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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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LHAL, 2011, p. 233). O andamento da pesquisa deve correr mediante o ob-
jetivo traçado pelo pesquisador, dependendo do que pretende mostrar, qual 
seu foco de análise, assim, o método de literatura comparada colabora com 
as assertivas e resultados da pesquisa. 
Vejamos, pois, como pode ser aplicada a comparação. A consciência do 
personagem de Defoe carrega a imposição religiosa, desígnios divinos, e a 
indução do nativo ao trabalho, sua mão de obra pessoal, como corretos. 
Crusoé ensina a Friday tudo que fazia, ou precisava fazer, 
[...] não apenas as técnicas agrícolas e a fabricação de pão, mas 
gradual e sistematicamente Friday deixa a nudez, o canibalis-
mo, o paganismo, sob o poder apelativo, mas coercivo de Cru-
soé. (BONNICI, 2012, p. 112). 
Crusoé divide então as tarefas braçais e intelectuais, respectivamente, 
para Friday e para si, representando o irradiador central de cultura e saber, 
enquanto o nativo a mão de obra.
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A fala de Crusoé assemelha-se à de Caminha (2017, p. 14) em A carta, 
relato do descobrimento escrito em 1500, em que “[...] o melhor fruto que 
dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente”. Os índios brasilei-
ros foram tomados como pagãos ignorantes e primitivos, “[...] a inocência 
desta gente é tal que a de Adão não seria maior.” (CAMINHA, 2017, p. 13). 
A cultura do índio não é válida, a do português é a correta, é a salvadora. 
Caminha (2017, p. 13) disse ainda “[...] e bem creio que, se Vossa Alteza 
aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e 
convertidos ao desejo de Vossa Alteza”, certamente, julga não terem vontade 
nem entendimento. O colonizador então é o sujeito e o colonizado é o obje-
to, manipulável e submisso.
Desse modo, pela seguinte definição de que literatura comparada, con-
forme Pichois e Rousseau (1967 apud COUTINHO; CARVALHAL, 2011, p. 
233), “[...] é a arte metódica pela busca de laços de analogia, de parentesco 
e de influência, de aproximar a literatura dos outros domínios da expressão 
ou do conhecimento”, agrega valor a argumentação a respeito do fenômeno 
literário pesquisado, dando credibilidade e fortalecendo o postulado crítico.
7.8 Retomada geral: apresentação da representatividade da obra nas 
discussões pós-colonialistas
Os resultados obtidos podem dar novos conceitos a respeito da represen-
tatividade da obra no âmbito literário geral. A partir dessa inserção, infere-
se que a produção literária de uma nação demonstra de forma indireta os 
percursos formadores da identidade cultural de uma nação, se esta tiver sido 
colonizada ou não. As marcas da dominação são indeléveis, uma cultura 
híbrida ou sem reconhecimento identitário tende a produzir uma literatura 
consciente de uma inferioridade cultural nativa que é falsa e não deve ser 
compreendida ou aceita dessa forma.
A obra de Daniel Defoe ganhou outra visibilidade após as análises pós-
colonialistas. Nesse ínterim, percebe-se um olhar mais acurado em relação 
às premissas imperialistas no consciente do autor, inglês não-subalterni-
zado. Segundo a citação de Bonnici (2012, p. 113), quanto à conversão do 
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nativo Friday ao cristianismo, “[...] em nenhum momento Friday diz que 
aceitou internamente a fé cristã, [...] todas as afirmações da aceitação de fé 
pelo indígena resumem-se à opinião exclusiva de Crusoé”, isso por se tratar 
de uma narração em primeira pessoa .
Assim sendo, conforme Bonnici (2012, p. 113, colchete nosso) salienta, 
“[...] parece, portanto, legítimo afirmar que, no âmbito religioso, o indígena, 
[é] obrigado a assumir o papel de objeto” diante do colonizador. A Friday 
resta aceitar que a cultura, a religião e a divisão de trabalho imposta por 
Crusoé são as corretas. A colonização torna-se observável e personificadas 
nos dois caracteres, Friday e Crusoé, tal como o percurso ideológico, social, 
cultural e religioso imposto pelo inglês ao indígena é visto como legítimo e 
alegórico à colonização eurocêntrica. Portanto, a representatividade do livro 
de Defoe ganha aspectos negativos diante da análise pós-colonialista, sobre-
tudo pelo fato de a estrutura social interna da obra aprovar todo o procedi-
mento do personagem central, Robinson Crusoé, que a teoria pós-colonial 
tem reprovado.
7.9 Considerações finais
As pesquisas baseadas na teoria pós-colonial são amplas e possíveis a 
diversos autores, perspectivas teóricas, históricas e até temáticas. Desde a 
década de 60 do séc. XX que se escreve sobre os males da colonização e suas 
consequências na cultura e identidade dos países colonizados. Na década de 
70 também do séc. XX, os estudos sobre objetos literários foram se desen-
volvendo. Toda esta gama de autores e teses acabaram por organizar-se de 
modo a gerar uma terminologia própria, obviamente, há divergências entre 
algumas concepções, entretanto, os mais gerais podem ser aqui listados para 
uma compreensão mais rápida, didática e objetiva, conforme visa este traba-
lho. Vejamos os termos operacionais mais recorrentes:
a) Imperialismo – prerrogativa do colonizador de imposição e de 
dominação cultural, religiosa, política, social, etc;
b) Pós-colonialismo – estudos que visam investigar a influência 
remanescente do colonizador sobre a cultura, política, religião, arte, 
etc., do colonizado;
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c) Literatura pós-colonial – literatura de povos colonizados cuja cultura 
seja formada por influências nativas e do colonizador;
d) Subalterno/colonizado – todo e qualquer sujeito social fora dos 
padrões dominantes, isto é, o que está sob opressão, (marginalizado, 
pobres, negros, mulheres, homossexuais, etc.), tanto dentro quanto 
fora do contexto e momento histórico da colonização;
e) Dominador/colonizador – todo e qualquer sujeito social ou grupo 
possuidor dos mecanismos de dominação;
f) Descolonização – tomada de consciência da influência imperialista.
Para fins de informação, considerando o variado número de obras teóri-
cas, citamos, a seguir, uma lista com os autores mais utilizados nas pesquisas 
a partir do pós-colonialismo, além de Thomas Bonnici: Memmi (1965) - 
The Colonizer and the Colonized; Fanon (1968) – Os condenados da terra; 
Said (1978) – Orientalismo; Spivak (2010) – Pode o subalterno falar? ; Wa 
Thiong’o (1986) – A descolonização da mente; Ashcroft (1989) – The empire 
writes back; Said (1993) – Cultura e imperialismo; Bhabha (1994) – O local 
da cultura; e Mata (2013) – A literatura africana e a crítica pós-colonial.
A cultura nos países colonizados são o principal objeto das pesquisas pós-
coloniais. As estratégias de leitura propostas por Bonnici representam uma 
face desta teoria que nos permite avaliar as produções literárias sob o mes-
mo olhar sócio-histórico e antropológico que os autores pós-colonialistas 
empregam à sociedade e cultura dos países ex-colônias. A descolonização da 
cultura tem sido o tema mais trabalhado por conta da conscientização dos 
países a respeito das influências e da tentativa de resgate da expressão primi-
tiva cultural. Reitera-se, então, a finalidade deste trabalho com fins didáticos 
para orientação e auxílio na compreensão da teoria pós-colonial e suas apli-
cações em objetos literários, visando sempre a análise das sociedades e seus 
padrões que sempre favorecem a uns em detrimento de outros. A literatura, 
como expressão da cultura e do consciente coletivo das nações, nos retrata 
de modo representativo os homens em ação e nisso nos dá oportunidades de 
estudos e pesquisas em prol da libertação e valorização nacionais dos países 
uma vez colonizados.
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Referências
ANCHIETA, Padre José de. Carta de São Vicente 1560. São Paulo: Reserva da Biosfera da 
Mata Atlântica (RBMA), 1997. (Série Documentos Históricos, 7). Disponível em: <http://
www.rbma.org.br/rbma/pdf/Caderno_07.pdf >. Acesso em: 25 jul. 2017. 
BONNICI, Thomas. O pós-colonialismo e a literatura: estratégias

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