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Gestalt-terapia As histórias sobre Perls e suas idiossincrasias são conhecidas e, entre as mais repetidas por ele mesmo, num típico humor judeu, encontramos coisas como “o profeta e o vagabundo” (alcunha que Laura Perls lhe deu e da qual ele gostava muito), o “velho sujo”, o eterno sedutor, o homem de muitas mãos, o irascível, impulsivo, etc. O nosso recorte não irá privilegiar esses aspectos pessoais, e sim aqueles relacionados à construção do seu pensamento. A Gestalt-terapia é uma forma criativa, científica, poética e artística de se fazer psicoterapia. É uma caminhada com a mente e com o coração. O objetivo da terapia desta abordagem é habilitar a pessoa a usar, além da cognição, suas sensações, emoções e sentimentos, integrando todo o potencial que a natureza lhe disponibilizou para fazer frente à sua realidade. Gestalt, mais que uma terapia, se apresenta também como uma filosofia existencial, humanista, uma “arte de viver”. Busca sair do determinismo alienante do passado e do meio. Gestalt-terapia 1951, ano de lançamento do livro Gestalt Therapy, escrito por Frederick Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline, entrou para a História como o marco do nascimento da Gestalt-terapia, pois foi a primeira vez que o termo foi utilizado. Porém, esta publicação emergiu de um percurso que iniciou-se na efervescência cultural da Alemanha das primeiras décadas do século XX, que, como toda a Europa, vivia várias revoluções: a Soviética, a da Física, as da Arte (Expressionismo, Dadaísmo, Bauhaus etc.) e a da filosofia do conhecimento (especificamente pela Escola Fenomenológica de Husserl). Fritz Perls Considerado o fundador da Gestalt-terapia, Nascido em Berlim em 1893, de descendência judaica, cresceu numa família de classe média, pai comerciante, mãe amante do teatro. Questionador e rebelde, foi expulso da escola em que estudava por problemas de disciplina e transferido para uma escola mais liberal, na qual participou de um grupo de teatro. Cursou medicina em Berlim e, durante a Primeira Guerra, foi para as trincheiras cuidar dos feridos, ocasião em que é despertada a sua atenção para os fenômenos psicossomáticos. Trabalha após a guerra, ao lado de Kurt Goldstein, com pessoas portadoras de lesões cerebrais – experiência que vai repercutir mais tarde em sua obra, dando-lhe um enfoque organísmico, em contraposição à visão associacionista ainda vigente. Por intermédio de Goldstein, entra em contato com a psicologia da Gestalt, escola que buscava chegar às leis que regem a percepção, por meio do estudo dos fenômenos da percepção sensorial. Laura Perls, psicóloga, também trabalhou ao lado de Fritz na sustentação teórica da Gestalt-Terapia, primeiro na Alemanha, onde se casaram, depois na África do Sul e, finalmente, nos Estados Unidos onde o casal se abrigou da caçada nazista. Psicologia da Gestalt Seus principais expoentes foram Köhler, Koffka e Wertheimer, que, discípulos de Husserl, aplicaram de forma sistemática a Fenomenologia em seus estudos, desenvolvendo uma teoria inovadora por afirmar que a percepção é sempre subjetiva, isto é, que envolve um processo de organização espontânea e pessoal dos estímulos visuais, em configurações que se diferenciam em figura e fundo. Perls continua seus estudos em Institutos de Psicanálise de Berlim e Viena, tornando-se cliente de Karen Horney e Wilheim Reich, que desenvolviam, na época, seus estudos sobre a Análise do Caráter. Recebe também a influência de pensadores como Friedlander, de quem apreende conceitos provenientes do pensamento oriental. Nesse ambiente de efervescência cultural, entra também em contato com o pensamento existencial de Buber e Tillich. Com o advento do nazismo, Perls muda-se para a África do Sul, lá fundando um Instituto de Psicanálise. Torna-se um psicanalista conhecido, mas, já sob forte influência da Psicologia da Gestalt e da Fenomenologia, passa a repensar sua prática psicanalítica. Em 1936, encontra-se com Freud. Em 1942, lança seu primeiro livro: Ego, Hunger and Agression, publicado em 1947, no qual já se encontra o embrião dos pressupostos que caracterizariam, mais tarde, a Gestalt-terapia, como a realidade do aqui e agora. Entre esses pressupostos estão: o organismo como totalidade, a unidade organismo/meio, a dominância da necessidade emergente e uma reflexão sobre o conceito de agressão, tomando-a como uma força biológica que auxilia o organismo na assimilação mental e, portanto, no crescimento. Em 1946, muda-se para os Estados Unidos em função do crescente movimento do Apartheid na África do Sul e publica esse primeiro livro. Lá, junto com Lore (que, ao chegar, americaniza seu nome para Laura Perls), encontra Paul Goodman, que vem a ser um parceiro ideal para suas idéias e trabalhos. Paul Goodman Nascido em Nova York em 1911, de descendência judaica, Goodman formou-se em Literatura e Filosofia. Dada a sua grande erudição e competência, conseguiu trabalho em afamadas instituições de ensino, mas, no final dos anos 50, época de grande repressão moral, foi demitido por homossexualismo. Isso contribuiu para que se tornasse um árduo crítico de instituições sociais e fervoroso defensor de minorias. Dos três autores do livro que marcou o início da Gestalt-terapia, pouca notícia se tem à respeito de Ralph Hefferline, professor universitário cujos alunos participavam dos experimentos de Perls e Goodman. Em 1952, os Perls fundam o Instituto de Gestalt-terapia de Nova York, promovendo cursos na nova abordagem. A Gestalt-terapia marcava sua entrada no cenário da psicologia trazendo uma abordagem existencial e fenomenológica, inspirada nos novos paradigmas da física moderna e das teorias sistêmica, holística e de campo, isto é, uma perspectiva psico- social que enfatiza o processo, e não a busca de essências, promovendo uma visão contextualizada de ser humano, isto é, como parte integrante e inseparável do sistema indivíduo-meio. Em consonância com os movimentos de contracultura da época e na linha de frente destes, a Gestalt-terapia enfatizava a importância fundamental da awareness (ou consciência organísmica, isto é, uma consciência que não se limita ao âmbito do racional, mas inclui a dimensão corporal e sensória), a importância da experiência vivida e a ênfase no contato e no diálogo (sob influência do pensamento de Martin Buber). Apoiada na perspectiva existencial, essa corrente defendia a visão de que o ser humano pode ser agente transformador de sua própria vida e do meio em que vive, sublinhando a importância da criatividade como processo humano vital Em 1962, Perls entra em contato com o zen-budismo ao passar uns tempos em um mosteiro no Japão e aprende lá alguns conceitos que se incorporam à filosofia da Gestalt-terapia: permitir o fluir da experiência, ou seja, seguir o fluxo de awareness; a aceitação do que se é; e a possibilidade de se aprender a lidar com o vazio, o qual é fértil de possibilidades, uma vez que, não raro, é o momento que precede o ato criativo. A Psicologia da Gestalt, uma das principais influências no pensamento dos Perls, vem a ter uma presença de peso na fundamentação da nova abordagem terapêutica, pois sua conceituação sobre a percepção dos fenômenos sensoriais passa a ser estendida à compreensão dos fenômenos psíquicos. A própria palavra Gestalt (forma, configuração total) passa a nomear a abordagem. Termos como “figura e fundo”, “boa forma”, “pragnância” (a qualidade de atração energética de uma forma), “gestalts incompletas”, “gestalts ocultas”, “configuração”etc. passam a fazer parte do vocabulário da Gestalt-terapia, que, inspirada nesta escola, compreende o processo de formação figura versus fundo dos fenômenos da nossa atenção, como o processo gerador de insights. Conceitos São alguns conceitos básicos da Gestalt-terapia: o ser humano é um ser de relação (relação consigo mesmo, com o mundo, com os outros); totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito); o ser humano como unidade indivíduo-meio (o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais); unidade de passado, presente e futuro (o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer); auto-regulação (o ser humano é um todo unificado que se auto-regula). A visão do gestalt-terapeuta é uma visão voltada para a dinâmica que acontece em determinado momento da vida de uma pessoa. Assim, entendem-se as estruturas da personalidade como funções ou conjuntos de funções, não como entidades. São mais importantes o ‘como’ e o ‘para que’ do que o ‘o que’ ou o ‘porquê’. Os conceitos, oriundos da Psicologia da Gestalt, principalmente o que se refere a figura e fundo, são importante base para as noções de saúde e de doença da Gestalt- terapia. Além disso, há que se dar atenção a uma série de princípios que regem a percepção, segundo os teóricos da Psicologia da Gestalt: proximidade, similaridade, direção, disposição objetiva, destino comum e pregnância. Também como conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção: a experiência da percepção aqui e agora tem mais influência na percepção de um objeto ou de uma forma que a experiência passada com essa mesma figura. Fritz faleceu em 14 de março de 1970, no Canadá. Laura, em 1990, nos EUA. Deixaram como legado uma das mais importantes abordagens da Psicologia e da psicoterapia atual, uma abordagem em constante desenvolvimento e em constante luta por um mundo mais humano e mais simples. Gestalt-Terapia’. A primeira edição de 1951 ‘Gestalt-Terapia Explicada, 1977