A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
249 pág.
METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

Pré-visualização | Página 15 de 50

mantém presos no fantástico.
A última situação é o final irresolúvel, não há explicação se o fato sobre-
natural – as árvores estavam falando – realmente existiu, e na narrativa isso 
se mostra de uma maneira simples, ela duvida de si mesmo: “Será que eu 
estava ficando louca?!”, ela diz e ainda termina “Só voltei uma semana depois 
sem saber se estava delirando com a ajuda dos remédios ou não. Tudo pa-
recia tão real!”. O final sem qualquer tipo de explicação, aconteceu ou não? 
Um final puramente fantástico.
5.3.3 Fantástico – maravilhoso
Optando por uma explicação cujo sobrenatural é a resposta, entramos 
no gênero Maravilhoso. Nessa vertente do fantástico, os seres sobrenaturais 
possuem permissão para existir. Ainda segundo Todorov (2012, p. 58), em 
Introdução à literatura Fantástica:
No caso do maravilhoso, os elementos sobrenaturais não pro-
vocam nenhuma reação particular nem nos personagens, nem 
no leitor implícito. A característica do maravilhoso não é uma 
atitude, para os acontecimentos relatados a não ser a natureza 
mesma desses acontecimentos. 
 
 Se o sobrenatural não entrar em choque com o contexto, com a atmosfe-
ra da narrativa, não estamos no fantástico. Entra-se então no maravilhoso, 
onde os acontecimentos sobrenaturais são perfeitamente aceitáveis:
Estamos no fantástico – maravilhoso, ou em outros termos, 
na classe das narrativas que se apresentam como fantásticas 
e que terminam por uma aceitação do sobrenatural. Estas são 
as narrativas mais próximas do fantástico puro, pois [...] suge-
rem-nos realmente a existência do sobrenatural. (TODOROV, 
2012, p. 58).
74
A diferença então é que, no maravilhoso, o sobrenatural é mostrado 
como algo possível. Pimentel (2002, p. 36) afirma “[...] o maravilhoso é, por 
conseguinte, o extraordinário, que escapa ao curso ordinário das coisas e 
dos homens”. Em um mundo maravilhoso, a existência de fadas, duendes, 
espíritos, anjos e vampiros é completamente natural.
Temos assim:
Era mais um dia quente em Manaus, e apesar de estar doente e 
ter tomado muitos remédios para alergia, eu precisava chegar 
à universidade para mais uma apresentação.
Logo que desci do ônibus e percorri as passagens, percebi algo 
muito estranho; as salas de aula estavam vazias, muitas luzes 
estavam apagadas e não havia ninguém andando nos corre-
dores. Intrigada, comecei a andar devagar e foi quando pensei 
estar escutando vozes, sussurros vindos de todas as direções. 
Assustada, corri o mais rápido que pude até a minha sala que 
estava vazia como todas as outras. Será que hoje não teria aula 
e ninguém me avisou? Foi quando os murmúrios ficaram mais 
altos e percebi que as árvores estavam falando! Intrigada, segui 
as vozes até um dos últimos corredores e percebi que todos 
estavam se reunindo ali, fascinados! 
Elas contavam belas histórias de quando eram donas do mun-
do e todos viviam em harmonia! (AS AUTORAS, 2017)3.
Como vimos, o primeiro ponto a ser observado na estória é o ambiente 
em que tudo ocorre, o ambiente da narrativa é o mundo comum, o mundo 
onde o leitor pode se identificar com a personagem. 
Observamos também que é nesse lugar comum que algo estranho co-
meça a acontecer, sem que se perca a noção do lugar em que se encontra 
a narrativa. O segundo ponto continua o mesmo: a infiltração do aparente 
acontecimento sobrenatural na narrativa da heroína comum.
3 Texto elaborado pelas autoras para exemplificação, em 2017.
75
A terceira circunstância são os questionamentos que nos levam a uma 
tendência fantástica, a hesitação, a desconfiança e até o medo.
Mas algo muda, a última situação que seria o final irresolúvel, não exis-
te mais. A explicação sobre o fato possivelmente sobrenatural – as árvores 
estavam falando – acontece, todas as dúvidas e questionamentos ficam es-
quecidos, pois há uma resposta, uma conclusão inaceitável para o mundo 
científico. Um final puramente maravilhoso.
5.3.4 Fantástico – estranho
Optando por uma explicação, cuja existência é pertencente ao mundo 
real, estamos no Estranho: “Acontecimentos que parecem sobrenaturais ao 
longo de toda a história, no fim recebem uma explicação racional.” (TODO-
ROV, 2012, p. 51). Todorov (2012, p. 53) afirma nas obras pertinentes a esse 
gênero:
Relatam-se acontecimentos que podem perfeitamente ser 
explicados pelas leis da razão, mas que são, de uma ou outra 
maneira, incríveis, extraordinários, chocantes, singulares, in-
quietantes, insólitos e que, por esta razão, provocam no perso-
nagem e o leitor uma reação semelhante àqueles que os textos 
fantásticos nos voltou familiar. 
É neste campo que podemos encontrar as coincidências, o sonho, drogas, 
ilusão dos sentidos, loucura, fraudes. O questionamento, o estranhamento, 
pode existir, mas ao final da narrativa teremos uma explicação natural.
Mais uma vez temos:
Era mais um dia quente em Manaus, e apesar de estar doente e 
ter tomado muitos remédios para alergia, eu precisava chegar 
à universidade para mais uma apresentação.
76
Logo que desci do ônibus e percorri as passagens, percebi algo 
muito estranho; as salas de aula estavam vazias, muitas luzes 
estavam apagadas e não havia ninguém andando nos corre-
dores. Intrigada, comecei a andar devagar e foi quando pensei 
estar escutando vozes, sussurros vindos de todas as direções. 
Assustada, corri o mais rápido que pude até a minha sala que 
estava vazia como todas as outras. Será que hoje não teria aula 
e ninguém me avisou? Foi quando os murmúrios ficaram mais 
altos e percebi que as árvores estavam falando! Foi quando 
desmaiei.
Quando acordei estava cercada por meus amigos assustados, 
eles diziam que eu estava delirando de febre falando sozinha 
sobre árvores falantes. Voltei para casa e só retornei totalmente 
curada.
Nunca, nada parecido me aconteceu de novo! (AS AUTORAS, 
2017)4.
Temos mais uma vez o primeiro ponto que é o ambiente em que tudo 
ocorre, o mundo comum, o mundo de fácil identificação.
Nesse mundo, algo estranho começa a acontecer: a infiltração do aconte-
cimento supostamente sobrenatural na narrativa da heroína comum. 
A terceira circunstância são as indagações, a hesitação, o incômodo que 
nos levam a uma tendência fantástica.
Novamente algo muda, a circunstância, que seria o final indeterminado, 
não se mantém. A explicação sobre a ocorrência sobrenatural - as árvores 
estavam falando – agora existe, todas as dúvidas e questionamentos ficam 
esquecidos, pois há uma resposta, uma resposta que cabe no mundo co-
mum. Um final puramente estranho.
4 Texto elaborado pelas autoras para exemplificação, em 2017.
77
5.3.5 Temas comuns no fantástico
 
Percebemos que certos temas se repetem ao estudarmos a literatura fan-
tástica. Aqui listo alguns deles:
a) incesto;
b) homossexualidade; 
c) amor a vários; 
d) necrofilia; 
e) sensualidade excessiva;
f) loucura;
g) drogas;
h) o duplo; 
i) crueldade. 
5.3.6 Funções do fantástico
Após ter buscado demonstrar a estrutura da narrativa fantástica, Todorov 
(2012) aplica-se a estabelecer suas funções em Introdução à literatura fantás-
tica, onde destaca dois pontos:
1º Função social
Todorov (2012, p. 167) afirma que 
Para muitos autores, o sobrenatural não era se não um pretexto 
para descrever coisas que não teriam nunca ousado mencionar 
em termos realistas [...] o fantástico permite franquear certos 
limites inacessíveis quando a ele não se recorre. 
78
Como falar de homoafetividade, necrofilismo, drogas? A função social, 
de extrema importância porque aborda temas considerados tabus, especial-
mente quando observamos as narrativas do século XIX, onde a proibição de 
certas temáticas era muito forte.
 
2º Função literária
Todorov (2012, p. 171) assegura que 
Uma função pragmática: o sobrenatural emociona, assusta, 
mantém em suspense o leitor. Uma função semântica: o

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.