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Continuando a falar sobre a variação Diatópica (variação geográfica) venho mostrar e falar um pouco mais sobre esse tipo de variação. Morei a aproximadamente um ano em Maceió alagoas e lá percebi um grande numero de palavras de significados totalmente diferente do nosso falar carioca primeiro entenderemos um pouco mais sobre : Variação Diatópica - É o que neste trabalho iremos abordar. Mas o que seria a variação diatópica? Na verdade trata-se de uma diversidade linguística regional ou geográfica, apresentadas por pessoas de diferentes regiões que falam a mesma língua. As variações diatópicas são responsáveis pelos regionalismos ou falares locais. Esses falares representam os costumes e a cultura de cada região. A título de exemplificação, podemos citar as diferenças do português falado no Brasil para o português falado em Portugal. Tele móvel – Portugal Celular – Brasil Estas são as designações utilizadas pelos falantes dos dois países para representar um aparelho de comunicação cuja designação técnica é Telefone Celulares. No Brasil, falantes do Sudeste do país usam variantes distintas dos falantes da região Sul. Bergamota ou Vergamota – Florianópolis e região sul em geral Mexerica – Minas Gerais Os dois termos designam a mesma coisa, uma fruta cítrica de cor alaranjada e sabor adocicado, conhecida como tangerina. Estas diferenças normalmente são encontradas no campo lexical e fonético e toda esta variação (no Brasil) é decorrente das influências que cada região sofreu durante o processo de colonização do país, adicionados as importações lexicais de outras línguas. Aqui segue alguns exemplo dos variantes: FEXOSO/FECHOSO(AL): Pessoa que é bonita, linda seja nas vestimentas ou na beleza. TABACUDO(PE): Pessoa que não tem entendimento BARROADA(PI): Atropelamento. MARMITEX(SP): Quentinha MINA(RJ): Namorada MACAXEIRA(PI): Aipim Embora todos sejamos falantes da mesma língua, cada região do nosso país possui característica próprias que resultam em sua cultura e apresentam diversidades: variantes lexicais nos falares brasileiros. Sendo assim, uma palavra pode ser usada de diversos modos, assim como possui conotação diferentes, dependendo da região em que ela está sendo utilizada. 2 comentários: Anônimo disse... Tinha q ter Mais 19 de abril de 2012 14:17 Anônimo disse... tu eh doido ou cheira peido 31 de agosto de 2012 06:57 Anônimo disse... Tinha q ter Mais 19 de abril de 2012 14:17 Anônimo disse... tu eh doido ou cheira peido 31 de agosto de 2012 06:57 Postar um comentário Postagem mais antiga Início Blog Archive ▼ 2009(4) http://letraacao.blogspot.com.br/2009/11/variacao-diatopica.html Data de acesso 17/09/2012 às 08:48h Variações Diatópicas E Diastráticas [pic] SISTEMA DE ENSINO PRESENCIAL CONECTADO ADMINISTRAÇÃO Variações diatópicas e diastráticas Porto Velho 2010 Variações diatópicas e diastráticas Introdução Na Língua Portuguesa existem inúmeras variações linguísticas, pois a maneira de falarmos pode variar de acordo com a região em que nascemos ou nos criamos. Um legume pode ser conhecido por diveros nomes nas diferentes regiões do Brasil, assim como a forma de se expressar que pode significar a mesma coisa mas ser dita de maneiras diferentes nas regiões norte e sul do país. Também encontramos variações na comunicação quando se trata de diferenciação de classes sociais, ou de grupos sociais. Pessoas mais velhas geralmente falam com mais formalidade do que pessoas mais novas, mesmo querendo expor o mesmo pensamento. Para essa complexidade da Língua Portuguesa damos os nomes de Variações Diatópicas e Variações Diastráticas. Variações Diatópicas e Diastráticas Variação diatópica é o mesmo que variação geolingüística ou dialectal, ou seja, a variação que a realização da língua apresenta em função de regiões aonde são faladas. Neste contexto podemos dizer que temos dialetos falados em cada região do Brasil. Peguemos como exemplo o modo de falar do sulista e do nordestino, que para a o mesmo brinquedo dá-se nomes diferentes como a pipa e o papagaio, ou para o legume macaxeira, ou mandioca, ou até mesmo o aipim. A variação diatópica caracteriza as regiões em que nascemos, como o chiado do carioca, o “R” puxado do paulista, entre outros. A imagem abaixo ilustra um caso de variação diatópica, aonde o personagem do campo fala de uma forma totalmente diferente do personagem da cidade: [pic] A variação diastrática, ou social, como é conhecida, refere-se às diferenças entre as camadas socioculturais, ou seja, são variações que acontecem de um grupo social para o outro. Relaciona-se com um conjunto de fatores que tem a ver com a... Consultar Trabalho Completo Enviado por: camysilva Enviado em: 18/05/2011 09:25 PM Categoria: Português e Linguagem Palavras: 498 Páginas: 2 Consultas: 1017 Classificação pela Popularidade: 13833 Denunciar este Trabalho Salvar este Trabalho Consultar Trabalho Completo Trabalhos Relacionados Variações LinguísticAs: As... Variações Diatópicas e... Variação Diatópica e... Variações Linguisticas... Variação Linguística... Variações Linguísticas Variações Linguisticas Variações Linguisticas Comunicação e Linguagem Todos Comunicação e Linguagem Portifolio Comunicação e... Comunicação e Linguagem Preconceito Linguístico Principios Basicos Do... Variantes Linguisticas Funcomunicaçao e Linguagem Variações Linguiticas Variações Linguisticas Pedagogia Dos surDos Comunicação e Linguagem Trabalho De Comunicação e... Sociologia Sociologia Variaçoes Linguisticas Papel Do Adm Na Promoção... Variantes Linguisticas Relativizando Leitura e Produção De Textos Variação Linguística x... Revisões (0) Nota Sem Notas Seja o primeiro a avaliar o trabalho! Entre para dar uma nota a este documento. 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Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo idioleto , que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou Geolingüística, relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a Dialetologia. A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenkere pe- 153 los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas isoglos-sas que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes relâmpago , raio , corisco e aísca em dierentesáreas de Minas Gerais. 154 Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil. 155 Um outro conceito dialetológico importante é o de línguafranca ou línguageral , que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou nheengatu , ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia. 156 Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora empréstimos de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc. 157 Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português. Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty. 158 Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática. 3.2Variaçãodiastrática Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou socioletos . Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o português do Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social, nível educacional, etc., independentemente da localiza- 159 ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes: 1 Idade– As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguageminantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção 3.4. ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias: (1) velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional; 162 O filho por dentro e o pai por fora 4 posiçãosocial– O status dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade. 5 graudeescolaridade– A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão. 164 choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é: Waritxòre helykyna waribi rurure “Meu segundo flho morreu de mim” Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2: Waxiwedena hitxirarutòròhòky “Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia” 166 Um outro componente do ibru é o levantamento das perturbações emo-cionais decorrentes da morte do ente querido. O alecimento da criançaconstitui um evento que aeta não só a mãe, como o pai, os tios e outrosparentes próximos. Além de inventariar a vida do morto e a dor de seusparentes o ibru ainda cumpre uma terceira unção que é a de estabeleceras razões da morte, que para os Karajá quase sempre pode ser atribuídaa atuações sobrenaturais.Assim, o choro ritual Karajá, ao contrário do choro Xavante, que éexlusivamente musical (Graham (1995)), apresenta uma seqüência deenunciados organizados em estruturas ritmicas paralelas. O contornoentonacional de cada “estroe” parece descrever uma curva ascendentecom vários picos intermediários, sendo o rerão regularmente enuncia-do em um tom nitidamente descendente, o que separa melodicamenteas “estroes”. Conorme nota Urban (1988), o paralelismo de tais estru-turas é indicador do que Jakobson (1960) denomina de unção poéticada linguagem, pela qual a orma da mensagem atrai atencão sobre simesma. Segundo Urban, esta unção poética ou musical do choro ritualé um traço undamental desta prática, que ao atrair a atenção do ouvin-te por sua orma melódica uncionaria como um meta-sinal. 3.3Variaçãosituacional Um mesmo alante de uma dada 3.1Variaçãodiatópica Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,taiscomo, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo idioleto , que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou Geolingüística, relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a Dialetologia. A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe- 153 los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas isoglos-sas que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes relâmpago , raio , corisco e aísca em dierentesáreas de Minas Gerais. 154 Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil. 155 Um outro conceito dialetológico importante é o de línguafranca ou línguageral , que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou nheengatu , ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia. 156 Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora empréstimos de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc. 157 Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português. Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty. 158 Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática. 3.2Variaçãodiastrática Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou socioletos . Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o português do Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social,nível educacional, etc., independentemente da localiza- 159 ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes: 1 Idade– As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguagem inantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção 3.4. ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias: (1) velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional; 160 (2) adultos (± 20 a 45 anos), que têm domínio ativo do dialeto, mas outilizam com maior regularidade apenas nos contatos com os maisvelhos. Nas comunicações entre si, os componentes deste segmentoparecem selecionar o código a ser utilizado em unção de variáveistemáticas e contextuais. Como os mais velhos, dirigem-se aos ado-lescentes e crianças apenas em português; (3) adolescentes (± 15 a 20 anos), que têm somente domínio passivo doKarajá, compreendendo, com graus variados de habilidade, a línguaoriginal do grupo, mas não sendo capaz de expressar-se com uên-cia. Este estrato parece ter consciência de que é possível e desejávelampliar o seu conhecimento do Xambioá, acreditando por exemplo,que um período de alguns meses em alguma aldeia Karajá da Ilhado Bananal seria sufciente para torná-los usuários mais ativos doidioma; (4) crianças (± 5 a 15 anos), que não compreendem a língua do grupo,tendo seu conhecimento restrito a vocábulos isolados. Este grupoparece superestimar os valores da sociedade envolvente em prejuízoda língua e da cultura indígenas. Vários meninos e meninas entre-vistados afrmaram não querer aprender a "gíria" porque esta é eia,diícil, engraçada.A situação de perda da língua aqui exemplifcada indica claramente quecada vez mais as novas geracões de alantes tendem a deixar de utilizara sua língua nativa ao longo de sua vida. Nota-se, assim, uma progres-siva desvalorização da língua materna enquanto instrumento útil paraos objetivos dos membros da comunidade. 2 Sexo– Apesar da homogeneidade cada vez maior entre os papéis so-ciais desempenhados pelo homem e pela mulher nas grandes cidades,em muitas culturas, as dierenças de gênero costumam estar associa-das, em maior ou menor grau, a dierenças lingüísticas, sobretudono que tange ao vocabulário. Nas sociedades indígenas, podem ocor-rer dierenças ormais bastante marcadas entre a ala do homem e aala da mulher. 161 Na língua Karajá, registram-se dierenças sistemáticas entre a ala mas-culina e a eminina, tanto no plano da pronúncia, quanto no plano doléxico. A dierença mais reqüente é a ocorrência do som [k] na alaeminina: Falamasculina Falafeminina Português tainatakina“estrela”wylabiewylabike“avô” biubiku“céu” Entre várias outras regras, destaca-se a inserção da africada [t ] (ortografadacomo tx) na fala feminina: Falamasculina Falafeminina Português wariorewaritxore“minhacriança” rariareriraritxareri“passeando” Além de dierenças na pronúncia, registram-se vocábulos usados paraindicar enômenos tipicamente masculinos ou emininos. Por exemplo,o verbo chorar que em português pode aplicar-se tanto em relação ahomens como em relação a mulheres, encontra ormas dierenciadas emKarajá. A raiz –bu- aplica-se ao choro eminino, enquanto que a raiz –hina- aplica-se ao choro masculino: (a)kuahaburahinyreri(b)kuahawyyrobureriaquelehomemestáchorandoaquelamulherestáchorando 3 Profissão– As atividades profssionais, geralmente, têm seu vocabu-lário técnico específco, dominado por seus praticantes. Essas carac-terísticas, geralmente lexicais, específcas dos grupos sócio-profssio-nais recebem a denominação de jargão. Por exemplo: jargão médico,dos rádio-amadores, dos carpinteiros, etc. De caráter não técnico e,por vezes, carregada de conteúdo emocional, distingue-se, a gíria,vocabulário expressivo, utilizado por um grupo social a fm de sedierenciar dos demais. 162 O filho por dentro e o pai por fora 4 posiçãosocial– O status dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade. 5 graudeescolaridade– A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão. 163 6 localderesidência– Áreas dentro de uma mesma cidade, ou bairros,podem desenvolver seu uso próprio da linguagem, fcando seus mem-bros caracterizados por certas escolhas vocabulares, certas expres-sões, gírias típicas, etc. Além desses atores, há vários outros papéissociais que podem variar de sociedade para sociedade e que, entreoutros emblemas, podem estar associados a marcadores lingüísticos.É comum, por exemplo, nas sociedades indígenas, distinguirem-segêneros de ala relacionados a dierentes atividades sociais, políticase religiosas, tais como, por exemplo, as alas dos chees, dos pajés,das mulheres, etc. Abaixo, exemplifcamos com um gênero conheci-do como o choro ritual , conorme praticado entre os Karajá. Ibru:ochororitualKarajá Os rituais de lamentação parecem estar presentes nos ritos únebres detodos os povos, assumindo dierentes ormas e com dierentes objetivos.Entre os egípcios, como notam Chevalier e Gheerbrant, parecem terobjetivos de conjuração e súplica: apelos aos deuses para protegerem aviagem da barca sagrada, para assegurar a ressurreição bem-aventura-da, para exaltar os méritos de um deunto, seja através de parentes domorto, seja através de carpideiras profssionais. Também entre os povosnórdicos, constituem as lamentações parte importante da cerimônia douneral, que se desenrolava em diversas etapas: jogos únebres, lamen-tação, sepultamento, com ou sem a construção de ícones tumulares.Como notam ainda Chevalier e Gheerbrant, o simbolismo da lamenta-ção entre os povos nórdicos não é óbvio: não é certo que se trate uni-camente de maniestações de tristeza diante da morte. Pensa-se, antes,neste mundo cultural nórdico, como também nas cosmologias de povosaricanos, numa conjuração ou objurgação eita ao morto, para quenão volte para junto dos vivos.No que se reere aos povos ameríndios do Brasil,Urban (1988) analisao complexo do choro ritual no Brasil central como um veículo de signi-fcação que se realiza em dois planos: a expressão explícita da emoçãocausada pela dor da separação ou perda e a expressão implícita do dese-jo de sociabilidade. Neste sentido, a semiótica do choro ritual revelariaum acoplamento de unções, em que a emoção de tristeza atuaria sobreoutra emoção, o desejo de aceitacão social. Graham (1995) nota queentre os Xavante o choro de uma pessoa pode estimular outras à mesmaprática, também indicando a unção social do choro. Graham relataque ao ouvir seu neto chorar, uma avó Xavante iniciou seu próprio 164 choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é: Waritxòre helykyna waribi rurure “Meu segundo flho morreu de mim” Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2: Waxiwedena hitxirarutòròhòky “Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia” 3.1Variaçãodiatópica Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, por exemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo idioleto , que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou Geolingüística, relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a Dialetologia. A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe- 153 los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas isoglos-sas que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes relâmpago , raio , corisco e aísca em dierentesáreas de Minas Gerais. 3.1Variaçãodiatópica Uma língua não permanece a mesma em toda a extensão do ter-ritório onde é alada. Um dos traços mais marcantes da identidadecaracterística de uma pessoa é, sem dúvida, a sua origem geográfca.No âmbito da língua portuguesa, porexemplo, é comum tentar-secaracterizar a origem de uma pessoa com base em sua pronúncia ouem suas preerências de uso lexical. Assim, pode-se ouvir, no dia-a-dia, classifcações inormais sobre os alares regionais brasileiros,tais como, o alar mineiro, o alar carioca, o alar nordestino, etc.Nem sempre estas classifcações conseguem ser precisas, pois nãoé tarea simples isolar variantes puramente geográfcas dos demaistipos de variantes lingüísticas, tais como as variações decorrentes daclasse social, grau de educação, idade, estilo, etc. De ato, a variaçãolingüística é um enômeno tão pervasivo que pode-se até mesmo a-lar da variação individual do uso lingüístico, conceito expresso pelotermo idioleto , que designa, exatamente, as particularidades própriasda língua alada por cada um de nós, uma vez que todos temos nos-sas preerências lexicais e características de pronúncia individuais.O estudo das variantes geográfcas é eito por uma disciplina de-nominada Geografa Lingüística ou Geolingüística, relacionada a umadisciplina mais antiga e abrangente, a Dialetologia. A Geolingüística,teve seu início com as pesquisas eitas pelo alemão Wenker e pe- 153 los ranceses Gilliéron e Edmont. Estes últimos tornaram-se célebrespelo Atlas Lingüístico da França, lançado na primeira década do sé-culo XX, tendo o segundo autor percorrido de bicicleta grande partedo território rancês, em uma tarea meticulosa de documentaçãodos alares regionais. De ato, a Geografa Lingüística procura repre-sentar as variantes espaciais de uma língua em mapas ou atlas. NoBrasil, encontra-se em andamento o projeto do Atlas Lingüístico doBrasil – ALiB, sob a coordenação de proessores da Universidade Fe-deral da Bahia, que tem por objetivo descrever a realidade lingüísticado Brasil, no que diz respeito à língua portuguesa, com enoque prio-ritário na identifcação das dierenças diatópicas (ônicas, morossin-táticas, léxico-semânticas e prosódicas), consideradas na perspectivada Geolingüística. Nos atlas lingüísticos, representam-se dierentestraços lingüísticos através de linhas geográfcas denominadas isoglos-sas que assinalam os limites espaciais de ocorrência do traço. Porexemplo, a fgura abaixo ilustra uma representação da ocorrênciados lexemas variantes relâmpago , raio , corisco e aísca em dierentesáreas de Minas Gerais. 154 Embora o termo dialeto tenha sido ampliado para designar qual-quer uma das variedades de uma mesma língua, costuma-se, também,dierenciar entre este termo e a expressão alar regional. O lingüistaMattoso Câmara Jr. propõe que os dialetos sejam as variantes queapresentem dierenças mais marcantes em relação à língua padrão,podendo incluir alguns traços morossintáticos, enquanto que os a-lares regionais restringem-se, geralmente, ao léxico e à pronúncia.Por esse critério, as dierenças encontradas entre as variantes do por-tuguês no Brasil caracterizariam quase sempre os alares regionais,embora alguns autores apontem a existência de um dialeto caipira.Geralmente, uma das variantes de uma língua é escolhida como a lín-gua padrão de um país. Esta escolha não se baseia em propriedadeslingüísticas intrínsecas daquela variante, que é escolhida por razõespolíticas e culturais e não por que seja “melhor” ou “mais correta”do que as demais variantes. Assim, a variante do português alada noRio de Janeiro, oi tomada como padrão, na década de 1950, pois oRio de Janeiro na ocasião era a capital do Brasil. 155 Um outro conceito dialetológico importante é o de línguafranca ou línguageral , que designa a língua ou variante dialetal adotada por a-lantes de línguas ou dialetos mutuamente ininteligíveis para se comu-nicarem quando mantêm contato reqüente. Por exemplo, durante acolonização do Brasil, até o século XVIII, o tupi era mais alado doque o português, tendo se tornado uma língua geral, conhecida tam-bém como língua brasílica. Era a língua das entradas e bandeiras,expedições que partiam do litoral em busca de ouro e pedras precio-sas e que acabavam por batizar os acidentes geográfcos, rios, serras,lagos, chapadas, etc., com nomes de origem tupi, mesmo em áreasonde não havia grupos tupi, originalmente. Embora os colonizado-res portugueses tenham tomado medidas políticas para impedir odesenvolvimento da língua geral, garantindo o predomínio da línguaportuguesa, a língua geral ou nheengatu , ainda é alada na região doalto rio negro na amazônia. 156 Como as línguas são todas derivativas da mesma aculdade men-tal da linguagem, é compreensível que, estando em contato, possamse inuenciar mutuamente e até mesmo se misturar, recebendo em-préstimos e, por vezes, ormando novas línguas. Embora empréstimos de moremas e construções rasais possam ocorrer entre línguas emcontato esporadicamente, os empréstimos tendem a ser observadoscom maior reqüência no léxico. Geralmente, há uma reconfguraçãoonética do vocábulo emprestado aos padrões da língua que recebeo empréstimo. Por exemplo, em português, há vários vocábulos pro-venientes do inglês, que se incorporaram ao nosso léxico. Como oportuguês, dierentemente do inglês, preere as sílabas abertas, ouseja, sílabas sem consoante na ase de cerramento, muitos vocábulosemprestados do inglês, geralmente, sorem o acréscimo de uma vogalde apoio quando incorparados ao léxico do português: bee > bie;club > clube, etc. 157 Na ormação do português brasileiro, deve-se registrar tambéma grande contribuição das línguas aricanas para cá trazidas como início do tráfco de escravos, já iniciado no século XVI. Traçosculturais negros na cultura material, espiritual, culinária, etc., estãoortemente presentes no léxico do português. Na língua Karajá, os empréstimos do português, geralmente, são adap-tados de acordo com as propriedades onético-onológicas da língua.Assim, por exemplo, vocábulos do português, tais como cavalo e ci-garro, são incorporados ao Karajá como kawaru e siwaru, respectiva-mente, pois, em Karajá, não ocorrem os sons [v] e [g], existentes nessaspalavras. Uma outra maneira de incorporar novos vocábulos ou neolo-gismos nas línguas, em geral, é através de um processo menos direto,recorrendo-se à comparação metaórica. Por exemplo, em Karajá, a pa-lavra para designar motor é uma extensão metaórica da palavra queoriginalmente designava apenas ogo: heoty. 158 Para concluir esta seção, aremos algumas considerações de ordempedagógica (e política). Esperamos ter fcado claro que o termo diale-to é mais ou menos sinônimo de variante lingüística, sendo que todasas pessoas usam algum dialeto, seja ele um dialeto regional, seja odialeto padrão. Freqüentemente, setores da sociedade acabam por im-primir um valor pejorativo ao termo, o que não se justifca. Emboraa diversidade seja sinal claro de vitalidade, a própria escola, por ve-zes, deixa de reconhecer a variação como um patrimônio importante,adotando práticas que visam a uniormizar o uso lingüístico. A salade aula pode ser um espaço importante para discutir e eventualmen-te corrigir essas distorções conceituais preconceituosas. O proessorpode, por exemplo, trabalhar com os alunos no sentido de ajudar-lhes a apreciar melhor o valor da diversidade lingüística, contribuin-do para que estes aprendam a valorizar adequadamente seja o seudialeto específco do português, seja a sua língua materna, dierentedo português. Os dialetos de uma mesma língua ou várias línguas emcontato podem e devem conviver harmonicamente em uma sociedadeverdadeiramente democrática. 3.2Variaçãodiastrática Assim como varia horizontalmente, isto é, no âmbito da regiãogeográfca onde é alada, uma língua também apresenta variaçõesverticais, ou seja, no âmbito de uma comunidade específca locali-zada em uma mesma região geográfca, caracterizando o que se temchamado de dialetos sociais ou socioletos . Há uma interação estreitaentre a variação horizontal e a vertical. O próprio conceito de dia-leto padrão, apresentado na seção anterior com base em um critériogeográfco (por exemplo, o ato de o portuguêsdo Rio de Janeiroter sido indicado como padrão na década de 1950, quando o Riode Janeiro era a capital do Brasil), pode ser reavaliado como sendocaracterizado por um dialeto social, considerando-se critérios comoclasse social, nível educacional, etc., independentemente da localiza- 159 ção geográfca. Nesse caso, o dialeto padrão pode ser defnido comoa variante lingüística usada pelo grupo de alantes em posição dedomínio político e econômico em uma dada sociedade.As variantes sociolingüísticas ocorrem em todas as sociedades eestão diretamente relacionadas às categorias através das quais cadasociedade se organiza. Nem sempre essas categorias permitem umadierenciação nítida entre si, ormando um sistema complexo em quecada ator entrecruza-se com os demais. Entre esses vários atores deestratifcação social, costuma-se distinguir os seguintes: 1 Idade– As diversas aixas etárias dos alantes que compõem umasociedade apresentam correlatos lingüísticos, muitas vezes mais apa-rentes no plano do vocabulário, mas que podem, também, manies-tar-se na pronúncia e nos tipos de construção rasal preerenciais.Pode-se distinguir acilmente a linguagem inantil da linguagem doadulto, mas há também outras aixas etárias que, geralmente, apre-sentam peculiaridades de linguagem, tais como os adolescentes e osanciãos. Apreciaremos com maior vagar estas dierenças na seção 3.4. ao tratarmos da variação diacrônica da linguagem. Conorme relato de Maia (1987), os Xambioá, subgrupo Karajá habi-tante em duas aldeias às margens do Rio Araguaia ao norte da Ilha doBananal, a cerca de 160 km da cidade de Araguaína (TO), apresentamuma situação de diglossia que pode ser nitidamente caracterizada emtermos etários. A análise da coexistência da língua Karajá e da línguaportuguesa em ambas as aldeias ornece um quadro progressivamentedesavorável ao Karajá à medida em que se desce na escala etária. Ascondições de uso do Xambioá e do Português podem ser consideradasem termos de quatro aixas etárias: (1) velhos (± 45/70 anos), que utilizam o dialeto Xambioá espontane-amente entre si nas situações de intercâmbio comunicativo diário.Esta aixa etária comunica-se com o estrato imediatamente ineriorpreerencialmente em Karajá e com os adolescentes e crianças exclu-sivamente em português. Demonstram uma atitude de nostalgia econormismo em relação à perda da língua e da cultura tradicional; 160 (2) adultos (± 20 a 45 anos), que têm domínio ativo do dialeto, mas outilizam com maior regularidade apenas nos contatos com os maisvelhos. Nas comunicações entre si, os componentes deste segmentoparecem selecionar o código a ser utilizado em unção de variáveistemáticas e contextuais. Como os mais velhos, dirigem-se aos ado-lescentes e crianças apenas em português; (3) adolescentes (± 15 a 20 anos), que têm somente domínio passivo doKarajá, compreendendo, com graus variados de habilidade, a línguaoriginal do grupo, mas não sendo capaz de expressar-se com uên-cia. Este estrato parece ter consciência de que é possível e desejávelampliar o seu conhecimento do Xambioá, acreditando por exemplo,que um período de alguns meses em alguma aldeia Karajá da Ilhado Bananal seria sufciente para torná-los usuários mais ativos doidioma; (4) crianças (± 5 a 15 anos), que não compreendem a língua do grupo,tendo seu conhecimento restrito a vocábulos isolados. Este grupoparece superestimar os valores da sociedade envolvente em prejuízoda língua e da cultura indígenas. Vários meninos e meninas entre-vistados afrmaram não querer aprender a "gíria" porque esta é eia,diícil, engraçada.A situação de perda da língua aqui exemplifcada indica claramente quecada vez mais as novas geracões de alantes tendem a deixar de utilizara sua língua nativa ao longo de sua vida. Nota-se, assim, uma progres-siva desvalorização da língua materna enquanto instrumento útil paraos objetivos dos membros da comunidade. 2 Sexo– Apesar da homogeneidade cada vez maior entre os papéis so-ciais desempenhados pelo homem e pela mulher nas grandes cidades,em muitas culturas, as dierenças de gênero costumam estar associa-das, em maior ou menor grau, a dierenças lingüísticas, sobretudono que tange ao vocabulário. Nas sociedades indígenas, podem ocor-rer dierenças ormais bastante marcadas entre a ala do homem e aala da mulher. 161 Na língua Karajá, registram-se dierenças sistemáticas entre a ala mas-culina e a eminina, tanto no plano da pronúncia, quanto no plano doléxico. A dierença mais reqüente é a ocorrência do som [k] na alaeminina: Falamasculina Falafeminina Português tainatakina“estrela”wylabiewylabike“avô” biubiku“céu” Entre várias outras regras, destaca-se a inserção da africada [t ] (ortografadacomo tx) na fala feminina: Falamasculina Falafeminina Português wariorewaritxore“minhacriança” rariareriraritxareri“passeando” Além de dierenças na pronúncia, registram-se vocábulos usados paraindicar enômenos tipicamente masculinos ou emininos. Por exemplo,o verbo chorar que em português pode aplicar-se tanto em relação ahomens como em relação a mulheres, encontra ormas dierenciadas emKarajá. A raiz –bu- aplica-se ao choro eminino, enquanto que a raiz –hina- aplica-se ao choro masculino: (a)kuahaburahinyreri(b)kuahawyyrobureriaquelehomemestáchorandoaquelamulherestáchorando 3 Profissão– As atividades profssionais, geralmente, têm seu vocabu-lário técnico específco, dominado por seus praticantes. Essas carac-terísticas, geralmente lexicais, específcas dos grupos sócio-profssio-nais recebem a denominação de jargão. Por exemplo: jargão médico,dos rádio-amadores, dos carpinteiros, etc. De caráter não técnico e,por vezes, carregada de conteúdo emocional, distingue-se, a gíria,vocabulário expressivo, utilizado por um grupo social a fm de sedierenciar dos demais. 162 O filho por dentro e o pai por fora 4 posiçãosocial– O status dos alantes dentro do grupo social a quepertencem também atua como um elemento dierenciador da lingua-gem. Esse ator está estreitamente relacionado ao ator profssional eao ator escolaridade. 5 graudeescolaridade– A reqüência à escola exerce uma inuência or-te sobre o grau de domínio e uso das regras da gramática prescritiva,atuando como um ator importante de implementação do dialetopadrão. 163 6 localderesidência– Áreas dentro de uma mesma cidade, ou bairros,podem desenvolver seu uso próprio da linguagem, fcando seus mem-bros caracterizados por certas escolhas vocabulares, certas expres-sões, gírias típicas, etc. Além desses atores, há vários outros papéissociais que podem variar de sociedade para sociedade e que, entreoutros emblemas, podem estar associados a marcadores lingüísticos.É comum, por exemplo, nas sociedades indígenas, distinguirem-segêneros de ala relacionados a dierentes atividades sociais, políticase religiosas, tais como, por exemplo, as alas dos chees, dos pajés,das mulheres, etc. Abaixo, exemplifcamos com um gênero conheci-do como o choro ritual , conorme praticado entre os Karajá. Ibru:ochororitualKarajá Os rituais de lamentação parecem estar presentes nos ritos únebres detodos os povos, assumindo dierentes ormas e com dierentes objetivos.Entre os egípcios, como notam Chevalier e Gheerbrant, parecem terobjetivos de conjuração e súplica: apelos aos deuses para protegerem aviagem da barca sagrada, para assegurar a ressurreição bem-aventura-da, para exaltar os méritos de um deunto, seja através de parentes domorto, seja através de carpideiras profssionais. Também entre os povosnórdicos, constituem as lamentações parte importante da cerimônia douneral, que se desenrolava em diversas etapas: jogos únebres, lamen-tação, sepultamento, com ou sem a construção de ícones tumulares.Como notam ainda Chevalier e Gheerbrant, o simbolismo da lamenta-ção entre os povos nórdicos não é óbvio: não é certo que se trate uni-camente de maniestações de tristeza diante da morte.Pensa-se, antes,neste mundo cultural nórdico, como também nas cosmologias de povosaricanos, numa conjuração ou objurgação eita ao morto, para quenão volte para junto dos vivos.No que se reere aos povos ameríndios do Brasil, Urban (1988) analisao complexo do choro ritual no Brasil central como um veículo de signi-fcação que se realiza em dois planos: a expressão explícita da emoçãocausada pela dor da separação ou perda e a expressão implícita do dese-jo de sociabilidade. Neste sentido, a semiótica do choro ritual revelariaum acoplamento de unções, em que a emoção de tristeza atuaria sobreoutra emoção, o desejo de aceitacão social. Graham (1995) nota queentre os Xavante o choro de uma pessoa pode estimular outras à mesmaprática, também indicando a unção social do choro. Graham relataque ao ouvir seu neto chorar, uma avó Xavante iniciou seu próprio 164 choro, apresentando-se publicamente como uma avó sentimental e, aomesmo tempo, expressando seu desejo de sociabilidade.Na cerimônia mortuária tradicional, o parente mais chegado do a-lecido echa-se na casa e chora durante todo o dia, por um período devárias semanas, sendo substituído por outro parente próximo sempreque precise interromper o choro. Dessa orma, a lamentação, que podeser compreendida como catarse e como eulogia, revela também os la-ços de solidariedade comunitária que permitem estruturar socialmentea dor experimentada no plano individual. A dor pela perda do entequerido é assim repartida entre os parentes e amigos que se solidarizamcom o parente mais chegado do morto, chorando com ele e por ele, du-rante os períodos de descanso.Tradicionalmente costumava-se chorar por períodos que poderiam seextender até por vários meses. Durante este período coneccionava-se aurna mortuária em cerâmica para que se colocassem os ossos do mor-to. Caminhadas diárias ao cemitério para levar pequenas oerendas dealimentos, tais como mel, peixe, ovos são comuns ainda hoje nas aldeiasKarajá.Se ocorre uma morte durante ocasiões em que se celebram os ritos doaruanã, registra-se uma interrupção de alguns dias nas danças das más-caras sagradas. Durante este período os pajés monitoram a chegada daalma desencarnada ao mundo dos espíritos. Ao mesmo tempo, conormenota Toral (1992), a interrupção das danças sinaliza uma tensão entre ociclo cerimonial da tribo e a dor sentida por uma amília da aldeia. Nacasa das máscaras os homens passam à coneccção dos itxeò , os postestumulares que serão entregues à amília do morto por um representantedo ijoi - o grupo de homens da aldeia. Antes e durante a entrega doitxeò , lamentações são entoadas na casa do morto e em algumas casaspróximas. A entrega é eita geralmente a meio caminho entre a casa dasmáscaras e a casa da amília do morto. Um homem traz os itxeò e osentrega a um membro idoso da amília do morto que vem encontrá-lo.Neste instante da entrega dos postes tumulares, o representante dogrupo de homens pede permissão ao parente do morto para reiniciaremas estividades do aruanã, o que é eito logo em seguida à cerimônia decolocação dos itxeò na sepultura. Um itxeò é cravado nos pés, outro nacabeceira, enquanto as mulheres colocam comida para seu ente queri-do, chorando muito. Após esta cerimônia, reiniciam-se as atividades decanto e dança da esta do aruanã, circunscrevendo-se a dor pela morte 165 de um membro da comunidade à sua amília mais próxima, de maneiraque a vida e seus rituais possam continuar na aldeia.Note-se que em tais ocasiões pode ocorrer de alguns homens tambémprocederem a lamentações em voz alta. Tal prática é, no entanto, poucoreqüente e quando acontece tem duração muitíssimo menor do que aprática do choro pelas mulheres. A língua Karajá que distingue oneti-camente a ala do homem da ala da mulher, também não classifca ochoro masculino e o eminino com os mesmos itens lexicais. Emborahaja um verbo “chorar” neutro, rasybina que pode aplicar-se, comoem português, tanto a homens como a mulheres, há o verbo robure-ri e o substantivo ibru que se aplicam ao choro eminino e o verborahinyreri e o substantivo hii , que se aplicam exclusivamente ao choromasculino.No choro ritual eminino, há uma parte inicial denominada sybina emKarajá que denomina o choro em si mesmo, caracterizado por gritos,gemidos e soluços, expressando a emoção incontrolada por parte doparente do morto, no caso do ibru que registramos, a mãe de um me-nino que adoecera e morrera no lapso de alguns dias por causas sobre-naturais. Nesta ase, não se distinguem verbalizações signifcativas, háapenas o choro puro e simples dando vazão ao sentimento da dor pelaperda do flho. Pouco a pouco inicia-se o lamento verbal que permiteracionalizar a emoção, confgurando a dor e eventualmente lograndocontrolá-la. As lamentações são geralmente constituídas por uma se-qüência de rases intercaladas por um rerão, denominado itõ em Kara-já. No caso do ibru que registramos, o rerão é: Waritxòre helykyna waribi rurure “Meu segundo flho morreu de mim” Na lamentação pode-se distinguir ainda trechos em que a mãe evocaepisódios da vida da criança, geralmente enatizando suas qualidades.Executado por longos períodos, o ibru acaba por compor um extensoinventário eulógico da vida do alecido. No excerto de ibru que exami-namos, há exemplo destas passagens na estroe 2: Waxiwedena hitxirarutòròhòky “Fico orgulhosa, pois era gordinho, com a bundinha cheia” 166 Um outro componente do ibru é o levantamento das perturbações emo-cionais decorrentes da morte do ente querido. O alecimento da criançaconstitui um evento que aeta não só a mãe, como o pai, os tios e outrosparentes próximos. Além de inventariar a vida do morto e a dor de seusparentes o ibru ainda cumpre uma terceira unção que é a de estabeleceras razões da morte, que para os Karajá quase sempre pode ser atribuídaa atuações sobrenaturais.Assim, o choro ritual Karajá, ao contrário do choro Xavante, que éexlusivamente musical (Graham (1995)), apresenta uma seqüência deenunciados organizados em estruturas ritmicas paralelas. O contornoentonacional de cada “estroe” parece descrever uma curva ascendentecom vários picos intermediários, sendo o rerão regularmente enuncia-do em um tom nitidamente descendente, o que separa melodicamenteas “estroes”. Conorme nota Urban (1988), o paralelismo de tais estru-turas é indicador do que Jakobson (1960) denomina de unção poéticada linguagem, pela qual a orma da mensagem atrai atencão sobre simesma. Segundo Urban, esta unção poética ou musical do choro ritualé um traço undamental desta prática, que ao atrair a atenção do ouvin-te por sua orma melódica uncionaria como um meta-sinal. 3.3Variaçãosituacional Um mesmo alante de uma dada