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1 UNIDADE 1 RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • compreender a Pedagogia como ciência da educação; • compreender a Didática como a disciplina que estuda o processo de ensi- no no seu conjunto; • relacionar a evolução da Pedagogia e a Didática com a evolução da pró- pria educação; • conhecer as principais contribuições da história grega, romana, do perío- do do cristianismo, e na atualidade com relação à Pedagogia e a Didática; • conhecer as contribuições de Comenius, Pestalozzi, Rousseau, Herbart, Froebel, Dewey para a construção da disciplina de Didática; • identificar as duas grandes fases da Didática no Brasil; • reconhecer as tendências pedagógicas e seus pensadores com seus méto- dos; • conhecer as contribuições de Piaget e Vygotsky para a Didática; • conhecer a identidade do professor; • reconhecer a necessidade da interação professor e aluno no processo ensi- no e aprendizagem; • reconhecer que motivação e incentivação são elementos essenciais para uma aprendizagem eficaz. Esta unidade está dividida em três tópicos, conforme segue. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conte- údo apresentado, além de dicas de filmes. TÓPICO 1 – RETROSPECTIVA DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO TÓPICO 2 – EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA TÓPICO 3 – A IDENTIDADE DOS PROFESSORES 2 3 TÓPICO 1UNIDADE 1 RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico! Estamos iniciando mais um Caderno de Estudos, e nele vamos realizar uma viagem dentro da História da Educação, para melhor compre- endermos a Pedagogia e a Didática, através de recortes históricos, que nos remete- rá à Grécia, passando por Roma, chegando ao Brasil. Este recorte histórico nos dará subsídios para abarcarmos conhecimentos que nos farão perceber o surgimento e quais as mudanças ocorridas até hoje den- tro da Pedagogia e da Didática. Afinal, quais são seus interesses e objetivos e qual é sua funcionalidade? Questões como estas podem soar como de fácil compreensão, mas deixarei para você, acadêmico, dar as respostas. A cada linha deste caderno, você é convidado(a) a viajar, questionando e construindo seus conceitos em relação à Pedagogia e à Didática. Será que elas estão entrelaçadas? Para isso vamos buscar, na História da Educação, contribuições para as respostas. Preparado? Então vamos iniciar. 2 A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E DA PEDAGOGIA NUMA RETROSPECTIVA Para compreendermos a Pedagogia e a Didática, faz-se necessário uma re- tomada na História da Educação, e compreendermos inicialmente o que a História da Educação tem a ver com a História da Pedagogia. Conforme Luzuriaga (1985, p. 1): A história da educação é parte da história da cultura, tal como esta, por sua vez, é parte da história geral. [...] Para nós, a história é o estudo UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 4 da realidade humana ao longo do tempo. Não é, pois, matéria apenas do passado, senão que o presente também lhe pertence, como corte, ou secção, no desenvolvimento da vida humana. Por outro lado, a história da cultura se refere antes aos produtos da mente do homem, tais como se manifestam na arte, na técnica, na ciência, na moral ou na religião e em suas instituições correspondentes. A educação é uma dessas mani- festações culturais; e também tem sua história. Por este motivo, estaremos apresentando neste início de estudos, o signi- ficado da Educação e da Pedagogia. Assim, conseguiremos vislumbrar dentro da linha do tempo a construção destes conceitos. Buscamos em Luzuriaga, (1985, p. 1-2) o significado destas duas palavras: Por educação entendemos, antes do mais, a influência intencional e sis- temática sobre o ser juvenil, com o propósito de formá-lo e desenvol- vê-lo. Mas significa também a ação genérica, ampla, de uma sociedade sobre as gerações jovens, com o fim de conservar a transmitir a existên- cia coletiva. A educação é, assim parte integrante, essencial, da vida do homem e da sociedade, e existe desde quando há seres humanos sobre a terra. Por outro lado, a educação é componente tão fundamental da cultura quanto à ciência, a arte ou a literatura. Sem a educação não seria possível aquisição e transmissão da cultura, pois pela educação é que cultura sobrevive no espírito humano. Cultura sem educação seria cul- tura morta. E esta é também uma das funções essenciais da educação: fazer sobreviver a cultura através dos séculos. Como se pode observar, a educação visa à formação integral do ser huma- no que está relacionada a cultura, já a Pedagogia, ainda conforme Luzuriaga (1985, p. 2): Chamamos pedagogia à reflexão sistemática sobre educação. Pedagogia é a ciência da educação: por ela é que a ação educativa adquire unidade e elevação. Educação sem pedagogia, sem reflexão metódica, seria pura atividade mecânica, mera rotina. Pedagogia é ciência do espírito e está intimamente relacionada com filosofia, psicologia, sociologia e outras disciplinas, posto não dependa delas, eis que é uma ciência autônoma. Educação e pedagogia estão como prática para teoria, realidade para ideal, experiência para pensamento, não como entidades independentes, mas fundidas em unidade indivisível, como o anverso e o reverso da moeda. Desse modo, a pedagogia é vista como uma prática educativa, uma refle- xão sobre a práxis pedagógica, ou seja, “a ciência pedagógica não visa apenas a pesquisar e conhecer a realidade educativa, mas a agir sobre ela, fecundando-a, transformando-a”. (ARANHA, 2006, p. 34). Podemos observar que a História da Educação e a História da Pedagogia estão conectadas. Percebe-se isso claramente com a fala de Luzuriaga (1985, p. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 5 3-4), que, ao tratar da existência das duas, aponta o fato de “[...] a história da edu- cação principia com a vida do homem e da sociedade, a da pedagogia só começa com a reflexão filosófica, isto é, com o pensamento helênico, principalmente com SÓCRATES e PLATÃO”. HELENISMO: Em um sentido amplo, Helenismo refere-se à influência que a cultura grega (helênica, de Hellas, ou Grécia) passou a ter no Oriente Próximo (Mediterrâneo oriental: Síria, Egito, Pa- lestina, chegando até a Pérsia e Mesopotâmia) após a morte de Alexandre (323 a.C.) e em consequência de suas conquistas. Como um dos períodos em que se divide tradicionalmente a História da Filosofia, o Helenis- mo vai da morte de Aristóteles (322 a.C.), ao fechamento das escolas pagãs de filosofia no Império do Oriente pelo imperador Justiniano (525 d.C.). O período do Helenismo é marcado na Filosofia pelo desenvolvimento das escolas vincula- das a uma determinada tradição, destacando-se a Academia de Platão, a Escola Aristotélica, a Escola Epicurista, a Escola Estoica, o Ceticismo e o Pitagorismo. Nessa época houve uma tendência predominante ao Ecletismo e muitos filósofos sofreram a influência de diferentes escolas. O principal centro de cultura do Helenismo foi Alexandria, no Egito. (JAPIASSÚ; MAR- CONDES, 2001, p. 91). SÓCRATES: O pensamento do filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.) marca uma reviravolta na história humana. Até então, a Filosofia procurava explicar o mundo baseada na observação das forças da natureza. Com Sócrates, o ser humano voltou-se para si mesmo. Como diria mais tarde o pensador romano Cícero, coube ao grego "trazer a filosofia do céu para a terra" e concentrá- -la no homem e em sua alma (em grego, a psique). A preocupação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento, à sabedoria e à prática do bem. FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/mestre-busca-verda- de-423245.shtml>. Acesso em: 18 fev. 2016. PLATÃO: Na história das ideias, o grego Platão (427-347a.C.), foi o primeiro pedagogo, não só por ter concebido um sistema educacional para o seu tempo, mas principalmente, por tê-lo inte- grado a uma dimensão ética e política. O objetivo final da educação, para o filósofo, era a formação do homem moral, vivendo em um Estado justo. [...]. Para Platão, "toda virtude é conhecimento". Ao homem virtuoso, segundo ele, é dado conhecer o bem e o belo. A busca da virtude deve prosseguir pela vida inteira – portanto, a educação não pode se restringir aos anos de juventude. Educar é tão importante para uma ordem política baseada na justiça – como Platão preconizava – que deveria ser tarefa de toda a sociedade. FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/primeiro-pedago- go-423209.shtml>. Acesso em: 18 fev. 2016. IMPORTANT E UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 6 Outro fator importante a ser salientado nesta influência grega é a palavra pedagogo, que, na Grécia Antiga, seria o escravo que conduzia a criança à escola e conforme Saviani (2008, p. 4): É interessante observar que a passagem do grego para a língua latina deu origem a “paedagogatus”, substantivo masculino da quarta declina- ção que significa educação, instrução; “paedagogus” e “paedagoga”, com o sentido de pedagogo, preceptor, mestre, guia, aquele que conduz; [...] Reconhecendo o sentido da palavra pedagogo, que nos remete a história da Grécia Antiga, vamos buscar um recorte na História da Educação e conhecer um pouco mais dos caminhos para a construção desta história Educacional e Pe- dagógica. 2.1 PEDAGOGIA GREGA A Pedagogia teve sua raiz na Grécia “onde se começou primeiro a meditar sobre educação”. (LUZURIAGA, 1985, p. 44). Podemos perceber que as ideias pe- dagógicas também possuem sua base na Grécia. Conforme Luzuriaga (1985, p. 44): “Não se trata ainda, é claro, de ciência propriamente dita, mas de teoria de educação, valiosa em nossos dias”. A educação grega tem sua fonte no que os gregos chamavam de Paidéia. Para Jaeger (2001), Paideia era o: Processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e ge- nuinamente humana” na Grécia antiga. O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era este o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paideia combinava ethos (hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto para o governante quanto para o governado. Não tinha como objetivo ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e nobreza. Paideia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração para outra na socie- dade. Outra definição para Paideia seria de uma educação integral, que consistia na integração entre a cultura da sociedade e a criação individual de outra cultura numa influência recíproca. “Os gregos criaram uma pedagogia da eficiência in- dividual e, concomitantemente, da liberdade e da convivência social e política” (GADOTTI, 2001, p. 30). Uma educação tão rica também estava permeada por divergências. A so- ciedade grega era dominada por espartanos e atenienses. Para os espartanos, pre- dominava a educação moral, a ginástica, ambas submetidas ao poder do Estado, já para os atenienses, “embora dessem enorme valor ao esporte, insistiam mais na TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 7 preparação teórica para o exercício da política. Platão chegou mesmo a desenvol- ver um currículo para preparar seus alunos a serem reis”. (GADOTTI, 2001, p. 30). O mundo grego foi muito rico em algumas tendências pedagógicas: 1 A de Pitágoras pretendia realizar na vida humana a ordem que se via no universo, a harmonia que a matemática demostrava. 2 A de Isócrates centrava no ato educativo não tanto na reflexão, como queria Platão, mas na linguagem e na retórica. 3 A de Xenofontes foi a primeira a pensar na educação da mulher embo- ra restrita aos conhecimentos caseiros e de interesse do esposo. Partia da ideia da dignidade humana, conforme ensinara Sócrates. Mas, de longe, Sócrates, Platão, e Aristóteles exerceram a maior influên- cia no mundo grego. Os gregos eram educados através dos textos de Homero, que ensina- vam as virtudes guerreiras, o cavalheirismo, o amor à glória, à honra, à força, à destreza e à valentia. O ideal homérico era ser sempre o melhor e conservar-se superior aos outros (GADOTTI, 2001, p. 30-31). ARISTÓTELES: De todos os grandes pensadores da Grécia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) foi o que mais influenciou a civilização ocidental. Até hoje o modo de pensar e produzir conhecimento deve muito ao filósofo. Foi ele o fundador da ciência que ficaria conhecida como lógica e suas conclusões nessa área não tiveram contestação alguma até o século 17. Sua importância no campo da educação também é grande, mas de modo indireto. Poucos de seus textos especí- ficos sobre o assunto chegaram a nossos dias. A contribuição de Aristóteles para o ensino está principalmente em escritos sobre outros temas. FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/aristoteles-428110.shtml>. Acesso em: 18 fev. 2016. Nesse contexto, percebemos que a Paideia se refere também à cultura, a qual determina os costumes, a maneira de pensar e de tratar os valores. Para isso, buscamos em Abbagnano (2000, p. 225) mais informações relacionadas a este con- ceito: Esse termo tem dois significados básicos. No primeiro e mais antigo, significa a formação do homem, sua melhoria e seu refinamento. No se- gundo significado, indica o produto dessa formação, ou seja, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo nome de civilização. Ainda relacionado a esta definição, Paideia, temos através de Abbagnano (2000, p. 225) as seguintes palavras: No significado referente à formação da pessoa humana individual, essa IMPORTANT E UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 8 palavra corresponde, ainda hoje, ao que os gregos chamavam de Paideia e que os latinos, na época de Cícero e Varrão, indicavam com a palavra humanitas: educação do homem como tal, ou seja, educação devida às “boas artes” peculiares do homem, que o distinguem de todos os outros animais. Quando nos referimos a “boas artes”, adentramos na poesia, na eloquên- cia, na filosofia: “as quais se atribuía valor essencial para aquilo que o homem é e deve ser, portanto para a capacidade de formar o homem verdadeiro, na sua forma genuína e perfeita. Para os gregos, nesse sentido foi a busca e a realização que o homem faz de si” (ABBAGNANO, 2000, p. 225). Cabe ressaltar que os sofistas são os principais representantes da Pedago- gia grega. Conforme Luzuriaga (1985, p. 44): A principal característica dessa nascente pedagogia é claridade e trans- parência, como sucede com quaisquer correntes tomadas na fonte. As ideias aparecem expostas de forma essencial, elementar, isto é, em seus fundamentos. Daí seu valor pedagógico, didático, clássico. Nela não existe, sem embargo, tratado sistemático, unitário, como há na filosofia e na política. As ideias pedagógicas dos gregos aparecem intimamente unidas com essas ciências: mas delas se distinguem claramente. FIGURA 1 - PAIDEIA FONTE: Disponível em: <http://atelierdeducadores.blogspot.com. br/2010_08_01_archive.html>. Acesso em: 28 dez. 2015. Na Grécia Antiga, muitas foram as mudanças relacionadas à educação, as quais influenciaram os países do ocidente através da organização dos estudos, ten- do como base, níveis de ensino, que iam do elementar ao superior. Não nos parece familiar caro acadêmico? TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 9 Vejamos em Gadotti (2001, p. 31): A escola primária destinava-se a ensinar os rudimentos: leitura do alfa- beto, escritae cômputo. Os estudos secundários compreendiam a edu- cação física, a artística, os estudos literários e científicos. A educação física compreendia principalmente a corrida a pé, o salto em distância, o lançamento do disco e do dardo, a luta, o boxe, o pancrácio e a ginás- tica. A educação artística incluía o desenho, o domínio instrumental da lira, o canto e o coral, a música e a dança. Os estudos literários com- preendiam o estudo das obras clássicas, principalmente de Homero, a filologia (leitura, recitação e interpretação do texto), a gramática e os exercícios práticos de redação. Os estudos científicos apresentavam a matemática, a geometria, a aritmética, a astronomia. No ensino superior prevalecia o estudo da retórica e da filosófica. A retórica estudava as leis do bem falar, baseadas numa tríplice operação: a) Procurar o que se vai dizer ou escrever. b) Pôr em certa ordem as ideias assim encontradas. c) Procurar os termos mais apropriados para exprimir essas ideias. Observe que a cada momento nos deparamos com muitas de nossas vivên- cias, experiências e buscas educacionais. Partiremos agora para Roma! A educação romana também é de extremo interesse para nossos estudos. Você perceberá por que motivo. 2.2 PEDAGOGIA ROMANA Dentro da educação romana, observa-se que seu desenvolvimento ocorreu mais tarde que a grega, mas as duas possuíam elementos semelhantes. Para Luzuriaga (1985, p. 58): “Embora a cultura e a educação romanas se desenvolvessem mais tarde que as gregas, ambas seguiram marchas semelhantes, como parte do mesmo todo, que Toynbee e outros historiadores chamaram “civi- lização helênica””. Perceba, caro acadêmico, que a Grécia se encontrava em um estágio avan- çado nas questões culturais e educacionais em relação a Roma. Sendo assim, os romanos buscaram incorporar alguns elementos da cultu- ra grega, que não foi de maneira pacífica, pois os romanos tinham como preocupa- ção os interesses voltados a questões políticas e militares. No que diz respeito à educação na civilização romana, podemos salientar que a presença feminina era forte, dando a ela o papel da educação dos filhos até os sete anos de idade para o menino, que após esta idade passava aos cuidados do pai. À mãe cabia o cuidado com a educação das meninas, voltadas para os serviços domésticos. Observa-se aqui, uma educação totalmente doméstica. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 10 FIGURA 2 - A EDUCAÇÃO ROMANA FONTE: Disponível em: <http://blocs.xtec.cat/ ecologiaisostenibilitat/2014/05/31/lescola-romana/>. Acesso em: 29 dez. 2015. É interessante observarmos que os meninos eram preparados para servir Roma, eram trabalhados, nestes jovens, suas habilidades para guerrear, eram de- senvolvidas através da educação, a necessidade de conhecer os grandes nomes da história romana, tendo como exemplo seus grandes personagens e criando nesses jovens o respeito e o amor a sua pátria. A educação romana, assim como a grega, passou por várias fases, e pode- mos salientar que após a presença da educação familiar na educação romana, sen- tiu-se a necessidade de sair deste espaço com interesses meramente locais e passar a ver em nível universal. Neste momento, a educação passa a ter uma visão mais humanista – lem- bra o que vimos anteriormente como conceito de Paideia? Assim, surge neste pe- ríodo, a ideia de um homem voltado como ser humano, com o caráter como base de sua formação. Surgem também a partir desta ideia, através de pensadores da época exemplos de Pedagogia. Dentro da Pedagogia romana, há pensadores que buscavam através da oratória, elevar e levar orientações relacionadas à ética e a visão espiritual. Vamos ver alguns destes pensadores? É interessante as formas como eles viam a Pedagogia. Varrão (116-27 a.C.): este pensador tratou de assuntos relacionados à gra- mática, dando ênfase à formação culta. Além deste movimento, adentrou na me- dicina, música, direito e na área matemática. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 11 Conforme Luzuriaga (1985, p. 65): “Este representa a transição da educa- ção antiga para a nova, helenística. Autor de obra famosa, “Disciplina em nove livros”, espécie de enciclopédia didática, tratou especialmente da gramática e de seu ensino de modo científico”. Cícero, Marco Túlio (106 -43 a.C.): foi o maior dos oradores e pensadores políticos de sua época. Sua fonte era a filosofia. Construiu também os alicerces do processo educativo romano. Luzuriaga, (1985, p. 65) afirma que: Representa o tipo mais ouro da humanitas, da Paideia, da cultura espi- ritual. Sua finalidade é, nesse sentido, a formação do estadista-orador, que não só deve conhecer retórica, mas ainda filosofia. O ideal está com- preendido no Estado, mas o estado não apenas nacional, senão também mundial. Quintiliano, Marco Fábio (35-96 d.C.): foi famoso crítico literário e retóri- co. Elaborou escritos que tratavam da formação cultural dos romanos da infância à maturidade. Trata, nestes volumes, a educação fundamental, a alfabetização e não utilização de castigos físicos às crianças. Segundo Luzuriaga (1985, p. 66 - 67): Para Quintiliano a educação começa na primeira infância, no seio da fa- mília. Nesta educação doméstica deve-se pôr o máximo de cuidado no ambiente que rodeia a criança aias e companhias ‘por que naturalmente conservamos o que aprendemos nos primeiros anos, como as vasilhas novas o primeiro perfume do licor que receberam’. Nesta primeira ida- de o menino há de aprender em forma de jogo “para que não aborreça o estudo quem ainda não lhe tem afeição. Sêneca, Lucius Annaeus (4 a.C. – 65 d.C.): sua preocupação estava voltada à mente humana, a qual, para ele, era frágil e complexa. Sendo necessária a edu- cação com a presença de um mestre (professor ou pedagogo) para auxiliar esta criança ou jovem a alcançar seus objetivos. Sêneca via a escola como um espaço que deveria ensinar para a vida. A ética foi um de seus fundamentos. Conforme Luzuriaga (1985, p. 65): A educação tem um caráter ativo. [...] Sêneca realça também a necessidade de conhecer a individualidade do educando e, por- tanto, o valor da psicologia para a educação. Diz também que a educação retórica deve reduzir-se, em compensação, ampliar-se a educação filosófica. Finalmente, exalta a importância do edu- cador, ‘a quem devemos apreciar como um dos nossos mais que- ridos e próximos familiares’. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 12 Para maior aprofundamento de seus estudos, com relação aos pensadores, indi- camos os sites abaixo: <http://www.arqnet.pt/portal/biografias/cicero.html> <http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/MarcuTeV.html> <http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/Quintili.html> <http://www.filosofia.com.br/bio_popup.php?id=66>. Caro acadêmico! Podemos observar até o momento, que a educação vem sendo modificada e adaptada às necessidades de cada povo. Podemos perceber que a forma como a educação veio sendo desenvolvida, tanto gregos, como roma- nos, nos deixaram um legado que cabe salientar alguns pontos. São eles: a demo- cracia, a cidadania, respeito às leis e ao Estado de direito, a coletividade, o patrio- tismo, a educação, a ética e a presença da Pedagogia. Alguns filmes que podem auxiliar você no entendimento deste período greco- -romano: FARAÓ 1964: Produção polonesa, com uma reconstituição belíssima da época. Trata das disputas pelo poder entre as classes militares e religiosas, 120 min. BEN-HUR 1959: História ambientada no início da Era Cristã, que conta com as lutas de Ben- -Hur para libertar Jerusalém do domínio romano, 211 min. Você poderá encontrar estes filmes no YouTube. Seguindo nossa linha do tempo, vamos agora para a educação cristã, que nos remeterá a alguns padres que buscaram através da doutrina da Igreja, criarnovas formas de educação. 2.3 O CRISTIANISMO E O IDEAL EDUCACIONAL O ponto de partida para os trabalhos da educação junto aos povos euro- DICAS DICAS TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 13 peus na Idade Média teve seu desenvolvimento com a presença da Igreja Cristã, pois “por ocasião da invasão dos bárbaros, a cultura greco-romana esteve a ponto de ser destruída, o que não aconteceu graças, em grande parte, à atuação da Igreja Cristã, pois somente através da religião foi possível educar os novos povos” (PI- LETTI, 1987, p. 82). É importante salientar que durante o domínio da Igreja, a concepção de educação que predominava era a que “se opunha ao conceito liberal e individua- lista dos gregos e ao conceito de educação prática e social dos romanos” (PILETTI, 1987, p. 82). Neste período do domínio da Igreja, o que predominou como educa- ção foi o apego aos aspectos morais e não intelectuais do homem. Podemos apresentar dentro deste período os primeiros educadores e pe- dagogistas cristãos, sendo que quase todos os padres eram educadores. Entre os primeiros educadores podemos citar um dos maiores, Santo Agostinho. (354-430). Santo Agostinho: esse foi o “maior dos Padres da Igreja e um dos pensado- res mais importantes de todos os tempos” (LUZURIAGA, 1985, p. 75). FIGURA 3 - SANTO AGOSTINHO FONTE: Disponível em: <http://www.fabricadeimagemsjt.com.br/tag/santo- agostinho/>. Acesso em: 5 jan. 2016. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 14 Ele escreveu muitas obras, das quais se destacam, de acordo com Luzuria- ga (1985, p. 76): “Confissões”, autobiografia da juventude, de grande valor psicológico; “A Cidade de Deus”, a primeira filosofia da história e que teria enorme repercussão no futuro; e o pequeno tratado “O Mestre” no qual expõe ao filho suas ideias sobre educação. Deve-se também contar entre suas obras didáticas, o tratado “Da Ordem”, em que explica sua concepção da educação integral humanística. Saviani (2008, p. 5) nos apresenta que Santo Agostinho em sua obra “De magistro”, escrita em 389, retrata um diálogo com seu filho Adeodato, no qual, dava ao filho as coordenadas ou uma educação não voltada somente às verdades divinas, mas também humanas. Para Saviani, (2008, p. 5), “Evidencia-se, portanto, que, mesmo não lançan- do mão, em momento algum, do termo “pedagogia”, a problemática pedagógica está no centro da análise empreendida por Santo Agostinho”. Outra personalidade, já no período da Pedagogia medieval, era São Tomás de Aquino, que conforme Saviani (2008, p. 5-6) diz que: Essa mesma problemática é retomada por Santo Tomás de Aquino, qua- se nove séculos mais, igualmente sem recorrer, em momento algum, ao termo “pedagogia”. Em obra homônima, Santo Tomás parte exatamen- te da reflexão de Santo Agostinho para concluir que o ensino compor- ta uma ‘dupla matéria, cujo sinal é o duplo ato cumulado pelo ensino. Pois, uma das suas matérias é aquilo mesmo que se ensina; outra, a pessoa a quem se comunica a ciência’. Passando por Santo Tomás de Aquino, nos encontramos no período renas- centista. A Renascença, conforme Luzuriaga (1985, p. 93): A Renascença não é apenas movimento erudito ou literário, antes é nova forma de vida, nova concepção do homem e do mundo, baseada na personalidade humana livre e na realidade presente. A Renascença rompe com a visão ascética e triste da vida, característica da Idade Mé- dia, e dá lugar a uma nova concepção humana, risonha e prazenteira da existência. Podemos dizer que a pedagogia dentro da Renascença, significou, confor- me Luzuriaga (1985), o descobrimento de um novo homem, livre e com persona- lidade, respeitando suas concepções políticas ou religiosas; a escola humanista foi criada através dos conhecimentos gregos e romanos; os estudos passaram a ser mais leves, voltados ao espírito de liberdade e de crítica, buscando a aquisição de conhecimentos voltados às áreas literárias, linguísticas, realistas e científicas. Dentro ainda do período Renascentista encontramos a Reforma Religiosa, conhecida como período REFORMA ou REFORMA PROTESTANTE. Na Pedago- gia da religião reformada encontramos muitos educadores e pedagogistas. Entre TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 15 eles, temos um de grande destaque: Lutero, Martinho (1483-1546): para ele, a educação estaria sendo melhor aproveitada fosse desvencilhada dos dogmas da igreja e passassem a ser depen- dentes do Estado. Assim sendo: “o ensino poderia atingir todo o povo, nobres e plebeus, ricos e pobres, meninos e meninas” (PILETTI, 1987, p. 106). FIGURA 4 - MARTINHO LUTERO FONTE: Disponível em: <http://www.estudopratico.com.br/biografia-de- martinho-lutero/>. Acesso em: 5 jan. 2016. Cabe ressaltar, caro acadêmico, que Lutero buscava informar que ao Esta- do “caberia tornar a frequência “a escola obrigatória” e cuidar para que todos os seus súditos cumprissem a obrigatoriedade de enviar seus filhos à escola” (PILET- TI, 1987, p. 106). A principal obra de Lutero, porém, “foi à tradução da Bíblia para o alemão, idioma que por isso se impôs pouco a pouco a todas as escolas” (LUZURIAGA, 1985, p. 115). A Igreja Católica vendo todo este movimento, relacionado também às re- formas educacionais, e com a perda de fiéis, busca ações dentro da própria igreja com a CONTRARREFORMA, que foi a convocação do Concílio de Trento, no ano de 1546. Conforme Santiago (2016), no site Info-escola: Concílio de Trento é o nome de uma reunião de cunho religioso (tecni- camente denominado concílio ecumênico) convocada pelo papa Paulo UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 16 III em 1546 na cidade de Trento, na área do Tirol italiano. Com o sur- gimento e consequente expansão do protestantismo profundas modifi- cações atingiram a Igreja Católica. Uma reação a tal expansão, vulgar- mente denominada "Contrarreforma" foi guiada pelos papas Paulo III, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V, buscando combater a expansão da Reforma Protestante. Além da reorganização de várias comunidades religiosas já existentes, outras foram criadas, dentre as quais a Companhia de Jesus ou Ordem dos Jesuítas, tendo como funda- dor Santo Inácio de Loyola. Caro acadêmico! Até o momento tomamos conhecimento de parte da ca- minhada realizada pela educação e pela Pedagogia. Podemos perceber que aden- tramos pela Filosofia, é verdade, mas tornou-se necessário para entendimento do conceito de Pedagogia. Dentro desta linha do tempo, nos deparamos com muitas situações que ocorrem ainda hoje, que nos dão base ao que buscamos dentro da educação e da Pedagogia. Algumas delas podemos citar: a necessidade e cuidado com a educa- ção dos filhos; dar a alfabetização, o amparo necessário para o desenvolvimento da criança. Além da educação humanista, a ciência passa a ter presença fundamental nesta caminhada, principalmente com a presença do pensamento positivista dos filósofos Francis Bacon, Galileu Galilei e René Descartes. Os três pensadores que contribuíram para o incremento da ciência moderna. Para melhor compreensão, logo abaixo se encontra breve histórico dos co- nhecimentos deixados por estes três pensadores. Francis Bacon (1561-1626), Galileu Galilei (1564-1642) e René Descartes fo- ram os três pensadores que contribuíram de maneira toda especial para o desen- volvimento da ciência moderna, independente da autoridade eclesiástica e cons- truída a partir da observação e do estudo experimental da natureza. Ao método dedutivo, em que todos os conhecimentos particulares são derivados dedutiva- mente, a partir das verdades universais e absolutas, pré-estabelecidas pela auto- ridade, Bacon opôs o método indutivo, através do qual, pela observação e estudo de fatos particulares, podemos chegar a conhecimentos e verdades maisgerais. O método indutivo tornou-se a mola mestra da ciência moderna. Para Galileu, o verdadeiro cientista é aquele que observa diretamente o mundo da natureza, ao invés de limitar-se a consultar os textos aristotélicos e bí- blicos. É próprio de mentes vulgares, tímidas e servis preferir dirigir os olhos a um mundo de papel em lugar de orientá-los para o verdadeiro e real mundo da natureza, fabricado por Deus. Só a experiência permite-nos ler e interpretar o li- vro da natureza. E a experiência não engana. A ordem do Universo é uma ordem matemática, expressa através de triângulos, círculos e outras figuras geométricas. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 17 A contribuição de Descartes para a mudança de atitude frente ao conheci- mento também é grande. Basta observarmos as quatro regras que estabeleceu em seu Discurso do Método, para que tenhamos uma ideia de sua contribuição para o desenvolvimento da ciência: 1º Nunca aceitar por verdadeira coisa nenhuma que não se conheça como eviden- te, e só admitir juízos compostos de ideias claras e distintas. 2º Dividir cada uma das dificuldades em tantas partes quantas for possível e ne- cessário para sua mais fácil solução. 3º Conduzir por ordem os conhecimentos, começando pelos mais simples e fáceis para chegar, depois, pouco a pouco, aos mais complexos. 4º Fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais que se possa ter segurança de nada haver omitido. Embora mais orientadas ao desenvolvimento da ciência, as contribuições de Bacon, Galileu e Descartes tiveram repercussões na educação. Esta, a partir de então, passou a dar mais ênfase ao método indutivo, através do qual o próprio alu- no chega à descoberta do conhecimento, ao estudo da natureza e a preocupar-se com a sistematização dos procedimentos didáticos. Seria preciso estudar e apren- der de forma científica, segundo métodos bem planejados. FONTE: Piletti e Piletti (1987) Para que você, acadêmico, tenha um maior entendimento deste período, deixa- mos a sugestão do filme: As profecias de Nostradamus: ele foi médico, pesquisador e é retratado neste filme o conflito existente entre a tradição e o novo modelo de ciência e de pesquisa apresentada por Nostra- damus. Caro acadêmico, observamos, até o momento, os caminhos seguidos pela Educação e a Pedagogia. Cabe salientar que conforme Saviani (2008, p. 6): Foi a partir do século XIX que tendeu a se generalizar a utilização do termo “pedagogia” para designar a conexão entre a elaboração cons- ciente da ideia da educação e o fazer consciente do processo educa- tivo, o que ocorreu mais fortemente nas línguas germânicas e latinas do que nas línguas anglo-saxônicas. E esse fenômeno esteve fortemente associado ao problema da formação de professores. A necessidade da formação docente já fora preconizada por Comenius, no século XVII, e o primeiro estabelecimento de ensino destinado à formação de profes- sores teria sido instituído por São João Batista de La Salle, em 1684, em Reims, com o nome de “Seminário dos Mestres”. DICAS UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 18 Com esta fala de Saviani (2008) podemos perceber que surge entre os gran- des educadores e pedagogistas, no século XVII, João Amós Comenius. Esse edu- cador e pedagogista, conheceremos melhor nas próximas páginas, tratando dire- tamente da Didática. Tratando-se de Pedagogia, é a partir de século XIX que se viu a “necessida- de de universalizar a instrução elementar e desta forma, buscou-se a organização dos sistemas nacionais de ensino” (SAVIANI, 2008, p. 8). Nesta busca pela organi- zação dos sistemas de ensino, vamos nos ater à pedagogia na atualidade. 2.4 CONCEITO DE PEDAGOGIA NA ATUALIDADE Com o passar dos anos, já no século XX, nos deparamos com diversas per- guntas, muitas respondidas, outras que ainda hoje nos deixam com dúvidas rela- cionadas ao que é Pedagogia. Relacionado a esta pergunta, podemos buscar na fala de Saviani (2008, p.135) prováveis respostas. Se, para responder à questão formulada sobre o que devemos entender por pedagogia, recorrermos aos livros que tratam do assunto, é pos- sível que nossa perplexidade aumente ainda mais. As conceituações multiplicam-se, o pedagógico desdobra-se em múltiplos enfoques e a esperada unificação das perspectivas se desfaz. Há os que definem a pedagogia como sendo a ciência da educação. Outros negam-lhe cará- ter científico, considerando-a predominantemente como arte de educar. Para alguns ela é antes técnica do que arte, enquanto outros a assimilam à filosofia ou à história da educação, não deixando de haver, até mesmo, quem a considere como teologia da educação. Segue Saviani (2008, p. 135): Outra forma de entender a pedagogia é dada pelo termo “teoria”, defi- nindo-a como teoria da educação. Mas, há, também, definições combi- nadas como ciência de arte de educar, ciência de caráter filosófico que estuda a educação apoiada em ciências auxiliares, e teoria e prática da educação. No entanto, um exame mesmo que superficial das diversas e, múltiplas caracterizações do termo “pedagogia” permite perceber que, para lá da diversidade, há um ponto comum: todas elas trazem uma referência ex- plícita à educação. Perante as apresentações de Saviani, percebe-se que a pedagogia está em sua caminhada sendo observada, analisada e estruturada de diversas maneiras. Não podemos afirmar que exista um consenso entre os estudiosos, mas abrem-se possibilidades de a cada momento, surgirem novas conceituações. Definir Pedagogia acreditamos que seja difícil, pois assim, estaríamos en- TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 19 gessando todo um processo educativo, e não é essa a intenção. Tendo isso em vista, Saviani (2008, p. 141) compreendeu pedagogia como: De qualquer modo, não deixa de ser auspicioso constatar um claro reco- nhecimento, pelo menos em algumas esferas, como flui do livro de Ge- novesi, de que o caráter da pedagogia como ciência da educação tende a se definir de forma mais precisa, obtendo em consequência, aceitação no universo científico. Com efeito, mesmo nos casos em que se procura articular a educação e a pedagogia no contexto dos chamados novos paradigmas que vie- ram a obter grande circulação a partir da década de 90 do século XX, o estatuto científico da pedagogia é admitido sem restrições. É o que se pode constatar na obra Manuale di pedagogia generale, de Franco Fra- bboni e Franca Pinto Minerva. Frabboni chega mesmo a considerar, em outro livro denominado Manual de Didática Geral, que o século XX foi o século da pedagogia, em que esta se constitui em ciência. E, na esteira dessa constatação animadora, acaba por prognosticar que o século XXI será o século da didática que atingirá, também, o próprio estatuto de cientificidade. Frente a estas colocações, compreende-se que a Pedagogia possui um cará- ter científico, fazendo com que ela possua ligação direta com a educação e tendo uma posição importante dentro do processo da História da Educação. Podemos abarcar que a Pedagogia é considerada uma ciência, que está articulada com a História da Educação, a Sociologia, a Psicologia, a Filosofia, e demais ciências da educação. Caro acadêmico! Esperamos que tenha obtido uma resposta a nosso ques- tionamento, percebendo perante tudo o que foi estudado até o momento, den- tro desta linha do tempo, que a História da Educação está contida na Pedagogia, como a Pedagogia está contida na História da Educação e nas demais ciências da educação. Estamos dentro deste recorte histórico, construindo mais etapas para que a Pedagogia continue transformando-se e buscando novas possibilidades de mudança dentro da sociedade e do mundo globalizado em que estamos inseridos. Cabe a cada um de nós, o posicionamento nesta caminhada e o desenvolvi-mento de novas alternativas educativas, pois Imbernón (2000, p. 17) diz: [...] quando se buscam alternativas para o futuro, não há outra saída a não ser relembrar um passado que, embora seja objeto de interpretação pessoal, em parte podemos afirmar que é um ato constatável, sobre- tudo nos aspectos que continuam vigentes e que se podem recuperar, modificar ou refutar. Não esqueçamos que o nosso passado foi o futuro (incerto e sempre diferente de como o imaginamos) de outras pessoas. O futuro vai sendo construído com peças do passado e do presente. Desta forma, é preciso buscar no passado possíveis caminhos para que em nosso futuro tenhamos maiores oportunidades, e estando no presente, fazer com que cada atitude, ação, busca, nos remeta a passos que no futuro serão responsá- UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 20 veis pela implementação e desenvolvimento da educação num todo. Seguindo nossa caminhada histórica, vamos dar segmento aos nossos estu- dos, tratando sobre as tendências pedagógicas. 3 AS TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS Quando falamos em Pedagogia, a temos com o status de ciência da edu- cação. Nesta perspectiva, vamos adentrar neste espaço e conhecer as tendências pedagógicas que perpassaram e perpassam a educação, enquanto futuros profes- sores e professoras. É sabido que com a evolução da humanidade, tudo evolui, seja econômica e socialmente e não seria diferente com a educação. Na Pedagogia, encontramos várias tendências pedagógicas, as quais estão envolvidas com as práticas escolares. Quando falamos em prática escolar, pode- mos considerar como: [...] na concretização das condições que asseguram a realização do tra- balho docente. Tais condições não se reduzem ao estritamente “pedagó- gico”, já que a escola cumpre funções que lhe são dadas pela sociedade concreta que, por sua vez, apresenta-se como constituída por classes com interesses antagônicos (LIBÂNEO, 1990, p. 19) Desta forma podemos compreender que a prática escolar está envolta por diversos mecanismos que fomentam a formação do homem, sociedade e da edu- cação como um todo. Conforme Libâneo (1990, p. 19): A prática escolar, assim, tem atrás de si condicionantes sociopolíticos que configuram diferentes concepções de homem e de sociedade e, con- sequentemente, diferentes pressupostos sobre o papel da escola, apren- dizagem, relação professor-aluno, técnicas pedagógicas etc. Para tanto, as tendências pedagógicas vêm carregadas destes pressupostos, cada qual trazendo sua concepção com relação a cada figura relacionada à educa- ção. Traremos a partir deste momento uma classificação pedagógica, a qual possui uma relação sociopolítica. Para Libâneo (1990, p. 21) as tendências peda- gógicas foram classificadas em liberais e progressistas. Segue um diagrama para melhor entendimento: TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 21 FIGURA 5 - DIAGRAMA DAS TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS FONTE: As autoras Cada uma destas tendências será apresentada a seguir, dando assim uma ideia a você, acadêmico, de como cada uma delas se posiciona com relação ao pro- fessor, ao aluno, aos métodos e o papel da escola. Você poderá realizar uma reflexão, durante a leitura, sobre como foi sua preparação enquanto aluno das séries iniciais e finais e como você se vê dentro destas tendências. Estaremos nos utilizando das ideias de Libâneo para melhor entendimento de cada tendência pedagógica. 3.1 PEDAGOGIA LIBERAL A Pedagogia Liberal tem como doutrina: [...] defender a predominância da liberdade e dos interesses individuais na sociedade, estabeleceu uma forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção, também denominada “so- ciedade de classes”. A pedagogia Liberal, portanto, é uma manifestação própria desse tipo de sociedade (LIBÂNEO, 1990. p. 21) Cabe ressaltar que a Pedagogia Liberal possui como base o sistema capita- lista, repassando à escola o papel de “preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais” (LIBÂNEO, 1990, p. 21). O indivíduo precisa adaptar-se às normas vigentes da sociedade. Junto à Pedagogia Liberal está inserida a Tendência Tradicional. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 22 3.1.1 Tendência Tradicional A Tendência Tradicional possui grande influência ainda na atualidade, pois consiste em preparar os alunos para terem uma posição junto à sociedade. Para a es- cola fica a função do repasse dos conteúdos, e ao aluno fica a obrigatoriedade de se esforçarem para obter o conhecimento necessário para seu crescimento. Cabe salientar que se o aluno não conseguir acompanhar os estudos, esse deve ir em busca de uma escola onde tenha ensino profissionalizante. Observa-se que todos recebem o conhecimento, mas não existe a preocupação em reconhecer que cada um possui seu momento de aprender. Nessa tendência, os conteúdos de ensino estão abarcados “nos conhecimentos e valores sociais acumula- dos pelas gerações adultas e repassadas ao aluno como verdades” (LIBÂNEO, 1990, p. 23-24). No que tange ao relacionamento professor e aluno, ocorre a predominância da autoridade do professor, o qual “ exige atitude receptiva dos alunos e impede qual- quer comunicação entre eles no decorrer da aula” (LIBÂNEO, 1990, p. 24). A atenção e o silêncio são a base para que o aluno seja disciplinado e obtenha êxito na absorção dos conhecimentos. O método utilizado pelo professor é verbal, a “ênfase nos exercícios, na repe- tição de conceitos ou fórmulas na memorização visa disciplinar a mente e formar há- bitos” (LIBÂNEO, 1990, p. 24). A “decoreba” faz-se presente nessa tendência pedagó- gica, em muitos casos, ainda hoje. A preocupação com a construção do conhecimento não é levada como base, estuda-se para a prova e para tirar boas notas. FIGURA 6 - TENDÊNCIA TRADICIONAL FONTE: Disponível em: <http://blogtresalunas.blogspot.com.br/2011/10/caracteristicas- educacao-traficional.html>. Acesso em: 28 fev. 2016. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 23 Conforme Libâneo (1990 p. 24-25): A aprendizagem é receptiva e mecânica, para o que se recorre frequen- temente à coação. A retenção do material ensinado é garantida pela re- petição de exercícios sistemáticos e recapitulação da matéria. A transfe- rência da aprendizagem depende do treino. [...] É interessante observar que a preocupação com as avaliações está restrita aos exercícios, provas, e trabalhos de casa. E se não obtiver êxito nestas avaliações, o aluno é punido com notas baixas, em muitos casos, o professor verbaliza pe- rante os demais alunos a fragilidade no que tange à construção do conhecimento do aluno. E quando positiva, classifica-o, dando ênfase ao fator numérico e não à construção de conhecimento. Na atualidade, a Tendência Tradicional ainda persiste. Está atuante na so- ciedade através de algumas “escolas religiosas ou leigas que adotam uma orien- tação clássico-humanista ou uma orientação humano-científica, sendo que esta se aproxima mais do modelo de escola predominante em nossa história educacional” (LIBÂNEO, 1990, p. 25). 3.1.2 Tendência Liberal Renovada Progressista Na Tendência Liberal Renovada Progressista, o papel da escola fica com- preendido em “adequar as necessidades individuais ao meio social, e para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto é possível, a vida” (LIBÂNEO, 1990, p. 25) Aqui o interesse dos alunos está em primeiro lugar, ocorrendo a integração através de experiências cotidianas. Para a escola fica a responsabilidade de “permitir ao aluno educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução do objeto, numa interação entre estru- turas cognitivas do indivíduo e estruturas do ambiente” (LIBÂNEO, 1990, p. 25). Com relação aos conteúdos de ensino, nesta tendência, observa-seuma in- versão com relação à Tendência Tradicional. Conforme Libâneo (1990, p. 25): Como o conhecimento resulta da ação a partir dos interesses e necessi- dades, os conteúdos de ensino são estabelecidos em função de experi- ências que o sujeito vivencia frente a desafios cognitivos e situações pro- blemáticas. Dá-se, portanto, muito mais valor aos processos mentais e habilidades cognitivas do que a conteúdos organizados racionalmente. Trata-se de “aprender a aprender”, ou seja, é mais importante o proces- so de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. Passaremos a compreender melhor com os educadores que buscaram atra- UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 24 vés de seus métodos aprimorarem essa tendência. Entre eles encontramos Maria Montessori. Seu método é assim apresentado: FIGURA 7 - MARIA MONTESSORI FONTE: Disponível em: <http://www.ecole-montessori-internationale-rueil.com/en/ maria-montessori-2/>. Acesso em: 11 jan. 2016. O QUE É O MÉTODO MONTESSORI DE ENSINO? Método Montessori é o nome que se dá ao conjunto de teorias, práticas e materiais didáticos, criado ou idealizado inicialmente por Maria Montessori. De acordo com sua criadora, o ponto mais importante do método é, não tanto seu ma- terial ou sua prática, mas a possibilidade criada pela utilização dele de se libertar a verdadeira natureza do indivíduo, para que esta possa ser observada, compre- endida, e para que a educação se desenvolva com base na evolução da criança, e não o contrário. Montessori escreveu que o desenvolvimento se dá em “períodos sensí- veis”, de forma que em cada época da vida predominam certas características e sensibilidades específicas. Sem deixar de considerar o que há de individual em cada criança, Montessori pode traçar perfis gerais de comportamento e de possi- bilidades de aprendizado para cada faixa etária, com base em anos de observação. A compreensão mais completa do desenvolvimento permite a utilização dos recursos mais adequados a cada fase e, claro, a cada criança em seu momento, já que as fases não são estanques e nem têm datas exatas para começar e terminar. Dando suporte a todo o resto, os seis pilares educacionais de Montessori são: • Autoeducação. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 25 • Educação como Ciência. • Educação Cósmica. • Ambiente Preparado. • Adulto Preparado. • Criança Equilibrada. Autoeducação é a capacidade inata da criança para aprender. Por desejar absorver todo o mundo à sua volta e compreendê-lo, a criança o explora, investiga e pesquisa. O método Montessori proporciona o ambiente adequado e os materiais mais interessantes para que a criança possa se desenvolver por seus próprios es- forços, no seu ritmo e seguindo seus interesses. Educação Cósmica é a melhor forma de auxiliar a criança a compreender o mundo. De acordo com este princípio, o educador deve levar o conhecimento à criança de forma organizada – cosmos significa ordem, em oposição a caos –, es- timulando sua imaginação e evidenciando que tudo no universo tem sua tarefa e que o ser humano deve ser consciente de seu papel na manutenção e melhora do mundo. Educação como ciência é a maneira de compreender a criança e o fenômeno educativo de acordo com Montessori, e defendida pela ciência de hoje. Em Mon- tessori, o professor utiliza o método científico de observações, hipóteses e teorias para entender a melhor forma de ensinar cada criança e para verificar a eficácia de seu trabalho no dia a dia. Ambiente preparado é o local onde a criança desenvolve sua autonomia e compreende sua liberdade em escolas e lares montessorianos. O ambiente prepa- rado é construído para a criança, atendendo às suas necessidades biológicas e psi- cológicas. Em ambientes preparados encontram-se mobília de tamanho adequado e materiais de desenvolvimento para a livre utilização da criança. Adulto Preparado é o nome que damos, em Montessori, para o profissional que auxilia a criança em seu desenvolvimento completo. Esse adulto deve conhe- cer cientificamente as fases do desenvolvimento infantil e, por meio da observação e do domínio de ferramentas educativas de eficiência comprovada, guiar a criança em seu desabrochar, de forma que este se dê nas melhores condições possíveis. Criança equilibrada é qualquer criança em seu desenvolvimento natural. Por meio da utilização correta do ambiente e da ajuda do adulto preparado, as crianças expressam características que lhes são inatas. Entre outras, encontram-se o amor pelo silêncio, pelo trabalho e pela ordem. Todas as crianças nascem com estas características e as desenvolvem melhor entre zero e seis anos. Todos os princípios do método Montessori devem funcionar em união, para que a criança se desenvolva de forma completa e equilibrada. É necessário UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 26 compreender a criança para identificar nela os sinais da eficiência daquilo que lhe está sendo oferecido. De acordo com Montessori, “uma das provas da correção do processo educacional é a felicidade da criança”. O método Montessori tem sido utilizado em escolas por todo o mundo, desde o berçário até o Ensino Médio. Além disso, aplica-se Montessori em esco- las especiais, clínicas de psicopedagogia e lares mundo afora. Clínicas de repouso aproveitam características do método montessoriano para o tratamento de demên- cia e Alzheimer e iniciativas empresariais aplicam princípios do método para o melhor desenvolvimento de seus negócios. FONTE: Disponível em: <http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/05/o-que-e- -o-metodo-montessori-de-ensino>. Acesso em: 11 jan. 2016. Decroly traz seu método do centro de interesses. Veja como é interessante este método. Depois discutiremos sobre ele. FIGURA 8 – OVIDE DECROLY FONTE: Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/ovide- decroly-307894.shtml>. Acesso em: 11 jan. 2016. OVIDE DECROLY Decroly foi um dos precursores dos métodos ativos, fundamentados na possibilidade de o aluno conduzir o próprio aprendizado e, assim, aprender a aprender. Alguns de seus pensamentos estão bem vivos nas salas de aula e coin- cidem com propostas pedagógicas difundidas atualmente. É o caso da ideia de globalização de conhecimentos – que inclui o chamado método global de alfabeti- zação e dos centros de interesse. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 27 O princípio de globalização de Decroly se baseia na ideia de que as crianças apreendem o mundo com base em uma visão do todo, que posteriormente pode se organizar em partes, ou seja, que vai do caos à ordem. O modo mais adequado de aprender a ler, portanto, teria seu início nas atividades de associação de signi- ficados, de discursos completos, e não do conhecimento isolado de sílabas e letras. "Decroly lança a ideia do caráter global da vida intelectual, o princípio de que um conhecimento evoca outro e assim sucessivamente", diz Marisa Del Cioppo Elias, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Os centros de interesse são grupos de aprendizado organizados segundo faixas de idade dos estudantes. Eles também foram concebidos com base nas eta- pas da evolução neurológica infantil e na convicção de que as crianças entram na escola dotadas de condições biológicas suficientes para procurar e desenvolver os conhecimentos de seu interesse. "A criança tem espírito de observação; basta não o matar", escreveu Decroly. Necessidade e interesse O conceito de interesse é fundamental no pensamento de Decroly. Se- gundo ele, a necessidade gera o interesse e só este leva ao conhecimento. For- temente influenciado pelas ideias sobre a natureza intrínseca do ser huma- no preconizadas por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778),Decroly atribuía às necessidades básicas a determinação da vida intelectual. Para ele, as quatro ne- cessidades humanas principais são comer, abrigar-se, defender-se e produzir. A trajetória intelectual e profissional de Decroly se assemelha a da contem- porânea Maria Montessori (1870-1952). Como a italiana, o educador belga se formou em medicina. Encaminhando- se para a neurologia, também como ela trabalhou com deficientes mentais, criou métodos baseados na observação e aplicou-os à educação de crianças consideradas "normais". Ambos acreditavam que o ensino deveria se aproveitar das aptidões naturais de cada faixa etária. Mas, ao contrário de Montessori, cujo método previa o atendimento indi- vidual na sala de aula, Decroly preferia o trabalho em grupos, uma vez que a escola, para ele, deveria preparar para o convívio em sociedade. Outra dife- rença é que a escola montessoriana recebe as crianças em ambientes prepa- rados para tornar produtivos os impulsos naturais dos alunos, enquanto a escola oficina de Decroly trabalha com elementos reais, saídos do dia a dia. Os métodos e as atividades propostos pelo educador têm por objetivo, funda- mentalmente, desenvolver três atributos: a observação, a associação e a expressão. A observação é compreendida como uma atitude constante no processo educativo. A associação permite que o conhecimento adquirido pela observação seja entendi- do em termos de tempo e de espaço. E a expressão faz com que a criança externe e compartilhe o que aprendeu. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 28 Linguagens múltiplas No campo da expressão, Decroly dedicou cuidadosa atenção à questão da linguagem. Para ele, não só a palavra é meio de expressão, mas também, entre outros, o corpo, o desenho, a construção e a arte. Com a ampliação do conceito de linguagem, que a linguística viria a corro- borar, Decroly pretendia dissociar a ideia de inteligência da capacidade de domi- nar a linguagem convencional, valorizando expressões "concretas" como os traba- lhos manuais, os esportes e os desenhos. Escolas que são oficinas A marca principal da escola decroliana são os centros de interesse, nos quais os alunos escolhem o que querem aprender. São eles também que constroem o próprio currículo, segundo sua curiosidade e sem a separação tradicional entre as disciplinas. "Hoje se fala tanto em interdisciplinaridade e projetos didáticos. Isso nada mais é do que os centros de interesse", diz a professora Marisa del Cio- ppo Elias. Os planos de estudo dos centros de interesse podem surgir, entre as crianças menores, das questões mais corriqueiras. FONTE: Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/ovide-de- croly-307894.shtml>. Acesso em: 11 jan. 2016. Outro educador que permeia esta tendência é John Dewey, o qual apresen- ta o método de projetos. Esse método é muito utilizado na atualidade. Verifique sua aplicabilidade. FIGURA 9 – JOHN DEWEY FONTE: Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/john- dewey-307892.shtml>. Acesso em: 11 jan. 2016. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 29 JOHN DEWEY Quantas vezes você já ouviu falar na necessidade de valorizar a capaci- dade de pensar dos alunos? De prepará-los para questionar a realidade? De unir teoria e prática? De problematizar? Se você se preocupa com essas questões, já esbarrou, mesmo sem saber, em algumas das concepções de John Dewey, filósofo norte-americano que influenciou educadores de várias partes do mundo. No Bra- sil inspirou o movimento da Escola Nova, liderado por Anísio Teixeira, ao colocar a atividade prática e a democracia como importantes ingredientes da educação. Dewey é o nome mais célebre da corrente filosófica que ficou conhecida como pragmatismo, embora ele preferisse o nome instrumentalismo - uma vez que, para essa escola de pensamento, as ideias só têm importância desde que sir- vam de instrumento para a resolução de problemas reais. No campo específico da pedagogia, a teoria de Dewey se inscreve na chamada educação progressiva. Um de seus principais objetivos é educar a criança como um todo. O que importa é o crescimento – físico, emocional e intelectual. O princípio é que os alunos aprendem melhor realizando tarefas associa- das aos conteúdos ensinados. Atividades manuais e criativas ganharam destaque no currículo e as crianças passaram a ser estimuladas a experimentar e pensar por si mesmas. Nesse contexto, a democracia ganha peso, por ser a ordem política que permite o maior desenvolvimento dos indivíduos, no papel de decidir em conjun- to o destino do grupo a que pertencem. Dewey defendia a democracia não só no campo institucional, mas também no interior das escolas. Estímulo à cooperação Influenciado pelo empirismo, Dewey criou uma escola-laboratório ligada à universidade onde lecionava para testar métodos pedagógicos. Ele insistia na ne- cessidade de estreitar a relação entre teoria e prática, pois acreditava que as hipóte- ses teóricas só têm sentido no dia a dia. Outro ponto-chave de sua teoria é a crença de que o conhecimento é construído de consensos, que por sua vez resultam de discussões coletivas. "O aprendizado se dá quando compartilhamos experiências, e isso só é possível num ambiente democrático, onde não haja barreiras ao inter- câmbio de pensamento", escreveu. Por isso, a escola deve proporcionar práticas conjuntas e promover situações de cooperação, em vez de lidar com as crianças de forma isolada. Seu grande mérito foi ter sido um dos primeiros a chamar a atenção para a capacidade de pensar dos alunos. Dewey acreditava que, para o sucesso do pro- cesso educativo, bastava um grupo de pessoas se comunicando e trocando ideias, sentimentos e experiências sobre as situações práticas do dia a dia. Ao mesmo tempo, reconhecia que, à medida que as sociedades foram ficando complexas, a distância entre adultos e crianças se ampliou demais. Daí a necessidade da escola, um espaço onde as pessoas se encontram para educar e ser educadas. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 30 O papel dessa instituição, segundo ele, é reproduzir a comunidade em mi- niatura, apresentar o mundo de um modo simplificado e organizado e, aos pou- cos, conduzir as crianças ao sentido e à compreensão das coisas mais complexas. Em outras palavras, o objetivo da escola deveria ser ensinar a criança a viver no mundo. "Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo", ensinou, argumentando que o aprendizado se dá justamente quando os alunos são colocados diante de problemas reais. A Educa- ção, na visão deweyana, é "uma constante reconstrução da experiência, de forma a dar-lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a responder aos desafios da sociedade". Educar, portanto, é mais do que reproduzir conhecimen- tos. É incentivar o desejo de desenvolvimento contínuo, preparar pessoas para transformar algo. A experiência educativa é, para Dewey, reflexiva, resultando em novos conhecimentos. Deve seguir alguns pontos essenciais: que o aluno esteja numa verdadeira situação de experimentação, que a atividade o interesse, que haja um problema a resolver, que ele possua os conhecimentos para agir diante da situação e que tenha a chance de testar suas ideias. Reflexão e ação devem estar ligadas, são parte de um todo indivisível. Dewey acreditava que só a inteligência dá ao homem a capacidade de modificar o ambiente a seu redor. Liberdade intelectual para os alunos A filosofia deweyana remete a uma prática docente baseada na liberdade do aluno para elaborar as próprias certezas, os próprios conhecimentos,as próprias regras morais. Isso não significa reduzir a importância do currículo ou dos saberes do educador. Para Dewey, o professor deve apresentar os conteúdos escolares na forma de questões ou problemas e jamais dar de antemão respostas ou soluções prontas. Em lugar de começar com definições ou conceitos já elaborados, deve usar procedimentos que façam o aluno raciocinar e elaborar os próprios conceitos para depois confrontar com o conhecimento sistematizado. Pode-se afirmar que as teorias mais modernas da didática, como o construtivismo e as bases teóricas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, têm inspiração nas ideias do educador. FONTE: Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/john- -dewey-307892.shtml>. Acesso em: 11 jan. 2016. Cabe aqui ressaltar a presença de Piaget, baseado em sua psicologia gené- tica. Conforme Libâneo (1990, p. 26-27): “O ensino baseado na psicologia genética de Piaget tem larga aceitação na educação pré-escolar. Pertencem, também, à ten- dência progressista muitas das escolas denominadas “experimentais” [...]”. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 31 3.1.3 Tendência Liberal Renovada não diretiva (Escola Nova) Compete compreendermos ainda, sobre a Tendência Liberal Renovada não diretiva, denominada como Escola Nova. Nessa tendência, o papel da escola vol- ta-se mais para as questões psicológicas do que as pedagógicas e sociais. Para Libâneo (1990, p. 27): Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do ambiente. Rogers considera que o ensino é uma atividade excessiva- mente valorizada; para ele os procedimentos didáticos, a competência na matéria, as aulas, livros, tudo tem muito pouca importância, face ao propósito de favorecer a pessoa um clima de autodesenvolvimento e realização pessoal, o que implica estar bem consigo próprio e com seus semelhantes. O resultado de uma boa educação é muito semelhante ao de uma boa terapia. Os métodos antes utilizados passam a ser considerados desnecessários, dando ênfase “ao esforço do professor em desenvolver um estilo próprio para fa- cilitar a aprendizagem do aluno” (LIBÂNEO, 1990, p. 27) O professor passa a ser neste método um “especialista”. Cabe ressaltar, que este método foi elaborado por Carl Rogers, sendo mais um psicólogo clínico do que educador. O relacionamento entre professor e aluno passa a ser visto como o aluno o centro das atenções e o professor um especialista, pois conforme Libâneo (1990, p. 28): [...] propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua perso- nalidade através da vivência de experiências significativas que lhe per- mitam desenvolver características inerentes à sua natureza. O professor é o especialista em relações humanas, ao garantir o clima de relaciona- mento pessoal e autêntico. Quanto à avaliação, nessa tendência ela não possui grande significado, o que é levado em conta é a autoavaliação, onde o aluno busca refletir sobre o que aprendeu neste processo. 3.1.4 Tendência Liberal Tecnicista A Tendência Liberal Tecnicista atua: [...] no aperfeiçoamento da ordem social vigente (o sistema capitalista) articulando-se diretamente com o sistema produtivo; para tanto, em- prega a ciência da mudança de comportamento, ou seja, a tecnologia comportamental. Seu interesse imediato é o de produzir indivíduos UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 32 “competentes” para o mercado de trabalho, transmitindo, eficientemen- te, informações precisas, objetivas e rápidas (LIBÂNEO, 1990, p. 29). No que diz respeito aos conteúdos de ensino, esses estão sistematizados em materiais como: livros didáticos, vídeos etc. O relacionamento entre professor e aluno nessa tendência é algo meramen- te técnico. Conforme Libâneo (1990, p. 30): O professor é apenas um elo entre a verdade científica e o aluno, caben- do-lhe empregar o sistema instrucional previsto. O aluno é o indivíduo responsivo, não participa da elaboração do programa educacional. Am- bos são espectadores frente a verdade objetiva. A comunicação profes- sor-aluno tem um sentido exclusivamente técnico, que é o de garantir a eficácia da transmissão do conhecimento. Debates, discussões, questio- namentos são desnecessários, assim como pouco importam as relações afetivas e pessoais dos sujeitos envolvidos no processo ensino-apren- dizagem. Cabe salientar, que dentro dos pressupostos de aprendizagem, na Tendên- cia Tecnicista, “dizem que aprender é uma questão de modificação do desempenho: o bom ensino depende de organizar eficientemente as condições estimuladoras, de modo a que o aluno saia da situação de aprendizagem diferente de como entrou” (LIBÂNEO, 1990, p. 30). Seguindo esse pensamento, podemos compreender que o condicionamento faz parte dessa tendência, sendo que podemos considerar Skin- ner, Gagné, Bloom e Mager como autores que contribuem para esses estudos. No que diz respeito também a prática escolar, essa Tendência Tecnicista toma o lugar da Escolanovista “pelo menos no nível de política oficial; os marcos de implantação do modelo tecnicista são as leis 5.540/68 e 5.692/71, que reorgani- zam o ensino superior e o ensino de 1º e 2º graus” (LIBÂNEO, 1990, p. 31). Caro acadêmico! Até o momento verificamos as tendências pertencentes a Pedagogia Liberal. 3.2 PEDAGOGIA PROGRESSISTA A Pedagogia Progressista, como a própria palavra já diz, refere-se “para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implicitamente as finalidades sociopolíticas da educação” (LIBÂNEO, 1990, p. 32). Cabe ressaltar que dentro de um sistema capitalista, instituir uma nova tendência pedagógica, tornou possível ser essa tendência “um instrumento de luta dos professores ao lado de outras práticas sociais” (LIBÂNEO, 1990, p. 32). TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 33 Libâneo (1990) apresenta a Pedagogia Progressista em três tendências: li- bertadora, libertária e a crítico-social dos conteúdos. Cada uma delas traz suas necessidades e verdades (se assim podemos dizer). 3.2.1 Tendência Progressista Libertadora A Tendência Libertadora tem como base Paulo Freire, grande educador brasileiro, que apresenta uma educação “não formal”. Cabe aqui salientar que: Entretanto, professores e educadores engajados no ensino escolar vêm adotando pressupostos dessa pedagogia. Assim, quando se fala na educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem num sentido de transformação social (LIBÂNEO, 1990, p. 33). Com relação à ideia de cada uma das tendências já apresentadas, ainda diz Libâneo (1990, p. 33): Tanto a educação tradicional, denominada “bancária” – que visa ape- nas depositar informações sobre o aluno –, quanto a educação renovada – que pretenderia uma libertação psicológica individual – são domes- ticadoras, pois em nada contribuem para desvelar a realidade social de opressão. A educação libertadora, ao contrário, questiona concre- tamente a realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando a uma transformação – daí ser uma educação crítica. (Grifos nossos). Com relação aos conteúdos de ensino, podemos então perceber que nada se compara ao que foi aprendido até o momento. O que antes era visto como con- teúdos tradicionais passam a dar lugar ao denominados “temas geradores”. Os temas geradores são retirados do cotidiano dos alunos, as leituras são elaboradas a partir do próprio aluno com a orientação do professor. No que diz respeito ao método de ensino,baseia-se nos grupos de discus- são, dando assim a liberdade de voz e vez. O professor “é um animador que, por princípio deve “descer” ao nível dos alunos, adaptando-se as suas características e ao desenvolvimento próprio de cada grupo” (LIBÂNEO, 1990, p. 34). Ainda afir- ma que o professor “deve caminhar “junto”, intervir no momento indispensável, embora não se furte, quando necessário, a fornecer uma informação mais sistema- tizada”. Observa-se que a relação professor-aluno se dá através do diálogo, sendo que “a relação é horizontal, onde educador e educandos se posicionam como sujei- tos do ato de conhecimento. O critério de bom relacionamento é a total identifica- ção com o povo, sem o que, a relação pedagógica perde consistência” (LIBÂNEO, 1990, p. 34). UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 34 Importante salientar que o professor, não perde em momento algum seu lugar enquanto educador, ele não se ausenta do processo ensino-aprendizagem, “mas que permanece vigilante para assegurar ao grupo um espaço humano para “dizer sua palavra”, para se exprimir sem se neutralizar” (LIBÂEO, 1990, p. 35). Para que exista este movimento, é necessário que existam passos da apren- dizagem: codificação-decodificação e problematização da situação. Pois conforme Libâneo (1990, p. 34): “[...] permitirão aos educandos um esforço de compreensão do “vivido”, até chegar a um nível mais crítico de conhecimento da sua realidade, sempre através da troca de experiências em torno da prática social”. Pode-se compreender que a força motivadora da aprendizagem é a “edu- cação problematizadora”. Pois conforme Libâneo, (1990, p. 35): A motivação se dá a partir da codificação de uma situação-problema, da qual se toma distância para analisá-la criticamente. ‘Esta análise envol- ve o exercício de abstração, através da qual procuramos alcançar, por meio e representações da realidade concreta, a razão de ser dos fatos’. Cabe salientar que esta Tendência Libertadora, tem como seu precursor, Paulo Freire, (1921-1997), que se utilizou da realidade do educando para construir seu conhecimento, a partir de sua realidade, de sua vivência diária. Este foi o mais célebre educador de nosso país, Brasil, ganhando reconhecimento internacional através de sua pedagogia. FIGURA 10 - PAULO FREIRE FONTE: Disponível em: <http://professoressolidarios.blogspot.com.br/2015/01/frases-de- paulo-freire.html>. Acesso em: 22 jan. 2016. TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 35 Repassamos a você, caro(a) acadêmico(a), possibilidades de aprofundamento com relação a Paulo Freire. Busque em: <https://www.youtube.com/watch?v=hJmOCNgl7WU>. Intitulado: Paulo Freire: Educação para um Brasil melhor. Este e outros vídeos estarão auxi- liando você em seu conhecimento. 3.2.2 Tendência Progressista Libertária Na Tendência Progressista Libertária, o papel da escola é de que a: [...] escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. A ideia básica é introduzir modifi- cações institucionais, a partir dos níveis subalternos que, em seguida, vão “contaminando” todos os sistemas. A escola instituirá, com base na participação grupal, mecanismos institucionais de mudança (assem- bleias, conselhos, eleições, reuniões, associações etc.) (LIBÂNEO, 1990, p. 36). A Tendência Libertária traz em sua filosofia sua “resistência contra a buro- cracia como instrumento da ação dominadora do estado, que tudo controla (pro- fessores, programas, provas etc.), retirando a autonomia” (LIBÂNEO, 1990, p. 36). Com relação aos conteúdos de ensino apresentados nessa tendência, obser- va-se que “as matérias são colocadas à disposição do aluno, mas não são exigidas. É um instrumento a mais, porque importante é o conhecimento que resulta das experiências vividas pelo grupo [...]” (LIBÂNEO, 1990, p. 36). Os conteúdos não são cobrados, sendo primordial que os alunos tenham uma maior participação nos interesses dos grupos em nível social. A vivência em grupo, como forma de autogestão é à base do método de ensino desta tendência. Nesta perspectiva conforme Libâneo (1990, p. 37): Trata-se de “colocar nas mãos dos alunos tudo o que for possível: o conjunto de vida, as atividades e a organização do trabalho no interior da escola (menos a elaboração dos programas e a decisão dos exames que não dependem nem dos docentes, nem dos alunos)”. Os alunos têm a liberdade de trabalhar ou não, ficando o interesse pedagógico na de- pendência de suas necessidades ou das do grupo. A relação professor-aluno fica caracterizada como o professor sendo um “orientador e um catalizador” (LIBÂNEO, 1990, p. 37), onde o aluno não é com- preendido como objeto, e sim como um ser livre e em relação aos demais colegas. Tanto professor, como aluno tornam-se livres para vivenciar cada momento. Ten- do o professor e o aluno o direito de responder, ou não, determinada pergunta. É DICAS UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 36 compreendido assim, que nessa tendência não é aceita nenhuma forma de autori- tarismo. Para melhor entendimento, observamos que existem outras tendências que se utilizam desta filosofia. Podemos citar o trabalho de Celestin Freinet “que tem sido muito estudado entre nós, existindo inclusive algumas escolas aplicando seu método” (LIBÂNEO, 1990, p. 38). Além desse, temos outros estudiosos, entre eles, Miguel Gonzales Arroyo. 3.2.3 Tendência Progressista Crítico-social dos conteúdos Já na Tendência Progressista “Crítico-social dos conteúdos”, encontramos como papel da escola o de transformar, ou melhor, garantir um bom ensino. A escola passa a ser vista como “um instrumento de apropriação do saber é o me- lhor serviço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática” (LIBÂNEO, 1990, p. 39). Ainda conforme Libâneo, (1990, p. 39): Em síntese, a atuação da escola consiste na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização, para uma partici- pação organizada e ativa na democratização da sociedade. No que diz respeito aos conteúdos de ensino, essa tendência apresenta que os conteúdos culturais universais além de serem bem ensinados, “é preciso que se liguem, de forma indissociável, à sua significação humana e social” (LIBÂNEO, 1990, p. 39). É interessante perceber que deve existir uma relação de continuidade, onde o professor intervém junto ao aluno, dando-lhe acessibilidade aos conteúdos e conseguindo assim, que o aluno consiga ligar estes conteúdos com suas experi- ências. Para tanto, o método de ensino é o de que “os métodos [...] não partem, então, de um saber artificial, depositado a partir de fora, nem do saber espontâneo, mas de uma relação direta com a experiência do aluno, confrontada com o saber trazido de fora” (LIBÂNEO, 1990, p. 40). Podemos resumir como sendo a relação entre a teoria e a prática. Ocorre troca de experiências e conhecimentos. Podemos determinar que o papel do professor, na Tendência Progressista, seja o de mediador, onde “o papel do adulto é insubstituível, mas acentua-se tam- bém a participação do aluno no processo”. O professor não permanecerá somente como observador e mediador do que o aluno possui de conhecimentos, o mesmo irá “despertar outras necessidades, acelerar e disciplinar os métodos de estudo, exigir o esforço do aluno, propor conteúdos e modelos compatíveis com suas ex- TÓPICO 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 37 periências vividas, para que o aluno se mobilize para uma participação ativa” (LI- BÂNEO, 1990, p. 41). Dentro da tendência crítico-social dos conteúdos, o aprender é: [...] desenvolver a capacidade de processar informaçõese lidar com os estímulos do ambiente, organizando os dados disponíveis da experiên- cia. Em consequência, admite-se o princípio da aprendizagem signifi- cativa que supõe como passo inicial, verificar o que o aluno já sabe. O professor precisa saber (compreender) o que os alunos dizem ou fazem, o aluno precisa compreender o que o professor procura dizer-lhe. A transferência da aprendizagem se dá a partir do momento da síntese, isto é, quando o aluno supera sua visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora (LIBÂNEO, 1990, p. 42). Cabe ressaltar, que nessa tendência, para ocorrer construção eficaz do co- nhecimento, é preciso que o professor tenha maior conhecimento “dos conteúdos de sua matéria e o domínio de formas de transmissão, a fim de garantir compe- tência técnica, sua contribuição será tanto mais eficaz quanto mais seja capaz de compreender os vínculos de sua prática com a prática social global” (LIBÂNEO, 1990, p. 42). Temos como representantes da Tendência Progressista educadores e es- critores como B. Charlot, G. Snyders, além dos educadores brasileiros Demerval Saviani e José Carlos Libâneo. Um filme que presenta muito bem a Tendência Progressista, e que pode auxi- liar-nos no entendimento da relação professor, aluno e conteúdo é: Sociedade dos Poetas Mortos. Filme de 1989, com a direção de Peter Weir. Nesse filme, o professor contraria todas as regras de uma educação autoritária e faz com que os alunos saiam da passividade e busquem construir de forma crítica a reflexão sobre suas vidas e a realidade. DICAS 38 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você estudou que: • Para compreender a Pedagogia e a Didática, faz-se necessário conhecer a Histó- ria da Educação. • Por Educação, entendemos a influência intencional e sistemática sobre o ser ju- venil, com o propósito de formá-lo e desenvolvê-lo. Mas significa também a ação genérica, ampla, de uma sociedade sobre as gerações jovens, com o fim de con- servar a transmitir a existência coletiva. A educação é, assim parte integrante, essencial, da vida do homem e da sociedade, e existe desde quando há seres humanos sobre a terra. • Pedagogia é a ciência da educação. Por ela é que a ação educativa adquire unida- de e elevação. Educação sem Pedagogia, sem reflexão metódica, seria pura ativi- dade mecânica, mera rotina. Pedagogia é ciência do espírito e está intimamente relacionada com filosofia, psicologia, sociologia e outras disciplinas, posto não dependa delas, eis que é uma ciência autônoma. • A Pedagogia tem sua raiz na Grécia, passando por Roma e sendo utilizada e compreendida como forma de educação, associada a realidade de cada momen- to histórico. • A Pedagogia é considerada na atualidade como uma ciência, que está articulada com a História da Educação, a Sociologia, a Psicologia, a Filosofia. • A Pedagogia possui suas tendências que são assim classificadas: a) Pedagogia Liberal com suas tendências: tradicional, renovada progressis- ta, renovada não diretiva (escola nova) e a tecnicista. b) Pedagogia Progressista: com suas tendências: libertadora, libertária e críti- co-social dos conteúdos. • Tendência Tradicional: o professor é o detentor do saber, ao aluno cabe ouvir e aceitar os conteúdos e regras expostas, passível de punição. A decoreba é o meio de conseguir a obtenção de boas notas. • Tendência Renovada Progressista: os conteúdos são desenvolvidos a partir do 39 interesse dos alunos, o professor tem o papel de auxiliar o processo de ensino. • Tendência Liberal Renovada não Diretiva (Escola Nova): nesta tendência, os problemas psicológicos são mais importantes que o processo pedagógico ou so- cial. O professor é facilitador, aceitando a pessoa do aluno, demonstrando ser uma pessoa confiável e que acredita no autodesenvolvimento do aluno. • Tendência Liberal Tecnicista: a escola funciona como modeladora do compor- tamento humano. Trabalha com o intuito de preparar o indivíduo para o traba- lho. A comunicação é simplesmente técnica entre professor e aluno. • Tendência Libertadora: é conhecida como pedagogia de Paulo Freire. A educa- ção é não formal. Os professores e alunos constroem seus conhecimentos a partir da realidade. O conteúdo de ensino é através de temas geradores. • Tendência Libertária: à escola compete manter a democracia, onde o professor é orientador e o mesmo mistura-se ao grupo para uma reflexão comum. Os con- teúdos são colocados à disposição dos alunos. • Tendência Crítico-Social dos Conteúdos: cabe a escola garantir bons estudos. Os conteúdos adquiridos historicamente precisam ser estudados e reavaliados frente as realidades sociais. O papel do professor é de mediar todo o processo. 40 Caro acadêmico! Qual é sua opinião com relação às quatro tendências pedagógicas, até aqui estudadas? Será que elas ainda permeiam as práticas pedagógicas de nossas escolas? Por quê? AUTOATIVIDADE 41 TÓPICO 2 EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 1 INTRODUÇÃO Até o momento, caro acadêmico, verificamos a caminhada da Pedagogia, vista como ciência na atualidade. Passaremos a tratar neste tópico sobre a Didática. Qual a sua evolução histórica e os conceitos dados a ela. Até o momento falamos sobre a Pedagogia, mas ela já apresentou fatores que estão na Didática. Assim, podemos utilizar a metáfora da colcha. Essa, para ser feita, necessita de fios, os quais são coloridos, possui enlaces que vão sendo construídos, unidos, formando ao final, um lindo trabalho. Assim é a Didática com a Pedagogia, as duas entrelaçadas, dando significado maior a cada momento his- tórico vivido por professores e sociedade. Estaremos nos reportando muitas vezes aos recortes históricos realizados até o momento dentro da Pedagogia, pois tanto a Pedagogia, como a Didática, são como a colcha, cheia de tramas e de enlaces. É importante termos este conhecimento, para que nossa colcha vá sendo costurada com pontos firmes e entrelaçada de maneira correta, para não ocorrer dúvidas ao final deste percurso do reconhecimento da Didática em nosso cotidia- no. 2 A EVOLUÇÃO DA DIDÁTICA Partimos da ideia que permeou nosso estudo até o momento. Os recortes históricos, os quais nos delimitaram as ideias e momentos sociais de cada época. Vamos retomar um pouco da Antiguidade, até o século XIX, onde vimos que a prática escolar era tratada de forma “passiva e receptiva” (HAYDT, 2006, p. 14). A autora ainda nos apresentada a seguinte explicação: Aprender era quase exclusivamente memorizar. Nesse tipo de aprendi- zagem, a compreensão desempenhava um papel muito reduzido. Essa forma de ensino baseava-se na concepção de que o ser humano era se- melhante a um pedaço de cera ou argila úmida que podia ser modelado à vontade. Na antiga Grécia, Aristóteles já professava essa teoria, que foi retomada frequentemente, ao longo dos séculos [...] (HAYDT, 2010, p. 14) UNIDADE 1 UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 42 Cabe ressaltar que ao professor cabia o repasse dos textos aos alunos, os quais decoravam inicialmente textos mais curtos e passavam a ser ajustados (au- mentando o grau de dificuldade). Com o passar do tempo, os alunos estavam ha- bituados com essa prática de ensino que “durante séculos, passou a ser conhecido como recitação de cor” (HAYDT, 2006, p. 15). Outro fator interessante que ressalta a autora é que a “forma de aprendi- zagem era que o aluno reproduzisse literalmente as frases e palavras decoradas”. Aos poucos foi verificando que somente repasse de textos e a mera “reci- tação de cor”, já não era mais interessante, e essa passou a ser discutida, dando espaço agora a ideia de que: “o ser humano é capaz de apreender e assimilar o mundo que o circunda. Com base nessas teorias do conhecimento, alguns princí- pios didáticos foram formulados” (HAYDT,2006, p.15) Caro(a) acadêmico(a)! No tópico anterior vimos as tendências pedagógi- cas. Encontramos alguns educadores, filósofos e pensadores que traduziram sua forma de ensino, através de seus métodos. Desta forma, vamos agora, ver mais alguns deles, realizando um recorte histórico. Sócrates: construiu um método conhecido como método socrático que foi nomeado de “ironia”, que possui dois tempos: a refutação e a maiêutica. Conforme Haydt, (2006, p. 15-16): Na refutação, Sócrates levantava objeções às opiniões que o discípulo ti- nha sobre algum assunto e que julgava ser a verdade. De objeção em ob- jeção, o aluno ia tentando responder às dúvidas levantadas por Sócrates até que, contradizendo cada vez mais, admitia sua ignorância e se dizia incapaz de definir o que até há pouco julgava conhecer tão bem. [...] Tendo o discípulo tomado consciência de que nada sabia, Sócrates passa então para a segunda parte de seu método, que ele mesmo denominou maiêutica. Partindo do conhecido para o desconhecido, do fácil para o difícil, Sócrates vai fazendo a seu discípulo uma série de perguntas que o leva a refletir, a descobrir e a formular as próprias respostas. Vimos uma palavra já conhecida em nosso meio acadêmico, a palavra Maiêutica. Ela nos remete a nossa revista digital, onde são apresentados os trabalhos classificados de determinado ano. Assim sendo, fique ligado! Este ano teremos a JOIA (Jornada de Integra- ção Acadêmica), onde serão apresentados os trabalhos construídos por vocês. Por que me utilizei deste exemplo? Por que a Maiêutica, como Sócrates prescreveu, é “dar à luz as ideias” (HAYDT, 2006, p. 16). E este é o objetivo da Revista Maiêutica, de dar ao acadê- mico(a) a possibilidade de construir seu conhecimento e expô-lo à comunidade acadêmica. IMPORTANT E TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 43 Cabe ressaltar que mesmo estando na Grécia Antiga, Sócrates afirmava que: “os mestres devem ter paciência com os erros e as dúvidas de seus alunos, pois é a consciência do erro que os leva a progredir na aprendizagem” (HAYDT, 2006, p. 16). FIGURA 11 - SÓCRATES FONTE: Disponível em: <https://psicopapo.wordpress.com/2015/09/10/de- socrates-a-platao/>. Acesso em: 13 jan. 2016. Uma de suas frases célebres é a presente na figura. Isso não significa que Sócrates era um ignorante, muito pelo contrário, essa frase nos indica que a pessoa que se considera não conhecedora de tudo é alguém sábia, pois vai à busca de mais conhecimento; enquanto aquela que julga possuir todo o saber, fica engessada em seu mundo. Isso significa que estamos em constante movimento, crescimento. Para você obter maiores informações sobre Sócrates, deixamos o site abaixo como sugestão. Neste vídeo, o Professor Mario Sérgio Cortella nos dá uma aula sobre esse filósofo e seu método. Aparece intitulado como: Curtas filosóficas: Mario Sérgio Cortella fala sobre Sócrates. <https://www.youtube.com/watch?v=LYTQhRKHfqU>. Seguindo nossa caminhada histórica dentro da Didática, vamos falar sobre João Amós Comenius. João Amós Comenius (1592-1670): Caro acadêmico, relembrando o que já foi estudado, verificamos que este foi o maior educador e pedagogista do século XVII e um dos maiores da história. DICAS UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 44 FIGURA 12 - COMENIUS FONTE: Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/ eLibris/didaticamagna.html>. Acesso em: 16 jan. 2016. Para Comenius, o ser humano é a mais perfeita obra de Deus. Luzuriaga (1985, p. 139) afirma que: O fim da Educação é, para Comenius, a salvação, a felicidade eterna. Mas essa educação não está enquadrada em determinada confissão re- ligiosa [...]. Em verdade, os fins da vida e, portanto, da educação, para Comenius são três: o saber, que compreende o conhecimento de todas as coisas, artes e línguas; a virtude, ou bons costumes, que inclui não só as boas maneiras como o domínio das paixões; e a piedade ou religião, isto é, a veneração interna pela qual a alma do homem se une ao Ser Supremo. Pode-se perceber que para Comenius, o homem não pode chegar a ser ho- mem se não for educado. “Ninguém pode crer que é verdadeiro homem a não ser que haja aprendido a formar-se” (LUZURIAGA, 1985, p. 139). Outro ponto a ser ressaltado, é que esse educador apregoava que a educa- ção deveria ser dada a todos – meninos e meninas – indiferente de sua classe social e nas mesmas instituições, não fazendo separações. Ele também é considerado o fundador da Didática, segundo Luzuriaga (1985). Comenius valorizava o processo indutivo – “como sendo a melhor forma de se chegar ao conhecimento generalizado, e aplicou-o na sua prática instrucio- nal” (HAYDT, 2006, p. 16). O pedagogista teve uma longa caminhada como professor, e dentro des- ta sua vivência educacional, escreveu uma de suas maiores obras, a qual, ainda hoje, se busca referência, a “Didática Magna”, que é vista como um tratado, sendo publicada em 1632. Nesse tratado, Comenius apresenta seus conhecimentos, sua vivência didática e espiritual, pois dispõe nas páginas deste documento, a necessi- dade da presença divina junto à construção do conhecimento. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 45 Haydt (2006, p. 17) expõe como um professor deve ensinar um assunto aos seus alunos na visão de Comenius: 1. Apresentar o objeto ou ideia diretamente, fazendo demonstração, pois o aluno aprende através dos sentidos, principalmente vendo e tocando. 2. Mostrar a utilidade específica do conhecimento transmitido a sua aplicação na vida diária. 3. Fazer referência à natureza e origem dos fenômenos estudados, isto é, às suas causas. 4. Explicar primeiramente os princípios gerais e só depois os detalhes. 5. Passar para o assunto ou tópico seguinte do conteúdo apenas quando o aluno tiver compreendido o anterior. Ainda na “Didática Magna”, Comenius expõe a seguinte visão com relação aos objetivos da Didática: A proa e a popa de nossa Didática será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os alunos aprendam mais; nas escolas hajam menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atrativo e sólido progresso; na Cristandade haja menos trevas, menos confusão, menos dissídios, mais luz, mais ordem, mais paz e mais tranquilidade (COME- NIUS, 2001, p. 12). O desejo dele, era que através desse tratado, o objetivo estivesse em “ensi- nar tudo a todos”, (COMENIUS, 2001, p. 11) ou ainda: Processo seguro e excelente de instituir em todas as comunidades de qualquer Reino Cristão, cidades e aldeias, escolas tais que toda juventu- de de um e de outro sexo, sem excetuar ninguém em siveiarte alguma, possa ser formada nos estudos, educada nos bons costumes, impreg- nada de piedade, e, desta maneira, possa ser, nos anos da puberdade, instruída em tudo o que diz respeito à vida presente ou futura, com economia de tempo e de fadiga, com agrado e solidez (COMENIUS, 2001, p. 11). Podemos perceber que os seus escritos são ricos em possibilidades de tor- nar cada ser humano uma pessoa melhor, com cuidados, estudos e tementes a Deus, pois seu tratado está todo fundamentado nas escrituras. Em pleno século XXI, ainda buscamos muitos dos ensinamentos, que eram apregoados por Comenius, isso no século XVII. Cabe citar a presença de um notável escritor e filósofo chamado Jean-Ja- cques Rousseau (1712-1778). Esse filósofo deixou vários escritos, entre eles estão “Emílio, ou Da Educação” e o “Contrato Social”. Rousseau, conforme Santana (2016, p. 1): Tem como essência a crença de que o Homem é bom naturalmente, em- UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 46 bora esteja sempre sob o jugo da vida em sociedade, a qual o predispõe à depravação. Para ele o homem e o cidadãosão condições paradoxais na natureza humana, pois é o reflexo das incoerências que se instauram na relação do ser humano com o grupo social, que inevitavelmente o corrompe. Dentro de seus escritos, Rousseau apresenta possibilidades de ver o ho- mem como ser reconduzido para o bem. Isso é explanado em seus escritos “Con- trato Social” e, pedagogicamente, em “Emílio, ou Da Educação”. As ideias desse filósofo foram muito importantes para muitos socialistas e anarquistas, pois tratavam da sociedade e do conceito de liberdade. Ressalta-se, entre os influenciados: Johann Heinrich Pestalozzi: Suíço, preocupava-se com a formação do ho- mem integral. Acreditava que a formação do homem se dá de forma natural, do “aprender fazendo”. O método partia do que já era conhecido, para algo novo, do concreto, para o abstrato. Assim, “O que importava não era tanto o conteúdo, mas o desenvol- vimento das habilidades e dos valores”. (CARVALHO, 2011, p. 1). Pestalozzi foi considerado, de acordo com Hilgenheger (2010, p. 11), “o fundador da nova escola primária”. FIGURA 13 - PESTALOZZI FONTE: Disponível em: <http://frankvcarvalho.blogspot.com. br/2011/10/johann-heinrich-pestalozzi-educador.html>. Acesso em: 16 jan. 2016. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 47 Carvalho (2011, p. 1) afirma que: Pestalozzi foi um dos pioneiros da educação moderna, influenciando profundamente todas as correntes educacionais, e longe está de deixar de ser uma referência. Fundou escolas, cativava a todos para a causa de uma educação capaz de atingir o povo, num tempo em que o ensino era privilégio exclusivo. O autor ainda aponta que para Pestalozzi, a escola: [...] deveria ser não só uma extensão do lar, como inspirar-se no am- biente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, o pensador suíço não con- cordava totalmente com o elogio da razão humana. Para ele, só o amor tinha força salvadora, capaz de levar o homem à plena realização moral, isto é, encontrar conscientemente, dentro de si, a essência divina que lhe dá liberdade (CARVALHO, 2011, p. 1). Pestalozzi, conforme afirma Haydt (2006, p. 17), “O principal objetivo da educação era favorecer o desenvolvimento físico, intelectual e moral da criança e do jovem, através da vivência de experiências selecionadas e graduadas, necessá- rias para o exercício dessas capacidades”. Cabe ressaltar que esse filósofo buscava sua inspiração nas leituras de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), o qual tinha como base a doutrina dos naturalistas. Conforme Carvalho (2011. p. 1), “Ambos consideravam o ser humano de seu tempo excessivamente cerceado por convenções sociais e influências do meio, distanciado de sua índole original que seria essencialmente boa para Rousseau e potencialmente fértil, mas egoísta e submissa aos sentidos, para Pestalozzi”. A invasão francesa, na Suíça, fez com que Pestalozzi, vendo as misérias que ocorriam nas ruas, buscasse crianças que viviam abandonadas para cuidar e educar. (CARVALHO, 2011): A invasão francesa da Suíça em 1798 revelou-lhe um caráter verdadei- ramente heroico. Muitas crianças vagavam no Cantão de Unterwalden, às margens do Lago de Lucerna, sem pais, casa, comida ou abrigo. Pes- talozzi reuniu muitos deles num convento abandonado, e gastou suas energias educando-os (CARVALHO, 2011, p. 1). Com essa atitude, Pestalozzi inicia seu trabalho com as crianças, aplicando junto a elas seu processo educativo que “deveria englobar três dimensões huma- nas, identificadas com a cabeça (intelectual), a mão (físico) e o coração (afetivo ou moral). O objetivo final do aprendizado deveria ser uma formação também tripla: intelectual, física e moral”. (CARVALHO, 2011, p. 1) Importante salientar que nas escolas de Pestalozzi, não era aceita a ideia de castigar, ou de dar notas, tudo deveria fluir do íntimo do aluno. Ainda conforme UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 48 Carvalho (2011, p. 1), Pestalozzi acreditava que: A criança, na visão de Pestalozzi, se desenvolve de dentro para fora, ideia oposta à concepção de que a função do ensino é preenchê-la de informação. Para o pensador suíço, um dos cuidados principais do pro- fessor deveria ser respeitar os estágios de desenvolvimento pelos quais a criança passa. Dar atenção à sua evolução, às suas aptidões e necessi- dades, de acordo com as diferentes idades, era, para Pestalozzi, parte de uma missão maior do educador, a de saber ler e imitar a natureza – em que o método pedagógico deveria se inspirar. Podemos buscar em uma síntese de Frank Viana Carvalho (2011) mais sub- sídios para compreendermos a visão do Método de Pestalozzi: A ESCOLA IDEALIZADA POR PESTALOZZI • Não apenas uma extensão do lar, mas inspirar-se no ambiente familiar, (atmos- fera de segurança e afeto). • O amor é a plenitude da educação: só o amor tem força salvadora capaz de levar o homem à plena realização moral. • Na visão de Pestalozzi a criança de desenvolve de dentro para fora. • Um dos cuidados principais do professor deve ser o de respeitar os estágios de desenvolvimento pelos quais a criança passa. MÉTODO DE PESTALOZZI • Do mais fácil e simples, para o mais difícil e complexo, do conhecido para o novo e do concreto para o abstrato, o ideal é aprender fazendo. • O processo educativo deve englobar três dimensões humanas para uma forma- ção também tripla: intelectual, física e moral. • O método de estudo deveria reduzir-se a seus três elementos mais simples: som, forma e número (posteriormente a linguagem). • Nas suas escolas não havia notas ou provas, castigos ou recompensas; mais im- portante que o conteúdo, o desenvolvimento das habilidades e dos valores. FONTE: Disponível em: <http://frankvcarvalho.blogspot.com.br/2011/10/johann-heinrich- -pestalozzi-educador.html>. Acesso em: 16 jan. 2016. Caro acadêmico! Podemos perceber que Pestalozzi está muito presente em escolas de nosso país. Fez parte do século XVIII, mas estava à frente de seu tempo. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 49 Deixou como discípulos dois grandes sucessores que serão vistos a seguir. John Frederick Herbart (1776-1841): pensador e educador que tem como influência os trabalhos de Pestalozzi, busca de maneira mais científica, compreen- der os “fundamentos na ideia da unidade do desenvolvimento e da vida mental”. (HAYDT, 2008, p. 20). Para Hilgenheger (2010, p. 11): O perfil do educador e pensador pedagógico J. F. Herbart pode, tam- bém, ser delineado a partir de um ponto central marcante, a ideia de instrução educativa. Foi sua experiência de professor e educador que levou Herbart a esta ideia principal de sua teoria pedagógica, verdadei- ro traço de união entre seu sistema filosófico e sua “pedagogia”. FIGURA 14 – HERBART FONTE: Disponível em: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/h/ herbart.htm>. Acesso em: 16 jan. 2016. Para Herbart, o ser humano é uma unidade e não um ser compartimentali- zado. A partir de seu nascimento passa a conviver com todas as possibilidades de situações, conseguindo assim reagir “de forma global, através do amadurecimento de seu sistema nervoso” (HAYDT, 2006, p. 20). Ainda conforme Haydt (2006, p. 20): Por meio da percepção sensorial se estabelece, portanto, a relação com o ambiente, o que dá origem às representações primárias, que são a base da vida mental. A generalização das representações primárias forma os conceitos, e a interação dos conceitos conduz aos atos de julgamento e raciocínio. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 50 Herbart, segundo Haydt (2006, p. 20): Atribuía grande importância à educação, pois considerava-a o fator de- terminante no desenvolvimento do intelecto e do caráter. A educação, é segundo ele, a responsávelpela formação das representações e pela forma como estas representações são combinadas nos mais elevados processos mentais. A função da escola era ajudar o aluno a desenvolver e integrar essas representações mentais, que provinham de duas fontes principais: a) Do contato com a natureza, através da experiência, e b) Do contato com a sociedade, através do convívio social. O pensador também tem em seu currículo, a formulação da teoria do inte- resse. De acordo com Haydt (2006, p. 21): Ele afirmava que o interesse não era apenas um meio para garantir a atenção a atenção do aluno durante a aula, mas uma forma de assegurar que as novas ideias ou representações fossem assimiladas e integradas organicamente àquelas já existentes, formando uma nova base de con- duta. Podemos entender, que o pensador tinha como filosofia, a formação moral do indivíduo, onde as ideias passam a formar o caráter desse. Para ele, segundo Luzuriaga (1985, p. 205), na atividade educativa, são apontados três momentos cruciais: o governo, a instrução e a disciplina. O governo entende como a conservação da ordem, com a conduta ex- terna das crianças, para a qual o meio mais importante é mantê-las ocu- padas, ativas. Outros meios são o amor, a autoridade, a vigilância, a ameaça e o castigo, sendo os dois primeiros os mais eficazes. A instrução tem por fim, como toda a educação, a virtude, ou seja, ‘a força de caráter da moralidade’. Seu meio essencial é o interesse ou, me- lhor, ‘a multiplicidade do interesse’. Para que a instrução possa penetrar nas representações do aluno, hão de abrir-se todas as portas do espírito. A disciplina busca [...] a formação para a virtude, apoia-se, sobretudo, no trato pessoal, mas se diferencia do governo em que este se dirige mais ao comportamento externo que à conduta propriamente dita, isto é, a que se rege pelas ideias morais. No que tange às ideias de Herbart, podemos compreender que para ocor- rer atividades educativas com produtividade, são necessários os três elementos: governança, que trata da ordem das atividades a serem desenvolvidas pelo pro- fessor junto aos alunos; da instrução, que precisa ser significativa ao aluno, dando possibilidade de aumento de seu interesse; e por último a disciplina, que se preo- cupa em desenvolver no aluno a necessidade do saber portar-se, de compreender que cada um é um dentro do processo social. O educador em questão elaborou e aplicou seu método instrucional, que era composto por cinco passos para um aprendizado eficaz: a preparação, apresen- tação, associação, sistematização e a aplicação. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 51 PREPARAÇÃO Ao professor cabe instigar seu aluno pelo que sabe e assim conseguir abrir novas possibilidades na obtenção de novos conteúdos. APRESENTAÇÃO Com a estimulação do aluno junto ao que sabe, o professor apresenta novo conteúdo que tenha ligação com o que já foi obtido pelo estudante. ASSOCIAÇÃO O aluno realiza neste momento uma junção do que já sabia com o novo conteúdo. SISTEMATIZAÇÃO O aluno ao assimilar o conteúdo, realiza uma ligação do que já sabe com o novo e assim constrói novos conhecimentos. APLICAÇÃO Ao aluno é realizada avaliações através de provas que determinam se ele adquiriu novos conhecimentos. QUADRO 1- CINCO PASSOS PARA UM APRENDIZADO EFICAZ SEGUNDO HERBART FONTE: A autora Outro educador e sucessor de Pestalozzi foi Friederich Froebel. Friederich Froebel (1782-1852) é considerado como o “pai do jardim de infância” (HILGENHEGER, 2010, p. 11). Possuía uma maneira romântica de ver a sua filosofia pedagógica. FIGURA 15 - FROEBEL FONTE: Disponível em: <http://froebeleaeducao.blogspot.com.br/>. Acesso em: 17 jan. 2016. Para melhor entendimento, elaboramos este quadro: UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 52 Para Ferrari, (2011, p. 1), Froebel vê: “o início da infância como uma fase de importância decisiva na formação das pessoas – ideia hoje consagrada pela Psico- logia, ciência da qual foi precursor”. Sendo ele o “pai do jardim da infância”, tem essa visão porque: O nome reflete um princípio que Froebel compartilhava com outros pensadores de seu tempo: o de que a criança é como uma planta em sua fase de formação, exigindo cuidados periódicos para que cresça de ma- neira saudável. "Ele procurava na infância o elo que igualaria todos os homens, sua essência boa e divina ainda não corrompida pelo convívio social", diz Alessandra Arce, professora da Universidade Federal de São Carlos (FERRARI, 2011, p. 1). As brincadeiras possuem lugar primordial nesse processo, o brincar leva a criança a desenvolver sua sociabilidade e abre caminho para uma melhor aprendi- zagem. Isso não lhe parece familiar? Em nossa Educação Infantil e mesmo nos Anos Iniciais, temos a brincadei- ra (jogos) como forma de desenvolver o cognitivo das crianças. Froebel nos apre- sentou isso no século XVIII, e buscamos hoje, em pleno século XXI. O alemão considerava as brincadeiras não como “apenas diversão, mas um modo de criar representações do mundo concreto com a finalidade de entendê-lo” (FERRARI, 2011, p. 1). O compartilhamento das brincadeiras, os jogos e os mate- riais eram vistos como possibilidades de crescimento e de harmonia. Ele via os jardins de infância como forma criativa de visualizar as brincadeiras. Os materiais utilizados e elaborados por esse educador eram em formas geométricas, de fácil manuseio, leves e macios. O método de educação era a importância dada ao jogo. Para Froebel, conforme Luzuriaga (1985, p. 201): O jogo é o mais puro e espiritual produto dessa fase do crescimento. É, a um tempo, modelo e reprodução da vida total, da íntima e misteriosa vida da natureza no homem e em todas as coisas. Do jogo dimanam asa fontes de tudo quanto é bom. [...] A criança que brinca tranquilamente, com espontânea atividade, resistindo a fadiga, chegará, por certo, a ser homem também ativo, resistente, capaz de sacrificar-se pelo bem pró- prio e alheio. Ferrari (2011, p. 2): As brincadeiras eram acompanhadas de músicas, versos e dança. Os objetos criados por Froebel eram chamados de "dons" ou "presentes" e havia regras para usá-los, que precisariam ser dominadas para garantir o aproveitamento pedagógico. As brincadeiras previstas por ele, eram, quase sempre, ao ar livre para que a turma interagisse com o ambiente. Podemos compreender que as crianças estariam livres e podendo expres- sar seus sentimentos. Era defendida pelo pedagogista: TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 53 Caro acadêmico! Lembra, no Tópico 1, em que tratamos do método Montessori e de Freinet? Se não lembra, cabe rever estas páginas. No pensamento desse educador, “a criança, trazia em si a semente divina de tudo o que há de melhor no ser humano. Cabia à educação desenvolver esse germe e não deixar que se perdesse” (FERRARI, 2011, p. 2). Tanto em Froebel, como em Comenius e Pestalozzi, “predomina uma visão mística e humanitária, que serve de inspiração a toda a obra” (LUZURIAGA, 1985, p. 201). Estando a frente de seu tempo, o criador do jardim de infância deu amplas coordenadas em relação à psicologia, afirmando que: “os primeiros anos de vida são os decisivos no desenvolvimento mental do homem” (LUZURIAGA, 1985, p. 201). Caro(a) acadêmico(a)! Podemos com estas palavras, mais uma vez perce- ber, que as necessidades que eram buscadas no século XVIII, estão presentes em nosso cotidiano. Buscar desenvolver nas crianças e em seus pais os valores, fazer com que as crianças tenham uma formação embasada no amor, no respeito e con- seguindo assim formar jovens e adultos conscientes e preparados para o cotidiano. As palavras que Froebel deixou em seus escritos e que são apresentados por Luzuriaga (1985, p. 203) são deextrema importância e merecem ser lembra- das: “Saibamos ver o homem no menino, consideremos a vida do homem e da humanidade na infância. Reconheçamos no menino o germe de toda a atividade futura no homem”. A partir desses pensadores, passamos a perceber que a psicologia começa a ter espaço dentro dos processos pedagógicos. Passaremos a entender este movi- mento agora. [...] a educação sem imposições às crianças porque, segundo sua teoria, elas passam por diferentes estágios de capacidade de aprendizado, com características específicas, antecipando as ideias do suíço Jean Piaget (1896-1980). Froebel detectou três estágios: primeira infância, infância e idade escolar (FERRARI, 2011, p. 2). Outro fator importante a ser apresentado, é que Froebel, foi o primeiro a apresentar ou a falar sobre “autoeducação, um conceito que só se difundiria no início do século XX, graças ao movimento da Escola Nova, de Maria Montessori (1870-1952) e Celestin Freinet (1896-1966), entre outros” (FERRARI, 2011, p. 1). DICAS UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 54 3 A DIDÁTICA E PSICOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE Caro acadêmico, chegamos à contemporaneidade, onde encontramos a Di- dática e a Psicologia caminhando lado a lado. Este movimento ficou presente na Escola Nova, o qual veio com o intuito de uma renovação na educação. Haydt (2006, p. 29) afirma que: Esse movimento tinha por base os estudos realizados pelas ciências do comportamento que vinham se afirmando. A Escola Nova foi, portanto, uma nova forma de tratar os problemas da educação geral, chegando a constituir-se num “conjunto de princípios tendentes a rever as for- mas tradicionais do ensino [...] Esses princípios derivaram de uma nova compreensão de necessidades da infância, inspirada em conclusões de estudos da Biologia e da Psicologia”. No período do surgimento da Escola Nova, a sociedade estava passando por transformações econômicas e políticas, fazendo com que as pessoas buscassem as cidades para melhores condições de vida, através de trabalhos na indústria. De acordo com Haydt (2006, p. 30): “[...] a industrialização intensificava-se, deslocando do campo para as cidades um grande contingente de população que engrossava as fileiras da classe operária emergente; a burguesia industrial firma- va-se e difundiam-se as ideias liberais”. Com essas mudanças, as escolas e a forma de ensino passam a ser vistas como um espaço voltado para a “construção política e social” (HAYDT 2006, p. 30). Podemos perceber que a Escola Nova trazia em sua filosofia práticas edu- cativas voltadas para uma nova visão de homem e de mundo. As ideias da Escola Nova tinham em seus pressupostos pedagógicos e di- dáticos os seguintes elementos, conforme Haydt (2006, p. 31-32): 1 A Pedagogia e a Didática devem desprender-se do empirismo e da rotina, ado- tando uma atitude crítica e dinâmica de investigação e reflexão constantes, no sentido de aprimorar sua prática, tanto no que concerne a seus fins como a seus meios. 2 O processo pedagógico e o trabalho didático devem basear-se nos estudos re- alizados pelas ciências do comportamento, aplicando na prática as contribui- ções da Biologia, da Sociologia e, principalmente, da Psicologia. 3 A educação, em geral, e o ensino, em particular, devem respeitar as diferenças individuais e os estágios do desenvolvimento infantil, em seus aspectos físico, cognitivo, afetivo e social. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 55 4 A ação educativa deve considerar as necessidades e interesses próprios de cada fase do desenvolvimento e respeitar as atividades naturais e espontâneas do educando, como jogos e brincadeiras. 5 A aprendizagem é um processo dinâmico, que depende da atividade men- tal do educando e que se dá por meio da mobilização de seus esquemas de pensamento. Por isso, o ensino deve apelar para a atividade mental do aluno, levando-o a observar, manipular, perguntar, pesquisar, experimentar, traba- lhar, construir, pensar e resolver situações problemáticas. Enquanto na escola tradicional a atitude do aluno era de imobilidade, passividade e receptivida- de, na Escola Nova sua atitude é de participação ativa e dinâmica. A Escola Nova preconiza o uso de métodos ativos de ensino-aprendizagem. 6 A escola deve valorizar o trabalho manual tanto quanto o trabalho intelectual, pois, além de corresponder aos interesses infantis, o trabalho manual desperta o senso de observação, a capacidade de concentração e o espírito inventivo. 7 O ensino deve centrar-se no educando, preocupando-se mais em desenvolver seus processos mentais de pensamento (observação, proposição e comprova- ção de hipóteses, espírito crítico, capacidade de analisar e julgar etc.), do que em acumular conhecimentos memorizados e sem ligação com a realidade do aluno. É através da ativação dos processos mentais que o educando chega à auto estruturação de conhecimentos significativos. 8 Para realizar um trabalho mais efetivo, a escola deve adaptar-se à comunida- de e levar em conta as condições de vida social e cultural dos alunos, pois o desenvolvimento humano é influenciado por fatores ambientais e sociais. O professor deve compreender a interdependência existente entre indivíduos e grupos. 9 A escola deve favorecer a prática das relações humanas, incentivando a livre comunicação, a cooperação e o auxílio mútuo. FONTE: Adaptado de Haydt (2006) Com relação aos pressupostos pedagógicos e princípios didáticos, pode- mos observar caro(a) acadêmico(a), que surgem dentro deste movimento vários estudiosos, psicólogos e educadores. Entre eles temos Jean Piaget e Lev Vygotsky. Estaremos falando sobre cada um de forma breve, pois você estudará ou já estu- dou sobre eles em seu Caderno de Psicologia de Desenvolvimento e da Aprendizagem. NOTA UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 56 FIGURA 16 - PIAGET FONTE: Disponível em: <http://www.projetospedagogicosdinamicos.com/ piaget.html>. Acesso em: 18 jan. 2016. Em seus escritos, Piaget apresenta o desenvolvimento do indivíduo junto à construção do conhecimento. Construção essa que está apresentada em três mo- mentos: adaptação, assimilação e acomodação. Adaptação: diante das ações e atividades cotidianas, o indivíduo intera- ge com o meio, conseguindo assim, adaptar-se para melhor sobreviver. Assim, a adaptação “é o resultado do equilíbrio entre as ações do organismo sobre o meio e das ações do meio sobre o organismo” (HAYDT, 2006, p. 33). Conforme Haydt (2006, p. 33), a adaptação possui dois subprocessos: Assimilação: é a aplicação dos esquemas ou experiências anteriores do indivíduo a uma nova situação, incorporando os novos elementos aos seus esquemas anteriores. Acomodação: é a reorganização e modificação dos esquemas assimila- tórios anteriores do indivíduo para ajustá-los a cada nova experiência. (Grifo nosso). Importante frisar que para Piaget, a inteligência, a aprendizagem e a cons- trução do conhecimento são imprescindíveis. Estão interligados, conforme Haydt (2006). Jean Piaget iniciou seus estudos na psicologia aos vinte e quatro anos “fi- cando famoso por suas pesquisas no campo da Psicologia do Desenvolvimento” (HAYDT, 2006, p. 32). TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 57 Para Piaget é a inteligência que determina o que o indivíduo vai coletar de informações e passa a reorganizá-la, conseguindo assim “compreender melhor a realidade em que vive, e nela agir, transformando-a” (HAYDT, 2006, p. 35). A aprendizagem, conforme Haydt (2006, p. 35, é “a assimilação de dados novos aos esquemas mentais anteriores, e a consequente reorganização ou reestru- turação, tanto dos dados assimilados como também dos esquemas de assimilação anteriores, para se ajustarem aos novos dados”. Já a construção do conhecimento ocorrede maneira particular em cada indivíduo. Assim, a partir de Haydt (2006, p. 36): “o processo de construção do conhecimento é essencialmente ativo, envolvendo a assimilação e acomodação e parte dos esquemas mentais, que são prolongamentos diretos da ação”. Piaget desenvolveu em seus estudos os períodos ou estágios de desenvol- vimento mental que são: Período sensório-motor: aqui a criança é egocêntrica, isto é, está centrada em si mesma “e todas as relações que estabelece são feitas em função de seu pró- prio corpo” (HAYDT, 2006, p. 39). Fase que ocorre do nascimento até os dois anos de idade. Período pré-operatório: nesta fase ocorre o surgimento da linguagem, onde a criança passa a interagir com o meio de forma mais precisa. As atividades lúdicas são fundamentais neste processo. Essa fase ocorre dos dois aos sete anos de idade. Período operatório: inicia-se por volta dos sete anos e “caracteriza-se pela formação das operações mentais, que são ações exercidas mentalmente, isto é, re- alizadas de modo interiorizado” (HAYDT, 2006, p. 44). Período das operações concretas: fase que vai dos sete aos doze anos. Nes- se período surgem as operações concretas “que são ações interiorizadas, móveis e reversíveis, cuja aplicação se limita aos objetos considerados reais, isto é, concre- tos” (HAYDT, 2066, p. 44). Período das operações abstratas ou formais: inicia por volta dos doze anos e “caracteriza-se pelo surgimento das operações intelectuais formais ou abstratas, que atingem um novo nível de equilíbrio por volta dos quinze anos, aproximada- mente” (HAYDT, 2006, p. 47). A teoria de Piaget é o embasamento do construtivismo, que trata da cons- trução do conhecimento. Junto a ele segue outro psicólogo, Lev Vygotsky, con- temporâneo de Piaget, que acredita que a linguagem é a base para uma interação eficaz, dando possibilidades de troca de experiências e de crescimento. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 58 Para maiores informações sobre Piaget e Vygotsky, busque no YouTube informa- ções que enriquecerão seu conhecimento, como: <https://www.youtube.com/watch?v=Y- Jla-2t-HRY>. Lev Vygotsky - Vida e Obra. Produzido por Olavo Augusto. Jean Piaget. Produzido por Vanessa Vídeos. Com estas observações podemos compreender que a Didática se encontra inserida em todos os momentos históricos da Educação, e nas demais ciências da educação. Caro acadêmico! O que vimos até o momento perpassou vários continen- tes, e percebemos que no Brasil, nos deparamos com influências de todos os pen- sadores que até o momento apresentamos. Assim, vamos buscar informações de como a Didática se apresentou e se apresenta no Brasil. 4 DESENVOLVIMENTO DA DIDÁTICA NO BRASIL Como em todo o mundo, o Brasil também recebeu influências de outros países, principalmente, se buscarmos o início de nossa colonização. Para melhor compreensão vamos apresentar um quadro com recortes his- tóricos apresentando os momentos mais significativos da Didática no Brasil. Bus- caremos através de material elaborado pela Professora Marluce Jacques de Albu- querque (2002) esta visão histórica. Vygotsky foi psicólogo e professor russo, que fundou a Psicologia Sócia Cultural, conhecida também como Psicologia Sócio Interacionista. Apregoou que a cultura se integra ao homem através das atividades celebrais, estimulada pelos parceiros sociais (o meio), e esse processo é mediado pela linguagem, tornando o homem verdadeiramente humano. DICAS TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 59 PERÍODO FATO BRASIL-COLÔNIA A influência maior fica a cargo dos padres Jesuítas que chegam ao Brasil em 1549, trazendo em sua bagagem a preocupação em catequizar os índios e negros. Para os colonizadores foi vista uma educação coerente a eles. É adotado o famoso plano educacional: Ratio Studiorum. O método de instrução era baseado na memorização. Foram criados colégios e seminários. IMPÉRIO E PRIMEIRA REPÚBLICA A igreja continua a controlar as instituições de ensino. A economia continuava agroexportadora. Inicia-se a troca da força de trabalho escravo pela chegada dos imigrantes. Na fase Republicana, com a Constituição de 1891, o ensino secundário fica sob responsabilidade da União, e o ensino primário e a formação do magistério primário ficam sob responsabilidade dos estados. São Paulo é o primeiro estado a se organizar com o ensino e passa a ter fortes influências da pedagogia de Herbart. DIDÁTICA APÓS A 1ª GUERRA MUNDIAL Na década de 20 inicia no Brasil o movimento da Escola Nova, tendo como precursores: Lourenço Filho, Anísio Teixeira, dentre outros. “A Didática, por sua vez, era compreendida como um conjunto de regras, com o objetivo de assegurar aos futuros docentes as orientações necessárias ao seu trabalho, separando, todavia, a teoria da prática” (ALBUQUERQUE, 2002, p. 47). NOVA FASE DA EDUCAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA CONCEPÇÃO DE DIDÁTICA Na década de 30 foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública. Em 1932 foi lançado o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. Em defesa de uma educação gratuita e pública. Na Constituição de 1934 foi elaborado um Plano Nacional de Educação que “supervisionasse e coordenasse as atividades de ensino em todos os níveis” (ALBUQUERQUE, 2002, p. 48). Criação do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), que foi coordenado por muitos anos pelo educador Anísio Teixeira. A Didática foi instituída como curso e disciplina (ALBUQUERQUE, 2002). Na década de 60 surge o método de Paulo Freire, onde as experiências da alfabetização com adultos são introduzidas, mas acaba sendo destruída pelo golpe militar. QUADRO 2 - FATOS HISTÓRICOS DA DIDÁTICA NO BRASIL UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 60 A DIDÁTICA E O GOLPE MILITAR Após o golpe de 64, a educação passa para as mãos da Segurança Nacional. Entre os anos 60 e 68, inicia a crise da Pedagogia Nova. O novo comando do país passa a utilizar-se da Pedagogia Tecnicista. A Didática passou a ser compreendida como “estratégia para o alcance dos produtos do progresso de ensino-aprendizagem. O educador e o educando deixam de ser o centro do ensino, lugar que passa a ser ocupado pelas técnicas” (ALBUQUERQUE, 2002, p .52). Nesta forma, o conteúdo de Didática fica restrito a organização racional do ensino; sendo que é o “processo que define o que professores e alunos “devem fazer”, “quando fazer” e “como fazer” (ALBUQUERQUE, 2002, p. 52). FASE FÊNIX DA DIDÁTICA Na década de 80, o ensino da Didática “ingressa em uma fase que se poderia chamar, talvez de fase síntese”. A Professora Vera Candau, em um Seminário intitulado “Didática em Questão”, realizado na PUC do Rio de Janeiro em 82, teve como objetivo central “promover uma revisão crítica do ensino e da pesquisa na Didática”. (ALBUQUERQUE, 2002, p. 55). A ideia era de passar a articular a prática com a teoria; trazer uma visão ética, humana e política da Didática; sair da visão tecnicista do ensino. O professor e o aluno saem daquele engessamento e iniciam um processo de formação do homem com relação a sua realidade. PERSPECTIVAS ATUAIS Para a atualidade a Didática deixa de ser um mero elemento técnico, ela “tem a função de esclarecer o papel sociopolítico da educação, da escola e, mais especificamente, do ensino e da aprendizagem, de acordo com os pressupostos de uma Pedagogia Transformadora: é o de trabalhar e ir além do ensino dos métodos e técnicas, procurando associar escola-sociedade, teoria- prática, conteúdo-forma, técnico-político, ensino- pesquisa, professor-aluno (ALBUQUERQUE, 2002). FONTE: Adaptado de Albuquerque, M. J. Retrospectiva histórica da didática e do educador. Revista do Departamento de Educação da Universidade Católica dePernambuco – UNICAP, n. 2, dez. 2002. Disponível em: <http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/7548/7548.PDF>. Acesso em: 23 jan. 2016. TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 61 Visto esse recorte histórico, percebemos que no Brasil, a Didática também vem buscar formas de melhor auxiliar no desenvolvimento dos trabalhos desen- volvidos no ensino aprendizagem. Estamos em um momento histórico, onde ne- cessitamos buscar uma Didática que seja uma Didática fundamental, conforme Candau, (2012). Levando a cada profissional da educação condições de adaptar seus métodos a sua realidade, sempre em busca da trama, do enlace de nossa colcha, percebendo em cada momento, a necessidade de reflexão, de postura, de identificar-se com a Didática num todo. Assim, passaremos, neste momento, a delimitar, se isso for possível, o con- ceito ou conceitos dados à Didática. 5 OS CONCEITOS DE DIDÁTICA Já vimos nos estudos realizados até o momento, que o homem, para con- seguir repassar suas informações e conhecimentos às gerações futuras, utilizou-se inicialmente da linguagem, passando para a escrita e assim chegando à necessi- dade de ordenar essas informações, criando a escola, “ instituição social criada, especificamente, para educar e ensinar” (HAYDT, 2006, p. 12). Para tanto, vê-se a necessidade de desenvolver nas escolas processos de ensino aprendizagem que auxiliem na construção do conhecimento do aluno. Desse modo, podemos compreender que a Didática “é a ciência e a arte do ensino” (HAYDT, 2006, p. 13). O ensino que é uma ação definida e organizada; passando a considerar o ensino como objeto da Didática; conforme Haydt (2006, p. 12). Para Libâneo (2010, p. 144): A Didática tem como objeto de estudo o processo de ensino na sua glo- balidade, isto é, suas finalidades sociopedagógicas, princípios, condi- ções e meios de direção e organização do ensino e da aprendizagem pelos quais se assegura a mediação docente de objetivos, conteúdos, métodos, em vista da efetivação da assimilação consciente de conheci- mentos. Nesse sentido, define-se como direção do processo de ensinar, no qual estão envolvidos, articuladamente, fins imediatos (instrutivos) e mediatos (formativos) e procedimentos adequados ao ensino e à aprendizagem. Ou seja, a atividade teórica e a atividade prática que se unificam nas práxis de quem ensina. Podemos compreender que o ensino é a preocupação da Didática, pois Do- mingo (1991, p. 16) apud Libâneo, (2010, p. 144), define ensino como: “uma prática humana que compromete moralmente quem a realiza”, assim como é uma prática social, uma vez que responde às necessidades, funções e determinações que estão para além das instituições e previsões dos atores diretos da mesma”. Importante UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 62 salientar também que a partir dessas observações podemos compreender que a Didática é uma “disciplina eminentemente pedagógica” (LIBÂNEO, 2010, p. 144). A Didática dentro dessa perspectiva, passa a ser compreendida como dis- ciplina que tem: [...] intersecção entre a teoria educacional e as metodologias específicas das matérias (ou de temas), nas quais os problemas específicos do ensi- no das distintas matérias se esclarecem e se particularizam sob caracte- rísticas comuns, básicas, da atividade pedagógica e, em particular, do processo de ensino e aprendizagem (LIBÂNEO, 2010, p. 145). Simplificando, podemos entender que a Didática liga a teoria à prática. Em leitura realizada, encontramos em Haydt (2006, p. 13) um parágrafo que determina ou compara a Didática como uma moeda, ficando assim apresenta- do a relação que esta tem com o ensinar e aprender: Ensinar e aprender são como duas faces de uma mesma moeda. A Didá- tica não pode tratar do ensino, por parte do professor, sem considerar simultaneamente a aprendizagem, por parte do aluno. O estudo da di- nâmica da aprendizagem é essencial para uma Didática que tem como princípio básico não a passividade, mas sim a atividade da criança. Por isso, podemos afirmar que a Didática é o estudo da situação instrucio- nal, isto é, do processo de ensino e aprendizagem, e nesse sentido ela enfatiza a relação professor – aluno. Diante dessas exposições há mais uma autora, que nos faz repensar sobre a Didática, saindo da Didática Instrumental para uma Didática Fundamental sendo a mesma que utilizamos para nos situar nos momentos históricos da Didática no Brasil. A autora é Candau, (2012, p. 13) que afirma: “este é, a meu ver, o desafio do momento: a superação de uma Didática exclusivamente instrumental e a cons- trução de uma Didática Fundamental”. Para melhor compreensão vamos buscar ainda em Candau (2012, p. 13 e 14) as definições para cada perspectiva. A Didática numa perspectiva instrumental é concebida como um con- junto de conhecimentos técnicos sobre o “como fazer” pedagógico, conhecimentos esses apresentados de forma universal e, consequente- mente, desvinculados dos problemas relativos ao sentido e aos fins da educação, dos conteúdos específicos, assim como do contexto sociocul- tural concreto em que foram gerados”. A Didática Instrumental tem como embasamento as técnicas, meramen- te mecanizadas, ela chega a ser entendida como Comenius apresentava em seu tratado “Didática Magna” – “um artifício universal para ensinar tudo a todos” (CANDAU, 2012, p. 14). TÓPICO 2 | EVOLUÇÃO E CONCEITOS DA DIDÁTICA 63 Para Candau (2012, p. 14-15), a Didática Fundamental, passa a ser uma di- dática alternativa, a qual busca como ponto de partida a multidimensionalidade, que trata o processo ensino e aprendizagem dentro de três dimensões: “técnica, humana e política” (CANDAU,1984, p, 21 apud CANDAU,2012, p. 15). Ainda para Candau (2012, p. 15) a “dimensão técnica da prática pedagógica, objeto da Didáti- ca, tem que ser pensado à luz de um projeto ético e político-social que a oriente”. Para que a Didática Fundamental tenha sequência e êxito, é necessária que se tenha como ponto de partida as problemáticas educacionais concretas, a preocupação com a contextualização da prática pedagógica, procurar analisar as diferentes abordagens metodológicas, buscar análise de experiências concretas – trazendo a ligação da teoria com a prática e a busca de uma eficiência pedagógica, com o compromisso de transformação social (CANDAU, 2012, p. 15-17). Após várias definições de grandes personalidades da educação brasileira, podemos perceber que a Didática suscita muitos debates em nosso cotidiano. Para tanto se faz necessário um aprofundamento por parte de todos os profissionais da educação no sentido de compreender a Didática como instrumental e funda- mental, pois assim teremos condições de reformular nossos trabalhos enquanto profissionais da educação. Caro acadêmico! Podemos compreender que a Didática segue seu percur- so, dando possibilidades de mudanças, não se mantendo engessada no processo ensino e aprendizagem. Daremos, na próxima unidade, sequência as outras questões que são de ex- trema necessidade visualizarmos e refletirmos. As questões a serem evidenciadas estão relacionadas ao professor dentro do contexto didático. 64 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você estudou que: • Na linha histórica da Didática temos alguns pensadores a serem evidenciados como: Sócrates (século V a.C.). Para este filósofo, não ocorre uma mera transmis- são de ideias, para ele o “saber, o conhecimento, é uma descoberta que a própria pessoa realiza. Conhecer é um ato que se dá no interior do indivíduo” (HAYDT, 2006, p. 15). • Sócrates construiu um método que é conhecido como método socrático que foi nomeado de “ironia”, que possui dois tempos: a refutação e a maiêutica. • João Amós Comenius (1592-1670) é conhecido como o pai da didática. • Podemos ainda perceberque para Comenius, “o homem não pode chegar a ser homem se não for educado”. “Ninguém pode crer que é verdadeiro homem a não ser que haja aprendido a formar-se” (LUZURIAGA, 1985, p. 139). • Comenius teve uma longa caminhada como professor, e dentro dessa sua vivên- cia educacional, escreveu uma de suas maiores obras, que ainda hoje se busca referência, a “Didática Magna”, que é vista como um tratado e publicada em 1632. • Para Comenius o objetivo da Didática é investigar e descobrir o método segun- do o qual os professores ensinem menos e os alunos aprendam mais; nas escolas haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atrativo e sólido progresso; na Cristandade haja menos trevas, menos confusão, menos dissídios, mais luz, mais ordem, mais paz e mais tranquilidade (COMENIUS, 2001, p. 12). • Johann Heinrich Pestalozzi preocupava-se com a formação do homem integral, acreditava que a formação do homem se dá de forma natural, do “aprender fa- zendo”. • Cabe ressaltar que o método partia do que já era conhecido para algo novo, do concreto, para o abstrato. • O Método de Pestalozzi consiste em: do mais fácil e simples, para o mais difícil e complexo, do conhecido para o novo e do concreto para o abstrato, o ideal é aprender fazendo. O processo educativo deve englobar três dimensões huma- nas para uma formação também tripla: intelectual, física e moral. O método de estudo deveria reduzir-se a seus três elementos mais simples: som, forma e nú- 65 mero (posteriormente a linguagem); nas suas escolas não havia notas ou provas, castigos ou recompensas; mais importante que o conteúdo, o desenvolvimento das habilidades e dos valores. • John Frederick Herbart (1776-1841): o ser humano é uma unidade e não um ser compartimentalizado, a partir de seu nascimento passa a conviver com todas as possibilidades de situações, conseguindo assim reagir “de forma global” (HAY- DT, 2006, p. 20), através do amadurecimento de seu sistema nervoso. • Herbat, na atividade educativa, aponta três momentos cruciais. São eles: o go- verno, a instrução e a disciplina. Ele é o criador do Método de Interesses. • Os cinco passos que caracterizam um ensino eficaz para Herbart são: a) Preparação: ao professor cabe instigar seu aluno pelo que sabe e assim conse- guir abrir novas possibilidades na obtenção de novos conteúdos. b) Apresentação: Com a estimulação do aluno junto ao que sabe, o professor apre- senta novo conteúdo que tenha ligação com o que já foi obtido pelo aluno. c) Associação: O aluno realiza neste momento uma junção do que já sabia com o novo conteúdo. d) Sistematização: O aluno ao assimilar o conteúdo realiza uma ligação do que já sabe com o novo e assim constrói novos conhecimentos. e) Aplicação: Ao aluno é realizada avaliações através de provas que determinam se o mesmo adquiriu novos conhecimentos. • Friederich Froebel (1782-1852) é considerado o “pai do jardim de infância”. Pos- suía uma maneira romântica de ver a sua filosofia pedagógica (HILGENHE- GER, 2010, p. 11). • Froebel é considerado o Pai do Jardim da Infância. Froebel vê: “o início da infân- cia como uma fase de importância decisiva na formação das pessoas – ideia hoje consagrada pela psicologia, ciência da qual foi precursor”. • Froebel via os jardins de infância como forma criativa de visualizar as brinca- deiras. Os materiais utilizados e elaborados por Froebel, eram em formas geo- métricas, de fácil manuseio, leves e macios. • Escola Nova: a sociedade estava passando por transformações econômicas e políticas, fazendo com que as pessoas buscassem as cidades para melhores con- dições de vida, através de trabalhos na indústria. • A Escola Nova trazia em sua filosofia práticas educativas voltadas para uma nova visão de homem e de mundo. • Dentro da Didática, podemos observar que a Psicologia passa a ser vista com maior ênfase a partir do século XX através dos psicólogos Jean Piaget e Lev Vy- 66 gotsky. • O homem, para conseguir repassar suas informações e conhecimentos as gera- ções futuras utilizou-se inicialmente da linguagem, passando para a escrita e assim chegando a necessidade de ordenar estas informações, cria a escola, “ins- tituição social criada, especificamente, para educar e ensinar” (HAYDT, 2006, p. 12). • Para Libâneo (2010) a Didática tem como objeto de estudo o processo de ensino na sua globalidade, isto é, suas finalidades sociopedagógicas, princípios, condi- ções e meios de direção e organização do ensino e da aprendizagem pelos quais se assegura a mediação docente de objetivos, conteúdos, métodos, em vista da efetivação da assimilação consciente de conhecimentos. • Para Haydt (2006) ensinar e aprender são como duas faces de uma mesma moe- da. A Didática não pode tratar do ensino, por parte do professor, sem considerar simultaneamente a aprendizagem, por parte do aluno. O estudo da dinâmica da aprendizagem é essencial para uma Didática que tem como princípio básico não a passividade, mas sim a atividade da criança. Por isso, podemos afirmar que a Didática é o estudo da situação instrucional, isto é, do processo de ensino e aprendizagem, e nesse sentido ela enfatiza a relação professor – aluno. • Para Candau (2012) a Didática necessita ser reformulada, saindo da Didática Instrumental, para uma Didática Fundamental. A Didática Instrumental é vista como mera utilização de técnicas. Já a Didática Fundamental busca seu embasa- mento dentro de um projeto ético, político e social. 67 Com relação à Didática, como você compreende essa disciplina. Ela necessita de reformulação ou pode ser mantida de maneira meramente instru- mental? E cabe a quem essa reformulação? AUTOATIVIDADE 68 69 TÓPICO 3 IDENTIDADE DOS PROFESSORES 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico! Diante do que já foi exposto, percebemos que a Pedagogia e a Didática passaram por vários momentos históricos (políticos, sociais), dando assim a possibilidade de reformulação. É impossível deixarmos de falar também, dentro da Didática, seus elemen- tos principais, o professor e o aluno, figuras que são determinantes para que o processo ensino aprendizagem dentro da estrutura escolar ocorra. Outros elementos a serem evidenciados aqui são o processo pedagógico, e o didático, além da interação professor-aluno e demais membros da instituição escolar. Com essas observações podemos então continuar nossa caminhada obser- vando o papel do professor dentro do processo ensino aprendizagem. E isso é de extrema importância para você, acadêmico(a), pois sobre você, enquanto profissional, que estaremos falando agora. 2 O PAPEL DO PROFESSOR Quando falamos em professor, não estamos falando somente de uma figu- ra catedrática, mas sim de um ser que possui sua identidade, que nos parece em muitos momentos históricos, ter sido visto como o centro do ensino, como o úni- co detentor do saber, com a Pedagogia Tradicional, e em outros momentos como mero cuidador. A identidade profissional do professor necessita ser observada, analisada e refletida por cada um de nós. Carlos Marcelo (2009, p. 2) afirma que “Considero importante essa reflexão porque é através de nossa identidade que nos percebemos, nos vemos e queremos que nos vejam”. UNIDADE 1 UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 70 Dessa forma, podemos determinar que a identidade do professor é cons- truída em seu meio, em seu momento histórico-social. Cabe a ele, posicionar-se dentro do contexto histórico, buscando a todo o momento a reformulação de seus conceitos, de sua visão enquanto profissional da educação. Essa busca incessante, é que torna a profissão de professor, algo rico e instigante. O “Ser Professor” nos remete a cada dia, num mesmo espaço, a momentos inusitados, eque de uma forma ou outra necessitamos nos posicionar e tentar en- contrar respostas para solucionar ou direcionar as possíveis situações. Ainda conforme Carlos M. (2009, p. 2): É preciso entender o conceito de identidade docente como uma reali- dade que evolui e se desenvolve, tanto pessoal como coletivamente. A identidade não é algo que se possua, mas sim algo que se desenvolve durante a vida. A identidade não é um atributo fixo para uma pessoa, e sim um fenômeno relacional. O desenvolvimento da identidade aconte- ce no terreno do intersubjetivo e se caracteriza como um processo evo- lutivo, um processo de interpretação de si mesmo como pessoa dentro de um determinado contexto. Podemos afirmar que “Ser Professor” acarreta mudanças interiores, as quais nos dão possibilidade de nos vermos como profissionais da educação, de- senvolvendo maneiras de como desempenhar seu papel no cotidiano. Além das mudanças interiores ocorridas no professor, temos também que perceber que o professor não é uma “ilha, cercada somente de alunos por todos os lados”; mas sim cercado de coletividade. Essa coletividade entendida pelos seus colegas de trabalho, os alunos, gestores e comunidade. É importante compreender que ser professor é buscar a cada momento, o diálogo junto à comunidade escolar e fora dela, para que ocorram mudanças e que o processo ensino aprendizagem seja mais agradável. É evoluir, é buscar formas de entendimento educacional e pessoal. Estamos trabalhando com pessoas e não máquinas. Celso Antunes (2009) trata (de maneira fictícia) o papel que o profissional da educação pode vir a ser, ou já o é. Para ele existem professores e “professauros”. Parece-lhe engraçado? Pois bem, vamos entender melhor estas palavras. Para Antunes (2009, p. 13-14) as diferenças entre os dois são: TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 71 SITUAÇÕES PROFESSOR PROFESSAUROS Quanto ao ano letivo que se inicia... [...] uma oportunidade ímpar de aprender e crescer, um momento mágico de revisão crítica e decisões corajosas. [...] o angustiante retorno a uma rotina odiosa, o eterno repetir amanhã tudo quanto de certo e de errado se fez ontem. Quanto aos alunos que acolhem... [...] a alegria de percebê-los cada vez mais sabidos e curiosos e a vontade de fazê- los efetivos protagonistas das aulas que ministrarão. A certeza de que não os ensinarão, mas poderão contribuir de forma decisiva para iluminar suas inteligências e afiar suas muitas competências. [...] nada mais que chatíssimos clientes que transformados em espectadores pensarão sempre mais na indisciplina que na aprendizagem, na vagabundice que no crescimento interior. Quanto às aulas que deverão ministrar... [...] um momento especial, para propor novas situações de aprendizagens pesquisadas e através dessas, provocar reflexões, despertar argumentações, estimular competências e habilidades. [...] nada além que a repetitividade de informações que estão nos livros e apostilas e a solicitação de esforço agudo das memórias para acolher o que se transmite, ainda que sem qualquer significação e poder de contextualização ao mundo em que se vive. Quanto aos saberes que se trabalhará... [...] um volume de informações que necessitará ser transformado em conhecimentos, uma série de veículos para que com eles se aprenda a pensar, criar, imaginar e viver. [...] trechos cansativos de programas estáticos que precisam ser ditos, ainda que não se saiba por que fazê-lo. Quanto à vida que se vive e os sonhos que se acalantam... [...] desafios a superar, esperanças a aguardar, conhecimentos para cada vez mais se aprender, a fim de se fazer da arte de amar o segredo do vier. [...] a rotina de se trabalhar por imposição, casar por obrigação, fazer filhos por tradição, empanturrar-se para depressa se aposentar e quanto antes morrer. QUADRO 3 - AS DIFERENÇAS ENTRE PROFESSOR E PROFESSAUROS FONTE: Antunes, Celso. Professor e professauros: reflexões sobre a aula e práticas pedagógicas diversas. 2009. Petrópolis: Vozes, 2009. Caro acadêmico! Imaginamos que você esteja se posicionando dentro des- se quadro. Não é mesmo? Se você, ainda não iniciou seus trabalhos, como profes- sor, busque posicionar-se da mesma forma. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 72 Frente ao que Celso Antunes (2009) nos apresentou nas categorias de pro- fessor e professauros, podemos compreender que mesmo, em pleno século XXI, ainda nos deparamos com profissionais que acreditam que continuar com os mes- mos métodos é suficiente para abarcar o que os alunos necessitam, que é o conhe- cimento. Percebemos que para sermos professores é necessário, sem sombra de dú- vida a entrega e a abertura para as mudanças. Realizar a “metamorfose”, como Raul Seixas cantou “Ser a Metamorfose” para que todo o profissional seja visto percebido e reconhecido como PROFESSOR. FIGURA 17 - METAMORFOSE FONTE: Disponível em: <http://jornalggn.com.br/blog/centro-de-referencias-em- educacao-integral/7-professores-que-transformam-o-educar-e-o-aprender>. Acesso em: 18 mar. 2016. Para tanto, é necessário que estes profissionais da educação, estejam conec- tados, com as mudanças sociais, políticas, econômicas. Podemos considerar o que Morin, em seu livro “A Cabeça Bem-Feita” (2002), nos diz com relação aos desafios enfrentados pelos professores em seu tra- balho e podemos considerar em sua vida pessoal, onde ele expressa que o desafio dos desafios é a “reforma do pensamento”. Essa reforma pode ser compreendida como a necessidade de abertura intelectual, é preciso que tenhamos desejo de mu- dança, deixar o que nos engessa para trás e buscar o novo. Esse é um dos desafios de “Ser Professor”. Estamos em um novo momento histórico, as informações nos chegam inin- TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 73 terruptamente. A cada momento, estamos sentido que os “conhecimentos têm data de validade, e isso nos obriga, agora mais que nunca, a estabelecer ga- rantias formais e informais para que os cidadãos e profissionais atua- lizem constantemente sua competência. Ingressamos numa sociedade que exige dos profissionais uma permanente atividade de formação e aprendizagem” (CARLOS MARCELO, 2009, p. 1) Assim sendo, caro acadêmico, necessitamos nos aperfeiçoar a todo instan- te. Ser professor é ter a capacidade de buscar novos conhecimentos, reformular-se. Mas como? Através de encontros com seus colegas de trabalho, que denominamos como grupo de estudos, formações continuadas, as quais serão apresentadas com maior profundidade na Unidade 2 deste Caderno de Estudos. Tratando-se da identidade do professor, neste século XXI, nos encontra- mos com diversas possibilidades e situações a serem estudadas e desmistificadas, no sentido de buscar a identidade do SER PROFESSOR. Para isso buscamos um pequeno texto que nos auxiliará no entendimento e caminhos para realizarmos ou nos compreendermos como professores neste sé- culo XXI. Como deve ser o Professor do Século XXI O artigo traz reflexão sobre o papel social do professor neste século XXI. Em verdade, o professor perdeu o prestígio social. Hoje é figura apática, perdeu as cores que outrora o faziam cidadão excelso, bem como viu abaterem sua capaci- dade e autoridade em terreno pouco fértil. Todavia, continua a ser figura impres- cindível no mundo, pois não há ensino-aprendizagem sem professor. Então, como resolver esse conflito entre o desprestígio e o necessário ao mundo educacional? Como deve ser o professor do século XXI? O mundo contemporâneo apresenta mudanças que afetam todos os setores da sociedade, inclusive o educacional. Essas mudanças, irreversíveis, estão rela- cionadas ao desenvolvimento das Tecnologias deInformação e Comunicação, que instituem diferentes concepções de tempo e de espaço e possibilitam ao professor desenvolver novas práticas pedagógicas. É necessário, então, que os professores do século XXI, em primeiro lugar, adquiram fluência tecnológica – vinculada à reflexão e ao uso de ferramentas digitais – e sejam os profissionais que o mundo globalizado está a exigir. Assim, a função do bom professor do século XXI não é apenas a de ensi- nar, mas de levar seus alunos ao reino da contemplação do saber. Para tanto, deve UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 74 caminhar, com passos firmes, entre o desenvolvimento tecnológico e suas práticas pedagógicas. Há trilhas importantes rumo ao desenvolvimento humano, quais se- jam: 1º - Aprimorar o educando como pessoa humana - A grande tarefa do professor não é a de instruir, mas a de educar o aluno como pessoa humana que vai traba- lhar no mundo tecnológico. Um mundo povoado de corações, dores, incertezas e inquietações. A escola não pode mais se limitar a educar pelo conhecimento desti- tuído da compreensão do homem real, de carne e osso, corpo e alma. Pois de nada adianta o conhecimento bem ministrado em sala de aula, se fora da escola o aluno se torna um homem brutalizado, desumano e patrocinador da barbárie. 2º - Preparar o educando para o exercício da cidadania - O cidadão não começa quando os pais registram seus filhos no cartório nem quando os filhos, aos dezoito anos, tiram suas carteiras de identidade civil. A cidadania começa na escola, desde os primeiros anos da educação infantil e se estende à educação superior, nas uni- versidades. 3º - Construir uma escola democrática - Os professores devem ter na gestão demo- crática um princípio primordial, que não arredam pé, não abram mão. Quem exer- cita a democracia, em pequenas unidades escolares, constrói um espaço próprio e competente para assumir responsabilidades maiores na estrutura do Estado. 4º - Qualificar o educando para progredir no mundo do trabalho - A escola, por meio de seus professores, poderá qualificar o aluno para aprender a progredir no mundo do trabalho, ensinando-o a dar respostas às novas demandas sociais, sem medo de perdas, sem medo de mudar, sem medo de se qualificar, sem medo do novo, principalmente o novo que vem nas novas ocupações e empregabilidade. 5º - Fortalecer a solidariedade humana - É papel da escola favorecer a solidarie- dade, mas não a solidariedade de ocasião, que nasce de uma catástrofe, mas do laço recíproco e cotidiano e de amor entre as pessoas. A solidariedade que chega como adesão às causas maiores da vida, principalmente as referentes à existência humana. 6º - Fortalecer a tolerância recíproca - Um dos mais importantes princípios de quem ensina e trabalha com crianças, jovens e adultos, é o da tolerância, sem o qual todo magistério perde o sentido de ministério, de adesão aos processos de formação do educando. A tolerância começa na aceitação, sem reserva, das di- ferenças humanas, expressas na cor, no cheiro, no falar e no jeito de ser de cada educando. 7º - Zelar pela aprendizagem dos alunos - O domínio de conhecimento não deve estar dissociado da capacidade de ensinar, de fazer aprender. De que adiante o conhecimento e não saber, de forma autônoma e crítica, aplicar as informações? O conhecimento não se faz apenas com metalinguagem, com conceitos a, b ou c, TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 75 e sim, com didática, com pedagogia do desenvolvimento do ser humano, sua me- diação fundamental. 8º - Colaborar com a articulação escola/família - O professor do novo milênio não é mais pedestal, dono da verdade, representante de todos os saberes, capaz de dar respostas para tudo. Ele deve articular-se com as famílias de alunos, na busca de contornar situações desafiadoras em sala de aula. 9º - Participar ativamente da proposta pedagógica da escola - A proposta pedagó- gica não deve ser exclusividade dos diretores da escola. Cabe ao professor parti- cipar dela, até mesmo para definir, de forma clara, os grandes objetivos da escola para seus alunos. 10º - Respeitar as diferenças - Se de um lado levanta-se a bandeira da tolerância, como um dos princípios do ensino, o respeito às diferenças conjuga-se com esse princípio, de modo a favorecer a unidade na diversidade, a semelhança na desse- melhança. Nesse cenário do século XXI, o educador deve ter a preocupação de reedu- car-se de forma contínua, uma vez que a sociedade ainda traz, no seu tecido social, as teorias da homogeneidade para as realizações humanas, teoria que, depois de 500 anos, conseguiu apenas reforçar as desigualdades sociais. A missão do pro- fessor é dizer que as pessoas podem amar, viver e ser felizes com as diferenças, pois nelas poderão ser encontradas muitas semelhanças históricas e ancestrais. As diferenças podem somar valores e multiplicar gestos de fraternidade e paz entre as pessoas. Enfim, os professores precisam adquirir novas competências e habili- dades para que os alunos possam aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser - aprendizagens fundamentais à Educação para o século XXI. FONTE: LESSA, L. Como ser professor no século XXI. Disponível em: <http://www.gos- todeler.com.br/materia/13965/como_deve_ser_o_professor_do_seculo_xxi.html>. Acesso em: 19 jan. 2016. Após essa análise enquanto identidade do professor no século XXI, pode- mos perceber que esse profissional na busca pela melhoria de sua atividade, seu olhar está sempre voltado no aluno, em seu trabalho. Esse trabalho que é desen- volvido pelo professor e recai no aluno, faz surgir uma relação entre educador e educando, um movimento denominado interação. É essa interação que estaremos tratando neste momento. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 76 3 INTERAÇÃO PROFESSOR E ALUNO NO COTIDIANO ESCOLAR Nos espaços escolares, tanto como professor, como aluno, nos encontra- mos, dialogamos, trocamos olhares, buscamos nos informar como cada um está. Há risos, abraços, confusão, críticas, decepções, e muitas alegrias. Esse movimento apresentado é de suma importância para a formação do aluno, a qual ocorre em todos os momentos de sua vida e em todos os lugares e em grupos sociais. Não é diferente na escola. Segundo Haydt (2006, p. 55): A formação das crianças e dos jovens ocorre por meio de sua participa- ção na rede de relações que constitui a dinâmica social. É convivendo com pessoas, seja com adultos ou com seus colegas – grupos de brin- quedo ou de estudos –, que a criança e o jovem assimilam conhecimen- tos e desenvolvem hábitos e atitudes de convívio social, como a coope- ração e o respeito humano. Daí a importância do grupo como elemento formador. Junto a isso, encontramos a sala de aula, onde professor e aluno, intera- gem, formando assim um grupo. De acordo com Haydt (2006, p. 55), “Cada classe constitui também um grupo social”. Esse grupo social faz com que aconteça, neste espaço – sala de aula – a interação entre professor e aluno, aluno e aluno. Tente relembrar quando você ainda estudava, nos anos iniciais. Que lem- branças você possui? De professores, das atividades, dos amigos, das brincadeiras? Pare um pouco e pense... Sabemos que nossas lembranças vagueiam e acabamos lembrando aquilo que mais nos marcou. No livro de Georges Gusdorf (1970, p. 7) ele apresenta uma passagem interessante e que vai nos auxiliar nessa caminhada do entendimento da interação entre professor e aluno. Assim diz: Cada um de nós conserva imagens inesquecíveis dos primeiros dias de aula e da lenta odisseia pedagógica a que se deve o desenvolvimento do nosso espírito e, em larga medida, a formação da nossa personalidade. O que nos ensinaram, a matéria desse ensino, perdeu-se. Mas se, adul- tos, esquecemos o que em criançasaprendemos, o que nunca desapare- ce é o clima desses dias de colégio: as aulas e o recreio, os exercícios e os jogos, os colegas”. Compreende-se com essas palavras, que independente de termos ou não lembranças dos professores que fizeram parte de nossa vida escolar, a maior parte das lembranças que nos vem à mente são dos colegas, dos momentos felizes, em outros tristes, das bagunças. Independente de termos as lembranças dos conteú- dos, cabe salientar que a escola tem também o papel socializador. O clima entre os TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 77 colegas, entre os alunos e professores são as lembranças mais bonitas que possuí- mos da escola na vida adulta, que arranca muitos sorrisos. Com relação a essa fala, a professora Haydt (2006, p. 56) possui uma afir- mação sobre a interação: Isso ocorre por que é durante este convívio, isto é, são nesses momen- tos de interação, instantes compartilhados e vividos em conjunto, que o domínio afetivo se une a esfera cognitiva e o aluno age de forma in- tegral, como realmente é, como um todo. Ou seja, ele age não só com a razão, mas também com os sentimentos e as emoções. Portanto, nesse momento de interação, de convívio, de vida em conjunto, o aluno torna- -se presente por inteiro, pois a razão e os sentimentos se unem, guiando seu comportamento. Caro acadêmico! Falando ainda sobre a interação professor e aluno, nos remetemos diretamente ao ato de ensinar e aprender. Ato esse que vem carregado de interação, onde a relação que se realiza entre os elementos (professor e aluno) dão o tom para uma aprendizagem significativa. Dessa forma, buscamos em Charlot (2000, p. 67) a definição relacionada ao aprender em sua extensão: “Aprender, sob qualquer figura que seja, é sempre aprender em um momento de minha história, mas, também, em um momento de outras histórias: as da humanidade, da sociedade na qual vivo, do espaço no qual aprendo, das pessoas que estão encarregadas de ensinar-me. Continua a autora: “A relação pedagógica é um momento, isto é, um conjunto de percepções, de repre- sentações, de projetos atuais que se inscrevem em uma apropriação dos passados individuais e das projeções – que cada um constrói – do futuro”. (2000, p. 68). Com isso podemos compreender que o momento de aprender ocorre em qualquer espaço, em qualquer situação, a qual nos remete a possibilidade de novas construções, de reformulação de novas ideias e assim desenvolver uma relação de troca entre professores, aluno, comunidade e mundo, pois não vivemos isolados. Lembre-se de quando falamos sobre Vygotsky, relacionado às linguagens, eis um exemplo, a linguagem é o meio para a construção de novos conhecimentos e inte- rações. Trazemos o parecer de Haydt (2006, p. 57) quando tratamos do processo de interação na construção do conhecimento: No processo de construção do conhecimento, o valor pedagógico da in- teração humana é ainda mais evidente, pois é por intermédio da relação professor-aluno e da relação aluno-aluno que o conhecimento vai sendo coletivamente construído. O educador, na sua relação com o educando, estimula e ativa o interesse do aluno e orienta o seu esforço individual para aprender. Cabe ao professor observar que a interação possui duas funções na relação com seu aluno: UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 78 • Uma função incentivadora e energizante, pois ele deve aproveitar a curiosidade natural do educando apara despertar o seu interesse e mo- bilizar seus esquemas cognitivos (esquemas operativos de pensamen- to); • Uma função orientadora, pois deve orientar o esforço do aluno para aprender, ajudando-o a construir seu próprio conhecimento (HAYDT, 2006, p. 57). Podemos perceber que enquanto professores, ultrapassamos a ideia do so- mente repassar informações, e sim desenvolver no aluno a sua criatividade, tirar os conhecimentos que possui da zona de conforto e transformá-los, instigando-o, conseguindo assim a transformação desse conhecimento. O professor também é uma pessoa que possui seus valores e princípios, o qual aprende com o aluno e com o mundo, e que acabam levando esses valores e princípios para o espaço escolar. Dentro de seu trabalho pedagógico, o professor interage com os alunos, e conforme Haydt (2006, p. 58): [...] ao se relacionar com a classe como um todo, o professor não apenas transmite conhecimentos, em forma de informações, conceitos e ideias (aspecto cognitivo). Mas também facilita a veiculação de ideias, valores e princípios de vida (elementos da esfera afetiva), contribuindo para a formação da personalidade do educando. Dessa forma a responsabilidade do professor em sua caminhada pedagó- gica possui um envolvimento tanto cognitivo como afetivo. Dando assim, a pos- sibilidade de ocorrer dentro desta interação professor x aluno, aluno x aluno, um desenvolvimento em todos os níveis: social, pessoal e de grupo. O aluno está em pleno desenvolvimento, buscando respostas para muitas de suas dúvidas, está em construção individual (afetiva); numa construção social (relação com colegas e professores, família). Para tanto, observamos que essa cons- trução só poderá ocorrer de forma positiva, se existir um elemento essencial neste processo: o diálogo. Para continuarmos nossa ligação histórica, vamos relembrar um pouco so- bre a Paideia. Vimos sobre ela no Tópico 1, onde a base do desenvolvimento do conhecimento se dava através do diálogo. Conforme Abbagnano (2000, p. 274), o sentido de diálogo não é: [...] somente uma das formas pelas quais se pode exprimir o discurso filosófico, mas a sua forma típica e privilegiada, isso porque não se trata de discurso feito pelo filósofo para si mesmo, que o isole em si mesmo, mas de uma conversa, uma discussão, um perguntar e responder entre pessoas unidas pelo interesse comum da busca. Frente a essa citação, enquanto professores, podemos nos questionar: de que forma estamos dialogando com nossos alunos? Buscamos através do diálogo TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 79 aguçar a sua curiosidade com relação ao tema abordado? Os diálogos são na pers- pectiva da busca por novos conhecimentos? Aprendemos também com o aluno neste diálogo, nestas trocas de energias? Com essas perguntas, passamos a nos avaliar enquanto profissionais da educação e assim poderemos compreender que o diálogo é algo mais que a sim- ples troca de sons, é algo que precisa ser compreendido como elemento base da construção do conhecimento no processo ensino e aprendizagem. Nos diálogos construídos dentro e fora da sala de aula, o professor tem a possibilidade de conhecer o aluno em sua vida cotidiana, em seus atos, conseguin- do assim, subsídios para que auxilie de maneira mais clara e objetiva o conheci- mento e a interação com educandos. De acordo com Haydt (2006, p. 59): Esse encontro do professor com o aluno poderá representar uma situa- ção de intercambio bastante proveitosa para ambos, em que o conheci- mento será construído em conjunto ou ao contrário, poderá se transfor- mar num verdadeiro duelo, num defrontar de posições pouco ou nada proveitoso para ambos. Em muitos casos, os duelos podem ser através de uma observação mais cuidadosa do professor em relação ao seu aluno. Criar momentos de embate é interessante, mas que não cheguem ao ponto de fazer com que aluno e professor troquem farpas e se digladiem em sala de aula. Construir o conhecimento com debates, sim; desenvolver momentos de fúria, não. Parece que são muitas as responsabilidades que são apresentadas a nós. E são. Enquanto professores, necessitamos saber que a eficiência de nosso trabalho junto aos alunos dependerá da postura que tivermos acoplada ao grupo. Para tan- to, Haydt (2006, p. 61) enfatiza que: De nada adiante conhecer novos métodos de ensino, usar recursos au- diovisuais modernos,se encaramos o aluno como um ser passivo e re- ceptivo. Portanto, nossa forma de ensinar e de interagir com os alunos vai depender do modo como os concebermos (seres ativos ou passivos?) e da maneira como encaramos sua atuação no processo de aprendiza- gem. Assim, sendo, você, acadêmico, que já é professor ou irá galgar essa linda profissão, precisa se autoavaliar constantemente, saber observar o meio em que você se encontra junto a seus alunos, reconhecer-se como professor, analisar o seu fazer pedagógico, ter uma postura ética frente a seus colegas e a toda comunidade escolar. Mantendo esta postura ética e pedagógica, poderemos construir junto com nossos alunos uma estrutura que conseguirá abarcar para aquele momento histó- rico em que nos encontramos alunos com criticidade, curiosidade, abertos e perce- bendo-se como construtores de sua própria história. UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 80 Conseguindo como afirma Haydt (2006, p. 61): “Quando o professor conce- be o aluno como um ser ativo, que formula ideias, desenvolve conceitos e resolve problemas de vida prática através de sua atividade mental, construindo, assim seu próprio conhecimento, sua relação pedagógica muda”. Haydt (2006) ainda nos coloca que o professor deve partir do que o aluno já sabe para que exponha seus conhecimentos, dando ao professor a possibilidade de a partir deles auxiliá-lo na formação de novos conhecimentos levando-os a níveis estruturados e sistematizados. Para tanto, faz-se necessária uma relação dialógica, onde ocorre a troca e a reconstrução das informações. Haydt (2006, p. 62) afirma que: “Nessa relação, o professor fala, mas tam- bém ouve, ou seja, dialoga com o aluno e permite que ele aja e opere mentalmente sobre os objetos, aplicando à realidade circundante seus esquemas cognitivos de natureza operativa”. Para o professor conseguir junto com seus alunos um ensino de qualidade, ele precisa estar motivado e motivar o aluno na aprendizagem. Outro fator que cabe ao professor, é ter uma condução da aprendizagem voltada ao respeito e a disciplina, que não pode ser esquecida. Conforme Haydt (2006, p. 87): “No que se refere à disciplina, é preciso orientar e conduta dos alunos com atitudes seguras e ao mesmo tempo compre- ensivas. Como fazer isto dependerá da postura de cada professor e do “clima” da classe, pois na educação não há fórmulas prontas”. Compreende-se que motivação e o incentivo tornam-se aliados de um tra- balho eficaz em sala de aula. Esse é o próximo ponto a ser tratado neste caderno. Caro acadêmico! Deixamos mais uma dica para você refletir, sobre a interação que ocorre entre os seres humanos. Dessa forma, você poderá verificar o quanto sabemos e o quão pouco interagimos. O vídeo é mais para reflexão, no qual o Professor e Filosofo Mário Cortella, faz com maestria. Vale a pena assistir a ele. Está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3rzvOqr- tWIc>. Está intitulado: Se você não existisse, que falta faria? DICAS TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 81 4 MOTIVAR E INCENTIVAR A APRENDIZAGEM Vamos buscar ajuda no dicionário o significado de cada uma dessas pala- vras para compreender seu significado. A palavra motivar conforme Dicionário Ferreira (2001, p. 507) “dar motivo a”. É também: “despertar o interesse por (aula, conferência, atividade etc.), ou de (alguém). Incentivar: “dar incentivo a; estimular” (FERREIRA, 2001, p. 410). Essas duas palavras acompanharão sempre nosso cotidiano e vida profis- sional. Elas não são separadas, caminham lado a lado, todo ser humano necessita de motivação e incentivo. Não seria diferente com professores e alunos. Estar motivado a fazer algo, nos remete a todo instante na busca de novas formas de ver o mundo, a nossa realidade, a nossa escola, o nosso trabalho. É algo interno do ser humano. E isso ocorre também com nossos alunos. Eles precisam sentir-se motivados a ir para a escola todos os dias e para isso, nós, professores, ne- cessitamos encontrar meios para que no outro dia esse aluno sinta-se incentivado a retorne à escola. Ao falar em sentir-se incentivado estamos falando de estímulos externos. Vamos mais uma vez buscar na linha histórica da Educação, que a questão apresentada agora, já foi evidenciada muitas vezes por exemplo por Quintiliano (35-96 d. C) no período romano, onde o interesse era processo do aprendizado. Como Pestalozzi, que buscava apresentar que o professor deveria buscar o inte- resse do aluno, através de uma sondagem, onde o educador descobre quais os interesses de cada um em sua faixa etária. Outros teóricos como Maria Montessori, o próprio Dewey, Froebel, e a área da psicologia com Piaget e Vygotsky, dentre outros vistos aqui ou não nomeados, que apresentam o interesse para as ativida- des como um ponto-chave na construção do conhecimento. Observa-se que esse ponto de estudo, a motivação, vem sendo analisada há muitos anos. Para Haydt (2006, p. 75) a autêntica aprendizagem: [...] ocorre quando o aluno está interessado e se mostra empenhado em aprender, isto é, quando está motivado. É a motivação interior do aluno que impulsiona e vitaliza o ato de estudar e aprender. Daí a importân- cia da motivação no processo ensino-aprendizagem. O professor, em seu trabalho junto ao aluno, precisa estudar e utilizar o que está concentrado no íntimo do aluno, “despertando nele os interesses” (HAY- DT, 2006, p. 77) que são a necessidade que este possui. De forma mais prática podemos apresentar a colocação da Professora Irene UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 82 Carvalho, (1973, p. 104) citada por Haydt (2006, p. 77), quando trata da motivação e incentivo. A motivação é um fato interior, enquanto o incentivo provém de forças ambientais, entre as quais situa-se a atuação do professor, quando este tem plena consciência do valor do incentivo, e realiza esforços delibe- rados para bem estimular seus alunos [...]. O incentivo só é operante se se transformar em motivação. Isto é: os estímulos externos (incentivos) precisam sintonizar-se com motivos preexistentes (estímulos internos) para conseguir algum resultado. Muitos incentivos chegam até nós e nada conseguem, por que não encontram ressonância em nosso interior. Isto quer dizer que o aluno aprende efetivamente aquilo que correspon- de a uma necessidade, a um motivo, ou a um interesse. Podemos determinar que na escola, no processo ensino aprendizagem, o incentivo é constante, não existe um momento exato de sua participação na sala de aula, muito pelo contrário, ele permanece vivo em todos os momentos do pro- cesso. Cabe uma reflexão. Por que muitas vezes encontramos alunos completa- mente desmotivados com seus estudos? Muitos são os fatores, podendo ser inter- nos ou externos à escola, a sua família e sociedade. Mas vamos nos ater à escola. Quantos alunos gostam do professor e não da matéria? Ou o contrário, gostar da matéria, mas não do professor? Já não ocorreu ouvir ou vivenciar isso? Pois bem, por que ocorre este movimento? Podemos dizer que se houver por parte do professor desinteresse sobre o tema, falta de organização por parte dele na apresentação da temática, o aluno automaticamente irá desmotivar-se e buscar realizar outras atividades, ao invés de participar da aula. É interessante ressaltar que muitos alunos, os quais já passaram pela minha vida educacional, sempre apresentam falas relacionadas muito mais à pessoa do professor do que à própria matéria. E isso nos remete ao que Haydt (2006, p. 78-79) nos apresenta sobre esta situação: “[...] na maior parte das vezes, não é o compo- nente curricular em si que interessa aos alunos, mas a pessoa que o ensina. Cabe ao professor refletir sobre este fato, extraindo dele conclusões de ordem prática que o ajudem a aperfeiçoar sua atuaçãodocente”. Caro acadêmico! Podemos perceber que tanto as questões pessoais como acadêmicas estão envolvidas nessa situação. Cabe ao professor, demonstrar sua alegria, seu interesse para com o assunto e aos alunos e assim criar um ambiente onde o ensinar e o aprender estejam intrinsecamente ligados com a motivação e o incentivo. Para melhor compreensão, e para situar você, acadêmico, que já está na ati- va, ou você que ainda iniciará seus trabalhos em sala, seguem alguns procedimen- tos simples, mas que auxiliam no processo de incentivo da aprendizagem. Serão TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 83 QUADRO 4 - PROCEDIMENTOS DE INCENTIVO DA APRENDIZAGEM • Faça com que seu aluno compreenda que o conteúdo apresentado possui liga- ção com a vida cotidiana dele. • Ofereça aos alunos a partir de situações-problema novos conteúdos, conse- guindo assim através do diálogo, da pesquisa novas formas de construção do conhecimento. • Utilize processos de ensino e aprendizagem que sejam adequados a faixa etá- ria dos alunos. Incentive os alunos, elogie seus avanços. • Diga a seu aluno o porquê, ou objetivo que tem com relação ao conteúdo estu- dado e que possui significado para ele em seu cotidiano. • Mantenha a sala sempre com um ambiente agradável, oriente seu aluno, man- tenha um clima amistoso entre todos os membros. • Informe aos alunos os resultados obtidos por eles nas atividades, não crie mui- tas expectativas no que diz respeito as avaliações. Se ocorrerem dificuldades ou erros, estimule seu aluno a progredir, e incentive a ver o erro como algo construtivo e não que o diminua. • Incentive seu aluno a auto avaliar-se, observando seus pontos positivos e nega- tivos, avanços e dificuldades. FONTE: Adaptado Ha (2006) Torna-se importante expor outro ponto crucial para que se respeite a identi- dade do aluno, se possua uma aprendizagem eficaz e para sermos respeitados como professores. O ponto é o que Haydt (2006) chama de “Direção de Classe”, em que se consideram a organização e os procedimentos que auxiliarão no processo de ensino em aprendizagem. O texto abaixo é um recorte do livro de Regina Célia C. Haydt, intitulado Cur- so de Didática Geral (2006, p. 81-83) que nos explana de maneira clara o que vem a ser esta Direção de Classe, a qual todos os professores e futuros professores necessitam saber. Uma leitura instigante que auxiliará nas demais Unidades deste caderno e no seu cotidiano como professor. apresentados aqui de maneira resumida, conforme pensamento de Haydt (2006). UNIDADE 1 | RETROSPECTIVA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO 84 DIREÇÃO DE CLASSE Direção de classe é a organização e apresentação das situações de ensino- -aprendizagem, visando ajudar o aluno no processo de construção do conhecimento. Como ensinar é orientar a aprendizagem, e a direção de classe está basicamente rela- cionada à situação de ensino, podemos dizer que ela é a orientação da aprendizagem, com o objetivo de auxiliar o aluno a estruturar e sistematizar o conhecimento. Algumas pessoas, alegando serem adeptas do não diretivismo e em nome do respeito às diferenças individuais e da criatividade, alardeiam que a direção de classe é algo ultrapassado e dispensável. Na opinião dessas pessoas, não cabe ao professor intervir na aprendizagem dos alunos: cada um aprende o que quer na hora que estiver disposto, e se não quiser não aprende. É o laissez-faire total, uma situação de "deixar- -fazer" levada ao extremo, onde cada um age de acordo com sua própria conta e risco. E, com isso, o professor não precisa ensinar. A nosso ver, esta posição é contrária à democratização do conhecimento. Se o aluno está na escola, é para aprender, é para construir seu conhecimento, e cabe ao professor ajudá-lo nesse processo. O conheci- mento deve ser coletivamente construído pelos alunos e pelo professor, sob a orien- tação deste último. Nessa perspectiva, a direção de classe é necessária sim, e muito. No nosso entender, não se deve confundir o respeito à individualidade e à criatividade com uma situação onde os alunos são deixados cada um por si, abando- nados na sala de aula, sem orientação, sem um rumo traçado, sem um objetivo a atin- gir. A educação é um processo diretivo por natureza, pois sempre visa alcançar certos objetivos. Por isso, cabe ao professor usar seu bom senso para saber quando será mais ou menos diretivo. Mesmo quando deixa o aluno descobrir por si próprio, o professor consciente tem certos objetivos a serem atingidos. Ao aprender, o aluno está construindo seu conhecimento. Nesse processo, al- guns momentos são de descoberta, outros de generalização e transferência do que foi aprendido, e outros, ainda, de estruturação e sistematização. Em cada um desses momentos, cabe ao professor perceber se deve ser mais ou menos diretivo, se deve ou não interferir mais diretamente na aprendizagem do aluno e como fazê-lo sem tolher sua iniciativa. Portanto, a diretividade na educação em geral, e no ensino em especial, é uma questão de grau. Nossa posição é corroborada pelo professor Libâneo, que assim se expressa: "A nível do relacionamento psicossocial entende-se uma revisão das formas de dire- ção do trabalho escolar incluindo questões como autoridade, estrutura organizacional e participação; propõe-se uma forma de relacionamento professor-aluno onde o adul- to não omite seu papel de guia, expressando uma presença significativa para a crian- ça: ainda que permaneça um facilitador, não deve perder-se na ingenuidade do não diretivismo. Numa perspectiva de educação crítica, direcionada para uma pedagogia social que privilegia uma educação de classe no rumo de um novo projeto de socie- dade, a escola pública possui papel relevante e indispensável. Para isso, é preciso sim, dar aulas, fazer planos, controlar a disciplina, manejar a classe, dominar o conteúdo e TÓPICO 3 | IDENTIDADE DOS PROFESSORES 85 tudo o mais. Sabe-se que famílias pobres apreciam uma escola onde há uma disciplina rigorosa e que exige dedicação aos estudos". Sobre o mesmo assunto, o trecho apresentado a seguir, de autoria do professor Luckesi, aborda a mesma questão, só que do ponto de vista mais amplo do proces- so educacional: "Primeiramente e de um modo genérico, diria que educador é todo ser humano envolvido em sua prática histórica transformadora. Em nossas múltiplas relações, estamos dialeticamente situados num contexto educacional. Todos somos educadores e educandos, ao mesmo tempo. Ensinamos e somos ensinados, numa in- teração contínua, em todos os instantes de nossas vidas. [...]. Em segundo lugar, e aqui está o núcleo de interesse para o momento, educador é o profissional que se dedica à atividade de, intencionalmente, criar condições de desenvolvimento de condutas desejáveis, seja do ponto de vista do indivíduo seja do ponto de vista do agrupamento humano". Transpondo essa ideia para o campo mais específico da construção do co- nhecimento, podemos dizer que, embora todos nós estejamos constantemente ensi- nando e aprendendo, cabe ao professor, como profissional que é, prever, organizar e apresentar aos alunos situações didaticamente estruturadas no sentido de ajudá-los a descobrir, generalizar e sistematizar o conhecimento, transformando o conhecimento prévio de natureza empírica em conhecimento cientificamente estruturado. Portanto, a direção de classe é necessária, como forma de organizar e proporcionar atividades de ensino-aprendizagem, visando a consecução de objetivos. A direção de classe supõe: • planejar as aulas; • selecionar e estruturar os conteúdos; • prever e utilizar adequadamente recursos incentivadores e materiais audiovisuais; • organizar atividades individuais e grupais interessantes e bem dosadas, que auxi- liem o aluno na construção do conhecimento; • avaliar continuamente os progressosrealizados pelos alunos, mostrando os seus avanços e dificuldades, e como podem aperfeiçoar o seu conhecimento. FONTE: Haydt (2006) Com essa rica leitura, podemos nos perceber como articuladores, e para tanto, para haver eficácia no processo ensino aprendizagem, nós, professores, pre- cisamos de mecanismos que nos auxiliem neste processo. Esses mecanismos, além dos já apresentados, serão analisados na próxima Unidade. 86 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você estudou que: • A identidade profissional do professor necessita ser observada, analisada e re- fletida por cada um de nós. Ela é construída em seu meio, em seu momento histórico-social. • É preciso entender o conceito de identidade docente como uma realidade que evolui e se desenvolve, tanto pessoal como coletivamente. A identidade não é algo que se possua, mas sim algo que se desenvolve durante a vida. A identi- dade não é um atributo fixo para uma pessoa, e sim um fenômeno relacional. (CARLOS MARCELO, 2009, p. 2) • Para Celso Antunes (2009, p. 13-14) professor é o que reflete, busca novas pos- sibilidades de ensino, é crítico, busca novas leituras de mundo. Professauros é o que acredita que sua maneira de ensinar está coerente desde que iniciou seus trabalhos na educação. Não acredita em mudanças. O que faz está correto. • A função do bom professor do século XXI não é apenas a de ensinar, mas de levar seus alunos ao reino da contemplação do saber. Para tanto, deve caminhar, com passos firmes, entre o desenvolvimento tecnológico e suas práticas pedagó- gicas. • Ao professor do século XXI é necessário que veja alguns pontos relacionados ao desenvolvimento humano. São eles: a) aprimorar o educando como pessoa humana; b) preparar o educando para o exercício da cidadania; c) construir uma escola democrática; d) qualificar o educando para progredir no mundo do trabalho; e) fortalecer a solidariedade humana; f) fortalecer a tolerância recíproca; g) zelar pela aprendizagem dos alunos; h) colaborar com a articulação escola/família; 87 i) participar ativamente da proposta pedagógica da escola; j) respeitar as diferenças. • O ato de ensinar e aprender vem carregado de interação, onde a relação que se realiza entre os elementos (professor e aluno) dão o tom para uma aprendiza- gem significativa. • No processo de construção do conhecimento, o valor pedagógico da interação humana é ainda mais evidente, pois é por intermédio da relação professor-aluno e da relação aluno-aluno que o conhecimento vai sendo coletivamente construí- do. O educador, na sua relação com o educando, estimula e ativa o interesse do aluno e orienta o seu esforço individual para aprender (HAYDT, 2006, p. 57) • A interação possui duas funções, segundo Haydt (2006): uma função incentiva- dora e energizante, pois ele deve aproveitar a curiosidade natural do educando apara despertar o seu interesse e mobilizar seus esquemas cognitivos (esquemas operativos de pensamento); uma função orientadora, pois deve orientar o esfor- ço do aluno para aprender, ajudando-o a construir seu próprio conhecimento. • Para ocorrer a interação professor x aluno, aluno x aluno é necessário o diálogo ou dialogicidade. • Motivação: é algo interno ao ser humano. • Incentivar: é algo esterno ao ser humano. • Conforme Haydt (2006, p. 87): No que se refere à disciplina, é preciso orientar e conduta dos alunos com atitudes seguras e ao mesmo tempo compreensivas. “Como fazer isto dependerá da postura de cada professor e do “clima” da classe, pois na educação não há formulas prontas”. • Direção de classe é a organização e apresentação das situações de ensino-apren- dizagem, visando ajudar o aluno no processo de construção do conhecimento. Como ensinar é orientar a aprendizagem, e a direção de classe está basicamen- te relacionada à situação de ensino, podemos dizer que ela é a orientação da aprendizagem, com o objetivo de auxiliar o aluno a estruturar e sistematizar o conhecimento (HAYDT, 2006, p. 81). 88 Caro acadêmico! Chegamos ao momento de refletir sobre o que vimos até o momento nesta unidade. Perguntamos a você: Em sua visão, qual é a definição para “Ser Professor e Professauro?” Qual é o ideal destes dois para obtermos um processo de ensino e aprendizagem eficaz? Prezado acadêmico, agora que chegamos ao final da Unidade 1, você deverá fazer a Avaliação referente a esta unidade. AUTOATIVIDADE AVALIAÇÃO