A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
187 pág.
DIREITO PENAL CONSTITUCIONAL  CRIMES EM ESPÉCIE

Pré-visualização | Página 7 de 40

de forma que esses casos venham a ser resolvidos de uma 
maneira mais rápida e eficiente. 
 
O ponto principal do estudo enfrentado é que existe vida no feto anencefálico. 
Essa conclusão torna-se clara baseada no fato de que o anencéfalo possui 
apenas uma parte do encéfalo comprometida pela doença, e não todo ele, 
como sugere o nome anencefalia. No entanto, não há viabilidade de vida fora 
do útero. 
 
A melhor justificativa para que se permita o aborto de fetos portadores de 
anencefalia está na Constituição da República, uma vez que estamos diante de 
um conflito de direitos fundamentais. De um lado, a dignidade humana da mãe 
e do outro o direito à vida do feto. O direito à vida, como já foi mencionado, é 
um direito fundamental constante no rol das cláusulas pétreas, as quais não 
podem ser modificadas. Como há vida intrauterina, ela está a salvo desde o 
 
 
momento da concepção. A dignidade humana da genitora também está 
igualmente amparada legalmente, já que o Princípio da Dignidade da Pessoa 
Humana é um dos fundamentos da Constituição, não podendo ser afastada em 
hipótese alguma. 
 
Sabe-se que não há direitos absolutos e por isso não há motivo para se falar 
que o direito à vida está acima de todos os outros, visto que a própria 
Constituição Federal permite a pena de morte em casos de guerra declarada. 
Dessa forma, em casos de conflitos com os demais direitos, deve-se dar ênfase, 
e portanto, maior privilégio àquele que menos se distancie da dignidade de uma 
pessoa. 
 
Ao se aplicar esse raciocínio ao tema em questão, temos por um lado a vida do 
feto anencéfalo que apesar de se encontrar vivo no útero materno, ao nascer, 
poderá viver apenas por alguns momentos, já que sua vida é inviável. De outro 
lado, uma mulher que sempre sonhou em ser mãe e tem a sua vida 
transformada em um pesadelo após o diagnóstico de tão grave doença, e que a 
espera do parto é uma verdadeira tortura. A mulher grávida que participará 
intensamente daquela dor, não estará correndo risco de vida. No entanto, o 
sofrimento daqueles meses de gestação serão comparados à morte. 
 
Assim, com base no fundamento da Constituição Federal Brasileira constante no 
art.1o, inciso III, que é o direito de todas as pessoas terem uma vida digna, 
não há motivos para que se proíba o aborto de fetos anencéfalos, sob pena de 
se colocar sob suspeita a constitucionalidade do ordenamento em situações 
como essas. 
 
Atividade proposta 
Adamastor Vale foi condenado como incurso nas sanções do Artigo 121,§2º, 
inciso IV, do Código Penal por ter matado Anatalino da Silva, utilizando de 
recurso que impossibilitou a defesa da vítima, desferindo pauladas no ofendido, 
 
 
causando-lhe as lesões descritas no auto de necropsia de fls. 19 do Inquérito 
Policial, que foram a causa de sua morte. 
Na ocasião, o denunciado utilizando-se de um pedaço de madeira, uma “trama” 
para cerca, desferiu pauladas na vítima, quando esta tentava se retirar do pátio 
da residência do acusado. 
 
Por outro lado, não se pode deixar de registrar que, momentos antes do fato, a 
vítima estaria embriagada no pátio da casa do réu, proferindo diversas ofensas 
verbais a ele e sua cunhada, além de tentar invadir sua residência e agredi-los 
fisicamente, razão pela qual, Adamastor Vale interpôs recurso de apelação com 
vistas ao reconhecimento da nulidade da decisão proferida pelo Tribunal do Júri 
por não ter sido formulado quesito relativo à forma privilegiada do delito, 
consoante entendimento sumulado pelo Supremo Tribunal Federal (Verbete de 
Súmula n.162). 
 
Sucessivamente, argüiu o reconhecimento da causa de diminuição de pena 
(privilégio) e, consequente, afastamento da hediondez do delito. A partir da 
premissa que a tese relativa à forma privilegiada do ilícito não foi ventilada pela 
defesa técnica em nenhum momento processual, nem mesmo no julgamento 
em plenário, ocasião em que propugnou apenas pelo afastamento da 
qualificadora e pela absolvição, resta improcedente o pedido de nulidade da 
decisão. Desta forma, com base nos estudos realizados sobre a teoria da pena, 
o delito de homicídio e a incidência dos institutos repressores da lei de crimes 
hediondos (Lei nº 8072/1990), responda de forma objetiva e fundamentada se 
os pedidos sucessivos serão julgados procedentes. 
 
Chave de resposta: A questão versa sobre a possibilidade da incidência 
simultânea do privilégio, causa especial de diminuição de pena e a qualificadora 
no delito de homicídio. O entendimento doutrinário e jurisprudencial dominante 
é no sentido da possibilidade, desde que a qualificadora seja de natureza 
objetiva, como, por exemplo, os meios e modos de execução. No caso em 
exame é perfeitamente possível que o homicídio seja qualificado pelo meio 
 
 
utilizado para a prática do delito (recurso que impossibilitou a defesa da vítima, 
já que as “pauladas” foram desferidas pelas costas, tornando impossível a 
defesa do ofendido) - Artigo 121,§2°, IV CP e privilegiado pelo domínio da 
violenta emoção logo em seguida a injusta provocação da vítima - Artigo 
121,§1°, CP. 
 
Veja abaixo uma análise deste caso, vide entendimento do Tribunal de Justiça 
do Rio Grande do Sul. 
 
A questão é controvertida e demanda análise cuidadosa, haja vista a previsão 
expressa contida no art. 1°, I da lei n. 8072/1990 de que considera-se 
hediondo o homicídio qualificado. Sobre o tema, manifesta-se Cezar Roberto 
Bitencourt (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.2. 11. ed 
São Paulo: Saraiva, 2011, p. 76), ao citar entendimento do Supremo Tribunal 
Federal, no sentido de que, por analogia, aplicar-se-ia a norma contida no art. 
67 CP, segundo a qual devem preponderar os motivos determinantes do crime 
(privilégio), o que afastaria a incidência da lei de crimes hediondos. O mesmo 
raciocínio é utilizado por Fernando Capez ao tratar dos delitos hediondos 
(CAPEZ, Curso de Direito Penal. v.4. 5.ed.São Paulo: Saraiva, 2010 , p. 203-
204). 
 
Neste sentido vide entendimento do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: 
Ementa: AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. COMUTAÇÃO. HOMICÍDIO 
QUALIFICADO PRIVILEGIADO. LEI Nº 8.072/90 E DECRETO Nº 7.420/10. 
Homicídio qualificado privilegiado não integra o rol dos crimes hediondos. 
AGRAVO PARCIALMENTE PROVIDO. (Agravo Nº 70047561998, Primeira Câmara 
Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Manuel José Martinez Lucas, 
Julgado em 25/04/2012). 
 
Ementa. AGRAVO EM EXECUÇÃO. LIVRAMENTO CONDICIONAL. HOMICÍDIO 
QUALIFICADO-PRIVILEGIADO. AFASTADA A HEDIONDEZ DO DELITO. FRAÇÃO 
DE 1/3. PROVIMENTO. A privilegiadora do § 1º do artigo 212 do Código Penal 
 
 
afasta a hediondez do homicídio qualificado praticado pelo agravante. 
Precedentes deste Tribunal. Afastada a hediondez do delito pelo qual o réu foi 
condenado e cumpre pena, exigível, para fins de livramento condicional, o 
cumprimento de apenas 1/3 da pena, fração essa que foi obtida no dia 
19/07/2010, conforme expediente da folha 14. Agravo provido. (Agravo Nº 
70037560885, Primeira Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: 
Marco Antônio Ribeiro de Oliveira, Julgado em 15/09/2010). 
 
No que concerne ao entendimento dos Tribunais Superiores acerca da 
possibilidade do homicídio ser concomitantemente qualificado e privilegiado, o 
Superior Tribunal de Justiça tem se manifestado no seguinte sentido: 
 
EMENTA: PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO 
QUALIFICADO-PRIVILEGIADO. COMPATIBILIDADE ENTRE QUALIFICADORA 
INSERTA NO ART. 121, § 2º, INCISO IV COM A FORMA PRIVILEGIADA. 
POSSIBILIDADE.I - Não há incompatibilidade, em tese, na