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1 DIREITO CIVIL DOS DIREITOS REAIS INTRODUÇÃO O Código Civil de 2002, após disciplinar a posse no Título I do Livro III, concernente ao direito das coisas, trata, no Título II, dos direitos reais. Art. 1.225. São direitos reais: I - a propriedade; II - a superfície; III - as servidões; IV - o usufruto; V - o uso; VI - a habitação; VII - o direito do promitente comprador do imóvel; VIII - o penhor; IX - a hipoteca; X - a anticrese. XI - a concessão de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007) XII - a concessão de direito real de uso; e (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007 e com redação determinada pela Lei nº 13.465, de 2017) XIII – a laje (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017). Taxatividade x Tipicidade DIREITO REAL consiste no poder jurídico, direto e imediato do titular sobre a coisa, com exclusividade e contra todos. 2 - O primeiro dos direitos reais é a propriedade. - Após, temos os direitos reais sobre coisa alheia: trata-se de direito advindo de um negócio jurídico, de acordo com a lei, que significa a permissão do proprietário da coisa de usá-la ou tê-la como se fosse sua sob determinadas condições. Entre os direitos reais sobre coisa alheia temos: - direitos reais de gozo ou de fruição: são aqueles em que seu titular tem o direito de usar ou gozar, ou somente usar a coisa alheia: superfície (e enfiteuse), servidão, usufruto, uso, habitação. - direitos reais de garantia: ocorre quando o bem alheio é dado em garantia de uma dívida: penhor, hipoteca e anticrese. - direito real de aquisição: compromisso de venda e compra (inciso VII) Outros direitos reais: - concessão de uso especial para fins de moradia: (art. 183, § 1º, CF): função social: segurança da posse para fins de moradia em área pública urbana (em favelas e loteamentos irregulares), tendo por fundamento o direito a moradia - MP 2.220/2001, com modificações decorrentes da Lei nº 13.465/2017. . - concessão de direito real de uso: dá-se por concessão pelo poder público de terrenos públicos ou particulares de forma remunerada ou gratuita, por tempo certo ou indeterminado. Decreto-lei 271/67. - a laje: regularização de áreas faveladas (comunidades). CC/16 x CC/02 - enfiteuse (art. 2.038) substituída pela superfície e as rendas expressamente constituídas sobre imóveis substituídas pelo direito do promitente comprador do imóvel. 3 Título III – DA PROPRIEDADE Capítulo I – Da propriedade em geral Seção I – Disposições preliminares 1. DA PROPRIEDADE 1.1. Conceito Pode-se conceituar o direito de propriedade como o poder jurídico1 que atribui a uma pessoa a FACULDADE de usar, gozar e dispor de um bem, corpóreo ou incorpóreo (direito autoral/marcas e patentes), em sua plenitude e dentro dos limites estabelecidos na lei, bem como O DIREITO de reivindicá-lo de quem injustamente o detenha. É uma garantia fundamental do homem (artigo 5.º, caput, da Constituição Federal/88), possuindo, portanto, fundamento constitucional. A lei prevê a inviolabilidade, possuindo a propriedade status de direito fundamental. É a garantia fundamental do homem, que assegura a esse o poder de usar, gozar e fruir da coisa, tendo poder sobre ela, mas também limitações econômicas e sociais. 1.2. Fases históricas 1) Antiguidade: propriedade familiar coletiva protegida pela religião. 2) Direito Romano: raiz histórica da propriedade individual. 3) Feudalismo: usufruto condicional e depois propriedade perpétua e transmissível na linha masculina. 1 Poder jurídico que decorre de uma relação jurídica de direito, de direito real que se adquire com a tradição ou com o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Já a posse decorre de uma relação jurídica de fato, de um suporte fático, com o exercício de alguns dos poderes inerentes a propriedade. 4 4) Liberalismo: direito privado ILIMITADO protegido pela LEI (Revolução Francesa). 5) Interesse Estatal (limitações administrativas): requisição; desapropriação por INTERESSE SOCIAL e não apenas por necessidade ou utilidade PÚBLICA. 6) Neoliberalismo: direito privado CONDICIONADO à sua função social (interesses difusos e coletivos) 1.3. Elementos constitutivos da propriedade Estão inseridos no artigo 1228 do CC. Quando todos os aludidos elementos constitutivos estiverem reunidos em uma só pessoa, será ela titular da propriedade plena. Se, entretanto, ocorrer o fenômeno do desmembramento, passando um dos poderes a ser exercido por outra pessoa, diz-se que a propriedade é limitada. É o que ocorre no direito real de usufruto, em que os direitos de usar e gozar da coisa passam para o usufrutuário, permanecendo o nu- proprietário somente com os de dispor e de reivindicá-la. São elementos constitutivos/estruturantes do direito de propriedade: - o direito de usar (jus utendi), que consiste na faculdade de o dono servir-se da coisa e de utilizá-la da maneira que entender mais conveniente, porém de acordo com os ditames legais e com a função social da propriedade. - o direito de gozar ou fruir (jus fruendi) compreende o poder de perceber/colher os frutos naturais e civis da coisa e de aproveitar economicamente os seus produtos. - o direito de dispor da coisa (jus abutendi) consiste no poder de transferir a coisa, de gravá-la de ônus e de aliená-la a outrem a qualquer titulo. Trata-se do mais importante dos elementos enunciados, pois mais se revela dono quem dispõe da coisa do que aquele que a usa ou frui. 5 - o direito de reaver a coisa (res vindicatio) poder de reivindicá-la das mãos de quem injustamente a possua ou detenha, ou seja, o direito de sequela, que é uma das características do direito real, pois envolve a proteção específica da propriedade, por meio da ação reivindicatória. 1.4. Características da Propriedade A propriedade é um direito absoluto, exclusivo, perpétuo, aderente e limitado. A limitação abarca todas as demais características. Pode-se dizer, então, que a propriedade tem cinco características. 1.4.1. Absoluta No sentido de ser oponível contra toda e qualquer pessoa (erga omnes), ao contrário de outros direitos que são relativamente oponíveis (inter partes), como por exemplo, o direito de crédito. 1.4.2. Exclusiva Art. 1231, CC: A propriedade presume-se plena e exclusiva, até prova em contrário. Em regra, sobre um bem somente pode haver um direito de propriedade e que o exercício deste direito exclui o exercício por parte de outrem, ou seja, um bem não pode pertencer exclusivamente e simultaneamente a duas ou mais pessoas em posições opostas. Todavia nada impede que duas ou mais pessoas adquiram um bem conjuntamente, formando um condomínio. Nesse caso teremos pessoas que detêm conjuntamente a titularidade do mesmo direito de propriedade. 6 1.4.3. Perpétua Visto que acompanha o proprietário por toda a vida enquanto tiver relação com a coisa, o que não o impede de transmitir seu direito a outrem em vida (inter vivos) ou, naturalmente, após a morte (causa mortis). No direito privado, existem duas exceções ao princípio da perpetuidade: Propriedade resolúvel (artigo 1.359 do Código Civil): é uma causa antecedente ou concomitante à transmissão da propriedade e que gera, por parte do terceiro, o poder de reivindicar a coisa do novo titular. É uma limitação ao princípio da perpetuidade. Causa antecedenteou concomitante é uma causa contratual, pré- conhecida das partes, anterior à tradição (ex.: pacto de retrovenda, substituição testamentária por fideicomisso). Propriedade revogável (artigo 1.360 do Código Civil): é uma causa superveniente, não prevista pelas partes, na qual a propriedade se consolida nas mãos de terceiro de boa-fé, não cabendo reivindicação por parte de o legítimo titular, a não ser em caso excepcional. Causa superveniente é uma causa que ocorre após a transmissão efetiva da coisa (exemplos: herdeiro aparente, revogação da doação por ingratidão etc.). Observação: Herdeiro aparente ou herdeiro putativo é aquele que se apresenta aos olhos de todos como se herdeiro fosse, no entanto, nunca foi herdeiro legal. Verifica-se nos casos da indignidade. 1.4.4. Aderente É a prerrogativa do titular de trazer para si a coisa, independentemente de onde ela esteja, por meio de ação reivindicatória. 7 1.4.5. Limitada Já se foi o tempo em que o fato de ser proprietário era encarado como um direito divino, em que seu titular era livre para dele fazer o uso que bem entender. Na atualidade, o exercício da propriedade é limitado por diversos princípios e dispositivos legais, como por exemplo, a função socioambiental, o Estatuto da Cidade, as regras sobre o direito de vizinhança, etc. Além das limitações legais, a propriedade também pode ser voluntariamente limitada pelo seu proprietário por meio de disposição contratual. Ex: quando uma pessoa doa um bem à outra com cláusula de incomunicabilidade ou inalienabilidade. Podem ser citadas como exemplos de limitações ao direito de propriedade: 1) CONSTITUCIONAIS - art.5º, XXII e XXIII (desapropriação para fins de reforma agrária – art. 184, CF). 2) ADMINISTRATIVAS - desapropriação, requisição de imóveis, segurança pública, saúde pública, tombamento. 3) PENAIS – perda dos instrumentos e dos produtos do crime (efeitos da condenação – art. 91 do CP) 4) AMBIENTAIS – tombamento, zoneamento – CÓDIGO FLORESTAL (Lei 12.651/12) – APP (área de preservação permanente – topos de morros, terrenos com declividade de 45º, erosão) e Reserva Legal: área de floresta virgem (20%, 35% área de cerrado da Amazônia Legal, 80% área da Floresta Amazônica – art. 12). 5) CIVIS – são dividas em LEGAIS ou VOLUNTÁRIAS: LEGAIS: direito de vizinhança. VOLUNTÁRIAS: cláusulas restritivas que estabelecem inalienabilidade, impenhorabilidade e/ou incomunicabilidade, o bem de 8 família2, a propriedade gravada3. Inúmeras leis impõem restrições ao direito de propriedade, como o Código de Mineração, o Código Florestal, a Lei de Proteção do Meio Ambiente, ainda a própria CF que impõe a subordinação da propriedade à função social, reafirmado no CC que também dispõe sobre as regras de vizinhança. O artigo 1229 retrata uma restrição ao direito de propriedade ao dispor que o proprietário do imóvel tem direito não só a respectiva superfície como ao espaço aéreo e ao subsolo correspondentes, mas não lhe assistindo o direito de impugnar a realização de trabalhos que se efetuem a uma altura ou a uma profundidade tais, que não tenha interesse legítimo em impedi-los. Ex: No Rio de Janeiro, o proprietário não poderia opor-se à passagem dos cabos do Pão de Açúcar devido à sua grande altura, bem como em SP, não assistiria direito ao proprietário de contestar a perfuração do subsolo para instalação do metrô. Não cabe a fórmula repetida pelos juristas da Idade Média: quem é dono do solo é também dono até o céu e até o inferno. O artigo 1230 traz uma restrição ao que constitui propriedade distinta do solo. Pertencem a União (CF, art. 176) e Código de Mineração (art. 84). Por fim o artigo 1231 fala da prova em contrário da propriedade plena e exclusiva, no caso, por exemplo, da propriedade limitada (usufruto: desmembramento dos direitos elementares do proprietário). 2 Bem de família (artigo 1.715 e ss. do Código Civil), poderá ser compulsório (Lei n. 8009) ou voluntário (artigo 1.715 do Código Civil). A vantagem do bem de família voluntário sobre o compulsório é que, no primeiro, pode-se gravar qualquer bem como sendo de família. 3 Propriedade gravada, ou seja, quando existe a imposição de um direito real limitado (exemplo: usufruto). 9 2. Aquisição da Propriedade Imóvel Considerações Gerais O Código Civil faz distinção entre a forma de aquisição mobiliária e a forma de aquisição imobiliária. Bens móveis são aqueles passíveis de locomoção, sem modificar sua natureza; os outros serão considerados bens imóveis. A forma mais usada para a aquisição de bens imóveis é a transcrição, que seria uma tradição formal. Existem, entretanto, outras formas de aquisição que serão comuns, ou não, entre os bens móveis e os bens imóveis. A acessão (incorporação ao objeto principal de tudo quanto a ele adere ou aumenta em volume ou valor) é uma forma de aquisição de propriedade, comum tanto para os bens móveis quanto para os imóveis. Também comum entre os bens é o usucapião, que é uma forma de aquisição pelo decurso do prazo. O direito hereditário é uma forma de aquisição que existe para os bens imóveis e móveis, visto que o sistema brasileiro estabeleceu um critério de imobilidade para os bens de herança, para que não haja o dissipamento do patrimônio. Então, após a morte, todos os bens do de cujus, móveis ou imóveis, serão considerados legalmente imóveis, a fim de que se possa fazer um controle dos bens deixados pelo de cujus. A aquisição de bem imóvel pode ser classificada quanto à causa de aquisição e quanto ao objeto da aquisição. Quanto à causa de aquisição pode ser: 10 Originária (não existe relação causal entre proprietário anterior e proprietário atual e, assim, é transmitida sem vícios anteriores). São formas originárias de aquisição da propriedade imóvel a usucapião e a acessão. Derivada (existe relação causal entre proprietário anterior e proprietário atual e, por isso, transfere-se com os mesmos vícios). São formas derivadas de aquisição da propriedade imóvel o registro do título aquisitivo e a aquisição por direito hereditário. Quanto ao objeto da aquisição pode ser: Universal (conjunto de bens indeterminados, como ocorre com os herdeiros legítimos ou testamentários); Singular (bem certo e determinado, como ocorre nos negócios inter vivos e com os legatários na sucessão mortis causa). Têm-se, assim, como formas de aquisição da propriedade imóvel: a) o direito hereditário: aquisição de modo derivado e pode ser a título singular (através do legado testamentário) ou universal (através da forma aberta, herdeiros legítimos ou testamentários). b) a transcrição: modo derivado (faz-se somente por contrato) a título singular (bem certo e determinado). c) a acessão: aquisição de modo originário a título singular. d) a usucapião: aquisição de modo originário a título singular. 11 2.1. Transcrição Regulada nos artigos 182 e seguintes da Lei n. 6.015/73, é uma forma derivada de aquisição da propriedade imobiliária, formal, por meio da publicidade do contrato translativo junto ao Registro de Imóveis. Com o registro do título surgem os seguintes efeitos: a) publicidade (efeito erga omnes) b) legalidade (presunção iuris tantum) c) força probante (fé pública do registro) d) continuidade (aquisição derivada) e) obrigatoriedade (arts. 1.227 e 1245)4 - exceções: usucapião e sucessão.f) mutabilidade (1.247) - retificação ou anulação. g) constitutivo (direito real de propriedade) Para ocorrer a transcrição, segue-se o seguinte rito: 1.º) Realização, elaboração do contrato translativo (compra e venda, doação, compromisso de compra e venda, troca). 2.º) Apresentação desse contrato ao Registro de Imóveis. 3.º) Prenotação: é um ato administrativo vinculado, no qual o oficial registra o contrato translativo no livro protocolo – chave geral do registro. 4.º) Na fase da prenotação têm-se três atitudes que poderão ser tomadas pelo oficial: poderá fazer nota de exigência (complementar a documentação para fins de registro no prazo de 30 dias); poderá registrar; 4 Enunciado 87, das JDC – Art. 1.245: Considera-se também título translativo, para fins do art. 1.245 do novo Código Civil, a promessa de compra e venda devidamente quitada (arts. 1.417 e 1.418 do CC e § 6º do art. 26 da Lei n. 6.766/79). 12 poderá suscitar dúvida (dúvida é o procedimento administrativo no qual o oficial entende descabido o registro e requer o cancelamento da prenotação pelo juiz corregedor). 5.º) Em caso de dúvida, o oficial deverá remeter ao juiz corregedor e notificar o interessado, que terá 15 dias para se defender. 6.º) Após a notificação do interessado, esse poderá apresentar defesa, ou não (revelia). 7.º) Deve-se levar à vista do Ministério Público em 10 dias. 8.º) O Ministério Público pode requerer a produção de provas (diligências, audiências); 9.º) O processo poderá ser julgado procedente ou improcedente; 10.º) Dessa decisão cabe apelação, em 15 dias, para o Conselho Superior da Magistratura. Dessa decisão não cabe recurso administrativo. Havendo qualquer problema, deve-se recorrer à via judicial. Observação: Dúvida inversa é um procedimento administrativo intentado pelo particular nas hipóteses em que o oficial se recusa a prenotar. Observação: O procedimento de dúvida se aplica analogicamente aos outros sistemas registrais (assento de nascimento, casamento etc.). 2.2. Acessão É o modo originário de adquirir, em virtude do qual fica pertencendo ao proprietário tudo quanto se une ou se incorpora ao seu bem. (Art. 1248, CC). 13 Requisitos: a – conjunção de duas coisas até então separadas b – caráter acessório de uma dessas coisas. c - vedação do enriquecimento ilícito. Modalidades: 1.248, CC. 1) Acessão natural 2) Acessão industrial ou artificial (construções e plantações) AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE POR ACESSÃO CONCEITO É o modo originário de adquirir, em virtude do qual fica pertencendo ao proprietário tudo quanto se une ou se incorpora ao seu bem. Art. 1248, CC. REQUISITOS a – conjunção de duas coisas até então separadas; b – caráter acessório de uma dessas coisas, em confronto com a outra (a coisa acedida é a principal e a acedente, a acessória) e como o acessório segue o principal, o proprietário do principal será também do acessório. c - porém, há a vedação do enriquecimento ilícito, que procura remediar a injustiça que poderia ocorrer nessa atribuição de propriedade, conferindo, ao proprietário desfalcado, sempre que for possível, a indenização que lhe cabe. 14 MODALIDADES Art.1.248, CC. a ) Acessão natural: que se dá quando a união ou incorporação da coisa acessória à principal advém de acontecimento natural. I - por formação de ilhas; II - por aluvião; (a aluvião) III - por avulsão; (a avulsão) IV - por abandono de álveo. Ocorrem naturalmente, sem qualquer interferência humana. b ) Acessão industrial ou artificial: quando resulta de trabalho do homem. V – por plantações ou construções. 2.2.1. Acessões naturais a) Acessão por formação de ilhas5: Art. 1248, I: ocorre em correntes comuns ou particulares, em virtude de movimentos sísmicos, de depósito paulatino de areia, cascalho ou fragmentos de terra trazidos pela própria corrente, ou de rebaixamento de águas, deixando descoberto e a seco uma parte do fundo ou do leito. Atenção: O Código de Águas dispõe que as ilhas podem ser bens públicos ou bens particulares, dependendo da natureza da água (ilha em água pública é bem público; ilha em água particular é bem particular) - 5 Bem, de fato trata-se de acontecimento raro no Brasil. A maior parte do aparecimento de ilhas se dá em águas públicas e então pertencem à União, aos Estados ou aos municípios. Aqui só a título de conhecimento histórico, em 1831, no mar mediterrâneo, surgiu uma ilha. Era um ponto bastante estratégico e, então, os britânicos enviaram seus representantes e deram à ilha o nome de Ilha Graham. Ferdinando II, rei das duas Sicílias, também enviou representantes italianos que deram à ilha o nome de Ilha Ferdinandea (em homenagem ao rei). Os franceses, não gostando muito dessa história, também enviaram seus representantes e nomearam a ilha de Ilha Julia. Foi um problemão! Os três países quase iniciaram uma grande guerra já no século XIX quando, passados pouco mais de 06 meses, a ilha submergiu e podemos dizer literalmente que a contenda diplomática entre os 03 países foi por água abaixo restando somente esse monte de nomes que a ilha recebeu. 15 DECRETO Nº 24.643, DE 10 DE JULHO DE 1934, com as alterações promovidas pelo Decreto-Lei nº 852, de 1938 e pelo Decreto-lei nº 3.763, de 25.10.1941. Propriedade das ilhas: pertencerão aos proprietários ribeirinhos, desde que se observem as regras do art. 1249, CC: I – se as ilhas se formam no meio do rio serão distribuídas aos terrenos ribeirinhos, na proporção de suas testadas (largura do terreno), até a linha imaginária que dividir o álveo e a ilha em duas partes iguais. Álveo: é a superfície que as águas cobrem, é o espaço que as águas cobrem6. Ilhas formadas no meio do rio cuja margem é de proprietários diferentes: II – se as ilhas surgirem entre a linha mediana e imaginária do rio e uma das margens, ocorrerá o acréscimo nos terrenos ribeirinhos fronteiros desse mesmo lado, nada lucrando os proprietários situados em lado oposto. As ilhas formadas entre o meio do rio e uma das margens consideram- se acréscimos aos terrenos ribeirinhos fronteiros desse mesmo lado: 6 Vide Dec. 24.643/34 (código de águas). Art. 9º. Álveo é a superfície que as águas cobrem sem transbordar para o solo natural e ordinariamente enxuto. Art. 10. O álveo será público de uso comum, ou dominical, conforme a propriedade das respectivas águas; e será particular no caso das águas comuns ou das águas particulares. 16 III – se um braço do rio abrir a terra, a ilha que resultar desse desdobramento continua a pertencer aos proprietários à custa de cujos terrenos se constituíram (pois se houve um avanço do rio em direção às terras de B, esse deve ser compensado pela propriedade da ilha). As ilhas, que se formarem, pelo desdobramento de um novo braço de corrente, pertencem aos proprietários dos terrenos, a custa dos quais se formaram. b ) Acessão por aLuvião. Art. 1248, II: quando há acréscimo paulatino, lento de terras às margens de um rio ou de uma corrente, mediante lentos e imperceptíveis depósitos ou aterros naturais ou desvios das águas. Propriedade da acessão por aluvião: esses acréscimos pertencem aos donos dos terrenos marginais, conforme a regra de que o acessório segue o principal (art. 1250,CC). 17 Espécies de aluvião: - própria: quando o acréscimo se forma pelos depósitos ou aterros naturais nos terrenos marginais do rio. - imprópria: quando tal acréscimo se forma em razão do afastamento das águas que descobrem parte do álveo. c ) Acessão por aVulsão Art. 1248, III: ocorre a avulsão pelo repentino, violento deslocamento de uma porção de terra por força natural violenta (por ex. uma correnteza), desprendendo-se de um terreno para se juntar a outro. Propriedade da acessão por avulsão: art. 1251: o proprietário do imóvel desfalcado perderá a parte deslocada, mas pode pedir a devolução 18 do pedaço de terra ou indenização dentro do prazo de 1 ano ao proprietário que teve acréscimo de sua propriedade. Isso pelo fato de a avulsão ser um deslocamento repentino, e, portanto, perceptível, e assim passível de pedir a indenização. d ) Acessão por álveo abandonado Art. 1248, IV: ocorre a acessão por álveo abandonado, quando o rio seca ou se desvia em virtude de fenômeno natural, abandonando a superfície até então coberta pelas águas. Propriedade da acessão do álveo abandonado: art. 1252: pertence aos proprietários ribeirinhos das duas margens, e a divisão é feita pela linha imaginária (idem à divisão das ilhas). Obs.: os donos dos terrenos por onde as águas natural e acidentalmente abrirem novo curso não terão direito a indenização, por ser tratar de força maior que não pode ser evitada. Ainda que o rio seja público, havendo leito abandonado, poderá a área seca incorporar bem particular (art. 26, Código de Águas). 19 2.2.2. ACESSÕES ARTIFICIAIS OU INDUSTRIAIS Conceito de acessões artificiais (arts. 1.253 a 1.259, CC) Constituem uma modalidade aquisitiva da propriedade imobiliária. Resultam de trabalho humano, como plantações e construções (art. 1.248, V, CC), tendo caráter oneroso e submetem-se à regra de que tudo aquilo que se incorpora ao bem, em razão de uma ação qualquer, cai sob o domínio do seu proprietário ante a presunção juris tantum, contida no art. 1.253, do CC, ficando, porém, obrigado a indenizar seu respectivo valor. ACESSÕES ARTIFICIAIS X BENFEITORIAS A diferença entre acessões artificiais e benfeitorias reside no fato de que as acessões artificiais são obras que criam uma coisa nova e que se aderem à propriedade anteriormente existente e as benfeitorias são as despesas feitas com a coisa, ou obras feitas na coisa, com o fito de conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la. ACESSÃO DE MÓVEL A IMÓVEL Como é possível semear, plantar ou construir com sementes e materiais não pertencentes ao proprietário do solo, distinguem-se as hipóteses em que isso pode ocorrer: REGRA - Principal próprio e acessório próprio Art. 1253: As construções e plantações são consideradas acessórios do solo. A presunção é de que tudo o que foi construído ou plantado em um terreno foi feito pelo proprietário e a sua custa, e a ele pertence totalmente, até que prove o contrário. – PRESUNÇÃO RELATIVA. 1) PRINCIPAL PRÓPRIO E ACESSÓRIO ALHEIO. Art. 1254 Utilização de material de terceiro para construção em terreno próprio. Se o proprietário agir de boa-fé, deverá indenizar o terceiro no valor do material utilizado. Se o proprietário agir de má-fé, deverá indenizar o terceiro no valor agregado (valor do que foi construído) (+) somado com perdas e danos. Ex.: se o dono das sementes ou materiais teve prejuízo, por exemplo, deixou de vender para outras pessoas com a alegação que ficaria com a copropriedade da plantação ou da construção. 2) PRINCIPAL ALHEIO E ACESSÓRIO PRÓPRIO Art. 1255: Aquele que semeia, planta ou edifica em terreno alheio perde, em proveito do proprietário, as sementes, plantas e construções; se procedeu de boa-fé, terá direito a indenização. BOA-FÉ do autor da acessão = indenização cabal, englobando todos os prejuízos decorrentes da privação das acessões (valor atual das acessões - analogia ao 1.222, CC). (mas deve deixar a plantação e a construção para o dono do terreno, ocorrendo acessão do móvel ao imóvel). Terá, ainda, direito de retenção (En.81, CJF). MÁ-FÉ do autor da acessão = nada receberá à título indenizatório. Já o proprietário do principal somente será indenizado de provar a existência de danos emergentes ou lucros cessantes decorrentes da privação da posse do bem. 20 ART. 1.255, parágrafo único: Se a construção ou a plantação EXCEDER CONSIDERAVELMENTE o valor do terreno, aquele que, DE BOA- FÉ, plantou ou edificou, adquirirá a propriedade do solo, mediante pagamento da indenização fixada judicialmente, se não houver acordo. Espécie de ACESSÃO INVERTIDA/INVERSA, pois o proprietário do acessório é que será considerado como proprietário principal. (função social) Ex.: se alguém de boa-fé construiu um edifício de 10 andares num terreno pequeno, fez um alto investimento, cujo valor é bem maior que o do terreno que não lhe pertence. Por isso mais justo que passe a ser proprietário do solo, mediante o pagamento de um valor indenizatório pelo terreno. (ALIENAÇÃO COMPULSÓRIA DO PROPRIETÁRIO QUE DEIXOU DE DAR FUNÇÃO SOCIAL À PROPRIEDADE). Valor econômico ou social (ex.: escola, posto de saúde). ART. 1.256: Se de ambas as partes houve má-fé, adquirirá o proprietário as sementes, plantas e construções, devendo ressarcir o valor das acessões. (má-fé bilateral - art. 150, CC) Presume-se a má-fé do proprietário do terreno quando este vê a plantação ou a construção e não se opõe e a má-fé do dono das sementes ou material quando a posse for injusta, por exemplo. O proprietário adquirirá a propriedade das sementes, plantas e construções, mas deverá ressarcir o valor das acessões ao dono das sementes e material de construção. Exemplo bastante comum: casal que constrói nos fundos do terreno de um dos sogros. Mas, caso a construção exceda consideravelmente o valor do terreno, poderá haver acessão invertida, pagando-se ao sogro o valor do terreno (desde que metragem permitida pela legislação). ART. 1.256, parágrafo único. PRESUNÇÃO DE MÁ-FÉ DO PROPRIETÁRIO Consenso tácito do dono da terra, uma vez que assistiu a execução do plantio e da obra sem apresentar qualquer oposição, agindo, assim, maliciosamente, com o escopo de, no momento oportuno, beneficiar-se alegando que a construção ou plantação foi feita a sua revelia, para ter direito a permanência da acessão sem qualquer indenização diante da suposta má-fé do construtor ou lavrador. 3) PRINCIPAL E ACESSÓRIO ALHEIOS - ART.1.257 Semeadura, plantação ou construção é feita em terreno alheio, com materiais alheios. PROPRIETÁRIO ADQUIRE POR ACESSÃO Construtor ou plantador (boa-fé) – ressarcimento dos custos e indenização. Construtor ou plantador (má-fé) – ressarcimento dos custos. Dono da matéria prima – idem. Tal indenização, ou ressarcimento, deverá ser paga pelo plantador ou construtor, mas se este não puder pagá-la, o dono das sementes ou materiais poderá cobrá-la subsidiariamente do proprietário do terreno. 21 INVASÃO DE SOLO ALHEIO POR CONSTRUÇÃO (aquisição da propriedade da área invadida pela construção) Artigos 1.258 e 1.259, CC - exceçãoao brocardo superficies solo cedit. Construção feita parcialmente em Solo alheio (não superior à vigésima parte deste - 5%) Art. 1.258 Construtor de Boa-fé adquire a parte invadida Se o valor da construção exceder o valor da parte invadida; Dever de indenizar o valor da área perdida; Dever de indenizar a desvalorização da área remanescente. Construção feita parcialmente em Solo alheio (não superior à vigésima parte deste) Art. 1.258, parágrafo único. Construtor de Má-fé adquire a parte invadida Se o valor da construção exceder CONSIDERAVELMENTE o valor da parte invadida; E se impossível demolir a porção invasora sem grave prejuízo para a construção; Dever de indenizar (em 10 x - décuplo) o valor da área perdida; Dever de indenizar (em 10 x) a desvalorização da área remanescente. Enunciado 318 da IV Jornada de Direito Civil: O direito à aquisição da propriedade do solo em favor de construtor de má-fé (art. 1.258, parágrafo único) somente é viável quando, além dos requisitos explícitos previstos em lei, houver necessidade de proteger terceiros de boa-fé (Ex.: se o imóvel já foi vendido para terceiros). Ratio: Não incentivar invasões capitaneadas pelo poder econômico. 22 Construção feita parcialmente em Solo alheio (superior à vigésima parte deste) Art. 1.259 Construtor de Boa-fé adquire a parte invadida Se indenizar: 1) O valor que a invasão acrescentar à construção; 2) O valor correspondente ao terreno subtraído; 3) O correspondente à desvalorização da área remanescente. Construção feita parcialmente em Solo alheio (superior à vigésima parte deste) Art. 1.259 Construtor de Má-fé NÃO Adquire a parte invadida 1) Obrigação de demolição da parte invasora; 2) Obrigação a indenizar em dobro o valor das perdas e danos apurados. OBS: poderá ser mais conveniente a indenização do que o desfazimento parcial da obra que prejudique o seu todo, bem como sua função social. O invasor torna-se proprietário do terreno invadido, nessa espécie de desapropriação privada. Mesmo de má-fé, poderá não incidir com o interesse social a destruição do prédio. Imagine se lá estiver construído um hospital ou escola em pleno funcionamento. A melhor solução é a aquisição da propriedade por acessão artificial e a indenização do proprietário, em virtude da função social preconizada constitucionalmente, mas com a devida indenização ao proprietário do solo. Durante a construção, o proprietário invadido pode usar a ação de nunciação de obra nova para impedir a edificação. Quando a obra estiver concluída, cabe ao bom- senso do magistrado encontrar a melhor solução. 23 2.3. Direito hereditário Modo derivado de aquisição da propriedade em que, com o evento morte entende-se adquirida a propriedade pelos herdeiros (legítimos ou testamentários), sem solução de continuidade7, em atenção ao Droit de Saisine (le mort saisit le vif), que será estudado a posteriori. 2.4. Usucapião8 de imóvel 2.4.1. Conceito Trata-se de modo originário de aquisição da propriedade e de outros direitos reais suscetíveis de exercício continuado pela posse prolongada no tempo, acompanhada de certos requisitos exigidos pela lei. A usucapião é também chamada de prescrição aquisitiva, em confronto com a prescrição extintiva que é disciplinada nos artigos 205 e 206 do CC. Em ambas aparece o elemento TEMPO influindo na aquisição e extinção de direitos. A diferença é que a primeira (prescrição aquisitiva) é modo originário de aquisição de direitos e a segunda é a perda da pretensão, e, por conseguinte, da ação atribuída a um direito, em consequência do não uso dela durante determinado espaço de tempo. 2.4.2. Fundamento da usucapião A prescrição aquisitiva é uma instituição multissecular que nos foi transmitida pelo direito romano. 7 Solução de continuidade significa “interrupção”, isto é, a continuidade foi “dissolvida”. Não se trata da solução que vem do verbo resolver, no sentido de “solução de um problema”. Por exemplo, é indispensável criar escolas de emergência na região assolada pelas enchentes, para que a educação das crianças não sofra solução de continuidade, isto é, não seja interrompida. Aqui, falou-se em "SEM solução de continuidade", portanto, SEM INTERRUPÇÃO, no sentido da dispensabilidade de qualquer ato do herdeiro. 8 Etimologia da palavra: usucapião vem do latim: capio ou capionis (feminina) significa tomada, ocupação, aquisição, antecedida de uso, através do uso. 24 Pode parecer uma injustiça o favorecimento do possuidor contra o verdadeiro proprietário, seria uma ofensa ao princípio: dar a cada um o seu. Porém, embora a propriedade seja perpétua, não pode conservar esse caráter senão enquanto o proprietário manifestar a sua intenção de manter o seu domínio, exercendo permanente atividade sobre a coisa possuída; o seu desprezo pela coisa perante a usurpação feita por outrem durante 10, 20 ou 30 anos, constitui uma aparente e tácita renúncia ao seu direito de propriedade. Por outro lado a sociedade tem muito interesse que as terras sejam cultivadas, que as casas sejam habitadas, que os móveis sejam utilizados. Por isso, um indivíduo que, durante largos anos, exerceu esses direitos numa coisa alheia, pelo seu dono deixada ao abandono, também é digno de proteção. Assim, o fundamento da usucapião está assentado no princípio da utilidade social, na conveniência de dar segurança e estabilidade à propriedade, bem como de se consolidar as aquisições e facilitar a prova do domínio. Tal instituto repousa na paz social e estabelece a firmeza da propriedade libertando-a das reivindicações inesperadas. 2.4.3. Pressupostos da usucapião (coisa hábil, posse, tempo, justo título e boa fé)9 • a) Res habilis (coisa hábil). • Deve ser coisa que não esteja fora do comércio e que não seja bem público. 9 Obs.: Os 3 primeiros são indispensáveis e exigidos em todas as espécies de usucapião. O justo título e a boa-fé somente são reclamados na usucapião ordinária. Observação: Alguns autores estabelecem um 6.º pressuposto – “a sentença tem natureza constitutiva”. É, entretanto, um entendimento equivocado, visto que a sentença do usucapião é declaratória, tendo efeitos ex tunc. 25 • Consideram-se fora do comércio (inalienáveis): • os bens naturalmente indisponíveis (insuscetíveis de apropriação pelo homem), tais como o ar atmosférico, a água do mar. • os bens legalmente indisponíveis (bens de uso comum, de uso especial10 e de incapazes, os direitos da personalidade e os órgãos do corpo humano). • os bens indisponíveis pela vontade humana (deixados em testamento ou doados, com cláusula de inalienabilidade). • O art. 1244 do CC manda aplicar à usucapião os preceitos relativos às causas que obstam, suspendem ou interrompem a prescrição. • Desse modo, não corre prescrição extintiva nem aquisitiva contra as pessoas mencionadas nos arts. 197 e 198 do CC. • Nas situações previstas no art. 199 do CC, embora capazes os seus proprietários, não podem ser usucapidos, justamente por não correr lapso prescricional,faltando, pois, condição básica ao exercício da prescrição. • b) Possessio (posse). • É pressuposto da usucapião a posse mansa e pacífica e justa. • Se a posse em vez de mansa e pacífica é perturbada pelo proprietário, que se mantém ativo na defesa de seu domínio, falta um requisito para a usucapião, pois a lei exige que a posse do usucapiente se exerça sem oposição, vale dizer, se exerça de maneira contínua e incontestada. 10 Atualmente, além de grande movimento doutrinário, há algumas decisões dos tribunais admitindo a usucapião de bens dominicais, a exemplo do acórdão do Tribunal de Minas Gerais confirmando a sentença de usucapião de área pública, do DERMG (APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0194.10.011238-3/001 - COMARCA DE CORONEL FABRICIANO), de maio de 2014. 26 • c) Tempus (tempo). • A usucapião se consuma dentro de um lapso temporal estabelecido pela lei. • Na usucapião ordinária, em que o usucapiente deve provar o justo título e a boa-fé o prazo é mais reduzido, basta o prazo de 10 anos para que o possuidor adquira o domínio. • Existe a usucapião ordinária abreviada (5 anos – registro cancelado e moradia ou investimentos sociais ou econômicos). • Na usucapião extraordinária, que dispensa a prova da boa fé e do justo título, o prazo é de 15 anos. • Existe a usucapião extraordinária abreviada (10 anos – moradia habitual e atividades produtivas). • O novo código suprimiu a tradicional distinção entre ausentes e presentes. • d) Titulus (justo título). • A lei condiciona a usucapião ao fato de o possuidor possuir justo título (ser portador de documento capaz de transferir-lhe o domínio se proviesse do verdadeiro dono). • Na usucapião ordinária o possuidor deve exibir o justo título. • Na usucapião extraordinária o possuidor não precisa exibir, havendo presunção absoluta do justo título, sendo, inclusive, proibido que se demonstre a sua inexistência. • e) Fides (boa-fé). • O possuidor deve estar de boa fé. Existe boa fé quando o possuidor ignora (desconhece) o vício ou obstáculo que lhe impede a aquisição da coisa ou direito possuído. • Na usucapião ordinária o possuidor deve provar a boa-fé. • Na usucapião extraordinária a prova da boa-fé é dispensável e não se admite prova em contrário, presunção jure et de jure. 27 2.4.4. ESPÉCIES DE USUCAPIÃO Podem ser objeto de usucapião bens móveis e imóveis. O direito brasileiro distingue quatro espécies de usucapião de bens imóveis: 1. Extraordinária e extraordinária com prazo reduzido; 2. Ordinária e ordinária com prazo reduzido; 3. Especial ou Constitucional, dividindo-se esta última em: 3.1. Rural (pro labore); 3.2. Urbana individual (pró-moradia ou pro misero ou pró habitatione); 3.3. Urbana coletiva 4. Especial urbana familiar (art. 1.240-A, CC - Lei n. 12.424/2011) Há, ainda, uma modalidade especial, a usucapião indígena, estabelecida no Estatuto do Índio (Lei n° 6.011/73 – art. 33). • Preceitua o art. 33 do Estatuto do Índio: • Art. 33 – O índio, integrado ou não, que ocupe como próprio, por dez anos consecutivos, trecho de terra inferior a cinquenta hectares, adquirir-lhe-á a propriedade plena. • Se o índio possuir plena capacidade, poderá propor diretamente a ação de usucapião. Não a tendo, será representado pela FUNAI. • A área usucapienda é somente a rural e particular, uma vez que a própria CF proíbe usucapião de bens públicos. • Praticamente de nenhuma eficácia, pois, em 05 anos, em área máxima de 50 hectares de posse, poderá adquirir a propriedade pela usucapião especial/constitucional rural. 28 Modalidades de Usucapião Fundamento Requisitos (posse mansa e pacífica = justa) Extraordinária – 1 Art 1.238, caput, C.C. Regular ou comum Decurso do tempo que causa a prescrição aquisitiva. a) posse ad usucapionem; b) decurso de 15 anos, ininterruptos; Extraordinária – 2 Com prazo reduzido. Art 1.238, par. Ún. C.C. Posse-trabalho Prescrição aquisitiva minorada por ter o possuidor dado destinação que atende a função social da propriedade. a) posse ad usucapionem; b) transcurso de 10 anos sem interrupção; c) ter o possuidor constituído sua morada habitual no imóvel, ou nele realizado obras e serviços de caráter produtivo (Ex.: desapropriação indireta: ocupação pela Administração/ao inverso). Ordinária – 1 Art 1.242, caput, C.C. Prescrição aquisitiva a) posse ad usucapionem; b) decurso de 10 anos contínuos; c) justo título (Ex.: En. 86 = contrato de compra e venda). d) boa-fé Ordinária – 2 Com prazo reduzido Art 1.242, par. Ún. C.C. Posse-trabalho Documental Tabular - tabelião Prescrição aquisitiva Função Social a) posse ad usucapionem; b) decurso de 5 anos contínuos; c) aquisição onerosa do imóvel usucapiendo, com base em registro regular, posteriormente cancelado; d) possuidor tenha estabelecido moradia no imóvel ou tenha realizado nele investimentos de interesse social e econômico. Especial ou Constitucional Rural, ou Pro Labore Art. 191 C.F. Lei 6969/81(Lei da Usucapião Especial) Art. 1.239 C.C. Prescrição extintiva pelo fato de o proprietário não haver dado cumprimento à função social da propriedade e prescrição aquisitiva, benefício ao possuidor que a atendeu. a) posse ad usucapionem; b) transcurso de 5 anos sem interrupção e sem oposição; c) área possuída de no máximo 50 hectares localizada em zona rural (CC 1.239); d) propriedade rural que se tornou produtiva pelo trabalho do possuidor ou de sua família; e) haver o possuidor tornado o imóvel sua moradia; e, f) não ser o possuidor proprietário de imóvel rural ou urbano. 29 Especial Urbana Residencial Individual (ou Constitucional Urbana Individual ou pro-moradia ou pró mísero ou pro habitatione) Art. 183 CF e §§, Art. 9 e ss. do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01) e Art. 1.240 C.C. Sanção ao proprietário por não dar cumprimento à função social da propriedade ao possuidor que a atendeu. Art. 9º, § 3º, Estatuto da Cidade: herdeiro legítimo continua a posse do antecessor, DESDE que já resida no imóvel na abertura da sucessão. a) posse ad usucapionem; b) decurso de 5 anos ininterruptos; c) área urbana de até 250 m² (En. 85 = + edificação, inclusive apartamentos); + En. 314 = sem soma da área comum. + En. 596 = condomínio pode adquirir por usucapião. d) utilização para morada própria ou de sua família; e) não ser o possuidor proprietário (ou seja, pode ser possuidor) de imóvel rural ou urbano; f) não ter o possuidor se valido desse benefício anteriormente. Especial Urbana Residencial Coletiva (ou Constitucional Urbana Coletiva) Art. 10 e ss. do Estatuto da Cidade Não há previsão no CC Sanção ao proprietário por não dar cumprimento à função social da propriedade e benefício aos possuidores que a atendeu. Fração igual para todos (mesmo que de fato ocupe área maior ou menor). a) posse ad usucapionem; b) transcurso de 5 anos sem interrupção; c) área maior de 250 m²; d) destine-se a ocupação à morada da população posseira; e)Sejam os possuidores de baixa renda; f) Não sejam os possuidores proprietários de imóvel rural ou urbano; g) Seja impossível identificar o terreno de cada possuidor, destacadamente. Especial Urbana familiar Lei 12.424, de 16 de junho de 2011 – inseriu no CC o artigo 1.240-A e seu § 1º. En. 498, CJF (fluência). En. 499, CJF. En. 500, CjF. En. 595, CJF. Prescrição aquisitiva Por abandono voluntário do lar. a) posse ad usucapionem; b) transcurso de 2 anos sem interrupção; c) imóvel urbano (que pena!) de até 250 m²; d) cuja propriedade dividia com ex cônjuge ou ex companheiro que abandonou o lar; e) utilizando-o para sua moradia ou de sua família f) não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural. 30 3. AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE MÓVEL O Código de 2002 disciplina, além da sucessão hereditária, 6 modos de aquisição da propriedade móvel: a usucapião, a ocupação, o achado do tesouro, a tradição, a especificação e a confusão. Juntamente com a última, trata também da comistão e da adjunção. Assim, pode-se dizer que são formas de aquisição da propriedade móvel: 1. a usucapião (ordinária ou extraordinária) 2. a ocupação 3. o achado de tesouro 4. a tradição 5. a especificação 6. a confusão (também comistão e adjunção) 7. a sucessão hereditária Modos originários de aquisição Modos derivados de aquisição Usucapião Ocupação Achado de tesouro Tradição Especificação Confusão Comistão Adjunção Sucessão hereditária A usucapião de coisa móvel: por vezes, o possuidor de coisa móvel terá necessidade de comprovar e regularizar a propriedade. Ex: veículos: a tradição transmite a propriedade, mas como se trata de um bem móvel com cadastro em órgão regulador, há necessidade de regularizar a situação da propriedade, atualizando o novo proprietário. Mas, se isso não foi feito e não há mais possibilidade de fazê-lo, pode obter a declaração de propriedade por meio da usucapião. Ex: animais de grande valor (semoventes), possuem registro administrativo ou privado. 31 Propriedade móvel: formas de aquisição 1) USUCAPIÃO Modo originário de aquisição da propriedade móvel Artigo 1.260 a 1.262 Art. 1260: usucapião ordinária: posse de coisa móvel, contínua e incontestadamente, por 3 anos, com justo título e boa-fé. Art.1261:usucapião extraordinária: posse de coisa móvel, por 5 anos, independentemente de justo título e boa fé. Art. 1262: aplicam-se as regras dos artigos 1243 e 1244: desse modo pode o possuidor, para obter o reconhecimento da usucapião, acrescentar a sua posse a do seu antecessor, desde que ambas sejam contínuas, pacíficas. Questões polêmicas: usucapião de veículos: 1) Pelo devedor fiduciante/alienação fiduciária em garantia (Sim pelo TJRS/2006) 2) Por 3º que o adquiriu do devedor fiduciante à revelia do credor (Não pelo STJ/2010) 3) Pelo devedor em arrendamento mercantil (Não pelo TJRS/2006) 4) Veículo furtado Sim: STJ (REsp n. 99.721/MG/2002). Reconhecido o direito de usucapir um veículo furtado, pertencente a um fazendeiro, que tinha sido adquirido mediante uma permuta de gado pelo veículo, sendo surpreendido pela alegação de que o veículo seria roubado, após utilizar o automóvel por seis anos, o que o levou a alegar a usucapião. Não: STJ/2002 (se usucapião ordinário). Outros exemplos: usucapião de animais, usucapião (de uso) de linha telefônica (Súmula 193 do STJ). 2) OCUPAÇÃO Modo originário de aquisição de bem móvel Artigo 1.263: Quem se assenhorar de coisa sem dono para logo lhe adquire a propriedade, não sendo essa ocupação defesa por lei. Consiste na tomada de posse de coisa sem dono, com a intenção de se tornar seu proprietário. Coisas sem dono são as coisas de ninguém (res nullius) ou abandonadas (res derelicta ou derrelição): objetos ou animais abandonados ou que nunca tiveram dono por meio da caça ou pesca. Quanto aos últimos, observar questões ambientais. Ex.: STJ/1994 (não gera ICMS coleta de insumos para posterior industrialização). Não pode ser objeto de ocupação: 1) coisas perdidas (res perdita – art. 1.233 e ss – Da descoberta); 2) monumentos arqueológicos e pré- históricos (Lei n. 3.924/61). 32 3) ACHADO DE TESOURO Modo originário de aquisição de propriedade móvel. Artigos 1.264 a 1.266 Art. 1.264, CC/02: O depósito antigo de coisas preciosas, oculto e de cujo dono não haja memória [...]. Atenção: em propriedade PRIVADA. REGRAS: 1) DIVISÃO POR IGUAL: se achado, casualmente (boa-fé), em propriedade alheia; 2) AO PROPRIETÁRIO: se achado por ele; ou por terceiro autorizado diante de pesquisa ordenada pelo proprietário, ou por terceiro não autorizado. 3) DIVIDIDO ENTRE O ENFITEUTA E AQUELE QUE O ACHOU. Enfiteuse é direito real sobre coisa alheia, por meio da qual uma pessoa que não é proprietária do bem adquire o direito de exploração econômica PERPÉTUA do domínio útil da coisa. O atual CC proibiu a constituição de novas enfiteuses, a partir de sua entrada em vigor. Se o enfiteuta encontrou o tesouro, ele será o proprietário. Teria sido melhor falar em superfície. 4) TRADIÇÃO Modo derivado de aquisição da propriedade móvel. Artigos 1.267 e 1.268 Entrega voluntária do bem, que importa na transferência de sua propriedade. ARTIGO 1.268 – TEORIA DA APARÊNCIA (alienação a non domino) 3º Degrau da Escada Ponteana REQUISITOS: a) convenção, acordo das partes, no sentido de transferir a propriedade; b) execução desse acordo mediante entrega da coisa. O direito pessoal resultante do acordo de vontades transforma-se em direito real. Ou seja, a propriedade do móvel só se adquire pela tradição. Ex.: possibilidade de penhora de automóvel já vendido, mas sem reconhecimento de firma pelo vendedor e ainda não entregue ao comprador. 33 MODALIDADES DE TRADIÇÃO Real: com a entrega efetiva do bem móvel. Simbólica: por ato representativo da transferência da coisa (Ex.: traditio longa manu). Ficta: art. 1.267, parágrafo único: Ficta: no constituto possessório: quando o transmitente continua a possuir a coisa, mas por outro título. Ex.: na qualidade de locatário do móvel. Ficta: quando o transmitente cede ao adquirente o direito à restituição da coisa, que se encontra em poder de terceiro. Ficta: na traditio brevi manu: pela qual aquele que se encontra na posse da coisa, por ocasião do negócio jurídico, torna-se dono. Ex.: comodatário de móvel. DISPENSABILIDADE DA TRADIÇÃO REAL a) na abertura da sucessão legítima, ou testamentária aos herdeiros; b) na celebração do casamento realizado sob regime de comunhão universal, em que a transferência do domínio efetua-se independentemente de tradição, em virtude da solenidade inerente a esse ato; c) por força dos pactos antenupciais, a contar da data do casamento, ao cônjuge adquirente; d) no caso de contrato de sociedade de todos os bens, em que a transferênciase opera com a assinatura do referido contrato. 34 5) DA ESPECIFICAÇÃO Modo derivado de aquisição da propriedade móvel. Artigos 1.269 a 1.271 Considera-se especificação a transformação definitiva da matéria-prima alheia (parcial ou totalmente) em espécie nova, mediante o trabalho ou indústria do especificador, tratando-se de bem móvel que não pode voltar ao status quo ante, subsistindo apenas a espécie nova. Trabalho é o principal e a matéria-prima é o acessório. Além da impossibilidade de redução da matéria à forma anterior, são requisitos para a aquisição: 1 - se a matéria-prima pertencer em parte ao especificador, ele será o proprietário da espécie nova, sendo irrelevante a boa-fé ou a má-fé, mas não se exclui a obrigatoriedade da indenização ao coproprietário prejudicado. 2 - se a matéria-prima não for do especificador, depende: BOA-FÉ: será do especificador, mas indenizará o dono da matéria prima. MÁ-FÉ: pertencerá ao dono da matéria-prima – sem indenização pelo trabalho (artigo 1.271). § 2º, do artigo 1.270 – Mesmo na má-fé, se o valor exceder consideravelmente o da matéria-prima, será do especificador, mas sujeito a indenização. 6) DA CONFUSÃO, DA COMISTÃO E DA ADJUNÇÃO Modo derivado de aquisição da propriedade móvel. Acessão de móvel a móvel: mistura de líquidos ou de coisas secas de donos diferentes. Artigos 1.272 a 1.274 - confusão REAL: mistura de coisas líquidas ou gases: de vinhos, vinho e água, álcool e gasolina. - comistão (e não comissão como consta no CC): mistura de coisas sólidas ou secas: areia e cimento; grãos de café de safras diversas. - adjunção: a justaposição de uma coisa a outra: solda de peça a um motor, tinta em relação à parede. Situação inusitada de condomínio de bem móvel. Requisito: sem o consentimento dos proprietários. REGRAS: 1) Quando possível a separação, continuam a pertencer aos donos (óleo e vinagre); 2) Quando impossível a separação, ou sendo excessivo o gasto, manter-se-á o condomínio forçado quando de boa-fé. (quinhão ideal) 3) Se uma das coisas puder considerar-se principal, o dono sê-lo-á do todo, indenizando os outros (areia e cimento, pedra e anel). 4) No caso de má-fé, deve-se atribuir à parte de boa-fé o direito de escolher entre adquirir a propriedade, pagando o que não for seu, abatida a indenização devida, ou renunciar ao que lhe pertencer, optando pela indenização. 35 4. PERDA DA PROPRIEDADE MÓVEL E IMÓVEL Art. 1.275. Além das causas consideradas neste Código, perde-se a propriedade: I - por alienação; II - pela renúncia; III - por abandono; IV - por perecimento da coisa; V - por desapropriação. Parágrafo único. Nos casos dos incisos I e II, os efeitos da perda da propriedade imóvel serão subordinados ao registro do título transmissivo ou do ato renunciativo no Registro de Imóveis. Os três primeiros são modos voluntários de perda da propriedade. O perecimento e a desapropriação são modos involuntários. Artigo é meramente exemplificativo, referindo-se à existência de outras causas de extinção da propriedade, como a usucapião, a acessão e a morte. Não há distinção entre móvel e imóvel. No caso de renúncia ao direito de propriedade imóvel o ato renunciativo desse direito real deve ser feito por escritura pública se o imóvel for superior a 30 salários mínimos (art. 108, CC). 1) PERDA PELA ALIENAÇÃO Contrato – negócio jurídico bilateral (oneroso ou gratuito) Imóvel – Registro imobiliário Móvel - tradição Dá-se a alienação por meio de contrato, ou seja, de negócio jurídico bilateral, pelo qual o titular transfere por vontade própria a propriedade a outra pessoa. Pode ser a título oneroso (compra e venda, dação em pagamento, permuta) ou a título gratuito (doação). O registro imobiliário faz nascer a propriedade imóvel e a tradição a móvel. Enquanto esses atos não ocorrerem, o negócio jurídico fica no plano dos direitos obrigacionais. 36 2) PERDA PELA RENÚNCIA (a renúncia em favor de outrem foge ao sentido do instituto, porque caracterizaria alienação a título gratuito). É o ato unilateral pelo qual o titular abre mão de seus direitos sobre a coisa de forma expressa, sem transferi-lo a outrem. Por ser ato unilateral independe de aceitação. É irrevogável e não se presume, devendo ser expresso. Ex.: Artigos 1.806 c/c 1.810. 3) ABANDONO Não uso + intenção abdicativa da propriedade Também é ato unilateral, pelo qual o titular abre mão de seus direitos sobre a coisa. Neste caso, não há manifestação expressa. Pode ocorrer, por exemplo, quando o proprietário não tem meios de pagar os impostos que oneram o imóvel. A conduta do proprietário caracteriza-se pela intenção de não ter a coisa mais para si, e, simplesmente a abandona, mas é preciso avaliar a sua voluntariedade, pois o simples não uso não gera o abandono. Não precisa registrar nada na matrícula do imóvel, abandona o direito e pronto. E como não há registro do abandono, este ato não tem validade erga omnes. DIFERENÇA ENTRE RENÚNCIA E ABANDONO Pela renúncia a coisa vira res nullius – coisa sem dono ou adéspota - e pelo abandono vira res derelictae. Para a renúncia do direito de propriedade imóvel ocorrer, deve haver o registro do ato de renúncia. A renúncia da propriedade deve ser expressa e registrada e não pode ser tácita, o que configurará abandono. 37 AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE DE BENS ABANDONADOS a) bem móvel: pode ocorrer por meio da ocupação; b) bem imóvel: caso não haja a posse de algum particular dando ensejo à usucapião após o cumprimento dos requisitos, o bem imóvel será arrecadado pelo poder público como bem vago (art. 1276, CC). Art. 1.276. O imóvel urbano que o proprietário abandonar, com a intenção de não mais o conservar em seu patrimônio, e que se não encontrar na posse de outrem, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade do Município ou à do Distrito Federal, se se achar nas respectivas circunscrições. Lei n. 13.465/2017 (5+3) § 1o O imóvel situado na zona rural, abandonado nas mesmas circunstâncias, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade da União, onde quer que ele se localize. § 2o Presumir-se-á de modo absoluto a intenção a que se refere este artigo, quando, cessados os atos de posse, deixar o proprietário de satisfazer os ônus fiscais. Att.: Art. 150, IV, CF: Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao DF e aos Municípios: (...) utilizar tributo com efeito de confisco. Enunciados 242 (processo judicial) e 243 (não contrariar CF) das JDC. 4) PERDA PELO PERECIMENTO DA COISA Sempre que ocorrer a destruição da coisa, pois não existe mais direito por lhe faltar objeto. Trata-se de modo involuntário de perda da propriedade. Ex.: o campo tomado definitivamente pelas águas ou o móvel destruído pelo incêndio desaparecem para arealidade e para a vida negocial. 5) PERDA PELA DESAPROPRIAÇÃO Trata-se de modo involuntário de perda da propriedade imóvel: é o procedimento completo de direito público, pelo qual a Administração, fundamentada na necessidade pública, na utilidade pública ou no interesse social, adquire a propriedade do imóvel de forma coativa, mediante indenização paga ao proprietário. 38 DESAPROPRIAÇÃO X COMPRA E VENDA X CONFISCO A desapropriação não se confunde com a compra e venda porque se trata de transferência compulsória, por ato unilateral da Administração e não um negócio jurídico bilateral. Não é também confisco, pois há pagamento de indenização pela tomada da propriedade particular. Ex. confisco: área de cultivo de psicotrópicos (art. 243 da CF) OBJETO DA DESAPROPRIAÇÃO Quaisquer bens móveis e imóveis, desde que presentes os princípios da necessidade, utilidade e interesse social. Os bens públicos também podem ser desapropriados pelos entes públicos superiores em relação aos inferiores: A União pode desapropriar bens dos Estados, Distrito Federal e Municípios. Os Estados podem desapropriar bens dos Municípios. MODALIDADES: Art. 5º. , XXIV e arts 182 e 184 da CF: - necessidade pública: denota urgência em obras ou atividades do Estado (v.g.: saúde, salubridade) que determinam a pronta transferência do bem privado à Administração; - utilidade pública: Decreto Lei 3.365/41, art. 5º: demonstra conveniência de apropriação do bem, por interesse coletivo, sem que seja urgente ou imprescindível. - interesse social: CF, art. 184 e Lei 4.132/62: decorre de circunstâncias para melhorar a distribuição e fruição da propriedade privada. Os bens desapropriados por interesse social não se destinam propriamente a órgãos da Administração, mas à coletividade. 39 PROCESSO DE DESAPROPRIAÇÃO A desapropriação pode ocorrer por acordo administrativo ou processo judicial. - Acordo administrativo: reduzido a termo, lavra-se a escritura pública para o registro imobiliário se for de imóvel; - Processo judicial: na falta de acordo com o proprietário sobre o valor da oferta. A lei restringe o âmbito da causa de pedir no processo expropriatório (o julgador limitar-se ao exame formal do ato discutindo-se o preço justo) e o Poder Judiciário não pode examinar e decidir se há mesmo caso de utilidade pública ou desvio de finalidade com abuso de poder. Isso deve ser discutido em ação autônoma como na ação anulatória de expropriação. DIREITO DE EXTENSÃO Decreto 4956/1903: Desapropriação e sobra de área do imóvel. Cf.: Venosa. Essa área pode sofrer valorização ou não. Se a diminuição de sua extensão ocasionar a perda de toda a sua utilidade, o particular pode exigir que toda a área seja desapropriada, no próprio procedimento administrativo sem necessitar de ação autônoma. Embora a lei específica não trate da hipótese, entende-se como decorrência do Decreto de 1903. DESAPROPRIAÇÃO INDIRETA/AO INVERSO: Ocupação do imóvel pela atividade da Administração e o proprietário do imóvel não utiliza os interditos possessórios ou a reivindicatória para sua proteção. - se a coisa preenche mesmo o interesse público, o proprietário deve ajuizar ação de procedimento ordinário em face da Administração para obter a indenização. - ou então a Administração ajuíza ação de usucapião só que pelo prazo de 10 anos, na modalidade extraordinária, porque não há justo título nem boa-fé. 40 INDENIZAÇÃO E PAGAMENTO Deve ser justa, prévia e em dinheiro, salvo para: Imóveis rurais, destinados à reforma agrária: indenização em títulos de dívida agrária (art. 184, CF). Imóveis urbanos, não integrantes do plano diretor: indenização por títulos da dívida pública (art. 182, § 4º, III). Fora essas exceções, a indenização deve incluir no valor do bem, benfeitorias, construções, lucros cessantes e danos emergentes, bem como juros compensatórios (juros como compensação pela perda da propriedade), juros moratórios (pela demora no pagamento da indenização), além de custas e honorários de advogado. Todo pagamento deve ter correção até a data da efetiva liquidação, refazendo-se o cálculo tantas vezes quanto for necessário para se atingir o desiderato da justa indenização. Súmula 561 do STF. DESISTÊNCIA DA DESAPROPRIAÇÃO É admissível até antes da incorporação do bem ao Estado: para os móveis até a tradição e para os imóveis até o trânsito em julgado da sentença ou o registro do acordo administrativo. Se já incorporado definitivamente ao patrimônio público, não há mais do que desistir. A situação passa a ser de retrocessão. REVOGAÇÃO do ato expropriatório Por conveniência (critério discricionário) da Administração, a coisa volta para o domínio do proprietário com o pagamento de eventuais prejuízos. Deve ocorrer antes de incorporar o bem ao patrimônio público e antes do pagamento da indenização. ANULAÇÃO Em virtude de vícios como desvio de poder, abuso de direito ou desvio de finalidade. A sentença que anula o decreto expropriatório dá margem a perdas e danos, com ou sem o retorno do bem ao patrimônio privado. 41 RETROCESSÃO Art. 519, CC Caberá ao expropriado direito de preferência, pelo preço atual da coisa. Se a coisa expropriada para fins de necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, não tiver o destino para o que se desapropriou, ou não for utilizada em obras ou serviços públicos. OUTRAS FORMAS DE INTERVENÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA, PORÉM SEM A PERDA DA PROPRIEDADE PELO PARTICULAR SERVIDÃO ADMINISTRATIVA: é ônus real incidente sobre o uso da propriedade particular a fim de assegurar a realização de obras e serviços públicos, com a utilização plena da propriedade, mas não retira o direito de propriedade somente o restringe. Ex.: passagem aérea de linhas de transmissão de energia ou do solo privado para a passagem de oleodutos. Se ocasionar prejuízo cabe indenização. Poderá ser por acordo administrativo ou processo judicial. REQUISIÇÃO: utilização coativa de bens ou serviços privados em razão de necessidade pública urgente e transitória, com indenização posterior se necessário. – calamidades públicas, perigo iminente (ex.: guerra). OCUPAÇÃO PROVISÓRIA OU TEMPORÁRIA DE BENS PARTICULARES: ocorre para a consecução de serviços como canteiro de obras, vias de passagem. Cabe indenização ao particular pelos transtornos e prejuízos se houverem (art. 36 do Decreto-lei nº 3.365/41). 42 5. DOS DIREITOS DE VIZINHANÇA DOS DIREITOS DE VIZINHANÇA São dispositivos normativos que têm por objetivo regulamentar as relações jurídicas estabelecidas entre moradores de prédios vizinhos. ESPÉCIE DE OBRIGAÇÃO As obrigações advindas dos direitos de vizinhança são consideradas obrigações propter rem, porque acompanham a coisa, independente de quem estiver em sua posse. Amplo conceito de vizinhança São tratados como vizinhosnão apenas os prédios contíguos, mas também aqueles que de alguma forma sofrem os efeitos de atos realizados entre prédios próximos. Ex.: poluição sonora. DIVISÃO DO ESTUDO DA MATÉRIA 1) Uso anormal da propriedade; 2) Árvores limítrofes; 3) Passagem forçada; 4) Passagem de cabos e tubulações; 5) Águas; 6) Limites entre prédios; 7) Direito de construir. SEÇÃO I Do uso anormal da propriedade Art. 1.277. O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha. Parágrafo único. Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança. OBJETIVO O direito de vizinhança não tem o objetivo de criar vantagens para os proprietários, mas evitar prejuízos; ao contrário das servidões, que visam a conferir mais vantagens para os proprietários. Procura-se, mediante as normas que compõem as relações de vizinhança, coibir as interferências indevidas nos imóveis vizinhos. 43 SERVIDÕES X DIREITOS DE VIZINHANÇA 1) FONTE: os direitos de vizinhança decorrem da lei; as servidões decorrem da lei, de convenção entre as partes ou por usucapião. 2) CONSTITUIÇÃO: os direitos de vizinhança independem de registro imobiliário; as servidões se constituem por registro (exceto para usucapião); 3) EFEITOS: os direitos de vizinhança são limitações; as servidões geram benefícios para o prédio dominante e limitações para o prédio serviente. 4) INTERESSE: os direitos de vizinhança atendem aos interesses gerais, aos interesses de coexistência e pacificação das relações vicinais. As servidões atendem, como regra, somente o interesse e conveniência dos prédios serviente e dominante. 5) Direitos de vizinhança são presididos pelo princípio da igualdade e da reciprocidade. Nas servidões, o que se verifica é uma situação deliberadamente desequilibrada entre os prédios, pois um desses favorece o outro. SUJEITOS: PROPRIETÁRIO OU POSSUIDOR CC/16 – só proprietário e locatário. Mas jurisprudência já entendia em sentido amplo. Possuidor, tanto direto quanto indireto, de boa ou má-fé, posse justa ou injusta. Ex.: comodatário que não entregou o imóvel (sua posse é injusta somente perante o comodante). Outros proprietários aparentes: O detentor; O usufrutuário; O usuário; O locatário, etc. TANTO NO PÓLO PASSIVO QUANTO NO ATIVO. SEU DIREITO SURGE NA QUALIDADE DE VIZINHO E NÃO DA DE PROPRIETÁRIO. ABUSO DE DIREITO CC – é o exercício imoderado de um direito que causa prejuízo a outra pessoa. Por outras palavras, “o aproveitamento da propriedade por alguém encontra limites no mesmo aproveitamento de seu vizinho”. Arnaldo Rizzardo – Direito das Coisas. Forense, 2004, p. 483. 44 ESPÉCIES Interferências prejudiciais Mau uso da propriedade. - ilegais: são os atos ilícitos que obrigam a composição do dano, nos termos do art. 186 (ato ilícito) e 927 (obrigação de indenizar), ainda que não existissem as regras do art. 1277, CC. Ex.: atear fogo no imóvel vizinho, estragar a plantação vizinha, jogar lixo no quintal do vizinho. - abusivas: são os atos que, embora o causador do incômodo se mantenha nos limites de sua propriedade, mesmo assim vem a prejudicar o vizinho, abusando de seu direito de propriedade (abuso de direito ou desvio de finalidade). Ex.: 08 cães em pequeno quintal. - lesivas ou excessivas: atos que causam danos ao vizinho embora o agente esteja fazendo uso normal da propriedade, e a atividade tenha sido autorizada pelo Poder público. Ex.: indústria cuja fuligem esteja poluindo o ambiente, embora normal a atividade, não sendo abusiva nem ilegal. Pode acarretar indenização (caso de hotel de grande porte) ou até mesmo demolição da obra (caso do heliponto em bairro residencial de SP, mesmo com autorização por parte da administração). O QUE DEVEMOS ENTENDER POR USO ANORMAL DA PROPRIEDADE? Difícil... O critério é casuístico, levando em conta a noção da pessoa média, não muito sensível, nem muito rude, e também o interesse coletivo. “... na matéria de vizinhança, é mais justo e lógico falar de uma influência da jurisprudência sobre a doutrina, do que desta sobre aquela.” Francisco Clementino San Tiago Dantas (1972) Caio Mário – As circunstâncias de cada caso devem ser analisadas pelo julgador. 45 INTERESSE COLETIVO /RAZOABILIDADE: As regras serão aplicadas de acordo com o interesse coletivo e dentro de certa razoabilidade. -razoabilidade: um nível de ruído que é tolerado próximo a uma avenida de trânsito intenso não é o mesmo daquele que será suportável em uma calma paisagem de campo. - interesse coletivo: são exceções em que certas situações devem ser toleradas, pois prevalece o interesse público, lógico que com o recebimento de eventual indenização se houver prejuízo (art. 1278). Mas os efeitos podem ser minimizados. Ex.: colocação de filtros e técnicas modernas diante de gases poluentes emitidos por um hospital. ALGUNS CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO: Art. 1.277, parágrafo único. Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança. TRINÔMIO: a) Natureza da utilização; b) Localização; c) Limites ordinários de tolerância. - Homem médio: verificar a extensão do dano ou do incômodo causado: verificar se é tolerável ou não, porque ninguém pode pretender sob a invocação do direito de descanso que tudo em seu redor se imobilize e se cale. “O que a lei confere ao vizinho é o poder de impedir que os outros o incomodem em excesso, com ruídos intoleráveis, que perturbem o sossego natural do lar, do escritório, da escola, do hospital, na medida da quietude exigível para cada um destes ambientes”. (Carlos Roberto Gonçalves, p.353). - Zona de conflito: examinar a zona onde ocorre o conflito, bem como os usos e costumes locais: parágrafo único do art. 1277, CC: prédio/bairro residencial e comercial/ cidade do interior e capital. Ex.: praia com barzinhos. - Pré-ocupação: considerar a anterioridade da posse: teoria da pré-ocupação: aquele que primeiramente se instala em determinado local acaba, de certo modo, estabelecendo sua destinação. Mas não deve ser levada em conta sem reservas, sempre deve ser acentuado o interesse coletivo. Plano Diretor do Município, instrumento fundamental de organização dos Municípios, disciplinado pela Lei 10.257/01 (Estatuto da Cidade – arts. 39 a 42) 46 EVENTO DANOSO Decorrente de ato jurídico (voluntário) ou fato da natureza, com reflexos jurídicos, que o tornará um fato jurídico, com reflexos no campo da vizinhança. Ex.: o muro vizinho pode ter sido construído com toda técnica possível e mesmo assim vir a desabar. Nem por isso o dono do muro deve deixar de indenizar. Art. 1280, CC. OBJETOS TUTELADOS A segurança trata da atividade ou inatividade que produza um dano efetivo ou crie situação de perigo para o prédio vizinho, incluindo pessoas e bens. Ex.: construção quepossa causar abalos na estrutura do prédio vizinho, explosões, trepidações, etc. A saúde tanto física quanto psíquica do vizinho. Ex.: manutenção de água empoçada no quintal ou de animais em condições inadequadas, com a possibilidade de propagar doenças pelo bairro. Ao sossego Ex.: o som, a luz, o cheiro, as sensações térmicas. Enunciado n.º 319 da IV Jornada de Direito Civil “A condução e a solução das causas envolvendo conflitos de vizinhança devem guardar estreita sintonia com os princípios constitucionais da intimidade, da inviolabilidade da vida privada e da proteção ao meio ambiente”. DECORO? DECORO? Não está abrangido pelo artigo. Assim, não há como impedir que prostitutas se instalem nos apartamentos, desde que não perturbem o sossego, a saúde ou a segurança dos demais moradores. Tutela específica I - de fazer ou não fazer (art. 497 do NCPC), II - a ação de nunciação de obra nova, III - a ação de dano infecto (arts. 1280 e 1281 do Código Civil de 2002), dentre outras. 47 I - de fazer ou não fazer (art. 497 do NCPC) Diante da violação aos direitos de vizinhança, o proprietário ou o possuidor poderá, com base no art. 497 do NCPC, pedir a cessação das interferências prejudiciais, inclusive com a cominação de medida coercitiva prevista no art. 500 do NCPC, a saber, imposição de multa (astreintes). Poderá determinar outras medidas, além dessas, desde que se mostrem aptas à efetivação da tutela específica ou do resultado prático equivalente. II - a ação de nunciação de obra nova Há também, conforme mencionado, a possibilidade do prejudicado com as interferências utilizar da ação de nunciação de obra nova. Dita demanda pode ser intentada pelo proprietário ou possuidor, a fim de impedir que a edificação de obra nova em imóvel vizinho lhe prejudique o prédio, suas servidões ou fins a que é destinado. Trata-se de demanda efetiva quando houver necessidade de paralisar obra prejudicial. III - a ação de dano infecto (arts. 1280 e 1281 do Código Civil de 2002) Fundamento nos artigos 1280 e 1281 do Código Civil de 2002. Aludida demanda judicial tem por escopo a fixação de caução em benefício do proprietário ou possuidor prejudicado nos casos de dano iminente que puder vir a decorrer de obras ou de ameaça de ruína de prédio vizinho. 48 MODALIDADES DE DANOS E ATITUDES DO PROPRIETÁRIO OU POSSUIDOR: - se já houve prejuízo efetivo: queda de objeto sobre terreno vizinho, danificando a propriedade; emissão de gases poluentes durante determinado período afetando a saúde do vizinho; descarga de esgotos sobre o outro prédio: a solução é somente a ação indenizatória, na qual se apurarão as perdas e danos, porque a ação já cessou. Inclusive com direito a indenização por dano moral em certos casos. - no entanto, tratando-se de situação presente e continuativa de prejuízo à segurança, sossego, e saúde do vizinho, a ação é tipicamente de vizinhança, nos termos do art. 1277, CC. A AÇÃO SERÁ DE OBRIGAÇÃO DE FAZER OU NÃO FAZER COM COMINAÇÃO DE MULTA DIÁRIA (AÇÃO DE EFEITO COMINATÓRIO), podendo cumular com pedido indenizatório. As ações típicas de vizinhança, com a finalidade de cessar o estorvo, são imprescritíveis porque podem ser propostas enquanto perdurar o ato turbativo, sendo um direito de ação potestativo (sem o concurso de vontades). Construção de aterro sanitário; de penitenciária. JUSTIFICADO: sem abuso de poder ou desvio de finalidade. Art. 1.278. O direito a que se refere o artigo antecedente não prevalece quando as interferências forem justificadas por interesse público, caso em que o proprietário ou o possuidor, causador delas, pagará ao vizinho indenização cabal. CABAL: danos positivos (prejuízos e desvalorização) + danos negativos (lucros cessantes) Art. 1.279. Ainda que por decisão judicial devam ser toleradas as interferências, poderá o vizinho exigir a sua redução, ou eliminação, quando estas se tornarem possíveis. MENOR ONEROSIDADE POSSÍVEL. Mesmo que por decisão judicial... Novos fatos que justifiquem essa revisão. Ex.: fábrica pode ter acesso a nova tecnologia para diminuição de ruídos. 49 AÇÃO DE DANO INFECTO E AÇÃO CAUCIONATÓRIA DE DANO INFECTO Art. 1.280. O proprietário ou o possuidor tem direito a exigir do dono do prédio vizinho a demolição, ou a reparação deste, quando ameace ruína, bem como que lhe preste caução pelo dano iminente. AMEAÇA DE RUÍNA 1- demolição 2- reparação 3- caução Caução real (garantia incide sobre móvel (penhor) ou imóvel (hipoteca e anticrese) Caução fidejussória (pessoal por 3º - fiança) Pode ajuizar ação de nunciação de obra nova: quando a construção estiver em curso e não terminada. AÇÃO DE DANO INFECTO: quando estiver fazendo reforma ou o prédio estiver em ruína: dano que não se consumou, mas tem possibilidade de ocorrer, causando justo receio, ficando autorizado o proprietário do prédio a exigir do vizinho a demolição ou reparação de sua propriedade, na hipótese de estar o prédio ameaçado de ruína (art. 1280, CC). AÇÃO DE CAUÇÃO DE DANO INFECTO (art. 1280 e 1281, CC): confere ao vizinho uma garantia a fim de que eventual dano não fique sem ressarcimento. Cessada a situação de iminência e não ocorrendo o dano, não haverá ação principal e o caucionante levanta o valor da caução. Diferente do anterior. Não pode impedir a obra, mas tem direito a garantias. Art. 1.281. O proprietário ou o possuidor de um prédio, em que alguém tenha direito de fazer obras, pode, no caso de dano iminente, exigir do autor delas as necessárias garantias contra o prejuízo eventual. EXEMPLOS: * passagem forçada; * servidões; * passagem de cabos e tubulações. 1- PROPRIETÁRIO OU POSSUIDOR; 2- OBRAS POR 3º; 3- JUSTO E FUNDADO RECEIO DE DANO IMINENTE; 4- GARANTIAS: não apenas caução (real ou fidejussória), mas qualquer medida que evite o prejuízo (obras de segurança). 50 SEÇÃO II Das árvores limítrofes Art. 1.282. A árvore, cujo tronco estiver na linha divisória, presume-se pertencer em comum aos donos dos prédios confinantes. ÁRVORE (ou arbusto, trepadeira) TRONCO (não folhas ou frutos) São conhecidas por árvores-meia porque cada proprietário confrontante tem direito à metade da árvore, surgindo um condomínio legal, e, portanto, todas as despesas com a poda e todos os frutos serão divididas entre eles. Condomínio legal. O titular desta poderá cortá-los na vertical, ou seja, sem invadir a propriedade alheia. Art. 1.283. As raízes e os ramos de árvore, que ultrapassarem a estrema do prédio, poderão ser cortados, até o plano vertical divisório, pelo proprietário do terreno invadido. Não é necessário avisar ou pedir permissão ao vizinho. Independe de dano. Mas atenção às normas ambientais (autorização administrativa se puder causar a morte da árvore). Exceção à regra de que o acessório segue o principal. Caídos x colhidos. Art. 1.284. Os frutos caídos de árvore do terreno vizinho pertencem ao dono do solo onde caíram, se este for de propriedade particular. OBJETIVO DO ARTIGO Evitar conflitos entre vizinhos (entrada do vizinho para recolher frutos). Se os frutos caírem em propriedade pública, pertencerão ao dono da árvore frutífera e comete furto quem delesse apoderar. SEÇÃO III Da Passagem Forçada Art. 1.285. O dono do prédio que não tiver acesso a via pública, nascente ou porto, pode, mediante pagamento de indenização cabal, constranger o vizinho a lhe dar passagem, cujo rumo será judicialmente fixado, se necessário. 51 PRÉDIO ENCRAVADO CC16 No meio de outros prédios e sem saída própria. HIPÓTESE DE CABIMENTO AUSÊNCIA REAL (inseguro, perigoso, insuficiente à sua utilização econômica e social) REQUISITOS: a) Sem acesso; b) Natural; c) Indenização. Além da total ausência de acesso à via pública, caberá a passagem forçada quando o acesso existente seja insuficiente para permitir o aproveitamento do imóvel de acordo com sua destinação. Deve ser considerado encravado o prédio com acesso inseguro, perigoso ou insuficiente para utilização econômica e social da propriedade. Enunciado 88 das Jornadas de Direito Civil: Art. 1.285: o direito de passagem forçada, previsto no artigo 1.285 do CC, também é garantido nos casos em que o acesso à via pública for insuficiente ou inadequado, consideradas, inclusive, as necessidades de exploração econômica. Porém, não se admite a passagem na hipótese de consistir em mera comodidade para encurtamento do caminho. DESAPROPRIAÇÃO NO INTERESSE PARTICULAR. Não há direito de passagem gratuito. Tal direito equivale a uma desapropriação no interesse particular, pois o proprietário do prédio onerado com a passagem tem direito a indenização cabal (art. 1285), apurada por perícia e que independe de culpa e decorre simplesmente do direito de vizinhança. LEGITIMIDADE: Não é apenas o proprietário, mas também o usufrutuário, usuário, habitador ou possuidor. Podem eles também defender a turbação da via de passagem pelos remédios possessórios: manutenção de posse ou reintegração de posse. Ex.: se o dono do prédio serviente coloca um portão impedindo a passagem. § 1o Sofrerá o constrangimento o vizinho cujo imóvel mais natural e facilmente se prestar à passagem. A passagem deve ser fixada no caminho mais curto, no prédio mais próximo e de forma menos onerosa para ambas as partes. Mas considerações sobre a facilidade do acesso também serão levadas em conta. 52 § 2o Se ocorrer alienação parcial do prédio, de modo que uma das partes perca o acesso à via pública, nascente ou porto, o proprietário da outra deve tolerar a passagem. O proprietário vende a parte dos fundos e permanece com a frente para a via pública. O alienante deve conceder a passagem, pois não se pode pretender que outro vizinho lhe dê passagem. Também na hipótese oposta, é alienada a frente apara a via pública, o adquirente deve conceder a passagem. Seria ideal resolver isso já na compra e venda. § 3o Aplica-se o disposto no parágrafo antecedente ainda quando, antes da alienação, existia passagem através de imóvel vizinho, não estando o proprietário deste constrangido, depois, a dar uma outra. Ex.: Em favor do titular do prédio B, existia o direito de passagem forçada perante o dono do prédio A; posteriormente, o prédio B é parcialmente alienado, dele se destacando o prédio C, que ficou privado de acesso à via pública, nascente ou porto. O titular do prédio C terá direito de passagem forçada pelo prédio B (parcialmente alienado). Ressalte-se que permanece inalterada a relação entre o titular do prédio B e o prédio A. A lei desconsidera a hipótese de o proprietário do prédio A ser constrangido a ceder novo caminho de passagem em favor do titular do prédio C. Na prática, este, para alcançar a via pública, nascente ou porto, deverá passar pela propriedade de B e A. EXTINÇÃO Quando desaparece o encravamento. Extingue-se a passagem forçada e desaparece o encravamento em casos, por exemplo, de abertura de estrada pública que atravessa ou passa ao lado de suas divisas, ou quando é anexado a outro, que tem acesso para a via pública. A limitação imposta ao prédio que serve a passagem só se justifica em função da necessidade imperiosa do seu vizinho. Cessada tal necessidade, desaparece a razão para a permanência do aludido ônus. 53 Condições: - se não houver acordo entre as partes, a passagem será fixada judicialmente; - a passagem deve se dar de maneira menos onerosa possível ao que suportará a passagem; - o que suportar a passagem terá seu imóvel desvalorizado porque haverá estranhos transitando, ainda que em caminho previamente fixado; - sendo assim, terá direito a indenização pelos prejuízos suportados com a impossibilidade de exercício exclusivo de seu direito de propriedade; - se os vizinhos não chegarem a um consenso sobre o valor da indenização, haverá avaliação pericial. SEÇÃO IV Da Passagem de Cabos e Tubulações Sem previsão no CC/16 Art. 1.286. Mediante recebimento de indenização que atenda, também, à desvalorização da área remanescente, o proprietário é obrigado a tolerar a passagem, através de seu imóvel, de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos de serviços de utilidade pública, em proveito de proprietários vizinhos, quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa. Será que não seria melhor gastar mais e prejudicar menos? PONDERAÇÃO. REQUISITOS Não há necessidade de o prédio ser encravado. 1) Serviços de utilidade pública: rol não taxativo (água, luz, telefonia, tv a cabo); 2) Procedimento menos gravoso: inviabilidade de outra forma ou excessivamente onerosa; 3) Indenização: prejuízos efetivos e eventual desvalorização do imóvel. Parágrafo único. O proprietário prejudicado pode exigir que a instalação seja feita de modo menos gravoso ao prédio onerado, bem como, depois, seja removida, à sua custa, para outro local do imóvel. Se houver nova tecnologia que viabilize instalação menos gravosa, o proprietário prejudicado pela passagem dos cabos ou tubulações terá direito de exigir sua adaptação ao novo sistema. Se quiser a remoção para outro local do imóvel, suportará ELE MESMO este custo. Desde que a utilidade dos equipamentos seja preservada. 54 OBRAS DE SEGURANÇA (além da indenização) Art. 1.287. Se as instalações oferecerem grave risco, será facultado ao proprietário do prédio onerado exigir a realização de obras de segurança. SEÇÃO V Das Águas Art. 1.288. O dono ou o possuidor do prédio inferior é obrigado a receber as águas que correm naturalmente do superior, não podendo realizar obras que embaracem o seu fluxo; porém a condição natural e anterior do prédio inferior não pode ser agravada por obras feitas pelo dono ou possuidor do prédio superior. - conformação do solo e de aspectos da lei da gravidade Fluindo naturalmente, ainda que ocorra prejuízo, este não é imputável ao dono do prédio superior, mas a fato da natureza. - dono do prédio inferior é obrigado a receber o fluxo - sem poder exigir canalização das águas NATURAIS Mas não se pode obrigá-lo a suportar o escoamento de detritos e fezes de animais no prédio inferior. O proprietário deve fazer obras para evitar as águas impróprias escoem para o terreno vizinho, devendo indenizar o vizinho por eventuais prejuízos. Previsão já era existente no Código de Águas (Decreto 24.643, de 10.07.1934). Era posterior ao CC/16 (regulava tudo), hoje só no que não for incompatível com o CC/02) Art. 1.289. Quando as águas,artificialmente levadas ao prédio superior, ou aí colhidas, correrem dele para o inferior, poderá o dono deste reclamar que se desviem, ou se lhe indenize o prejuízo que sofrer. Parágrafo único. Da indenização será deduzido o valor do benefício obtido. Balanceamento entre benefícios e prejuízos. 55 Art. 1.290. O proprietário de nascente, ou do solo onde caem águas pluviais, satisfeitas as necessidades de seu consumo, não pode impedir, ou desviar o curso natural das águas remanescentes pelos prédios inferiores. Trata-se da servidão de águas supérfluas, pelo qual o prédio inferior pode adquirir sobre as sobras uma servidão destinada a uso doméstico, bebedouro de gado ou finalidade agrícola. As águas pluviais são coisas sem dono. Desde que escoem por terrenos particulares são de propriedade dos respectivos proprietários. Mas se houver sobras, o dono do prédio inferior tem o direito de recebê-las e de recebê-las limpas. Preocupação com o meio ambiente, pois proíbe a poluição, e, se esta ocorrer, obriga o poluidor a recuperar as águas poluídas, sob pena de pagamento de indenização. Art. 1.291. O possuidor do imóvel superior não poderá poluir as águas indispensáveis às primeiras necessidades da vida dos possuidores dos imóveis inferiores; as demais, que poluir, deverá recuperar, ressarcindo os danos que estes sofrerem, se não for possível a recuperação ou o desvio do curso artificial das águas. Artigo criticado: poderia então poluir as águas não indispensáveis se pagar? “comprar” o “direito de poluir”? Na tentativa de salvar o art. 1291, aprovou-se o Enunciado n. 244 na III Jornada de Direito Civil, prevendo que “o art. 1.291 deve ser interpretado conforme a Constituição, não sendo facultada a poluição das águas, quer sejam essenciais ou não às primeiras necessidades da vida”. Art. 1.292. O proprietário tem direito de construir barragens, açudes, ou outras obras para represamento de água em seu prédio; se as águas represadas invadirem prédio alheio, será o seu proprietário indenizado pelo dano sofrido, deduzido o valor do benefício obtido. 56 Possibilidade de instalação de aquedutos. Essa modalidade de canalização independe de consentimento do vizinho, pois se busca a utilização social da propriedade. Art. 1.293. É permitido a quem quer que seja, mediante prévia indenização aos proprietários prejudicados, construir canais, através de prédios alheios, para receber as águas a que tenha direito, indispensáveis às primeiras necessidades da vida, e, desde que não cause prejuízo considerável à agricultura e à indústria, bem como para o escoamento de águas supérfluas ou acumuladas, ou a drenagem de terrenos. Indispensáveis às primeiras necessidades da vida Houve substancial restrição ao art. 117 do Código de Águas, uma vez que esse último dispositivo prescreve que [...] a todos é permitido canalizar pelo prédio de outrem as águas a que tenham direito, mediante prévia indenização ao dono deste prédio: a) para as primeiras necessidades da vida; b) para os serviços da agricultura ou da indústria; c) para o escoamento das águas superabundantes; d) para o enxugo ou bonificação dos terrenos. Diante de aludidas restrições, foi aprovado na III Jornada de Direito Civil o Enunciado de n. 245 que estabelece que “muito embora omisso acerca da possibilidade de canalização forçada de águas por prédios alheios, para fins de agricultura ou indústria, o art. 1293 não exclui a possibilidade da canalização forçada pelo vizinho, com prévia indenização dos proprietários prejudicados”. Ressarcimento pelos eventuais danos futuros. § 1o Ao proprietário prejudicado, em tal caso, também assiste direito a ressarcimento pelos danos que de futuro lhe advenham da infiltração ou irrupção das águas, bem como da deterioração das obras destinadas a canalizá-las. Minimizar os efeitos danosos. § 2o O proprietário prejudicado poderá exigir que seja subterrânea a canalização que atravessa áreas edificadas, pátios, hortas, jardins ou quintais. Menor prejuízo e responsabilidade pela conservação. § 3o O aqueduto será construído de maneira que cause o menor prejuízo aos proprietários dos imóveis vizinhos, e a expensas do seu dono, a quem incumbem também as despesas de conservação. 57 Art. 1.294. Aplica-se ao direito de aqueduto o disposto nos arts. 1.286 e 1.287. Direito de passagem de cabos e tubulações. 1) Indenização pela desvalorização; 2) Remoção da canalização; 3) Realização de obras de segurança, em caso de risco. Os proprietários atingidos não ficarão impedidos de cercar os imóveis e de construir sobre eles, desde que o façam com segurança e conservação dos aquedutos. Art. 1.295. O aqueduto não impedirá que os proprietários cerquem os imóveis e construam sobre ele, sem prejuízo para a sua segurança e conservação; os proprietários dos imóveis poderão usar das águas do aqueduto para as primeiras necessidades da vida. A preferência para essa utilização será dos proprietários atravessados pelo aqueduto. Trata-se da possibilidade de construção de aqueduto derivado. Art. 1.296. Havendo no aqueduto águas supérfluas, outros poderão canalizá-las, para os fins previstos no art. 1.293, mediante pagamento de indenização aos proprietários prejudicados e ao dono do aqueduto, de importância equivalente às despesas que então seriam necessárias para a condução das águas até o ponto de derivação. Parágrafo único. Têm preferência os proprietários dos imóveis atravessados pelo aqueduto. Seção VI Dos Limites entre Prédios e do Direito de Tapagem Art. 1.297. O proprietário tem direito a cercar, murar, valar ou tapar de qualquer modo o seu prédio, urbano ou rural, e pode constranger o seu confinante a proceder com ele à demarcação entre os dois prédios, a aviventar rumos apagados e a renovar marcos destruídos ou arruinados, repartindo-se proporcionalmente entre os interessados as respectivas despesas. IMPORTÂNCIA DO ARTIGO - para aquilatar o âmbito da utilização da coisa pelo proprietário. - ao Estado interessa que os limites entre os vários prédios estejam efetivamente definidos, não somente para a paz social, para o exercício de seu poder de polícia, como também para a tributação. 58 AÇÃO DE DEMARCAÇÃO O ponto decisivo a distinguir a demarcatória em relação à reivindicatória é a circunstância de ser imprecisa, indeterminada ou confusa a verdadeira linha de confrontação a ser estabelecida ou restabelecida no terreno Entra em cena, nesse contexto, a ação de demarcação, regulada conjuntamente com a ação de divisão no NCPC (arts. 569 a 598), cujos requisitos para ajuizamento, segundo Nelson Nery Junior e Rosa Nery são: a) terem as partes, autor e réu, direito real sobre a coisa demarcanda, prédio rural ou urbano; b) haver contiguidade de prédios; c) haver confusão entre os limites, ou risco de haver confusão entre os limites dos prédios confinantes. - condomínio legal, ou seja, que decorre da lei (presunção iuris tantum). § 1o Os intervalos, muros, cercas e os tapumes divisórios, tais como sebes vivas, cercas de arame ou de madeira, valas ou banquetas, presumem-se, até prova em contrário, pertencer a ambos os proprietários confinantes (e outros), sendo estes obrigados, de conformidade com os costumes da localidade, a concorrer, em partes iguais, para as despesas de sua construção econservação. Presunção iuris tantum § 2o As sebes vivas, as árvores, ou plantas quaisquer, que servem de marco divisório, só podem ser cortadas, ou arrancadas, de comum acordo entre proprietários. Tapumes especiais são os que podem impedir a passagem de animais de pequeno porte, como as aves domésticas. § 3o A construção de tapumes especiais para impedir a passagem de animais de pequeno porte, ou para outro fim, pode ser exigida de quem provocou a necessidade deles, pelo proprietário, que não está obrigado a concorrer para as despesas. a) Confusos b) Falta de outro meio; c) Posse justa; d) Divisão igual; e) Indenização. Art. 1.298. Sendo confusos, os limites, em falta de outro meio, se determinarão de conformidade com a posse justa; e, não se achando ela provada, o terreno contestado se dividirá por partes iguais entre os prédios, ou, não sendo possível a divisão cômoda, se adjudicará a um deles, mediante indenização ao outro. 59 Seção VII Do Direito de Construir Art. 1.299. O proprietário pode levantar em seu terreno as construções que lhe aprouver, salvo o direito dos vizinhos e os regulamentos administrativos. LIMITES DE ORDEM PRIVADA E DE ORDEM PÚBLICA Hely Lopes Meirelles, com propriedade, observa que “ao direito de construir se opõem limites de ordem privada e de ordem pública”. “Aqueles são dados pelas restrições de vizinhança expressas em normas civis e convenções particulares; estes são estabelecidos pelas limitações administrativas, consignadas em normas de ordem pública”. Sem descuidar de que há outras normas relativas ao direito de construir, sobretudo no Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01) – PLANO DIRETOR (artigo 39 e ss). Art. 1.300. O proprietário construirá de maneira que o seu prédio não despeje águas, diretamente, sobre o prédio vizinho. Embora esteja o proprietário obrigado a receber as águas que correm naturalmente para o seu prédio, não pode ser compelido a suportar as que fluam artificialmente, por meio de calhas ou beirais. Proteção contra o estilicídio. Há também limitações tendentes a amparar o direito à privacidade, insculpido no art. 5.º, X da Constituição Federal. Trata-se de limitação específica que visa à operacionalização Art. 1.301. É defeso abrir janelas, ou fazer eirado, terraço ou varanda, a menos de metro e meio do terreno vizinho. - conta-se a distância de metro e meio da linha divisória e não do edifício vizinho. Em caso de desrespeito, cabe ação de nunciação de obra nova. § 1o As janelas cuja visão não incida sobre a linha divisória, bem como as perpendiculares, não poderão ser abertas a menos de setenta e cinco centímetros. 60 do insculpido no art. 21 também do Código Civil de 2002, que dispõe que “a vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma”. § 2o As disposições deste artigo não abrangem as aberturas para luz ou ventilação, não maiores de dez centímetros de largura sobre vinte de comprimento e construídas a mais de dois metros de altura de cada piso. Súmula 120 do STF: “Parede de tijolos de vidro translúcido pode ser levantada a menos de metro e meio do prédio vizinho, não importando a servidão sobre ele”. AINDA TEM APLICAÇÃO. Ação demolitória (durante a construção a ação é de nunciação de obra nova). Tal prazo é decadencial contado da conclusão da obra, ou seja, da expedição do alvará de ocupação, denominado habite-se, e não da abertura da janela, sacada, terraço ou da goteira. Vencido o prazo constitui-se verdadeira servidão que tem como título a concessão presumida do vizinho. Art. 1.302. O proprietário pode, no lapso de ano e dia após a conclusão da obra, exigir que se desfaça janela, sacada, terraço ou goteira sobre o seu prédio; escoado o prazo, não poderá, por sua vez, edificar sem atender ao disposto no artigo antecedente, nem impedir, ou dificultar, o escoamento das águas da goteira, com prejuízo para o prédio vizinho. Parágrafo único. Em se tratando de vãos, ou aberturas para luz, seja qual for a quantidade, altura e disposição, o vizinho poderá, a todo tempo, levantar a sua edificação, ou contramuro, ainda que lhes vede a claridade. Art. 1.303. Na zona rural, não será permitido levantar edificações a menos de três metros do terreno vizinho. 61 DIREITO DE CONSTRUIR. CONCEITOS IMPORTANTES PAREDE-MEIA – CONDOMÍNIO NECESSÁRIO. “Art. 1.306. O condômino da parede-meia pode utilizá-la até ao meio da espessura, não pondo em risco a segurança ou a separação dos dois prédios, e avisando previamente o outro condômino das obras que ali tenciona fazer; não pode sem consentimento do outro, fazer, na parede-meia, armários, ou obras semelhantes, correspondendo a outras, da mesma natureza, já feitas do lado oposto”. ALTEAMENTO – Aumentar a parede-meia. “Art. 1.307. Qualquer dos confinantes pode altear a parede divisória, se necessário reconstruindo-a, para suportar o alteamento; arcará com todas as despesas, inclusive de conservação, ou com metade, se o vizinho adquirir meação também na parte aumentada”. TRAVEJAMENTO OU MADEIRAMENTO - Direito de colocar uma trave, viga ou madeira no prédio vizinho nos casos em que há o alinhamento da parede-meia. Art. 1.304, CC. “Nas cidades, vilas e povoados cuja edificação estiver adstrita a alinhamento, o dono de um terreno pode nele edificar, madeirando na parede divisória do prédio contíguo, se ela suportar a nova construção; mas terá de embolsar ao vizinho metade do valor da parede e do chão correspondentes”. DIREITO DE PENETRAÇÃO O art. 1.313 do atual Código Civil, em decorrência da realização de obras, reconhece que o proprietário ou ocupante é obrigado a tolerar que o vizinho adentre no seu imóvel, desde que haja prévio aviso, nas seguintes hipóteses: a) Se o vizinho, temporariamente, dele for usar, quando indispensável à reparação, construção, reconstrução ou limpeza de sua casa ou do muro divisório. Ex.: o proprietário deve tolerar a entrada do vizinho para reparos em paredes ou corte de galhos de árvores. Esse direito de tolerância é aplicado aos casos de limpeza ou reparação de esgotos, goteiras, aparelhos higiênicos, poços e nascentes e ao aparo de cerca viva (art. 1.313, § 1.º, do CC). b) Para o vizinho apoderar-se de coisas suas, inclusive animais, que ali se encontrem casualmente. Ex.: o vizinho entra no imóvel de outrem para pegar uma bola de futebol ou um gato perdido. Uma vez sendo entregue a coisa buscada pelo vizinho, o proprietário pode impedir novas entradas no imóvel (art. 1.313, § 2.º, do CC). 62 Trata-se do direito de travejamento ou madeiramento, vale dizer, de colocar uma viga, trave ou madeira no prédio vizinho. O direito de travejamento ou madeiramento subordina- se a duas condições, a saber, que a edificação seja feita em cidade, vila ou povoado e que a edificação esteja obrigada a determinado alinhamento. Art. 1.304. Nas cidades, vilas e povoados cuja edificação estiver adstrita a alinhamento, o dono de um terreno pode nele edificar, madeirando na parede divisória do prédio contíguo, se ela suportar a nova construção; mas terá de embolsar ao vizinho metade do valor da parede e do chão correspondentes. O direito de travejar ou travejamentoé o direito que tem o titular de utilizar a parede, penetrá-la até a metade de sua espessura, para apoiar sua construção. Entra em cena, nesse contexto, a já mencionada ação de dano infecto, que encontra seu fundamento nos arts. 1280 e 1281 do Código Civil de 2002. Aludida demanda judicial, conforme já mencionamos, tem por escopo a fixação de caução em benefício do proprietário ou possuidor prejudicado nos casos de dano iminente que puder vir a decorrer de obras ou de ameaça de ruína de prédio vizinho. Art. 1.305. O confinante, que primeiro construir, pode assentar a parede divisória até meia espessura no terreno contíguo, sem perder por isso o direito a haver meio valor dela se o vizinho a travejar, caso em que o primeiro fixará a largura e a profundidade do alicerce. Parágrafo único. Se a parede divisória pertencer a um dos vizinhos, e não tiver capacidade para ser travejada pelo outro, não poderá este fazer-lhe alicerce ao pé sem prestar caução àquele, pelo risco a que expõe a construção anterior. Paredes divisórias: Paredes-meia: são diferentes dos muros/tapumes: esses são elementos de vedação enquanto a parede é elemento de sustentação e vedação Art. 1.306. O condômino da parede-meia pode utilizá- la até ao meio da espessura, não pondo em risco a segurança ou a separação dos dois prédios, e avisando previamente o outro condômino das obras que ali tenciona fazer; não pode sem consentimento do outro, fazer, na parede-meia, armários, ou obras semelhantes, correspondendo a outras, da mesma natureza, já feitas do lado oposto. 63 LEITURA Art. 1.307. Qualquer dos confinantes pode altear a parede divisória, se necessário reconstruindo-a, para suportar o alteamento; arcará com todas as despesas, inclusive de conservação, ou com metade, se o vizinho adquirir meação também na parte aumentada. LEITURA Art. 1.308. Não é lícito encostar à parede divisória chaminés, fogões, fornos ou quaisquer aparelhos ou depósitos suscetíveis de produzir infiltrações ou interferências prejudiciais ao vizinho. Parágrafo único. A disposição anterior não abrange as chaminés ordinárias e os fogões de cozinha. LEITURA Art. 1.309. São proibidas construções capazes de poluir, ou inutilizar, para uso ordinário, a água do poço, ou nascente alheia, a elas preexistentes. LEITURA Art. 1.310. Não é permitido fazer escavações ou quaisquer obras que tirem ao poço ou à nascente de outrem a água indispensável às suas necessidades normais. LEITURA Art. 1.311. Não é permitida a execução de qualquer obra ou serviço suscetível de provocar desmoronamento ou deslocação de terra, ou que comprometa a segurança do prédio vizinho, senão após haverem sido feitas as obras acautelatórias. Parágrafo único. O proprietário do prédio vizinho tem direito a ressarcimento pelos prejuízos que sofrer, não obstante haverem sido realizadas as obras acautelatórias. LEITURA Art. 1.312. Todo aquele que violar as proibições estabelecidas nesta Seção é obrigado a demolir as construções feitas, respondendo por perdas e danos. LEITURA Art. 1.313. O proprietário ou ocupante do imóvel é obrigado a tolerar que o vizinho entre no prédio, mediante prévio aviso, para: I - dele temporariamente usar, quando indispensável à reparação, construção, reconstrução ou limpeza de sua casa ou do muro divisório; II - apoderar-se de coisas suas, inclusive animais que aí se encontrem casualmente. § 1o O disposto neste artigo aplica-se aos casos de limpeza ou reparação de esgotos, goteiras, aparelhos higiênicos, poços e nascentes e ao aparo de cerca viva. § 2o Na hipótese do inciso II, uma vez entregues as coisas buscadas pelo vizinho, poderá ser impedida a sua entrada no imóvel. § 3o Se do exercício do direito assegurado neste artigo provier dano, terá o prejudicado direito a ressarcimento. 64 6. DO CONDOMÍNIO GERAL CONDOMÍNIO GERAL CONDOMÍNIO EDILÍCIO Arts. 1.314 a 1.330, CC. Arts. 1.331 a 1.358, CC. COMUNHÃO (gênero) CONDOMINIO (espécie) Comunhão: direitos corpóreos ou incorpóreos. Condomínio: apenas para direito de propriedade. PORTANTO: todo condomínio é uma comunhão, mas nem toda comunhão é condomínio. CONCEITO – por juristas. Caio Mário da Silva Pereira: Co+domínio ou com+domínio DOMÍNIO DE + DE 1. Dá-se o condomínio, quando a mesma coisa pertence a mais de uma pessoa, cabendo a cada uma delas igual direito, idealmente, sobre o todo e cada uma de suas partes. MARIA HELENA DINIZ PARTE IDEAL x PARTE MATERIAL CLÓVIS BEVILÁQUA O condomínio ou compropriedade é a forma ANORMAL da propriedade... Porque o sujeito do direito não é único a exercer o direito com EXCLUSÃO dos outros. São 2 ou + sujeitos que exercem esse direito SIMULTANEAMENTE. REQUISITOS 1) + DE UM SUJEITO (prop.) 1) Exercendo o direito sobre a coisa simultaneamente. Direito ROMANO – mater discordiarum. POMO DA DISCÓRDIA TÉTIS E PELEU – AQUILES HERA, ATENA e AFRODITE Páris (FILHO DE PRÍAMO, rei de Tróia - ILION). Helena – esposa de MENELAU (rei de Esparta) 65 ART. 1.314, CC. Ângulo externo e ângulo interno Possessória contra comproprietário? Art. 1.314. Cada condômino pode usar da coisa conforme sua destinação, sobre ela exercer todos os direitos compatíveis com a indivisão, reivindicá- la de terceiro, defender a sua posse e alhear a respectiva parte ideal, ou gravá-la. Parágrafo único. Nenhum dos condôminos pode alterar a destinação da coisa comum, nem dar posse, uso ou gozo dela a estranhos, sem o consenso dos outros. Classificação do condomínio: 1. Quanto a origem; - convencional ou voluntário: é o que se origina da vontade dos condôminos, ou seja, quando duas ou mais pessoas adquirem o mesmo bem ou quando, na composse, gerar usucapião. - eventual: é o que resulta da vontade de terceiros, ou seja, do doador ou do testador, ao efetuarem uma liberalidade a várias pessoas; doação ou legado de um bem indivisível para várias pessoas. - legal ou necessário: surge por imposição legal, em virtude inclusive do estado de indivisão da coisa, como se dá com o condomínio havido nos muros, cercas, valas comuns, na comistão, na confusão, etc. A comunhão hereditária, estabelecida pela morte do autor da herança, diferencia-se do condomínio. Seu objeto é a universalidade, todo o patrimônio do falecido. O condomínio deve recair sobre coisa determinada, seja ela divisível ou indivisível. A comunhão hereditária é transitória. Sua finalidade é terminar com a partilha. Apenas a indivisibilidade do bem atribuído a mais de um herdeiro com a partilha pode estabelecer o condomínio. 66 2 Quanto à forma ou modo de exercício: Pro diviso: INDIVISÃO DE DIREITO E NÃO DE FATO. Tem-se um condomínio aparente, pois os condôminos já se localizam em parte determinada sobre o bem, exercendo então o uso exclusivo da propriedade nesse local; já cercaram a área, respeitam os respectivos limites. Incumbe aos condôminos tão só regularizar a divisão do imóvel junto ao registro imobiliário. Pro indiviso: INDIVISÃO DE DIREITO E DE FATO. Não há a localização em partes certas e determinadas; não há possibilidade de divisão do bem em partes, a propriedade é exercida em comum. Ex.: as áreas comuns do condomínio edilício. 3 Quanto a durabilidade - transitório: é o convencionalou eventual, que pode ser extinto a todo tempo pela vontade de qualquer condômino. - permanente: é o legal, que perdura enquanto persistir a situação que o determinou. Ex.: muros, paredes. 4 Quanto ao objeto: - coisa determinada ou indeterminada (coerdeiros) - móvel ou imóvel - divisível ou indivisível (pela natureza, pela vontade ou pela lei). Direitos dos condôminos 1) utilização livre, conforme a sua destinação – art. 1.314,CC. Se impasse = art. 1.325 – por MAIORIA ABSOLUTA (primeiro número inteiro acima da metade do total). 2)reivindicar a coisa 3)defender sua posse contra outrem 4)alhear a respectiva parte indivisa ou gravá-la. 5)receber os frutos proporcionalmente – artigos 1.326 e 1.319, CC. 67 6)PEDIR A ALIENAÇÃO OU DIVISÃO DA COISA Art. 1.320 e §§, CC. 7)RENUNCIAR À SUA PARTE Art. 1.316. Pode o condômino eximir-se do pagamento das despesas e dívidas, renunciando à parte ideal. § 1o Se os demais condôminos assumem as despesas e as dívidas, a renúncia lhes aproveita, adquirindo a parte ideal de quem renunciou, na proporção dos pagamentos que fizerem. §2º não havendo quem queira arcar com a dívida, a coisa comum será dividida e a renúncia não terá efeito. DEVERES imposto, seguro, licenças, reparações etc. Art. 1.315. O condômino é obrigado, na proporção de sua parte, a concorrer para as despesas de conservação ou divisão da coisa, e a suportar os ônus a que estiver sujeita. Parágrafo único. Presumem-se iguais as partes ideais dos condôminos. Art.1.317 (dívidas por todos) Art.1.319 (indenização pelos frutos e danos) Art. 1.318 (dívidas contraídas por apenas um dos condôminos, em proveito da comunhão, e durante ela, obrigam o contratante; mas este terá direito de regresso contra os demais). DAR PREFERÊNCIA A OUTRO SE COISA INDIVISÍVEL Art. 504, CC – PREEMPÇÃO ou direito de preferência. Administração do condomínio: Art. 1323, CC: escolha pela maioria absoluta: 51% das cotas ideais. 68 Extinção do condomínio Art. 1320: a coisa comum, se divisível, pode ser dividida a qualquer tempo a requerimento de um dos condôminos, por ação própria (art. 569, II, NCPC): as despesas serão rateadas entre os condôminos na proporção de seus quinhões. AQUI NÃO É MAIORIA, basta um. A sentença será declaratória e não atributiva de propriedade, pois os condôminos já eram proprietários e a sentença apenas declara e localiza a parte de cada um. AÇÃO DE EXTINÇÃO DE CONDOMÍNIO Pode ser amigável ou judicial. SE um deles for menor ou não houver acordo será judicial. ART. 1.322 Art. 1.322. Quando a coisa for indivisível, e os consortes não quiserem adjudicá-la a um só, indenizando os outros, será vendida e repartido o apurado, preferindo-se, na venda, em condições iguais de oferta, o condômino ao estranho, e entre os condôminos aquele que tiver na coisa benfeitorias mais valiosas, e, não as havendo, o de quinhão maior. Parágrafo único. Se nenhum dos condôminos tem benfeitorias na coisa comum e participam todos do condomínio em partes iguais, realizar-se- á licitação entre estranhos e, antes de adjudicada a coisa àquele que ofereceu maior lanço, proceder-se-á à licitação entre os condôminos, a fim de que a coisa seja adjudicada a quem afinal oferecer melhor lanço, preferindo, em condições iguais, o condômino ao estranho. DO COMPÁSCUO ou comunhão em pastos Comunhão do pasto e não da propriedade. Era regulado pelo art. 646 do CC/16. A comunhão nos pastos dos prédios de diversos proprietários, e não a comunhão de diversos indivíduos nos pastos do mesmo prédio. 69 6.1. DO CONDOMÍNIO EDILÍCIO Propriedade horizontal Propriedade em planos superpostos Propriedade em edifícios CC/02 – adotou a denominação PROPRIEDADE EM EDIFÍCIOS ORIGEM Pressão populacional + modernas técnicas de construção civil. Roma, Idade Média e Séc XX. CC/16 não se preocupou com a matéria. Somente em 1928, o Decreto n. 5.481 traçou as primeiras normas, de forma insatisfatória. Em 1964 é promulgada a Lei 4.591/64, com alterações pela Lei 4.864/65, denominada DE ... LEI DE CONDOMÍNIO E INCORPORAÇÕES. Na época atual, mas hoje com deficiências. CC/02 tentou preencher essas lacunas, mas faz-se premente um estatuto ou microssistema do condomínio edilício. LEI 4.591/64 1ª PARTE – cond. Especial. 2ª PARTE – incorporador (imóveis em construções). CRÍTICA: o estudo do contrato de incorporação pertence ao campo dos contratos em espécie, ao Direito Obrigacional. O CC revogou a 1ª parte, Mas manteve a 2ª. NO CONDOMÍNIO EDILÍCIO HÁ DUPLICIDADE DE DIREITOS REAIS. 1- UNIDADE AUTÔNOMA: direito amplo (restrições no direito de vizinhança) 2- PARTES DE USO COMUM: condomínio. Na 2ª parte, se não regulada pelo condomínio edilício, recorremos às normas do condomínio geral. O titular da unidade autônoma é, portanto, proprietário de um direito COMPLEXO. NESSE SENTIDO o artigo 1.331: Art. 1.331. Pode haver, em edificações, partes que são propriedade exclusiva, e partes que são propriedade comum dos condôminos. NATUREZA JURÍDICA Não tem personalidade jurídica. Personalidade anômala, não é PESSOA JURÍDICA (Carlos Roberto Gonçalves). 70 CRÍTICA DE VENOSA: Poderia o condomínio ser pessoa jurídica, pois no mundo negocial o condomínio age tal qual uma pessoa jurídica. Enunciados das Jornadas de Direito Civil. 144 – Art. 44: A relação das pessoas jurídicas de direito privado constante do art. 44, incs. I a V, do Código Civil não é exaustiva. 90 – Art. 1.331: Deve ser reconhecida personalidade jurídica ao condomínio edilício nas relações jurídicas inerentes às atividades de seu peculiar interesse. (Alterado pelo En. 246 – III Jornada). 246 – Art. 1.331: Fica alterado o Enunciado n. 90, com supressão da parte final: “nas relações jurídicas inerentes às atividades de seu peculiar interesse”. Prevalece o texto: “Deve ser reconhecida personalidade jurídica ao condomínio edilício”. Ex.: nada impede que o condomínio seja proprietário de unidades autônomas, lojas no térreo ou garagens, que loca e aufere renda para a comunidade condominial. NCPC, artigo 75, XI – administrador ou síndico irá representar processualmente o condomínio. RESTRITO À ESFERA PROCESSUAL. Aluguel de ABRIGOS PARA VEÍCULOS – garagem. Art. 1.338: Resolvendo o condômino alugar área no abrigo para veículos, preferir-se- á, em condições iguais, qualquer dos condôminos a estranhos, e, entre todos, os possuidores. Direito de preferência, preempção ou prelação legal. JDC, Enunciado 91 – Art. 1.331: A convenção de condomínio ou a assembleia-geral podem vedar a locação de área de garagem ou abrigo para veículos a estranhos ao condomínio. JDC, Enunciado 320 – Arts. 1.338 e 1.331: O direito de preferência de que trata o art. 1.338 deve ser assegurado não apenas nos casos de locação, mas também na hipótese de venda da garagem. Alienação de ABRIGOS PARA VEÍCULOS – garagem. Lei 12.607, de 2012, inseriu o § 1º ao artigo 1.331, CC. Não poderão ser alienados ou alugados a pessoas estranhas ao condomínio, SALVO CONVENÇÃO do condomínio. Acerca do enunciado 320 (acima), entendemos tratar-se de uma imprecisão ao aplicar por analogia norma restritiva de direitos. Entretanto, o entendimento do enunciadoé majoritário. ART. 1.331, § 3º - redação original a fração ideal era proporcional ao $ da unidade imobiliária. Lei 10.931/2004 – essa fração ideal é identificada no instrumento de instituição do condomínio. ART. 1.332 – INSTITUIÇÃO DO CONDOMÍNIO ato entre vivos ou testamento + registro no CRI (eficácia erga omnes) 71 CONVENÇÃO DO CONDOMÍNIO ESTÁTICA + 2/3 frações ideais (quórum mínimo) Arts. 1.333 e 1.351, CC – constituição e alteração. + por escritura pública ou instrumento particular. REGIMENTO/REGULAMENTO INTERNO DINÂMICA + NÃO há quórum mínimo (retirado pela Lei 10.931/2004), mas pode ser estabelecido pela Convenção ou regimento. Ex.: horário de piscina, do salão de festas. DEVERES DOS CONDÔMINOS ART. 1336, I. 1) Pagar despesas de condomínio. (obrigação propter rem) Até vigência do CC/2002 – multa de 20% + 1% de correção monetária. Após – multa de 2% juros de 1%. Desconto por pontualidade? Multa disfarçada (En.505, JDC). SANÇÕES: multa – advertência – proibição a certas atividades no condomínio. ALTERAÇÃO DE FACHADA (toldos, telas, colocação de vidro). SEPARAÇÃO DE FATO: pode pedir aluguel, mas tem que pagar condomínio. ANIMAIS: flexibilização jurisprudencial. Sossego, Saúde, Segurança. IMPEDIMENTO PARA UTILIZAÇÃO DA UNIDADE? COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL. PODE PREVER QUE CONDENADO A CERTOS CRIMES FIQUE PROIBIDO DE RESIDIR OU INGRESSAR? Do Condomínio de Lotes (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017) Art. 1.358-A. Pode haver, em terrenos, partes designadas de lotes que são propriedade exclusiva e partes que são propriedade comum dos condôminos. § 1º. A fração ideal de cada condômino poderá ser proporcional à área do solo de cada unidade autônoma, ao respectivo potencial construtivo ou a outros critérios indicados no ato de instituição. § 2º Aplica-se, no que couber, ao condomínio de lotes o disposto sobre condomínio edilício neste Capítulo, respeitada a legislação urbanística. § 3º Para fins de incorporação imobiliária, a implantação de toda a infraestrutura ficará a cargo do empreendedor. 72 7. DA PROPRIEDADE RESOLÚVEL CONCEITO: É aquela que no próprio título de sua aquisição encerra o princípio que a tem de extinguir, realizada a condição resolutória, ou vindo o termo extintivo, seja por força da declaração, seja por determinação da lei. NATUREZA JURÍDICA: propriedade de natureza especial (temporária) OU apenas caso de aplicação das regras relativas à condição e ao termo, previstas na parte geral do CC. O MELHOR é CONSIDERÁ-LA UMA MODALIDADE DE PROPRIEDADE. ART. 1.359 (CAUSA PREVISTA NO TÍTULO) ART. 1360 (CAUSA É SUPERVENIENTE) IMPLEMENTO da condição OU ADVENTO do termo. EX.: PACTO DE RETROVENDA a.1) Conceito: é a cláusula estabelecida no contrato de compra e venda de bem imóvel que garante ao vendedor o direito de reaver o bem com quem quer que esteja, desde que exercitado em certo prazo e restituído ao proprietário o preço pago e as despesas feitas por este (art. 505). a.2) Natureza jurídica: é cláusula estabelecida em contrato de compra e venda, representando uma condição resolutiva. Trata-se de direito de resgate deferido ao vendedor da coisa. a.3) Prazo: o direito de resgate poderá ser exercido no prazo máximo de 3 anos (prazo decadencial), salvo se for estabelecido prazo menor. Porém, se não for pactuado prazo, será de 3 anos; se for pactuado prazo maior que 3 anos, o excesso é tido como não escrito, prevalecendo o prazo de 3 anos. a.4) Forma de exercer o direito de resgate: poderá ser feito de forma amigável ou judicialmente, mediante a consignação do valor em juízo (art. 506). a.5) Direito de reivindicar a coisa do adquirente posterior: a cláusula de retrovenda constará na escritura, que deverá ser registrada no registro de imóvel, sendo que os eventuais adquirentes do imóvel não poderão alegar desconhecimento (art. 507). 73 a.6) Transmissão do direito de resgate: o direito de resgate é transmissível por ato inter vivos (cessão de direito) ou por causa mortis, por via sucessória legítima ou testamentária (art. 507). a.7) Retrovenda conjunta: havendo uma pluralidade de pessoas com direito de retrato, se um deles usar do direito, os demais devem ser cientificados, sendo que cada um pode exercer o retrato sobre seu quinhão (art. 508). PORTANTO: se alguém compra imóvel com pacto de retrovenda na escritura, não poderá reclamar se o primeiro alienante exercer o seu direito antes do prazo de 03 anos. RESOLVE-SE o domínio do 3º e o primeiro alienante poderá reivindicar o imóvel. ART. 1.359 - EFEITO EX TUNC – como se nunca tivesse sido vendida. ART. 1.360 – EFEITO EX NUNC – CC 557 e 563. OUTROS EXEMPLOS: 1. Condômino vende a estranho sem respeito ao direito de preferência. Prazo de 06 meses. RESOLVE-SE a propriedade do adquirente estranho. 2.FIDEICOMISSO: testador (fideicomitente) determina que bem irá para A (fiduciário). Com a sua morte ou após certo lapso de tempo, o bem deverá ir para B (fideicomissário). PROLE EVENTUAL. Verificado o TERMO – RESOLVE-SE a propriedade. 3. DOAÇÃO COM CLÁUSULA DE REVERSÃO: doador determina que os bens doados voltem ao seu patrimônio, se sobreviver ao donatário. (art. 547, CC). NÃO PODE SER A TERCEIROS. 4.VENDA A CONTENTO: se não agradar ao comprador, o negócio será desfeito. (art. 509). PRAZO: no contrato (se não houver prazo no contrato, deverá notificar o comprador) ART. 1.360 – CAUSA SUPERVENIENTE EX.: REVOGAÇÃO DA DOAÇÃO – art. 557 – 3º de boa-fé continuará com a coisa. 74 8. PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA (FIDÚCIA – confiança) Negócio jurídico pelo qual o DEVEDOR FIDUCIANTE aliena o bem adquirido a um terceiro, o CREDOR FIDUCIÁRIO, que paga o preço ao ALIENANTE ORIGINÁRIO. Devedor fiduciante = posse direta da coisa. Sob o aspecto do devedor, trata-se de direito real de aquisição. Nesse sentido, o acréscimo do artigo 1.368-B pela Lei n. 13.043, de 13.11.2014. Credor fiduciário = proprietário da coisa (resolúvel), tendo, ainda, um direito real sobre coisa que lhe é PRÓPRIA. O parágrafo 2º do artigo 1.361 do CC esclarece que se trata de desdobramento da posse em que o devedor se torna possuidor direto da coisa. NÃO há tradição real, mas sim ficta – constituto possessório. A partir da edição da lei 9.514, de 20 de novembro de 1997, passou a ser possível, no Brasil, a utilização da alienação fiduciária de bens imóveis, para garantia de débitos civis. ART. 1.368-A NOVO DIREITO REAL DE GARANTIA – Hipoteca é restrita a imóveis11; e, por sua vez, o penhor exige a tradição da coisa apenhada. MODOS DE CONSTITUIÇÃO – art. 1.361, § 1º, CC – FORMA ESCRITA. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA DE BENS MÓVEIS E O ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL = Jurisprudência do STJ vinha aplicando a tese do adimplemento substancial (impossibilidade de busca e apreensão se o contrato tiver sido quase todo cumprido). Entretanto, o STJ, em março de 2017, entendeu pela sua não aplicação (Decreto-lei 911/1969). ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA DE BENS MÓVEIS E A QUESTÃO DA PRISÃO CIVIL DO DEVEDOR FIDUCIANTE = art. 5º, LXVII, CF/88 e artigo 652, CC/02 + Emenda Constitucional 45/2004 (art. 5º, § 3º, CF/88) + Pacto de San José da Costa Rica (força supralegal). Conclusão: prisão civil do depositário infiel não se coaduna com o sistema brasileiro (Súmula Vinculante n. 25, STF). Art. 1.365 = o devedor não pode ser obrigado a entregar a coisa como pagamento, maso § único do artigo estabelece uma faculdade do devedor nesse sentido. VEDAÇÃO DO PACTO COMISSÓRIO REAL. Art. 1.368 = 3º, interessado ou não, que paga a dívida, sub-roga-se nos direito do credor. (Sub-rogação legal) 11 E também para navios e aeronaves. 75 9. DOS DIREITOS REAIS SOBRE COISA ALHEIA PROPRIEDADE USAR (jus utendi) PLENA GOZAR (jus fruendi) DISPOR (jus abutendi) REAVER JUS IN RE PROPRIA X JUS IN RE ALIENA PROPRIEDADE LIMITADA: usufrutuário (usar e fruir) nu-proprietário (dispor e reaver) CONCEITO: direito real sobre coisa alheia é o de receber, por meio de norma jurídica, permissão do seu proprietário para usá-la ou tê-la como se fosse sua, em determinadas circunstâncias, ou sob condição de acordo com a lei e com o que foi estabelecido, em contrato válido (Godofredo Telles Júnior). - TEMPORÁRIO – ERGA OMNES. AQUISIÇÃO DOS DIREITOS REAIS: no direito brasileiro o contrato, por si só, não basta para a transferência do domínio; por ele criam-se apenas obrigações e direitos; o domínio, porém, só se adquire pela tradição, se for coisa móvel, e pela transcrição (registro do título), se for imóvel. ESPÉCIES: 1 - direitos reais de gozo ou fruição - superfície – arts. 1.369 a 1.377. - servidões prediais – arts. 1.378 a 1.389. - usufruto – arts. 1.390 a 1.411. - uso – arts. 1.412 a 1.413. - habitação – arts. 1.414 a 1.416. - concessão de uso especial para fins de moradia (Lei nº 11.481/2007) - concessão de direito real de uso (Lei nº 11.481/2007) - laje – arts. 1.510-A a 1.510-E (incluídos pela Lei nº 13.465/2017) OBS.: embora não conste mais no CC/02, também será abordada a enfiteuse. 76 2 - direito real de aquisição - compromisso ou promessa irrevogável de compra e venda - arts. 1.417 a 1.418. 3 - direitos reais de garantia - penhor – arts. 1.431 a 1.472. - hipoteca – arts. 1.473 a 1.505. - anticrese – arts. 1.506 a 1.510. 10. DIREITOS REAIS DE GOZO OU FRUIÇÃO 10.1. DIREITO REAL DE SUPERFÍCIE Origem: Direito romano, diante da necessidade de edificação sobre bens públicos, permanecendo o solo em poder do Estado. Direito de superfície para pequenos comércios em terrenos públicos. Conceito: é o direito real concedido pelo proprietário (concedente), ao superficiário, por tempo determinado, mediante escritura pública registrada no cartório de Registro de Imóveis, para que este construa ou plante no terreno. 12 Transmite-se ao superficiário o domínio útil, ou seja, a utilidade do domínio. Trata-se da concessão do direito real de construir ou plantar no terreno do proprietário. É o direito real de ter coisa própria incorporada em terreno alheio. É uma exceção ao princípio de que tudo que se planta ou constrói em solo alheio é de propriedade do dono do solo. Não incidirá o aludido princípio (dominus soli), superfícies solo cedit (a superfície acede ao solo: acessão das construções ou plantações), pois a propriedade da construção ou da plantação é de quem a realizou, continuando o terreno no domínio do dono do solo. Essa interrupção dos efeitos da acessão resulta do direito de superfície. 12 O CC/02 aboliu a enfiteuse, substituindo-a pelo direito de superfície gratuito ou oneroso. 77 Coexistem dois proprietários: o do solo e o da construção ou plantação; superficiário (posse direta da coisa) e proprietário ou concedente (posse indireta). O concedente ficará temporariamente despido do domínio pleno; em contrapartida o superficiário estará produzindo, seja plantando ou construindo em sua propriedade e, ao término do contrato, o proprietário receberá a coisas com todos os acréscimos, valorizada. Nesse ínterim, o superficiário retirará da coisa seus frutos. 13 Modos de constituição: 1 - por escritura pública registrada no Cartório de Registro de imóveis. 2 - por decisão judicial que atribua o direito de superfície a alguém – registra-se a carta de sentença (equiparada à escritura pública) 3 - por testamento (com o registro do formal de partilha) O direito de superfície pode ser gratuito ou oneroso, mas sempre temporário. Se oneroso, as partes estipularão o pagamento: solarium ou cânon, que poderá ser parcelado ou a vista. Direito de Implante: nome dado à obra ou plantação que decorre do direito de superfície. Destaca-se que a disjuntiva OU não foi empregada com sentido restritivo. Nada impede que o proprietário concedente e o superficiário convencionem que a concessão terá por objeto o direito de construir E plantar. Finalidade: melhor aproveitamento do solo, observando-se o preceito constitucional da função social da propriedade. Ex.: evitar deteriorações, invasões e conflitos originários de uma propriedade mal utilizada. Legislação aplicável: a Lei 10.257/2001 – Estatuto da Cidade. Regulamenta a superfície dos imóveis urbanos. A princípio entendeu-se que o CC de 2002 havia revogado os dispositivos do Estatuto da Cidade, pois se tratava de lei nova, de caráter amplo e geral que passou a regular inteiramente a matéria versada na lei anterior. 13 CC/2002 só admite sua contratação por prazo determinado. 78 Hoje o entendimento é diverso, mantendo-se os dois institutos nas leis separadas, de acordo com suas delimitações, como se pode extrair do Enunciado n. 93 da JDC14. DIREITO DE SUPERFÍCIE DO CC/0215 DIREITO DE SUPERFÍCIE DO ESTATUTO DA CIDADE16 Imóvel urbano ou rural. Imóvel urbano. Exploração mais restrita: construções e plantações. Exploração mais ampla: qualquer utilização de acordo com a política urbana. Em regra, não há autorização para utilização do subsolo e do espaço aéreo. Em regra, é possível utilizar o subsolo ou o espaço aéreo. Cessão somente por prazo determinado. Cessão por prazo determinado ou indeterminado. Subsolo e espaço aéreo. Ex.: construção de aeroporto, construção de antena de rádio, tv, telefonia, estacionamento no subsolo. Institutos semelhantes. ARRENDAMENTO/LOCAÇÃO/PARCERIA = direitos obrigacionais X SUPERFÍCIE = direito real. Questão: e se o imóvel já possuir construção ou plantação? Segundo Carlos Roberto Gonçalves, neste caso, o imóvel edificado não está sujeito a aludido direito. Se o imóvel já possuir construção ou plantação não poderá ser objeto de direito de superfície17. Entretanto, conforme o Enunciado n. 250 das JDC, "admite-se a constituição do direito de superfície por cisão", seja ela ordinária (quando o objeto da concessão não inclui obrigação do superficiário em fazer qualquer melhoramento na construção ou plantação, ou seja, no implante) ou qualificada (conforme pactuação dos envolvidos, o superficiário tem o dever de fazer melhoramentos no implante). 14 Art. 1.369: As normas previstas no Código Civil sobre direito de superfície não revogam as relativas a direito de superfície constantes do Estatuto da Cidade (Lei n. 10.257/2001) por ser instrumento de política de desenvolvimento urbano. 15 Art. 1.369. O proprietário pode conceder a outrem o direito de construir ou de plantar em seu terreno, por tempo determinado, mediante escritura pública devidamente registrada no Cartório de Registro de Imóveis. Parágrafo único. O direito de superfície não autoriza obra no subsolo, salvo se for inerente aoobjeto da concessão. 16 Art. 21, do Estatuto da Cidade: O proprietário urbano poderá conceder a outrem o direito de superfície do seu terreno, por tempo determinado ou indeterminado, mediante escritura pública registrada no cartório de registro de imóveis. Parágrafo único: O direito de superfície abrange o direito de utilizar o solo, o subsolo ou o espaço aéreo relativo ao terreno, na forma estabelecida no contrato respectivo, atendida a legislação urbanística. 17 Nas palavras do autor: "porque somente o terreno se presta a essa finalidade, salvo se for convencionada a demolição da construção existente para a reconstrução de outra, ou a erradicação da plantação existente para fins de utilização do terreno para os mesmos fins" (10ª ed., 2015, p. 454). 79 Direito de laje (construir em cima de laje) - SOBRELEVAÇÃO (superfície de segundo grau). O falecido projeto 6960/02 – período de vacatio legis queria modificação dos artigos de má redação. Esse projeto foi enterrado (arquivado) há muito tempo. Correção foi feita em entendimento doutrinário e jurisprudencial. Nesse sentido o Enunciado n. 568, da VI JDC: "O direito de superfície abrange o direito de utilizar o solo, o subsolo ou o espaço aéreo relativo ao terreno, na forma estabelecida no contrato, admitindo-se o direito de sobrelevação, atendida a legislação urbanística." Com a Lei nº 13.465/2017, o direito de laje, como direito real de gozo ou fruição, deixa de ter amparo na autonomia privada e passa a ter fundamento legal (como veremos mais adiante). - Questão: há possibilidade de constituição de direito de superfície por usucapião? – a ordinária, 10 anos, pode ocorrer, porque o concessionário teria a boa-fé e justo título se tivesse realizado o instituto com quem não era dono do solo; ou por instrumento particular; ou pelo fato de efetuar o pagamento do cânon pelo prazo suficiente a consumação da prescrição aquisitiva de 15 anos, tendo-se a usucapião extraordinária – sem justo título. 18 Impostos (art. 1371): são de responsabilidade do superficiário, independentemente de previsão expressa no contrato de concessão. Ressalte-se que, por convenção das partes, pode haver o rateio dos encargos e tributos 19. Quanto às demais obrigações, prevalece o princípio da separação patrimonial, como se observa pelo Enunciado 321, das JDC: "321 – Art. 1.369. Os direitos e obrigações vinculados ao terreno e, bem assim, aqueles vinculados à construção ou à plantação formam patrimônios distintos e autônomos, respondendo cada um dos seus titulares exclusivamente por suas próprias dívidas e obrigações, ressalvadas as fiscais decorrentes do imóvel." 18 Atenção: para Carlos Roberto Gonçalves somente é possível a usucapião do direito de superfície na forma ordinária. 19 Enunciado n.94, JDC – Art. 1.371: As partes têm plena liberdade para deliberar, no contrato respectivo, sobre o rateio dos encargos e tributos que incidirão sobre a área objeto da concessão do direito de superfície. 80 Transmissão do direito real de superfície: - por ato inter vivos: quando o superficiário transferir seu direito a terceiros e o proprietário não receberá nenhum valor por isto e para tanto não precisará de anuência do proprietário. NÃO HÁ LAUDÊMIO, como ocorre na enfiteuse. - por ato causa mortis: com a morte do superficiário, transmite-se aos herdeiros a concessão da superfície, pelo prazo que ainda restar no contrato original. Venda do imóvel ou do direito de superfície (art. 1373). O superficiário OU o proprietário tem preferência na aquisição. Direito de preferência RECÍPROCO. 20 Propriedade da obra (art. 1.375): se o contrato silenciar a obra pertencerá ao proprietário. Extinção do direito real de superfície: 1) Pelo advento do termo: por ser de prazo determinado, extingue-se pelo advento do termo estabelecido no instrumento constitutivo do direito real de superfície. 2) Desvio da finalidade contratual: antes do termo final, se o superficiário der ao terreno destinação diversa daquela para a que foi concedida. Ex.: era para construir um edifício e o superficiário instala um estacionamento (qualquer mudança na destinação da utilização do solo deve ser realizada de comum acordo com o proprietário, ora concedente, registrado no cartório de imóveis) - art. 1374. 3) Resilição bilateral ou distrato (acordo entre as partes) 4) Não realização de construção ou plantação no prazo determinado, salvo justo motivo. Ex.: dificuldade na aprovação da planta. 5) Desapropriação do imóvel (art. 1376): o dono do terreno recebe o equivalente ao seu valor, enquanto o superficiário é indenizado pela construção ou plantação.21 20 Enunciado n. 510, JDC: Ao superficiário que não foi previamente notificado pelo proprietário para exercer o direito de preferência previsto no art. 1.373 do CC é assegurado o direito de, no prazo de seis meses, contado do registro da alienação, adjudicar para si o bem mediante depósito do preço. 21 Enunciado n. 322, JDC – Art. 1.376. O momento da desapropriação e as condições da concessão superficiária serão considerados para fins da divisão do montante indenizatório (art.1.376), constituindo-se litisconsórcio passivo necessário simples entre proprietário e superficiário. 81 Constituem, ainda, formas de extinção do direito de superfície: - perecimento - abandono - renúncia, - confusão, fusão, consolidação 22 - falta de pagamento das prestações periódicas, quando oneroso. Se não houver descumprimento contratual: se for extinção por advento do termo final (art. 1.375): o proprietário concedente tem a expectativa de receber a coisa com a obra ou plantação. Extinta a concessão, a construção ou plantação incorporam-se no solo em definitivo, retornando ao princípio superfícies solo cedit. Mas nada impede que as partes estabeleçam um valor de indenização no ato constitutivo pelo dono do terreno ao superficiário, considerando-se que este devolve o terreno em regra valorizado. Se houver descumprimento contratual: Se for estipulada indenização ao superficiário, deverá ser de forma expressa na Escritura Pública. A extinção deve ser averbada no cartório de registro de imóveis. Por fim o artigo 1377: direito de superfície constituído por pessoa jurídica de direito público interno: só se aplica o CC quando houver lacuna da lei especial (caráter supletivo). 10.2. DA ENFITEUSE ENFITEUSE: é o direito real limitado mais extenso. É QUASE DOMÍNIO – DIREITOS DO ENFITEUTA: 1) ALIENAR – limitado ao direito de preferência e ao pagamento do laudêmio – 2,5%. 2) TRANSMIÇÃO CAUSA MORTIS 22 Quando na mesma pessoa reúnem-se as condições de proprietário do solo e da superfície. 82 3) LOCAR, EMPRESTAR, CEDER SEU DIREITO SOBRE A COISA 4) ADQUIRIR A COISA com direito de preferência. 5) GRAVAR A ENFITEUSE 6) Constituir SUBENFITEUSES 7) PAGAR IMPOSTOS 8) RESGATE – REMIÇÃO DO IMÓVEL APÓS 10 ANOS e pagamento de 10 foros e 01 laudêmio. PRORIETÁRIO – SENHORIO DIRETO - RECEBER O PAGAMENTO DO FORO. Conceito CC/16 Art. 678 - Dá-se a Enfiteuse, aforamento, ou emprazamento, quando por ato entre vivos, ou de última vontade, o proprietário atribui a outrem o domínio útil do imóvel, pagando a pessoa, que o adquire, e assim se constitui enfiteuta, ao senhorio direto uma pensão, ou foro, anual, certo e invariável. OBJETIVO: FIXAR O HOMEM NA TERRA, tornando-a produtiva. PRINCIPAL CARACTERÍSTICA: perpetuidade– ALIENAÇÃO VIRTUAL. Art. 679, CC/16 - O contrato de Enfiteuse é perpétuo. A Enfiteuse por tempo limitado considera-se arrendamento, e como tal se rege. HOJE – ART. 2.038: Fica proibida a constituição de enfiteuses e subenfiteuses, subordinando-se as existentes, até sua extinção, às disposições do Código Civil anterior e leis posteriores. § 1o Nos aforamentos a que se refere este artigo é defeso: I - cobrar laudêmio ou prestação análoga nas transmissões de bem aforado, sobre o valor das construções ou plantações; II - constituir subenfiteuse. § 2o A enfiteuse dos terrenos de marinha e acrescidos regula-se por lei especial. ENFITEUSE E USUFRUTO – AMBOS DIREITO DE FRUIÇÃO USUFRUTO: usar e gozar da coisa recebendo os seus frutos. ENFITEUSE: usufrui também os produtos da coisa, que não se reproduzem, até exaurindo-a. USUFRUTO: temporário, não alienável, não transmissível aos herdeiros do usufrutuário. ENFITEUSE: perpétua, alienável e transmissível aos herdeiros. 83 OBJETO: Art. 680, CC/16 - Só podem ser objeto de Enfiteuse terras não cultivadas ou terrenos que se destinem a edificação. EXTINÇÃO DA ENFITEUSE VENDA: direito de preferência – PRAZO: 30 dias. SE VENDA A 3º - LAUDÊMIO AO SENHORIO (2,5%). ABANDONO DA COISA: esterilidade ou destruição parcial, perda total dos frutos – SEM direito a reembolso do foro. Art. 692, CC/16 - A Enfiteuse extingue-se: I - pela natural deterioração do prédio aforado, quando chegue a não valer o capital correspondente ao foro e mais um quinto deste; II - pelo comisso, deixando o foreiro de pagar as pensões devidas, por 3 (três) anos consecutivos, caso em que o senhorio o indenizará das benfeitorias necessárias; III - falecendo o enfiteuta, sem herdeiros, salvo o direito dos credores. ENFITEUSE DA UNIÃO:- de natureza especial, não possibilita o resgate, ocorrendo somente se a União autorizar, denominada remissão, com o pagamento de 17% do valor do domínio pleno do terreno. Após, há a emissão do certificado de remissão para registro do imóvel. - terrenos da marinha, que circundam o mar, rios ou lagos, abrange a área de 33 metros para dentro dos terrenos Decreto lei 9760/46, art. 20, VII CF. - foro 0,6% do domínio pleno, anualmente atualizado. - laudêmio 5% sobre o valor do terreno e acessões. - a concessão do aforamento decorre de ato administrativo, pois essa enfiteuse subordina-se a princípios administrativos e cabe ao legislador regulá-la. Por isso o CC não conseguiu colocar no art. 2038 a proibição da enfiteuse em relação aos terrenos da marinha. 84 10.3. SERVIDÕES Conceito: Art. 1.378. A servidão proporciona utilidade para o prédio dominante, e grava o prédio serviente, que pertence a diverso dono, e constitui-se mediante declaração expressa dos proprietários, ou por testamento, e subsequente registro no Cartório de Registro de Imóveis. Direito real de gozo e fruição sobre coisa onde o prédio denominado serviente suporta um gravame, um encargo, uma restrição em favor de outro prédio, sendo estes prédios pertencentes a 2 donos diferentes, com a finalidade de proporcionar utilidade ao prédio serviente. 1) SERVIDÃO LEGAL x SERVIDÃO PREDIAL INDISPENSÀVEL (servidão legal) x UTIL (servidão predial) EVITAR PREJUÍZO x GERAR VANTAGEM NA LEI x VONTADE DAS PARTES SERVIDÃO: ônus real, voluntário, entre dois prédios, PARCELA DE ALGUMAS DAS FACULDADES DA PROPRIEDADE (prédio dominante e prédio serviente) 2) SERVIDÃO PESSOAL x SERVIDÃO PREDIAL (real) 3) FORMAS * Servidão de trânsito ou de passagem; * Servidão de aqueduto; * Servidão de pastagem; * Servidão de não construir a certa altura; * Servidão de iluminação ou ventilação. 4) CARACTERÍSTICAS: a) Predialidade – prédio dominante e prédio serviente (donos diferentes); b) Ambulatoriedade - vínculo real – inseparável; c) Indivisível e inalienável. Art. 1.386. d) Utilidade – se não for útil pode ser cancelado. e) Impresumível. f) Acessoriedade – não existem de per si. 85 5) CLASIFICAÇÃO * POSITIVAS x NEGATIVAS * APARENTES x NÃO APARENTES * CONTÍNUAS x DESCONTÍNUAS 1) CONTÍNUA e APARENTE: aqueduto 2) Contínua E não APARENTE: não abrir janela 3) DESCONTÍNUA e APARENTE: caminho marcado. 4) DESCONTÍNUA e não APARENTE: caminho não marcado. SOMENTE A 1ª GERA POSSE: usucapião e possessórias. Art. 1.379. O exercício incontestado e contínuo de uma servidão aparente, por dez anos, nos termos do art. 1.242, autoriza o interessado a registrá-la em seu nome no Registro de Imóveis, valendo-lhe como título a sentença que julgar consumado a usucapião. Parágrafo único. Se o possuidor não tiver título, o prazo da usucapião será de vinte anos. AS DEMAIS PRECISAM SER REGISTRADAS. MAS ATT. SÚMULA 415 STF – exceção - Servidão de trânsito não titulada, mas tomada permanente, sobretudo pela natureza das obras realizadas, considera-se aparente, conferindo direito à proteção possessória. 6) MODOS DE CONSTITUIÇÃO ATO HUMANO FATO HUMANO a) negócio jurídico a) servidão de trânsito b) sentença c) usucapião d) destinação do proprietário 86 7) AÇÕES QUE PROTEGEM AS SERVIDÕES: Confessória; Negatória; De manutenção ou de reintegração de posse; de nunciação de obra nova; de usucapião. 8) EXTINÇÃO DAS SERVIDÕES Art. 1.387. Salvo nas desapropriações, a servidão, uma vez registrada, só se extingue, com respeito a terceiros, quando cancelada. Parágrafo único. Se o prédio dominante estiver hipotecado, e a servidão se mencionar no título hipotecário, será também preciso, para a cancelar, o consentimento do credor. Art. 1.388. O dono do prédio serviente tem direito, pelos meios judiciais, ao cancelamento do registro, embora o dono do prédio dominante lho impugne: I - quando o titular houver renunciado (1º) a sua servidão; II - quando tiver cessado (2º), para o prédio dominante, a utilidade ou a comodidade, que determinou a constituição da servidão; III - quando o dono do prédio serviente resgatar (3º) a servidão. Art. 1.389. Também se extingue a servidão, ficando ao dono do prédio serviente a faculdade de fazê-la cancelar, mediante a prova da extinção: I - pela reunião dos dois prédios no domínio da mesma pessoa; CONFUSÃO (4º) II - pela supressão das respectivas obras (5º) por efeito de contrato, ou de outro título expresso; SERVIDÕES APARENTES III - pelo não uso, durante dez anos contínuos (6º) 87 10.4. DO USUFRUTO 10.4.1. CONCEITO: é o direito de usar uma coisa pertencente a outrem e de perceber-lhe os frutos. Caracteriza-se o usufruto, assim, pelo desmembramento, em face do princípio da elasticidade, dos poderes inerentes ao domínio: de um lado, fica com o nu-proprietário o direito à substância da coisa, a prerrogativa de dispor dela, e a expectativa de recuperar a propriedade plena pelo fenômeno da consolidação, tendo em vista que o usufruto é sempre temporário; de outro, passam para as mãos do usufrutuário os direitos de uso e gozo, dos quais transitoriamente se torna titular. Passa a existir, destarte, a coexistência harmônica dos direitos do usufrutuário, concernentes à utilização e fruição da coisa, e dos direitos do proprietário, que os perde em proveito daquele, conservando, todavia, a substância dacoisa e a condição jurídica de nu-proprietário. 10.4.2. CARACTERÍSTICAS DO USUFRUTO 1. Direito real sobre coisa alheia: É direito real sobre coisa alheia, pois se reveste de todos os elementos que identificam os direitos dessa natureza. Trata-se de direito real sobre coisa alheia, porque “recai diretamente sobre a coisa, não precisando seu titular, para exercer seu direito, de prestação positiva de quem quer que seja. Vem munido do direito de sequela, ou seja, da prerrogativa concedida ao usufrutuário de perseguir a coisa nas mãos de quem quer que injustamente a de tenha, para usá-la e desfrutá-la como lhe compete. É um direito oponível erga omnnes e sua defesa se faz através de ação real” 2. Temporariedade: Tem caráter temporário, porque se extingue com a morte do usufrutuário (CC, art. 1.410,1) ou no prazo de trinta anos se constituído em favor de pessoa jurídica, e esta não se extinguir antes (art. 1.410, III), sendo admitida, porém, duração menor, como na hipótese de ser constituído por prazo certo, ou ainda determinado em razão de atingir o beneficiado idade limite ou alcançar certa condição ou estado (obtenção de diploma de nível universitário, casamento) 3. Inalienabilidade: É inalienável, permitindo-se, porém, a cessão de seu exercício por título gratuito ou oneroso. Dispõe, o art. 1.393 do Código Civil: 88 “Não se pode transferir o usufruto por alienação; mas o seu exercício pode ceder-se por título gratuito ou oneroso’ O benefício só pode aproveitar ao seu titular, não se transmitindo a seus herdeiros devido a seu falecimento. Sendo permitida a cessão do seu exercício, pode o usufrutuário, por exemplo, arrendar propriedade agrícola que lhe foi dada em usufruto, recebendo o arrendamento, em vez de ele mesmo colher os frutos e assumir os riscos do investimento. 4. Impenhorabilidade: É insuscetível de penhora. A inalienabilidade ocasiona a impenhorabilidade do usufruto. O direito em si não pode ser penhorado, em execução movida por dívida do usufrutuário, porque a penhora destina-se a promover a venda forçada do bem em hasta pública Mas, como o seu exercício pode ser cedido, é passível, em consequência, de ser penhorado. Nesse caso, o usufrutuário fica provisoriamente privado do direito de retirar da coisa os frutos que ela produz. Observa-se que o usufrutuário não perde o direito de usufruto, o que ocorreria se este pudesse ser penhorado e arrematado por terceiro. Perde apenas, temporariamente, o exercício desse direito, em razão da penhora. No entanto, se a dívida for do nu-proprietário, a penhora pode recair sobre os seus direitos 10.4.3. MODOS DE CONSTITUIÇÃO O usufruto pode constituir-se por determinação legal, ato de vontade e usucapião. 1. Por determinação legal: É o modo estabelecido pela lei em favor de certas pessoas, como o usufruto dos pais sobre os bens do filho menor (CC, art. 1.689, I). • o do cônjuge sobre bens do outro, quando lhe competir tal direito (CC.art. 1.652, I); • o da brasileira casada com estrangeiro sob regime que exclua a comunhão universal, por morte do marido, sobre a quarta parte dos bens deste, se o casal tiver filhos brasileiros, e de metade, se não os tiver (Decreto-Lei n. 3.200/41.art. 17, alterado pelo Decreto-Lei n. 5.187/43); e • o dos silvícolas, na hipótese do art. 231, § 2°, da Constituição Federal. 89 2. Por ato de vontade: É o que resulta de contrato ou testamento. Na primeira hipótese, o ato pode ser oneroso ou gratuito, inter vivos ou mortis causa. Em geral, surge a título gratuito seja na doação com reserva de usufruto, seja na doação da nua-propriedade a um beneficiário, e na do usufruto a outro. No concernente aos bens móveis, é indispensável a tradição para a sua transferência (CC, art. 1.267). Igualmente, não depende de registro o usufruto decorrente do direito de família. 3. Por usucapião: Admite-se, ainda, a constituição do usufruto pela usucapião, ordinária ou extraordinária, desde que concorram os requisitos legais. Configura-se, de ordinário, quando adquirido pelo decurso de lapso prescricional em favor de quem não seja proprietário, ou seja, quando o objeto sobre que recai não pertence àquele que o constitui. Consumada a prescrição, o direito do usufrutuário subsiste em pleno vigor com todos os seus efeitos diante do verdadeiro proprietário, como se por ele mesmo houvesse sido estabelecido. 10.4.4. USUFRUTO E FIDEICOMISSO A semelhança entre usufruto e fideicomisso, decorrente do fato de existirem, em ambos, dois beneficiários ou titulares. As diferenças são: USUFRUTO FIDEICOMISSO É direito real sobre coisa alheia. Constitui espécie de substituição testamentária. O domínio se desmembra, cabendo ao usufrutuário os direitos de usar e de gozar da coisa, e ao nu-pro prietário os de dispor e de reaver. Cada titular tema propriedade plena. O usufrutuário e o nu-proprietário exercem simultaneamente os seus direitos sobre as parcelas em que se fraciona o domínio. O fiduciário e o fideicomissário exercem os seus direitos sucessivamente (CC, art. 1.951) São contempladas pessoas já existentes. Só se permite em favor da prole eventual (CC. art. 1.952). 90 10.4.5. ESPÉCIES DE USUFRUTO a • quanto à origem ou modo de constituição; b • quanto à duração; c • quanto ao objeto; d • quanto à extensão; e • quanto aos titulares. a) Quanto à origem ou modo de constituição Sob esse aspecto, o usufruto pode ser: 1. Legal: é o instituído por lei em benefício de determinadas pessoas (dos pais sobre os bens do filho menor23, do cônjuge sobre os bens do outro quando lhe competir tal direito24; o da brasileira/o casada/o com estrangeiro/a25; o dos silvícolas26). 2. Convencional (voluntário): é o que resulta de um negócio jurídico, seja bilateral e inter vivos, como o contrato (em geral sob a forma de doação), seja unilateral e mortis causa, como o testamento. b) Quanto à sua duração 1. Temporário: é o estabelecido com prazo certo de vigência. Extingue-se com o advento do termo. Todo usufruto é, por definição, temporário. Mas pode durar toda a vida do usufrutuário, extinguindo-se somente com a sua morte, ou pode ter a duração subordinada a termo certo. 2. Vitalício: é o estabelecido para durar enquanto viver o usufrutuário É assim denominado, portanto, o usufruto que perdura até a morte do usufrutuário ou enquanto não sobrevier causa legal extintiva (CC, arts. 1.410 e 1.411). 23 Art. 1.689. O pai e a mãe, enquanto no exercício do poder familiar: I - são usufrutuários dos bens dos filhos; II - têm a administração dos bens dos filhos menores sob sua autoridade. 24 Art. 1.652. O cônjuge, que estiver na posse dos bens particulares do outro, será para com este e seus herdeiros responsável: I - como usufrutuário, se o rendimento for comum. 25 Decreto-Lei n. 3.200/41: Art. 17. À brasileira, casada com estrangeiro sob regime que exclua a comunhão universal, caberá, por morte do marido, o usufruto vitalício de quarta parte dos bens deste se houver filhos brasileiros do casal, e de metade, se os não houver. 26 CF/88. Art. 231, § 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. 91 c) Quanto ao seu objeto: 1. Próprio: é o que tem por objeto coisas inconsumíveis e infungíveis, cujas substâncias são conservadas e restituídas ao nu-proprietário. 2. Impróprio: é o que incide sobre bens consumíveis ou fungíveis,sendo denominado quase usufruto (CC, art. 1.392, § 1°). d) Quanto à sua extensão 1. Universal: é o usufruto que recai sobre uma universalidade de bens, como a herança, o patrimônio, o fundo de comércio, ou parte alíquota desses valores. 2. Particular: é o que incide sobre determinado objeto, como uma casa, uma fazenda etc. 3. Pleno: é o usufruto que compreende todos os frutos e utilidades que a coisa produz, sem exclusão de nenhum. 4. Restrito: é o que restringe o gozo da coisa a alguma de suas utilidades. Todas as espécies de usufruto classificadas quanto à sua extensão são apontadas no art. 1.390 do Código Civil, quando este dispõe que “o usufruto pode recair em um ou mais bens, móveis ou imóveis, em um patrimônio inteiro, ou parte deste, abrangendo-lhe, no todo ou em parte, os frutos e utilidades” e) Quanto aos titulares 1. Simultâneo: é o constituído em favor de duas ou mais pessoas, ao mesmo tempo, extinguindo-se gradativamente em relação a cada uma das que falecerem, salvo se expressamente estipulado o direito de acrescer. Neste caso, o quinhão do usufrutuário falecido acresce ao do sobrevivente, que passa a desfrutar do bem com exclusividade (CC, art. 1.411). Esse direito, nos usufrutos instituídos por testamento, rege-se pelo disposto no art. 1.946 do Código Civil, que assim dispõe: “Legado um só usufruto conjuntamente a duas ou mais pessoas, a parte da que faltar acresce aos colegatários”. 2. Sucessivo: é o instituído em favor de uma pessoa, para que depois de sua mor te transmita-se a terceiro. Essa modalidade não é admitida pelo 92 nosso ordena mento, que prevê a extinção do usufruto pela morte do usufrutuário. Se o doador, ao reservar para si o usufruto (usufruto deducto) do bem doado, estabelecer a sua inalienabilidade, esse gravame só poderá ser cancelado após sua morte, se estiver bem evidenciada a sua intenção de não permitir a alienação do bem somente enquanto permanecer como usufrutuário. Falecendo este, cancelam-se o usufruto e a cláusula de inalienabilidade de caráter temporário. Nessa linha, assentou o Tribunal de Justiça de São Paulo: “Podem ser canceladas cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade impostas por doadores que se reservaram o usufruto do bem doado se a intenção dos doadores era de instituir o vínculo só pelo tempo em que vivessem”. Tem a jurisprudência repelido a possibilidade de os pais, nas doações com reserva de usufruto, estipularem o direito de acrescer em favor do doador sobrevivente, por vu a legítima do herdeiro. Entende-se que, em tal hipótese, extingue-se o usufruto com relação ao doador falecido. 10.4.6. MODALIDADES PECULIARES DE USUFRUTO. a) Usufruto dos títulos de crédito. Dispõe o art. 1.395 do Código Civil: “Quando o usufruto recai em títulos de crédito, o usufrutuário tem direito a perceber os frutos e a cobrar as respectivas dívidas. Parágrafo único. Cobradas as dívidas, o usufrutuário aplicará, de imediato, a importância em títulos da mesma natureza, ou em títulos da dívida pública federal, com cláusula de atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos”. O usufruto recai sobre o objeto da prestação devida pelo devedor ao credor, somente se concretizando depois de realizado o respectivo pagamento. Pode o usufrutuário, antes de vencida a dívida, perceber os frutos e, após o seu vencimento, cobrar o capital, não só do devedor como também dos fiadores, como se dele fosse o crédito, sem o concurso do nu-proprietário. Para evitar que o devedor pague diretamente a este os juros ou o capital, deve o usufrutuário notificá-lo, dando-lhe ciência do seu direito ao usufruto 93 do título, sob pena de pagar novamente. Entende-se que somente terá a obrigação de indenizar se houver culpa de sua parte. b) Usufruto de um rebanho: art. 1.397 do Código Civil: “As crias dos animais pertencem ao usufrutuário, deduzidas quantas bastem para inteirar as cabeças de gado existentes ao começar o usufruto” As crias dos animais são frutos naturais. Como tais, devem pertencer ao usufrutuário, ao começar o usufruto (CC, art. 1.396). Delas pode ele dispor, deduzidas apenas as necessárias para completar o número de animais existentes. Objetiva o dispositivo assegurar a integridade do rebanho ao extinguir-se o usufruto, de modo que o nu-proprietário venha a receber o mesmo número de reses inicialmente entregues ao usufrutuário. Morto um ou mais animais, eles são automaticamente substituídos. O usufruto de um rebanho autoriza o usufrutuário a utilizá-lo na conformidade do estabelecido no título. Em princípio, o direito inclui a faculdade de valer-se do trabalho dos animais e de desfrutar de tudo por eles produzido, como o leite e a lã, seja no usufruto sobre uma universalidade, seja no que recai sobre algumas cabeças consideradas destacadamente. A doutrina em geral entende que o dispositivo em apreço aplica-se analogicamente às árvores frutíferas, de modo que as mortas se substituam por plantas vivas, a fim de que não desfalque o respectivo número. c) Usufruto de bens consumíveis (quase usufruto): Em regra, o usufruto recai sobre bens inconsumíveis, que não perdem a substância pelo uso. Desse modo, podem ser restituídos ao nu- proprietário, extinto o direito real menor instituído em favor do usufrutuário. O Código Civil de 1916, todavia, disciplinava, no art. 726, o usufruto de bens móveis consumíveis, denominado pela doutrina quase usufruto ou usufruto impróprio e que se assemelha ao mútuo, porque o usufrutuário torna-se verdadeiro proprietário, ficando obrigado a restituir coisa equivalente. Dispõe o § 1° do art. 1.392: “Se, entre os acessórios e os acrescidos, houver coisas consumíveis, terá o usufrutuário o dever de restituir, findo o usufruto, as que ainda houver e, das 94 outras, o equivalente em gênero, qualidade e quantidade, ou, não sendo possível, o seu valor, estimado ao tempo da restituição”. Recaindo, portanto, o usufruto em coisas que se consomem pelo uso pode desde logo delas dispor o usufrutuário, obrigado, entre tanto, findo o usufruto, a restituí-las em gênero, qualidade e quantidade. Não sendo possível, a devolução se converte no valor respectivo, mas pe’o preço corrente ao tempo da restituição, ou pelo de avaliação no caso de se terem estimado no título constitutivo. Na realidade, como assevera Caio Mário da Silva Pereira, não se trata propriamente de usufruto, “pois que este consiste na utilização e fruição da coisa sem alteração na sua substância, o que é incompatível com o consumo ao primeiro uso”. d) Usufruto de florestas e minas: Preceitua o § 2° do art. 1.392:“Se há no prédio em que recai o usufruto florestas ou os recursos minerais a que se re fere o art. 1.230, devem o dono e o usufrutuário prefixar-lhe a extensão do gozo e a maneira de exploração”. A regra é bastante simples e objetiva fazer com que as partes convencionem previamente a respeito da exploração dos recursos minerais e das florestas, a fim de evitar abusos e a necessidade de regulamentação posterior. e) Usufruto sobre universalidade ou quota-parte. Estatui o § 3° do art. 1.392: “Se o usufruto recai sobre universalidade ou quota-parte de bens, o usufrutuário tem direito à parte do tesouro achado por outrem, e ao preço pago pelo vizinho do prédio usufruído, para obter meação em parede, cerca, muro, vala ou valado”. A universalidade compreende várias coisas singulares, que se encontram agrupadas, consideradas como um todo unitário, como sucede com a herança, por exemplo. Na quota-parte, apresenta-se a propriedade de umaparte ideal dentro do todo, não se especificando a parte do bem em que esta incide. Recaindo o usufruto, todavia, em imóvel ou imóveis determinados, tem-se que tesouro e pagamento de meação em parede não fazem parte do usufruto sobre o imóvel, pertencendo ao nu-proprietário’ 95 10.4.7. DA EXTINÇÃO DO USUFRUTO O art. 1.410 do Código Civil elenca os modos de extinção do usufruto, cancelando-se o registro no Cartório de Registro de Imóveis: I - pela renúncia ou morte do usufrutuário; II - pelo termo de sua duração; III - pela extinção da pessoa jurídica, em favor de quem o usufruto foi constituído, ou, se ela perdurar, pelo decurso de trinta anos da data em que se começou a exercer; IV - pela cessação do motivo de que se origina; V - pela destruição da coisa, guardadas as disposições dos arts. 1.407, 1.408, 2 parte, e 1.409; VI - pela consolidação; VII - por culpa do usufrutuário, quando aliena, deteriora ou deixa arruinar os bens, não lhes acudindo com os reparos de conservação, ou quando, no usufruto de títulos de crédito, não dá às importâncias recebidas a aplicação prevista no parágrafo único do art. 1.395; VIII — pelo não uso, ou não fruição, da coisa em que o usufruto recai (arts. 1.390 e 1.399) I . Renúncia Exige-se que seja feita por escritura pública, se o direito se refere a bens imóveis de valor superior ao estabelecido no art. 108 do mesmo diploma (trinta vezes o maior salário mínimo vigente no País) e de forma expressa. Exigem-se, também, a capacidade do usufrutuário e a disponibilidade do direito. Tratando-se o usufruto de um direito patrimonial de ordem privada, é suscetível de renúncia, que ocorre, frequentemente, nos casos em que os pais doam um imóvel aos filhos e reservam para si o usufruto. Posteriormente, por alguma razão, em geral por problemas financeiros, necessitam vendê-lo, e os filhos concordam em renunciar ao usufruto, no mesmo instrumento em que aqueles realizam a alienação do imóvel. 96 I. Morte do usufrutuário Tendo caráter temporário e sendo intransmissível, como já referido, o usufruto cessa com o falecimento do seu titular. Esta causa extintiva se aplica ao usufruto vitalício, cujo término é condicionado à sua ocorrência, bem como ao usufruto tempo rário, extinguindo-se, neste caso, antes do termo final. Pode, no entanto, sobreviver à morte de um dos usufrutuários quando se constitui em favor de várias pessoas conjuntamente. Dispõe, com efeito, o art. 1.411 do Código Civil que, sendo dois ou mais os usufrutuários, extingue-se o usufruto em relação aos que faleceram, subsistindo pro parte em relação aos sobreviventes. Mas se o titulo estabelece a sua indivisibilidade, ou expressamente estipula o direito de acrescer entre os usufrutuários, subsiste íntegro e irredutível até que todos venham a falecer. II. Advento do termo de sua duração Extingue-se o usufruto, segundo dispõe o inc. II do retrotranscrito art. 1.410 do Código Civil, pelo advento do termo de sua duração, estabelecido no seu ato constitutivo, salvo se o usufrutuário falecer antes. Não há sucessão em usufruto, ainda que estabelecido por prazo determinado. Embora não mencionado expressamente no dispositivo em apreço, desaparece também o direito real com o implemento da condição resolutiva estabelecida pelo instituidor. Em qualquer hipótese, porém, extingue-se o usufruto, ainda que se não tenha verificado o termo de duração, ou o implemento da condição, vindo a falecer o usufrutuário III. Extinção da pessoa jurídica Para assegurar a temporariedade do usufruto, o legislador determina extinção da pessoa jurídica com a morte do usufrutuário e limita sua duração, quando o usufrutuário for pessoa jurídica, a trinta anos (art. 1.410, III). Neste caso, não há falar em morte, mas em extinção da usufrutuária. Expira antes, todavia, o usufruto, com a extinção e liquidação desta, como no caso de dissolução da sociedade, de cessação da fundação e de supressão de um estabelecimento público. IV. Cessação do motivo de que se origina Igualmente se extingue o usufruto pela cessação do motivo de 4ue se origina (art. 1.410, IV), que pode ser pio, moral, artístico, científico etc. Se, por exemplo, o usufruto foi estabelecido para que o usufrutuário possa concluir seus estudos, findos estes, cessa a causa que havia determinado a 97 sua instituição. Esse modo de extinção do usufruto se aplica também aos usufrutos decorrentes do direito de família, como o atribuído aos pais sobre os bens dos filhos menores, que cessa quando estes atingem a maioridade ou são emancipados, bem como o de ferido ao marido, quando dissolvida a sociedade conjugal. V. Destruição da coisa Extingue-se o usufruto pela destruição da coisa, não sendo fungível (art. 1.410, V). Perecendo o objeto, perece o direito. Poderá este, no entanto, permanecer, se a perda não for total e a parte restante puder suportá-lo. Equipara-se à destruição a modificação sofrida pela coisa, que a tornou imprestável ao fim a que se destina. Se, no entanto, a coisa foi desapropriada ou se encontrava no seguro, o direito do usufrutuário se sub- roga na indenização recebida (arts 1.407, 1.408, § 2°, e 1.409). Acontece o mesmo quando a destruição da coisa ocorreu por culpa de terceiro condenado a reparar o dano. VI. Consolidação Extingue-se ainda o usufruto pela consolidação (art. 1.410, VI), quando na mesma pessoa se reúnem as qualidades de usufrutuário e nu-proprietário. Pode tal situação ocorrer quando o usufrutuário adquire o domínio do bem, por ato inter vivos ou mortis causa, ou quando o nu-proprietário adquire o usufruto. VII. Culpa do usufrutuário Prevê o Código Civil, em seguida, a extinção do usufruto por culpa do usufrutuário, quando falta ao seu dever de cuidar bem da coisa (art. 1.410. VII). A extinção, nesse caso, depende do reconhecimento da culpa por sentença. Também pode ela ocorrer quando, no usufruto de títulos de crédito, o usufrutuário não dá às importâncias recebidas a aplicação prevista no parágrafo único do art. 1.395. VIII. Não uso ou não fruição Extingue-se, por fim, o usufruto pelo não uso, ou não fruição, da coisa em que o usufruto recai (art. 1.410, VIII). Não tendo o dispositivo em epígrafe mencionado o prazo em que ocorre a aludida extinção, cabe a aplicação, à hipótese, do art. 205 do Código Civil, segundo o qual “a prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor”. 98 10.5. DO USO CONCEITO: O uso é considerado um usufruto restrito, porque ostenta as mesmas características de direito real, temporário e resultante do desmembramento da propriedade, distinguindo-se, entretanto, pelo fato de o usufrutuário auferir o uso e a fruição da coisa, enquanto ao usuário não é concedida senão a utilização restrita aos limites das necessidades suas e de sua família. Dispõe o art. 1.412 do Código Civil: O usuário usará da coisa e perceberá os seus frutos, quanto o exigirem as necessidades suas e de sua família. § l Avaliar-se-ão as necessidades pessoais do usuário conforme a sua condição social e o lugar onde viver. § 2° As necessidades da família do usuário compreendem as de seu cônjuge, dos filhos solteiros e das pessoas de seu serviço doméstico. Em realidade, o uso nada mais é do que um usufruto limitado. Destina-se a assegurar ao beneficiário a utilização imediata de coisa alheia, limitada às necessidades do usuário e de sua família. Por isso, a tendência de se reduzir a um conceito único o direito de usufruto, uso e habitação. Optou, entretanto,o legislador pátrio por distingui-lo dos outros dois direitos reais mencionados. Ao usuário, concede-se apenas a faculdade de perceber uma certa porção de frutos, tantos quantos bastem para as suas necessidades e das pessoas da sua família. Assim, “se o objeto do uso é uma fazenda de cultura, o usuário, além do direito de habitar as casas, passear e se recrear nos terrenos (atos de uso), bem pode colher frutos, mas tão somente pan as suas necessidades diárias. Neste aspecto o uso, para não ficar estéril, usurpa até certo ponto atribuições do usufruto, mas dentro dos limites das necessidades pessoais do usuário, limite que não entende com o uso exercido em sua pureza, estreme de comparticipação do direito de fruir (jusfruendi)”. (Lafayette) Uso e usufruto (distinção): Trata-se de direito real que autoriza uma pessoa a retirar, temporariamente, de coisa alheia, todas as utilidades para atenderás suas próprias necessidades e às de sua família. Embora seja considerado um usufruto restrito, ouso distingue-se deste instituto pelo fato de o usufrutuário auferir o uso e a fruição da coisa, enquanto ao usuário não é concedida senão a utilização restrita aos limites das necessidades suas e de sua família (CC, art. 1412). 99 CARACTERÍSTICAS O uso tem características próprias. Ao contrário do usufruto, é indivisível, não podendo ser constituído por partes em uma mesma coisa, bem como incessível. Nem seu exercício pode ceder-se. Mas, se ouso que o proprietário fazia da coisa consistia exatamente em arrendá-la, ou locá-la, ou alienar os seus frutos, pode o usuário continuar a empregá-lo no mesmo mister, por exemplo, se foi legado o uso de matas destinadas a cortes regulares. Nestes casos, segundo Lafayette o uso usurpa inteira mente a natureza do usufruto. O instituto ora em estudo não tem maior significação em nosso país. Aponta-se como hipótese de aplicação do direito de uso o jazigo perpétuo, a faculdade de nele sepultar os mortos da família. Todavia, tal questão ainda não ganhou entre nós o necessário relevo e continua disciplinada pelos regulamentos administrativos, não pela lei civil. Há os que entendem não ser possível considerar como de uso o direito de sepulcro, pois o caráter de bem público do terreno, aliado à sua especial destinação, arreda semelhante conceituação. Por tal razão já se decidiu que o respectivo concessionário não tem posse sobre o sepulcro, muito menos sobre os restos mortais que nele se encerram. OBJETO DO USO O direito real de uso pode ter como objeto tanto as coisas móveis como imóveis. Se recair sobre móvel, diz a doutrina, não poderá ser fungível nem consumível. Todavia, há também o consenso de que são aplicáveis ao uso, no que não for contrário à sua natureza, “as disposições relativas ao usufruto”, como expressamente estatui o art. 1.413 do Código Civil. Por essa razão, alguns autores admitem a incidência do uso sobre bens móveis consumíveis, caracterizando o quase uso, a exemplo do quase usufruto. O usuário adquiriria a propriedade da coisa cujo uso importa consumo e restituiria coisa equivalente. O Decreto-Lei n. 271, de 28 de fevereiro de 1967, disciplina, no art. 7°, a concessão de uso de terrenos públicos ou particulares, remunerada ou gratuita, por tempo certo ou indeterminado, como direito real resolúvel, para fins específicos de urbanização, industrialização, edificação, cultivo da terra, ou outra utilização de interesse social. O art. 8° prevê ainda a concessão de uso do espaço aéreo. 100 NECESSIDADES PESSOAIS E DA FAMÍLIA DO USUÁRIO O § 1°do art. 1.412 estabelece o critério para aferição das necessidades pessoais do usuário: serão avaliadas “conforme a sua condição social e o lugar onde viver”. Como o uso não é imutável e pode alterar-se em razão de diversas circunstâncias, as necessidades pessoais podem sofrer a influência dessas mudanças e aumentar, depois de constituído o direito real. Haverá a mesma adaptação se, ao contrário, diminuírem as necessidades pessoais do usuário. Como a lei fala em necessidades pessoais, excluem-se, por conseguinte, as do comércio e da indústria do beneficiário. Preceitua, por sua vez, o § 2° do mencionado art. 1.412 que “as necessidades da família do usuário compreendem as de seu cônjuge, dos filhos solteiros e das pes soas de seu serviço doméstico”. O vocábulo família é empregado em acepção mais ampla do que a adotada no direito de família, pois abrange até os domésticos a seu serviço. Pouco importa se os vínculos são de parentesco civil ou consanguíneo, e se trata de família constituída pelo casamento ou em virtude de união estável. Nada impede que o ato constitutivo do direito real possa contemplar, mediante acordo de vontades, outras pessoas, além das indicadas. MODOS DE EXTINÇÃO DO USO O uso constitui-se do mesmo modo e extingue-se pela mesma forma do usufruto. Assim, pode ocorrer a extinção do uso pelos mesmos modos elencados no art. 1.410 do Código Civil, por exemplo, a renúncia, a destruição da coisa, a consolidação e outros, com exceção apenas do não uso, que não se aplica também ao direito real de habitação. 101 10.6. DA HABITAÇÃO CONCEITO: Direito real temporário de ocupar gratuitamente casa alheia, para moradia do titular e de sua família. FORMAS DE CONSTITUIÇÃO DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO: Por ato de vontade (contrato ou testamento) ou por lei (art.1.831) CARACTERÍSTICAS DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO Destinação específica (não pode alugar nem emprestar) Inacessibilidade do direito ou do exercício (direito personalíssimo) Temporário Gratuito Divisível (habitação conjunta) Tem por objeto apenas bens imóveis Direito real CRI (LRP, art. 167, item I, n.7) 11. DIREITO REL DE AQUISIÇÃO: DO DIREITO DO PROMITENTE COMPRADOR CONCEITO: O direito do promitente comprador é um direito real à aquisição onde o promitente vendedor obriga-se a vender determinado bem ao promitente comprador, pelo preço, modo e condições contratadas. O promitente comprador por sua vez se compromete a pagar e a satisfazer todas as condições estipuladas no contrato, podendo após o pagamento pedir adjudicação compulsória se houver recusa do vendedor em entregar a coisa. QUESTÃO 1: De onde decorre o direito do promitente comprador? Decorre do contrato de Compromisso Irretratável de Compra e Venda. Irretratável por que não prevê cláusula de arrependimento (irretratável e irrevogável). Direito de aquisição para o futuro. QUESTÃO 2 - Aquisição do que para o futuro? 102 Aquisição da propriedade plena quando houver o término do pagamento do preço. Pode ceder seu direito, mas não pode vender. QUESTÃO 3 - Há necessidade de previsão expressa no contrato de compra e venda de que se dispensa cláusula de arrependimento? Não. Basta que não se pactue o direito de arrependimento para que o instrumento público ou particular de compromisso de compra e venda inscrito no cartório imobiliário proporcione o direito real de aquisição. QUESTÃO 4 - Quais os direitos do promitente comprador? Usar, gozar e ceder o seu direito (futuro). Tem direito de sequela. Reivindicar a coisa, inclusive em favor e em face de herdeiros. QUESTÃO 5 - É indispensável o registro no CRI? A princípio sim, diante da dicção do artigo 1.417, CC. Mas, sabemos que as pessoas, quanto mais simples, menos atenção dão à forma e à exigência de regularizar seus títulos. A experiência revela que os contratos de promessa de compra e venda de imóveis normalmente não são registrados.Não há nenhum óbice em atribui-lhes eficácia entre as partes, possível mesmo a ação de adjudicação, se o imóvel continua registrado em nome do promitente vendedor. Apesar de estar estipulada no CC a obrigatoriedade do registro, o Enunciado nº 95, da 1ª Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho Federal de Justiça estipula que “o direito à adjudicação compulsória (art. 1.418 do novo Código Civil), quando exercido em face do promitente vendedor, não se condiciona ao registro da promessa de compra e venda no cartório de registro imobiliário (Súmula n. 239 do STJ)”. QUESTÃO 6 - Quais as exigências para se ingressar com ação de adjudicação compulsória? Ausência de direito de arrependimento Recusa do promitente vendedor em outorgar a escritura Pagamento integral do preço Validade e eficácia do compromisso. 103 QUESTÃO 7 - Há necessidade de outorga conjugal? SIM. Art. 1.647, CC. QUESTÃO 8 - E se houver o descumprimento da obrigação pelo promitente comprador quanto ao pagamento? Primeiro constituir o devedor em mora (30 dias imóvel loteado-Lei 6.766/79, artigo 32 e de 15 dias se imóvel não loteado-Dec. Lei 745/69) Resolução do contrato cc reintegração da posse. QUESTÃO 9 - E se houver o descumprimento por insuportabilidade da obrigação assumida?Surge o direito de promover ação a fim de receber a restituição das importâncias pagas + benfeitorias úteis se estava de boa-fé. Devolução é imediata e integral, descontados perdas e danos. 12. DIREITOS REAIS DE GARANTIA 1- Qual a noção de Direitos Reais de Garantia? São aqueles conferidos em favor de um credor, para satisfação de seus interesses, em substituição à obrigação que não veio a ser cumprida no tempo, local e modo fixados. 2- Quais são os direitos reais de garantia previstos em nosso ordenamento jurídico? Hipoteca, penhor e anticrese. A Lei 4.728/65, criou uma nova modalidade: a alienação fiduciária (propriedade fiduciária – artigos 1.361 a 1.368, CC). 3- Quais são as regras gerais pertinentes aos direitos reais de garantia? Preferência ou prelação (Art. 1.422, 2ª parte) Acessoriedade Legitimação para onerar (art. 1.420, CC) Direito de excussão (Art. 1.422, CC) 104 Remição Registro do gravame (Art. 1.424, CC) – ESPECIALIZAÇÃO e PUBLICIDADE. – Hipoteca, anticrese e penhor rural (CRI) e penhor convencional (CRTD) – na falta desses requisitos – ineficácia do direito real de garantia, mas prevalece como direito pessoal. Vencimento da dívida Indivisibilidade (ex.: garantia da dívida recai sobre duas casas de igual valor, já houve o pagamento da metade da dívida, ambas continuam vinculadas ao pagamento do restante da dívida). Mas admite-se a exoneração parcial, se assim convencionada. 4- Admite-se cláusula que autoriza o credor a ficar com a coisa se a dívida não for paga? Art. 1.428, CC. 5- Em que hipóteses a dívida será considerada vencida? (Art. 1.425) Perecimento, deterioração ou depreciação Impontualidade Desapropriação 6- Em que pontos distinguem-se os direitos reais de garantia? Quanto ao objeto – penhor (móveis) hipoteca e anticrese (imóveis) Quanto à titularidade da posse do bem – penhor e anticrese (credor como possuidor direto); na hipoteca (não há deslocamento da posse) Quanto à forma de exercício do direito – hipoteca e penhor (podem promover a venda judicial da coisa gravada); anticrese (não dispõe do jus vendendi, mas somente o direito de reter a coisa). 105 7- Quais as pessoas que estão impedidas de hipotecar, dar em anticrese e empenhar? Menores de 16 anos (vd.: art. 1.691, CC) Maiores de 16 e menores de 18 anos (idem) Menores sob tutela (vd.: art. 1.748, IV e 1.750, CC) Os interditos em geral (vd.: art. 1.781, CC) Os pródigos (desnecessidade de autorização judicial – art. 1.782, CC) As pessoas casadas, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta de bens (art. 1.647, I, CC e art. 1.649, CC). O mesmo não se aplica aos companheiros. O inventariante, salvo mediante autorização judicial. Todavia, o herdeiro, aberta a sucessão, pode dar em hipoteca a sua parte ideal. 8- Podem os herdeiros remir a dívida? (Art. 1.429, CC) 12.1. DO PENHOR CONCEITO: Trata-se de direito REAL que consiste na tradição de uma coisa MOVEL, suscetível de alienação, realizada pelo devedor ou por terceiro ao credor, em garantia do débito. Art. 1.431, caput: Constitui-se o penhor pela transferência efetiva da posse que, em garantia do débito ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por ele, de uma coisa móvel, suscetível de alienação. 106 SUJEITOS: CARACTERÍSTICAS: - DIREITO REAL; - ACESSÓRIO; - QUE SE PERFECCIONA COM A TRADIÇÃO. DIREITO REAL DE GARANTIA (art. 1.255, VIII, CC) • Realizada a venda, em hasta pública, terá o credor, no produto alcançado, direito de prelação para obter o integral pagamento de seu crédito, excluindo os demais credores, que só concorrerão às sobras que, porventura, houver. • Como direito real, origina-se por contrato registrado no CRTD – efeito erga omnes e direito de sequela. DIREITO ACESSÓRIO • Acessória da obrigação que gera a dívida. • Pode ser estabelecido conjuntamente ou em separado a esta. • Se o principal se extingue, extingue-se o acessório. •É o que empresta o dinheiro e recebe o bem empenhado, recebendo, pela tradição a posse deste. Credor pignoratício •Pode ser tanto o sujeito passivo da obrigação principal como 3º que ofereça o ônus real. •Deve ser o proprietário do bem Devedor pignoratício 107 • EXCEÇÃO: despesas justificadas OU ressarcimento por prejuízos em razão de vícios da coisa empenhada. • Art. 1.433. O credor pignoratício tem direito: • II - à retenção dela, até que o indenizem das despesas devidamente justificadas, que tiver feito, não sendo ocasionadas por culpa sua; • III - ao ressarcimento do prejuízo que houver sofrido por vício da coisa empenhada; DEPENDE DE TRADIÇÃO - PUBLICIDADE • Art. 1.431. Constitui-se o penhor pela transferência efetiva da posse que, em garantia do débito ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por ele, de uma coisa móvel, suscetível de alienação. • Parágrafo único. No penhor rural, industrial, mercantil e de veículos, as coisas empenhadas continuam em poder do devedor, que as deve guardar e conservar. CREDOR DEPOSITÁRIO • CC, Art. 652. Seja o depósito voluntário ou necessário, o depositário que não o restituir quando exigido será compelido a fazê-lo mediante prisão não excedente a um ano, e ressarcir os prejuízos. • CRFB/88, art. 5º, LXVII - não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. Súmula n.25 do STF e Súmula n. 419 do STJ 108 • Julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do HC n. 87.585/TO em 03.12.2008: tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos - norma supralegal. • Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos (1992 – Brasil) • Julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça do Resp. n.914.253/SP em 12.12.2009: mesmo entendimento. • Inconstitucionalidade do artigo inciso LXVII, artigo 5º, CRFB/88. OBJETO DO PENHOR • REGRA – coisa MÓVEL (penhor tradicional) • Singular ou coletiva (penhor solidário)• Corpórea ou incorpórea (crédito) • Existência atual ou futura. • Se fungível deve ser individuada, caso contrário tem-se o penhor irregular (mesmo gênero e espécie). • Subpenhor: credor institui o penhor em favor de 3º - pode ser proibido no contrato. Bens corpóreos ou incorpóreos • CORPÓREOS: aqueles que possuem existência material ou física. Ex.: imóveis, roupas. • INCORPÓREOS: são valores imateriais, ou seja, possuem existência abstrata, ideal ou jurídica. • Importância: Diferentes formas de transmissão. Corpóreos: compra e venda ou doação. Incorpóreos: cessão. 109 EXCEÇÃO: • Penhores especiais • Incidem sobre coisas imóveis por acessão física ou intelectual. • Penhor rural e industrial e sobre direitos. NULIDADE: • Art. 1.420. Só aquele que pode alienar poderá empenhar, hipotecar ou dar em anticrese; só os bens que se podem alienar poderão ser dados em penhor, anticrese ou hipoteca. • Exceções: • 1) Artigo 1.420, § 1o : A propriedade superveniente torna eficaz, desde o registro, as garantias reais estabelecidas por quem não era dono. • 2) Art. 1.427. Salvo cláusula expressa, o terceiro que presta garantia real por dívida alheia não fica obrigado a substituí-la, ou reforçá-la, quando, sem culpa sua, se perca, deteriore, ou desvalorize. DOS DIREITOS DO CREDOR PIGORATÍCIO • Art. 1433 – leitura. • Art. 1.434. O credor não pode ser constrangido a devolver a coisa empenhada, ou uma parte dela, antes de ser integralmente pago, podendo o juiz, a requerimento do proprietário, determinar que seja vendida apenas uma das coisas, ou parte da coisa empenhada, suficiente para o pagamento do credor. DAS OBRIGAÇÕES DO CREDOR PIGNORATÍCIO • Art. 1.435. O credor pignoratício é obrigado: • I - à custódia da coisa, como depositário, e a ressarcir ao dono a perda ou deterioração de que for culpado, podendo ser compensada 110 na dívida, até a concorrente quantia, a importância da responsabilidade; • II - à defesa da posse da coisa empenhada e a dar ciência, ao dono dela, das circunstâncias que tornarem necessário o exercício de ação possessória; • III - a imputar o valor dos frutos, de que se apropriar (art. 1.433, inciso V) nas despesas de guarda e conservação, nos juros e no capital da obrigação garantida, sucessivamente; • IV - a restituí-la, com os respectivos frutos e acessões, uma vez paga a dívida; • V - a entregar o que sobeje do preço, quando a dívida for paga, no caso do inciso IV do artigo 1.433. Da Extinção do Penhor • Art. 1.436. Extingue-se o penhor: • I - extinguindo-se a obrigação; • II - perecendo a coisa; • III - renunciando o credor; • IV - confundindo-se na mesma pessoa as qualidades de credor e de dono da coisa; • V - dando-se a adjudicação judicial, a remissão ou a venda da coisa empenhada, feita pelo credor ou por ele autorizada. • § 1o Presume-se a renúncia do credor quando consentir na venda particular do penhor sem reserva de preço, quando restituir a sua posse ao devedor, ou quando anuir à sua substituição por outra garantia. • § 2o Operando-se a confusão tão somente quanto a parte da dívida pignoratícia, subsistirá inteiro o penhor quanto ao resto. 111 • Art. 1.437. Produz efeitos a extinção do penhor depois de averbado o cancelamento do registro, à vista da respectiva prova. ESPÉCIES DE PENHOR 1. Penhor convencional: Credor e devedor estipulam a garantia pignoratícia conforme seus próprios interesses. - Feito por instrumento particular ou público. - Registro no Cartório de Registro de Títulos e Documentos, com todas as suas especificações Art. 1.424. Os contratos de penhor, anticrese ou hipoteca declararão, sob pena de não terem eficácia: I - o valor do crédito, sua estimação, ou valor máximo; II - o prazo fixado para pagamento; III - a taxa dos juros, se houver; IV - o bem dado em garantia com as suas especificações. 2. Penhor Legal: Art. 1.467. São credores pignoratícios, independentemente de convenção: I - os hospedeiros, ou fornecedores de pousada ou alimento, sobre as bagagens, móveis, jóias ou dinheiro que os seus consumidores ou ESPÉCIES de PENHOR CONVENCIONAL LEGAL ESPECIAL RURAL INDUSTRIAL e MERCANTIL TÍTULOS DE DIREITOS E TÍTULOS DE CRÉDITO VEÍCULOS 112 fregueses tiverem consigo nas respectivas casas ou estabelecimentos, pelas despesas ou consumo que aí tiverem feito; II - o dono do prédio rústico ou urbano, sobre os bens móveis que o rendeiro ou inquilino tiver guarnecendo o mesmo prédio, pelos aluguéis ou rendas. Ação de cobrança de alugueres c/c homologação de penhor legal. Att.: se outra garantia (ex.:fiança), não cabe penhor. Da Homologação do Penhor Legal CPC, art. 874. Tomado o penhor legal nos casos previstos em lei, requererá o credor, ato contínuo, a homologação. Na petição inicial, instruída com a conta pormenorizada das despesas, a tabela dos preços e a relação dos objetos retidos, pedirá a citação do devedor para, em 24 (vinte e quatro) horas, pagar ou alegar defesa. Parágrafo único. Estando suficientemente provado o pedido nos termos deste artigo, o juiz poderá homologar de plano o penhor legal. Art. 875. A defesa só pode consistir em: I - nulidade do processo; II - extinção da obrigação; III - não estar a dívida compreendida entre as previstas em lei ou não estarem os bens sujeitos a penhor legal. Art. 876. Em seguida, o juiz decidirá; homologando o penhor, serão os autos entregues ao requerente 48 (quarenta e oito) horas depois, independentemente de traslado, salvo se, dentro desse prazo, a parte houver pedido certidão; não sendo homologado, o objeto será entregue ao réu, ressalvado ao autor o direito de cobrar a conta por ação ordinária. 3. DO PENHOR ESPECIAL 1. Penhor rural 113 PENHOR AGRÍCOLA (1.442 a 1.443) – grava culturas e bens a ela destinados. PENHOR PECUÁRIO (1.444 a 1.446) – grava animais integrantes de atividade pastoril, agrícola ou de laticínios. 2. Penhor industrial e mercantil Art. 1.447. Podem ser objeto de penhor máquinas, aparelhos, materiais, instrumentos, instalados e em funcionamento, com os acessórios ou sem eles; animais, utilizados na indústria; sal e bens destinados à exploração das salinas; produtos de suinocultura, animais destinados à industrialização de carnes e derivados; matérias-primas e produtos industrializados. Parágrafo único. Regula-se pelas disposições relativas aos armazéns gerais o penhor das mercadorias neles depositadas. 3. Penhor de direitos e títulos de crédito Art. 1.451. Podem ser objeto de penhor direitos, suscetíveis de cessão, sobre coisas móveis. Art. 1.453. O penhor de crédito não tem eficácia senão quando notificado ao devedor; por notificado tem-se o devedor que, em instrumento público ou particular, declarar-se ciente da existência do penhor. 4. Penhor de veículos Art. 1.461. Podem ser objeto de penhor os veículos empregados em qualquer espécie de transporte ou condução. Art. 1.462. Constitui-se o penhor, a que se refere o artigo antecedente, mediante instrumento público ou particular, registrado no Cartório de Títulos e Documentos do domicílio do devedor, e anotado no certificado de propriedade. 114 Parágrafo único. Prometendo pagar em dinheiro a dívida garantida com o penhor, poderá o devedor emitir cédula de crédito, na forma e para os fins que a lei especial determinar. Art. 1.463. Não se fará o penhor de veículossem que estejam previamente segurados contra furto, avaria, perecimento e danos causados a terceiros. Art. 1.464. Tem o credor direito a verificar o estado do veículo empenhado, inspecionando-o onde se achar, por si ou por pessoa que credenciar. Art. 1.465. A alienação, ou a mudança, do veículo empenhado sem prévia comunicação ao credor importa no vencimento antecipado do crédito pignoratício. Art. 1.466. O penhor de veículos só se pode convencionar pelo prazo máximo de dois anos, prorrogável até o limite de igual tempo, averbada a prorrogação à margem do registro respectivo. 12.2. DA HIPOTECA 12.2.1. CONCEITO: é o direito real de garantia que tem por objeto bens imóveis, navio ou avião pertencentes ao devedor ou a terceiro e que, embora não entregue ao credor, asseguram-lhe, preferencialmente, o recebimento de seu crédito (Silvio Rodrigues). Visualização do instituto: trata-se de um direito real de garantia que consiste em sujeitar um imóvel, preferencialmente, ao pagamento de uma dívida de outrem, sem retirá-lo da posse do dono. Com a inadimplência, o credor pode excuti-lo, alienando-o judicialmente e tendo primazia sobre o produto de arrematação, para cobrar-se a totalidade da dívida. 12.2.2. CARACTERÍSTICAS: - natureza civil, ainda que as partes sejam comerciantes e a dívida comercial. - direito real e deve seguir os princípios da especialização e o da publicidade. - objeto gravado deve ser de propriedade do devedor ou de terceiro. 115 - o devedor continua na posse do bem hipotecado (ao contrário do que ocorre no penhor) e sobre ele exerce todos os seus poderes, usando-o segundo a sua destinação e percebendo-lhe os frutos. O devedor só é desapossado por via judicial e mediante excussão hipotecária, se tornar-se inadimplente (Art. 1428, CC). - é indivisível (art. 1421): pois a hipoteca grava o bem na sua totalidade não acarretando exoneração correspondente da garantia o pagamento parcial da dívida, salvo convenção em contrário. - tem caráter acessório: é direito real criado para assegurar a eficácia de um direito pessoal, obrigacional. - solene: pois a lei determina solenidades, formalidades a serem seguidas: (art. 108): escritura pública. - confere ao seu titular os direitos de preferência e sequela: para receber a dívida; é oponível erga omnes provida de sequela e que gera para o credor o poder de excutir o bem hipotecado para se pagar preferencialmente com a sua venda em hasta pública. Acompanha o imóvel para quem for vendido. 12.2.3. REQUISITOS JURÍDICOS DA HIPOTECA A validade e eficácia da hipoteca dependem do preenchimento de requisitos de natureza objetiva, subjetiva e formal: Requisito objetivo: só podem ser objeto de hipoteca (art. 1473) I – bens imóveis e seus acessórios. Quanto aos bens imóveis: - se hipotecado o terreno e depois construir algo, presume-se também hipotecado, pois de acordo com o artigo 79 do CC, são bens imóveis o solo e tudo quanto nele se incorporar natural ou artificialmente, ou seja, o solo e suas acessões, que podem ser naturais ou artificiais. São, portanto, bens imóveis por natureza (o solo, com sua superfície, subsolo e espaço aéreo) 116 por acessão natural (arvores, pedras, fontes cursos de água) e por acessão artificial ou industrial (construções e plantações). Portanto, se um terreno está hipotecado, o que for construído nele também estará, pois a casa não existe como ser distinto do terreno, sendo um todo indivisível. - unidades autônomas de um condomínio edilício: possibilidade, cada um com suas frações. - condomínio geral: na totalidade, somente com a concordância de todos, mas cada um pode hipotecar sua fração. - imóveis alienáveis. - bem de família: sim, devido à exceção do art. 3º da Lei 8009/90: cabe a execução hipotecária para bem de família, pois foi o próprio casal ou entidade familiar que o ofereceu e, assim, abriu mão da garantia - quanto aos acessórios: são acessórios os produtos, os frutos, as pertenças e as benfeitorias. Pertenças: são bens móveis que não constituem partes integrantes, mas que se destinam de modo duradouro ao uso, ao serviço ao aformoseamento da coisa. Ex.: um trator para melhor explorar a propriedade agrícola, os objetos de decoração de uma casa. São imóveis por acessão intelectual, e estão sujeitos a hipoteca somente se incluídos no título constitutivo, uma vez que não são partes integrantes, como os imóveis por acessão industrial ou artificial. (construção ou plantação). II e III – o domínio direto e o domínio útil: o domínio do senhorio direto e o domínio do enfiteuta, se constituída a hipoteca na vigência do CC de 1916. IV – estradas de ferro: são imóveis aderentes ao solo. V – recursos naturais que podem ser concedidos pela União para um concessionário para sua exploração: dessa forma o produto dessa exploração, ou o direito dessa exploração pode ser hipotecado. VI – navios VII – aeronaves VIII – direito de uso para fins de moradia 117 IX – o direito real de uso X – a propriedade superficiária. Requisito subjetivo: - capacidade geral para os atos da vida civil, e a capacidade específica para alienar (quanto aos cônjuges, ascendente para descendente, menor sob poder familiar, tutelados curatelados (representação, assistência e, ainda autorização judicial), pródigos, inventariantes (autorização judicial) Herdeiros pode sobre sua cota parte). Requisito formal: títulos constitutivos, especialização e publicidade (registro). Art. 1492. Preferência: prenotação ou número de ordem. 12.2.4. ESPÉCIES DE HIPOTECA a) segundo a origem ou a causa determinante - convencional: quando se origina de contrato, da livre manifestação dos interessados. - legal: quando emana da lei para garantir determinadas obrigações, para proteger determinadas pessoas em certas situações. É a qualidade do credor e não do crédito que justifica a sua constituição. Deve ser homologado pelo juiz. - judicial: quando decorre de sentença judicial para garantir pagamento de prestação em dinheiro. b) segundo ao objeto em que recai - comum: bem imóvel; 118 - especial: aviões, navios, vias férreas. 12.2.5. PLURALIDADES DE HIPOTECA (art. 1476) É admitida, a não ser que o título constitutivo anterior vede isso expressamente, e desde que o novo credor aceite, ficando ciente de que sua garantia é diminuída, pois as anteriores terão preferência. 12.2.6. EFEITOS DA HIPOTECA Só ocorre a partir do registro. a) em relação ao devedor: o devedor sofre limitações ao direito de propriedade, apesar de continuar com a posse e a faculdade de usar e gozar e poder alienar o bem ou constituir outra hipoteca. A partir da constrição judicial (penhora) perde o devedor o direito de alienar o imóvel e também de receber os frutos. b) em relação ao credor: direito de penhorar o bem hipotecado para levá-lo a hasta pública. O credor recebe ou pelo valor obtido na arrematação ou pela adjudicação do próprio bem, com preferência de qualquer outro credor. SE o bem hipotecado for penhorado por outro credor, não poderá ser validamente praceado sem a citação do credor hipotecário preferencial. c) em relação a terceiros: depois de registrada é oponível erga omnes, conferindo ao credor hipotecário o direito de sequela. 12.2.7. DIREITO DE REMIÇÃO Trata-se do resgate do imóvel hipotecado mediante o pagamento, ao credor, da dívida que visa garantir. Esse direito compete: 119 - ao próprio devedor;- ao credor da segunda hipoteca: que faz o pagamento da dívida ao credor da primeira hipoteca e se sub-roga nos direitos do primeiro credor; - ao adquirente do imóvel hipotecado (art. 1481): se o terceiro adquirente não efetua a remição ou não paga a dívida hipotecária, caso tenha assumido essa obrigação, sujeita-se à excussão do imóvel. O adquirente ainda pode abandonar o imóvel colocando-o a disposição para a venda judicial, sob pena, de não o fazendo, continuar no polo passivo da execução e sofrer os efeitos da sucumbência. 12.2.8. PEREMPÇÃO DA HIPOTECA Segundo o art. 1424, II, o contrato hipotecário deve mencionar o prazo fixado para o vencimento da hipoteca. A extinção da hipoteca pelo lapso temporal é denominada perempção. Art. 1485: a hipoteca pode ser prorrogada por 30 anos mediante simples averbação. Alcançado o prazo peremptório de 30 anos, o negócio só pode ser reconstituído mediante novo título e novo registro. Para manter a precedência e a preferência dessa hipoteca sobre outras eventuais, deve ser feita a prorrogação antes da finalização dos 30 anos, com seu devido registro. 12.2.9. PREFIXAÇÃO DO VALOR DO IMÓVEL HIPOTECADO PARA FINS DE ARREMATAÇÃO, ADJUDICAÇÃO E REMIÇÃO, PARA DISPENSAR AS AVALIAÇÕES: ART. 1484: para facilitar a execução, mas poderá requerer a atualização do valor. 12.2.10. HIPOTECAS CONSTITUÍDAS NO PERÍODO SUSPEITO DA FALÊNCIA: (Lei n. 11.101/05, artigo 129, inciso III): presunção absoluta de fraude, ou seja, a intenção do devedor de lesar credores, o que torna o ato INEFICAZ. 120 12.2.11. INSTITUIÇÃO DE LOTEAMENTO OU CONDOMÍNIO NO IMÓVEL HIPOTECADO (exceção ao princípio da indivisibilidade da hipoteca) Art. 1488: divisão do ônus da hipoteca: exceção ao princípio da indivisibilidade da hipoteca, no caso de o imóvel dado em garantia hipotecária vir a ser loteado ou nele se constituir condomínio edilício, permitindo que os interessados (credor, devedor, ou o dono do imóvel: no caso de garantia prestada por terceiro) requeiram ao juiz a divisão do ônus, proporcionalmente ao valor de cada uma das partes. Não pode o credor opor-se ao desmembramento, se não houver diminuição de sua garantia. E cada condômino pode requerer sozinho sem precisar da anuência de todos para o desmembramento, possibilitando o pagamento e quitação parcial (liberação parcial da hipoteca). 12.2.12. EXTINÇÃO DA HIPOTECA: artigo 1499 e artigo 1500, CC. 12.3. ANTICRESE 12.3.1. CONCEITO: é o direito real sobre coisa alheia, em que o credor recebe a posse de coisa frugífera, ficando autorizado a perceber-lhe os frutos e imputá-los no pagamento da dívida. Clóvis Beviláqua: anticrese é o direito real sobre imóvel alheio, em virtude do qual o credor obtém a posse da coisa, a fim de perceber-lhe os frutos e imputá-los no pagamento da dívida, juros e capital, sendo, porém, permitido estipular que os frutos sejam, na sua totalidade, percebidos à conta de juros. 12.3.2. ETIMOLOGIA da palavra: antichresis (grego) = anti (contra) chresis (uso): uso ao contrário: uso pelo credor anticrético e não pelo devedor que é o proprietário da coisa. 121 Trata-se de um direito real de garantia estabelecido em favor do credor, que retém em seu poder imóvel alheio, tendo o direito de explorá-lo para pagar- se por suas próprias mãos. Objeto: BEM IMÓVEL. - direito de retenção e fruição até que se pague a totalidade da dívida. Pontos negativos: - é pouco utilizada, sendo mais utilizada a hipoteca, pois apresenta o inconveniente de retirar do devedor a posse e gozo do imóvel, transferindo- os para o credor. - o credor é obrigado a colher os frutos e pagar-se como mencionado, com seu próprio esforço. - o instituto constitui embaraço a livre circulação do bem onerado, uma vez que raramente haverá algum interessado em comprar um imóvel cujo uso e gozo pertence, por prazo mais ou menos longo, ao credor anticrético. - assim, esgota-se para o devedor a possibilidade de obter novos créditos garantidos pelo imóvel onerado, uma vez que não se pode conceber subanticreses. - o credor não tem direito de excussão, assim a anticrese constituiu garantia de eficácia menor do que a hipoteca. - apesar do artigo 1506, §2º, permitir a hipoteca do imóvel dado em anticrese, dificilmente encontrará quem aceite tal situação. REQUISITOS SUBJETIVOS: capacidade das partes, inclusive para o devedor dispor do bem, não pode um cônjuge convencioná-la sem consentimento do outro, salvo se casados sob regime de separação absoluta de bens; REQUISITOS FORMAIS: instrumento de sua constituição por escrito, particular ou público, dependendo do valor, o qual deve obedecer aos princípios da especialização e publicidade. 122 12.3.3. CARACTERÍSTICAS: - direito real de garantia, do qual decorre o direito de sequela, e, assim, uma vez registrada adere à coisa, acompanhando-a em caso de transmissão inter vivos ou causa mortis. Desse modo, o credor pode opor seu direito ao adquirente do imóvel dado em garantia. - os frutos da coisa gravada não podem ser penhorados por outros credores do devedor. - o direito de preferência é relativo: o credor anticrético poderá opor seus direitos contra o adquirente do bem, os credores hipotecários e quirografários, desde que tenha registro anterior da anticrese, não tendo ele preferência sobre o preço se não opuser seu direito de retenção ao exequente. - o credor quirografário não poderá penhorar o imóvel anticrético, que, por vínculo real, sujeito está ao cumprimento da obrigação contraída com o credor anticrético. Se ocorrer a penhora, o credor anticrético pode lançar mão dos embargos de terceiro para impugnar a penhora. - o credor hipotecário com inscrição posterior não pode executar o imóvel enquanto subsistir a anticrese. No conflito entre os direitos reais, a preferência é ditada pela primazia da inscrição. - não tem preferência sobre a indenização não confere preferência ao anticresista: no valor da indenização, do seguro quando destruído o prédio, nem se for desapropriado, sobre a da desapropriação. Isso porque ele tem direito não de excutir o bem gravado, mas somente de receber seus frutos como pagamento da dívida. O seguro e a indenização da desapropriação vão para o proprietário, e a dívida com o credor continua, subsiste o crédito, porém sem a garantia real anterior que era dada pelo imóvel. 12.3.4. DIFERENÇAS ENTRE ANTICRESE E OUTROS INSTITUTOS 123 - distingue-se do penhor porque tem por objeto bem imóvel e o credor tem direito aos frutos até o pagamento da dívida. - não se confunde com a hipoteca porque o credor hipotecário pode promover a excussão e venda judicial do bem hipotecado, sem ter a sua posse, o que não ocorre com o anticrético. 12.3.5. EFEITOS DA ANTICRESE - Art. 1506: com a constituição da anticrese coloca-se o imóvel gravado sob administração do credor, que fica autorizado a perceber-lhe os frutos e rendimentos, em pagamento da dívida. Todavia, como administrador de coisa alheia e mandatário, está obrigado a prestar contas, quando reclamada pelo devedor. Deverá apresentar anualmente balanço exato e fiel de sua administração, que poderá ser impugnado pelo devedor. Caso o balanço for inexato ou ruinoso a administração, poderá o devedor requerer a transformação do contrato em arrendamento, fixando aluguel, como se o credor anticrético estivesse usando o bem em contrato de locação, e o valor do aluguel ser abatido da dívida. 12.3.6. DIREITOSDO CREDOR ANTICRÉTICO - possuir o bem dado em garantia; perceber-lhe os frutos e rendimentos; retê-lo em seu poder até que a dívida seja saldada; reivindicar seus direitos contra o terceiro que adquira o imóvel; reivindicá-los contra os credores quirografários e os hipotecários posteriores à transcrição da anticrese; haver do produto da venda do bem anticrético, no caso de falência do devedor, o valor atual dos rendimentos que pudesse obter em compensação da dívida. 124 12.3.7. OBRIGAÇÕES DO CREDOR ANTICRÉTICO: guardar a coisa como se fosse sua; responder pelas deteriorações que o imóvel sofre por culpa sua; responder pelos frutos que deixar de perceber por sua negligência; prestar contas ao proprietário da coisa. 12.3.8. DIREITOS DO DEVEDOR ANTICRÉTICO: reaver o imóvel tanto que pague a dívida; ser indenizado do dano oriundo de deterioração do imóvel por culpa do credor; ressarcir-se do valor dos frutos que o credor tenha negligentemente deixado de perceber; pedir contas ao credor. 12.3.9. OBRIGAÇÕES DO DEVEDOR ANTICRÉTICO: entregar o imóvel ao credor; pagar a dívida; ceder ao credor o direito de perceber os frutos e rendimentos da coisa. 12.3.10. MODOS DE EXTINÇÃO DA ANTICRESE - como relação jurídica acessória, se a obrigação principal se extinguir, ocorrerá a extinção automática da anticrese. - sendo direito real que recai sobre imóvel, também se extingue pelo perecimento deste. Perecendo o objeto, perece o direito. - caducidade: transcorrido quinze anos de sua transcrição: se o credor não conseguiu em tão largo intervalo pagar-se de seu crédito, decerto não mais conseguirá, pois os frutos do imóvel são basicamente insuficientes para o resgate da dívida. Ao credor remanescerá a condição de quirografário.