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O BRASIL E AS OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ DAS NAÇÕES UNIDAS

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preciso separar os objetivos de uma Força de Paz, que
obedece a mandato político do CSNU, por vezes contrário a uma das
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 ACNUR, (1998), doc. A Situação dos Refugiados no Mundo 1997-98 contém dados
estatísticos atualizados nas pp. 295-304.
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93
 Nações Unidas, (1998), doc. S/1998/883, parágrafo 24.
94
 Nações Unidas, (1998), doc. S/PRST/1998/30.
partes, dos de uma missão humanitária, voltada para a prestação de
assistência à população civil, de forma neutra, independentemente do
posicionamento de qualquer órgão político das Nações Unidas sobre
o conflito. Essas preocupações estão refletidas no relatório do
Secretário-Geral da ONU sobre a “Proteção da Assistência Humanitária
a Refugiados e outros em Situações de Conflito”, divulgado em 22/9/
98. No relatório, o SGNU observa que “... humanitarian
organizations have been concerned that the use of the military for
humanitarian activities, particularly in the context of Chapter VII
operations, compromises their impartiality and neutrality, affects
their ability to assist victims on all sides of the conflict and, at
times, even leads to increased violence against United Nations
and other humanitarian personnel.”93.
Os órgãos da ONU vêm produzindo um grande número de
debates, resoluções, relatórios e recomendações sobre o assunto, a
exemplo da declaração presidencial adotada pelo CSNU, em 29/9/
98, em seguimento ao debate ocorrido naquele foro sobre o tema da
“proteção aos integrantes das entidades prestadoras de assistência
humanitária”94, mas, na prática, os resultados têm-se mantido muito
aquém do esperado, dada a complexidade do tema. Os registros do
ACNUR mostram que cerca de 150 funcionários da ONU foram
assassinados no período 1992-98 e que outros 50 se encontravam
detidos ou desaparecidos em abril de 1998. O Alto Comissário Adjunto
das Nações Unidas para Refugiados, Gerald Walzer, salientou no
Comitê Permanente da Organização do ACNUR, em abril de 1998,
que era lamentável o fato de que pessoal humanitário, que assiste
pessoas em necessidade, seja alvo deliberado de assassinatos,
seqüestros e outras formas de violência.
Espera-se que a experiência reunida nos últimos anos contribua
para definir rotinas capazes de aumentar a cooperação entre os
OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ MULTIDISCIPLINARES 133
integrantes das operações de manutenção da paz e o pessoal das
entidades não-governamentais. É significativo, a esse respeito, que as
delegações do DPKO que participaram do Terceiro Seminário das
Nações Unidas para Equipes de Assistência e Treinamento, realizado
em Itaipava, de 3 a 7/3/97, e do exercício “Forças Unidas 97”,
realizado no Rio de Janeiro, de 20 a 29/8/97, tivessem, entre seus
integrantes, especialistas no tratamento com ONGs, para enriquecer o
debate e mostrar as dificuldades de coordenação existentes.
RETROSPECTIVA DAS OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ
DAS NAÇÕES UNIDAS DE 1988 A 1999
Levantamento sucinto das operações criadas de 1988 a 1999
demonstra a diversidade das funções que passaram a ser exercidas,
assim como a extensão do envolvimento da ONU. No total foram 39
missões de paz, cujos componentes envolveram, em grau diferentes,
civis, policiais e militares: 16 na África, 7 na América Central e Caribe,
8 na Ásia e 8 na Europa.
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TABELA Nº 4
OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ DAS NAÇÕES UNIDAS
DE 1988 A 1999
OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ MULTIDISCIPLINARES 135
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OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ MULTIDISCIPLINARES 137
 ¹ É importante atentar para o fato de que as missões de paz na Namíbia (UNTAG) e na fronteira
Irã-Iraque (UNIIMOG) foram criadas por resoluções aprovadas em 1978 e 1987, respectivamente.
No entanto, as circunstâncias políticas só permitiram o desdobramento dessas operações a
partir de 1988.
² A MINUGUA é uma missão híbrida, atuou como missão civil e como operção de
manutenção da paz. Mais precisamente, a missão foi transformada em operação de
manutenção da paz, de janeiro a maio de 1997, para supervisionar o processo de
desmobilização dos combatentes na Guatemala.
³ As Nações Unidas não consideram a UNAMET uma operação de manutenção da paz
para atender a solicitação do Governo indonésio.
Fonte: publicação The Blue Helmets das Nações Unidas, boletins de atualização do
DPKO e MRE.
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O CSNU reavaliou o uso das operações de paz a partir de
1994, verificando-se certo esgotamento da ânsia em fazer proliferar
essas iniciativas, em decorrência seja de seus altos custos — o
orçamento geral chegou a US$ 3,6 bilhões em 1994, cerca de três
vezes o valor anual do orçamento regular —, seja, em diversos casos,
de seus resultados questionáveis. A reavaliação por parte do CSNU
da utilidade da criação de novas operações de manutenção da paz
decorreu da concorrência de diversos fatores. De um lado, os
acontecimentos na Somália, em Ruanda e na antiga Iugoslávia tinham
repercutido negativamente junto à opinião pública e aos círculos
políticos e governamentais dos Estados Unidos95, da França e do
Reino Unido. Ademais, a China mantinha sua tradicional postura
discreta na matéria e a Rússia centrava suas preocupações em
assegurar, especialmente, a legitimação do envolvimento das tropas
da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) no seu entorno,
algo que logrou em 1994, com o endosso dado pelo CSNU à presença
das tropas da CEI na Geórgia e no Tadjiquistão, mas sem o aporte
95
 Manual Joint Task Force Commander’s Handbook for Peace Operations dos EUA,
(1995), p. 1 e Anexo A. No caso dos EUA, o Governo “fez circular”, em fevereiro de
1993, o texto de uma possível Presidential Draft Directive 13 (PDD—13), que regularia
a participação de militares estadunidenses em operações de paz da ONU. Essa diretriz
presidencial, que acabou não sendo assinada, determinava que os EUA não poderiam
comprometer suas tropas, a menos que houvesse: “...a clear and present danger to
international security, a demonstrable threat to US interests, and sufficient domestic
support for the operation”. Posteriormente, com os eventos ocorridos na Somália —
onde 18 militares norte-americanos perderam a vida e 75 ficaram feridos em outubro de
1993, de acordo com os dados divulgados pelo Secretário-Geral da ONU no seu relatório
S/26738, parágrafos 70 a 74 —, na Bósnia-Herzegovina e em Ruanda, o Presidente
Clinton emitiu, em 1994, a Presidential Decision Directive 25 (PPD-25-The Clinton
Administration’s Policy on Reforming Multilateral Peace Operations), que, além de
incorporar as condicionalidades assinaladas em 1993, impunha outros requisitos, dentre
os quais “... that the UN mandate be extremely clear, that the disputants agree in advance
to a cessation of hostilities, and that the duration of the mission would be known in
advance “. No entanto, o Congresso, após as eleições de 1994, impôs ao Executivo a
obrigação de obter a anuência prévia do Legislativo antes de apoiar, no CSNU, a criação
de uma nova operação. O Congresso entendia que devia ser ouvido antes de os EUA
assumirem qualquer compromisso, pois a manifestação favorável do governo significava
o pagamento de contribuições adicionais . O prazo de reação do Legislativo é de 15 dias.
OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ MULTIDISCIPLINARES 139
financeiro almejado96. Esse retraimento da presença das Nações
Unidas em certos conflitos, levou a que somente em 1998 fossem
estabelecidas duas novas operações de manutenção da paz — uma
Força de Paz (MINURCA, em abril, para atuar na República Centro-
Africana) e uma Missão de Observação (UNOMSIL, em julho, em
Serra Leoa) — e três outras em 1999 — duas Missões de
Observação (UNAMET, em junho, em Timor Leste; e MONUC,
em agosto, na República Democrática do Congo) e uma Missão de
Administração Interina (UNMIK, em junho,