Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

7
I. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA
• “Testes ABC”: Origem e Desenvolvimento
“ABC Tests”: Origin and Development
Carlos Monarcha1
UNESP
Resumo: Este artigo reconstitui a origem e o desenvolvimento dos “Testes ABC”, dispositivo
destinado à verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita, e
considerado capítulo essencial da obra psicológica de Manoel Bergström Lourenço Filho.
Palavras-chaves: Lourenço Filho, Testes ABC, leitura e escrita.
Abstract: This essay presents the origin and development of the “ABC Tests”, device
destined to verify the necessary maturity for learning the processes of reading and writing,
considered to be an essential chapter of the psychological work of Manoel Bergström
Lourenço Filho.
Keywords: Lourenço Filho, ABC Tests, reading and writing.
Próprio das décadas de 20 e 30 do século XX, o chamado “movimento de
testes” introduziu e aperfeiçoou, nos meios científicos nacionais, as técnicas de
avaliação e de prognóstico mediante utilização de provas breves e objetivas.
Para o contemporâneo do movimento na época, o eminente Antonio Carneiro
Leão, os testes psicológicos concretizariam o “sonho dourado da pedagogia” —
a formação de classes homogêneas conforme velocidade de aprendizagem e
de classes especiais para os então designados, retardados mentais e bem-
dotados de inteligência. Naquelas décadas, consolidou-se a voga das medidas
psicológicas destinadas a elucidar os problemas no ensino na época.
A bem da verdade dos fatos, vivencia-se um fenômeno novo, a saber: a
escola de massas. O caso do Estado de São Paulo é um dos mais ilustrativos;
com efeito, entre 1907 e 1930, a matrícula geral evolui de 61.512 para 356.292
alunos, o número de classes saltou de 1.828 para 8.129 unidades, conforme
estatística de 1930, coordenada por Lourenço Filho, à frente da Diretoria Geral
da Instrução Pública no Estado de São Paulo.
De modo geral, presenciava-se a evolução crescente da matrícula escolar,
ainda que insatisfatória, acompanhada de aumento de gastos públicos, o que se
exigia aumento da eficiência e do rendimento do sistema educacional.
Nesse sentido, um sem-número de intelectuais envolveu-se com a
problemática da educação escolar e a eficiência administrativa; movidos por
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
1 Professor Adjunto (Livre-Docente) em História da Educação na Faculdade de Ciências e
Letras – campus de Araraquara. Organizador com Ruy Lorenço Filho da Coleção Lourenço
Filho, disponível na Internet em www.inep.gov.br. Contato: monarcha@sunline.com.br
8
convicções sociais e culturais, desempenhavam o papel de experts em medidas
psicológicas, ao produzirem testes com seus manuais de aplicação e publicações
congêneres. Ocorreu, então, uma profusão de ações orientadas por valores
práticos e sociais, contribuindo para legitimar a Psicologia Objetiva como campo
de saber academicamente pertinente e socialmente relevante.
O primeiro manual de aplicação foi de autoria de Medeiros e Albuquerque
(1924), intitulado Tests: introdução ao estudo dos meios científicos de julgar a
inteligência e a aplicação nos alunos. Essa primeira publicação brasileira do
gênero, substituindo dois manuais portugueses em circulação nos meios
nacionais — Escala de pontos dos níveis mentais das crianças portuguesas, de
Luisa Sérgio e António Sérgio (1919), e Lições de pedologia e pedagogia
experimental, de Faria de Vasconcellos (1923).
Na seqüência, eram publicados os seguintes títulos: O movimento dos
testes: estudo dos testes em geral e guia para realização do teste Binet-Simon-
Terman, de Baker (1925); Testes: escola experimental – testes mentais, testes
de escolaridade e programa de testes, de Maranhão (1950); Teste individual de
inteligência: fórmula de Binet-Simon-Burt adaptada para o Brasil (Alves, 1928),
Os testes e a reorganização escolar (Alves, 1930), e Testes de inteligência nas
escolas (Alves, 1932).
O rol de títulos evoluiu rapidamente, com a publicação de Infância
Retardatária: ensaios de Ortofrenia, do professor da assim denominada Escola
de Débeis do Hospício do Juqueri, de Norberto de Souza Pinto (1928), com
prefácio de Lourenço Filho e Sud Mennucci; O método dos testes: com aplicações
à linguagem no ensino primário, de Bomfim e colaboradores (1928); Estudo
psicotécnico de alguns testes de aptidão (Pernambucano, 1927) e Ensaio de
aplicação do test das 100 questões de Ballard de Pernambucano e Barreto (1930);
e Testes, de Scarameli (1931); Exame psicológico da criança, de Radecka
(1930); Testes ABC, de Lourenço Filho (1933); Alunos-problemas nas aplicações
dos testes ABC, de Nascimento (1934); Testes: bases psicológicas da Escola
Nova, de Cavalcanti (1935); e Tests: como medir a inteligência dos escolares,
Rocha & Andrada (1931); As palavras de um destes últimos autores, Andrada,
são significativas para expressar o espírito da época:
Muito haveria que dizer sobre as vantagens, no ponto de vista social, em
que se conhecerem e classificarem as mentalidades infantis. Limito-me,
portanto, a apenas lembrar que esta classificação constitui o fundamento
de toda a organização de ensino que pretenda o nome de científica, bem
como de todas as obras de assistência e proteção a menores com
finalidades profiláticas quanto ao crime e à loucura. Toda a eficiência do
ensino deriva, pois, da organização de classes homogêneas, sem o que
não será satisfeita uma das necessidades mais essenciais deste ensino
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
9
que é forçosamente de preparar o maior número de alunos no menor
prazo, para beneficiar a totalidade da população infantil que cumpre
educar. (p.11-12).
Nesse quadro de entusiasmo fremente, a Psicologia assim designada,
Objetiva, ganhou alta visibilidade nos meios científicos e administrativos nacionais,
inserindo-se em definitivo no meio escolar. Assim, institucionalizou-se o
“movimento de testes”, capitaneado por figuras do porte de Lourenço Filho,
Ulisses Pernambucano, Manoel Bomfim, Waclaw Radecki, Clemente Quaglio,
Helena Antipoff, Isaias Alves e outros.
Desde os anos de 1920, as teorizações e experimentações de Lourenço
Filho colocavam-no ao lado tanto dos críticos da Psicologia clássica, com suas
teorias sobre as chamadas faculdades da alma, quanto da psicofísica do século
XIX. Para os críticos, a fragmentação analítica da vida psíquica não media a
capacidade geral dos sujeitos; mais além, a aparelhagem pesada e complexa
dos laboratórios implicava dispêndio de tempo, a presença de experimentadores
hábeis e o inconveniente causado pela realização de exames em pequena escala.
Sua primeira incursão no campo do método de testes e medidas ocorreu
no início dos anos 20 do século passado, quando ainda lecionava na Escola
Normal de Piracicaba, interior paulista, conforme podemos ler no artigo Estudo
da atenção escolar, publicado na revista Educação. Bem mais tarde, ao assumir
as roupagens de historiador da Psicologia, ele escreveria na terceira pessoa:
Nesta corrente de idéias, M. B. Lourenço Filho [...] começa a ensinar
psicologia na Escola Normal de Piracicaba, em 1920. Lecionando também
num colégio particular, mantido por uma fundação norte-americana, aí
toma mais largo contado com livros de psicologia educacional procedentes
dos Estados Unidos, e passa a realizar uma série de pesquisas com o
emprego de testes, de que publica os primeiros resultados em 1921.
(Lourenço Filho, 1955, p.276).
Tal incursão prosseguiria entre 1922 e 1923, quando assumiu a Cátedra
de Pedagogia e Psicologia da Escola Normal Pedro II, Fortaleza, Ceará, e
reformou o então ensino primário e normal daquele Estado.
A partir de 1925, já na condição de Regente da Cadeira de Pedagogia e
Psicologia da Escola Normal da Praça da República, Lourenço Filho destacou-
se pela difusão de teorias de aprendizagem baseadas no comportamentismo e
modelos curricularesde base psicogenética. Nas palavras memoriosas de um
ex-aluno:
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
10
Lembram-se com nitidez essas aulas magníficas em que muitas vezes se
leu e se discutiu Claparède, de cuja primeira tradução para o português
Lourenço Filho, por essa época (em começos de 1928), se havia
encarregado. Tanto quanto das aulas, e mais talvez, recordo-me das
conversações freqüentes no pequeno laboratório de Psicologia ou nos
Corredores da velha Escola, nas quais as teorias do jogo, a passagem
jogo para o trabalho, a evolução do interesse, a escola sob medida e
outros pontos das idéias de Claparède eram expostos pelo professor
sempre amigo e sempre disposto a esclarecer as dúvidas que
preocupassem os alunos. (Penna, 1949, p.222).
No jogo de forças e busca de prestígio e, naturalmente, busca de poder
social, Lourenço Filho revolveu o canteiro de obras deixado por Clemente Quaglio
(Patrono da Cad. 31) e Ugo Pizzoli. De fato, assistido por colaboradores —
Noemy Marques da Silveira (pelo casamento, Noemy da Silveira Rudolfer, ex-
ocupante da Cad. 2), Branca Caldeira, Odalivia Toledo e João Batista Damasco
Penna (ex-ocupante da Cad. 18) — trabalhou no Laboratório de Psicologia
Experimental da Escola Normal da Praça com a preocupação, entre outras, de
padronizar a mensuração da maturidade psicológica, para exame de escolares
analfabetos de seis e oito anos.
Os estudos teóricos e experimentais realizados por Lourenço Filho, na
memorável Escola Normal da Praça, foram múltiplos e significativos — testes
mentais, inquéritos sobre jogos, influência da leitura e cinema, e posteriormente
publicados sob os títulos: Contribuição ao estudo experimental do hábito, Um
inquérito sobre o que os moços lêem, A moral no teatro, principalmente no
cinematógrafo; e Os testes. Simultaneamente, Lourenço Filho anunciou, por
inúmeras vezes, a publicação da Revisão da Escala Barreto-Lima e Revisão
Paulista da Escala Binet-Simon, fato não concretizado.
Dentre esses estudos, ganhou corpo a investigação sobre a relação entre
a maturidade psicológica e as aptidões necessárias à aprendizagem da leitura e
da escrita. Para realizá-la, Lourenço Filho e colaboradores submeteram a exames
psicológicos os alunos do Jardim de Infância e das Escolas-Modelos anexas à
Escola Normal e, depois, do Grupo Escolar da Barra Funda. Dizia ele, ao justificar
sua investigação:
Impressionara-nos o fato de haver algumas crianças fracassado na
aprendizagem da leitura, no ano letivo anterior, muito embora
apresentassem nível mental igual ou superior ao de outras, para as quais
o aprendizado se havia dado normalmente, na mesma classe, com o
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
11
mesmo mestre, e, pois, com os mesmos processos didáticos. Havia um
problema de grave importância para a economia escolar. Intentamos
resolvê-lo, primeiramente, para verificação de uma possível maturidade
da acuidade visual e auditiva, assunto que, dantes, já nos vinha
preocupando de modo particular, pelo estudo da fatigabilidade e interesse
na atenção escolar. Retomando as pesquisas, na Escola Normal da
Capital, em São Paulo, em breve nos convenceríamos de que elas deviam
procurar atingir a estrutura íntima de todo o processo de aprendizagem e
não se deter apenas na verificação da acuidade sensorial ou de processos
isolados. Seria forçoso, pois, planejar uma série de provas sintéticas, ou
puramente funcionais, o que fizemos. (Lourenço Filho, 1933, p.36).
Estimulado pela conjuntura intelectual e científica, Lourenço Filho
inicialmente divulgou os resultados das investigações nas seções de
comunicações da Sociedade de Educação de São Paulo, nas páginas da revista
Educação, órgão da Diretoria Geral da Instrução Pública, na Revista de Biologia
e Higiene, no Boletim do Instituto de Higiene de São Paulo, e na Escola Nova,
órgão da Diretoria do Ensino.
Toda essa atividade experimental expressava um esforço de objetividade
científica destinado a organizar a Psicologia aplicada à educação como campo
de saber autônomo, dotado de terminologia e meios de investigação próprios; e,
naturalmente, disciplina acadêmica capaz de ensinar conhecimentos
experimentalmente acumulados, o que de fato concretizar-se-ia.
Logo Lourenço Filho daria a público dois livros fundamentais, os quais
exerceriam larga influência sobre as gerações seguintes — Introdução ao estudo
da Escola Nova (1930) e Testes ABC para verificação da maturidade necessária
à aprendizagem da leitura e escrita (1933). Com esses livros, tornou-se uma
das expressões de uma corrente de idéias em vertiginosa ascensão, denominada
pela historiografia acadêmica de “movimento da Escola Nova”, um movimento
disposto a concretizar as bases da educação moderna, nos meios nacionais,
mediante integração da pedagogia com campos do saber em franco
desenvolvimento: Sociologia, Higiene, Biologia e Psicologia.
Na concepção pragmática de Lourenço Filho, os exames deveriam ser
realizados em condições simples, isto é, com o recurso de testes capazes de
aferir rapidamente os atributos individuais. Dizia ele:
De tentativa em tentativa, a psicologia experimental logrou obter meios
práticos para as investigações necessárias à classificação dos indivíduos,
hoje possível sem longo ou penoso trabalho, por meios objetivos
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
12
relativamente simples. Esses meios são os testes psicológicos, pequenas
provas, sob condições bem definidas, e cujos valores significativos só
são fixados depois de investigações bioestatísticas.
Por eles não só se chega à organização racional de classes homogêneas,
ao ensino seletivo e diferenciado (ou “sob medida”, como lhe chamou
Claparède), mas ainda à classificação científica dos anormais de
inteligência, à organização de classes ou escolas para os supernormais,
à orientação e seleção profissional, à discriminação dos temperamentos
e aptidões especiais. (Lourenço Filho, 1930, p.19).
Nesse momento de entusiasmo transformador, Lourenço Filho orientava-
se pelas idéias e obras de autores ligados à escola franco-genebrina de
Psicologia: Comment diagnostiquer les aptitudes chez les écoliers, de Edouard
Claparède (1929), La mesure du développment de l’intelligence chez les jeunes
enfants, de Alfred Binet e Theodore Simon (1931), Psicologia experimental, de
Henri Piéron (1926), Tecnopsicologia do trabalho industrial, de Léon Walther
(1929), Psychologie et pedagogie de la lecture, de Ovide Decroly (1926) e La
pratique des tests mentaux, de Decroly e Buyse (1928).
Mas, sobretudo, sua atividade experimental era impulsionada pela presença
ativa, no Brasil, de renomados, então denominados “psicologistas”, envolvidos
com a propaganda da aplicabilidade prática da Psicologia — Piéron, Walther,
Simon, Ferrière e o grande Claparède, intelectuais-cientistas dispostos a levar
ao encontro da opinião pública os sobrepoderes da Psicologia Objetiva, como
podemos observar neste excerto:
Pois bem, a psicologia, ciência da conduta humana, presta reais serviços
a um grande número de disciplinas, principalmente sob o ponto de vista
das medidas, da avaliação das funções mentais. Assim é que a Pedagogia
aproveitou os dados dessa ciência.
Entretanto, não é só na pedagogia que a psicologia intervém. No domínio
industrial, por exemplo, temos a seleção profissional, a organização
psicofisiológica do trabalho, pela qual são obtidos importantes resultados
de ordem econômica. Há ainda exemplos notáveis da aplicação dessa
ciência no comércio, em matéria de reclames e publicidade. Essa aplicação
se faz também na organização militar, e no campo da higiene mental, sob
o ponto de vista da ação dos tóxicos e da psicoterapia. Na organização
judiciária, também, o concurso da psicotécnica é importantíssimo para a
apreciação do justo valor de um testemunho, assunto muito delicado.São ainda notáveis tais aplicações na técnica do cinema, da telefonia,
etc. etc. (Piéron, 1927, p.15).
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
13
E, de certa forma, tal como Piéron havia feito, Lourenço Filho exprimiu
bem essa mesma convicção:
Convém salientar aqui que a psicologia vai deixando de ser especulação
filosófica, para constituir ciência natural, ramo da biologia. Obedece,
assim, às condições de evolução de toda a ciência. A princípio era a
filosofia a totalidade do saber. A própria matemática lá estava, nesse
emaranhado primitivo, encantador mas nebuloso [...] Pouco a pouco, se
estabelece e se desprende do pensamento filosófico puro. A marcha é a
mesma em todas as ciências. A física, a química, a biologia quase que
definitivamente separadas da primitiva explicação a priori da vida e o
universo. Os ramos mais complexos da biologia, e a mesma sociologia
ensaiam-se agora nessa separação definitiva. A psicologia, ciência
biológica, já se apresenta, de vinte anos a esta parte, com foros de estudo
científico, fundando-se na observação e na experimentação, tanto quanto
as ciências naturais e as físico-químicas. (Lourenço Filho, 1930, p.43-
44).
Diferenciando-se de outras medidas psicológicas, os testes “ABC”
produziam um “diagnóstico precoce” do nível de maturidade psicológica e um
“prognóstico seguro”, com relação à aquisição da leitura e da escrita e
homogeneização das classes, em decorrência da classificação obtida.
Exames coletivos de base bioestatística, os “testes ABC”, nas palavras do
formulador, destinavam-se a captar “a criança real em sua diversidade”. Para
tanto, eram aplicadas oito provas para avaliação das seguintes funções:
coordenação visivo-motora, memória imediata, memória motora, memória
auditiva, memória lógica, prolação, coordenação motora, atenção e fatigabilidade.
Ao quantificar os atributos individuais em categorias — alunos “fortes”, “médios”
e “fracos” — ele almejava a efetuação de um ensino diferencial.
Como se poderá verificar pelo Guia de Exame, o material é o mais reduzido
possível, e a notação, facílima. O exame completo se faz, em média, em
oito minutos para cada criança. A equivalência numérica dos resultados
permite fixar um score global de todas as provas, e reunir os alunos em
grupos menos heterogêneos, ou seja, em grupos de velocidade de
aprendizagem muito aproximada, sem atenção e qualquer outra
informação que seja o número de pontos. (Lourenço Filho, 1933, p.56).
O autor categorizava os resultados em quatro grupos: dezessete pontos
ou mais — previsão de que o sujeito aprenderia a ler e a escrever em um semestre
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
14
letivo, sem dificuldade ou cansaço; de doze a dezesseis pontos — a
aprendizagem realizar-se-ia em um ano letivo; de oito a onze pontos — o aluno
aprenderia a ler e a escrever com dificuldade, exigindo ensino especial; de zero
a sete pontos — o escolar era tão retardado, que o ensino comum ser-lhe-ia
improdutivo. Com tal dispositivo, Lourenço Filho e colaboradores traziam para si
as questões concernentes à desigualdade entre os indivíduos, resolvendo-o com
recurso aos métodos experimentais.
Ora, a medida na educação é representada pelos testes. Eles não fazem
outra coisa senão estender ao trabalho da escola os recursos práticos,
reguladores de nossa atividade, já empregadores e reconhecidos como
úteis, em todos os outros ramos do trabalho. Aliás, a necessidade da
medida, na escola, sempre foi reconhecida pelos mestres. Que
pretendemos fazer quando interrogamos os alunos, quando repetimos
as provas e exames quando observamos a conduta diversa das crianças,
nestas ou naquelas condições? Pretendemos avaliar até que ponto
chegaram os alunos na assimilação dos programas, como pretendemos
classificar-lhes a inteligência, ou aptidões [...] o que o teste, antes de
tudo, pretende é substituir a apreciação subjetiva, variável de mestre a
mestre e, nestes, de momento a momento, por uma avaliação objetiva,
constante e inequívoca. (Lourenço Filho, 1933, p.12)
Mais tarde, os “testes ABC” seriam utilizados para outros fins: identificação
da deficiência mental e de distúrbios na aprendizagem da leitura e da escrita,
além da verificação de aptidões. Escrevia a professora do ensino primário,
Iracema de Castro Amarante, colaboradora de Lourenço Filho:
Tais crianças de “psicologia polimorfa” necessitam dum ensino também
nessas condições perfeitamente ajustável às suas necessidades
individuais. O critério de seleção é, portanto, um critério pedagógico que
se impõe na organização das classes escolares. Esse critério é o único,
como se vê, que permite o desenvolvimento duma classe segundo seu
ritmo; o único que nos poderá proporcionar a “escola sob medida” tão
sonhada por Claparède. (Amarante, 1931, p.394).
No clamor geral da Revolução de Outubro de 1930, o interventor do Estado
de São Paulo empossou Lourenço Filho na Diretoria Geral da Instrução Pública.
Pioneiras e inovadoras, suas ações visavam à substituição de práticas
pedagógicas e administrativas rotineiras por procedimentos racionais.
No breve período de 1930-31, ele reformou o aparato administrativo e
introduziu práticas de ensino com fundamento na psicogênese. É de então a
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
15
criação do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), cuja direção foi entregue a
Noemy Marques da Silveira. O SPA contemplava quatro seções: medidas mentais,
medida do trabalho escolar, orientação profissional e estatística. Esse serviço
técnico encarregou-se da aferição dos testes Binet-Simon e de Dearborn, bem
como da organização das classes seletivas de 1º. ano com recurso aos “testes
ABC”; para tanto, coordenou a testagem de 15.605 alunos analfabetos,
matriculados nos grupos escolares da Capital do Estado (cf. Silveira, 1930).
Por sua vez, Alves, à frente do Serviço de Testes e Escalas da Diretoria da
Instrução do Distrito Federal, e Helena Antipoff, na Escola de Aperfeiçoamento
Pedagógico de Belo Horizonte, aplicavam os testes ABC, visando à sua
padronização.
De trajetória exitosa, o manual de iniciação Testes ABC para verificação
da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita alcançou doze
edições, entre 1933 e 1974, totalizando 62 mil exemplares, tendo sido traduzido
para o espanhol, sob títulos diversos — Tests ABC para primer grado (Buenos
Aires: Kapelusz) e Tests ABC de verificación de la madurez necesaria para el
aprendizaje de la lectura y escritura (Buenos Aires: Kapelusz), e para o inglês:
The ABC Test, a method of verifying the maturity necessary for the learning of
reading and writing, résumé of the book Testes ABC (Philadelphia: Temple
University).
Na Europa, os testes ABC foram divulgados por Radecka (1932) e por
Piéron (1931), respectivamente com Les Tests ABC, pour la verification d’une
maturité nécessaire à l’aprentissage de la lecture et l’écriture e Un essai
d’organisation de classes selectives par l’emploi des Tests ABC (1931).
A partir da 3ª. e 4ª. edições do manual, a Companhia Editora Melhoramentos
optou por acoplar a cada exemplar o material denominado Testes ABC: caixa
com cem fórmulas individuais; ou ainda Testes ABC: material completo, que era
vendido separadamente, nele constando folhas em branco para registros gráficos
das respostas, fórmulas verbais, fichas para anotação dos resultados e fichas
de avaliação individual.
Em síntese: dentre as práticas psicométricas destinadas a observar e medir
atributos e, sobretudo, prever desempenhos, os testes ABC sobrepujaram as
demais práticas existentes, por exemplo, a Escala Métrica de Inteligência Binet-
Simon, não só pela eficiência de propósitos e resultados como também pela
proeminência intelectual de Lourenço Filho acompanhada pela ocupação de
postos nos negócios públicos da nação.
Assentado sobre valorespráticos e conceitos operacionais, esse
instrumento de apreciação de fatores, atitudes e funções psicológicas valia-se
de enunciados de perfeita neutralidade, objetividade e universalidade, ao mesmo
tempo em que dava suporte às tomadas de decisão no campo educacional.
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
16
Tudo isso advinha de sujeitos dispostos a empunhar o estandarte da ciência e,
claro, propensos a levar em conta o máximo de distinções individuais. Seja como
for, os “testes ABC”, enquanto instrumento de seleção de populações escolares,
refletem certamente um dos momentos capitais da Psicologia Objetiva no Brasil.
Referências
• Alves, I. (1928) Teste individual de inteligência: fórmula de Binet-Simon-Burt
adaptada ao Brasil. Bahia: Ginásio Ypiranga.
• Alves, I. (1930) Os testes e a reorganização escolar. Bahia: A Nova Gráfica.
• Alves, I. (1932) Testes de inteligência nas escolas. Rio de Janeiro: Diretoria
Geral de Instrução Pública do Distrito Federal.
• Amarante, I.C. (1931) A escola renovada e a organização das classes. Escola
Nova, São Paulo, v.2, n.3-4, mar.-abr.
• Baker, C. A. (1925) O movimento dos testes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial
do Estado de Minas.
• Binet, A.; Simon, T. (1931) La mesure du développment de l’intelligence chez
les jeunes enfants . Paris: Sociedade Alfred Binet.
• Bomfim, M. (1928) O método dos testes: com aplicações à linguagem no
ensino primário. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves.
• Cavalcanti, I. A. A. (1935) Testes: bases psicológicas da Escola Nova. São
Paulo: Livraria Liberdade.
• Claparède, E. (1929) Comment diagnostiquer les aptitudes chez les écoliers.
Paris: Ernest Flammarion.
• Decroly, O. (1926) Psychologie et pedagogie de la lecture, de Ovide Decroly.
Paris: Felix Alcan.
• Decroly, O.; Buyse, R. (1928) Pratique des tests mentaux: Atlas. Paris: Felix
Alcan.
• Faria de Vasconcellos. (1923) Lições de pedologia e pedagogia experimental.
2.ed. Lisboa: Aillaud e Bertrand.
• Lourenço Filho, M. B. (1930) Introdução ao estudo da Escola Nova. São
Paulo: Melhoramentos. (Biblioteca de Educação, v. 11).
• Lourenço Filho, M. B (1933) Testes ABC para verificação da maturidade
necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos.
(Biblioteca de Educação, v.20).
• Lourenço Filho, M. B. A psicologia no Brasil (1955). In Azevedo (Org.) As
ciências no Brasil. São Paulo: Melhoramentos. v.2.
• Maranhão, P. (1950) Teste: escola experimental – testes mentais, testes de
escolaridade e programa de testes. (11.ed.) Rio de Janeiro: Livraria Francisco
Alves.
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17
17
• Medeiros & Albuquerque. (1924) Tests: introdução ao estudo dos meios
científicos de julgar a inteligência e a aplicação dos alunos. Rio de Janeiro:
Livraria Francisco Alves.
• Monarcha, C. (1987) (Org.) Lourenço Filho: outros aspectos, mesma obra.
Campinas: Mercado de Letras.
• Nascimento, A. C. (1934) Alunos-problemas nas aplicações dos Testes ABC.
Rio de Janeiro : [s.n.]. (Biblioteca do Centro de Professores).
• Penna, J. B. D. (1949) Claparède. In Cruz Costa, J. et al. Grandes educadores.
Porto Alegre: Globo.
• Pernambucano, U. & Barreto, A. P. (1927). Estudo psicotécnico de alguns
testes de aptidão. Recife, Imprensa Industrial.
• Pernambucano, U. (1930) Ensaio de aplicação do test das 100 questões de
Ballard. Rio de Janeiro: Publicação da Liga Brasileira de Higiene Mental.
• Piéron, H. (1926) Psicologia experimental. Tradução Lourenço Filho. São
Paulo: Melhoramentos. (Biblioteca de Educação, 1).
• Piéron, H. (1931) Un essaé d‘organization de classes seletives par les tests
ABC. L´Anée Psicologique.
• Pinto, N. S. (1928) A infância retardatária: ensaios de ortofrenia. 2. ed. São
Paulo: Escolas Salesianas.
• Radecka, H. (1930) Exame psicológico da criança - ensaio de aplicação
prática de sistema de discriminacionismo afetivo da Radecki. Rio de Janeiro:
[s.n.]
• Radecka, H. (1932). Les testes ABC pour la vérification d´une maturité
nécessaire à l´aprentissage de la lecture et l´éscriture. Copenhague: Memória
ao X Congresso Internacional de Psicologia.
• Rocha, C.F. & Andrada, B. (1931) Testes: como medir a inteligência dos
escolares. Rio de janeiro: Erbas de Almeida, Editor.
• São Paulo (Estado). 1931. Diretoria Geral do Ensino do Estado de São Paulo.
Estatística escolar de 1930. Introdução de Lourenço Filho. São Paulo: [s.n.].
(Seção de Estatística e Arquivo, n.1).
• Scaraméli, J. (1931) Testes. São Paulo: Tipografia Antonio F. de Moraes.
• Sérgio, L. & Sérgio, A. (1919) Escala de pontos dos níveis mentais das
crianças portuguesas. Porto: Renascença Portuguesa.
• Silveira, N. M. (1930) Um ensaio de organização de classes seletivas do 1o
grau, com o emprego dos testes ABC. São Paulo: Diretoria Geral do Ensino,
Serviço de Assistência Técnica.
• Silveira, N. M. (1930) Recent psychological experiments in São Paulo, Brazil.
School Life, Washington, v. 15, n.10, jun.
• Walther, L. (1929) Tecnopsicologia do trabalho industrial. Prefácio Edouard
Claparède. Tradução Lourenço Filho. São Paulo: Melhoramentos.
Recebido em: 18/02/2008 / Aceito em: 02/04/2008.
Boletim Academia Paulista de Psicologia - Ano XXVIII, nº 01/08: 07-17

Mais conteúdos dessa disciplina