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Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 1 PRINCIPIOS DE ANALISE DE SISTEMAS DE TRANSPORTES 1 O propósito deste artigo é apresentar, para discussão, um conjunto de princípios para a análise de sistemas de transportes. A experiência acumulada de analistas, planejadores, e pesquisadores que se debruçam sobre vários diferentes problemas de transportes tem produzido observações e conhecimentos aplicáveis a tais problemas. Estes conhecimentos têm levado a novos enfoques dos problemas de transportes. Os princípios, aqui propostos, foram desenvolvidos como uma tentativa de resumir esses conhecimentos e enfatizar sua generalidade. O propósito do primeiro dos princípios é identificar as áreas limítrofes comuns subjacentes a uma grande variedade de problemas de transportes aparentemente desvinculados, e assim estimular o desenvolvimento de uma “Ciência de Transportes”. Um propósito secundário é normativo: espera- se que os princípios sejam úteis como diretrizes de análise e sirvam como referência para evitar os mais simples, porém graves, erros de analise. Entretanto, como toda generalidade, estes princípios não podem ser mais do que diretrizes, passíveis de teste; a realidade em análise normalmente é tal que o analista sempre precisará julgar por si mesmo, se quer eficiência no trato com um problema específico. Os princípios não podem ser tomados como rígidos, mas como meros objetivos de análise: toda vez que forem violados, o analista deve destacá-lo claramente. Os princípios apresentados devem ser considerados hipotéticos; eles refletem, claro, as tendenciosidades e experiência do autor. Eles serão refinados e desenvolvidos ao longo do tempo com base em discussões e contraposição a novos problemas de transportes. Os princípios enunciados serão considerados em dois grupos: • O primeiro grupo, de I a V, identifica o sistema em foco — o que deve ser incorporado na análise do sistema de transportes, e quais interações significativas, dentro do sistema, devem ser consideradas. • O segundo grupo, de VI a IX, considera o problema em análise — quais opções ou alternativas estão postas para o analista, e quais fatores devem ser considerados na tomada de decisão. 1 Este documento constitui uma tradução, feita pelo Prof. João Bosco Furtado Arruda, do artigo “Principles of Transport Systems Analysis”, do Prof. Marvin L. Manheim, do Massachusetts Institute of Technology, publicado no periódico Highway Research Record, nº 180. Esta tradução foi feita para fins exclusivamente didáticos no “Curso de Especialização em Engenharia dos Transportes Urbanos”, Fortaleza, 1989. Helio Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 2 OS PRINCÍPIOS Principio I “Os componentes básicos de um sistema de transportes são: a) as pessoas e bens transportadas; b) os veículos que os transportam; e c) as redes através das quais os veículos se deslocam”. O propósito deste princípio é estabelecer o que denominamos por “sistema de transportes”. Um nível de descrição é o padrão de fluxos de pessoas e bens através do sistema. Estes fluxos estão restringidos pelos canais da rede, mas, para vários tipos de análise, podemos ignorar conceitualmente a descrição de facilidades físicas e mostrar simplesmente os padrões de fluxo como, por exemplo, os padrões dos fluxos de grãos através dos EEUU, ou de viagens para o trabalho em uma região metropolitana. Os veículos são os elementos de interface entre os itens que estão sendo transportados e as facilidades fixas da rede, como a rodovia. Em modos tais como o ferroviário, o rodoviário e o aéreo os veículos são óbvios, e a distinção entre os veículos e as outras facilidades do sistema é altamente relevante para a análise. Mas, em modos como o dutoviário e o transporte em correias volantes, ou no movimento de pedestres em passeios, embora não haja veículos, existe alguma espécie de interface entre os itens transportados e as facilidades fixas. As redes consistem de nós e trechos conectados por pares de nós. Cada trecho corresponde a um canal específico de transportes. Trechos podem ser bem definidos, tais como linhas férreas, rodovias, linhas aéreas controladas, ou passeios de pedestres, ou podem ser relativamente difusas, como em viagens aéreas ou marítimas não controladas, ou veículos deslocando-se fora de via. Alguns nós podem ser pontos de interconexão entre trechos de um mesmo modo, tais como interseções rodoviárias ou junções ferroviárias em pátios de manobra. Outros nós podem ser pontos de interconexão entre trechos de diferentes modos, como o é um terminal rodo-aéreo- ferroviário. Os caminhos dos veículos em uma rede são sucessões de trechos e nós. Este princípio tem várias implicações importantes para a análise. Primeiro, nosso enfoque principal é o que está sendo transportado; segundo, a consideração de redes enfatiza a interação dos veículos no espaço e no tempo, competindo pelas capacidades limitadas de trechos e nós, e fluindo através das redes em diversos caminhos interconectados. Os princípios foram enunciados tendo em mente um espectro de contextos do sistema de transportes. Estes incluem: a) Transporte urbano — o problema de ofertar sistemas de transportes integrados multimodais (com rodovia, transporte de massa, ferrovia e outros modos) para satisfazer às necessidades crescentes de uma área metropolitana; b) Transporte em megalópoles — o problema de oferta de transporte de alta velocidade entre as cidades de uma região densamente urbanizada; c) Transporte em regiões em desenvolvimento — o problema de determinar investimentos apropriados em facilidade de transportes para melhor atingir os objetivos de desenvolvimento socioeconômico global; e Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 3 d) Mobilidade estratégica — o problema de determinar o mais eficiente conjunto de meios de transportes para melhor atingir os objetivos estratégicos nacionais através de um rápido deslocamento de forças militares. Os analistas de transportes têm-se envolvido na análise de problemas em todos estes contextos e podem esperar, no futuro, defrontar-se com uma gama maior de problemas setoriais. Após apresentar os princípios propostos, discutir-se-á sua aplicação a dois contextos específicos: transporte urbano e mobilidade estratégica. Estes exemplos demonstrarão, espera—se, a aplicabilidade e utilização dos princípios a qualquer problema do sistema de transportes. Estas implicações são expandidas nos princípios de II a V. Princípio II “Todos os movimentos através de um sistema de transportes devem ser considerados”. As facilidades de um sistema de transportes são usadas para transportar uma grande variedade de pessoas e bens. As mudanças no movimento de um conjunto de itens, através do sistema, geralmente têm impacto sobre o movimento de outros itens. Por exemplo, o projeto de terminais aéreos, ferroviários e de outros modos deve considerar não só o fluxo de passageiros, mas também o fluxo de bagagens e outros bens. Os planejadores de transporte urbano devem também considerar, além das viagens de pessoas, os padrões de movimento de bens através da área metropolitana, bem como as viagens por propósito de compras e lazer, além do propósito mais importante: o trabalho. Constitui uma tarefa importante a identificação do espectro completo de deslocamentos de pessoas e bens, sejam reais ou potenciais, através de um dado sistema de transportes. Principio III “Os movimentos devem ser considerados de sua origem inicial ao seu destino final”. Para estudar adequadamente os fluxos através de um sistema de transportes, o analista deve considerar cada classe de viagem em sua totalidade. Um exemplo é a viagem interurbana por via aérea,onde se costuma focalizar a análise no trecho aéreo entre aeroportos, negligenciando-se os trechos da origem da viagem ao aeroporto e deste ao destino. Outro exemplo é o rápido crescimento do transporte por contêiner, particularmente de cabotagem, o que se deve parcialmente ao reconhecimento deste princípio. Além de aumentar a utilização de navios e outros veículos, o uso de contêiner possibilita ao usuário um serviço mais eficiente de deslocamento de mercadorias de um ponto de origem a outro de destino. Assim, maior atenção a este principio é fundamental para aumentar a eficiência de um sistema de transportes. Observa-se que o desempenho do sistema como um todo, no deslocamento de pessoas e/ou bens, de origem ao destino da viagem, é mais importante que a velocidade de transporte em um modo ou trecho. Em particular, este principio enfoca a interface entre modos — os nós e suas características. Na seqüência de modos, entre origem e destino, o aumento na velocidade de um modo pode não significar redução significativa no tempo de viagem global, se as velocidades nos modos complementares são baixas ou os pontos de integração funcionam ineficientemente. Principio IV “Todos os modos de transporte devem ser considerados”. Ao analisarmos movimentos da origem ao destino devem-se incluir, no sistema em estudo, todos os modos existentes ou potencialmente utilizáveis pelo conjunto completo de movimentos. Assim, se estamos analisando o transporte aéreo interurbano, devemos incluir não somente o trecho entre os aeroportos, mas também os sistemas de transportes internos às áreas urbanas, que possibilitam Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 4 o acesso ao aeroporto e ao destino da viagem, bem como os deslocamentos dentro dos próprios terminais aeroportuários. Obviamente, o conceito de modo, aqui considerado, é muito amplo. Os vários modos incluem uma gama completa de tecnologias, desde a aeroviária, ferroviária, rodoviária, e aquaviária até a dutoviária, correias volantes, passeios de pedestres e quaisquer outras novas tecnologias potencialmente aplicáveis. Principio V “Um sistema de transportes é uma forma particular de mercado, no qual a oferta e a demanda atingem o equilíbrio considerando os canais restritivos da malha de transportes. Especificamente: a) algumas variáveis de nível de serviço são necessárias para se definir a interação entre a oferta e a demanda; b) volume, composição e distribuição no tempo da demanda por transporte é função do nível de serviço em que o transporte é ofertado; c) o nível de serviço ofertado por um dado sistema de transporte depende do volume, composição e distribuição temporal da demanda; d) determinação do nível de serviço, para o qual a oferta e a demanda estão em equilíbrio em um contexto particular, é normalmente difícil devido à complexidade da malha de transportes e da demanda por transportes”. Este princípio identifica o ponto mais difícil na análise de sistemas de transportes; notadamente, as características peculiares do “mercado” por transportes. Desde muito tem-se reconhecido que,em algumas áreas, a previsão de fluxos em um sistema de transportes se resume ao problema da previsão do equilíbrio entre oferta e demanda. Entretanto, mesmo os exemplos apresentados em livros-textos, tentando quantificar este equilíbrio, estão longe de refletir a complexidade do “mercado” de transportes. Enquanto na teoria econômica corrente a oferta e a demanda são dadas como função de uma única variável, o preço, no campo dos transportes, envolve outras variáveis. A oferta e a demanda por transportes dependem de várias características do serviço ofertado, e não somente do preço em cruzados. O quadro abaixo mostra as variáveis envolvidas no conceito de “nível de serviço”. Geralmente, os usuários de transportes consideram várias dessas características ao tomarem suas decisões de viagem. TEMPO SEGURANÇA • Tempo total de viagem • Confiabilidade — estimativa da variação no tempo de viagem • Tempo gasto em pontos de transbordo • Freqüência de serviço • Programação Horária • Probabilidade de fatalidade (ou destruição de mercadorias) • Probabilidade de tipos de acidentes (vibração do veículo, batidas etc.) Helio Helio Helio Helio Helio Helio Helio Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 5 Um usuário do transporte aéreo considera não somente o custo e o tempo previsto de viagem, mas também a segurança, o conforto e a possibilidade de variação no tempo de viagem. Os usuários de automóveis aceitam freqüentemente pagar pedágio para economizar tempo, ou podem tomar rotas mais extensas, porém cruzando cenários naturais mais bonitos, para aumentar seu prazer de dirigir. Devido às características espaciais dos transportes, a demanda é também espacialmente distribuída. Além disso, a magnitude e a composição da demanda variam no tempo e no espaço. Por exemplo, considere a variação na demanda de viagens aéreas interurbanas nos seguintes casos: manhã de uma segunda-feira normal de trabalho, vinte horas de um sábado, ou dois dias antes do Natal em qualquer aeroporto brasileiro. Analogamente, o nível de serviço, no qual se fornece o transporte, variará temporal e espacialmente. Ele responderá à demanda de uma maneira complexa devido às muitas interações entre fluxos na rede de transportes. As interações entre os fluxos de automóveis em uma rede viária urbana durante as horas de pico são um bom exemplo. Em tal sistema, saturado e instável, o menor congestionamento rapidamente se propaga, causando perturbação no tráfego sobre uma vasta área. Recentemente, tem-se devotado maior atenção ao problema da previsão de equilíbrio de fluxos em redes de transporte multimodais. As abordagens variam desde as puramente preditivas até as prescritivas. As técnicas de alocação de tráfego, utilizadas no planejamento do transporte urbano, tentam predizer a distribuição de equilíbrio de fluxos, que resulta do fato de cada usuário estar livre para decidir sobre sua rota através de uma rede multimodal. Por outro lado, técnicas tais como a programação linear, a teoria de fluxos em redes (de Ford-Fulkerson) e os algoritmos de roteamento tentam estabelecer os fluxos com vistas ao atingimento de uma condição de “ótimo global”. Além dos problemas de obtenção de representações funcionais para a demanda e a oferta, ainda permanecem as dificuldades de previsão do equilíbrio em redes, não obstante alguns avanços já verificados. Princípio VI “O espectro de opções de transportes potencialmente disponíveis inclui decisões sobre: a) itinerário e hora para uma viagem particular de pessoas ou mercadorias; b) operação do sistema, incluindo roteamento e programação horária de veículos, tarifas, e tipos de serviço oferecidos; c) variações em recursos não fixos, tais como características do veículo e disponibilidade de frota, e aquisição de novos equipamentos; d) variações nas facilidades fixas, tais como trechos e nós, e na estrutura da rede; e, CUSTO (PARA O USUÁRIO) CONFORTO E CONVENIÊNCIA • Tributos diretos sobre o transporte • Outros custos diretos de operação(carregamento, documentação controle etc.) • Custos indiretos (armazenagem amortização, seguros etc.) • Número de transbordos • Conforto físico • Conforto psicológico (status, privacidade etc.) • Outros aspectos (manuseio de bagagem, bilhetagem etc.) • Agradabilidade da viagem • Vivência estética Helio Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 6 e) introdução de novas tecnologias de transportes, incluindo veículos, facilidades fixas e políticas de operação”. Este princípio tenta resumir a gama e variedadede opções de transportes abertas aos tomadores de decisão em vários contextos. O viajante ou transportador individual vê o sistema de transportes como essencialmente fixo; de modo geral, ele só pode escolher no sistema seus itinerário e programação horária específicos. Ao decidir acerca de suas políticas de operação, os transportadores optam por itinerários e horários de operação, as tarifas a serem cobradas e vários outros fatores tais como locais de refeição, padrão de limpeza dos veículos, procedimentos de manuseio de carga, nível de confiabilidade do equipamento e meios de transporte etc., os quais determinam o nível de serviço disponível para o usuário, incluindo tempo, custo; conforto e outras características. (As opções dos transportadores são, claro, frequentemente sujeitas à regulamentação e outras restrições institucionais). Outro nível de opções se refere à aquisição de veículos — quais tipos, tamanho de frota e disponibilidade de veículos deve haver no sistema; compra de novos equipamentos, modificação de equipamentos antigos, reposição de elementos ou “leasing” são opções normalmente consideradas. Além disso, existe a opção de mudanças na estrutura e nas características da rede de transportes — adição de novos trechos ou abandono de trechos antigos; mudanças nas características de operação de trechos, tais como alargamento ou repavimentação de rodovias, sinalização ferroviária ou dragagem de um rio; e mudanças na estrutura básica da malha, tais como a ramificação do sistema de metrô, a implementação de vias necessárias à defesa nacional estratégica, ou modificando a estrutura de propriedade do sistema em um dado mercado. Finalmente, o mais amplo conjunto de opções diz respeito a mudanças na tecnologia do próprio sistema de transportes – novos veículos, novas redes, novas políticas operacionais etc., tal como se tem a experiência do aeromóvel em Porto Alegre. O objetivo da formulação deste princípio é prevenir o analista para que não restrinja indevidamente sua análise a um conjunto restrito de opções. Entretanto, o conjunto completo de opções raramente será acessível a uma única entidade gestora/operadora. Além disso, as várias opções exigem diferentes cronogramas de implementação; decisões específicas de viagem podem ser rapidamente implementadas, mas as mudanças necessárias na rede e a introdução de novas tecnologias podem levar anos para efetivar-se. Também, cabe ao analista garantir que as opções potenciais serão exploradas, e sugeri-las como relevantes aos tomadores de decisão. Por exemplo: consideremos uma empresa que baseia a escolha da remessa de seu produto aos mercados consumidores por rotas às quais associam-se determinadas características de tempo de viagem e nível de serviço. Esta empresa pode negociar novas tarifas e tentar desenvolver, no longo prazo, um novo equipamento, mais adequado ao transporte de seu produto, em conjunto com a empresa transportadora. Princípio VII “O transporte não é um fim em si mesmo”. Este princípio enfatiza que o objetivo último no fornecimento de transporte é satisfazer objetivos públicos ou privados mais amplos. Isto normalmente é expresso quando se diz que o transporte mais amplo pode estimular o desenvolvimento econômico, direcionar o crescimento de uma região metropolitana, levar bens a um mercado consumidor, ou permitir o deslocamento de forças militares para locais estratégicos em termos de defesa nacional. Helio Helio Helio Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 7 Princípio VIII “Existem diversas opções disponíveis no processo de decisão e que influenciam os transportes: particularmente importantes são aquelas que podem influenciar direta ou indiretamente a demanda por transportes”. Uma vez que se reconheça que o transporte não é um fim em si mesmo, fica claro que as decisões no setor devem ser tomadas em harmonia com as decisões tomadas para outras áreas afins de infra-estrutura. Em particular, muitas decisões tomadas nestas áreas terão significativos efeitos sobre a demanda por transportes. Por exemplo, a distribuição da demanda por transportes no tempo, no espaço, e por tipo de serviço desejado será afetada pela política econômica nacional, no caso dos fretes; por variações na taxa do crescimento regional, no caso do transporte aéreo interurbano; pelo escalonamento de horário das firmas, pelo controle do uso do solo e pela provisão de equipamentos urbanos, no caso do transporte pendular metropolitano; e pelas políticas de distribuição e armazenagem, no caso dos sistemas logísticos militar e industrial. O grau de influência que o analista pode exercer sobre tais variações extra-sistema de transportes pode variar largamente. Entretanto, o analista deve reconhecer claramente a existência de tais variáveis, e deve explorar cuidadosamente seu uso potencial no contexto do problema com o qual está tratando. Princípio IX “Existe um espectro de impactos diretos e indiretos de transportes relevantes para a escolha entre sistemas e políticas alternativos”. Como conseqüência do principio VII, devem ser considerados os impactos que ultrapassam os limites do sistema de transportes. O espectro de impactos de transportes pode subdividir-se em monetarizáveis e não- monetarizáveis, e depois separados por sua incidência sobre diferentes grupos ou elementos na sociedade. È útil distinguir-se: I. Custos Monetarizáveis • Investimentos de capital em veículos e facilidades fixas • Custos de operação; • Variações nos custos para usuários do sistema de transportes (firmas e viajantes). II. Custos Não-Monetarizáveis • Variação de usuários do sistema — aspectos de nível de serviço não quantificáveis. Ex. conforto de viagem. • Impactos sobre não-usuários do sistema. Helio Helio Helio Helio Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 8 ILUSTRAÇÃO DOS PRINCÍPIOS Agora, iremos ilustrar sucintamente a aplicação destes princípios a dois problemas específicos do sistema de transportes. Exemplo I: Transporte urbano Nos últimos anos, tem-se observado um grande crescimento não somente das facilidades de transportes das áreas urbanas, mas também na perspectiva e quadro de referência daqueles profissionais encarregados do planejamento dos sistemas de transportes urbanos. A evolução do planejamento do transporte urbano tem trazido um maior estímulo ao desenvolvimento de uma abordagem sistêmica, abrangente, do setor. A seguinte discussão ilustra: o papel dos princípios nesta área—problema. No transporte metropolitano, o quadro de referência tem se deslocado historicamente do enfoque meramente rodoviário para o planejamento integrado de vias expressas, vias arteriais e sistemas ferroviários de transporte de massa. O âmbito global sistêmico do transporte metropolitano inclui (Principio I) os modos intra-urbanos, tais como as vias expressas, arteriais e locais, ônibus, metrô e ferrovia urbana, e também as interfaces com modos interurbanos, tais como ferrovias regionais, linhas aéreas e serviços intermunicipais e interestaduais de ônibus. Os movimentos através do sistema incluem pessoas e mercadorias (Principio II). As principais viagens de pessoas são as viagens pendulares domicílio-trabalho, mas as viagens de compra e recreacionais também são significativas. Exceto para a consideração do tráfego de caminhões, feita normalmente de modo secundário, o planejamento dos transportes metropolitanos tem sido deficiente em termos da ênfase ao movimento de bens na área urbana, dando-se pouca atenção à função de distribuição intra-urbana do escoamento de mercadorias em movimentos interurbanos por ferrovia, caminhão e via aérea. Do mesmo modo, pouca atenção tem sido dada aos trechos intra-urbanos das viagens interurbanas, por exemplo,do aeroporto ou estação de trem para o escritório ou domicílio. Com respeito ao transporte rodoviário e metrô, tem havido, algumas vezes, consideração ao âmbito total de origem-destino das viagens (Principio III). Novamente, é principalmente para os trechos intra-urbanos das viagens interurbanas que este princípio tem sido violado. Em estudos mais recentes, têm-se considerado todos os modos atualmente disponíveis, inclusive ferrovia suburbana, vias expressas, metrô e ônibus, embora algumas vezes não se tendo avaliado a opção de ônibus expresso operando em faixa de domínio separada (Principio IV). O principal fator de desenvolvimento do planejamento do transporte urbano na última década foi a geração de técnicas de computação para a determinação do equilíbrio entre a oferta e a demanda (Principio V). Estas técnicas estão estruturadas de maneira que ainda persistem dificuldades conceituais e computacionais, mas a seqüência dos passos envolvidos — geração de viagens, cálculo dos volumes interzonais, divisão modal, e alocação de tráfego — esta bem desenvolvida e institucionalizada, talvez demasiadamente institucionalizada. As variáveis de nível de serviço usadas são normalmente custos “observáveis” (out-of-pocket costs), incluindo pedágios e taxas de estacionamento, tempo de viagem porta-a-porta, e alguma medida de conforto e conveniência. Os estudos de transporte metropolitano têm focalizado principalmente opções referentes a variações na rede — mais particularmente, devido às exigências de legislação (Leis de Uso e Ocupação do Solo), variações significativas na rede rodoviária (Princípio VI). Relativamente pouca atenção tem sido dada a trechos de outros modos, excetuando-se o transporte de massa, e aos terminais intermodais. Alguma consideração tem sido dada a novas tecnologias, embora pouca, e quase nenhuma atenção se tenha dado a variações nas características dos veículos automotores (embora pequenas variações no material rodante ferroviário tenham sido levadas em conta na análise sistêmica, e influenciado a implementação de projetos). Não se tem tentado explorar modos de controlar rotas de automóveis ou o tempo em que eles são usados; tem-se investigado, ocasionalmente, a taxação, principalmente através de pedágios e estacionamentos. Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 9 Por muitos anos tem-se ressaltado a idéia de que o transporte é meramente um instrumento do planejamento metropolitano e que os objetivos do planejamento dos transportes devem subordinar-se às diretrizes do crescimento metropolitano (Princípio VII). Na prática, entretanto, existem algumas questões subjacentes à implementação dessa filosofia. Mais frequentemente, têm- se usado projeções independentes de desenvolvimento de uso do solo para definir as necessidades do sistema de transportes; nenhuma tentativa explícita foi feita para testar planos de transportes com vistas à escolha daquele que melhor direcione o crescimento metropolitano para o cenário desejado. Embora se tenha discutido o escalonamento de horários de trabalho e segregação do tráfego, inclusive proibições de veículos em áreas centrais chaves, em geral, estas medidas não foram apresentadas e analisadas como opções relacionadas aos transportes (Principio VIII). Entretanto, alguns estudos têm colocado os possíveis usos de controles do crescimento da planta urbana (zoneamento) e a provisão de infra-estrutura (esgoto, água, eletricidade) como instrumentos de moldagem da demanda à perspectiva de crescimento metropolitano. A avaliação de alternativas de transportes tem posto uma grande ênfase na analise de custo- benefício. Isto tem levado os analistas a utilizarem somente aqueles impactos decorrentes do sistema proposto, que podem facilmente ser monetarizados, como forma de apresentá-los ao tomador de decisão. Com poucas exceções, os impactos não-monetarizáveis, mais difíceis de compreender — tal como a segregação de vizinhanças — têm sido omitidos do processo de planejamento dos transportes, resultando que sua análise fica sujeita ao plano meramente político (Principio IX). Para finalizar, nós podemos ver alguma aderência aos princípios supramencionados ao analisarmos o processo atual de planejamento dos transportes urbanos. No futuro, a experiência de aplicação destes princípios nos possibilitará perceber suas falhas e aprimorar análise dos sistemas de transportes. Exemplo 2: Mobilidade Estratégica O problema básico da “mobilidade estratégica” é alocar grandes contingentes militares a determinadas áreas de uma região em estudo, de forma tão rápida quanto necessária para atingir objetivos estratégicos. À primeira vista, o problema da mobilidade estratégica parece bastante diferente daquele do transporte urbana. Eles são, no entanto, problemas afetos aos sistemas de transportes, de modo que, em ambos os casos, os princípios são aplicáveis. Na mobilidade estratégica, o sistema de transportes é potencialmente aquele existente no mundo, incluindo veículos e redes militares ou não, todos os modos — aéreo, marítimo, ferroviário, rodoviário etc., tanto no país, quanto no contexto mundial (Princípio I). Os movimentos através do sistema que podem ser considerados na análise (Princípio II) são as divisões (tropas) deslocadas para diversos pontos do território geográfico, incluindo pessoal e equipamento; e mercadorias e equipamentos de suporte das forças em deslocamento e já estacionadas. Para a maioria dos elementos a serem transportadas em um rápido deslocamento existe um ponto inicial de origem no país e um ponto de destino no teatro de operações (Princípio III). Enquanto, na análise, tem-se dado mais atenção às etapas de deslocamento aéreo e marítimo do país para o teatro de operações fora dele, tem-se negligenciado o estudo dos deslocamentos de superfície ou internos ao próprio país. A fragmentação histórica da abordagem deste assunto está agora sendo corrigida, com a consideração do enfoque “da origem—ao destino”, envolvendo todos os modos potenciais (Princípio IV). Os aspectos de mercado da mobilidade estratégica são mais sutis do que no transporte urbano (Princípio V). Aqui não há um conjunto de consumidores independentes que criam, através de seu comportamento agregado, a função de demanda por transportes. Ao invés disso, na prática corrente, um comandante de operações ou outro planejador estratégico formulará suas necessidades de movimento e abastecimento de tropas em um nível fixo; isto é, a demanda é Princípios de Análise de Sistemas de Transportes 10 estabelecida de maneira exógena. O problema do analista de transportes restringe-se, então, a simplesmente determinar se os recursos disponíveis são suficientes para atender às necessidades de movimento nos tempos especificados. Entretanto, na prática, quando o comandante das operações considera os recursos de mobilidade insuficientes para atender aos seus requisitos ou, pelo contrário, quando acha que existe excesso de capacidade potencial disponível, ele reformulará seus movimentos e conseqüentes requisitos. Assim, a idéia básica de encontrar o equilíbrio está presente, apenas acontece que a demanda aumenta ou diminui em função das decisões do comandante, e não pela agregação não controlada de comportamentos de usuários do sistema de transportes. Neste caso, as variáveis de nível de serviço são predominantemente: a) tempo de chegada no teatro de operações em relação ao tempo requerido (de acordo com a resposta estratégica desejada); b) tempo que leva para juntar todos os componentes da força-tarefa (quando pessoal e equipamento se deslocam separadamente). O espectro de opções de transporte na mobilidade estratégica é realmente amplo (Princípio VI). Para as operações correntes, os veículos e a rede são fixos, e o problema se resume a atingir a utilização mais eficiente de determinados recursosde transportes para o deslocamento previsto de forças militares. No longo prazo, existem opções de aquisição de novos veículos, e alocação destes geograficamente e por jurisdição de comando; e a introdução de novas tecnologias, tais como aeronaves de transporte pesado de cargas e embarcações que possibilitem agilizar o deslocamento logístico de tropas e cargas. Claramente, na mobilidade estratégica, o transporte não é um fim em si mesmo (Princípio VII). O objetivo é uma resposta adequada a agressões reais ou insinuadas através do rápido deslocamento de forças-tarefas. Obviamente, o transporte não tem o mesmo peso quando considerado em relação às próprias estratégia e política nacional. Na mobilidade estratégica, as opções de transporte devem considerar (Princípio VIII), em primeiro lugar, a natureza da resposta às ameaças externas em termos de requisitos de movimento — as forças, equipamentos e mercadorias a serem transportadas, juntamente com as origens, os destinos e os tempos desejados de atingimento do destino para cada elemento. Além disso, existem outras opções que afetam diretamente a demanda por transportes; por exemplo, a colocação de bases fixas com equipamentos e tropas no Exterior, ou adaptando as forças-tarefas com vistas a permitirem deslocar-se em tempos mais curtos ou, ainda, reprojetando os equipamentos de modo a facilitar o seu transporte. Os impactos relevantes de planos de transporte estratégico alternativos são fáceis de perceber (Princípio IV). Primeiro, existem os custos monetários — custos de manter meios de transporte disponíveis em bases de apoio, com homens e equipamentos, e os custos de operação quando estes são usados. O benefício monetário são as economias advindas do uso dos equipamentos das bases pelas forças armadas, em tempo de paz, no Exterior. Os custos não-monetários são os muitos aspectos militares refletidos pela taxa de eficiência na organização das forças-tarefas no teatro de operações, pela habilidade em operacionalizar as forças-tarefas (que depende do tempo necessário de deslocamento, do tempo disponível para o treinamento da tropa antes de partir, e das manobras conjuntas dos equipamentos), e pela flexibi1idade, confiabilidade e vulnerabilidade do plano de deslocamentos.