Logo Passei Direto
Buscar

Material sobre variação diatópica e diastrática da língua portuguesa. Traz definições, explicação das causas históricas e geográficas, exemplos lexicais e fonéticos (comparações Brasil–Portugal) e uma lista de variantes regionais brasileiras com palavras e suas regiões.

User badge image
Flavio Loss

em

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Continuando a falar sobre a variação Diatópica (variação geográfica) venho mostrar e falar um pouco mais sobre esse tipo de variação. Morei a aproximadamente um ano em Maceió alagoas e lá percebi um grande numero de palavras de significados totalmente diferente do nosso falar carioca primeiro entenderemos um pouco mais sobre :
Variação Diatópica - É o que neste trabalho iremos abordar.
Mas o que seria a variação diatópica? Na verdade trata-se de uma diversidade linguística regional ou geográfica, apresentadas por pessoas de diferentes regiões que falam a mesma língua. As variações diatópicas são responsáveis pelos regionalismos ou falares locais. Esses falares representam os costumes e a cultura de cada região.
A título de exemplificação, podemos citar as diferenças do português falado no Brasil para o português falado em Portugal.
Tele móvel – Portugal
Celular – Brasil
Estas são as designações utilizadas pelos falantes dos dois países para representar um aparelho de comunicação cuja designação técnica é Telefone Celulares.
No Brasil, falantes do Sudeste do país usam variantes distintas dos falantes da região Sul.
Bergamota ou Vergamota – Florianópolis e região sul em geral
Mexerica – Minas Gerais
Os dois termos designam a mesma coisa, uma fruta cítrica de cor alaranjada e sabor adocicado, conhecida como tangerina.
Estas diferenças normalmente são encontradas no campo lexical e fonético e toda esta variação (no Brasil) é decorrente das influências que cada região sofreu durante o processo de colonização do país, adicionados as importações lexicais de outras línguas.
Aqui segue alguns exemplo dos variantes:
FEXOSO/FECHOSO(AL): Pessoa que é bonita, linda seja nas vestimentas ou na beleza.
TABACUDO(PE): Pessoa que não tem entendimento
BARROADA(PI): Atropelamento.
MARMITEX(SP): Quentinha
MINA(RJ): Namorada
MACAXEIRA(PI): Aipim
Embora todos sejamos falantes da mesma língua, cada região do nosso país possui característica próprias que resultam em sua cultura e apresentam diversidades: variantes lexicais nos falares brasileiros. Sendo assim, uma palavra pode ser usada de diversos modos, assim como possui conotação diferentes, dependendo da região em que ela está sendo utilizada.
2 comentários: 
Anônimo disse...
Tinha q ter Mais
19 de abril de 2012 14:17
Anônimo disse...
tu eh doido ou cheira peido
31 de agosto de 2012 06:57
Anônimo disse...
Tinha q ter Mais
19 de abril de 2012 14:17
Anônimo disse...
tu eh doido ou cheira peido
31 de agosto de 2012 06:57
Postar um comentário
Postagem mais antiga Início
Blog Archive
▼ 2009(4)
http://letraacao.blogspot.com.br/2009/11/variacao-diatopica.html
Data de acesso 17/09/2012 às 08:48h
Variações Diatópicas E Diastráticas
[pic]
SISTEMA DE ENSINO PRESENCIAL CONECTADO
ADMINISTRAÇÃO
Variações diatópicas e diastráticas
Porto Velho
2010
Variações diatópicas e diastráticas
Introdução
Na Língua Portuguesa existem inúmeras variações linguísticas, pois a maneira de falarmos pode variar de acordo com a região em que nascemos ou nos criamos. Um legume pode ser conhecido por diveros nomes nas diferentes regiões do Brasil, assim como a forma de se expressar que pode significar a mesma coisa mas ser dita de maneiras diferentes nas regiões norte e sul do país.
Também encontramos variações na comunicação quando se trata de diferenciação de classes sociais, ou de grupos sociais. Pessoas mais velhas geralmente falam com mais formalidade do que pessoas mais novas, mesmo querendo expor o mesmo pensamento.
Para essa complexidade da Língua Portuguesa damos os nomes de Variações Diatópicas e Variações Diastráticas.
Variações Diatópicas e Diastráticas
Variação diatópica é o mesmo que variação geolingüística ou dialectal, ou seja, a variação que a realização da língua apresenta em função de regiões aonde são faladas. Neste contexto podemos dizer que temos dialetos falados em cada região do Brasil.
Peguemos como exemplo o modo de falar do sulista e do nordestino, que para a o mesmo brinquedo dá-se nomes diferentes como a pipa e o papagaio, ou para o legume macaxeira, ou mandioca, ou até mesmo o aipim.
A variação diatópica caracteriza as regiões em que nascemos, como o chiado do carioca, o “R” puxado do paulista, entre outros.
A imagem abaixo ilustra um caso de variação diatópica, aonde o personagem do campo fala de uma forma totalmente diferente do personagem da cidade:
[pic]
A variação diastrática, ou social, como é conhecida, refere-se às diferenças entre as camadas socioculturais, ou seja, são variações que acontecem de um grupo social para o outro. Relaciona-se com um conjunto de fatores que tem a ver com a... 
Consultar Trabalho Completo
Enviado por: camysilva
Enviado em: 18/05/2011 09:25 PM
Categoria: Português e Linguagem
Palavras: 498
Páginas: 2
Consultas: 1017
Classificação pela Popularidade: 13833
Denunciar este Trabalho
Salvar este Trabalho
Consultar Trabalho Completo
Trabalhos Relacionados
Variações LinguísticAs: As...
Variações Diatópicas e...
Variação Diatópica e...
Variações Linguisticas...
Variação Linguística...
Variações Linguísticas
Variações Linguisticas
Variações Linguisticas
Comunicação e Linguagem
Todos
Comunicação e Linguagem
Portifolio Comunicação e...
Comunicação e Linguagem
Preconceito Linguístico
Principios Basicos Do...
Variantes Linguisticas
Funcomunicaçao e Linguagem
Variações Linguiticas
Variações Linguisticas
Pedagogia Dos surDos
Comunicação e Linguagem
Trabalho De Comunicação e...
Sociologia
Sociologia
Variaçoes Linguisticas
Papel Do Adm Na Promoção...
Variantes Linguisticas
Relativizando
Leitura e Produção De Textos
Variação Linguística x...
Revisões (0) 
Nota
Sem Notas 
Seja o primeiro a avaliar o trabalho! 
Entre para dar uma nota a este documento. 
RSS ©2012 TrabalhosFeitos.com
Ajuda
Sobre Nós
Perguntas Frequentes
Contate-nos
Estatísticas do Site
Maiores Doadores
Top Visitantes
Temas Populares
Membros Mais Recentes
Trabalhos Recentes
Legal
Termos de Serviço
Politica de Privacidade
Nota de DIreitos Autorais
Mapa do Site
Anuncie conosco
< div style="display: none;"><img src="//pixel.quantserve.com/pixel/p-test123.gif" height="1" width="1" alt="Quantcast" /></div> <fieldset> <img src="http://b.scorecardresearch.com/p?c1=2&c2=8909260&cv=2.0&cj=1" alt='' /> </fieldset> 
http://www.trabalhosfeitos.com/ensaios/Varia%C3%A7%C3%B5es-Diat%C3%B3picas-e-Diastr%C3%A1ticas/30987.html
Data de acesso: 17/09/2012 às 09:03h
3.1Variaçãodiatópica
Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo
idioleto
, que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou
Geolingüística,
relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a
Dialetologia.
A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenkere pe-
153
los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas
isoglos-sas
que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes
relâmpago
,
raio
,
corisco
e
aísca
em dierentesáreas de Minas Gerais.
154
Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil.
155
Um outro conceito dialetológico importante é o de
línguafranca
ou
línguageral
, que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou
nheengatu
, ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia.
156
Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora
empréstimos
de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc.
157
Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português.
Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty.
158
Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática.
3.2Variaçãodiastrática
Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou
socioletos
. Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o português do Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social, nível educacional, etc., independentemente da localiza-
159
ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes:
1
Idade–
As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguageminantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção
3.4.
ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias:
(1)
velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional;
162
O filho por dentro e o pai por fora
4
posiçãosocial–
O
status
dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade.
5
graudeescolaridade–
A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão.
164
choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte
de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é:
Waritxòre helykyna waribi rurure
“Meu segundo flho morreu de mim”
Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2:
Waxiwedena hitxirarutòròhòky
“Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia”
166
Um outro componente do ibru é o levantamento das perturbações emo-cionais decorrentes da morte do ente querido. O alecimento da criançaconstitui um evento que aeta não só a mãe, como o pai, os tios e outrosparentes próximos. Além de inventariar a vida do morto e a dor de seusparentes o ibru ainda cumpre uma terceira unção que é a de estabeleceras razões da morte, que para os Karajá quase sempre pode ser atribuídaa atuações sobrenaturais.Assim, o choro ritual Karajá, ao contrário do choro Xavante, que éexlusivamente musical (Graham (1995)), apresenta uma seqüência deenunciados organizados em estruturas ritmicas paralelas. O contornoentonacional de cada “estroe” parece descrever uma curva ascendentecom vários picos intermediários, sendo o rerão regularmente enuncia-do em um tom nitidamente descendente, o que separa melodicamenteas “estroes”. Conorme nota Urban (1988), o paralelismo de tais estru-turas é indicador do que Jakobson (1960) denomina de unção poéticada linguagem, pela qual a orma da mensagem atrai atencão sobre simesma. Segundo Urban, esta unção poética ou musical do choro ritualé um traço undamental desta prática, que ao atrair a atenção do ouvin-te por sua orma melódica uncionaria como um meta-sinal.
3.3Variaçãosituacional
Um mesmo alante de uma dada
3.1Variaçãodiatópica
Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,taiscomo, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo
idioleto
, que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou
Geolingüística,
relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a
Dialetologia.
A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe-
153
los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas
isoglos-sas
que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes
relâmpago
,
raio
,
corisco
e
aísca
em dierentesáreas de Minas Gerais.
154
Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil.
155
Um outro conceito dialetológico importante é o de
línguafranca
ou
línguageral
, que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou
nheengatu
, ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia.
156
Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora
empréstimos
de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc.
157
Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português.
Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty.
158
Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática.
3.2Variaçãodiastrática
Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou
socioletos
. Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o português do Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social,nível educacional, etc., independentemente da localiza-
159
ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes:
1
Idade–
As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguagem inantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção
3.4.
ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias:
(1)
velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional;
160
(2)
adultos (± 20 a 45 anos), que têm domínio ativo do dialeto, mas outilizam com maior regularidade apenas nos contatos com os maisvelhos. Nas comunicações entre si, os componentes deste segmentoparecem selecionar o código a ser utilizado em unção de variáveistemáticas e contextuais. Como os mais velhos, dirigem-se aos ado-lescentes e crianças apenas em português;
(3)
adolescentes (± 15 a 20 anos), que têm somente domínio passivo doKarajá, compreendendo, com graus variados de habilidade, a línguaoriginal do grupo, mas não sendo capaz de expressar-se com uên-cia. Este estrato parece ter consciência de que é possível e desejávelampliar o seu conhecimento do Xambioá, acreditando por exemplo,que um período de alguns meses em alguma aldeia Karajá da Ilhado Bananal seria sufciente para torná-los usuários mais ativos doidioma;
(4)
crianças (± 5 a 15 anos), que não compreendem a língua do grupo,tendo seu conhecimento restrito a vocábulos isolados. Este grupoparece superestimar os valores da sociedade envolvente em prejuízoda língua e da cultura indígenas. Vários meninos e meninas entre-vistados afrmaram não querer aprender a "gíria" porque esta é eia,diícil, engraçada.A situação de perda da língua aqui exemplifcada indica claramente quecada vez mais as novas geracões de alantes tendem a deixar de utilizara sua língua nativa ao longo de sua vida. Nota-se, assim, uma progres-siva desvalorização da língua materna enquanto instrumento útil paraos objetivos dos membros da comunidade.
2
Sexo–
Apesar da homogeneidade cada vez maior entre os papéis so-ciais desempenhados pelo homem e pela mulher nas grandes cidades,em muitas culturas, as dierenças de gênero costumam estar associa-das, em maior ou menor grau, a dierenças lingüísticas, sobretudono que tange ao vocabulário. Nas sociedades indígenas, podem ocor-rer dierenças ormais bastante marcadas entre a ala do homem e aala da mulher.
161
Na língua Karajá, registram-se dierenças sistemáticas entre a ala mas-culina e a eminina, tanto no plano da pronúncia, quanto no plano doléxico. A dierença mais reqüente é a ocorrência do som [k] na alaeminina:
Falamasculina

Falafeminina

Português
tainatakina“estrela”wylabiewylabike“avô” biubiku“céu” 
Entre várias outras regras, destaca-se a inserção da africada [t

] (ortografadacomo tx) na fala feminina:
Falamasculina

Falafeminina

Português
wariorewaritxore“minhacriança” rariareriraritxareri“passeando” 
Além de dierenças na pronúncia, registram-se vocábulos usados paraindicar enômenos tipicamente masculinos ou emininos. Por exemplo,o verbo
chorar
que em português pode aplicar-se tanto em relação ahomens como em relação a mulheres, encontra ormas dierenciadas emKarajá. A raiz
–bu-
aplica-se ao choro eminino, enquanto que a raiz
–hina-
aplica-se ao choro masculino:
(a)kuahaburahinyreri(b)kuahawyyrobureriaquelehomemestáchorandoaquelamulherestáchorando
3
Profissão–
As atividades profssionais, geralmente, têm seu vocabu-lário técnico específco, dominado por seus praticantes. Essas carac-terísticas, geralmente lexicais, específcas dos grupos sócio-profssio-nais recebem a denominação de jargão. Por exemplo: jargão médico,dos rádio-amadores, dos carpinteiros, etc. De caráter não técnico e,por vezes, carregada de conteúdo emocional, distingue-se, a gíria,vocabulário expressivo, utilizado por um grupo social a fm de sedierenciar dos demais.
162
O filho por dentro e o pai por fora
4
posiçãosocial–
O
status
dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade.
5
graudeescolaridade–
A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão.
163
6
localderesidência–
Áreas dentro de uma mesma cidade, ou bairros,podem desenvolver seu uso próprio da linguagem, fcando seus mem-bros caracterizados por certas escolhas vocabulares, certas expres-sões, gírias típicas, etc. Além desses atores, há vários outros papéissociais que podem variar de sociedade para sociedade e que, entreoutros emblemas, podem estar associados a marcadores lingüísticos.É comum, por exemplo, nas sociedades indígenas, distinguirem-segêneros de ala relacionados a dierentes atividades sociais, políticase religiosas, tais como, por exemplo, as alas dos chees, dos pajés,das mulheres, etc. Abaixo, exemplifcamos com um gênero conheci-do como o
choro ritual
, conorme praticado entre os Karajá.
Ibru:ochororitualKarajá
Os rituais de lamentação parecem estar presentes nos ritos únebres detodos os povos, assumindo dierentes ormas e com dierentes objetivos.Entre os egípcios, como notam Chevalier e Gheerbrant, parecem terobjetivos de conjuração e súplica: apelos aos deuses para protegerem aviagem da barca sagrada, para assegurar a ressurreição bem-aventura-da, para exaltar os méritos de um deunto, seja através de parentes domorto, seja através de carpideiras profssionais. Também entre os povosnórdicos, constituem as lamentações parte importante da cerimônia douneral, que se desenrolava em diversas etapas: jogos únebres, lamen-tação, sepultamento, com ou sem a construção de ícones tumulares.Como notam ainda Chevalier e Gheerbrant, o simbolismo da lamenta-ção entre os povos nórdicos não é óbvio: não é certo que se trate uni-camente de maniestações de tristeza diante da morte. Pensa-se, antes,neste mundo cultural nórdico, como também nas cosmologias de povosaricanos, numa conjuração ou objurgação eita ao morto, para quenão volte para junto dos vivos.No que se reere aos povos ameríndios do Brasil,Urban (1988) analisao complexo do choro ritual no Brasil central como um veículo de signi-fcação que se realiza em dois planos: a expressão explícita da emoçãocausada pela dor da separação ou perda e a expressão implícita do dese-jo de sociabilidade. Neste sentido, a semiótica do choro ritual revelariaum acoplamento de unções, em que a emoção de tristeza atuaria sobreoutra emoção, o desejo de aceitacão social. Graham (1995) nota queentre os Xavante o choro de uma pessoa pode estimular outras à mesmaprática, também indicando a unção social do choro. Graham relataque ao ouvir seu neto chorar, uma avó Xavante iniciou seu próprio
164
choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte
de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é:
Waritxòre helykyna waribi rurure
“Meu segundo flho morreu de mim”
Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2:
Waxiwedena hitxirarutòròhòky
“Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia”
3.1Variaçãodiatópica
Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo
idioleto
, que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou
Geolingüística,
relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a
Dialetologia.
A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe-
153
los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas
isoglos-sas
que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes
relâmpago
,
raio
,
corisco
e
aísca
em dierentesáreas de Minas Gerais.
3.1Variaçãodiatópica
Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, porexemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo
idioleto
, que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou
Geolingüística,
relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a
Dialetologia.
A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe-
153
los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas
isoglos-sas
que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes
relâmpago
,
raio
,
corisco
e
aísca
em dierentesáreas de Minas Gerais.
154
Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil.
155
Um outro conceito dialetológico importante é o de
línguafranca
ou
línguageral
, que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou
nheengatu
, ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia.
156
Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora
empréstimos
de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc.
157
Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português.
Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty.
158
Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática.
3.2Variaçãodiastrática
Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou
socioletos
. Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o portuguêsdo Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social, nível educacional, etc., independentemente da localiza-
159
ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes:
1
Idade–
As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguagem inantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção
3.4.
ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias:
(1)
velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional;
160
(2)
adultos (± 20 a 45 anos), que têm domínio ativo do dialeto, mas outilizam com maior regularidade apenas nos contatos com os maisvelhos. Nas comunicações entre si, os componentes deste segmentoparecem selecionar o código a ser utilizado em unção de variáveistemáticas e contextuais. Como os mais velhos, dirigem-se aos ado-lescentes e crianças apenas em português;
(3)
adolescentes (± 15 a 20 anos), que têm somente domínio passivo doKarajá, compreendendo, com graus variados de habilidade, a línguaoriginal do grupo, mas não sendo capaz de expressar-se com uên-cia. Este estrato parece ter consciência de que é possível e desejávelampliar o seu conhecimento do Xambioá, acreditando por exemplo,que um período de alguns meses em alguma aldeia Karajá da Ilhado Bananal seria sufciente para torná-los usuários mais ativos doidioma;
(4)
crianças (± 5 a 15 anos), que não compreendem a língua do grupo,tendo seu conhecimento restrito a vocábulos isolados. Este grupoparece superestimar os valores da sociedade envolvente em prejuízoda língua e da cultura indígenas. Vários meninos e meninas entre-vistados afrmaram não querer aprender a "gíria" porque esta é eia,diícil, engraçada.A situação de perda da língua aqui exemplifcada indica claramente quecada vez mais as novas geracões de alantes tendem a deixar de utilizara sua língua nativa ao longo de sua vida. Nota-se, assim, uma progres-siva desvalorização da língua materna enquanto instrumento útil paraos objetivos dos membros da comunidade.
2
Sexo–
Apesar da homogeneidade cada vez maior entre os papéis so-ciais desempenhados pelo homem e pela mulher nas grandes cidades,em muitas culturas, as dierenças de gênero costumam estar associa-das, em maior ou menor grau, a dierenças lingüísticas, sobretudono que tange ao vocabulário. Nas sociedades indígenas, podem ocor-rer dierenças ormais bastante marcadas entre a ala do homem e aala da mulher.
161
Na língua Karajá, registram-se dierenças sistemáticas entre a ala mas-culina e a eminina, tanto no plano da pronúncia, quanto no plano doléxico. A dierença mais reqüente é a ocorrência do som [k] na alaeminina:
Falamasculina

Falafeminina

Português
tainatakina“estrela”wylabiewylabike“avô” biubiku“céu” 
Entre várias outras regras, destaca-se a inserção da africada [t

] (ortografadacomo tx) na fala feminina:
Falamasculina

Falafeminina

Português
wariorewaritxore“minhacriança” rariareriraritxareri“passeando” 
Além de dierenças na pronúncia, registram-se vocábulos usados paraindicar enômenos tipicamente masculinos ou emininos. Por exemplo,o verbo
chorar
que em português pode aplicar-se tanto em relação ahomens como em relação a mulheres, encontra ormas dierenciadas emKarajá. A raiz
–bu-
aplica-se ao choro eminino, enquanto que a raiz
–hina-
aplica-se ao choro masculino:
(a)kuahaburahinyreri(b)kuahawyyrobureriaquelehomemestáchorandoaquelamulherestáchorando
3
Profissão–
As atividades profssionais, geralmente, têm seu vocabu-lário técnico específco, dominado por seus praticantes. Essas carac-terísticas, geralmente lexicais, específcas dos grupos sócio-profssio-nais recebem a denominação de jargão. Por exemplo: jargão médico,dos rádio-amadores, dos carpinteiros, etc. De caráter não técnico e,por vezes, carregada de conteúdo emocional, distingue-se, a gíria,vocabulário expressivo, utilizado por um grupo social a fm de sedierenciar dos demais.
162
O filho por dentro e o pai por fora
4
posiçãosocial–
O
status
dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade.
5
graudeescolaridade–
A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão.
163
6
localderesidência–
Áreas dentro de uma mesma cidade, ou bairros,podem desenvolver seu uso próprio da linguagem, fcando seus mem-bros caracterizados por certas escolhas vocabulares, certas expres-sões, gírias típicas, etc. Além desses atores, há vários outros papéissociais que podem variar de sociedade para sociedade e que, entreoutros emblemas, podem estar associados a marcadores lingüísticos.É comum, por exemplo, nas sociedades indígenas, distinguirem-segêneros de ala relacionados a dierentes atividades sociais, políticase religiosas, tais como, por exemplo, as alas dos chees, dos pajés,das mulheres, etc. Abaixo, exemplifcamos com um gênero conheci-do como o
choro ritual
, conorme praticado entre os Karajá.
Ibru:ochororitualKarajá
Os rituais de lamentação parecem estar presentes nos ritos únebres detodos os povos, assumindo dierentes ormas e com dierentes objetivos.Entre os egípcios, como notam Chevalier e Gheerbrant, parecem terobjetivos de conjuração e súplica: apelos aos deuses para protegerem aviagem da barca sagrada, para assegurar a ressurreição bem-aventura-da, para exaltar os méritos de um deunto, seja através de parentes domorto, seja através de carpideiras profssionais. Também entre os povosnórdicos, constituem as lamentações parte importante da cerimônia douneral, que se desenrolava em diversas etapas: jogos únebres, lamen-tação, sepultamento, com ou sem a construção de ícones tumulares.Como notam ainda Chevalier e Gheerbrant, o simbolismo da lamenta-ção entre os povos nórdicos não é óbvio: não é certo que se trate uni-camente de maniestações de tristeza diante da morte.Pensa-se, antes,neste mundo cultural nórdico, como também nas cosmologias de povosaricanos, numa conjuração ou objurgação eita ao morto, para quenão volte para junto dos vivos.No que se reere aos povos ameríndios do Brasil, Urban (1988) analisao complexo do choro ritual no Brasil central como um veículo de signi-fcação que se realiza em dois planos: a expressão explícita da emoçãocausada pela dor da separação ou perda e a expressão implícita do dese-jo de sociabilidade. Neste sentido, a semiótica do choro ritual revelariaum acoplamento de unções, em que a emoção de tristeza atuaria sobreoutra emoção, o desejo de aceitacão social. Graham (1995) nota queentre os Xavante o choro de uma pessoa pode estimular outras à mesmaprática, também indicando a unção social do choro. Graham relataque ao ouvir seu neto chorar, uma avó Xavante iniciou seu próprio
164
choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte
165
de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é:
Waritxòre helykyna waribi rurure
“Meu segundo flho morreu de mim”
Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2:
Waxiwedena hitxirarutòròhòky
“Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia”
166
Um outro componente do ibru é o levantamento das perturbações emo-cionais decorrentes da morte do ente querido. O alecimento da criançaconstitui um evento que aeta não só a mãe, como o pai, os tios e outrosparentes próximos. Além de inventariar a vida do morto e a dor de seusparentes o ibru ainda cumpre uma terceira unção que é a de estabeleceras razões da morte, que para os Karajá quase sempre pode ser atribuídaa atuações sobrenaturais.Assim, o choro ritual Karajá, ao contrário do choro Xavante, que éexlusivamente musical (Graham (1995)), apresenta uma seqüência deenunciados organizados em estruturas ritmicas paralelas. O contornoentonacional de cada “estroe” parece descrever uma curva ascendentecom vários picos intermediários, sendo o rerão regularmente enuncia-do em um tom nitidamente descendente, o que separa melodicamenteas “estroes”. Conorme nota Urban (1988), o paralelismo de tais estru-turas é indicador do que Jakobson (1960) denomina de unção poéticada linguagem, pela qual a orma da mensagem atrai atencão sobre simesma. Segundo Urban, esta unção poética ou musical do choro ritualé um traço undamental desta prática, que ao atrair a atenção do ouvin-te por sua orma melódica uncionaria como um meta-sinal.
3.3Variaçãosituacional
Um mesmo alante de uma dada

Mais conteúdos dessa disciplina