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mesmos critérios que utilizavam para a arte acadêmica. Vê-se que os problemas se 
repetem cem anos depois.
Na intenção de levar o conhecimento da arte para o grande público, os governantes, juntamente 
com os artistas, se esforçam para que o espectador comece a ter contato com a arte contemporânea e, 
assim, tente entendê-la. Em São Paulo, na Praça da Sé, encontra-se uma escultura que, em uma primeira 
impressão, se parece com duas enormes lagartas. Com um movimento dançante, uma lagarta levanta a 
outra para um salto gigante em seu voo rumo ao céu. 
O autor dessa obra é Caciporé Torres, escultor paulistano, que usa em seus trabalhos o ferro fundido e o 
aço inox em estado de sucata. É com esses materiais que cria suas esculturas contemporâneas maciças, não 
figurativas, que, segundo o próprio artista, devem ser acessíveis a todas as pessoas. Por essa razão, as esculturas 
devem ser colocadas em grandes espaços públicos, como os parques e praças das cidades. 
Figura 32 – Voo (1979), escultura de Caciporé Torres
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
5.4.2 Regime de comunicação ou arte contemporânea
Cauquelin (2005) afirma que o sistema da arte contemporânea não pode ser considerado apenas 
como o aumento do regime de consumo, pois houve mudanças estruturais que o regime não justifica. 
Assim, a autora apresenta uma constatação: “nós passamos do consumo à comunicação” (CAUQUELIN, 
2005, p. 56). Algo que talvez todos nós já soubéssemos, mas como isso repercute no sistema da arte?
A sociedade da comunicação realiza-se a partir de cinco elementos “efetuadores”, ou seja, elementos 
possibilitadores de sua concretização: a noção de rede, o bloqueio ou autonomia, a redundância ou 
saturação, a nominação ou prevalência do continente sobre o conteúdo e a construção da realidade em 
segundo grau ou simulação (CAUQUELIN, 2005). 
A noção de rede implica “um sistema de ligações multipolar no qual pode ser conectado um número 
não definido de entradas, cada ponto da rede geral podendo servir de partida para outras microrredes” 
(CAUQUELIN, 2005, p. 59). Estamos todos conectados feito um sistema neuronal, e pouco importa a 
origem da informação, contanto que ela esteja circulando na rede. Logo, a noção do sujeito comunicante 
desaparece, dando lugar a uma produção global – pela ação da rede inteira – de comunicação. A autoria 
na rede representa dúvida, incerteza, chegando até a não existir.
Bloqueio ou autonomia quer dizer que a rede é um sistema de memória e repetição, pois a mensagem 
circula pelos diversos pontos e nós da rede, indo, voltando e reproduzindo a mesma mensagem. Cada ponto, 
nó ou interseção na rede representa a rede total, não sendo possível definir um começo nem um fim.
A redundância e a saturação são elementos que, ao mesmo tempo que garantem a circulação dos 
conteúdos pelos diversos pontos da rede de forma instantânea, anulam o grau de diferença entre as 
novidades que penetram na rede, pois todas se encontram no mesmo plano de circularidade. Este 
grau de indiferenciação cria a necessidade de se nominar objetos dentro da rede de modo a diferi-los. 
Segundo a autora, “uma sociedade nominativa se instaura, onde o nome funciona como identidade, 
classifica e designa uma particularidade” (CAUQUELIN, 2005, p. 62).
O quinto elemento efetivador, a construção da realidade, está estritamente relacionado à linguagem:
É por intermédio da linguagem que se estruturam não somente os grupos 
humanos, mas ainda a apreensão das realidades exteriores, a visão do 
mundo, sua percepção e sua ordenação. Assim, apaga-se pouco a pouco 
a presença positivada de uma realidade dada pelos sentidos, os sense data, 
em favor de uma construção de realidade de segundo grau, até mesmo de 
realidades no plural, da qual a verdade ou a falsidade não são mais marcas 
distintas. […] Significa que as intenções dos sujeitos, a intencionalidade 
– no sentido de vontades ou desejos próprios a um sujeito – cede a vez 
à intenção única de utilizar a linguagem para comunicar, pois a sintaxe, 
o léxico – em uma palavra, as regras da linguagem – se encarregam do 
restante. […] o desenvolvimento de linguagens artificiais e o uso cada vez 
mais generalizado delas alteram nossa visão da realidade. Constroem, pouco 
a pouco, outro mundo (CAUQUELIN, 2005, p. 63-64).
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Unidade II
Na sociedade de comunicação, a linguagem passa a ser o elemento indispensável para o seu 
funcionamento. Fica difícil dissociar os conceitos de simulacro e hiper-real de Jean Baudrillard, que 
vimos anteriormente, da proposição da autora de estabelecer novas realidades a partir da existência e 
emergência de diferentes linguagens. Enquando Baudrillard se refere à utilização da imagem na criação 
do simulacro, Cauquelin propõe o mesmo, porém com a linguagem.
Os efeitos da comunicação no registro do mercado da arte constroem-se em relação aos efetuadores 
que acabamos de abordar.
A rede do mercado da arte contemporânea possui a característica complexa – complexidade 
que vimos anteriormente em Edgar Morin –, na qual surgem diversos atores que introduzem 
informação. Dentre eles, destacam-se as redes internacionais de galerias e instituições culturais 
que criam, elas mesmas, os preços e a avaliação estética das obras e dos artistas, resultando no 
seu reconhecimento social. Será ressaltado o ator que, dentro da rede, possuir o maior número 
de conexões diretas com outros atores; portanto, aquele que tiver mais informações, oriundas da 
própria rede, o mais rápido possível.
Esses atores que lidam com a passagem e fabricação da informação – dentre elas a cotação 
e o valor estético das obras – são considerados os produtores do regime de comunicação da arte 
contemporânea. Eles são capazes de fazer aquilo que Cauquelin chamou “antecipação do signo 
sobre a coisa” (CAUQUELIN, 2005, p. 68): antes mesmo de ter sido exposta, fazem a obra do artista, 
na forma de signo, circular na rede. Isso acaba por legitimar o que será exposto, uma vez que já 
estará em circulação. 
Os produtores, portanto, são aqueles que alimentam e produzem a rede e, por consequência, 
as obras. Serão considerados tanto mais ativos quanto maior o número e a diversidade de suas 
conexões. Assim, uma grande instituição só terá força se estiver posicionada dentro e em toda 
parte da rede.
Entretanto, essas instituições são também as que encomendam as obras aos artistas e 
apresentam ao público o que é arte contemporânea, mas fazem-no a partir de um juízo de valor 
sedimentado pelos críticos e marchands já inseridos e a laborar no interior da rede, legitimando-se 
como se estivessem também dentro do circuito. Nessa situação, Cauquelin nos apresenta com 
clareza a formação de uma circularidade:
Nós vemos, portanto, com relação a esses que chamamos produtores, 
estabelecer-se uma circularidade (um percurso em forma de anel): 
os grandes colecionadores-marchands que intervêm nas cotações, 
reconduzindo-as aos conservadores, que são exatamente os colecionadores 
do Estado e que são tidos como aqueles que intervêm no valor estético. Se 
uns estão interessados no benefício propriamente econômico, os outros 
trabalham em benefício da imagem cultural que valoriza a instituição que 
dirigem e, por isso, o Estado que a subvenciona (CAUQUELIN, 2005, p. 71).
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A esses produtores juntam-se a impressa especializada – com assessores de imprensa, agências, 
jornalistas-críticos de arte –, experts e produtores e viajantes-comerciantes

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