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226 8. LINEAÇÕES 8.1. DEFINIÇÃO De acordo com E. Cloos, poderá designar-se por lineação qualquer estrutura linear (microscópica, mesoscópica, ou megascópica) que ocorra, com alguma repetição, numa rocha. Esta definição é meramente descritiva, não tendo qualquer conotação genética. Como exemplos de lineações, aquele autor cita eixos de dobras, estrias de deslizamento (slickenside striae), linhas de fluxo em rochas magmáticas, boudins, orientações preferenciais de minerais alongados, etc. (Fig.8.1). Turner & Weiss (1963) reservam o termo lineação para designar estruturas lineares penetrativas (i.e., que constituam um elemento da fábrica dum tectonito). Assim, as estrias de escorregamento (que se confinam, por exemplo, a um plano de falha), os boudins e, na generalidade dos casos, os eixos de dobras, pela sua localização confinada, não serão lineações. Estes autores designam, genericamente, tais elementos estruturais não-penetrativos por estruturas lineares. No presente texto, será adoptada a definição de Cloos. Fig.8.1 – Lineação observada num gnaisse (I. Benbecula, Hébridas Exteriores) 8.2. TIPOS DE LINEAÇÕES 227 Uma lineação, como se esquematiza na Fig.8.2, poderá resultar de diversos aspectos: i. Orientação preferencial de corpos alongados (cristais prismáticos, agregados minerais, seixos e oólitos deformados, sombras de pressão, etc.); (Fig.8.2-a,b); ii. Minerais tabulares ou micáceos com uma orientação linear preferencial (i.e., as faces dominantes têm uma orientação variável, mas mantêm-se paralelas a uma dada direcção do espaço); (Fig.8.2-c); iii. Eixos da crenulação de uma superfície-s; (Fig.8.2-d); iv. Traços de intersecção de duas superfícies-s; (Fig.8.2-e). Identificada, no terreno, uma lineação, deve ser registada a sua natureza e a sua atitude espacial. Como para qualquer outra recta estrutural, a atitude de uma lineação é dada por um ângulo de mergulho e pelo azimute do plano vertical que a contém. Alternativamente, a atitude de uma lineação poderá ser especificada pelo rake medido num plano de atitude conhecida. Os dois métodos foram já descritos na pág.130. Fig.8.2- Representação esquemática de diversos tipos de lineações (V. texto) 228 Em alguns casos, as lineações não são imediatamente aparentes e requerem “análises de fábrica” (ao microscópio ou por outros meios mais sofisticados), as quais permitirão, por exemplo, verificar que os eixos ópticos de uma dado mineral (o quartzo e a calcite são os mais frequentemente estudados) têm uma orientação preferencial, mais ou menos marcada. Neste caso, o estudo deve incidir sobre “amostras orientadas”. Vejamos alguns tipos particulares de lineações, frequentemente referidos na literatura geológica. 8.2.1. Estrias de deslizamento Estrias de deslizamento (slickenside striae ou, simplesmente, slickensides) são estruturas lineares observadas, frequentemente, em planos de falha (Fig.8.3) e, ainda, nos flancos de dobras flexurais. Em qualquer dos casos, assinalam um movimento de escorregamento ao longo das referidas superfícies. Fig.8.3 – Estrias de deslizamento num plano de falha. As estrias são formadas por quartzo fibroso disposto em painéis sobrepostos (Cf. Fig.8.4) . (próximo de Hartland Point, N. Cornualha) As estrias podem corresponder a sulcos marcados naquelas superfícies, resultantes de um desgaste das rochas, devido ao atrito entre os blocos deslocados. Noutros casos, são estruturas mais complexas, constituídas por painéis sobrepostos de minerais (quartzo ou calcite, mais frequentemente) que cresceram com um hábito fibroso, segundo uma direcção preferencial: a daquele movimento relativo. Os eixos das fibras de quartzo correspondem, também, a uma orientação óptica preferencial do quartzo: as fibras alongam-se na direcção dos eixos ópticos daquele mineral (Fig.8.4). 229 Fig.8.4- Estrias de deslizamento definidas por quartzo fibroso, disposto em painéis (In Hobbs et al., 1976) Como vimos, estas estruturas têm sido observadas em planos de falha e nos flancos de dobras flexurais. Nas falhas, têm sido usadas para determinar a direcção e o sentido do movimento ao longo de planos de falha. No caso das dobras flexurais, as estrias orientam-se perpendicularmente à direcção axial das dobras e são mais nítidas longe da linha de charneira, pois o movimento relativo entre os “estratos” dobrados decresce à medida que nos aproximamos daquela linha. 230 8.2.2. Boudinage A boudinage, sumariamente caracterizada na p.66, é uma estrutura típica de estratos competentes, que fracturaram a intervalos regulares, originando corpos cilindróides (os boudins), dispostos lado a lado (Fig.8.5). Sendo corpos alongados, os boudins constituem um tipo particular de lineação.1 Fig.8.5- Boudinage: forma e dimensões de boudins típicos (G.Wilson, 1961) A forma da secção transversal dos boudins depende do contraste de ductilidade entre eles e a rocha envolvente. Para uma pequena diferença de ductilidade, poderá não ocorrer a fracturação do corpo tabular original e, em vez de boudinage, formar-se-á uma estrutura pinch- and-swell (Fig.8.6-iii). Fig.8.6- Variação da boudinage, consoante o contraste de ductilidade, entre os boudins e a rocha envolvente . 1 Refira-se, de passagem, que um estiramento pode também dar lugar à divisão de um cristal prismático frágil (como a turmalina) em segmentos que, progressivamente se vão separando: é a chamada boudinage linear. Podendo ser usada como marca de deformação, não constitui, em si, uma lineação. X ELIPSE DE DEFORMAÇÃO FINITA CONTRASTE DE DUCTILIDADE DECRESCENTE 231 Fig. 8.7- Estrutura pinch-and-swell desmantelada pela erosão (Hele Bay, N. Devon) As rochas circundantes dos boudins, se suficientemente dúcteis, conformam-se a eles, fluindo para os intervalos abertos. Os gradientes de tensão criados junto dos boudins promovem fenómenos de dissolução por pressão, em que as aberturas entre aqueles (onde a tensão compressiva média é mínima) são sede de precipitação de minerais, como o quartzo ou a calcite. Este efeito é particularmente importante quando as aberturas entre boudins não são ocupadas pelas rochas circundantes, porque insuficientemente dúcteis. A descrição clássica, acabada de referir, pressupõe uma rotura por tracção, só possível quando a tensão diferencial (σ1−σ3) ultrapassa suficientemente a resistência das rochas à tracção.2 No entanto, a boudinage poderá resultar de fracturação associada a zonas de cisalhamento frágil- dúctil, singulares ou conjugadas (Fig.8.8). As duas formas de rotura (tracção e por corte) poderão, mesmo, coexistir numa mesma estrutura de boudinage. Fig.8.8- Estrutura pinch-and swell resultante da incidência de zonas de cisalhamento frágil-dúctil 232 Comparando dobras e estruturas pinch-and swell, verificamos que elas (e, portanto, a boudinage, de que é um estádio incipiente) são estruturas muito semelhantes, correspondendo a duas situações diferentes da orientação de σ1, relativamente ao “estrato” competente: paralelamente ao “estrato”, para as primeiras, normal a ele, para as segundas. A razão, de acordo com alguns estudos teóricos, por que as dobras são muito mais abundantes que a boudinage é que esta só se desenvolverá, se os materiais tiverem um comportamento viscoso acentuadamente não-linear. Um aspecto curioso, por vezes observado, éo da boudinage secundária : boudinage no interior dos próprios boudins individuais, quando nestes há uma laminação com contrastes de ductilidade (Fig.8.9). Fig.8.9- Boudin exibindo boudinage secundária (foto in. J.G. Ramsay, 1967) 8.2.3. Bastões (de quartzo) Os bastões de quartzo ou barras de quartzo (quartz rods)3 foram, originalmente, descritos como corpos cilindróides alongados, compostos essencialmente por quartzo derivado de segregação metamórfica (Fig.8.10). 2 Quando (σ1 − σ3)>4T, sendo T a resistência da rocha à tracção. 3 Barras de quartzo é o termo adoptado por Loczy & Ladeira para traduzir quartz rods. 233 Fig.8.10- Extensa área mostrando bastões de quartzo (S. Devon, Inglaterra) Fig.8.11- a) Bastões de quartzo b) Bastões de quartzo formados por segregação de quartzo nas zonas de charneira de dobras parasíticas (In. G. Wilson, 1961) 234 Atendendo à dificuldade em reconhecer, por vezes, a origem daquele quartzo, o termo “bastão de quartzo” deve ser usado como puramente descritivo, para designar qualquer corpo cilindróide, alongado, de composição contrastante com a das rochas circundantes e, essencialmente, monominerálico. Naturalmente, não se considera que os boudins, a quem a descrição dada também se aplicaria − mas que resultam da fractura de um corpo tabular − sejam bastões. Os bastões, ao contrário dos boudins, são corpos isolados e marcadamente unidimensionais. Frequentemente, resultam do preenchimento, por quartzo, do espaço aberto entre zonas de charneira de dois “estratos” dobrados (saddle-reefs), como se poderá ver na Fig.8.12. Fig.8.12- Saddle reef de quartzo (Hartland Point, N. Devon) As dimensões dos bastões são extremamente variáveis: desde a de uma vara fina à de um poste telegráfico. 8.2.4. Estruturas colunares As estruturas colunares (mullion structures ou mullions) são um tipo de lineação não- -penetrativa, consideradas, de certo modo, como equivalentes a rodding. Para G. Wilson (1961), o termo, no entanto, passou a ser reservado para designar corpos colunares (cilindróides ou prismáticos) “talhados” na própria rocha local (Fig.8.13). 235 Fig.8.13- Estrutura colunar. Vista ao longe e de mais perto. Note-se o diaclasamento transversal (Rillage Point, N. Cornualha) 236 A superfície das colunas, tipicamente, é polida ou revestida por uma fina camada de minerais micáceos; pode, também, ser estriada segundo o seu comprimento. Frequentemente, são intersectadas por diaclases transversais e, internamente, a rocha pode estar laminada. Distinguem-se, ainda, dos bastões, por serem, geralmente, de maiores dimensões e terem uma incidência que se restringe a afloramentos locais (enquanto que o rodding tende a estender-se por largas áreas, numa dada região). A génese destas estruturas é problemática. Algumas estruturas corresponderão a uma corrugação da interface entre duas rochas com acentuado contraste de ductilidade (v. p.162). Noutros casos, assemelham-se a boudins, mas formados em material menos competente que o circundante. Inserem-se, assim, numa gama de possíveis estruturas (dobras, boudins e estruturas colunares), variáveis consoante o contraste de ductilidade e a orientação da tensão compressiva principal (relativamente ao “estrato” deformado) e, ainda, o comportamento reológico das rochas (Fig.8.14). Fig.8.14.- Estruturas formadas num “estrato”, consoante a orientação de σ1 e o contraste de ductilidade (+, rocha de maior viscosidade; −, rocha de menor viscosidade) (R.B. Smith, 1977) 8.2.5. Lineações minerais Uma lineação mineral poderá resultar da orientação preferencial de cristais prismáticos alongados (Fig.8.2-b e Fig.8.15) ou de cristais tabulares ou micáceos (Fig.8.2-c), ou da orientação preferencial de outras direcções cristalográficas (designadamente, eixos ópticos). Um tipo particular de lineação mineral é a estrutura designada por sombra de pressão. Uma sombra de pressão desenvolve-se, simetricamente, junto de corpos rígidos (cristais bem desenvolvidos, por exemplo, de pirite, de magnetite, etc., ou de fósseis). Durante a deformação, dá-se um desligamento crescente entre esse corpo e a matriz da rocha, sendo o espaço aberto, progressivamente, preenchido por matéria mineral (quartzo, calcite, albite, clorites, etc.), cristalizada sob a forma de fibras. 237 Fig.8.15- Lineação definida, num plano de xistosidade, pelo alinhamento de cristais prismáticos de hornblenda e pelo estiramento das granadas. (G. Wilson, 1961) O modo como se desenvolvem e a morfologia dessas estruturas dependem da maior ou menor deformabilidade do corpo rígido, da sua forma e da sua composição comparada com a da matriz (semelhante ou contrastante). Na Fig.8.16, ilustra-se uma forma comum de sombra de pressão, formada junto de um cristal euédrico de pirite. Fig.8.16- Sombra de pressão formada por fibras de quartzo cristalizadas junto de um cristal rígido de pirite (In. Ramsay & Huber, 1983) Lineações características ocorrem, também, durante a evolução deformacional, que transforma uma rocha argilosa homogénea numa ardósia ou num xisto (Fig.8.17). 238 Fig.8.17- Evolução da fábrica de um tectonito derivado de um argilito (In. Ramsay & Huber, 1983) a) Fissilidade no argilito b) Estrutura em lápis c) Estrutura de intersecção em lápis d) Clivagem ardosífera e) Clivagem ardosífera e lineação de estiramento Aquela rocha adquire, habitualmente, uma foliação primária (fissilidade), paralela à estratificação e que resulta da rotação mecânica de minerais micáceos e tabulares, em resposta, principalmente, à compacção diagenética dos sedimentos. Com a deformação, a fissilidade vai, progressivamente, desaparecendo, em resultado da rotação daqueles minerais, em torno da direcção do máximo alongamento (Y) naquele plano. Esta reorientação mineral dá lugar a uma lineação, designada por estrutura em lápis (pencil structure), que tende a orientar-se paralelamente aos eixos das dobras regionais, sintectónicas (Fig.8.17-b). Com a intensificação da deformação (aumento da extensão segundo X e aumento da contracção segundo Z), aumenta a reorientação dos minerais, em que, possivelmente, além de 239 mecanismos meramente mecânicos se sobreporão mecanismos de reorientação por recristalização. A tendência é para a formação de uma nova foliação, normal a Z; trata-se de uma clivagem ardosífera incipiente. Esta foliação, ao intersectar a foliação primária subsistente (estratificação ou fissilidade), da lugar a uma lineação segundo Y, designada por estrutura de intersecção em lápis (Fig.8.17-c). Com a prossecução da deformação, aquela clivagem incipiente converte-se numa perfeita clivagem ardosífera (Fig.8.17-d), normal ao eixo Z do elipsóide deformação finita. Inicialmente, no plano desta foliação, os minerais não patenteiam qualquer orientação preferencial, mas, com a intensificação da deformação, tende a gerar-se uma lineação segundo a direcção de máxima extensão (X, do elipsóide deformação finita), ou seja, uma lineação de estiramento (Fig.8.17-e), como a ilustrada na Fig.8.15. Como se vê da evolução de um tectonito. acima descrita, a formação de foliações e a de lineações estão intimamente associadas e, num mesmo episódiotectónico, as suas atitudes correlacionam-se entre si e com outras estruturas (designadamente, com as dobras sintectónicas). Na formação de lineações minerais e de foliações como a clivagem ardosífera ou a xistosidade, intervêm fenómenos de crescimento preferencial dos minerais de neoformação, mecanismos de fluxo plástico dos minerais e mecanismos de difusão no estado sólido (assim como, outros fenómenos de dissolução por pressão). Entre os mecanismos de fluxo plástico, podem referir-se os que envolvem a activação de sistemas de escorregamento, fazendo com que os minerais envolvidos se deformem, ao mesmo tempo que rodam, de modo a que o plano do escorregamento se oriente perpendicularmente à compressão máxima (σ1), o que conduz a uma orientação preferencial dos cristais daqueles minerais. Todos esses mecanismos dependem do estado de tensão actuante, razão por que as fábricas resultantes são relacionáveis com o estado de deformação das rochas. Além disso, a temperatura é um factor crucial para a activação dos mecanismos de fluxo da matéria no estado sólido: temperaturas muito elevadas são uma condição sine qua non para que esse fluxo possa ter lugar.4 Um outro factor, cuja importância tem sido salientada, é a presença de fluidos intergranulares. 4 O principais mecanismos conhecidos exigem temperaturas absolutas entre 40% a 80% da temperatura de fusão dos minerais. 240 8.3. Relação entre lineações e dobramentos sintectónicos Ao longo deste texto, têm-se encontrado exemplos de correlação entre a orientação de dobras e de lineações formadas durante o mesmo episódio deformacional. Frequentemente, tais lineações orientam-se paralelamente aos eixos das dobras (lineações em b), ou perpendicularmente aos mesmos eixos (por exemplo, lineações em a). Exemplos de lineações em b são, habitualmente, as colunas (mullions) e os bastões (rods). Os boudins podem ocorrer com qualquer das duas referidas atitudes (Fig.8.18). Fig.8.18- Boudins e dobras formados no decorrer do mesmo episódio deformacional, para duas situações distintas do estado de deformação.