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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ 
Centro de Ciências Agrárias - Departamento de Ciências do Solo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
APOSTILA DE DISCIPLINA (AK0015) 
MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profa. Dra. Mirian Cristina Gomes Costa 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fortaleza, CE 
Maio - 2013 
 
 
 
 11 
PARTE I – ENTENDENDO A IMPORTÂNCIA DO MANEJO E CONSERVAÇÃO DO 
SOLO E DA ÁGUA 
 
1 Introdução 
1.1 O crescimento da população mundial e a necessidade de aumentar a 
produção de alimentos 
 
Estudo conduzido pela ONU (Organização das Nações Unidas) aponta para 
alguns aspectos que devem ser levados em consideração ao pensar na importância 
do uso do solo para a agropecuária. Dentre esses aspectos se destacam: 
a) Crescimento da população mundial (Figuras 1A e 1B); 
No que se refere ao aumento da população mundial, em 2008, a ONU divulgou 
relatório que apresenta estimativa em relação ao número de habitantes em escala 
planetária para o ano de 2050, que poderá atingir 9,2 bilhões de pessoas. De acordo 
com a pesquisa, o crescimento da população deve ocorrer de forma significativa 
somente nos países em desenvolvimento, no caso dos países desenvolvidos as 
mudanças serão modestas. 
 
 
Figura 1A. Crescimento populacional (Fonte : United Nations: words Population 
Prospects: The 2006 Revision (2007) 
 
 
 12 
 
 
Figura 1B. Crescimento populacional mundial em diferentes cenários no futuro 
(Fonte: Millenium Ecosystem Assessment) 
 
 
b) Aumento da produção total e per capita de alimentos, porém em 
gradientes muito menores para o segundo caso (Figura 2); 
Para alimentar a produção mundial crescente, a agricultura desempenha 
papel fundamental. O sucesso atual da agricultura, em escala global, deve ser 
reconhecido, uma vez que este satisfez a demanda crescente de alimentos durante 
a última metade do século XX. 
Nas últimas quatro décadas, a produção global de alimentos cresceu cerca de 
170%. Em 2005, em uma área de 47 milhões de hectares, foram colhidos 2,5 vezes 
mais grãos (120 milhões de toneladas) (BORTOLOZZO, 2009). Assim, em 2050, o 
Brasil terá a capacidade de produzir um bilhão de toneladas de grãos. Este sucesso 
na produção de alimentos se deve aos avanços científicos e às inovações 
tecnológicas, como por exemplo, o desenvolvimento de novas variedades de 
plantas, o uso de fertilizantes e defensivos e aperfeiçoamento de sistemas de 
irrigação (Quadro 1). 
No entanto, apesar do sucesso da agricultura, a base de produção está sendo 
comprometida. Isso acontece porque os recursos naturais (solo, água e a própria 
 13 
diversidade natural genética) estão sendo excessivamente degradados e porque há 
uma grande dependência de combustíveis fósseis não renováveis. 
 
c) Redução dos preços de produtos agrícolas (Figura 2); 
A agricultura brasileira vem se desenvolvendo e modernizando, destacando-
se como atividade de alto valor econômico e social, com tendência de crescimento 
acentuado em curto prazo. A amplitude dos mercados interno e exteno e a tendência 
de aumento da produção de alimentos contribuem para a dinâmica de redução dos 
preços dos produtos agrícolas. 
 
 
 
Figura 2. Produção de alimentos mundial e per capita, preços e número de pessoas 
subnutridas Millenium (Ecosystem Assessment). 
 
 
 
 14 
Quadro 1 - Produtividade, área plantada, custo atual e renda diferencial proporcionada pela geração de pesquisa aplicada às 
culturas do algodão e cajueiro em diferentes sistemas de produção no Nordeste brasileiro 
 
Sistema de Produção 
 
Região 
Produtividade 
(kg/ha) 
Área plantada 
atual no NE (ha) 
Custo atual 
(R$/Kg) 
R$/arroba) 
Renda potencial 
diferencial gerada 
pela pesquisa9/ (R$) 
Algodão herbáceo NE 4951/ 283.8581/ 9,187/ 1.289.879.138,00 
Algodão arbóreo1 NE 2631/ 26.2241/ 9,187/ 63.313.652,20 
Algodão mocó (1º ano) Seridó, PB, RN 5002/ 26.2241/ 9,187/ 57.054.507,80 
Algodão mocó (2º ano) Seridó, PB, RN 8002/ 26.2241/ 9,187/ 129.275.404,00 
Algodão 7MH Seridó, PB, RN 1.3502/ 26.2241/ 9,187/ 261.680.380,00 
Algodão herbáceo de sequeiro Sudoeste da Bahia 1.1002/ 283.8581/ 9,187/ 1.576.518.946,00 
Algodão herbáceo de sequeiro Sertão, PB 1.7002/ 283.8581/ 9,187/ 3.140.008.810,00 
Algodão herbáceo irrigado Sertão, PB, CE 2.9502/ 283.8581/ 9,187/ 6.397.279.360,00 
Cajueiro gigante (castanha de 
caju)3 
CE, RN, PB 2093/ 647.4996/ 0,908/ 121.794.562,00 
Cajueiro anão precoce de 
sequeiro (castanha de caju)4 
CE, RN, PB 7234/ 647.4996/ 0,908/ 299.533.037,00 
Cajueiro anão precoce de 
irrigado (castanha de caju)4 
CE, RN, PB 1.2865/ 647.4996/ 0,908/ 627.620.781,00 
1 - Média para a safra 1996/1997 de acordo com Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (1977), citado por Beltrão 
(1999); 2 - Produtividades médias conforme Beltrão (1999); 3 - Produtividade média dos anos de 1989 a 1998, conforme banco de 
dados do Centro Nacional de Agroindústria Tropical (CNPAT) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA); 4 - 
Produtividade média de cajueiro anão precoce em condições de sequeiro de oito anos de produção; 5 - Produtividade média de 
cajueiro anão precoce em condições irrigadas de cinco anos de produção; 6 - Área plantada para a safra 1995/1996 conforme 
IBGE, citado por Silva (1998); 7 - Fonte: Folha de São Paulo (1999); 8 - Preço médio das áreas produtoras de Acarape (R$1,00) e 
Acaraú (R$0,80), Ceará. Fonte: Diário do Nordeste (1999); e 9 - Renda diferencial = {Área plantada (ha) X produtividade do 
 15 
sistema de produção considerado (com aplicação de pesquisa) (kg/ha) X custo atual (R$/kg)} - {Área plantada (ha) X produtividade 
do sistema de produção médio nas áreas produtoras (kg/ha), indicada pelos itens 1,2 e 3 X custo atual (R$/kg)}. 
 
 
 
 
 12 
1.310.000
1.320.000
1.330.000
1.340.000
1.350.000
1.360.000
1.370.000
1.380.000
1.390.000
1.400.000
1.410.000
1.420.000
1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005
Ano
Ter
ras
 ará
vei
s (1
000
 ha
)
d) Redução da área agrícola e de pastagens nos países desenvolvidos e 
aumento da área agrícola e de pastagens nos países em desenvolvimento 
(Figura 3); 
Países desenvolvidos, em virtude à maior ênfase em atividades industriais, 
apresentam redução na área utilizada na agropecuária, concentrando as áreas de 
produção e buscando a máxima eficiência produtiva. Já nos países em 
desenvolvimento, vastas áreas são ocupadas com atividades ligadas à 
agropecuária, mas muitas vezes os sistemas de produção são de baixa eficiência. 
f) Redirecionamento do uso atual da terra nos países desenvolvidos 
(Figura 4); 
Em função das condições edafoclimáticas desfavoráveis e até mesmo da 
necessidade de manter áreas de preservação de espécies nativas, áreas antes 
destinadas ao uso para a agricultura estão sendo convertidas em áreas de 
manutenção de florestas, tornando necessário estabelecer formas de repor os 
alimentos que antes eram produzidos nessas áreas. 
g) Redução da disponibilidade de novas áreas cultiváveis (Figura 5). 
Aspectos desfavoráveis do ponto de vista do clima e do solo, a perda de 
que se tornaram improdutivas em virtude da degradação dos solos, bem como a 
necessidade de manter as áreas de preservação têm levado à redução na 
disponibilidade de novas áreas cultiváveis. Neste sentido são levantados 
importantes questionamentos: Como produzir alimentos para uma população cada 
vez mais crescente? Como produzir alimentos em condições potencialmente 
limitadas de área disponível? 
Para poder responder estas perguntas é necessárioo entendimento das 
conseqüências das práticas atuais que estão comprometendo a produtividade 
ecológica, atual e futura, dos campos agrícolas. 
 
1.2 Condições técnicas que comprometem a produtividade ecológica (atual e 
futura) e que são conseqüentes das atividades agrícolas predominantes nos 
campos agrícolas atuais 
 
a) Degradação do solo: pode envolver a salinização, alagamento, 
compactação, contaminação por defensivos, perda da qualidade da estrutura, 
perda de fertilidade e erosão; 
 
 
 
 
 
 13 
Figura 5. Área de terras aráveis mundiais (FAOSTAT, 2006) 
 
b) Desperdício e uso exagerado de água: a agricultura é responsável por 
2/3 do uso global da água e é uma das principais causas de sua falta em muitas 
regiões. Mais da metade da água aplicada nas culturas não é absorvida pelas 
plantas; 
c) Poluição do ambiente: Incluem-se como poluentes os defensivos, os 
fertilizantes e sais, além de sedimentos. Vários são os exemplos de poluição e um 
deles é o caso do Pantanal Mato-Grossense. Lá, nas áreas de cultivo de soja, 
cana-de-açúcar, algodão e milho na região do planalto que circunda a planície 
pantaneira, bem como nas áreas de arroz irrigado na própria planície (como no 
Pantanal do rio Miranda), o uso excessivo de defensivos está contaminando uma 
das mais importantes e ainda conservadas áreas úmidas do mundo. Além da 
agricultura intensiva praticada nas terras altas que, nos últimos 40 anos, não tem 
respeitado a legislação que obriga a manter conservadas as áreas de proteção 
permanente, como as matas ciliares (matas ao longo dos rios e córregos) e as 
áreas de nascentes, bem como as áreas de reserva legal. 
d) Dependência de insumos externos: os altos rendimentos da 
agricultura atual estão relacionados ao aumento do uso de insumos agrícolas: 
água para irrigação, fertilizantes, corretivos, defensivos, energia para máquinas e 
bombas e na tecnologia necessária ao desenvolvimento de novos insumos; 
e) Perda da diversidade genética: a diversidade genética geral das 
plantas domesticadas diminuiu, muitas variedades foram extintas e outras têm 
caminhado nesta direção. Apenas seis variedades de milho, por exemplo, são 
responsáveis por mais de 70% da produção mundial deste grão. Esta perda ocorre 
por conta da ênfase da agricultura convencional em ganhos de produtividade em 
curto prazo. Contudo, a vulnerabilidade de uma cultura com uma base genética 
restrita é muito maior com relação ao ataque de pragas, patógenos (que adquirem 
resistência a agrotóxicos e aos compostos de defesa da planta), clima e outros 
fatores ambientais; 
f) Redução da participação da população rural sobre a produção 
agrícola: há uma diminuição da população rural diretamente envolvida com a 
produção agrícola, tanto nos países desenvolvidos como nos em 
desenvolvimento. Pequenos produtores não podem bancar o custo de atualização 
de equipamentos e tecnologia agrícola para competir de maneira bem-sucedida, 
com as operações da produção em grande escala; 
g) Desigualdade global: apesar dos aumentos na produtividade e 
produção, a fome persiste no mundo. Enormes disparidades quanto a ingestão de 
calorias e a segurança alimentar entre pessoas de nações desenvolvidas e 
aquelas de nações em desenvolvimento. As relações de desigualdade tendem a 
 14 
promover políticas e práticas agrícolas que são dirigidas mais por considerações 
econômicas do que pela sabedoria ecológica e pensamento em longo prazo. Por 
exemplo, agricultores deslocados pela produção para exportação dos grandes 
proprietários de terras, são freqüentemente forçados a cultivar terras marginais, 
não aptas à agricltura. Os resultados são os desmatamentos, a erosão severa e o 
dano social e ecológico sério. 
 
2 O uso do solo no nordeste brasileiro/Ceará 
Grande parte da economia agrícola nordestina está fortemente sustentada 
na exploração dos recursos naturais, principalmente no que se refere ao 
extrativismo da cobertura vegetal, ao superpastejo em pastagens nativas e a 
exploração agrícola sem qualquer tipo de preocupação conservacionista (Sampaio 
& Salcedo, 1997) (Quadro 2). Araújo Filho & Carvalho (1996) comentam que 73% 
do consumo de energia primária para a indústria de alguns estados nordestinos 
têm como fonte o carvão e a lenha e, em termos globais, o uso destas fontes 
atende 33% do consumo de energia. 
Quadro 2. - População total e rural no semi-árido em 1991, bovinos + caprinos no 
NE em 1995, produção de lenha e carvão em 1989, área irrigada no 
semi-árido em 1985 e áreas degradadas no NE* 
EF População bovino
s 
ovinos lenha Carvão área 
irrigad
a 
Áreas degradadas 
 tota
l 
Rural caprino
s 
 MF F-MF F M 
 ---------106-------- 106 m3 103 Mg 103 ha 103 km2 
PI 2,6 1,2 1,98 3,21 1,73 6,3 13,6 5,9 0,5 7,9 0,6 
CE 6,3 2,2 2,10 2,31 12,16 49,9 67,3 42,5 8,8 5,1 20,
6 
RN 2,4 0,7 0,57 0,45 5,36 23,4 17,5 9,0 1,4 2,6 6,0 
PB 3,1 1,1 0,86 0,68 1,90 22,5 16,2 21,1 6,9 3,0 4,3 
PE 3,4 1,6 1,27 1,49 2,81 70,1 50,4 16,3 7,2 1,5 - 
AL 0,9 0,5 0,80 0,18 1,30 6,4 4,9 0,9 - - - 
SE 0,5 0,3 0,91 0,20 0,87 6,4 6,6 2,7 - - - 
BA 5,8 3,2 10,02 6,76 20,36 135,3 71,9 20,3 6,7 1,6 - 
Tota
l 
25,
0 
10,8 18,51 15,26 46,49 320,3 248,3 118,7 31,6 21,8 31,
5 
MF = muito forte; F = forte; M = moderada. 
(Adaptado de SAMPAIO, E.V.S.B. & SALCEDO, 1997) 
Sampaio & Salcedo (1997) comentam que, considerando a produção média 
de lenha das caatingas que é de 24 m3 ha-1 (ou 70 estéreo ha-1) utilizando o fator 
 15 
de conversão de lenha para carvão de 12,5 estéreo Mg-1 (PNUD-FAO-IBAMA, 
1992), estes números corresponderiam ao corte raso de 5,0x103 km2 no Ceará, 
2,2x103 km2 no Rio Grande do Norte, 0,8x103 km2 na Paraíba e 1,2x103 km2 em 
Pernambuco. 
São proporções anuais pequenas (1,2 a 4,3%) mas, como a vegetação leva 
de 10-15 anos para recuperar mais de 90% da biomassa original, afeta áreas 
totais 10 a 15 vezes maiores. Os autores comentam que tais retiradas, associadas 
às áreas agrícolas, são responsáveis pela maior parte das áreas desmatadas 
nestes estados, o que corresponde a 53% (CE), 66% (RN), 49% (PB) e 55% (PE), 
em 1992, tendo crescido 5%, 21%, 9% e 10% em 19 anos (PNUD-FAO-IBAMA-
SUDENE, 1993). 
Estes dados tornam bastante evidente que as reservas florestais naturais 
estão sendo utilizadas para o suprimento desta demanda, com graves 
conseqüências, perfeitamente perceptíveis, a começar pela redução da 
biodiversidade (flora e fauna), inclusive com espécies ameaçadas de extinção 
(Figueiredo et al., 1994), a redução do potencial de produção agrícola de solos, 
bem como suas conseqüências sócio-políticas que se tornam evidentes pela 
migração sempre crescente do meio rural. 
A lista de espécies ameaçadas de extinção no Ceará relaciona 38 espécies 
de plantas, a grande maioria arbóreas, incluindo o angico-preto, o angico branco, 
a aroeira, o bálsamo, a braúna, o caroá, o cedro, a craibeira, o cumaru, o gonçalo 
alves etc. 
Todos estes fatores em conjunto culminam com a degradação do ambiente. 
Tal realidade é comprovada por Sá et al. (1994) que realizaram levantamento de 
áreas degradadas no nordeste brasileiro. Os autores indicaram que os estados da 
Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco apresentam proporções 
equivalentes a 64, 53, 36 e 25%, respectivamente, da superfície destes estados, 
entre os níveis de degradação moderado, forte a muito forte. Predominantemente 
os níveis identificados estão associados a Luvissolos, Planossolos e os Neossolos 
Litólicos, solos nos quais o binômio algodão-pecuária, juntamente com a 
exploração da vegetação para produção de lenha, madeira e carvão, foram os 
principais agentesde degradação. 
No Ceará, os 53% equivalem a 77.000 km2, de um total de 148.016 km2 
0
50
100
150
200
250
1968 1972 1976 1980 1984 1988 1992 1996
Anos
Pr
od
ut
ivi
da
de
 m
éd
ia 
(kg
/ha
)
 16 
com grande parte ocupada por Luvissolos, Planossolos e os Neossolos Litólicos. 
As conseqüências da perda da qualidade destes solos se refletiram na queda da 
produtividade do algodão mocó no estado do Ceará, no passado o maior produtor 
do país (Figura 6). 
 
 
Figura 6. Produtividade media do algodão-mocó, de 1973 a 1996, no estado do 
Ceará, Brasil (EMBRAPA, 1996) 
 
 
3 A necessidade de sistemas sustentáveis de produção de alimentos 
 
A produção agrícola pode ser aumentada principalmente de três maneiras: 
a) incorporação de novas áreas de produção; b) aumento nos ciclos de cultivo (ex: 
culturas de “safrinha”) ou c) aumento da produtividade. 
Como já visto, a abertura de novas frentes agrícolas nem sempre é 
possível, pois muitas áreas devem ser destinadas à preservação, principalmente 
se não forem aptas ao uso agrícola. Já o aumento nos ciclos de cultivo dependerá 
do desenvolvimento de técnicas relacionadas ao melhoramento genético das 
culturas, viabilizando ciclos mais curtos, bem como do desenvolvimento de 
técnicas relacionadas à irrigação para garantir a produção agrícola fora da estação 
chuvosa. Já o aumento da produtividade é uma opção bastante viável a ser 
trabalhada, pois o manejo adequado dos sistemas de produção pode fazer com 
que a produtividade das culturas seja aumentada de forma bastante satisfatória. 
O aumento na produção de alimentos a partir de aumentos de produtividade 
deve ser fundamentado na sustentabilidade, ou ainda, deve ser uma produção 
sustentável. A sustentabilidade ou produção sustentável pode ser definida como a 
condição capaz de perpetuar a colheita de biomassa de um sistema, porque sua 
capacidade de se renovar ou ser renovado não é comprometida. Como a 
perpetuidade nunca pode ser demonstrada no presente, a prova de 
sustentabilidade permanece no futuro, fora do alcance. 
Assim, é impossível se saber, com certeza, se uma determinada prática 
agrícola é, de fato, sustentável ou se um determinado conjunto de práticas 
constitui sustentabilidade. Contudo, é possível demonstrar que uma prática está 
se afastando da sustentabilidade, principalmente se aprendermos a identificar os 
efeitos desejáveis de uma agricultura sustentável, como: 
a) Efeitos negativos mínimos no ambiente e não liberação de substâncias 
tóxicas ou nocivas na atmosfera, água superficial ou subterrânea; 
 17 
b) Preservação e recomposição da fertilidade, prevenção da erosão e 
manutenção da saúde ecológica do solo; 
c) Uso da água de maneira que permita a recarga dos depósitos aqüíferos e 
satisfaça as necessidades hídricas do ambiente e das pessoas; 
 
d) Depender, principalmente, de recursos de dentro do agroecossistema, 
incluindo comunidades próximas, ao substituir insumos externos por ciclagem de 
nutrientes, melhor conservação e uma base ampliada de conhecimento ecológico; 
e) Trabalhar para valorizar e conservar a diversidade biológica, tanto de 
paisagens silvestres quanto de paisagens domesticadas; 
f) Garantir igualdade e acesso às práticas, conhecimento e tecnologias 
agrícolas adequados e possibilitar o controle local dos recursos agrícolas. 
 
4 A agricultura irrigada no nordeste brasileiro e a sua sustentabilidade 
As ações voltadas para a expansão das áreas irrigadas merecem destaque, 
pois esta discussão pode estar inserida numa abordagem mais ampla e de 
complemento aplicado do conceito de sustentabilidade. No nordeste as áreas 
irrigadas são consideradas privilegiadíssimas, já que nesta região a água é um 
recurso escasso, sendo considerada potencial e importante fonte de geração de 
renda e emprego. 
Embora seja apontada como solução salvadora do Nordeste brasileiro, esta 
atividade só é rentável e sustentável se realizada de forma adequada, por meio de 
técnicas que maximizem a eficiência do uso da terra e da água, promovendo 
assim, a redução de custos operacionais e impactos ambientais. 
No estado do Ceará são poucos os perímetros que mantém essa 
sustentabilidade econômica. Alguns perímetros irrigados implantados no passado 
apontam vários erros, inclusive de engenharia, que devem ser considerados no 
presente e futuro, evidenciando principalmente a falta de tecnologia e assistência 
técnica, como razão para o comprometimento destas áreas. O uso atual de 
algumas áreas irrigadas indica que a degradação do solo pela compactação e 
salinização já é uma realidade, como, por exemplo, os casos da Chapada do 
Apodi e Morada Nova. 
O potencial comprometedor do uso inadequado dos recursos na 
sustentabilidade destas áreas é elevado, pois quaisquer outras práticas a serem 
adotadas para minimizar as conseqüências deste uso, comprometem a sua 
viabilidade econômica. Contudo, não resta dúvida que a irrigação é uma técnica 
que pode conduzir a sustentabilidade de algumas áreas do semi-árido, mas não 
deve ser considerada a única. 
 
 18 
Assim, tecnologia para o aumento da eficiência dos recursos naturais (solo 
e água), do trabalho e do capital deve ser uma busca incessante, principalmente 
se for considerado que o potencial de área a ser explorado com o uso da irrigação 
não ultrapassa 5% (Sampaio & Salcedo,1997), considerando a baixa 
disponibilidade hídrica no semi-árido brasileiro. Somente por esse valor é evidente 
que a irrigação não se tornará a única opção para viabilizar a exploração agrícola 
fundamentada na sustentabilidade no semi-árido. 
A área passível de irrigação no Ceará é de 2%. O custo de 1 ha irrigado 
está em torno de US$ 12.000,00 e de 1.000 m3 de água por volta de US$ 20,00. A 
proporção de área não irrigável é elevada. A busca da sustentabilidade no semi-
árido passa, necessariamente, pela complementaridade do uso agrícola das áreas 
irrigadas e das não irrigadas, devendo haver opções de uso agrícola racional e 
sustentável, tanto em nível local, regional e nacional. Na realidade, o fato que se 
nota é o esforço concentrado no desenvolvimento de tecnologia e expansão da 
área irrigada, e muito pouco para a convivência com a deficiência hídrica. 
 
5 O conceito de agroecossistema (um pouco de agroecologia) 
 Um agroecossistema é um local de produção agrícola, uma propriedade 
agrícola, por exemplo, compreendido como um ecossistema. Este conceito 
proporciona uma estrutura onde se pode analisar os sistemas de produção de 
alimentos como um todo, incluindo seus conjuntos complexos de insumos e 
produção e as interconexões entre as partes que o compõem. 
 É um conceito que se baseia em princípios ecológicos, tendo como 
referência os ecossistemas naturais. Examinam-se os aspectos estruturais e os 
funcionais. Então, os agroecossistemas são descritos em termos de como eles se 
comparam estrutural e funcionalmente com os ecossistemas naturais. 
Um ecossistema pode ser definido como um sistema funcional de relações 
complementares entre organismos vivos e seu ambiente, delimitado por fronteiras 
escolhidas arbitrariamente, as quais, no espaço e no tempo, parecem manter um 
equilíbrio dinâmico, porém estável. Um ecossistema tem partes físicas com 
relações particulares (a estrutura do sistema), que juntos participam de processos 
dinâmicos (a função do sistema). 
 
Os componentes estruturais básicos do ecossistema são: fatores bióticos 
(organismos vivos que interagem no ambiente) e fatores abióticos (componentes 
químicos e físicos não vivos do ambiente, como solo, luz, umidade e temperatura). 
 
6 A organização nos ecossistemas 
 Os ecossistemaspodem ser examinados em termos de uma hierarquia de 
organização das partes que o compõem, sendo dividido em quatro níveis (Figura 
7): 
 19 
a) No primeiro nível que é o mais simples está o organismo individual. Nele o 
indivíduo é analisado quanto ao seu comportamento em resposta aos fatores do 
ambiente e como o grau de tolerância particular do organismo a estresses no 
ambiente determinará onde o mesmo viverá. Exemplo: a adaptação da bananeira 
que a restringe nas regiões tropicais. 
b) No segundo nível de organização ficam os grupos de indivíduos da mesma 
espécie, sendo chamado de população. É importante entender a ecologia das 
populações para determinar os fatores que controlam seu tamanho e crescimento, 
especialmente com relação à capacidade do ambiente de sustentar uma 
determinada população ao longo do tempo. 
c) No terceiro nível de organização fica a comunidade, uma comunidade é 
definida como um conjunto de várias espécies vivendo juntas em um determinado 
lugar e interagindo. O importante neste nível é saber como as interações de 
organismos afetam a distribuição e abundância das diferentes espécies que 
constituem uma comunidade particular. A competição entre plantas em um 
sistema de cultivo ou a predação de pulgões por joaninhas são exemplos de 
interações neste nível em um agroecossistema. 
d) E o quarto e mais abrangente nível de organização de um ecossistema é o 
próprio ecossistema, incluindo todos os fatores abióticos do ambiente, além das 
comunidades de organismos que ocorrem em uma área específica. 
Uma característica importante dos ecossistemas é que em cada nível de 
organização emergem propriedades que não estavam presentes no anterior, 
resultantes da interação das partes componentes daquele nível de organização do 
ecossistema. Uma população é muito mais que uma coleção de indivíduos da 
mesma espécie e tem características que não podem ser compreendidas em 
termos de organismos individuais. No contexto do agroecossistema, este princípio 
significa, em essência, que a unidade agrícola é maior que a soma de seus 
cultivos individuais. A sustentabilidade pode ser considerada a qualidade 
emergente maior de uma abordagem de ecossistema à agricultura. 
 
 20 
 
Figura 7. Níveis de organização do ecossistema aplicados a um agroecossistema 
(Fonte: Gliessman, 2001). 
 
7 A propriedades estruturais das comunidades 
Uma comunidade existe como resultado das adaptações das espécies que 
compõem os gradientes de fatores abióticos que ocorrem no ambiente e como 
resultado das interações entre populações dessas espécies. É importante 
examinar detalhadamente as propriedades das comunidades, resultantes das 
interações neste nível. 
As propriedades estruturais de comunidades são: 
a) Diversidade das espécies: é o número de espécies existentes em uma 
comunidade; 
 
b) Dominância e abundância relativa: em uma comunidade algumas 
espécies podem ser relativamente abundantes e outras menos. A espécie com 
maior impacto, tanto dos componentes bióticos quanto nos abióticos da 
comunidade, é referida como a espécie dominante. A dominância pode ser 
 21 
resultado da relativa abundância do organismo, seu tamanho, seu papel ecológico 
ou de quaisquer desses fatores combinados; 
c) Estrutura vegetativa: comunidades terrestres apresentam um 
componente vertical (um perfil com diferentes camadas) e outro horizontal 
(agrupamentos ou padrões de associação). Aprende-se a reconhecer como 
espécies diferentes ocupam lugares distintos nesta estrutura. Quando espécies 
assumem formas semelhantes de crescimento, nomes mais gerais são dados a 
esses conjuntos: pradaria, capoeira, floresta etc; 
d) Estrutura trófica: cada espécie em uma comunidade tem necessidades 
nutriticionais. Como essas necessidades são satisfeitas ante outras espécies, o 
que determina a estrutura de relações alimentares é chamado de estrutura trófica. 
A estrutura trópica é constituída por organismos produtores (autotróficas: 
satisfazem suas necessidades de energia sem serem predadoras de outros 
organismos) e consumidores (incluindo os herbívoros, predadores, parasitas e 
parasitóides). Todos os consumidores são chamados heterotróficos (suas 
necessidades nutritivas são satisfeitas consumindo outros organismos). Cada 
nível de consumo é considerado nível trófico diferente. As relações tróficas podem 
ser descritas como uma cadeia alimentar, dependendo de sua complexidade; e 
e) Estabilidade: normalmente, a diversidade das espécies, a estrutura de 
dominância (vegetativa e trófica) de uma comunidade permanecem razoavelmente 
estáveis ao longo do tempo, embora indivíduos morram e deixem a área e o 
tamanho relativo das populações mude. A estabilidade relativa de uma 
comunidade depende enormemente do seu tipo e da natureza das perturbações 
às quais ela está sujeita. 
 
8 Os processos dinâmicos nos ecossistemas 
 O funcionamento dos ecossistemas envolve os processos dinâmicos de 
movimento de matéria e energia e as interações e relações dos organismos e 
materiais no sistema. É importante entender estes processos, tratando os 
conceitos de dinâmica, eficiência, produtividade e desenvolvimento de 
ecossistemas, especialmente de agroecossistemas, onde a função pode fazer a 
diferença entre o fracasso e o sucesso de um cultivo ou de determinada prática de 
manejo. 
 Os dois processos fundamentais em qualquer ecossistema são o fluxo de 
energia entre suas partes e a ciclagem de nutrientes. 
 
8.1. Fluxo de energia 
 O fluxo de energia em um ecossistema está diretamente relacionado a sua 
estrutura trófica. A energia flui para dentro do ecossistema como resultado da 
captação de energia solar pelas plantas (as produtoras do sistema), sendo a 
 22 
biomassa convertida nos diferentes níveis tróficos pelos demais componentes do 
ecossistema (consumidores do sistema), liberando muito da energia que entrou na 
produção da biomassa, sendo a remanescente devolvida ao solo como matéria 
orgânica. 
 
8.2. A ciclagem de nutrientes 
 A ciclagem de nutrientes nos ecossistemas está obviamente relacionada ao 
fluxo de energia. Enquanto a energia flui apenas numa direção, os nutrientes, por 
outro lado, movem-se em ciclos, dos componentes bióticos para os abióticos e 
novamente para os bióticos. Como tanto os componentes bióticos como os 
abióticos do ecossistema estão envolvidos nesses ciclos, estes recebem o nome 
de ciclo biogeoquímicos. 
Os ciclos biogeoquímicos são complexos e interconectados, além de que 
muitos ocorrem em nível global que transcende ecossistemas individuais. Os 
ciclos mais importantes são do carbono (C), nitrogênio (N), oxigênio (O), fósforo 
(P), enxofre (S) e água. Cada nutriente tem uma rota específica através do 
ecossistema, mas dois tipos principais são identificados. 
Para os ciclos do C, O e N, a atmosfera funciona como o reservatório 
abiótico principal, assumindo caráter global. Elementos menos móveis (P, S, K, Ca 
e muitos micronutrientes) são ciclados localmente, pois o solo é o reservatório 
principal. 
 Se uma quantidade grande de um nutriente for perdida ou removida de um 
determinado sistema, ele pode se tornar limitante para o crescimento e 
desenvolvimento posteriores. Os componentes biológicos de cada sistema são 
muito importantes para determinar a eficiência com que os nutrientes se movem, 
assegurando que o mínimo seja perdido e o máximo seja reciclado. A 
produtividade pode tornar-se intimamente relacionada às taxas de reciclagem de 
nutrientes. 
 
9 A dinâmica dos ecossistemas naturais e agroecossistemas 
 As populações no ecossistema são dinâmicas, seu tamanho e os 
organismos individuais que as compõemmudam com o tempo, sendo 
determinadas também pelas interações com as outras e com o ambiente. As 
interações possíveis de ocorrerem entre espécies numa população podem ser de 
competição (adaptações similares e recursos insuficientes) ou de mutualismo 
(espécies que desenvolvem formas de interação entre si, com benefícios para 
ambas). 
 Os ecossistemas estão num constante estado de mudança dinâmica. 
Apesar deste dinamismo interno, são notavelmente estáveis em sua estrutura e 
funcionamento geral. Esta estabilidade se deve em parte à complexidade dos 
 23 
ecossistemas e à diversidade das espécies, tornando-os hábeis em resistir à 
modificação que é introduzida por perturbação ou de se recuperar da perturbação, 
depois que acontece. 
Esta estabilidade geral combinada com a transformação dinâmica é 
captada no conceito de equilíbrio dinâmico. Este equilíbrio é de considerável 
importância em um ambiente agrícola, permitindo um equilíbrio ecológico e 
funcionando com base no uso sustentável de recursos, que pode ser mantido 
indefinidamente, a despeito da mudança continuada e regular na forma de 
colheita, cultivo do solo e replantio. 
A manipulação e as alterações humanas dos ecossistemas, com o 
propósito de estabelecer uma produção agrícola, tornam os agroecossistemas 
muito diferentes dos ecossistemas naturais. Contudo os processos, estruturas e 
características dos ecossistemas naturais podem ser observados nos 
agroecossistemas. 
Os fluxos de energia e o movimento de nutrientes de um ecossistema 
natural e um agroecossistema são mostrados nas Figuras 8 e 9 e no Quadro 4. 
 
 
 
 
 24 
Figura 8. Componentes funcionais de um ecossistema natural (Fonte: Gliessman, 
2001). 
 
Figura 9. Componentes funcionais de um agroecossistema natural (Fonte: 
Gliessman, 2001). 
 
 
Quadro 4. Diferenças ecológicas-chave entre ecossistemas naturais e 
agroecossistemas. 
 Ecossistemas naturais Agroecossistemas 
Produtividade líquida Média Alta 
Interações tróficas Complexas Simples, lineares 
Diversidade de espécies Alta Baixa 
Diversidade genética Alta Baixa 
Ciclos de nutrientes Fechados Abertos 
Estabilidade (resiliência) Alta Baixa 
Controle humano Independente Dependente 
 25 
Permanência temporal Longa Curta 
Heterogeneidade do 
habitat 
Complexa Simples 
Fonte: Gliessman (2001). 
Uma comparação entre as figuras revela diferenças em vários aspectos 
chaves: 
a) Fluxo de energia: é bastante alterado em um agroecossistema pela 
interferência humana. São sistemas abertos, onde parte considerável da energia é 
dirigida para fora do sistema na época da colheita, em vez de ser armazenada na 
biomassa que poderia, então, se acumular dentro do sistema; 
b) Ciclagem de nutrientes: a reciclagem é mínima na maioria dos 
agroecossistemas, perdendo quantidades consideráveis com a colheita ou como 
resultado da lixiviação ou erosão, devido a grande redução nos níveis de 
biomassa permanente mantido dentro do sistema. A reposição das perdas tem 
ocorrido com nutrientes de insumos externos; 
c) Mecanismos reguladores de produção: devido a simplificação do 
ambiente e redução das interações tróficas em agroecossistemas, raramente 
populações de plantas cultivadas ou de animais são auto-reprodutoras ou auto-
reguladoras. Os insumos humanos, na forma de sementes ou agentes de controle, 
freqüentemente dependem de grandes subsídios de energia, determinando o 
tamanho das populações. A diversidade biológica é reduzida, as estruturas tróficas 
tendem a se tornar simplificadas e muitos nichos não são ocupados; 
d) Estabilidade: os agroecossistemas, comparados aos ecossistemas 
naturais, têm muito menos resistência, devido à sua reduzida diversidade 
funcional e estrutural. 
 
10 Ecossistemas naturais e agroecossistemas sustentáveis 
Apesar dos contrastes agudos apontados, sistemas reais de ambos os tipos 
existem num contínuo. Poucos ecossistemas naturais são verdadeiramente 
naturais no sentido de serem completamente independentes da influência 
humana. Por outro lado, os agroecossistemas podem variar bastante em sua 
necessidade de interferência humana e insumos. Eles podem ser desenhados 
para se aproximarem de ecossistemas naturais, em termos de características 
como diversidade, ciclagem de nutrientes e heterogeneidade de habitats. 
 Fisicamente, os limites espaciais de um agroecossistema, como aqueles de 
um ecossistema, são arbitrários, sendo na prática equivalente a uma unidade 
produtiva rural individual, embora pudesse facilmente ser uma lavoura ou conjunto 
de unidades vizinhas. 
 26 
É preciso distinguir entre o que é externo e interno em um agroecossistema, 
principalmente quando se consideram os insumos, uma vez que algo não pode ser 
um insumo a menos que venha de fora do sistema. A convenção seguida é usar a 
fronteira espacial de um agroecossistema (explícita ou implícita) como a linha 
divisória entre o interno e o externo. Insumos fornecidos pelo homem, ou seja, 
qualquer substância ou fonte de energia de fora das fronteiras espaciais do 
sistema constitui insumo humano externo (agrotóxicos, fertilizantes, sementes 
híbridas, combustíveis fósseis, tratores, irrigação, trabalho humano não residente 
na unidade produtivo). Há também insumos naturais: radiação solar, precipitação, 
vento, sedimentos depositados por enchentes e os propágulos de plantas. 
 O desafio de criar agroecossistemas sustentáveis é o de alcançar 
características semelhantes às de ecossistemas naturais, mantendo a produção 
para ser colhida. No trabalho em direção à sustentabilidade, o responsável se 
esforça, tanto quanto possível, para usar o conceito de ecossistema no desenho e 
manejo do agroecossistema. 
 
 O fluxo de energia pode ser desenhado para depender menos de recursos 
não renováveis, alcançando-se um equilíbrio melhor entre o uso de energia para 
manter os processos internos do sistema e aquele disponível para a exportação, 
na forma de produtos que podem ser colhidos. O produtor pode esforçar-se para 
desenvolver e manter ciclos de nutrientes que sejam mais fechados possível, a fim 
de reduzir as perdas de nutrientes do sistema e buscar maneiras sustentáveis de 
fazer retornar, para a unidade produtiva, os nutrientes exportados. 
Um agroecossistema deve incorporar a qualidade de ecossistema natural 
de resiliência, estabilidade, produtividade e equilíbrio dinâmico necessário para 
estabelecer uma base ecológica de sustentabilidade. À medida que se reduz o uso 
de insumos humanos externos no controle dos processos do agroecossistema, 
pode-se esperar uma mudança de sistemas dependentes de insumos artificiais 
para sistemas desenhados para usar processos e interações de ecossistemas 
naturais, além de materiais derivativos de dentro do sistema. 
 
11. Bibliografia 
ARAUJO FILHO, J. A. & CARVALHO, F.C. Desenvolvimento sustentado da 
caatinga. In: ALVAREZ V., V.H.; FONTES, L.E.F. & FONTES, M.P.F., eds. O 
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sustentado. Viçosa, DPS/UFV, 1996. p.125-134. 
ARAÚJO FILHO, J.A. & BARBOSA, T.M.B. Manejo agroflorestal da caatinga: uma 
proposta de sistema de produção. In: OLIVEIRA, T.S.; ASSIS Jr.; R.N.; 
ROMERO, R.E. & SILVA, J.R.C., eds. Agricultura, -sustentabilidade e o semi-
árido. Fortaleza, DCS/UFC, 2000, p.47-56. 
 27 
ARAÚJO FILHO, J.A. & CARVALHO, F.C. Desenvolvimento sustentado da 
caatinga. Sobral, EMBRAPA, CNPC, 1996. 23p. 
BORTOLOZZO, S. ALIMENTOS: Desafios e Oportunidades. In: Seminário 
Comércio Internacional. Piauí, 2009. 
FIGUEIREDO, M.A., VERDE, L.W.L., CORRÊA, H.B., MIRANDA, P.T.C.; 
FERNANDES, A., BRAID, E.C.M., SILVA, E.V.& CAMPOS, J.A. Relatório 
técnico-científico sobre recursos biológicos e condições de biodiversidade. In: 
Recursos biológicos e condições de biodiversidade. Fortaleza, Projeto Áridas, 
[s.n.], 1994. p.142-155. (Projeto Áridas). 
GLIESSMAN, S.R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. 
Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001.653p. 
MENEZES, R.S.C. & SAMPAIO, E.V.S.B. Agricultura sustentável no semi-árido 
nordestino . In: OLIVEIRA, T.S.; ASSIS Jr., R.N.; ROMERO, R.E. & SILVA, 
J.R.C., eds. Agricultura, sustentabilidade e o semi-árido. Fortaleza, DCS/UFC, 
2000. p.20-46. 
MENEZES, R.S.C. & SAMPAIO, E.V.S.B. Agricultura sustentável no semi-árido 
nordestino . In: OLIVEIRA, T.S.; ASSIS Jr., R.N.; ROMERO, R.E. & SILVA, 
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2000. p.20-46. 
MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT, Ecosystems and huma weel-being: 
Synthesis. Washington, DC, Island Press, 2005. 137p. 
PNUD-FAO-IBAMA. Plano de manejo florestal para a região do Seridó do Rio 
Grande do Norte. Natal, IBAMA. 1992. 3 v. 
PNUD-FAO-IBAMA-SUDENE. Documentos e relatório final: I Reunião sobre o 
Desenvolvimento do Setor Florestal do Nordeste. Recife, 1993. 
SÁ, I.B.; FOTIUS, G.A. & RICHÉ, G.R. Degradação ambiental e reabilitação 
natural do Trópico Semi-árido brasileiro. In: CONFERÊNCIA NACIONAL E 
SEMINÁRIO LATINO-AMERICANO DA DESERTIFICAÇÃO. Fortaleza, 
ESQUEL, Governo do Ceará, 1994. 
SAMPAIO, E.V.S.B. & SALCEDO, I. Diretrizes para o manejo sustentável dos 
solos brasileiros: região semi-árida. In: XXVI CONGRESSO BRASILEIRO DE 
CIÊNCIAS DO SOLO. Anais. Rio de Janeiro, 1997. (CD ROOM). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 28 
PARTE II – SISTEMAS DE CLASSIFICAÇÃO DAS TERRAS (CAPACIDADE DE 
USO E APTIDÃO AGRÍCOLA – FAO/BRASILEIRO) 
 
1 Introdução 
A classificação de objetos naturais pressupõe o arranjo de indivíduos de 
uma população em classes, organizando conhecimentos de forma que as 
propriedades dos objetos possam ser relembradas e as relações entre eles 
possam ser entendidas. 
 
1.2 Tipos de classificação de solos 
Em se tratando de solos, existe a classificação taxonômica (ou natural) e a 
interpretativa (ou técnica). A classificação taxonômica permite agrupar solos em 
função de grande quantidade de atributos comuns, sendo representada pelo 
Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Embrapa, 2006). Já a classificação 
interpretativa é aquela que permite agrupar solos em função de características de 
interesse prático e específico, como ocorre nos sistemas de classificação da 
Capacidade de Uso e Aptidão Agrícola das Terras – FAO/Brasileiro. 
 
a) Classificação taxonômica (natural) 
Considera-se um conjunto considerado simultâneo de atributos ou 
propriedades relacionadas a origem do objeto a ser classificado. 
Exemplos: Soil taxonomy; Sistema Brasileiro de Classificação de Solos 
(Embrapa, 2006). 
b) Classificação Interpretativa (técnica) 
Alguns atributos ou propriedades são considerados, procura-se atender um 
objetivo específico e de aplicação prática. 
Exemplos: Capacidade de Uso, Aptidão agrícola (FAO/Brasileiro), Terras 
para Irrigação. 
Os levantamentos de informações que estão associados aos sistemas de 
classificação taxonômica de solos constituem a fonte mais completa de dados que 
podem ser utilizados na definição da aptidão agrícola das terras. 
 
 Estes levantamentos são, contudo, de custo elevado e requerem pessoal 
técnico especializado, o que limita a sua utilização, pois a aplicação para a 
definição da aptidão agrícola das terras requer detalhes em escala pequena. 
Recomenda-se que sejam feitos ou utilizados levantamentos pedológicos 
detalhados (escala 1:10.000 a 1:25.000) ou semi-detalhados (escala 1:25.000 a 
1:100.000). O uso dos levantamentos de classes de solo disponíveis, como o do 
Ceará (1:600.000), em escalas muito grandes, não fornecem os detalhes 
necessários para a aplicação de sistemas de definição da aptidão agrícola em 
nível de propriedade agrícola. 
 29 
A aptidão diz respeito à adaptabilidade das terras para um tipo específico 
de utilização agrícola, pressupondo-se um ou mais distintos níveis de manejo. 
Neste conceito, pressupõe-se a necessidade de informações, as quais deverão 
ser utilizadas adotando-se um sistema de estratificação que permita a transmissão 
de conhecimento de forma sistematizada e técnica, ou seja, com o uso de um 
sistema de classificação. A determinação da aptidão agrícola pressupõe 
planejamento de uso das terras. 
 
2 Sistema de Classificação da Capacidade de Uso 
2.1 Introdução 
Este sistema foi estruturado pelo Serviço de Conservação do Solo dos 
EUA. Sua grande contribuição foi a de ter influenciado todos os sistemas 
subseqüentes que incluem a produção sustentada, ou seja, apresenta enfoque 
conservacionista. É utilizado em várias partes do mundo e sofreu várias 
adaptações. 
Objetiva agrupar solos já mapeados nos EUA em classes de capacidade de 
uso para programas de planejamento agrícola. Torna a informação já existente 
nos levantamentos de solos (nível detalhado) mais acessível, de forma prática, ao 
usuário. É uma interpretação dos mapas de solos dos levantamentos existentes 
nos EUA. Nos países em que esta informação não está disponível, procurou-se 
supri-la, mapeando-se atributos como declive, textura, permeabilidade etc. Porém, 
isso limita bastante uma interpretação mais consistente. 
2.2 Estrutura do Sistema de Capacidade de Uso 
 
Grupos de Uso (3 grupos): Estabelecidos com base nos tipos de 
intensidade de uso. 
 
Classes de Uso (8 classes): Baseadas no grau de limitação de uso. 
 
Subclasses de Uso (Índices): Baseadas na natureza da limitação de uso. 
 
Unidades de Uso (Índices): Baseadas em condições específicas que afetam 
o uso ou manejo da terra. 
 
Classes de Capacidade de Uso: 
Grupo A: 
I até IV - com aptidão para culturas. 
 
Grupo B: 
 30 
V - refere-se a classes de solos com problemas de drenagem, 
pedregosidade ou de adversidade climática problemática para cultivos; e 
VI e VII - necessitam de manejo especial. 
 
Grupo C: 
VIII - não apresentam retornos para insumos referentes a 
manejo para culturas, pastagens ou florestas. 
 
As classes de capacidade de uso (I a VIII) são as seguintes: 
A - Terras cultiváveis: 
Classe I - sem problemas especiais de conservação; 
Classe II - problemas simples de conservação; 
Classe III - problemas complexos de conservação; e 
Classe IV - ocasionalmente ou em extensão limitada com 
sérios problemas de conservação. 
 
B - Terras cultiváveis apenas em casos especiais de algumas 
culturas permanentes e adaptadas, em geral, para pastagem ou reflorestamento: 
Classe V - Sem necessidade de práticas especiais de 
conservação; 
Classe VI - com problemas especiais de conservação; e 
Classe VII - com problemas complexos de conservação. 
C - Terras impróprias para vegetação produtiva, próprias para 
proteção da flora e da fauna silvestres, para recreação ou para armazenamento de 
água. 
 
Índices: 
São adicionados às classes de aptidão definindo subclasses e 
unidades de uso. São indicativos dos principais problemas em nível detalhado. 
Subclasses: 
Consideram-se quatro naturezas: 
 e: limitações pela erosão presente e/ou risco de erosão; 
 s: limitações relativas ao solo; 
 a: limitações por excesso de água; e 
 c: limitações climáticas. 
 
Unidades de uso: 
 Especificam mais a natureza da limitação: 
 31 
 
Exemplos: 
s-hi: limitação de natureza relativa ao solo e associada a 
problemas de hidromorfismo; 
 
 s-pd: limitação de natureza relativaao solo e associada a 
problemas de pedregosidade; 
 
 s-di: limitação de natureza relativa a solo e associada a 
distrofismo; 
 s-ti: limitação de natureza relativa a erosão e associada a 
tiomorfismo; 
 etc. 
 
 
Exemplos do Sistema de Classificação da Capacidade de Uso: 
 
IIIpd-di  Classe III, com problemas de pedregosidade e distrofismo. 
IIi  Classe II, com problemas de inundação. 
 
 
2.3 Levantamento Utilitário das Terras 
 
 As informações necessárias para a aplicação do Sistema de Capacidade de 
Uso são as características e/ou propriedades do perfil do solo (independente de 
serem fatores limitantes ou não), a declividade do terreno, a erosão já sofrida pela 
terra, uso atual, o estádio de desbravamento e outras características gerais da 
propriedade. 
 
2.3.1 Perfil do solo 
 
Não necessariamente limitantes: 
 
Profundidade efetiva: É a espessura máxima do solo em que as raízes não 
encontram impedimento físico para penetrar livremente, facilitando a fixação da 
planta e servindo como meio para a absorção de água e nutrientes. 
Exemplos de impedimento físico considerado: presença de rocha 
consolidada, fragipans, lençol freático sem possibilidade de rebaixamento por 
drenagem, etc. 
 
 32 
Índices utilizados: 0: não identificada; 
1: muito profundos (> 2 m); 
2: profundos (1 a 2 m); 
3: moderadamente profundos (0,5 a 1 m); 
4: rasos (0,25 a 0,5 m); 
5: muitos rasos (< 0,25 m). 
 
Textura do perfil do solo: obtida a partir da análise granulométrica e do uso 
do triângulo textural. Pode ser estimada em condições de campo pela sensação 
ao tato da massa de solo úmida. 
Principais grupamentos texturais utilizados: 
 0: não identificado; 
 1: textura muito argilosa; 
 2: textura argilosa; 
 3: textura média; 
 4: textura siltosa; 
 5: textura arenosa. 
 
Permeabilidade do perfil do solo: capacidade que o solo apresenta de 
transmitir água e ar. É a velocidade do fluxo através de uma secção transversal 
unitária de solo saturado, sob determinado gradiente hidráulico. 
Estimada pela análise conjunta de sua textura, friabilidade, estrutura e 
quantidade de poros visíveis a olho nu. 
 0: não identificada; 
 1: rápida (> 150 mm/h); 
 2: moderada (5 a 150 mm/h); e 
 3: lenta (< 5 mm/h). 
 
 
2.3.2 Fatores limitantes específicos 
 
Fatores limitantes: critério diagnóstico que afeta adversamente o uso da 
terra 
São vários, cada um com os seus índices próprios: 
 Pedregosidade (pd); 
Risco de inundação (i); 
Caráter abrupto (ab); 
Caráter vértico (vê); 
Hidromorfismo (h); 
Seca prolongada (se); 
Geada ou vento frio (gd); 
 33 
Baixa saturação de bases ou caráter distrófico (di); 
Capacidade de retenção de cátions muito baixa (ct); 
Tiomorfismo (ti); 
Sodicidade (so); 
Salinidade (sl); 
Presença de carbonatos (ca); 
 
2.3.3 Características e/ou propriedades do solo de notação facultativa 
 
 São informações adicionais. 
 
 Classificação pedológica: devem ser notadas com razoável conhecimento 
do levantador. Devem ser usadas notações do sistema de classificação vigente. 
 
 Cor do solo: notação adotada com referência a caderneta de Munsell. 
 
 Produtividade aparente: estimada pelo tipo de vegetação espontânea e 
colheitas auferidas pelos agricultores. 
 
Outras características: substrato geológico; vegetação primitiva; forma de 
declive; e outras de interesse local. 
 
2.3.4 Declividade do terreno 
 
 A: declives < 2%; 
 B: declives entre 2 e 5%; 
 C: declives entre 5 e 10%; 
 D: declives entre 10 e 15%; 
 E: declives entre 15 e 45%; 
 F: declives entre 45 e 70%; 
 G: declives > 70%. 
 
2.3.5 Erosão 
 Expressa por meio de indicadores de tipo e grau de erosão: 
 Indicadores gerais: 
 A: Geral 
 0: presente, mas em grau não identificado; 
 : erosão não aparente, tal como ocorre em solos virgens recobertos 
de vegetação. 
 B: Erosão laminar 
 34 
 1: ligeira - já aparente, mas com < 25% do solo superficial removido 
(horizonte A), ou quando não for possível identificar a profundidade normal do 
horizonte A de um solo virgem, com mais de 15 cm do solo superficial (horizonte 
A) remanescente; 
 2: moderada - com 25% a 75% do solo superficial removido 
(horizonte A), ou quando não for possível identificar a profundidade normal do 
horizonte A de um solo virgem, com 5 a 15 cm do solo superficial (horizonte A) 
remanescente; 
 3: severa - com mais de 75% do solo superficial removido (horizonte 
A) e, possivelmente com o horizonte B aflorando, ou quando não for possível 
identificar a profundidade normal do horizonte A de um solo virgem, com menos 
de 5 cm do solo superficial (horizonte A) remanescente; 
 4: muito severa - com todo solo já superficial removido (horizonte A) 
e com o horizonte B bastante afetado (erodido), já havendo, em alguns casos, sido 
removido em proporções entre 25 e 75% da profundidade original; 
 5: extremamente severa - com o horizonte B, em sua maior parte, já 
removido, e com o C atingido, encontrando-se o solo praticamente destruído para 
fins agrícolas; 
 6: símbolo reservado para áreas desbarrancadas ou translocações 
de blocos de terra. 
 C: Erosão em sulcos 
 a: Freqüência dos sulcos 
 7: ocasionais - sulcos distanciados mais de 30 m; 
 8: freqüentes - sulcos distanciados a menos de 30 m, ocupando área 
inferior a 75%; 
 9: muito freqüentes - sulcos distanciados a menos de 30 m, 
ocupando área superior a 70 %. 
 b: Profundidade dos sulcos: 
 7, 8 e 9 (somente números) - sulcos superficiais, cruzados por 
máquinas e que se desfazem com o preparo; 
 7, 8 e 9 (circundados por ) - sulcos rasos cruzados por máquinas e 
que não se desfazem com o preparo; 
 7, 8 e 9 (circundados por ) - sulcos profundos, que não podem ser 
cruzados por máquinas agrícolas e que ainda não atingiram o horizonte C; 
 7V, 8V e 9V - sulcos muito profundos que não podem ser cruzados 
por máquinas agrícolas e que atingiram o horizonte C. 
 35 
 
 Erosão eólica: 
 Tipos 
L: litorânea 
 C: comtinental 
 Graus: 
 1: pequena ou ligeira; 
 2: regular ou moderada; 
 3: severa ou intensa. 
 
2.3.6 Uso atual, nível tecnológico e estádio de desbravamento 
 Devem ser levantadas informações relativas ao uso atual nas diferentes 
áreas da propriedade em que o levantamento será feito, bem como o nível 
tecnológico adotado nestas áreas ou, então, o estádio de desbravamento das 
áreas. 
 
2.3.7 Características gerais da propriedade 
 Informações como benfeitorias (casas, currais, depósitos etc), cercas 
divisórias, estradas internas e externas da propriedade, presença de barragens etc 
devem ser levantadas e alocadas. 
 
2.3.8 Notação das informações 
Essas informações são representadas por símbolos e notações 
convencionais, dispostos numa fórmula que sintetiza as condições encontradas 
em cada área considerada homogênea. 
 
Fórmula mínima: 
 
atualuso
erosãoedeclividad
dadepermeabilitexturaefetivadeprofundida 
 
 
Fórmula obrigatória: 
 
 36 
atualusotestanilimfatores
erosãoedeclividad
dadepermeabilitexturaefetivadeprofundida
 
Fórmula máxima: 
É a fórmula obrigatória acrescida de outros elementos passíveis de identificação. 
 
A classificação pedológica, cor do solo e a produtividade aparente, quando 
conhecidos ou identificáveis, poderão ser adicionados, optativamente, antes da 
fração da fórmula. 
 
 Exemplo de uma fórmula máxima hipotética: 
 
2122
LpcMtalpd
72B
2/12/33
p6/5YR5LV 



 
 
2.4 Identificação da classede capacidade de uso 
 A identificação da capacidade de campo é feita pela verificação das 
diferentes propriedades levantadas e a identificação do grau de limitação, sendo a 
definição da classe de capacidade de uso associada ao grau de limitação mais 
severo das propriedades avaliadas. Essa definição passa pela associação de 
graus de limitação a classes de uso do Sistema de Capacidade de Uso. No quadro 
1 pode-se observar um exemplo de conversão de propriedades e graus de 
limitações em classes de capacidade de uso. No entanto, este quadro deve ser 
definido para as diferentes situações de ambiente, ou seja, um quadro utilizado 
para a região da caatinga, certamente não é o mesmo da região dos cerrados, 
assim como o quadro utilizado para a região dos Inhamus não é o mesmo para o 
Maciço de Baturité. 
 37 
Quadro 1. Limitações, graus de limitações e parâmetros na avaliação de 
propriedades do solo para o enquadramento em classes de 
capacidade de uso das terras 
Limitaçã
o 
Grau 
de 
limitaç
ão 
Parâmetros de avaliação Classes de capacidade de uso 
M
O 
N P K C
a 
Mg Al 
I II 
II
I 
I
V 
V 
V
I 
VI
I 
VI
II % mg.dm
-3 
Mmol.kg
-1
 
Fertilidad
e 
Alta 5 0,
2
5 
>2
0 
>2
,3 
>4
2 
>8 <3 * * * * * * * * 
Média 3 0,
1
5 
10 1,
2 
31 4 7 * * * * * * 
Baixa 1 0,
0
5 
5 <1
,2 
8 2 10 * * * * * 
Muito 
baixa 
<1 <
0,
0
5 
<5 <0
,6 
<8 <2 >1
0 
 * * * 
Profundid
ade 
efetiva 
Muito 
profund
o 
 
> 2 m 
 
* 
 
* 
 
* 
 
* 
 
* 
 
* 
 
* 
 
* 
Produn
do 
2 a 1 m * * * * * * * * 
Modera
do 
1 a 0,5 m * * * * * * * 
Raso 0,5 a 0,25 m * * * * * 
Muito 
raso 
<0,25 * * * 
Permeabil
idade 
Rápida > 15 cm/hora * * * * * * * * 
Modera
da 
15 a 5 cm/hora * * * * * * 
Lenta < 5 cm/hora * * * * 
Pedregosi
dade 
 Sem pedras * * * * * * * * 
 <1 % * * * * * * * 
 1 a 10 % * * * * * * 
 10 a 30 % * * * * * 
 30 a 50 % * * * 
 38 
 >50 % * * 
Risco de 
inundação 
Ocasio
nal 
Recorrência de 5 ou mais anos * * * 
Freqüe
nte 
Recorrência entre 1 e 5 anos * * 
Muito 
freqüen
te 
Todos os anos * 
Classes de 
declive 
Plano 0 a 2% (Classe A) * * * * * * * * 
Suave 
ondulad
o 
2 a 6 % (Classe B) * * * * * * 
Ondula
do 
6 a 13 % (Classe C) * * * * * 
Forte 
ondulad
o 
13 a 25% (Classe D) * * * * 
Montan
hoso 
25 a 55% (Classe E) * * * 
Escarpa
do 
>55 % * * 
Grau de 
erosão 
laminar 
Não 
aparent
e 
Sem sinais perceptíveis de erosão * * * * * * * * 
Ligeira Até 25 % do horizonte A 
removido 
 * * * * * * 
Modera
da 
25 a 75% do horizonte A 
removido 
 * * * * * 
Forte Mais de 75 % do A removido e B 
exposto 
 * * * 
Muito 
forte 
A removido e B severamente 
erodido 
 * * 
Extrem
amente 
forte 
A e B removidos e horizontes C 
exposto 
 * 
Sulcos Superfi
ciais 
Ocasionais: a menos de 30 m 
entre si 
 * * * * * * 
 Freqüentes: a menos de 30 m 
entre si 
 * * * * * 
 Muito freqüentes: ocupam mais * * * * 
 39 
de 75 % da área 
Rasos Ocasionais * * * * * 
 Frequentes * * * * 
 Muito frequentes * * * 
Profund
os 
Ocasionais * * * * 
 Freqüentes * * * 
 Muito frequentes * * 
Voçoroca
s 
 * 
 
 40 
2.5 Recomendações práticas para a execução do levantamento utilitário 
 Para a execução dos trabalhos de campo e escritório deverão ser adotadas 
medidas que permitam não só o planejamento das atividades a serem 
desenvolvidas, mas também a sua efetiva execução. Para tanto, deverão ser 
avaliadas as condições de execução dos serviços (distâncias, área a ser 
levantada, acomodações etc). Deverão ser previstas a utilização de equipamentos 
e utensílios (trados, sacos plásticos, pranchetas, reservatório de água, GPS etc), 
bem como todas as atividades e materiais de escritório para a edição do relatório 
descritivo, como também dos mapas que comporão o produto final a ser entregue 
ao solicitante dos serviços. 
 Mapas deverão ser utilizados, destacando-se aquele de campo que vai ser 
utilizado para todas as anotações necessárias para a execução dos serviços. O 
mapa base ou mapa de campo pode ser: fotografias aéreas; mapa planialtimétrico, 
mapa de restituição e mapa planimétrico. Deverão ser compostos os seguintes 
mapas ao final dos trabalhos: uso atual, capacidade de uso, levantamento do meio 
físico, pedológico etc. 
 
2.6 Exemplo de aplicação do Sistema de Capacidade de Uso 
 O caso do Assentamento Lages em Caridade – CE (Chaves, 2005). 
 
 
 41 
 
Figura 1. Classes de relevo do Assentamento Lages no município de Caridade-CE (Fonte: Chaves, 2005). 
 42 
 
Figura 2. Caracterísiticas e/ou propriedades do meio físico do Assentamento Lages no município de Caridade-CE (Fonte 
Chaves, 2005). 
 43 
 
Figura 3. Classes de capacidade de uso do Assentamento Lages no município de Caridade-CE (Fonte: Chaves, 2005). 
 
 44 
 
Figura 4. Classes de solo do Assentamento Lages no município de Caridade-CE(Fonte: Chaves, 2005). 
 45 
3 Sistema de Aptidão Agrícola das terras (FAO/Brasileiro) 
3.1 Introdução 
Desenvolvido na década de 60, apresnetando características bastante 
inovadoras: 
a) Considera na sua estrutura os níveis de manejo: Os problemas dos 
diferentes tipos de agricultores são diferenciados (Quadro 2). 
 
b) Considera a estimativa de viabilidade de redução dos problemas (Quadro 
3). 
c) Estrutura permite ajustamento a novos conhecimentos permitindo 
adaptações regionais; 
Ajuste em função metodologia que sintetiza as qualidades do ecossistema 
em cinco parâmetros: 
Nutrientes (N); 
Água (A); 
Oxigênio (O); 
Mecanização (M); e 
Erosão (E). 
Quadro 2. Níveis de manejo considerados no sistema FAO/Brasileiro 
Nível de 
manejo 
Práticas agrícolas Capital aplicado no 
melhoramento e conservação 
do solo e lavouras 
Trabalho 
A Refletem baixo 
nível tecnológico 
Praticamente não é aplicado Principalmente braçal. 
Alguma tração animal 
com implementos 
simples 
B Refletem nível 
tecnológico médio 
Modesta aplicação Tração animal 
 
C Refletem alto nível 
tecnológico 
Aplicação intensiva Mecanização em quase 
todas as fases 
 
Quadro 3. Classes de viabilidade de melhoramento no sistema FAO/Brasileiro 
Classe Viabilidade de melhoramento 
Classe a1 Melhoramento viável com práticas 
simples e pequeno emprego de capital. 
Classe b Melhoramento viável com práticas 
intensivas e mais sofisticadas e 
considerável aplicação de capital. Esta 
classe ainda é considerada 
economicamente compensadora. 
 46 
Classe c Melhoramento viável somente com 
práticas de grande vulto; aplicadas a 
projetos de larga escala que estão, 
normalmente, além das possibilidades 
individuais dos agricultores. 
Classe d Sem viabilidade técnica ou econômica 
de melhoramento. 
1 – As letras minúsculas a, b e c são usadas, além da indicação da classe de 
viabilidade de melhoramento, também para indicar aptidão para lavouras. Embora 
seu uso fique bem claro no contexto, quando indica variabilidade de melhoramento 
a letra é grifada. 
 
3.2 Aplicação do sistema FAO/Brasileiro 
a) Estimativa dos problemas: 
É uma síntese da influência das propriedades do ecossistema; 
Estimativa dos desvios N;A; O; E e M; 
Estimar em relação a que? 
Solo ideal X Solo real (Quadro 4) 
Graus de desvios considerados: 
Nulo = 0 
Ligeiro = 1 
Moderado = 2 
Forte = 3 
Muito forte = 4 
 
 
 
 
 
Quadro 4. Relação entre solo ideal (i = 0, onde i = N,A,O,E e M) e solo real (i  
0) 
Parámetro 
Solo ideal 
Solo real 
Nutrientes N = 0 N  0 
Água A = 0 A  0 
Oxigênio O = 0 O  0 
Suscetibilidade à erosão E = 0 E  0 
Impedimentos a 
mecanização 
M = 0 M  0 
 
 47 
Estimativa de desvios subjetiva  convergência de critérios. 
 É possível usar critérios de referência como auxílio nesta estimativa, não 
ficando tão subjetiva assim (Quadro 5). 
b) Estimativa da redução destes problemas, conforme nível de manejo 
considerado: 
É um balanço entre intensidade dos desvios e possibilidades, dificuldades e 
conveniência de sua redução. 
Deve-se considerar as opções dos vários níveis de manejo, refletindo 
diferenças em insumos e técnica. 
É uma estimativa da viabilidade de melhoramento. 
Considera-se, no sistema, as classes de viabilidade de melhoramento. 
 
Exemplos: 
N = 4 para as Areias Quartzosas da Serra da Ibiapaba, antes do 
melhoramento. 
N = 1b, após melhoramento, mesmo aplicando fertilizantes e 
corretivos (o melhoramento pode não eliminar toda a deficiência). 
 
A viabilidade de melhoramento está intimamente ligada às condições sócio 
econômicas, sintetizadas grosseiramente na forma de níveis de manejo. 
 
 
 
Quadro 5. Grau de desvio (limitações) das condições agrícolas dos solos em 
relação ao solo ideal, quanto a nutrientes ou fertilidade (N), disponibilidade de 
água (A), oxigênio (O), suscetibilidade à erosão (E) e impedimentos à 
mecanização 
0 (nulo) 
N Elevada reserva de nutrientes. Nem mesmo plantas exigentes respondem a 
adubação. Ótimos rendimentos por mais de 20 anos. Ao longo do perfil: 
V%>80%, S>6 cmolkg
-1
, TAL=0, na camada arável, e condutividade elétrica 
(CE) < 4 dSm
-1
 a 25 
o
C. 
A Floresta perenifólia ou presença de lençol freático ou sub irrigação. Não há 
deficiência de água em nenhuma parte do ano. Incluem-se áreas de campos 
hidrófilos e subtropicais sempre úmidos. Quanto a A ,são possíveis dois cultivos 
por ano. 
O Aeração boa em qualquer época do ano – bem (D4) a expressividade drenados 
(D1) 
 48 
E Após 10-20 anos: horizonte A permanece intacto. Erosão ligeira, que possa 
ocorrer, é controlada facilmente. Plano, ou Quase (p), declive < 3%, e bem 
permeável. 
M Podem ser usados na maior parte da área, sem dificuldades, todo ano, todos os 
tipos de maquinaria agrícola; rendimento do trator (% de horas efetivamente 
usadas ), RT > 90% . Solos planos (p) ou suave ondulados (s) com < 8% de 
declive, sem outros impedimentos à mecanização ( pedregosidade, rochosidade, 
texturas extremas e tipos de argilas ) 
1 (Ligeiro) 
N Boa reserva de nutrientes, boa produção por mais de 10 anos, com pequenas 
exigências para manter produção depois. V > 50%, S >3, TAL < 30% , 
condutividade elétrica < 4dSm
-1
 e Tna < 6%. (Latossolos eutróficos, por 
exemplo). 
A Água disponível (Ad): pequena deficiência durante o período curto na estação de 
crescimento. Só plantas bem sensíveis é que são prejudicadas no seu crescimento. 
Floresta subperenífera (estação seca de 1 a 3 meses ). Em climas mais secos: solos 
com lençol freático, condicionando boa disponibilidade de água às plantas, ou 
irrigados. Aptidão para dois cultivos é marginal. 
O Plantas de raízes mais sensíveis têm dificuldade na estação chuvosa; 
moderadamente drenados (D5). 
E Após 10-20 anos: <25% do horizonte A original da maior parte da área; Ap 
formado de material A (exceto se A muito espesso), na maior parte da área. 
Erosão bem controlada por culturas selecionadas (cana-deaçucar) ou cultivos 
arbóreos ou parcelas pequenas. Suave ondulação (s), declives 3-8% (SSM: classe 
1 da erosão). 
M Maioria dos tipos de maquinaria sem ou com ligeira dificuldade, RT: 75-90%; (a) 
suave ondulação (s),com 3-8% de declive sem outros impedimentos; (b) planos 
com pedregosidade (0,05 a 1,0), rochosidade (2-10%) ou profundidade limitante; 
(c) planos, com textura muito grosseira (arenosa, cascalhenta etc.), argilosa com 
argila 2:1, ou problemas de drenagem. 
 
2 (Moderado) 
N Um ou mais nutrientes com reserva limitada. Bons rendimentos só nos poucos 
anos iniciais. Reserva no solo ou no ciclo orgânico ou condutividade elétrica: 4-8 
dSm
-1
 ou TNa 6-15%.(Latossolos não eutróficos sob florestas, por exemplo). 
A Ad: deficiente durante período um tanto longo; plantas muito sensíveis podem ser 
cultivas. Floresta subcaducifólia (estação seca de 3-6 meses ou 3, se arenoso). 
Também floresta caducifólia com solos com alta capacidade de retençãodeAd. 
Praticamente não há possibilidade de dois cultivos. 
O Imperfeitamente drenados (D6) ou com risco permanente de inundação ocasional 
 49 
(recorrência:>5 anos). 
E Após 10-20 anos; 25 a 75% do horizonte A é removido da maior parte da área; Ap 
é constituído localmente do material de B. pequenas voçorocas podem ocorrer. 
Controle à erosão deve ser intensivo. Cultivo de árvores sem a completa remoção 
da vegetação ainda funciona bem, relevo ondulado, declive 8-20% (SSM: classe 2 
da erosão). 
M Só tipos mais leves de equipamento, algumas vezes só durante parte do ano, 
tracionados por animais. Se usado trator, RT:50-75%; (a) ondulados,8-20% de 
declive, sem outros impedimentos, se usado para agricultura formam-se sulcos 
freqüentes e profundos; (b) declive <20%, com pedregosidade, rochosidade ou 
profundidade limitante;; (c) planos, com textura muito grosseira (arenosa, 
cascalhenta etc.), argilosa com argila 2:1, ou problemas de drenagem. 
3 (Forte) 
N Um ou mais nutrientes em pequenas quantidades permitem bons resultados só de 
culturas adaptadas. O rendimento de outras culturas e pastagem é baixo. Cerrado 
fechado ou terras exauridas ou condutividade elétrica:8-15 dSm
-1
 e TNa>15% 
(por exemplo, Latossolos sob cerrado propriamente dito). 
A Ad: grande deficiência. Só possível plantas mais adaptadas. Caatinga 
hipoxerófila; floresta caducifólia; transições de cerrado e floresta para caatinga 
(estação seca de 6 a 8 meses, 3 a 7 se arenoso); precipitação, P-600 a800 mm/ano 
e irregulares, e temperatura alta, (T) é predominante). 
O Culturas mais sensíveis, drenagem artificial, ainda viáveis ao nível do agricultor; 
mal (D7) e muito mal drenado (D8) ou sujeitos a inundações freqüentes 
(recorrência:1 a 5 anos). 
E( Após 10-20 anos: >75% do horizonte A removido na maior parte da área. Ap 
apenas localmente guarda vestígios do antigo A. Ocorre voçorocas rasas, com 
algumas profundas. Controle é difícil, dispendioso ou inviável. Fortes ondulados 
(f), declive 20-45% (SSM: classe 3 de erosão). 
M Só implementos manuais na maior parte da área: (a) declive de 20-45%, forte 
ondulado: se usado para agricultura, formam sulcos, constituindo forte 
impedimento à mecanização ; (b) declive <20% com pedregosidade, rochosidade 
ou solos rasos.RT<50% 
 
 
 
 
 
 
4 (Muito Forte) 
N Conteúdo de nutrientes muito restrito com possibilidade remota de agricultura, 
 50 
pastagem e reflorestamento. Somente plantas com muita tolerância conseguem 
adaptar-se. Campo cerrado ou solos salinos com condutividade elétrica: >15dSm
-1
 
ou tiomórficos. Exemplo: solos rasos álicos sob vegetação campestre (Solos 
Litólicos e Cambissolos), originários de rochas pelíticas do grupo Bambuí. 
A Deficiência é severa. Estação de crescimento curtaou mesmo ausente. A 
vegetação natural é escassa ou só presente durante parte do ano. Caatinga 
hiperxerófila (estação seca 8 a10 meses, P= 400-600 mm, irregulares, e alta T). 
O Idem do grau forte, mas melhoramento não é viável ao nível do agricultor. 
E Os solos para fins agrícolas são destruídos em poucos anos; voçorocas médias e 
profundas praticamente inutilizam a área agrícola. Risco de danos para a 
pastagem é muito grande. Montanhoso e escarpado, declive >45%. 
M Não é possível nem o uso de implementos manuais (a) declive > 45%, 
montanhoso ou escarpado; (b) declive < 45% com pedregosidade, rochosidade ou 
solos rasos: se usados para agricultura, formam-se voçorocas. 
 
 
c) Identificação da classe de aptidão 
Confronto das informações de a e b. 
Uso de tabelas de conversão (quadros-guia) (Quadro 9). 
 
O quadro de conversão ou quadro-guia é o máximo de limitação permitido, 
para cada delta e para cada nível de manejo, referente a classe de aptidão. 
 
A definição da classe de aptidão agrícola deve seguir o princípio de que o 
uso não pode ser mais intensivo do que permite o delta que está no mínimo. 
 
É uma síntese e, portanto, difícil de ser lida com aproveitamento de toda a 
informação que ela encerra. 
 
A mensagem final que chega geralmente na forma de mapa colorido com 
símbolos. 
 
 
 
 
Exemplo: 
1Ab(c): 
Letras A, B e C, maiúsculas ou minúsculas; e entre parênteses ou não, 
significam aptidão para culturas: 
A: Aptidão boa no sistema de manejo A; 
 51 
b: Aptidão regular no sistema de manejo B; e 
(c): Aptidão restrita no sistema de manejo C. 
____ Áreas de pior aptidão agrícola na unidade de 
mapeamento. 
 
Ausência de qualquer letra indica inaptidão. 
Exemplo: 2ab. 
 
Existem também as letras P, S e N: 
P: pastagem plantada; 
S: silvicultura;e 
N: pastagem natural. 
 
Letras maiúsculas: classes de aptidão boa; 
Letras minúsculas: classes de aptidão regular; e 
Letras minúsculas entre parênteses: classes de aptidão restrita. 
 
O conceito de aptidão agrícola utilizado tem um sentido amplo para (Quadro 
6 e 7): 
Lavouras; 
Pastagens plantadas; 
Pastagens naturais; 
Silvicultura; 
Reserva biológica; e 
 Recreação 
 
Expressa uma adequação ao uso ao aumento do (s) grau (s) de limitação 
(ões). 
 
Quadro 6. Grupos e classes de aptidão agrícola e alternativas gerais de utilização 
Grupos Classe Nível de manejo 
 A B C 
 
Lavouras 
A  L  1 Boa 1A 1B 1C 
L  I  2 Regular 2a 2b 2c 
T  M  3 Restrita 3(a) 3(b) 3(c) 
E  I  
Pastagem plantada 
R  T  4 Boa 4P 
 52 
N  A  4 Regular 4p 
A  Ç  4 Restrita 4(p) 
T  Õ  
Silvicultura e/ou pastagem natural 
I  E  5 Boa 5N 5S 
V  S  5 Regular 5n 5s 
A   5 Restrita 5(n) 5(s) 
S   
Sem aptidão para uso agrícola 
   6 Preservação da flora e da fauna 
 
Quadro 7. Alternativas de utilização das terras de acordo com o grupo de aptidão 
agrícola 
 
Aumento da intensidade de uso 
Limitações 
e 
Alternativas 
Grupos 
de 
aptidão 
 
Lavoura 
 Preserva
ção da 
flora e 
da fauna 
Silvicult
ura 
e/ou 
pastag
em 
natural 
Pasta
gem 
Aptidão 
restrita 
Aptidão 
regular 
Aptidão 
boa 
A D 1 
L E 2 
T S 3 
E V 4 
R I 5 
N O 6 
 
 
 
Quadro 8. Classes de aptidão agrícola 
Classes de 
aptidão 
Limitações 
gerais 
Produções no manejo A Remoção de restrições 
BOA 
 
ligeiras boa no período de 20 anos 
REGULAR moderadas boa no período de 10 anos parcialmente no manejo 
 53 
A 
 
RESTRITA fortes Médias e baixas no período 
de 10 anos 
opção de culturas 
 
 
INAPTA excluem a produção sustentada do tipo de utilização em questão 
 
 
Porém, como se obtém a classe de aptidão agrícola? 
Exemplo (Quadros 9 e 10) 
Passos: 
A estimativa dos deltas do ecossistema em relação ao solo ideal 
(qualidades do ecossistema). 
Avaliação da viabilidade de redução dos deltas conforme nível de manejo 
(refletindo diferenças em insumos e técnica). 
Confronto de informações obtidas utilizando. 
Uso de quadros de síntese de informações (Quadro 10) 
 
Observações gerais: 
a) Os Quadros-guia (Quadro 9) são muito gerais; 
b) Precisam ser mais específicos; 
c) O Sistema FAO/Brasileiro não foi suficientemente trabalhado ao nível do 
usuário/propriedade; 
d) Pelas suas características está mais condicionado para aplicação para 
escalas muito pequenas (grandes regiões); 
e) Na estimativa das qualidades da terra entra uma grande quantidade de 
informações não quantificáveis e expressáveis; 
f) É o conhecimento empírico (um sentimento de percepção), fundamental 
nas decisões do agricultor. 
 54 
Quadro 9. Quadro-guia de classificação de aptidão agrícola da região semi-árida 
Aptidão Agrícola Graus de limitação das condições agrícolas das terras para os níveis de manejo A, B e C 
Grupo Sub-
grupo 
Classe Uso agrícola N A O E M 
A B C A B C A B C A B C A B C 
 
1 1ABC Boa 0/1 0a 0a 1/2 ½ 1/2 1 1a 0/1a 1 0/1a 0a 2 1/2 0 
2 2abc Regular Lavouras 1 1a 1b 2 2 2 2 1/2a 1b ½ 1a 0/1b 2/3 2 1 
3 3(abc) Restrita 2 1/2a 1/2b 2/3 2/3 2/3 3 2a 2b 2/3 2a 1/2a 3 2/3 2 
 
4 4P Boa Pastagem 2a 2 3 2/3a 2 
4p Regular 2/3a 2/3 4 3a 2/3 
4(p) Restrita Plantada 3a 3 4 3/4 3 
 
5 5S Boa 2/3a 2 1a 3a 2/3 
5s Regular Silvicultura 3a 2/3 1a 3a 3 
5(s) Restrita 4 3 1/2
a
 4 3 
 
5 5N Boa 2/3 3 3 3 3 
5n Regular Pastagem 
natural 
3 3/4 3/4 3 4 
5(n) Restrita 4 4 4 3 4 
 
6 6 Preservação 
da flora e da 
fauna 
 
 
 55 
Quadro 10. Resultado do confronto entre desvios da unidade PLs após redução dos desvios (quando viáveis) e os requisitos de máxima 
limitação permissível para determinada classe de uso na Tabela-Guia 
Situação N A O E M 
 A B C A B C A B C A B C A B C 
PLs 1 1a 1b 2/3 2/3 2/3 1 1a 0/1a 1 0 0 2 2/3 2 
 
Quadro – 
Guia 
1 1a 1b 2/3 2/3 2/3 1 1a 0/1a 1 0/1a 0a 2 2/3 2 
 a B c (a) (b) (c) A B C A B C A (b) (c) 
 
Uso mais 
intensivo 
(a) (b) (c) 
Uso 
possível 
3 (a) (b) (c) 
Conclusão 3(abc) é o máximo uso possível para a área em questão, ou seja, no sistema de manejo A, B e C, o máximo uso é o de 
culturas em caráter restrito 
 56 
3.3 Exemplo de aplicação do Sistema FAO/Brasileiro 
 O exemplo de Parambu-CE 
 
Quadro 11. Aptidão agrícola das terras das folhas SB.24-Y-A-III-2 – Parambú, de 
acordo com o uso intensivo mais indicado (Fonte Leite & Oliveira, 1996) 
 
Figura 5. Mapa da aptidão agrícola da área estudada (Fonte Leite & Oliveira, 1996) 
 
 
Quadro 12. Símbolo, classes de solos, principal limitação, aptidão agrícola, área em hectare e 
porcentual das terras das folhas SB.24-Y-A-III-2 – Parambú (Fonte Leite & 
Oliveira, 1996) 
 57 
 
 
 
 
 
 58 
4 Bibliografia 
 
CHAVES, N.M.A. Levantamento pedológico semidetalhado com fins de 
determinação das classes de capacidade de uso na área do projeto de 
Assentamento Lages. Fortaleza: UFC, 2005. 118p. 
 
LEITE, F.R.B. & OLIVEIRA, S.B.P. Aptidão agrícola das terras das folhas SB.24-Y-
A-III-2 Parambu utilizando sistema de informações geográficas. In: VIII Simpósio 
Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Anais. 1996. INPE, p.27-32.LEPSCH, I. F. (coord.). Manual para levantamento utilitário do meio físico e 
classificação de terras no sistema de capacidade de uso. Campinas: SBCS, 
1991. 175p. 
 
RESENDE, M., CURI, N. REZENDE, S.B., CORRÊA, G.F. Pedologia: a base para a 
distinção de ambientes. Viçosa: NEPUT, 1995. 304p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 59 
PARTE IV – PROPRIEDADES FÍSICAS, QUÍMICAS E MINERALÓGICAS 
DE INTERESSE AO MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO 
 
1. Introdução 
A conservação do solo consiste em dar o uso e o manejo adequado às suas 
características químicas, físicas e biológicas, visando manter o equilíbrio ou 
recuperar áreas alteradas. Por meio de práticas de conservação, é possível manter 
a fertilidade do solo e evitar problemas sérios, como a erosão e a compactação. 
Para minimizar os efeitos negativos de agentes ambientais (chuva, vento, 
temperatura, etc) e do próprio uso pelo homem, devem ser utilizadas algumas 
técnicas de manejo que garantam a conservação dos solos. Porém, para utilizar as 
técnicas de manejo adequadas, inicialmente é importante conhecer bem as 
propriedades químicas, físicas e mineralógicas do solo que, de uma maneira ou de 
outra, influenciam o manejo. 
 
2. Propriedades Mineralógicas 
 
2.1 Fases do solo 
Um solo mineral próximo à superfície, com condições físicas ótimas para o 
crescimento de plantas, apresenta aproximadamente, a seguinte composição 
volumétrica: 50% de espaço poroso, ocupados por partes iguais de ar e água, 45 a 
48% de sólidos minerais e 2 a 3, por vezes 5% de matéria orgânica (MO). Têm-se 
em média, então, 50% constituídos pela fase sólida, 25% pela fase líquida e 25% 
pela fase gasosa (Figura 1). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FIGURA 1. Composição volumétrica média de um solo com boa estrutura. 
 
 A fase sólida é constituída de agregados que se apresentam, até certo 
ponto, individualizados. Os agregados são formados de partículas unitárias, 
cimentadas entre si por matéria orgânica, óxidos e hidróxidos de Fe e Al, sílica, etc. 
As partículas individuais são obtidas após a dispersão dos agregados. Limites de 
tamanho definem as partículas como pertencentes a diferentes frações. Esses 
limites são estabelecidos pela classificação de Atterberg ou classificação 
internacional (Figura 2). 
 
Ar 
25% 
Água 
25% 
Minerais 
45 - 48% 
50% de 
partículas 
sólidas 
50% de 
poros 
MO 2 a 5% 
 60 
 
 
 
FIGURA 2. Limites dos tamanhos das partículas dos solos. 
 
2.2 Sistema Coloidal 
O solo pode ser considerado como um sistema disperso, uma vez que é 
construído de mais de uma fase, estando a fase sólida em estado de acentuada 
subdivisão. Há, portanto, um sistema coloidal no solo, constituído de partículas 
diminutas, de tamanho coloidal, minerais ou orgânicas, ou organominerais, como 
fase dispersa na solução (ou no ar) do solo, como meio de dispersão. Nesse sistema 
ocorrem reações químicas, físico-químicas e microbianas da maior importância no 
estudo dos solos. Nessa fase dispersa é que se encontram as argilas. 
As partículas do sistema coloidal do solo apresentam as seguintes 
propriedades: 
 
2.2.1 Grande superfície específica 
A superfície específica refere-se à área pela unidade de peso do material 
considerado (solo como um todo, fração argila apenas, matéria orgânica, etc) e é 
usualmente expressa é m²/g. 
Deve-se, portanto, esperar grandes variações entre solos quanto às suas 
superfícies específicas. Dentre os fatores por essas variações, encontram-se: 
Textura; Tipos de minerais de argila e Teor de matéria orgânica. 
Em virtude do menor tamanho da fração argila do solo, em relação às outras 
frações, pode-se deduzir que esta fração, de natureza coloidal, contribui em maior 
proporção com o valor da superfície específica do solo. 
 A matéria orgânica, embora presente, na maioria dos solos, teores 
relativamente baixos, contribui, significativamente, para o valor da superfície 
específica do solo, graças ao seu alto grau de subdivisão. Assim um solo com maior 
teor de matéria orgânica deverá ter maior superfície específica que outro com menor 
teor, se outras características, como tipo e quantidade de argila, forem mantidas 
constantes. 
 
2.2.2 Cargas elétricas 
Propriedade muito importante de uma dispersão coloidal é a presença de 
cargas elétricas. As partículas colidais do solo, as argilas de modo geral, são 
eletronegativas. Embora possam, também, conter cargas positivas, estão são 
 61 
normalmente, em menor número que as negativas. Essas cargas elétricas 
proporcionam a adsorção de íons de carga opostas, retendo-os no solo, íons estes 
que, em boa parte, desempenham papel importante para o crescimento e 
desenvolvimento das plantas. 
 
2.2.3 Cinética 
As partículas dispersas em meios líquidos apresentam movimentos. O 
movimento browniano é caracterizado pelo movimento brusco, irregular e em zigue-
zague de partículas individuais no meio de dispersão. Esse movimento deve-se à 
energia cinética das partículas. 
O movimento de difusão é consequência da migração de partículas de uma 
região de maior concentração para outra de menor concentração. Há também, o 
movimento ocasionado pela força gravitacional, responsável pela sedimentação de 
partículas. 
 
2.3 Mineralogia da fração argila 
A fração argila não deve ser confundida com minerais de argila. A fração 
argila é aquela representada pelas partículas menores que 0,002 mm. Já os 
minerais de argila são representados pelas ARGILAS SILICATADAS e ARGILAS 
NÃO SILICATADAS. 
 
2.3.1 Argilas Silicatadas 
Dentro da fração argila (partículas menores que 2 μm), as argilas são os 
constituintes mais comuns em solos de regiões temperadas, ainda não sujeitos aum 
estádio avançado de intemperismo. As argilas silicatadas são constituídas de duas 
unidades estruturais básicas. Uma é o tetraedro de sílica, formado por ligações de 
um átomo de sílica, formado por ligações de um átomo de Si a quatro átomos de 
oxigênio (Figura 3). 
A outra unidade é constituída pelo octaedro de alumina, formado por um átomo de Al 
e seis de oxigênio (Figura 4). 
 
FIGURA 3. Tetraedro de sílica FIGURA 4. Octaedro de 
alumina
 62 
O número de camadas de tetraedros para camadas de octaedros, por 
unidade componente de um cristal de argila silicatada, é uma característica básica 
de identificação dos principais grupos de argila silicatadas. Dentre as argilas 
silicatadas, destacam-se os principais grupos: 
 
a) Caulinita 
Caracteriza-se por um arranjo com uma camada de tetraedros e uma de 
octaedros, unidas entre si, rigidamente, pelos átomos de oxigênio comuns às duas 
camadas, constituindo uma unidade cristalográfica. Unidades assim formadas se 
unem entre si por ligações de H, constituindo o grupo das caulinitas ou o grupo das 
argilas 1:1. 
São hexagonais e de tamanho grande, o que condiciona pequena superfície 
específica, se comparada às partículas de argilas silicatadas do tipo 2:1mais ativa, 
como a montmorilonita. 
 
b) Montmorilonita 
Caracteriza-se por unidades constituídas por um arranjo com duas camadas 
de tetraedros para uma de octaedros, ligadas rigidamente pelos átomos de oxigênio 
comuns às lâminas. São também denominadas argilas 2: 1 (Figura 5). As unidades 
são frouxamente ligadas entre si por moléculas d’água e cátions na solução, o que 
permite que a distância entre elas seja variável. Como consequência, cátions e 
moléculas podem-se mover entre essas unidades, o que proporciona tanto uma 
superfície total (a internamais a externa) como uma superfície específica bem 
maiores do que para a caulinita. Com a hidratação desse material, há aumento da 
distância entre as unidades, o que justifica a classificação desta argila como 
expansiva. 
 
FIGURA 5. Representação esquemática das argilas do grupo da montmorilonita 
(tipo 2:1) 
 
c) Ilita 
O grupo da ilita, ou mica hidratada, apresenta a mesma organização 
estrutural que a montmorilonita (tipo 2:1), exceto no que diz respeito às ligações 
entre as unidades cristalográficas. A existência de déficit de carga positiva na 
camada de tetraedro leva a um excesso de cargas negativas que são neutralizadas, 
geralmente por íons de K, fortemente retidos entre duas unidades. Essas ligações 
diminuem intensamente a expansão do material quando sujeito á hidratação. A 
 63 
superfície de adsorção catiônica é, consequentemente, menor que a da 
montmorilonita. 
 
d) Outros grupos de argilas silicatadas 
A presença mais frequente de vermiculita (tipo 2: 1), argila silicatada 
semelhante à montmorilonita, embora não tão expansiva como esta, em solos de 
regiões temperadas, diz sobre a sua menor resistência ao intemperismo, do que a 
caulinita, por exemplo, tão frequente em solos de regiões tropicais. Não obstante a 
vermiculita é, de modo geral, mais resistente ao intemperismo em relação à 
montmorilonita. A vermiculita apresenta substituição de Si por Al na camada de 
tetraedros, ao passo que a montmorilonita apresenta substituição de Al por Mg na 
camada de octaedros. Portanto, a presença de Al, em solos ácidos, é fator de 
estabilização da vermiculita. Por outro lado a lixiviação de Mg dos solos tende a 
desestabilizar a montmorilonita. 
A clorita diferente das demais estudadas por apresentar, além do grupo 2;1 
de talco (com unidade cristalográfica similar á da montmorilonita, mas com Mg 
dominando a camada de octaedros), uma camada adicional de brucita (Mg(OH)2). 
Por essa razão, essa argila é conhecida pelo tipo 2:2 ou 2:1:1 ( duas lâminas de 
tetraedros, uma de octaedro e uma de brucita). A superfície específica e a 
capacidade de troca catiônica são semelhantes às da ilita. 
 
 
3. Propriedades Químicas 
 
As propriedades de natureza química podem influenciar, positiva ou 
negativamente, o crescimento das plantas. 
 
3.1. Origem das cargas elétricas do solo 
 
Há no solo, em geral, predominância de cargas negativas sobre positivas. 
Essa predominância é expressiva em solos de regiões temperadas, graças à 
presença de argilas silicatadas mais ativas, por conseguinte mais eletronegativas. 
As cargas eletronegativas do solo podem ter diferentes origens: 
 
3.1.1 Cargas negativas 
 
a) Dissociação de Grupos OH nas arestas das Argilas Silicatadas 
O grupo OH nas terminações tetraedrais ou octaedrais, em faces quebradas 
das unidades cristalográficas das argilas silicatadas, pode-se dissociar, gerando 
uma carga negativa. 
Verifica-se que com a elevação do pH do meio (solo) o equilíbrio é deslocado 
para a direita em razão da neutralização dos íons H+ liberados na dissociação do 
grupo OH. Este tipo de cargas dependentes do pH é o tipo predominante em argilas 
1:1, como a caulinita. 
 64 
 
 
 
 
 
 
Figura 2. Grupos OH em arestas quebradas das UC’s podem se dissociar, 
gerando carga negativa 
 
b) Substituição Isomórfica 
 
Durante a gênese de argilas do tipo 2:1, alguns átomos de Si dos tetraedros 
podem ser substituídos por Al, bem como o Al dos octaedros pode ser substituído 
por Mg ou por outros cátions de valência menor que a do Al3+. A substituição do Si4+, 
que se encontrava, inicialmente, neutralizando quatro cargas negativas por Al3+, irá 
condicionar sobra de uma carga negativa. De maneira semelhante, uma carga 
negativa será gerada pela substituição de um Al3+ de um octaedro por um cátion 
divalente, como o Mg2+. Deve-se ressaltar que o número de cargas geradas por este 
processo não é variável com alterações do pH do meio. 
 
c) Matéria orgânica 
 
Na matéria orgânica do solo, as cargas negativas originam-se, principalmente, 
da dissociação de grupos carboxílicos e fenólicos, de acordo com as equações 
químicas: em que R representa um radical de modo geral, de longas cadeias 
alifáticas ou eventualmente aromáticas. Verifica-se pelas equações que o equilíbrio 
é deslocado para a direita, forma dissociada, com a elevação do pH do meio, ou 
seja, com a neutralização da acidez (Figura 3). 
 
 
 
 
Figura 3. Cargas negativas originadas a partir da dissociação de grupos carboxílicos 
e fenólicos; 
 
3.1.2. Cargas positivas 
 
As cargas eletropositivas do solo têm a sua origem nos óxidos e hidróxidos 
(óxidos hidratados) de Fe e Al, preferencialmente (Figura 4). Tal situação se dá de 
maneira mais significativa em condições mais ácidas de solo. Os Solos de região 
tropical apresentam-se como ácidos, onde sesquióxidos de Fe e Al formam cargas 
positivas. Dependendo do pH do solo, os Óxidos hidratados de Fe e Al podem 
originar cargas positivas, negativas ou permanecer com carga neutra. 
 
OH
- 
Argila 
+ OH
- O
- 
Argila 
+ H2O
 
R – COOH R – COO- + H+ 
 65 
 
Figura 4. Cargas positivas originadas por óxidos e hidróxidos de Fe e Al 
 
3.2. Adsorção e troca iônica 
 
As propriedades de adsorção iônica do solo são devidas, quase que 
totalmente, aos minerais de argila e à matéria orgânica do solo, materiais de 
elevada superfície específica. Essas partículas coloidais do solo apresentam 
cargas elétricas negativas e positivas, podendo absorver ou “reter”, por diferença 
de carga, tanto cátions como ânions. 
Cargas negativas ou positivas são neutralizadas por íons de cargas 
contrárias que podem ser trocados por outros da solução do solo. A troca ocorre 
entre íons de mesma carga. Cargas negativas são neutralizadas por cargas 
positivas, definindo a ADSORÇÃO CATIÔNICA (Figura 5). Cargas positivas são 
neutralizadas por cargas negativas, definindo a ADSORÇÃO ANIÔNICA (Figura 
6). 
Na adsorção, íons ligam-se por eletrovalência ou covalência às partículas 
coloidais do solo. Os cátions mais envolvidos no processo são: Ca2+, Mg2+, Al3+, 
H+, K+, Na+ e NH4
+. Os íons adsorvidos às partículas coloidais podem ser 
deslocados e substituídos estequiometricamente por outros de mesma carga, 
caracterizando a TROCA IÔNICA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 5. Troca Catiônica 
 
 
 
Al
3+ 
Ca
2+ 
Colóide 
- 
K
+ 
+ 6NH4
+ 
3NH 
4+ 
2NH4
+ 
Colóide 
NH4
+ 
+ K
+
 + Ca
2+
+ Al
3+ 
OH
- 
OH
- 
Colóide 
+ 
SO4
2- 
+ 4H2PO4
- 
2H2PO4
- 
Colóide 
2H2PO4
- 
+ SO4 
2-
 + 2OH
- 
Al O 
H
+ 
H
+ 
Carga Positiva 
+ H
+ 
Al-OH 
+ OH
- 
Al-O
-
 + H2O 
Carga Nula 
(PCZ = pH) 
Carga Negativa 
 66 
 
 
 
 
Figura 6. Troca Aniônica 
 
3.3. Capacidade de Troca Catiônica – CTC 
 
Se uma solução salina é colocada em contato com certa quantidade de solo, 
verificar-se-á a troca entre cátions contidos na solução e os da fase sólida do solo. 
Esta reação de troca se dá com rapidez, em proporções estequiométricas e é 
reversível. Por métodos analíticos, a quantidade de cátion que passou a neutralizar 
as cargas negativas do solo pode ser determinada. O resultado indica a quantidade 
de cargas negativas expressadas pela capacidade de troca catiônica do solo (CTC). 
Dentre os cátions que neutralizam as cargas negativas da CTC efetiva do 
solo, incluem-se, principalmente, as bases (Ca2+, Mg2+, K+, Na+, NH4
+). , o Al3+ e, 
também, cátions H+ ligados a cargas negativas da CTC de carátermais eletrovalente 
(tipo ácido forte). 
Alguns princípios básicos caracterizam a CTC. Alguns princípios básicos 
caracterizam a CTC. 
a) O fenômeno de troca é reversível. Os cátions adsorvidos podem 
ser deslocados por outros, e assim sucessivamente. 
b) O fenômeno de troca é uma reação estequiométrica, isto é 
obedece à lei dos equivalentes químicos: um molc de um cátion é trocado 
(substituído) por um molc de outro cátion. 
c) É um processo rápido. Na determinação da CTC, o tempo de 
agitação do solo e solução varia de 5 a 15 min. 
Muitas condições do solo têm influência sobre a CTC, dentre as quais: pH, 
características dos cátions trocáveis, como valência e raio hidratado, concentração 
da solução e da natureza da fase sólida. 
O efeito do pH se verifica, principalmente, sobre as cargas dependentes do 
pH. 
A natureza dos cátions trocáveis afeta a preferencialidade de troca no solo, de 
acordo com a densidade de carga dos cátions, isto é, Z/r, em que Z é a carga do íon 
e r é o raio do íon hidratado. Os cátions que têm maior densidade de carga são mais 
retidos nas cargas negativas do solo. Por isso os cátions polivalentes são 
geralmente mais fortemente retidos no solo. 
A diferença na preferencialidade de troca entre cátions da mesma carga se 
deve à diferença entre raios iônicos hidratados (espessura da camada de hidratação 
do íon), que faz com que Cs+ seja mais fortemente retido, em forma eletrostática, 
que o Li+. O Cs+ apresenta maior massa atômica e menor espessura da sua camada 
de hidratação em relação ao Li+. 
A concentração dos cátions na solução do solo afeta a preferencialiadade de 
troca, interagindo com a carga dos cátions envolvidos. Assim, à medida que dilui a 
 67 
solução, mantendo constantes as concentrações dos cátions presentes, verifica-se 
um aumento na preferência de troca dos cátions de menor valência, como o Na+, 
pelos de maior valência. 
Dada a importância da CTC no solo, as características relacionadas com esta 
propriedade são constantemente determinadas e utilizadas em interpretações e em 
cálculos de necessidades de corretivos e fertilizantes. 
 
3.3.1 CTC efetiva (t) e Potencial a pH 7,0 (T) 
A capacidade de troca catiônica trata da determinação em certo pH 
tamponado, geralmente a pH 7,0 ou a pH 8,2 (para solos alcalinos e salinos). No 
Brasil, tem sido mais usado o valor T a pH 7,0 que é calculado somando-se as 
bases e a acidez potencial [SB + (H + Al)]. Além dessas duas expressões, pode-se 
ainda citar o valor t ao pH do solo (CTC efetiva), que é calculado somando-se as 
bases com a acidez trocável (SB + Al3+). 
 
3.3.2 Soma de bases (SB) 
A soma de bases (SB) é calculada somando-se os teores de Ca2+, Mg2+, K+ e, 
quando disponíveis, Na+ e NH4
+ trocáveis. Nos solos ácidos de regiões tropicais os 
cátions trocáveis Na+ e NH4
+ geralmente têm magnitude desprezível. 
 
3.3.3 Saturação por bases (V) 
A participação das bases no complexo sortivo do solo, expressa em 
percentagem, é conhecida como saturação por bases (V). 
Para este cálculo, V= SB/T * 100, usa-se CTC a pH 7,0 (valor T). 
 
3.3.4 Acidez trocável 
A acidez trocável é representada pelo Al3+ e, com menor participação, por 
outros cátions de hidrólise ácida, como Mn2+, Fe2+ e Fe3+ mais o H+ que faz parte da 
CTC efetiva. Como, em geral, a participação do H+ é pequena em relação à acidez 
trocável (Al3+ predominantemente), este valor é também chamado de Al trocável. 
 
3.3.5 Acidez potencial 
A determinação da acidez potencial (a pH 7,0) é feita, usando-se, como 
extrator, uma solução tamponada de acetato de cálcio 0,5 mol L-1, pH 7,0. Esta 
acidez inclui H + Al ( H+ trocável, H de ligações covalentes que é dissociado com a 
elevação do pH, predominante, de modo geral, da matéria orgânica, Al3+ trocável e 
outras formas de Al – aquelas parcialmente hidrolisadas como AlOH2+ e Al(OH)2
+). A 
maior parte do H provém das cargas negativas dependentes do pH. Esta fração é 
chamada acidez dependente do pH. 
 
3.4. Capacidade de troca Aniônica 
 
A capacidade de troca aniônica é definida como o poder do solo de reter 
ânions na fase sólida, numa forma trocável com outros ânions da solução. 
 68 
Entretanto, a manifestação desta propriedade não é tão característica quanto a troca 
catiônica, isto é, não são atendidas perfeitamente as condições de rapidez, 
reversibilidade e estequiometria. Por esta razão a troca aniônica é mais frequente e 
convenientemente denominada adsorção aniônica, sugerindo um processo mais 
complexo do que a simples troca. 
Um aspecto particular do comportamento de certos ânions no solo é a 
adsorção específica, Por este processo os ânions são retidos pela fase sólida, por 
meio de ligações fortes (covalentes), passando a fazer parte da estrutura da micela, 
em sua superfície. Este tipo de adsorção é de baixa reversibilidade e é bem 
conhecida para o P, sendo o principal responsável pela fixação de P no solo, 
principalmente nos solos ricos em óxidos e hidróxidos de Fe e Al. 
 
3.4.1 Adsorção específica 
É o processo pelo qual ânions são adsorvidos na fase sólida por ligações 
fortes (covalentes). Trata-se de uma adsorção de baixa reversibilidade, bastante 
comum para o P. O ânion que desloca P da fase sólida é o silicato (H3SiO4
-) e o 
sulfato (SO4
2-). A adsorção varia com o teor e o tipo de argila. Cargas positivas 
que causam adsorção são dependentes do pH (menor pH, aumenta cargas 
positivas e aumenta a adsorção). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O 
 
 
3.5. Acidez do solo 
 
Grande limitante ao desenvolvimento das plantas em muitos solos 
brasileiros. Pode estar associada à presença de Al e Mn em concentrações 
tóxicas às plantas e aos baixos teores de Ca e Mg que são importantes 
nutrientes. 
No manejo é preciso utilizar meios que minimizem os efeitos negativos da 
acidez do solo. O uso do termo “reação do solo” é comum para se referir à influência 
do fator pH sobre as propriedades do solo. 
 
3.5.1 Conceito ácido-base 
Fe 
 
O 
 
Fe 
 
OH 
 
OH 
 
+ P 
O 
OH 
OH 
O 
P 
O 
O 
OH 
O Fe 
O 
Fe 
+ OH
- 
+ H2O 
 69 
 
- Arrhenius (1884): 
Um Ácido é uma substância com H que, em solução aquosa, produz H+ ; base é 
uma substância que produz OH-. A teoria não se aplica à substâncias que não 
possuem H ou OH. 
- Brönsted-Lowry (1923): 
Um Ácido é uma substância química que doa prótons; base é uma substância que 
recebe prótons. 
 
Ácido: 
 
 
 
Base: 
 
A reação de 
transferência de prótons envolve a competição de duas bases por prótons, como 
por exemplo, a dissolução de HCl em água (Figura 7). A acidez de uma solução 
(como a do solo) será definida pelo balanço entre doadores e receptores de 
prótons. 
 
 
 
 
HCl (ÁCIDO) doa H+ para H2O (BASE) que recebe H
+ 
 
Figura 7. Reação ácido-base 
 
3.5.2 Origem da Acidez do Solo 
 
Os solos, em suas condições naturais, podem ser ácidos, em decorrência do 
material de origem e da intensidade da ação de agentes de intemperismo, como 
clima e organismos. Regiões com altas precipitações pluviais apresentam tendência 
à maior acidificação do solo pela remoção de cátions de caráter básico do complexo 
de troca, como o Ca, Mg, K e Na, e o consequente acúmulo de cátions de natureza 
ácida, como o Al e H. 
Nos solos cultivados, a acidez pode ser acentuada pela absorção dos cátions 
básicos pelas culturas e exportados com as colheitas. O manejo inadequado do solo 
pode, também, favorecer a erosão, expondo os horizontes subsuperficiais que são, 
em geral, mais ácidos. O uso de fertilizantes amoniacaiscontribui, para a 
acidificação devido a nitrificação do amônio. A oxidação da matéria orgânica e do S 
também desempenha papel importante na acidificação. 
 
3.5.2.1 Remoção de bases 
HA + H2O A
-
 + H
+ 
(H3O) 
B + H2O BH + OH
- 
HCl + H2O H3O
+
 + Cl
- 
 70 
 
A remoção de cátions de caráter básico do solo pela lixiviação, erosão, e 
pelas culturas, resulta no aumento de formas trocáveis de H+ e de Al3+ no 
complexo sortivo (CTCefetiva), favorecendo maiores concentrações destes íons na 
solução do solo. O Al é hidrolisado e gera acidez 
 
 
 
3.5.2.2 Grupos ácidos da matéria orgânica 
 
A ionização do H de ácidos carboxílicos, fenólicos e, principalmente, de 
álcoois terciários da matéria orgânica, contribui para a acidez no solo. Entretanto, 
em condições de acúmulo de matéria orgânica e no estádio final de sua 
mineralização, a oxidação libera elétrons, podendo ocasionar um aumento no pH. 
 
 
 
 
 
 
 
- 
A mineralização da M.O. também libera bases que aumentam o pH, pois 
libera N e S que, ao oxidar, liberam prótons e diminuem o pH. 
 
 
 
 
 
 
A oxidação biológica da M.O. produz CO2 que leva à acidificação do solo 
 
3.5.2.3 Minerais de argila silicatados e não silicatados 
 
Os grupos estruturais Si-OH e Al-OH exposto na superfície dos minerais de 
argila silicatada, assim como os grupos Al-OH e Fe-OH nos oxihidróxidos de Fe 
(magnetita, hemetita, goethita) e Al (gibbsita) contribuem para a geração de acidez. 
 
 
3.5.2.4 Fertilizantes minerais 
Al
3+
 + 6H2O Al(OH)3 + 3H3O
- 
O2 + 4H
+ 
+ 4 e
- 
2H2O + 1,229 volts
 
NH4
+ 
+ 2O2 
 
+ H2O
 
NO3 
- 
+ 2H3O
+ 
S
 
+ 3/2 O2 
 
+ 3H2O
 
SO4 
2- 
+ 2H3O
+ 
CO2 + H2O H2CO3 
 
H
+ 
+ HCO3
- 
666 
CO3
2-
 + 2H
+ 
666 
 71 
 
A oxidação do amônio também é responsável pela acidez gerada quando da 
aplicação de fertilizantes, como (NH4)2SO4 e NH4NO3, que aumenta com as doses 
aplicadas (Figura 8). 
Com o aumento do pH, o Al não permanece na forma de oxihidróxidos de 
Al, restando os cátions básicos na solução do solo na forma trocável. Deve-se 
salientar que o H+ está sendo continuamente produzido no solo como resultado, 
por exemplo, da mineralização de compostos orgânicos com produção de CO2 e 
do intemperismo dos silicatos, que libera Al3+ em solução. 
 
 
 
Figura 8. NH4
+ desloca Al3+ do mineral de argila 
 
3.5.3 Determinação da acidez do solo 
 
A acidez do solo é avaliada, geralmente, por meio do seu pH, determinando-se a 
atividade de H+ na solução do solo com água ou com soluções salinas. O pH está 
relacionado com a concentração dos H+ na solução do solo, que determina a acidez 
ativa do solo. Deve-se ter em mente que a acidez ativa é apenas uma parte muito 
pequena em relação à acidez trocável ou à acidez potencial do solo. 
 
3.5.3.1 Acidez ativa (Não trocável) 
 
Refere-se à atividade dos íons H+ (H3O
+) em solução, medida pelo pH. 
Fornece indicativos sobre a disponibilidade de nutrientes, presença de Al, 
atividade biológica, reação de fertilizantes, etc. 
 
3.5.3.2 Acidez trocável 
 
Como em muitos solos o teor de H+ trocável é muito pequeno (o mesmo 
acontece com a acidez da hidrólise de outros cátions de reação ácida), considera-
se o resultado de acidez trocável como sendo o teor de Al trocável (Al3+). 
 
3.5.3.3 Acidez potencial 
 
Esta acidez é composta pela acidez trocável e não-trocável. Refere-se à 
quantidade de formas trocáveis e não-trocáveis desses íons do solo. Essa acidez 
potencial inclui H+ e Al3+ adsorvidos em forma eletrovalente, bem como os íons H 
Al
3+ 
+ 3NH4 (NH4
+
)3 + Al
3+
 Al
3+
 + 6H2O Al(OH)3 + 3 H3O
+ 
Si-O
-
 +
 H3O
- 
 72 
ligados covalentemente que se dissociam de compostos orgânicos, de grupos OH 
na superfície das argilas, e de alguns polímeros de Al, como já apresentado. 
 
3.5.4 Efeitos da acidez do solo no manejo 
 
A concentração de H+ na solução do solo, mesmo com valor de 0,1 mmol 
L-1 que corresponde a pH 4,0, não é fator limitante ao crescimento e 
desenvolvimento das plantas, desde que haja suprimento adequado do nutrientes 
e ausência de elementos em concentrações tóxicas. Entretanto, essa situação 
não acontece naturalmente nos solos, pois, em condições ácidas, podem ocorrer 
íons, como o Al3+ e Mn2+, em teores tóxicos para as plantas. A acidez do solo 
pode interferir, também, na disponibilidade de alguns nutrientes e na atividade 
dos microrganismos. Assim, para o estudo dos prejuízos causados pela acidez 
dos solos devem-se considerar os efeitos diretos e indiretos da acidez, 
principalmente dos decorrentes da acidez ativa (pH). 
 
3.5.4.1 pH x Disponibilidade de nutrientes 
 
A redução da acidez do solo promove a insolubilização de Al e Mn, 
aumenta a disponibilidade de P e Mo e diminui a disponibilidade de 
micronutrientes, como o Zn, Mn, Cu e Fe. 
A intensidade dessas mudanças na disponibilidade/absorção de elementos 
químicos do solo pode ser sentida na forma diferenciada entre espécies, 
cultivares ou variedades de plantas. A variabilidade de comportamento de 
plantas, em relação aos efeitos da acidez do solo, não permite generalizações e 
dificulta bastante o estabelecimento de faixas de pH adequadas para as diversas 
culturas. 
 
Concentração de elementos, tais como alumínio, ferro e manganês, pode 
atingir níveis tóxicos, porque sua solubilidade aumenta nos solos ácidos;- a 
toxidez de alumínio é, provavelmente, o fator limitante mais importante para as 
plantas em solo muito ácidos;- os organismos responsáveis pela decomposição 
da matéria orgânica e pela liberação de nitrogênio, fósforo e enxofre podem estar 
em pequeno número e com pouca atividade;- o cálcio pode ser deficiente quando 
a CTC do solo é extremamente baixa. O mesmo acontece com o magnésio;- a 
performance dos herbicidas aplicados ao solo pode ser afetada, de modo 
adverso, quando o pH do solo é muito baixo;- a fixação simbiótica de nitrogênio 
pelas leguminosas é severamente reduzida. 
A relação simbiótica requer uma amplitude de pH mais estreita para o 
crescimento ótimo das plantas do que no caso de plantas não fixadoras de 
nitrogênio;- os solos argilosos, com alta acidez, são menos agregados. Isto causa 
baixa permeabilidade e aeração, um efeito indireto, motivo pelo qual os solos que 
receberam calagem produzem mais resíduos das culturas; pois melhora 
crescimento radicular, aumenta mineralização da M.O. e diminui retenção de P na 
 73 
fase sólida; a disponibilidade de nutrientes como o fósforo e o molibdênio é 
reduzida;- há aumento na tendência de lixiviação de potássio.Os principais 
sintomas de toxidez podem ser observados no sistema radicular:- raízes 
caracteristicamente curtas ou grossas;- inibição do crescimento das raízes, que 
se tornam castanhas;- raízes laterais engrossadas e pequena formação de pêlos 
radiculares;- se observa também predisposição da planta injuriada à infecção por 
fungos. 
A maneira mais fácil, correta e economicamente viável de corrigir a acidez 
do solo, notadamente na camada arável, diz respeito ao uso de calcário por meio 
da calagem. Essa prática tem dois objetivos fundamentais: correção da acidez do 
solo para diminuir ou até anular os efeitos tóxicos das altas concentrações ou 
saturações de alumínio e manganês, e correção das deficiências de cálcio e 
magnésio. 
 
↑ disponibilidade de Mo e Cl 
O molibidênio é fortemente adsorvido pelos oxihidróxidos de Fe e Al, à 
semelhança do que ocorre com o P, e é deslocado pelo OH- com a elevação do 
pH do solo. A mesmatendência é observada para Cl-, embora este seja 
fracamente adsorvido no solo. 
 
↑ disponibilidade de S 
O SO4
-2 adsorvido pelos oxihidróxidos de Fe e Al, à semelhança do que 
ocorre com P, é liberado pela elevação do pH. A decomposição da Matéria 
orgânica liberando S é favorecida pela elevação do pH. 
 
↓ disponibilidade de micros metálicos (Cu, Fe, Mn e Zn) 
A disponibilidade destes micronutrientes catiônicos diminui com a 
elevação do pH (mais OH-) do solo. 
 
 
↑ disponibilidade 
de N 
A 
disponibilidade 
aumenta graças ao 
efeito favorável na 
mineralização da matéria orgânica. 
 
↑ não afeta muito a disponibilidade de B 
Abaixo de pH 7,0 há pouco efeito na disponibilidade de boro; em 
condições do pH do solo, o ácido bórico é pouco dissociado. A influência é maior 
quando aumenta mineralização da M.O. que libera boro. 
 
3.6 Alumínio em solos ácidos 
Fe
3+
 + 3OH
-
 Fe(OH)3↓
 
Mn
2+
 + 4OH
-
 MnO2↓ + 2H2O + 2 e
- 
Cu
2+
 + 2OH
-
 Cu(OH)2↓
 
Zn
2+
 + 2OH
-
 Zn(OH)2↓
 
 74 
 
O alumínio constitui importante componente da acidez dos solos. A reação 
de hidrólise do Al3+ em solução contribui para o poder tampão dos solos. Além 
disso, o Al e o Mn, quando em altas concentrações no solo, podem ser tóxicos às 
plantas, constituindo uma das principais limitações agrícolas em solos ácidos. 
De acordo com os equilíbrios químicos, a atividade do Al3+ e das demais 
espécies de sua hidrólise depende basicamente do tipo de mineral da fase sólida 
e do pH do solo. Em solos ácidos, com predomínio de argilas de 1:1 (caulinita) e 
oxihidróxidos (gibbsita) na fração argila, a atividade do Al3+ em solução pode ser 
bastante elevada. 
Verifica-se que a valores de pH acima de 5,5 – 6,0 (até 7,0), a solubilidade 
do Al é mínima. Esta é umas das razões pelas quais a correção de solos ácidos é 
feita pra se atingir um pH, de pelo menos, 5,5. 
 
3.6.1 Saturação por alumínio e crescimento das plantas 
 
Dada a necessidade de se adaptarem as condições locais do solo com 
elevada acidez, as plantas desenvolveram mecanismos de tolerância ao Al. Como 
exemplo de diferenças entre plantas, podem-se mencionar a alfafa, que 
apresenta muito baixa tolerância ao al, e a samambaia ou o chá, que sobrevivem 
em solos com alto teor de Al. Essa variabilidade de reação e concentrações 
tóxicas de Al e, ou de Mn existe entre espécies de plantas e entre variedades 
dentro da mesma espécie. 
Os efeitos do Al em concentrações tóxicas manifestam-se tanto na parte 
aérea como no sistema radicular, por meio de sintomas anatômicos e 
morfológicos e da redução de crescimento. O sistema radicular é mais afetado 
que a parte aérea, ocorrendo prejuízo no alongamento das raízes do que no 
volume e na produção de matéria seca, reduzindo sua superfície. 
Consequentemente, as raízes ocupam menor volume de solo diminuindo, assim, 
a possibilidade de absorção de nutrientes e água. 
Os mecanismos de tolerância ao al são vários e não existe um único que 
explique por completo sua diferenciação entre espécies e variedades de plantas. 
A tolerância ao Al pode ocorrer em plantas eficientes em absorver e translocar P 
da parte aérea. Parte do P absorvido é utilizado para precipitar o Al nas raízes 
das plantas. 
A percentagem de saturação por Al é, também, um bom indicador da acidez 
do solo e seu efeito sobre as plantas. 
Em termos de efeitos negativos ao crescimento das plantas, o efeito primário 
da toxidez por Al faz-se sentir ao sistema radicular. Os principais sintomas que 
podem ser observados no sistema radicular são: 
 Raízes curtas ou grossas 
 Inibição do crescimento das raízes, que se tornam castanhas; 
 Raízes laterais engrossadas e pequena formação de pêlos 
radiculares; 
 75 
 Predisposição da planta injuriada a infecções por fungos; entretanto, 
também há casos em que o Al3+ controla algumas doenças fúngicas 
das raízes. 
 
 
 
 
 
3.6.2 Mecanismos de tolerância à Al 
 
 Não absorvem Al, pois apresentam capacidade de manter o Al fora do 
metabolismo da planta (mecanismo de exclusão), por processos de 
complexação do Al com ácidos orgânicos e por precipitação de Al (OH)3 
pela maior basificação da rizosfera; 
 Não translocam alumínio para a parte aérea, mantendo sua capacidade de 
absorver P e Ca, mesmo na condição de elevada absorção de Al; 
 Há espécies com elevada capacidade de manter adequada partição de C 
para formar novas raízes absorventes. 
 
3.7 Alterações de pH na rizosfera 
 
O pH na rizosfera pode ser diferente daquele do solo, chegando a ser acima 
de duas unidades diferente em relação ao observado para o solo. As plantas 
promovem a extrusão de H+ ou de HCO3
- e liberação de exsudatos radiculares, 
como ácidos orgânicos, aminoácidos, açúcares, fenóis, etc. 
Para a manutenção do equilíbrio eletroquímico, quando as plantas absorvem 
nutrientes com cargas positivas (cátions), liberam H+. Quando absorvem cargas 
negativas (ânions), liberam OH-. 
Em geral, para Solos com boa porosidade, a liberação de CO2 vis respiração 
radicular ou microbiana não provoca importantes alterações no pH da rizosfera. A 
difusão de CO2 pelos poros do solo dá-se de maneira rápida. Da mesma forma, 
grandes mudanças de pH da rizosfera induzidas por exsudatos de baixo peso 
molecular podem ser consideradas mais como exceção do que regra. 
Dentre as práticas de manejo cultural, a adubação nitrogenada talvez possa 
produzir as maiores alterações do pH da rizosfera. Com N absorvido, 
preferencialmente, como nitrato, a planta passa a absorver mais ânions que 
cátions, resultando em valores de pH mais altos na rizosfera. Assim, a absorção 
de N-NO3
- promove formação de HCO3
- e consequente aumento do pH. 
Alterações no pH da rizosfera podem resultar em efeitos benéficos ou 
maléficos no crescimento das plantas. Em solos alcalinos e neutros, o aumento 
no pH leva á menor disponibilidade de nutrientes, como o Fe, Mn, Cu e Zn. Em 
solos ácidos, o aumento do pH da rizosfera pode resultar em decréscimo da 
atividade do Al, sendo este fato considerado como um dos mecanismos de 
adaptação do vegetal a estas condições. 
Al 
m% = 
CTCef 
X 100 
 76 
 
4. Propriedades físicas 
A cor, textura e outras propriedades físicas do solo são utilizadas na 
classificação de perfis e em levantamentos sobre a aptidão do solo para projetos 
agrícolas e ambientais. O conhecimento básico sobre as propriedades físicas do 
solo servirá como base para a compreensão de muitos aspectos que serão 
abordados posteriormente. 
4.1 Funções do solo: 
O conceito de um solo fisicamente ideal é complexo e carece de melhor 
definição quantitativa. No entanto, já há indicação clara de uma série de valores 
quantitativos de indicadores da qualidade física de um solo, seja valores ideais, 
críticos ou restritivos ao crescimento de plantas ou na qualidade ambiental 
4.2 Funções do solo que são influenciadas por atributos físicos 
 
A definição de um solo fisicamente ideal é difícil devido ao tipo e natureza 
das variações físicas dos solos que ocorrem ao longo da profundidade do solo, na 
superfície da paisagem e ao longo do tempo. Um exemplo clássico refere-se ao 
suprimento de água e ar, que variam continuamente junto com os ciclos de 
umedecimento e secagem, que ocorrem com a alternância de chuva e estiagem. 
Um solo é considerado fisicamente ideal para o crescimento de plantas quando 
apresenta boa retenção de água, bom arejamento, bom suprimento de calor e 
pouca resistência ao crescimento radicular. Paralelamente, boa estabilidade dos 
agregados e boa infiltração de água no solo são condiçõesfísicas importantes 
para qualidade ambiental dos ecossistemas. O solo fisicamente ideal, também, 
projete as plantas de elementos tóxicos (adsorção, complexação, oxido redução, 
etc) e fornece nutrientes. 
 
4.3. Fases do solo 
Um solo mineral, próximo à superfície, com condições físicas ótimas para o 
crescimento vegetal, apresenta, aproximadamente, a seguinte composição 
volumétrica: 50% de espaço poroso, ocupados por partes iguais de ar e de água, 
45 - 48% de sólidos minerais e 2 até 5% de matéria orgânica. Têm-se, 
normalmente, então, 50 % constituídos pela fase sólida, 25% pela fase líquida e 
25% pela fase gasosa. 
 
 
 
 
25% 
Ar 
25% 
Água 
45-48% 
Mineral 
2-5%M.O 
 77 
4.4. Interface ar, minerais, água e vida 
 
4.4.1 Constituintes minerais 
 
A fase sólida é constituída de agregados que se apresentam, até certo 
ponto, individualizados. Os agregados são formados de partículas unitárias, 
cimentadas entre si por matéria orgânica, óxidos de Fe e Al, sílica etc. As 
partículas individuais são obtidas após a dispersão dos agregados. Limites de 
tamanho definem as partículas como pertencentes a diferentes frações: 
 Areia: 0,2 a 0,05 mm 
 Silte: 0,002 a 0,05 mm 
 Argila: < 0,002 mm 
 Colóides: < 0,001 mm 
Areia Silte Argila 
0,2 a 0,05 mm 
 
0,05 a 0,002 mm < 0,002 mm 
Visível a olho nu Visível ao microscópio Visível ao microscópio 
eletrônico 
Predomínio de minerais 
primários 
 
Predomínio de minerais 
primários e secundários 
Predomínio de minerais 
secundários 
Baixa atração entre 
partículas 
 
Média atração entre 
partículas 
Alta atração entre 
partículas 
Baixa atração por água Média atração por água Alta atração por água 
Baixa CTC 
 
Baixa CTC Alta CTC 
Quando molhado: solto, 
arenoso 
 
Quando molhado: liso Quando úmido: 
pegajoso, maleável 
Quando seco: muito 
solto, arenoso 
Quando seco: pó Quando seco: torrões 
duros 
 
- Minerais primários: não sofreram alteração desde que foram extraídos da rocha 
(ex.: quartzo, micas, feldspatos) presentes nas frações areia e silte 
 
- Minerais secundários: formados do intemperismo dos primários menos 
resistentes (ex.: argilas silicatadas, óxidos de Fe e Al) presentes na argila e no 
silte 
- Minerais interferem na estrutura que, por sua vez, influencia o movimento de 
água no solo 
 
 78 
b) Matéria orgânica 
- Une partículas influenciando a estrutura do solo 
 
c) Água do solo 
A água na forma líquida apresenta uma série de propriedades de 
fundamental importância em seu comportamento no solo. A polaridade, pontes de 
hidrogênio e tensão superficial da água fazem com que a água em sistemas 
porosos atinja estado de menor energia livre e seja retida contra a gravidade, 
especialmente por capilaridade e também por adsorção. 
c) Ar do solo 
 É variável 
 Possui maior umidade que o ar atmosférico 
 Possui mais CO2 que O2 
 Ocupa poros não preenchidos por água 
 
4.5 Arquitetura do solo e propriedades físicas 
a) Cor do solo 
 Pouco influencia o uso e manejo do solo 
 Indica natureza de outras propriedades 
 É avaliada pela carta de Munsell 
 Há três componentes da cor do solo: valor, croma, matiz 
 Causas da cor do solo: oxidação de Fe e Mn, umidade 
 
b) Textura do solo 
 Definida pela proporção entre areia, silte e argila 
 A classificação mais usada é a o Depto de Agricultura dos EUA 
o AREIA MUITO FINA: 0,05 – 0,10 mm 
o AREIA FINA: 0,10 – 0,25 mm 
o AREIA MÉDIA: 0,25 – 2,0 mm 
o AREIA GROSSA: 0,5 – 1,0 mm 
o AREIA MUITO GROSSA: 1,0 – 2,0 mm 
o SILTE: 0,05 – 0,002 mm 
o ARGILA: < 0,002 mm 
c) Influência da área superficial em outras propriedades 
> área superficial > retenção de água 
> área superficial > CTC 
> área superficial > agregação 
> área superficial > biomassa microbiana 
 
4.6 Textura e propriedades do solo 
 79 
- Mudança de classe textural só ocorre por processos pedológicos (erosão, 
deposição, iluviação e intemperismo) que alteram a textura dos horizontes 
- Práticas de manejo não alteram a textura, a não ser que favoreçam a erosão 
que elimine um dos horizontes do solo. 
 
4.6.1 Solo arenoso 
 Baixa capacidade de retenção de água 
 Boa aeração 
 Alta drenagem 
 Baixa matéria orgânica 
 Rápida decomposição da M.O. 
 Rápido aquecimento 
 Baixa compactabilidade 
 Susceptibilidade moderada à erosão eólica 
 Susceptibilidade baixa à erosão por água 
 Potencial de compressão e expansão baixo 
 Boas condições para preparo do solo após chuva 
 Alto potencial de lixiviação de elementos 
 Baixo potencial de estocar nutrientes às plantas 
 Baixa resistência à mudança de pH 
 
4.6.2 Franco 
Proporções próximas entre areia, argila e silte 
 
4.6.3 Determinação da classe textural 
a) Tato 
 Método crítico 
 Há necessidade de uniformizar a umidade da amostra 
 
a) Análise laboratorial que determina o tamanho das partículas 
 Método da pipeta ou método do densímetro 
 Baseados na sedimentação da areia e do silte 
 A velocidade de precipitação é proporcional ao tamanho das 
partículas 
 A equação que descreve o fenômeno fundamenta-se na Lei de 
Stokes 
 
 
 
 Onde: 
g= força gravitacional 
ƞ= viscosidade da água a 20 oC 
Ds= densidade de partículas 
V= 
h 
t 
= 
d
2
 g (Ds – Df) 
18ƞ 
 80 
Df= densidade do fluído 
 
 
 
b) Estrutura 
- Refere-se ao arranjo das partículas do solo em grupos chamados agregados 
ou peds 
- Solos com determinada quantidade de argila tendem a formar unidades 
estruturais chamadas agregados que podem ser macro ou micro 
- Para formar agregados é preciso ter floculação de argila e cimentação em 
uma complexa relação de reações químicas, físicas e bilógicas 
- Influencia: 
 Movimento da água 
 Transferência de calor 
 Aeração 
 Porosidade 
 
- É afetada por: 
 Mecanização 
 Cultivo 
 Drenagem 
 Calagem e adubação 
- É caracterizada por: 
 Tipo 
 Tamanho 
 Grau 
- Tipos de estrutura 
Esferoidal Blocos Laminar Prismática 
Estrutura 
granular 
Blocos 
irregulares 
Lâminas 
delgadas 
Colunar ou 
prismática 
Peds 
esferoidais ou 
grânulos 
Bordas 
arredondadas: 
subangular 
Horizonte 
superficial ou 
subsuperficial 
Prismas 
orientados 
Arranjamento 
Solto 
Bordas com 
pontas: 
angular 
Resultado de 
processos de 
formação do 
solo ou de 
compactação 
Subsolos com 
alta qtidade 
de Na 
Caracteriza 
horizonte 
superficial 
com muita 
M.O. 
Encontrado 
em horizonte 
B 
 
 81 
É a principal 
estrutura 
afetada pelo 
manejo 
Promove boa 
drenagem, 
aeração e 
enraizamento 
 
 
- Distribuição do tamanho de agregados 
- Importante para determinação a distribuição de tamanho de poros 
- Importante papel na erodibilidade superficial 
 
- Selamento superficial e formação de crosta 
- Agregados rompidos em condições de umidade formam camada de argila 
dispesa e espessa que inibe a infiltração de água e a troca gasosa entre solo 
e atmosfera, caracterizando o selamento superficial 
- Quando seca, o selamento forma uma crosta dura que impede a emergência 
de plântulas 
- A crosta se torna mais dura com o grau de dispersão coloidal 
- A evaporação da água torna a superfície do solo com maior concentração de 
sais (Na), levando a uma alta concentração de Na na CTC 
- Com a infiltração da água da chuva ou da irrigação, os sais são lixiviados, 
mas a concentração de Na na CTCcontinua alta, levando à dispersão que 
contribui com a formação de crostas. 
 
4.7 Densidade do solo 
4.7.1 Densidade de partículas (real) 
- massa de sólidos/volume de sólidos 
- Mg/m3 ou g/cm3 
- Determinada pela composição química e estrutura cristalina do mineral 
- Não afetada pela porosidade 
- Não relacionada com textura estrutura 
- Varia de 2,60 a 2,75 Mg/m3 
- Para cálculos gerais: 2,65 Mg/m3 
- Aumenta para 3 Mg/m3 quando há grande qtidade de magnetita no solo 
- Diminui para 0,9 a 1,3 Mg/m3 qdo há grande qtidade de M.O. 
 
4.7.2 Densidade total (global ou aparente) 
- Massa de solo + poros/volume solo+poros 
- Se aumenta o volume de poros, diminui a densidade total 
- É afetada pela textura 
 Solos argilosos tem poros entre e dentro dos grânulos e maior 
porosidade total que solos arenosos e com menor densidade total 
 Solos arenosos com predomínio de 1 classe de tamanho de areia tem 
menor densidade em relação aos solos que tem diferentes tamanhos 
de areia pq patículas pequenas preenchem os espaços porosos 
- Influencia a força do solo e o crescimento de raízes 
 82 
 Raízes penetram o solo, empurrando para os poros 
 Se os poros são muito pequenos para acomodar a extremidade da raiz, 
ela empurra partículas de solo para o lado e aumenta o poro 
 Força do solo: é uma propriedade que causa resistência à deformação 
 Compactação aumenta a densidade e aumenta a força do solo 
- Umidade influencia a densidade 
- Textura do solo influencia a densidade 
 Alta qtidade de argla e baixa qtidade de poros aumenta a resistência à 
penetração 
 Na mesma umidade, raízes penetram mais fácil solo arenoso que solo 
argiloso 
 
4.8 Porosidade 
O espaço do solo não ocupado por sólidos e ocupado pela água e ar compõem o 
espaço poroso, definido como sendo a proporção entre o volume de poros e o 
volume total de um solo. É inversamente proporcional à Ds e de grande 
importância direta para o crescimento de raízes e movimento de ar, água e 
solutos no solo. A textura e a estrutura dos solos explicam em grande parte o tipo, 
tamanho, quantidade e continuidade dos poros. 
Os tipos de poros estão associados à sua forma, que por sua vez tem relação 
direta com sua origem. O tipo de poros mais característico são os de origem 
biológica, que são arredondados e formados por morte e decomposição de raízes 
ou como resultado da atividade de animais ou insetos do solo, como minhocas, 
térmitas, etc... Outro tipo de poros apresenta forma irregular e de fenda formados 
por vários processos, tipo umedecimento e secagem, pressão, etc... Poros 
arredondados tendem a ser mais contínuos e de direção predominante normal a 
superfície, ao contrário das fendas no solo. 
4.9 Água no solo 
- Movimentação é muito influenciada pela capilaridade que é causada pela 
adesão e tensão 
- Adesão: atração da água pelos sólidos 
- Tensão: atração entre as moléculas de água (coesão) 
 
 
 
 
 
 
4.9.1 Mecanismo de capilaridade 
 Fino capilar de vidro dentro de 
recipiente com água 
Patm 
Patm 
 83 
 Capilar tem parede hidrofílica, havendo adesão entre água e parede do 
capilar 
 Adesão faz com que a água tenda a subir pelo capilar 
 Forças de coesão fazem com que as moléculas de água permaneçam 
juntas, formando o menisco 
 Pressão atmosférica sobre a água fora do tubo é maior que a pressão que 
ocorre no menisco, fazendo com que a água suba até o equilíbrio dessas 
pressões 
 
 
 
 
 
 
 Altura de ascensão de 
água em solos é menor 
que a esperada pq os 
poros são tortuosos 
 
Solos arenosos 
 
Solos argilosos 
Poros grandes e médios Ascensão inicial da água é lenta 
Permitem rápida ascensão da água 
Limita a altura 
 
4.9.2 Energia da água no solo 
- Energia potencial e cinética influenciam o movimento da água no solo 
- Como o movimento é lento, Ecinética é menos relevante 
- Água movimenta-se de local de > potencial para < potencial 
- As forças que afetam o estado de energia são: 
 Adesão: potencial mátrico 
 Atração: potencial osmótico 
 Gravidade] 
- Diferença de potencial (Ψ) 
Ψt = Ψm + Ψo + Ψg 
 
4.9.3 Métodos para medir o conteúdo de água no solo 
a) Gravimétrico 
 Método direto 
 Calibra demais métodos 
 Destrutivo 
h= 
2 T cosɑ 
r d g 
Onde: 
T= tensão superficial 
ɑ = ângulo de contato 
d = densidade da água 
r = raio 
g = gravidade 
 84 
 
d) Sonda de nêutrons 
a. Equipamento com fonte de nêutrons e detector 
b. Detector é introduzido no solo liberando neutrons 
c. Nêutrons colidem com o H da água e se espalham, perdendo 
velocidade 
d. O número de nêutrons lentos é contado no detector 
e. Adequado para solos minerais 
f. Inadequado para solos orgânicos 
 
e) Método eletromagnético 
 TDR (Time Domain Reflectrometry) 
 Sinais eletromagnéticos 
 O tempo que os sinais demoram para percorrer é relacionado com a 
cte. dielétrica do solo que é proporcional à qtidade de água no solo. 
 
f) Método da capacitância 
 Capacitância elétrica de 2 eletrodos introduzidos no solo 
 Depende da cte. Dielétrica que é determinada pelo nível de água no solo 
 Baixo custo 
 Material radioativo 
 
e) Métodos para medir o potencial de água 
Tensiômetro 
- A força com que a água é retida no solo é uma expressão do potencial de água 
- Tensiômetros de campo medem a atração ou a tensão 
- Trata-se de tubo preenchido com água, fechado e com cápsula porosa na ponta 
que fica em contato com o solo 
 Qdo em solo seco, a água vai do > Ψ (tubo) para o < Ψ (solo) até que o 
potencial do tensiômetro se iguale ao potencial do solo 
 Forma-se vácuo no interior do tubo que é medido por contador 
 Se o solo fica úmido, água entra no tensiômetro, reduzindo o vácuo 
- Útil no potencial entre 0 e -85 kPa 
- Se o potencial é mais negativo, o tensiômetro falha pq entra ar na cápsula 
porosa 
 
Outros 
Psicrômetro: Mede potencial osmótico e potencial mátrico 
Aparato de pressão de membrana: usado para potencial < que 10.000 KPa 
Blocos de resistência elétrica: acurácia limitada 
 
4.9.4 Fluxo de água no solo 
a) Saturado 
 85 
- Poros cheios 
- Equação de Darcy: Qtidade de água/tempo 
- Solo arenoso: > movimento vertical 
- Solo argiloso: > movimento horizontal 
 
b) Insaturado 
- Macroporos preenchidos com ar 
- Alta umidade: condutividade hidráulica é maior em solo arenoso pq tem mais 
macroporos 
 
c) Infiltração 
- Processo no qual a água entra nos espaços porosos e torna-se água do solo 
- Taxa de infiltração é denominada infiltrabilidade (i) 
 
 
 
 
 
- Medida com cilindros de 
infiltração (gde e pequeno) 
 
d) Percolação 
- Ocorre após a infiltração que é um processo mais superficial 
- É a descida de água no perfil 
- Taxa de percolação relaciona-se com a condutividade hidráulica 
 
e) Movimento de água em solos estratificados 
- percolação diminui quando a água encontra camada com poros menores e baixa 
condutividade hidráulica 
- camada de material grosseiro também diminui percolação pq macroporos tem < 
atração pela água que microporos 
 
f) Movimento de vapor d’água no solo 
- Interno: dentro do solo 
- Externo: na superfície 
- Vapor d’água é perdido por evaporação 
- Vai do ponto de > pressão de vapor (UR = 100%) para < pressão de vapor 
- Vapor move-se de local com menor concentração de sal para local com maior 
concentração de sal, porque o sal diminui a pressão de vapor 
- Vapor vai do local com maior temperatura para local com menor temperatura 
 
4.9.5 Definições da água no solo parao manejo 
a) Capacidade máxima de retenção de água 
- Ocorre qdo todos os poros do solo estão preenchidos com água 
i = 
Q 
A t 
Onde: 
Q= m
3
 de água infiltrada 
A= área da superfície do solo (cm
3
) 
t= tempo (segundos) 
 86 
- V água = P total 
 
b) Capacidade de campo 
- Após saturação máxima, excesso de água drena dos macroporos rapidamente 
- A água que sobra influenciada pelo potencial matricial caracteriza a CC 
 
c) Ponto de murcha permanente 
- Solo em secamento e plantas em crescimento 
- A absorção de água aumenta o secamento 
- Plantas absorvem água proveniente de poros maiores e depois não conseguem 
mais absorver água 
- Plantas murcham de dia para economizar água e voltam a absorver água e 
ficam túrgidas à noite 
- A umidade do solo nesse ponto caracteriza o PMP 
 
d) Água disponível para as plantas 
 
 
 
 
 
4.9.6 Fatores que afetam a 
disponibilidade de água para as plantas 
a) Relação entre conteúdo de água e potencial 
> argila > água disponível > PMP 
> M.O. > água retida 
 
b) Compactação e potencial matricial, oxigênio e crescimento radicular 
Aumenta compactação, diminui água no solo pois: 
 Diminui macroporos 
 Aumenta microporos 
 Diminui espaço poroso total 
 Diminui o número e o tamanho de macroporos 
 Aumenta microporos finos e aumenta o PMP 
 
4.10 Ar do solo e temperatura 
- Disponibilidade de oxigênio é regulada por: 
 Macroporosidade 
 Conteúdo de água 
 Consumo de oxigênio por plantas e organismos 
 
- Movimento de gases ocorre por 
 Fluxo de massa (menos importante) 
CC 
H2O disponível PMP 
- 10 a -30 KPa 
- 1500 KPa 
 87 
 Difusão (mais importante) 
 
- Meios para caracterizar a aeração do solo 
 Conteúdo de água e outros gases 
 Preenchimento de ar na porosidade 
 Potencial redox 
 
- Composição do ar do solo 
 78% N2 
 21% O2 
 0,035% CO2 
 Outros gases: vapor d’água, metano, ácido sulfídrico, etileno 
 
- Potencial redox 
 Estado de redução ou oxidação de elementos 
 Solo aerado: formas oxidadas (Fe3+, Mn4+, NO3
-) 
 Solo encharcado: formas reduzidas (Fe2+, Mn2+, NH4
+) 
 Potencial redox (Eh) mede a tendência de um elemento doar ou receber 
elétrons 
 Eh de referência é o do H (Eh=0) 
 Eh do solo depende da presença de agentes oxidantes e pH 
 Quanto menos oxigênio, menor o Eh do solo 
 
- Fatores que afetam a aeração do solo 
 Falta de drenagem do excesso de água (baixa quantidade de macroporos) 
 Taxa de respiração de microrganismos (alta respiração reduz oxigênio) 
 Heterogeneidade do solo 
 Diferenças sazonais 
 Vegetação 
 
- Efeitos ecológicos da aeração do solo 
Degrada resíduos (decomposição da M.O.) 
Oxida elementos podendo causar toxidez 
Produção de metano 
 
4.11 Temperatura do solo 
- Processos afetados pela temperatura do solo 
 Germinação de sementes 
 Funções radiculares (absorção) 
 Processos microbianos 
 Oxidação de NH4 para NO3 
 Agregação do solo (congelamento, derretimento) 
 88 
 
- Aumento da temperatura pelo uso do fogo 
 Aumento breve e superficial 
 Pode quebrar gibbisita e caulinita 
 Quebra e muda o movimento de compostos orgânicos que vão para as 
camadas mais profundas pelos poros e, ao atingir camadas mais frias, 
condensam e precipitam 
 Compostos podem formar camada hidrofóbica, quando chove a água não 
infiltra e favorece a erosão 
 Afeta a germinação de sementes 
 
5 Bibliografia 
NOVAIS, R. F.; ALVAREZ, V. H.; BARROS, N. F.; FONTES, R. L. F.; 
CANTARUTTI, R. B.; NEVES, J. C. L. Fertilidade do solo. Viçosa: Sociedade 
Brasileira de Ciência do Solo, 2007. 1017 p. 
BRADY, N. C. Natureza e propriedades dos solos. 7 ed. Rio de Janeiro: Freitas 
Bastos, 1989. 898 p. 
RAIJ, B. van Fertilidade do solo e adubação. São Paulo/Piracicaba: Agronômica 
Ceres/Associação Brasileira para Pesquisa da Potassa e do Fosfato, 1991. 
343 p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 89 
4. MATÉRIA ORGÂNICA DO SOLO 
 
4.1. Introdução 
 
A matéria orgânica do solo (MOS) resulta do acúmulo de resíduos de plantas 
e animais. Ela apresenta estado ativo de decomposição que é viabilizada pelos 
microrganismos, fazendo com que a MOS apresente caráter transitório e dinâmico. 
A MOS apresenta em sua constituição elementos químicos como carbono, 
hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo, enxofre (CHONPS), além de outros 
elementos considerados nutrientes para as plantas. O carbono e o nitrogênio são os 
elementos de maior destaque devido às ligações de compostos de carbono e 
síntese proteica. A estrutura da MO morta do solo é composta de C (52 a 58 %) e O 
(34 a 35 %), seguido de N e H (3,3 a 7 %). Os elementos S e P ocorrem geralmente 
em proporções inferiores a 2 %. A maior parte do C é introduzida ao solo por meio 
da fotossíntese (Figura 1) que é a fonte primária de matéria orgânica representada 
pela seguinte equação: 6CO2 + 6 H2 energia→6C(H2O) + 6O2. 
 
 
Figura 1. Representação da entrada do CO2 atmosférico na fitomassa que fará parte 
da MOS. 
 
Estima-se que a produção primária total global de C pelo processo de 
fotossíntese seja de, aproximadamente, 120 Gt ano-1de C (SILVA E MENDONÇA, 
2007). Práticas de manejo que adicionam resíduos vegetais ao solo também 
proporcionam aumento nas entradas de C ou redução nas perdas (sistema de 
preparo reduzido e remoção reduzida de resíduos), ajudando a manter ou elevar os 
níveis de COS (SMITH, 2008). 
Os compostos orgânicos podem retornar diretamente ao solo na forma de 
resíduos vegetais (restos de culturas, serrapilheira, etc) ou por animais mortos e/ou 
seus excrementos. Esse material depositado no solo sofre decomposição a partir da 
ação de microrganismos, contribuindo com a disponibilidade de nutrientes. 
 90 
 
 
A MOS é representada pelo carbono, mas o solo não apresenta somente 
carbono orgânico. O carbono total existente no solo é constituído pela soma entre C 
orgânico e C inorgânico, sendo que o C orgânico está associado com a matéria 
orgânica e, em grande parte, é proveniente de restos vegetais. 
Como o tecido vegetal apresenta aproximadamente 58% de carbono (massa 
seca), para fins práticos a porcentagem de MOS é calculada da seguinte forma: 
%MOS = %Corgânico x 1,72 (fator de van Bemmelen). Já o carbono inorgânico do 
solo é aquele associado à fração mineral, sendo exemplificado pelos carbonatos de 
cálcio (CaCO3) e de magnésio (MgCO3). 
Apesar de a MOS ocupar no máximo 5% da fase sólida da maior parte dos 
solos (Figura 2A), ela é de grande importância, tanto do ponto de vista ambiental 
como para garantir a qualidade dos solos de áreas agricultáveis. No aspecto 
ambiental, vale ressaltar que as formas de C orgânico do solo apresentam interação 
com a biosfera. Isso acontece porque o carbono da atmosfera passa para os 
vegetais por meio da fotossíntese e, mediante deposição da fitomassa no solo, esse 
carbono passa a constituir a MOS. 
 
 
Figura 2. Porcentagem de matéria orgânica na fase sólida do solo (A) e quantidade 
de carbono na atmosfera, vegetação e no solo (B). 
 
Além da importância de caráter ambiental (sequestro de C), a MOS também é 
fundamental para a qualidade dos solos agricultáveis, contribuindo com 
propriedades físicas, químicas e biológicas. Caso a MOS tenha sido perdida em 
virtude de práticas de manejo inadequadas, sua reposição é de grande importância. 
Porém, essa reposição pode ser tecnicamente difícil, além de representar maior 
custo para o agricultor. 
Paracompreender o custo que a reposição da MOS pode representar para o 
agricultor, considere o exemplo do manejo afetando a MOS e a sustentabilidade no 
semi-árido cearense (Dados provenientes da área visitada na viagem de campo - 
Centro de Convivência com o Semiárido – Embrapa Caprinos): 
 91 
 
Fonte: Maia et al., 2006. 
4.2. Compartimentos da Matéria Orgânica 
 
Num sentido bem amplo, a MOS pode ser entendida como a fração que 
compreende todos os organismos vivos e seus restos que se encontram no solo, 
nos mais variados graus de decomposição. Em algumas situações, até mesmo os 
resíduos vegetais na superfície do solo são tidos como componentes da MOS. No 
entanto, frequentemente e, em especial no manejo da fertilidade do solo, a MOS é 
considerada como sendo a fração não-vivente, representada especialmente pelas 
frações orgânicas estabilizadas na forma de substâncias húmicas. 
 
4.2.1. Matéria Orgânica Viva 
 
Corresponde ao material orgânico associado às células de organismos vivos 
que se encontra temporariamente imobilizado (dreno), mas que representa potencial 
de mineralização (fonte). A matéria orgânica viva raramente ultrapassa 4% do COT 
do solo e pode ser subdividida em três compartimentos: raízes (5 a 10%), 
macrorganismos ou fauna do solo (15 a 30%) e microrganismos (60 a 80%). Apesar 
de representar baixo percentual da matéria orgânica, essa fração é muito importante 
no processo de transformação dos componentes orgânicos do solo. 
As raízes atuam diretamente como fonte de C orgânico, uma vez que 
diferentes espécies vegetais imobilizam temporariamente C em sua biomassa 
radicular, retornando-o ao solo por ocasião de sua senescência. Dependendo da 
espécie, quantidades grandes de C podem ser adicionadas em profundidade. Em 
algumas espécies, as raízes finas (< 2mm de diâmetro) apresentam teores elevados 
de compostos orgânicos mais resistentes à degradação. Indiretamente, as raízes 
contribuem com a exsudação de uma série de compostos orgânicos, os quais 
imediatamente vão constituir, em parte, o compartimento da MOS morta 
(substâncias não-húmicas). 
 92 
E, geral, os organismos de menor tamanho encontram-se em maior 
quantidade no solo. Os microrganismos são representados, principalmente, pelas 
bactérias, fungos, actinomicetos e algas, sendo os vírus componentes 
submicroscópicos e os protozoários os componentes da microfauna do solo. A 
mesofauna pode ser representada pelas colêmbolas e ácaros; e a macrofauna pelos 
anelídeos, térmitas, isópteros e coleópteros. 
As funções de destaque da fauna do solo na transformação dos componentes 
do material orgânico; mistura dos componentes orgânicos e inorgânicos; formação e 
manutenção dos poros do solo; regulação e dispersão da microflora no solo. 
Dependendo da forma de alimentação – fitófagos, saprófagos e carnívoros-, os 
organismos têm funções diferenciadas. A ação de misturar e deslocar o material 
orgânico e mineral do solo da superfície e do subsolo pela fauna é fundamental na 
dispersão de nutrientes ao longo do perfil de solo. 
A biomassa microbiana (BM) é a principal constituinte da MOS viva. Cerca de 
1-3% do COT em solos tropicais está associado a BM. Atua como agente 
decompositor e como reserva lábil de C e nutrientes e no fluxo de energia no solo. A 
contribuição da microbiota do solo na ciclagem de nutrientes, imobilizados em sua 
biomassa, pode ser predita por meio de suas proporções em relação às formas 
totais desses nutrientes. O C associado à biomassa microbiana (C-BM) representa 
um dos compartimentos da MOS com menor tempo de ciclagem. A BM responde 
rapidamente às práticas que levam ao decréscimo ou acréscimo da MOS. 
 
4.2.2. Matéria Orgânica Morta 
 
A matéria orgânica não vivente contribui, em média, com 98% do C em 
formas orgânicas (C orgânico) total (COT) do solo, podendo ser subdividida em 
matéria leve ou macrorgânica (3- 20%) e húmus. O húmus é um compartimento que 
consiste de substâncias húmicas (70%) e não-húmicas (30%). Outro compartimento 
que tem recebido atenção mais recentemente é aquele composto por carvão, 
originado da queima (natural ou antrópica) de resíduos vegetais. 
 
4.2.2.1. Matéria Orgânica Leve 
 
A matéria macrorgânica, ou matéria orgânica leve (MOL) ou particulada, 
dependendo do método de fracionamento, é a fração da matéria orgânica não-
vivente que se encontra em menor proporção, contribuindo com cerca de 3-20% do 
COT, composta principalmente por restos vegetais em vários estádios de alteração. 
Seu conteúdo está principalmente ligado ao aporte orgânico, pelo aumento e 
manutenção dos resíduos orgânicos. Há tendência de aumento dos teores dessa 
fração, seja em sistemas que preconizem a diminuição do revolvimento do solo, 
como em SPD, seja em espécies em rotação, em condições climáticas menos 
favoráveis à decomposição e em sistemas mais produtivos e, ainda, pela adição ao 
solo de resíduos que não são produzidos in situ, como compostos orgânicos. Logo, 
 93 
o tipo de solo, a vegetação, o clima e as práticas de manejo adotadas irão afetar a 
magnitude desse compartimento. 
A MOL é caracterizada, em razão da sua composição química, pela sua alta 
disponibilidade aos microrganismos do solo e pela sensibilidade às alterações do 
meio. As frações da MOS podem ser determinadas por meio de fracionamento físico 
por diferença de densidade. O uso desse fracionamento permite separar frações 
orgânicas cuja composição e localização física no solo são diferenciadas. Com o uso 
do método densimétrico, são separados os restos vegetais parcialmente 
decompostos e de baixa densidade dos compostos orgânicos mais resistentes à 
decomposição, sendo utilizadas, para isso, soluções de sais orgânicos e inorgânicos 
com densidades compreendidas na faixa de 1,6 a 2,0 kg L-3. 
 
4.2.2.2. Matéria Orgânica Pesada 
 
O húmus é o compartimento que inclui substâncias húmicas e não-húmicas. 
Esses dois grupos de compostos encontram-se fortemente associados no ambiente 
edáfico e não são totalmente separados pelos processos tradicionais de 
fracionamento, sendo difícil definir seus limites. 
 
4.2.2.2.1. Substâncias Não-húmicas 
 
As substâncias não-húmicas podem chegar a contribuir com 10 a 15 % do 
COT dos solos minerais. São grupos de compostos orgânicos bem definidos, como 
carboidratos, lignina, lipídeos, ácidos orgânicos, polifenóis, ácidos nucléicos, 
pigmentos e proteínas. Esses compostos são provenientes da ação e transformação 
da matéria orgânica viva sobre o material orgânico que é aportado ao solo, ou, 
ainda, adicionado via exsudação das raízes. Os mono e dissacarídeos, dificilmente 
encontrados no solo, são rapidamente oxidados e transformados em outros 
compostos (principalmente substâncias húmicas) pela microbiota do solo. As 
proteínas, os polifenóis solúveis e os núcleos polifenólicos da lignina são grandes 
fontes de N e C na forma aromática, respectivamente, para a síntese de substâncias 
húmicas. A lignina, por exemplo, é considerada uma das principais precursoras das 
substâncias húmicas nas rotas de humificação e sua degradação é realizada, em 
sua maior parte, por um grupo específico de organismos: os fungos de podridão 
branca. 
 
4.2.2.2.2. Substâncias Húmicas 
 
As substância húmicas contribuem com cerca de 85 a 90 % do COT dos solos 
minerais. São constituídas de macromoléculas humidificadas amorfas, variando do 
amarelo a castanho. Esse compartimento é o principal componente da MOS, 
constituindo a grande reserva orgânica do solo. Essas frações são formadas por 
reações secundárias de síntese e têm propriedades distintas dos biopolímeros de 
organismos vivos, incluindo a lignina das plantas superiores(Figura 3). 
 94 
 
Figura 3. Esquema ilustrativo das substâncias húmicas de acordo com 
Stevenson, (1994). 
 
Atualmente, não existe um método de extração ideal para as substâncias 
húmicas. O método ideal deveria: possibilitar o isolamento do material orgânico na 
forma não alterada; permitir a extração dos componentes orgânicos sem 
contaminação com outras substâncias inorgânicas, tais como argilas e cátions; 
favorecer a extração completa, garantindo, assim, a representatividade do material 
extraído em relação a todas as demais frações de diferentes tamanhos, e, 
finalmente, ser universalmente aplicável a todos os solos. 
Percebe-se, assim, que não existe um esquema ideal de extração, purificação 
e fracionamento das substâncias húmicas. A escolha de um ou outro método deve, 
preferencialmente, estar calcada nos objetivos de estudo. Deve-se ressaltar em 
razão da complexidade da gama de estruturas apresentadas pelas substâncias 
húmicas, que o seu fracionamento é puramente operacional e baseia-se na sua 
solubilidade em diferentes soluções (Figura 4). 
 
 
Figura 4. Esquema operacional de fracionamento químico com base na solubilidade 
diferencial das frações húmicas em ambiente alcalino ou ácido. Fonte: Silva e 
Mendonça (2007). 
 95 
Dentre os vários extratores empregados na extração e fracionamento das 
substâncias húmicas, o mais comum tem sido empregado de solução diluída de 
NaOH, embora normalmente tenha menor poder de extração, é preferida pela menor 
probabilidade de alterar a composição/estrutura das substâncias húmicas (Figura 4). 
Assim, as substâncias húmicas podem ser operacionalmente subdivididas 
em: frações ácidos fúlvicos (FAF) (solúvel em ácido e base); frações ácidos húmicos 
(FAH) (solúvel apenas em base) e fração humina (FH) (não é solúvel em meio ácido 
e básico). 
Os ácidos fúlvicos são menores que os ácidos húmicos e por isso apresentam 
maior mobilidade. Os ácidos fúlvicos também apresentam maior relação O/C que os 
ácidos húmicos, o que quer dizer que são mais oxidados que ácidos húmicos. Além 
disso, os ácidos fúlvicos apresentam maior CTC, sendo a fração mais importante 
para que a MO melhore a fertilidade do solo de regiões tropicais. 
 
4.3. Estabilidade dos Compartimentos da Matéria Orgânica do Solo 
 
A dinâmica e o tamanho dos compartimentos da MOS são influenciados por: 
clima (umidade e T º C); composição vegetal (ligninas, polifenóis, relação C/N/P/S) 
características do solo (textura, mineralogia, fertilidade, topografia, biota) e manejo. 
Quanto aos compartimentos não protegidos (parte viva e lábil), sua 
estabilidade é influenciada pela composição dos resíduos. Resíduos com diferente 
composição apresentarão taxas de ciclagem diferenciada: numa fase inicial, os 
compostos mais lábeis, solúveis em água (aminoácidos livres, ácidos orgânicos, 
açucares), são facilmente decompostos pela maioria dos microrganismos (Wolf e 
Wagner, 2005). Já a celulose e a hemicelulose, que são de maior complexidade 
estrutural, são insolúveis e precisam ser convertidos em unidades de tamanho 
menor por meio de sistemas enzimáticos extracelulares especializados para serem 
utilizados pela microbiota. Já os compartimentos protegidos (substâncias húmicas) 
apresentam mecanismos de estabilização (Figura 5). Tais mecanismos podem ser 
de ordem física, química (ou coloidal) e/ou bioquímica. 
 
 96 
Figura 5. Esquema de compartimentos da matéria orgânica (Adaptado de Duxbury et 
al., 1989). 
 
4.3.1. Mecanismos Físicos 
 
As partículas primárias do solo são arranjadas em agregados de modo que a 
MOS fica no interior dos agregados. Os agregados atuam promovendo proteção 
física da MOS, reduzindo o acesso aos microrganismos e a difusão de O2. 
Esse mecanismo de proteção pela agregação do solo permite a proteção não-
seletiva de compostos orgânicos, acarretando estabilização de formas mais lábeis 
de C orgânico. O cultivo do solo tem sido um fator limitante à atuação da proteção 
física exercida pelos agregados, especialmente aquela relacionada com os 
microagregados. 
Do mesmo modo, os cátions são importantes na estabilização da MOS, pois 
eles servem de ponte entre os compostos orgânicos e as argilas. Sob condições de 
solos tropicais ácidos, o cátion que domina o complexo de troca é o Al3+. No entanto, 
na maioria dos solos cultivados, as práticas de manejo da fertilidade, especialmente 
a calagem, fazem com que o Ca2+ seja o cátion predominante no complexo sortivo. 
 
4.3.2. Mecanismos Químicos 
 
Estabilidade é dada pela associação da MOS com as frações argila e silte, 
formando complexos argilo-orgânicos. Vários são os mecanismos de interação da 
MOS com as argilas. Stevenson (1994) destaca os seguintes mecanismos de 
ligação: 
 
4.3.2.1. Ligação eletrostática 
 
A atração se dá entre cargas opostas; pode ocorrer entre a superfície de 
argilas silicatadas carregadas negativamente e grupamentos que apresentam carga 
líquida positiva, como os grupamentos amina. 
 
4.3.2.2. Força de van der Waals 
 
Força resultante de flutuação da densidade de carga elétrica dos átomos. É 
considerada importante na adsorção de moléculas polares neutras e não-polares. 
 
4.3.2.3. Ponte de hidrogênio e outros cátions 
 
Assim como os outros cátions, o H+ atua como ponte, ligando o grupamento 
orgânico à superfície da argila, ambos negativamente carregados. Esse processo é 
o muito importante nos solos ácidos onde se verifica grande protonação de 
grupamentos reativos, tanto nas argilas como na MOS. A ponte de H2O é de grande 
 97 
importância nos solos, se se considerar que ambos os coloides, orgânicos e 
inorgânicos, encontram-se hidratados pela solução do solo na maior parte do tempo. 
 
4.3.2.4. Coordenação 
 
Ocorre uma troca de ligantes. Ânions orgânicos ligados a oxihidróxidos 
podem ser trocados por outros ânions, mas grande parte é ligada de forma 
específica por meio de troca de ligantes. 
 
4.3.3. Mecanismos Bioquímicos 
 
Estabilidade é atribuída à complexidade química dos compostos orgânicos. 
Essa complexidade pode ser inerente ao próprio resíduo vegetal adicionado ao solo 
(como por exemplo, alto teor de compostos fenólicos, lignina, taninos, etc.) ou aos 
processos de condensação e polimerização que ocorrem durante a decomposição 
dos resíduos vegetais (humificação), tornando-o mais resistentes à decomposição. 
 
4.4. Propriedades do Solo Influenciadas pela Matéria Orgânica 
 
Apesar de sua pequena proporção em relação à massa total de solos 
minerais tropicais, a MOS desempenha grande influência sobre várias propriedades 
físicas, químicas e biológicas do solo e exerce várias funções nos ecossistemas 
terrestres. No entanto, é bastante difícil separar qual característica do solo é mais 
influenciada pela MOS, visto que há grande interação entre elas. Dessa forma, 
muitas das variações das propriedades de determinado solo são mais influenciadas, 
não somente pelo efeito direto da quantidade e qualidade da MOS, mas também 
pelo produto das interações entre os diversos componentes do sistema. 
 
4.4.1. Propriedades Físicas 
 
4.4.1.1. Agregação 
 
O fenômeno de agregação é resultante da reorganização, floculação e ação 
das partículas cimentadas sobre as partículas primárias do solo. Os agregados 
protegem fisicamente a MOS por formar uma barreira física aos microrganismos e 
suas enzimas aos substratos, por controlar interações entre cadeias alimentares e 
por influenciar o “turnover” microbiano. 
Com base no esquema proposto por Tisdall & Oades (1982), pressupõe-se 
que os agregados maiores sejam formados pela união dos agregados da classe 
inferior, seguindouma ordem hierárquica. Conforme seu tamanho, cada classe será 
unida por diferentes agentes cimentantes, de modo que a MOS influencia direta e 
indiretamente as diferentes fases de formação de agregados. Os agentes 
cimentantes são classificados em três grupos: transientes – principalmente 
polissacarídeos; temporários – raízes e hifas fúngicas, e; persistentes – compostos 
 98 
aromáticos recalcitrantes associados com cátions polivalentes e polímeros 
fortemente adsorvidos. 
Nesse modelo, a matéria orgânica particulada (MOP), hifas fungos e raízes de 
plantas podem formar um emaranhado de microagragados. A morte das raízes e as 
hifas crescendo dentro e através dos macroagregados produzem agentes ligantes 
bioquímicos capazes de estabilizar os macroagregados do solo. Entretanto, essas 
frações estão sujeitas à decomposição microbiana; assim, a agregação é um 
processso dinâmico no solo, uma vez que a atividade microbiana pode atuar na 
produção dos agentes ligantes às partículas, mas também desestabilizar por meio 
da decomposição dos mesmos. O aporte continuado de material vegetal é essencial 
para que esse balanço seja positivo. Por isso, sistemas que visam a manutenção e 
aumento da MOS geralmente estão ligados a uma melhoria da agregação do solo. 
A MOS é um agente cimentante que contribui com a formação dos 
agregados. Assim, existe relação entre a dinâmica da MO e a agregação do solo. 
 
4.4.1.2. Retenção de água 
 
A MOS pode reter até 20 vezes sua massa em água (Stevenson, 1994) e os 
efeitos da MO na retenção de água é mais evidente em solos arenosos. Porém, 
parte da água fica retida na estrutura interna da MOS, ou seja, indisponível às 
plantas. Por essa razão, a água retida na estrutura ativa e na matéria macrorgânica 
é a mais importante para o equilíbrio biológico em regiões secas. 
Outro aspecto importante relacionado com a retenção de água pela MOS é 
que as substâncias húmicas podem apresentar caráter hidrofóbico ou hidrofílico, 
dependendo de sua constituição. Em regiões de clima quente (semiárido) onde se 
pratica irrigação e onde há baixo aporte de MO, há favorecimento de decomposição 
da matéria orgânica mais ativa. Isso faz com que compostos orgânicos hidrofóbicos 
predominem no solo, afetando negativamente a capacidade de retenção de água. 
 
4.4.2. Propriedades Químicas 
 
4.4.2.1. Poder tampão 
 
A MOS tem grande diversidade química devido sua relação com diversos 
grupos funcionais, fazendo com que tenha a ação tamponante em ampla faixa de pH 
do solo. A redução ou aumento do pH em função dos processos de transformação 
da MOS será decorrente da liberação ou consumo de H+. 
O aumento do pH pode ocorrer quando: a atividade do H+ é diminuída pela 
liberação de cátions; formas orgânicas de N são liberadas pela mineralização e 
quando há desnitrificação ou descarboxilação dos ácidos orgânicos. A redução do 
pH pode ocorrer quando há liberação de CO2 na decomposição/mineralização da 
MO. O CO2 liberado durante o processo forma ácido carbônico e resulta na liberação 
de H+. 
 
 99 
4.4.2.2. Capacidade de Troca de Cátions 
 
Há muito tempo se reconhece a importância da MOS para a CTC dos solos, 
contribuindo com 20-90 % da CTC das camadas superficiais de solos minerais e, 
praticamente, toda a CTC de solos orgânicos. Em solos tropicais, com cargas 
predominantemente variáveis, dependentes do pH, em estádio avançado de 
intemperismo, com a fração argila dominada por caulinita e oxidróxidos de Fe e Al, a 
contribuição da MOS é maior, principalmente quando em baixos teores de argila. Se 
for considerado que grande parte dos sítios de reação da MOS está ocupada por 
metais e ligação com os coloides inorgânicos do solo, a contribuição da MOS para a 
CTC efetiva é, frequentemente, menor do que a teoricamente possível, quando 
comparada com as cargas totais dos grupamentos carboxílicos e fenólicos. 
 
4.4.2.3. Complexação de metais 
 
A presença de vários grupamentos funcionais na MOS possibilita sua reação 
com os metais. Os principais sítios de complexação são os grupamentos 
carboxílicos e fenólicos. As interações possíveis entre o complexante (esfera 
externa, mantendo a camada de hidratação), como as entre os grupamentos 
carboxílicos carregados negativamente (dissociados) e um cátion monovalente, ou 
interações mais complexas em que ligações de coordenação (esfera interna, 
perdendo a camada de hidratação e estabelecendo ligação covalente diretamente 
com a superfície do ligante) com os ligantes orgânicos são formadas. Características 
do metal, tais como valência e tamanho do raio hidratado, eletronegatividade e 
polarizabilidade; características da molécula orgânica, tais como densidade e tipo de 
grupamentos reativos, localização dos grupamentos reativos da molécula e tamanho 
da molécula, e características da solução, tais como pH, força iônica e temperatura, 
terão grande influência sobre influência sobre a ocorrência e predominância de 
determinado mecanismo e sua estabilidade. 
A complexação ocorre devido aos grupamentos funcionais da MO 
(carboxílicos e fenólicos) que interagem com metais, formando ligação eletrostática 
ou de coordenação. A complexação é dependente das características dos metais e 
da MOS. 
As características da MOS que influem na complexação são: densidade; tipos 
de grupamentos funcionais predominantes; localização do grupamento reativo e 
tamanho da molécula. Já as características dos metais que influem na complexação 
são: valência; tamanho do raio de hidratação e eletronegatividade. A ordem 
decrescente de habilidade de íons metálicos formarem quelatos é a seguinte: Fe3+> 
Al3+ > Cu2+> Ni2+ > Co2+> Zn2+ > Fe2+> Mn2+. 
A indisponibilidade de metais pela MOS tem grande importância para o 
manejo sob três aspectos: 
1) Alguns metais são micronutrientes essenciais ao desenvolvimento das 
plantas (Ex.: Cu, Fe, Mn, Zn). Se esses metais forem complexados pela MOS pode 
haver indisponibilidade, prejudicando o crescimento das plantas. 
 100 
2) Por outro lado, os metais podem adquirir potencial tóxico se presentes no 
solo em quantidades excessivas. Nesse caso, a complexação de metais pela MOS é 
favorável, reduzindo a disponibilidade de elementos considerados “poluentes”. 
3) A complexação de alumínio pela MOS reduz a toxidez desse elemento às 
plantas. No sistema de plantio direto (SPD) essa complexação é muito importante, 
tendo em vista o elevado aporte de matéria orgânica que acontece em função do 
acúmulo de palha e ausência de revolvimento do solo. 
 
4.4.3. Propriedades Biológicas 
 
4.4.3.1. Reserva Metabólica de Energia 
 
A matéria orgânica mantém o metabolismo energético dos organismos do 
solo, atuando como substrato. Essa MO possui diferentes elementos químicos 
(CHONPS...), dentre os quais está o carbono que atua como fonte de energia aos 
microrganismos. 
 
4.4.3.2. Compartimentos e Decomposição de Nutrientes em Forma 
Orgânica 
 
Os nutrientes podem ser estocados (imobilizados) ou liberados 
(mineralizados) por processos mediados pelos microrganismos (Figura 6A). A 
imobilização é a conversão de elementos na forma inorgânica para a forma orgânica 
por meio de microrganismos e plantas, seguida por incorporação na biomassa. Já a 
mineralização é a conversão de elementos da forma orgânica para a inorgânica. 
A decomposição da MOS é importante para liberação de nutrientes que 
constituem as estruturas dos compostos orgânicos. Dependendo das relações entre 
quantidade de energia e quantidade de nutrientes (C/N; C/P; C/S), os nutrientes que 
resultam da decomposição podem ser imobilizados pelos microrganismos ou 
mineralizados e liberados para a soluçãodo solo (Figuras 6B e 7). 
 
Figura 6. Representação esquemática da imobilização e mineralização (A) e 
relações C/N que resultam em imobilização ou mineralização (B). 
 101 
4.4.3.3.1. Nitrogênio 
 
Cerca de 95% do N do solo está associado à matéria orgânica. O ciclo do N 
envolve a transferência do N2 atmosférico para compostos orgânicos, os quais são 
convertidos em N amoniacal, que por sua vez, é transformado em N nítrico e, 
finalmente, o N retorna à atmosfera na forma gasosa. As principais reações no solo, 
nas quais as formas orgânicas de N estão envolvidas são: (a) fixação biológica do 
N2; (b) mineralização ou amonificação do N orgânico a amônio; (c) imobilização ou 
assimilação de amônio a N orgânico e, (d) assimilação ou imobilização de nitrato a N 
orgânico. 
 
4.4.3.3.2. Fósforo 
 
O ciclo do P é bastante similar ao ciclo de ao ciclo de outros nutrientes, visto 
que ele se encontra em minerais e no solo, organismos vivos e água. Pelo fato de 
ser muito reativo, o P combina com O2 e, portanto não é encontrado na forma 
elementar na natureza. Assim, o P do solo, água e seres vivos encontra-se 
associado a quatro O, formando o PO4
3-. Em solos ácidos, grande parte do 
ortofosfato (PO4
3-) encontra-se fortemente associado aos oxidróxidos de Fe e Al, 
enquanto, nos solos alcalinos, os fosfatos de Ca são as formas predominantes. 
Dessa forma, as concentrações de íons de ortofosfato na solução do solo são 
bastante baixas. Na solução solo, o ortofosfato é encontrado na forma de H2PO4
-, 
em solos ácidos, e de HPO4
2-, em solos alcalinos. Essas formas iônicas de P são 
absorvidas por plantas e microrganismos. A maior parte desse P é incorporado à 
estrutura de compostos orgânicos (Po). As plantas podem ser consumidas por 
animais, que retornarão o P ao solo na forma de dejetos orgânicos. No solo, o 
ortofosfato será liberado para a solução pelo processo de mineralização do Po 
mediada por microrganismos. O Po também poderá ser incorporado em compostos 
orgânicos mais estáveis que farão parte da matéria orgânica humificada do solo. 
 
4.4.3.3.3. Enxofre 
 
Em regiões de clima mais seco (árido, semi-árido), as formas inorgânicas 
(como o gesso) são o principal compartimento de S no solo, mas nos solos das 
regiões úmidas e subúmidas, o S na matéria orgânica geralmente contribui com 
mais de 90% do S total. Apesar da importância do S do ponto de vista nutricional e 
sua predominância em formas orgânicas em nossos solos, informações relativas à 
sua composição e biodisponibilidade são ainda bastante escassas. 
A dinâmica do S no solo é ditado por processos de imobilização e 
mineralização, ambos mediatos pela atividade microbiana. Embora parte do S 
orgânico do solo possa ser derivado diretamente de compostos de plantas e animais 
(aminoácidos sulforados, sulfolipídeos, etc), evidências recentes indicam que grande 
parte do S orgânico é sintetizado in situ. 
 102 
Na maior parte dos solos, a principal fonte de S para as plantas advém da 
mineralização da MOS. 
 
4.4.3.3.4. Relações C/N, C/P e C/S 
 
A mineralização do N, P e S da MOS ocorre simultaneamente com a do C. De 
modo geral, haverá mineralização líquida desses nutrientes quando as relações C/N, 
C/P e C/S forem, respectivamente, menores que 30, 200 e 300. Isso indica que o 
requerimento relativo de N pelos microrganismos é maior que o do P, que, por sua 
vez, é maior que o de S, bastando apenas que o resíduo orgânico adicionado ao 
solo tenha uma relação C/N>30 para que o processo de imobilização de N 
predomine em relação à mineralização deste nutriente. No decorrer de um ano, 55 a 
70% do C de todo resíduo vegetal e animal retornado ao solo é liberado na 
atmosfera como CO2, porém há diferentes taxas pelas frações que compõem a 
MOS. Considerando as formas orgânicas de N, P e S, conclui-se, que durante o 
processo de mineralização da matéria orgânica, a taxa de liberação desses 
elementos será distinta, fazendo com que os processos de acúmulo e mineralização 
de C e N sejam distintos do P e S (Figura 7). 
Pode ocorrer competição entre o material orgânico adicionado e a planta 
pelos nutrientes da solução do solo. Quando os processos de mineralização 
predominam em relação aos de imobilização, a matéria orgânica funcionará como 
fonte de nutriente e, consequentemente, aumentará a disponibilidade deste para as 
plantas. Do contrário, quando a imobilização prevalece sobre a mineralização, a 
matéria orgânica passa a reter o nutriente, diminuindo sua disponibilidade para as 
plantas. Esse processo depende de outros fatores, tais como tempo de conversão 
da área de vegetação natural para área agrícola, estádio de degradação do solo e 
tempo de adoção de sistemas agrícolas com aporte constante de matéria orgânica. 
Com a adoção de práticas agrícolas que priorizem o aporte orgânico, tal como 
o plantio direto e agroflorestal, espera-se que, nos primeiros anos, quando as taxas 
de acúmulo de MOS são altas, a matéria orgânica funcione imobilizando e 
competindo pelos nutrientes. Nos anos seguintes, quando os incrementos nos teores 
de MOS são muito pequenos ou inexistentes, espera-se que o sistema orgânico 
acarrete equilíbrio entre os processos de imobilização e mineralização. Com o 
tempo, o aporte dos nutrientes ao solo via deposição de resíduos vegetais da parte 
aérea e das raízes será maior que a quantidade de nutrientes imobilizados pela 
biomassa microbiana e pelos compartimentos física e quimicamente protegidos da 
MOS. Só a partir desse ponto, a MOS expressará, ao máximo, seu potencial de 
mineralização de nutrientes. Essa dinâmica das diferentes frações da MOS é 
especialmente importante para entender as mudanças na disponibilidade de 
nutrientes. 
 
 
 103 
 
Figura 7. Relações C/N; C/P e C/S que resultam em imobilização e mineralização. 
 
4.5. Bibliografia 
NOVAIS, R. F.; ALVAREZ, V. H.; BARROS, N. F.; FONTES, R. L. F.; 
CANTARUTTI, R. B.; NEVES, J. C. L. Fertilidade do solo. Viçosa: Sociedade 
Brasileira de Ciência do Solo, 2007. 1017 p. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 104 
PARTE V – DINÂMICA DA ESTRUTURA DO SOLO 
 
1 Introdução 
A estrutura é um fator chave para as funções que o solo exerce, pois 
representa a capacidade de dar suporte à vida das plantas e dos animais e de 
moderar a qualidade ambiental com ênfase particular no seqüestro de carbono do 
solo (C) e na qualidade da água. 
A estabilidade de agregados é usada como indicador da estrutura do solo. A 
agregação resulta do rearranjo, da floculação e da cimentação das partículas. O 
declínio na estrutura é considerado como forma de degradação do solo e é 
freqüentemente relacionado com o uso da terra e com práticas de manejo do solo e 
das culturas agrícolas. 
A estrutura influencia o movimento e a retenção da água no solo, erosão, 
encrostamento superficial, ciclagem de nutrientes, penetração das raízes e 
produtividade das culturas. Fenômenos externos tais como o escorrimento 
superficial, a poluição das águas superficiais e subterrâneas e as emissões do CO2 
são influenciadas pela estrutura do solo. 
A redução nas operações de preparo e na fertilização pode diminuir as 
emissões do CO2 devido ao menor revolvimento do solo e menor aplicação de 
insumos, os quais são dependentes de combustíveis fósseis. A biodiversidade das 
espécies é afetada pelas práticas de manejo, de modo que, geralmente, práticas 
agrícolas fundamentadas em monocultivos com elevado aporte de insumos 
diminuem a biodiversidade, enquanto que práticas alternativas com baixo aporte de 
insumos melhoram a biodiversidade. 
Com o aumento da populaçãoe da urbanização, é importante identificar 
métodos para aumentar a produção de alimentos e ao mesmo tempo manter a 
qualidade ambiental. Para isso é importante conhecer aspectos referentes à 
agregação e a estrutura do solo para que seja possível identificar as formas de 
manejo mais adequado. 
 
 
 
 
2 Estrutura do solo 
A estrutura do solo se refere ao tamanho, à forma e ao arranjamento entre 
sólidos e os espaços vazios, a continuidade dos poros e espaços vazios, sua 
capacidade de reter e transmitir fluídos e substâncias orgânicas e inorgânicas e sua 
habilidade de suportar o crescimento e o desenvolvimento vigoroso das raízes. 
Estrutura do solo favorável e elevada estabilidade de agregados são 
importantes para melhorar a fertilidade do solo, a produtividade agrícola, a 
porosidade e reduzir a erodibilidade. 
 105 
 
3 Agregação 
Os agregados são partículas secundárias formadas por meio da combinação 
de partículas minerais com substâncias orgânicas e inorgânicas. A dinâmica 
complexa da agregação é resultado da interação de muitos fatores, incluindo os 
ambientais e os ligados ao manejo do solo, além da influência das plantas e das 
propriedades do solo, tais como: composição mineral, textura, concentração do 
carbono orgânico do solo (COS), processos pedogênicos, atividades microbianas, 
íons trocáveis, reservas de nutrientes e disponibilidade de água. 
Os agregados ocorrem em uma variedade de tipos e tamanhos. Estes são 
freqüentemente agrupados pelo tamanho em macroagregados (>250 μm) e 
microagregados (<250 μm). Estes grupos podem ser subdivididos pelo tamanho, e 
os grupos de tamanhos diferentes variam nas suas propriedades, tais como agentes 
ligantes e distribuição de carbono e nitrogênio. 
 
3.1 Mecanismos da agregação 
 Existem vários mecanismos de agregação. Os agregados são formados em 
estágios nos quais predominam diferentes mecanismos de ligação. Há diferentes 
explicações para a formação de agregados no solo: 
 
a) Teoria hierárquica da agregação: 
Propõe que os microagregados unem-se para formar macroagregados e as 
ligações dentro dos microagregados são mais fortes que as ligações entre 
microagregados. Microagregados (<250 μm) são formados por moléculas orgânicas 
(MO) unidas à argila (A) e cátions polivalentes (C), formando partículas compostas 
(A- C - MO), que se unem entre si para formar os macroagregados [(A-MO-C)x]y. 
 
b) Matéria orgânica particulada 
Alternativamente, os macroagregados também podem ser formados em torno 
da matéria orgânica particulada (MOP). Com a decomposição da MOP e liberação 
de exudados microbianos, os macroagregados tornam-se mais estáveis, diminui a 
relação C/N e ocorre a formação interna de microagregados. Os microagregados 
formados internamente contêm maiores quantidades do compartimento recalcitrante 
do COS. Com a utilização do compartimento mais lábil do COS e redução da 
atividade microbiana, a fonte de exudados diminui e os macroagregados perdem sua 
estabilidade, eventualmente há quebra e liberação de microagregados mais 
estáveis. 
 
c) Teoria concêntrica da agregação 
As raízes e hifas liberam compostos orgânicos que agem como susbtâncias 
aderentes mantendo as partículas de solo unidas. As partículas podem ser 
rearranjadas durante o emaranhamento, enquanto os ciclos de umedecimento e 
secagem ajudam a estabilizar os agregados. Microagregados bacterianos formam-
 106 
se a partir de colônias de bactérias, seus exudados formam cápsulas de 
polissacarídeos ao redor da colônia e as partículas de argila são alinhadas e 
atraídas pela secagem e contração. A estrutura de argila forma uma camada 
protetora na colônia bacteriana inibindo a decomposição do COS interno. A teoria 
concêntrica da agregação sugere que as camadas externas são construídas 
concentricamente sobre as camadas externas dos agregados, com isso o C das 
camadas mais externas é mais novo que o C no interior dos agregados. 
A precipitação de óxidos, hidróxidos, fosfatos e de carbonatos melhoram a 
agregação. Cátions tais como Si4+, Fe3+, Al3+ e Ca2+ estimulam a precipitação dos 
compostos que agem como agentes ligantes de partículas primárias. Cátions 
também formam pontes entre a argila e partículas de MOS resultando em 
agregação. Os compostos orgânicos dissolvidos (COD) podem complexar com Fe3+ 
e Al3+ em pH baixo, formando compostos organo-metálicos móveis que podem 
precipitar em outra parte no solo. A complexação reduz o acesso microbiano ao 
COS e sua mineralização. 
É possível que os agregados se formem diretamente de uma combinação de 
processos (Figura 1). Macroagregados podem inicialmente formar-se por meio da 
acumulação de microagregados ou em torno da MOP ou dos centros bacterianos. 
Posteriormente à decomposição ou quebra dos macroagregados formam-se 
microagregados. Os microagregados podem ser formados inicialmente pela união 
progressiva de argila, MOS e cátions, ou como produtos da reciclagem dos 
macroagregados. As partículas primárias podem se acumular nas camadas externas 
dos agregados. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1. Alguns possíveis cenários da agregação ( MO – matéria orgânica, MOP – 
matéria orgânica particulada) (Fonte: Bronick & Lal, 2005). 
 
3.2 Dinâmica e reciclagem dos agregados 
Partículas Primárias 
Argila – Cátions -MO 
Macroagregados 
Microagregados 
Argila – Partícula -MO 
Acumulação 
Concêntrica 
Hierárquica 
Bactérias ou 
Centro MOP 
 107 
 Os contínuos efeitos interativos dos processos de formação do solo, as 
propriedades do solo e os fatores exógenos tais como paisagem e clima 
estabelecem o equilíbrio dinâmico na estrutura do solo (Figura 2). 
Os agregados podem ser rompidos por uma variedade de mecanismos, 
dependendo da natureza dos agentes ligantes. As atividades dos organismos 
influenciam o tempo de retenção e a reciclagem do C no solo e estes, por sua vez, 
afetam a estabilização, a agregação e a reciclagem do C. 
A decomposição da matéria orgânica do solo (MOS) é influenciada pela 
atividade dos organismos, pelas propriedades do solo e por fatores ambientais como 
temperatura, concentração gasosa, disponibilidade de nutrientes e gradiente de 
umidade. A relação C/N é comumente usada como indicador da reciclagem do COS, 
embora para as frações de carbono recalcitrante (CR) e inerte (CI), a relação de 
lignina/N ou outros compostos mais resistentes de ser mais apropriada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organismos 
Acessibilidade à 
decomposição 
Cátions 
Fatores 
Exógenos 
Perturbações 
Antropogênicas 
Argila 
Propriedades 
do Solo 
Processos 
Pedogenéticos 
Matriz do Solo 
Estabilização do C 
Reciclagem de 
macroagregado Formação de microagregado 
Fonte de C 
 108 
 
 
 
 
 
Figura 2. Fatores que afetam a agregação do solo (Fonte: Bronick & Lal, 2005). 
 
O retorno dentro do sistema sugere que a decomposição da MOS é afetada 
pela estrutura do solo, por meio da porosidade, das trocas gasosas e da umidade do 
solo, bem como pela localização física do C como sua profundidade e a oclusão. A 
dinâmica da reciclagem varia espacialmente dentro do solo e dentro dos agregados 
individuais, bem como no tempo. A dinâmica do COS pode ser mais lenta no final da 
estação de crescimento das plantas, resultando em menores taxas de reciclagem 
nos macroagregados. Agentes ligantes como os compostos inorgânicos, argilas de 
baixa atividade e agentes ligantes de CR são geralmente resistentes à quebra. A 
mobilização e precipitação das substâncias podem promover a dissolução e quebrados agregados, bem como a formação de novos agregados. 
A ingestão pela fauna do solo pode romper os agregados, embora isto, em 
geral, aumente a estabilidade dos agregados. Os agregados também são 
suscetíveis ao rompimento por distúrbios físicos tais como, a expansão da argila, o 
cultivo e o impacto da chuva. 
 
4 Processos Pedogenéticos e a estrutura do solo 
O desenvolvimento estrutural e a agregação do solo ocorrem dentro do 
contexto dos processos pedogenéticos naturais e das atividades antropogênicas. O 
intemperismo altera os materiais, os quais são translocados no perfil dos solos por 
meio da lixiviação, bioperturbação, eluviação e iluviação, resultando em 
horizontalização. A matéria orgânica dissolvida dos horizontes eluviais é imobilizada 
em horizontes iluviais como o horizonte B. Os materiais precipitados aumentam a 
ligação entre agregados no horizonte B. 
 
5 Estrutura do Solo e Crescimento das Plantas 
A estrutura do solo afeta o crescimento das plantas influenciando a 
distribuição das raízes e a sua habilidade para absorver água e nutrientes. A 
estrutura do solo facilita a oxigenação e a infiltração de água e pode melhorar o 
armazenamento da água. O aumento na transferência de água pode reduzir a 
retenção do fertilizante na matriz do solo e aumentar a eficiência do uso do 
fertilizante pelas plantas. Distúrbios na estrutura do solo ocasionados pela 
compactação ou cultivo podem resultar em rápida reciclagem de nutrientes, 
encrostamento superficial, redução na disponibilidade de água e ar para as raízes. 
 
 109 
6 Estrutura do Solo Influenciada pelo Clima e Fatores Exógenos 
O clima e a posição da paisagem influenciam a estrutura do solo a partir de 
fatores como temperatura, precipitação, altitude, gradiente e aspecto do declive. As 
propriedades do solo tais como textura, mineralogia, COS e organismos moderam a 
influência do clima. 
 
6.1 Clima 
O clima afeta a agregação do solo por meio de alterações na temperatura 
(congelamento e descongelamento) e no regime hídrico que afetam os ciclos de 
umedecimento e secagem que podem reorientar as partículas, possivelmente 
resultando em melhoria da agregação e aumento no isolamento do COS dentro dos 
agregados. 
Mudanças na temperatura e na umidade afetam a atividade biológica e 
alteram as taxas de decomposição. Altas temperaturas resultam no aumento da 
respiração e da atividade biológica no solo, enquanto que baixas temperaturas 
resultam em maior estoque de COS. 
A umidade do solo e os ciclos de secagem e umedecimento têm efeitos 
variáveis na agregação. Os ciclos de secagem e umedecimento podem romper a 
agregação em argilas expansivas. Partículas de argila por ocasião do umedecimento 
se expandem e separam-se uma das outras, reduzindo a estabilidade dos 
agregados. 
Por outro lado, os ciclos de secagem e umedecimento têm influências 
positivas nos estágios iniciais de agregação em solos com argilas não expansivas e 
nos macroagregados (Figura 3). Durante o umedecimento, as partículas da argila 
tendem a dispersar-se formando pontes e camadas quando secam. Isto favorece o 
contato entre as partículas e aumenta as ligações das argilas. Os ciclos também 
afetam a quantidade de matéria orgânica particulada incorporada dentro dos 
agregados e a porosidade, sendo importantes para a agregação nos solos de 
regiões áridas, semi-áridas e subúmidas. 
A temperatura e o regime hídrico podem ser modificados por práticas de 
manejo como irrigação, uso de culturas de cobertura e cobertura morta. O cultivo 
convencional aumenta a exposição ao ar, sol e vento. Práticas de manejo moderam 
o impacto dos ciclos de secagem e umedecimento. Em experimentos com plantio 
direto, os ciclos de secagem e umedecimento são menos intensos devido à proteção 
do solo com palha na superfície. A dispersão ou quebra causada pelos ciclos de 
secagem e umedecimento pode ser reduzida pelo aumento de substâncias húmicas 
no solo. 
 
 
 
 
 
Ciclos de umedecimento e secagem (quat.) 
80 
70 
60 
50 
40 
30 
10 
0 
0 5 10 15 20 25 30 
20 
Caulinita, 25% 
Esmectita, 25% EA 
(%) 
 110 
Figura 3. Ciclos de secagem e umedecimento na estabilidade de agregados (EA) 
com 0,5 – 1,0 mm de diâmetro com 25% de argila caulinita ou esmectita (Fonte: 
Bronick & Lal, 2005). 
 
6.2 Paisagem/topografia 
A região geográfica, a altitude, o aspecto e o gradiente do declive influenciam 
a vegetação e a erosão. A altitude influencia a taxa de intemperismo nos solos, 
tendo efeito indireto na estrutura. O aumento na estabilidade de agregados e na 
vegetação permite aumentar a infiltração e, consequentemente a redução da erosão. 
Solos declivosos são mais suscetíveis à erosão, particularmente em regiões com 
chuvas intensas. A erosão remove preferencialmente as partículas menos densas ou 
partículas leves, incluindo a argila e o COS que são os dois agentes primários 
ligantes na agregação. A erosão do COS pode também aumentar a taxa de 
mineralização. 
 
6.3 Propriedades do Solo 
a) Tipos de Solo 
A agregação é controlada por diferentes mecanismos nos diferentes tipos de 
solos (Quadro 1). A taxa e a estabilidade da agregação geralmente aumentam com 
o COS, área superficial da argila e CTC. Em solos com baixa concentração de COS 
ou de argila, a agregação pode ser dominada por cátions, enquanto o papel dos 
cátions na agregação pode ser mínimo em solos com elevada concentração de COS 
ou argila. 
Quadro 1. Tipos de solo e fatores de agregação 
Ordens de Solo Fatores de agregação Autores 
Alfisols (Luvissolos) 
Matéria orgânica do solo Dalal e Bridges, 1996; 
Oades e Waters, 1991 
Andisols (Solos 
originados de 
cinzas vulcânicas 
Argila alofana, 
argila não cristalina 
Torne t al., 1997 
Aridisols (Solos de 
regiões áridas) 
Carbono orgânico solúvel, 
carbonatos e minerais de argila 
intemperizada 
Biox-Fayos et al., 1998; 
Boettinger e Southard, 
1995 
Entisols 
(Neossolos) 
Matéria orgânica do solo Dalal e Bridges, 1996 
Inceptisols 
(Cambissolos) 
Argila amorfas Dalal e Bridges, 1996 
Oxisols 
(Latossolos) 
Óxidos de Al3+ e Fe3+ Oades e Waters, 1991; 
Dalal e Bridge, 1996 
Spodosols 
(Espodossolos) 
hidróxidos de Al não cristalino, 
raízes das plantas e rizosfera, 
MOS hidrofóbica, complexos 
De coninck, 1980 
 111 
organo-metálicos, hidróxidos 
metálicos. 
Ultisols (Argissolos 
distróficos) 
MOS Dalal e Bridge, 1996; 
Zhang e Horn, 2001 
Vertisols 
(Vertissolos) 
Sesquióxidos não cristalinos, 
frações do tamanho de argila 
Leinweber et al., 1999 
 
Ligações de cátions 
polivalentes, ciclos de 
umedecimento e secagem 
Dalal e Bridge, 1996 
(Fonte: Bronick & Lal, 2005) 
 
b) Textura 
A textura do solo tem uma influência significativa na agregação. Em solos 
arenosos o COS tem maior influência na estrutura; enquanto que com o aumento do 
conteúdo de argila, o tipo da argila é mais importante que a quantidade na 
determinação da agregação. A concentração de argila afeta fisicamente a agregação 
por meio da expansão e dispersão. O potencial da desagregação pela expansão 
induzida é reduzido em níveis baixos de argila. O aumento na concentração de 
argila está associado com o aumento na estabilização do COS. 
 
c) Capacidade de Troca de Cátions (CTC) 
A CTC é freqüentemente relacionada a agregados estáveis. A agregação é 
estimulada pela interação entre cátions polivalentes na qual as forças repulsivas 
entre as cargas negativas da argila e/ou o COS são reduzidas. Os agregados 
contendo cátions polivalentes (Ca2+, Al3+ e Fe3+) são resistentes à desagregação.d) pH do solo 
Em adição aos efeitos no crescimento das plantas, o pH do solo também 
influencia a solubilidade dos íons metálicos, a atividade microbiana e a dispersão da 
argila. As cargas negativas das superfícies das partículas de argila aumentam com o 
pH, aumentando a repulsão das partículas. Portanto, o controle do pH é importante 
em solos com argilas dispersivas. As partículas de argila freqüentemente floculam 
em valores altos de pH. Os solos com alto pH e elevada concentração de 
carbonatos formam agregados grandes. 
O calcário é comumente adicionado ao solo para aumentar o pH e 
freqüentemente resulta no aumento da atividade microbiana e na produção das 
culturas e contribui para aumentar MOS e indiretamente aumenta a agregação. 
 
e) Porosidade 
 112 
Existe ampla escala de tamanhos de poros entre e dentro dos agregados em 
solos bem estruturados. Poros grandes (>30 μm) incluem bioporos, rachaduras e 
poros entre agregados. O espaço, o tamanho e a quantidade de poros podem 
influenciar o COS e a sua reciclagem. A textura do solo e o COS podem influenciar a 
porosidade. Bioporos são importantes para aumentar a difusão de água e gases 
influenciando a decomposição. Os poros pequenos podem proteger o COS da 
decomposição, limitando o acesso microbiológico pelo controle da difusão de gases 
e da disponibilidade de água. A dispersão da argila, o cultivo, a compactação e o 
encrostamento podem resultar no descréscimo da porosidade. Em solos expansivos, 
a porosidade está relacionada com o conteúdo de água no solo e às características 
de expansão e contração. O cultivo causa aumento da porosidade em curto prazo, 
mas em longo prazo diminui a agregação. 
 
6.4 Água do Solo 
A textura e estrutura do solo influenciam o fluxo, a disponibilidade e o estoque 
de água no solo. A agregação e a interconexão de poros aumentam a passagem do 
fluxo no solo, podendo resultar no aumento da infiltração e redução do escorrimento 
superficial, no movimento mais profundo da água no perfil do solo e no aumento da 
lixiviação. 
 
 
7 Agentes de agregação 
7.1 Carbono 
A fonte de C, se orgânico ou inorgânico, influencia sua composição e 
concentração no solo e, por sua vez, na eficácia da agregação por meio da 
associação com cátions e partículas do solo. 
 
a) Carbono inorgânico do solo (CIS) 
O CIS existe como minerais primários e secundários. Os carbonatos primários 
ou litogênicos originam-se do material da rocha, sendo a fonte para a formação de 
carbonatos secundários que são dissolvidos e translocados pela água com ácidos 
orgânicos e/ou CO2 do solo e da atmosfera (Figura 4). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Intemperismo de carbonatos 
Liberação de CO2 
Fixação união 
 com CO2 
Carbonatos no solo 
CO2 no solo e 
na atmosfera 
 113 
 
 
Figura 4. Relação ente carbonatos e CO2 do solo via intemperismo e fixação. 
 
Carbonatos secundários ou pedogenéticos formam-se quando o CO2 
dissolvido precipita em carbonatos e bicarbonatos com Ca2+ e Mg2+ de fora do 
sistema. Sob condições de baixa umidade ou aumento do pH, os cátions, 
bicarbonatos (HCO3
−), carbonatos dissolvidos e o CO2 podem reagir com os cátions 
disponíveis para formar camadas de carbonatos secundários nas partículas 
primárias do solo. 
O efeito dos carbonatos na estrutura é moderado pelo COS. O aumento no 
COS resulta no aumento da dissolução e reprecipitação de carbonatos no solo. O 
COS aumenta a respiração microbiana e o CO2 e é uma fonte de Ca
2+ e Mg2+. Em 
baixas concentrações de COS, a estabilidade dos macroagregados é melhorada 
pelos carbonatos. 
Elevadas concentrações de carbonatos melhoram a proteção do COS, 
provavelmente devido à redução da mineralização do COS e aumento no Ca2+. Os 
organismos influenciam a agregação mediada por carbonatos: a atividade de 
minhocas pode alterar a concentração de carbonato, embora os efeitos sejam 
inconsistentes e possam depender da espécie da minhoca. 
A irrigação e o manejo da fertilidade aumentam o COS e, desse modo 
aceleram a formação de carbonatos secundários em solos áridos e semi-áridos por 
meio da adição de ácidos carbônicos e orgânicos que podem reagir com os silicatos 
do solo para seqüestrar o C. 
 
b) Carbono orgânico do solo (COS) 
O COS resulta em regiões de heterogeneidade, conduzindo à formação de 
pontos de agregação de modo que o aumento do COS está relacionado com o 
aumento da agregação (Figura 5). As propriedades químicas do COS determinam 
sua carga e capacidade de complexação, influenciando as taxas de decomposição 
que têm efeitos diretos na agregação. O efeito agregador do COS lábil nos 
agregados é rápido, mas transiente enquanto que a decomposição lenta do COS 
tem efeito mais sutil e duradouro na agregação. O isolamento da fração do C lábil 
dentro dos agregados aumenta a estabilidade e durabilidade deste carbono pela 
redução de sua decomposição (Figura 5). O aumento na biomassa microbiana está 
associado com o aumento da estabilidade dos agregados. 
Matéria orgânica particulada (MOP): A MOP compreende partículas 
grandes de matéria orgânica (250-2000 μm) que existem como uma MOP livre, 
também denominada Fração Leve Livre (FLL) ou como matéria orgânica encrustada 
nas partículas do solo, também denominada Fração Leve Oclusa (FLO), que oferece 
proteção física à decomposição. A FL no solo é geralmente associada com a argila e 
os cátions polivalentes para formar agregados. 
 114 
O aumento do COS e da agregação no sistema de plantio direto podem ser 
devido ao aumento na FL/MOP (Six et al., 1999). A MOP/FL pode agir como núcleo 
para formação de macroagregados com o material que acumula em seu entorno. 
Macroagregados têm grande concentração de MOP/FL de baixa densidade. Dentro 
dos macroagregados, a decomposição do carbono leve (CL) da matéria orgânica 
oclusa (MOO) pode conduzir ao enriquecimento relativo de carbono recalcitrante 
(CR). O rompimento da MOP dentro dos agregados resulta na exposição do CL, 
tornando-o disponível para a decomposição microbiana (Figura 6). A MOP pode ser 
importante agente na ligação de microagregados para formar macroagregados, pois 
a sua decomposição pelos microrganismos produz polissacarídeos extracelulares 
que atuam como agentes ligantes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 5. Carbono orgânico do solo (COS) e diâmetro médio ponderado (DMP) 
(Fonte: Bronick & Lal, 2005). 
 
Carboidratos: O papel dos carboidratos na melhoria da estrutura do solo é 
variável. Os carboidratos originados a partir das plantas são freqüentemente de 
tamanho mais grosseiro e ocorrem na fração da areia, enquanto que os carboidratos 
produzidos por atividades microbianas são mais finos e estão nas frações argila e 
silte. Os carboidratos formados microbiologicamente tendem a ser mais resistentes à 
decomposição. O cultivo reduzido (cultivo conservacionista ou plantio direto), a 
adição de esterco e o uso de culturas de cobertura estão associados com o aumento 
nas concentrações de carboidratos e melhoria da estrutura do solo. 
DMP = 0,0514x + 0.0697 
R
2
 = 0,6654 
DMP 
(mm) 
Concentração de COS (g kg
-1
) 
3.0 
2.5 
2.0 
1.5 
1.0 
0.5 
0 10 20 30 50 40 
0.0 
 115 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 6. Fluxograma da compartimentalização do COS (CI - carbono inerte, CL 
fração lábil, CR – carbono recalcitrante) (Fonte: Bronick & Lal, 2005). 
Polissacarídeos: São mineralizados rapidamente e atuam como agentes 
ligantes transitórios que iniciam uma agregação que pode não ter estabilidade em 
longo prazo. Os polissacarídeos adsorvidosfortemente nas superfícies minerais 
agem como pontes para unir as partículas do solo. Os polissacarídeos podem 
também formar uma substância gelatinosa que age como cola para unir as 
partículas em agregados. 
Fenóis: As moléculas fenólicas podem complexar com cátions para formar 
pontes catiônicas. Os fenóis e os polifénois são precursores de substâncias húmicas 
e aumentam a agregação. A baixa agregação nos solos cultivados com soja é 
atribuída aos baixos conteúdos fenólicos nos resíduos da cultura. Já a elevada 
agregação é freqüentemente associada com plantas ricas em fenóis. 
Lignina: A baixa taxa de decomposição da lignina é considerada como um 
fator chave nas taxas de retorno do C, melhorando a agregação. A mucilagem e 
outros compostos resultantes da decomposição da lignina por fungos contribuem 
para agregação do solo. 
Lipídios: Os lipídios são freqüentemente abundantes na fração da argila. Em 
alguns solos, os lipídios podem melhorar a estabilidade de agregados contra a 
dispersão e fragmentação causadas pela entrada repentina de água. Provavelmente 
Aporte de C 
a 
 
b 
CR 
CL 
CO2 atmosférico 
CI 
c 
Tempo de residência 
Decomposição 
 
a – Proteção física b – Proteção química c – Perturbações 
a 
 
b 
 116 
isto está relacionado à natureza hidrofóbica dos lipídios e à mineralogia da argila. Os 
lipídios exercem papel mais importante na agregação em solos que apresentam 
misturas de argila e ilita do que nos solos dominados por caulinita ou esmectitas. Os 
cultivos convencionais apresentam maiores quantidades de lipídios extraídos totais 
quando comparados com o plantio direto, os quais exibem geralmente maiores 
níveis de biodegradabilidade da MOS. 
Substâncias húmicas (SH): A recalcitrância das substâncias húmicas é 
resultado de sua resistência química e de sua associação com a matriz do solo, a 
qual oferece proteção física. Os ácidos húmicos (AHs) podem ser adsorvidos às 
partículas de argila pelos cátions polivalentes, formando cobertura eficaz que evita a 
dispersão da argila. As SHs podem aumentar a estabilidade dos agregados e reduzir 
a dispersão devido aos ciclos de umedecimento e secagem. 
Hidrofobicidade: A hidrofobocidade do COS, junto com suas propriedades 
de carga e a interação com as partículas do solo, afeta as propriedades físico-
químicas do solo incluindo a estabilidade estrutural. As moléculas hidrofóbicas 
causam repelência à água nos agregados do solo e diminuem a sua molhabilidade, 
que pode resultar numa maior coesividade, reduzindo a dispersão e as taxas de 
decomposição do COS. A estabilidade de agregados a longo prazo pode ser 
melhorada pela adição de materiais orgânicos hidrofóbicos tais como os resíduos 
orgânicos contendo materiais hidrofóbicos e COS de tipos da planta como Cistus e 
Pinus. O plantio direto e as queimadas afetam a hidrofobicidade do solo. Queimadas 
com elevadas temperaturas podem resultar na repulsão da água, aumentando a 
estabilidade estrutural. Também é preciso lembrar que a hidrofobicidade também 
pode prejudicar a infiltração de água, o que aumenta a suscetibilidade à erosão. 
 
7.2 Argila e mineralogia da argila 
Os minerais da argila influenciam as propriedades que afetam a agregação: 
área superficial, CTC, densidade de cargas, dispersão e expansão, que, por sua 
vez, também afetam as taxas de decomposição do COS. A interação da argila, do 
COS e dos agregados é afetada pelo pH, CTC, íons (Na+, Ca2+, Mg2+) e todos esses 
parâmetros estão relacionados com a quantidade e tipo de argila presente no solo. A 
composição mineralógica da argila é modificada com o desenvolvimento 
pedogenético do solo. As argilas de baixa atividade, tais como a caulinita e a 
haloisita estão freqüentemente presentes em Alfisols, Ultisols e Oxisols, enquanto as 
argilas com alta atividade como esmectitas estão presentes nos Vertisols. 
As argilas ocorrem como estruturas cristalinas em camadas ou como minerais 
não cristalinos com estrutura amorfa. Em alguns solos, a argila não cristalina é um 
fator importante para a agregação, como ocorre nos solos vulcânicos onde o COS e 
a agregação estão associados com as argilas alofânicas. Os minerais de argila não 
cristalinos, tais como a alofana e a imogolita têm elevada área superficial e cargas 
variáveis dependente de pH que geralmente aumentam a agregação. As argilas 
cristalinas e não expansivas, tais como a caulinita (1:1), tem baixa CTC e área 
superficial, o que tende a diminuir a estabilidade de agregados. A caulinita tem uma 
boa capacidade de floculação devido às cargas eletrostáticas entre os planos 
 117 
superficiais e COS. Em comparação, a agregação é geralmente maior nas argilas 
com alta atividade tais como esmectitas e outras argilas do tipo 2:1, que estão 
associadas com a elevada CTC, grande área superficial e elevado conteúdo de 
COS. 
A dispersividade dos agregados do solo é afetada pela natureza do COS e do 
tipo da argila. Os cátions, particularmente Ca2+ e Na+, eletrólitos e pH podem 
influenciar a dispersão da argila. Concentrações elevadas de fertilizantes amoniacais 
podem conduzir à dispersão da argila. A adição de gesso ao solo reduz a dispersão 
da argila devido às mudanças na concentração e composição dos eletrólitos. A CTC, 
a área superficial dos minerais de argila e o COS e outras propriedades do solo 
interagem para formar ligações intra-partículas que influenciam a dispersão. As 
argilas menos reativas, como a caulinita, são menos dispersivas. O COS e algumas 
raízes podem aumentar a dispersão de partículas da argila enquanto outras têm 
efeito contrário. O COS carregado negativamente pode ser rompido na estrutura dos 
agregados possivelmente pela repulsão das cargas negativas dos minerais do solo. 
Existem diferenças nas concentrações do COS entre as argilas dispersas e não 
dispersas, sugerindo que a decomposição dos resíduos orgânicos pode promover a 
dispersão. As argilas menos dispersivas contêm mais materiais alifáticos na 
superfície do solo e carboidratos no subsolo. Estes compostos podem agir como 
substâncias aderentes para manter as partículas unidas. As argilas facilmente 
dispersas contêm maiores concentrações de aminoácidos que podem agir como 
dispersantes. 
Os solos dominados por minerais de argila com cargas variáveis, tais como 
argila 1:1 e óxidos, têm elevada agregação em níveis baixos de COS. Já os solos 
que apresentam mineralogia variada da fração argila têm maior agregação em altos 
níveis de COS. O tipo de argila também afeta a taxa de decomposição de MOS. A 
montmorilonita resulta em rápida decomposição do COS com maior produção de 
ácidos fúlvicos de baixo peso molecular. Por outro lado, a caulinita resulta em 
decomposição mais lenta e maiores quantidades de C residual e ácidos húmicos. 
Baixos valores de pH associados com a clorita podem resultar em baixas taxas de 
decomposição, e isto está relacionado ao elevado conteúdo de C associado com 
essas argilas. 
 
7.3 Cátions 
a) Cálcio e magnésio 
Os cátions bivalentes Ca2+ e Mg2+ melhoram a estrutura do solo por meio de 
pontes catiônicas com as partículas de argila e COS. Como mencionado 
anteriormente, em condições áridas e semi-áridas, Ca2+ e Mg2+ precipitam 
carbonatos para forma carbonatos secundários que servem como revestimento e 
atuam unindo as partículas primárias do solo. Geralmente, o Ca2+ é mais eficaz do 
que Mg2+ em melhorar a estrutura do solo. Entre os cátions bivalentes, o Ca2+ pode 
inibir a dispersão da argila e o rompimento dos agregados pela substituição do Na+ e 
Mg2+ na argila e nos agregados, aumentando a estabilidade. 
 118 
Em comparação ao Ca2+, o Mg2+ pode ter efeito deletério na estabilidadede 
agregados do solo pelo aumento na dispersão da argila. A extensão do efeito 
negativo do Mg2+ comparado ao Ca2+ pode depender do tipo da argila e 
concentração de eletrólitos no solo. Além disso, o Mg2+ pode proporcionar maior 
quebra pela expansão das argilas, resultando na desestruturação dos agregados. 
O uso de corretivos do solo contendo Ca2+ e Mg2+, tais como o calcário e o 
gesso, pode ter grandes efeitos na agregação, como por exemplo, no caso da 
calagem de solos ácidos e a gessagem em solos afetados por sais. A crescente 
estabilidade de agregados em solos calcários sugere a formação de uniões fortes 
envolvendo pontes de Ca2+. 
 
b) Ferro e alumínio 
Os cátions polivalentes de Al3+ e Fe3+ melhoram a estrutura do solo por meio 
de pontes catiônicas, formação de compostos organo-metálicos e géis. A 
solubilidade e mobilidade desses cátions são dependentes do pH, com alta 
solubilidade em pH baixo. Os agregados contendo Al3+, Fe3+ e argilas com elevada 
CTC tendem a aumentar a incorporação do COS. A interação do Al3+ e do Fe3+ com 
caulinita pode, sinergisticamentem, promover a agregação com impacto limitado no 
COS enquanto os óxidos e os hidróxidos de Al3+ interagem sinergisticamente com o 
COS e com a argila dispersiva aumentando a estabilidade do agregado. Ambos, o 
Al3+ e o Fe3+ controlam a agregação em solos ácidos com baixos conteúdos de 
argila e COS, tais como Oxisols. Os íons Fe3+ amorfos e MOS formam finas 
partículas estáveis nos solos com elevado conteúdo de COS. Partículas de fração 
grosseira são formadas por óxidos de Fe3+ que aumentam a força tensil dos 
agregados em Oxisols e aumentam a estabilidade de agregados em outros. 
c) Fósforo 
Os efeitos do P na agregação do solo são indiretos. Como a disponibilidade 
do nutriente afeta o crescimento das raízes e das plântulas, aumenta a produção 
das plantas e a cobertura da superfície do solo. A disponibilidade de P também 
influencia na colonização de fungos micorrízicos arbusculares (FMA), que afeta a 
morfologia das raízes e a agregação. A aplicação de P como fertilizante e ácido 
fosfórico pode conduzir à formação de fosfatos de Al3+ ou de Ca2+, que atuam como 
agentes agregantes. 
 
d) Sódio 
O Na+ é um agente altamente dispersivo que resulta diretamente no 
rompimento dos agregados e, indiretamente, afeta a agregação por meio do declínio 
da produtividade das plantas. O Na+ trocável na solução do solo e em sítios de troca 
contribui para a repulsão das cargas que dispersam as partículas de argila. O 
aumento na dispersão pelo Na+ pode quebrar os agregados, promovendo maior 
disponibilidade da MOS à decomposição. Práticas de manejo que substituem o Na+ 
nos sítios de troca de cátion por Ca2+ ajudam a amenizar os elevados conteúdos de 
Na+ e seus efeitos adversos. O gesso é usado como corretivo do solo para superar a 
 119 
sodicidade para redução a dispersão, a porcentagem de sódio trocável, (PST) e para 
aumento do C microbiano (Cmic). 
8 Influência bióticas na agregação 
8.1 Plantas 
a) Espécies de plantas 
Os efeitos combinados da composição bioquímica e da quantidade dos 
resíduos das plantas retornados aos solos e os produtos químicos liberados pelas 
plantas afetam a taxa e a estabilidade da agregação e a taxa de reciclagem dos 
agregados. Os agregados estáveis em água (AEA), o tamanho médio dos 
agregados e o diâmetro médio ponderado (DMP) estão correlacionados com a 
composição bioquímica dos resíduos das plantas: os fenóis, a lignina, as proteínas, 
os açúcares monossacarídeos, os sacarídeos, fenóis e AHS trocáveis alcalinas e os 
ácidos fenólicos tais como o ácido vanílico-vanalina dos resíduos. 
Os resíduos de milho (Zea mays) têm elevados conteúdos de fenóis e 
aumentam a agregação quando comparado com outras culturas. O cultivo contínuo 
de milho reduz os microagregados quando comparado com o milho cultivado em 
rotação. A estabilidade dos agregados do solo é elevada sob cultivos contínuos de 
alfafa (Medicago sativa). A baixa agregação do solo cultivado com soja é atribuída 
às baixas concentrações de fenóis e aos baixos retornos dos resíduos ao solo. 
b) Raízes 
As raízes das plantas e sua rizosfera têm vários efeitos na agregação do solo. 
As raízes emaranham e realinham as partículas do solo e liberam exudados, que 
resultam nas alterações físicas, químicas e biológicas que influenciam a agregação. 
A agregação tende a aumentar com o aumento do comprimento e da 
densidade das raízes, associações microbianas e glomalina. A estabilidade dos 
agregados é maior na rizosfera do solo que na área não rizosférica devido à 
rhizodepocomposição, massa, densidade de raízes e à distribuição de tamanho das 
raízes. Essa maior estabilidade de agregados na rizosfera também se deve à 
reciclagem, comprimento radicular e crescimento de hifas. 
Quimicamente, as raízes melhoram a agregação pela liberação de compostos 
que têm efeito cimentante nas partículas do solo. As mucilagens das raízes, como o 
ácido poligalacturônico, podem estabilizar os agregados pelo aumento das ligações 
e redução da taxa de molhabilidade. As raízes aumentam o ciclo de umedecimento e 
secagem do solo adjacente, que pode aumentar a estabilidade de agregados em 
alguns casos e reduzir em outros, o que possivelmente está relacionado ao tipo de 
argila. 
As raízes podem também alterar o balanço iônico e osmótico na rizosfera por 
meio da absorção e a rhizodecomposição de nutrientes que podem afetar a 
agregação. Diferentes sistemas de raízes afetam diferentemente a agregação 
devido às variações quanto às propriedades, exudados e funções diferentes das 
raízes. Geralmente, extensivas raízes fibrosas produzem níveis elevados de 
macroagregação. As raízes das plantas leguminosas estão associadas com elevada 
biomassa microbiana, aumento da agregação e do número de agregados estáveis 
 120 
em água quando comparadas com plantas não leguminosas. A estabilidade de 
agregados das plantas não leguminosas está relacionada com a massa das raízes. 
 
8.2 Microrganismos 
As raízes, os fungos e as bactérias melhoram a agregação pelo 
emaranhamento das partículas do solo, fornecendo compostos extracelulares que 
mantém as partículas unidas. É freqüentemente difícil separar os efeitos múltiplos 
dos organismos na agregação. 
 
a. Atividade Microbiana 
O efeito do tamanho do agregado na atividade microbiana depende de 
inúmeros fatores. Em alguns casos, a atividade microbiana pode depender do 
tamanho do agregado e em outros não. As bactérias estão freqüentemente 
associadas com as argilas e os polissacarídeos nos microagregados, resultando em 
menor biomassa microbiana nos microagregados do que nos macroagregados. A 
menor relação bactérias/fungos nos macroagregados do que nos microagregados 
sugere que a atividade bacteriana pode dominar na microagregação, enquanto que 
a atividade fúngica domina na formação do macroagregados. O aumento de 
macroagregados está associado com o aumento nas atividades fúngicas e resíduos 
frescos. 
A atividade microbiana varia com o tamanho do agregado, as estações do 
ano, as atividades de cultivo, o manejo, a qualidade e a quantidade de resíduos e 
tipo de solo. A influência microbiana é mais pronunciada em solos arenosos onde os 
microrganismos do solo produzem fonte de C prontamente disponível para a rápida 
estabilização dos agregados. Os tratamentos fungicidas podem reduzir o carboo 
microbiano no solo. 
 
a.1) Fungos, fungos micorrízicos arbusculares (FMA) e glomalina 
As hifas fungícas melhoram a estabilidade de agregados pela reorientação e 
união das partículas com polissacarídeos extracelulares e o emaranhamento das 
partículas. As hifas também emaranham microagregadospara formar 
macroagregados, sugerindo aumento da agregação com a densidade de hifas. 
Os FMAs constituem uma das influências bióticas mais importantes na 
agregação do solo. Glomalina é uma glicoproteína liberada dos FMA. Está presente 
nos solos em elevada concentração e é um fator importante na estabilização dos 
agregados, possivelmente devido à sua natureza recalcitrante e à elevada 
concentração em alguns solos. Os solos com elevados conteúdos de argilas 
expansivas têm maiores conteúdos de glomalina do que os solos que contêm argilas 
de baixa atividade. É possível que a natureza hidrofóbica e recalcitrante da molécula 
de glomalina pode proteger outros agentes agregantes. Os ciclos de umedecimento 
e secagem podem aumentar a polimerização e a hidrofobicidade na glomalina. 
 
8.3 Fauna do solo 
 121 
Vários insetos (completamente desenvolvidos ou não), artrópodes, minhocas, 
nematóides e os grandes macrorganismos vivem no solo e exercem influência 
importante na sua estrutura. Eles ingerem e eliminam material, realocando-o no solo 
e formando orifícios. Estruturas biogênicas formadas pelos organismos do solo tais 
como montículos e/ou aglomerações de térmitas (cupins) são freqüentemente 
protegidas da mineralização. 
Os efeitos destas atividades são variáveis. Os macrorganismos melhoram a 
aeração, a porosidade, a infiltração, a estabilidade de agregados, a incorporação da 
serrapilheira, aumentam a estabilização de N e C, a reciclagem de C e a redução de 
carbonatos e mineralização do N, a disponibilidade de nutrientes e a mobilidade dos 
metais. Estes efeitos podem degradar as propriedades do solo pela remoção do 
carbono orgânico dissolvido e quebra das ligações entre as partículas durante a 
ingestão. A dispersão é freqüentemente compensada durante a nova formação dos 
agregados e a ingestão de compostos do carbono recalcitrante (CR). 
O solo ingerido sofre muitas alterações, incluindo o realinhamento físico das 
partículas de argila e quebra das ligações dentro dos agregados, alterando o acesso 
microbiano ao COS. Excrementos, produtos eliminados misturados com o solo, a 
reorganização e a biosíntese do COS geralmente resultam no aumento do CR. A 
atividade da fauna do solo é importante na formação de complexos organo-minerais 
e na agregação. 
 
a) Minhocas 
As minhocas aumentam a agregação do solo por meio de mudanças 
biológicas e fisico-químicas. Elas exercem consideráveis influências diretas e 
indiretas na estrutura e no COS. O impacto das minhocas na agregação varia de 
acordo com a espécie, a qualidade da serrapilheira e com material de origem do 
solo. Por sua vez, as espécies e a população da minhoca são influenciadas pela 
qualidade e pela quantidade do material vegetal. 
Algumas minhocas digerem o solo e quebram as ligações, desestabilizando 
os agregados. Entretanto, os processos bioquímicos estabilizam os agregados. A 
reorganização de partículas do solo e a liberação de enzimas pelas minhocas 
influenciam a mineralização, o fluxo de água e as atividades microbianas. As 
minhocas aumentam o COS nos coprólitos, e, em menor extensão, nos materiais 
depositados nas paredes dos orificios. A atividade das minhocas aumenta os 
macroagregados estáveis em água. 
 
b) Térmitas (Cupins) 
O efeito dos térmitas no COS e na estrutura do solo varia com as espécies e 
solo. Impactos positivos e negativos ou nenhum dos dois têm sido relatados sobre 
COS. Em muitos casos, a ingestão do COS e sua transformação durante a digestão 
resultam em formas de COS mais estáveis na terminhosfera. A microagregação 
induzida pelos térmitas está relacionada com a composição do solo, promovida 
pelas concentrações dos gibsita e óxido de Fe nos trópicos. Entretanto, essa 
microagregação não ocorre em solos cauliníticos. 
 122 
9 Impactos Ambientais na Estrutura do Solo 
9.1 Elevadas concentrações de dióxido de carbono atmosférico e a estrutura 
do solo 
O efeito total da elevação do CO2 atmosférico na estrutura do solo não é 
muito bem compreendido, mas tendo em vista a importância do aumento na emissão 
de gases de efeito estufa para a atmosfera, torna-se importante refletir sobre o papel 
da estrutura do solo nesse aspecto. 
O aumento no CO2 atmosférico pode resultar em aumento da fotossíntese, 
seguido de aumento de fotoassimilados nas raízes e nas comunidades microbianas. 
Aumentando as taxas fotossintéticas, as plantas tendem a crescer mais, 
demandando maiores quantidades de nutrientes. 
Em locais onde os solos são pobres em nutrientes (solos de regiões 
tropicais), para que as plantas possam sobreviver, a tendência é que sejam 
favorecidas as espécies vegetais que apresentem associações simbióticas e que, 
por essa razão, conseguem suprir a falta de determinados nutrientes (ex.: 
leguminosas que fixam nitrogênio da atmosfera). O prodomínio de espécies que 
apresentam alguma associação simbiótica como as leguminosas, pode levar a uma 
alteração na composição química dos compostos das plantas. Se tal condição 
resultar em MOS com relação C/N baixa, o material orgânico apresentará rápida 
decomposição, podendo afetar negativamente a agregação. 
Em ambientes com disponibilidade adequada de nutrientes (solos de regiões 
temperadas), o aumento no CO2 atmosférico pode resultar em maior taxa 
fotossintética e, conseqüentemente, em maior crescimento vegetal. Entretanto, se 
não há limitações na disponibilidade de nutrientes, haverá grande desenvolvimento 
de diversas espécies vegetais, não só daquelas que apresentem alguma relação de 
simbiose. Isso levará ao aumento da MOS com composição química variada e taxa 
de decomposição equilibrada, favorecendo a agregação. 
Mudanças nas espécies dominantes e alocação de carbono (C) são 
mecanismos primários de mudanças no aporte e decomposição do C. As mudanças 
nas espécies de planta influenciam a distribuição da população microbiana e os 
compostos microbianos envolvidos no desenvolvimento estrutural do solo. A 
alocação de fotoassimilados para as raízes e os exudados das raízes tende a 
aumentar a MOS e os microrganismos na rizosfera. 
Aumentos no carbono microbiano podem ocorrer sob elevada concentração 
de CO2 como resposta indireta às mudanças no crescimento da planta. Pode ocorrer 
aumento nos fungos micorrízicos arbusculares (FMA) e no comprimento e 
longevidade das raízes. Aumento nos níveis do CO2 resulta no aumento de 
agregados estáveis em água, glomalina e no comprimento das hifas de FMA em 
cultivos de sorgo. O aumento do CO2 atmosférico pode resultar em baixa densidade 
de hifas, possivelmente devido à redução da difusão do oxigênio nos solos. Taxas 
de decomposição elevadas devido ao aumento da temperatura, umidade e atividade 
microbiológica podem ter grande influência na rápida reciclagem da 
compartimentalização do COS. Estas influências, compreendendo os resíduos 
superficiais e das plantas, mais que as frações mais lentas como raízes e C macro e 
 123 
microbiano, podem resultar na acumulação de MOS e aumento na proporção de 
microagregados. 
10 Aumentando o compartimento do COS 
O tipo de solo, o agente ligante, o manejo e as condições ambientais 
interagem na determinação da agregação. Práticas de manejo do solo que 
minimizam a pertubação e maximizam o retorno do carbono orgânico otimizam a 
produtividade e aumentam o compartimento do COS. 
O uso apropriado de corretivos como fertilizantes, calcários, estercos e 
compostos, pode aumentar o compartimento do COS e a agregação. Práticas 
agrícolas sustentáveis como consórcios, culturas de cobertura e rotações de colheita 
também podem aumentar o compartimento do COS. Práticas de manejo que 
reduzem as taxas de decomposição e as emissõesde CO2 também ajudam o 
aumento no armazenamento do COS. 
 
11 Manejo e melhoria na estrutura do solo 
11.1 Manejo do solo 
Para aumentar a agregação, o manejo do solo deve visar o aumento na 
produção primária das plantas e, consequentemente, o aporte de C, a redução das 
perturbações e das taxas de perdas de C por processos como a decomposição e a 
erosão. Melhorias nas práticas de manejo incluem métodos de cultivo, manejo dos 
resíduos, práticas corretivas, manejo da fertilidade do solo e reciclagem de 
nutrientes. 
a) Cultivo 
As operações de cultivo levam à destruição de agregados do solo, além de 
causar compactação e perturbar as comunidades de plantas e de animais que 
contribuem para a agregação. O cultivo também reduz a MOS, CTC, nutrientes, as 
atividades microbianas e da fauna que contribuem para a agregação. 
Em comparação com sistemas convencionais de manejo, o plantio direto têm 
mais agregados estáveis e COS. O cultivo reduzido pode resultar no aumento de 
macroporos e os biocanais que influenciam no movimento e na disponibilidade da 
água, aumentando a preocupação sobre a qualidade da água. Por sua vez, há 
impacto pela lixiviação e perdas de nutrientes e compostos químicos na drenagem 
da água no solo. A intensidade e o tempo de cultivo determinam a extensão do 
efeito do cultivo no COS. 
 
b) Cobertura morta e manejo de resíduos 
A cobertura morta melhora a estrutura do solo de diferentes formas. A adição 
da cobertura morta na superfície do solo reduz a erosão, a evaporação, protege o 
solo do impacto das gotas da chuva e aumenta a estabilidade de agregados. A 
cobertura morta aumenta a quantidade dos compartimentos do COS, modifica a 
temperatura, o regime de umidade e o impacto da fauna no solo. O retorno de 
resíduos das plantas ao solo melhora a estrutura e isto está relacionado com a 
quantidade e qualidade dos resíduos. 
 124 
 
c) Esterco 
A adição de esterco ao solo melhora a estrutura e o diâmetro médio 
ponderado dos agregados, aumentando a macroagregação e a resistência à quebra. 
Entretanto, pode reduzir a estabilidade dos agregados do solo contra a dissolução e 
às ações dispersivas. O aumento no COS resulta no aumento da atividade biológica 
que, por sua vez, resulta no aumento da porosidade e na redução da densidade do 
solo. 
O aumento na atividade microbiana devido ao aumento no C do solo por 
aplicações de esterco resulta no aumento da estabilidade dos agregados. Os solos 
com adição de esterco também têm elevada população de minhocas. Os solos sem 
esterco geralmente contêm menos COS e biomassa microbiana e são mais densos 
do que os solos com esterco. Além disso, seus agregados são mais fortes quando 
secos, e fracos quando úmidos. Por outro lado, solos com esterco têm agregados 
fortes quando úmidos e fracos quando secos. A diferença entre os solos quando 
seco parece estar relacionada à diferença na concentração de argilas dispersivas, 
enquanto que a diferença quando úmido está relacionada com a diferença na 
quantidade de material ligante orgânico. Micro e macroagregados têm maiores 
níveis de carboidratos em solos com esterco do que naqueles que recebem 
fertilizantes minerais. O aumento da concentração iônica pode ser uma preocupação 
nos solos com adição de esterco, devido ao aumento na susceptibilidade à 
dispersão e redução na estabilidade dos agregados. O esterco aumenta as 
concentrações de Na+, K+ e Mg2+ . As aplicações de esterco aumentam a dispersão 
de macroagregados grandes e afetam também o pH do solo e a disponibilidade de 
P. 
 
d) Compostos orgânicos 
A adição de compostos orgânicos ao solo melhora a estrutura e reduz a 
densidade. A compostagem pode aumentar a macroagregação e a estabilidade de 
agregados na rizosfera. As propriedades do solo e as condições ambientais 
determinam o impacto dos compostos na agregação, O déficit hídrico pode limitar a 
eficácia dos compostos na agregação. Os efeitos da adição dos compostos na 
estrutura do solo podem ser de curto prazo, embora esses efeitos sejam geralmente 
positivos. 
 
d) Fertilizantes e nutrientes 
A complexidade das influências químicas e físicas dos fertilizantes resulta em 
efeitos variáveis da fertilização na agregação. Aplicações de fertilizantes geralmente 
melhoram a agregação do solo, pois favorecem o crescimento das plantas e a 
formação de MOS. Entretanto, sob algumas condições, os fertilizantes podem 
também diminuir a concentração do COS, reduzir a agregação e as comunidades 
microbianas comparadas a solos com adição de esterco. Ainda assim, o uso de 
 125 
fertilizantes minerais frequentemente melhora a estrutura do solo em comparação a 
solos não fertilizados. 
O efeito primário do aumento de nutrientes tem melhorado a produtividade 
das plantas, o COS e a atividade biológica. O aumento no COS pelo uso de 
fertilizantes aumenta a agregação e o diâmetro médio ponderado. O uso de 
fertilizantes também aumenta a qualidade e a quantidade de resíduos, mas isto não 
necessariamente aumenta o compartimento do COS. As aplicações de fertilizantes 
alteram o pH e a concentração eletrolítica no solo, os quais podem ter efeitos 
adversos na estrutura. Os efeitos benéficos das aplicações de fertilizantes 
geralmente compensam alguns efeitos adversos da fertilização. O aumento nos 
resíduos das plantas e o crescimento das raízes aumentam o CL, a atividade 
microbiana e o Cmic, que melhoram a estabilidade dos agregados. Aumentos na 
disponibilidade de N por aplicação de fertilizantes aumentam a taxa de 
decomposição da FL-CL, enquanto estabiliza mais o CI. 
Os efeitos físicos e químicos dos fertilizantes estão relacionados ao tipo de 
fertilizante e tipo de solo. O uso de fertilizantes fosfatados melhora as ligações de 
Al3+ e de Ca2+. O ácido fosfórico promove a agregação do solo através da redução 
do pH, da mobilização de Al3+ e da precipitação subseqüente do fosfato de Al e atua 
como agente cimentante para formar agregados estáveis. Fertilizantes amoniacais 
podem dispersar as argilas, tendo efeito adverso na agregação do solo. O efeito 
dispersivo do amônio (NH4
+) é temporário e diminui já que a NH4
+ é nitrificada à 
NO3
−. 
 
e) Manejo das culturas 
O cultivo diminui o compartimento do COS microbiano e total e a fauna do 
solo, mas aumenta o CO2 metabólico. O manejo para aumentar o COS e a 
agregação inclui a fertilização, manejo das pastagens, a conversão do cultivo para 
vegetação nativa, incluindo culturas de cobertura, leguminosas e gramíneas, a 
inoculação com minhocas e a irrigação. 
 
e1) Rotação das culturas e culturas de cobertura 
A dinâmica dos agregados varia entre as diferentes culturas, rotações e 
culturas de cobertura. O efeito das diferentes culturas tende a refletir a composição 
química dos resíduos vegetais, estrutura e a habilidade radicular para alterar as 
propriedades químicas e biológicas do solo. Estes efeitos tendem a ser de curto 
prazo sob regimes de cultivos convencionais. Em alguns solos, as rotações podem 
não afetar a estabilidade dos agregados. As culturas de cobertura aumentam o 
aporte de C no solo, reduzem a erosão, aumentam a CTC, a estabilidade dos 
agregados, a infiltração da água e a reciclagem de nutrientes. Os resíduos das 
culturas de cobertura podem melhorar a biomassa microbiana, a respiração, a 
mineralização de N e alterar a comunidade microbiana. 
 126 
 
e2) Sistemas agrosilvipastoris 
A inclusão de árvores leguminosas em sistemas agrícolas reduz a erosão, 
melhora a fertilidade do solo e aumenta a produtividade de outras culturas. Sistemas 
agrosilvipastoris influenciam na MOS, que por sua vez influencia a agregação em 
comparação aos sistemasconvencionais. 
 
12 Conclusões 
A estrutura do solo tem papel vital, mas freqüentemente negligenciado na 
produção sustentável de alimentos e no bem-estar da sociedade. Uma visão mais 
holística do uso e manejo da terra é necessária para lidar com o aumento na 
pressão de uso do solo visando produção sustentável de alimento e fibras, enquanto 
reduz os impactos ambientais externos adversos das práticas agrícolas. 
O impacto na estrutura do solo varia de uma escala global para uma elevada 
escala local. Aumentos no seqüestro de C pelos agregados do solo podem reduzir a 
concentração de CO2 na atmosfera e estar associado com o aquecimento global. 
Melhorias na estrutura do solo aumentam a reciclagem de nutrientes, a 
disponibilidade de água e a biodiversidade enquanto reduz a erosão pela água e 
vento, melhora a qualidade das águas superficiais e subterrâneas. 
Processos e mecanismos envolvidos na agregação do solo são complexos e 
possuem mecanismos de reciclagem complicados. A agregação do solo pode ser 
melhorada por práticas de manejo que, ao mesmo tempo em que reduzam a taxa de 
decomposição do COS, também diminuam as perturbações no agroecossistema, 
aumentem a fertilidade do solo, os aportes orgânicos e a cobertura proporcionada 
pelas plantas. 
A decomposição do COS pode ser reduzida pelo isolamento dos produtos do 
C lábil dentro dos agregados e aumento da proteção química pela entrada de 
compostos de CR ou a transformação do CL em compostos de CR e CI. A estrutura 
do solo pode ser melhorada por meio do uso de culturas e práticas de manejo 
culturais que promovam a agregação. Dentre estas práticas, são citados o uso de 
culturas com elevado CR e elevada produção de biomassa, retorno dos resíduos 
culturais e incorporação de culturas de cobertura. 
A agregação também tende a aumentar com o aumento do comprimento e 
densidade das raízes; as raízes fibrosas extensivas produzem maiores níveis de 
macroagregação. A melhoria da diversidade e da quantidade da flora e da fauna do 
solo é importante para melhorar a estrutura do solo. A atividade da fauna do solo é 
importante na formação de complexos organo minerais na agregação. 
 
13 Bibliografia 
 127 
BRONICK, C.J. & LAL, R. Soil structure and management: a review. Geoderma, 
124:3-22, 2005. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 128 
PARTE VI – EROSÃO DO SOLO 
 
1 Conceito 
Erosão é um processo de desgaste da superfície e/ou arrastamento das 
partículas do solo por agentes, tais como: água das chuvas (hídricas), ventos 
(eólica), gelo (mudanças de temperatura) ou outro agente geológico, incluindo 
processos como o arraste gravitacional. 
 
2 Importância no contexto global 
A importância do estudo da erosão do solo advém dos efeitos que os processos 
erosivos podem ter no ambiente, principalmente associados à degradação de solos 
agrícolas, ao assoreamento de cursos e reservatórios de água e a perda de 
produtividade dos solos agrícolas. 
Geralmente, a elaboração de políticas públicas visando adoção de práticas 
conservacionistas contra a erosão dos solos somente torna-se prioridade quando 
aspectos relacionados às perdas financeiras são evidenciados. Algumas literaturas 
mostram que os gastos econômicos em função da perda do solo por erosão podem 
ser muito elevados. Uri & Lewis (1998) e Pimenta et al. (1993) indicam que, para a 
economia americana, os custos decorrentes das perdas de solo por erosão já 
ultrapassaram a casa dos 30 bilhões de dólares por ano. Para as condições da 
Inglaterra já foram relatados custos na ordem de 90 milhões de libras por ano 
(Environment Agency, 2002). Já para a Indonésia, mais precisamente na ilha de 
Java, os gastos resultantes das perdas de solo giram em torno de 400 milhões de 
dólares ao ano (Magrath & Arens, 1989). 
Mas como medir os custos da erosão do solo? Telles et al. (2010) ressaltam que 
os custos da erosão do solo podem ser divididos em on-site (direto ou interno – 
produtor), consistem nas perdas que ocorrem na propriedade agrícola; e off-site 
(indireto ou externo – sociedade), perdas que ocorrem fora da propriedade agrícola 
e que atingem toda a sociedade (PIMENTEL et al., 1995; CROSSON, 1995; 
MARQUES, 1998). 
Telles et al. (2010) citam diferentes autores que destacam os principais danos 
representativos dos custos on-site da erosão do solo, tais como: reposição de 
nutrientes, produção sacrificada e desvalorização do preço das terras. Com relação 
aos custos off-site, são citados: assoreamento, enchentes, tratamento de água, 
geração de energia elétrica, reparação do patrimônio público, perdas biológicas, 
aquecimento global, calamidade pública, aumento no preço dos alimentos. 
Por meio de práticas conservacionistas, que controlem a erosão, estes custos 
podem ser minimizados, garantindo a sustentabilidade dos sistemas de produção 
(LAL, 2006; MONTGOMERY, 2007). As práticas conservacionistas devem ser 
conduzidas visando reduzir a taxa de perda de solo para valores semelhantes aos 
que ocorrem em condições naturais. Enquanto as perdas de solos cultivados podem 
variar de 45 a 450 t ha-1, as perdas de solo em condições naturais ficam bem abaixo 
dos valores anteriormente mencionados (Relevo suave – 0,0045 t ha-1; Relevo 
moderado – 0,45 t ha-1). Para que se consiga reduzir as taxas de perda em solos 
 129 
cultivados, é preciso adotar estratégias adequadas de conservação e, para que isso 
seja possível, é fundamental entender como funcionam os processos erosivos. 
Os fatores que influenciam a erosão são regidos por: energia, resistência e 
proteção. A energia geralmente está relacionada aos agentes causadores da 
erosão, já a resistência e a proteção dizem respeito às características do solo em 
resposta aos agentes erosivos. A erosão apresenta variações no espaço e no 
tempo. 
 
2.1 Variação espacial dos processos erosivos 
Como o nome já diz, trata-se das variações da erosão no espaço, indicando 
em quais locais os processos erosivos ocorrem com maior intensidade. Na busca 
por essa percepção, vale destacar a relação entre precipitação (chuvas), cobertura 
vegetal e erosão (Figura 1): 
 Locais com precipitação total abaixo de 450 mm: erosão aumenta com a 
precipitação (cobertura vegetal fraca); 
 Locais com precipitação entre 450 e 650 mm: erosão diminui com a 
precipitação (cobertura vegetal suficiente); 
 Locais com precipitação acima de 1700 mm: erosão aumenta com a 
precipitação (vegetação não consegue proteger o solo). 
Mas ainda assim, variações podem ocorrer devido a: tipo de solo, relevo e 
cobertura. 
 
Figura 1. Relações entre produção de sedimentos e a precipitação média anual 
(Walling & Kleo, 1979). 
 
 130 
Se taxas erosivas são agrupadas em categorias de vegetação natural, terra 
cultivada e solo nú, as maiores perdas ocorrem nas condições semiáridas, 
semiúmidas e tropical. 
 
Ex.1: Perdas de solo me áreas não cultivadas na África (Roose, 1971). 
 Savana: 0,15 t ha-1 ano-1; 
 Savana densa: 0,20 t ha-1 ano-1; 
 Floresta tropical: 0,03 ha-1 ano-1. 
 
Ex.2: Perdas de solo em áreas preparadas para agricultura 
 Savana: 8 t ha-1 ano-1; 
 Savana densa: 26 t ha-1 ano-1; 
 Floresta tropical: 90 ha-1 ano-1. 
Ex.3: Perdas de solo em áreas com solo descoberto 
 Savana: 20 t ha-1 ano-1; 
 Savana densa: 30 t ha-1 ano-1; 
 Floresta tropical: 170 t ha-1 ano-1. 
 
Os exemplos são indicativos de que a remoção da floresta tropical aumenta mais 
os riscos de erosão em relação à remoção da savanna (devido aoalto potencial 
erosivo das chuvas tropicais). 
Estudos recentes têm enfocado mais a vulnerabilidade do semiárido à erosão. Na 
região semiárida há um grande problema, pois há necessidade de preservar água e 
a ecologia local é vulnerável. Assim, a remoção da vegetação para estabelecer 
agricultura no semiárido leva à rápida diminuição na matéria orgânica e à exaustão 
dos nutrientes do solo, resultando numa série de outros impactos que aumentam os 
riscos de desertificação. 
 
2.2 Variação temporal dos processos erosivos 
Como o nome também já diz, trata das variações na erosão ao longo do 
tempo, servindo de indicativo a respeito das épocas em que há maior ocorrência de 
erosão. 
Ao longo de um ano ocorrem muitos eventos chuvosos de pequena 
magnitude e poucos eventos de grande magnitude. Por outro lado, considerando um 
longo período de tempo, é esperado que a erosão ocorra durante eventos de 
moderada freqüência e magnitude. 
O fato é que taxas erosivas normalmente seguem um padrão sazonal e isso é 
bem ilustrado em locais com estação seca e chuvosa bem definidas (Figura 2). 
 131 
 
Figura 2. Ciclos sazonais de precipitação, vegetação e erosão (Kirkby, 1980) 
 
Por meio da Figura 2, é possível constatar que o pico de vegetação para proteger 
o solo ocorre já no final do período chuvoso. Assim, há maior susceptibilidade à 
erosão na fase inicial das chuvas (alta chuva, mas ainda sem vegetação suficiente 
para proteger o solo). Há variações sazonais mais complexas, como as que ocorrem 
em locais com regime hídrico também mais complexo e em locais em que a terra é 
preparada para agricultura. As variações sazonais em longo prazo estão 
relacionadas com mudanças na cobertura do solo (floresta/área cultivada). 
Com o amento da população mundial, a necessidade de produzir mais alimentos é 
uma realidade do mundo atual. Para cumprir a demanda de maior produção de 
alimentos, o uso mais intensivo das terras parece inevitável. Nesse sentido, a 
expansão da agricultura para terras menos aptas certamente levará ao aumento nas 
perdas de solo por erosão, ocasionando risco à segurança alimentar, bem como 
tantos outros problemas ligados à erosão. 
Nesse contexto, o conhecimento de práticas conservacionistas deve ser voltado 
para a resolução de problemas como: 
 Altas taxas de erosão em terras agrícolas; 
 Redução anual de 15 a 30% do potencial produtivo dos solos; 
 132 
 Dificuldade de recuperar solos degradados pela perda da fertilidade; 
 Perda anual estimada de 6 milhões de hectares de terras por ano (erosão e 
outras formas de degradação). 
 
3 A degradação do solo no nordeste brasileiro 
A produção agropecuária da região Nordeste do Brasil experimenta grandes 
obstáculos associados a uma complexa sinergia de fatores que concorrem para a 
degradação da base de recursos naturais da região e que dificultam, ou até 
inviabilizam, produzir bens agrícolas em boa parte dos municípios dos nove estados 
que a compõem. Podem-se listar estes fatores da seguinte forma: 
a) Elevado nível de concentração fundiária, que é uma das mais desiguais do 
mundo. Isto induz uma grande concentração de famílias, quase sempre numerosas, 
em pequenos estabelecimentos ou minifúndios, o que conduz a uma super 
exploração, representando sobrecarga sobre a base de recursos naturais. 
b) Instabilidade climática cuja melhor tradução é a ocorrência sistemática das 
secas, o maior problema do Nordeste. Neste item precipitação de chuvas, refere-se 
à forma irregular com que as chuvas se distribuem na região, tanto temporal como 
espacialmente. 
c) Modo de condução das atividades agrícolas na Região. De um lado, 
observam-se as práticas dos pequenos produtores explorando a terra 
intensivamente até a exaustão da sua fertilidade natural e sem qualquer prática de 
reposição dessa fertilidade. A principal preocupação desses produtores é com a 
sobrevivência não tendo acesso às técnicas conservacionistas de uso do solo. Por 
outro lado, observa-se o uso intensivo de máquinas e implementos e agroquímicos 
em geral. O uso intensivo conduz à compactação do solo, à eliminação da cobertura 
vegetal natural, à perda da camada superficial do solo, juntamente com a matéria 
orgânica. Assim, a superfície fica exposta, tanto à ação dos raios solares, como 
também à ação das chuvas. Estes dois fatores, associados aos ventos, provocam a 
erosão dos solos. 
d) Eliminação da cobertura vegetal natural, tanto nos pequenos 
estabelecimentos quanto nos grandes. Ademais, esta vegetação ainda é utilizada 
como uma das principais fontes de energia na região, tanto na forma de lenha 
quanto na forma de carvão vegetal. Vale ressaltar que esta fonte de energia 
(derivada da cobertura vegetal) ainda é largamente utilizada nos domicílios, 
sobretudo das zonas rurais, para o cozimento de alimentos, e também por indústrias 
de diferentes portes instaladas no interior do Nordeste. 
 
4 Tipos de erosão 
Erosão geológica: é um processo construtivo, não influenciado pelo homem, 
onde as taxas de formação superam as de remoção do solo. É reconhecível 
somente com o decorrer de longos períodos de atividade. Este processo possibilita a 
formação dos contornos naturais do relevo na crosta terrestre, formando os vales, 
montanhas, planícies, planaltos, deltas, etc. Exemplos: Chapada da Ibiapaba, o 
Maciço Residual de Baturité e os Tabuleiros Costeiros. 
 133 
Erosão acelerada: processo rápido e destrutivo e iniciado pelo próprio 
homem, no qual as taxas de remoção superam as taxas de formação ou gênese dos 
solos. Quase todas as operações agrícolas são intensificadoras do processo 
erosivo. Exemplos: A retirada da cobertura vegetal expõe a superfície do solo e 
propicia condições para que os ventos e água atuem de forma mais direta pela não 
absorção dos impactos das gotas de chuva, eliminação de obstáculos à 
movimentação dos ventos e favorecimento do escoamento superficial formando 
enxurradas, acentuando ainda mais o processo erosivo. O cultivo do solo contribui 
ainda mais por desagregá-lo, favorecendo a individualização das partículas ou a 
diminuição do tamanho dos agregados, facilitando, a movimentação destes pelos 
ventos e água (Figuras 3 e 4). 
 
5 Agentes de erosão 
Os agentes erosivos atuam geralmente de forma conjunta, podendo, ou não 
serem intensificados pelo homem. Os principais são: 
 
Água: provavelmente é o principal agente erosivo, atuando por meio das 
chuvas, enxurradas, ondas e os próprios cursos d´água. 
 
Ventos: a ação dos ventos ocorre pela abrasão de partículas de rochas e 
solo em suspensão. Mais comum no litoral e em regiões de desertificação. 
 
Mudanças de temperatura: quando considerado como agente de erosão 
geológica é perceptível somente quando se considera longo período de tempo, 
como por exemplo, as fraturas geradas nas rochas. Estas fraturas tendem a ser 
superficiais nas variações de temperatura entre o dia e a noite, enquanto são mais 
profundas quando originadas das alternâncias entre o verão e o inverno. 
 
Biológico: ação de organismos vivos tais como liquens e musgos sobre as 
rochas, os quais podem proporcionar condições para que outros agentes erosivos 
como a água e os ventos atuem. 
 
6 Fases do processo erosivo 
São definidas três fases para o processo erosivo: 
Desagregação: O umedecimento dos agregados durante as chuvas ameniza 
as forças de coesão entre as partículas do solo, tornando os agregados mais 
susceptíveis a fragmentação com o impacto continuado das gotas de chuva. 
Contribuem também nesta fase as enxurradas formadas pelo escorrimento 
superficial. 
 
Transporte: as partículas de solo desagregadas pelas gotas poderão sertransportadas pelo salpique, ou seja, junto com as gotículas de chuvas subdivididas 
 134 
e que se deslocam com o impacto das primeiras gotas. As enxurradas formadas 
pelo escorrimento superficial são outro meio de transporte. 
 
Deposição: Após diminuir ou cessar a velocidade e turbulência da enxurrada 
e encerradas as chuvas, as partículas de solo são então depositadas nas porções 
mais rebaixadas do relevo. Este processo pode ocasionar o assoreamento de cursos 
d’água ou reservatórios. 
 
7 Tipos de erosão em função dos agentes causadores 
Erosão hídrica: A erosão hídrica é causada por forças ativas, tais como as 
chuvas, a declividade e comprimento do declive do terreno e a capacidade que o 
solo tem de absorver água, e por forças passivas, como a resistência do solo à ação 
erosiva e a densidade da cobertura vegetal. 
 A água da chuva exerce sua ação erosiva sobre o solo pelo impacto das 
gotas, que caem com velocidade e energia variáveis, dependendo do seu diâmetro, 
e pelo escorrimento da enxurrada. 
 O volume e a velocidade da enxurrada variam com a chuva, com a 
declividade e o comprimento do declive do terreno e com a capacidade do solo em 
absorver mais ou menos água, 
 A resistência que o solo oferece à ação erosiva da água está determinada por 
diversas de suas características e/ou propriedades físicas e químicas, e pela 
natureza e quantidade do seu revestimento vegetal. 
 
Erosão eólica: Normalmente mais associada a regiões planas, de poucas 
chuvas, onde a vegetação natural não proporciona cobertura efetiva da superfície e 
sujeita a ventos constantes. 
Os principais fatores que afetam a erosão eólica são: 
 
Clima: precipitação, vento, temperatura, umidade, viscosidade e densidade 
do ar; 
Solo: textura, estrutura, densidade das partículas, matéria orgânica, umidade 
e a rugosidade da superfície; e 
Vegetação: altura e densidade da cobertura vegetal. 
 Os problemas mais sérios ocasionados pela erosão eólica são as mudanças 
na textura, nas condições físicas e na fertilidade. As partículas mais finas são 
carreadas, permanecendo as mais grosseiras e normalmente menos produtivas, 
uma vez que esta separação remove os materiais mais importantes do ponto de 
vista de produtividade e retenção de água, como também deixa o material mais 
arenoso, ficando, assim, o solo mais erodível que o original. Com a continuação do 
processo, o crescimento de plantas fica mais restrito, e a erodibilidade do solo 
aumenta. 
 
8 Formas de erosão hídrica 
 135 
As formas de erosão mais comuns relatadas na literatura são a laminar, em 
sulcos e voçorocas, todas definidas a partir da progressiva concentração de 
enxurrada na superfície. 
Outras formas devem ser comentadas, tidas como especializadas, uma vez 
que ocorrem associadas a estas, como por exemplo, a erosão por salpicamento ou o 
efeito do impacto da gota de chuva, na verdade o primeiro e mais importante estádio 
do processo de erosão. 
Erosão pelo impacto das gotas de chuva: É o primeiro passo no processo 
de erosão, pois as gotas destroem agregados, reduzindo-os a tamanhos menores, 
bem como contribuem para o processo de redução da velocidade de infiltração de 
água no perfil, favorecendo desta forma a formação de enxurradas. 
 
Erosão laminar: É o tipo de erosão em que finas camadas de solo são 
removidas em toda uma área, sendo a menos notada visualmente. Pode ser 
percebida a partir da exposição de raízes de plantas perenes. 
 
Erosão em sulcos: É uma forma de erosão resultante da concentração da 
enxurrada em alguns pontos do terreno, atingindo volume e velocidades suficientes 
para formar sulcos mais ou menos profundos. 
Na sua fase inicial, os sulcos podem ser desfeitos com as operações normais 
de preparo do solo, porém em estádio mais avançado, podem atingir profundidades 
que interrompem o trabalho de máquinas. 
 
 
Figura 3. Erosão em sulco em vários graus de severidade. 
 
Erosão em voçorocas: É uma forma espetacular de erosão, ocasionada por 
grandes concentrações de enxurrada que passam, ano após ano, no mesmo sulco, 
o qual vai se ampliando pelo deslocamento de grandes massas de solo, formando 
grandes cavidades em extensão e profundidade. 
 
 136 
 
Figura 4. Voçorocas em Morro de Ferro - MG 
 
Deslocamentos e escorregamentos de massas de solo: Ocasionados, às 
vezes, por cortes feitos nas bases dos morros bastante inclinados. Exemplos podem 
ser dados pelas quedas de barreiras, muito comuns no domínio pedobioclimático 
dos Mares de Morros. 
 
Erosão em pedestal: Ocorre quando um solo de grande susceptibilidade à 
erosão encontra-se protegido da ação de salpicamento por uma pedra ou raízes de 
árvores, ou seja, material mais resistente a erosão. A erosão na vizinhança é 
principalmente por salpicamento, não havendo ação da enxurrada, evidente pelo 
não desgaste da base dos pedestais. 
 
Erosão em pináculo: Caracterizada por deixar altos pináculos no fundo e 
nos lados das voçorocas, está geralmente associada a condições altamente 
erosionáveis de alguns solos. É um tipo de erosão sempre associado a sulcos 
verticais profundos nas voçorocas (Figura 4). 
 
Erosão em túnel: Ocorre em solos sujeitos a erosão em pináculos, formando 
túneis contínuos ou canais subterrâneos. Ocorrem quando a água de superfície se 
movimenta dentro do solo até encontrar uma camada menos permeável, arrastando 
partículas mais finas da camada mais porosa. 
9 Limites aceitáveis de erosão 
 
A erosão geológica é um processo natural sendo qualitativa e 
quantitativamente aceitável. Porém, o que pode ser normal quando se considera o 
homem intervindo nos agroecossistemas, visando a produção sustentável de 
alimentos? 
 O limite a ser considerado deve ser a não existência de processos erosivos, 
pois se entende que os sistemas agrícolas sejam tecnicamente conduzidos, 
 137 
permitindo a estabilidade física, química e biológica do solo, viabilizando a produção 
agrícola perpétua de alimentos. 
 Alguns autores estabelecem a possibilidade de aceitar a erosão em níveis 
que não ultrapassem a taxa de formação de solos. Entretanto, isso pode ser 
questionável, pois a taxa pode não ser precisamente medida para as diferentes 
classes de solo. 
 Estimativas gerais consideram a necessidade de 300 a 1.000 anos para a 
formação de 25 mm de solo, sendo esta estimativa reduzida para 100 anos quando 
se considera o revolvimento do solo pelo cultivo. Nos Estados Unidos adota-se como 
limite superior de perda de solo tolerável o valor de 11,2 t ha ano-1, equivalente a 
uma taxa de formação de 25 mm em 30 anos (0,83 mm ano-1). 
 Contudo, estes limites podem ser mais restritivos quando se consideram os 
resultados obtidos por Galindo & Margolis (1989) para solos no estado de 
Pernambuco. Utilizando duas metodologias diferentes, estes autores encontraram 
valores variáveis entre 0,98 a 0,09 mm. ano-1, respectivamente para um Latossolo 
Vermelho-Amarelo textura argilosa e Luvissolo Vértico textura média/argilosa (Bruno 
não Cálcico). 
Estes números evidenciam que os limites podem ser bastante restritivos, o 
que leva a necessidade de desenvolvimento real de sistemas que sejam 
eficientemente conservadores, sobretudo para solos da condição semi-árida. 
 
10 Estimativas da quantidade de erosão 
 As primeiras estimativas numéricas da quantidade de erosão nas décadas de 
20 e 30 não consideravam a definição e avaliação das causas e efeitos de um 
fenômeno natural. Este também é o caso da Equação Universal de Perda de Solo 
(EUPS), desenvolvida pelo Departamento de Agricultura dos EUA nos anos 60. 
Nesta época iniciaram-se os trabalhos que procuravam entender o processoerosivo, 
tentando entendê-lo e reproduzi-lo física e matematicamente. Uma grande 
quantidade de dados foi produzida com a aplicação e desenvolvimento dos modelos 
empíricos, dando condições para o desenvolvimento destes modelos. 
 Contudo, os princípios qualitativos fundamentais para a estimativa da perda 
de solo consideram que a causa fundamental da erosão do solo é a atuação da 
chuva sobre a superfície do solo. Este fenômeno pode ser dividido em como a 
erosão do solo irá ser afetada pelos diferentes tipos de chuva e como variará com as 
diferentes condições de solo. 
 A quantidade de erosão depende da combinação do poder da chuva em 
causar erosão e da habilidade do solo em resistir aos efeitos da chuva. Em termos 
matemáticos, a erosão é função da erosividade das chuvas e da erodibilidade do 
solo. 
Erosividade pode ser definida como a habilidade potencial da chuva em 
provocar erosão. Para uma dada condição de solo, uma chuva pode ser comparada 
com outra quantitativamente, permitindo o estabelecimento de uma escala numérica 
de erosividade. 
 138 
 A susceptibilidade do solo ao processo erosivo define a erodibilidade do solo, 
podendo ser atribuída a três fatores básicos. O primeiro diz respeito às 
características mecânicas, químicas e físicas do solo as quais podem ser medidas 
em laboratório. O segundo está relacionado com a topografia, especialmente a 
declividade do terreno. Por último, a erodibilidade vai ser dependente do tratamento 
que está sendo dado ao solo e ao manejo das plantas sobre o mesmo, compondo, 
desta forma, dois outros componentes deste fator: a cultura (tipo, fertilização, 
produtividade esperada etc) e o tratamento dado ao solo (o uso ou não de práticas 
conservacionistas, tipo de preparo do solo, intensidade de cultivo etc.). 
 Sendo assim, pode-se estabelecer que a erosão do solo é função da 
erosividade das chuvas, envolvendo a energia de todos componentes da chuva 
(gotas e enxurradas) e da erodibilidade do solo. A erodibilidade do solo, por sua vez, 
pode ser decomposta em componentes associados às características e/ou 
propriedades do solo que o tornam mais ou menos susceptível a erosão, bem como 
componentes relacionados ao manejo da superfície do solo, minimizando os efeitos 
dos grandes comprimentos de rampa e elevadas declividades, e também, das 
condições em que a cultura está sendo conduzida, estabelecendo maiores ou 
menores perdas de solo pela cobertura proporcionada à superfície do solo. 
 
11 Tamanho e distribuição das gotas de chuva 
 Os primeiros experimentos de determinação do tamanho das gotas de chuva 
foram feitos em 1892. Gotas de chuva foram coletadas utilizando-se placas de 
ardósia divididas em quadrados, sendo o tamanho das gotas obtido através do 
tamanho do salpico (impacto) das gotas de chuva. 
 Outra técnica para este tipo de determinação é o uso de papel absorvente 
juntamente com algum tipo de pó sobre a sua superfície, de tal forma que, após o 
impacto, ter-se-ia a marca circular característica daquele tamanho de gota, medida 
pelo seu diâmetro. O tamanho das gotas de chuva seria obtido pela relação com o 
diâmetro da mancha no papel associado a contrastes de calibração para o papel 
absorvente obtidas em laboratório. Esta metodologia atualmente é facilitada pelo uso 
de scanners e programas computadorizados de determinação de área ou forma. 
 Uma técnica muito popular é o método de pelets de flocos. Gotas de chuva 
são coletadas em bandejas contendo farinha de trigo. Cada gota de chuva forma um 
pequeno glóbulo de farinha umedecido que, após secagem, pode ser separado do 
restante. Experimentos prévios de laboratório podem estabelecer uma relação entre 
o tamanho do glóbulo e da gota de chuva. Outras formas de avaliação do tamanho 
de gotas de chuva podem ser utilizadas e estão associados também ao momento e 
a energia cinética das chuvas: sensores acústicos, sensores de medida de pressão, 
etc. 
 A variação dos tamanhos de gotas tem sido medida em vários países 
utilizando os métodos comentados, sendo identificado 5 mm como o limite superior. 
Experimentos em túnel de ventos indicam diâmetro de gotas estáveis em torno de 
4,6 mm, sendo instáveis acima de 5,4 mm de diâmetro, podendo desintegrar ou não 
neste intervalo, dependendo da turbulência. Fotografias em alta velocidade mostram 
 139 
que a forma das gotas tende a uma esfera achatada em função da resistência do ar. 
Experimentos de campo confirmam os diâmetros máximos referidos anteriormente. 
Normalmente não se encontram gotas maiores que 5 ou 6 mm, a não ser que em 
condições de colisão, quando podem ser formadas gotas de maior diâmetro. 
 As proporções de tamanhos de gotas e como se distribuem variam com as 
diferentes chuvas. A observação direta evidencia que chuvas de baixa intensidade e 
que podem durar dias são formadas por gotas de pequeno diâmetro, enquanto que 
em chuvas de alta intensidade, as gotas são de diâmetros muito maiores. 
 Estudos têm mostrado que há uma relação entre o diâmetro de gotas de 
chuva (pelo menos 50% delas) e intensidade. Com esta relação não há dúvidas de 
que aumentando a intensidade das chuvas há um correspondente aumento do 
tamanho das gotas, diminuindo também o tamanho quando a intensidade das 
chuvas reduz (Figura 5). No entanto, sabe-se que existe um limite físico para o 
tamanho máximo de gotas, havendo uma reversão nesta relação em chuvas de 
muito altas intensidades. Curvas de distribuição de tamanhos de gotas para 
intensidades crescentes mostram claramente que o valor máximo do diâmetro de 
gota chega ao máximo até 80 a 100 mm de chuva por hora, decrescendo a 
intensidades maiores (Figuras 6 e 7). 
 
 
 
Figura 5. Distribuição do tamanho de gotas em baixas e médias intensidades de 
chuvas (Fonte: Hudson, 1995). 
 
 
 
Figura 6. Distribuição do tamanho de gotas em altas intensidades de chuva 
 140 
(Fonte: Hudson, 1995). 
 
12 Velocidade terminal 
 Um corpo em queda livre irá acelerar até que a resistência do ar seja igual à 
força da gravidade, continuando em queda a uma dada velocidade constante. Esta 
velocidade é conhecida como velocidade terminal e vai depender do tamanho e da 
forma deste corpo. A velocidade terminal das gotas de chuva aumenta com o 
aumento do tamanho. Gotas em torno de 5 mm de diâmetro apresentam uma 
velocidade terminal de 9 metros por segundo (Figura 7). 
 
 
 
Figura 7. Velocidade terminal de gotas de chuva (Fonte: Hudson, 1995). 
 
 Muitas medidas da velocidade terminal foram feitas em laboratório no início 
do século, obtendo-se valores semelhantes, considerando o aparato utilizado. 
Medidas posteriores, utilizando equipamentos mais modernos, obtiveram valores de 
velocidade terminal 15% superiores quando comparadas às medidas do início do 
século. A metodologia de determinação da velocidade terminal envolve a detecção 
dos pulsos elétricos gerados quando as gotas d´água passam por anéis de indução 
em função da carga elétrica presente nesta. Quando a chuva é acompanhada por 
ventos, o componente resultante pode ser maior que a velocidade terminal. O efeito 
irá ser maior sobre gotas de pequeno diâmetro caindo vagarosamente do que em 
grandes gotas com alta velocidade. 
 141 
 
 
 
13 Momentum e energia cinética 
 Há evidências experimentais de que o poder erosivo das chuvas está 
relacionado à parâmetros compostos derivados de combinações de mais de uma 
propriedade física. A energia cinética das chuvas e o seu momentum são exemplos. 
Se o tamanho das gotas e sua velocidade terminal são conhecidos, então é possível 
calcular o momentum da chuva caindo ou sua energia cinética pela soma dos 
valores individuais paracada gota d´água. 
 Alguns estudos indicam que a taxa de destacamento de partículas de solo 
está muito mais associada ao momentum que à energia. Entretanto, tem sido visto 
que para chuvas naturais, as relações entre intensidade e momentum ou energia 
são similares. 
 O cálculo indireto da energia das chuvas proporcionou melhores resultados 
do que tentativas de medida direta do momentum das chuvas, pois as forças 
envolvidas são tão pequenas que alguns instrumentos não são suficientemente 
sensíveis para se fazer o registro da energia das chuvas diretamente. 
Sensores acústicos (ruído das chuvas obtido por em microfone e 
transformado em um sinal que pode ser medido) e piezoelétricos (mudanças de 
pressão sobre um cristal de quartzo gerando um sinal elétrico) e transdutores de 
pressão (registro da pressão do impacto das gotas d´água sobre um meio elástico) 
são algumas das metodologias mais recentes para aplicação nestes casos, todos 
com vantagens e desvantagens. 
 Alguns dos primeiros resultados obtidos e conduzidos em vários países são 
mostrados na Figura 8. Entretanto, estes resultados apresentam poucas medidas 
em altas intensidades e que também foram feitas por diferentes pesquisadores, não 
podendo ser identificado se as variações observadas são devidos às diferentes 
técnicas e qual a real diferença entre as chuvas nos vários países. Resultados de 
alguns destes estudos são apresentados na forma de equações matemáticas 
relacionadas basicamente à intensidade de chuva e energia cinética. Pesquisas 
sobre esta matéria estão sendo estimuladas pelo conhecimento que se tem da forte 
relação entre energia ou momentum e o poder de provocar erosão. 
 
Equações relacionando energia cinética e intensidade de chuvas: 
 E = 916 + 331 log I, sendo E= energia das chuvas em pé.ton. acre-
1.polegadas e I = intensidade de chuva em pol.h-1; 
 E= 210 + 89 log I, sendo E= energia das chuvas em ton.m. ha-1.cm-1 e I = 
intensidade de chuva em cm. h-1; 
 E= 11,9 + 8,7 log I, sendo E = energia das chuvas em J.m-2.mm-1 e I = 
intensidade de chuva em mm.h-1 ; 
 E = 29,22 (1-0,894e-0,004771), sendo E = energia das chuvas em J.m-2 .mm-1 e I 
= intensidade de chuva em mm.h-1 ; 
 142 
 E = 30-125/I, sendo E = energia das chuvas em J.m-2.mm e I = intensidade de 
chuva em mm.h-1 ; 
 E = 9,81 + 11,25 log I, sendo E = energia das chuvas em J.m-2 .mm-1 e I = 
intensidade de chuva em mm.h-1 ; 
 
 
Figura 8. Relação entre energia cinética e intensidade em diferentes países. 
 
14 Impacto da gota d’água e o escoamento superficial 
A erosão do solo é um processo de trabalho e envolve o gasto de energia em 
todas as fases da erosão pelas chuvas, tais como a quebra e o salpicamento de 
agregados no ar, o aumento da turbulência das enxurradas e no transporte e 
carreamento de partículas de solo. 
 O impacto das gotas de água é vital para o processo erosivo e sua 
importância pode ser confirmada por meio da comparação da energia cinética 
disponível em uma chuva caindo e a existente nas enxurradas (Quadro 1). Observa-
se que as quantidades de energia envolvidas em um e outro são muito grandes, 
sendo que a energia das chuvas é cerca de 256 vezes maior que a energia 
envolvida no escoamento superficial. 
Na prática, os efeitos do impacto das gotas d’água foram facilmente 
demonstrados no passado. Foram utilizadas parcelas (1,5 m x 27,5 m), sendo uma 
com a superfície do solo recoberta a certa altura por tela plástica com pequeno 
diâmetro de abertura, o suficiente para subdividir as gotas d’água em outras 
menores, atenuando a velocidade de queda, enquanto a outra parcela não foi 
coberta. Observou-se que a perda de solo na parcela coberta não foi eliminada, mas 
reduzida a 1/100 da perda de solo observada na parcela desprotegida. 
 
Quadro 1. Energia cinética (EC = (½ x m x (V)2)) das chuvas e o escoamento 
superficial 
Variáveis Chuvas Escoamento superficial 
Massa Massa da chuva caindo = R Massa do escoamento 
superficial = R/4 
Velocidade Velocidade terminal = 8m/s Velocidade do 
 143 
escoamento na superfície 
= 1 m.s-1 
Energia cinética ½ x R x (8)2 = 32R ½ x R/8 x (1)2 = R/8 
 O selamento da superfície do solo é outra conseqüência do impacto da gota 
d’água, reduzindo a velocidade de infiltração no solo, o que favorece o aumento do 
escoamento superficial. O aumento da turbulência nas enxurradas formadas pelo 
escoamento superficial, aumenta bastante capacidade de destacamento e 
carreamento de partículas do solo. 
 
15 Estimativa da erosividade das chuvas 
Vários estudos foram desenvolvidos no mundo buscando identificar a melhor 
associação entre as características das chuvas naturais e a quantidade de perda de 
solo, ou seja, a erosividade das chuvas. 
O melhor método para estimar a perda de solo é composto pelo produto da 
energia cinética de uma chuva nos 30 minutos consecutivos de sua duração total e 
que correspondam à maior intensidade de chuva. A intensidade de chuva é obtida a 
partir de registros de pluviográfos, considerando-se o período de 30 minutos de 
maior intensidade e a quantidade de chuva ocorrida. A medida da erosividade 
descrita é denominada de Índice IE30. 
Métodos alternativos têm sido estudados. Um deles considera que as chuvas 
acima de 25 mm h-1 são consideradas erosivas, sendo o índice associado 
denominado de K. Este índice apresenta boas correlações com as perdas de solo e 
é definido por toda energia cinética da chuva que cai a mais de 25 mm h-1. Para as 
condições de clima temperado um índice semelhante considera chuvas com 
intensidade superiores a 10 mm h-1. 
Os dados de IE são apresentados no exemplo abaixo utilizando dados de um 
pluviográfo (Quadro 2). 
 
Quadro 2. A intensidade máxima de chuva em 30 minutos (IE30) é dada pela 
fórmula EC = 11,9+8,7 log I máxima. 
Tempo de 
duração da 
chuva 
(minutos) 
Quantidade de 
chuva (mm) 
Intensidade 
de chuva1 
(mm h-1) 
Energia de chuva2 
(J m-2 mm-1) 
Total 3 
(J m-2) 
0-5 0 - - - 
5-10 1 12 21,29 21,29 
10-15 1 12 21,29 21,29 
15-20 2 24 23,90 47,80 
20-25 2 24 23,90 47,80 
25-30 3 36 25,44 76,32 
30-35 3 36 25,44 76,32 
34-40 3 36 25,44 76,32 
40-45 3 36 25,44 76,32 
 144 
45-50 2 24 23,90 47,80 
50-55 2 24 23,90 47,80 
55-60 1 12 21,29 21,29 
 400,88 
 
16 Aplicações de um índice de erosividade 
A habilidade de avaliar numericamente o poder erosivo das chuvas tem duas 
aplicações principais: a definição de práticas conservacionistas e a pesquisa para 
ajudar a melhorar o conhecimento e o entendimento a respeito da erosão. 
No primeiro caso, o conhecimento da erosividade das chuvas em determinada 
área pode auxiliar na definição de quais práticas de conservação do solo a serem 
adotadas, permitindo também um dimensionamento mais adequado destas. 
Diferentes características de chuva nos vários ambientes de um país irão 
condicionar valores de erosividade também distintos, pois as chuvas predominantes 
nesta região são típicas e diferenciadas de outra região. 
Mapas de erosividade de chuvas podem ser confeccionados, permitindo 
prever melhor a ocorrência da erosão do solo e a definição da aplicação ou não de 
uma ou outra prática. A eficiência da aplicação destes índices torna-se maior à 
medida que são mais detalhados, ou seja, se há índices para as várias épocas do 
ano, ou mesmo mensais, é possível estabelecer critérios muito mais discriminatórios 
para a aplicação das práticas conservacionistas. 
A implantação de determinada prática conservacionista que requer o 
estabelecimento prévio de uma cobertura vegetal protetora, a qual necessita de 
certa umidade de solo, como os canais escoadourosnos sistemas de 
terraceamento, pode ser mais bem definida quando se conhec a erosividade das 
primeiras chuvas. O estabelecimento da cobertura vegetal deve ocorrer nas 
condições de menor erosividade, pois estas chuvas vão propiciar a umidade 
necessária para o desenvolvimento de plantas e não necessariamente deverão 
provocar erosão. 
A pesquisa da erosão do solo utiliza tanto chuvas naturais quanto simuladas. 
Índices de erosividade são essenciais, pois permitem a distinção criteriosa do teste 
de diferentes práticas ou táticas de manejo ao longo dos anos, uma vez que 
certamente se têm variações quanto às chuvas de um ano para o outro. Quando se 
utilizam estes índices, pode-se avaliar se a erosão de uma determinada prática em 
relação a outras é devida à mesma ou às diferenças entre chuvas nos anos de 
estudo. O mesmo pode ser aplicado a uma estação de cultivo. O início ou fim desta 
estação pode levar às perdas de solo diferenciadas dependendo das características 
das chuvas predominantes no início ou fim da mesma. 
 
 
 
 
17 Erodibilidade do solo 
 145 
Como já definido, a erodibilidade do solo é a sua vulnerabilidade ou 
susceptibilidade a erosão, sendo a sua recíproca resistência. Enquanto a 
erosividade pode ser avaliada diretamente por meio de propriedades físicas das 
chuvas, a erodibilidade é mais complicada, pois depende de uma série de variáveis. 
De forma mais ampla, a erodibilidade do solo pode ser aplicada a todas as demais 
variáveis envolvidas na perda de solo, exceto a erosividade das chuvas. É também 
utilizada mais especificamente como uma medida única do efeito das 
características/propriedades do solo, sendo os fatores associados ao manejo do solo 
e da cultura avaliados separadamente. 
Três grandes grupos de fatores afetam a erodibilidade do solo: as 
características/propriedades fisicas e químicas, as características associadas à 
topografia e o manejo da terra. 
As características/propriedades do solo que influenciam a erodibilidade são as 
que afetam a velocidade de infiltração, a permeabilidade e a capacidade de 
absorção da água, além daquelas que levam a resistência à dispersão, ao 
salpicamento, à abrasão e às forças de transporte de chuva e enxurrada. A 
infiltração é o movimento da água da superfície do solo para a subsuperfície e 
quanto maior sua velocidade, menor a intensidade de enxurrada na superfície, 
reduzindo, conseqüentemente, a erosão. 
 Durante uma chuva, a velocidade máxima de infiltração ocorre no começo, e 
usualmente decresce muito rapidamente, de acordo com alterações na estrutura da 
superfície do solo. Se a chuva continua, a velocidade de infiltração gradualmente 
aproxima de um valor mínimo, determinado pela velocidade com que a água pode 
entrar na camada superficial e pela velocidade com que ela pode penetrar através 
do perfil do solo. 
Por muitos anos os cientistas de solo têm tentado relacionar vulnerabilidade 
do solo às suas características/propriedades e que possam ser medidas em 
laboratório ou no campo. As primeiras tentativas relacionam as perdas de solo com 
a textura, suas variações de composição e as mudanças no perfil, sendo que alguns 
autores propuseram índices de erodibilidade a partir das classes granulométricas 
principais. O grau de agregação, quantificado por diferentes metodologias, é 
considerado um bom indicador da erodibilidade. A avaliação da estabilidade de 
agregados (solos bem agregados, poros maiores, maior infiltração) pode ser feita 
por meio do peneiramento úmido e agitação (com certa tendência a subestimar), 
utilizando-se como referência a porcentagem de agregados estáveis ou instáveis em 
água ou determinada classe de diâmetro de agregados. 
Outra forma considerada na literatura é a resistência ao impacto das gotas 
d’água, sendo considerado, por alguns autores, como o melhor indicador, permitindo 
também a avaliação do efeito do selamento do solo por partículas finas. A literatura 
relata que alguns autores, avaliando diversas metodologias, verificaram que a 
estimativa da erodibilidade do solo não é afetada pelo uso de parâmetros fáceis e 
simples de serem medidos, sendo considerados como os mais importantes à 
 146 
porcentagem de agregados instáveis e a porção das partículas em suspensão 
(basicamente a quantidade de argila dispersa em água). É relatado também que, em 
alguma extensão, a erodibilidade é dependente do material de origem. 
Como rotineiramente a estabilidade de agregados não é facilmente medida, 
alternativas de estimativa da erodibilidade a partir de parâmetros que tenham um 
efeito similar já foram propostas. Entre as medidas a serem utilizadas, a percolação 
e a infiltração, incluindo ou não os teores de matéria orgânica, a estrutura, a 
permeabilidade. Estas propostas foram transcodificadas em nomógrafos como os 
apresentados na Figura 9. 
 
Figura 9. Nomógrafo de erodibilidade do solo (Fonte: Hudson, 1995). 
 
18 Topografia 
 
As terras de relevo irregular são mais vulneráveis a erosão hídrica, uma vez 
que o salpico, o escoamento superficial e o transporte, têm seus efeitos acentuados 
em maiores declividades. A influência da topografia na erosão do solo depende do 
efeito integrado da declividade e do comprimento do declive, sendo diretamente 
proporcionais a estes fatores. 
 Fisicamente o movimento da enxurrada pode ser explicado pela associação 
com um corpo em plano inclinado (Figura 10): 
 
 
 
 
 
 
 147 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 10. Decomposição de forças num movimento de um corpo num plano 
inclinado 
 
Em um corpo (enxurrada) inclinado atuam duas forças: o seu peso P e a 
reação normal do plano N. Como essas duas forças não atuam na mesma direção, 
elas não se equilibram, admitindo uma resultante que, na ausência de atrito, faz com 
que o bloco desça o plano com aceleração constante (a). 
 Para determinar esta aceleração é necessário conhecer a força resultante que 
atua neste corpo. Decompõe-se, para isso o peso P em dois componentes, um 
perpendicular ao plano (Py) e outro paralelo (Px). 
Substituindo o peso P por seus componentes, pode-se verificar que Py e N se 
equilibram, pois N é a reação normal ao plano a esse componente do peso. Logo a 
força resultante que atua sobre o corpo é Px. 
Analisando a Figura 9, têm-se: 
 
Py = N 
Sen  = Px/P Px = P. Sen ; e 
Cos  = Py/P Py = P. Cos . 
 
Aplicando-se a segunda lei de Newton em módulo e considerando que Px é a 
força resultante responsável pelo movimento que atua sobre o corpo, tem-se que: 
 
FR = m.a, sendo FR = Px 
 
Px = P. sen ; e 
 
m.a = P. sen  
 
P = m.g 
 
m.a = m.g. sen  
 
 
 
a = g. sen . 
 
N 
 
Py 
 
P 
 
Px 
 
 148 
 
Essa é a expressão da aceleração adquirida por um corpo (enxurrada) que 
desliza, sem atrito, sobre um plano inclinado com ângulo  em relação ao horizontal. 
Assim, quanto maior o angulo , ou seja, a declividade do terreno, maior a 
aceleração deste corpo. 
Sendo assim, quanto maior a declividade, maior a aceleração no movimento 
do corpo e, conseqüentemente, maior a velocidade deste corpo, uma vez que: 
V2f = V
2
i  2 a.S 
 
Considerando: 
 
Ec = MV
2/2 
 
Quanto maior a velocidade maior a energia cinética deste corpo, 
conseqüentemente quanto maior o poder erosivo da enxurrada (o corpo em 
movimento num plano inclinado) 
Além disso, considerando as equações anteriores, quanto maior o espaço a 
ser percorrido pelo corpo maior a velocidade deste corpo, considerando os demais 
fatores constantes. Sendo assim, quanto maior o comprimento dos declives, maior 
tendea ser a distância a ser percorrida pela enxurrada e o seu poder erosivo. Há 
condições para o aumento do volume da enxurrada, sua massa e sua velocidade. 
 
19 Manejo do Solo e a erosão 
As variações na perda de solo provocada pelos diferentes tipos de manejo são 
muito maiores do que a erosão em diferentes solos com o mesmo tipo de manejo. É 
comprovada que a erosão é muito mais influenciada pelo manejo do que por outro 
fator, incluindo uma detalhada discussão relativa ao manejo do solo e da cultura. 
O melhor manejo pode ser definido como o mais intensivo e produtivo uso pelo 
qual a terra é capaz de produzir sem causar erosão, ou seja, o uso em acordo com a 
sua aptidão. Para a identificação desta aptidão existem ferramentas já vistas nesta 
disciplina e incluem os sistemas de Capacidade de Uso das Terras e o 
FAO/Brasileiro. 
 
20 Manejo da cultura ou cobertura vegetal 
Semelhante ao item anterior, a erosão é grandemente afetada pelos diferentes 
tipos de uso do solo. No entanto, um uso particular pode ter também grandes 
variações na quantidade de perda de solo dependendo do conhecimento detalhado 
dos cultivos. Para uma mesma cultura, quando não manejada racionalmente, pode 
haver erosão de forma acentuada sendo função da efetividade da cobertura vegetal 
proporcionada ao solo. 
A cobertura vegetal atua na redução do processo erosivo por meio dos seguintes 
mecanismos: proteção direta contra o impacto das gotas de chuva; dispersão da 
água interceptando-a e evaporando-a antes que atinja o solo; decomposição das 
raízes das plantas, formando canalículos e aumentando a infiltração da água; 
 149 
melhoramento da estrutura do solo pela adição de matéria orgânica e aumentando a 
capacidade de retenção de água; e diminuição da velocidade de escoamento da 
enxurrada pelo aumento do atrito na superfície. Mesmo culturas com tendência de 
exposição da superfície do solo, como por exemplo, a mamona e o algodão, se 
manejadas adequadamente poderão proporcionar uma efetiva minimização das 
perdas do solo. 
A vegetação é importante também na erosão eólica pela redução da 
velocidade do vento na superfície do solo e absorção da maior parte da força 
exercida sobre o solo. O efeito da cobertura vegetal vai depender do tipo, estádio de 
desenvolvimento e produtividade. 
 
21 Necessidade de medidas de controle da erosão 
Diante do exposto pode-se estabelecer que a erosão é função da erosividade 
das chuvas (R), envolvendo a energia de todos os componentes da chuva (gotas e 
enxurradas), e da erodibilidade do solo. 
A erodibilidade do solo, por sua vez, pode ser decomposta em componentes 
associados às características e/ou propriedades do solo que o tornam mais ou 
menos susceptível a erosão, bem como componentes relacionados ao manejo da 
superfície do solo, minimizando os efeitos dos grandes comprimentos de rampa e 
elevadas declividades (LS). Além disso, a erodibilidade também depende das 
condições em que a cultura está sendo conduzida (C), estabelecendo maiores ou 
menores perdas de solo pela cobertura proporcionada na superfície do solo. 
A análise dos fatores que influenciam no processo erosivo considerando o 
uso agrícola, analisando pelos aspectos relativos à erosividade das chuvas e 
erodibilidade do solo, leva à discussão de como a erosão pode ser controlada. 
No primeiro caso, o poder erosivo das chuvas está fora de controle, restando 
atuar em fatores que podem ser modificados por uma intervenção técnica. As 
propriedades intrínsecas do solo que o caracterizam ser mais ou menos susceptível 
à ação do processo erosivo também apresentam caráter limitado de ação, restando, 
em maior extensão o uso do solo e o manejo a ser dado às culturas existentes em 
sua superfície, as quais estão mais efetivamente sobre o controle humano. Tal 
quadro leva à discussão a respeito de quais seriam as práticas ou alterações no 
manejo do solo e da cultura que levam às menores perdas de solo e água. Este será 
o assunto de aula prática. 
22 Bibiografia 
BERTONI, J. & LOMBARDI NETO, F. Conservação do solo. São Paulo, Ícone, 1999. 
355p. 
GALINDO, I.C. & MARGOLIS, E. Tolerância de perdas por erosão para solos do 
estado de Pernambuco. R. Bras.Ci. Solo, 13:95-100.1989. 
HUDSON, N. Soil conservation. Ames, Iowa State University Press, 1995. 391p. 
SILVA, J.R.C. Erosão e produtividade do solo no semi-árido. In: OLIVEIRA, T.S.; 
ASSIS Jr., R.N.; ROMERO, R.E. & SILVA, J.RC., eds. Agricultura, 
sustentabilidade e o semi-árido. Fortaleza, DCS-UFC, 2000. P.169-213. 
 150 
 
7. PRÁTICAS CONSERVACIONISTAS E SISTEMAS DE MANEJO 
 
Algumas das causas do esgotamento de nossos solos pela erosão podem ser 
controladas, e todas as técnicas utilizadas para aumentar a resistência do solo ou 
diminuir as forças do processo erosivo denominam-se práticas conservacionistas. 
Estas podem ser divididas em vegetativas, edáficas e mecânicas, segundo se utilize 
a própria vegetação, se tratem de modificações nos sistemas de cultivo, ou se 
recorra a estruturas artificiais construídas mediante a remoção ou disposição 
adequada de porções de terra. Cada uma delas resolve apenas parcialmente o 
problema; assim, para a melhor solução, deverão ser aplicadas simultaneamente, a 
fim de abranger com a maior amplitude possível os diversos aspectos do problema. 
As práticas vegetativas e edáficas são mais simples de executar e de manter; 
sempre se deve recorrer a elas, utilizando as mecânicas como complementares, 
naqueles casos em que a combinação das outras não consiga a suficiente proteção 
dos terrenos. 
Neste capítulo, além das práticas, são apresentados os sistemas de manejo 
do solo, tais como a rotação de culturas, o preparo do solo e o plantio direto. 
A conservação do solo não se reduz à simples aplicação de um número 
determinado de práticas: é todo sistema de manejo do solo de assegura a obtenção 
dos maiores lucros possíveis sem diminuir a produtividade do terreno. 
 
7.1. Práticas de caráter vegetativo 
 
As práticas de caráter vegetativo são aqueles em que se utiliza a vegetação 
para defender o solo contra a erosão. 
A densidade da cobertura vegetal é o princípio fundamental de toda proteção 
que se oferece ao solo, perseverando-lhe a integridade contra os efeitos danosos da 
erosão. Realmente, a erosão do solo é tanto menor quanto mais densa é a 
vegetação que o recobre e protege. A importância para a conservação do solo da 
densidade de cobertura vegetal – compreendendo esta não somente as plantas 
como os resíduos vegetais. 
A utilização racional de vegetação para recobrir e travar o solo é um dos 
princípios básicos da sua conservação. É evidente, porém, que no seu emprego 
para fins agrícolas, nem sempre é econômico mantê-lo inteiramente recoberto com 
vegetações protetoras, o que não impede, entretanto, que dentro dos planos de 
produção sejam incluídos sistemas de proteção do solo baseados nas vegetações 
de revestimento e de travamento. 
 
7.1.1. Florestamento e reflorestamento 
 
As terras de baixa capacidade de produção e, ao mesmo tempo, muita 
suscetíveis à erosão, deverão ser recobertas de vegetações permanentes bastante 
 151 
densas, como as florestas, permitindo, assim, uma utilização econômica das terras 
inadequadas para cultura, e proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, a preservação. 
Para certos solos muito inclinados, muitos pobres ou muito erodidos, a 
cobertura com florestas é a maneira mais econômica e segura de utilização. Nas 
regiões de topografia acidentada, as florestas devem ser formadas no topo dos 
morros a fim de reduzir as enxurradas que se formam nas cabeceiras, atenuando os 
problemas de controle de erosão nos terrenos situados mais baixo,e 
proporcionando, pela maior infiltração, uma regularização das fontes de água. 
 
O reflorestamento ciliar é usado para a proteção das margens dos rios, 
empregando espécies arbóreas que fornecem frutos comestíveis, como ingazeiros 
ou amoreiras, para alimentação dos peixes. 
Para certos tipos de erosão, como voçoroca o reflorestamento das cabeceiras 
e dos barrancos é bastante vantajoso. 
As florestas exercem papel importante no equilíbrio ecológico da região e na 
economia das propriedades agrícolas. Toda propriedade agrícola necessita de uma 
área com mata para fornecimento de lenha, madeiras, etc., indispensáveis à 
organização e manutenção da propriedade. As matas fornecem ambiente para a 
fauna silvestre, abrigando e alimentando aves e animais úteis como controladores 
de pragas ou como fornecedores de caça. 
Sem dúvida, entre os trabalhos mais urgentes de defesa dos solos, está o 
restabelecimento da floresta em zonas extensas desmatadas, incorporando-as à 
economia da nação como produtoras de redá. Da forma como essa tarefa seja 
conduzida depende o futuro de muitas regiões. Em muitos países, já se começa a 
criar uma consciência dos imensos benefícios da árvore, e surgem campanhas de 
reflorestamento que permitem augurar o restabelecimento do equilíbrio ecológico em 
zonas extensas que se podem transformar em prósperos produtores de riqueza. 
 
7.1.2. Pastagem. 
 
Os terrenos onde as culturas não proporcionam produções compensadoras 
ou onde é grande o perigo pela erosão devem ser reservados às pastagens, que 
fornecem também boa proteção ao solo. A combinação agricultura-pecuária bem 
administrada constitui ideal para a manutenção da fertilidade do solo; de um lado, 
assegura a produção de uma densa vegetação durante períodos longos às áreas 
que dela necessita, e, de outro, fornecem adubo orgânico. 
As pastagens, embora em intensidade em pouco menor que as florestas, 
fornecem grande proteção ao solo contra os estragos pela erosão. Seu trato pode 
afetar grandemente seu valor como revestimento do solo contra a erosão. 
Um peso de gado muito grande, por exemplo, pode resultar em uma 
vegetação excessivamente raleada e reduzida, redundando em uma diminuição 
considerável da proteção contra a erosão. Assim, para que as pastagens possam 
constituir uma eficiente maneira de proteger o solo contra a erosão, um cuidado 
essencial será mantê-las com um peso de gado compatível com a sua capacidade. 
 152 
Um bom sistema de evitar que os pastos sejam muito raleados pelo gado, será fazer 
o rodízio de pastagens; para tal fim, sua área total será dividida em determinado 
número de pastos, sendo o gado passado de um para o outro, dentro de uma 
sequência determinada. Assim, os pastos terão tempo suficiente para se refazerem, 
sem o perigo do pastoreio excessivo. 
Deve-se evitar, sempre que possível atear-lhes fogo: este pode ser uma 
causa da diminuição da densidade da cobertura vegetal das pastagens, com 
sensível prejuízo para a proteção do solo oferecida contra a erosão. 
A fim de manter as pastagens com uma densidade de cobertura capaz de 
proporcionar uma capacidade de suporte de gado razoável e, ao mesmo tempo, 
suficiente para garantir a proteção do solo contra a erosão, uma das práticas mais 
recomendadas é o ressemeio periódico. Dessa maneira, reformando-se a pastagem 
e semeando ou plantando mudas de espécies de capim ou leguminosas mais 
indicadas, conseguir-se-á uma cobertura de maior capacidade de suporte e 
consequentemente, de maior capacidade de proteção do solo contra a erosão. 
É muito difícil dar indicações precisas sobre manejo de pastos, pois, mas os 
seguintes pontos gerais podem servir de guia para tanto: (a) o pasto deve ser 
mantido livre de ervas daninhas, devendo, porém, ter misturas de leguminosas e 
gramíneas; (b) quando a fertilidade do solo diminuir, é conveniente a aplicação de 
um fertilizante químico completo; (c) quando a acidez do terreno é muito alta, deve-
se corrigi-la, mediante a aplicação de calcário, a fim de proporcionar o crescimento 
de leguminosas; (d) os pastos recém-estabelecidos não devem ser pastoreados até 
que as plantas tenham desenvolvido um sistema radicular que permita suportar o 
pisoteio; (e) as árvores de sombra para abrigo do gado devem ser localizadas na 
parte alta do terreno, e longe dos riachos ou córregos e grotas; (f) os pastos não 
devem ser sobre-pastoreados; (g) o pastoreio misto, de várias espécies de animais, 
assegurada sempre melhor utilização da pastagem; e (h) os sulcos e camalhões em 
pastagens, em contorno, são uma prática recomendada para solo argiloso, para 
regiões de pouca chuva e para pastagens em formação. 
 
7.1.3. Plantas de cobertura. 
 
Essas plantas se destinam a manter o solo coberto durante o período 
chuvoso a fim de reduzir os efeitos da erosão e melhorar as condições físicas e 
químicas do terreno. 
As plantas de cobertura além de controlarem os efeitos da erosão e evitarem 
que os elementos nutritivos postos em estado solúvel no solo sejam lixiviados nas 
águas de percolação, também proporcionam uma eficiente proteção da matéria 
orgânica do solo contra o efeito da ação direta dos raios solares. 
Um grande benefício dessas plantas é a produção de matéria orgânica para 
incorporação ao solo. O aumento do conteúdo de matéria orgânica no solo melhora 
as suas condições físicas e estimula os diversos processos químicos e biológicos. 
De todos os resíduos das plantas, as raízes são, sem duvida, o mais importante, 
pois o seu crescimento subterrâneo possibilita a acumulação de matéria orgânica a 
 153 
profundidades variáveis. A matéria orgânica melhora a estrutura e a capacidade de 
retenção da umidade dos solos: aos argilosos, plásticos, confere melhor resistência, 
refletindo não só na maior facilidade de aeração e crescimento das plantas, como 
também na melhoria das condições de aeração; aos solos arenosos, melhora sua 
capacidade de retenção de umidade, refletindo decisivamente no crescimento das 
plantas de cultivo durante as épocas muito secas. 
No caso de culturas anuais, as plantas de cobertura são intercaladas nos 
ciclos da cultura, visando substituí-la assim que ela seja retirada do terreno. 
No caso de culturas perenes, como cafezal, cacaual, seringal, pomares, as 
plantas de cobertura são utilizadas principalmente para suplementar o efeito de 
cobertura já proporcionado pelas plantas cultivadas, cobrindo os claros deixados no 
terreno por suas copas. 
As plantas utilizadas como cobertura, nas culturas anuais, são principalmente 
as mesmas leguminosas empregadas para adubação verde, ou seja, a mucuna, as 
crotalárias, o feijão-guandu. Nas plantas perenes, as plantas de cobertura são, 
também, as mesmas usadas para adubação verde, a saber: o calopogônio 
(Calopogonium mucunoides Desv.), a jetirana (Centrosema pubescens Benth.), o 
feijão-de-porco (Canavalia ensiformes (L.) D. C.), algumas crotalárias (Crotalaria 
ssp.), o cudzu-comum (Pueraria thunbergiana Benth.). 
Pode-se verificar o efeito das plantas de cobertura, mesmo que não sejam 
leguminosas, quando enterradas, na melhoria das condições físicas do solo. As 
partículas minerais menores, ou seja, as argilas, tendem a unirem-se, de maneira a 
impedir a penetração do ar, a absorção e retenção de umidade; os solos argilosos 
endurecem quando secos e, quando úmidos, tornam-se pegajosos e pouco 
permeáveis, condições essas que afetam gravemente a produção de culturas. Ao 
enterrar-se a planta de cobertura, o volumoso material que se mistura ao solo 
melhora as condições de aeração e, à medida que avançam os processos de 
decomposição, o enriquecimento em húmus, resultante da incorporação do material 
vegetalao solo, modifica ainda mais as condições físicas desfavoráveis, pois os 
abundantes coloides que o húmus contém, de grande poder absorvente, rodeiam as 
partículas minerais, em forma de película fina que retém a umidade e é capaz de 
absorver e reter os nutrientes. 
Outro efeito das plantas de cobertura, quando enterradas, é a melhoria da 
solubilidade de muitas substâncias minerais do solo. Os elementos nutritivos para as 
plantas provêm da decomposição das rochas e do material originário do solo, 
através da meteorização, que torna esses materiais lentamente aproveitáveis; o 
aumento da atividade dos microrganismos proporcionado pela incorporação de 
material orgânico acelera enormemente esse processo, de maneira que as culturas 
podem logo dispor das quantidades de nutrientes requeridas. 
O sombreamento do solo, proporcionado pelas plantas de cobertura, é outro 
efeito importante. Nas regiões tropicais, o solo descoberto, submetido à ação direta 
do sol e da água da chuva, sofre prejuízos graves e rápidos na sua produtividade; 
com as plantas de cobertura, consegue-se o estabelecimento de uma boa proteção 
sobre o terreno, amenizando esse efeito prejudicial dos fatores meteorológicos. 
 154 
A prática das plantas em cobertura pode ser contra-indicada se o custo das 
sementes for alto, tornando-a muito cara. Ela requer, também, precauções contra a 
disseminação de pragas ou enfermidades ocasionadas por plantas que podem ser 
hospedeiras de fungos e insetos que atacariam as culturas principais: é o caso de 
algumas leguminosas susceptíveis a nematoides radiculares, que atacam muitas 
plantas cultivadas. Em regiões secas, os adubos verdes têm pouca utilização em 
virtude da competição em água, que refletirá na produção da cultura principal. 
 
7.1.4. Cultura em faixas 
 
Consiste na disposição das culturas em faixas de largura variável, de tal 
forma que a cada ano se alternem plantas que oferecem pouca proteção ao solo 
com outras de crescimento denso. Pode-se considerá-la como uma prática 
complexa, pois combina o plantio em contorno, a rotação, as plantas de cobertura e, 
em muitos casos, os terraços. 
Dentre os diversos sistemas de controle de erosão, tanto hídrica como eólica, 
a cultura em faixas é um dos mais eficientes e práticos para culturas anuais; para 
controle da erosão hídrica, deve ser orientada no sentido das curvas de nível do 
terreno, e para controle da erosão eólica, deve ser executado pelos lavradores sem 
despesas extras, uma vez que só altera a disposição das culturas e sua orientação 
com relação ao declive ou aos ventos dominantes. 
O efeito da cultura em faixas para controle da erosão é baseado em três 
princípios: as diferenças em densidades das culturas empregadas, o parcelamento 
dos lançantes e a disposição em contorno. A disposição alternada de culturas 
diferentes faz com que as perdas por erosão sofridas por determinada cultura sejam, 
em parte, controladas pela que vem logo abaixo; culturas como o feijão, mamona e a 
mandioca perdem mais solo e água por erosão do que amendoim, algodão e arroz, 
e estas, por sua vez, perdem mais que soja, batatinha, milho e cana-de-açúcar. 
Algumas vezes, uma mesma cultura, plantada em diferentes épocas, pode 
proporcionar diferenças de densidade de vegetação aproveitáveis para o sistema de 
culturas em faixas, como por exemplo, a cana-de açúcar. O parcelamento dos 
lançantes, pela cultura em faixas, é uma das causas de redução das perdas por 
erosão, pois estas aumentam progressivamente com o comprimento dos lançantes; 
as larguras das faixas deverão ser determinadas em função do declive do terreno, 
do tipo de solo e da cultura. A disposição em contorno é um dos fundamentos 
básicos do sistema de cultura em faixas, e as culturas diferentes, dispostas em 
contorno, contribuirão para reduzir os prejuízos da erosão. 
No caso da erosão eólica, varia a orientação dada às faixas, pois as correntes 
a que será necessário antepor obstáculos, são as correntes dos ventos dominantes; 
as faixas terão que ser orientadas de modo a serem perpendiculares à direção dos 
ventos dominantes. O lançante, nesse caso, deve-se entender o comprimento ao 
longo da direção dos ventos dominantes. 
Podem-se distinguir dois sistemas principais de culturas em faixas: (a) faixas 
de exploração contínua, em que as culturas existentes permanecem de um ano para 
 155 
outro na mesma posição; e, (b) faixas em rotação, em que anualmente todas as 
culturas mudam de posição, segundo um plano preestabelecido de rotação. O 
sistema de faixas em rotação adapta-se, em geral, a qualquer tipo de cultura anual 
ou semiperene (cana-de-açúcar, mandioca, sisal); é sempre interessante incluir no 
plano de rotação uma leguminosa, de preferência para o enterrio como adubo verde, 
de forma a garantir a manutenção e o melhoramento da fertilidade do solo. 
A locação das faixas pode ser feita de três maneiras: (a) faixas niveladas: 
todos os limites entre faixas são locados na linha de contorno do terreno; (b) faixas 
paralelas: apenas uma linha mediana da gleba é marcada em contorno, sendo as 
demais linhas divisórias entre faixas tiradas paralelamente à mesma; (c) faixas 
associadas: combinando os dois sistemas anteriores, de tal modo que uma faixa 
paralela se alterne com uma nivelada, esta com largura irregular e aquela com 
largura regular. O sistema de faixas niveladas é o mais adequado para terrenos de 
topografia irregular; o controle de erosão será mais eficiente em virtude de as fileiras 
de plantas seguirem, com maior aproximação as curvas de nível do terreno, 
podendo ter nas linhas de transição das faixas a construção de reforços de proteção 
mecânica (terraços); as faixas se apresentam com largura irregular de acordo com 
as mudanças de declividade do terreno, e com bastantes ruas mortas que dificultam 
os trabalhos de cultivo e trato. O sistema de faixas paralelas é recomendado apenas 
para terrenos de topografia suave e declives muito uniformes; sendo as faixas de 
largura uniforme, não há ruas mortas, oque facilita as operações de cultivo e trato. O 
sistema de faixas associadas, que é a associação de faixas paralelas, é executado 
marcando uma linha nivelada de cada duas faixas e, por elas, marcam-se as 
paralelas; a cultura exigente de tratos mecânicos ficará com a faixa de largura 
regular e, a outra, com a de largura irregular. 
O espaçamento entre as linhas divisórias das faixas, correspondente à largura 
das faixas, dependerá do tipo de solo, do grau de declive, das culturas e dos 
sistemas culturais empregados. A largura das faixas será tanto menor quanto mais 
erodível for o solo, quanto maior for a declividade do terreno e quanto menor for a 
densidade de cobertura proporcionada pela cultura. De modo geral, adota-se entre 
as linhas divisórias de faixas o mesmo espaçamento usado para os terraços de base 
larga, ficando, assim, feita a marcação destes para o caso de sua futura instalação. 
O sistema de culturas em faixas oferece todas as vantagens de plantio em 
contorno e da rotação de culturas, e também a proteção adicional ao terreno, pela 
ação das faixas de culturas mais densas que diminuem a velocidade e o volume da 
enxurrada provocada pelas culturas mais abertas. 
Se o sistema é planejado com cuidado e se marcam adequadamente as 
faixas estabelecendo uma rotação de culturas, com os anos consecutivos de uso a 
gleba terá uma proteção balanceada em todo o terreno. 
 
7.1.5. Cordões de vegetação permanente 
 
Os cordões de vegetação permanente são fileiras de plantas perenes e de 
crescimento denso, dispostas com determinado espaçamento horizontal e sempre 
 156 
em contorno. Em culturas anuais cultivadas continuamente namesma faixa, ou em 
rotação, são intercaladas faixas estreitas de vegetação cerrada, formando os 
cordões de vegetação permanente; em culturas perenes com o café e pomar, os 
cordões são colocados entre as arvores, com determinado espaçamento horizontal, 
formando barreiras vivas para controle da erosão. 
Quebrando a velocidade de escorrimento da enxurrada, o cordão de 
vegetação permanente provocará a deposição de sedimentos transportados e 
facilitará a infiltração da água que escorre no terreno, concorrendo, pois, para 
diminuir a erosão do solo. Esses cordões possibilitam a formação gradual de 
terraços com o correr dos anos; com o preparo do solo e com os cultivos que se 
fazem entre as faixas, e também como resultado da própria erosão, a terra vai sendo 
deslocada do seu lado de cima, formando gradativamente, terraços, e com um 
pequeno trabalho de acabamento estes serão terminados; assim, os cordões de 
vegetação permanente poderão não apenas substituir os terraços como, também, 
representar a fase inicial de sua construção. 
O cordão de vegetação permanente é uma prática bastante eficiente de 
controle de erosão, chegando quase a equivaler aos terraços. Os dados revelam 
que essa prática controla cerca de 80% das perdas de solo e 60% das perdas de 
água. 
Para as condições de nossa agricultura, tais cordões apresentam, de modo 
geral, sobre os terraços, a grande vantagem de sua simplicidade e facilidade de 
execução. Mesmo locados sem grande precisão, apresentarão eficiência satisfatória, 
o que facilita o seu emprego pelos agricultores que disponham de pequenos 
recursos técnicos. 
Quando os cordões de vegetação permanente são usados como meio de 
formação natural dos terraços, convêm que já sejam marcados com o espaçamento 
e gradiente recomendados apara os terraços, sendo necessários, então, um pouco 
mais de cuidado e precisão no seu nivelamento. 
Seu principal inconveniente, relativamente aos terraços, é a diminuição da 
área destinada às culturas anuais. Nos terraços de base larga, toda a área do 
terreno, inclusive aquela ocupada pelo camalhão e pelo canal do terraço, poderá ser 
coberta com a cultura, sem qualquer diminuição da área útil. Por exemplo, em uma 
faixa de 30 m de cultura de algodão protegida com cordões de vegetação 
permanente de 3 m de largura, 10% da área da cultura principal seria ocupada com 
a vegetação protetora; porém, quando se utiliza como planta protetora de formação 
dos cordões a cana-de-açúcar, por exemplo, dela se pode retirar um rendimento ou 
uso econômico, sendo empregada como forrageira para alimentação dos animais da 
propriedade agrícola ou mesmo para moagem e industrialização. 
A distância entre cordões de vegetação permanente varia com a declividade 
do terreno e com as condições do solo; de preferência, deve ser usada a mesma 
tabela dos terraços. 
Os cordões de vegetação permanente deverão ter de 2 a 3 m de largura. A 
vegetação a empregar na sua formação, além de apresentar, de preferência, valor 
econômico subsidiário para a fazenda, deverá possuir as características seguintes: 
 157 
crescimento rápido e cerrado; formação de uma barreira densa junto ao solo; 
durabilidade; não possuir caráter invasor para as terras de culturas adjacentes, e 
não fornecer abrigo para moléstias e pragas das culturas em que tiver que ser 
intercalada. 
As espécies mais usadas para a formação dos cordões de vegetação 
permanente são: a cana-de-açúcar, que oferece valor econômico pela utilização em 
forragem de alimentação do gado ou na industrialização; o vetiver, que pode ser 
utilizado para extração, por destilação das raízes, da essência de sândalo, 
proporcionando uma barreira mais densa e cerrada que a cana-de-açúcar; a erva-
cidreira, que também fornece um óleo essencial, com boa barreira e a vantagem do 
porte menor; o capim-gordura, que pode ser usado como feno, produzindo uma 
barreira bastante densa e bem ligada ao solo. 
Para a proteção das culturas perenes, os cordões de vegetação permanente 
deverão ser formados com plantas vivazes, de pequeno porte e de crescimento 
bastante denso e cerrado junto à superfície do solo, de modo a formarem barreiras 
contra o escoamento da enxurrada. Além do controle da erosão, as plantas 
utilizadas deverão oferecer possibilidade de uso econômico, não apresentar perigo 
de praguejamento e não competir com as culturas entre as quais serão plantadas. 
As espécies mais recomendadas são: o isote, o capim-chorão, a erva-cidreira, a 
leucina: o essencial é que a planta escolhida forme um bom obstáculo ao arraste do 
solo. A aplicação de cordões de vegetação permanente, em culturas perenes, tem 
sido muito discutida pela competição que possam fazer á cultura principal; deve-se 
ter em mente, contudo, a quantidade de material orgânico que proporcionam ao solo 
e também que sua área de ocupação é muito pequena em relação à área total da 
cultura. Os cordões de vegetação permanentes serão mais eficientes se formados 
em contorno; porém, quando as ruas de culturas estiverem em linhas retas, serão 
interrompidos quando encontrarem árvores em seu alinhamento. O espaçamento 
entre os cordões de vegetação permanente deverá ser aproximadamente o mesmo 
dos terraços tipo de base estreita, também chamados cordões em contorno, que 
tivessem que ser empregados nas mesmas condições. Em terrenos de inclinação 
muito forte, os cordões de vegetação permanente deverão ter o mesmo 
espaçamento dos terraços tipo patamar, que, nesse caso, seriam necessários; 
esses cordões poderão ser usados, também, para formação natural dos terraços 
patamar, graças à retenção gradual da terra que vai sendo deslocada das faixas que 
lhes fica acima, tornando uma prática cuja construção é bastante cara a um custo 
praticamente nulo. 
 
7.1.6. Alternância de capinas 
 
A alternância das épocas de capinas em ruas adjacentes, durante o período 
chuvoso, é uma maneira, praticamente sem despesa, de reduzir as perdas por 
erosão tanto em culturas anuais como perenes. 
Esse sistema consiste em fazer as capinas sempre pulando uma ou duas 
ruas, e, depois, passado algum tempo, voltar para capiná-las, deixando, assim, 
 158 
sempre uma ou duas com mato imediatamente abaixo de outra ou de outras recém-
capinadas. A terra perdida pelas ruas limpas de mato será retida pelas ruas com 
mato que ficam imediatamente abaixo. 
Em cada rua de cultura haverá sempre o mesmo número de capinas que no 
sistema usual. O sistema de alternância de capinas requer apenas um pouco mais 
de atenção na distribuição das épocas de capinas: consiste apenas em fazer com 
que entre cada duas ruas adjacentes, seja dado um intervalo entre capinas de, 
aproximadamente, metade do intervalo normalmente adotado; procurar-se-á fazer 
com que a primeira capina seja antecipada sobre a época que, no sistema 
convencional, seria considerada como mais própria, de cerca de uma quarta parte 
do intervalo normal entre as capinas de uma mesma área. 
O efeito das alternâncias de capinas na diminuição das perdas por erosão é 
muito interessante, principalmente ao considerar sua aplicação muito simples e seu 
custo praticamente nulo. 
A eficiência desse sistema no controle de erosão será tanto maior quanto 
mais próxima das curvas de nível do terreno estiverem as ruas das plantas. Sendo 
bem conduzido, ele não afeta a produção. 
 
7.1.8. Ceifa do mato 
 
A ceifa do mato nas culturas perenes, do tipo de pomar, café, cacau, cortando 
as ervas daninhas a uma pequena altura da superfície do solo, deixando intactos os 
sistemas radiculares do mato e das plantas perenes e uma pequena vegetação 
protetora de cobertura, constituída de tocos, é uma maneira eficiente maneira decontrolar a erosão. A ceifa deve ser convenientemente repetida a fim de não 
prejudicar a cultura pela concorrência do resto do mato, e executada com o auxílio 
de ceifadeiras mecânicas apropriadas. 
O controle das ervas daninhas nas culturas perenes pode ser realizado 
quimicamente, por intermédio de herbicidas, porém o efeito contra a ação do 
impacto da gota de chuva deve ser menor. 
O efeito da ceifa do mato no controle das perdas por erosão pode ser 
explicado, quando em comparação com o controle das ervas daninhas por meio das 
capinas, pelo seguinte; (a) não há desagregação da camada superficial do solo que 
facilita a erosão; (b) não há mutilação das raízes superficiais das plantas perenes 
cultivadas, com sacrifício para a produção; (c) sem a eliminação total da vegetação 
de cobertura do solo, não haverá o efeito da energia de impacto da gota de chuva no 
terreno; (d) o sombreamento do solo que proporciona é de grande auxílio contra a 
oxidação acelerada da matéria orgânica. 
Essa operação, cortando as ervas daninhas a uma pequena altura da 
superfície do solo, deixa intactos os sistemas radiculares do mato e das plantas 
cultivadas e também ainda uma pequena vegetação protetora de cobertura, 
constituída pelos pequenos tocos deixados. A ceifa controla o desenvolvimento 
exagerado e prejudicial das ervas daninhas, eliminando-as logo que sua competição 
em umidade e elementos nutritivos comece a ser sentida pelas culturas. 
 159 
Como a ceifa não destrói completamente o mato, o seu número ou a sua 
frequência precisa ser bem maior do que no caso das capinas, pois os pequenos 
tocos de ervas daninhas deixados brotam logo em seguida, formando novas plantas 
em tempo mais curto do que por meio de sementes, como é o caso das plantas 
eliminadas pelas capinas. 
A frequência das ceifas necessárias para controlar as ervas daninhas numa 
cultura perene, como cafezal, pomar, cacaual, dependerá das condições locais de 
fertilidade do solo, grau de infestação e espécies predominantes de ervas daninhas 
e da distribuição de chuvas; o melhor índice é observar a reação das plantas 
cultivadas, não deixando que estas amareleçam por efeito da concorrência do mato. 
 
7.1.9. Cobertura morta 
 
A cobertura do solo com restos de culturas é uma das mais eficientes práticas 
de controle da erosão, especialmente no da eólica. 
A cobertura morta protege o solo contra o impacto das gotas de chuva, faz 
diminuir o escoamento da enxurrada, e incorpora ao solo a matéria orgânica que 
aumenta a sua resistência ao processo erosivo; no caso da erosão eólica, protege o 
solo contra a ação direta dos ventos e impede o transporte das partículas. 
A cobertura morta com palha ou resíduos vegetais contribui para a 
conservação da água, devendo ser preconizada nas zonas de precipitações pouco 
abundantes, e diminui a temperatura do solo, reduzindo, assim, as perdas por 
evaporação. 
Em culturas anuais, esse sistema é praticado em geral, com equipamentos 
que, soltando o solo durante o seu preparo, deixa os restos de cultura na superfície, 
podendo também ser compensador em culturas perenes, como pomares e em 
alguns cafezais. 
A cobertura morta tende a melhorar a estrutura do solo na camada superficial. 
Seu efeito mais importante, do ponto de vista de controle de erosão, pela proteção 
que oferece contra o impacto das gotas de chuva e contra o escoamento acelerado 
da enxurrada. 
A cobertura morta, que tem mostrado, em algumas regiões, ser de valor, 
também, no controle da erosão eólica, é, pois, de grande eficiência. Entretanto, nem 
sempre tem dado bons resultados em face do problema de fertilidade do solo, 
principalmente com relação ao nitrogênio. A cobertura com palha ou nas suas 
atividades, estimulando a decomposição e, em consequência, determinando a 
rápida redução da disponibilidade de nitrogênio, especialmente nas primeiras 
semanas de decomposição. Para que tal prática tenha sucesso na produção, é 
necessário que haja adequado suprimento de nitrogênio para a atividade microbiana 
do solo e para o uso da planta. 
Em culturas perenes, a cobertura com palha apresenta o problema de exigir 
uma área próxima, destinada á produção de capim, considerável gasto de mão-de-
obra, transporte, corte e distribuição da palha de capim sobre o terreno. As 
vantagens da palha como cobertura são grandes, mas sua aplicação generalizada 
 160 
fica limitada pelo seu elevado custo. O cuidado especial de impedir que a cobertura 
seja atingida pelo fogo, destruindo também a cultura, é conseguindo, fazendo-se a 
aplicação alternadamente em uma ou duas ruas, deixando outras tantas sem a 
cobertura; no ano seguinte, a palha de capim será aplicada nas ruas que antes 
ficaram desprotegidas. 
As espécies de capim mais usadas para a produção de palha a ser distribuída 
dentro das ruas que antes ficaram desprotegidas. 
 
7.1.10. Faixas de bordadura e quebra-ventos 
 
As faixas marginais das terras cultivadas apresentam, muitas vezes, 
problemas de controle de erosão e de preparo do solo, que são resolvidos com o 
estabelecimento de faixas de bordadura. E, nas regiões sujeitas á erosão eólica, nas 
faixas marginais dos campos, torna-se necessário o estabelecimento de quebra 
ventos para o controle dos ventos que sopram junto á superfície do solo. 
 
7.1.10.1. Baixas de bordadura 
 
Consistem em faixas estreitas formadas com plantas de porte baixo e 
vegetação cerrada para conter os excessos de enxurrada que possam escorrer sem 
provocar danos. 
Com uma largura de 3 a 5 m, são formadas na margem dos campos 
cultivados, ao lado dos caminhos e dos canais escoadouros. Sua principal finalidade 
é controlar a erosão nas bordas dos terrenos de cultura; realmente, elas formam um 
anteparo para as enxurradas que correm das terres cultivadas e evitem que se 
formem solapamentos nas saídas de enxurrada. 
As faixas de bordadura também podem proporcionar um espaço para o 
manejo de máquinas de preparo do solo, de cultivo, de pulverização e de colheita. 
No caso, principalmente, dos terrenos com certo declive e que sejam arados e 
cultivados em contorno, elas vêm a facilitar a virada dessas máquinas quando no 
seu uso. Outro benefício é facilitar a ligação entre as faixas de cultura ou entre 
terraços, pelas máquinas de cultivo, de pulverização e de colheita. 
Estabelecendo as faixas de bordadura com vegetações úteis, fornecedoras de 
produtos de valor econômico, evita-se o aparecimento de ervas daninhas que os 
cultivadores poderiam espalhar pelo resto do terreno. Para sua formação, são 
recomendadas as leguminosas de pequeno porte, como centrosema, cudzu, e 
gramíneas, como erva-cidreira e capim-gordura. 
 
7.1.10.2. Quebra-ventos 
 
Consistem em uma barreira densa de árvores, colocadas a intervalos 
regulares do terreno, nas regiões sujeitas a ventos fortes, nos lugares susceptíveis 
de erosão eólica, de modo a formares anteparos contra os ventos dominantes. 
 161 
Sua função é fundamentalmente reprimir a ação do vento na superfície do 
solo, protegendo as plantas, fornecendo cada uma, uma barreira mais densa em 
determinada altura; as plantas de menor porte são colocadas na frente, aumentando 
gradualmente de porte até as mais altas. O vento será, assim, desviado para cima 
por uma superfície inclinada de copa de árvores. Quanto mais altos os quebra-
ventos, mais longe farão sentir a sua influência. 
Para a formação de renque de árvores destinadas a funcionar como quebra-
ventos, podem ser utilizadas as seguintes: o eucalipto, o bambu, a tefrósia, o 
cipreste. 
 
7.2. Práticas de caráter edáfico 
 
São as práticas conservacionistas que, com modificações no sistema de 
cultivo,além do controle de erosão, mantêm ou melhoram a fertilidade do solo. 
Não basta controlar a erosão para manter a fertilidade do solo, pois também 
contribuem para seu depauperamento, o consumo de elementos nutritivos pelas 
culturas, a combustão da matéria orgânica e a lixiviação pelas águas de percolação. 
Além das práticas de controle da erosão, são necessárias outras que 
reponham os elementos nutritivos, controlem a combustão de matéria orgânica, 
diminuam a lixiviação, controlando, parte, as causas de depauperamento do solo. 
 
7.2.1. Controle do fogo 
 
O fogo é, realmente, umas das maneiras mais fáceis e econômicas de limpar 
um terreno recém-derrubado, de eliminar o trabalho e as dificuldades do enterro de 
restos culturais, de combater certas moléstias ou pragas das culturas, de limpar e 
renovar as pastagens. Entretanto, os prejuízos ocasionados pelo fogo, na destruição 
da matéria orgânica e na volatilização do nitrogênio, são de grande importância para 
a fertilidade do solo. 
As queimadas utilizadas no desbravamento de terras destroem grande parte 
da matéria orgânica que a natureza levou anos a formar; essa matéria orgânica e o 
nitrogênio que desaparecem são imprescindíveis à integridade produtiva do solo. 
Com um pouco de esforço, consegue-se desbravar e limpar o terreno para o plantio 
sem lançar mão do fogo; é importante preservar ao máximo a valiosa reserva de 
húmus e nitrogênio acumulada na mata. 
A queima das pastagens deve ser evitada ou, pelo menos, controlada. Essas 
queimas de limpeza e renovação tornam o solo mineralizado e pobre em nitrogênio 
e matéria orgânica; depois de alguns anos dessa prática, pode-se observar 
mudanças de vegetação espontânea e diminuição da capacidade de suporte das 
pastagens. 
As queimas que se praticam, anualmente, nas palhaças e restos de cultura, 
para facilitar o preparo do solo, são muito mais nocivas. Além dos prejuízos em 
matéria orgânica e nitrogênio, o solo perde sua capacidade de absorção e retenção 
de umidade e, principalmente, sua resistência à erosão. Os restos culturais podem 
 162 
ser enterrados, deixados na superfície, ou encordoados ao longo de curvas de nível 
do terreno, e deixados até se decomporem com o tempo. 
Desde remotas eras, o fogo tem sido utilizado, em todos os países, como 
instrumento para limpar os terrenos, e sempre houve controvérsia sobre seus 
efeitos. Em geral os lavradores partidários de tal prática, por vários motivos, 
assumindo maior importância os seguintes: (a) é o único meio, dentro das suas 
possibilidades, de conseguir, após a derrubada, a limpeza do terreno, e prepará-lo 
para o cultivo; (b) é um sistema econômico de eliminar os restos culturais de um ou 
vários anos; (c) diminui as pragas e moléstias. Os técnicos, em geram, são inimigos 
da queima, sendo seus argumentos mais frequentes: (a) consome a matéria 
orgânica do solo; (b) elimina os microrganismos do solo; (c) volatiliza as substâncias 
necessárias à nutrição das plantas; (d) deixa o solo desnudo, aumentando a erosão; 
(e) diminui a produção. 
É difícil explicar com precisão os fatores que influem na maior produtividade 
dos terrenos queimados, nos primeiros cultivos após a queima. Pode-se aceitar 
certa influência das cinzes. A elevação do pH e o conteúdo de bases trocáveis 
devem ter grande influência no aumento da produtividade. As alterações em 
algumas propriedades físicas do solo também merecem ser consideradas: a 
estrutura, por exemplo, tem importante papel na fertilidade do solo. A 
pedregosidade, a aeração e a permeabilidade aumentam com o tamanho dos 
agregados, essas três propriedades têm grande influência no crescimento e na 
frutificação das plantas. 
Todavia, é um fato indubitável, sabendo-se do efeito que tal prática tem no 
considerável aumento das perdas de solo e água pela erosão. 
 
7.2.2. Adubação verde 
 
É a incorporação, ao solo de plantas especialmente cultivadas para esse fim 
ou de outras vegetações cortadas quando ainda verdes para serem enterradas. 
Essas plantas protegem o solo contra a ação direta da chuva quando estão vivas e, 
depois de enterradas, melhoram as condições físicas do solo pelo aumento de 
conteúdo de matéria orgânica. 
Como sistema de adubação orgânica, a adubação verde tem a vantagem de 
ser estabelecida em qualquer cultura e produzida no próprio solo em que vai ser 
incorporada. Constitui umas das formas mais baratas e acessíveis de incorporar ao 
solo a matéria orgânica; sendo notórios seus efeitos na estabilização e mesmo no 
aumento das produções. 
As plantas utilizadas como adubo verde podem ser de diferentes tipos; 
necessitam, porém, produzir, em pouco tempo, grande quantidade de massa; essa 
quantidade, quando incorporada, é que irá determinar a quantidade de húmus 
resultante no solo. 
Deve-se preferir na adubação verde, as plantas da família das leguminosas, 
que, além de matéria orgânica, incorporam também nitrogênio ao solo. As 
leguminosas têm a propriedade de possuir bactérias fixadoras de nitrogênio do ar, 
 163 
vivendo em simbiose em suas raízes, tirando destas energia para suas atividades e 
fornecendo, em troca, o nitrogênio retirado do ar, que passa, assim, a fazer parte da 
constituição da planta: são, por isso, em geral, muito mais ricas em nitrogênio do 
que as demais plantas. É conveniente inocular a bactéria apropriada para que se 
verifique a fixação do nitrogênio atmosférico; a inoculação faz formar nódulos nas 
raízes, produzidos por bactérias da espécie Bacillus radiciola, onde existem várias 
raças fisiológicas, além de grupos de inoculação cruzada, nos quais se reúnem 
todas as espécies de leguminosas que podem ser inoculadas com a mesma raça de 
Bacillus. 
A incorporação como adubo verde de plantas não leguminosas ocasiona, em 
geral, diminuição da produção da cultura imediata, como consequência do consumo 
de nitrogênio do solo pelos microrganismos que produzem a decomposição da 
matéria orgânica; torna-se necessário, nesse caso, uma aplicação suplementar de 
um fertilizante nitrogenado. 
São muitas as espécies de leguminosas que podem ser utilizadas como 
adubo verde, e sua escolha dependem, em cada lugar, das condições climáticas, 
organização da propriedade agrícola, preço da semente, facilidades de cultivo. Nas 
condições brasileiras, destacam-se como principais as seguintes: a mucuna, feijão-
de-porco, o feijão-guandu, as crotalérias, as tefrósias, o lablabe. Em algumas 
regiões, podem ser empregadas a alfafa, o trevo, a vigna, alguns tipos de feijão, o 
cudzu-tropical, algumas indigóferas. 
O plantio de adubos verdes é feito, em geral, na mesma época que o das 
demais culturas anuais; por essa razão, o adubo verde requer um ano sem cultura 
econômica no terreno. Depois de enterrá-lo, especialmente se se trata de uma 
cultura de crescimento denso, deve-se deixar transcorrer duas ou três semanas 
antes de começar a sementeira do cultivo principal. 
Ao incorporar ao solo grandes quantidades de material orgânico (30 a 40 
toneladas por hectare), apresenta-se uma curta deficiência transitória de nitrogênio, 
devido à proliferação de bactérias que atacam os tecidos vegetais, as quais utilizam 
o nitrogênio em sua alimentação; além disso, durante os primeiros dias de 
decomposição, a água da chuva solubiliza alguns constituintes das folhas, que 
absorvem oxigênio do solo em proporção tão alta que privam as sementes das 
plantas da quantidade necessária para a sua germinação. 
 
7.2.3. Adubação química 
 
A manutenção e restauração sistemática da fertilidade do solo, por meio de 
um plano racional de adubos deverá fazer parte de qualquer programa de 
conservação do solo. A manutenção da fertilidade é muitoimportante, uma vez que 
proporciona melhor cobertura vegetal do terreno, e, com ela, melhor proteção do 
solo. 
Com o plantio racional de adubações, consegue-se contrabalancear o declínio 
de fertilidade do solo, resultante da retirada normal de elementos nutritivos pelas 
colheitas. 
 164 
É, sem dúvida, mais econômico repor regularmente as pequenas diminuições 
de fertilidade sofridas pelo solo, forma a manter sempre um nível mínimo necessário 
de elementos nutritivos essenciais, do que, após vários anos, tentar restaurar, de 
uma só vez, depois que o solo já está empobrecido. Em geral as adubações são 
praticadas visando ao aumento de produção da cultura, mas, na realidade, 
asseguram a manutenção da fertilidade do solo. 
Os elementos nutritivos essenciais que usualmente necessitam ser fornecidos 
ao solo, sob a forma de fertilizantes, são o nitrogênio, o fósforo e o potássio. Outros 
elementos secundários, como o cálcio, o magnésio, o enxofre, o boro, o manganês, 
o zinco e o ferro, em geral, fornecidos com os próprios fertilizantes empregados para 
fornecer os três elementos principais. 
 
7.2.4. Adubação orgânica 
 
Na época atual, de preços cada vez mais elevados dos fertilizantes químicos, 
é de prever maior consumo, no futuro, da adubação orgânica. Esse assunto é hoje 
tão importante que mereceu, recentemente, da FAO, uma conferência especial de 
todo o mundo. 
A adubação com esterco de curral ou com composto exerce importante papel 
de melhoramento das condições para o desenvolvimento das culturas, e, sem 
dúvida, dos mais destacados, é a influência da matéria orgânica na redução das 
perdas de solo e água por erosão. 
O esterco de curral, além de fornecer ao solo a matéria orgânica já em estado 
de decomposição e elementos nutritivos, tem a vantagem de fornecer certos 
compostos orgânicos que tem uma função estimulante do crescimento das plantas. 
O composto é, em geral, formado por detritos orgânicos diversos, tais como 
palhas, varredura de terreiros, etc., depois de misturados e curtidos. 
Na organização de uma propriedade agrícola, o aproveitamento do esterco 
produzido pelos animais e dos demais resíduos orgânicos, na forma de composto, é 
um programa fundamental para a manutenção e melhoramento da produtividade do 
solo. 
A aplicação do esterco ou composto é mais fácil nas culturas perenes, café ou 
pomar, de pequenas áreas. 
 
7.2.5. Calagem 
 
A acidez do solo além de certos limites prejudica o desenvolvimento das 
plantas cultivadas, diminuindo a sua produção. Nos solos ácidos, o desenvolvimento 
de microrganismos é bastante reduzido, principalmente de bactérias fixadoras do 
nitrogênio atmosférico; a acidez torna o fósforo do solo dificilmente aproveitável 
pelas plantas. 
A correção da acidez se faz com a aplicação de cálcio ao solo, na operação 
conhecida como calagem. O papel do cálcio aplicado na calagem é neutralizar a 
acidez do solo, proporcionando melhores condições para o desenvolvimento das 
 165 
plantas. Em geral, quase todas as culturas se beneficiam pela calagem do solo, e 
algumas, como as leguminosas, exigem um solo menos ácido para desenvolver 
bem. 
A calagem proporciona melhor cobertura vegetal ao solo, o que reflete em 
maior proteção contra o impacto das gotas de chuva, diminuindo, portanto, as 
perdas de solo e água pela erosão. 
 
7.3. Práticas Mecânicas 
 
As práticas mecânicas de controle da erosão são projetadas e construídas 
para conter água da enxurrada, propiciando sua infiltração ou escoamento seguro. 
Elas devem proteger o terreno quando ocorrem chuvas muito intensas, canalizando 
a água de forma segura. Antes da adoção de qualquer prática conservacionista, é 
preciso ter em mente que o solo deve ser utilizado dentro de sua capacidade de uso 
(aptidão agrícola) e que todas as operações devem ser realizadas em contorno, ou 
seja, seguindo uma curva de nível. A curva de nível é uma linha imaginária, em que 
todos os pontos desta linha estão em uma mesma altura ou cota. 
 
7.3.1. Distribuição racional dos caminhos 
 
Esta é uma prática básica na conservação do solo e da água, pois muitas 
medidas a serem adotadas se fundamentam na correta disposição das estradas, 
porém, geralmente, é negligenciada por agricultores e técnicos. Sabe-se que a 
existência de estradas em uma propriedade é fundamental para a realização dos 
trabalhos. Quando são bem planejadas, construídas e conservadas, elas facilitam o 
desenvolvimento da atividade agrícola e ainda ajudam no controle da erosão. 
Infelizmente, na maioria das vezes as estradas e os carreadores são 
construídos em linha reta (e não em nível), desconsiderando a topografia do terreno. 
São também dispostas erradamente, sem sistemas de drenagem para coleta e 
desvio de enxurrada deles proveniente. Recebem também água de glebas vizinhas, 
que correm sobre elas, provocando erosão, o que dificulta o trânsito e encarece o 
trabalho de manutenção. Além disso, quando as estradas são dispostas em linha 
reta, as culturas ficam, quase sempre com ruas “a favor das águas” (morro abaixo), 
o que contribui ainda mais para as perdas de solo por erosão. 
Para resolver ou minimizar esses problemas, deve-se fazer a distribuição 
racional dos caminhos, o que significa colocá-los, ao máximo, próximo ao contorno 
(em nível). Desse modo, as estradas ou carreadores principais devem ser locados e 
construídos em nível (carreadores em nível ou nivelados), com largura de 5 a 6 m e 
uma ligeira inclinação (0,05%) no sentido do barranco. 
A água que escorre dos carreadores em pendente deve ser desviada para 
bacias de captação ou caixas de retenção devidamente dimensionadas. Pode ainda 
ser retirados para os terraços, para um lado, ou os dois lados do canal, por meio de 
pequenos canais de desvio. Essa é também uma medida de grande importância 
para a conservação das estradas e o controle da erosão. Além disso, as rampas 
 166 
mais lisas devem ser ensaibradas (pedregulhadas), drenados os lugares de 
formação de poças, e os barrancos, sempre que possível, devem ser gramados. 
Devem-se evitar ao máximo as baixadas sujeitas a alagamento, rampas compridas, 
grandes declives e locais onde não se possam controlar as águas. 
Outra medida que ajuda a conservar os carreadores é revesti-los com 
vegetação rasteira, normalmente gramíneas, controlando seu desenvolvimento 
através da roçada, realizada de tempos em tempos, podendo ainda deixar crescer a 
vegetação espontânea (mato). A vegetação ajuda a conservar as estradas. 
 
7.3.2. Preparo e plantio em contorno 
 
Realizar cultivos em nível significa fazer as operações de preparo do solo, 
plantio e todas as operações de cultivo no sentido transversal à pendente (cortando 
o declive), seguindo curvas de nível (linha em nível, linhas em contorno). 
Uma linha em nível, ou curva em nível, é aquela que possui todos os pontos 
em uma mesma altura no terreno (mesma altitude ou cota). 
Os cultivos em nível são feitos com o objetivo de reduzir a erosão, bem como 
facilitar os tratos na lavoura. Numa área cultivada em nível ou em contorno, como as 
operações são feitas praticamente em nível, cada fileira de plantas, assim como 
pequenos sulcos e leiras, e também restos culturais deixados na superfície são 
dispostos de maneira que formam barreiras que dificultam o percurso livre da 
enxurrada, diminuindo sua velocidade e sua energia, aumentando, 
consequentemente, a infiltração da água no solo. 
Tanto as culturas anuais como as perenes, inclusive pastagens e 
reflorestamento, devem ser implantadas e conduzidas em nível ou contorno. 
Contudo, o cultivo em nível é apenas uma das muitas práticas conservacionistas, 
devendo, portantoser associada a outras práticas conservacionistas, principalmente 
quando a área apresenta declive maior que 4%. 
A efetividade do cultivo em nível diminui: dos solos argilosos para os 
arenosos; à medida que a declividade do terreno aumenta; e das culturas mais 
densas (fecham mais) para as menos densas. A eficiência dos cultivos em contornos 
deve-se, principalmente, à conservação da água, aumentando a umidade do solo. 
Além de aumentar a produção das culturas, o plantio em contorno reduz as perdas 
de solo e da água. 
 
7.3.3. Sulcos e Camalhões em pastagem 
 
A pastagem é tida como uma prática vegetativa de controle da erosão, devido 
à proteção que as gramíneas oferecem ao solo. No entanto, em determinadas 
situações, outras práticas são requeridas para se evitar que o processo erosivo 
cause danos à pastagem. 
Apesar de pouco difundido no Brasil, a prática normalmente recomendada 
para pastagens é a construção de sulcos e camalhões em contorno, especialmente 
em regiões com pouca chuva. Pastagens em formação, onde a vegetação ainda não 
 167 
esteja proporcionando cobertura eficiente, em terrenos muito inclinados e/ ou pastos 
fracos e excessivamente pastoreados são situações em que os sulcos e camalhões 
são indicados e eficazes. 
Os sulcos e camalhões são equivalentes a um terraço de dimensões 
reduzidas, construídos em contorno (a partir de linhas de nível), com arados 
reversíveis, de aiveca ou de disco, tombando a terra sempre para o lado de baixo. 
Uma ou duas passadas no mesmo sulco são suficientes para sua construção. Outra 
opção seria a construção de sulcos em contorno ou de camalhões em contorno, 
isoladamente, e não formando um conjunto. 
O espaçamento entre os sulcos e camalhões depende das características do 
solo (textura e estrutura), que afetam diretamente a capacidade de infiltração de 
água no solo, da maior ou menor quantidade de vegetação que possa ser destruída 
na operação de construção. Para a determinação do espaçamento devem ser 
considerados o tipo de solo e a declividade do terreno, podendo-se adotar os 
critérios e quadros empregados para terraços. Em terrenos inclinados é 
recomendada a ressemeadura nos sulcos, visando estabelecer a vegetação mais 
rapidamente. 
De modo geral, não se recomenda a construção de sulcos e camalhões em 
muitos solos arenosos, pois estes promovem rápida infiltração da água, 
dispensando, normalmente, estruturas que promovem maior retenção de umidade. 
 
7.3.4. Mulching vertical 
 
A cobertura permanente do solo e a consolidação e a estabilização da 
estrutura do solo, embora otimizadas pelo sistema plantio direto, mesmo assim não 
propiciam condição suficiente para disciplinar a enxurrada e, consequentemente, 
não constituem meio seguro de controle adequado da erosão hídrica. Esse processo 
assume relevância, fundamentalmente, em topossequência em que o comprimento 
do declive induz à enxurrada energia cisalhante superior à resistência imposta pela 
cobertura vegetal e pelo próprio solo. Assim, no sistema plantio direto, a enxurrada, 
além, de representar potencial erosivo, decorrente da energia de cisalhamento, 
indubitavelmente constitui veículo de transporte de solutos aos mananciais de 
superfície, representando riscos ao equilíbrio do ambiente. 
O mulching vertical, em razão das características de construção, que não 
interferem na praticidade operacional da lavoura, representa técnica 
conservacionista potencial para manejo de enxurrada, e, consequentemente, para 
controle de erosão hídrica, em áreas sob sistema plantio direto. 
A prática conservacionista mulching vertical é constituída por sulcos, locados 
e construídos em nível, com 0,075 a 0,095 m de largura e 0,4 m de profundidade, 
preenchidos com resíduos vegetais. É em razão da reduzida largura do sulco que o 
mulching vertical não interfere nas operações motomecanizadas requeridas para a 
condução da lavoura. 
O espaçamento horizontal entre os sulcos, à semelhança da estimativa dos 
afastamentos horizontal e vertical entre terraços, pode ser estimado pelo método da 
 168 
máxima chuva esperada para determinado período de retorno. Entretanto, 
espaçamentos da ordem de 10 m entre sulcos têm demonstrado resultados 
satisfatórios. 
Além do efeito direto da redução do escoamento superficial, há efeitos 
indiretos de correntes do uso da prática mulching vertical. Dentre esses se 
destacam: adição de material orgânico em profundidade no solo; redução de perdas 
de resíduos culturais provocada pela enxurrada, principalmente em lavouras de 
milho; rompimento da camada compactada (pé-de-arado), que proporciona elevação 
da taxa de infiltração da enxurrada; retardamento do pico de enxurrada, que 
ameniza os riscos de enchente; e redução da perda de nutrientes e do transporte de 
defensivos agrícolas, com potencial de contaminação ambiental. 
Apesar da prática mulching vertical requerer ainda estudos de validação em 
diferentes condições de solo e de clima e de aprimoramento do equipamento para a 
deposição de palha no sulco, apresenta-se como uma interessante alternativa para o 
controle do escoamento superficial, principalmente em talvegues de elevada 
propensão à concentração de enxurrada. Há possibilidades de o mulching vertical 
ser implementado em áreas cultivadas com culturas perenes e, inclusive, no canal 
de terraços, objetivando elevar a capacidade de infiltração de água no solo. Em 
áreas de pastagens, todavia, requer criteriosa observação, principalmente 
envolvendo o risco de acidentes como os animais ao transporem os sulcos. 
 
7.3.5. Bacias de captação e Retenção de Águas Pluviais Provenientes de 
Estradas 
 
Para construção das estradas faz-se necessária a retirada da cobertura 
vegetal do solo e sua compactação e/ou impermeabilização. Isso faz com que a 
infiltração da água no leito da estrada seja nula. A água que não se infiltra é 
normalmente direcionada para as laterais, aonde vão se acumulando e aumentando 
de velocidade ao longo da pendente. 
Sabe-se que a água promove erosão no solo se atingir velocidade erosiva, 
que será tanto maior quanto maior for o volume de enxurrada. Dessa maneira, a 
captação estratégica da água, impedindo a formação de grandes massas e de 
velocidade erosiva, é a solução para a conservação das estradas e traz, como 
benefícios indiretos, a alimentação dos aquíferos subterrâneos. 
O comprimento e o declive de rampa são os principais fatores para o aumento 
da velocidade da enxurrada. Na prática, pode-se assumir que a quadruplicação do 
comprimento de rampa triplica a perda de solo por unidade de área. Alterar o declive 
de uma rampa às vezes é difícil; entretanto, parcelar o seu comprimento é fácil e os 
resultados excelentes. Este é o princípio básico de um sistema de terraceamento e 
que também pode ser utilizado para o controle de erosão nas estradas se, associado 
a isso, a água for direcionada e captada em bacias – as bacias de retenção. 
Analisando o ciclo hidrológico, verifica-se que a água da chuva tem vários 
caminhos: evaporação, infiltração e escoamento. Este último provoca problemas de 
erosão. A infiltração é o caminho ideal a ser dado à água da chuva, visto não 
 169 
provocar erosão e abastecer o lençol freático. A água da chuva, visto não provocar 
erosão e abastecer o lençol freático. A água da enxurrada é um desperdício enorme, 
principalmente se for considerada a grande preocupação atual com o bem água. 
Nas estradas, onde a infiltração é nula, torna-se cada vez mais importante conseguir 
seu aproveitamento racional. 
A tecnologia proposta para obter a melhor conservação das estradas e 
preservação das condições ambientais é simples e baseia-se no cálculo do volumede água a ser captado, considerando-se a área da estrada e a precipitação 
pluviométrica média anual. 
 
7.3.6. Terraceamento 
 
Terraço é um conjunto formado pela combinação de um canal (valeta) com 
um camalhão (monte de terra ou dique), construído a intervalos dimensionados, no 
sentido transversal ao declive, ou seja, feitos em nível ou em gradiente, cortando o 
declive. É uma estrutura mecânica, cuja construção envolve a movimentação de 
terra, através de cortes e aterros. Permite a contenção de enxurradas, forçando a 
absorção da água da chuva pelo solo, ou a drenagem lenta e segura do excesso de 
água. Desse modo, o terraceamento é a prática de terracear, e terracear é construir 
terraços. 
 
Figura 1. Partes Componentes de um Terraço 
Sabe-se que quanto maior o comprimento da rampa (da encosta), maiores 
são a velocidade e o volume da enxurrada, e maior a sua energia capaz de arrastar 
o solo, promovendo a erosão. Com base nesse raciocínio, o princípio de 
funcionamento do terraço baseia-se no parcelamento do declive, isto é, dividir uma 
rampa comprida (mais sujeita à erosão) em várias rampas menores, mais curtas 
(menos sujeitas à erosão). Cada terraço protege a faixa que está logo abaixo dele 
ao receber as águas da faixa que está acima. 
A função do terraço, portanto, é reduzir a concentração e velocidade da 
enxurrada, dando à água maior tempo para infiltração e limitando a sua capacidade 
de causar erosão. 
Quando um terraço é mal construído, poderá ocasionar muito mais danos do 
que benefícios. Isso se dá pelo fato de que, quando um terraço se rompe, a água 
armazenada em grande volume terá maior capacidade de provocar sulcos de erosão 
e até voçorocas, podendo levar à inutilização da área. 
 170 
 
Figura 2. Vista parcial da água da enxurrada retida em um terraço. 
O terraço deve ser construído onde outras práticas mais simples não sejam 
suficientes para o controle adequado da erosão, tendo em vista o seu alto custo. Por 
outro lado, é mais eficiente quando utilizado em combinação com outras práticas, 
como o ajustamento das glebas à sua capacidade de uso, o plantio em contorno, a 
cobertura morta e cultura em faixas entre outras. 
O terraceamento está diretamente ligado aos seguintes fatores: tipo de solo, 
declividade do terreno e quantidade de chuvas. 
 
7.3.6.1. Classificação dos Terraços 
 
Os terraços podem ser classificados quanto: à função que exercem; à largura 
da base; ao processo de construção; à forma do perfil do terreno; e ao alinhamento. 
 
7.3.6.1.1. Quanto à função 
 
7.3.6.1.1.1. Terraços em nível (de retenção, absorção ou de infiltração): 
 
Este terraço é construído em nível (sobre uma curva em nível marcada no 
terreno) e tem suas extremidades fechadas. Sua função é armazenar o excedente 
de enxurrada por ele interceptado, para que infiltre lentamente no perfil do solo. É 
recomendado para terrenos com boa permeabilidade no perfil do solo. 
 
7.3.6.1.1.2. Terraços com gradiente, em desnível, com declive ou de 
escoamento 
 
É um terraço que apresenta declive suave, constante (uniforme) ou variável 
(progressivo), com uma ou as duas extremidades abertas. Sua função é acumular o 
excedente de água e conduzí-la para fora da área protegida, até um canal 
escoadouro, sem que haja erosão no leito do canal. 
O terraço com gradiente é recomendado para terrenos de permeabilidade 
baixa (lenta) ou moderada, como solos que apresentam B textural (pouco 
 171 
permeáveis no horizonte B) e solos rasos como os Neossolos Litólicos e 
Cambissolos. Além disso, são recomendados para regiões de precipitações 
elevadas e de até 20% de declividade. 
 
Quadro 1. Vantagens e desvantagens dos terraços em nível e com gradiente 
 
 
 
A decisão de quando se utilizar terraço em nível e quando utilizar terraço com 
gradiente, além das vantagens e desvantagens que apresentam, dependerá: da 
permeabilidade do solo e do subsolo; da intensidade das chuvas; e da necessidade 
de se conservar/aumentar a umidade do solo. Este último fator deverá ser 
considerado para regiões onde a disponibilidade de água é baixa. O terraço de 
infiltração é indicado para retenção de água na área de interesse. Além do controle 
da erosão, consegue-se abastecer e manter os lençóis subterrâneos. 
 
7.3.6.1.2. Quanto à largura da base 
 
A largura, ou base, de um terraço corresponde à área de movimentação da 
superfície do solo, incluindo canal e camalhão. 
Quanto à largura, os terraços podem ser classificados em: 
 
7.3.6.1.2.1. Terraço de base estreita 
 
Este terraço apresenta uma largura de base entre 2 a 3 m (Figura 1). 
Normalmente é indicado para área de 12 a 18% de declividade. Neste tipo de 
terraço não se pode cultivar no canal nem sobre o camalhão. Pode ser construído 
utilizando equipamentos manuais e de tração mecânica ou animal. Algumas 
situações peculiares podem alterar essa recomendação. 
 172 
 
Figura 1. Terraço de base estreita 
 
7.3.6.1.2.2. Terraço de base média 
 
A faixa da superfície movimentada no terraço de base média varia de 3 a 6 m 
(Figura 2). Ele é indicado para áreas com declives de 8 a 12% e pode ser 
construído tanto com arado de arraste quanto com levante hidráulico. O 
camalhão deste tipo de terraço pode ser cultivado e o canal não deve ser cultivado. 
 
Figura 2. Terraço de base média. 
 
7.3.6.1.2.3. Terraço de base larga 
 
Este terraço possui uma base de 6 a 12 m (Figura 3), sendo recomendado 
para áreas com relevo suave ondulado a ondulado e declividade de até 12%, 
preferencialmente de 6 a 8 %.Em solos de boa permeabilidade podem ser utilizados 
em terrenos com declividade de até 20%. Possibilita a utilização de máquinas no 
plantio, mesmo dentro do canal e sobre o camalhão, o que permite fazer, na própria 
operação de preparo do solo, a sua manutenção. Essas características compensam 
seu alto custo de construção e normalmente é construído em nível. 
 
 
 173 
Figura 3. Terraço de base larga. 
 
7.3.6.1.3. Quanto ao processo de construção 
 
Quanto ao processo de construção, os terraços podem ser classificados como 
tipo Nichol’s e tipo Mangum. 
 
7.3.6.1.3.1. Tipo Nichol’s ou canal 
 
Neste tipo de terraço, a superfície do solo é cortada e tombada sempre de 
cima para baixo, formando um canal relativamente profundo e de forma triangular 
(Figura 4 e 5). O arado reversível possibilita um bom rendimento na construção 
deste tipo de terraço (aula prática de construção de terraço). A principal 
desvantagem deste tipo de terraço é que a faixa em que é construído o canal não 
pode ser aproveitada para o cultivo. É indicado para declives inferiores a 18%. 
 
 
Figura 4. Terraço tipo Nichol’s. 
 
Figura 5. Terraço tipo Nichol’s ou canal 
 
 174 
7.3.6.1.3.2. Tipo Mangum ou camalhão 
 
Na construção deste terraço, corta-se a superfície do solo nos dois lados, 
tombando-a para o centro, de modo a formar um camalhão entre dois canais (Figura 
6). Apresenta canal mais largo e raso e uma maior capacidade de armazenamento 
que o terraço tipo Nichols. A capacidade de armazenamento é determinada 
predominantemente pelo camalhão, pois a profundidade do corte do terreno 
corresponde à profundidade normal de aração. É construído normalmente com 
arado fixo, mas o arado reversível também pode ser utilizado. Normalmente, é 
recomendado para áreas com declives até 8 ou 12%. 
 
Figura 6. Terraço tipo Mangum. 
 
Figura 7. Terraço tipo mangum ou camalhão 
 
7.3.6.1.4. Quanto à forma do perfil do terreno 
 
7.3.6.1.4.1. Terraço comum 
É o tipo de terraço mais usado e é a combinação de um canal com um 
camalhão construídoem nível ou com gradiente, cuja função é interceptar a 
enxurrada, forçando sua absorção pelo solo ou a retirada do excesso de água de 
maneira mais lenta, sem provocar erosão (Figura 8). Pode ser construído com 
arados terraceadores, arados de discos, arados de aivecas, lâmina frontal ou 
 175 
mesmo com motoniveladora. Em pequenas propriedades, pode ser construído com 
implementos puxados a tração animal ou mesmo com ferramentas manuais. 
 
Figura 8. Terraço comum 
 
A declividade máxima recomendada para sua construção é de 20%. Deve ser 
combinado com práticas vegetativas e sistemas de manejo que proporcionem 
proteção superficial, amenizando o impacto das gotas da chuva. 
7.3.6.1.4.2. Terraços tipo Patamar 
 
É construído através da movimentação de terra com cortes e aterros, que 
resultam em patamares em forma de escada (Figura 9 e 10). A plataforma do 
patamar deve apresentar pequena inclinação em direção ao seu interior e um 
pequeno dique, a fim de evitar o escoamento da água de um terraço para outro, o 
que poderia provocar erosão no talude.Pode ser contínuo (semelhante a terraços) 
ou descontínuo (banquetas individuais). É indicado para terrenos acima de 20% de 
declividade. 
 
Figura 9. Seção transversal típica do terraço tipo patamar. 
 176 
 
Figura 10. Terraço tipo patamar em vinhedo com taludes protegidos com 
vegetação 
 
No patamar deve ser plantada a cultura, e o talude deve ser recoberto com 
vegetação rasteira (como grama por exemplo), desde que não seja invasora, para 
manter a sua estabilidade. Em solos pouco permeáveis, este tipo de prática não é 
indicado. 
Tendo em vista a sistematização que é feita na área, este tipo de terraço, 
além de controlar a erosão, facilita as operações agrícolas. É construído 
manualmente ou com trator de esteira equipado com lâmina frontal. Em virtude de 
seu alto custo de construção, é normalmente recomendado, em razão da viabilidade 
econômica, para exploração de culturas de alta rentabilidade econômica. 
 
7.3.6.1.4.3. Terraços tipo Banquetas Individuais 
 
Quando o terreno apresenta obstáculos como pedras ou afloramento de 
rochas ou existe deficiência de máquinas ou implementos para construção do 
terraço tipo patamar, pode ser utilizada uma variação deste tipo de terraço, chamada 
de banquetas individuais ou patamar descontínuo (Figura 11). 
São bancos construídos individualmente para cada planta, onde a 
movimentação de terra se dá apenas no local onde se vai cultivar. São indicados 
para culturas perenes, como café, árvores frutíferas, etc. As ferramentas 
empregadas são manuais, como enxada e enxadão, porque são construídas em 
áreas com declividade bastante acentuada, sendo impraticável o uso de máquinas. 
 177 
 
Figura 11. Terraço tipo banquetas individuais. 
 
Inicialmente, retira-se toda a camada superior mais fértil que é amontoada ao 
lado da área onde vai ser construída a banqueta. Em seguida faz-se o corte no 
barranco e aproveita-se a terra retirada no corte para fazer o aterro. Da mesma 
forma que o patamar, acerta-se a superfície da plataforma com ligeira declividade no 
sentido inverso ao da declividade original do terreno. Vegeta-se com gramas a parte 
de aterro para melhor estabilidade e, finalmente, espalha-se a terra raspada da 
superfície, a fim de a fertilidade da banqueta. 
 
7.3.6.1.4.4. Terraços tipo Murundum 
 
É o termo utilizado para terraço construído raspando-se o horizonte superficial 
do solo (horizonte A), por tratores que possuem lâmina frontal, e amontoando-a para 
formar um camalhão de avantajadas proporções (pode chegar a mais de 2 m) 
(Figura 12). Normalmente este tipo de terraço, praticado em áreas de cultivo de 
cana-de-açúcar, não segue um dimensionamento adequado. Visando facilitar o 
trânsito de máquinas e caminhões na área agrícola, a distância entre eles é maior do 
que a recomendada para os terraços comuns. Erradamente tenta-se compensar 
esta medida aumentando a dimensão do camalhão para segurar maior volume de 
água. 
 
Figura 12. Terraço tipo Murundum. 
 
Uma limitação apresentada por este tipo de terraço é que a remoção da 
camada mais fértil do solo prejudica o desenvolvimento das plantas na área que foi 
 178 
raspada. Além disso, por requerer grande movimentação de terra, seu custo de 
construção é elevado. Pelo fato de ser locado com distâncias maiores, apresenta 
erosão acentuada e está sujeito a rompimento. Da forma como é construído não é 
economicamente recomendável. 
 
7.3.6.1.4.5. Terraço tipo embutido 
 
É mais difundido em área de cana-de-açúcar e sua forma assemelha-se à dos 
murunduns. É construído de forma que o canal tenha forma triangular, ficando os 
talude que separa o canal do camalhão praticamente na vertical (Figura 13). Visto de 
cima, assemelha-se a uma veneziana deitada. Apresenta pequena área inutilizada 
para o plantio, sendo construído normalmente com motoniveladora ou trator de 
lâmina frontal. 
 
 
7.3.6.1.4.6. Terraços não-paralelos 
 
Os terraços não-paralelos são os mais comuns, pois são aqueles locados 
sobre as linhas niveladas básicas. Devido às irregularidades na declividade do 
terreno, os terraços construídos sobre as linhas niveladas básicas não são paralelos. 
A distância ou espaçamento entre os terraços é variável ao longo da área 
terraceada. O paralelismo só ocorre no caso de a área não apresentar 
irregularidades em sua declividade. 
 
7.3.6.1.4.7. Terraços paralelos 
 
São construídos com espaçamento constante ao longo de toda sua extensão. 
Para implantação deste tipo de terraço é necessário um planejamento minucioso, 
baseado fundamentalmente no levantamento planialtimétrico da área. A área na qual 
os terraços serão locados deverá ser sistematizada, realizando-se cortes e aterros 
no local, tornando-os paralelos. 
 179 
 
A grande vantagem deste tipo de terraço é que ele reduz o número de 
linhas mortas e as curvas muito estreitas, economiza tempo no preparo, cultivo e 
colheita e, ainda, diminui os prejuízos relativos à destruição de plantas devido à 
manobra de máquinas. Entretanto, o custo de implantação é bastante elevado. 
 
7.3.6.2. Levantamentos preliminares para construção 
de terraços 
 
Devem-se realizar amostragens de solos para determinação da textura, da 
permeabilidade e da presença de camadas compactadas no solo, de acordo com os 
seguintes passos: Coletar amostras de solos para análises de solo, principalmente 
física; observar profundidade efetiva por meio de cortes em beira de estradas; 
observar a existência de camadas mais duras utilizando a dificuldade à penetração 
da faca; abrir trincheiras dentro da área para se fazer a observação descrita 
anteriormente; medir a declividade do terreno; obter informações a respeito da 
quantidade de chuva que normalmente ocorre na região. Determinar a cultura, 
sequência ou rotação que será explorada na área a ser terraceada. 
 
7.3.6.2.1. Espaçamento entre terraços 
 
Por espaçamento entende-se a distância entre um terraço e outro. Pode ser 
referido de duas maneiras: espaçamento vertical ou espaçamento horizontal. O 
Espaçamento Vertical (EV) entre dois terraços corresponde à diferença de nível 
entre eles - significa quantos metros se desce no terreno de um terraço até o outro. 
Se se considerar que o terraço pode ser construído ao longo de uma linha de nível 
(curva de nível) e que esta corresponde à linha de interseção de um plano inclinado 
cortado por um plano horizontal. Pode-se também definir o espaçamento vertical 
entre dois terraços como sendo a distância entre os dois planos horizontais que 
 180 
passam por eles (Figura 14A). Este conceitoé muito útil na locação de terraço com 
nível topográfico. A Figura 14B representa a vista do ponto Y. 
 
Figura 14. As linhas L1e L2correspondem às interseções dos planos 
horizontais B e C com o plano inclinado (A). Projeção vista do ponto Y, mostrando as 
linhas L1e L2(B). 
 
O Espaçamento Horizontal (EH) representa, em linha reta (medido na 
horizontal), quantos metros separam os terraços. Pode ser também definido como a 
distância entre dois planos verticais que passam por dois terraços (Figura 15A). 
 
Figura 15. Vista frontal da Figura 1A, do ponto X (A). Seções transversais dos 
terraços P1 e P2, construídos ao longo das linhas L1e L2, respectivamente (B). 
 
Se observássemos a Figura 14A do ponto X, sua representação seria como 
apresentada na Figura 15A, onde as linhas a, b e c representam os planos A, B e C 
e os pontos P1e P2 representam as linhas de interseção L1e L2, do plano A cortado 
pelos planos B e C (Figura 14A), ao longo das quais os terraços podem ser 
construídos. Fazendo dois planos verticais representados pelas linhas r e s 
passarem pelos terraços P1 e P2 respectivamente, a distância entre eles 
corresponde ao espaçamento horizontal (EH) entre os terraços P1 e P2. A Figura 
15B representa as seções transversais dos terraços P1 e P2, construídos ao longo 
das linhas L1 e L2, respectivamente. O espaçamento real, ao longo da superfície do 
terreno, é diferente do espaçamento horizontal como anteriormente definido. Ele 
pode ser calculado, mas na prática, estica-se horizontalmente uma trena e marca-se 
a posição do ponto por onde o terraço deverá passar. Porém, quando a marcação é 
 181 
feita com nível topográfico usando-se o espaçamento vertical, o espaçamento 
horizontal fica automaticamente marcado. 
 
7.3.6.2.1.1. Espaçamento entre terraços em declividades 
variáveis 
 
A Figura 16 mostra os planos inclinados, representados pelas linhas a (45º) e 
b (20º), cortados pelos planos horizontais, representados pela linha d que passa 
pelos terraços P2 e P3, e os planos verticais representados pelas linhas n, s e t que 
passam pelos terraços P1, P2 e P3, respectivamente. Na Figura 16A pode-se 
observar que as distâncias verticais entre P1-P2 e P1-P3 são iguais e que a 
distância horizontal entre P1-P2 é menor que a distância horizontal entre P1-P3. 
Com os valores das distâncias horizontais entre P1-P2 e P1-P3, tem-se a Figura 
16B. 
 
Figura 16. Planos inclinados a (45º) e b (20º) cortados pelos planos 
horizontais d e c e pelos planos verticais r, s e t (A). Comportamento esquemático 
dos terraços quando em locais de declividade variável (B). 
 
Esta figura mostra que, em terrenos de declividades variáveis, para uma certa 
distância vertical, a distância horizontal entre terraços varia com a declividade do 
terreno, ou seja, os terraços se aproximam quando a declividade aumenta e se 
afastam quando a declividade diminui. Quando a declividade do terreno é uniforme, 
os terraços se mantêm paralelos. 
 
7.3.6.2.1.2. Fatores que afetam o espaçamento entre 
terraços 
 
Basicamente, o espaçamento entre dois terraços deve ser tal que a enxurrada 
que escorre entre eles não alcance velocidade erosiva. Quanto maior a distância 
entre os terraços, menor o custo de construção por unidade de área, porém esse 
espaçamento máximo tem o limite da eficiência prática. Cada um deles deve ter 
capacidade suficiente para receber a enxurrada que escorreu na faixa limitada pelo 
 182 
que foi construído na parte superior e conduzi-la ou absorvê-la, conforme o caso, 
isto é, se o terraço é de escoamento ou de infiltração. Os principais fatores que 
afetam a distância entre terraços são: clima, solo, declividade, tipo de cultura e tipo 
de terraço. 
 
7.3.6.2.1.3. Clima 
 
Deve ser considerados, principalmente, a intensidade, a energia e a 
freqüência das chuvas. 
 
7.3.6.2.1.3.1. Intensidade 
 
Pode-se considerar que enxurrada é igual à quantidade de chuva caída 
subtraída da quantidade desta chuva que infiltrou. Para uma certa capacidade de 
infiltração, quanto mais intensa for a chuva, maiores serão o volume e a velocidade 
da enxurrada e, consequentemente, maior a sua energia cinética (força capaz de 
desprender as partículas do solo e arrastá-las). Em regiões sujeitas a chuvas de alta 
intensidade deve-se diminuir a distância entre terraços para reduzir a velocidade e 
consequentemente a energia cinética da enxurrada. Se a chuva for de baixa 
intensidade, grande parte dela se infiltra no solo, reduzindo o volume da enxurrada. 
Se a capacidade de infiltração do solo for igual ou maior que a intensidade da chuva, 
não haverá enxurrada. 
 
7.3.6.2.1.3.2. Energia 
 
A gota de chuva, ao cair, adquire energia, que está relacionada com o seu 
tamanho e à velocidade de queda. Quando maior a energia da chuva, maior a sua 
capacidade de desagregar o solo, arrastar suas partículas e causar erosão. 
 
7.3.6.2.1.3.3. Freqüência 
 
A infiltração de água no solo é mais rápida e maior quando ele está seco, mas 
tende a se reduzir com o decorrer da chuva. Chuvas freqüentes caindo em solo 
úmido, próximo à saturação e com sua capacidade de infiltração já reduzida, 
acarretarão maiores volumes de enxurradas e, conseqüentemente, maiores riscos 
de erosão. 
Em regiões onde ocorrem chuvas freqüentes e de alta intensidade na época 
de plantio, quando o solo está desagregado e desprotegido contra o choque das 
gotas de chuvas e do movimento de enxurrada, a erosão torna-se extremamente 
severa. Nestas condições, torna-se imprescindível reduzir a distância entre os 
terraços, para diminuir o volume, a velocidade e a energia da enxurrada e, 
conseqüentemente, a sua capacidade de transportar o solo. 
7.3.6.2.1.3.4. Declividade 
 
 183 
A declividade representa a inclinação do terreno e pode ser expressa em 
graus ou percentagem. Como regra geral, quanto maior a declividade, mais 
próximos são os terraços e vive-versa. Este efeito é explicado pelo movimento do 
corpo num plano inclinado. 
 
7.3.6.2.1.4. Tipo de cultura 
 
Desconsiderando aspectos das culturas, como manejo, tratos culturais, 
consorciação e cobertura vegetal do solo, pode-se afirmar que: nas culturas anuais, 
o preparo do terreno desagrega o solo, que fica solto, e favorece a ação da 
enxurrada, que facilmente transporta o solo. Por esta razão, nas culturas anuais, a 
distância entre dois terraços deve ser reduzida. Culturas perenes como café, 
pomares, seringueira etc., em que o espaçamento entre as plantas é grande e o 
plantio é feito em covas, a distância entre os terraços pode ser maior, pois, nestas 
condições, a enxurrada terá que utilizar parte de sua energia para desagregar o solo 
antes de transportá-lo. No entanto, em sistemas de cultivo conservacionista como o 
cultivo mínimo e, principalmente, o plantio direto, a proteção dada ao solo, 
permitindo que o sistema se comporte de maneira semelhante a um cultivo de 
culturas perenes. 
 
7.3.6.2.1.5. Tipo de solo 
 
Os parâmetros a serem considerados são aqueles que afetam a infiltração de 
água, como textura, estrutura, presença de camadas adensadas no perfil do solo e 
coerência entre partículas e/ou agregados. Essas características variam com a 
classe de solo e devem ser observadas de acordo com o solo predominante na 
região onde se vai trabalhar. Os solos argilosos englobam vários solos com perfis e 
características bem distintos. 
Levantamentos devem ser feitos anteriormente à implantação do sistema de 
terraceamento, para averiguação da permeabilidade apresentada por esses solos. 
De maneira geral, aqueles que apresentam B textural (horizonte B com teor de argila 
mais elevado queo horizonte superficial - horizonte A) mostram problemas 
relacionados à infiltração da água, requerendo terraços mais próximos. A condição 
de baixa permeabilidade quase sempre conduz o técnico a trabalhos com terraços 
com gradiente para escoamento da água. 
Solos de textura média tendem a apresentar baixa infiltração e grande volume 
de enxurrada, requerendo terraços mais próximos. Novamente, nesta situação o 
técnico opta pelo terraço com gradiente em substituição aos nivelados. 
Solos arenosos com predominância de areia grossa na sua constituição 
apresentam alta capacidade de infiltração e baixo potencial erosivo. Neles, o 
espaçamento entre os terraços pode ser maior, e os técnicos normalmente 
recomendam a construção de terraços em nível. 
De maneira geral, considerando-as classes de solos, os Cambissolos e os 
Neossolos Litólicos são mais suscetíveis à erosão, e os Latossolos, menos. Desse 
 184 
modo, quando permitido, os primeiros deverão ter terraços maispróximos e os 
segundos mais distantes. Os Argissolos encontram-se em uma posição 
intermediária. 
 
7.3.6.2.1.6. Tipo de terraço 
 
Para uma mesma situação de clima, cultura a ser implantada e declive, a 
decisão sobre a construção de um sistema de terraceamento em nível ou gradiente 
será tomada em função da permeabilidade do solo. De maneira que os terraços em 
nível deverão estar mais próximos comparativamente aos terraços com gradiente. 
 
7.3.6.3. Cálculos para a dimensão de terraços 
 
7.3.6.3.1. Exemplo de cálculo de espaçamento entre 
terraços 
 
 Cálculo das distâncias vertical e horizontal entre 
terraços 
O espaçamento vertical pode ser calculado por várias fórmulas, porém a mais 
usada é a de Bentley: 
 
em que: 
EV = espaçamento vertical em metros; 
D% = declividade em percentagem; e 
X = fator resultante da interação: solo, declividade, cobertura 
vegetal e tipo de terraço, encontrado em quadros especiais 
(Quadro 2). 
 
Calcule o espaçamento vertical (EV) e o horizontal (EH) entre terraços em 
nível para a bacia de 60 ha a ser utilizada com culturas anuais, apresentando declive 
médio de 15%, respectivamente. A classe de solo predominante é o Luvissolo Tipico 
Órtico (textura média). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 185 
Quadro 2. Valores x para aplicação da fórmula de Bentley conforme os tipos 
de práticas conservacionistas, culturas e solo 
 
 
Exemplo: 
Dados:Cultura: milho; Área: 60 hectares; Classe de solo: Luvissolo Tipico 
Órtico (textura média); Terraço nivelado;Declividade: 15%; 
X = Tabelado (Quadro 2); e Determinar EV e EH. 
 
a) Determinação do valor de X: 
No Quadro 2 abaixo do termo “terraços”, encontra-se o termo “culturas 
anuais”. Abaixo de “culturas anuais”, na coluna 2, encontra-se “nivelado”. Abaixo de 
“terraço nivelado” encontram-se os tipos de solos: “argiloso”, “médio” e “arenoso”. 
Seguindo a linha correspondente ao “solo médio” até a última coluna, encontra-se o 
valor de X igual a 5,0 para as condições propostas. 
 
b) Determinação a declividade do terreno (D) = 15%. 
 
c) Calcular o Espaçamento Vertical (EV). Substituindo, na fórmula de Bentley, 
X e D pelos seus respectivos valores, tem-se: 
 
 
d) Calcular o Espaçamento Horizontal (EH) 
O espaçamento horizontal (EH) pode ser calculado em função da declividade 
do terreno, expressa em porcentagem (D%), e do espaçamento vertical entre os 
terraços (EV), pela semelhança entre triângulos. Por exemplo a declividade de 10% 
 186 
significa que para 100 m horizontais têm-se 10 m verticais. Assim, pode-se 
estabelecer a seguinte regra de três: 
 
100 m horizontais __________ 15,00 m verticais 
 EH __________ 1,53 m verticais 
 
 
 
Considerando a possibilidade de transformar o cálculo anterior em formula, 
tem-se: 
 
 
7.3.6.3.2. Comprimento dos Terraços 
 
Deve-se considerar se os terraços são em nível ou com gradientes. 
 
 Nivelados 
Teoricamente, o comprimento do terraço em nível não tem limite. Por medida 
de segurança, recomenda-se construir “travesseiros” (Figura 17), que são pequenos 
diques ou barreiras de terra batida dentro do canal, distanciados de 100 a 200 m. 
Evita-se que, em caso de arrombamento do terraço, toda a água nele acumulada vá 
atingir o terraço de baixo. Essas barreiras, porém, dificultam os trabalhos de 
manutenção dos terraços. 
 187 
 
Figura 17. Terraços com “travesseiros” em cafezal. 
 
 Com gradiente 
Os terraços em desnível devem apresentar uma pequena inclinação para um 
lado ou para os dois lados. A inclinação do canal deve ser criteriosamente 
dimensionada, afim de que a água não cause erosão dentro do terraço. O 
comprimento normalmente recomendado para terraços com gradiente é de 500 a 
600 m. Quando a área a ser terraceada apresenta dimensões maiores, 
principalmente quando o terreno for de baixa permeabilidade e/ou o solo for bastante 
degradado pela erosão, e as condições topográficas permitirem, deve-se procurar 
reduzir o comprimento dos terraços. 
Para isso, dois artifícios podem ser usados: 
 Locar canais escoadouros, nas duas 
extremidades laterais, e orientar o gradiente dos terraços para eles, a partir 
de uma linha de crista localizada na parte central da área (Figura 18). 
 
Figura 18. Esquema de locação dos canais escoadouros nas extremidades 
laterais dos terraços. 
 
 188 
 Construir o canal escoadouro na parte central do 
terraço e orientar o gradiente dos terraços para ele (Figura 19). 
 
Figura 19. Esquema de locação do canal escoadouro na parte 
central do terraço. 
 
 Declividade dos terraços com gradiente 
Os terraços podem ter gradiente constante, ou o gradiente pode aumentar 
progressivamente. Quando o gradiente for fixo, pode-se usar 0,3% e, quando ele for 
progressivo, começa-se em 0,1% e vai aumentando até chegar em 0,5%.No quadro 
seguinte sugere-se o aumento do gradiente com a distância do terraço. 
 
Quadro 3. Gradiente dos terraços em desnível em função do comprimento 
 
 
Para solos arenosos, a declividade não deve não passar de 0,3% e em solos 
argilosos, até 0,5% (600 m). O gradiente de 0,3% significa que a cada 100 m 
descem 30 cm; a cada 50 m descem 15; e a cada 10 m descem 3 cm. 
Na locação do terraço, para facilitar o trabalho, bater estacas de 10 em 10 m; 
a cada 10 m desce em direção ao caimento. Se o gradiente for de 0,2%, a cada 10 
m, descem 2 cm.O caimento do terraço pode ser para um dos lados ou para os dois 
lados, para dentro ou para fora da área.A Figura 20 mostra o sentido que o caimento 
dos terraços com gradiente pode apresentar. 
 189 
 
Figura 20. Sentidos do caimento dos terraços com gradiente . 
 
A quantidade de enxurrada que cai na parte inicial do terraço com gradiente é 
pequena, mas aumenta ao longo do terraço, exigindo maior capacidade de vazão à 
medida que a quantidade de enxurrada aumenta. A capacidade de escoamento de 
um terraço é afetada pela seção do canal, profundidade e declividade do terraço. 
Estes fatores podem ser ajustados de modo a dar ao terraço uma capacidade de 
escoamento compatível com o volume de enxurrada a ser transportado sem, 
contudo, permitir que ela adquira velocidade erosiva. Esta velocidade crítica varia 
com a natureza do solo em que o terraço é construído e com a natureza do 
revestimento do canal. Os terraços com gradiente necessitam de um local onde se 
possa jogar com segurança a água escoada por eles. As estruturas que 
desempenham essa função são chamadas de canal escoadouro (o qual será 
abordado mais adiante). 
 
7.3.6.4. Dimensionamento dos terraços 
 
O dimensionamento de um sistemade terraceamento considera, inicialmente, 
o objetivo a que se propõe o sistema: se para infiltração da água ou para seu 
escoamento. Esta decisão, tomada em função de características relacionadas, 
principalmente, às condições de declividade e de permeabilidade do solo, leva à 
construção de um sistema de terraços em nível, para infiltração, ou em gradiente, 
para escoamento do excedente da água da chuva. No entanto, para ambas as 
situações, o dimensionamento do sistema é feito em função de seu potencial em 
gerar enxurradas quando da ocorrência de chuvas intensas. Deve-se calcular, 
portanto, a quantidade de enxurrada que a microbacia é capaz de produzir, ou seja, 
a vazão máxima do escoamento superficial. A premissa para o dimensionamento do 
sistema de terraceamento é a de que deve ser locado em um local protegido da 
introdução de água que não aquela efetivamente caída sobre o local considerado. 
Assim, o sistema de terraceamento dever ser implementado em uma área delimitada 
por divisores de água naturais (microbacia) ou protegidos por um terraço de 
 190 
derivação (diversão). A Figura 21 e 22 mostram um esquema e uma bacia natural a 
ser terraceada. 
 
Figura 21. Esquema ilustrativo de uma microbacia para efeito de 
terraceamento. 
 
 
Figura 22. Exemplo de microbacia a ser terraceada 
 
 Escoamento superficial máximo (enxurrada 
máxima) 
A previsão do escoamento máximo pode ser estimada pela fórmula de 
Mulvaney (1851) conhecida na literatura como “fórmula racional”. 
 
Sendo: 
Qmáx: Vazão máxima da enxurrada em m3/s ; 
C : coeficiente de escoamento superficial (adimensional) ; 
i: intensidade (mm/h) da precipitação esperada com certo período de retorno 
e de duração igual ao tempo de concentração da bacia; e 
A : área em hectares. 
 
a. Coeficiente de escoamento superficial – C 
 191 
Este coeficiente refere-se à quantidade de água que é perdida por 
escoamento superficial e é função da declividade, da cobertura vegetal e do tipo de 
solo presente. Estes parâmetros foram tabulados estão apresentados no Quadro 4. 
 
Quadro 4. Coeficientes de escoamento (C) em função da topografia, da 
cobertura e do tipo de solo 
 
 
b. Intensidade máxima de chuva (Imax) 
 
A intensidade das chuvas evidentemente é fator crucial para a produção de 
enxurrada. O ideal seria utilizar para o cálculo da chuva a mais intensa possível, 
porém, adotam-se chuvas que apresentam uma esperança matemática 
(probabilidade) de cair em intervalos de 5, 10, 15, 20 anos ou mais. Assim, para se 
identificar a intensidade de chuva que produz a maior enxurrada na área, dois 
critérios fundamentais devem ser observados: chuvas de longa duração são de 
baixa intensidade e chuvas de curta duração são de alta intensidade; e para ocorrer 
a máxima enxurrada toda bacia deverá produzir água simultaneamente. 
Na aplicação desse método é preciso conhecer o tempo de concentração da 
bacia e a intensidade da chuva esperada nessa região para um período de retorno 
(T) adequado. 
O tempo de concentração da bacia é o tempo que a água demora para sair de 
um extremo ao outro mais distante da bacia. Quando uma chuva particular tem o 
tempo de duração igual ao tempo de concentração da bacia, esta chuva terá 
enxurrada máxima, pois toda ela estará contribuindo com água para a enxurrada 
simultaneamente e na máxima intensidade possível. O conceito de tempo de 
concentração de uma área de contribuição para o escoamento superficial, deve ser 
necessariamente ligado ao percurso possível da água sobre uma superfície 
irregular, tanto no declive quanto na rugosidade. O tempo de concentração em uma 
área ou bacia hidrográfica é a soma de tempos de percurso que a água leva para 
percorrer trechos sucessivos ao longo da superfície. A combinação de tempos de 
percurso que resultar no maior tempo total para toda bacia ou área de contribuição 
dará o chamado tempo de concentração. 
 192 
Para o seu cálculo é necessário conhecer, em função do tipo de cobertura do 
solo e do declive, a velocidade média com que a água escoa sobre a superfície. 
O problema prático é pois determinar qual o percurso total da água 
(distância), em vários trechos sucessivos, que resulta no tempo maior, a partir do 
mapa planialtimétrico ou até mesmo esquemático da área ou microbacia a ser 
terraceada. 
 
Quadro 5. Velocidade do escoamento superficial (V = m/s) em função do tipo 
de superfície e do declive do terreno (D = %), para calcular o tempo de concentração 
(Tc) 
 
 
Assim, depois de calculado o tempo de concentração, procura-se a chuva 
intensa cuja duração seja igual a Tc e com o tempo de retorno da ordem de 10 a 25 
anos. Estas seriam as alternativas para serem consideradas para o cálculo da chuva 
mais intensa, pois tempos de retorno superiores (50 ou 100 anos, por exemplo) ou 
mesmo inferiores (2 ou 5 anos, por exemplo), tendem a super ou subestimar as 
dimensões do terraço a ser calculado. No primeiro caso, o custo de construção do 
terraço seria muito alto, para uma período muito longo, durante o qual o uso do solo 
poderia ser bastante alterado. No outro caso, ou seja, períodos de retorno 
pequenos, o risco de transbordamento dos terraços seria muito alto, colocando todo 
o sistema de terraceamento comprometido. 
Assim, adotam-se chuvas que apresentam uma esperança matemática 
(probabilidade) de cair em intervalos de 10 a 25 anos, conforme a disponibilidade de 
dados da área ou região. A intensidade pode ser calculada através das equações de 
intensidade-duração-freqüência, como as determinadas para as estações 
meteorológicas de Pentecoste e Fortaleza, instaladas na Fazenda Experimental Vale 
do Curu e Campus do PICI (Rodrigues, 2007). 
 
Quadro 6. Equações intensidade-duração- freqüência para as estações 
meteorológicas de Fortaleza (Campus do PICI) e Pentecoste (Fazenda Experimental 
Vale do Curu) 
 193 
 
 
d. Área da bacia (A) 
 
Quanto maior a área de coleta, maior será o volume de água para um mesmo 
coeficiente de escoamento e uma mesma intensidade de chuva. 
 
 Exemplo de cálculo da vazão máxima do 
escoamento superficial máximo 
 
O escoamento superficial máximo produzido sobre uma bacia de 60 ha com 
declividade média de 15%, trecho a ser percorrido pelas gotas de chuva para a 
formação da enxurrada máxima de 1.600 m (Figura 21) e cultivado com culturas 
anuais. 
Assim sendo o tempo de percurso no trecho (no caso se haver mais de um 
tipo de uso na bacia, caso contrário deve-se calcular o tempo de percurso de cada 
uso) é: 
 
Figura 21. Esquema ilustrativo de uma microbacia para efeito de 
terraceamento. 
 
Assim sendo o tempo de percurso para o trecho é: 
 194 
 
Considerando o tempo de concentração de 25,4 minutos (1.524/60), pode se 
calcular a intensidade máxima através da fórmula (Quadro 6): 
Nesse caso, é esperado para a região de Pentecoste-CE e um período de 
retorno de 25 anos, de acordo com o Quadro 6, uma chuva de 117,06 mm/h com 
duração de 25,4 minutos (1.524 segundos). 
 
Quadro 5. Equações intensidade-duração- freqüência para as estações 
meteorológicas de Fortaleza (Campus do PICI) e Pentecoste (Fazenda Experimental 
Vale do Curu). 
 
 
O coeficiente de escorrimento superficial para uma cobertura de culturas 
anuais e declividade de 15% , de acordo com Quadro 6, é igual a 0,70. 
Assim, o escoamento superficial máximo pode ser, então, calculado: 
 
 
Quadro 6. Coeficientes de escoamento (C) em função da topografia, da 
cobertura e do tipo de solo 
 195 
 
 
 Cálculo de terraço em nível e em gradiente 
 
Calculada a vazão máxima do escoamento superficial (enxurrada máxima), 
doiscaminhos podem ser percorridos conforme o tipo de terraço a ser construído: 
A vazão, multiplicada pelo tempo de duração da chuva, resultará no volume 
de água a ser infiltrado, caso o terraceamento seja em NÍVEL (ou absorção, ou 
retenção ou de infiltração). A vazão calculada será aquela a ser retirada da área pelo 
sistema de terraceamento, no caso de escoamento, ou seja, em GRADIENTE (em 
desnível, com declive ou de escoamento). 
Normalmente, adota-se um coeficiente de segurança, adotando-se 20% a 
mais do volume que deve ser armazenado: 
Volume de terraço = 1,2 x volume de escoamento superficial máximo 
(enxurrada máxima). 
 
a. Cálculo de terraço em nível 
Na primeira opção, terraceamento em nível ou infiltração, verifica-se que o 
sistema de terraceamento deverá ter volume suficiente para receber a enxurrada, 
isto é: 
volume de terraços = volume de enxurrada. 
O volume da enxurrada é dado pela multiplicação da vazão (m3/s) pela 
duração da chuva (s). 
O volume de terraços nada mais é do que a multiplicação do comprimento 
total dos terraços (L) pela área da seção transversal (S): 
 
em que: 
L = Comprimento do terraço (m) para 1 ha (10.000 m2); e 
EH = espaçamento horizontal (m). 
 
A área da secção transversal S, em m2, é função do formato do terraço: 
No caso de terraço de secção transversal trapezoidal (Figura 22), tem-se: 
 196 
 
 
Figura 22. Representação esquemática de seção triangular empregada para 
dimensionamento e construção de terraços. 
 
Definida a área da seção transversal, o técnico deve ter em mente que um 
terraço de infiltração deve ser raso e largo. Dessa forma, é usual utilizar-se a 
profundidade de corte do arado como a profundidade do terraço. O talude a ser 
formado deve ser definido (2:1; 1:1; 1:2, etc.) de maneira a chegar aos valores 
necessários à construção. 
 
 Exemplo de cálculo de terraço em nível 
 
a. Cálculo de volume da enxurrada 
A bacia hidrográfica ou área a ser terraceada é de 60 hectares a ser utilizada 
com culturas anuais. Considere o exemplo para o qual já foi calculada a vazão do 
escoamento superficial (enxurrada) máxima, acrescentando 20% como fator de 
segurança, tem-se que 
 
Para o terraço em nível, as dimensões do terraço são calculadas pelo volume 
(V) que a vazão máxima de escoamento (enxurrada) máximo (Q) produzirá no tempo 
de duração da chuva, no caso semelhante ao tempo de concentração (TC = 1.524s). 
Este vai ter que ser o volume de todo o sistema de terraceamento a ser implantado 
na área, ou seja, o volume de escoamento produzido na área vai ser igual ao volume 
o terraço a ser calculado. Esta é a condição para calcular as dimensões do terraço. 
Sendo assim, tem-se: 
 
Sendo assim, tem-se: 
 
b. Cálculo do comprimento do terraço em metros por hectare 
O comprimento do terraço pode ser calculado pela fórmula : 
 
em que: L = Comprimento do terraço (m) para 1 ha (10.000 m2); e 
EH = espaçamento horizontal (m). 
 197 
 
De acordo com o exemplo dado no item 4.3., o espaço horizontal (EH) é de 
10,20 m, tem-se: 
 
O comprimento total de terraços (LT), considerando a área da bacia de 60 ha 
é: 
LT = 980,40 m/ha x 60 hectares = 58.824 m de terraço em 60 hectares. 
 
c. Cálculo da seção do canal 
 
Para calcular a seção do canal, basta dividir o volume da enxurrada pelo 
comprimento do terraço: 
 
 
Esta área da seção do terraço deve conter o volume de enxurrada formado 
em condições normais. Para encontrar as dimensões deve ser considerado a 
forma/tipo de implemento para a construção. 
No caso, será usado um arado regulado para cortar 0,40 m de profundidade, 
um talude do terraço de 1:1 e formato trapezoidal (Figura 23). 
 
Figura 23. Representação esquemática de um terraço trapezoidal. 
 
Com estas definições, chega-se a: 
h = 0,40 m 
B = b + 2h 
X = h 
B = b + X + X = b + 2X 
h = 0,40 m 
Para o talude 1:1, X = h, de maneira que: 
B = b + 2 x 0,40 
B = b + 0,80 
 198 
 
Sendo assim, tem-se para um terraço de forma trapezoidal: 
Área da secção transversal (S) = 0,43 m2 
Base maior (B) = 1,48 m 
Base menor (b) = 0,68 m 
Talude = 1:1 = 0,40 = 0,40 
Comprimento total (L) = 58.824 m 
Profundidade do terraço = 0,40 m 
 
 Cálculo de terraço em gradiente 
As dimensões do terraço com gradiente devem ser aquelas que proporcionam 
uma vazão semelhante a do escoamento superficial máximo produzido na área 
(enxurrada máxima), quando da ocorrência da chuva no tempo de concentração e 
de retorno considerados. 
 
em que 
Q = vazão do canal do terraço, em m3/s; 
V = velocidade máxima do escoamento dentro do terraço, em m/s; 
S = área da seção transversal em m2. 
 
Conhecendo-se a vazão do canal do terraço, determina-se as dimensões do 
canal do terraço, conforme a forma considerada do mesmo. Porém, as dimensões 
do terraço devem ser tais que não proporcionem uma velocidade de escoamento 
que não promova a erosão do próprio terraço, ou seja, a velocidade de escoamento 
no terraço do canal deve ter um limite considerado seguro (uma velocidade 
permitida máxima). 
Tendo-se como referência estas considerações, o cálculo das dimensões de 
um terraço devem seguir os seguintes passos: 
 
 199 
 
a. Determinação da declividade do canal do terraço 
A declividade do canal do terraço pode ser estabelecida conforme as 
recomendações feitas anteriormente no item 3.3. 
 
b. Determinação da velocidade máxima de escoamento permitida no canal do 
terraço 
Determinada conforme o tipo de solo, a declividade do canal e o tipo de 
cobertura. 
 
c. Cálculo da área da secção transversal do terraço 
Para calcular a área da seção do canal é necessário considerar a equação 
anteriormente (Qcanal do terraço com gradiente= V x S)apresentada e a velocidade máxima 
permitida do escoamento no canal do terraço em gradiente (Quadro 7). 
 
d. Cálculo das dimensões da área da secção transversal do terraço 
Para calcular as dimensões do canal do terraço em gradiente é preciso 
considerar a forma geométrica do mesmo. 
 
Quadro 7. Velocidade máxima permitida em canais abertos 
 
 
As mais comumente usadas são a trapezoidal, a triangular e a parabólica, 
sendo apresentadas a seguir as fórmulas associadas às dimensões destas: 
 
d.1. Forma trapezoidal 
Na Figura 23 tem-se: 
B = base superior 
b = base inferior 
 200 
h = altura 
L = lado do canal 
Y/h = talude 
 
Figura 23. Seção transversal de um canal de forma trapezoidal 
 
Área da secção do canal : 
Cálculo do perímetro molhado: 
O perímetro molhado é calculado pela soma da base menor (b) mais os dois 
lados do terraço (L1 + L2). 
PM = b + L + L 
PM = b + 2L 
 
O lado L do trapézio pode ser calculado pelo teorema de Pitágoras, ou seja, 
L2= Y2+ h2 
 
Então: 
PM = b + 2(Y2+ h2)1/2 
 
Raio hidráulico (RH): 
O raio hidráulico (RH) corresponde à divisão da área da secção transversal 
(S) do canal pelo perímetro molhado (PM). 
 
Talude: 
A inclinação da borda do canal é denominada talude, sendo 
expressa pela relação da distância horizontal para distância 
vertical e, numericamente pelas relações 1:1; 2:1; 3:1; etc. 
Quanto maior for a distância horizontal em relação à distância vertical, menos 
inclinado é o talude. No caso é dada pela expressão: 
Talude = Y/h 
 
d.2. Forma triangular 
Na Figura 25 tem-se: 
B = base superior 
h = altura 
 201 
L = lado do canal 
Y/h = talude 
 
Figura 25. Seção transversal de um canal de forma triangular. 
 
Área da seção do canal: 
 
Perímetro molhado (PM): 
O perímetro molhado (PM) é calculado pela soma dosdois lados do terraço 
(L1 + L2). 
PM = L1+ L2 
Como o triangulo é eqüilátero e os dois lados são iguais, então: 
PM = 2L 
O lado L do trapézio pode ser calculado pelo teorema de Pitágoras, ou seja: 
L2= Y2+ h2 
Então: 
PM = 2(Y2 + H2)1/2 
 
Cálculo do raio hidráulico (RH): 
O raio hidráulico (RH) corresponde à divisão da área da seção transversal (S) 
do canal pelo perímetro molhado (PM). 
 
Talude 
A inclinação da borda do canal é denominada talude, sendo expressa pela 
relação da distância horizontal para distância vertical e, numericamente pelas 
relações 1:1; 2:1; 3:1; etc. Quanto maior for a distância horizontal em relação à 
distância vertical, menos inclinado é o talude. 
 
No caso é dada pela expressão: 
Talude = Y/h 
d.3. Forma parabolóide 
Na Figura 26 tem-se: 
B = base superior 
 202 
h = altura 
L = lado do canal 
Y/h = talude 
 
Área da seção do canal 
 
 
 
Figura 26. Seção transversal de um canal de forma parabolóide. 
 
Cálculo do perímetro molhado (PM): 
 
 
Raio hidráulico (RH): 
O raio hidráulico (RH) corresponde à divisão da área da seção transversal (S) 
do canal pelo perímetro molhado (PM). 
 
 
e. Reavaliação do cálculo da velocidade real de escoamento no canal 
A velocidade média e real do escoamento no canal do terraço (m/s) nas 
dimensões determinadas para a forma da secção considerada pode ser calculada 
pela seguinte equação: 
 
em que: 
R = raio hidráulico em m; 
I = Gradiente hidráulico, ou inclinação do canal em m/m (1% = 0,01), ou a 
razão da diferença de nível para o comprimento do canal; e 
n = coeficiente de atrito que varia com a natureza do solo ou revestimento do 
canal (Quadro 8). 
 
 203 
Quadro 8. Valores de coeficiente de rugosidade 
 
 
A velocidade de escoamento real calculada neste passo é, então, confrontada 
com a velocidade permitida considerada anteriormente e que está entre as opções 
do quadro 6. Caso a velocidade real calculada não esteja próximo do recomendado, 
os cálculos devem ser refeitos, alterando-se as dimensões do canal do terraço na 
forma considerada. 
Nestes casos existem duas situações possíveis: 
a. Se a velocidade real estiver muito acima da permitida, isto leva a 
necessidade de redução da velocidade de escoamento pelo aumento do atrito, o que 
pode ser obtido com um maior espalhamento do escoamento. Assim, para uma 
mesma área de secção transversal, pode-se, por exemplo, diminuir a profundidade 
do terraço, o que leva ao aumento da largura do mesmo, consequentemente com 
um diminuição da velocidade de escoamento. 
b. Se a velocidade real estiver abaixo da permitida, torna-se necessário o 
aumento da mesma, o que pode ser conseguido com o aumento da profundidade e 
a diminuição da largura do terraço, o que leva a uma maior concentração do 
escoamento e a redução do atrito com a superfície do solo. 
c. Pode-se também aumentar ou diminuir a declividade do canal do terraço, 
isto se for possível e dentro das recomendações consideradas em item específico. 
Aumentando ou diminuindo a declividade têm-se a respectiva diminuição ou 
aumento da velocidade, considerando-se que as demais dimensões permanecem 
constantes. 
 
 Exemplo de cálculo de terraço em gradiente 
O exemplo vai ser apresentado em passos para facilitar a compreensão do 
mesmo: 
Neste exemplo deve-se lembrar que o mesmo deve ser recalculado quanto a 
alguns aspectos, tais como espaçamento vertical (EV = 1,75 m) e horizontal (EH = 
11,70 m), considerando-se os valores tabelados adequados a esta condição. 
 
a. Cálculo da vazão de escoamento superficial máxima 
 204 
Outra questão importante é que a área de formação de enxurradas é a que 
está imediatamente acima do terraço e não mais toda a área da bacia. 
Neste caso e com auxílio de mapas e/ou fotos aéreas se faz a locação dos 
terraços e posterior determinação individual da área acima de cada terraço, bem 
como sua vazão máxima da enxurrada. 
Considerando hipoteticamente uma área de 4 ha acima do primeiro terraço, 
tem-se que 
 
 
b. Determinação da declividade do canal do terraço 
A declividade do canal do terraço pode ser estabelecida conforme as 
recomendações feitas anteriormente no item 3.3. 
Neste exemplo deve-se considerar uma declividade única de 
0,3%. 
 
c. Determinação da velocidade máxima de escoamento permitida no canal do 
terraço 
Será determinada conforme o tipo de solo, a declividade do canal e o tipo de 
cobertura. No quadro 7 tem-se que a velocidade máxima permitida para solos mais 
erodíveis, declividade de canal de 0,3%, solo cultivado e canal sem cobertura igual a 
0,45 m/s (Quadro 7). 
 
d. Cálculo da área da secção transversal do terraço 
Para calcular a área da seção do canal é necessário considerar a equação 
apresentada e a velocidade máxima permitida do escoamento no canal do terraço 
em gradiente (Quadro 7). 
Sendo assim: 
Qescoamento máximo superficial= Qcanal do terraço em gradiente =V x S 
0,91 m3/s = 0,45 m/s x S 
S= 2,02 m2 
 
e. Cálculo das dimensões da área da secção transversal do 
terraço 
Para calcular as dimensões do canal do terraço em gradiente é preciso 
considerar a forma geométrica do mesmo. Para este exemplo vai ser considerada a 
forma trapezoidal, o uso de um arado regulado para cortar 0,40 m de profundidade e 
o talude do terraço será de 1:1. 
B = base superior 
b = base inferior 
h = altura 
L = lado do canal 
Y/h = talude 
 
 205 
Então: 
 
 
e.1. Cálculo do perímetro molhado (PM) 
O perímetro molhado (PM) é calculado pela soma da base 
menor (b) mais os dois lados do terraço (L1 + L2). 
PM = b + 2(Y2 + h2)1/2 
PM = 4,65 + 2(0,402+ 0,402)1/2 
PM = 5,78 m 
 
e.2. Raio hidráulico (RH) 
O raio hidráulico (RH) corresponde à divisão da área da secção transversal 
(S) do canal pelo perímetro molhado (PM). 
RH = S / PM 
RH = 2,02 / 5,78 
RH = 0,35 m 
 
Sendo assim, tem-se para um terraço de forma trapezoidal: 
Área da secção transversal (S) = 2,02 m 
Base maior (B) = 5,45 m 
Base menor (b) = 4,65 m 
Talude = 1:1 = 0,40 = 0,40 
Comprimento total (L) = 51.282 m 
Altura ou profundidade do terraço = 0,40 m 
 
d. Talude 
A inclinação da borda do canal é denominada talude, sendo expressa pela 
relação da distância horizontal para distância vertical e, numericamente pelas 
relações 1:1; 2:1; 3:1; etc. Quanto maior for a distância horizontal em relação à 
distância vertical, menos inclinado é o talude. 
No caso é dada pela expressão: 
Talude = Y/h 
 
 206 
f. Reavaliação da cálculo da velocidade real de escoamento no canal 
A velocidade média e real do escoamento no canal do terraço (m/s) nas 
dimensões determinadas para a forma da secção considerada é calculada pela 
seguinte equação: 
 
O valor de 0,003 é a declividade do canal do terraço em gradiente (0,3%) em 
m por m, ou seja: se em 100 m se tem 0,3 m de diferença de nível, em 1 m ter-se-á 
0,003 m. A velocidade calculada é menor que a velocidade máxima permitida dentro 
do canal, ou seja, a velocidade calculada de 0,27 m/s é menor que a permitida no 
canal, nas condições calculadas, que é de 0,45 m/s. Neste caso, a velocidade pode 
ainda ser aumentada para ficar próximo da velocidade recomendada. Sendo assim, 
pode-se redimensionar a área da secção transversal, por exemplo aumentando a 
profundidade do canal, reduzindo a base menor e maior, e consequentemente o 
atrito do fluxo do escoamento superficial. Outra alternativa para o exemplo em 
questão é a possibilidade de aumento da declividade do canal do terraço. 
Procedimentos similares podem ser feitos no caso

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