Prévia do material em texto
GRAMÁTICA GERATIVA TRANSFORMACIONAL 2017/2 REFLEXÃO INICIAL 1. O homem e a questão da linguagem Alguém já afirmou que a melhor definição para o ser humano é aquela que o classifica como “o ser falante”. Realmente, aquilo que nos singulariza, aquilo que nos faz seres humanos em meio a outros seres que se dão no mundo é a nossa formidável capacidade de comunicação. Construímos um conjunto de signos lingüísticos que mediatizam o nosso encontro com a realidade que nos envolve. A nossa capacidade lingüística, unida ao nosso potencial reflexivo, nos edifica e nos particulariza como seres humanos. O poder de nomear as coisas, e, portanto, mediatizando o mundo por meio da linguagem, nos faz seres dominadores da natureza e edificadores da história. A natureza - vista pura e simplesmente em si mesma - é muda, não comunica. Urge que o homem a faça falar, quebrando-lhe destarte o mutismo, transformando-a em linguagem. 2. A importância da comunicação vocabular No livro do Gênesis em seu cap.1 versículo de 1 a 31, as origens do mundo e da humanidade são descritas sob a força do poder da palavra. É Deus quem ordena “haja luz!”, “haja um firmamento!”, etc. O mesmo poder da palavra que afasta o caos é o que cria o homem, este é feito à imagem e à semelhança do Criador que o constituiu senhor dos outros seres. A Palavra que criou do nada o tudo, agora faz do homem nomeante da realidade que o envolve. As coisas que o rodeiam são agora realidades lingüísticas. Assim, o existir humano é essencialmente mediatizado pela linguagem. O mundo ergue-se em palavras e nós fazemos parte dessa realidade que é semiologizada. A compreensão satisfatória do jogo lingüístico no ato comunicativo pode proporcionar-nos um crescimento pessoal formidável. A máxima, “quem não se comunica se estrumbica”, dita pelo saudoso Abelardo Barbosa o “Chacrinha”, revela-nos, de forma lúdica, a importância da relação homem-palavra-mundo. I) RELAÇÕES SINTAGMÁTICAS E ASSOCIATIVAS As relações sintagmáticas e associativas correspondem a duas formas de nossa atividade intelectiva de realização do idioma, a primeira dá-se “em presença” a segunda, “em ausência”. Quando um falante realiza a frase O menino mordeu a maçã De um lado os termos estabelecem entre si relações baseadas no caráter linear que a língua possui um termo após o outro como sucessões; não havendo possibilidade do falante pronunciar ou realizar duas formas simultaneamente. Essas combinações que se apóiam na extensão – caráter linear do idioma – podem ser chamadas de sintagma (SAUSSURE, 1996, p. 142). Por outro lado, às palavras anunciadas na frase acima podem se associar outras como possibilidades de construção, este trabalho é salientemente mnemônico, pois grupos associativos são formados na memória do falante. Desta forma podemos ter: o menino mordeu maçã (eixo sintagmático) aquele este esse nosso (eixo associativo) Os sintagmas formam, por meio de unidades menores, uma unidade lingüística superior, na qual os termos chamados de determinantes estabelecem um elo de subordinação com os termos determinados: O bombeiro cavou um buraco o bombeiro = SN (sintagma nominal) o = det. de bombeito cavou um buraco = SV (sintagma verbal) det. de “o bombeiro” O sintagma como unidade sintática ou sintagmática é uma estrutura binária cujos membros se relacionam para cumprir a função de comunicação da língua (BORBA, 1976, p.110) O sintagma possui uma natureza relacional, daí que ele só é depreendido do enunciado se constituído de mais de um elemento: SO a onça pegou a cutia SN a onça SV pegou a cutia A descrição sintática alicerçada na identificação dos tipos de sintagmas e na elaboração de regras que ordenam as palavras no interior dos sintagmas foi denominada de análise sintagmática ou dos constituintes, esta análise permite descrever a estrutura da oração em constituintes imediatos: SN + SV. Estes são analisáveis em outros constituintes, como o sintagma nominal “a onça” do exemplo acima que se estrutura em det + N SN= det (a) + N (onça). Exercício 1) Estabeleça um eixo paradigmático (associativo) para cada eixo sintagmático abaixo: a) O aluno devolveu o livro b) O livro foi danificado pelo aluno II) SINTAXE GERATIVA: UMA SÍNTESE 1. Primeiras Palavras Se há algo que nos diferencia singularmente dos outros seres que se dão no mundo é a nossa formidável existência sígnica – somos seres simbólicos. Entre o mundo e o homem há a mediação da linguagem, quiçá fruto insigne de nossa racionalidade, só há linguagem onde há racionalidade. Pensamos, logo somos, significamos, inventamos, criamos. A grande invenção humana talvez não tenha sido a roda, mas a linguagem, este fenomenal que edifica a nossa convivência. A linguagem entendida como um conjunto de signos voltados para a prática da comunicação é estudada por várias correntes filosóficas, isso desde a antiguidade até hodiernamente. A modernidade engendrou uma ciência para compreendê-la de forma específica, delimitando seu objeto de estudo e seus métodos. As bases da ciência da linguagem humana foram edificadas por Saussurre na Europa e por Bloomfild nos Estados Unidos. Podemos afirmar que, em Saussurre e Bloomfild, as bases do estruturalismo lingüístico nasceram e se desenvolveram por décadas, mas será que o conhecimento das estruturas imediatas será suficiente para descrição de um idioma? A língua será mesmo e tão somente um conjunto de regras alicerçadas no corpo social?. O indivíduo possui simplesmente uma função mnemônica? Sua língua será apenas um conjunto de hábitos lingüísticos adquiridos na convivência com os outros seus pares culturais?. O homem não adquire a linguagem em virtude de um conjunto de fatores mais universais e inatos? Desses questionamentos emerge a “Gramática Gerativa” com os postulados de Noam Chomsky que se volta para o indivíduo e para sua capacidade inventiva. O falante, agora, não é um receptáculo mnemônico, ele é um ser lingüisticamente competente e capaz de interpretar e criar. Assim, podemos dizer que o surgimento do gerativismo representou uma verdadeira ruptura com o pensamento estruturalista de base saussuriana. A linguagem é uma insigne manifestação das capacidades inatas do ser humano, cujo saber lingüístico é internalizado; ele não é uma tábua rasa ou folha de papel em branco onde a experiência vai escrever-lhe os saberes. A língua é vista como inventividade e como força criadora. Enquanto a lingüística estrutural é essencialmente empírica, e aplica o método indutivo, utilizando a técnica da experimentação a fim de chegar aos seus postulados, a Gramática Gerativa é de base racionalista, assente nos princípios do inatismo das idéias, esta aplica o método dedutivo e acredita na validade de hipóteses gerais acerca da natureza e função da linguagem. 2. Segundas palavras A gramática gerativa1 é um postulado lingüístico pensado por Noam Chomsky na década de 60, ela emerge como uma crítica ao modelo de análise estrutural alicerçada na decomposição dos constituintes imediatos por julgar que esse modelo apenas analisa as frases realizadas – imediatas – não explorando alguns aspectos relevantes como a problemática da ambigüidade e os constituintes descontínuos.2 Para Chomsky, a gramática gerativa sintetiza uma teoria capaz de dar conta da criatividadedo falante, ou seja, de sua capacidade de criar frases inéditas e de compreendê-las. Para os gerativistas, a língua é um conjunto de regras finitas que geram infinitas frases e todas elas gramaticais e nenhuma agramatical, este postulado está assente numa perspectiva de se pensar a linguagem como um fenômeno singularizador do ser humano e cujas estruturas são universais e inatas, e é isso que torna possível um aprendizado de uma língua por uma criança. O fator social aqui age apenas como um ativador das estruturas lingüísticas inerentes ao ser humano, este é sujeito de ação e não objeto. Esta perspectiva teórica do gerativismo representa uma importante postura filosófica e uma ruptura com o cerne do estruturalismo como escreve Lemle: É importante compreender que a postura aparentemente científica que Chomsky se armou para combater desembocava num corolário de conseqüências filosóficas que atingem o plano do social e do ético, uma vez que admitir que o ser humano seja como um papel em branco em termos de disponibilidade para a aquisição de conhecimentos abre as portas para oportunidades de manipulação, programação, robotização de um grupo humano por outro ou de uma classe social pela outra, e justifica sistemas políticos autoritários por se apresentarem coerentes com a própria suposta forma natural do comportamento da espécie humana. (1989:8) 1 O primeiro modelo transformacional foi formalizado por Chomsky em Syntatic Structures (1957) e o segundo, também denominado Teoria Padrão, foi formalizado em Aspects of Theory of Sintax (1965) . 2 Série de dois ou mais morfemas (não-contínuos) que formam, juntos, um único constituinte imediato de ordem superior e que pertencem a uma só categoria. Ex Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas. Assim, a gramática é um conjunto de regras que definem as seqüências vocabulares ou de sons permitidos, é um saber lingüístico presente em cada indivíduo que fala o idioma – competência lingüística3, assim, o termo competência é aquele que designa o conjunto de normas internalizadas, ou regras que nos permite emitir, receber, julgar enunciados de nossa língua. É o conhecimento que os falantes têm de sua língua. (PERINI,1985:27) O que cada indivíduo faz da língua em sua condição individual e particular está vinculado ao que os gerativistas chamam de desempenho ou atuação4 – manifestação da competência dos falantes nos seus inúmeros atos de comunicação verbal. Guardadas as devidas proporções filosóficas podemos dizer que a dicotomia chomskiana “competence” e “performance” equivale a dicotomia saussuriana “langue” e “parole”. Chomsky nos faz ver através da gramática gerativa transformacional que a compreensão do fato sintático, a partir de estruturas superficiais, é bastante limitada. O mecanismo de produção e intelecção das inúmeras estruturas sintáticas de uma língua – com inversões, apagamentos, acréscimos e substituições – torna-se transparente na medida em que para descrevê-las e explicá-las, se recorre a um nível maior de abstração, recuperando-se as estruturas básicas, elementares, subjacentes às demais. Esse processo (regras que convertem as estruturas profundas em estruturas superficiais) Chomsky (1957 e (1965) denominou de regras transformacionais. Essas regras deram o nome A GRAMÁTICA GERATIVA TRANSFORMACIONAL. A finalidade básica da inclusão das regras transformacionais em uma gramática básica foi, portanto, tornar possível a descrição das infinitas possibilidades de estruturas superficiais de uma língua como resultantes de modificações operadas sobre as estruturas profundas5,. 3 “Competence” é a capacidade que cada indivíduo – falante autóctone – possui para entender e produzir um número ilimitado de frases, é um saber tácito da língua. 4 “Performance” são atos concretos de fala que o desempenho real. “Uso que fazemos da língua, resultado de fatores lingüísticos e extra-lingüísticos (...) aquilo que efetivamente realizamos quando falamos (ou quando ouvimos, ou escrevemos ou lemos.”(PERINI,1985:27) 5 No primeiro modelo (Syntatic Structures- 1957) da teoria transformacional não se usam ainda os termos estrutura profunda e estrutura superficial, mas a distinção se expressa através de outra terminologia: estruturas nucleares e transformadas. 3. Componentes da gramática gerativa De acordo com a Teoria Padrão – Chomsky (1965) – a gramática gerativa apresenta três componentes, a saber: o que sistematiza as regras que determinam os enunciados frásicos válidos ou permitidos – componente sintático; o que sistematiza as regras que definem a interpretação das frases engendradas pelo componente sintático – componente semântico 6, e aquele que determina as regras de combinação dos fonemas que estruturam os enunciados – componente fonológico. O componente sintático – o que nos interessa nesta síntese – é formado por duas partes: a base que é definidora das estruturas fundamentais (estrutura profunda)7; as transformações que permitem passar das estruturas fundamentais às estruturas de superfície8 dos enunciados, estes recebem interpretação fonética para assim tornarem-se concretamente realizados. FRASE Ex: EP det + roda + girar ES [+ ] “A roda girava.” EP det + noite + é + breve det + noite + é + det + companheira ES [+++] “A noite que é minha companheira é breve.” 6 No primeiro modelo (1957) não havia nenhuma tentativa explícita de lidar com a semântica nem de integrar uma teoria semântica a uma teoria sintática.Isso só ocorreu com o segundo modelo, ou teoria padrão (1965), resultante em grande parte das teorias semânticas propostas por Katz e Fodor (1963) e Katz e Postal (1964). 7 Podemos compreender EP como um sistema abstrato fundamental responsável pela interpretação semântica dos enunciados. A EP e subjacente e puramente intelectual. 8 ES em oposição à EP é a organização externa dos enunciados que são determinados pela interpretação fônica, enquanto a EP é subjacente, a ES é manifesta e esta relacionada com a forma física do enunciado. EP é interna interpretação semântica abstrata subjacente ES externa interpretação fonética realização concreta sobrejacente 4. Gramaticalidade e aceitabilidade Para os gerativistas, cada falante é sabedor da língua que fala, ou seja, cada falante nativo possui uma gramática internalizada, daí podendo emitir julgamentos de gramaticalidade, sendo capaz de inferir se uma frase é aceitável ou não-aceitável.9 Ex: (A) “Parecia uma fada que dormia ao luar...” (A. de Azevedo – Noite na taverna) (B) “Fada uma a luar parecia que o dormia” A frase (A) é uma sentença perfeitamente gramatical, porém a frase (B) não reúne inteligibilidade por não respeitar as regras de sintaxe de colocação. Não obstante gramaticalidade e aceitabilidade serem postulados interpretáveis em matéria de graus, suas referidas escalas não coincidem, pois gramaticalidade liga-se à competência, e aceitabilidade une-se à atuação, por outras palavras, uma sentença, por mais gramatical que se mostre, pode ser inferida pelo falante como não-aceitável, e, por vezes, uma sentença aceita pelo falantepode apresentar menor grau de gramaticalidade; como diz Perini (1985:32) a aceitabilidade é um fenômeno essencialmente intuitivo, já gramaticalidade se refere necessariamente a uma gramática que está internalizada ou sistematizada lingüisticamente.: Ex: (1) “Não te vou dar nada disso” (2) “Não vou te dar nada disso” (3) “Vou retomar o prédio” (4) “Vou retomar água” (5) “O gato atropelou o carro” A frase (1) possui maior grau de gramaticalidade e menor grau de aceitabilidade; a frase (2) ao contrário, possui aceitabilidade maior e menor grau de gramaticalidade. A frase (3) é perfeitamente gramatical e aceitável, ao oposto da frase (4) que é inaceitável, mesmo sendo perfeitamente gramatical, caso que pode se aplicar também à frase (5). 9 Os gerativistas entendem gramática como um conjunto de princípios responsáveis pela estruturação da língua, ou seja, um sistema finito de regras que engendram sentenças e determina a combinação entre a forma sonora e a interpretação semântica. É justamente esse sistema de regras que o falante autóctone internaliza e que permite a ele não só criar e compreender orações novas, mas também inferir se uma sentença encontra-se bem ou mal estruturada. (Ver, BORBA, 1979:24) Gramaticalidade, portanto, é mais abstrata, já aceitabilidade é mais objetiva e concreta, porque diz respeito apenas às frases perfeitamente naturais, compreensíveis. Podemos afirmar que toda frase agramatical é inaceitável, todavia nem toda frase inaceitável é agramatical. 5. Marcadores de frase (Indicadores sintagmáticos)10 Os marcadores de frase formam um esquema estrutural que subentende- se a qualquer sentença realizada. Os indicadores sintagmáticos são conseguidos pela análise em componentes imediatos e são representados por gráficos, normalmente os diagramas em árvore. “O rato roeu a roupa do rei de Roma” 1. O 2. O SN + SV 3. SN Det + N 4. SV Vt + SN2 5. SN2 Det + N + SP 6. SP prep + SN3 7. SN3 Det + N + SP2 8. Sprep2 prep + N Outros exemplos: 1) “A aranha engoliu a mosca” 10 Phrase marker F = frase SN = sintagma nominal SV = sintagma verbal SP = sintagma preposicional Det = determinante Mod = modificador Quant = quantificador Cóp = cópula V= verbo = se reescreve 1) O 2) O SN + SV 3. SN det + N 4. SV Vt + SN2 5. SN2 det + N 2) “ A casa não caiu” 1. O 2. O SN + SV 3. SN det + N 4. SV Vi + mod 3) “Meu irmão precisou muito de mim” 1. O 2. O SN + SV 3. SN det + N 4. SV Vt + Sp + mod 5. SP prep + N 4) “Quebraram o vidro da janela” 1. O 2. O SN + SV 3. SN 4. SV Vt + SN2 5. SN2 det + N + SP 6. SP prep + SN3 7. SN3 det + N 5) “A casa e o carro foram vendidos pelo corretor” 1) O 2) O SN1+cóp+SN +SV 3) SN1det+N 4) SN2det+N 5) SV Vi+SP 6) SP prep+SN3 7) SN3 det+N Exemplos de diagrama arborescente (diagramas arbóreos) ou árvore genealógica da oração. Cada um dos pontos marcados por um símbolo ou uma palavra no diagrama constitui um NÓDULO DA ÁRVORE. O nódulo mais alto, representado pelo símbolo O, corresponde à raiz da árvore; as linhas que ligam os nódulos uns aos outros são OS RAMOS. Dizemos que um nódulo DOMINA outro quando o primeiro fica no caminho mais curto que liga o segundo à raiz, ou quando o primeiro corresponde à própria raiz. a) O fumo é extremamente prejudicial à saúde. O SN SV cóp. SA intens. adj. SP pre. SN Det. N Det. N O fumo é extremamente prejudicial à saúde b) Os alunos desta turma ofereceram um jantar ao diretor. O SN SV det N Mod V SN SP SP Prep SN det. N prep. SN Det N det N Os alunos desta turma ofereceram um jantar a o diretor Exercício Analise sintaticamente os enunciados abaixo, aplicando a fórmula estrutural O=S+P e depois faça a análise em diagrama arbóreo. 1) Aquela garota tem habilidade para a pintura. 2) Eu moro longe da escola. 3) Demonstraram confiança em nós. 4) O comerciante passou um cheque sem fundos. 5) O gerente do banco precisará de algumas informações. 6) A cidadezinha era pequena e antiga. 7) Notei o diretor na platéia. 8) Depois do intervalo encontramos a sala suja de papel picado. 9) Esta comida não serve para consumo humano. 10) Assisto em Manaus desde 1966. 11) Fê-las com carinho. 12) Anunciamos o fim do mundo. 13) Havia lixo na praça inteira. 14) Os bebês são deixados pelas cegonhas nas soleiras das portas. 15) Já era quase noite. 16) A crítica ao jornal revoltou os clientes. 17) A crítica do jornal revoltou os leitores. 18) Converse com seus filhos sobre assuntos polêmicos. 19) Encontro-a às dez, na Praça da Independência, em frente às Lojas Associadas. 20) Você e seus amigos vão querer repetir? 21) A morte do cliente não impede que o médico cobre a conta. 22) É certo que ele trará os refrigerantes para o almoço. 23) A instrutora espera que você se esforce. 24) O professor lembrou-se de que não havia feito a chamada. 25) O problema é que todos me ouviram, mas ninguém me compreendeu. 26) A aluna está convencida de que sua atuação foi péssima. 27) Eu lhe disse apenas isto: que não se aborrecesse com ele. 28) A criança, que é ingênua, deve ser bem orientada. 29) A casa onde eles moram é antiga. 30) Se ele treinasse, poderia ser campeão. AS TEORIAS LINGÜÍSTICAS DE CHOMSKY As suas teorias lingüísticas propriamente ditas, tal como foram apresentadas no seu primeiro livro, Estruturas sintáticas (1957), e desenvolvidas nos seus Aspectos da Teoria da Sintaxe (1965), são suficientemente formais, apoiadas em regras matematizadas e indiferentes a idiossincrasias e intenções individuais para satisfazer os estruturalistas franceses mais exigentes. VERSÕES DIFERENTES DA GRAMÁTICA TRANSFORMACIONAL – SUCESSIVOS MODELOS As teorias lingüísticas de Chomsky sofreram muitas alterações desde que foram apresentadas pela primeira vez, causando nessa altura uma “ revolução na lingüística”. Diz-se por vezes que estão em grande ebulição. Isso não o incomoda: “uma ciênciaimatura, argumenta ele, tem inevitavelmente ritmos de mudança acelerado, mesmo nos seus princípios mais gerais“. 1. A TEORIA CLÁSSICA ( apresentada no seu primeiro livro Estruturas sintáticas - 1957) - Nesse modelo, a gramática de uma língua é concebida como um mecanismo destinado a especificar as orações gramaticais da língua e associar descrições estruturais a cada uma delas.Ou seja, caberia a gramática distinguir as seqüências que são orações de uma língua das que não o são e especificar, em relação às primeiras, todas as informações gramaticais que um falante utiliza para produzi-las e entendê-las. 2. A TEORIA PADRÃO - a aplicação do primeiro modelo chomskyano à descrição de diversas línguas naturais logo revelou a necessidade de profundas reformulações na Teoria proposta em Estruturas Sintáticas. Aos poucos, essas reformulações foram assumindo tal vulto, que deram origem a um novo modelo: Teoria Padrão da gramática transformacional Na Teoria Padrão, uma língua é encarada como “ um conjunto de orações, cada uma das quais com uma forma fonética ideal e uma interpretação semântica intrínseca associada”. A gramática de uma língua, por sua vez, é vista como “ o sistema de regras que especifica a correspondência de forma fonética e significado nessa língua”. A gramática continua a ser um mecanismo que especifica um conjunto infinito de descrições estruturais, um sistema de regras que, de alguma forma explícita e bem-definida, associa descrições estruturais às orações. Entretanto, as descrições estruturais assumem nova feição, servindo para determinar a forma fonética e o significado das orações e relacionar aquela a este. 3. A SEMÂNTICA GERATIVA A semântica gerativa é uma importante corrente transformacionalista que vem seguindo uma orientação profundamente divergente da adotada por Chomsky. Questionou-se fundamentalmente a centralidade e autonomia da sintaxe. Acreditavam os defensores da semântica gerativa que o componente central da gramática era a semântica e que a sintaxe cabia apenas o papel de relacionar as representações semânticas às estruturas superficiais. 4. A GRAMÁTICA DOS CASOS No modelo da teoria padrão, as relações gramaticais básicas são definidas no nível de estrutura profunda. Esse ponto de vista foi rejeitado por Ross, Lakoff e Filmore (1966) que passaram a defender a tese de que as noções como sujeito e objeto direto não são funções da estrutura profunda, devendo-se reconhecer,no referido nível, funções de natureza inteiramente diferente; valores semânticos, ou “casos”, como agente, instrumento, origem, lugar e tempo. Teríamos assim, na estrutura profunda um conjunto de ‘casos”, razão pela qual a teoria desenvolvida pelo autor tornou-se conhecida como GRAMÁTICA DOS CASOS. 5. A TEORIA PADRÃO AMPLIADA Reagindo contra a semântica gerativa e a gramática dos casos Chomsky elaborou novo modelo transformacional, a chamada TEORIA PADRÃO AMPLIADA, esboçada nos trabalhos que vieram a constituir os capítulos 4 e 5 da segunda edição norte-americana de A Linguagem e a Mente ( 1972) e desenvolvida nos três trabalhos reunidos na obra Estudos da Semântica na Gramática gerativa, publicada no mesmo ano. Na convicção de que bastariam alguns reajustamentos para tornar adequado o modelo da teoria padrão, opôs-se Chomsky ás modificações radicais do referido modelo, propostas por diversos transformacionalistas, mantendo as teses fundamentais da teoria padrão em relação à independência da sintaxe, à natureza interpretativa da semântica e à existência de um nível independente de estrutura profunda. Reconheceu, entretanto, Chomsky que não mais era possível sustentar a Hipótese de Katz e Postal, impondo-se a conclusão de certos aspectos do significado são determinados pela estrutura superficial e talvez por outros níveis. Paralelamente à redução do papel da estrutura profunda na interpretação semântica,propôs Chomsky as seguintes inovações: a) o desdobramento da estrutura superficial em dois níveis – estrutura superficial sintática e estrutura superficial fonológica – interligadas por regras de reajustamento; b) o abandono da distinção entre categorias lexicais e traços, passando todos os símbolos da gramática a ser encarados como conjuntos de traços ( de modo que símbolos como SN e SV são agora considerados formas abreviadas de matrizes de traços; c) a adoção de novo enfoque da relação entre palavras cognatas, em termos da Hipótese LEXICALISTA, segundo a qual, grosso modo, as transformações não realizam operações de derivações morfológicas; d) a formulação de uma nova teoria das categorias sintáticas – A TEORIA DA BARRA X – para representar sistematicamente as semelhanças e diferenças entre as referidas categorias. A gramática de uma língua continuou a ser definida como um sistema de regras que expressa a correspondência entre forma fonética e significado na referida língua. Reconheceu Chomsky que muitos problemas continuavam sem solução na área da semântica, não tendo ainda sido possível formular uma teoria razoavelmente concreta ou bem definida de representação semântica. Ao propor o modelo da teoria padrão ampliada, partiu o autor do pressuposto de que seria possível, algum dia, elaborar um sistema de representação semântica, que viria completar o esquema necessário para caracterizar uma gramática em termos da maneira pela qual o sentido inerente de uma oração se relaciona com diversos aspectos da forma fonética da mesma. 6. A TEORIA PADRÃO AMPLIADA E REVISTA Em seus trabalhos mais recentes – “ condições de Aplicação das Transformações “ (1973), “Reflexões sobre a Linguagem” ( 1975), Questões de Forma e Interpretação (1975), ‘ Condições das regras Gramaticais’ (1976) e “ Filtros e Controle’ ( 1977) – Chomsky continua a usar a denominação TEORIA PADRÃO AMPLIADA para designar seu modelo transformacional, mas, em face do alcance das inovações introduzidas nas referidas obras, parece-nos que se impõe a adoção de novo termo para caracterizar a atual orientação do fundador da gramática transformacional : TEORIA PADRÃO AMPLIADA REVISTA. As principais inovações do novo modelo chomskyano podem ser assim resumidas: a) a adoção de diversos mecanismos destinados a restringir as opções admissíveis na gramática transformacional; b) a adoção da tese de que a estrutura superficial é a base exclusiva da interpretação semântica; c) A extensão do modelo chomskyano para além dos limites da “ gramática da oração”, mediante a aplicação de novas regras de interpretação semântica; d) A ampliação do conceito de representação semântica; e) O deslocamento do processo de inserção lexical para a estrutura superficial; AS OUTRAS TEORIAS Existem outras teorias dissidentes da gramática gerativa: por exemplo a gramática lexical funcional, desenvolvida por Joan Bresnan e Ronald Kaplan que elimina as transformações sintáticas e considera as funções (sujeito, complemento...) como noções primitivas definidas independentemente do seu lugar na frase nesta ou naquela língua. A gramática lexical funcional participa numa corrente mais vasta de lingüística informática, a das gramáticas de unificação, que a partir dos anos 80, recorrem maciçamente à lógica e à inteligência artificial. Essa gramática leva à interpretação íntima da sintaxe, do léxico e da semântica, que o recurso à informática tornou necessário. INFLUÊNCIA EM OUTRAS CIÊNCIAS Chomsky viu a função do lingüista de forma diferente da de seus predecessores. Sua visão de geração gramatical baseava-se na noção de um autômato - uma máquina em um sentido abstrato simplesmente gera cadeias lingüísticas com bases em regras que foram embutidas(programadas) dentro dele. Embora não sendo tão certa sua contribuição para as ciências cognitivas com um todo, suas demonstrações da precisão matemática implícita na linguagem, sua modelação da importância da pesquisa guiada pela teoria e seus fortes argumentos a favor do mentalismo, do nativismo e da modularidade, tornam o seu trabalho insubstituível. A psicolingüística teve uma grande influência de Chomsky. Nas últimas décadas a psicolingüística se tornou uma importante área de investigação, que abrange estudos da linguagem em crianças, de distúrbios da linguagem após situações de lesão cerebral, e do uso da linguagem em populações excepcionais como por exemplo a dos surdos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEREDO, José Carlos de. Fundamentos de gramática do português. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2002. BASILIO, Margarida. Teoria lexical. 4.ª ed. São Paulo: Ática, 1995. BORBA, Francisco S. Fundamentos de gramática gerativa do português. Petrópolis: vozes, 1981. . 2ª ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1976. CABRAL, Leonor Scliar. Introdução à lingüística. 7ª ed. Rio de Janeiro: Globo:1988. CAMARA JR, J. Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. 20.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991 _____________, Princípios de lingüística geral. 7.ª ed. Rio de Janeiro: Padrão - Livraria e Editora Ltda, 1989. CHOMSKY, NOAM. Reflexões sobre a linguagem (1928). Tradução de Carlos Vogt... ( et al.). São Paulo:Cultrix, 1980. CUNHA, Celso e CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. DUBOIS, Jean e outros. Dicionário de lingüística. 4.ª ed. São Paulo: Cultrix, 1991. LEMLE, Mirian. Análise sintática: teoria geral e descrição do português. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1989. LOPES, Edward. Fundamentos da lingüística contemporânea. 14ª ed. São Paulo: Cultrix, 1995. MARTINET, André. A lingüística sincrônica: estudos e pesquisas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1971. MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Ana Chirstina (org) Introdução à lingüística: domínios e fronteira. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2001. PERINI, Mário A. Gramática descritiva do português. 4ª ed. São Paulo: Ática, 2002. ______, A gramática gerativa: introdução ao estudo da sintaxe portuguesa. 2ª ed. Belo Horizonte: editora Vigília, 1985. RUWET, Nicolas; CHOMSKY, Noam. A gramática generativa. Lisboa: Edições 70, 1980. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 19.ª ed. São Paulo: Cultrix, 1996. SOUSA e SILVA, M. Cecília P. de e KOCH, Ingedore Villaça. Lingüística aplicada ao português: sintaxe. 3.ª ed. São Paulo: Cortez, 1989. SAUTCHUK, Inês. Prática de morfossintaxe: como e por que aprender análise (morfo) sintática. Barueri, SP: Manole, 2004. SILVA, Carly. Gramática transformacional: uma visão global. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. 1978.