicos, como já falamos. Dessa forma, até campos do conhecimento estranhos ao direito já começam a perceber o fenômeno a ponto de entrarem nas discussões acerca de temas como ativismo judicial e judicialização da política. Civil Law Como se pode ver, é uma questão de natureza cultural. Em grande parte dos estados que adotam a civil law, antes da passagem de uma ordem tradicional para uma ordem pós-tradicional, mais precisamente antes da ascensão do Estado de Direito em substituição aos Estados Absolutistas, o Poder Judiciário sempre foi exercido por uma elite nobre extremamente ligada por fortes laços de confiança e lealdade aos reis. Aliás, não há de se pensar em um contexto como esse em separação de poderes, já que esta é uma formulação típica do Estado de Direito e só surge no contexto da afirmação deste e como uma de suas principais características. Por outro lado, cabe lembrar que, embora a monarquia inglesa possa ser considerada, até os dias de hoje, uma instituição política bastante sólida, não devemos esquecer que a própria ideia de divisão de poderes e consequente mitigação dos poderes reais sempre teve na Inglaterra um terreno fértil. Desde a Magna Charta, o exercício do poder político pelo monarca inglês foi sendo paulatinamente mitigado, sendo ele exercido, pouco a pouco, de forma cada vez mais descentralizada se compararmos com seus congêneres continentais. Isso explica a razão pela qual o fenômeno da desconfiança exacerbada na figura dos juízes, ocorrida nos países de tradição da civil law, TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 9 não encontrou na Inglaterra um ambiente propício para se desenvolver, sendo que esta pôde, assim, exportar às suas colônias seu modelo de common law. Nessa perspectiva e se essas considerações de ordem cultural estão corretas como cremos estar, é possível que tenhamos, inclusive, uma possível releitura acerca da própria ideia de legitimidade para o exercício do poder de produzir normas no Brasil. É mesmo possível enxergar que esteja em curso um processo que estabelece importantes alterações de rumo no tradicional sistema desenvolvido no Brasil Por isso, cabe ressaltar que o fenômeno brasileiro não é algo isolado. Esses supostos distanciamentos teóricos e práticos vêm cedendo espaço a cada dia, perdendo força no interior das ordens jurídicas de tradição ocidental. Por isso, essa tendência de aproximação observada entre as duas grandesfamílias do Direito repercute de forma indiscutível na organização do sistema jurídico brasileiro. Fatores condicionantes na organização dos fatores jurídicos brasileiro Dentro do que foi dito anteriormente, percebe-se que dois motivos nascidos do âmbito da dinâmica de reconfiguração da ordem mundial aparecem de forma mais evidente (tal qual fatores condicionantes externos para a citada aproximação, mas que se projetam de forma inequívoca também no Brasil). São eles: Uma primeira motivação a ser apontada é a globalização. As diferentes matrizes teóricas vivenciadas pelas duas experiências sistêmicas acabaram por se reduzir em grande escala quando comparadas a matrizes de outras famílias do direito, principalmente se levarmos em conta temas como direitos fundamentais e humanos. Nesse sentido, diferenças epistêmicas, que antes pareciam insuperáveis, já podem ser TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 10 analisadas, como de raízes comuns, sendo que as aproximações já são claramente observáveis. Em um segundo plano, com especial relevância para uma tradição jurídico-filosófica ocidental como a brasileira, não há como imunizar-se da influência de importantes e grandiosos esforços realizados em uma Europa unificada, que agora procura encontrar as bases jurídicas nas quais se apoiarão as unidades econômica e política. Nesse sentido, é imperativo o esforço para encontrar os pontos comuns dessas duas tradições (civil e common law). Atenção Aliás, a União Europeia, unificada normativamente em várias áreas, é um excelente laboratório para demonstrar essa aproximação. Há bem pouco tempo, consideravam-se modelos jurídico-constitucionais específicos, com características de evidente singularidade, por exemplo, pós-modelos alemão, francês e inglês. Hoje, por força do processo de unificação, os países da União Europeia mantêm, entre si, diálogo permanente e, mais do que isso, bases e fontes comuns para formação de suas inteligências. A aproximação do sistema jurídico brasileiro ao sistema de common law Pelo o que já vimos até aqui, parece claro que a resposta aparentemente adequada para responder a primeira das questões apresentadas é da existência inequívoca de aproximação do sistema brasileiro às características que tradicionalmente se julgavam típicas dos sistemas jurídicos vinculados à common law. Esclarecemos que não se trata de uma mera referência ao reconhecimento de que as súmulas vinculantes acabaram TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 11 por institucionalizar o precedente como fonte primária do direito, sob a base da regra do stare decisis. Para que você possa entender melhor, Stare decisis é uma expressão em latim que se traduz como "ficar com as coisas decididas". Esta frase vem de uma locução mais extensa, "stare decisis et non quieta movere", utilizada no direito para se referir à doutrina segundo a qual as decisões de um órgão judicial criam precedente (jurisprudência) e vinculam as que serão emitidas no futuro. É doutrina típica do common law e não tão forte em sistemas de direito continental, onde a jurisprudência tende a ser meramente persuasiva. De toda forma, a maioria dos sistemas, no entanto, reconhecem que a jurisprudência deve ligar, de alguma forma, os juízes, evitando a total independência de suas linhas de decisão e que as suas decisões sejam totalmente imprevisíveis ou contraditórias entre si. A doutrina fala do stare decisis nas perspectivas horizontal e vertical. O stare decisis horizontal corresponde à modalidade em que os tribunais e outros órgãos do Poder Judiciário devem respeitar os seus próprios precedentes, internamente, sendo vinculante, portanto, para o próprio órgão, que não pode mais rediscutir a matéria, o que também é denominado de binding efect (efeito vinculante). No que se refere ao stare decisis vertical, significa que as decisões vinculam externamente, também a todos, sendo obrigatória para os demais órgãos do Poder Judiciário, para a Administração Pública Direta e Indireta, e demais poderes. Mais do que isso, é necessário ir adiante. A recepção pelo sistema brasileiro do precedente vinculante como fonte primária do direito pátrio é apenas uma das consequências de uma alteração paradigmática no sistema jurídico brasileiro, a partir da Constituição de 1988. Assim, é possível afirmar que o constituinte TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 12 originário, independentemente das inovações de ordem conteudísticas que, sob várias perspectivas, possibilitou a superação dos modelos anteriores, efetivamente alargou o papel a ser desenvolvido pelos juízes. Sistema de common law De acordo com o que foi afirmado anteriormente, se pararmos para pensar que o sistema de common law é judicialista e que a decisão judicial é a principal fonte de sua organização judiciária, não parece ser um raciocínio exagerado afirmar que o sistema de civil law, que, em razão de determinados processos históricos, sempre mostrou desconfiança das reais intenções dos juízes no processo de distribuição da justiça (lembrar da Escola da Exegese, que entendia que o juiz era um mero aplicador de normas jurídicas) ao conceder maiores espaços de atuação ao juiz, tende a flexibilizar seus dogmas. Nesse sentido, o constituinte derivado (e mesmo o legislador ordinário), ciente dos espaços semânticos deixados pela Constituição e do vácuo político deixado pelos poderes representativos, vem trabalhando pela ampliação não apenas do papel de legislador negativo exercido pelo juiz (papel típico), mas, principalmente e, nesse caso, de forma a mais se aproximar das características do juiz de common law, do de legislador positivo (este mais propenso a críticas e reflexões). Assim, partindo de uma premissa teórica largamente difundida, que afirma que, na civil law, o juiz tão somente deve aplicar a legislação (principalmente aquela produzida pelo Parlamento), a assunção dessas ideias acima apresentadas parecem colocar em questão este “dogma”, aproximando-se nosso sistema, ao menos em alguns aspectos importantes, aos preceitos da common law. Aliás, esse é um ponto que deve ser explorado de forma mais aguda pelos estudiosos comparatistas, principalmente no que diz respeito à utilização, também, de uma racionalidade pragmática, calculadora e consequencialista em TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 13 oposição a um modelo em que há predominância de uma racionalidade lógico- matemática. Partindo para a segunda questão deste primeiro ponto, já nos adiantamos no sentido de não nos parecer que tenha sido a Súmula Vinculante anteriormente referida, que, ao adentrar no sistema jurídico sob o argumento da necessidade de conceder maior segurança jurídica e prover celeridade à tutela jurisdicional, e que tem como inspiração a regra do stare decisis, o ponto inicial desse processo. É, sem dúvida, um dos pontos mais evidentes e contundentes de aproximação. Todavia, reiterando o anteriormente exposto, a afirmação do Poder Judiciário e dos juízes no Brasil é produto de muitos fatores que acabam por colaborar com essa mudança paradigmática. Conheça agora esses fatores, relacionados às regras de stare decisis: I) Incapacidade dos poderes legislativos parlamentares de preverem todas as hipóteses em uma sociedade hipercomplexa (fator comum ao mundo globalizado); II) Baixo grau de confiabilidade dos parlamentares brasileiros perante os cidadãos, sempre incrementado pelas contínuas denúncias de corrupção; III) Abertura semântica propiciada pela Constituiçãode 1988, que, em um quadro doutrinário que privilegia a hegemonia de teorias neoconstitucionalistas e de hermenêutica jurídica – e que, por esta razão, situa-se em um quadro teórico de substancialização do conceito de Estado Democrático de Direito –, acabam por propiciar um intenso trabalho de interpretação normativa pelo Judiciário, com o propósito de maior alinhamento do direito às especificidades do caso concreto; TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 14 IV) Grande receptividade de linhas teóricas denominadas neoconstitucionalistas, principalmente de autores com Ronald Dworkin (tradição anglo-americana), Robert Alexy (tradição românico-germânica), Atienza (tradição civil law espanhola) e Carbonell (civil law mexicana), que acabam por conceder sustentação teórica a uma perspectiva pós-positivista e incentivando o juiz a exercer o papel de intérprete do sistema; V) Surgimento de institutos jurídicos estranhos às constituições anteriores a 1988, que, aos poucos, vão sendo criados e que ampliam, em larga escala, o papel de legislador (negativo e positivo) dos juízes, tais como, a título exemplificativo, apresentamos abaixo: a) Ampliação do quadro instrumental para o controle de constitucionalidade – com ADI por Omissão, ADC e, principalmente, ADPF (Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental); b) Instrumentos como “interpretação conforme a Constituição”, “declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto” e “modulação temporal dos efeitos da constitucionalidade” (que permitem que normas inconstitucionais tenham seus efeitos reconhecidos); c) O mandado de injunção, em sua posição concretista; d) A súmula vinculante, instituto que introduziu a regra do stare decisis no Brasil, mas que é parte do processo e não o seu deflagrador. Dito isso, seguimos para o enfrentamento da última questão formulada, ou seja, se a aproximação a uma das principais características do sistema anglo- americano aperfeiçoaria ou não o sistema jurídico brasileiro. A tendência deste trabalho é filiar-se àqueles que escolhem a segunda opção, porém, é necessário ter em conta que essa aproximação deve ocorrer em uma justa medida, pois somente assim terá o condão de trazer benefícios de várias ordens, como TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 15 prover maior capacidade de obtenção de justiça nas decisões, conceder maior racionalidade ao sistema, proporcionar maior efetividade dos direitos, colmatar os vazios legais, preenchendo, assim, as lacunas da lei (já que direito é integridade), etc. Súmula vinculante No que se refere à súmula vinculante, por exemplo, não se pode esquecer que se os países de tradição na common law lutaram para construir, no decorrer de suas histórias, estruturas e mecanismos de controle a possíveis desequilíbrios no exercício do poder. Há, portanto, a necessidade de adaptar aos moldes do nosso sistema institutos como o distinguished e o overruling, a fim de que haja a cristalização de uma perspectiva. No Brasil, houve a criação de institutos que parecem poder substituir os acima citados distinguished e overruling. No caso de overruling, podemos pensar em sugerir a revisão ou cancelamento de enunciado de súmula vinculante. O problema aqui é a competência para solicitar, sendo que não poderá ser o cidadão/jurisdicionado, pois há indicação legal dos agentes legitimados. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 16 Atenção Lei nº 11.417/2006 Artigo 3º – São legitimados a propor a edição, a revisão ou o cancelamento de enunciado de súmula vinculante: I – o Presidente da República; II – a Mesa do Senado Federal; III – a Mesa da Câmara dos Deputados; IV – o Procurador-Geral da República; V – o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; VI – o Defensor Público-Geral da União; VII – partido político com representação no Congresso Nacional; VIII – confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional; IX – a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal; X – o Governador de Estado ou do Distrito Federal; XI – os Tribunais Superiores, os Tribunais de Justiça de Estados ou do Distrito Federal e Territórios, os Tribunais Regionais Federais, os Tribunais Regionais do Trabalho, os Tribunais Regionais Eleitorais e os Tribunais Militares. Já no caso do distinguished, a jurisprudência não definiu se seria o caso de uso do instituto da reclamação (utilizado fundamentalmente em casos de não aplicação) e, mais ainda, não confirmado se há possibilidade de utilização deste em caso de aplicação inoportuna. De toda sorte, embora tenhamos em vista o que estabelece o Artigo 518, § 1º, do Código de Processo Civil (que trata da Súmula Impeditiva de Recursos), há quem entenda existirem algumas alternativas para afastar este requisito, de forma a se admitir o recurso nos casos em que se possa mostrar razoáveis indícios de inaplicabilidade da súmula ao caso concreto, de demonstrar a superação do entendimento sumular ou mesmo, no limite, apresentar argumentos inovadores para aquela discussão. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 17 Atenção O Artigo 518, § 1º, do CPC dispõe que o juiz não receberá a apelação quando a sentença estiver em conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal. Poder Judiciário brasileiro Dando continuidade ao conteúdo, vamos conhecer um pouco mais do poder judiciário. Atenção Ainda dentro desse contexto, outro problema em relação a essa crescente posição proativa do Poder Judiciário brasileiro é aquele que diz respeito a um possível déficit democrático. Como se sabe, no decorrer de sua história, o Brasil não foi um país que tenha logrado construir uma tradição democrática que lhe permita abrir mão do forte simbolismo que representa a ideia de legitimidade das normas criadas por representantes votados pelo povo. De toda forma, deve-se ter em vista que a legitimidade exige outros requisitos além daqueles tradicionalmente postos, tal como o reconhecimento pelos destinatários das normas (titular da soberania popular) de que seus representantes exercem seu papel de forma adequada. Infelizmente essa não tem sido uma realidade percebida pela população brasileira. Porém, como bem alerta Boaventura de Souza Santos, há de se ter cuidado com um tipo de ativismo judicial conservador, que consiste em neutralizar, por TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 18 via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo de duas últimas décadas. No Brasil, não foi pensado modelos democráticos que ausentem as escolhas pelos cidadãos no processo de exercício e organização do poder. Nesse sentido, uma aproximação com a common law, particularmente no que se refere a essa confiança no Judiciário como fonte de normas jurídicas, deve ter como limite o modelo de democracia que não suprima o forte simbolismo que é aquele que, estabelecido por Rousseau no Século XVVIII e hoje é apregoado fortemente pelo procedimentalismo habermasiano, defende que as leis devem ser produzidas pelos seus próprios destinatários, sob pena de se colocar em risco a própria legitimidade do sistema. De toda maneira, e isso deve ficar claro, somos ainda um sistema de civil law, aonde predominam, de forma marcante, as técnicas de solução deste sistema. O que existe é um movimento de aproximação, antes impensável, mas que a ocorrência dos fatores acima evidenciados foram, pouco a pouco, tornando possível. Se, por um lado, a aproximação entre as duastradições irmãs é irreversível, por outro, ela oferece oportunidades grandiosas de aperfeiçoamento dos sistemas a partir de um diálogo permanente, cooperando com um equilíbrio necessário em técnicas que cada uma das tradições melhor desenvolver no decorrer da história. Somente assim a Democracia Constitucional, que se pretende construir no Brasil e que jamais teve tantas oportunidades de se desenvolver, amadurecerá. O transconstitucionalismo e as fertilizações cruzadas entre sistemas Transconstitucionalismo, o que será? TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 19 É a denominação dada a um fenômeno que reconhece a existência de problemas de índole constitucional que, em tempos de aprofundamento do fenômeno da globalização, faz com que o conceito de soberania estatal seja repensado (superando o antigo conceito vestefaliano), legitimando as influências inevitavelmente recíprocas entre os diversos sistemas jurídico- constitucionais. Ou seja... A ideia é de que, em tempos de sociedades de risco, extremamente complexas, os sistemas jurídicos inevitavelmente devem dialogar entre si, buscando soluções e racionalidades que, encontradas em sistemas diversos, tendem a aperfeiçoá-los. Se o constitucionalismo está relacionado à limitação do poder estatal, à tutela dos direitos fundamentais e à ideia de supremacia da Constituição em face da força da Lei Maior, o transconstitucionalismo aparece como uma ponte de diálogo entre o direito internacional e o direito constitucional interno. Esse fenômeno se explicita no âmbito de um profundo processo de transformação por que passam antigos dogmas do direito internacional público ao, cada vez mais, abdicarem do princípio do domestic affair (que defende a tese da não intromissão, da não intercessão) para adotar, de forma crescente, o princípio do international concern, que, em linhas gerais, procura robustecer a efetividade dos direitos e liberdades fundamentais de todos os Estados partícipes de um sistema mínimo de proteção internacional dos direitos humanos. Nessa linha, em círculos acadêmicos cada vez mais ampliados, o fenômeno da transconstitucionalidade vem sendo analisado de forma mais aprofundada no Brasil pelo Prof. Marcelo Neves. Porém, a questão da terminologia vem acompanhada de polêmicas. Embora receba também as denominações de constitucionalismo de níveis múltiplos, ou constitucionalismo multiplex, o TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 20 problema está centrado na terminologia utilizada por determinados autores, como os portugueses Lucas Pires, Gomes Canotilho e Paulo Rangel, que preferem a denominação “interconstitucionalidade”. Transconstitucionalismo e interconstitucionalidade Se, por um lado, Marcelo Neves entende que o emprego da locução “inter” transmite a ideia de que a transconstitucionalidade não se limita a analisar as aproximações entre ordens jurídicas homólogas e iguais, correlacionadas apenas às visões eurocêntricas, mas busca enxergar aproximação entre ordens díspares, há quem entenda que, quando a temática foi pensada sob a perspectiva de “interconstitucionalidade”, ela já possuía todo um arsenal teórico para tratar com temas de pluralidade intensa das sociedades hodiernas, também típicas no quadro europeu. Na verdade, o objetivo a que visam os estudiosos da temática é não apenas analisar o fenômeno, mas, a partir do quadro estabelecido, elaborar teorizações que reconstruam essa transconstitucionalidade (as novas realidades jurídico- constitucionais exigem um novo instrumental teórico) por meio da utilização de uma racionalidade (transversal) que atravesse as racionalidades específicas de cada ordem jurídica e que possa inter-relacionar suas inteligências específicas. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 21 Atenção O sistema jurídico brasileiro, por intermédio da cláusula aberta estabelecida pelos §§ 2º e 3º do Artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988, parece já ter nascido com a propensão à abertura hermenêutica e aos diálogos inter-sistêmicos. Ao utilizarmo-nos da aula anterior, buscamos um paralelo (possível) para concluir que o transconstitucionalismo pode, ao menos in tesi, servir como um novo aparato instrumental neoconstitucional para o controle das decisões judiciais. Isso porque os limites jurídicos não se encontrariam somente na inteligência proporcionada pelo sistema interno, mas em uma razão constitucional aberta para um efetivo diálogo entre fontes advindas de sistemas diversos. As formas de transconstitucionalidade entre ordens jurídicas Conheça agora as formas de transconstitucionalidade existentes entre ordens jurídicas: Entre ordens jurídicas estatais qualitativas Talvez, a mais óbvia de todas as formas de transconstitucionalidade seja aquela estabelecida entre ordens jurídicas estatais. Trata-se principalmente de referências recíprocas a decisões entre tribunais de diferentes países. Há uma crescente utilização da técnica denominada por alguns estudiosos como cross fertilization e, embora seja cada vez mais comum que as principais Cortes se citem mutuamente, é ainda mais comezinho que, em países juridicamente periféricos (como é o nosso caso), referenciem dispositivos, jurisprudências e doutrinas constitucionais estrangeiras, não apenas na chamada obter dictum, mas, também, na ratio decidendi. No caso brasileiro, embora sejam mais comuns as referências às decisões e argumentações estabelecidas pelas cortes americana e alemã, no caso TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 22 específico do julgamento histórico do HC nº 82.424/RS, de 17/11/2003, no STF, a questão do racismo foi amplamente discutida, menos a partir da jurisprudência nacional e internacional, mas muito mais pelos precedentes, legislação e dispositivos constitucionais estrangeiros. Entre ordens jurídicas estatais e ordens locais extraestatais Esse talvez seja um dos casos mais complexos e gerador das maiores polêmicas no âmbito do transconstitucionalismo. Isso porque, no caso em análise, se está dentro de um espaço territorial que, em princípio, deveria estar vigendo a ordem jurídica estatal “oficial” (e, neste ponto, é que o transconstitucionalismo aponta para a fragilização de uma perspectiva territorial de aplicação de uma dada ordem). A América Latina é rica em problemas jurídico-constitucionais dessa natureza, e o Brasil, com sua riqueza cultural indígena, apresenta problemas de alto grau de complexidade. Para entender melhor sobre o âmbito do transconstitucionalismo, temos o exemplo, que é mais contundente nessa perspectiva de análise. Ele se refere a tribos que, em algumas circunstâncias específicas, praticam o infanticídio, suscitando um acalorado debate entre grupos que se polarizam entre o relativismo cultural e a universalização dos Direitos Humanos, mais especificamente, neste caso, o direito à vida. Deve-se, porém, atentar que o infanticídio é praticado fundado em práticas ancestrais que afastam qualquer juízo de “indecência” ou “maldade”, mas ligado a aspectos de sobrevivência em uma lógica comunitária, profundamente diversa da nossa, mas tão digna quanto. Nesse caso, é possível observar que a aplicação de uma ordem única, de forma inflexível, pode determinar violação grave à autonomia coletiva de uma comunidade. Trata-se de confronto de perspectivas fundadas em visões culturais tão diversas que a imposição da regra estatal implica na morte de uma TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 23 cultura que, embora diferente (às vezes, bastante diversa!), estabelece uma lógica de solução deproblemas sofisticada e complexa. Por isso, já existem posições que entendem que o Estado Constitucional exige uma postura de self-restraint à sua pretensão de concretizar suas normas específicas quando estas entrem em colisão com normas de comunidades nativas fundadas em bases culturais essencialmente diversas daquela em que está alicerçada a ordem constitucional dominante. Entre direito estatal e direito internacional público A relação entre o direito estatal e as normas de direito constitucional é cada vez mais constante, seja pela presença de cláusulas constitucionais nas próprias constituições estatais (que, assim, acabam por recepcionar o direito internacional para sua própria ordem jurídica), mas, também, pela crescente incorporação das questões constitucionais pelos tribunais internacionais que arrogam para si a pretensão de decidir, com caráter vinculatório, situações que envolvem agentes e cidadãos dos Estados nacionais. No caso brasileiro, o Brasil tem sido réu em muitas ações movidas na Corte Interamericana de Direitos Humanos, sendo que algumas interpretações de dispositivos constitucionais pelo STF vêm levando em conta, cada vez mais, não apenas os dispositivos constantes na Convenção Americana de Direitos Humanos, mas a própria interpretação que a Corte Interamericana faz deste documento. É a busca por um diálogo que tende a se intensificar. No caso brasileiro, o Brasil tem sido réu em muitas ações movidas na Corte Interamericana de Direitos Humanos, sendo que algumas interpretações de dispositivos constitucionais pelo STF vêm levando em conta, cada vez mais, não apenas os dispositivos constantes na Convenção Americana de Direitos Humanos, mas a própria interpretação que a Corte Interamericana faz deste documento. É a busca por um diálogo que tende a se intensificar. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 24 Vale lembrar questão enfrentada na disciplina Direito Constitucional Internacional em que, no âmbito do julgamento do RE nº 466.343/SP, RE nº 349.703/RS e do HC nº 87.585/TO, o Supremo Tribunal Federal decidiu a hierarquia supralegal, mas infraconstitucional da norma de prisão do depositário infiel, em arguta solução, que evitou (não sem uma certa “ginástica” hermenêutica) um confronto normativo entre norma constitucional e norma internacional de direitos humanos. Fatores de ordem judicial Vamos conhecer um pouco mais sobre os fatores de ordem judicial. Para isso, clique em cada aba abaixo para ver as informações. Entre ordens jurídicas estatais e transnacionais Nesse caso, estamos diante de ordens estatais que se defrontam com ordens normativas estabelecidas por atores ou organizações privadas ou quase públicas, como é o caso da Agência Mundial de Antidoping ou a FIFA, apenas para exemplificar. E embora o sistema jurídico nacional possa vir a julgar o caso de uma determinada forma, pode ser que um tribunal não-estatal, como, por exemplo, o Tribunal Arbitral de Esportes (TAS) venha a decidir-se de forma contrária, sendo que sua decisão acabe por ter maior efetividade. Para um atleta, no âmbito de sua atividade, muito mais repercute em sua vida profissional uma decisão do TAS do que aquela emanada por um tribunal nacional. Nesse sentido, mais uma vez se observa a necessidade de se constituir um diálogo entre essas diferentes instâncias a fim de que ordens contraditórias acabe desmoralizando posições tomadas por uma ou outra esfera. Entre direito estatal e direito supranacional Como bem afirma Marcelo Neves, “se restringirmos o conceito jurídico de supranacionalidade para uma organização fundada em tratados que atribuem para seus próprios órgãos competências de natureza legislativa, administrativa TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 25 e jurisprudencial abrangente no âmbito pessoal, material, territorial e temporal de validade, com força vinculante direta para os cidadãos e órgãos dos Estados- membros, poderemos afirmar que a União Europeia constitui a única experiência de supranacionalismo”. Essa posição, que é abonada por grandes juristas, como Stefan Langer e Dieter Grimm, parece ser acertada, já que mesmo que possamos observar na Comunidade Andina um certo grau de desenvolvimento da supranacionalidade, este é tão aquém do nível atingido pela União Europeia que não é razoável situá-las no mesmo patamar. De toda sorte, analisaremos o tema mais detidamente na última aula, já que a União Europeia é, sem dúvida, uma das experiências mais emblemáticas dos novos rumos do constitucionalismo, principalmente no que se refere à desvinculação de territorialidade estatal e constituição. São esses conceitos que andaram juntos no decorrer dos séculos XVIII e XIX, mas que vão, desde o fim do século XX, ganhando independência. Estamos chegando ao fim da nossa aula, mas ainda teremos muito a discutir nas próximas. Mas, antes de finalizar, veja uma conclusão que sintetiza todo o conteúdo estudado até o momento. Então, podemos afirmar que, mesmo que as constituições se apresentem, em termos normativos, como a principal referência autofundante do Estado, vinculando seus concretizadores (principalmente juízes e tribunais constitucionais), é preciso ver que ela é constantemente remodelada e flexibilizada; remodelada por vias formais (reforma por emendas), mas informais (mutação constitucional) e flexibilizadas não apenas por imposições internas locais, mas, também, por necessidade de adequação às regras de convivência de um mundo global, plural e integrado, que exige cada vez mais um sentido de autocontenção das antigas ordens jurídico-constitucionais e a TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 26 manutenção de um diálogo permanente com os atores políticos internos e externos para que não venha a ter sua legitimidade posta em questão. Atividade proposta Nos dias hodiernos, a tendência a uma perspectiva globalizante do conhecimento tende a ser crescente. No que se refere ao direito, a sensação é a mesma. Nesse sentido, é possível imaginar que as ordens jurídicas caminhem para uma homogeneização jurídica, em um processo de mundialização do direito? Chave de resposta: Se, por um lado, essas aproximações tendem a buscar aproximação entre linhas teóricas antes consideradas antagônicas (como é o caso da common law e civil law), por outro lado, deixa explícita a complexização do processo, já que várias ordens jurídicas rivalizam em um espaço em que anteriormente tinha como parâmetro incontornável a soberania estatal, mas que, nos dias atuais, devem rivalizar com outras ordens, cujos princípios podem até mesmo seguir lógica diversa daquelas das ordens jurídicas estatais hegemônicas. De toda forma, a ideia é que não há uma homogeneização, mas, sim, um processo de diálogo entre os diversos sistemas que criam campos de aproximação. Distinguished: Utilizado em situações em que uma das partes aponta para a impossibilidade de aplicação de determinado precedente, pois este não se coaduna à situação concreta discutida no processo. Overruling: Utilizado em situação na qual a parte demonstra que aquele precedente não mais se adequa à realidade atual, visto ter havido modificações na esfera social que tornam inaplicável a solução ali proposta. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 27 Aprenda Mais Material complementar Para saber mais sobre civil law e transconstitucionalidade, poder político, dentre outros aspectos, leia o artigo Aplicação Commom Law do Brasil, disponível em nossa biblioteca virtual. E ainda, para saber mais sobre esse assunto, leiatambém o artigo Aproximação crítica entre as jurisdições de civil law e de common law e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil, disponível em nossa biblioteca virtual. Referências BARBERIS, Mauro. Filosofia del Diritto: Un’ introduzione teorica. 3ª ed. Turim: G. Giappichelli Editore, 2000. CANOTILHO, J. J. Gomes. “Brancosos” e interconstitucionalidade: Itinerários dos discursos sobre a historicidade constitucional. Coimbra: Almedina, 2008. p. 263-279. DAVID, René. Os grandes sistemas do direito contemporâneo. 4ª ed. Martins fontes, 2002. FEBRAJO, Alberto. Sociologia del diritto. Bolonha: Il Mulino, 2009. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo: breves considerações com especial referência à experiência latino americana. In: Tribunal Constitucional. 35º aniversário da Constituição de 1976. (Vol. I). Coimbra: Coimbra Editora, 2012. NEVES, Marcelo. Pensamento “transconstitucionalista”. In: Tribunal Constitucional. 35º aniversário da Constituição de 1976. (Vol. I). Coimbra: Coimbra Editora, 2012. PIRES, Lucas. Introdução ao Direito Constitucional Europeu. Coimbra: Coimbra, 1997. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 28 RANGEL, Paulo. Uma teoria da interconstitucionalidade: pluralismo e constituição no pensamento de Francisco Lucas Pires. In: Themis – Revista da Faculdade de Direito da Universidade Nova Lisboa, ano I, nº 2, Lisboa, 2000. REALE, Miguel. Teoria Tridimensional do Direito. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1994. SARLET, I. W.; MARINONI, L. G.; MITIDIERO, D. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012. STOLLEIS, Michael; PAULUS, Andreas; GUTIÉRREZ, Ignacio. El Derecho constitucional de la globalización. Madri: Fundación, Coloquio Jurídico Europeo, 2013. XIOL, Juana Antonio. El carácter vinculante de la jurisprudencia. Madri: Fundación, Coloquio Jurídico Europeo, 2010. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 29 Exercícios de fixação Questão 1 Ainda hoje, muito se discute a oposição antitética entre o sistema anglo-saxão da common law e o sistema continental, denominado pelos juristas anglo- saxões de sistema da civil law. Essa possível oposição teórica fazia parecer que estávamos diante de sistemas absolutamente antagônicos e opostos, já que, em nível teórico, os sistemas possuem características bem distintas. Diante disso, sobre o sistema de common law, é CORRETO afirmar que: a) Descende diretamente da estrutura que os romanos deram ao direito. b) Possui como fonte primária por excelência a lei, embora não despreze a jurisprudência ou, até mesmo, os princípios gerais do direito. c) Nele, prevalece um raciocínio mais concreto, ligado a uma tradição empiricista própria da cultura anglo-saxã, no qual a análise da realidade é fundamental para se obter um juízo decisório. d) Proporciona maior relevância ao direito público, seguindo uma tradição romana. Questão 2 Sobre a civil law, é CORRETO afirmar que: a) Apresenta como fontes principais do direito a jurisprudência e a doutrina mais renomada e tradicional. b) Possui larga tradição com a codificação da lei, o que justifica a presença de tantos códigos separados por áreas jurídicas distintas nos sistemas jurídicos que adotam sua sistematização. c) Tem na tradição dos costumes sua principal fonte. d) A posição dos juízes é tradicionalmente mais forte do que a dos legisladores no processo de produção das regras a serem dirigidas aos cidadãos. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 30 Questão 3 Além de fatores internos, há fatores condicionantes externos para que se dê a aproximação entre os sistema de common law e civil law, que acabam por projetar-se de forma inequívoca também no Brasil. Dentre os citados abaixo, alguns nascidos do âmbito da dinâmica de reconfiguração da ordem mundial, alguns aparecem de forma mais evidente. Leia as afirmações e marque a opção que aponta as assertivas corretas: I. A globalização fez com que as diferentes matrizes teóricas vivenciadas pelas duas experiências sistêmicas acabassem por se reduzir em grande escala quando comparadas a matrizes de outras famílias do direito. Nesse sentido, diferenças epistêmicas, que antes pareciam insuperáveis, já podem ser analisadas como de raízes comuns, sendo que as aproximações já são claramente observáveis. II. A influência de importantes e grandiosos esforços realizados em uma Europa unificada, que agora procura encontrar as bases jurídicas nas quais se apoiarão as unidades econômica e política. Nesse sentido, é imperativo o esforço para encontrar os pontos comuns dessas duas tradições (civil e common law). III. A imposição americana a países que comercializam com os EUA assimilem o seu formato jurídico (commom law), de forma a propiciar segurança jurídica nas relações comerciais e econômicas. IV. A percepção corrente no universo jurídico mundial de que a common law possui uma racionalidade jurídica mais apurada e avançada, de forma a conceder mecanismos mais corretos e adequados para resolução dos problemas jurídicos a que se submete os indivíduos das sociedades contemporâneas. a) I e II b) II e II c) I e III TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 31 d) II e IV Questão 4 Algumas das preocupações que circunstanciam a aproximação dos sistemas de civil law e common law no Brasil dizem respeito à questão da crescente interferência do Poder Judiciário no processo de definição do conteúdo material da norma jurídica. Leia as assertivas abaixo e analise-as: I ) A aproximação entre os dois sistemas coirmãos ocidentais acaba por suscitar o problema do ativismo judicial em sistemas que, como o brasileiro, não possuem a tradição do reconhecimento da produção normativa pelo Poder Judiciário. II) O fenômeno da judicialização da política não é um problema que possa ser vinculado à aproximação das escolas de common law e civil law, haja vista que, no que diz respeito ao papel do Poder Judiciário no sistema de produção de leis, essas duas escolas não divergiam. III) A questão da aproximação entre as escolas de common law e civil law reforça a posição de maior rigidez na divisão de poderes, demarcando mais claramente os papéis dos Poderes Legislativo e Judiciário. Estão corretas a(s) seguinte(s) assertivas(s): a) Somente a I b) Somente a II c) Somente a III d) Somente a I e III Questão 5 Analise as assertivas abaixo: TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 32 I – A ampliação do quadro instrumental para o controle de constitucionalidade e a criação da súmula vinculante são situações que apontam para uma maior proximidade do nosso sistema jurídico ao sistema de common law. II – Por uma série de modificações ocorridas no decorrer dos últimos anos, o Brasil acabou assumindo o sistema de common law como predominante de sua ordem jurídica, deixando para trás, portanto, as técnicas usuais de civil law. III – A súmula vinculante, que tem como inspiração a regra do stare decisis, é um dos pontos mais evidentes de aproximação entre o nosso sistema e a common law. Estão corretas as seguintes assertivas: a) I e II b) I e III c) II e III d) I, II e III Questão 6 Sobre o transconstitucionalismo, é possível afirmar: a) É uma visão que reforça a ideia de territorialidade estatal. b) É fenômeno relacionado ao pluralismo axiológico, mas também à globalização. c) É uma forma de o Estado centralizar o poder a ele conferido a partir das ideias constitucionais do século XVIII. d) É um fenômeno que apontapara uma visão meramente eurocêntrica. Questão 7 Leia as assertivas abaixo que tratam do fenômeno transconstitucional: TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 33 I – O transconstitucionalismo é um fenômeno que busca substituir o constitucionalismo a partir da total superação da ideia de Estado Nacional. II – A ideia de cross fertilization cumpre crescentemente a função de aproximar argumentativamente as decisões das cortes internacionais. III – O reconhecimento do fenômeno transconstitucional acaba por oferecer mais um instrumento para a busca de respostas adequadas em sistemas que adotam linhas filosófico-jurídicas predominantemente neoconstitucionais. Estão(á) correta(s) a(s) seguinte(s) assertiva(s): a) Apenas a assertiva I b) Apenas a assertiva II c) Apenas a assertiva III d) As assertivas II e III Questão 8 Analise as assertivas abaixo: I – A Constituição de 1988, embora não vede, não possui dispositivo capaz de se abrir para essas novas visões transconstitucionais. II – A Constituição de 1988 é possuidora de cláusula aberta que permite a assunção de novos direitos e maior integração com o direito internacional. III – A transconstitucionalidade é um fenômeno que somente se adequa a sistemas jurídicos como o da União Europeia, mas não se conforma com sistemas jurídicos estatais, que, com base na teoria da soberania, devem manter suas características intocadas por outras ordens. Estão(á) correta(s) a(s) seguinte(s) assertiva(s): a) Apenas a assertiva I b) Apenas a assertiva II TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 34 c) Apenas a assertiva III d) As assertivas II e III Questão 9 Sobre o fenômeno da cross fertilization, analise as assertivas abaixo: I – Trata-se de fenômeno ligado à interpretação da constituição, mais precisamente à capacidade do sistema jurídico de se adequar às mudanças sociais vivenciadas pelo grupo. II – É o fenômeno que veda a possibilidade de intercruzamento semântico entre normas constitucionais de ordenamentos diversos. III – Trata-se de denominação dada aos casos em que as cortes de um determinado país referenciem dispositivos, jurisprudências e doutrinas constitucionais estrangeiras, não apenas na chamada obter dictum, mas também na ratio decidendi. Estão(á) correta(s) a(s) seguinte(s) assertiva(s): a) Apenas a assertiva I b) Apenas a assertiva II c) Apenas a assertiva III d) As assertivas II e III Questão 10 Os autores que tratam da temática do direito transconstitucional têm observado que o fenômeno pode ocorrer em diversas instâncias, sendo que o ponto referencial é sempre o direito do Estado nacional. Nesse sentido, no Brasil, todas as opções abaixo podem ser exemplos de ordens jurídicas que mantêm uma relação “transconstitucional” com a ordem jurídica brasileira, EXCETO uma. Aponte-a. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 35 a) Direito internacional público advindo de tratados b) Direito estatal de outro país c) Direito constitucional de Estado da Federação d) Ordens locais territorialmente internas, mas extraestatais Exercícios de fixação Questão 1 - C Justificativa: A letra “A” está incorreta, porque o sistema da civil law é que descende do direito romano. O direito da common law busca suas raízes em uma tradição autóctone. A letra “B” está errada, já que é a tradição anglo- americana que, mesmo quando se utiliza da codificação (statutes), tem como fonte por excelência aquela estabelecida pela consolidação jurisprudencial. A letra “D” está errada, já que, para a maior parte dos autores, é a civil law que estabelece o primado do público sobre o privado. Questão 2 - B Justificativa: As letras “A” e “C” estão erradas, já que a principal fonte no sistema da civil law é a lei. Este é um dogma do sistema. A letra “D” está incorreta, porque o processo de produção normativa no sistema de civil law é tradicionalmente entregue aos legisladores, sendo que, para parte expressiva da doutrina românico-germânica, é discutível a legitimidade dos juízes no processo de inovação legislativa. Questão 3 - A Justificativa: A assertiva III está errada, porque não há imposição por parte dos EUA no sentido de que haja assimilação pelos parceiros econômicos do modelo da common law. Isso seria uma impossibilidade, pois a estrutura jurídica de um Estado segue um padrão que se constrói na história e na tradição de um povo. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 36 Já a assertiva IV está errada, pois não há como afirmar que um modelo é superior ao outro. São modelos que apresentam características distintas, mas que foram construídos adequadamente às realidades históricas de cada país. A aproximação entre os sistemas, como foi abordado na assertiva I, deve-se grandemente à globalização, que expõe a cada uma das tradições as diferentes fórmulas e mecanismos que a outra possui para solucionar problemas comuns, sendo que as características consideradas eficazes em uma, são recepcionadas pela outra, de forma que o aperfeiçoamento sistêmico seja realizado sem que as características de cada realidade jurídica específica sejam inobservadas. Questão 4 - A Justificativa: A assertiva II está equivocada por desvincular o fenômeno da judicialização da política à aproximação das escolas de common law e civil law. As características da common law, com maiores poderes concedidos ao Judiciário, principalmente no que se refere à sua legitimidade para produzir normas a serem seguidas pelos cidadãos, conflita com a tradição da civil law de reconhecer legitimidade às normas produzidas fundamentalmente pelo político por excelência, o Poder Legislativo. No que se refere à assertiva III, como consequência da discussão travada, temos que a maior rigidez havida na civil law no que se refere à divisão de poderes (a visão de que, em regra, quem julga não legisla e vice-versa) acaba por ser colocada em prova, pois há uma exacerbação das tarefas judiciárias e uma nova recomposição na divisão de poderes. Questão 5 - B Justificativa: A assertiva II está errada, pois o fato de haver uma aproximação do nosso sistema (civil law) com o de common law absolutamente não significa que tenhamos assumido este último como sistema norteado de nossas práticas jurídicas. O que ocorreu foi um movimento de aproximação que pode oferecer oportunidades de aperfeiçoamento dos sistemas, principalmente a partir de um diálogo permanente para busca das técnicas que melhor conjuguem justiça e segurança. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 37 Questão 6 - B Justificativa: O transconstitucionalismo nasce do fenômeno da crescente globalização, mas também da necessidade de se respeitar a ampla pluralidade a que se submetem os atores sociais. Ele se afasta da visão territorialista do constitucionalismo do século XVIII, descentralizando a forma de exercício do poder e observando outras fontes emanadoras de normatizações, de forma a buscar seu próprio aperfeiçoamento. Questão 7 - D Justificativa: A assertiva I está incorreta, já que não se trata de superar a ideia de Estado, mas, sim, de complementá-la. Nesse sentido, mesmo que pensemos em uma superação da visão vestefaliana de concepção estatal, a visão constitucional é cada vez mais presente, alicerçando-se, porém, em bases não exclusivamente territoriais, mas em fundamentos que transcendem o tradicional espaço do território nacional. Questão 8 - B Justificativa: A Constituição de 1988, por meio de dispositivos como os §§ 2º e 3º do Artigo 5º, é um sistema aberto a normas advindas de tratados internacionais, como aprópria racionalidade (princípios e regime) do sistema. Nesse sentido, conforma-se com a inteligência jurídica dos ordenamentos ocidentais, que se influenciam reciprocamente. Questão 9 - C Justificativa: A cross fertilization é uma denominação específica que aponta para a possibilidade de que cortes constitucionais de um determinado país referenciem dispositivos, jurisprudências e doutrinas constitucionais estrangeiras. A utilização de tal referência cruzada é cada vez mais comum, o que não apenas demonstra a proximidade entre os sistemas, mas tende a acelerar o processo de aproximação, principalmente no campo dos direitos fundamentais. TÓPICOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL 38 Questão 10 - C Justificativa: O Estado Federado está no âmbito do direito constitucional interno. No Brasil o direito constitucional dos Estados federados está submetido ao princípio da simetria e quando elaborado pelo poder constituinte derivado decorrente teve como parâmetro o direito constitucional federal. Nesse sentido, dentre todos os enumerados acima é o único que não parece estar apto a dialogar com a ordem estatal a ponto de fazê-la ampliar seus horizontes.