A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
47 pág.
A EXECUÇÃO INEFICAZ DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE DENTRO DO SISTEMA CARCERARIO BRASILEIRO

Pré-visualização | Página 12 de 13

apresentaram algum registro, dos quais 17% haviam sido 
processados por crime de tráfico.” Ou seja: tendencialmente pode-se 
afirmar que muitos usuários estão sendo processados como 
traficantes e que “pequenos traficantes” estão sendo processados 
como “grandes traficantes”. É isso, muito provavelmente, que está 
lotando nossos cárceres, mesmo porque 84% dos presos não 
tiveram assistência jurídica no momento da prisão. (GOMES, 2012) 
Desta forma, a atividade do tráfico ilícito de entorpecente e a aplicação 
incorreta da Lei, juntamente com a falta de assistência técnica jurídica, são fatores 
que contribui e muito para com a situação calamitosa dos estabelecimentos 
carcerários do Brasil. 
3.4 OS RESPONSÁVEIS PELA PRECARIEDADE CARCERÁRIA E O PAPEL DA 
SOCIEDADE NA RESSOCIALIZAÇÃO DO PRESO 
O Brasil convive com um abandono do sistema prisional, o que deveria ser 
um instrumento de ressocialização, na maioria das vezes, funciona como escola do 
crime, devido à forma como é tratado pelo estado e pela sociedade. 
Quanto ao papel do Estado, o mesmo não está cumprindo o 
estabelecido, em diversos diplomas legais, como a Lei de Execuções 
Penais, Constituição Federal, Código Penal, além das regras 
internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 
a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e a 
Resolução da ONU que prevê as Regras Mínimas para o Tratamento 
do Preso (ASSIS, 2007). 
Anote-se, que a Lei de Execuções Penais, em seu art. 1º, estabelece que “a 
execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão 
criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado 
e do internado,”, além disso, a mesma norma prevê a classificação, assistência, 
educação e trabalho, aos apenados, o que visivelmente, não é cumprido na sua 
integralidade. 
41 
 
A superlotação das celas, sua precariedade e sua insalubridade 
tornam as prisões num ambiente propício à proliferação de 
epidemias e ao contágio de doenças. Todos esses fatores estruturais 
aliados ainda à má alimentação dos presos, seu sedentarismo, o uso 
de drogas, a falta de higiene e toda a lugubridade da prisão, fazem 
com que um preso que adentrou lá numa condição sadia, de lá não 
saia sem ser acometido de uma doença ou com sua resistência física 
e saúde fragilizadas. (ASSIS, 2007, p.1) 
Como se nota, o que ocorre atrás das grades de um presídio, é a barbárie, o 
horror, o retrato do inferno, a realidade deste sistema. Todavia, é um aparelho que 
parece funcionar, apenas aparentemente, somente para perpetuar o horror, e que 
torna quase impossível pensar na recuperação de quem nele entrou, se a mudança 
não começar, pois este é o reflexo da sociedade. 
O Estado, de forma clara, tem demonstrado a sua incapacidade em gerir por 
si só o sistema penitenciário. A exposição de motivos da Lei de Execução Penal, em 
seu item 24 expressa a necessidade da participação comunitária na busca da 
solução das questões que envolvem o sistema: “Nenhum programa destinado a 
enfrentar os problemas referentes ao delito, ao delinquente e à pena se 
completariam sem o indispensável e contínuo apoio comunitário”. Além disso, a Lei 
de Execução Pena, no seu artigo 4º, determina que: “O Estado deverá recorrer à 
cooperação da comunidade nas atividades de execução da pena e da medida de 
segurança.” 
Destaca-se uma iniciativa de origem não estatal destinada a obtenção de 
melhores resultados na busca de humanização e efetividade na ressocialização do 
preso. 
Trata-se do método APAC (Associação de Proteção e Assistência aos 
Condenados), que teve início em 1974 no presídio de Humaitá com uma entidade 
jurídica composta por quinze membros, que evangelizavam e apoiavam moralmente 
os presos na época. Ficaram responsáveis pela administração do estabelecimento, 
e iniciaram um trabalho de recuperação por meio da valorização da pessoa humana, 
com vista à proteção da sociedade e promoção da justiça. 
O estímulo à adoção desse método é, ao lado da execução do 
Programa Começar de Novo, do Conselho Nacional de Justiça 
(CNJ), um dos princípios do Programa Novos Rumos, política do 
TJMG voltada à reinserção social de detentos e egressos do sistema 
carcerário. (VASCONCELLOS, 2013) 
42 
 
A associação dispensou os funcionários da penitenciária e passou a 
ministrar seu programa com o auxílio comunitário, sendo que o Estado ficou isento 
de qualquer ônus (arcando unicamente com alimentação, luz e água). O programa 
consistia na progressividade de regime, dessa forma o preso, que passa a ser 
denominado de recuperando, aos poucos lhe vai sendo concedido maior acesso à 
vida livre, até o dia em que teria apenas que se apresentar diariamente à prisão. 
A metodologia APAC é composta por 12 elementos: participação da 
comunidade; ajuda mútua entre recuperando; trabalho; religião; 
assistência jurídica; assistência à saúde; valorização humana; 
família; formação de voluntários; implantação de centros de 
reintegração social; observação minuciosa do comportamento do 
recuperando, para fins de progressão do regime penal; e a Jornada 
de Libertação com Cristo, considerada o ponto alto da metodologia e 
que consiste em palestras, meditações e testemunho dos 
recuperando. (VASCONCELLOS, 2013) 
Na verdade o que a associação fez foi simplesmente colocar em prática 
aquilo que a lei preceitua, ou seja, individualizou o tratamento, ofereceu as devidas 
assistências que a lei determina (material, psicológica, médica, odontológica, jurídica 
e educacional), e fundamentou-se na religião como meio de propiciar as devidas 
alterações no preso afim de que volte a ser reintegrado na sociedade. Como forma 
de demonstrar seu progresso o preso deveria ajudar o companheiro de pena, sendo 
que foram aplicados os regimes no próprio estabelecimento de forma a não 
distanciar o preso de sua família no período de sua condenação, e com o 
acompanhamento de voluntários. 
Esse método surtiu efeitos positivos e foi expandido para vários outros 
locais. Conforme dados extraídos do artigo “Associação de proteção e assistência 
aos condenados: solução e esperança para a execução da pena”, de autoria do 
advogado Geraldo Francisco Guimarães Júnior na página Jus Navigandi: 
O método foi sendo aperfeiçoado e hoje tem alcançado grande 
repercussão 
no Brasil e no exterior. Apresentando índices de reincidência 
inferiores a 5% 
(no sistema comum a média de reincidência é de 86%), são 
aproximadamente 100 unidades em todo o território nacional, e 
várias já foram implantadas em outros países, como as APAC’s de 
Quito e Guaiaquil no Equador, Córdoba e Concórdia na Argentina, 
Arequipa no Peru, Texas, Wiora e Kansas nos EUA, e muitas outras 
estão em fase de implantação como África do Sul, Nova Zelândia, 
Escócia, etc. (JUNIOR, 2005) 
43 
 
O programa desenvolvido pela APAC tem a característica de ser 
eminentemente voluntário, é a própria comunidade que voluntariamente irá 
desenvolver as atividades. Após receberem as devidas instruções ministradas num 
curso de formação começam a trabalhar e sempre estarão em processo de 
reciclagem e aperfeiçoamento para atuarem da melhor forma possível no trato com 
todos aqueles envolvidos na terapia. 
A fonte para a manutenção da associação é a própria comunidade 
(moradores e empresas), e faz com que o sistema da APAC seja de baixos custos. 
A APAC é um claro exemplo de que a o empenho da comunidade é de 
extrema importância para a ressocialização, diante do contexto em que se 
desenvolve a pena privativa de liberdade em nossas prisões. Ações bem planejadas 
e de boa vontade só tendem a oferecer bons resultados. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.