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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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racional do conjunto de nossa cultura, dos 
pensamentos e da ordem de imagens familiares, desta forma, mostrando a 
sinceridade, pois a água tem clareza, profundidade e transparência. O filóso-
fo repete a ideia de que se vê primeiro o objeto e depois o imagina, de forma 
que neste processo se estabelece a associação dos fragmentos das lembran-
ças do real que foi vivido e do real percebido. As imagens imaginadas são 
sublimações. Sublimação é a forma dinâmica comum do psiquismo, de onde 
saem as imagens, do próprio fundo do ser humano. 
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8.3 Para entender o cotidiano 
Para que haja leitura e interpretação do cotidiano, seja na poesia, pintura, 
cinema ou em outra arte, é necessário que se entenda o que é o cotidiano, 
como ocorre o tempo dentro do cotidiano, qual momento em que determi-
nada sociedade se encontra para ser caracterizado o que é o cotidiano em 
sua cultura, verificar se o que o poeta enxerga e escreve, por exemplo, é o 
que realmente está fora da poesia. Ao pensar em cinema podemos nos apro-
ximar de Charles Chaplin, que denunciou as mazelas da burguesia através 
de seu personagem Carlitos, o qual usou como recurso apenas a expressão 
corporal para conquistar a todos.
De acordo com Cony (2004, p. 159), em “O personagem Carlitos”, capítulo 
no livro Chaplin por ele mesmo, diz: “Carlitos é humano e aventureiro... um 
Ulisses sem glória”. Carlitos, personagem de Chaplin, ganhou seu espaço 
diante da sociedade burguesa, plantou humor diante de todos, entretanto 
seu comportamento tinha como finalidade ir muito além do que apenas di-
vertir, mas apresentar a grande desigualdade social do século XIX. Carlitos 
não possuía nada e ninguém, perambulava pelas ruas sem ambições de cres-
cimento profissional, sem familiares ou amigos, sua felicidade consistia em 
conseguir comida e lugar para dormir com uma mínima sensação de segu-
rança, não diferente do que se pode observar ainda hoje em dia em cidades 
com esse tipo de problema social.
Assim como Cony (2004) se apropriou de Ulisses para compará-lo com 
Chaplin, Lefebvre (1991), ao discorrer sobre o cotidiano em seu livro A vida 
cotidiana no mundo moderno, também nos apresentou este personagem 
como exemplo para desmascarar o cotidiano, expondo que a cotidianidade 
não é tão interessante, pois é algo recorrente, mas torna-se interessante à 
medida que é entregue ao leitor. O cotidiano primeiramente é apresentado 
como repetição. Ulisses de James Joyce demonstra-se como o estereótipo da 
sociedade atual, apresenta a formação de um indivíduo, ascensão e declínio 
de uma família, destino, essa repetição apresenta-se por vestimentas, más-
caras e cenários, a vida cotidiana universal será retratada e contará com os 
recursos da linguagem para serem melhor exprimidos. 
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8.3.1 O cotidiano 
O cotidiano se apresenta continuamente, pois os cortes não são conside-
rados começos propriamente ditos, e descontinuamente, pois não há fim. 
Do ponto de vista literário o mundo desdobra-se em mundo do cotidiano e 
mundo da metáfora, sendo vida simulada.
Para o filósofo, a vida cotidiana mostra-se como real em relação ao ide-
al, pois a filosofia preocupa-se em demostrar o que considera ser “tudo”, o 
mundo e o homem, sua consciência e testemunho, sua crítica e racionalida-
de. Descrever e analisar, através da filosofia, o cotidiano implica revelar suas 
dualidades, como por exemplo, a riqueza e a miséria. Para ela, o cotidiano 
é também um campo e uma renovação que ocorre simultaneamente, um 
momento composto por tantos outros momentos, nos quais se pode incluir 
trabalhos, necessidades, criatividades etc.
O cotidiano é um fenômeno das sociedades modernas, se compõe de re-
petições: gestos no ambiente de trabalho e fora deste, movimentos mecâni-
cos, horas, dias, semanas, meses, anos, tempo da natureza e tempo da racio-
nalidade. É o que acontece por si mesmo, o que não tem data. É no cotidiano 
que as pessoas ganham suas vitórias e obtém seus fracassos, é nele que vivem 
bem ou mal. O cotidiano possui riquezas e misérias. Lefebvre afirma que a 
vida cotidiana se caracteriza pelo estilo: os gestos, as palavras, as vestimentas.
Os fatos humanos e sociais ligam-se de modo, conceitual, ideológico ou 
teórico no cotidiano. Estudar o cotidiano corresponde a caracterizar a so-
ciedade em que se vive, pensar naquilo que gera não apenas a cotidianidade, 
mas, consequentemente, a modernidade, definir as transformações e pers-
pectivas sociais, captando o que seria insignificante, essencial e assim orde-
nar os fatos. Por meio do conceito da cotidianidade se entende e conhece a 
sociedade e se reconhecer seu panorama global, como por exemplo, a cultu-
ra. Não há como dissociar a sociedade da cultura. Lefebvre (1991), em seu 
livro A vida cotidiana no mundo moderno, discorre que, conforme a análise 
marxista, a sociedade é, antes de qualquer coisa, uma base econômica, é o 
trabalho com a finalidade de produzir e de possuir bens materiais, dividir e 
organizar os trabalhos. A base é a estrutura das relações sociais estruturadas 
e estruturantes, determinadas pela própria base e por fim pelas superestru-
turas e ideologias. 
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Apesar de ser o lugar do equilíbrio, o dia a dia da sociedade possui con-
traste, por exemplo a miséria, os trabalhos maçantes, as humilhações, a ne-
cessidade a ser suprida, a escassez de dinheiro, abstinência, privação e re-
pressão.
A sociedade é o lugar de equilíbrio em que o cotidiano pode fluir. No 
momento em que a sociedade perde sua harmonia, torna-se o lugar de dese-
quilíbrio. Quando as pessoas não conseguem mais viver sua cotidianidade, 
então começa uma revolução, uma busca por mudar de vida.
8.3.2 A degradação da modernidade na cidade 
Um exemplo desse lugar de desequilíbrio e revolução é a chegada da mo-
dernidade na Amazônia. A Serra Pelada, localizada na região sudeste do es-
tado do Pará e a 25 minutos de avião de Manaus, atraiu atenção pelo ouro e 
foi considerado o maior garimpo a céu aberto do mundo. Muitos dos milha-
res que protagonizaram o papel de formigueiro humano e que trabalharam 
em total falta de condição humana, ao invés de tornarem-se ricas, voltaram 
para casa mais pobres. Nesse momento, pôde-se observar a força de vontade 
por melhores condições de vida do brasileiro. 
Em Manaus, a Zona Franca atraiu muitos trabalhadores de outros luga-
res, entretanto, deixou outra grande quantidade de fora, dessa forma foram 
expostos e levados ao trabalho informal. Conforme aponta a professora da 
Universidade Federal do Amazonas, Scherer (2004, p. 130):
Na década de 70 e 80, os anos dourados da ZFM, a montagem 
dos produtos eletroeletrônicos absorveu um número expressi-
vo de trabalhadores. O processo produtivo nas indústrias do 
polo eletroeletrônico pode ser definido pelo que se poderia 
chamar de fordismo periférico (LIPIETS, 1996) em que gran-
de parte da produção era montada de forma manual e con-
gregava um contingente significativo de trabalhadores. Nesse 
tempo histórico o parque industrial da ZFM chegou a concen-
trar cerca de quase 90.000 trabalhadores.
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A ocupação de emprego na ZFM foi crescente, apesar da queda em 1985, 
por conta da economia brasileira nos anos 80. Apesar de ter sido chamada a 
década perdida brasileira, a ZFM continuou crescendo e atraindo trabalha-
dores de todas as partes.
Assim como os muitos cidadãos que (na esperança de mudança de vida) 
migraram para a Amazônia obtiveram apenas o fracasso foram expostos à 
salubridade e marginalidade, Carlitos, de Charles Chaplin, foi um vagabun-
do de rua, que viveu grandes conflitos com a classe burguesa, que não o 
aceitava por sua miserabilidade. 
8.4 O cotidiano do personagem Carlitos 
Chaplin, na Europa, expõe um problema comum, tempos depois, à tão 
distante da Amazônia. Chaplin era o personagem que lutava para sobrevi-
ver, trabalhar e comer:
Inocentemente

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