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COLEÇÃO LOURENÇO FILHO 8 Manoel Bergström Lourenço Filho Organização e Administração Escolar Curso básico 8ª edição (reproduz o texto da 5a edição de 1970) Brasília-DF Inep/MEC 2007 COORDENAÇÃO-GERAL DE LINHA EDITORIAL E PUBLICAÇÕES Lia Scholze COORDENADORA DE PRODUÇÃO EDITORIAL Rosa dos Anjos Oliveira COORDENADORA DE PROGRAMAÇÃO VISUAL Márcia Terezinha dos Reis EDITOR EXECUTIVO Jair Santana Moraes REVISÃO E NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA Rosa dos Anjos Oliveira PROJETO GRÁFICO/CAPA F. Secchin DIAGRAMAÇÃO/ARTE-FINAL Raphael Caron Freitas TIRAGEM 1.000 exemplares EDITORIA Inep/MEC – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Anexo I, 4º Andar, Sala 418 CEP 70047-900 - Brasília-DF - Brasil Fones: (61) 2104-8438, (61) 2104-8042 Fax: (61) 2104-9812 editoria@inep.gov.br DISTRIBUIÇÃO Inep/MEC – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Anexo II, 4º Andar, Sala 414 CEP 70047-900 - Brasília-DF - Brasil Fone: (61) 2104-8415 publicacoes@inep.gov.br http://www.inep.gov.br/pesquisa/publicacoes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Lourenço Filho, Manoel Bergström. Organização e Administração Escolar: curso básico / Manoel Bergström Lourenço Filho. – 8. ed. – Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2007. 321p. – (Coleção Lourenço Filho, ISSN 1519-3225 ; 8) 1. Administração escolar. 2. Organização administrativa. I. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. II. Título. CDU 37.014 A Leda e Ruy, pela preciosa colaboração Sumário Prefácio: Lourenço Filho e a administração da educação ........................................... 9 Leonor Maria Tanuri Nota da 5ª edição ......................................................................................................... 15 Prefácio da 4ª edição ................................................................................................... 17 [ Parte 1 – PRINCÍPIOS DE ORGANIZAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR .......... 23 Capítulo 1 – As realidades da organização e administração escolar e os diferentes aspectos de seu estudo ................................................. 25 As escolas e a vida social – Atitudes no estudo da Organização e Administração Escolar – Dificuldades que se apresentam a iniciantes – As realidades da Organização e Administração – Perspectivas gerais de estudo – Método, Organização e Administração – Organizar e Administrar – Diferentes escalas e setores de estudo – Síntese do capítulo. Capítulo 2 – Teorias gerais de organização e administração: sua aplicação aos serviços escolares..................................................... 49 Significado das teorias – As teorias clássicas – As teorias novas – Um segundo esquema interpretativo – As teorias e os serviços escolares – Estudos especiais – Relações entre a escola e a comunidade – Síntese do capítulo. 6 Organização e Administração Escolar Capítulo 3 – Os administradores escolares em ação................................................. 67 Atividades operativas e administrativas – Níveis da ação administrativa – As situações concretas – Conformação administrativa das situações problemáticas – Planejar, programar – Dirigir, coordenar – Comunicar, inspecionar – Controlar, pesquisar – Administração escolar e investigação pedagógica – Normas gerais de organização e operação – Síntese do capítulo. Capítulo 4 – Os sistemas públicos de ensino e os problemas de política e legislação ................................................................................ 89 Os sistemas de ensino – Política e administração – Administração e legislação – Legislação e planejamento geral dos sistemas – Evolução do conceito de “sistema nacional de ensino” – Síntese do capítulo. Capítulo 5 – Organização e administração do ensino de 1º grau .......................... 107 Compreensão geral – Objetivos do ensino – Clientela específica – Questões de planejamento geral – Tipos de escolas – Serviços de coordenação e gestão interna – Articulação dos serviços de cada escola com órgãos centrais – Relações com a comunidade próxima – Síntese do capítulo. Capítulo 6 – Organização e administração do ensino de 2º grau ........................... 125 Preliminares – Tipos de ensino e clientela – Modificação dos objetivos do ensino – Problemas de planejamento geral – Ciclos de ensino – Tipos de escolas – Problemas gerais de administração – Relações das escolas com o ambiente – Serviços de coordenação e gestão interna – Cooperação democrática na vida interna das escolas – Síntese do capítulo. Capítulo 7 – Organização e administração do ensino de 3° grau ........................... 151 Visão geral – Tipos de universidades e outros centros de ensino superior – Universidade, ensino superior, ensino terciário – Profissionalismo versus formação geral – Condições de tempo e espaço – Recomendações do Seminário de Chicago – Questões de planejamento – Questões de organização geral – A direção dos estabelecimentos – Administração dos alunos – Síntese do capítulo. Capítulo 8 – Economia e finanças da Educação....................................................... 173 Proposição geral – Educação e Economia – Educação e finanças públicas – Orçamento dos serviços educacionais – Classificação das despesas – Fontes de recursos – Aplicação dos recursos: cotas de despesas e índices gerais – Avaliação de custos unitários – Considerações finais – Síntese do capítulo. Referências bibliográficas da Parte 1 ........................................................................ 195 7Sumário [ Parte 2 – ORGANIZAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR NO BRASIL ............ 203 Capítulo 9 – O ensino na Constituição e nas leis ................................................... 205 Preliminares – Educação e ensino nas cartas políticas – Legislação ordinária – Texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – A Constituição de 1967 e a Emenda de outubro de 1969 – Síntese do capítulo. Capítulo 10 – Apreciação geral da Lei de Diretrizes e Bases .................................. 235 Conteúdo da lei – Caráter formal da lei – A lei e o sentido de planejamento – Os “planos” nos sistemas estaduais e no sistema supletivo federal – Grandes qualidades e graves deslizes da lei – Síntese do capítulo. Capítulo 11 – Indicações para análise da Lei de Diretrizes e Bases ...................... 257 Lei de ensino – A estrutura geral dos serviços do ensino – Os sistemas de ensino – A administração dos serviços do ensino – Serviços municipais de ensino Partes derrogadas ou alteradas – Síntese do capítulo. Capítulo 12 – Estudo e ensino da organização e administração escolar no Brasil .... 269 Preliminares – Vida social e estudos de análise educacional – Pesquisas sobre as realidades do ensino – Bibliografia sobre problemas de organização e administração escolar – O ensino de Organização e Administração Escolar – I Simpósio Brasileiro de Administração Escolar – A formação de administradores e especialistas em organização escolar – Recomendações dos próprios especialistas – Síntese do capítulo. Referências bibliográficas da Parte 2 .............................................................................. 291 Anexo: Resolução nº 2, de 12 de maio de 1969 ............................................................. 295 Índice de assuntos ........................................................................................................... 299 8 Organização e Administração Escolar 9Prefácio [[[[[ Lourenço Filho e a administração da educação Na oportunidade em que se reedita a obra do grande educador e administra- dorescolar brasileiro Manoel Bergström Lourenço Filho – Organização e Administração Escolar –, cumpre inicialmente lembrar que ela veio a lume em primeira edição em 1963, pela Editora Melhoramentos, quando raros eram ainda os livros que compunham a Biblio- teca da Administração da Educação no Brasil, apesar da importância que o tema já então ocupava no panorama da educação brasileira. Embora já se desenvolvesse farta literatura de origem norte-americana desde a década de cinqüenta, no Brasil destacavam-se, além de ensaios, relatórios e trabalhos descritos de natureza normativa e legal, apenas o livro introdutório de Carneiro Leão (Faculdade Nacional de Filosofia) – Introdução à Adminis- tração Escolar (1939); as tentativas de análise do processo administrativo escolar a partir de Fayol, realizadas pioneiramente por José Querino Ribeiro (USP) em Fayolismo na ad- ministração das escolas públicas (1938) e em Ensaio de uma teoria de Administração Escolar (1952); o manual didático de Ruy de Ayres Bello, Princípios e normas de Admi- nistração Escolar (1956); além de trabalhos diversos de Anísio Teixeira sobre a organiza- ção, administração e política da educação, principalmente o livro que contempla sua experiência administrativa (1931-1935) como diretor-geral de Instrução Pública do Dis- trito Federal – Educação para a democracia (1936). A Anpae (inicialmente Associação Nacional de Professores de Administração Escolar, hoje denominada Associação Nacional de Política e Administração da Educa- ção), que viria a dar uma contribuição expressiva para os estudos de Administração da Educação, acabava de ser criada, em 1961, graças à iniciativa do catedrático de Adminis- tração Escolar e Educação Comparada da USP, José Querino Ribeiro e de seus assistentes Carlos Corrêa Mascaro e Moysés Brejón, que convocaram uma primeira reunião de pro- fessores da área em São Paulo. Estavam entre os sócios fundadores da Anpae, além dos mencionados, Anísio Teixeira, da Faculdade Nacional de Filosofia; Antônio Pithon Pin- to, da Universidade Federal da Bahia; Paulo de Almeida Campos, da Universidade Federal Prefácio 10 Organização e Administração Escolar Fluminense; Lauro Esmanhoto, da Universidade Federal do Paraná; Irmão Faustino João, da Faculdade de Filosofia Católica do Rio Grande do Sul; padre Theobaldo Frantz, da Faculdade de Filosofia Cristo Rei, de São Leopoldo; Lireda Facó, da Universidade Federal do Ceará; Maria Antonieta Bianchi, da Universidade Federal de Minas Gerais; Antônio Gomes Moreira Júnior, da Universidade Federal do Pará, entre outros. Apesar de toda a sua destacada atuação no âmbito da Administração Escolar, Lourenço Filho não esteve entre esses sócios nem chegou a participar da vida dessa sociedade acadêmica, embora o pensamento do autor e o livro que ora se reedita já constasse nas bibliografias de traba- lhos apresentados no III Congresso da Anpae, realizado em 1966, em Salvador, Bahia. Afastado das atividades do magistério e da administração escolar desde 1957, Lourenço Filho passava a dedicar parte significativa de seu tempo a escrever, ou seja, a sistematizar suas idéias a partir da reflexão sobre a prática de toda uma vida dedicada à docência e à administração no campo da educação, o que, certamente, motivou sua ausência física na referida entidade, sem prejuízo da presença de suas idéias e de seus trabalhos. Aliás, nos Anais do III Congresso da Anpae, Lourenço Filho consta da relação de autoridades e professores convidados. Em 1961, Lourenço Filho publicaria Educação comparada, que já inclui capítulos dedicados às questões relativas à organização e funcionamento dos sistemas de ensino, posteriormente mais desenvolvidos em Organização e Administração Escolar. Esses livros foram traduzidos para o espanhol, o primeiro publicado no México (1963) e o segundo, na Argentina (1965). Certamente, a longa experiência de Lourenço Filho em cargos administrati- vos, em todos os escalões do sistema de ensino, desde a unidade escolar até os mais altos do Ministério da Educação, seria sistematizada e consolidada para a construção das ba- ses teóricas da Organização e Administração Escolar, apresentadas na obra em questão. De fato, Lourenço Filho foi, desde muito jovem, professor e administrador. Sua experiência foi de fundamental importância para que pudesse conhecer o processo educativo e então, como administrador, exercer o papel de reformador educacional. Diplomado em 1914, pela Escola Normal de Pirassununga, iniciou sua carreira como professor primário já em 1915, aos 18 anos, e, logo a seguir, foi docente da Escola Normal de São Paulo e da Escola Normal de Piracicaba; diretor geral da Instrução Pública do Ceará em 1922 e 1923; professor da cadeira de Psicologia da Escola Normal de São Paulo entre outubro de 1930 e novembro de 1931 e responsável por sua reorganização; diretor do Instituto de Educação do Distrito Federal de 1932 a 1937, onde lecionou Psicologia Educacional até 1938; membro do Conselho Nacional de Educação de 1937 até sua extinção em 1961; organizador e primeiro diretor do Inep, de 1938 a 1946; vice-reitor e reitor em exercício da UDF entre 1938 e 1939; professor de Psicologia Educacional da Faculdade Nacional de Filosofia, a partir de 1939; presidente da Comissão Nacional do Ensino Pri- mário, em 1941; fundador da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, do Inep, em 1944; diretor do Departamento Nacional de Educação, por duas vezes, a primeira em 1937 e a segunda entre janeiro de 1947 e janeiro de 1951; presidente da Comissão Nacional Execu- tiva do Centro de Formação de Pessoal para Educação Fundamental da América Latina, no México, em 1951; presidente de Instituto Brasileiro de Educação, Ciências e Cultura (Ibecc), órgão brasileiro da Unesco, em 1952. Ao deixar o ensino universitário e as atividades administrativas, em 1957, Lourenço Filho continua a se dedicar à ampliação de sua vastíssima obra acadêmica, muito cedo iniciada e desenvolvida principalmente no âmbito da Psicologia Educacional, 11Prefácio e também em todos os aspectos da educação, desde as questões de natureza didática e metodológica (intraclasse) até as questões de ordem macro, pertinentes à organização do ensino e seus problemas de natureza político-administrativa (as estatísticas educacio- nais, as análises demográficas, a evasão e a reprovação, o financiamento da educação). Embora estivesse mais voltado para a Psicologia da Educação, sua preocupação com a organização política e administrativa da educação é, desde cedo, evidente em sua obra, em decorrência das posições que ocupou nos escalões mais elevados do sistema de ensi- no e de sua importante atuação à frente do Inep. Aliás, a esse respeito, já em 1941, publica um estudo preliminar sobre administração dos serviços educacionais no Brasil – intitulado “A administração dos serviços de educação no país” – como introdução ao Boletim n. 12 do Inep, que reúne informações e dados relativos à administração escolar nos Estados. Essa vasta, longa e variada experiência no âmbito da administração da educa- ção foi certamente capitalizada a serviço de seus trabalhos acadêmicos, em especial de seu livro Organização e Administração Escolar, onde alia a experiência ao conhecimento atualizado da teoria administrativa já desenvolvida, sobretudo, nos Estados Unidos. Aliás, uma leitura atenta do livro e de suas referências bibliográficas deixa claro o domínio desses conhecimentos e a abrangência da revisão da literatura especializada, com a men- ção de grande número de autores relevantes da época (Lipham, Getzels, Campbell, Griffiths, Hanlon, Halpin, Sears, Simon, entre outros), alguns dos quais seriam traduzidos para o português bem mais tarde (como, por ex., J. B. Sears, A natureza do processo administra- tivo, em 1971; H. Simon, O comportamento administrativo, em 1970; B. Bloom, Taxonomia dos objetivos educacionais, em 1972). O livro em questão apresentou seteedições: as cinco primeiras entre junho de 1963 e abril de 1970, ainda durante a vida do Autor, e as duas últimas após seu falecimen- to, ocorrido a 3 de agosto de 1970. Em junho de 1976, o livro teria a sua 7ª edição, revista e ampliada pela professora Leda Maria Silva Lourenço – que introduziu um capítulo sobre a Lei 5.692/71 –, em co-edição da Melhoramentos com o Instituto Nacional do Li- vro/MEC, dentro do Programa do Livro Didático, patrocinado pela Secretaria do Planeja- mento da Presidência da República. A presente edição constitui, portanto, a 8ª, e toma como referência básica a 5ª, ou seja, a última preparada pelo próprio Lourenço Filho, de modo a manter o pensamento original do Mestre. Tiragens bastante expressivas para a época, em face da reduzida dimensão quantitativa do ensino superior brasileiro, são indicadores da aceitação da obra, conforme dados apresentados pela editora Edições Melhoramentos de São Paulo: 12 Organização e Administração Escolar Desde a primeira edição, em 1963, o livro Organização e Administração Es- colar apresentou-se dividido em duas partes. Na primeira parte, o Autor contempla os princípios da organização e da administração escolar e suas bases, reunindo conceitos e instrumentos de análise necessários à compreensão dos fatos de estruturação e de gestão dos serviços escolares. Fazendo uma síntese desta parte, assim se manifesta o Autor no Prefácio da 2ª edição: Na primeira (parte), caracterizam-se as realidades de estruturação e gestão dos serviços escolares, em sua categoria própria, a da vida social, e indicam-se as perspectivas de estudo, gerais e por setores e planos diversos (Cap. I). A seguir, tais realidades são analisadas nas fases do processo administrativo, à luz das teorias clássicas e de outras, mais recentes (Cap. II). Isso feito, passa-se ao exame do comportamento administrativo, quer dizer, das funções dos que respondem por encargos de administração, suas atitudes e reações no trabalho (Cap. III). As mesmas idéias vêm a ser então revistas, no domínio mais vasto dos sistemas públicos de ensino, em que as expectativas sociais e as bases políticas, assinaladas nas cartas constitucionais e na legislação ordinária se entrecruzam (Cap. IV). Em capítulos sucessivos, descrevem-se as funções atuais das escolas, considerando-se aspectos técnicos assentados para o ensino primário, médio e superior (Caps. V, VI e VII). Nova visão de conjunto encerra essa parte geral, com o estudo das relações entre os serviços escolares e as realidades da economia e das finanças públicas (Cap. VIII). Na segunda parte do livro – intitulada “Organização e Administração Escolar no Brasil” – o Autor fornece os elementos legais básicos para a aplicação, numa situação concreta, dos princípios e normas apresentados na primeira parte. O Capítulo X apresen- ta os dispositivos constitucionais e a Lei de Diretrizes e Bases (Lei 4.024/61). Os dois capítulos seguintes contemplam a referida Lei, fazendo uma apreciação geral da mesma e oferecendo indicações para análise dos serviços do ensino e de sua administração. Final- mente o último capítulo aborda o estudo e o ensino da especialidade denominada Orga- nização e Administração Escolar. Não há dúvida de que o livro que ora se reedita constitui um marco histórico da produção de conhecimentos acerca da administração da educação no Brasil. Ele se situa entre as tentativas pioneiras de sistematizar os estudos então já realizados na área, de precisar conceitos e princípios, de superar uma administração meramente normativa e prescritiva, mediante não somente a contribuição das teorias clássicas, que contem- plam a descrição do processo administrativo, mas também os estudos sobre o comporta- mento administrativo, nele considerada a influência da instituição escolar, da comunida- de na qual ela atua, das relações humanas em geral. Em tais circunstâncias, o livro antecipou contribuições importantes no âmbito da administração da educação. De um lado, trazendo as referências teóricas mais relevantes na época, de autores que somente mais tarde seriam traduzidos e divulgados no Brasil, como mencionado anteriormente. De outro, o que é mais importante, percorrendo um ca- minho e abordando questões coerentes com a idéia que seria bastante enfatizada por repre- sentantes das abordagens histórico-críticas, de que a Administração Escolar não poderia ser mero ramo de uma Teoria Geral de Administração, dada a sua especificidade. Na verda- de, todo o livro de Lourenço Filho é voltado para essa especificidade, ou seja, para a análise do processo administrativo e da ação administrativa no interior do sistema de ensino e da 13Prefácio escola, a partir de questões concretas pertinentes ao ensino de primeiro, segundo e terceiro graus. Embora o Autor parta do “exame prévio das teorias gerais de Organização e Adminis- tração, aplicáveis a quaisquer empreendimentos, sem exclusão, portanto, daqueles que os serviços escolares formem”, a especificidade da Administração Escolar e a função pedagógica dos administradores escolares é freqüentemente destacada no decorrer do livro: Não se torna possível propor as questões de organização e administração do ensino nos mesmos termos em que o podemos fazer com relação à produção de uma fábrica, isto é, mediante tipificação rígida dos resultados e emprego de procedimentos invariáveis na produção. Educação é vida, reclama espírito criador. [...] Em qualquer hipótese, os administradores devem preocupar-se com a formação básica dos mestres e diretores e seu aperfeiçoamento constante. Isso não só quanto à questão estritamente pedagógica do trabalho, mas quanto à compreensão dos objetivos sociais da escola que, na própria didática, vêm a influir. Nesse sentido, o estreitamento de relações entre cada escola e a comunidade local torna-se indispensável. Ao reeditar o livro Organização e Administração Escolar, de Lourenço Filho, juntamente com seus demais livros, o Inep tem a certeza de contribuir não apenas para preservar a memória da educação brasileira, mas também no sentido de oferecer ao públi- co uma obra ainda bastante atual e cuja releitura poderá concorrer para que se reencontrem caminhos para a construção teórica em Administração da Educação no Brasil. Leonor Maria Tanuri 15Nota da 5ª edição Nota da 5a edição Em poucos meses esgotou-se a 4ª edição deste livro, exigindo nova tiragem. O texto anterior é praticamente mantido, com o acréscimo do teor completo da Resolução nº 2/69, do Conselho Federal de Educação, que fixou os mínimos de duração e composição do Curso de Pedagogia, com 8 modalidades diversas, nelas incluídas as de formação de Administradores Escolares e especialistas em Organização Escolar. Essa matéria merece, por certo, a atenção de todos quantos se interessem pelo progresso do ensino em nosso país. Em abril de 1970. Presença de Lourenço Filho Josué Montello (da Academia Brasileira) Trecho de artigo publicado no Jornal do Brasil, em 13 de julho de 1963, registrando o aparecimento da primeira edição. Neste instante, quero registrar apareci-mento de um novo livro do professor Lourenço Filho, “Organização e Administração Escolar”. E é livro que não vem apenas codificar o que a disciplina compor- ta como núcleo de estudos: vem ainda advertir aos responsáveis por nossos sistemas de ensino, tanto no plano federal quanto nos planos estaduais. O assunto obriga a meditação e debate, no momento em que, por força de lei e da consciência nacional, se vai pôr em prática um novo plano de educação em nosso país. E o professor Lourenço Filho o elucida com a sua experiência, a sua cultu- ra e o seu patriotismo, numa língua de tão alta correção e tão perfeita elegância que facilmente se conclui ter havido no mestre, ao longo de toda uma vida consagrada à educação brasileira, uma renún- cia de ordem intelectual: a renúncia à obra dearte, na ordem da criação literária, a que ele se poderia ter dedicado, com os altos méritos de sua incontestável vocação de escritor. 17Prefácio da 4ª edição Prefácio da 4a edição Na edição anterior, agradeceu o autor o bom acolhimento que a este livro se tem dispensado, tanto em sua forma original quanto na versão espanhola – versão na qual a segunda parte é consagrada ao exame das questões de Administração Escolar na América Latina, em geral. Tal acolhimento antes de tudo se explica pelo interesse que ora desper- tam os assuntos de educação em todos os países dessa grande parte do continente, nos quais muitas mudanças de ordem econômica e política se têm verificado. Os educadores, em geral, são aí levados agora a mais se preocuparem com as formas de estrutura e gestão dos serviços escolares, reconhecendo que assim certos objetivos sociais do ensino pode- rão ser atendidos. Com maior razão, o mesmo se deverá dizer das autoridades que res- pondam pela expansão e melhoria dos serviços públicos da educação. Por toda parte, esses sistemas hoje reclamam maior rendimento, em relação ao qual opinam políticos, administradores em geral, economistas, líderes religiosos, jornalistas. Para que problemas assim complexos e prementes possam ser devidamente examinados, os estudos de Organização e Administração Escolar tiveram de ampliar a limitada perspectiva em que por muito tempo permaneceram, com isso tendo dado a essa disciplina, entre as demais dos domínios pedagógicos, o papel de Gata Borralheira... O que com este volume se pretende, antes de tudo, é desfazer esse errôneo modo de pensar para elevar tal matéria à dignidade que merece. Com esse intuito, o autor planejou e compôs este livro como um curso básico, isto é, em que as realidades da Organização e Administração Escolar se explicam pelos grandes aspectos da vida econômica, social e cultural, a fim de que possam ser compre- endidas em suas verdadeiras funções. Em outros termos, o tratamento da matéria tem um caráter interdisciplinar, pois coteja e associa conhecimentos de muitos ramos. É sabido que, pela natureza mesma dos problemas que examinam, os estudos da educação escolar têm de coordenar elementos provindos de muitas fontes para combiná- los em diversos planos. De há muito neles se reconheceu necessário o plano de integração da Arte de Ensinar, ou Didática, ou seja, da articulação de dados relativos ao desenvolvi- mento geral das crianças, suas condições de aprendizagem, diferenças individuais, 18 Organização e Administração Escolar conveniente programação dos objetivos do ensino, dos mais indicados procedimentos para alcançá-los, e o mais que para isso se exija. Que esse plano seja fundamental não se poderá contestar. Contudo, se por muito tempo pôde ele bastar ao trabalho das escolas, já agora não será assim. Outrora, às escolas apenas se dava a tarefa de ministrar certos conhecimentos e pequenas técnicas, tidos como indispensáveis ao desenvolvimento de crianças e jovens. Aos mestres não cabiam maiores cuidados pela formação geral dos alunos, pois essa formação era satisfatoriamente propor- cionada nas relações da família e da vizinhança, bem como nas igrejas, nos grupos de recre- ação e de trabalho. Problemas relativos a atitudes, propósitos e valores, de especial interesse no ajustamento social, não figuravam nos programas escolares. Não se deve, porém, obscurecer que, ainda no domínio das preocupações didáticas, tais problemas começaram a ser propostos, e, em especial, desde o começo deste século,* tendo dado origem a um extenso e fecundo movimento de renovação pedagógica. Surgiu por se haver observado certo enfraquecimento das funções educativas da família na ocupação das horas de lazer de crianças e jovens, na orientação profissional, na preparação cívica e religiosa. A princípio, tal situação se apresentava apenas em grandes cidades de alguns países, mas estendeu-se depois a núcleos urbanos menores e em todas as nações ocidentais. Os renovadores do ensino passaram por isso a defender a idéia de que à escola caberia exercer maiores encargos, em substituição aos que a família estivesse perdendo. Desse movimento, trata o autor em outra de suas obras, “Introdução ao estudo da Escola Nova”. Nele se explicam as razões históricas, a contribuição de novos conhecimentos da Biologia, da Psicologia e de investigações sociais em campos muito variados; descrevem- se também vários experimentos didáticos, esparsos, ou já estruturados em mais completos sistemas, condizentes com uma nova filosofia social, da qual decorreriam também novos esquemas de organização e gestão das instituições escolares, em toda a sua extensão. Esse movimento, que os educadores atuais não podem desconhecer, já por si propunha uma reorganização geral dos serviços do ensino, chamados, como estavam, e estão sendo, a preencher novos encargos em relação à vida coletiva. Mas, para que esse ponto bem se aclare, certas realidades do processo educacional, ou cultural, teriam de ser mais a fundo revistas e reinterpretadas. Tais realidades são no presente livro descritas para fundamentação de uma nova Organização e Administração Escolar. Procura-se aqui explicar, por exemplo, que as escolas, desde suas origens, terão refletido desejos e aspirações comuns a vários grupos com interesse na formação das novas gerações. Corporificaram-se elas em expectativas sociais mais claras, relativas a diversas fases do desenvolvimento individual, dando origem aos graus de ensino. Ainda depois, institucionalizadas por ação política crescente, levariam as escolas a adotar mais rigorosa regulamentação, na forma em que hoje as podemos conhecer. Desde sua instauração, na verdade, as escolas, em seu conjunto, constituíram uma organização de fato, a qual mais tarde veio a receber padrões formais de estrutura e * O autor refere-se ao século 20 (N. do E.). 19Prefácio da 4ª edição gestão. Como no caso de outros empreendimentos, esses padrões vinham impor-se por efeito de divisão do trabalho comum, com mais precisa definição de esferas de responsabilidade e níveis de autoridade, umas e outros sancionados pelos costumes, e, afinal, pelas leis. Estabelecidos esses pontos, passou-se a admitir nos serviços do ensino um processo administrativo, similar ao de outros setores da atividade humana, desde que racionalizadas. As escolas existem para que produzam algo, em quantidade e qualidade, algo que há de ser previsto, e que possa ser obtido mediante boa articulação de operações coordenadas. A conferência entre o que se quisesse produzir e o que realmente se tivesse produzido, em termos menos subjetivos, representaria um passo adiante, como conseqüência de concepção menos falha de todo o processo. Prever, agir, controlar, eis as fases ou passos capitais, nas situações cíclicas que toda e qualquer espécie de produção apresenta. A compreensão e o encadeamento desses passos não seriam ainda bastantes. Mesmo em empreendimentos destinados a produzir bens materiais, os da indústria de transformação, isso logo se veio a reconhecer. Por definição, o trabalho se organiza e exige administração, quando nele pessoas trabalhem de concerto, ou em cooperação. Importará, pois, o conhecimento dos motivos de ação, atitudes e propósitos dos trabalhadores, como dos encarregados da condução dos serviços. Donde, juntar-se, ao exame do processo ad- ministrativo, o do comportamento administrativo. No caso dos serviços de ensino, como é fácil compreender, mais que em outros, esse ponto apresenta significado fundamental. As escolas recebem pessoas para serem educadas por outras pessoas. O comportamento administrativo, que estas tiverem, direta- mente se reflete sobre os educandos. Todo o ambiente social da escola deve oferecer oportu- nidades de real ajustamento a seus alunos. Quaisquer que eles sejam, já estarão participando de grupos, aos quais a coletividade da escolavem a juntar-se, e, qualquer que seja a vida futura dos educandos, terão eles de adaptar-se a outros e numerosos grupos. Claro que, em certas épocas, de maior estratificação social e vida mais estável, a previsão do destino dos alunos seria mais simples. Na época atual, de tantas mudanças, as sociedades tendem a ser abertas, com contornos movediços, senão de todo fluidos. Os estudos de Organização e Administração Escolar têm de considerar esses fatos, harmonizando-os com os fundamentos das técnicas de ensino. E, por tudo isso, esses estudos não só aos responsáveis pelos mais altos postos de direção e coordenação geral interessam. Interessam aos orientadores de ensino, inspe- tores ou supervisores, em suas respectivas circunscrições; aos diretores, em suas esco- las; aos próprios mestres, em suas classes. A cada um e a todos quantos participem dos serviços escolares, as questões da mudança social em que todos estão envolvidos, mestres, administradores e alunos, embora em graus diversos, têm de ser compreendidas, ou já não haverá maior organização de seu trabalho. Essa é a razão por que este livro insiste na análise dessa mudança, como na necessidade de que os sistemas de ensino, em qualquer país, a tomem na devida consideração. A maneira mais simples de apreendê-la, no caso brasileiro, como no dos demais países da América Latina, será a de situar tais questões no chamado “processo de desenvolvimento”, antes de tudo caracterizado por transformação da vida econômica, ainda que em tal processo não só elas concorram. 20 Organização e Administração Escolar Desde que o desenvolvimento se instaure, em apreciável ritmo, observa-se deslocamento de grupos da população dantes ocupados no setor primário da produção (agricultura, pecuária, mineração), para as atividades do setor secundário (manufaturas e fábricas); e, assim também, de grupos que são impelidos para o setor terciário (serviços comerciais, de transportes, administração pública e privada, de segurança, distribuição de justiça, defesa e preservação da saúde, do próprio ensino). Os aspectos mais visíveis centralizam-se, porém, na industrialização. Um deles consiste na maior oferta de empregos nas cidades, nas quais normalmente se polariza a instalação de oficinas e fábricas. Num primeiro momento, o recrutamento dos trabalhadores se faz de qualquer modo, ou sem maiores exigências de seleção. Logo, porém, critérios menos incertos se estabelecem, relacionados com os de instrução escolar. As expectativas em relação às escolas mostram-se então a elas favoráveis. Qualquer que seja o seu trabalho, há rápido crescimento do número de alunos. Logo, porém, mais severo juízo em relação à qualidade do ensino, ou de sua maior correspondência com as necessidades reais do trabalho, vem a existir. Isso passa a ter influência no trabalho direto dos mestres, o qual, para que melhor se ordene, vem a exigir novos moldes de estruturação e gestão dos serviços escolares. Problemas antigos vêm a destacar-se, e outros novos, a propor-se. Entre esses, passam a figurar questões de vulto, como as de planejamento regional e nacional dos serviços escolares, a exigirem o concurso de especialistas diver- sos, os de demografia e economia, entre outros. Será preciso prever a mais longo termo, melhor articular os graus de ensino, diferenciar os cursos, em especial os de grau médio. Procura-se examinar a contribuição que as escolas estejam dando ao progresso real da produção econômica de cada país, segundo o que estejam gastando, e como estejam empregando os dinheiros públicos. Muitos chegam a pretender que se deva estabelecer uma perfeita identificação entre a política econômica e a política de educação, admitindo, antes de tudo, que as escolas devam preparar homens e mulheres para as diversas espécies de trabalho, já exis- tentes ou a serem previstas. É evidente que tal aspecto muito interessa, não podendo, no entanto, eliminar outros, de valor primordial. O trabalho, ele próprio, terá de ser organi- zado com o objetivo de mais fundamentar a coesão social, o bem-estar coletivo. Não, ao inverso. Em cada caso, e em todo o conjunto, esses pontos têm de ser coordenados por ação política esclarecida, em termos institucionais ou de formas de governo que atendam àquelas necessidades básicas, em ideais e aspirações comuns, os quais, afinal, são os que justificam toda e qualquer função educativa. Que os planos de educação devam relacio- nar-se com os planos gerais de governo é hoje questão pacífica, nos tipos de sociedade ora existentes. Que esses planos tenham de firmar-se numa filosofia de bem-estar geral é, porém, idéia que não pode ser esquecida. Em face das situações concretas, os organizadores e administradores terão de partir, é certo, de uma definição de ordem política, tão perfeitamente estabelecida quanto possível. Seu trabalho, a rigor, só se inicia depois que tudo isso se tenha bem aclarado, através das instituições próprias. Terão elas de definir propósitos gerais, quadros de execução e o montante dos recursos com que se possa contar. 21Prefácio da 4ª edição A cada educador, individualmente, não caberá decidir dos planos de governo, nem assim, em conseqüência, dos planos gerais de educação de cada país. A cada um e a todos, caberá, no entanto, o dever de bem preparar-se para que a uns e a outros possam entender, visto que neles irão, de forma direta ou indireta, cooperar. Cada qual terá a sua esfera delimitada na ordem jurídica, e na ordem técnica, a de suas tarefas próprias. Nesta última, segundo sua preparação, mais ou menos especializada, caberá ação criadora, sem a qual as atividades da educação perdem o seu caráter verdadeiramente humano. Mas, para isso, hão de compreender a própria posição no conjunto dos serviços escolares, nos planos gerais de educação estabelecidos, na coordenação necessária das atividades de cooperação racional que esses mesmos planos estejam a reclamar. De outra forma, de nada valerão os melhores planos deste mundo, como aliás, a própria experiência brasileira vem demonstrando. Tal é a razão pela qual, depois de apresentar os princípios gerais de Organização e Administração Escolar, aplicando-os, também em relação aos vários graus de ensino, este livro, numa parte especial, examina as tendências da filosofia social e da ação política, em nosso país. São aí sumariados elementos históricos que permitem uma compreensão geral de nosso processo de cultura, seguidos de indicações sobre a presente situação resultante de mudanças sociais recentes, com maior ou menor projeção na legislação brasileira. Largo espaço é reservado ao estudo da Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, a qual, por sua ementa, veio a ser chamada de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Nesse estudo, dá-se realce às inovações construtivas de tal documento, a par, como seria necessário, da demonstração de suas lacunas e imperfeições, que são muitas. O capítulo final esboça o histórico dos estudos e do ensino da Organização e Administração Escolar, e de modo particular em nosso país, como conclusão natural de toda a matéria anteriormente exposta. A edição anterior transcrevia a parte relativa à educação, constante da nova Constituição de janeiro de 1967, matéria essa que veio a sofrer algumas alterações, em virtude da Emenda Constitucional nº 1, promulgada a 17 de outubro de 1969. A nova apresentação foi juntada a este texto, com alguns esclarecimentos necessários. Mencionam-se também novos atos legislativos, que alteraram muitos pontos da Lei de Diretrizes e Bases. Cumpre ao autor renovar seus agradecimentos a todos quantos sobre este seu trabalho se têm manifestado, e, de modo especial, ao professor dr. Mark Hanson, da Graduate School of Education, da Harvard University, Estados Unidos, o qual opina pela conveniência de que se faça a tradução desta obra em inglês. Como o ilustre especialista temdado grande atenção a estudos sobre educação e desenvolvimento, essa opinião é, na verdade, muito desvanecedora. Rio de Janeiro, novembro de 1969. Lourenço Filho Pa rte I – Pr inc ípi os de O rga niz aç ão e A dm ini str aç ão Es co lar Lourenço Filho, diretor geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo – 1930. 25Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 1 As realidades da organização e administração escolar e os diferentes aspectos de seu estudo [[[[[ As escolas e a vida social Se, de modo superficial, observarmos diversas escolas, cada uma delas nos dará a impressão de um empreendimento autônomo, de todas as mais desligado. Até certo ponto, essa impressão se justifica. Cada estabelecimento tem uma sede determina- da, clientela específica de alunos, elementos docentes próprios, e, enfim, atividades pre- fixadas, segundo o ensino que ministre, seus horários e programas. Seja o estabelecimen- to público ou particular, grande ou pequeno, de nível primário ou de outro, cada um desses pontos, como todos eles, combinados, caracterizarão certa fisionomia própria e atmosfera peculiar de trabalho. Assim, as questões de estruturação e gestão dos serviços escolares parecerão apenas ligadas a aspectos de instalação, em salas de aula e mais dependências, mobiliário e outro equipamento, além dos de distribuição geral das tarefas entre os mestres. Não se poderá discutir que tais questões apresentem importância prática. Mas, serão elas, por si mesmas, o ponto de partida, ou exigirão o estudo de outras condições e circunstâncias, em razão das quais a própria existência da escola, sua localização, funções gerais e objetivos particulares, que com algo mais se articulem, possam ser explicados?... Desde que aprofundemos a observação, veremos que essa segunda hipótese é que vem a impor-se. Em primeiro lugar, nenhuma escola está tão desligada de todas as demais, como nos terá parecido a princípio. Qualquer que seja o tipo de ensino que mi- nistre, cada uma terá de atender a objetivos gerais e comuns a todas as escolas, que são os de oferecer oportunidades para o desenvolvimento individual dos alunos. Essa função, que é capital, qualquer que seja a instituição em exame, aproxima umas escolas de outras, imprimindo-lhes ao trabalho solidariedade geral. Isso justifica a distinção que entre uns e outros estabelecimentos se faz, pelos grupos de idade dos alunos, normalmente os de crianças, adolescentes e adultos. No trabalho do ensino, a condição de maturação geral dos discípulos fundamentalmente importa, pois interessa às situações da aprendizagem. Três níveis escolares são assim universalmente reconhecidos: o primário, o médio e o superior. 26 Organização e Administração Escolar Dentro de cada um deles, haverá outras especificações, pelo adiantamento dos alunos, diferenças individuais e condições mais amplas de certos subgrupos, tal como ocorre nos de excepcionais de qualquer tipo. Em conseqüência, prevêem-se planos de ensino diferenciados, séries didáticas progressivas, quando não se tenha mesmo de organizar ação didática toda especial. Tudo confirma aquela mesma regra, a de atender ao desenvolvimento geral dos alunos, referido a certa média de resultados nas várias quadras de idade. Não são eles, porém, uniformes, por toda parte. Não independem das capacidades individuais, mas dependem também das expressões da vida social, estrutu- ra da família, organização do trabalho e da cidadania, vida moral e religiosa. Em outros termos: os padrões da educação escolar não somente dependem do desenvolvimento in- dividual, de cunho fundamentalmente biológico, mas terão de ser interpretados segundo as exigências da vida coletiva, em cada comunidade, como conjunto, e ainda aí, de acordo com as de grupos especiais que esse conjunto formem. A observação revela que tais exigências são imperativas. Se assim não fosse, em todos os países teriam as escolas a mesma estrutura, com idênticos tipos de estudo, e sabemos que isso não acontece. Por outro lado, sabemos que esses tipos e a organização geral correspondente têm variado de época a época, com maior ou menor rapidez, segun- do as mudanças sociais que nelas se tenham dado, ou se estejam dando. Bastará que comparemos as escolas de há quarenta anos atrás, em nosso próprio país, com as de agora; e, ainda agora, que confrontemos as escolas das grandes cidades com as das peque- nas, e as das vilas com as de povoados rurais, sobretudo quando estes não mantenham maior contacto com núcleos de população mais adensada. Nenhuma dúvida poderá exis- tir, portanto, sobre esta realidade: os serviços do ensino têm variado e continuam a variar segundo as épocas, e, dentro de cada época, na conformidade das condições sociais que se estabeleçam e perdurem. A razão fundamental reside neste simples fato: a educação escolar não é toda a educação, mas apenas uma das expressões de um processo cultural mais amplo, o qual se prende à ordem social, tal como realmente exista, em cada país, região ou localidade. A observação universal confirma a conclusão. Admitimos agora que as crianças devam ser protegidas em seu desenvolvimento geral, e que por isso tenham de freqüentar uma escola, não devendo ser empregadas em atividades produtivas ou num trabalho profissional. Mas tal idéia, ou não existia de todo, ou não era pacífica, ainda nos meados do século 19. Ademais, a sua prática não se acha tão generalizada como vulgarmente se possa pensar. Ainda hoje, em nossos meios rurais, muitos pais estranham que seus filhos a partir dos sete anos tenham de freqüentar uma escola, ao invés de se 27Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar ocuparem nos trabalhos do campo. Igualmente, o estranham não poucos proprietários ou administradores de empresas agrícolas. O que há, pois, de real é que o critério das idades não é exclusivo na organização das escolas, e, antes disso, em sua criação e desenvolvimento geral. O que se evidencia é que os serviços escolares atendem a outras exigências. Eles existem em razão do que desejem os pais, esperem os vizinhos, os centros de trabalho e mais instituições; ou, afinal, segundo aquilo que cada comunidade em conjunto admita como útil, justo e ne- cessário, na formação e orientação das novas gerações. Claro que tais expectativas se rela- cionam com as fases de crescimento, mesmo porque certo número delas exigem maturação individual bastante para que possam ser exercidas. Mas variarão elas segundo as idéias, sentimentos, crenças e aspirações, umas em determinados grupos sociais bem demarcadas, e outras, difusas, ou sem mais clara expressão na média das opiniões. O princípio da relação do ensino com as idades, tem de ser admitido, não, porém, como absoluto. O que das escolas – de cada uma em particular, como de todas em conjunto – se pretende é que seu trabalho possa satisfazer às exigências da comunidade, segundo os papéis sociais atribuídos aos indivíduos, nas diferentes etapas de crescimen- to; quer dizer, o comportamento geral que deles se espere e reclame, e que da estrutura social, tal como aí exista, extrai o seu significado. Assim como seja cada sociedade, assim serão suas escolas. Mais unificada a vida social, mais unificados os serviços do ensino. Mais livre e progressista aquela, mais variados serão eles. E, assim, em todos os aspectos de sua estruturação: os cursos, os pro- gramas, a qualificação dos mestres, seus direitos e deveres, o alcance maior ou menor dos serviços escolares sobre a população, a obrigatoriedade do ensino, as formas de seu finan- ciamento, as de gestão direta de cada estabelecimento, ou da administração deles, em geral. Esse sentido social pode ser visto mesmo em casos isolados. Observemos uma pequena escola, mantida por um grupo de pais, uma escola particular em longínqua povoação, aí entregue a um mestremais ou menos improvisado. Os interesses imediatos dos grupos que esses pais representem, e os daqueles a que mais diretamente estejam ligados, virão a refletir-se tanto nos objetivos do ensino quanto em suas formas práticas; por exemplo, a aceitação ou não de determinados alu- nos, o regime disciplinar, a orientação educativa em geral. Observemos depois uma escola pública em cidade populosa. O ensino já aí obedecerá a formas institucionalizadas mais amplas, não só estabelecidas pelos costu- mes, mas por leis e regulamentos. Todos quantos procurem a escola, preenchidas certas condições, nelas serão recebidos. Haverá um programa de aplicação geral para cada nível de adiantamento, regime disciplinar comum, calendário e horário que a todos possam satisfazer. Devidamente preparados, ou tão preparados como possível, os professores procurarão bem classificar os alunos, e as tarefas do ensino serão distribuídas por dife- rentes séries didáticas, em determinadas classes, cada uma delas entregue a um mestre. Prevê-se, ademais, que o trabalho geral seja coordenado por um diretor, o qual terá de responder por seus resultados perante a comunidade próxima, como também a certos órgãos de controle social, de mais ampla atuação, em especial, os do governo. Quando assim examinemos os fatos, passamos a ver os serviços escolares sob novo prisma, ou com maior visão do que representam no processo cultural, em geral. Percebemos que a origem das escolas, sua evolução, seus tipos e articulação entre eles não resultam do simples arbítrio dos mestres ou de decisões pessoais dos governantes, mas, dos padrões culturais em cada lugar e a cada época existentes. 28 Organização e Administração Escolar Por mais que as escolas pareçam desligadas umas de outras, segue-se que entre todas fortes laços de solidariedade existem. Na época atual, tendem elas a cons- tituir, em cada país, um só e mesmo empreendimento geral, quaisquer que sejam as lacunas e dissimetrias aparentes. Todas resultam de maior ou menor consciência de padrões desejáveis na vida coletiva, no que haja de próprio a cada grupo social espe- cífico, e no que haja de comum a todos, e que lhes comuniquem maior sentido de útil coexistência. Coordena-se o trabalho das escolas, em suma, com as expressões da existência social, e, de modo mais evidente, com as de suas instituições básicas – a família, o trabalho, a igreja, o regime de governo – em tudo quanto concorram para que um sistema consistente possa perdurar, e, perdurando, receba inovações úteis a esse mesmo fim. O trabalho das escolas a essas expressões se incorpora acabando também por institucionalizar-se; quer dizer, adquire ele também a contextura de um sistema social que passa a figurar entre os demais, refletindo todas aquelas condições, depuradas por via da legislação e das concepções técnicas dos profissionais do ensino. O desenvolvimento médio das capacidades individuais mantém-se como critério básico, mesmo porque, como vimos, dele dependerá o desempenho dos papéis sociais, tais como geralmente aceitos. Não obstante, porque implicam direitos e deveres, só em face daquelas mesmas expectativas definidos, prendem-se a um processo mais complexo, o de ajustamento social de cada nova geração. O que se vem a chamar de de- senvolvimento individual por um lado, e ajustamento social, por outro, assim represen- tam dimensões de uma só e mesma realidade, ou duas faces de um mesmo processo. Entre a vida social e a existência dos serviços regulares de ensino, uma substancial conexão tem de existir sempre – tal é a conclusão de ordem geral. Em outros tempos, as mudanças da vida social eram lentas e se davam com sentido e ritmo sensivelmente diverso em cada localidade, ou em localidades de dadas regiões, mais isoladas entre si que hoje. Os chamados grupos primários, como os da família e união de famílias, predominavam em todo o processo educacional e, por isso, também nas escolas. Na atualidade, as coisas se passam diferentemente. Um conjunto de mudanças concomitantes se tem dado nos tipos de produção ou do trabalho, e, assim, na vida econômica; nas variações de estrutura da família, e, em conseqüência, nos costumes; nas próprias crenças religiosas e, conseqüentemente, nas concepções de vida e valores morais; e, com tudo isso, no reconhecimento de direitos e deveres individuais, e, portanto, nas formas e funcionamento do poder político. Por todas essas razões, o processo educacional veio a sofrer inevitáveis alterações, em si mesmo e na consciência que dele se passou a ter. Às escolas agora se impõem encar- gos inteiramente novos, desconhecidos na organização tradicional do ensino, ou mesmo, nem por ela suspeitados. Reconhece-se, para cumprimento de funções comuns, a necessi- dade de maior integração entre as escolas, num empreendimento solidário, quer em países plenamente desenvolvidos, quer também nos que ainda menos o sejam. Tenta-se planejar os serviços escolares de modo amplo, com modificações de suas formas e sentido geral, o que vale dizer com alterações em sua estruturação e nos modos de administrá-los. A pressão de necessidades nacionais, em cada país, e a de interesses de certos grupos privados, em todos eles, situam os serviços do ensino num plano de largo sentido social. As crianças e jovens, que hoje se educam, estão destinados a viver no século XXI, com uma formação, que, certamente, não poderá ser a da tradição. Os princípios de 29Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar estruturação e normas de funcionamento terão de inspirar-se em novas idéias, com revisão de muitas das até agora seguidas. Os problemas de Organização e Administração Escolar terão de ser nessa forma compreendidos, analisados e resolvidos, e, pois, com maior sentido de previsão. Terão eles de ser propostos no conhecimento das realidades sociais em mudança, e reinterpretados à luz de uma nova política da educação, que não caberá aos administra- dores escolares por si mesmos elaborar, é certo, mas bem traduzir em realidades práticas, de satisfatória eficiência. Será necessário dar atenção a problemas particulares, mediante estudos referentes a setores e escalas diversas. Ainda nesse caso, certos conceitos fundamentais, instrumentos de análise e modelos de descrição e explicação terão de ser observados. Sem prejuízo da importância desses problemas menores, mas, pelo contrário, dando-se- lhes mais exato sentido, este livro pretende oferecer tais noções, na forma de um curso básico. Com elas, integradas numa adequada perspectiva em que se apóiem esquemas de aplicação prática, é que se poderá chegar a entender as necessidades reais da organização e administração do ensino, tal como nosso tempo reclama. Para isso, haverá necessidade de conhecer o processo administrativo, em seu desenvolvimento cíclico, tanto quanto o comportamento administrativo, isto é, as formas gerais da ação que hoje se espera dos organizadores e administradores em qualquer espé- cie de atividades; e, enfim, a aplicação de inferências, daí retiradas, às situações reais que o ensino já apresente. Tais estudos devem conduzir os administradores, em geral, a bem compreender a estruturação e gestão dos serviços escolares, a fim de que possam saber onde, quando, quanto e como devam esses serviços ser estabelecidos e articulados com maior proveito. Por outro lado, em escalas diversas e setores diferenciados, mas a exigirem visão de conjunto, esses estudos interessam ao professor, em sua escola; ao inspetor e chefes de serviços auxiliares, em suas circunscrições; e aos responsáveis por mais amplas formas de trabalho, nas funções de planejar, coordenar e controlar os sistemas de ensino. A matéria interessa a todos quantos respondam por funções gerais, ou especiais, nesses sistemas, como, por outros aspectos, a todos quantos, por disporem de maior ou menor ação social, possam interferir nos planos do ensino, com suas idéias,sugestões e críticas. [[[[[ Atitudes no estudo da Organização e Administração Escolar O nome Organização e Administração Escolar poderá parecer redundante, em face da estreita relação, ou mútua dependência, que os elementos nele contidos apre- sentam. Pertence, no entanto, à sistemática corrente onde, como oportunamente se verá, é de conveniente adoção. De modo geral, esse nome sugere a observação, caracterização, classificação e relacionamento dos fatos da estruturação dos serviços regulares de ensino, dos modos de sua gestão e de sua condução bem articulada, quer se passem numa só escola, em várias delas, ou em muitas que um sistema definido venham a compor. Ora, como em outros domínios de investigação, duas atitudes gerais são aí possíveis, e que se podem caracterizar como atitude imitativa e atitude de investigação sistemática, respectivamente. 30 Organização e Administração Escolar [ a) Atitude imitativa A primeira se apoiará na convicção de que todos os problemas possam ser atendidos pela ação de normas derivadas de imitação daquilo que já se venha praticando em empreendimentos similares, a que certos elementos de inspiração e arbítrio pessoal possam ser juntados. Organização e Administração será, nesse caso, aquilo que organizadores e administradores práticos já estejam fazendo, tal como o possam fazer, ou tal como a isso sejam forçados pela rotina, a pressão de certas circunstâncias ou o apelo a uma vaga capacidade pessoal, a que não raro se empresta valor mágico, comumente designada com o nome de “tino administrativo”. [ b) Atitude de investigação sistemática A segunda atitude dessa se distingue pelos fundamentos e resultados a que chega. Baseia-se no pressuposto de que os fatos e situações de estruturação e gestão, nos empreendimentos escolares como em outros quaisquer, admitem a observação e análise dos elementos de que se compõem; a compreensão das condições em que se processam, típicas e atípicas, favoráveis ou desfavoráveis aos objetivos que se tenham em vista; e, mais, a idéia de que em tudo isso haja situações cíclicas, isto é, situações que se repetem, e que, por isso mesmo, permitem a inferência de relações funcionais, base para que se chegue a certas conclusões explicativas, de valor teórico e prático. De posse dessas con- clusões, os profissionais de Organização e Administração melhor poderão distinguir e caracterizar as realidades em que tenham de interferir, segundo esquemas, ou modelos, que também lhes forneçam maior conhecimento técnico. Aplicando-se tais modelos, admite-se que profissionais qualificados possam não só analisar e entender situações já existentes, para bem conduzi-las, sem maior alte- ração, ou para mais a fundo modificá-las, quando esse seja o caso; ou, ainda, para a im- plantação de novos serviços quando deles se necessite, sem riscos ou com maiores probabilidades de êxito. Admite-se, enfim, na segunda atitude, que estudos sistemáticos de Organização e Administração se possam realizar nos serviços escolares, como em outros tantos domínios já se vem praticando, com resultados benéficos. Nenhuma razão, aliás, existe para que dessa segunda atitude venham a ser excluídos os serviços do ensino. Será, pois, legítimo tratar dos problemas da vida das esco- las, ainda que elas apresentem aspectos muito variados, quanto à gradação e extensão das formas de ensino, e a complexidade, real ou aparente, de seus vários graus, tipos e formas. [[[[[ Dificuldades que se apresentam a iniciantes As circunstâncias apontadas podem levar os que se iniciam no estudo da ma- téria a defrontar algumas dificuldades de ordem geral. Convirá, assim, que desde logo as indiquemos. [ a) O adjetivo “escolar” A primeira dificuldade pode resultar da limitação que se dê ao objeto de tais estudos, por sugestão do adjetivo escolar. Aposto ao nome Organização, parece ele indicar 31Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar que os estudos da matéria tenham de limitar-se ao que se realize no interior de cada escola, como ambiente fechado. Naturalmente que tudo quanto aí se passe é fundamental. Cuidar do assunto, sem uma suficiente visão dos elementos e condições de trabalho existentes nas classes de ensino, seria descabido. Mas pretender isolá-los do contexto maior a que dantes se fez referência, o da vida social, onde as escolas emergem e ao qual se destinam a servir, será igualmente menos razoável. Note-se que os problemas da vida escolar tanto interessam aos mestres e mais funcionários do ensino quanto às famílias, a grupos mais ou menos caracterizados que elas formem, segundo convicções políticas, credos religiosos, interesses econômicos ou, ainda, razões mais simples, como por exemplo, o de um mesmo local de residência; por tudo isso, não podem deixar de interessar também às autoridades governamentais, ou aos poderes públicos, razão por que sistemas públicos de ensino têm-se criado e expandido. O adjetivo escolar, portanto, não só se refere a cada escola como objeto particular, mas a conjuntos, de determinadas escolas ou de todas elas. O mesmo se passa, aliás, com denominações similares, como, por exemplo, administração hospitalar, que não se refe- re apenas à gerência de cada hospital; ou administração fiscal, que não se refere apenas à gestão de cada posto de coleta de impostos. [ b) Falsa compreensão das funções da legislação do ensino Pelo fato de existirem sistemas públicos de ensino, e, portanto, autoridades governamentais que deles tratam, uma segunda dificuldade poderá surgir. É a de admitir- se que todos os problemas de Organização e Administração devam ser considerados como função do poder político, não apenas no desempenho de ação geral, mas, por disciplinação estrita do trabalho de todo o ensino, através de leis e regulamentos taxativos. Ainda que a legislação escolar seja de grande importância (e isso veremos no devido tempo), não será acertado tomá-la como fonte primária e única dos conceitos e princípios que regu- lem a matéria. A razão é simples. Em sua maior parte, a legislação representa apenas um elemento instrumental para estruturação e gestão dos serviços, o qual no estudo de outros fundamentos tem de encontrar os seus verdadeiros princípios. [ c) Escalas de observação e aplicação A terceira dificuldade advém da extensão variável em que podemos considerar os fatos e situações concretas a estudar; ou seja, a escala de observação e análise de tais fatos e situações, bem como das escalas de aplicação que as conclusões de tais estudos possam permitir. Fatos e situações de Organização e Administração existem numa só classe de ensino, sob a responsabilidade de um único docente; no conjunto de uma esco- la graduada, com muitas classes e mestres, seu diretor e auxiliares; em agrupamentos de escolas, articulados por serviços gerais de manutenção, orientação e controle, sejam de mais reduzida extensão, como ocorre num distrito escolar, ou de feição mais ampla, tal como se dá num sistema regional ou nacional de ensino. Nesses casos mais amplos, além da variável extensão geográfica dos serviços, poderão os estudos ater-se a certos aspectos particularizados. Para exemplificar: os de 32 Organização e Administração Escolar planejamento geral ou parcial dos serviços; de orientação e controle de todo um sistema; de definição e articulação de cursos e programas; de questões relativas à construção e ao aparelhamento escolar; de formação inicial, recrutamento e aperfeiçoamento dos profes- sores; de adaptação dos procedimentos didáticos aos programas e nível do professorado; dos critérios de admissão, classificação e promoção dos alunos; e, enfim, de certas relações entre o ensino e as exigências da vida da comunidade próxima, as de cunho regional, ou as de todo o país, como conjunto mais extenso. Em qualquer dos casos, será possível analisar um só desses problemas, ou vários deles, diversamente combinados; e,assim também, considerá-los em relação a um só grau, ou a um só ramo do ensino, a dois, ou a todos, como partes articuladas de uma só estrutura. [ d) Aparente falta de unidade Questões tão diversas, por sua natureza e elementos, poderão receber elaboração conceitual, geral e comum, que a toda matéria imponha formulação orgânica e coerente?... Eis aí uma nova dificuldade, que também poderá perturbar os principiantes. Não será esse título comum, Organização e Administração Escolar, puramente conven- cional, ou arbitrário, segundo a posição de cada autor que, de umas ou outras dessas questões, venha a ocupar-se?... Para que essa dificuldade como as demais se afastem, convirá esclarecer a natureza dos fatos e situações que se devam entender como realidades da Organização e Administração Escolar. Em outros termos, deve-se aqui perguntar: “Como distinguir e classificar tais realidades a fim de que todas permitam elaboração conceitual coerente, para vantagem em compreender-se a estruturação e a condução de serviços escolares, já existentes, ou de serviços que se tenham de implantar?...” [[[[[ As realidades da organização e administração Quando se tomem para estudo as atividades da vida escolar, – como, aliás, as de qualquer outro empreendimento cooperativo, quer dizer, de ação conjunta de muitas pessoas – verifica-se esta coisa curiosa, e, na verdade, perturbadora: nenhum fato, ou nenhuma situação, isoladamente considerada terá ou deixará de ter significado para os problemas de Organização e Administração. Sim, nenhum deles, porque tal significado só aparece num dado conjunto funcional, numa certa estrutura, já entendida como desti- nada a alcançar determinados objetivos, previamente aceitos, e de obtenção possível segundo os elementos e condições existentes. Só nesse caso, quer dizer, quando situados num esquema geral que subentenda o relacionamento entre meios e fins, é que cada elemento, condição ou operação, assume real significado. Fora dessa hipótese, pouco ou nada poderão representar como realidades que bem se conceituem num dado sistema de referências. A possível estranheza que tal afirmação venha a causar desaparece quando consideremos não só os estudos da espécie, mas outros quaisquer. De fato, ao exami- nar os elementos de tudo quanto conhecemos, verificamos que eles se referem sempre a um esquema pelo qual certa perspectiva geral se terá estabelecido como base da investigação. Ou, mais claramente: nada do que sabemos, ou do que possamos saber, 33Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar sobre coisas e fatos resultará de características que nessas coisas e fatos estejam fixadas de uma vez por todas. O que acontece é que tais características serão percebidas, apreciadas e interpretadas, segundo esquemas conceituais prévios, com os quais os objetivos de nossa própria ação de conhecer, e, em conseqüência, os de atuar, se tenham relacionado. Digamos que desejemos estudar certas substâncias minerais: amostras de areia, pedras, quaisquer fragmentos de rochas. Nada parece mais simples. À primeira vista, essas coisas possuem atributos físicos que admitimos permanentes, ou dotados de carac- terísticas naturais constantes. Nelas podemos distinguir certo peso, forma, cor, densida- de. Considerando cada um desses atributos, ou vários deles, submetemos essas coisas a uma classificação qualquer. Mas também o poderemos fazer admitindo outros atributos, como os do com- portamento de cada amostra à ação do calor, da umidade, de correntes elétricas, da ação de reagentes químicos diversos; ou, se isso também nos venha a interessar, como teste- munhos de origem geológica e distribuição geográfica. Em outra hipótese, poderemos vê-las como substâncias que interessem a uma aplicação tecnológica definida, para exploração industrial. Ainda nesse caso, tudo pode- rá ser encaminhado na forma de estudo tecnológico geral, ou, ao contrário, com vista a aplicações econômicas precisas, como a exploração de determinadas jazidas, numa dada região. Por sua vez, tal exploração poderá relacionar-se com a idéia de implantação de uma empresa industrial privada, maior ou menor, ou a de um plano de ação político- social, que vise à melhoria das condições de vida de determinados grupos da população. Eis aí como substâncias, aparentemente tão simples, podem dar origem a es- tudos de feição diversa, porque para fins diferentes. Experimentemos estudar plantas e animais. Todos os esquemas dantes indicados poderão ser utilizados, cada um de per si, ou combinados, com referência a certas partes de cada planta ou de cada animal, ou do conjunto que cada um deles possa constituir. Além disso, outras indagações terão de ser desenvolvidas, as da ecologia, ana- tomia, fisiologia, citologia, ou genética de cada espécie, ou mesmo de cada um daqueles seres vivos, em especial. Digamos, por fim, que desejemos estudar o homem, seus grupos e instituições, sua vida histórica, social, moral, política, artística, religiosa. Então, as perspectivas serão muito mais numerosas. Tanto é assim que, se apresentarmos os mesmos fatos sociais a um especialista em geografia humana, a um economista, político, educador, sociólogo ou historiador, de cada qual obteremos afirmações distintas com relação ao mesmo objeto real de estudo. Cada qual usará de seu próprio sistema de referências, isto é, de esquemas descritivos e explicativos de sua própria especialidade, com terminologia especial em cada caso. Com relação às mesmas coisas e fatos, obteremos respostas diferentes e, em cada caso, em linguagem especializada. Uns especialistas salientarão aspectos e relações em determinada escala, ou de certos conjuntos mais ou menos reduzidos; outros tudo verão em sistemas mais amplos. Uns falarão de limitado número de variáveis, outros apreciarão variáveis mais numerosas. Aceito o ponto de vista ou a perspectiva de cada especialista, as afirmações de cada qual terão entre si perfeita coerência e validade. Mui- tas poderão ser seriadas em esquemas crítico-interpretativos mais abrangentes que ou- tros. Isso não significará que, em seu campo próprio, cada qual não apresente certa soma de proposições verdadeiras. 34 Organização e Administração Escolar A conclusão, portanto, é uma só: tudo quanto sabemos com feição ordenada terá de obedecer a sistemas de referências, ou a esquemas conceituais, em que as coisas e fatos possam ser bem relacionados; ou, afinal, a perspectivas que ordenem e dêem significado real a noções que, de outro modo, permanecerão esparsas, ou desprovidas de maior sentido. As realidades do trabalho escolar não fogem a essa regra. Poderemos examiná- las de pontos de vista mais ou menos limitados, ou já referidos a conjuntos mais ou menos extensos, compreendidos segundo as funções que neles possamos reconhecer. Podemos estudar em determinadas escolas, por exemplo, só os seus alunos, e, ainda nesse caso, segundo certa perspectiva da Biologia, ou da Psicologia Diferencial. Pode- mos referi-los a grupos de idades, a situações de trabalho ou de jogo, analisando fun- ções sociais. Podemos estudá-los nas relações professor–aluno, em situações didáticas formais de cada classe de ensino, ou em outras, em mais amplos quadros das relações humanas. A isso se chegará considerando-se as influências familiares, as dos grupos de vizinhança, as de toda a comunidade próxima. E será ainda possível estender tal estudo à avaliação de influências regionais, referentes à economia, à estrutura profissional, aos costumes, à história, aos próprios instrumentos de comunicação que, num dado ambiente e em dado momento, estejam tendo existência. Por fim, todos esses aspectos, como ainda outros, poderão ser considerados numa só extensa e complexa estrutura, na qual passemos a ver as escolas como instituições regulares que a vida coletiva estabelece, mediante certas condições e para o preenchimento de determinadas funções. Comisso, relacionamos aspectos orgânicos e funcionais, indivi- duais e da vida coletiva, formas de instrumentação e de gestão de serviços, tudo em corres- pondência com uma definição prévia de objetivos que tenhamos admitido como justos, úteis e necessários. Será possível apreciá-los, nesse caso, sob a forma de grandes empreen- dimentos dotados de sentido próprio e de uma instrumentação que a tal sentido bem traduzam na prática. Nos fatos e situações que essa estruturação e essas formas de gestão apresentem, encontramos, em toda a sua extensão e complexidade, as realidades mesmas de que a Organização e Administração Escolar deve tratar. Mas, ainda aí, diferentes perspectivas gerais poderão ser utilizadas, segundo os esquemas teóricos e interesses práticos que, por estas ou aquelas razões, tenhamos de preferir para conveniência do estudo. Tais perspectivas não se isolam de outras tantas, utilizadas nos estudos gerais da Educação, convindo assim que as examinemos. Se não o fizermos, será natural que certas dificuldades reapareçam e que os iniciantes retornem àquela impressão de ausência de unidade no conhecimento da matéria. [[[[[ Perspectivas gerais de estudo Várias são as perspectivas gerais adotadas nos estudos da Educação como processo social, relacionado com os problemas de estruturação e gestão de serviços regu- lares de ensino, e, portanto, de interesse direto ou indireto na concepção da Organização e Administração Escolar. Delas aqui destacaremos três, suficientes para esclarecimento inicial. Podemos figurá-las em círculos concêntricos, o que logo sugere que cada uma na anterior se apóia, ainda que cada qual possa receber tratamento próprio, com formulação sistemática. 35Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar [ a) Perspectiva histórica A primeira, de todas a mais ampla, pode ser chamada de perspectiva histórica ou, se assim se quiser, sociocultural. Os serviços regulares de ensino e, em conseqüência, os fatos de sua estruturação institucional apresentam-se em dada ordem no tempo. São realidades derivadas e nutridas pelas condições de um amplo processo, do qual, afinal de contas, não se separam. A ele costumam os autores denominar processo educacional, compreensivo de todas as formas pelas quais as gerações mais amadurecidas influam nas que menos o sejam, com a comunicação de seus modos de fazer, sentir e pensar, ou, em termos mais precisos, a comunicação de técnicas, idéias, sentimentos e aspirações. Indiferenciado, a princípio, esse processo se confunde com o de assimilação cultural. A pouco e pouco torna-se, porém, ação intencional, para assumir nas instituições escolares caráter sistemático, através de formas técnicas crescentemente apuradas. Nas escolas e, portanto, nos moldes de sua estrutura e formas de gestão, assim queiramos ou não, representa-se um contexto cultural, no qual se refletem condições ecológicas, econômicas, lingüísticas, políticas, religiosas, estéticas, morais. A vida escolar de um lugar qualquer e em qualquer tempo não resulta, em seu conjunto, do arbítrio de mestres e administradores, nem das intenções particulares de cada aluno, nem das leis e regulamentos existentes. A razão, fácil de compreender-se, é esta: tudo isso assenta numa base comum, muito mais larga e profunda.1 Quando assim estudemos os serviços escolares, não excluiremos deles a vi- são de certas formas de estruturação e modos de gestão, sem que com isso estejamos examinando, porém, em sentido próprio, os fatos que mais diretamente interessam à ação de organizadores e administradores. O que então fazemos é a crônica das institui- ções do ensino, capítulo de não pequena importância na História da Educação, e indis- pensável subsídio a muitas das investigações da Sociologia Educacional.2 1 Ver Introdução ao estudo da Escola Nova e Educação comparada, em que o Autor largamente examina o processo educacional como realidade social. Cf. Havighurst e Neugarten (1957) e Durkheim (1955). 2 O mesmo se passa em relação aos demais domínios do estudo social. Há a história do direito, das instituições econômicas, da arte, etc., que não se confundem com a Sociologia Jurídica, a Economia Social, a Sociologia da Arte, etc. 36 Organização e Administração Escolar [ b) Perspectiva dos estudos comparativos A segunda perspectiva nessa primeira se apóia, sem que com ela deva ser confundida. Ao invés da filiação das instituições escolares na continuidade temporal, que conduz a um tratamento predominantemente descritivo, estabelece-se a pesquisa das razões da articulação geral ou dos fatores determinantes da existência das institui- ções escolares, na forma de sistemas de ensino de cada povo ou de cada nação, numa dada época. Mediante confronto entre condições e resultados, em diversos meios, caracterizam-se variáveis, e retiram-se inferências de ordem geral. Fatos e situações de estrutura e gestão dos serviços do ensino a tudo isso interessam, representando mesmo a base geral para importantes indagações. Não consti- tuem, contudo, ainda e também, o objeto das preocupações diretas dos organizadores e administradores escolares. O que fazem é dar corpo a investigações de um ramo da análise do processo educacional, ramo que tem o título de Educação Comparada. Servem-se elas da legislação geral de cada país, bem como da legislação específica de ensino, dos dados numéricos sobre o movimento das escolas em seus vários graus e ramos, e, assim também, de subsídios da História, da Economia, da Política, da Sociologia e da Filosofia da Educação. Representam grande domínio de estudos interdisciplinares que não se identificam, porém, com os da Organização e Administração Escolar como tal considerada (Lourenço Filho, 1965). Quer dos estudos históricos, quer dos de feição comparativa, certo ponto comum vem a ressaltar com referência aos serviços escolares em sua composição e funções. É este: as escolas se constituem, desenvolvem-se e operam no pressuposto da realização de objetivos determinados, o pressuposto de que produzam alguma coi- sa, tida por certos grupos e classes, ou por certo consenso da vida coletiva em geral, como útil, justa e necessária. Nem por outra forma se entenderia a existência, por toda parte, das instituições de ensino na forma de amplos, complexos e custosos empreendimentos. Esses objetivos perderiam seu sentido prático se não estivessem apoiados numa estruturação que, de modo satisfatório, os pudesse atender, e, com isso, numa gestão de serviços que a tal estrutura mantivesse em razoável nível de eficiência. Para que alcancem resultados que não sejam meras concepções de fantasia, têm as escolas de empregar, portanto, meios hábeis, ou instrumentação adequada, com recursos materiais e pessoais, regulados de modo racional em seu funcionamento. É isso que permite pensar no planejamento de seu trabalho, na coordenação de tais elementos e recursos, numa execução de tarefas que se aprimore pela experiência, e cujo rendimento possa ser, enfim, ava-liado mediante critérios objetivos, de maior sentido técnico. [ c) Perspectiva de eficiência Esse esquema representa a terceira perspectiva, pela qual, na sistemática pedagógica corrente, são afinal definidos os estudos de Organização e Administração Escolar. Cabe-lhe o nome de perspectiva finalística ou, de forma mais simples, perspecti- va de eficiência. Não é que com isso se pretenda impor aos serviços escolares uma estreita visão mecânica, a qual não se adequaria à realidade dos fatos. O que se deseja é imprimir 37Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar às atividades humanas, que neles se representem, sentido funcional, por maior conhecimento e gradação dos fins, e articulação mais produtiva dos elementos e recursos com que esses fins possam ser propostos e satisfatoriamente alcançados, ou a racionalização dos meios empregados.3 As três perspectivas, convirá repetir, não se opõementre si. Certos conceitos gerais a elas são comuns. Contudo, graduam os problemas do geral para o particular, cada qual estabelecendo os seus próprios modelos de descrição e explicação, seus constructos e instrumentos de análise peculiares. Na perspectiva histórica, as questões da educação são propostas em termos socioculturais os mais amplos, ou, como certos autores modernos preferem dizer, antropológicos. Na comparativa, fala-se de estruturas e funções gerais dos sistemas nacionais de ensino, segundo aspectos que se tipificam a cada época, à vista de condições gerais, conjugadas por ação política. Na perspectiva de eficiência, fala-se em termos de objetivos graduados, a serem obtidos por instrumentação racional, com maior domínio da ação intencional de educar, através das escolas, públicas ou particulares, e dos agrupamentos maiores ou menores que formem, em redes de estabelecimentos de um só nível de ensino ou de todos eles. Tal perspectiva supõe a graduação de objetivos defini- dos, segundo a compreensão das funções sociais que as escolas, como outras instituições complementares, devam atender, mas, assim também, da boa coordenação dos elementos e dos recursos que representem meios idôneos para a consecução dos fins propostos, na forma de implementos técnicos satisfatórios. A Organização e Administração Escolar terá assim de considerar situações complexas de feição concreta que deverá descrever e analisar; de compreender em tais situações as relações funcionais possíveis e desejáveis no processo educacional; de criar uma instrumentação com que se possa atender a projetos, planos ou programas definidos; e de utilizar, enfim, procedimentos para conveniente avaliação do trabalho que as escolas realizem. [[[[[ Método, organização e administração Delineamos a perspectiva pela qual certos aspectos funcionais dos serviços do ensino são vistos como realidades de Organização e Administração Escolar. Devemos agora aprofundar as idéias expostas. Em sua essência, o esquema lógico nelas contido não se diferencia do que utilizamos na visão metódica de uma ação intencional, ou seja, naquela em que procure- mos substituir a improvisação e o empirismo por uma direção unificada, passível de desenvolvimento racional. É, pois, dessa noção, a de ação metódica, que devemos partir. [ a) Ação metódica A ação metódica apresenta-se simples e clara quando a examinemos na atividade de uma só pessoa. Quando alguém deseje realizar alguma coisa, começa por 3 Autores há que pretendem separar de modo cabal a perspectiva “finalista” da “de eficiência”, como Mosher e Cimmino (1950), sem que apresentem, no entanto, razões suficientes para isso. 38 Organização e Administração Escolar elaborar uma concepção a que dá a forma de um projeto, ou seja, na qual estabeleça a qualidade e a quantidade do que deseje obter. Isso feito, coteja essa concepção com as realidades e condições da situação concreta em que se encontre. Escolhe, então, elemen- tos e operações, propondo-se a si mesmo uma técnica de execução, que examina e critica. Em seguida realiza operações que haja admitido como eficazes para a conquista do alvo desejado. Confere, por fim, o que tenha obtido com a concepção ideal, ou a do projeto de onde tenha partido. Desse modo, poderá avaliar a eficiência do trabalho realizado. Se acaso a execução não haja obedecido às melhores condições, e o resultado não se apresente perfeito, a pessoa poderá suspeitar da qualidade dos elementos e das operações que tenha empregado. Quando nesses pontos tudo pareça satisfatório, será para o seu próprio projeto que deverá voltar a atenção, já porque em termos absolutos não lhe pareça ele agora aceitável, já porque, nos termos relativos dos recursos disponíveis, não se tenha mostrado exeqüível. O caráter metódico de uma operação qualquer não residirá, portanto, na seqüência formal das operações em abstrato, ou na simples escolha de uns elementos, e não de outros; mas, na visão unitária do empreendimento, que se integrará em certa ordem de fases e momentos definidos, segundo o problema que se haja proposto à ação intencional. No caso de atividade de uma só pessoa, esses momentos ou fases somente dela dependerão. A integração exigirá a ação de capacidades que essa pessoa possua, no gênero e na espécie da realização prevista. Mas, na hipótese de atividades que, por suas condições de magnitude, duração e complexidade, exijam o concurso de muitos agentes, a situação mudará de figura. [ b) Organização e Administração Se muitos os agentes, as atividades terão de distribuir-se por eles, ou por gru- pos em que funcionalmente se diferenciem. Umas pessoas poderão receber o encargo de definir os objetivos ou alvos gradativos em que as finalidades devam decompor-se por exi- gência do trabalho; outras, o de reunir e coordenar elementos, a fim de que efeitos graduais sejam obtidos; ainda outras, o de executar determinadas operações, em certa seqüência, coordenadas por alguém; e outras, ao cabo de tudo, o de conferir a produção, nos termos da concepção inicial do projeto e do programa de atividades que se tenha adotado. É, nesse caso, o da ação de algumas ou de muitas pessoas que trabalhem de concerto, que se propõe o problema de uma estruturação que envolva divisão do trabalho e gestão definida das operações levando, assim, aquela idéia de ação metódica, funda- mental, a desdobrar-se nas noções derivadas de Organização e Administração (March, Simon, 1958; Mosher, Cimmino, 1950). Os termos organização e administração tanto se empregam, porém, na linguagem comum como na linguagem técnica, podendo, por isso, sugerir diferentes coisas a diferentes pessoas. Em primeiro lugar, à semelhança do que se dá com outros nomes de similar estrutura, eles tanto designam um processo, no caso, a ação de organizar e administrar, quanto o resultado dessa mesma ação e, neste caso, a coisa organizada ou o empreendi- mento administrado. As mesmas palavras evocam ora aquela situação dinâmica, ora su- gerem a distribuição equilibrada de coisas e pessoas que podemos imaginar prontas para 39Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar agir, mas ainda em repouso. Comparem-se, por exemplo, as variações do significado do mesmo nome nestas duas orações: “A empresa está em organização”, isto é, submetida a um processo de estruturação; “É excelente a organização que esta escola apresenta”, quer dizer, a estrutura e as normas de funcionamento que ela possua, como resultado de um trabalho prévio de estruturação de elementos, métodos e normas. Como quer que seja, é dos verbos organizar e administrar que devemos partir, a cada um examinando de per si, e nas relações que justifiquem sua junção, no título geral de nosso estudo. [[[[[ Organizar e administrar Órgão, na origem, significa instrumento. Em sentido amplo, organizar será instrumentar, aparelhar, combinar ou dispor elementos, a fim de que algo bem funcione. Na História Natural, falamos de corpos organizados e não-organizados, segundo a com- posição ou estrutura em que um dia tenham funcionado, ou que funcionem. Na Biologia, em particular, entendemos a organização como processo básico que, nos mais diversos seres vivos, organismos, tem expressão, revelando-se em sua origem, crescimento, diferenciação e afirmação autônoma. Por extensão, o mesmo conceito aplica-se a formas de vida coletiva ou social. Os homens existem em grupos, que se fazem e desfazem, avançam ou retrogradam, segundo graus de organização biológica, econômica, política, educacional, religiosa, moral. Em qualquer dos casos, os estudiosos das formas de organização da vida humana nela distinguem certos elementos constantes. O primeiro diz respeito à ação congregada de duas ou mais pessoas. Onde não haja uma situação que exija esforços cooperativos, nada haverá a organizar. O segundo deriva dessa mesma situação por um duplo movimento, o da divisão de tarefase o de sua coordenação sistemática, para os fins solidários que se tenham em vista. O adjetivo sistemático sugere conseqüências que se tornam parte integrante do processo de organização. Uma delas representa certo grau de previsibilidade do comporta- mento alheio, ou a expectativa de que, com alta probabilidade, ele se verifique numa dada direção, não em outra. Tais resultados acrescentam à idéia de organização um novo elemen- to que nela se torna substancial: o de que a atividade humana pode desenvolver-se em 40 Organização e Administração Escolar conjuntos, com fins inerentes à estrutura organizada, e não apenas aos interesses particulares dos que nela se associem. Onde vários ou muitos homens trabalhem em comum, estabelece-se uma organização de fato, da qual vem normalmente a emergir uma organização regulada por efeito de normas de administração tendentes a imprimir mais eficiência ao trabalho. Essas normas não representam um ingrediente que se possa ou não juntar ao processo, mas um resultado que dele deflui. Em dado momento, havendo consciência dos objetivos visados e dos recursos que tornem a ação mais eficiente, haverá necessidade de uma definição das esferas de responsabilidade na ação conjunta e, em conseqüência, de planos de sua regulação, ou do reconhecimento de níveis de autoridade. A outra coisa não corresponde o conceito de administração. A ação de administrar, (de ministrar, servir), passa então a ser compreendida como a de congregar pessoas, distribuir-lhes tarefas e regular-lhes as atividades, a fim de que o conjunto bem possa produzir, ou servir aos propósitos gerais que todo o conjunto deva ter em vista. Nem por outra razão comumente se unem as duas noções, falando-se, por exemplo, da organização administrativa de uma empresa, de uma fábrica, de um sistema escolar. Havendo trabalho conjunto e, sobretudo, continuado, não poderá ele manter-se organizado sem uma distribuição de níveis de autoridade e de esferas de responsabilidade.4 Em sentido lato, organização e administração representam, portanto, aspectos de um mesmo e só processo, o da coordenação da atividade de muitas pessoas em empreendimentos solidários. Mas, ainda que fundamentalmente assim tenhamos de entender, não se poderá dissimular a distinção que cada um desses aspectos assume na prática, e, em conseqüência, o significado particular que adquirem, quer na linguagem usual, quer na terminologia técnica. A explicação reside no ponto de partida que tomemos para descrever os elementos, recursos e operações da produção. Quando pelas unidades mais simples iniciemos a descrição, normalmente pensamos em termos de instrumentação gradual, a que mais se liga o verbo organizar. Nesse sentido, falamos da organização de uma oficina, de uma fábrica, de uma escola: admitimos um local, instrumentos de trabalho, pessoas que possam desempenhar dife- rentes funções e, por fim, os elementos de coordenação, chefia de setores e a articulação deles, em órgãos de comando unificado. Os elementos constitutivos vêm primeiro; em seguida, as operações; por último, a disposição formal do todo, numa compreensão uni- tária. A marcha de nosso pensamento será das unidades funcionalmente mais simples para as mais complexas, de baixo para cima, digamos assim. Dar-se-á o contrário, quando encaminhemos a descrição a partir de um todo unificado, já existente ou de possível existência. Então começaremos pela previsão do que se tenha de produzir, pelo planejamento geral do empreendimento, a direção de gran- des conjuntos ou departamentos, a separação deles em unidades menores de operação e, assim, sucessivamente. Nesse caso, definimos antes os níveis de responsabilidade e au- toridade, noções centrais do conceito de administração, não como efeito de uma organi- zação de fato, mas como construção lógica inicial, a de uma organização previamente moldada, em termos de operações formais. A justa compreensão dessas duas expressões, organização de fato e organização formal, parece-nos de grande importância. Primeiramente, esclarece o duplo 4 Estas noções, fundamentais na matéria, serão por todo este volume desenvolvidas. 41Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar emprego do termo a que dantes aludimos, com implicações de ordem dinâmica e estática: a estrutura a organizar, o processo de tudo bem dispor para que o conjunto atinja os obje- tivos previstos; e o empreendimento organizado, cada pessoa e coisa em seu lugar, a fim de que entre em função onde, quando e como convenha. Ao observarmos como as organizações humanas surgem, crescem e se aperfeiçoam, ou, ao fazer o que se pode chamar a história natural das organizações, vemos que o aspecto administrativo delas emerge como algo indispensável à continuidade do processo. A noção de administrar funda-se primacialmente na concepção de trabalho cooperativo, onde cada participante venha a ter suficiente consciência dos fins comuns e dos procedimentos dife- renciados para que tais fins se alcancem. Os esquemas administrativos aparecem, portanto, como definição gradual de esferas de responsabilidade e níveis de autoridade. Organização e Administração, como conceitos gerais, é esse o ponto de vista de um significativo grupo de especialistas em assuntos gerais de organização e administração, os quais admitem que se possa falar de uma Ciência da Organização. Para eles, o conceito de organização é fundamental, e o de administração, derivado ou conseqüente. Seus estudos têm sido influenciados pelas indagações da história e dos estudos sociais em geral, e, mais recentemente, das relações humanas; admitem uma compreensão genética e o pressuposto implícito de que, vivendo os homens em grupos, necessariamente tendem a aperfeiçoá-los numa crescente consciência de interesses comuns e de métodos solidários de ação. De outra parte, embora não se abandone de todo esse modo de ver, poder-se-á observar que, na marcha do processo de organização, influi a adoção de certos modelos de construção lógica, em que se apóie a coordenação dos instrumentos e recursos de ação futura. Então, haverá previsão, planejamento e diferenciação técnica nos empreendimentos humanos, quaisquer que eles sejam. Assim, outro grupo de especialistas daquele veio a destacar-se. É o que dá primazia ao nome e ao conceito de administração, definido como ação de prever, organizar, graduar níveis de responsabilidade, dirigir, coordenar, informar e verificar. Como se vê por essa enumeração, a ação de organizar (entenda-se organização formal) representaria uma realidade de estruturação, como passo da função de administrar, assim entendida como mais ampla ou completa. Ao invés de admitirem os especialistas des- se grupo uma Ciência da Organização, o que pretendem é que haja apenas uma Ciência da Administração. Em seus estudos observam-se influências de duas ordens: as que provêm do enorme crescimento das empresas industriais nos últimos tempos, as quais, por condições de aplicação da moderna tecnologia, apresentam problemas muito complexos de coordena- ção das atividades humanas, e as que derivam também do alargamento das funções estatais, hoje muito variadas e crescentemente submetidas às influências da técnica.5 Contudo, um terceiro grupo existe, que não vê qualquer inconveniente em que se usem ambos os nomes, separadamente ou combinados, desde que, em cada caso, precisamente se saiba do que se esteja tratando. Os especialistas que dele participam entendem que não há razão para falar de uma ou de outra coisa como objeto de ciência autônoma. Para eles, o processo primário e fundamental será ainda mais amplo, o da coordenação de elementos materiais e pessoais para fins determinados. Essa coordenação terá de ser estudada em situações concretas sempre variáveis; poderão tais estudos, no entanto, permitir inferências que justifiquem 5 Cf. Gulick e Urwick (1937). Para visão prática das duas correntes primeiramentereferidas podem ser vistos Dutton (1931) e Tead (1951), que aqui se citam, em especial, por se encontrarem traduzidos em português. 42 Organização e Administração Escolar princípios gerais, a serem aplicados a situações concretas similares, desde que conveni- entemente analisadas. O importante para eles não é a elaboração de uma ciência, mas sim, de uma ampla metodologia, destinada a compreender e a regular qualquer tipo de produção eficiente, previamente definido, em qualidade e quantidade. A ação de organizar e administrar é objeto de estudo, mas, depois dele, torna- se atividade prática racional, em face de situações concretas definidas, as quais se discri- minam mediante conceitos e instrumentos de análise adequadas, segundo as formas de produção e as escalas em que se desenvolvam. O relacionamento de certas funções, co- muns a unidades de umas e outras escalas, poderá determinar planos para aplicação mais generalizada no que toque a empreendimentos de tipo similar. Para eles, organização e administração apresentam-se como conceitos técnicos, ou se assim quisermos dizer, como normas para aplicação de uma arte. É essa a maneira de ver mais generalizada entre os que têm cuidado das realidades de estruturação e gestão dos serviços escolares, os quais, para esse efeito, podem e devem ser apreciados sob diferentes escalas e, dentro delas, em setores, que diversamente relacionem elementos, condições e operações.6 Convirá, desde logo, indicar de maneira prática esses aspectos. [[[[[ Diferentes escalas e setores de estudo As realidades de Organização e Administração em qualquer das concepções dantes referidas pressupõem, como vimos, pessoas em trabalho cooperativo, ou em grupos, para isso estruturados. Como em outros empreendimentos, nos do ensino, esses grupos formam conjuntos de extensão variável e composição mais ou menos complexa. Admitem, assim, diferentes escalas de descrição. Das indagações que em relação a umas ou a outras se façam, retiram-se conclusões que podem ser diversamente combinadas, tanto para os fins de descrição e explicação em teoria, quanto para os de aplicação prática numa dada estrutura, para medidas de gestão, ampliação e reforma; e, assim, também, através de elaboração teórico-prática para implantação de novos serviços escolares, onde sejam necessários. [ a) A classe O grupo básico em que podemos apreciar as realidades de organização e administração desses serviços é o que resulta da reunião de discípulos sob a chefia de um mestre, isto é, a classe de ensino. Onde ela se apresente, surgem realidades de qualquer das espécies referidas. A classe é a célula, a unidade básica. 6 É mesmo curioso observar que, em grandes obras de referência, como a Encyclopedia of educacional research (Monroe, 1943), os estudos de Organização e Administração Escolar não aparecem destacados com feição unitária, mas apenas citados nos diferentes graus e ramos do ensino. Certos aspectos gerais, no entanto, aparecem nas seções que tratam dos problemas de investigação educacional. Em outras obras do mesmo gênero, como na terminologia pedagógica mais corrente, o termo organização escolar é freqüentemente empregado para indicar, no sistema escolar de cada país, a estrutura formal estabelecida quanto aos graus de ensino e seus ramos; administração escolar, por sua vez, designa os órgãos de direção e controle dos sistemas públicos de ensino. É essa a terminologia geralmente seguida nos estudos de educação comparada. 43Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Mas poderá ela estar inserida num conjunto formal maior, o de uma escola graduada que, com outras classes, se constitua. Então, certos aspectos de organização e administração se modificam, pelo que o conjunto a considerar será a escola, não a classe, em particular. Realmente, o trabalho de cada classe terá de aí coordenar-se com a ação das demais. Na concepção de objetivos comuns a todas, cada uma delas ocupará certa posição definida, com responsabilidades, nesse subconjunto. As atribuições de gestão que, na escola de uma só classe, constituem, na prática, encargos cumulativos do professor, passarão a distribuir-se por um diretor e auxiliares. [ b) Conjuntos e subconjuntos Um grupo de escolas, qualquer que seja o seu tipo, poderá ser visto como um novo e mais complexo conjunto. As escolas serão então suas partes, ou subconjuntos, daquele agregado mais amplo. A mesma diferenciação das funções de organização e ad- ministração aparecerá, deslocando a responsabilidade de muitas delas para outras pessoas, além do diretor da escola. Isso poderá ser observado num agrupamento de escolas, públicas ou particulares, que entre si se articulem, tendo em vista certos objetivos gerais de trabalho, que as levará a atender a determinadas linhas de coordenação geral. No caso dos sistemas públicos, normalmente essas linhas se estendem por áreas geográficas, chamadas distritos ou circunscrições de ensino. Nesses conjuntos, uni- dades complexas poderão existir com linhas de coordenação diferenciadas, de um lado para as instituições mantidas pelos poderes públicos, e, de outro, para as instituições criadas e mantidas pela iniciativa particular. Ainda nessa hipótese, os distritos ou cir- cunscrições normalmente se inserem em estruturas ainda mais extensas do ponto de vista geográfico, na forma de sistemas regionais ou nacionais de ensino. Formas definidas de organização e administração continuarão a existir em todos esses conjuntos, ou unidades complexas, que uma dada estruturação geral constituam. Segundo a visão dessas formas, cada unidade ao mesmo tempo poderá ser compreendida como conjunto, ou como subconjunto. Em qualquer caso, professor, dire- tor, inspetor e chefes de serviços gerais de orientação, manutenção e controle, tanto exercerão funções práticas de organização como de administração. Com freqüência assim não o entendem, exceto, os profissionais do ensino. Se perguntarmos a um professor se ele administra a sua classe, ou se participa da administração do conjunto em que trabalhe, será quase certo ouvirmos resposta negati- va. Ele dirá que organiza a sua classe, não que a administra. É que, de seu trabalho criador, elimina o que lhe pareça pertencer a esse último aspecto. Como organização ele sentirá o preparo das lições, sua execução, o contato direto com os discípulos, tudo enfim em que mais diretamente ponha alguma coisa de sua própria criação. “Adminis- tração” serão as exigências do diretor ou do inspetor, “coisas afinal bastante aborrecidas”. Também freqüentemente diretores e inspetores dirão que não imprimem à organização de sua escola ou de seu distrito maior eficiência, como o desejariam, em virtu- de de exigências “administrativas”. Ainda em escalões mais altos, em órgãos usualmente chamados “técnicos”, muitas vezes essas queixas se repetem, dirigidas contra outros ór- gãos, pejorativamente apelidados de “meramente administrativos”. Havemos de ver, a seu tempo, os motivos dessa distorção de conceitos, até certo ponto justificada, na prática. 44 Organização e Administração Escolar [ c) Gradação O que por ora convirá mostrar é que há conjuntos que se inserem uns nos outros, e que assim determinam diferentes escalas na estruturação e gestão dos serviços do ensino, pelo que estabelecem uma gradação a ser funcionalmente apreciada. Em termos de descrição empírica, essa gradação assim se apresenta: 1) Classe de ensino – unidade básica, ou conjunto de 1º nível, pelo trabalho cooperativo de um mestre e um grupo de alunos; no mestre confluem fun- ções de organização e administração; no regime comum das escolas chama- das isoladas, singulares ou nucleares, o mestre responde pela quase totali- dade delas, o que já não ocorrerá nas escolas com ensino graduado; 2) Escola graduada – unidade complexa, ou conjunto de 2º nível, que se re- presenta pela coexistência de várias classes, cadaqual com um mestre, num só estabelecimento; as responsabilidades de gestão, já diferenciadas, criam a figura do diretor e de auxiliares da administração; 3) Rede de escolas – as quais tanto podem ser isoladas ou graduadas, e de um só grau de ensino ou de todos. Assim se entendem conjuntos mais amplos, que podem ser constituídos de estabelecimentos públicos ou particulares, ou de ambas as espécies. Os nomes distrito, circunscrição ou círculo escolar são aplicados a redes de escolas em área geográfica delimitada; referem-se não apenas a uma organização de fato, mas formal, com características pró- prias; essa organização poderá incluir escolas de vários tipos, umas e outras diversamente relacionadas com certos órgãos gerais de chefia e controle; 4) Sistema local de ensino – compreensivo de vários distritos ou circunscrições; poderá incluir estabelecimentos subordinados a certos ór- gãos de direção e administração oficial, bem como órgãos coletivos de representação popular, para efeitos consultivos ou deliberativos; 5) Sistema regional de ensino – de constituição similar à dos sistemas locais, mais ampla e desses abrangentes, caracteriza-se antes de tudo por base geográfica mais extensa, e serviços unificados de gestão, mais complexos; 6) Sistema nacional de ensino – normalmente conterá subsistemas regionais, com modalidades variáveis, quanto aos esquemas de organização e administração, tais sejam os princípios derivados da divisão político- administrativa de cada país, sua filosofia social, e tendências gerais da vida econômica, como de certas tradições culturais. É possível estudar cada um desses conjuntos de per si, como unidades que se caracterizem por objetivos mais ou menos delimitados, e pelas atividades que de- vam exercer, admitindo-se maior ou menor apoio recíproco. O modo de raciocinar é, então, o seguinte: “Mantendo-se tudo mais nas condições previstas, as coisas neste conjunto limitado dever-se-ão passar, precisamente, nesta ou naquela forma, não em outra”. Ou, mais resumidamente: “se... então”. É possível estudá-los também em suas recíprocas relações, admitindo-se cada conjunto como unidade definida, ao mesmo tempo que subconjunto de estrutura mais ampla que se lhe siga e, assim, sucessivamente. Ainda, sob feição teórica, poderão ser analisadas não só as relações estruturais que nos levem a admitir a inserção de uns conjuntos em outros, até a maior família deles, 45Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar e assim também as relações funcionais de um só tipo de escolas ou de vários tipos. Podem ser as que interessem ao planejamento geral, ao aprovisionamento de material e provi- mento de pessoal, financiamento, construção de edifícios, formulação de programas, normas de direção geral, inspeção e controle do rendimento. [ d) Setor Nesse caso, não é a escala das realidades a estudar que diretamente importará, mas certo setor, segundo o qual diferentes unidades de estudo se articulem entre si, agindo e reagindo sobre as demais. Aspectos particularizados dos serviços poderão ser assim tratados com relação a todos os tipos de escolas, quaisquer que sejam os graus e ramos em que o ensino se apresente. Mas poderão também ser tratados para escolas de um só grau, ou de um só ramo didático; ou, então, para aspectos particulares que exijam análise técni- ca especial. Será o caso de um serviço de inspeção, unidade de função intermediária; ou o de formação de professorado, unidade de função convergente. É isso que dá motivo à pluralidade de ramos especializados com que a matéria se apresenta em muitos textos. É comum tratar, de forma sistemática, como se vê em toda uma vasta literatura nas mais diversas línguas, de questões de Organização e Administração de um só grau de ensino: o primário, o médio, o superior. É também comum que se cuide de um só e único problema, ou de um grupo de problemas afins, com relação a todos os tipos de ensino, num mesmo grau, ou mesmo em dois, ou em todos. Dão eles matéria a setores particularizados de estudo.7 Indagações sistemáticas de tal natureza tendem a estabelecer métodos gerais de Organização e Administração aplicados a determinados problemas. Explicitamente referem conceitos, enumeram elementos, recursos e condições. Terão maior sentido quan- do logo indiquem, de modo preciso, os pontos de vista da análise das realidades de que tratem e os instrumentos pelos quais essas mesmas realidades tenham sido operacionalmente definidas. O que contenham poderá ser, então, utilmente aplicado. [ e) Eficiência Assim, voltamos à perspectiva de eficiência, sem a qual os estudos de Organização e Administração Escolar perdem sua unidade e coerência, e, com isso, a sua própria razão de ser. Em face de finalidades precisas, que se tenham convenientemente caracterizado, é que os problemas da espécie se propõem, não diante de outra coisa qual- quer. As escolas surgem, multiplicam-se e se desenvolvem, como partes de um empreendimento geral, para que bem produzam, ou apresentem rendimento útil. Os princípios de Organização e Administração devem dizer-nos como tais finalidades poderão ser obtidas, mediante a definição de objetivos graduados e sistemáti- cos, formas de estrutura e operações, que evitem desperdício de tempo, energia e dinheiro. Ou será assim, ou tudo não passará de divagações estéreis. 7 É neste caso que se fala também de administração de pessoal, de material, de serviços auxiliares; ou, ainda, de administra- ção de professores, administração de alunos, administração de edifícios, etc., como adiante se verá. 46 Organização e Administração Escolar O remédio para isso será compreender que as providências de Organização e Administração não valem como fins, por si mesmas. Devem ser entendidas sempre, em qual- quer escala e qualquer setor, como um meio, o de tornar as instituições escolares mais eficien- tes, e que assim, justifiquem os esforços que reclamam para satisfatório funcionamento. Esse, o princípio básico, sem o qual a matéria perderá sua configuração unitária, mediante a articulação dos estudos próprios de cada grupo de problemas e cada setor particular de indagação. O desenvolvimento dessas idéias é que tem levado a criar doutrinas e teorias de Organização e Administração, válidas, como modelos gerais, para quaisquer empreendimentos, sem exceção dos de natureza escolar. É o que examinaremos no capítulo a seguir. [[[[[ Síntese do capítulo 1 Pelo trabalho que realizam, as escolas não se acham desligadas umas das outras. Todas têm funções comuns, que são antes de tudo as de favorecer o desenvolvimento indivi- dual dos alunos. Mas esse desenvolvimento não se dá no vazio; dá-se num ambiente social para que os alunos nele melhor se ajustem. Em termos práticos, as escolas existem para atender ao que, das crianças e jovens, desejem e esperem as famílias, centros de trabalho, instituições políticas, organizações cívicas e religiosas. O trabalho das esco- las não compreende todo o processo educacional, mas apenas a parte dele que se institucionaliza, quer dizer, a que se torna mais deliberada, gradual e sistemática. 2 Deve-se partir dessa compreensão fundamental no estudo da Organização e Administração Escolar. Nele, uma de duas atitudes pode predominar: imitativa, ou apenas fundada na rotina; e de investigação objetiva, mediante análise dos propósitos do ensino e das situações da estruturação de seus serviços. Essa última atitude permi- te bem caracterizar os fatos e neles discernir relações funcionais. Para isso será neces- sário adotar convenientes esquemas de descrição, que encaminhem explicação racional. O mesmo, aliás, se dá em todos os demais domínios do conhecimento quando deles pretendamos noções assim fundadas. Tais esquemas procedem de perspectivas gerais de estudo, de que três são capitais no domínio da educação: a histórica, a comparativa e a finalista, ou de eficiência. 3 É ade eficiência que se aplica aos estudos da Organização e Administração Escolar. Fundamentalmente, reclama proposições do tipo: “se ... então”. A oração condicional refe- re-se aos objetivos que se tenham em vista e às condições operativas possíveis. A oração conclusiva diz de projetos, planos ou programas coordenados pela intenção racional de, em cada caso, bem relacionar os meios com os fins. Tal noção se aclara quando se examine a ação individual, na qual numa mesma pessoa confluam projeto, ação e conferência do resultado. Bastará, então, falar de ação metódica. Quando, porém, se trate de atividades que exijam distribuição de tarefas por muitas pessoas, esse conceito já não será bastante. Ter-se-á de apelar para as idéias mais amplas de Organização e Administração. 4 Organizar, no sentido comum do termo, é bem dispor elementos (coisas e pessoas), dentro de condições operativas (modos de fazer), que conduzam a fins determinados. Administrar 47Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar é regular tudo isso, demarcando esferas de responsabilidade e níveis de autoridade nas pessoas congregadas, a fim de que não se perca a coesão do trabalho e sua eficiência geral. Em qualquer caso, haverá de considerar conjuntos e subconjuntos; isto é, o todo e suas partes, como ainda, subpartes. Enfim, unidades funcionais, mais ou menos extensas e complexas, que de unidades menores e mais simples se constituam. Nos serviços escola- res a unidade menor é a classe de ensino. Várias classes dão a escola; várias escolas dão uma circunscrição escolar; várias dessas circunscrições, um sistema de ensino. 5 Na caracterização e relacionamento de todas as partes e subpartes, para coordenação eficiente, com direção racional, é que se encontra o objeto de estudo da Organização e Administração Escolar. Por isso mesmo, nenhum elemento, fato ou situação isolada se apresenta como realidade a ser investigada. Mas, qualquer deles, ainda que isolada- mente pareça desprezível, assume real significado, quando em seu contexto funcional se considere. 6 É fácil entender que esse estudo seja praticado em várias escalas de descrição; em setores delimitados, quando isso convenha a fins práticos, como os do ensino em cada nível, o primário, o médio, o superior; ou em planos que compreendam questões comuns aos vários setores; é o que se dá em projetos de distribuição geral de recursos, de articulação de programas de ensino, de construções e equipamento, ou de critérios para controle geral. Isso explica a existência de ramos especiais da matéria, ainda que todos tenham de utilizar os mesmos conceitos básicos, instrumentos de análise similares e modelos de descrição e explicação, que bem se articulem entre si. 7 O fato de existirem ramos especiais pode levar os iniciantes a uma visão fragmentária ou à incompreensão da unidade geral da matéria. Será, porém, evitada essa dificulda- de, quando os estudantes partam de noções básicas que fundamentem uma concepção integral, tal como neste volume se faz. Para isso, convirá o exame prévio das teorias gerais de Organização e Administração, aplicáveis a quaisquer empreendimentos, sem exclusão, portanto, daqueles que os serviços escolares formem. O capítulo a seguir trata dessas teorias. 49Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 2 Teorias gerais de organização e administração: sua aplicação aos serviços escolares [[[[[ Significado das teorias Mostramos que, para o estudo dos fatos do ensino, três perspectivas se oferecem. Demos-lhes os nomes, respectivamente, de histórica, comparativa, e de efici- ência. Sem prejuízo de relações mútuas, que apresentam, vimos que cada qual caracteriza um campo próprio de indagações, e que a última é que se aplica aos estudos da Organização e Administração Escolar. Por ela, passamos a considerar os serviços de ensino em qual- quer de seus conjuntos, ou família de conjuntos, como empreendimentos, destinados a produzir rendimento certo. Rendimento e eficiência são, no entanto, conceitos que demandam uma relação. De uma parte supõem fins que admitimos como necessários, e, de outra, instrumentação idônea que a esses fins nos conduzam com maior probabilidade de êxito, menor dispêndio de tempo, energia e dinheiro. Até que ponto se deva consumir mais tempo poupando-se energia, ou energia poupando-se dinheiro, ou inversamente, isso dependerá dos modos do relacionamento entre meios e fins que, em cada situação concreta, possam convir. “Se... então...” Cada caso oferece, com efeito, sua problemática particular, cujo domínio por certas pessoas é que muitas vezes nos leva a admitir uma capacidade geral de “tino administrativo”, ou de certos atributos que possam explicar o êxito na condução de determinadas empresas. Claro que diferentes predicados – por exemplo, os de percepção rápida de situações complexas, os de bem relacionar minúcias e saber lidar com pessoas – serão na atividade de organizar e administrar escolas tão importantes como em outra técnica soci- al. Mas é evidente que, entre pessoas igualmente dotadas, estará mais preparada para agir com segurança aquela que não desconheça certos conceitos fundamentais relacionados com princípios operativos e, bem assim, instrumentos de análise que facilitem a decomposição de situações complexas em seus elementos e condições. Essa questão nos leva a examinar esquemas gerais de que nos devemos servir para os estudos sistemáticos da matéria, na forma das bases do que se pode chamar de 50 Organização e Administração Escolar uma ampla metodologia. Ou, como outros preferem dizer, de uma teoria-prática, no sentido de que se devam ter em conta modelos ideais (e, portanto, teóricos), que bem se apliquem às situações reais, ou práticas, de todo o processo. E, então, pergunta-se: pondo-se de parte o conteúdo mesmo de cada empreendimento, haverá princípios, normas e regras de ação que se possam aplicar às mais diversas situações de organização e administração, ou a fases do processo unitário que envolvam?... Em outros termos: será lícito combinar tais elementos na feição de grandes esquemas lógicos, ou de teorias gerais, que nos levem a melhor compreender organizações de fato para imprimir-lhes estruturação metódica?... Os estudos que se tem chamado de racionalização do trabalho respondem que sim. Embora deles tenha havido precursores em diferentes campos de atividade, é esse movimento relativamente recente para que se possa dizer que esteja de todo concluído. O laço comum entre suas expressões é sempre o mesmo, a perspectiva de eficiência. As variações, que as teorias vêm apresentando, têm resultado do próprio modo de entender o que seja eficiência, em sentido geral, ou no caso particular de sua aplicação a cada empreendimento específico, de maior ou menor vulto.1 Para compreender tais modelos, March e Simon (1958), em obra de análise crítica, os classificam em dois grandes grupos: das teorias a que chamam “clássicas”, e o de outras chamadas teorias “novas”. Nas primeiras, os participantes dos empreendimentos são essencialmente considerados como peças de um complexo processo formal. Nas teorias “novas”, esse modo de ver passa a ser discutido em face das influências que a própria vida dos empre- endimentos exerça sobre as pessoas neles congregadas. Com isso, novas variáveis de mais complexa interpretação passam a ser destacadas (Lepawsky, 1960). [[[[[ As teorias clássicas Nas teorias clássicas, duas tendências se distinguem no desenvolvimento de idéias intuitivas, até então existentes sobre a matéria. Uma salienta a importância da divisão de tarefas, mediante observação das atividades físicas dos trabalhadores, o que facilmente se compreende por haver surgido em oficinas não ainda altamente mecanizadas. Outra põe em relevo as vantagens de maior discriminação entre os problemas de execução direta dos serviços e os de sua coordenação,mediante órgãos de gestão especializados. É o que, na técnica corrente, se tem chamado de departamentalização, no sentido de especialização por setores. [ a) Taylor A primeira tendência está nos trabalhos de Frederick Taylor (1856-1915), especialmente os que esse técnico norte-americano elaborou nos últimos anos do século 19. 1 A conceituação de metodologia para os estudos de organização e administração escolar não exclui a investigação de situações cíclicas ou de relações funcionais entre os fatos. Qualquer que seja, uma metodologia pode apresentar-se mais ou menos racionalmente elaborada supondo sempre um modelo, ou construção teórica. 51Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Consistiu na análise metódica do trabalho industrial, na cronometragem dos movimentos elementares de cada operação e formas de sua coordenação, a ser feita de modo direto por chefes de turma, e, indireto, por contramestres e técnicos, encarregados da manutenção do equipamento, máquinas e ferramental, e suprimento da matéria-prima. Os incentivos ao tra- balhador eram os de pagamento por peça produzida. O conceito de eficiência correspondia ao de “produção por unidade de esforço”, ou ao de simples rendimento mecânico (Taylor, 1911).2 A tipificação das peças a produzir, característica da produção industrial mo- derna, justificava essa concepção, em que já se delineava a idéia da produção em série, mediante divisão e especialização minuciosa das tarefas atribuídas ao trabalhador. É essa a razão por que o nome de Taylor veio ligar-se à idéia de especificação, nas expressões taylorização e trabalho taylorizado. [ b) Fayol e seus continuadores A segunda tendência, a de departamentalização, encontra claros exemplos no tra- balho de dois especialistas europeus, o inglês R. B. Haldane (1856-1928) e o francês Henri Fayol (1841-1925). Seus estudos foram desenvolvidos pelos especialistas norte-americanos Luther Gulick e L. Urwick, e continuadores destes, como Mooney e Reilly, por exemplo. Fayol partiu de mais ampla noção de eficiência, fundada na idéia de que a racionalização do trabalho deveria compreender todas as partes e funções de uma empre- sa, buscando velar pela sua unidade constitutiva, não só pela produção bruta num dado momento. O motivo básico era o de que sem isso não se atenderiam às exigências de continuidade e desenvolvimento das próprias empresas e, assim, do processo de organização social que representam. As funções capitais de administração são por ele indicadas com estas palavras: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. Elas sugerem a definição de objetivos e programas; a reunião de elementos pessoais e materiais necessários à produção; a articu- lação de esforços no sentido do progresso material e moral de cada empreendimento; e, enfim, a conferência dos resultados obtidos com padrões fixados em programas prévios. A articulação geral seria feita por órgãos centrais de direção e fiscalização (Fayol, 1931). Os trabalhos de Gulick e Urwick deram maior precisão a tais idéias, com a elaboração de um modelo igualmente formal de estruturação e gestão, aplicável tanto a grandes empresas como a serviços públicos. O problema central, que examinaram, pode ser assim resumido: assentado o pro- pósito geral de um empreendimento, devem-se identificar as tarefas unitárias indispensáveis à sua efetivação; essas tarefas incluirão não só atividades-fins (operativas), como as ativida- des-meios (auxiliares), isto é, as de aprovisionamento de material, recrutamento do pessoal, coordenação das operações, supervisão e conferência final. Assim, a consciência das relações entre meios e fins, no sentido geral de eficiência, passa a tornar-se mais clara. Admitido o esquema, as tarefas específicas são associadas a grupos de ocupações individuais em unidades administrativas primárias; depois, essas unidades se associam em grupos maiores; por fim, passam a compreender funções características em órgãos subordina- dos a certo domínio próprio (departamentos). Dessa forma, poder-se-á diminuir os gastos da condução geral dos serviços, assegurando-se o funcionamento mais equilibrado de tais conjuntos. 2 Descrição minuciosa do taylorismo encontra-se em Walther (1958). 52 Organização e Administração Escolar Diversos critérios podem presidir à criação deles como à de suas partes. Em trabalho de 1933, Gulick os reuniu numa simples sigla, que se tornou clássica – POSDCORB – formada pelos elementos iniciais de sete palavras inglesas cujo sentido tudo pudesse abranger, em qualquer empreendimento. Eis as sete palavras e sua conceituação: Planning Planejar Organizing Organizar, no sentido restrito de instrumentar Staffing Selecionar, recrutar e bem dispor o pessoal Directing Dirigir ou comandar Coordinating Coordenar ou articular as diferentes partes do trabalho Reporting Relatar ou informar Budgeting Tudo conferir, em função do financiamento da empresa e dos benefícios A escolha resultou da análise do trabalho como de certas condições de alcance social; assim permite a aplicação de conceitos precisos e de instrumentos de análise funcional a qualquer empreendimento (cf. Gulick, 1937). A esse esquema fundamental, de natureza analítica, James Mooney e Alan Reiley juntariam outros princípios para elaboração conjunta, com visão de síntese. Foram chamados princípios de coordenação vertical e coordenação horizontal, a esse respeito enumerando determinadas normas relativas à chefia, liderança e delegação de autoridade (Mooney, 1939). Em estudo de 1936, Gulick e Urwick desenvolveram ainda cinco outros princípios que também se tornaram correntes em estudos de organização: o do propósito do empreendimento; o dos procedimentos que nele se utilizem; o da clientela dos servi- ços; o da localização ou distribuição geográfica que devam ter; e o de tempo ou momentos sucessivos da produção (Gulick; Urwick, 1937). Novas variáveis assim se acrescentaram ao estudo da estruturação e gestão, aplicáveis a quaisquer empreendimentos, sem que com isso se tivesse invalidado a concep- ção fundamental expressa pela sigla POSDCORB. Ao contrário, ela veio a ser enriquecida. De fato, a concepção dos chamados departamentos, fundada na distinção da na- tureza dos serviços, segundo atividades-fins e atividades-meios, derivada de uma compreensão geral entre instrumentos (equipamento e recursos pessoais de execução) e objetivos a alcan- çar, vinha justificar uma nova concepção do processo coordenativo geral, com o esclareci- mento de certos pontos críticos. Em serviços muito complexos, eles exigem reajustamento iterativo entre os objetos e a instrumentação, por decisões no próprio andamento das operações. A visão desse problema tomou forma prática na distinção de duas formas gerais de estrutura e ação de comando. Uma recebeu o nome de comando em linha contínua, ou correspondente a uma estrutura linear, pois que as decisões nela procedem de um só órgão, distribuindo-se por escalões sucessivos, que apenas as transmitem e velam pelo seu controle, até os escalões mais baixos, os de execução, propriamente ditos; e outra que, embora mantendo comando unitário central, admita departamentos e órgãos especializados para análise das operações, condições de equipamento e de pessoal. Dentro do seu âmbito de ação, possuem assim certo poder de iniciativa no que diga respeito à coordenação e controle específico dos serviços de seu próprio nível. A esta última forma 53Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar tem-se dado o nome de administração funcional, correspondente a uma estruturação por patamares, ou, como mais correntemente se tem chamado também, administração de grupos técnicos consultivos (em inglês, staff). Os gráficos, que aqui apresentamos, sintetizam essas estruturas, como ainda a de uma combinação delas, em estrutura mista. Num caso, tudo se reporta aos fins e à instrumentação,inclusive condições de pessoal, por decisões de uma só fonte. No outro, em cada nível de coordenação de mais complexos serviços, devem existir órgãos perma- nentes de informação, crítica e, em certa margem, poder decisório. Seriam assim pequenos órgãos de autocorreção em seu próprio domínio. Nas estruturas mistas, além dessas combinações, órgãos de verificação e correção poderão existir, em escalões diversos, também dotados de certas funções decisórias. Em qualquer dos casos, a organização se apresentará como uma família de conjuntos, dominada sempre pela intenção geral de bem produzir. A definição dos obje- tivos gerais não poderá ser mudada; mas, precisamente, para que sejam alcançados, exigi- rão reajustamento dos elementos operativos, segundo suas condições reais, não como em abstrato se possa imaginar que sejam. 54 Organização e Administração Escolar As funções de cada um dos órgãos de coordenação, em patamares, levam a analisar cada situação concreta, segundo os elementos disponíveis, que sirvam ao conjunto, ainda que problemas peculiares existam em cada nível. Para isso hão de prever situações, informar aos escalões mais altos quanto às possibilidades de ação, dificuldades ou insuficiências de meios para isso existentes, in- clusive a da qualidade do pessoal. Assim, tanto do ponto de vista das circunstâncias materiais, como dos elementos pessoais, a instrumentação pode ser aperfeiçoada, ou mais racionalmente adaptada aos objetivos finais de um dado rendimento. É pelo desdobramento dessa idéia, sem dúvida, que novas teorias mais tarde se vieram juntar às que agora se consideram clássicas. [[[[[ As teorias novas Nas teorias chamadas clássicas, o pressuposto fundamental é o poder motivador que uma estrutura formal por si mesma imponha a uma organização de fato. Explícita ou implicitamente, essas teorias admitem que certas formas de especialização e coordenação, racionalmente reguladas, acabam por oferecer um sistema de estímulos suficientes e satisfatórios para que um empreendimento qualquer se articule e preencha seus objetivos. As pessoas que deles participem são consideradas peças abstratas. O con- ceito de rendimento ainda aí, de algum modo, se associa à idéia de produção mecânica. É certo que, quando atentamente lemos os textos dos teoristas citados, mesmo os de Taylor, verificamos que a transformação de tal idéia já nesses trabalhos se prenuncia, no realce dado às organizações de trabalho como grupos sociais e humanos. Contudo, só em teorias mais recentes é que essas questões claramente vieram a ser propostas e analisadas. Seus autores não afirmam que as concepções clássicas sejam errôneas ou inúteis. O que fazem é notar que são incompletas, porquanto não levam em conta de forma explícita o fato de que as decisões, numa organização qualquer, não se apresentam apenas no topo ou em certos escalões da hierarquia formal que se lhes imponha. Ao contrário, dão-se em todos os níveis, e ainda na pessoa de cada trabalhador, em particular, o que será necessário considerar. [ a) Psicologia e relações humanas Duas séries de observações se têm produzido a respeito. Uma delas liga-se às novas concepções da Psicologia e, em particular, às de motivação do comportamento humano. A contribuição de recursos da Psicologia já se patenteava na formulação das teorias clássicas, não, porém, com a compreensão atual. A outra, relaciona-se com a influência que as condições da própria organização, como ambiente específico, possa exercer sobre a conduta geral dos trabalhadores. Este último aspecto já nos autores clássicos se denunciava, quando discutiam questões como as de comando único e múltiplo, de amplitude do exercício da autoridade, nas funções de chefia, propriamente dita, assistência técnica e supervisão. Reconheciam, desse modo, a importância que certos elementos formais podem exercer na constituição de um clima de relações humanas, com inevitáveis conflitos, muitos dos quais origina- dos da interferência das decisões em vários níveis hierárquicos, ou mesmo, em órgãos de níveis equivalentes, em esquemas rigidamente estruturados. 55Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Tanto mais complexa seja uma organização, tanto maior será o número de conflitos e interferências possíveis. Uma decisão administrativa, bem fundamentada para certo nível funcional, poderá perder tal caráter em outro. As expectativas de um plano mais baixo em relação a outro, ou inversamente, podem ser bastante diferenciadas, como variados serão certos efeitos que as condições sociais de trabalho produzam sobre as pessoas, como pessoas participantes de um grupo solidário, não simplesmente elementos a que se distribuam tarefas dispersas. Em âmbito restrito, ou no das relações interpessoais, num mesmo nível, observa-se que certos modos particulares de gestão criam estados de tensão perturbadores. O modo de redigir uma simples ordem de serviço poderá suscitar reações diferentes, senão até contrárias às que se tenham previsto. No caso de ordens verbais, não só o conteúdo, mas até o tom de voz, podem perturbar a harmonia funcional desejada. [ b) Burocracia Sob certos aspectos gerais, haverá ainda alguma coisa a considerar, de grande importância. Um sistema hierárquico a que se dê simples índole formal pode criar uma tendência para decisões estereotipadas, de caráter rígido e impessoal, com eliminação da responsabilidade de seus agentes, com o que se prejudicam as finalidades da organiza- ção. É a esse efeito, ou conjunto de efeitos, que se dá o nome pejorativo de burocracia, gerado na observação deles nos serviços públicos, mas também ocorrentes em empreendimentos particulares (cf. Lepawsky, 1960 – contém capítulo sobre a matéria). Será preciso distinguir, porém, entre essa acepção que o nome tomou, e outra, que investigadores sociais puseram em relevo, abrangente não apenas dos defeitos, mas das vantagens de uma organização desse tipo. O precursor desses estudos não foi um especialista em organização, mas o sociólogo e filósofo alemão Max Weber. Seu mérito consistiu em lançar as bases de um estudo objetivo da burocracia como forma social genérica que no Ocidente se contrapôs ao feudalismo e modos derivados. Na burocracia, como sistema social, Weber viu o exem- plo mais característico da possibilidade de racionalizar as relações humanas. Em sua terminologia, os conceitos de burocracia e organização eficiente tornaram-se quase sinô- nimos, em contraste com o uso mais comum de tais expressões (cf. Gerth, Mills, 1946). No entanto, em qualquer das acepções, a hierarquização rígida e a centraliza- ção das decisões produzem efeitos que interferem nos fatos e situações da organização, sobretudo porque tornam ineficientes certas reações decisórias, em diversos planos. A razão é simples. As decisões se estereotipam, estando como que preparadas de antemão para casos abstratos. Há fórmulas esquemáticas de respostas que perdem grande parte de seu valor funcional, senão mesmo todo ele, entravando os propósitos reais do trabalho. Isso acontece porque o sistema burocrático passa a considerar um conjunto de relações entre postos hierárquicos despersonalizados (o que é típico na administração em linha), e não entre pessoas vivas com os seus naturais interesses e conflitos, nem sempre passíveis de formulação racional, que permita elaboração axiomática, como expressão a mais perfeita de eficiência mecânica. As teorias novas tomam como ponto de partida a impropriedade de formulações teóricas desse gênero. Pretendem que as concepções clássicas não consideram a satisfação individual no trabalho, aspecto para o qual será necessário analisar as 56 Organização e Administração Escolar componentes da adesão em bem participar da obra solidária, ou empreendimento co- mum. Não só, como já salientava Fayol, um sentimento geral de “espírito de corporação” deverá existir, mas também o de participaçãonas decisões de maior alcance geral. Só desse modo haverá condições de identificação dos objetivos de cada indivíduo com os de seu grupo, questão que os esquemas clássicos não tomavam em especial consideração. [ c) Os modelos recentes March e Simon apontam, como teorias novas, os modelos de R. K. Merton, P. Zelznick e A. W. Gouldner, escolha que fazem por considerarem que tais modelos possuem contextura lógica bem definida. O primeiro desses autores põe em relevo as distorções da aprendizagem dos participantes, adquiridas na sua própria organização, quando, no sentido pejorativo da expressão, a burocracia aí impere. De fato, tendem os trabalhadores a generalizar uma reação que seria adequada a certas situações anteriores, não, porém a outras que venham a ocorrer. O resultado é que há conseqüências antecipadas, embora indesejáveis ao senti- do geral dos fins da organização. As decisões se estereotipam pelo que os atos conseqüentes podem não ter caráter funcional. Os males da burocracia, em sentido pejorativo, assim se tornam patentes (March; Simon, 1958). Nos serviços públicos, a redução das relações personificadas, digamos assim, faz especialmente sofrer os que das decisões do poder público dependam, o que também resulta de uma compreensão puramente formal das leis e regulamentos. Daí, o erro dos que suponham que o estudo da Organização e Administração se possa reduzir a simples análise do Direito Administrativo, no que toque aos serviços escolares. Nos serviços privados, a redução das relações personificadas, fundada não já na lei, mas em normas de rotina, leva aos mesmos resultados de desadaptação dos instrumentos administrativos quanto a suas funções reais. Nos estudos de Zelznick, salienta-se, como recurso de correção, a delegação de autoridade. A prática da delegação, no entanto, tanto pode apresentar conseqüências favoráveis como desfavoráveis. Desenvolve o treino em níveis de competência especializados, mas tende a perturbar a diferenciação necessária entre objetivos e realiza- ções, e a estimular mais delegação, com efeitos tão prejudiciais como os derivados de rígida hierarquia e centralização. Levam à perda do senso de responsabilidade nas decisões, já agora, não nos escalões mais baixos, mas nos postos superiores. Nos trabalhos de Gouldner, as observações e conclusões dos especialistas já citados vêm a repetir-se. Salienta, ele, porém, este novo ponto: as técnicas de controle que se empreguem numa determinada parte do sistema, ou subsistema, para compensar tais desequilíbrios, acabam por perturbar a ordem de todo o conjunto, com influências de retorno num setor determinado ou no subsistema que se considere. Isso acaba por perturbar a consciência das relações de poder, dentro de todo o sistema como conjunto. Realmente, no subsistema, e em grupos especiais dentro dele, altera-se o necessário equilíbrio para que um empreendimento harmoniosamente funcione (March, Simon, 1958). É esse, sem dúvida, um grave e sério problema que especialmente se relaciona com as condições de insuficiente preparação do pessoal de cada nível – ausência de assistência técnica e social. A meditação sobre as conseqüências dessas 57Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar anomalias nos serviços do ensino é de grande importância, como oportunamente se mostrará. Do confronto entre teorias clássicas e mais recentes, que March e Simon escolheram por considerarem passíveis de análise objetiva, tiram esses autores conseqüências para exame dos conflitos nas organizações (conflitos entre indivíduos, grupos e partes formalmente definidas em cada organização), bem como para discuti- rem os limites dos conhecimentos atuais sobre a racionalização do trabalho. Com isso formulam, enfim, idéias para aplicação ao planejamento geral de um empreendi- mento a ser implantado, e para as reformas que se tornem necessárias nos que já existam. Suas conclusões gerais, de não pequena importância, na visão das teorias de organização, quando as examinemos com o intuito de melhor estruturar e gerir os serviços do ensino, podem ser assim sintetizadas: a) o estudo da Organização e Administração, no primeiro quarto do século 20, foi dominado pelo aspecto de gestão científica fundado no conheci- mento de algumas poucas características fisiológicas e psicológicas do ho- mem, que justificavam certa concepção mecânica; já nos últimos decênios, os interesses de estudo se deslocaram para conhecimento psicológico mais amplo, incluindo o estudo chamado de relações humanas; b) os participantes de cada empreendimento passaram a ser vistos como protagonistas, com os seus próprios impulsos, motivos e sentimentos, que tanto bem se podem coordenar numa dada organização, como nela serem perturbados. Em termos esquemáticos, pode-se dizer que as teorias clássicas centralizavam sua atenção no processo administrativo formal; nas teorias novas, essa atenção se estende ao comportamento administrativo. Mas as novas técnicas não invalidam nem substituem as teorias clássicas, no que apresentam de fundamental. Apenas as enriquecem, com novos elementos que podem levar a metodologia da Organização e Administração a maior desenvolvimento. [[[[[ Um segundo esquema interpretativo Um segundo esquema interpretativo das teorias deve ser aqui citado, por constituir trabalho de um técnico brasileiro no assunto, a Srª Beatriz M. de Sousa Wahrlich (1958), com estudos especializados nos Estados Unidos. Depois de mostrar a necessidade de uma concepção teórica da organização, analisando a própria natureza e limites da teoria, passa a enquadrá-las em quatro categorias principais: dos engenheiros, dos anatomistas, dos psicólogos, dos sociólogos. A dos engenheiros, escreve, “contribuíram especialmente para o estabelecimento de métodos e não de princípios; isto é, estabeleceram antes processos lógicos para fazer alguma coisa que verdades fundamentais sobre que outros se baseiem”. Como figuras re- presentativas dessa categoria de teorias, a que chama também de escola, indica Taylor, Gantt, Gilbreth e Person, admitindo ainda que nela se inclua Henry Ford. A concepção geral em todos é a de “considerar a organização de baixo para cima”, dos movimentos e operações elementares para as mais complexas. 58 Organização e Administração Escolar A segunda escola, no estudo da Srª Wahrlich chamada anatômica, vê, ao contrário, a organização “de cima para baixo”. São os seus representantes “administrativamente orientados”. Os principais autores que contribuem para a formação dessa escola foram Fayol, Gulick, Urwick, Mooney e Wallace. Já então, não será a análise mecânica da produção que especialmente interessa, mas a maneira adequada de dividir o trabalho na base de autoridade e responsabilidade; ou, repetindo aí as palavras de Fayol, “o direito de dar ordens e o poder de exigir obediência”. Em sua análise, no entanto, não se contenta com essa formulação, algo simplificada, para corrigi-la com as idéias de Mooney sobre a diferenciação funcional em três grupos essenciais: o discriminativo, o aplicativo e o interpretativo; em outros termos, o das funções ligadas à definição dos objetivos, o das referentes à sua consecução e o das que se relacionem com as decisões interpretativas. Na terceira categoria, a dos psicólogos ou, como observa para maior clareza, a dos “psicólogos sociais”, destaca a importância dos trabalhos da especialista Mary Parker Follett (1868-1933), de que cita os princípios que elaborou, em pequenos, mas expressivos trechos, como estes: O controle central (de uma organização) vem cada vez mais significando a correlação de muitos controles, e não de um controle sobreposto. (...) A atividade do chefe principal num empreendimento qualquer bem administrado não é a de uma autoridade arbitrária imposta de cima, mas a conjugação de muitas autoridades, situadas em diversos pontos da organização. (...) Duas pessoas sãosenhoras de si próprias no limite da capacidade que tenham de se constituírem numa só pessoa. Um grupo será sobre si mesmo soberano na medida em que, constitua-se de poucos ou de muitos indivíduos, seja capaz de constituir uma unidade. Um Estado somente é soberano quando tem o poder de criar uma unidade na qual todas as demais acabem por ser contidas. Na quarta e última categoria, a Srª Wahrlich menciona os “sociólogos da administração”, de que dá primazia, pela anterioridade de seus trabalhos, a Mayo e T. N. Whitehead, sem esquecer, porém, as contribuições de autores mais recentes, entre os quais Simon, Barnard, Smithburg e Zelznick. Cita de um desses autores mais novos, Simon (de que dantes apreciamos as idéias no trabalho que compôs em colaboração com March), a seguinte ordem de problemas, que demandam maiores pesquisas: “o processo de tomar decisões numa dada organização; os fenômenos de poder nas organizações; os aspectos racionais e não racionais que nelas se apresentem; o ambiente criado nas próprias organizações e no meio social que as circundem; a estabilidade e as mudanças das organizações; a especialização e a divisão do trabalho”. Evidencia, então, a importância da contribuição dessa mais recente escola que não só admite a análise das situações – as que se apresentem num corpo hierarquizado segundo esquema formal –, mas também a análise das condições das organizações de fato. E conclui por afirmar que tal contribuição é da maior relevância, ainda que não deixe de expor algumas críticas à terminologia de certos estudos dessa categoria. A conclusão final da ilustre técnica é que não há uma teoria genérica de Organização, mas simples bases teóricas sob diferentes aspectos (como instrumento de produção, ou problema técnico ou estrutura social), os quais ainda não encontraram com- pleta integração. Mas isso ocorre, aliás, com todos os esquemas ou modelos teóricos, como também admite nas linhas finais de seu trabalho ao lembrar o pensamento de John Gauss, segundo o qual as teorias não representam senão instrumentos metodológicos que na experiência, e só na experiência, podem encontrar razões de validade. 59Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar [[[[[ As teorias e os serviços escolares Que pensar das teorias gerais de Organização e Administração para aplicação aos serviços escolares, e que pensar de sua evolução?... Em obra de 1959, Daniel Griffiths repete que essas teorias, como em outros ramos do conhecimento, devem ser utilizadas para três fins principais: o de inspirarem a ação prática; o de servirem como base para melhor caracterização de fatos e situações, facilitando a elaboração de novas generalizações; e o de servirem, enfim, como modelos explicativos das próprias atividades, que os estudos da Organização e Administração considerem. O resultado comum e final dessas formas de utilização é um só: o esclarecimento das decisões indispensáveis a uma boa estruturação e gestão dos serviços, fornecendo-lhes justificação lógica, de uma parte, e prática, de outra. E isso com relação aos serviços do ensino como aos de outros empreendimentos quaisquer (Griffiths, 1959). Com essa mesma idéia, Jesse Sears antes compôs uma obra com o título The nature of the administrative process: with special reference to Public School Administration (1950 – A natureza do processo administrativo, com referência especial à administração das escolas públicas).3 No prefácio, reconhece esse autor que, nos estudos norte-americanos da matéria, tem-se cuidado mais do exame de aspectos particulares da administração escolar do que mesmo considerado a aplicação de teorias clássicas, tão vulgarizadas como as de Taylor e Fayol. Têm elas grandemente influenciado a admi- nistração industrial e a administração pública dos Estados Unidos. Sears não pretende esgotar todos os aspectos da matéria, nem mesmo cuidar de todos os tipos de adminis- tração escolar, mas simplesmente ensaiar um estudo teórico dos sistemas públicos, donde o subtítulo de seu livro. A influência do esquema geral de Fayol é nesse trabalho evidente, como se pode ver dos títulos dos capítulos das duas primeiras partes do livro. Nos seis primei- ros, encara o planejamento, a organização (em sentido restrito), a direção, a coordenação e o controle, como elementos do processo administrativo, na mesma ordem em que o fez o engenheiro francês. Em seis outros capítulos, examina a natureza e a posição do concei- to de autoridade, os problemas de delegação, a natureza das diretrizes educacionais e os princípios de ética, na administração dos sistemas públicos do ensino. Trata por fim das questões do contato dos administradores com as autoridades governamentais, examinan- do particularmente as condições de elaboração das leis de ensino, em seu país (Halpin, 1958).4 Nalgumas passagens e, em especial, no capítulo dedicado aos princípios éticos, Sears aprofunda os conceitos das relações humanas e da ecologia das organizações, analisando as questões de responsabilidade social e do poder discricionário, e o valor compulsório das leis e de certos costumes. Ainda que desenvolva um sistema lógico, especialmente com base nas idéias de Fayol, em várias passagens Sears lhes acrescenta um novo pensamento, ainda que deliberadamente se subordine às grandes linhas das teorias clássicas, que repetidamente cita. 3 Na bibliografia norte-americana, esta obra marca o início de uma nova fase na Administração Escolar. 4 Doze anos antes que Sears tivesse aplicado a teoria de Fayol à Administração Escolar, um educador brasileiro já o experimentara fazer, como se vê da tese Fayolismo na administração das escolas públicas, publicada pelo professor J. Querino Ribeiro, em 1938. Da importância desse trabalho em nossa bibliografia pedagógica, faremos referência no capítulo 12, que trata do “Estudo e ensino da Organização e Administração Escolar no Brasil”. 60 Organização e Administração Escolar Ora, como observa Zelznick, essas teorias concentram seus esforços no aperfeiçoamento da estrutura formal, das rotinas e sistemas abstratamente concebidos. Os papéis a serem desempenhados dentro da organização, e não os próprios protagonis- tas, é que aí mereceram a atenção dos autores. Assim, a divisão de tarefas e sua coordenação, a departamentalização e o rendimento mecânico em geral. Nas teorias novas (psicológicas e sociológicas), ao contrário, os atores dos papéis da organização antepõem-se aos demais elementos de estudo. Os aspectos de ren- dimento não são desprezados – mesmo porque se assim fosse os propósitos da organiza- ção se dissipariam –, mas passam a ser considerados não em função de um mecanismo, de efeitos presumidos como sempre iguais e constantes. Nelas, não se admite, enfim, um formulário de instrumentação, aplicável a qualquer caso (Halpin, 1958). Dada a natureza das relações interpessoais no ensino, em qualquer de seus níveis – desde a unidade primária, a classe –, parece evidente que as novas teorias mere- cem consideração especial, pois os seus fundamentos coincidem, em boa parte, com as do próprio processo educacional. Acresce uma circunstância digna de nota: no trabalho escolar, os próprios elementos a serem trabalhados (discípulos, alunos, estudantes) são pessoas a serem as- sim permanentemente consideradas, e os objetivos a serem fixados e obtidos terão de relacionar-se com essa qualidade. Tal circunstância comunica aos problemas de Organi- zação e Administração Escolar, como acontece nos de outras técnicas sociais, algumas características peculiares que não podem deixar de ser levadas em conta. Quaisquer que sejam as concepções educativas que uma escola adote, hão de fundar-se, antes de tudo, no pressuposto de um desenvolvimento progressivo dos educandos para possibilidade de seu ajustamento social, e, assim, no aperfeiçoamento das relações humanas em geral. Ainda antes que se imagine uma escola dentro de uma organizaçãoformal, uma organização “de fato” nela existirá, queiramos ou não. Essa organização, de fato, é em parte regulada por condições relativas à seqüência das idades, sob os aspectos de crescimento e maturação, como no início deste livro vimos. Isso, por um lado. Por outro, relaciona-se com a transformação dos papéis que o meio social, em cada época e lugar, atribua a cada idade, ou, mais precisamente, a cada faixa de idades. As condições e padrões gerais do trabalho escolar dependem assim não só de condições técnicas, mas das tendências sociais gerais que a Organização e Administração Escolar há de considerar. As escolas não funcionam no vazio. De modo prático, isso se reflete na concepção da graduação geral do ensino ou dos níveis didáticos, comumente chamados de primário, médio e superior. Tal expressão prática corresponde, porém, a uma estrutura ideológica, reconhecida pelos papéis soci- ais que a cada idade se atribuam. Esse ponto, queiramos ou não, reflete-se nos aspectos de programação dos serviços, seja numa pequenina escola, como unidade que a si mesma se baste, seja na programação de conjuntos de escolas, em redes e sistemas, com os seus serviços auxiliares e os de gestão, supervisão e controle. Em qualquer caso, os esquemas administrativos não poderão deixar de reconhecer esse fato primordial. De outro modo, os serviços escolares perdem seu caráter funcional, diluem seus propósitos, não permitindo que objetivos claros possam ser esta- belecidos. Como qualquer outro empreendimento, tais serviços se estruturam e operam na base de propósitos certos e determinados, ainda que nas concepções da filosofia e da política educacional se elaborem de forma conceitual mais ampla. Os recursos de 61Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar organização e administração não terão, é certo, nenhum valor se a esses propósitos ideais dispensarem. Nada de positivo produzirão, porém, se não traduzirem essas concepções ideais em fatos e situações objetivas. A esse respeito bastará considerar a distribuição geográfica dos núcleos de população, por exemplo. As escolas existem para que de modo adequado ofereçam servi- ços a grupos humanos determinados. Se pretendermos um sistema de ensino regular e eficiente, teremos de prever estabelecimentos que satisfaçam a contingentes demográficos segundo uma ordem natural na sucessão das idades. Continuidade e distribuição geográfica são condições fundamentais para que os serviços de ensino sejam planejados, diversificados, regulados em suas condições de funcionamento, orientados e controlados, na forma de um grande empreendimento. Desse modo, certos princípios de racionalização e a adoção dos esquemas administrativos clássicos não podem ser desprezados. Os serviços escolares carecem de planejamento, instrumentação, seleção e recrutamento de pessoal, direção ou co- mando geral, coordenação, articulação, financiamento, circulação de informações entre suas várias partes e subpartes, e controle final. Desde que definidos os propósitos educativos gerais, terão de discriminar objetivos graduados, de escolher procedimen- tos hábeis, de admitir certa sucessão não arbitrária de operações, nas etapas sucessivas da produção. De capital importância é que não percam o seu complexo sentido funcional, passando a ser absorvidos por uma organização burocrática, com os caracteres pejorati- vos dantes referidos, e que os próprios profissionais do ensino sentem, como no capítulo anterior observamos, ao fazer notar que professores, diretores, inspetores, e mesmo che- fes de serviço de mais alta hierarquia, freqüentemente interpretam o significado de deci- sões “administrativas” como contrapostas àquilo que sentem como trabalho “técnico”, com este adjetivo querendo referir-se à sua natureza criadora. Essa é sem dúvida uma das razões por que, no estudo dos problemas de estruturação e gestão dos serviços de ensino, a denominação combinada de Organização e Administração tem perdurado. O primeiro desses termos mais sugere a organização de fato, que uma escola qualquer deve representar, com seus elementos pessoais variáveis, e que dia a dia se renovam. O segundo sugere unificação, incorporação geral e sistema formal. Assim, os problemas de estruturação e gestão dos serviços escolares necessitam para a sua conveni- ente solução de considerarem os elementos não só de uma teoria, ou de uma classe de teorias, mas os de todas. [[[[[ Estudos especiais Estudos especiais, constantes de publicações recentes, reafirmam essa conclusão. A questão da peculiaridade dos fatos e situações dos serviços escolares é posta em relevo em diversos estudos de Roald Campbell (1960). Com apoio em pesquisas anteriormente realizadas por outros especialistas, destaca esse autor os seguintes pontos: 1) as questões de ensino e as de educação, em geral, são sempre complexas em seus recursos, e dinâmicas em sua feição geral, não sendo possível, portanto reduzi-las a esquemas mecânicos; 62 Organização e Administração Escolar 2) tal complexidade e dinamismo em boa parte resultam da própria intimidade de natureza pessoal, nas relações existentes entre mestre e discípulos; 3) em conseqüência, a avaliação do verdadeiro trabalho das escolas é sempre complexa e delicada, havendo resultados mensuráveis, mas outros tam- bém para os quais os instrumentos de avaliação ainda não oferecem suficiente objetividade; 4) essa circunstância reafirma a importância crescente de novas exigências no recrutamento, formação e aperfeiçoamento do pessoal docente, em todo e qualquer plano de organização escolar; e também, nessa base, a de que se formem administradores escolares mais competentes, pois não poderá haver boa administração com pessoal que não esteja bem preparado, dadas as condições antes expostas; 5) a sensibilidade do público para com os problemas de educação, e sua maior compreensão quanto ao papel das escolas, interessam também, e grandemente, às questões de organização e administração; alunos e mes- tres são pessoas, que pertencem a grupos sociais, e nas quais os ideais e aspirações da coletividade se refletem; 6) assim, e em conclusão, as expectativas da vida social em relação ao trabalho educativo das escolas serão uma pedra de toque daquilo que possam e devam fazer os organizadores e administradores escolares. Cada uma dessas circunstâncias, e todas, em conjunto, não são elementos que se possam somar. Na verdade, representam elementos integrados de uma configuração. Isso não significa que não devam ser praticamente consideradas nos esforços da melhoria de organiza- ção e administração. Podem e devem. Os três primeiros, na ordem em que aqui os resumi- mos, Campbell classifica-os como de natureza propriamente técnica, ou de sentido instru- mental. O seguinte participa desse caráter e dos problemas propriamente administrativos. Mas, de qualquer modo, o administrador que não esteja suficientemente cuidando do aperfei- çoamento integral dos mestres em serviço estará trabalhando contra si mesmo. Os últimos pontos referidos serão, enfim, de nível institucional, decorrentes de uma filosofia social, ou das situações da vida existentes em cada comunidade (Campbell, 1960). Por sua vez, Hanlon (1961), procurando analisar os problemas específicos das decisões administrativas, não só nos serviços escolares, mas em qualquer empreendimen- to, insiste nessas conclusões. O direito de firmar decisões envolve a obrigação correlata de outros em subordinar-se a elas e, para que isso se consiga, nas melhores condições, será necessário que se distinga entre o exercício da autoridade, pura e simples, e o poder que se justifique pela necessidade de coesão de cada grupo, pelo reconhecimento de líderes desse grupo. Seu trabalho merece atenção especial porquanto, ao contrário do que faz a maioria dos estudiosos da matéria em seu país, ele rejeita o conceito de uma administração mal definida, e quese tende a qualificar, sem maior especificação, como democrática. Para esclarecimento de seu pensamento, Hanlon destaca nas funções do administrador atividades de três tipos: de direção, ou propriamente de comando, em que o correlativo de subordinação não pode ser negada; de coordenação, em que a fusão de vonta- des, por persuasão, se faz necessária; e, enfim, de co-participação, em que a iniciativa e a responsabilidade pessoal serão sempre desejáveis, razão pela qual devem ser estimuladas.5 5 Ao assunto da administração com caráter democrático, ou não, voltaremos adiante, em vários pontos. 63Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Essas idéias encontram, aliás, comprovação em estudos de especialistas que têm cuidado da análise dos atributos de personalidade e situações de liderança no ambi- ente das escolas. Um desses especialistas, Malo, destaca como atributos especiais de tais situações os seguintes: capacidade de entender e lidar com pessoas, ou inteligência social; orientação realista, não fantasiosa; tendência para tornar os serviços mais eficientes, com plena responsabilidade de comando; e, enfim, estabilidade emocional. Outro autor, Lipham, diz aproximadamente o mesmo com base em pesquisas em testes de personalidade, especialmente aplicados a diretores de escola. Os mais eficientes deles, segundo afirma, demonstraram atitudes de sentido realista; eram mais capazes de bem relacionar-se com todos, superiores ou subordinados; possuíam maior sentimento de segurança no lar e no ambiente de trabalho; interessavam-se por fim, tanto no êxito da instituição como pelo seu próprio êxito pessoal, sabendo comandar e coordenar (cf. Getzels; Liphan; Campbell, 1968). Ainda a esse respeito, outros pesquisadores têm salientado diferenças flagrantes entre professores, técnicos especializados em educação e administradores propriamente ditos (diretores, inspetores, chefes de serviço). De modo geral, os professores são mais autoritários, conservadores e tradicionalistas; os técnicos, mais liberais e progressistas, aventurando-se por vezes em experiências não perfeitamente fundadas. Por sua vez, os diretores e inspetores tendem a ocupar uma posição intermediária, nisso influenciados ora pelos professores tradicionalistas, ora pelos técnicos especializados. Tais circunstâncias dependem da feição geral da organização a que pertençam, como também de certas condições da vida social (Wall, 1959). O autor dantes citado, Campbell alarga, porém, o esquema desses possíveis conflitos, considerando não só diretamente os atributos pessoais dos profissionais do ensino, mas as próprias forças que delineiam, reforçam ou transformam as diretrizes educacionais, e que tanto neles diretamente se apresentam quanto em certas tendências gerais da vida coletiva. Em seu esquema, são principalmente as forças de sentido pro- gressivo em matéria de tecnologia, economia e política, não só as da localidade, mas as da região e também as de sentido nacional, que hoje produzem os maiores conflitos. A razão é que são elas diversamente sentidas ou percebidas por uns e outros dos participantes do trabalho escolar. Desde que tais forças não sejam analisadas, debatidas e interpretadas para conveniente aplicação nos planos local, regional e nacional, as dissidências serão inevitáveis, com evidente prejuízo. Colhidas em pesquisas e ensaios recentes, essas notas demonstram a importância que cada vez mais se dá aos fatores de influência social na vida das escolas, seus planos e técnicas. O comportamento dos que participem de uma organização qualquer é por esses fatores sempre condicionado. Isso torna evidente a importância do estudo das novas teori- as que salientam os fatores de motivação pessoal, segundo as circunstâncias da vida social, inclusive as de significação política e econômica. Existem, é certo, dificuldades para a construção de um modelo geral, dada a imprecisão de certos conceitos da psicologia social, ou do estudo das relações humanas. Contudo, acentuado progresso a esse respeito já nos últimos tempos se tem verificado.6 6 Ver, por exemplo, a grande obra Toward a general theory of action, editada por Talcott Parsons e Edward A. Shills, em 1954. Resultou ela de um grande esforço para esclarecer e inter-relacionar os conceitos e princípios da Teoria das ciências sociais. São seus colaboradores, figuras de grande projeção nesses estudos, como Edward Tolman, Gordon Allport, Clyde Kluckhohn, Henry Murray, Robert Sears, Richard Sheldon e Samuel Stouffer. 64 Organização e Administração Escolar [[[[[ Relações entre a escola e a comunidade Seja como for, o problema das relações entre a escola e a comunidade é fundamental, e da maior relevância, em nossa época, dadas as variações aceleradas que a vida social tem apresentado e apresenta. Fazendo mudar as concepções de vida e, conse- qüentemente, os valores sociais e morais, essas variações acentuam a atividade crítica do público em relação ao trabalho das escolas, quaisquer que elas sejam, como também a de certa parte do público em relação às próprias normas e princípios da Organização e Administração do ensino, em geral. Outrora, as escolas poderiam servir apenas a uma pacífica transmissão de téc- nicas, idéias, conhecimentos, ideais e aspirações. Sua função capital era a de manter uma estrutura social estável. Normalmente, os filhos deveriam viver como os pais, ou mesmo como teriam vivido os avós. No século passado e ainda nos primeiros decênios de nossa era, as instituições escolares poderiam contentar-se com o trabalho de selecionar certas partes dessa herança cultural para transmiti-las, com a acentuação da aprendizagem de maior proveito ao desenvolvimento de cada indivíduo, segundo seus grupos primários. Agora, porém, a necessidade de integração entre pessoas e grupos, primários e secundários, é muito maior. Mas as soluções não são simples. Em certas formas de trabalho escolar, como nas da educação em geral, numerosos problemas permanecem. Num ponto, contudo, não parece haver dúvidas: a necessidade de prever estágios que resultam de modificações tecnológicas e transformações conseqüentes na estrutura profissional de cada país, sejam eles desenvolvidos, ou estejam em fase de de- senvolvimento. Alguns pensadores insistem mesmo na idéia de que o trabalho escolar deva primacialmente subordinar-se aos objetivos de estrita formação profissional. Desse modo, atenção especial deverá haver com relação aos problemas de orientação educacional e profissional, desde a parte final dos estudos primários, e prin- cipalmente, nos cursos médios. Essa idéia tem conseqüências sociais muito variadas, como adiante veremos.7 De qualquer modo, o desenvolvimento das relações entre cada escola e as necessidades da comunidade próxima, ou aquela a que mais diretamente deva servir, é matéria pacífica. Novas atividades curriculares e extracurriculares para isso se têm cria- do, com a multiplicação de instituições peri-escolares. Para maior esclarecimento das relações dos estabelecimentos de ensino com as questões de ordem regional e nacional, têm-se por igual criado novas formas de atividades administrativas, inclusive comissões e juntas consultivas, constituídas de representantes de empresas econômicas, que pos- sam bem opinar sobre as perspectivas do mercado de trabalho e novas exigências que imponham a cursos e programas de ensino. De modo geral, reclama-se mais viva e direta intercomunicação entre as insti- tuições escolares e órgãos representativos locais; entre órgãos regionais e nacionais, e escalões correspondentes de administração escolar. Esse movimento tem duas faces. Por uma, deseja ver o trabalho das escolas mais inspirado em exigências da vida coletiva, sobretudo econômicas. Por outra, pretende que os líderes sociais, de qualquer tipo, ve- nham a interessar-se pelo desenvolvimento das escolas, esclarecendo os seus próprios círculos de influênciaa respeito da necessidade de maior financiamento dos serviços educativos. 7 Este assunto será especialmente apreciado nos capítulos 7 e 8. 65Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Quanto a este último ponto, uma nova atitude vem sendo desenvolvida entre os estudiosos da economia, os quais no atual momento francamente admitem a idéia da produtividade das despesas educacionais, bem como a de aspectos de utilidade margi- nal, a ser considerada pela administração. Produtividade econômica indica a relação entre a quantidade do produto ob- tido e a quantidade dos fatores ou recursos econômicos aplicados à produção. Embora os resultados da aplicação desses recursos à educação só se façam sentir a médio e longo prazo, os autores acordam em que são de elevada produtividade para a economia de cada país, em conjunto, dadas as condições do trabalho moderno, que requerem preparação geral e tecnológica, a ser dada em escolas. Utilidade marginal significa a utilidade da última unidade que se adicione, no caso, em recursos para despesas com os serviços escolares, classes, escolas ou cursos. Fácil é compreender que para os resultados da economia da comunidade, a maior utilida- de marginal muitas vezes será obtida não com a simples multiplicação de escolas de um tipo qualquer, mas daquelas que possam atender a maiores exigências da vida econômica e social; e, ainda e também, não apenas com a criação de novas unidades escolares, de um tipo qualquer, mas de serviços de assistência técnica que contribuam para a melhoria da eficiência do sistema já existente. Isso apresenta sérios problemas, levando a estabelecer escalas de prioridade para a criação de novos tipos de ensino como também de serviços que, de modo especial, encarem o planejamento geral, a assistência técnica e o controle dos serviços. A compreensão de ação unitária de maiores conjuntos, ou de famílias de con- juntos, vem assim a impor-se, sem prejuízo das variações regionais, ou mesmo locais, necessárias. O que afinal se pretende é que, por esforços democráticos, as próprias ex- pectativas sociais venham a ser constantemente analisadas, revistas e reinterpretadas. Os princípios a serem levados em conta para tais resultados serão expostos no devido tempo. Como quer que seja, não decorrem eles apenas da visão do processo administrativo, mas do comportamento administrativo. Isto é, das funções práticas dos administradores, onde quer que se situem, em conjuntos maiores ou menores. [[[[[ Síntese do capítulo 1 Dá-se o nome de teoria a uma série ordenada de generalizações, que procure explicar fatos e situações entre si relacionados. Por definição, a teoria é uma construção abstra- ta, que fornece um modelo simplificado da realidade a que se reporte. Essa é a razão por que os dois nomes, teoria e modelo, são freqüentemente usados como sinônimos. Ainda que tenham apresentação abstrata, as teorias desempenham incontestável fun- ção prática. Permitem uma visão de síntese, que leva a compreender relações de dependência entre os fatos que nos interessem em situações concretas. 2 As teorias gerais sobre Organização e Administração, aplicáveis a empreendimentos de qualquer natureza, são de elaboração relativamente recente. Formam dois grupos: o de teorias clássicas e o de teorias novas. Devem-se as primeiras a Taylor e Fayol, e a seus continuadores. Taylor especialmente estudou a coordenação de tarefas em fábri- cas e oficinas, visando ao maior rendimento mecânico. Fayol mais considerou, em empreendimentos comerciais e industriais, as diferentes fases de sua estruturação e 66 Organização e Administração Escolar funcionamento, que sintetizou nestes verbos: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. Assim delineou um modelo que, de modo abrangente, descrevesse todo o processo administrativo, segundo suas fases. 3 Outros especialistas na matéria foram adiante. Gulick destacou as atividades propriamente de produção (atividades-fins), e as de implementação e manutenção (atividades-meios). Com isso, formulou um critério geral para coordenar tarefas afins, ou para a sua departamentalização. Ademais, criou uma sigla que se tornou corrente na descrição do processo administrativo: POSDCORB. Essa sigla é formada com os primeiros elementos das palavras inglesas correspondentes às ações de planejar, organizar, formar pessoal, dirigir, coordenar, relatar resultados parciais e conferir resultados gerais (nestes últimos incluídos os de finanças). 4 Outros analistas estabeleceram princípios chamados de organização vertical e de organização horizontal, e, bem assim, de unidade de chefia, liderança e delegação de autoridade. Também desenvolveram novas idéias sobre propósitos, procedimentos, clientela, localização e momentos sucessivos da produção. De tudo, resultaram mode- los chamados de estrutura em linha, com poder central de decisão, e de estrutura escalonada, quando o mesmo poder se exerça em níveis diversos. Essas duas formas podem ser combinadas num terceiro tipo de estrutura, chamado mista. 5 Não rejeitando essa análise clássica, as teorias novas procuram completá-la com uma visão funcional dos elementos pessoais, ou humanos, ressaltando a influência que nas pessoas exerçam as condições formais de estruturação dos empreendimentos. Nas teorias clássicas, havia a intenção de descrever o processo administrativo formal, ao passo que, nas teorias novas, dá-se também atenção especial à motivação para o trabalho, nos indivíduos e grupos que formem. 6 Não ainda completamente elaboradas, as teorias novas põem em relevo certas distorções do treinamento em serviço, das técnicas de controle e das relações de poder, isto é, do exercício da autoridade, consideradas as posições formais dos administradores e as con- dições naturais de liderança. É evidente que tudo isso interessa muito de perto à estruturação e gestão dos serviços escolares, porquanto os fatos e situações neles existentes são de natureza e alcance educativos ou, afinal, da mesma natureza que os de formação humana. 7 Assim o reconhecem modernos cultores da matéria. Campbell, por exemplo, observa que os serviços do ensino fundam-se em relações de natureza pessoal, quer na situa- ção aluno-professor, quer nas dos agentes administrativos e subordinados. Na mesma ordem de idéias, Malo dá importância às situações sociais em que os atributos de personalidade dos educadores, sejam mestres ou administradores, influam no trabalho em geral. Desse modo, insistem em que os estudos sobre o processo administrativo deverá ser completado com outros, referentes ao comportamento administrativo. Nes- se comportamento, influem não só os elementos de cada instituição escolar como os da comunidade em que esteja atuando. Todas as questões de planejamento, distribui- ção de tarefas e controle dos resultados devem ser agora analisadas e reinterpretadas à luz dessas novas idéias. Para isso ter-se-á de examinar a ação dos administradores, suas reações e atitudes, nas tarefas que normalmente lhes são confiadas. 67Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 3 Os administradores escolares em ação [[[[[ Atividades operativas e administrativas Depois de indicar as realidades de instrumentação e gestão dos serviços escolares, e de oferecer uma visão sucinta das teorias de Organização e Administração, devemos examinar as atividades mesmas das pessoas a que se atribuam funções de organizar e administrar as escolas, ou seja, o comportamento administrativo que os serviços regulares do ensino reclamam. Do ponto de vista das situações de fato, procuramos tornar claro que elas ocorrem a partir do trabalho das classes, onde o professor organiza e administra o traba- lho de seus alunos. Discriminam-se, porém, em outros níveis, referentes a conjuntos maiores ou menores, que reclamam agentes específicos, simplificadamente designados sob a rubrica geral de administradoresescolares. Não constituem, pois, uma classe única, com singela gradação hierárquica. Na realidade, tais sejam a morfologia e o funcionamento de cada conjunto, ou família de conjuntos, pertencerão a muitas categorias variáveis, segundo a magnitude do empreendimento em que operem. O que justifica a denominação comum é a distinção que se costuma fazer entre atividades operativas e atividades não-operativas, devendo-se entender por estas últimas as que se refiram a planejamento, instrumentação, coordenação, gestão e controle geral dos serviços. [ a) Bens materiais Nos empreendimentos destinados a produzir bens materiais ou mercadorias, tais como os da indústria fabril, essa distinção torna-se muito clara. Praticamente, todas as pessoas que numa fábrica se empreguem podem ser separadas em dois grupos. No primeiro, estarão as que se ocupem com a matéria-prima, recebendo-a, armazenando-a, trabalhando-a dos mais diversos modos, transformando-a, afeiçoando-a em peças, como produtos parciais, ou a esses produtos reunindo na forma de produto final. É assim possível discriminar tarefas, tipificá-las e atribuí-las a grupos com 68 Organização e Administração Escolar responsabilidades estritamente limitadas. A rigor, não se exigirá de cada operário a compreensão do que se queira por fim produzir, pois que isso não será indispensável a uma concepção de eficiência, no caso. Imaginemos uma fábrica de artefatos de metal. As tarefas poderão ser muito subdivididas, com emprego de equipamento mecânico, mediante o qual séries sistemá- ticas, praticamente isoladas umas das outras, se executem. A matéria-prima será adquiri- da segundo requisitos constantes. Os produtos parciais são verificados por critérios de aplicação relativamente simples. Em grandes fábricas, parte das peças produzidas entra- rão na composição de certos produtos finais, de composição variável. Certas turmas de operadores poderão mesmo desconhecer a existência desses produtos finais. Assim, as funções desse grupo claramente se distinguem de outro a que competem atividades de coordenação e gestão geral dos serviços. Haverá níveis gradativos de comando: o do chefe de turma, do gerente de uma divisão, do gerente geral, do enge- nheiro-chefe da produção etc. E todos executarão planos traçados pelos diretores ou chefes da empresa, dispostos segundo níveis de autoridade. Ainda nesse caso, como vimos ao tratar das teorias novas, diferentes aspectos sociais e humanos interessarão ao funcionamento geral da empresa como um todo, e, em especial, os que digam respeito a incentivos da produção, motivação geral dos trabalha- dores e harmonia do conjunto. Mas, quanto ao que se esteja produzindo ou à finalidade geral e integrada do empreendimento, nenhuma preocupação maior se exigirá de cada trabalhador, em particular. [ b) Serviços Bem diversa é a situação nos empreendimentos destinados a oferecer serviços, não mercadorias, sobretudo naqueles que possuam maior alcance social, como ocorre em relação ao ensino. A produção, nesse caso, funda-se em relações humanas, aplica-se a pessoas, exige o trato entre elas, em situações que podem referir-se ao desenvolvimento e ajustamento de cada uma. Uma distinção geral entre trabalho operativo e trabalho administrativo ainda assim se faz possível. No caso das escolas, as atividades operativas são as das classes, aquelas em que se tornam dominantes as relações professor-aluno. Fora disso, tudo quanto mais exista passa a ser visto, na aparência ao menos, como de feição administrativa. A distinção é apenas esquemática. Sabemos que em muito do que possamos chamar de operativo, nas escolas, deverá haver consciência da própria direção do proces- so por parte do mestre, razão por que, em boa margem, terá ele de compreender tal processo, coordená-lo entre os alunos e verificar-lhe os resultados. O mestre exerce funções explícitas e implícitas de Organização e Administração. Não terá liberdade total de criação no que faça, mas há de possuir certa margem de autono- mia. De outra forma, o trabalho será prejudicado por falta de consciência das finalidades gerais e integradas do empreendimento em que esteja colaborando. O conjunto mais próxi- mo diretamente lhe interessará, mas como o sentido dele dependerá de outros, as atividades do ensino não se desligarão de todo o vasto sistema em que se incluam. Esse fato imprime à administração do ensino peculiaridades ou exigências especiais. Na verdade, tudo quanto se faça no intuito de dividir tarefas para maior eficiência defrontará o problema correlato de sua integrarão ou reintegração. 69Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Nas primeiras funções de administração escolar que se definiram, as de direção de escolas graduadas, isso podemos sentir pelas próprias denominações adotadas. Elas sugerem como que um duplo caráter, operativo e administrativo. Nos países de língua inglesa, o diretor é chamado mestre-principal, ou simplesmente o principal; em outros, há os títulos de mestre-chefe, ou mesmo de professor-catedrático, ainda que pessoalmen- te estes não ensinem, mas apenas coordenem o trabalho dos docentes. Nas escolas secun- dárias e superiores, o administrador muitas vezes recebe o título de decano, isto é, o professor mais antigo, o de maior tirocínio. O mesmo se poderá dizer das denominações dos estabelecimentos. Os títulos escolas-reunidas, grupos escolares, agrupamentos escolares, escolas consolidadas, insis- tem todos na idéia de uma função integral por efeito de boa articulação de cada uma das partes do trabalho que desenvolvam. Quando, em sua origem, se analisam os serviços de coordenação entre diferentes escolas, de modo geral chamados de inspeção escolar, algo de semelhante se verifica. A necessidade de criá-los não resultou da simples idéia de comando ou fiscali- zação de realizações parciais, mas de trabalho mais amplo, a ser esclarecido por levantamentos de sentido geral, em diferentes zonas ou regiões (Lourenço Filho, 1965). Assim, se os encarregados das funções operativas, os mestres, não devem perder de vista as finalidades mais amplas de seu trabalho, com maior razão os adminis- tradores escolares não podem esquecer a necessária articulação a ser mantida entre o que cada classe deva produzir e a produção conjunta a desejar-se. Nem por outra razão, ao analisarem atividades operativas e administrativas nas escolas, muitos especialistas, e com inteira procedência, insistem na idéia de que essas últimas não podem desligar-se das situações de fato, como um todo, pois nesse todo é que a orientação do trabalho se fundamenta. Daí, falarem em organização biológica, psicológica, social, histórico-cultural, e, igualmente, o fato de ressaltarem que o trabalho operativo deve embeber-se de um largo espírito de compreensão de planos referentes a um conjunto. Esse ponto, como outros, poderá ser entendido com a análise dos níveis em que as funções administrativas se apresentam, e das atividades básicas que requerem, como passaremos a ver. [[[[[ Níveis da ação administrativa Ao considerar uma escola, como situação “de fato”, ou já enquadrada numa organização “formal”, nela encontramos elementos de quatro ordens, as quais, grosso modo, distinguem os níveis essenciais da ação administrativa. São eles: alunos, mestres, direto- res de escola, chefes de órgãos de instrumentação e gestão de maior alcance, que planejem, orientem e controlem maiores conjuntos de serviços, ou sistemas. Os alunos ocupam o grau inferior, com subgraduações referentes a estágios de desenvolvimento e ajustamento. Seu papel é aprender, ou de participarem de situa- ções em que possam adquirir formas úteis de comportamento e discernimento, guiados pelos mestres. Os mestres assim realmente entendem seus deveres, organizando e ad- ministrando o trabalho dos discípulos, ainda que não possam ignorar que entre eles existam alguns, ou vários, com certaascendência natural entre seus colegas. É o que se pode notar no trabalho de cada classe e, sobretudo, nas atividades chamadas extraclasse. 70 Organização e Administração Escolar Nessa ascendência, manifesta-se certa organização “de fato”, jamais inteiramente submetida a regras formais. A ascendência natural dos professores não se exerce apenas sobre os alunos. Dá-se também em relação a seus pares, especialmente em razão da idade e experiência. A dos diretores, por sua vez, não se exerce somente sobre os mestres que lhes estejam hierarquicamente subordinados, alunos e funcionários para manutenção da escola, sua disciplina geral e escrituração. Dentro de certos limites, dá-se também sobre as famílias dos alunos e órgãos representativos da comunidade próxima, com os quais os diretores deverão manter constante e estreita relação. Por esse alcance social, sua atuação muitas vezes se estende ao trabalho de outras escolas e seus diretores, ainda que de modo indireto. A razão está em que todos sentem que a autoridade dos diretores lhes é dele- gada por órgãos mais amplos, de nível superior, representados pelas entidades mantenedoras da escola, sejam instituições privadas ou órgãos do poder público, umas e outros movidos pelo desejo de atender a aspirações e necessidades sociais. Esquematicamente, as quatro ordens de elementos dispõem-se como no gráfico acima. Entre os órgãos de direção de cada escola e órgãos mais altos, de onde emane orientação geral, existirão órgãos intermediários, (e tais sejam os sistemas adotados, mais ou menos complexos), na forma da chefia de serviços auxiliares para provisão de recur- sos materiais e pessoais, assistência técnica, coordenação e controle. Esses órgãos podem referir-se a áreas geográficas de variável extensão, ou, dentro delas, a aspectos de financi- amento, conservação dos edifícios escolares, articulação geral dos cursos, ou, ainda, à feição especializada das escolas para um certo tipo de clientela, definido em grau, ou nível de ensino, ou ramo especial dentro de um deles. As formas de gestão então se diferenciam, assumindo aspecto formal, por departamentalização. Surgem encarregados especiais dos serviços de aplicação orçamentá- ria, de edificação e manutenção dos prédios escolares, do controle estatístico geral, como de muitos outros serviços que poderão ter discriminação por distritos ou circunscrições mais amplas. De outra parte, para efeito de assistência técnica, aparecem coordenadores de ensino, dentro das escolas com grande número de classes; orientadores pedagógicos para cada cir- cunscrição; encarregados de pesquisas para planejamento e programação a mais longo termo; chefes de levantamentos gerais, relacionados ou não com os de obrigatoriedade escolar, etc. Vários desses serviços freqüentemente se reúnem na forma de órgãos mais complexos, diversamente denominados: setores, divisões, diretorias-gerais, superinten- dências, departamentos, secretarias-gerais, ministérios. Desse modo, a linha hierárquica, pura e simples do comando em linha, toma uma complexa feição funcional, reclamando 71Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar órgãos diferenciados em patamares sucessivos, freqüentemente de estrutura mista. Na graduação de funções de assistência técnica e sua conexão com os serviços de simples gerência, sempre existirão dificuldades quando não se especifiquem devidamente os planos de ação e os objetivos reais a que cada uma das entidades deva atender.1 Nenhuma utilidade haverá assim, (por ora, ao menos), no estudo da ação dos administradores escolares quanto a órgãos desses tipos, indicados em abstrato. O que con- vém fazer é a caracterização das situações concretas que os administradores defrontam, com análise de suas atividades básicas, ou, afinal, do comportamento administrativo. [[[[[ As situações concretas As situações concretas que os administradores escolares defrontam, deles reclamando ação mais ou menos pronta, não diferem das situações que os administradores de quaisquer outros empreendimentos encontram, atendido, é claro, o caráter próprio, ou a feição distintiva já anteriormente ressaltada. Sobre elas existe, porém, certa feição geral por onde devemos começar. [ a) Conjuntura e problemática Essa feição é a de conjuntura e, assim, de situação problemática que a ação conjugada de numerosas pessoas oferece num empreendimento qualquer. Essa idéia poderá ser de modo prático, assim explicada: organizadores e administradores são chamados a interferir em fatos ou seqüências de fatos nas quais possam ser admitidos modos variáveis de se relacionarem meios e fins; ou, afinal, quando na instrumentação e condução de um trabalho cooperativo certas alternativas se apresentem, exigindo opção. Onde não haja vários caminhos possíveis, entre os quais alguns poucos devam ser preferidos e adotados, ou de um só se disponha, para que se obtenha maior eficiên- cia, não haverá propriamente ação administrativa, no sentido de ação decisória (Getzels, 1960). Esse caráter torna-se muito claro quando se trate de um empreendimento a implantar, ou de novos serviços a serem instalados. Nesse caso, só existirá um propósito, na forma de finalidades gerais, ou quando muito, linhas gerais de um projeto. O organizador começa por tomar conhecimento dessas finalidades, aceitando-as para transformá-las em resultados práticos. Então, analisará o problema que se tenha apresentado, nele discrimi- nando diferentes aspectos: o campo de aplicação, os elementos e recursos disponíveis, as hipóteses operacionais que ofereçam maior probabilidade de êxito. E, enfim, optará por um caminho a fim de que o projeto tome forma e vida. No caso de serviço já existente, a situação pode parecer diversa, mas só à primeira vista. As situações problemáticas continuam a existir. Podem não se referir ao campo de aplicação e à estrutura original do empreendimento, o que já estará definido; mas terão sempre relações com aspectos funcionais de certa programação, das formas de direção adotadas e dos critérios fixados para apreciação dos resultados. E, como esses pontos exigem sempre reajustamento constante, um empreendimento qualquer, por mais simples que pareça, só se manterá coeso, preenchendo suas funções, desde que a cada momento se readapte ou se reajuste a novas condições e circunstâncias. 1 Gráficos representativos das estruturas citadas foram incluídos no capítulo anterior. 72 Organização e Administração Escolar Ainda em empreendimentos que, em seu conjunto, pouco pareçam variar, assim acontece. Digamos que se trate de uma fábrica de tecidos, com produção tipificada, maté- ria-prima sempre idêntica, equipamento mecânico e trabalhadores bem selecionados. Haverá o desgaste do equipamento, ausências de empregados, mobilidade geral do pessoal, flutuações do mercado quando da compra da matéria-prima e da venda dos produtos. Ainda e também se farão sentir efeitos favoráveis ou desfavoráveis dos próprios esque- mas formais de estruturação do trabalho adotado, o que tudo virá a impor problemas novos, a reclamarem estudo e pronta solução. Em serviços, tais como os do ensino, as situações problemáticas serão sempre em grande número pela complexidade dos fatores e variação de seu significado relativo, no decorrer do processo. O comportamento administrativo começa por considerar cada problema e situá- lo em todo o conjunto, avaliada a sua importância no momento e em situações futuras previsíveis. Define-se depois pelo exame de elementos e condições e a oportunidade de decisões imediatas, ou mediatas, que à situação problemática possam atender (Mosher, Cimmino, 1950; Campbell, Gregg, 1957). [ b) Atividades fundamentais do administrador Quaisquer que sejam, as situações concretas exigirão duas atividades funda- mentais de parte do administrador, cada qual em seu âmbito próprio: – Coligir informações sobre a situação problemática, talcomo realmente se apresente; – Decidir no sentido de modificar esse estado de coisas, a fim de que os objetivos assentados possam ser obtidos com a eficiência desejada. As tarefas fundamentais do organizador e administrador, resumem-se, portanto, em duas apenas. São estas: informar-se e decidir. Informar-se sobre quê? Primeiramente, sobre as finalidades gerais e integradas do empreendimento de que participe. De outra forma, o problema não terá sentido. Para quê?... Eis a pergunta inicial que deve fazer. Cada administrador, dentro de suas funções próprias, não inventa as finalidades. Recebe-as mais ou menos feitas, procura compreendê-las e associar-se ao propósito geral que representem. Mas também é certo que a elas terá de interpretar em termos de operação e, dessa forma, terá de decompô-las em objetivos graduais ou progressivos. Cumpre-lhe analisá- las em seus momentos de coordenação e elaboração técnica. Assim, as grandes finalidades integradas do ensino, (por exemplo, desenvolvimento individual, formação da personalidade, preparação para a vida democrática), serão dissociadas em objetivos graduais, trabalho que exigirá uma satisfatória compreensão das capacidades reais ou virtuais dos alunos, das for- mas de aprendizagem que convenham, segundo as idades e outras condições. Revendo-as, em sua sucessão, é assim levado o administrador a situá-las num plano ou programa. As metas mais distantes aparecerão como seqüência e conseqüência de metas menores, de ação mais próxima, o que levará a admitir que cada uma funcione como um meio para uma finalidade subseqüente. Daí o nome de objetivos da ação didática, ou educativa em geral.2 2 Sobre a análise dos objetivos do ensino, cf. Bloom (1956). 73Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Para que isso possa fazer, o administrador terá de informar-se também onde e quando deva operar, pois que não opera ele sozinho; isto é, há de ter uma nítida percepção do alcance e limites de suas responsabilidades, na marcha do conjunto pelo êxito do qual colabora. Terá de informar-se depois sobre o número e qualidade das pessoas com quem, e dos implementos materiais com que haja de trabalhar. Em certos casos, nessas questões terá de decidir, ou opinar, quanto a critérios de recrutamento do pessoal e sua formação, e quanto às normas para aquisição de material, funções essas que, de ordinário, se distribuem ao longo de toda uma linha hierárquica. Para que, onde, quando, com quem e com que serão pontos de referência básicos, porque qualificam a própria situação do administrador, sua esfera de responsa- bilidade e nível de autoridade. Esses pontos constituem elementos metodológicos, em todos os níveis da ação administrativa, para o conveniente relacionamento dela com os da ação operativa, propriamente dita. Obtidas as respostas, passará o administrador a confrontá-las com os esquemas de possível instrumentação, execução e controle, em cada caso concreto. A pergunta geral, que depois surgirá, será referente aos modos de fazer, os seus próprios e os de seus subordinados. Como atuar ou operar?... Sempre que certa programação exista, já definida, os modos de fazer estarão, ao menos, de modo geral predeterminados. A aplicação prática reclamará, no entanto, decisões específicas. Mesmo ao nível do conjunto básico, a classe de ensino, em que habitualmente não se levam em conta as funções administrativas, terá o mestre de infor- mar-se e decidir. Essa margem de decisão alarga-se no trabalho do diretor da escola, no do chefe de distrito, no dos funcionários que superintendam serviços mais extensos, em que as situações variáveis de bem articular elementos e condições, meios e fins serão sempre mais numerosas. Em qualquer caso, onde haja encargos de Organização e Administração, as duas atividades básicas vêm a combinar-se nas formas de planejar e programar, dirigir e coordenar, verificar e apreciar o trabalho feito. São elas, afinal, que conformam as situações problemáticas naquilo que, com propriedade, se deva chamar funções de gestão as quais caracterizam o comportamento administrativo.3 [[[[[ Conformação administrativa das situações problemáticas Na realidade, a conformação das situações problemáticas em atividades ad- ministrativas obedece a um só e mesmo esquema, quaisquer que sejam suas dimensões e circunstâncias. Poderá ele ser assim indicado, de forma abreviada: a) existência de um problema, fundado na idéia de rendimento, ou proposto como relacionamento entre meios e fins; b) inserção desse problema num plano ou programa de ação definida; c) coordenação de elementos e condições, que possa dar forma e vida a esse plano, ou programa, no sentido de sua cabal execução; 3 Sobre o conceito de situação problemática, ver a última parte de Introdução ao estudo da Escola Nova (Lourenço Filho, 1967). 74 Organização e Administração Escolar d) verificação do trabalho que se tenha realizado, a ser apreciado quanto à obtenção dos objetivos e das condições de maior rendimento; e) exame das providências que possam evitar a reaparição do problema, quando não seja senão de natureza operativa, e de providências que permi- tam reajustar o empreendimento a novas necessidades, que venham a sur- gir em futuro próximo, e cuja satisfação constitua questões de importância na ação a desejar-se, nos mais altos níveis da administração. Há problemas que naturalmente decorrem de necessidades novas. Por exemplo, o crescimento da população demandará a extensão dos serviços escolares numa dada região. Sempre que haja maior visão administrativa, o financiamento será estudado, as escolas construídas, os professores preparados, os demais serviços instalados a tempo e hora. Quando a situação de necessidade apareça, já não constituirá ela propriamente uma situação problemática de natureza social, ou mesmo de caráter operativo, mas de simples desenvolvimento, pelas providências antecipadas que se tenham tomado. Assim, um bom regime de Organização e Administração terá em vista tanto as situações problemáticas inevitáveis, como as de prevenção de novos problemas, em dife- rentes escalas. A orientação geral do administrador será sempre a de satisfazer, reduzir e eliminar necessidades, ocorrentes e futuras. Quando bem se compreenda essa idéia, verifica-se que as funções capitais de planejar e programar, coordenar e dirigir, verificar e controlar aplicam-se nos mais variados níveis, escalas e formas administrativas. A cada uma dessas funções, passaremos a examinar, separadamente. [[[[[ Planejar, programar Atividades intencionais supõem, antes de tudo, plano, projeto ou programa. Essas três palavras participam todas de uma conceituação dinâmica, de ação projetada no futuro. Todas incluem previsão, idéia de um resultado a ser obtido com o emprego de procedimentos racionais. Assim, planejar, projetar e programar, empregam-se correntemente como termos sinônimos. Projetar, em sentido próprio, é atirar à distância, lançar longe. Por extensão, define um intento caracterizado por alvos ou metas. Planejar, ou planear, significa figurar por meios simbólicos as diferentes posições e proporções das partes de alguma coisa que se queira construir ou que, já construída, se tenha de descrever: o plano de um edifício, de uma cidade, de um livro. Por extensão, prefigura algo que se pretenda executar passo a passo, mediante ação disciplinada ou metodizada. Programar ou programatizar, (no sentido etimológico, “escrever antes”), sugere as minúcias daquilo que ordenadamente se deva fazer: o programa de uma cerimônia, de uma festa, de um curso. Autores há que subordinam a idéia de plano à de projeto, e a de programa à de plano. Outros entendem que o verbo planificar, (traçar ou desenhar num só plano, ou em vários deles, combinadamente), pode ser tomado como palavra que a tudo isso possa abranger. A planificação subentenderia, portanto, um projetoinicial, um delineamento 75Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar geral e a descrição minuciosa dos aspectos instrumentais e operativos. Essa descrição seria, então, a programação apresentada de modo geral, ou discriminada em programas paralelos para execução simultânea, combinada. Certos autores realmente entendem que, para esse efeito, a palavra programar deve ter preferência. Mosher e Cimmino (1950), por exemplo, assim o fazem, entendendo que a idéia de programar contém em si três elementos essenciais: a) o de coleta, sistematização e análise dos dados e informações reclamadas em cada caso específico de ação intencional ou com sentido prospectivo; b) o de descrição do transcurso das ações ou operações julgadas suficientes para que um objetivo determinado possa ser alcançado; c) o de predição de tudo quanto possa ocorrer nas diferentes fases do trabalho, com a previsão de modos ou formas de controle da atividade em curso. Para esses autores, o modo mais simples e geral de representar um comporta- mento racional, que subentenda um programa, será este: plano → ação → resultado Essa fórmula, evidentemente esquemática, requer elaboração ulterior quando se tenha de aplicar à ação de muitos, isto é, quando realmente exija atividades de organização e administração. A ação surge como resposta a uma necessidade, definindo-se num objetivo ou em vários objetivos progressivos. Admite assim um projeto, segundo o qual as atividades se organizem, e em cujo andamento, decisões continuadas serão necessárias para coorde- nação e verificação. Como é fácil compreender, num programa qualquer não haverá apenas decisões iniciais, mas, sucessivas. A compreensão de todos esses passos, que resume a atitude racional, é em ou- tros autores chamada de planificação integral. Nos diagramas referentes às atividades de administrar, tanto se usam os termos planejar como programar. A programação geral pode assumir diferentes formas: o das atividades mesmas, as quais por interpretação levariam a formular um esquema da estrutura dos serviços necessários; e o dessas estruturas, que descreveriam o empreendimento pronto e acabado, entrevisto por órgãos lógica ou formalmente dispostos e de cujo funcionamento viriam a resultar as atividades desejadas. De qualquer forma, direta ou indiretamente, a programação se refere a ações futuras possíveis, por efeito de uma estrutura que se reajuste às circunstâncias e momen- tos sucessivos das operações. Ademais, a programação poderá considerar uma só, ou várias dimensões das atividades a serem desenvolvidas, as de tempo e espaço, ou ambas. Admite-se por isso mesmo, uma programação linear, descrita pelo arranjo de elementos definidos sem que importe a ordem de sua estruturação. Admite-se uma pro- gramação seqüencial em que essa ordem se apresenta como essencial. Admite-se por fim uma terceira forma, não incompatível com a precedente, que consistirá em coordenar vários planos de ação, convergentes, como as faces de uma pirâmide convergem para o vértice comum. A esta última forma, se tem dado o nome de programação complexiva, ou programação piramidal. Em qualquer hipótese, a idéia do relacionamento entre meios e fins estará presente. Mas uma cadeia de meios e fins, ou de situações antecedentes e conseqüentes, 76 Organização e Administração Escolar poderá ser sempre considerada por aspectos funcionais variados. Fins, que se obtenham, tornam-se meios para outros ainda a obter e, assim, sucessivamente. Nos serviços que subentendem um processo ou situação em desenvolvimento, e tal é o caso do ensino, a forma natural de planejar ou programar será sempre a que denominamos complexiva. O que a caracteriza é a convergência dos esforços de muitos planos de ação, que se ajustem para um resultado integrado. Essa convergência, ou conju- gação de esforços, pode e deve ser descrita em diferentes níveis de estrutura: as da classe de ensino na escola, no distrito, no sistema local, regional ou nacional. Em cada uma dessas escalas, o planejamento propriamente escolar não excluirá, antes deverá suben- tender outras influências: as do lar, da comunidade próxima, do ambiente econômico e social da região ou do país. Em outros termos, o planejamento ou a programação de um empreendimento qualquer não exclui o ambiente em que ele se insere, ou aquilo que certos autores têm chamado ecologia da organização. Tal concepção é que leva a tentativas de planejamento integral dos serviços do ensino, através de grandes sistemas públicos, como veremos no capítulo seguinte. Qualquer que seja, terá ele de considerar o trabalho das instituições escolares como conjuntos operativos e administrativos.4 Esse fato pode ser percebido mesmo quando se tome como exemplo o trabalho de uma escola isolada, unidade operativa de uma só classe e um só professor. A esse mestre caberá compreender o trabalho geral e progressivo que a seus alunos deva propi- ciar. Por exigências operativas, ele os distribui em seções, segundo o adiantamento geral, e, em relação a cada uma delas, atenderá a um horário, propondo exercícios graduados na conformidade de um programa que especifique disciplinas, tais como a leitura, a lingua- gem, a aritmética, os estudos sociais, a iniciação científica, o desenho, ou o que mais seja. Ainda numa escola primária, mas de organização graduada, isto é, com alu- nos separados por seu adiantamento em classes distintas, a especificação do plano, ou dos programas, deixa de ser diretamente relacionada com exigências operativas menos discriminadas, como na escola isolada. Mas continuará a levar em conta a especificação das disciplinas. Então, o professor organiza o seu trabalho, tendo em vista um termo prefixado das atividades que, regulamentarmente, lhe venham a competir: o ano letivo, o semestre, o mês, a semana. Já nas escolas de ensino médio, em geral, a divisão operativa vai além. Um mesmo grupo de alunos, pertencente a uma série anual de ensino, é aí entregue a vários professores, cada um dos quais responderá por duas ou três disciplinas afins, por uma só, ou mesmo por uma parte dela. Em qualquer caso, sempre que os mestres percam de vista os resultados do conjunto, ou a integração de seu trabalho com o de outros, haverá prejuízo na formação dos alunos e em seu ajustamento social. O trabalho escolar poderá então apresentar re- sultados apenas formais, por não considerarem a pessoa do educando em seus diferentes aspectos de desenvolvimento e ajustamento social, mas apenas o preenchimento mecânico de exercícios e exames formais. A necessidade de coordenar o trabalho, desse modo disperso, é que põe em destaque a importância dos agentes administrativos, a ação do diretor ou do inspetor, 4 As questões do planejamento integral, como veremos, relacionam-se hoje com os mais delicados problemas das atividades governamentais. 77Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar como ainda de outros funcionários especializados, coordenadores, orientadores gerais, conselheiros. Quando se trate de ensino superior, os trabalhos de diferentes professores coordenam-se na forma de seções didáticas, departamentos de ensino, ou institutos. Desse modo, a ação criadora de cada mestre, em que temos insistido, não exclui a ação coordenadora de agentes administrativos, em função do planejamento ou programação que se tenha estabelecido. Essa é a razão pela qual não se deverá confundir o trabalho criador do mestre com a falácia da independência total da ação de cada um, em sua classe, como se apenas dele tudo pudesse depender. No sentido mesmo da boa execução dos planos ou programas que se tiverem traçado, com indispensável relacionamento para finalidades integradas, é que aparece a segunda grande função administrativa, a de dirigir ou coordenar. [[[[[ Dirigir, coordenar O planejamento ou programação, na forma exposta, pressupõe a existência de umpoder que continuadamente decida, dirimindo as situações problemáticas que se apresentem, inclusive as de conflito. Esse poder se caracteriza pela influência de certas pessoas na ação de outras, ou na capacidade de articular as atividades de muitos, as quais, de outra forma, se desenvolveriam dispersas. Tão importante é esse aspecto que, na linguagem comum, administrar, sobretudo, significa dirigir, chefiar, comandar. Assim, nos órgãos chamados de direção, praticamente admitimos se condensem as funções de decidir e, em conseqüência, as de administrar. Sem dúvida que o aspecto dinâmico, num empreendimento qualquer, por esses órgãos mais visivelmente se expressa. Neles sentimos que há opções entre alternativas, escolha entre vários caminhos possíveis. Não obstante, para que uma organização bem funcione, será preciso que tais decisões não representem arbítrio, inspiração de momen- to ou fantasia. Cada decisão deverá atender ao que se tenha previsto por planejamento ou programação anterior. Não há direção consciente, sem plano. Quando um empreendimento bem esteja constituído, o poder de decidir e, portanto, de dirigir, torna-se harmônico em todos os níveis, de tal modo que parece fluir de uma capacidade geral de autodeterminação das várias partes de cada conjunto. Na direção do conjunto inicial nos serviços escolares, a classe de ensino, funciona o mestre, pois ele aí coordena o trabalho dos alunos. Em cada estabelecimen- to, o diretor coordena a ação dos mestres. Em mais amplos conjuntos, decide o chefe de distrito, de região ou de todo um sistema. Para que tudo bem funcione, não se poderá pensar num comando linear, mas em formas de estrutura funcionais e mistas. Com relação aos serviços auxiliares, de manutenção, financiamento, recrutamento e forma- ção de pessoal, formulação de programas parciais e critérios de controle, o mesmo se deverá admitir. Esse tipo de administração reduz, de uma parte, o número de hipóteses possíveis, quanto a certos aspectos do trabalho programado. Assim, por exemplo, o da escolha da sede dos serviços, do tempo de execução, da provisão do pessoal e material, do alcance das atividades sobre determinada clientela. Mas, de outra parte, amplia as hipóteses quanto às exigências de adaptação de cada conjunto (a classe, a escola, o distri- to etc.), em situações emergentes, razão pela qual certo número de decisões passam a ser 78 Organização e Administração Escolar privativas dos encarregados pela unidade e coesão de cada um de tais conjuntos. Como vimos antes, o administrador para isso deverá saber para o que trabalha, com quem e com que trabalha, onde, quando e como. Se administrar significa operar de modo racional, os comportamentos de escolha e decisão terão de ser exercidos com fundamento em informações tão completas como possíveis, e resultarem de uma interpretação refletida quanto a antecedentes e con- seqüentes. Na medida em que a informação seja completa, ela reduz o número de hipóteses a considerar. Não obstante, não se poderá dissimular que as funções de direção sempre se individualizam. Derivam de agentes que são pessoas, pelo que certo coeficiente indivi- dual nelas se apresenta como irredutível. Essa é a razão por que muito se insiste em atributos pessoais do administrador, em especial em sua capacidade de bem interpretar o espírito comum da organização, optando e decidindo no melhor sentido de sua coesão. Quando bem exercida, a essa qualidade cabe o nome de liderança. O processo da formação das opções, nas funções de coordenação ou direção, necessariamente pressupõe relações lógicas entre os fins a obter e os meios a serem em- pregados, tudo analisado pela perspectiva de eficiência. Contudo, cada administrador tem a sua própria personalidade, sua inteligência, cultura geral e profissional, capacida- de de estabelecer relações pessoais, sua dinâmica emocional. Em função desses atributos interpretará o trabalho, o seu próprio status, o papel que lhe compete. Alguns autores chegam a fazer uma distinção entre opções propriamente administrativas, de caráter nitidamente consciente e de expressão formal, e outras, a que chamam de opções individuais, resultantes do modo de ser do administrador, sua capacidade não só de informar-se das condições do trabalho, mas de senti-las em sua atmosfera peculiar. Dessas últimas fazem depender a oportunidade com que certas decisões devam ser tomadas, de modo a bem dispor ou preparar o ambiente para que possam ser bem recebidas. Mas o termo decidir não deverá levar a qualquer equívoco. Agir e decidir são dois conceitos estreitamente associados, um não podendo realizar-se sem o concurso do outro. A ação administrativa, em geral, mas especialmente a de direção imediata, quer dizer ação de uma pessoa que a outras comande, face a face, apresentando séries de previ- sões e decisões, que vão desde a compreensão das diretrizes gerais do empreendimento até aos mais elementares atos de gerência, ou gestão de rotina (Getzels, 1960). Considerando este assunto, num velho livro, que se tornou clássico na matéria, Cubberley (1927) escreve estas palavras: Todos quantos tenham de dirigir devem aprender a orientar-se pelas razões de amplo conhecimento, mas também pelo entusiasmo contagiante da empresa comum em que operem. Isso será sempre mais importante que o seu grau de autoridade formal, legal ou regulamentar. Os poderes e prerrogativas que lhe garantem a posição, ou o cargo, deverão ser justificados pela sagacidade e compreensão humana com que realize o seu trabalho. Deverá constantemente compreender que ele representa um todo, não uma parte ou fração, motivo por que a preocupação de agir com eqüidade terá de existir. Ademais, ele não representará apenas um conjunto funcional, a parte abstrata de um empreendimento, mas toda a comunidade a que os serviços escolares devam atender. E acrescenta que a paciência, com persistência nos objetivos, mais flexibilidade nos modos de ação deverão ser atributos fundamentais. “Roma e Pavia não se fizeram 79Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar num dia”, lembra Cubberley, sugerindo com esse velho provérbio que os resultados dos serviços educativos são sempre de lenta obtenção. Outro especialista, Franklin Bobbitt (1941), por sua vez, observa: O diretor de uma escola não pode pretender marchar mais rapidamente que os seus professores, e assim também os chefes de distrito com relação aos diretores. Cada um deverá considerar sua posição como educado do próprio conjunto pelo qual responda, se é que deseje nele assumir condições de liderança. A pedra de toque, em qualquer caso, será a compreensão das finalidades inte- gradas de cada sistema. Dirigirá mal quem não as compreenda, pois não estará conduzin- do o conjunto a seu cargo no sentido de que elas sejam atingidas. Por outro lado, as decisões hão de ser realistas, tendo de articular-se segundo as condições existentes, e não segundo outras, imaginárias. Isso importa em dizer que, entre vários caminhos possíveis, nenhum será producente sem que bem se ajuste ao plano propriamente operativo. Daí, o valor que comumente se empresta ao tirocínio dos administradores, na presunção de que a prá- tica, por si só, possa concorrer para a formação das mais convenientes atitudes de decisão. Convém relembrar que o administrador não estará num dado momento colhen- do informações para, só em outro, decidir. Estará sempre fazendo uma e outra coisa. As pessoas que bem dirigem expressamente reconhecem esse fato, admitindo que muitas defi- ciências do trabalho administrativo podem e devem ser sanadas por mais completas e ade- quadas informações. Procedendo a um exame das decisões administrativas e, em especial, das funções de dirigir, Simon (1947) salienta que nelas existem dois elementos diferentes: um elemento de fato constituído pelas circunstâncias da situação concreta que o admi- nistrador defronte, e queé apreciada por via empírica, naturalmente verificável pelo que contenha de “verdadeiro” e “falso”, e um elemento de valoração pessoal, constituído de julgamentos subjetivos, dificilmente demonstráveis por via empírica. Este último constitui, em grande parte, pelo menos, o que geralmente se costuma chamar de “força moral”, complexo de atributos pessoais, sempre resultantes do modo pelo qual o encar- regado de dirigir compreenda a situação, e nela a si mesmo se compreenda, como parte integrante. Esse pensamento é de grande importância. O bom administrador especifica o âmbito particular de ação de cada um de seus subordinados, não o desligando, porém, das perspectivas maiores do trabalho comum. Dois esquemas, relativamente simples, poderão ilustrar essa idéia, referindo- se a situações práticas da vida escolar. Vejamos o primeiro: I um mestre, em sua classe, ensina a um grupo de alunos certos elementos de aritmética, para que assim se atendam as exigências do programa e do horário; II tais exigências são verificadas no devido tempo por exercícios, provas e exames, que o próprio mestre ou o diretor da escola organiza, a fim de que se verifique a quantidade e a qualidade do trabalho realizado; 80 Organização e Administração Escolar III o êxito nesses exercícios, provas e exames, permitirá que os alunos sejam promovidos ao cabo do ano escolar, matriculando-se na classe subse- qüente, onde, então, passarão a receber novas noções graduadas, a fim de que, IV nos momentos aprazados, sejam submetidos a novos exercícios, provas e exames, e, assim, sucessivamente, até que alcancem a etapa final do curso. O trabalho concebido e realizado nessa forma poderá tender a uma automatização dos procedimentos, sem maior visão de conjunto. A ação do diretor pode- rá ser, e freqüentemente é, dominada por feição de pura rotina, que justificará nas classes atividades, por assim dizer, mecânicas. Vejamos agora o segundo esquema, em que a ação de dirigir poderá inspirar diferente orientação: I um diretor reúne com freqüência os mestres para exame dos objetivos imediatos e gerais do trabalho, sejam os de cada classe, sejam os das dis- ciplinas diferenciadas nelas existentes, a fim de que lições e exercícios melhor se coordenem para um efeito integrado e geral; II no caso particular do ensino dantes citado, o de noções de aritmética, levará a compreender que essas noções influem na linguagem geral, na enumeração de coisas, sua comparação e relacionamento lógico; III fará salientar que isso se torna necessário para que os alunos melhor compreendam certas situações da vida real, as que estejam vivendo não só na escola, mas em seu lar, grupos de recreação e vizinhança, grupos esses que com outros, numerosos, constituem uma parte ou um bairro da cidade; IV bairro esse que, com outros mais ou menos diversificados, compõem uma grande aglomeração urbana com as suas necessidades próprias de comunicação, de vida econômica e social; V aglomeração essa que não se encontra isolada, mantendo relações necessárias, de vida social e política, VI com outras aglomerações urbanas e rurais, as quais por sua vez se articulam num conjunto regional que, para sua própria estabilidade e desenvolvimento, necessita de homens e mulheres devidamente preparados; VII nesse conjunto, aquelas noções elementares, se devidamente assimiladas e articuladas, deverão influenciar atitudes favoráveis de boa comunicação entre pessoas e grupos, fundamentando hábitos de ordem, exatidão e correção, todas necessárias a uma maior consciência da vida social. Os dois esquemas não se referem a situações que mutuamente se excluam. Exemplificam apenas como um mesmo trabalho pode e deve ser compreendido em di- ferentes planos, mediante programação complexiva. O desligamento ou desarticulação entre eles com mais freqüência ocorre por insuficiência de comunicação do que por outra coisa. Assim se apura que, tal como existe uma estreita relação entre as funções de planejar ou programar e as de dirigir ou coordenar, outra existe também, entre estas últimas e as de comunicar e inspecionar. 81Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar [[[[[ Comunicar, inspecionar Dirigir importa em decidir com justeza e oportunidade. As decisões serão tanto mais produtivas e oportunas quanto mais se fundem em informações exatas e atualizadas. Nenhuma organização se mantém coesa senão quando haja uma contínua corrente de infor- mações de umas para outras de suas partes, de escalões inferiores para os superiores, e inversamente. De outra forma, o trabalho perderá o sentido orgânico que deverá ter. Nos seres vivos, bem sabido é que as funções de comunicação recíproca entre uns e outros de seus órgãos mostra-se fundamental. Nos animais, o desenvolvimento de um sistema próprio para isso, o nervoso, apresenta-se paralelo ao desenvolvimento geral dos organismos. Pois a mesma idéia há de ser aplicada à vida de uma organização ou estrutura de trabalho. Muito do que se poderia chamar patologia dos serviços, nos empre- endimentos escolares como em outros, decorre de insuficiente ou inadequado serviço de comunicação entre suas partes. Freqüentemente, mestres, diretores de escola e chefes de conjuntos mais amplos vêm a decidir mal, ou deixam de decidir com oportunidade, por ausência ou inadequação de elementos informativos. A função essencial do sistema de comunicação – “verdadeiro tecido conjuntivo da organização” na frase de um autor – será suscitar uma compreensão geral e integrada do trabalho cooperativo, não só em relação aos fins como quanto aos procedimentos a empregar. Só assim poderá haver uma identificação de todo o sistema com o plano geral das fontes de decisões e, em conseqüência, dos níveis de autoridade que passarão, então, a ser sentidos como verdadeiramente úteis. Barnard (1939) chega a afirmar que “não há razões para verdadeiro exercício da autoridade senão quando existam canais ou linhas desimpedidas de comunicação entre superiores e subordinados”. Poder-se-á dizer que muitos administradores não pre- enchem devidamente suas funções tão somente por esse motivo.5 Não será o caso de dizer “não sabem o que fazem”; na verdade, “não sabem o que fazer”, porquanto não dis- põem de informações que lhes permitam discernir entre problemas fundamentais e ques- tões meramente acessórias. O mesmo se poderá afirmar, e com razão, quanto ao trabalho dos subordinados. Nos serviços de organização e administração escolar, a questão tem especial relevância pelas conexões que mantém com o processo da cultura em geral. O que se chama cultura não representa a soma de tradições, valores, idéias e técnicas, abstrata- mente considerados, mas a circulação dessas formas de vida. Em sentido objetivo, “cultura é comunicação”. No caso de uma organização, qualquer que seja, a compreensão funcional de cada uma de suas partes ou a consciência de sua própria razão de ser e de seu trabalho dependerão do sistema de comunicações que se mantenha. A colaboração potencial que vise a fins comuns e, em conseqüência, o relacionamento entre meios e fins, repousa afinal de contas num bom sistema dessa espécie. Note-se que as palavras comunidade e comunicação têm uma mesma raiz. De sua parte, diz a sabedoria popular que “é conversando que os homens se entendem”. Como admitir que uma organização possa existir sem adequados canais de comunicação?... Segundo o nível de trabalho, a proximidade da sede dos serviços e outras circunstâncias, os modos práticos de comunicação enormemente variam. Serão colóquios 5 Para uma visão prática do problema, cf. Roetchlisberger (1941). 82 Organização e Administração Escolar e pequenas reuniões, explanações sobre planos e programas, grupos de debates ou seminários. Serão circulares, programas explicados em linguagem acessível, documen- tos impressos de maior extensão. Serão boletins, circulares, ordens de serviço,relatórios, tabelas e gráficos, tudo quanto possa facilitar uma clara visão de diretrizes e procedimen- tos, de serviços a realizar e serviços já realizados. Serão, por outro lado, visitas de inspeção, seguidas de simples conversação, ou reuniões para debate de problemas. Os serviços de inspeção, de fato, oferecem como que uma posição estratégica para confronto de informações, idéias e intenções entre elementos de ação operativa e de ação propriamente administrativa. De modo geral, os autores modernos concordam nos seguintes pontos: a) a comunicação é uma modalidade indispensável do processo de coordenar e, se se quiser também, uma fase que imediatamente sucede a de programação, com o fito de preparar situações favoráveis ao trabalho previsto; b) as comunicações conduzem as questões administrativas até certos pontos críticos de decisão, assim representando uma das bases necessárias às funções de coordenar e dirigir; c) a ausência ou insuficiência de comunicações, no duplo sentido operativo-administrativo e administrativo-operativo, enfraquece o espírito de colaboração, quando não crie logo zonas de atrito; d) há, ademais, no exercício constante da comunicação, um efeito funcional muito importante que é o da aprendizagem da linguagem técnica indispensável à boa coordenação entre serviços administrativos e operativos. A esse respeito será preciso observar que as comunicações não valem apenas pelo intuito de quem as formule, mas pela possibilidade de exata percepção de quem as receba. Essa é a razão pela qual os trabalhos de inspeção devem ser compreendidos no processo, visto que um bom inspetor estará sempre resolvendo as dificuldades decorrentes de inadequada percepção das decisões administrativas de mais alto nível, e inversamente (Mosher, Cimmino, 1950). Ainda quanto ao aspecto de boa percepção das diretivas nos serviços de ensino, haverá a notar que, muitas vezes, empregam os administradores expressões muito vagas ou de sentido geral, que não chegam a ser bem compreendidas. Por exemplo, espírito democrático, plenitude de vida, escalas de valores, formação integral da personalidade, ou outras similares. Ou, então, recorrem a locuções de certo pedantismo técnico, que não concorrem senão para fixação de uma logomaquia sem maior proveito. É evidente que o requisito fundamental da comunicação consiste em permitir uma percepção clara do que se deseje alcançar e do que se deva fazer para isso. Freqüentemente, belos programas concebidos do alto, com ignorância das condições reais daqueles que os devam aplicar, tornam-se inócuos, senão perturbadores. O teor geral de qualquer comunicação terá de levar sempre em conta tais condições. Em suma, a comunicação tem como objeto próprio influenciar as pessoas no sentido da coesão estrutural e funcional de cada serviço. De modo geral, deve visar à harmonia e equilíbrio entre o aspecto objetivo da organização, isto é, a sua estrutura for- mal, e o aspecto subjetivo, isto é, o comportamento provável das pessoas encarregadas dos diferentes níveis de serviços. 83Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar [[[[[ Controlar, pesquisar Como já se fez notar, os serviços chamados de inspeção, (ou de modo geral, os de ação intermediária), devem revestir-se do duplo aspecto de oferecer informações e recebê-las, de ajudar a decidir no plano operativo e levar a bem decidir nos escalões mais altos. Quanto a este último aspecto, os inspetores, ou funcionários assemelhados, num serviço qualquer, recolhem dados e devem sistematizá-los e interpretá-los, quanto isso lhes seja possível. Assim, os serviços de inspeção passam a representar também funções de controle e pesquisa. Controle, antes de tudo, significa balanço; refere-se a um confronto entre o que se tenha planejado e o que efetivamente se tenha produzido. A origem do vocábulo põe em destaque essa idéia. Controle (do francês, contrerôle) significa o confronto entre papéis diferenciados de diferentes órgãos, atividades ou pessoas delas encarregadas. Muitos aspectos poderão a esse respeito ser apreciados: o contábil, quanto ao emprego das dotações (controle financeiro); o da execução das leis e regulamentos, toma- dos como elementos de organização formal (controle legal e de ação política geral); e outros mais amplos, que a esses inclua, entre o que se haja programado e o que realmente se tenha conseguido, mediante verificação por critérios de eficiência (controle administrativo geral). Os balanços que os serviços escolares reclamam tornam-se, assim, de uma parte, extensão do sistema de comunicação de baixo para cima, e, de outra, uma tomada de consciência, através desses elementos, das responsabilidades dos administradores, em qualquer de seus níveis. A forma sintética de expressão é sempre escritural, não ape- nas a da contabilidade de despesas, mas a da contabilidade das operações realizadas. De modo geral, assume a feição de descrição estatística. O controle define responsabilidades, mas põe à prova também os modelos teóricos e práticos em que a organização se apóie. No que mais estreitamente se refere à administração, admitida a perspectiva geral de eficiência, terá de desdobrar-se em tantos aspectos quantos sejam necessários. A apresentação numérica dos resultados constitui, sem dúvida, a forma geral de apresenta- ção. Os números, no entanto, têm de ser interpretados, o que muitas vezes exigirá compreensão de aspectos nem sempre de fácil expressão quantitativa. A esse ponto, não só a descrição estatística, mas a análise estatística, poderá especialmente atender. Do plano propriamente de balanço, no sentido mais simples dessa palavra, passa-se em conseqüência para o da pesquisa, ou investigação, o qual aqui deve merecer algumas observações especiais. [[[[[ Administração escolar e investigação pedagógica Se os administradores defrontam situações problemáticas para resolvê-las em diferentes níveis e planos, e se, para isso, têm de decidir com base em informações satisfatórias quanto a elementos, condições e operações, parece evidente que carecerão de compreender as relações funcionais que existam no trabalho pelo qual respondam. A isso, acresce uma circunstância. Ao interferirem na estruturação e gestão dos serviços escolares, os administradores alteram os fatos e situações que, em dado momento, existam. Em conseqüência, novas realidades surgem, demandando por sua vez 84 Organização e Administração Escolar análise e interpretação. Em determinados planos terão mesmo os administradores de contar com informações que lhes possam fornecer serviços regulares de documentação e pesquisa. Ainda, porém, nos níveis mais simples, a atividade conjugada das condições de trabalho em curso significará investigação ou pesquisa. A verificação desse fato deu origem ao que se convencionou chamar de pesquisa na ação, ou pesquisa ativa (action-research), e também investigação operacional, para distingui-la de outras formas (Corey, 1953). Em princípio, a distinção se funda no interesse de conhecer aspectos técnicos ou metodológicos, numa dada situação concreta, mais que relações funcionais em abstra- to, de tipo puramente teorético. Além disso, haverá algo a acrescentar: a investigação ativa deve ser realizada delas próprias pessoas que tenham a responsabilidade de pôr em prática as conclusões resultantes. Ora, esse é, precisamente, o caso dos organizadores e administradores escolares. Informar-se sobre as realidades em que operem para que possam elaborar decisões justificadas por sua eficiência, são as suas duas atividades básicas. Desse modo, mestres, diretores, inspetores, chefes de serviço mais poderão sentir a necessidade de modificar decisões, submetendo suas convicções pessoais, ou simples preconceitos, à verificação de dados objetivos, nas situações em que estejam atuando. A investigação tradicional em educação, como bem salienta Stephen Corey, tem-secaracterizado como uma atividade não de educadores práticos, mas de eruditos, os quais, via de regra, não têm interesse direto na aplicação imediata do que concluam. Geralmente, terminam seus trabalhos afirmando que haverá necessidade de realizar no- vas e mais complicadas indagações, para que se aclare a relevância desta ou daquela nova variável. A investigação ativa ou operacional, ao contrário, é um método para transformar as tarefas menos perfeitas, que se estejam realizando, em tarefas mais eficientes, dentro das condições que realmente existam, num dado lugar e tempo. Terá ela de basear-se em dados hauridos da experiência e reflexão crítica, sobre processos em que tenhamos responsabilidade, ou em que sejamos protagonistas. É certo que esse tipo de investigação, de âmbito limitado, não exclui outros de mais ampla extensão. Mas a verdade também é que, sem ele, não se chegará ao espírito objetivo que se deve desejar nos organizadores e administradores escolares. O que com a investigação operacional se pretende é, afinal de contas, tornar construtivos novos arranjos das condições do trabalho. Só pelo confronto do trabalho de várias classes, ou várias escolas numa mesma circunscrição, ou do trabalho de várias circunscrições em mais dilatada região, será pos- sível esclarecer a influência de certas condições peculiares do ambiente, não imediatamente removíveis. Relembremos que a criação dos serviços chamados de inspeção escolar tiveram essa origem. Inspeção significa descrição objetiva de realidades concretas, exame de con- dições e resultados, primeiro passo para toda e qualquer investigação de maior vulto. Quando bem compreenda suas funções, será o inspetor, antes de tudo, um investigador operacional, mais preocupado em verificar as razões por que os serviços a seu cargo encontram tais ou quais dificuldades, do que fazer valer a sua autoridade formal, decor- rente das leis e regulamentos. E, quando assim faça, estará também estabelecendo um melhor sistema de comunicação entre os serviços operativos e os administrativos, donde o nome de supervisão, que se vem empregando. Dentro das normas de gestão existente, quaisquer que sejam, será sempre possível desenvolver espírito de pesquisa na ação. Muitos diretores e mestres não realizam trabalho 85Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar em melhores condições, unicamente porque nunca ninguém lhes terá despertado essa parcela de atitude experimental, necessária em empreendimentos de natureza complexa, como são os do ensino. Ademais, quando tal espírito se estabeleça, as relações humanas no trabalho tenderão imediatamente a mudar, por isso que avivará a consciência dos objetivos e procedimentos comuns que os mestres e administradores devam ter em vista. Convirá lembrar que o nome de investigação ativa, ou operacional, não foi criado por nenhum educador, mas sim, por um especialista em relações humanas na administração, Collier, que o lançou em 1945. E convirá observar também que tal recurso de boa organização não se refere a nenhum novo método de pesquisa. Refere-se especialmente à congregação de esforços no sentido de estudo objetivo em situações concretas, para melhoria do rendimento de um trabalho comum (Corey, 1953). A maneira prática, recomendada por Collier, é a de reuniões de estudo em que se congreguem todos quantos tenham de realizar um trabalho cooperativo. Praticamente: “Que devemos fazer em comum?”, “Que devemos fazer, todos e cada um de nós, em seu campo específico para que melhores resultados gerais se obtenham?...”. Estabelecido esse espírito inicial de cooperação ativa, serão selecionados uns tantos problemas, claros e bem definidos, debatidos os métodos ou recursos aconselháveis e possíveis para mais completo conhecimento e, afinal, alvitrada uma solução. Delineado o esquema inicial, já numa segunda reunião será possível ter à mão dados concretos a respeito da situação que se pretenda melhorar. Então, proceder-se-á à discussão deles, de seu valor, significação e relações com outros fatos e situações que ao caso interessem. Certo número de questões de estrita significação didática, o da adequação dos procedimentos de ensino às capacidades dos alunos por exemplo, incumbirão especial- mente aos mestres. Haverá vantagens em que se lhes faculte o uso de instrumentos indis- pensáveis à verificação objetiva de seu trabalho, como a dessas capacidades; igualmente, que se elucidem os modos de observação experimental, em geral. Quando numa escola qualquer, dois ou três mestres, com estímulo da parte da direção do estabelecimento, sejam levados a assim fazer, e comuniquem depois a outros professores os resultados de seu trabalho, um novo espírito começará a estabelecer-se. Uma das condições que, com maior freqüência, determina a empedernida rotina nas escolas é a falta de comunicação das experiências bem fundadas de uns mestres a outros. O que ficou dito em relação aos mestres de uma escola poder-se-á dizer dos diretores de estabelecimentos de um mesmo distrito, cujos trabalhos de investigação- ativa o respectivo inspetor estimule e oriente; entre inspetores de toda uma circunscri- ção, por seu chefe; e, enfim, entre chefes dessa categoria, pelos diretores-gerais a que estejam subordinados. Em todos os casos, haverá sempre resultados benéficos: melhor compreensão das condições técnicas do trabalho comum, como das de sua coordenação; maior capaci- dade de julgamento objetivo de cada mestre ou de cada administrador, em relação à capacidade de julgar; e, enfim, aumento geral do senso de responsabilidade. [[[[[ Normas gerais de organização e operação Depois de havermos analisado as atividades básicas dos agentes administrativos, e a associação possível entre o seu trabalho e o desenvolvimento de uma atitude experimental, 86 Organização e Administração Escolar poderemos compreender a razão das normas gerais estabelecidas por grandes tratadistas, quanto à solidarização das funções operativas e administrativas dos serviços de ensino. Um deles, Artur Moehlman (1940), por exemplo, admite a separação entre providências de operação, e as demais, a que chama de organização. Torna claro que tanto aos administradores quanto aos mestres, cada qual em sua esfera, caberão sempre fun- ções de programar, coordenar, executar e avaliar. Nessas bases, propõe um vasto esquema que assim pode ser resumido: 1) Para que o administrador possa conseguir satisfatória eficiência de um grupo docente deverá atender às seguintes providências de organização: a) normalizar o trabalho mediante procedimento ou meios padronizados em termos de uma orientação básica (quer dizer, que vise às finalidades reais a serem obtidas), com fundamento em conhecimentos técnicos comprovados; b) estabelecer uma articulação do controle e das responsabilidades, a fim de que haja possível coordenação nos esforços e decisões que atuem no senti- do de maior eficiência; c) sistematizar os objetivos, de tal modo que possam ser avaliadas em sua consecução gradual, tendo-se em mente as finalidades gerais fixadas e os procedimentos estabelecidos, em cada caso particular; d) admitir que possa haver certa variação no relacionamento entre meios e fins, a fim de que se aperfeiçoem os procedimentos, bem como os próprios meios de verificação e crítica do trabalho, tudo numa base científica ou de cunho experimental; e) admitir também e, em conseqüência, que possa haver modificação de objetivos próximos e dos procedimentos respectivos, desde que isso resulte de estudos fundados na mesma base experimental; f) estimular o progressivo desenvolvimento da estrutura escolar existente, mediante o fortalecimento do senso cooperativo e do desenvolvimento profissional, de parte de todos quantos realizem os serviços escolares. 2) Para que o administrador bem possa influir sobre as operações do ensino, deverá ter em conta providências que atendam aos seguintespontos: a) ampla orientação sobre ensino e aprendizagem, como aspectos de um mesmo processo; b) adequação e melhoramento dos edifícios escolares e seu equipamento; c) seleção e aperfeiçoamento do pessoal, havendo comunicação constante entre os diferentes níveis em que esteja distribuído; d) formulação dos programas de ensino de modo que os objetivos fixados se tornem exeqüíveis; e) freqüência regular dos alunos às aulas e participação de seus responsáveis, pais e parentes, em atividades relacionadas com a vida escolar; f) manutenção dos edifícios escolares para que conservem aspecto higiênico e agradável; g) regularidade da escrituração escolar; h) avaliação do rendimento de todo o trabalho, segundo a orientação que se tenha estabelecido; i) inspeção constante dos serviços dos professores e atividades dos alunos; 87Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar j) fortalecimento das relações entre a escola e a comunidade, para que o ensino não só bem interprete as necessidades do ambiente, mas também para que a comunidade bem interprete e auxilie o trabalho da escola; l) financiamento satisfatório de todos os serviços. Como se vê, Moehlman condensa as atividades dos administradores escolares em geral, referindo-se ao planejamento do trabalho, seleção, distribuição e aperfeiçoa- mento dos mestres; ao estabelecimento de canais de informação da periferia para o centro e em sentido inverso; ao desenvolvimento das condições que, entre todo o pessoal, esta- beleça estímulo para progresso geral, inclusive o reconhecimento dos mais capazes na situação de líderes. Quando todas essas funções se propaguem num grande número de escolas, de diferentes tipos, para que atendam aos diferentes aspectos da vida social, cria-se um sistema escolar consistente. É o que em grandes serviços públicos de ensino, quando bem orientados, se tem procurado obter. [[[[[ Síntese do capítulo 1 Num empreendimento qualquer, podem-se separar as atividades em dois grupos: propriamente operativas e administrativas. Nos empreendimentos que produzam coi- sas tangíveis (mercadorias), essa distinção será mais fácil; nos que produzam serviços, o mesmo não acontece, visto que “serviços” subentendem relações entre pessoas, substan- ciais também nas atividades administrativas. As escolas existem para produzir serviços de desenvolvimento e ajustamento social. Desde a unidade básica, a classe de ensino, os serviços escolares se fundam em relações humanas. A constituição de maiores conjun- tos não anula esse ponto essencial, antes o acentua, devendo os administradores dar-lhe atenção especial, mediante análise de seu próprio comportamento. 2 Para essa análise, devem se considerar duas espécies de atividades: a de coligir informações sobre os problemas que no trabalho comum se apresentem; e a de decidir, no sentido de que tais problemas se resolvam, não vindo, ademais, a se reproduzirem desnecessariamente. Em termos esquemáticos, será preciso que o administrador co- nheça o empreendimento em que esteja atuando, para que e por que deva atuar, e, ainda e também, em cada caso, onde, quando, quanto e como tenha de operar. Isso leva a encarar a ação administrativa sob quatro modalidades capitais: a) planejar e programar; b) dirigir e coordenar; c) comunicar e inspecionar; e, d) controlar e pesquisar. 3 Planejar significa figurar, em termos simbólicos, o que se deva realizar, em qualidade e quantidade; e programar, estabelecer objetivos graduais que permitam a realização fi- nal desejada. Plano e programas são aplicáveis a um empreendimento, no seu todo, em projetos integrais; ou a setores, em projetos setoriais. A determinação de tais setores dependerá da natureza das operações e de sua distribuição no tempo e no espaço. 4 Dirigir e coordenar é a ação administrativa que consiste em fazer funcionar na devida forma, e a tempo e hora, cada parte do trabalho. Implica divisão de tarefas e demarcação 88 Organização e Administração Escolar conseqüente de esferas de responsabilidade e níveis de autoridade. Daí, a idéia popular de que administrar signifique apenas ordenar, comandar, chefiar. Esses verbos su- põem a prática de decidir, mas, de decidir bem, com prévio conhecimento de causa, que habilite o administrador a, sensatamente, optar entre alternativas ou a bem esco- lher entre hipóteses várias para a resolução de cada problema. Boa decisão tanto supõe conhecimento geral das operações (métodos, técnicas), quanto percepção do conjunto das pessoas que trabalhem, sua motivação, suas disposições e atitudes e, mais, a influência do comportamento administrativo sobre tudo isso. 5 Daí, a importância em comunicar e inspecionar. Para que o exercício da autoridade satisfatoriamente se dê, será preciso que haja canais desimpedidos de comunicação entre superiores e subordinados, e inversamente. Muitas coisas não se executam satisfatoriamente por ausência ou insuficiência de informação de cima para baixo, e muitos problemas evitáveis se geram por desconhecimento, por parte dos dirigentes, da situação real do trabalho. Inspecionar é o termo que se aplica à análise das condi- ções e circunstâncias, inclusive as de ordem pessoal, em qualquer setor de trabalho. Não significa apenas fiscalizar, no sentido disciplinar que o uso dessa palavra admite. Será, mais amplamente, comunicar, de cima para baixo e de baixo para cima, contribu- indo para maior solidariedade geral entre os que trabalhem: o neologismo supervisionar, (do inglês supervision), vem sendo nesse sentido também empregado. 6 Boa inspeção necessariamente se desdobra em controle e pesquisa. Controlar significa confrontar o desempenho de papéis diferenciados, ou verificar a forma pela qual as responsabilidades de cada qual são aceitas e correspondidas; e pesquisar, levar adian- te essa análise, nos elementos, fatores gerais e circunstâncias ocasionais do trabalho. Em qualquer nível, o administrador terá de pesquisar ou investigar para que bem possa decidir. 7 Não se trata aí de promover investigações de cunho teórico, para concluir por generalidades. Trata-se de investigar fatos e condições nas situações concretas que o administrador esteja defrontando, tais como elas se apresentem, caracterizadas pelo comportamento dos subordinados e o dos próprios administradores. É o que se deno- mina pesquisa na ação, ou pesquisa para a ação, aquela que praticamente importa. Assim se fecha o círculo do comportamento administrativo, indicado naqueles pares de termos: planejar e programar, dirigir e coordenar, comunicar e inspecionar, contro- lar e pesquisar. A experiência demonstra que onde se pesquise na ação, há maior coe- são no empreendimento, pois a própria pesquisa estimula disposições e atitudes favoráveis à melhor participação no trabalho. 89Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 4 Os sistemas públicos de ensino e os problemas de política e legislação [[[[[ Os sistemas de ensino No estudo sobre Organização e Administração escolar, que vimos fazendo, três idéias capitais têm sido ressaltadas. A primeira é esta: num trabalho cooperativo qualquer, ao mesmo tempo em que dividimos as tarefas, devemos coordená-las, visando a resultados de crescente efici- ência. A segunda é que, para isso, várias esferas de responsabilidade e níveis de autorida- de devem estabelecer-se, segundo conjuntos estruturais e funcionais, de possível análise autônoma. A terceira, enfim, é que a associação necessária entre esses conjuntos reclama a compreensão dos objetivos gerais e integrados de cada empreendimento. O comportamento administrativo, com vistas a tal resultado, atende a princí- pios de planejamento, direção, comunicação e controle, como no capítulo anterior se demonstrou. Quando a todos esses pontos se dê a necessária atenção, as organizações assu- mem a feição de um sistema. Isto é, estrutural e funcionalmente, suaspartes se coorde- nam de tal modo que o trabalho de umas sobre as demais influi, sem quebra da harmonia geral. Um sistema é algo que apresenta um destino comum, quaisquer que sejam os ele- mentos de sua composição. Em serviços complexos (e tal é o caso dos de ensino), o termo muitas vezes se aplica, para efeitos práticos, a conjuntos maiores ou menores, desde que seus elementos e condições se unifiquem para a consecução de objetivos de um certo gênero, ou ainda de vários, apreciados num mesmo grau operativo. Pode-se admitir que uma só escola consti- tua um pequenino sistema; assim também, uma rede de estabelecimentos do mesmo nível de ensino, ou conjunto mais diferenciado e abrangente de escolas de muitos graus e ramos, desde que sirva a certa clientela delimitada, a de uma populosa cidade, ou de região deter- minada. Com mais razão se dirá que um conjunto de numerosas escolas, entre si coordena- das para que atendam às necessidades de todo um país, representará um sistema. Daí, o uso corrente de expressões tais como sistema local, sistema regional e sistema nacional de ensino. 90 Organização e Administração Escolar O uso de tais expressões e, necessariamente, a de sistema público, em qualquer caso se refere a certo regime estabelecido, mediante ação político-administrativa que aos serviços escolares comunique unidade formal de propósitos e certa unificação de proce- dimentos, por influência de um contexto social que a esses mesmos serviços inspire e modele, assim adquirindo forma institucionalizada estável. A sistematização de serviços de ensino deu-se primeiramente por influência de entidades religiosas; depois, por marcada atuação de organizações econômicas; enfim, pela de grupos de ação política, com a caracterização gradual dos sistemas públicos atu- ais. Mas só a partir dos fins do século 18 e, sobretudo, no decorrer do século passado, é que os serviços escolares passaram a ser compreendidos nessa forma, como matéria da ação governamental. Se é certo que, já em autores tão antigos como Platão e Aristóteles, encontramos afirmações sobre a importância das relações entre a política e a educação do povo, tam- bém é certo que esse pensamento só nos últimos séculos veio a afirmar-se, com a compre- ensão dos Estados de base nacional. A convicção de que a cada unidade cultural devesse corresponder uma unidade política justificaria os esforços no sentido de criar, desenvolver e manter instituições públicas de educação. A Reforma intensificou uma política pedagógica de caráter nacional-religioso. Muitos historiadores lembram que foi Lutero o primeiro a recorrer aos poderes públicos para propagação de suas idéias religiosas. Comenius, por sua vez, propôs que se estabele- cessem escolas públicas, destinadas tanto a crianças como a jovens, juntando a essa concepção princípios de ordem filantrópica. A Contra-Reforma aproveitou essas idéias, havendo a Companhia de Jesus em muitos países, inclusive o Brasil, decisivamente concorrido para a extensão de serviços populares de ensino. Na teoria política, notam vários autores, foi Montesquieu o primeiro pensador a tratar da questão sob forma mais desenvolvida. Em sua famosa obra Do espírito das leis, publicada em 1748, toda uma parte, o livro IV, trata da matéria com o significativo título “Por que as leis da educação devem ser relacionadas com os princípios de governo”. Os teóricos da Revolução Francesa, em especial Condorcet, desenvolveram essa idéia. Em seus escritos e projetos à Assembléia Legislativa, em 1792, Montesquieu defendeu a uni- versalidade, a gratuidade e a laicidade do ensino. Esses princípios vieram a dar, depois, orientação aos serviços de instrução pública em vários países europeus e americanos (Graves, 1928). Nessa base, constituíram-se redes de escolas populares no reino da Prússia, por influência direta das idéias de Guilherme Humbolt e Hegel, e, pouco depois, sistema similar no Estado norte-americano de Massachusetts, com Horace Mann, em 1838, e na França, quase meio século depois, com Jules Ferry. Desde então, a maioria dos países tem cuidado de desenvolver sistemas públicos de educação (Luzuriaga, 1959). Tais como agora os conhecemos, os sistemas públicos resultaram de lentas transformações, com o esclarecimento da idéia de que as nações devem ter por base uma cultura nacional, a mesma língua, homogeneidade geral de costumes, comunidade de interesses, ideais e aspirações. A cada unidade cultural deverá corresponder uma nação, no sentido moderno deste conceito, donde a necessidade de bem se formarem os cidadãos de cada uma. Cada nação resulta de uma organização de fato, ou de uma subestrutura (território, povo, interesses imediatos de subsistência e defesa), a qual se institucionaliza por ação política, com o estabelecimento de um governo em que se representem aspirações 91Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar comuns, no caso de regime democrático, ou as de um grupo mais poderoso que aos demais submeta, em outros casos. Do ponto de vista da organização e administração escolar, o assunto interessa por dois pontos fundamentais. Primeiro, o da filosofia política em que cada Estado se apóie, com suas normas de sentido programático, a definição dos órgãos do poder públi- co e a dos direitos e garantias dos cidadãos. Depois, pelas formas práticas de legislação que em cada caso se adotem, a fim de que tal filosofia possa ser realizada com a devida eficiência, por ação política coerente. A cada um desses pontos, convirá que examinemos. [[[[[ Política e administração Que se deve entender por filosofia política e ação política, e quais as relações que tais conceitos apresentam com os problemas gerais de administração? Em sentido amplo, uma filosofia política define intenções, propósitos, um dever- ser. Para exemplificar: falará de finalidades e valores gerais, tais como “aperfeiçoamento do homem e suas instituições”, “valor e desenvolvimento da personalidade”, “oportunidades iguais a todos nos bens da civilização e da cultura”, “direito a receber educação”, “respeito pelos direitos fundamentais do homem”, “transmissão de valores”, “aproveitamento das capacidades individuais”, “distribuição de justiça”, ou princípios similares. Tudo isso é fundamental como ponto de partida. Mas para que se traduza em termos práticos, haverá necessidade de ação político-administrativa, ou seja, de meios hábeis para que tais aspirações e valores possam ser realizados em face de situações problemáticas variáveis, as que cada nação, ou partes de cada uma, em dado momento apresentem. Por isso se diz, tomando-se o termo em sentido prático, que política signifi- ca a arte de bem governar, tendo em vista o bem comum, representado num sistema definido de valores. Segundo a filosofia social adotada, as instituições de governo terão este ou aquele sentido geral. Se democrática, as formas de governo serão democráticas. Se aristocrática, ou oligárquica, outras serão elas. E, se totalitária, diversas terão de ser. Os governos procuram comunicar a seus serviços, ou à administração pública em geral, o espírito do regime que hajam adotado. Não obstante, os domínios da formulação política não se confundem com os da administração, em sentido estrito. A política assinala grandes diretrizes, aspirações gerais, com sentido especialmente prospectivo. A administração a isso recebe, procura compreender e objetivar, em planos e programas de operações, que bem articulem elementos e condições, instrumentando e coordenando serviços. Claro que entre o plano político e o da administração existem estreitas e íntimas relações. Mas a perspectiva da administração, convirá relembrar, é a da eficiência dos serviços, não a discussão das finalidades políticas que se tenham em vista por si mes- mas. Quando não haja num povo suficiente nível de desenvolvimento, é certo que o nome de política também se emprega para designar expedientes,legítimos ou não, utilizados para a posse dos postos de mando, com o intuito de favorecer certos grupos ou de garan- tir a continuidade da dominação de certas classes, mediante troca de favores ou emprego da força. Os processos que então se empreguem já não corresponderão àqueles a que antes nos referimos. 92 Organização e Administração Escolar A mais clara afirmação em favor da necessidade do estudo de dois campos diferenciados, um relativo à política e outro à administração, foi enunciada no ano de 1887, por Woodrow Wilson, a esse tempo professor universitário nos Estados Unidos e, mais tarde, presidente desse país. Procurou ele demonstrar que a administração pública deveria constituir objeto de indagação autônoma, tanto quanto o direito e a teoria política. “O objeto do estudo da administração deve distinguir entre os métodos de administração segundo ensaios empíricos, confusos e dispersivos e os que se possam realizar subordi- nados a métodos de constituição objetiva ou científica” (Wilson, 1960). Reconheceu, nes- se trabalho, a necessidade de se conferir maior poder de decisão aos administradores dos serviços públicos, dentro de normas e responsabilidades definidas. Aos administrado- res, caberá compreender e interpretar os grandes rumos ou tendências da ação política para traduzi-los, tecnicamente, em realidades de operação, segundo estudo dos recursos disponíveis, seu melhor relacionamento com as finalidades indicadas e adaptação às situações problemáticas que se ofereçam. Na língua inglesa, dois termos existem, aliás, a esse respeito e que aqui devem ser lembrados: politics e policy. O primeiro corresponde à indicação de vastos objetivos da vida social, à composição geral dos poderes públicos, aos critérios de ordem jurídica e moral a que devam subordinar-se. O segundo, aos modos de análise gradual da ação necessária para que esses resultados se obtenham, por desdobramento de um trabalho ordenado e coe- rente. Implica a idéia de antecedentes e conseqüentes, ou de um relacionamento adequa- do entre meios e fins. Ajusta-se, portanto, à idéia fundamental de planejamento ou pro- gramação, tanto no sentido da estrutura dos serviços quanto no dos procedimentos a serem utilizados, a fim de que as finalidades gerais previstas possam integrar-se por esforço comum. Assim, se a politics define rumos imperativos, de tudo abrangentes, as policies se graduam nos vários graus da ação política e da administração, propriamente dita, se- gundo níveis de responsabilidade na ação de dirigir ou coordenar os serviços públicos. Num estudo apresentado à Universidade de Colúmbia, Beatriz Osório (1956), com razão, observa: Deve-se notar que, em português, não temos senão uma só palavra, política, para designar tanto politics como policy. Quando dissermos apenas política, referimo-nos a politics, ou em outros termos, aos mais largos propósitos da administração, numa espécie caracterizada de instituições, que são as do Estado. Mas, fazendo referência à administração de qualquer outra espécie de instituições, temos sempre que usar de um adjetivo. Política educacional, por exemplo, significa educacional policy no sentido mais amplo. A mesma educadora comenta as observações do tratadista Lepawsky quanto a uma possível dificuldade na compreensão, mesmo em inglês, das relações entre o senti- do correto de policy e o de administration. Mas entende que essas dificuldades podem desaparecer quando se reconheça que o termo administração, no uso corrente, ora seja tomado num sentido muito amplo, ora em sentido menos largo e, ainda, em acepção restrita, a de gestão direta, ou simples gerência de um serviço qualquer particularizado. Em certos casos, para traduzir as duas idéias referidas, usam-se em português dois termos tomados à linguagem militar: estratégia e tática. A estratégia refere-se aos planos gerais de operação, assinala as finalidades últimas. A tática trata da arte de bem 93Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar dispor as tropas no terreno e de conduzi-las ao combate para que os fins estratégicos sejam alcançados. Ainda na linguagem militar, encontra-se a expressão diretivas de ação aplicada tanto na descrição de planos estratégicos quanto nas da tática, ou afinal, servindo ao relacionamento dos aspectos mais amplos de ação com outros, particularizados. Nas ati- vidades civis, o nome diretiva é também usado, ou substituído pelo sinônimo diretriz. Um conjunto de indicações gerais, dadas por um chefe a seus colaboradores, para conduzir um negócio ou uma empresa, num determinado rumo, é uma diretriz.1 Pode-se dizer que uma e outra dessas expressões de algum modo traduzem o termo inglês policy, e que os problemas gerais de ação política assimilam-se aos da estra- tégia, e os de administração, aos de tática. Aliás, mesmo em inglês, o termo policy admite gradações, na conformidade dos níveis administrativos, ou os da ação a ser coordenada, em cada caso. A formulação de decisões administrativas (no inglês, policy making) sucede-se em todos os graus de coordenação, direção ou comando. É corrente encontrar nos autores variada adjetivação: major policies, general policies, supplementary policies, written policies, costumary policies, individual policies (cf. Reavis, Pierce, Stullken, 1931). Tomando-se administração no sentido de gerência, ou gestão direta de serviços (no inglês, management), cuja função característica reside na interpretação operativa das general policies, diz Lepawsky que “os agentes de administração, ou administradores, não podem eximir-se da responsabilidade de formular certas diretivas próprias, ainda que não devam violar as diretrizes estabelecidas por agentes de mais alta autoridade”. Essa observação é justificada com o seguinte trecho de Paul H. Appleby (1949): A administração, considerada em seu mais amplo sentido, é a aplicação de uma diretriz geral (policy) geralmente estabelecida por lei. Sucessivamente, essa aplicação se torna mais especificada quando venha a referir-se a grupos de trabalho particularizado e, enfim, aos próprios casos individuais. Inversamente, a formulação e aplicação de uma diretriz referida a casos particulares pode tornar-se depois aplicada a casos mais gerais... A administração, em larga medida, envolve os dois processos, incessantemente. Analisando o mesmo assunto, Mosher e Cimmino admitem que as decisões administrativas, sob certos aspectos, são um segmento do processo político geral. Mas insistem em que as finalidades políticas mais amplas, ou diretrizes de valor imperativo, têm de desdobrar-se por todo um sistema causal, de relacionamento entre meios e fins, subordinados a uma programação coerente, que predetermine a formulação das diretivas particulares. Mas essa delimitação resultará também dos elementos e condições de cada caso concreto. E, a propósito, escrevem: Há uma importante relação entre o modo em que uma organização qualquer se apresente em seu aspecto estrutural e funcional, de uma parte, e as espécies de diretivas e decisões que os administradores devam adotar. Os estudiosos da administração notam sempre que o modo com que se dividam as funções, no âmbito de uma organização administrativa, condiciona não só o como serão exercidas essas funções, mas também quais poderão ser 1 O conceito de diretriz será adiante exemplificado, como mais detidamente analisado no capítulo 10, em que se estuda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 94 Organização e Administração Escolar elas, na execução real. Em outros termos, será lícito antecipar que decisões e diretivas o órgão administrativo terá tendência a adotar, conhecendo-se previamente a estrutura interna dos serviços e as funções que realmente possam desenvolver. (Mosher, Cimmino, 1950). Se a administração assim se subordina a uma política, comentam por fim esses autores, a própria ação política estará na dependência dos recursos,elementos ou instrumentos mais ou menos eficientes com que a administração possa contar. Em resumo, os ideais e aspirações políticas definem grandes metas, e, já em concordância com elas, traçam quadros fundamentais de instrumentação e linhas gerais de operação. No sentido estrito do termo, a administração é levada a aceitar esses pontos para dar-lhes vida e movimento, em face das situações problemáticas que se apresentem. A política, num sentido geral, estabelece propósitos e tendências gerais de ação, ou as bases programáticas a desenvolver, em diretrizes e normas gerais, normalmente expedidas por certo poder político, o legislativo. [[[[[ Administração e legislação O instrumento geral de expressão política a ser seguido pelos órgãos de administração pública é a legislação. A esse ponto não fizemos até agora senão breves referências que demandam mais detido estudo. Desde que os serviços escolares, ou os da educação, em geral, consti- tuem um grande empreendimento público em relação ao qual, de uma ou outra forma, a iniciativa particular vem a relacionar-se, é evidente que a legislação importa sempre aos problemas de organização e administração escolar. Mas importará a que título, ou sob que forma ou formas diferenciadas?... Conterá a legislação as fontes primárias de todo o estudo de organização e administração, como chegam a afirmar, sem maior propriedade, alguns expositores?... Ou, ao invés disso, nela devemos distinguir elementos de duas espécies: uma referente a finalidades gerais do trabalho intencional de educar, inseparáveis das que modelem a existência do Estado e assim justifiquem seu reflexo nos esquemas práticos de educar; e, outra, relativa à instrumentação mesma de certas providências de organização e administração, segundo uma perspectiva técnica de eficiência?... O que se deve dizer é que a legislação poderá conter várias coisas, sendo esse termo de acepção muito vasta, na linguagem comum. Todas as formas de direito positivo, ou objetivo, tomam expressão na lei, entendida como forma normal pela qual o Estado estabelece regras de convivência dota- das de significação imperativa. Entre as tendências e aspirações parceladas de grupos, por vezes em manifesto conflito, apresentam-se as leis como macrodecisões que procu- ram assegurar coesão e equilíbrio de todo o corpo social. Pressupõem relações jurídicas como elemento mais profundo, ou se assim quisermos, instituições jurídicas, resultan- tes da cultura de cada povo, já presentes em costumes, e que, por atuação do Estado, assumem caráter imperativo. Desse modo, a própria legislação, em suas variadas expressões, representa um instrumento formal de organização e administração pública. Na verdade, a elaboração jurídica possui os seus conceitos, princípios e instrumentos de análise, admitindo modelos teóricos e esquemas práticos peculiares. 95Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Quanto ao ensino, os documentos legislativos exprimem o modo pelo qual os poderes públicos concebem sua participação e responsabilidade no processo educativo em geral, e, de modo especial, nos de ação intencional e sistemática, através dos sistemas públicos para isso criados. Não está, portanto, a legislação escolar separada do contexto jurídico de cada nação, o qual começa por afirmar-se numa lei magna, a sua carta política ou constituição. As constituições condensam os princípios gerais de organização política, indicando as fontes do poder, definindo e discriminando os órgãos de ação pública, razão por que ocupam o plano mais alto na hierarquia das fontes do direito positivo. Estabele- cem elas os fins do Estado, ao mesmo tempo em que instituem os órgãos do poder e condições de seu exercício, em face do qual reconhecem direitos e garantias individuais. Muitas constituições, de mais recente elaboração, incluem princípios programáticos ex- pressos com referência à vida social e econômica, especialmente em relação às condições da educação e do trabalho. De modo direto ou indireto, algumas se referem às grandes linhas da estruturação e gestão dos serviços escolares. Essa matéria, porém, mais freqüentemente é tratada em diplomas que o poder legislativo discute e aprova, e o poder executivo promulga. É o que se chama a legislação ordinária. A ela se seguem, para tratamento mais minucioso, atos complementares, os quais, tal seja a organização político-administrativa do País, comportam duas modalidades. Quando se trate de nações com regime federado, haverá por parte dos Estados membros (subconjuntos do conjunto nacional), atos complementares por seus órgãos próprios elaborados, na forma de legislação supletiva, que complete a que tenha sido formulada pelo governo central ou, ao menos, a das diretivas constitucionais. Quando se trate de nações com regime unitário, é ainda ao governo central que incumbe baixar essa legislação complementar, na forma de decretos, assinados pelo chefe do poder executivo, ou na de portarias, avisos ou outras instruções de caráter regulamentar, por seus auxiliares diretos. Esquematicamente, pelo império ou força da legislação, devem-se assim considerar as leis, propriamente ditas, e os atos complementares: 1) os preceitos constitucionais referentes à organização político-administrativa, aos fins do Estado, ou sentido programático que se lhe atribua nos domínios da vida econômica e social, em geral, e, por isso, nos da educação; 2) a legislação ordinária, isto é, as leis votadas por órgãos coletivos, as câmaras, constituídas nos países democráticos mediante representação popular, multipartidária; 3) os documentos complementares, que a essa legislação desdobrem, ou minudenciem. Os documentos complementares distinguem-se por seu conteúdo: a) de natureza ainda legislativa, com função supletiva, tal como se dá no caso dos Estados federados; b) de natureza propriamente regulamentar, baixadas pelo chefe do poder executivo central ou, em certos casos, ainda e também pelos órgãos corres- pondentes dos Estados federados; c) de natureza explicativa, mais minudentes, baixados por auxiliares diretos do chefe do poder executivo, num e noutro caso na forma de decretos 96 Organização e Administração Escolar ministeriais como se denominam nalguns países, ou na de portarias mi- nisteriais, como em outros se chamam; e atos menores, como circulares ou recomendações executivas, segundo o poder regulamentar que se conceda a diferentes escalões executivos, para melhor adaptação das normas gerais, contidas nas leis e regulamentos. Por extensão, a esses atos menores, na linguagem corrente, também se aplica o nome de legislação, quando, na verdade, são atos de gestão. Nessas condições, não se poderá dizer que toda a legislação constitua a fonte da ação de organizar e administrar, pois nela assume nítido sentido de instrumentação, ou passa a representar recurso prático para a estruturação e gestão dos serviços. Nenhuma discriminação prévia, de caráter formal, poderá ser estabelecida a esse respeito. É o que facilmente se pode concluir quando, nos estudos comparativos se ensaie a descrição dos sistemas públicos de ensino de diferentes países. Em certos casos, para caracterizar um sistema, bastará transcrever alguns princípios constitucionais e a legislação ordinária, promulgada pelo governo central. É o caso de países de regime unitário. Ou, então, ter-se-á de reunir esses elementos, coligindo-se também a legislação supletiva, tal como espe- cialmente se dá nos países de regime federado. Ou, ainda nestes, como por vezes ocorre, o sistema terá de ser descrito tão-somente pela legislação originária dos Estados membros, dada a inexistência de uma legislação de ensino geral que se aplique a todo o país.2 De qualquer forma, ainda que expedidos por agentes diversos, os elementos legislativos devem constituir um corpo com unidade lógica, ou perfeita coerência. O prin- cípio de não contradiçãoé um dos postulados essenciais da construção jurídica. Todos os diplomas legais subordinam-se ao que se estabeleça na constituição do país. Os atos complementares, por sua vez, devem com esses manter coerência. Para a compreensão dos sistemas nacionais de ensino, os quais tanto podem ter um sentido de unidade formal imposto pela legislação, como sentido funcional, mais amplo, cabem aqui algumas observações. Na construção do sistema de um país concor- rem fatores de unificação não indicados em lei, ou pelo menos na legislação de caráter geral, mas por influência de costumes, de certas idéias e aspirações de solidariedade do grupo nacional, e, dentro dele, de grupos regionais. Tais fatores podem ser desenvolvidos pelos próprios profissionais do ensino, congregados em associações ou órgãos representativos de classe. Por outro lado, ainda em países federados, em que não haja um sistema formalmente unificado, certa coorde- nação de propósitos e métodos é alcançada em virtude de convênios que se estabeleçam, referentes a auxílios pecuniários que o governo central dispense às diferentes unidades político-administrativas e para a percepção dos quais geralmente condições de eficiência dos serviços são exigidas (Cocking, Gilmore, 1938). Sob o ponto de vista prático, a legislação atinge a ação do organizador e administrador, antes de tudo porque lhe assinala as diretrizes gerais do trabalho; depois, porque lhe marca os limites sobre que possa decidir, determinando-lhe a competência geral e o alcance das suas próprias decisões, ou das diretivas que possa elaborar. Desse modo, assinala-lhe um status funcional, esclarecendo prerrogativas e deveres, esfera de responsabilidade e nível de autoridade. 2 Esse é o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, em que não há legislação federal em relação aos sistemas do ensino. Não obstante, a legislação estadual é regida pelos princípios constitucionais, nela influindo decisões da justiça federal e a política de auxílios da União. 97Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Não se discute que o conhecimento das leis e regulamentos interesse aos profissionais incorporados a um sistema qualquer de ensino. Não se poderá pôr em dú- vida igualmente que, a cada um, caberá cumprir as tarefas que na legislação lhes sejam atribuídas, tudo com perfeita exação. Uma e outra coisa correspondem a princípios elementares de ética profissional. Isso não significa, porém, que para uma boa ação administrativa baste o conhecimento das leis e regulamentos. Esses documentos contêm a expressão de normas que consideram um número indefinido de casos e um conjunto ilimitado de pessoas. De modo geral, as leis são feitas para durar, de sorte que não poderão minudenciar os casos particula- res, a grande variedade de condições de cada serviço ou as situações problemáticas que neles se apresentem. E como, precisamente, a essas situações é que o trabalho dos organizadores e administradores vêm a referir-se, torna-se claro que os seus atos é que devem dar vida aos preceitos legais, não ao inverso. Para isso hão de fundar-se em conhecimentos de outras fontes, muito variados e hão de estar assimilados, para conveniente aplicação em cada caso. Admitir que o conhecimento da letra da lei, por si só, baste para formar o organizador e administrador escolar será incorrer em equívoco. Será admitir que a ação admi- nistrativa não represente senão a aplicação mecânica de textos, sem maior consciência dos elementos e condições que em seu processo incessantemente intervém. A aplicação dos mes- mos textos, em certas mãos, poderá servir à rotina e a um estilo burocrático na condução dos serviços, ao passo que, em outras, animará o trabalho com verdadeiro sentido criador. Será necessário, para tal sentido, que haja uma adequada preparação dos que tenham de responder pelos encargos de organização e administração escolar. Para conhe- cer da letra da lei, bastará saber decifrar-lhe o texto, dando-lhe interpretação literal. Para bem se informar e decidir, será necessário possuir uma visão clara de todo o processo educativo, seus elementos e recursos, objetivos imediatos e mediatos; enfim, preparação especializada quanto ao sentido social e técnico do trabalho das escolas. Ademais, a própria formulação da legislação complementar normalmente reclama a colaboração de especialistas na matéria, dado que representa uma instrumentação para que os serviços do ensino bem se estruturem e possam ser eficientemente conduzidos. É certo que essa colaboração depende de circunstâncias, variáveis em cada nação. Uma delas decorre do tipo da mentalidade geral reinante nos serviços públicos de cada país, dos costumes e tradições nele existentes, ou da maior ou menor penetração das vantagens da racionalização do trabalho. De modo particular, depende das idéias educa- cionais correntes e da compreensão da ação impulsionadora e criadora que tais idéias possam e devam ter na vida social. Tudo isso se refletirá na latitude que se conceda à iniciativa de cada parte de um sistema, a fim de que contribua para melhor articulação dos diferentes elementos de que se componha. Os melhores modelos de organização e administração escolar são os de países em que a legislação ordinária (por isso que destinada a durar, e de mais difícil alteração) não desça a minúcias que impeçam a boa adaptação, os ajustamentos e reajustamentos necessários.3 3 Do ponto de vista jurídico, esta questão é discutida em termos de delegação de poderes de parte do poder legislativo ao executivo. O exame por esse aspecto excederia os limites deste compêndio. Deve-se observar, no entanto, como ensina Temístocles Cavalcanti, que “há um sem-número de leis de natureza técnica que exigem certo número de normas que só podem ser elaboradas por especialistas e que são deformadas na elaboração por um órgão tão numeroso como o Congresso Nacional”. Assim pensam também outros mestres de direito. Cf. estudo de síntese da matéria, de autoria de A. Machado Paupério (1962). 98 Organização e Administração Escolar Para os leigos, ou iniciantes na matéria, tal aspecto geralmente é considerado pela simples feição de centralização ou descentralização administrativa. A questão não se resume a aspecto tão singelo. Onde quer que haja um sistema, haverá a idéia de articu- lação entre partes e subpartes, como expressão geral de um conjunto operativo harmônico. Assim, haverá sempre centralização e descentralização. O que importará saber será o que convenha centralizar e o que convenha descentralizar, como, quando, onde e porque, seja isso necessário. Nos países de tradição cultural anglo-saxônica, em que as questões da educação popular estiveram sempre mais diretamente ligadas à vida de cada comunidade, a legis- lação tem sido sempre de ordem geral, deixando as especificações para a ação administra- tiva propriamente dita. Nos de formação latina, tem predominado uma tradição contrá- ria, derivada também de tradições culturais. Acredita-se mais no texto da lei, em sua forma normativa estrita. Ademais, nos países latinos, menor consciência existe entre os problemas que devam caber à ação legislativa das câmaras de representação política e a que deva restar aos órgãos do poder executivo e, em conexão com esses, a órgãos adminis- trativos de maior caracterização técnica, para que bem adaptem as diretrizes gerais da lei às condições de situações concretas.4 Tende-se hoje, porém, em todos os países, a adotar, na estruturação geral dos serviços, certos órgãos de estudo e pesquisa que bem possam informar a ação legislativa, por um lado; e, de outro, órgãos comumente de natureza colegiada, na forma de conse- lhos, juntas ou comissões permanentes, com funções resolutivas, ou simplesmente consultivas, para assessoramento dos órgãos do poder executivo. Esse modo de admitir a matéria vem a corresponder, enfim, a uma composição de ordem funcional, que pode repetir-se emvariados níveis da estruturação dos serviços. Isso estabelece certo jogo de pesos e contrapesos entre as situações de fato, isto é, as situações problemáticas concretas e as situações formais e ideais, estabelecidas na lei. O quadro que adiante se apresenta, permite uma visão geral das relações de um e de outro tipo de legislação, ou suas diferentes espécies; ou, afinal, um esclarecimento de como as diretrizes de âmbito mais amplo, expressas pela legislação, vêm a minudenciar-se na ação propriamente administrativa, em diretivas de maior ou menor alcance. [[[[[ Legislação e planejamento geral dos sistemas Nos últimos tempos, têm-se desenvolvido idéias cada vez mais precisas sobre os diferentes aspectos e relações entre a legislação e o planejamento geral dos sistemas públicos de ensino. Nesse sentido, várias entidades dedicadas aos assuntos de organização e administração escolar têm reunido esforços: a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Bureau Internacional de Educação, que a ela se filia, e o Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos (OEA), por sua Divisão de Educação, recentemente elevada à categoria de departamento. Com a cooperação da Unesco, a OEA reuniu em Washington, em julho de 1958, um Seminário especial sobre planejamento integral da educação, de que participaram 4 Centralização ou descentralização administrativa não se opera apenas no sentido da divisão territorial, ou das unidades político-administrativas, mas também no sentido funcional, por critérios muito variados. Cf. Cillié (1940). 99Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar não só representantes de todos os países latino-americanos, como grandes especialistas de organização e administração escolar de diversas outras nações, para isso especialmente convidados.5 O planejamento aí se definiu como “um processo contínuo e sistemático no qual se apliquem e se coordenem os métodos de investigação social, os princípios e téc- nicas da educação, da administração, da economia e das finanças, com a participação e apoio da opinião pública, tanto no campo das atividades governamentais, como privadas, a fim de que se garanta ensino adequado à população de cada país, com metas e etapas bem determinadas, que facilitem a todo e qualquer indivíduo a realização de suas potencialidades, não esquecida sua contribuição, de modo eficaz, no desenvolvimento social, cultural e econômico”. Estabeleceu o Seminário que o planejamento deve ser compreendido em função de ideais democráticos. Para garantia deles, deve-se admitir que especialistas com res- ponsabilidade científica, sob a autoridade do Estado, formulem diretrizes e indiquem soluções; que, a seguir, uma livre e geral discussão se estabeleça sobre a matéria, com consulta metódica a entidades de opinião organizada, sob todos os aspectos do planeja- mento que signifiquem mais precisa definição de aspirações, ordenação de objetivos e sugestões no sentido do aperfeiçoamento contínuo das medidas que se venha a fixar. 5 Os documentos e conclusões do Seminario sobre Planeamiento Integral de la Educación, realizado de 16 a 27 de junho de 1958, estão publicados na revista La Educación, órgão da União Panamericana, n. 11, 1958. 100 Organização e Administração Escolar O trabalho de planejamento geral dos sistemas de ensino, com esse intuito, deverá atender aos seguintes pontos: a) aplicação de métodos científicos para investigação das realidades educativas, culturais, sociais e econômicas de cada país; b) apreciação das necessidades e sua ordenação, para que possam ser satisfeitas atendendo-se a critérios de prioridade, a breve e a mais longo termo, segundo prazos claramente determinados; c) apreciação realista das possibilidades de recursos humanos e financeiros disponíveis; d) provisão dos fatores mais significativos que possam interessar à execução dos planos fixados; e) continuidade que assegure ação sistemática; f) coordenação entre os serviços educativos e os demais serviços do Estado em todos os setores da administração pública; g) avaliação periódica dos resultados e reajustamentos constantes dos planos, projetos e programas; h) flexibilidade que permita a adaptação dos planos a situações não de todo previsíveis: i) trabalho de equipe entre especialistas devidamente qualificados; j) formulação e apresentação dos planos com vistas aos interesses nacionais, não os de determinados grupos ou de pessoas. Devendo estimular a iniciativa dos poderes públicos e instituições privadas, no âmbito local, regional e nacional, o planejamento assim concebido passará a represen- tar “uma medida fundamental para a instauração de um novo espírito de organização e administração escolar”. De fato, “assim poderá estender e melhorar a eficiência dos serviços do ensino, mediante a revisão de objetivos, reforma adequada de programas e métodos, e mais per- feita articulação dos diversos níveis e modalidades de cursos”. Poderá, além disso, esti- mular a consciência da necessidade de planejamento social e econômico que, nos serviços da educação, encontra um terreno associado. Admitindo que o planejamento dos serviços de ensino, ou de educação, deva ser integral, ou concebido como totalidade orgânica, admitiu também esse Seminário que maiores facilidades de análise devam existir quanto aos seguintes as- pectos: qualitativo, quantitativo, administrativo, político e financeiro. Todos, no entanto, devem ser “articulados ou estruturados a fim de que o sistema resultante apresente uma equilibrada instrumentação com condições de progressiva revisão e reajustamento”. Os princípios gerais sobre níveis de ensino, com reflexo na organização administrativa, foram assim estabelecidos: 1) de articulação vertical: o ensino deverá organizar-se através de etapas definidas como um todo solidário que permita ao educando ascender até o maior grau de madureza e preparação possível; 2) de articulação horizontal: as diversas modalidades do ensino, em cada grau ou nível, devem estruturar-se com um critério de equivalência, que torne possível o trânsito de um para outro, de acordo com as aptidões, inclinações e interesses de cada educando; 101Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar 3) de diferenciação e especialização progressiva: a educação escolar deverá compreender uma formação básica e uma preparação progressivamente diversificada e especializada, de acordo com as aptidões e mais condições individuais dos alunos. Esses pontos diretamente se referem aos níveis do ensino, atendendo-se ao desenvolvimento individual, que deverá ser compreendido no entanto, sem prejuízo de tudo quanto anteriormente se expôs acerca dos quadros de vida econômica, social e cultural em geral. A todos esses princípios, os trabalhos do Seminário acrescentaram recomendações específicas sobre a formação dos mestres, diretores de escolas e especialistas de vários ramos mais complexos de organização e administração. Quanto aos aspectos quantitativos, insistiu na necessidade de se manterem atualizados os serviços censitários e os de estatística escolar, como fontes de confronto das necessidades do ensino; de se criarem ou se desenvolverem, onde já existam, centros ou institutos de documentação e pesquisa pedagógica; de, periodicamente, esses órgãos realizarem inquéritos para fundamentação de melhores critérios de análise; e, enfim, de esses órgãos levarem em conta os estudos de educação comparada, para possível aprovei- tamento de experiências realizadas em outros países, não por simples cópia, mas pela compreensão de fatores que, na generalidade dos casos, possam ser analisados. Demonstrando sentido realista, o Seminário dedicou grande atenção aos estudos dos problemas de financiamento dos serviços escolares. Recomendou que cada país fizesse um levantamento das necessidades financeiras,no momento e em proje- ções diversas, segundo previsão do aumento da população, tudo acompanhado de in- vestigações relativas à obtenção de fundos necessários, resultantes de impostos, ou de outras fontes. De outra parte, defendeu a idéia de empréstimos especiais, junto ao Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, a serem obtidos pelos países mais carecentes de recursos, desde que esses países demonstrem que já estejam aplicando o máximo disponível de suas rendas em serviços educativos. Por fim, quanto ao aspecto político-administrativo, reconheceu que o planejamento integral do ensino deverá atender às finalidades gerais da filosofia social e, particularmente, às que constituam a ação política de cada Estado e, em conseqüência, às condições históricas e jurídicas existentes, e à divisão político-administrativa. Uma pro- gramação geral, deverá desse modo estimular a consciência dos problemas da vida nacional, sem prejuízo das questões de feição regional ou propriamente locais. Assim inspirado numa concepção democrática de vida, o planejamento integral dos serviços escolares não deverá impedir a colaboração da iniciativa particular. Pelo contrário, deverá estimulá-la e coordená-la num sentido progressivo. Ainda que as insti- tuições educativas privadas se caracterizem pela afirmação de interesses especiais de certas classes ou grupos, participam elas de amplas finalidades de interesse público, devendo como tais, serem acoroçoadas dentro de normas legais satisfatórias. É essa, aliás, a orientação geral da maioria das nações, não só na América, mas em todo o mundo, salvo as de organização totalitária, as quais excluem a existência de instituições particulares de ensino, por motivos fáceis de compreender. A respeito da legislação, exprimiu o Seminário algumas observações críticas que devem ser mencionadas. 102 Organização e Administração Escolar Reconheceu, por exemplo, que “a realidade educativa de muitos países revela que não tem ela obedecido a um desenvolvimento orgânico, apresentando-se como um conjunto heterogêneo e desarticulado de diferentes tipos de ensino”; e acentuou também que uma das causas desse estado de coisas “é a excessiva fragmentação e desconexão entre os serviços administrativos, encarregados de orientar e dirigir o ensino em quaisquer de seus graus e ramos”. Nessas condições, entendeu que “devem ser desenvolvidos esforços no sentido de que cada país mais articule o seu sistema educativo mediante planejamento integral, com análise da realidade existente e elaboração de um projeto de reforma, orientação e controle, dotado dos necessários meios para análise dos resultados da aplicação e avaliação reiterada do que se obtenha”. Recomendou, nesse particular, atenção aos seguintes pontos: a conveniência de que cada país promulgue uma lei orgânica de educação nacional, seguida de atos regulamentares que a complementem e lhe garantam a flexibilidade; a organização de sistemas de administração imediata, segundo as peculiaridades de cada país, com base na existência de órgãos técnicos que assegurem o caráter de planejamento e reajustamen- to constantes; e, ainda, nos países federados, em especial, que se estabeleça uma termino- logia unificada, para designação dos graus, ramos e ciclos do ensino, a fim de que o controle do rendimento do trabalho, bem como a articulação de todas as atividades, possam ser feitos de maneira satisfatória. A existência de um sistema nacional de ensino não implica, necessariamente, rígida centralização político-administrativa, mas reclama satisfatória compreensão da unidade geral dos propósitos e de unificação dos princípios de organização e administração, a fim de que se obtenha real eficiência no trabalho. Nem por outra razão assim definiu o Seminário a administração pública, em geral: “Um conjunto de meios que permita estabelecer maior rendimento do pessoal, material e capital empregados, com o mínimo custo e a máxima satisfação para os dirigentes, funcionários e beneficiários”. Desse modo, ao propugnar por um planejamento integral do ensino, admitiu variações regionais, mantidos objetivos centrais idênticos, seja quanto ao desenvolvimento individual de cada aluno, seja quanto ao seu ajustamento social. A educação deverá par- ticipar de todos os aspectos da vida coletiva para maior integração cultural, política e econômica, a desenvolver-se num sistema democrático. As mudanças de ordem tecnológica, sobretudo nos países em luta contra o subdesenvolvimento, hão de ser con- sideradas em seus vários aspectos e relações com os problemas de ordem social e políti- ca. Isso obrigará a compreender os sistemas de ensino como realidades dinâmicas, envolvidas por um complexo processo a exigir reajustamento constante. [[[[[ Evolução do conceito de sistema nacional de ensino É por esse ponto, em especial, que a evolução de conceito de sistema nacional de ensino se tem operado. De uma parte, não se poderá mais admitir que cada sistema represente cons- trução rígida, de feição uniforme. Para que realize trabalho construtivo deverá encarar situações problemáticas estudadas em seus elementos e condições, ou, afinal, nas situa- ções dinâmicas da vida social. 103Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar De outra parte, em momento algum, o ensino deverá permanecer isolado dos demais planos da vida do país. Terá, em especial, de considerar os seguintes pontos: a) o movimento demográfico da população, estimado pelas taxas do crescimento que permitem projeções num futuro próximo; b) a estrutura da população por grupos de idade, a qual pode variar também; c) a definição conseqüente das necessidades prováveis de serviços escolares, quanto a locais e equipamento, preparação do professorado e agentes administrativos, e as exigências de financiamento; d) definição das faixas de obrigatoriedade escolar, com estudo das causas impeditivas da freqüência regular às aulas; e) prospecção das necessidades de mão-de-obra especializada, a mais curto e a mais longo prazo, para que devidamente possam ser atendidas e de modo que iguais oportunidades educacionais possam ser oferecidas a todos; f) desenvolvimento dos serviços de assistência aos escolares, e de orientação educacional e profissional; g) a inclusão, nos serviços regulares de ensino, dos problemas que se apresentem, ainda a esse propósito, no campo da educação de adultos, quer por ensino supletivo quando necessário, quer por meios de difusão cultural que concorram para a formação cívica e política, em geral; h) o esclarecimento da opinião pública quanto a todos esses problemas, as funções educativas e o papel da escola na solução de problemas individu- ais e sociais; i) a criação, enfim, de uma nova compreensão dos elementos normativos dos serviços de educação pública, por aperfeiçoamento constante dos mestres, agentes administrativos e ainda encarregados da administração pública em geral, e esclarecimento dos representantes populares nas câmaras políticas, a fim de que melhor situem as questões de definição legal e de ação propriamente executiva dos serviços. De modo geral, todos esses pontos refletem uma revisão dos ideais educativos tradicionais que eram centrados apenas na idéia do desenvolvimento de cada indivíduo. Sem prejuízo dessa idéia, hoje se admite mais ampla compreensão dos fatores sociais a serem devidamente atendidos pelos serviços de ensino. Isso significa uma reafirmação dos pressupostos de existência democrática, fundados num sistema de vida em que se compreende no aperfeiçoamento individual um aprimoramento das virtudes cívicas, ou a cooperação numa sociedade aberta, com satisfatórias condições de mobilidade entre grupos e classes (Havighurst, Neugarten, 1957) . Tais pressupostos determinam, na formulação geral dos sistemas, uma mudança de perspectiva. Dantes, imaginava-se uma morfologia dos serviços escolares estabelecidasobre princípios como que abstratos, sem maior análise das realidades sociais, econômicas e políticas, ou das funções que a educação realmente desempenha. Hoje, busca-se melhor definir as funções do ensino, diante de planos gerais, com conveniente programação. Assim, sua morfologia, quer dizer o tipo e o número de serviços, a sua distribuição e articulação, necessariamente, deverão ser fundados numa compreensão funcional. Bem certo é que certos critérios fundamentais persistem na adequação dos serviços escolares, tais como os dos graus de ensino, fundamentada nas fases gerais do 104 Organização e Administração Escolar desenvolvimento humano – a da infância, da adolescência, da juventude e início da idade adulta. Daí, a estruturação vertical dos serviços escolares que permanece em três planos sucessivos, o primário, o médio e o superior, ou, para usar de designação hoje mais exata, de 1º, 2º e 3° graus. Na compreensão vulgar, tem-se o ensino de 1º grau, ou primário, como simplesmente de primeiras letras ou de preparação nas técnicas mais simples de comu- nicação social e aquisição da cultura. Essa idéia está hoje de muito modificada. A função capital desse grau de ensino é favorecer uma ampla homogeneização das novas gerações, proporcionando-lhes o desenvolvimento de certas capacidades naturais, sem dúvida al- guma, mas também a todos facilitando o processo de ajustamento à complexa vida de hoje, mediante a comunicação de técnicas, idéias, atitudes e sentimentos. Certo que a exercitação dos alunos nas atividades de ler, escrever e contar representa nisso instrumentação necessária, mas só essa instrumentação. Quanto ao ensino de 2° e 3° graus, desempenham funções de completamento da formação cultural e de diferenciação para o trabalho, segundo as necessidades e expec- tativas sociais, determinadas por um processo de elaboração histórica, com fundamentos econômicos e políticos. Outrora, para o ensino de 2° grau, prevalecia a idéia de um tipo de educação especializada para certos grupos ou classes, pelo que desempenhava função essencialmente discriminativa ou seletiva. Na compreensão atual, esse grau passou a ter uma função eminen- temente distributiva, isto é, a de favorecer conveniente orientação para os mais diversos ra- mos de trabalho, seja pela aprendizagem de técnicas simples, seja por mais aprofundada preparação, que a muitos jovens habilite a receber uma formação técnico-científica e humanística, em estudos maiores. A rude distinção que dantes se fazia entre estudos de formação geral, por um ensino secundário de classe, e outro de natureza apenas profissional, destinado este ao povo em geral, está deixando de existir na maioria dos países. As conseqüências desse fato nos problemas de organização e administração escolar são de grande importância, como oportunamente havemos de ver. Quanto ao ensino do 3° grau, geralmente chamado de nível superior ou universitário, algo de semelhante está ocorrendo. Dantes, era ele só proporcionado a uma reduzida minoria, favorecida por suas condições econômicas, de onde saíam os repre- sentantes das profissões chamadas liberais. Hoje, com a multiplicação das atividades de nível técnico-científico, a preparação desse nível passou a ser necessária a grupos cada vez mais numerosos, impondo aos sistemas de ensino, na maioria dos países, importan- tes e novos problemas relativos ao seu planejamento, financiamento, organização e administração, em geral. Poder-se-á supor que esses problemas apenas venham a interessar ao plano de ação política ou às diretrizes gerais a serem traçadas pelos órgãos de mais alta hierar- quia administrativa. Mas não é bem assim. Dada a necessidade de uma visão geral e integrada do processo educativo, deverão eles ser considerados mesmo pelos mestres e diretores de estabelecimentos. Nos próximos capítulos, havemos de vê-los através das questões particulares de estruturação e gestão dos serviços de cada nível de ensino. Ainda assim, esses estudos só se farão com real proveito quando não percam de vista as finalidades gerais e integradas do sistema em que se incluam. Admitindo essa idéia, passamos a admitir a de integração funcional de todas as suas partes. A compreensão do 105Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar destino comum de cada uma e de todas é que eleva os problemas de organização e administração escolar ao nível dos mais sérios problemas de organização e expansão da cultura. [[[[[ Síntese do capítulo 1 Na unidade básica dos serviços escolares (a classe de ensino), os problemas de Organização e Administração confundem-se, na maior parte, com os de orientação didática. Mas as classes formam escolas, e as escolas, conjuntos maiores, que exigem agentes administrativos especiais, inclusive em serviços auxiliares. Grandes conjun- tos, segundo o caso, podem ser entendidos como sistemas locais e regionais. Todos vêm a constituir, por fim, um sistema nacional de ensino. 2 Em cada país, o sistema nacional sintetiza as condições de vida e as aspirações de seu povo; isto é, a média das expectativas sociais que busquem manter e desenvolver os padrões de cultura existentes. Normalmente, tendem a definir-se na forma de constru- ção jurídica: uma constituição política (lei magna) e leis ordinárias. Os sistemas de ensino terão de bem interpretá-las, dentro de princípios de administração e normas operativas que a boa técnica sancione. Neles também influem tradições e costumes. 3 Portanto, o sistema nacional prende-se a certa regulação legislativa fundamental, ao mesmo tempo em que estabelece, mediante ação administrativa, objetivos gerais e co- muns, e certa unidade nos procedimentos ou modos de operação. Idealmente, represen- ta aspirações nacionais. Objetivamente, é descrito pelos níveis de ensino que mantenha (articulação vertical); pelos ramos de ensino nesses níveis ou graus (articulação hori- zontal); e, ainda, pela articulação entre esses ramos (diferenciação e especialização de cursos). A descrição concreta, a cada época, é dada pela enumeração das instituições escolares existentes e sua classificação por aqueles critérios (descrição estatística). 4 A carta política, explícita ou implicitamente, determina grandes diretrizes; e a legislação ordinária, os quadros de ação. Esta última é desdobrada em atos complementares e explicativos (decretos, regulamentos, programas de ensino, normas e ordens de servi- ço). Todos esses atos devem obedecer a um princípio básico de coerência lógica, o de não-contradição. 5 Nos países de governo unitário, a legislação e a ação administrativa são normalmente centralizadas. Nos de governo federado, as unidades autônomas do país, (províncias ou Estados membros), legislam supletivamente, mantendo órgãos para gestão autôno- ma dos serviços (descentralização executiva territorial). Qualquer que ela seja, na situ- ação que hoje se observa na maioria dos países, certos princípios de centralização funcional ainda assim vigoram. Isso resulta da necessidade de articulação dos servi- ços do ensino com os demais planos de governo, o que justifica planejamento integral, cooperação financeira do governo central, e, em conseqüência, controle nacional sob diferentes modalidades. 6 As cartas constitucionais e as leis gerais fixam o que se pode chamar de relações “de definição”, dentro de concepções ideais de sentido jurídico. A ação administrativa 106 Organização e Administração Escolar procura adaptá-la às relações “de estrutura”, quer dizer, às situações concretas tais como se apresentem num dado momento, e segundo previsão de suas variações, a breve ou mais longo termo, observadas mudanças de ordem demográfica, econômica e sociais, em geral. 7 O exame dessas circunstâncias imprime ao conceito de sistema nacional compreensão dinâmica, ou de adaptação e readaptação constante, o que aumenta as responsabilida- des dos administradores escolares, engrandecendo-lhesas funções. Quando bem concebido, o sistema nacional leva em conta estes pontos: movimento demográfico; distribuição dos grupos da população pelo território; distribuição pelas idades e prospecção das necessidades de mão-de-obra especializada; possibilidades de finan- ciamento; definição conseqüente das faixas de obrigatoriedade escolar segundo as ida- des; desenvolvimento dos serviços de assistência aos escolares, com desenvolvimento paralelo de serviços de orientação educacional e profissional; inclusão no sistema de serviços de educação de adultos, seja para atender a necessidades de ensino supletivo (alfabetização de adolescentes e adultos), seja para melhorar o ajustamento social de diferentes grupos já alfabetizados; e esclarecimento da opinião pública sobre cada um e todos esses pontos. 8 Em tudo isso, a legislação e sua complementação têm grande importância, não sendo, porém, a fonte única, nem original, da ação de organizar e administrar as escolas. As leis representam instrumentos, cuja utilização necessariamente variará nas mãos de pessoas mais ou menos capacitadas para aplicá-las. As leis são feitas para durar, cui- dando, por isso mesmo, de situações gerais, não da minudenciação de casos particula- res. O exame das questões de administração em cada grau de ensino (primário, médio e superior), a ser feito nos três capítulos seguintes, esclarecerá esse ponto, em seus aspectos práticos. 107Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 5 Organização e administração do ensino de 1o grau [[[[[ Compreensão geral O ensino de 1º grau normalmente se destina às crianças de 7 a 11 ou 12 anos, ou mesmo, com maior extensão até 13 e 14 anos. Como aos demais graus antecede, é chamado de primário, elementar ou fundamental. Em todos os países, legalmente se define como gratuito e obrigatório. Representa a maior parte do ensino público, abran- gendo, nos países com serviços educativos perfeitamente desenvolvidos, dois terços de toda a matrícula escolar, e, nos de menor desenvolvimento, parcela ainda maior. O adjetivo primário, que mais correntemente o designa, acentua a precedên- cia que tem na ordem dos estudos individuais. Note-se que o mesmo qualificativo significa primacial, ou básico, e assim realmente é o ensino primário na vida social. Outrora, admitia-se que os objetivos do ensino primário se resumissem na aquisição da leitura, escrita e noções de aritmética. Afinal, ensino de primeiras letras. Hoje, entende-se que deva desempenhar funções muito mais amplas, as de oferecer con- dições para desenvolvimento das capacidades de cada criança, de modo a contribuir positivamente para a assimilação cultural das novas gerações. Dessa forma, o papel do ensino primário é, em conjunto, homogeneizar. Essa homogeneização se dá quanto ao uso da mesma língua, formação de certas atitudes sociais e morais básicas, e aquisição de noções comuns sobre fatos naturais, costumes e tradições locais, regionais e nacionais. Certo que, em tudo isso, as técnicas elementares da cultura (leitura, escrita e cálculo) apresentam importância, não, porém, como finalidade exclusiva. São simples meios para que o processo de ajustamento à vida coletiva mais facilmente se encaminhe. Por sua própria natureza, esse processo tem duas dimensões: o desenvolvi- mento de cada criança e a normalidade de suas relações com pessoas e grupos. O desenvolvimento reclama exercitação de capacidades naturais, a qual porém não se dá no vazio, ou fora de um espaço social definido por grupos e instituições. O que se deve desejar no ensino primário é o preenchimento de ambas as funções, dado que são interdependentes. 108 Organização e Administração Escolar São elas constantes no processo educativo, que, aliás, não começa na escola. Inicia-se no lar de cada criança, nos grupos de recreação e vizinhança, nos modos gerais da vida em comunidade. Ademais, não cessa a atuação das forças de que dependem no momento em que a criança passe a freqüentar a escola. Tais forças então, como ainda depois, desdobram-se na ação dos centros do trabalho, da vida cívica, religiosa e moral, as quais embora de modo difuso tendem a transmitir um legado cultural. O que a escola faz, ou tenta fazer, é sistematizar a atuação desses elementos, dispersos e por vezes contraditórios. Para isso, seleciona diferentes partes dessa herança, a umas acentuando e a outras abandonando, senão mesmo tendo de retificar ou combater. É o que se dá, por exemplo, no caso de abusões e tradições impeditivas de maior progresso geral. Nos países subdesenvolvidos, com elevada taxa de analfabetos na adolescên- cia e vida adulta, tem-se por essa razão procurado estender o ensino primário aos grupos dessas idades, quando dele carecentes. É o que se convencionou chamar educação de base, denominação criada e difundida pela Unesco. Seus objetivos não se cifram em fazer ler e escrever, ou simplesmente alfabetizar, mas, em fornecer elementos para reforma de costumes, em fornecer elementos de cultura que favoreçam a elevação do nível econômi- co e social. Segundo o caso, terão seus programas de atender ao progresso de certas técni- cas profissionais, da educação, da saúde, e das capacidades que, a tais grupos em inferioridade cultural, permitam ajustar-se ao mundo moderno. É evidente que isso corresponde a uma função supletiva, que preencha as lacunas da ação escolar não exercida nas idades próprias. Mas seus programas deverão cumprir-se sem prejuízo de melhor organização e extensão do ensino primário destinado àquelas idades. “O estabelecimento dum sistema primário bem concebido, à disposição de todas as crianças – diz a Unesco – é um dos objetivos da educação de base”.1 No caso particular dos países subdesenvolvidos, é hoje corrente situar as duas formas de ensino de 1º grau, deste modo: a) Ensino primário, nas idades próprias; Educação de base b) Ação educativa mediante escolas de ensino supletivo, e outros recursos sobre grupos de adolescentes e adultos analfabetos. O ensino primário dispensado nas idades próprias corresponderá, assim, e em qualquer caso, a um aspecto fundamental da organização e administração escolar, de que devemos especialmente tratar. [[[[[ Objetivos do ensino Os objetivos do ensino primário prendem-se à ação familiar, com a qual es- treitamente devem coordenar-se. 1 A denominação educação de base tornou-se mais corrente nos países latinos, e a de fundamental education nos de língua inglesa. Ver as seguintes publicações da UNESCO: Fundamental education: common ground for all peoples (Report of a Special Committee to the Preparatory Commission of the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organisation, Paris, 1946), a qual, na edição francesa, do ano seguinte, aparece com o título L’éducation de base. Ver também: L’éducation de bas: description et programme (1950); Jeunesse et éducation de base (1954). A publicação periódica Éducation de base et éducation des adultes, na versão inglesa tem o título Fundamental education and adult education. 109Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Costumes, idéias, aspirações e sentimentos dos pais modelam a atitude das crianças, e, em conseqüência, o próprio comportamento que apresentem em relação à escola, e na escola. Por sua vez, o comportamento geral das famílias é modelado pelas condições socioeconômicas e culturais do ambiente e, em especial, pelas idéias e aspira- ções do grupo particular em que se situem. A fim de que bem produzam, as instituições de ensino primário hão de considerar esse fato, devendo interpretar a comunidade próxi- ma, para as necessidades da qual hão de orientar seu trabalho, inclusive quanto às deficiências culturais e econômicas que essa comunidade apresente. Proporcionando situações que desenvolvam as capacidades naturais das crianças, em cada qual variáveis, tem a escola de oferecer-lhes ao mesmo tempocondi- ções para que se tornem membros ajustados da vida nacional, com melhoria de atitudes e sentimentos de participação e responsabilidade. As funções gerais da escola primária são as de habilitar cada aluno, de acordo com o respectivo nível de desenvolvimento, a com- preender seus próprios problemas e os da vida social, mesmo porque os interesses pes- soais não chegam a ter maior sentido sem que se coordenem com os da existência coletiva. Tudo isso apresenta delicadas questões aos encarregados de bem organizar e administrar as escolas. Não lhes deve interessar apenas a difusão de conhecimentos. Respeitada a personalidade de cada aluno, tem a escola de, a todos, favorecer a aquisição de hábitos e técnicas que sistematizem a conduta em relação aos grupos humanos em que vivam e tenham de viver. Seis domínios fundamentais devem ser considerados nestes objetivos: a) defesa da saúde; b) boa participação na vida do lar; c) compreensão da vida recreativa; d) compreensão das formas variáveis de trabalho e do sentido de cooperação delas resultantes; e) fortalecimento do caráter moral, ou dos sentimentos de responsabilidade pessoal; f) compreensão da vida cívica, moral e religiosa. O ensino primário não deve ser considerado como uma seqüência de graus de instrução verbal, com disciplinas isoladas, exercícios e exames formais. Há de constituir um processo contínuo de desenvolvimento, mediante unidades de experiência amplas e flexíveis, através das quais a criança possa dominar as artes da comunicação, adquirindo uma personalidade equilibrada, tanto do ponto de vista mental quanto social, emocional e moral. Visará assimilar as novas gerações a padrões culturais existentes, sem deixar de prepará-las para mudanças culturais inevitáveis (Lourenço Filho, 1967). De uma parte, esse modo de ver tem-se desenvolvido por mais perfeita compreensão das condições evolutivas da infância; e, de outra, pela consciência das fun- ções sociais que a escola primária pode desempenhar. Isso se tem refletido em novos pla- nos e programas, no desenvolvimento dos procedimentos didáticos, e, conseqüentemente, no de novas formas de organização e administração. [[[[[ Clientela específica Ainda que o ensino primário possa assumir a forma supletiva, dantes referida, sua clientela normal é a das idades da chamada segunda infância, isto é, dos sete anos até 110 Organização e Administração Escolar o início da adolescência. Esse período tem recebido o nome de idade escolar, porque a maioria dos países nelas tem fixado a obrigatoriedade de matrícula e freqüência às escolas públicas. Aos sete anos, declinam as características do comportamento egocêntrico das idades anteriores. A criança atinge certo nível de maturação que lhe facilita o traba- lho escolar comum. Sabe ir e vir, dispõe de suficiente vocabulário, interessa-se em observar, analisar e concluir por si mesma, pode manter atenção num mesmo assunto por prazos mais ou menos longos. Em alta percentagem, atinge os níveis de maturidade que a habilitam a iniciar com êxito a aprendizagem da leitura e escrita (Lourenço Filho, 1969). Na idade normal dos estudos primários, dois períodos há bem demarcados. No primeiro, dos sete aos nove anos, a criança é inclinada à imitação social, pelo que se deixa facilmente conduzir pelos mestres. No segundo, dos dez aos doze anos, torna-se menos dependente, revelando maior afirmação pessoal. Autores há que, a esse período, não com maior propriedade, chamam de idade anti-social. Na realidade, a própria ação da escola, desenvolvendo as técnicas de comunicação, proporciona-lhes mais rico material para elaboração de formas originais de conduta. Diferenças individuais muito sensíveis se apresentam, segundo o desenvolvimento físico e as condições culturais do ambiente familiar que, nas primeiras idades, tenham comunicado certas atitudes fundamentais às crianças. Esta circunstância tem levado a criar instituições chamadas de educação pré-escolar (casas maternais e jardins de infância), sobretudo nas grandes cidades, em que certas condições de habita- ção e exigência do trabalho feminino fora do lar enfraquecem a capacidade educativa do ambiente doméstico. Desde que tais instituições existam, é evidente que o ensino primário deverá com elas articular-se, tanto quanto se articula com a vida familiar. Casas maternais e jardins de infância não representam escolas no sentido próprio dessa expressão, mas instituições auxiliares da vida do lar. Aliás, o reconhecimento dessa necessidade tem levado vários países a estender o limite de matrícula do próprio ensino primário à idade de seis e mesmo de cinco anos, admitindo-se uma ou duas classes iniciais, como que de adaptação. Nessas classes não se cuida da aprendizagem da leitura e escrita. Seus objetivos são orientar cada criança a bem conviver com as demais, oferecendo-lhe exercícios graduados para correção da linguagem e aquisição de convenientes atitudes emocionais. Se nenhuma dificuldade especial existe na articulação do trabalho dessas classes com as que se lhe seguem, já o mesmo não ocorre na articulação dos estudos de 1° grau com os de 2°, em numerosos casos. É que o ensino do 2° grau, outrora reservado a determinadas classes econômicas, hoje se tem difundido e diferenciado. Em vários países, a obrigatoriedade escolar alcança as idades de freqüência do primeiro ciclo do ensino do 2° grau. Ademais, o ensino primário, além de articular-se com eles, tem de fazê-lo com centros “de aprendizagem” para o trabalho no comércio e na indústria. A reduzida extensão do curso primário e a deficiência de escolas, em certos países, estabelecem um hiato entre a freqüência à escola e a admissão legal no trabalho, de conseqüências prejudiciais. É o que se denomina de hiato nocivo entre a escola e o trabalho (Bureau International d’Education, 1934; Unesco, 1951) Essa circunstância terá de ser levada em conta no planejamento do ensino primário. 111Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar [[[[[ Questões de planejamento geral O planejamento do ensino de l° grau, como o do ensino dos demais, deverá atender aos aspectos que no capítulo anterior examinamos: qualitativo e quantitativo, e de gestão administrativa, política e financeira. O sentido político do ensino primário é formalmente o mesmo em todos os países de regime democrático. Nível de educação a ser oferecido a todas as crianças, em certa idade, deve ser ministrado onde quer que elas se encontrem, e qualquer que seja o seu destino. Em conseqüência, o aspecto quantitativo do planejamento antecede a todos os demais: deverão existir tantas escolas quantas sejam necessárias aos grupos de idade previstos pela legislação. Essas idades não só correspondem a considerações teóricas, mas a razões prá- ticas, derivadas das expectativas sociais. Já observamos que, embora a idade inicial dos estudos seja a dos sete anos, (à vista das condições de maturidade necessárias à apren- dizagem da leitura e escrita), alguns países a têm baixado a seis e até cinco anos, organi- zando classes chamadas pré-primárias. Por outro lado, ainda que a idade terminal, teoricamente, seja a dos doze anos, o que dá a extensão de seis séries anuais, muitos países apenas proporcionam escolaridade de cinco anos, ou ainda menor, ao passo que outros a estendem por seis e mais anos. À primeira vista, crê-se que essa variação apenas decorra das possibilidades financeiras de cada país. Não é bem assim. Prende-se a condições mais vastas que são, de modo geral, as dos níveis de organização do trabalho, com variação da idade legal para admissão nele. Assim, do ponto de vista político-social, com reflexo em sua exten- são e qualidade, o ensino primário também se modela pelas exigências da economia de cada país. Praticamente, é o que se pode ver nas zonas rurais, onde o baixo nível tecnológico não leva os pais a procurar ensino escolar para os filhos.E o vemos também nas cidades, mas, ao reverso, pois aí os pais procuram dar aos filhos ensino ulterior ao primário, quando de extensão reduzida, quaisquer que sejam os sacrifícios que para isso tenham de fazer. Como em todas as questões de Organização e Administração escolar, há aí um problema de filosofia social e de ação política, a ser previamente decidida para que os administradores passem a atuar. O essencial no caso será a determinação das idades de ensino obrigatório. Resolvido esse ponto, o planejamento da rede escolar primária, torna-se, ao menos em princípio, tarefa das mais simples. Bastará que, dentro dos limites da idade escolar obrigatória, se calculem os totais demográficos correspondentes e se verifique como essas parcelas se distribuem pelos núcleos de população estável, no país, numa dada região ou em dado distrito. Então, se dirá que tantas escolas são necessárias e que tal ou qual distribuição geográfica será a mais conveniente. Para extensão dos serviços, a mais largo termo, bastará apurar as tendências de crescimento vegetativo da população, por cálculo estatístico. Consideram-se as proje- ções cabíveis, a prazos determinados, e, em função delas, calcula-se o número das escolas que venham a ser necessárias. Em caso de déficit, em qualquer momento, as bases para a extensão dos ser- viços serão estabelecidas pelo confronto entre a população escolar já provida de escolas e a população total em idade escolar. 112 Organização e Administração Escolar É evidente que, em qualquer dos casos, não bastará pensar nas unidades escolares a implantar como entidades abstratas. Nos países subdesenvolvidos, por exem- plo, freqüentemente se encontram zonas de grande dispersão demográfica onde a ex- tensão da rede escolar comum não se poderá fazer. Há, neles, áreas imediatamente escolarizáveis e outras não imediatamente suscetíveis de receber escolas de tipo comum. De qualquer modo, serão os dados estatísticos que permitirão propor a distribuição de novas unidades, onde estas possam apresentar satisfatório rendimento, segundo critérios que se tenham fixado e pelos quais as opções do administrador terão de orientar-se. Nenhum critério, no entanto, teórico ou prático, poderá elidir certos pontos básicos de instrumentação, como, por exemplo, o de casas para as escolas e o de mestres habilitados. A ausência desses elementos comprometerá a eficiência de todo e qualquer plano de natureza teórica. Assim, o planejamento do ensino primário estreitamente se deverá relacionar com os de um plano regulador de construções e de outro para formação do professorado. Em numerosas investigações sobre a aceitação, ou não, das escolas (baixa freqüência dos alunos e deserção escolar) tem-se verificado que para esses males decisi- vamente concorrem a falta de edifícios escolares satisfatórios e a precária formação dos mestres.2 [[[[[ Tipos de escolas Os tipos de escolas primárias são, fundamentalmente, dois, não diferenciados quanto a objetivos e programas de ensino, mas, pelas condições gerais do trabalho. O primeiro é o de escolas de uma só classe e um só professor, em unidades chamadas isoladas, unitárias ou singulares. O segundo, o de escolas graduadas, nas quais várias classes funcionam, cada qual com seu mestre, distribuindo-se por elas os alunos, segundo vários graus, ou séries do curso. Nelas se atende ao princípio de divisão do trabalho, como condição elementar de organização. [ A escola isolada Na escola isolada, convergem no professor as funções de ensino e gestão imediata de todos os serviços (andamento dos programas, horários, atividades de classe e extraclasse), bem como as relações com a comunidade próxima. Os alunos se separam em vários grupos de adiantamento, e esses, em seções didáticas. Só em limitada parte do dia escolar, os alunos de cada uma dessas seções podem receber atenção direta do professor, o que necessariamente complica o horário e passa a exigir maior dispêndio de energias de parte do docente. De modo geral, dão as escolas isoladas, por isso mesmo, ensino menos eficiente que as agrupadas. Apesar de tudo, representam instrumentos indispensáveis, onde os grupos de população se encontrem muito dispersos, como se dá nas áreas rurais. Em regiões 2 A observação, que é universal, tem sido apurada por análise estatística em numerosos países, entre os quais o Brasil (cf. Freitas, 1941; Assis, 1941; Lourenço Filho, 1941). 113Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar dotadas de maior facilidade de comunicação, tem-se buscado grupar classes primárias (como também desse grau e do 2°), estabelecendo-se serviço de transporte regular dos alunos. Em local pouco habitado, ou mesmo não habitado, poderá assim existir uma escola a que alunos de pontos distantes concorram. Em certos países, tem-se ensaiado internatos rurais, ou colônias-escolas, freqüentemente associados a programas de educação de base. [ b) As escolas graduadas As escolas graduadas se classificam segundo o número de classes e outras condições. Para as que não tenham senão de três a seis classes, prevalece o nome de escolas reunidas, em que um dos professores, sem que deixe de responder pelo ensino de uma dessas classes, exerce os encargos de direção de todo o conjunto. Nas de maior número de classes, o nome é grupo escolar, centro escolar, agrupamento escolar, ou simplesmente escola, individualizada pelo nome da localidade em que funcione, ou por um número, ou pelo nome de uma figura ilustre que se queira exaltar na história local, regional ou nacional. Então, a separação dos alunos em grupos de adiantamento menos heterogêneos poderá ser feita, e os trabalhos didáticos, mais diferenciados em cada um, passam a exigir coordenação por um diretor, ou diretora, com funções para isso especializadas. De modo geral, compete-lhe a articulação das tarefas didáticas das diferentes classes; a responsabilidade de velar pelas normas de disciplina de todo o pessoal, alunos e professores, sua freqüência regular e pontualidade ao trabalho; a escrituração escolar e a correspondência com agentes administrativos de mais alta hierarquia; as relações com a comunidade próxima; a gestão dos serviços de conservação das instalações da escola, salas de aula e anexos; e, enfim, a representação geral da unidade escolar em face do público. Desde que o número de classes o exija, sobretudo quando o estabelecimento funcione em mais de um turno diário, passa o diretor a ter auxiliares diversamente clas- sificados por suas funções: coordenadores de ensino, orientadores pedagógicos, auxilia- res de escrituração, assistentes sociais, encarregados de serviços de transporte e alimen- tação, etc. Passam igualmente a contar com auxiliares para os serviços de conservação das instalações e sua guarda, como porteiros e serventes. Nos países, regiões ou localidades em que tenha havido conveniente previsão e planejamento de construções escolares, o funcionamento das escolas primárias dá-se num só turno diário. O dia escolar se desenvolve em seis horas de trabalho ou, ao menos, em cinco. Em caso contrário, tem-se de apelar para o regime de dois ou três turnos, com redução do dia escolar e perda conseqüente da eficiência do ensino. Vários expedientes podem ser empregados para minorar tal inconveniente, como a junção de várias classes nos exercícios de educação física, música e atividades manuais, em instalações diversas das salas de aula comuns (auditórios, ginásios de edu- cação física, oficinas). É o sistema chamado de pelotões, em que duas ou mais classes se congreguem, sob a direção de um só mestre, liberando-se as salas de aula para novos grupos de alunos. Isoladas ou agrupadas, as escolas primárias geralmente recebem meninos e meninas, admitindo regime de coeducação. Nos grandes estabelecimentos – em especial, 114 Organização e Administração Escolar nas localidades em que os costumeso exijam –, separam-se os alunos de um e outro sexo em classes distintas. Obviamente, separam-se também para exercícios que lhes sejam particularmente destinados, em educação física, trabalhos manuais, economia doméstica ou certas atividades extraclasse. O trabalho de cada classe comumente atende a horários mais ou menos espe- cificados, segundo o sistema didático em uso e a conveniência de utilização de locais comuns ao trabalho de várias classes. Quando no ensino se aplique o sistema de centros de interesse, projetos ou unidades de experiência, a distribuição do tempo tem maior flexibilidade.3 [ c) Coordenação de escolas isoladas em “núcleos escolares” Atendendo às deficiências gerais das escolas isoladas, tem-se experimentado, em vários países, coordenar o trabalho de escolas isoladas com o de uma escola graduada, que lhes seja próxima. Assim se estabelece uma organização geralmente chamada núcleo escolar. Essa escola graduada vem a servir de escola matriz ou central, sendo as demais consideradas escolas satélites. O diretor e professores da escola central passam a exercer funções de orientação pedagógica e supervisão nas demais escolas, assim agregadas. Por outro lado, tal seja a distância, ou havendo transportes regulares, professores e alunos das escolas satélites poderão reunir-se na escola central para trabalho em oficinas e ou- tras instalações de que essas escolas não disponham. Os alunos das escolas satélites são, ademais, estimulados a se matricularem nas escolas centrais para que completem o curso primário, geralmente incompleto nas escolas isoladas. Não representando, a rigor, um tipo de escola, mas certo arranjo de administração, o núcleo escolar, onde as circunstâncias o facilitem, concorre para a melhoria técnica do ensino e valorização social dos serviços de ensino, nas áreas de população de grupos dispersos. [[[[[ Serviços de coordenação e gestão interna Os serviços de coordenação e gestão direta – por alguns autores chamados de administração interna ou administração de estabelecimentos – estão nas escolas isola- das inteiramente a cargo dos respectivos mestres. Essas funções dizem especialmente respeito à classificação e promoção dos alunos, obediência a um calendário e horário, à execução dos programas de ensino. Na escola isolada, o mestre coordena todo o trabalho dos alunos e a si mesmo se orienta. Isso não ocorre na escola graduada, em que tais funções se especializam na figura do diretor. De fato, há aí maior distinção entre funções operativas e administrati- vas. Por si e seus auxiliares, prevê o diretor as condições materiais do funcionamento da escola; vigia pela freqüência e pontualidade dos alunos e dos mestres; coordena de modo geral os serviços didáticos; faz observar os horários ou normas de distribuição das aulas, além de coordenar a escrituração geral do estabelecimento. 3 No estudo “Os programas de ensino primário na América Latina”, que consta do livro Educação comparada, examinamos em profundidade as questões dos tipos de escolas, organização de programas didáticos e de horários escolares (cf. Lourenço Filho, 1965). 115Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Os autores agrupam essas funções nas rubricas de administração dos alunos, administração dos professores, e administração dos serviços gerais, que passaremos a examinar. [ a) Administração dos alunos Nas escolas isoladas, todos os deveres relativos à administração dos alunos competem ao professor, segundo diretrizes gerais dos regulamentos, e só remota supervi- são por parte de um inspetor. Nas escolas graduadas, também esses deveres competem ao mestre, quando os alunos estejam sob sua autoridade imediata, nas classes ou outras dependências da escola. Ainda assim, certas exigências de coordenação de todo o trabalho do estabelecimento cabem ao diretor. Quais os pontos capitais a esse respeito? Primeiro, o de classificação dos alunos para sua graduação ou distribuição pelas classes. Será diversa para alunos novatos ou de matrícula inicial, e para os que anteriormente já tenham freqüentado a escola. De qualquer modo, a questão se prende ao problema das diferenças individuais, fundamental em toda a organização escolar, recla- mando ação da direção, a que cabe formular ou transmitir diretrizes assentadas no siste- ma e, bem assim, controlá-las, conjugadas à dos mestres, aos quais compete realizar as verificações necessárias, iniciais ou no decorrer do ano letivo. Quanto aos alunos novatos, é pequena a atenção que se dá a esse problema na maioria das escolas. Quanto aos demais, o critério geralmente seguido é o da verificação dos conhecimentos gerais, quase sempre de natureza verbal, obtida em provas ou exames de promoção. Certamente que nos melhores sistemas já assim não ocorre, sobretudo nas grandes escolas em que existam muitas classes de uma mesma série ou grau escolar, o que permite adoção de critérios mais precisos para agrupamento dos discípulos. Em con- seqüência, tende-se a organizar classes menos heterogêneas. As crianças diferem em seus atributos físicos e mentais, como em sua experiência e capacidades gerais e especiais de aprendizagem. Tanto quanto essas dife- renças se levem em conta, não apenas para classificação formal, mas orientação dos pro- fessores, mais apurada será a organização do ensino e sua eficiência. Certos recursos para verificação de diferenças individuais, como testes de maturidade e de nível mental, facil- mente podem ser aplicados pelos mestres (cf. Lourenço Filho, 1967, 1969). De par com esses recursos, de natureza experimental, outros são empregados. No ato de matrícula, a direção da escola deverá registrar dados sobre a profissão dos pais, credo religioso e outras indicações que interessem à boa orientação educativa, como os de nutrição e saúde. Por sua vez, deverão os mestres observar os padrões gerais de conduta dos alunos, sobretudo os que possam revelar a necessidade de cuidados especiais de sua parte, ou da direção da escola. Conhecer os alunos a fim de que o ensino mais bem se adapte a suas necessidades, não simplesmente para submetê-los a uma classificação qual- quer, é ponto fundamental de boa organização e administração. O segundo ponto diz respeito à freqüência, pontualidade e satisfação geral dos deveres escolares pelos discípulos. A impontualidade e o descaso para com o traba- lho escolar, no ensino primário, tanto decorrem de certos atributos mentais como de condições de saúde. Nas grandes cidades, a freqüência pode relacionar-se com maiores 116 Organização e Administração Escolar facilidades e dificuldades de transporte. Conveniente zoneamento para localização das escolas torna-se por isso necessário. De qualquer forma, a cada uma e a todas essas condições deve a administração escolar atender, desenvolvendo os serviços de assistência escolar ou outras providências cabíveis. É fato comprovado, por exemplo, que boa qualidade do ensino e condições agradá- veis do ambiente escolar exercem ação muito favorável sobre a freqüência e a pontualidade. O terceiro aspecto da administração dos alunos diz respeito à adequação de procedimentos didáticos especiais a certos grupos de alunos ou a alguns deles, individu- almente, após estudo desses casos. Em escolas graduadas, com numerosos alunos, servi- ços especiais são estabelecidos para esse fim. Em qualquer situação, esforço conjugado da direção e dos professores será necessário. Certos aspectos dessa questão serão mais adiante tratados ao examinarmos os problemas de administração dos professores. Antes de fazê-lo, resumamos alguns princípios gerais de administração dos alunos, tais como os apresentam Reavis, Pierce e Stullken (1931): A função capital da administração dos alunos, diz esse autor, é proporcionar satisfatórias condições para o desenvolvimento normal de cada um e de todos, e de seu bem-estar na escola. Tanto quanto possível, cadaaluno deve constituir uma unidade de estudo, que pode reclamar cuidados especiais de parte dos mestres e do diretor. Cada escola e, dentro dela, cada classe, deverão organizar-se na forma de comunidades em miniatura, que possam assegurar experiência real da vida social aos alunos, inspirando-lhes crescente sentimento de responsabilidade. [ b) Administração dos professores A administração dos professores diz respeito ao necessário entendimento entre o corpo docente e a direção da escola para coordenação geral dos trabalhos. Três pontos capitais devem ser aí considerados: a interpretação dos programas, a avaliação do rendimento do ensino, e o incentivo ao aperfeiçoamento continuado de cada mestre. Os programas são preparados com o intuito geral de indicar aos professores os objetivos do ensino, o conteúdo sobre que essencialmente devam versar e as recomenda- ções técnicas para que a aprendizagem realize-se do melhor modo. Em duas grandes formas se apresentam: linear, com a indicação de itens ou assuntos separados para cada discipli- na; e globalizada, com a indicação de unidades de experiência que aos alunos convenha propor mediante centros de interesse, projetos, problemas e exercícios associados. Cada uma dessas formas corresponde a uma concepção diferente do processo de ensinar e aprender. A forma linear, característica do ensino tradicional, tende a resul- tados de caráter formal. A forma globalizada salienta a importância da aquisição de técni- cas, hábitos e atitudes, não simplesmente a fixação de noções parceladas de cada disciplina. Uma forma como que intermediária é seguida por muitos sistemas de ensino primário. Consiste em apresentar os programas em duas partes, sucessivas ou paralelas. A primeira é chamada de programa mínimo, e a segunda, de adaptação ou desenvolvi- mento. Com esta última, quer-se que os mestres e diretores colaborem na formulação de roteiros de ensino, ajustados a cada escola, conforme as capacidades dos alunos e o poder criador dos próprios docentes (cf. Lourenço Filho, 1965 – capítulo “Os programas de ensino primário na América Latina”). 117Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Qualquer que seja o programa, o diretor deve exercer ação de estímulo e escla- recimento. Há professores que consideram os programas como lista de assuntos cuja ordem de nenhum modo deva ser alterada. Outros há, ao contrário, que aos programas só atendem superficialmente. Outros ainda que, em virtude de preferências pessoais por esta ou aquela disciplina, contentam-se em desenvolvê-la com detrimento das demais. O que cumpre ao diretor, em reuniões freqüentes, é suscitar melhor interpretação, propor- cionando material de estudo e esclarecendo a relação de cada parte do programa com os objetivos gerais do ensino. No caso de escolas em que existam coordenadores ou orientadores pedagógi- cos, boa parte desse trabalho lhes caberá, sem que o diretor deixe de por ele interessar-se. Seu papel principal é concorrer para que a ação dos professores se exerça de modo cria- dor, mas de forma coerente, a fim de que o ensino de cada grau, ou série, bem favoreça o da série seguinte. Um dos pontos mais necessários é levar os mestres a utilizar os elementos reais do ambiente em que a escola funcione. Numa vila ou pequena cidade, que seja cen- tro agrícola, as preocupações gerais de ensino terão de ser diversas das que representem centros industriais. Isso fará sentir que os programas são instrumentos, recursos de organização, não planos abstratos de feição rígida. A interpretação dos programas terá de ligar-se à avaliação ou verificação do rendimento do trabalho escolar, ponto em que as responsabilidades dos professores e do diretor são igualmente conexas e solidárias. Freqüentemente, no entanto, é ele mal pro- posto na administração dos professores. Ora o diretor o deixa ao inteiro arbítrio dos docentes; ora, ao contrário, impõe questões, exercícios e exames a seu arbítrio, ou segundo suas próprias preferências. O que se torna necessário é que o diretor comunique aos professores a ne- cessidade de pôr em uso, com sua assistência e controle, menos imperfeitos recursos de verificação do trabalho escolar, de modo que os resultados de julgamento possam tornar-se mais objetivos, e entre si comparáveis; igualmente, que os professores neles possam ver instrumentos de avaliação não só do trabalho dos alunos, como de seu próprio trabalho. Os instrumentos para isso indicados são provas objetivas, ou testes pedagógicos, cujos resultados se submetem à análise estatística. Nenhuma dificulda- de haverá em realizar esse trabalho com relação aos alunos de cada classe, de várias classes de um mesmo nível, de toda uma escola. A padronização dessas provas em várias escolas, ou para todo um distrito escolar, terá sempre grande importância. Mas isso não quer dizer que se possam aplicar como critério para promoção dos alunos, sem maior exame das circunstâncias e adaptação das normas gerais obtidas. Essas normas servirão para julgar do trabalho de cada escola e, dentro de cada uma, do trabalho de cada professor. A comparação dos resultados permitirá a análise das difi- culdades que estejam interferindo no progresso dos alunos, e, assim também, no progresso profissional dos professores. Em certos sistemas, testes pedagógicos, elaborados por órgãos técnicos cen- trais, têm sido aplicados para a promoção dos alunos, sem maior ajustamento a condi- ções regionais ou locais. Não é essa, por certo, a solução mais aconselhável. O que mais convirá será a introdução, em cada escola, dos princípios de satisfatória avaliação do trabalho de ensino, em ensaios de medida objetiva organizados pelos próprios mestres, com a assistência do diretor e supervisão daqueles órgãos técnicos. 118 Organização e Administração Escolar O que compete à direção de cada escola será fazer conhecer e ensaiar tais instrumentos de medida, com compreensão dos critérios de sua validade teórica e práti- ca, e, enfim, fazê-los experimentar. Mediante ensaios em que participem os próprios pro- fessores, poderão eles convencer-se das vantagens desses mais precisos instrumentos de avaliação. Esse trabalho já constituirá um dos aspectos do terceiro ponto da administração dos professores: o incentivo para seu aperfeiçoamento técnico e profissional. Em outros tempos, admitia-se que pudesse bastar aos mestres a formação inicial obtida nas escolas normais. Hoje, não se pode pensar assim. Novas funções são reclamadas da escola e, para elas, novos recursos se exigem. É de desejar nos mestres uma constante renovação, com aprimoramento de suas técnicas de trabalho, o que se terá de obter em condições de experiência real, dentro de cada escola e cada classe. É agora tão generalizada essa convicção que, nos países de mais adiantada cultura pedagógica, tem-se abolido a distinção entre a formação dos professores e o seu aperfeiçoamento. O de que se fala é de preparação profissional dos mestres, que se inicia nas escolas normais, ou outros centros, a ser constantemente apurada, depois, no trabalho profissional. No magistério como em outras carreiras, esse aperfeiçoamento dirá respeito à cultura geral e à preparação propriamente técnica. Será associada não só a incenti- vos de progresso na carreira, mas também à conquista de um maior sentimento de segurança obtido pelo desejo de melhor produzir. Em tudo isso, as providências de boa administração têm grande influência. Reuniões de estudo, ensaios de novos pro- cedimentos didáticos, estímulo à observação e verificação dos resultados do ensino, participação em debates de novos planos e programas, incentivo à leitura, comunica- ção de um espírito de investigação ativa – serão os recursos que os administradores devem empregar. Cada diretor deve admitir que sua escola funcione como instituição que a todo o seu pessoal forneça condições de aperfeiçoamento, sem exclusão, é evidente,do que também lhe caiba, como profissional. O relacionamento entre os deveres dos professores e dos diretores4 de escola pode ser, enfim, apreciado no Quadro 1. [ c) Administração dos serviços gerais A administração de serviços gerais, nas escolas primárias, (como nas demais), compreende a boa utilização do edifício e instalações, a supervisão da conservação e asseio de todas as dependências, a distribuição de material a tempo e hora, a previsão de reparos ou acréscimos necessários, a coordenação e controle da escrituração. Nenhum desses aspectos, por mais singelos que pareçam, deixa de ter influência no conjunto das funções de organizar e administrar. Todas elas realmente con- correm para uma impressão de zelo e segurança nos trabalhos da escola como conjunto. Influi na formação de atitudes de educação geral, dos hábitos de previsão, exatidão e apuro do senso de responsabilidade. Não podem ser esquecidas na visão geral dos recursos de coordenação dos serviços. 4 Exame mais aprofundado das funções dos diretores de escola primária encontra-se em Spain et al. (1956). 119Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Quadro 1 – Deveres de professores e de diretores Fonte: adaptado de Moehlman (1940). [[[[[ Articulação dos serviços de cada escola com órgãos centrais Ao examinar os principais aspectos de coordenação interna e gestão direta nas unidades operativas de ensino primário, foram subentendidos dois planos de articu- lação externa. Um, com os órgãos de gestão geral do sistema administrativo a que cada escola pertença; e outro, com a comunidade próxima, de onde receba os alunos e a cujas necessidades deva atender. Neste parágrafo examinaremos as articulações do primeiro, e as demais, no parágrafo a seguir. Esquematicamente, cada escola mantém com os serviços administrativos gerais do sistema a que pertença relações das seguintes espécies: a) de financiamento, instrumentação geral e manutenção; b) de comunicação e coordenação; c) de controle geral e investigação. Nos sistemas públicos, as relações da primeira espécie decorrem dos planos de ação política geral de cada país, ou unidade administrativa regional. Comumente, esses pontos são definidos em estatutos legais, e leis de meios ou orçamentos anuais. Podem corresponder a planos nacionais ou regionais. Claro que isso dependerá do regime administrativo de cada país, seu sistema de tributação, como também da influência de certos costumes e tradições. Nos países 120 Organização e Administração Escolar anglo-saxões, a tradição tem sido o financiamento local para o ensino primário, fundado em taxas especiais para o ensino, levantadas por uma junta administrativa, organizada em cada distrito escolar. Os membros dessa junta, em muitos casos diretamente eleitos pelo povo, escolhem o superintendente dos serviços, ou diretor desse sistema local. O crescimento do número de escolas e a consciência de que o ensino não deve visar apenas a interesses de cada localidade, bem como reconhecimento de princípios de maior economia quanto às construções escolares e à formação dos professores, têm nos últimos tempos modificado essas práticas. Os distritos locais têm-se associado em uni- dades administrativas maiores, os de uma comarca ou condado, e estes, por sua vez, têm admitido maior ingerência de órgãos administrativos regionais, mantidos pelas províncias ou Estados. Por outro lado, um espírito de maior cooperação, mediante auxílios e assistência técnica dispensados por órgãos nacionais, tem-se tornado a regra, mesmo nesses países. A tendência geral é para a organização dos serviços de ensino de 1º grau em sistemas regionais, com supervisão, direta ou indireta, de órgãos da administração nacional.5 Nos países latinos, ao contrário, sempre existiu maior predomínio dessas maiores unidades político-administrativas. Isso conduzia a um regime de comando em linha, com excesso de centralização, impeditivo de maior progresso técnico e adaptação do ensino às necessidades locais. A tendência atual é de rever-se essa forma igualmente extremada. Em todos os países dá-se maior atenção aos interesses locais e regionais, sem prejuízo de certas linhas de coordenação social e política, especialmente quanto à distribuição dos recursos financeiros e articulação de planos e programas. Pelas mesmas razões, os serviços de comunicação e controle geral vêm-se ajustando a uma nova compreensão. As funções de comunicação dantes se exprimiam, por toda parte, em serviços geralmente chamados de inspeção escolar. O inspetor era o único agente a estabelecer relações de articulação entre as unidades propriamente operativas, as escolas, e os órgãos de mais alta hierarquia administrativa. Em visitas periódicas, o inspetor fiscalizava os serviços, emitia decisões e registrava impressões. A pouco e pouco, tais funções passaram a desdobrar-se em categorias funcionais diferenciadas, visando a maior eficiência, segundo critérios técnicos mais fundados. Uma crescente variação dos esquemas de administração funcional passou a substituir a rigidez do comando em linha. Em outros termos, atendidos certos objetivos e planos gerais, os serviços dos vários conjuntos administrativos passaram a ser mais livres na orientação e verificação dos resultados do ensino. Nos melhores sistemas, essa mudança tem-se condicionado à melhor formação dos administradores, como também dos próprios mestres. Realmente, mais que a simples variação de estrutura de órgãos e sua denominação, para isso deverá concorrer uma formação profissional mais completa e práticas de treinamento em serviço. Nessa base, é que uma nova orientação dos serviços educativos pode implantar-se. Os órgãos de administração geral emitem amplas diretri- zes que devem ser complementadas por órgãos auxiliares, daqueles dependentes, os quais, por sua vez, deixam à direção das escolas e aos professores maior liberdade para trabalho criador. 5 É o que se tem dado nos Estados Unidos, como se vê no Bulletin nº 10 do Office of Education, sob o título Local school unit organization in ten states (cf. Alves, Anderson e Fowlkes, 1938). Uma visão geral desse problema encontra-se no abundante material histórico coordenado por Knight (1953). 121Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Em qualquer caso, órgãos de direção de conjuntos de estabelecimentos continuam a existir para articulação dos serviços nas diferentes áreas geográficas. Dentro deles, ou de par com eles, serviços de comunicação e controle geral se desenvolvem, buscando esclarecer as condições de trabalho e seus resultados. Os serviços de inspeção desdobram-se por áreas geográficas, em inspetorias regionais e distritais, bem como desdobram as funções de coordenação, orientação pedagógica e supervisão. Esses termos não se referem a espécies taxativas de agentes administrativos, mas a funções de organização e administração nesse novo espírito. Não basta que se criem cargos de agentes, que se intitulem coordenadores, orientadores, ou supervisores. Igualmente, essas funções podem ser exercidas, em certos casos, por um só funcionário. Ademais, elas existem em planos diversos de hierarquia funcional.6 A coordenação dos trabalhos operativos, dentro da escola, é função capital do diretor. Dado que a escola atinja maior nível de desenvolvimento, poderão ser necessários agentes específicos de coordenação, chamem-se auxiliares de direção, assessores ou co- ordenadores. Numa rede de escolas que funcionem próximas umas das outras, as fun- ções de coordenação poderão caber a agentes não privativos de cada uma, mas a inspetores, (diversamente titulados) com encargos gerais a esse respeito. As funções de orientar o ensino, tal seja o sistema, competirão, em variados níveis e aspectos, a diretores de vários órgãos e a auxiliares técnicos. Em redes de escolas numerosas, numa grande cidade, por exemplo, poderá convir a criaçãode orientadores técnicos, que se consagrem a determinados aspectos do aperfeiçoamento do corpo de professores. O mesmo se poderá dizer das funções de supervisão. Essa palavra significa superintendência, ou coordenação de serviços em geral. No caso do ensino, pode ser definida como o conjunto de esforços de determinados funcionários no sentido de ofere- cer orientação aos professores e melhoria do ensino; abrange o incentivo do progresso dos mestres, a seleção e revisão dos objetivos educacionais, dos procedimentos didáticos e dos modos de avaliar o trabalho escolar.7 Compreendidos esses pontos, entende-se também a variedade dos modos de articulação entre os serviços de cada unidade operativa e os da administração, em maio- res conjuntos. Essas variações têm refletido a constante transformação do regime de administração em linha para o regime de administração funcional, em expressões dife- renciadas segundo o espírito geral do sistema e a formação especializada dos agentes administrativos. [[[[[ Relações com a comunidade próxima O que dantes chamamos de articulação da escola primária com os serviços externos de administração representa, de modo formal, a relação da escola com a 6 Exame aprofundado encontra-se nas seguintes obras: Elsbree e McNally (1951), que examina o papel de diretor como supervisor; McNerney (1951), que define a supervisão como “processo de dirigir e de fornecer critérios para avaliação do trabalho do ensino, seus fundamentos e sua crítica”, não devendo limitar-se ao exame das capacidades profissionais de cada professor; Briggs e Justman (1952), que definem a supervisão como “tratamento sistemático das questões de inspeção, comunicação e controle no serviço do ensino”; e Willes (1955), que analisa os fatores da supervisão, consideran- do-a também como instrumento de liderança, ou especialmente relacionada com os problemas de relações humanas. 7 Ver os trabalhos indicados na nota anterior, em especial os dois últimos citados. 122 Organização e Administração Escolar comunidade regional ou nacional, ou, enfim, com órgãos que representem funções da vida coletiva, também sob feição geral. Em todo o conjunto, cada sistema reflete uma filosofia social interpretada pelos órgãos governamentais. Enfim, ação política e compreensão técnica quanto à estruturação e gestão dos serviços do ensino. Cada escola primária, no entanto, terá de manter articulação ou relações de natureza mais viva e concreta com a comunidade próxima, ou com o núcleo de popula- ção de onde receba os alunos e a cujas necessidades diretamente deve atender. Anteriormente observamos que, por seus próprios objetivos e formas de trabalho, o ensi- no de 1.º grau é o que mais diretamente se prende à ação das famílias com a qual há de coordenar os objetivos do ensino e suas atividades em geral (cf. Olsen, 1 950). Nas unidades isoladas, a representação da escola cabe ao próprio mestre, que deve ser assim uma pessoa sensível à vida ambiente. Nas escolas graduadas, o mesmo se dirá em relação a cada um e a todos os professores, e, em especial, ao diretor que por todo o conjunto responde. Num e noutro caso, a feição pessoal não bastará. Ainda no caso da escola isolada, ela é uma pequenina entidade com representação própria ou feição institucional específica dentro da comunidade. Como tal está, acima e além do mestre, devendo polarizar idéias e aspirações coletivas. E esse caráter nela realmente permanece, ainda quando um mestre tenha de ser por outro substituído. O modo de se tornar mais clara e efetiva essa propriedade social da escola é o desenvolvimento de instituições que a complementem, atraindo a seu âmbito de ação os pais dos alunos, as autoridades locais, as pessoas gradas que, por essa forma, venham a participar mais ativamente da missão educativa que à escola cumpre desempenhar. Tais instituições tomam as mais variadas formas, como associações de pais e mestres, caixa escolar, jornal escolar, grêmios recreativos, movimentos de cooperação de alunos nos problemas locais, sejam estes permanentes ou temporários. Professores e mesmo diretores muitas vezes medem o valor dessas instituições simplesmente pelo aspecto da assistência econômica que possam prestar à escola. Certo que não é ele de desprezar-se, pois solidariza os pais e mais pessoas interessadas na vida da escola e no bem-estar dos alunos. Contudo, o que a diretores e professores deverá preocupar não será apenas esse aspecto, mas a integração do trabalho do ensino nos problemas reais do ambiente e a compreensão de seus objetivos pelos pais ou responsáveis pelos alunos. Se a escola se destina a realizar trabalho de sentido social, deve penetrar-se da vida coletiva ambiente. Em seus critérios relativos ao próprio desenvolvimento dos alu- nos, a comunicação do trabalho que realize com a vida da comunidade próxima deverá ser preocupação fundamental. Só assim o ensino chegará a adquirir sentido realmente criador (Fleming, 1944). [[[[[ Síntese do capítulo 1 Nos sistemas de cada país, as instituições de ensino mais numerosas são as do ensino de 1º grau, ou primário. Isso facilmente se compreende pela função social que lhe cabe, a de oferecer condições de homogeneização cultural às novas gerações. Tal fina- lidade é obtida pelo ensino da leitura e escrita na língua nacional; o desenvolvimento de boas atitudes em relação à vida do lar, às formas de recreação e de trabalho, e à 123Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar conservação e defesa da saúde; igualmente, pelo desenvolvimento de noções sobre a natureza, a vida cívica, moral e religiosa. 2 Em todos os países, o ensino primário é definido nas leis como gratuito e obrigatório, dado o seu caráter de educação de base, a ser proporcionada pela escola, em articulação com a que as crianças venham recebendo no seio de suas famílias. Sua clientela nor- mal são as crianças de sete a doze anos, ou mesmo de pré-adolescentes, quando a extensão aos estudos seja maior que seis anos. Também se ministra ensino primário, em modalidade supletiva, nos países ou regiões em que, por deficiência da rede primá- ria, nas idades próprias, haja elevada proporção de adolescentes e adultos analfabetos. Ademais, em núcleos urbanos adensados, onde a ação educativa da família se enfraqueça (em virtude de condições de habitação e trabalho feminino fora do lar), anexam-se às escolas primárias classes de adaptação (pré-primárias) para crianças de seis ou mes- mo de cinco anos. Também, nesse caso, há interesse em que se multipliquem instituições de educação pré-primária (casas-maternais e jardins de infância). 3 Nas idades próprias, o ensino primário é ministrado em dois tipos de estabelecim- entos: a escola de um só mestre, chamadas isoladas, unitárias ou singulares; e a escola graduada, ou agrupada, com vários mestres e um diretor que coordene o trabalho desse conjunto. Do ponto de vista administrativo, várias escolas isoladas, quando não muito distantes, podem ter seu trabalho coordenado com o de uma escola graduada, nesse caso denominada escola central. O conjunto formará um núcleo escolar. 4 Por definição legal, o ensino primário deve atender a todas as crianças nas idades de matrícula e freqüência obrigatórias. Os cuidados de planejamento geral terão de ser quantitativos antes de tudo, com previsão da expansão exigida pelo simples cresci- mento demográfico. Há, porém, casos de população muito dispersa (zonas não- escolarizáveis); e há, também, o caso de insuficiência de recursos ou de má aplicação deles. Cuidados complementares de planejamento são os de formação de professores e administradores, e os de construções escolares. 5 As questões de estruturação e gestão interna recaem, nas escolas isoladas, no professor único; e, nas escolas agrupadas e núcleos escolares, num diretor e seus auxiliares. Há a considerar problemas de administração dos alunos; dos professores; do edifícioes- colar e instalações; de articulação com mais altas autoridades; e das relações entre a escola e o meio social a que ela deva servir. Nestas últimas, são de utilidade as institui- ções complementares da escola, na forma de associações de pais e mestres, caixas escolares, clubes diversos. 6 Para melhor articulação do trabalho com os planos gerais do sistema escolar, agentes administrativos intermediários visitam os estabelecimentos (orientadores, supervisores, inspetores em geral). Sua função capital deverá ser comunicar e pesquisar, para que, de uma parte, atualizem as diretivas que estejam sendo seguidas no ensino; e, de outra, para que bem possam informar os órgãos superiores de direção, quanto a certas condições favoráveis ou prejudiciais à eficiência da vida escolar. Segundo os países, formas muito variáveis de inspeção são utilizadas. Pelo número e mais difícil acesso, são as escolas isoladas menos freqüentemente visitadas. 124 Organização e Administração Escolar 7 Em qualquer hipótese, os administradores devem preocupar-se com a formação básica dos mestres e diretores e seu aperfeiçoamento constante. Isso não só quanto à feição estritamente didática do trabalho, mas quanto à compreensão dos objetivos sociais da escola que, na própria didática, vem a influir. Nesse sentido, o estreitamento das rela- ções entre cada escola e a comunidade local torna-se indispensável. Disso resultará melhor adaptação dos programas de ensino, e, em conseqüência, maior ação propria- mente educativa de cada estabelecimento. Onde assim se proceda, haverá menor eva- são dos alunos, ou menor depressão na matrícula e freqüência. Haverá maior integração dos objetivos limitados de cada escola com os planos gerais do sistema em que ela se inclua, e, assim também, como as expectativas das famílias em relação a seus filhos: expectativas de destinação profissional mais próxima, em empresas agrícolas, comer- ciais e industriais, considerado o ensino primário como terminal; ou expectativas menos próximas, donde o prosseguimento dos estudos em estabelecimentos de ensino médio. 125Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar Capítulo 6 Organização e administração do ensino de 2o grau [[[[[ Preliminares Os problemas de estrutura e gestão dos serviços de determinado grau de ensino tornam-se claros quando, nas expectativas sociais a ele referentes, não haja maiores dis- sensões. Então, traçam-se planos e programas a que as escolas respondem, combinando elementos técnicos para o rendimento que se deseje, em certa quantidade e qualidade. Foi o que vimos ao tratar do ensino primário, em relação ao qual essas expectativas são, a bem dizer, unânimes. Já o mesmo não ocorre com o ensino de 2º grau, ou médio, que às idades da adolescência se destina. Questões numerosas e complexas, de ordem social, econômica e política, nele se agitam. Em conseqüência, as linhas de organização e administração pare- cem menos nítidas, não porque deixe de haver elementos técnicos satisfatoriamente conhecidos, mas pela variedade de concepções com relação ao que se pretenda obter. Muitos afirmam que o problema crucial da educação de nosso tempo está na reorganização das escolas de 2º grau, o que parece certo. Para isso, uma redefinição das bases culturais em que elas devam assentar o seu trabalho tem de ser feita. Não havendo maior definição dessas bases, então ocorre que organizadores e administradores vêm a participar da discussão delas, ou que à sua interpretação são atraídos, com isso agravando a situação. Não se poderá negar que as expectativas desta época com relação à incorpora- ção dos jovens aos quadros familiares, da vida cívica, do trabalho, das instituições soci- ais em geral não são admitidas com unanimidade. Vivemos numa era de mudança de civilização, na qual novas concepções se elaboram, em conflito mais ou menos agudo com os esquemas da tradição. E isso necessariamente se reflete na estruturação dos serviços escolares e normas de seu funcionamento. Que o mundo atravessa esse momento de transição não se pode pôr em dúvida. Como salienta Kandel (1955), processam-se mudanças na vida cultural que inspiram novas concepções educativas. Novos tipos de escola são concebidos e experimentados. Efetuam-se transformações nos 126 Organização e Administração Escolar planos de cursos e programas, bem como nos modos e formas práticas do ensino. Afirmar que essas mudanças exclusivamente se devam aos educadores não corresponde à verdade. Talvez seja mais certo afirmar que elas surgem da necessidade de atender a novas exigências sociais que o educador terá de conhecer a fim de que possa bem utilizar-se dos conhecimentos profissionais nas tarefas que lhes caibam. Onde o autor escreveu “educador”, poder-se-á especialmente entender “organizador e administrador escolar”. E, ainda de modo mais amplo, organizadores e administradores em geral, os quais devem interessar-se em compreender o processo edu- cacional nas suas funções atuais. Reciprocamente, para que bem atendam a essas fun- ções, no âmbito próprio, os administradores escolares carecem de ter uma visão clara do trabalho do sistema de ensino a que pertençam, em todo o seu conjunto e, particularmente, no subconjunto a que hajam de atender. Com relação ao ensino do 2° grau é realmente o que agora se passa. Noutros tempos, à grande maioria bastava o ensino primário, reservando-se qualquer preparação escolar ulterior a pequena minoria. Essa discriminação educativa tinha como fundamen- to a estabilidade social e a existência de camadas estratificadas por motivo de origem familiar e condições socioeconômicas, que todos aceitavam como justas e naturais. Hoje, a situação é bem diversa. Por efeito de maiores aplicações da tecnologia, de que tem resultado a aquisição de novas atitudes com relação aos problemas da vida cívica, econômica e política, as expectativas por parte das famílias em relação ao destino dos filhos adolescentes e, assim também, por parte dos próprios jovens, são muito diversas. A discriminação tradicional do ensino de 2° grau, de que falamos, tem perdido a sua razão de ser, reclamando o aumento do número de escolas desse grau e sua diversi- ficação. O ensino, que se reduzia a um só tipo de preparação acadêmica ou literária – a do ensino secundário tradicional, já agora muito modificado –, não figura senão como uma das modalidades da educação dos adolescentes. De par com ele, e com ele articulado sob diferentes formas (de modo a fazê-lo perder aquele caráter de privilégio para uma minoria) têm-se criado numerosos ramos de ensino médio. Em termos simplificados, a formação escolar da juventude perdeu a feição seletiva de outrora para apresentar feição distributiva que possa atender aos reclamos dos mais diversos ramos de atividades produtivas, no comércio, na indústria, nos transpor- tes e comunicações, na administração de empresas, e no serviço público, ou, afinal, em todos quantos reclamem certa preparação de ordem geral e tecnológica, que a escola primária não pode ministrar. Em suma, perdeu o ensino do 2º grau a sua feição aristocrática, para tornar-se ramo comum, ensino de todos, em bases democráticas. [[[[[ Tipos de ensino e clientela Impõe-se por tudo isso uma nova organização das escolas de 2º grau, as quais já não podem apresentar um único curso, como dantes acontecia com a função de prepa- rar para os cursos superiores. É bem sabido que esse tipo de ensino nasceu nas próprias universidades, para servi-las, quando de sua origem na Idade Média. Abaixo das faculdades que preparavam para as carreiras liberais, estabeleceram elas as chamadas faculdades menores, ou de artes, no sentido de artes liberais, ou de 127Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar conhecimentos a que só os homens livres poderiam aspirar. Compreendiam duas partes: o trivium (gramática, retórica e dialética), e o quadrivium(aritmética, geometria, astrono- mia e música). A princípio, obrigatórias apenas para os alunos que pretendessem gradu- ar-se em Teologia, estenderam-se depois aos que se destinassem ao Direito e à Medicina. Variando sua composição, tal preparação propedêutica mais tarde passou a ser feita em cursos desligados das universidades, os quais representaram os núcleos das escolas secundárias tal como se desenvolveram no século passado. Não apresentavam objetivos ou conteúdo próprio. Eram estudos preparatórios, dependentes das exigências dos cursos superiores. Certas exigências sociais levaram, no entanto, já no início do século passado, à criação de outro tipo de estudos, ulterior ao primário, mas como extensão do ensino popular que nas escolas elementares se dava. Estabeleceram-se na França os cursos de primária superior; na Alemanha, cursos médios (Mittelschulen); e, na Inglaterra, estudos similares, mantidos em estabele- cimentos com o nome de primary central schools. Em outros países, inclusive no Brasil, em certas regiões pelo menos, criaram-se cursos complementares do ensino primário. Todos visavam encaminhar os jovens a escolas de aprendizagem profissional, na forma rudimentar de artes e ofícios, ou práticas do comércio e de outras atividades necessárias. Nos países em que maior desenvolvimento industrial se processava, isso não poderia satisfazer. Instituíram-se, então, escolas técnicas para a aprendizagem de ativida- des novas em que o emprego de máquinas se vinha generalizando. A extensão do ensino da adolescência tomou assim uma feição como duplicada, com caminhos paralelos, mas inteiramente separados um do outro: estudos secundários acadêmicos para uma minoria, e ensino profissional para todos quantos os quisessem. Nalguns países, insistiu-se mes- mo na idéia de que o ensino profissional devesse ser reservado a crianças desvalidas ou a meninos pobres. Foi o que, por muito tempo, na legislação brasileira se consignou. As transformações sociais, econômicas e políticas dos últimos tempos, deveriam, no entanto, aproximar essas duas formas dantes desligadas. Foi assim que surgiu a denominação de ensino de 2° grau, ou ensino médio, tendente a sugerir uma compreensão funcional diversa. Foi ela favorecida, já nos últimos decênios, com a divisão desse grau de ensino em duas partes, ou ciclos de estudos, o primeiro geralmente com a extensão de três anos, e o segundo com duração igual, ou menor. A idade de matrícula inicial variava, como ainda varia, em cada país segundo a extensão do ensino primário que nele se dê. Igualmente, a extensão total dos estudos seria maior ou menor, tais fossem as condições da vida social e, particularmente, as da estrutura econômica de cada país ou região. Com tudo isso, a clientela de alunos adolescentes deveria aumentar. Para tomar um exemplo, em 1890, para uma população total de 62 milhões, mantinham os Estados Unidos em suas escolas de 2° grau 200 mil alunos. Dez anos depois, aumentada a população para 70 milhões, já a matrícula do ensino médio ultrapassava meio milhão; e, em 1935, para 130 milhões de habitantes, atingia a casa dos 6 milhões, sendo agora maior. Se bem que em pro- gressão menos rápida, o mesmo fato se tem observado na maioria dos países europeus e, nos últimos trinta anos, também nos da América Latina. No Brasil, ainda em 1933, todos os alunos das escolas médias eram 65 mil, ao passo que hoje ultrapassam dois milhões. É de observar que, em muitos países, a obrigatoriedade escolar passou a estender-se às idades de 14 e 15 anos e, nalguns deles, a idades ainda mais altas, devendo cumprir-se, portanto, nessa parte acrescida, em estabelecimentos do 2º grau. 128 Organização e Administração Escolar [[[[[ Modificações dos objetivos do ensino Os fatos expostos dão idéia da extensão do ensino médio, que assim passou a representar uma expressão do ensino comum, ensino de todos. De par com isso, outras modificações muito importantes em sua natureza pedagógica deveriam dar-se, reformando o sentido da educação dos adolescentes. Outrora, mantida como era a estrutura social, sem maiores alterações no decorrer de gerações sucessivas, cada família poderia satisfazer plenamente às necessi- dades de formação social, cívica, profissional, religiosa e moral dos filhos. Poderia imprimir a cada um, os seus modos de viver e conviver, ideais e aspirações. Os costumes eram simples e estáveis, de modo que a influência da família tornava-se decisiva, contra- balançando efeitos dispersivos de outra origem. O que às escolas competia fazer era mi- nistrar conhecimentos que a vida do lar já não pudesse oferecer, e, bem assim, em casos especiais, certas espécies de técnicas para novos tipos de trabalho. As rápidas mudanças da vida econômica e social dos últimos tempos, que à própria vida familiar vieram impor grandes modificações – inclusive na autoridade dos pais e parentes –, deveriam transferir muitos dos aspectos de formação mais íntima dos adolescentes para o âmbito das escolas. Tal situação criou maior interesse pelos estudos das condições do desenvolvimento biológico ou psicológico dos jovens. Dantes, a educação da adolescên- cia compreendia certas normas de iniciação não dependentes de ensino escolar ou da ação dos mestres. Cada jovem era incluído no rol dos adultos, com todos os direitos e deveres dessa qualificação, na forma admitida pelos costumes e tradições de sua própria classe social, tais como a orientação para o trabalho e a constituição de sua própria família, pelo casamento, muitas vezes realizado antes dos 18 anos. A fase de transição entre a infância e a idade adulta era assim menos extensa, coincidente apenas com as variações de ordem biológica da puberdade e suas conseqüências imediatas, em relação às quais as expectativas sociais se apresentavam simples e claramente definidas. Em nossa era, de sociedades muito mais complexas, já não é assim. A preparação profissional exige mais longo prazo. Em conseqüência, o casamento é retardado. Maiores exigências relacionadas com a emancipação do jovem, independência econômica e estabe- lecimento de uma nova família prolongam o período adolescente que, se sempre foi idade social, agora mais nitidamente vem a ser regulada pelas condições da vida coletiva. Os objetivos do ensino de 2º grau passaram a ser alterados, sobretudo para que pudessem atender aos encargos educativos daquela transferência de encargos da família para a escola. A finalidade de formação intelectual, a bem dizer exclusiva do antigo ensi- no médio, teve de desdobrar-se em novos aspectos, relativos à saúde, ao trabalho, à vida cívica, à vida religiosa e moral. Como objetivo central, deseja-se que a escola de 2º grau possa hoje concorrer não só para os conhecimentos de cada jovem, mas para a sua formação integral, a sua personalidade. Já em 1918, numa publicação da Comission on the Reorganization of Secondary Education (Comissão de Reorganização da Educação Secundária), dos Estados Unidos, país em que as transformações econômicas e sociais tornaram-se mais intensas, as finalidades de educação dos adolescentes passavam a ser assim definidas: a) educação da saúde; b) domínio dos processos fundamentais de comunicação; 129Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar c) compreensão de valores familiares e cívicos; d) eficiência profissional; e) uso adequado e digno das horas de lazer; f) formação geral do caráter. Esclarecia a mesma Comissão que esses pontos deveriam visar ao desenvolvimento da personalidade de cada jovem, mediante atividades que o levassem a maior ajustamento por coordenação de interesses, ideais, hábitos e conhecimentos. Cada adolescente deveria tornar-se, por ação da escola e em coordenação com o lar, elemento útil a si mesmo e ao progresso da comunidade (United States. Comission..., 1918). Em obra de larga repercussão, Engelhardt e Overn (1937) mais explicariam esses propósitose as condições a serem para isso articuladas, da seguinte forma: a) integração dos alunos nos elementos da cultura da nação; b) diferenciação dos jovens através do desenvolvimento de suas aptidões, capacidades e interesses individuais, com especial atenção à contribuição que devem dar ao bem- estar social; c) compreensão de que, durante o curso não estão eles a preparar-se para um estágio futuro, mas vivendo uma vida real a ser enriquecida com oportunidades educacionais de todo gênero; d) reconhecimento das características da adolescência e das diferenças individuais quanto ao desenvolvimento físico, mental e emocional; e) adequado ajustamento dos elementos de organização escolar a esses objetivos e condições em todo o período de estudo, inclusive uma razoável base para possível prosseguimento em estudos de mais alto nível, os quais, segundo as capacidades e aptidões, devem apresentar oportunidade a todos. Por sua vez, a Comissão Americana de Diretrizes Educacionais, na publicação “Objetivos da Educação na Democracia Americana”, do ano seguinte, assim sintetizava as finalidades do ensino do 2° grau: a) capacidade de auto-realização; b) desenvolvimento das relações humanas; c) eficiência econômica; d) responsabilidade cívica. O confronto desses objetivos com os que no século passado1 se admitiam para o ensino secundário – aquisição de conhecimentos e formação intelectual – demonstra mudança muito grande nas tendências da educação de 2° grau. Originaram-se essas no- vas tendências tanto de uma compreensão diferente dos fatos da vida coletiva, como também de mais aprofundado conhecimento das condições biológicas e psicológicas dos adolescentes, em nosso tempo. Quanto às últimas, observava-se que, embora em qual- quer época sempre tenha havido maior ou menor conflito entre as gerações, esse conflito agora se dá de modo muito mais agudo e complexo, passando a exigir novas formas de solução. 1 O A. refere-se ao século 19 (N. do E.). 130 Organização e Administração Escolar Tudo deveria levar, enfim, pensadores sociais, políticos, educadores em geral, e organizadores e administradores escolares em especial, a considerarem os problemas de ensino médio, cada vez mais prementes, nos estabelecimentos desse nível de estudos. De modo geral, passava-se a ter uma mais clara compreensão das funções que o ensino de 2° grau deveria desempenhar, quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista social. Se o ensino primário deveria cumprir a função de homogeneização, o de 2° grau deveria ter a de diferenciar. Foi essa uma das primeiras conclusões a se estabelecer, e com boa fundamentação. Contudo, tal diferenciação deveria repousar tam- bém nas possibilidades individuais, tendo-se em vista a sua variabilidade. Nessas condi- ções, os encargos de diferenciar ainda assim passariam a exigir uma nova e mais alta homogeneização, em diferentes níveis. De acordo com Havighurst, as pesquisas que mais têm influído nos objetivos educacionais da juventude têm sido as que se relacionam com a motivação dos alunos para o progresso ulterior em novos estudos e na vida profissional. Esses motivos respon- dem, porém, a pressões de grupos e do ambiente social, em geral. Assim, não é de estra- nhar que um grande número de especialistas aceitem como base das novas diretrizes a análise das transformações da vida coletiva, em todos os seus aspectos. Que as escolas de 2° grau devam atender a objetivos de formação básica geral, qualquer que seja o encaminhamento profissional, passou a ser uma nota constante nos estudos mais recentes. E o que se pode ver, por exemplo, no célebre relatório de James Bryant Conant, sob o título de “Os objetivos da educação numa sociedade livre”; numa investigação depois publicada pela Fundação Rockfeller, e em outros trabalhos do mesmo gênero (cf. Havighurst, Neugarten, 1957; Conant, 1948). Tanto quanto em relação ao ensino primário se admite, como base de homogeneização, o domínio das técnicas elementares da cultura (ler, escrever e contar), aceita-se que o ensino de 2º grau, em qualquer de suas modalidades, deverá fortalecer as capacidades de pensamento reflexivo ou, numa palavra, aquelas que melhorem nos mais diversos domínios as capacidades de “aprender a aprender” (Kandel, 1955). A especificação dos objetivos educacionais proposta pela Comissão Americana de Diretrizes Educacionais, em 1938, dantes transcrita, veio a servir, ainda em 1957, como base de aprofundada investigação empreendida pela Rusell Sage Foundation. Aceitando- os, essa nova pesquisa classificou os comportamentos dos jovens, para efeito educativo, em quatro grandes domínios, assim definidos: a) os que levem cada aluno a atingir o máximo de desenvolvimento intelectual; b) os que orientem e integrem cada educando na vida social e cultural do ambiente nacional; c) os que mantenham e fortaleçam a saúde física e a saúde mental; d) os que capacitem enfim cada jovem a bem produzir e a bem consumir, ou a imprimir-lhes capacitação econômica satisfatória. [[[[[ Problemas de planejamento geral As conseqüências das mudanças sociais e dessa nova compreensão da vida do adolescente impõem à organização e administração do ensino de 2º grau cuidados especiais, que se apresentam, antes de tudo, sob o aspecto de planejamento geral. Se os planos de ensino primário, dadas suas funções de homogeneização, atendem 131Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar principalmente à extensão da rede escolar, já o mesmo não ocorre com o ensino dos adolescentes, dado que nele não importa apenas a extensão, mas a correspondência do ensino com diferentes categorias de problemas sociais. Desde que se admita o princípio da oferta de maiores oportunidades educacionais a todos os jovens, ter-se-á de perguntar que tipos dessas oportunidades lhes deverão ser oferecidos, para maior benefício individual e da coletividade. A questão toma feição problemática particular para cada país, região e localidade, sem prejuízo de uma conexão necessária entre os programas locais e regionais, e entre os regionais e os de feição nacional. A primeira dificuldade está na especificação dos diferentes tipos de cursos e sua articulação. Ter-se-á de consultar as capacidades individuais, porque realmente bási- cas no trabalho educativo, mas assim também as possibilidades da vida social, especial- mente as econômicas, ou do mercado de trabalho, variáveis em cada região. Não haverá maior propósito em oferecer condições de formação profissional aos jovens fora de mais seguro aproveitamento dessa formação. Uma segunda dificuldade aparece, derivada de certa consciência de classe social, que pode obstar a aceitação de modalidades de ensino, embora sentidas como socialmente úteis. Em virtude de sua posição social ou riqueza – diz Kandel (1955), sintetizando vários estudos – as classes que em outros tempos enviavam os filhos à escola secundária acadêmica, ainda que eles não tivessem capacidade para devidamente aproveitar esse ensino, sentem-se feridas em seu orgulho quando se sugira outro tipo de educação mais apropriado a esses jovens. Por sua vez, as classes operárias, que se acostumaram a consi- derar as escolas acadêmicas como meio de penetrar nas classes média ou alta, e de liber- tarem assim seus filhos do trabalho manual, nem sempre de boa vontade recebem a sugestão para estudos de igual nível, desde que diferentes. E há também a hipótese con- trária, como se tem observado nalguns países da Europa: muitas famílias não desejam que seus filhos se aproveitem de novas oportunidades de educação, por apego a uma tradição familiar relativa a certo gênero de trabalho manual (Kandel, 1955). Dir-se-á que essas dificuldades se possam resolver respeitando-se as idéias e aspirações dos pais. Nas grandes cidades, onde se estabeleçam escolas com cursos múltiplos, esse ponto facilmente poderá ser atendido. Mas há alguma ilusãonesse modo de ver. Certo que a opinião familiar deverá ser sempre levada em conta. Uma questão de ordem mais ampla terá de ser considerada, sobretudo nos países que se encontrem numa fase de rápido desenvolvimento tecnológico, qual seja a de atender a prementes necessidades de mão-de-obra especializada, prepara- ção essa de muitos tipos e com as quais se deverão conciliar os interesses das famílias, as tendências dos jovens e seu nível de capacidades e aptidões. Satisfazer somente a necessidades de mão-de-obra, ou das empresas, consideradas apenas as exigências de seu desenvolvimento como empreendimentos eco- nômicos, não será legítimo. A educação, na adolescência, como em qualquer outra idade, não visa apenas à formação do trabalhador, mas à de homens completos. A formação do homem em toda sua plenitude terá de considerar, no entanto, as possibilidades de trabalho útil para o seu próprio proveito e o bem-estar coletivo. O que a educação do 2° grau deverá fazer é possibilitar o esclarecimento, a um só tempo, das capacidades individuais e de sua melhor aplicação, dentro de planos que se estabeleçam no sentido dos interesses gerais, mesmo porque são eles indispensáveis à 132 Organização e Administração Escolar própria afirmação e desenvolvimento pessoal, por opção para um gênero de atividade ou carreira, nas idades próprias e sem prejuízo de possível mudança futura. E isso porque, como vivemos em sociedades dinâmicas, admite-se como normal certa mobilidade nas ocupações. Dois recursos, aparentemente divergentes, para isso se apresentam. O primeiro consiste na expansão do ensino do 2° grau, em sua parte básica que a todos possa ser oferecida, como fundamento de diferentes caminhos de opção. A forma prática será a de estruturação do ensino do 2° grau em dois ciclos, um de natureza geral e básica, e outro tendente à diversificação e especialização. É evidente que essa expansão reclamará sem- pre, como condição necessária, a expansão do ensino primário, visto que os egressos desse ensino é que serão matriculados no ciclo inicial. O segundo recurso consiste em dar aos estudos básicos, no l° ciclo, funções de diagnóstico de tendências, capacidades e aptidões, em estreita ligação com os serviços de orientação educacional ou profissional. A fim de que os planos do ensino do 2° grau possam bem relacionar-se com os planos econômicos de cada região e cada país, sem que interfiram na liberdade de mais conveniente opção profissional, o ensino há de consti- tuir-se como uma fase educativa de esclarecimento sobre os mais diversos ramos de atividades produtivas, e de orientação para que uma escolha feliz possa fazer-se. A questão dos ciclos de estudos e de sua orientação diferenciada apresenta- se, em qualquer caso, como de capital importância. [[[[[ Ciclos de ensino A organização do ensino de 2° grau em dois ciclos, tem-se, com efeito, tornado idéia vencedora na maioria dos países. Em inquérito realizado em 1960, em 71 nações, pelo Bureau Internacional de Educação, ficou demonstrado que em apenas três deles o ensino de 2° grau não se achava assim dividido. O 1º ciclo, chamado geral, básico-cultural, de exploração de capacidades e aptidões, ou de orientação, geralmente abrange três anos de estudos, antecedidos de um curso primário de seis. Onde a obrigatoriedade exceda aos estudos primários, esse ciclo atende à parte final da obrigação escolar. O 2º ciclo especialmente se caracteriza pela diversificação de seus cursos. Em 37 daqueles países, a duração era de três anos, e, em 28, de dois. Apenas quatro países apresentavam no 2° ciclo maior extensão que três anos. Também se verificava que a espe- cialização partia de uma base de estudos comuns ainda que, desde o início, disciplinas optativas fossem oferecidas para maior satisfação de diferenças individuais. Em qualquer hipótese, tal princípio de flexibilidade realmente predomina, a fim de que os estudos possam consultar as variáveis capacidades e aptidões dos educandos e as preferências das famílias, tudo mediante a organização e funcionamento adequado de serviços de orientação educacional e profissional. A esses serviços tem-se procurado emprestar a feição mediadora necessária, entre as conveniências de ordem individual e social, ou seja, entre as preferências dos jovens e as necessidades do desenvolvimento econômico de cada país, em todo o seu conjunto. A opinião geral dos especialistas em planejamento de ensino é a de que não poderá ele deixar de atender a esse último ponto, como se tem verificado em sucessivas 133Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar reuniões de técnicos promovidas pela Unesco, pela Organização dos Estados Americanos e outros órgãos de estudo. Assim,na última reunião desse gênero, realizada em março de 1962, em Santiago do Chile, aprovaram os especialistas aí reunidos as seguintes recomendações para o ensino médio ou de 2º grau: 1) recomenda-se a generalização progressiva do ensino médio, gratuito e obrigatório, sobretudo no 1º ciclo; 2) recomenda-se a estruturação do ensino médio em dois ciclos, de que o primeiro será básico, de cultura geral e orientação, que ministre ensino comum; e o segundo, de especialização ou determinação, subdividido em vários ramos; 3) recomenda-se a modernização da escola secundária de cultura geral e a revi- são da estrutura das escolas de nível médio que forneçam preparo profissional; 4) recomenda-se a adoção de critérios flexíveis de equivalência e adaptação dos cursos da escola média; 5) recomenda-se a vigência de regime especial para cursos noturnos; 6) recomenda-se que currículos e programas tenham organização diversificada e que deles se faça revisão periódica; 7) recomenda-se a organização de disciplinas agrupadas no 1° ciclo, e especialização dessas disciplinas no 2°, com descongestionamento geral dos planos de curso e programas; 8) recomenda-se o funcionamento sistemático de serviços de orientação educacional e profissional; 9) recomenda-se, enfim, a preparação em nível superior do pessoal docente das escolas de 2° grau. A essas conclusões têm chegado os estudiosos da matéria não por admitirem que as condições materiais da produção, em cada país, devam colocar-se acima de outras de natureza social e cultural, mas, simplesmente, porque estas últimas não logram per- feita efetivação sem que o nível de vida das populações melhorem, por desenvolvimento econômico, no que a preparação da juventude figura como essencial. Examinando esse aspecto, de modo especial quanto às condições de vida democrática e não democrática, em cuidadoso estudo com fundamentação objetiva refe- rente a 48 países, Lipset (1959)2 pôde revelar uma correlação quase absoluta entre a normalidade das instituições políticas e os índices de riqueza, expressos pela renda per capita, número de pessoas por médico e veículo motorizado, consumo de energia elétri- ca, número de rádios receptores, telefones e exemplares de jornais impressos por grupo de mil pessoas, além de outros coeficientes do mesmo tipo . Por sua vez, um especialista brasileiro, Jayme Abreu (1961, 1962), comentando o resultado de reuniões das organizações internacionais sobre o assunto, escreve o seguinte: Se o papel da educação no desenvolvimento econômico se torna mais perceptível no que concerne à mão-de-obra profissional e técnica, é também importante a sua influência na invenção tecnológica, no espírito de inovação, na aptidão empresarial, na elevação dos 2 Esse trabalho, em resumo, foi dado a conhecer no Brasil com o nosso estudo “Educação para o desenvolvimento”, preparado em 1960 para a Confederação Nacional das Indústrias, e publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, n. 81, jan. 1961. Posteriormente, o trabalho de Lipset foi divulgado na íntegra pela Revista Brasileira de Estudos Políticos, da Universidade de Minas Gerais, n. 13, jan. 1962. 134 Organização e AdministraçãoEscolar padrões de consumo, na promoção da adaptabilidade a mudanças econômicas e tecnológicas, como também na participação ativa dos diferentes setores sociais nas tarefas de desenvolvimento, em geral. [[[[[ Tipos de escolas Com a adoção de dois ciclos, tendem as escolas de 2° grau a apresentar um só tipo de estrutura. Poderá ele ser completo, ou não, reduzindo-se ao primeiro, ou desta- cando, ao nível do 2º, cursos diferenciados que busquem satisfazer mais urgentes necessidades de preparação geral ou, logo, técnico-profissional. Assim, embora mantidas certas linhas gerais de unificação, podem as escolas apresentar conveniente flexibilidade. Normalmente, apresentam um curso básico geral, e cursos subseqüentes, agrícolas, comerciais, industriais, de ensino normal, de adminis- tração, de artes domésticas, de artes aplicadas, e outros. Quando um mesmo estabelecimento inclua dois ramos diversificados é chamado bivalente ou duplo (bilateral schools, na Inglaterra); quando a vários deles com- preenda e com diferentes modalidades, será uma escola múltipla (comprehensive schools, na Inglaterra e nos Estados Unidos). Em muitos países, ainda que se admita articulação entre os estudos de preparação geral, tanto no 1° como no 2° ciclo, certos estabelecimentos mantêm a denominação geral de escola secundária. Em outros, conservada essa denominação, distinguem-se os cursos por adjetivação: escola secundária geral, comercial, industrial, etc. Desse modo, na prática, encontram-se os seguintes tipos: a) escolas secundárias, ou de estudos gerais, mais ou menos uniformes, ou diferenciados, ao redor de um núcleo constante; b) escolas de endereço profissional, com satisfatório desenvolvimento de um programa cultural, de modo a que possam manter articulação com os estudos secundários gerais, a fim de facilitar a transferência de alunos; c) escolas que, do ponto de vista da organização geral, tendem a maior unificação, mediante um só curso básico ou de orientação, com ramos diferenciados apenas no 2º ciclo; d) estabelecimentos que só mantenham cursos do 2º ciclo, em diferentes ramos ou modalidades. Tal variedade de soluções reflete a variedade de demanda do ensino, segundo o desenvolvimento técnico de cada país ou região. Justifica-se também pela maior ou menor extensão das normas de obrigatoriedade escolar. Onde haja ensino primário mais alongado, os estudos de 2° grau apresentam extensão mais reduzida. Assim, nos países com ensino primário de oito anos, os estudos médios geralmente se reduzem a quatro, seja para a conclusão de estudos gerais, seja para a preparação profissional. Onde o ensino primário tenha seis anos, usualmente a educação média apresenta igual extensão, com dois ciclos de três anos cada um. Esquematicamente, esses dois modos de organização são designados pela fórmula 8 + 4, e 6 + 3 + 3, respectivamente. Em qualquer dos casos, quando a escola média represente ensino comum, aberto aos mais diferentes tipos de clientela, sem distinção entre estudos culturais e 135Parte I – Princípios de Organização e Administração Escolar profissionais, admite-se um complemento do ensino secundário cultural ao nível das universidades. É esse o caso dos Estados Unidos e outros países que hajam copiado a organização de suas high schools. A parte mais especializada passa a ser feita em institui- ções na forma de colégios universitários, ou na primeira parte deles (junior colleges), com estudos de dois ou mais anos. A forma que ultimamente mais se tem generalizado, como vimos, é a de escolas com dois ciclos: um básico, ou de orientação, e outro com ramos múltiplos, entre os quais vem a figurar o de preparação para os estudos universitários, ainda que não se lhe dê exclusividade para isso (Bureau... 1960). As denominações muito variadas que as escolas de 2° grau recebem nos diferentes países não permitem julgar de seu conteúdo. Podem essas denominações refe- rir-se a escolas mantidas pelos poderes públicos ou por instituições particulares, ou mesmo a estabelecimentos custeados pelo governo central ou por órgãos da administra- ção regional ou local. É esse o caso da Bélgica, onde as escolas particulares têm a denomi- nação de colégios, e as públicas de liceus; e é o da França, onde os estabelecimentos m- antidos pelo governo central chamam-se liceus, e os demais, colégios. Liceu é o nome indistintamente usado em Portugal, Polônia, Chile, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Ginásio é o que utilizam a Iugoslávia, Grécia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Suécia e alguns cantões da Suíça. A denominação que prevalece nos Estados Unidos e nalguns outros países de língua inglesa é high school, distinguindo-se o 1º ciclo com o adjetivo júnior, e o 2° com o qualificativo senior. Títulos especiais são empregados nalguns países para a distinção entre os cursos de 1° e de 2° ciclo, como ocorre no Brasil – ginásio e colégio –, e, na Itália – escola média e liceu (Unesco, 1955; Lourenço Filho, 1965). Qualquer que seja a denominação e articulação dos cursos, o ensino é organizado por séries anuais, com promoção também anual, mais geralmente seguida; ou com promoção por conjuntos variados de disciplina, admitindo então, o chamado siste- ma de crédito. Esse sistema atribui certo número de pontos à freqüência e satisfação dos atos escolares a cada uma das disciplinas de determinado conjunto. Obtido o total desses pontos, o aluno passa a inscrever-se em outro conjunto, e, assim, sucessivamente. Em todos os casos, o ensino se distribui por professores especializados, de que resultam vantagens e desvantagens. As vantagens são as de maior fundamentação teórica; as desvantagens, a dificuldade de se integrarem as diferentes disciplinas para um resultado educativo comum. Por essa razão, em muitos países, qualquer que seja o núme- ro de disciplinas, e em especial no 1° ciclo, o ensino é distribuído apenas por quatro ou cinco docentes, em cada série anual. Cada professor encarrega-se de várias disciplinas afins (línguas, matemáticas, ciências físicas e naturais, atividades artísticas, educação física e da saúde). [[[[[ Problemas gerais de administração As formas do ensino de 2° grau que hoje se desenvolvem resultaram da con- cepção de fazer da escola um centro educativo integral, e não apenas de transmissão de conhecimentos desligada dos demais aspectos de formação e ajustamento social. Daí, a importância que as questões da administração assumem, pois a coordenação e integração do trabalho dela dependem. 136 Organização e Administração Escolar Nos estabelecimentos tradicionais, a administração resumia-se a uma ação fiscalizadora das condições de matrícula, exigência da freqüência dos alunos e seus exa- mes, para o que bastava um diretor, auxiliado por funcionários de secretaria, e outros incumbidos de serviços gerais de manutenção. Os docentes desenvolviam os seus traba- lhos isolados uns dos outros, tendo como objetivo o domínio de um programa teórico a ser vencido pelos alunos. A forma comum do ensino era a de aulas expositivas, em prele- ções ou conferências de cunho erudito. Não se pode deixar de reconhecer que essa situa- ção era perfeitamente lógica, dados os objetivos do ensino, que não eram outros senão os de preparar para os exames de admissão às escolas superiores. A forma de recrutamento dos docentes reforçava esse modo de ver o ensino. Eram escolhidos entre cultores de cada disciplina, não entre professores com formação pedagógica especializada. Na época atual, a situação tende a modificar-se radicalmente. O que se pretende com o ensino de 2° grau é que as escolas sirvam como centros com oportunidades para formação dos adolescentes, reconhecimento de suas capacidades e aptidões e encami- nhamento para novos estudos ou atividades práticas; quer-se, igualmente, que o ensino estimule a compreensão dos valores familiares e cívicos, o uso adequado das horas de lazer, a consciência