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de uma vila, por exemplo, só se constituem como grupo quando se organizam para resolver um problema comum, para fazer uma festa, quando participam de uma pesquisa sobre a convivência da vila,enfim, quando se ligam e se reconhecem como grupo a partir de uma motivação comum. 
Do mesmo modo, os pacientes que aguardam o atendimento do médico numa sala de espera também não constituem um grupo simplesmente por estarem na mesma sala. Mas, se um assistente social ou um psicólogo propuser que eles discutam um tema de interesse comum enquanto esperam o atendimento, e eles aceitarem, esses pacientes passam a se constituir como grupo.
Aqui, podemos observar uma diferença importante no processo de constituição dos grupos, que nos interessa particularmente como profissionais. Em geral, os grupos se constituem por duas vias: por demanda interna ou por demanda externa. Quando participamos do grupo familiar, ou do grupo de trabalho, ou da turma da faculdade, podemos dizer que a demanda é interna, é uma condição ou uma escolha inerente ao fato de termos nascido naquela família, de estarmos trabalhando naquele setor da empresa, de estarmos fazendo aquele curso universitário. Mas, quando participamos de um grupo instituído a partir da condição de usuário de uma instituição, de demandante de um serviço social, por exemplo, podemos dizer que a demanda é externa. Porque sua constituição foi motivada ou está inserida numa estratégia profissional exterior a nós. 
Ao entrar com um pedido de habilitação para adoção numa Vara da Infância e Juventude, por exemplo, a pessoa não está voluntariamente se dispondo a participar de um grupo, de suas várias reuniões, de se expor diante de pessoas que não conhece. Mas, se a estratégia de ação escolhida pela equipe técnica inclui o trabalho com grupos, o requerente à habilitação não terá outra alternativa se não aceitar. Entretanto, sua disponibilidade emocional para a atividade, seu envolvimento na dinâmica grupal, sua forma de participação dependerão em grande medida da capacidade de sensibilização por parte da equipe e de sua competência e habilidade para conduzir o processo e a dinâmica grupal. 
Em Juizados Especiais Criminais e em Varas de Família tem-se optado por incorporar a mediação de conflitos no curso processual, antes das audiências com o juiz. Em alguns desses órgãos, assistentes sociais e psicólogos inseriram o trabalho com grupos antes das seções de mediação, como forma de sensibilizá-los para a possibilidade de acordos e para a adoção de uma visão menos beligerante do conflito. Nesses casos, a aceitação da mediação é voluntária. E o trabalho de sensibilização, determinante, inclusive, nos resultados da mediação. Pois, um dos objetivos da sensibilização nesses grupos é exatamente a resignificação do conflito e a consequente redução das resistências e posicionamentos rígidos. 
Em muitas maternidades, já é tradicional o trabalho com grupos de gestantes, coordenados por assistentes sociais, enfermeiras, psicólogas. Nesses casos, a participação também é voluntária, dependente, portanto, do trabalho de sensibilização para a participação consciente na atividade.
O que importa reter dessa discussão é que, independente de a participação no grupo ser voluntária ou não, em todos os casos a demanda é externa, vem de fora, normalmente por iniciativa institucional. Esta situação, que particulariza a origem desses grupos, lhes imprime características diferentes daqueles que existem por demanda interna. 
O Grupo como Estratégia de Ação do Assistente Social:
Vocês já ouviram dizer que a intervenção profissional do assistente social é uma prática educativa, não é mesmo? Mas, já pensaram sobre o sentido disso; sobre o que significa dizer que as ações do Serviço Social têm caráter educativo? E, de que tipo de educação está se falando; para que finalidades?
As respostas podem ser várias, partir de diferentes enfoques, mas, certamente, não aqueles que veem no outro o depositário de suas verdades. Aqui, proponho que pensemos a dimensão educativa como um campo de práticas que incidem nas representações sociais (conhecimentos, valorações, sentimentos, visão de mundo e de si) com o objetivo de produzir transformações nos modos de pensar, de sentir e de agir dos sujeitos. Ou seja, como uma prática que se realiza em dois planos dialeticamente articulados: no plano das representações e no plano do agir. Mudar o representado para transformar o vivenciado, com o objetivo de desenvolver e ampliar as possibilidades de escolha e as capacidades de liberdade e autonomia dos sujeitos sociais. 
Vocês concordam que esse modo de pensar é coerente com o Projeto Ético-Político do Serviço Social?
Eu concordo. E penso que para o trabalho com grupos essa visão é iluminadora da prática, porque já indica o caminho do processo de aprendizado, sinaliza para os conhecimentos e habilidades que devemos buscar para aprender a manejá-lo. 
Nessa configuração, e considerando o campo disciplinar do Serviço Social podemos dizer que o assistente social é profissional competente para atuar em diferentes tipos de grupos que tenham caráter socioeducativo. Em trabalho interdisciplinar, o assistente social também é competente para co-dirigir, junto com o psicólogo, grupos de caráter sociopsicológicos. A diferença entre ambos está na ênfase que, no primeiro é dada aos aspectos sociais, e, no segundo, aos aspectos emocionais.
Normalmente, o trabalho com grupos está inserido num programa que articula outras ações, como atendimento individual, visita domiciliar, estudo social. Mas, por ser um instrumento de enorme eficácia, quando se trata de produzir mudanças de ideias, atitudes e práticas, pode se constituir em ação isolada ou em eixo da estratégia. 
O Grupo Focal trabalha sobre temáticas específicas, ligadas à questão que mobilizou sua formação. Em geral, o grupo focal funciona com poucas seções, podendo chegar a cerca de 20 participantes. Mais do que isso, pode se descaracterizar como grupo, tornando-se uma assembleia, uma reunião deliberativa, uma palestra. 
Esse tipo de grupo pode ser aberto ou fechado em termos da frequência dos participantes. O ideal é que não haja rotatividade, porém, por inúmeras razões, isso nem sempre é possível, como em grupos de sala de espera, por exemplo. No caso do grupo de habilitação para adoção, ele é focal, mas a frequência dos participantes é fechada, em razão dos objetivos a que se destina. Ele tematiza sobre questões implicados na adoção de crianças ou adolescentes, mas, embora seu enfoque seja educativo, a função do grupo é a de fornecer aos técnicos elementos que subsidiem a avaliação sobre a habilitação ou não do requerente. 
Nos grupos focais, o papel do coordenador tem destaque no desenvolvimento das seções. É ele – ou eles, no caso de trabalho em equipe - quem previamente decide a metodologia a ser aplicada, as dinâmicas a serem empregadas, os materiais a serem utilizados, o que implica que a autonomia dos participantes de grupo focal é relativa, limitada. 
O Grupo Operativo, por outro lado, objetiva não apenas a reflexão sobre algum tema, mas pretende produzir mudanças que ultrapassem o nível simplesmente cognitivo, da aquisição de novas informações e aprendizados. Visa provocar mudanças nas práticas sociais, no pensar e no agir dos participantes, a partir da introdução de atividades operativas. Por isso, preferencialmente, deve ser fechado. Seu tempo de duração é maior, é o tempo necessário para o alcance dos objetivos. O grau de autonomia dos participantes de um grupo operativo também é maior que num grupo focal. Os participantes, em geral, escolhem o tema a ser trabalhado, decidem democraticamente questões relativas ao seu funcionamento, como horário, periodicidade, e sobre as regras de convivência. 
Esse grupo, embora tenha foco, dá a ele um tratamento mais abrangente, relacionando-o a diferentes níveis de implicação, associando-o às experiências concretas dos participantes, tanto em termos subjetivos como objetivos, para que sejam elaboradas, resignificadas,