PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO PENAL
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PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO PENAL


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PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO
2.1. Devido processo legal
O devido processo legal é instituto medieval, remontando ao século XI. O DPL nasceu, àquela época, com o propósito de controlar o exercício do poder pelo imperador ou rei (monarca), porque até aquela época se entendia que o monarca era um sujeito cujos atos seriam incontroláveis, porquanto seria a manifestação da divindade. O devido processo legal surgiu para afirmar que até mesmo a mais alta autoridade (monarca) estava submetida ao Direito. É a semente da noção de Estado de Direito, isto é, aquele que submete todos ao direito.
A expressão \u201cdevido processo legal\u201d só foi criada no século XIV. O termo advém do \u201cdue process of Law\u201d, significando devido processo do Direito, \u201claw" neste caso significa Direito e não apenas lei. Assim, o devido processo legal é um processo em conformidade com o Direito e não somente com a lei. Alguns doutrinadores utilizam a expressão \u201cdevido processo constitucional\u201d, por conta da normatividade da constituição. Tal princípio também pode ser denominado \u201cfair trial", podendo ser traduzido por \u201cprocesso justo\u201d ou \u201cprocesso equitativo\u201d.
\u201cProcesso\u201d, como visto, é um procedimento de criação de norma e tem seu âmbito administrativo, legislativo, judiciário e privado ou negocial (art. 57 do CC- exclusão de associado, punição de condômino por infração condominial). Desta forma, o devido processo legal tem sua efetividade em todos os tipos de processo. O STF já consagrou a aplicação do devido processo legal no âmbito privado (eficácia horizontal dos direitos fundamentais).
Eficácia horizontal dos direitos fundamentais \u2013 é a efetividade dos direitos fundamentais aplicados às relações privadas. Contrapõem-se à eficácia vertical dos direitos fundamentais, onde se dá entre Estado e cidadão. O devido processo legal é um direito fundamental e, como tal, também se aplica ao direito privado, logo, há devido processo legal privado (ex: art. 57, CC).
O devido processo legal hoje é compreendido como um direito fundamental. Em relação aos direitos fundamentais aplica-se o princípio da proibição de retrocesso, isto é, a pauta dos direitos fundamentais é sempre considerada uma conquista histórica da qual não se pode retroceder (conquistado o direito fundamental, não se pode tirá-lo). 
O devido processo legal é, desde sempre, uma cláusula geral e como tal não determina exatamente as hipóteses de incidência, nem determina exatamente a consequência. Assim, a sua aplicação variou ao longo da história. Cada sociedade que se valha desta cláusula geral vai dando sentido ao que é devido, motivo pelo qual tal instituto data da idade média e não se encontra obsoleto, se adaptando às peculiaridades de cada sociedade em cada momento histórico.
O devido processo legal, ao longo da história, concretizou algumas normas que foram incorporadas aos textos legislativos, como o contraditório, juiz natural, publicidade, duração razoável, igualdade, proibição de prova ilícita, acesso à justiça etc. Mesmo com a previsão de diversas normas oriundas do devido processo legal, elas não lhe exauriram, de forma que, se surgir alguma situação que não esteja ainda prevista, pode, como cláusula geral, dar solução. Em suma: ao longo dos anos, o devido processo legal construiu outros direitos fundamentais, que também não podem ser suprimidos. Apesar do conteúdo do devido processo legal não poder ser diminuído, a ele podem ser agregadas outras garantias.
Neste sentido, fala-se que o devido processo legal é um conjunto de garantias conquistadas historicamente, além de um princípio que permanece em vigor para impedir qualquer ato de tirania ainda não imaginado.
Do devido processo legal foram extraídos princípios (subprincípios) expressos, como, e.g., contraditório, duração razoável do processo e da publicidade. Há outros princípios além destes, estudados ao longo do curso. Além disso, o devido processo legal, como cláusula geral que é, também produz regras expressas (e.g., regra da motivação, regra da proibição de prova ilícita), de modo que se pode dizer que o DPL produziu, ao longo da história, outros princípios e outras regras que garantem o processo devido. Além dos princípios expressos constitucionalmente, o devido processo legal também produziu outros princípios ainda não expressos na constituição (são princípios do processo de fundo constitucional, apesar de implícitos).
Exemplos de princípios constitucionais processuais implícitos decorrentes do devido processo legal, ainda não concretizados expressamente na constituição: a) princípio da efetividade; b) princípio da boa fé processual; c) princípio da adequação; d) princípio da eficiência.
Cada um destes princípios oriundos do devido processo legal, implícitos e explícitos, qualifica o conteúdo do devido processos legal.
Atualmente se diz que a noção do devido processo legal deve ser compreendida em duas dimensões:
Devido processo legal formal (ou procedimental): denomina-se devido processo legal procedimental. É o conjunto das garantias processuais para um processo devido, conforme já analisado;
Devido processo legal substancial (ou material): esta expressão devido processo legal substancial nasceu da jurisprudência americana; como não há uma lista de direitos fundamentais naquele país, como há em nossa Carta Política, nos EUA a jurisprudência começou a utilizar a cláusula do devido processo legal para proteger direitos fundamentais não previstos expressamente. 
Existe uma doutrina brasileira do devido processo legal substancial, isto é, uma concepção brasileira do devido processo legal substancial, que nada tem a ver com a concepção norte-americana. O STF construiu a doutrina brasileira do DPL substancial, afirmando que esta é a exigência de proporcionalidade e razoabilidade nas decisões.
Isto é, o STF se valeu do DPL como fundamento da proporcionalidade e razoabilidade, equiparando as noções, isto é, as exigências de proporcionalidade e razoabilidade nada mais são que a noção de DPL substancial. O STF não importou a noção exata que nos EUA se tinha do DPL substancial porquanto nossa Constituição já afirma que nossos direitos e garantias fundamentais são exemplificativos.
A proporcionalidade e razoabilidade nasceram na Alemanha, para combate do exercício abusivo do poder, onde não há o princípio do devido processo legal na Constituição. Houve assim, na doutrina brasileira, um misto de concepções americana e alemã.
Não basta que se cumpram todas as regras processuais para que o processo seja justo, é necessário que a decisão também seja justa. Busca uma qualidade também da decisão, com fundamento na cláusula geral do devido processo legal.
Para o Supremo, no Brasil, a dimensão substancial do devido processo é a fonte normativa das máximas da proporcionalidade e razoabilidade, ou seja, para o STF o fundamento da proporcionalidade e razoabilidade é o devido processo legal substancial.
Críticas à concepção brasileira do devido processo legal substancial (oriunda do STF): 
O Supremo errou ao não aplicar o sentido histórico do devido processo legal substancial, já que este termo, oriundo dos EUA, tinha a acepção de \u201cproteger os direitos fundamentais implícitos\u201d. Houve uma importação indevida. Esta crítica acusa de errado um produto da cultura jurídica brasileira, que trabalhou um produto estrangeiro de outra forma.
Inutilidade da construção \u2013 seria possível extrair a proporcionalidade e razoabilidade de outras partes da Constituição, prescindindo extraí-lo do devido processo legal substancial; como ao exemplo de extraí-los da igualdade ou Estado Democrático de Direito, exatamente como fizeram os alemães (Humberto Ávila). Esta crítica é uma constatação, que não tira a legitimidade da doutrina; os princípios não têm pretensão alguma de exclusividade, não havendo motivo para que a proporcionalidade não seja extraída do devido processo legal substancial.
Princípios processuais explícitos que decorrem do devido processo legal
2.2.1. Princípio do contraditório
É garantido em qualquer