A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
249 pág.
METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

Pré-visualização | Página 4 de 50

de Moisés não 
são explicados na obra literária, enquanto que, na adaptação fílmica, o di-
retor preocupou-se em dar uma linearidade à narrativa ao retratar enfatica-
mente o momento da descoberta de sua origem, como podemos observar 
no diálogo que segue:
– Como está seu pai? sei que não sabe o nome dele, apenas 
que era general do exército do Faraó, não mencionado por sua 
mãe, vejo que isso te deixa desconfortável, isso deve interessá
-lo, nunca houve um general, sua mãe, a mulher a que chama 
de mãe nunca teve filhos, você nasceu escravo. (SCOTT, 
2014).
Outro elemento modificado é a ênfase dada na relação de rivalidade entre 
Moisés e Ramsés, que é apresentada em diversos momentos do filme. No 
texto bíblico, tal antagonismo não recebe tanto destaque. Também podemos 
citar como um acréscimo, a personagem Deus, que na adaptação fílmica 
manifesta-se em forma de um menino, enquanto que na Escritura Sagrada 
só nos é relatada que há uma “voz” que conversa com Moisés. 
24
1.5 Considerações finais
O presente artigo teve por finalidade mostrar alguns caminhos metodo-
lógicos para se fazer uma análise comparativa entre a Literatura e o Cinema, 
considerando três categorias de análise: elementos remanescentes; elemen-
tos modificados e elementos adicionados.
Sabemos que literatura e cinema são dois sistemas semióticos distintos, 
mas também entendemos que, apesar disso, possuem inegáveis aproxima-
ções que são notadamente comprovadas quando cotidianamente encontra-
mos obras adaptadas para o cinema e o contrário também ocorre. Enquanto 
a literatura, por meio da narratividade, nos relata os acontecimentos, o ci-
nema, através da imagem e efeitos visuais, nos mostra esse mesmo aconte-
cimento de forma “mais próxima da nossa realidade”, assim uma narrativa 
pormenorizada de determinado acontecimento faz-se impossível em um 
filme, por meio de diálogos. 
Ao ser adaptada uma obra literária sofre, de certa forma, uma alteração, 
e temos então, conforme Stam (2000), “perdas e ganhos”. Na obra em ques-
tão, observamos que houve um “corte” no que concerne à narrativa bíblica 
da história de Moisés e da libertação do povo hebreu da escravidão no Egi-
to. A trajetória que é narrada na Bíblia Sagrada (1966) contempla desde o 
nascimento desta personagem até sua morte; já no filme é mostrado até a 
abertura do Mar Vermelho, desconsiderando a difícil peregrinação do povo 
hebreu no deserto. O que pode ser uma “deixa” para a continuação do filme, 
estratégia bastante utilizada pela indústria cinematográfica. 
Sobre a questão das modificações em adaptações, é de suma importância 
frisar que a noção de adaptação infere a existência de mudanças para com o 
texto fonte, afinal, como preceitua Azêredo (2012), a concepção de adaptação 
confere a admissão de fazer escolhas quanto a adicionar, retirar ou mesmo 
promover cortes nos elementos que serão apresentados na tela.
Percebemos que, no processo de adaptação fílmica da obra literária, foi 
mantida a essência da narrativa literária. Mesmo sofrendo perdas, no que 
se refere aos cortes no enredo, e também recebendo, no que diz respeito 
aos elementos adicionados. Destacamos também que, no campo da análise 
da adaptação fílmica, esse trabalho não se encerra, pelo contrário, apenas 
se inicia. Esperamos, por fim, que este trabalho contribua com pesquisas 
25
futuras tanto no plano da adaptação fílmica quanto à leitura cruzada da obra 
literária com a adaptação fílmica.
Referências 
AZERÊDO, Genilda. Alguns pressupostos teórico-críticos do fenômeno da adaptação 
fílmica. In: GOUVEIA, Arturo; AZERÊDO, Genilda (Orgs.). Estudos comparados: análises 
de narrativas literárias e fílmicas. João Pessoa, PB: Editora Universitária/UFPB, 2012.
BARNWELL, Jane. Fundamentos de Produção Cinematográfica. Porto Alegre, RS: 
Bookman, 2013.
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1986.
ÊXODO: deuses e reis. Direcão Ridley Scott. EUA: Fox Film do Brasil, 2014. 
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da Língua portuguesa. 5. ed. Curiti-
ba: Positivo, 2010. 
GUIMARÃES, Josué Luiz. Elementos de Análise do Discurso. 9. ed. São Paulo, SP: Contex-
to, 2000.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução André Cechinel. Florianópolis: 
Ed. da UFSC, 2013.
JAKOBSON, Roman. Aspectos linguísticos da tradução. In: ______. Linguística e Comuni-
cação. São Paulo: Cultrix, 1970.
PLAZA, Julio. A Tradução Intersemiótica como Pensamento em Signos. In: ______. Tra-
dução Intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003. 
STAM, Robert. Introduction: the theory and practice of adaptation. In: ______. Dispo-
nível em: <http://adaptation391w.qwriting.qc.cuny.edu/files/2012/08/Stam-Intro-Theory
-and-Practice-of-Adaptation.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2017.
27
A LITERATURA BRASILEIRA 
DE EXPRESSÃO AMAZÔNICA
Alexandre da Silva Santos
É através da literatura que a palavra escrita cria a representação de um 
mundo e mimetiza a realidade. O escritor se torna o portador de uma ex-
pressão que reflete as mais variadas cenas da vida humana. Por meio do uso 
de recursos linguísticos que possibilitam a construção de diversas imagens, 
ele ressignifica a existência para que possamos sair da banalidade do ato de 
existir.
Esse portador possibilita também pensar criticamente sobre os estudos 
realizados no Amazonas, cujas vozes ainda não são escutadas por alguns 
grupos de estudiosos que se propõem a realizar os estudos de expressão 
amazônica. Estes permitem a compreensão de uma região que morre pelos 
pecados de uma mentalidade atrofiada e isso é visto como um conflito que 
resiste em existir diariamente nas ruas das cidades, à medida que se desco-
nhece as raízes históricas, culturais, políticas e sociais.
Como afirma Souza (2003), em Expressão Amazonense, o olhar que se 
tem sobre essa realidade ainda é de abandono e, ao mesmo tempo, repleto 
de adjetivos falsos, por haver uma tradição do silêncio em uma sociedade 
cerceada pelo poder, desde os tempos áureos e ilusórios da borracha.
Assim, quem decide estudar por esse caminho, o da expressão amazô-
nica, deve compreender a existência de um cenário de ostentação, sonhos 
frustrados, marginalizações e vozes silenciadas, a partir da importação de 
modelos culturais ultrapassados que não refletem a mentalidade da região, 
tudo um fruto de práticas adotadas desde o período da colonização.
A nossa proposta é contribuir no trilhar de um caminho investigação 
acadêmica que oportunize outros estudos no tocante ao imaginário, às cren-
2
28
ças, à condição de marginalização, ao silêncio, à identidade do rio, da flores-
ta, das cantigas, da migração para o meio urbano e as dificuldades que por 
lá passam os ribeirinhos e os retirantes da seca.
2.1 As vozes
O artista amazonense, segundo Souza (2003), será sempre um corpo es-
tranho em um contexto de ornamento em que a classe dominante reside. 
A arte que ele produz será o adorno, mas para romper esse quadro, surgem 
aqueles que carregam a voz da resistência contra essa necrofilia, eles são os 
que irão mostrar uma sociedade de falsos letrados e analfabetos da estética.
Farias (1990), em Romanceiro, e Sarmento (2007), em Uiara e outros poe-
mas, são dois exemplos dessas vozes que comunicam o mundo amazônico. 
O primeiro por apresentar crenças, sonhos, esperanças e anseios dos ribeiri-
nhos cuja vida está sob a tutela das águas. O segundo expõe o contato do re-
tirante da seca em terras amazônicas; nelas esse indivíduo revela os mesmos 
sentimentos do ribeirinho e a transformação de identidade por qual passará 
ao ser hospedado pela floresta.
Uma vez realizada a leitura dos livros mencionados, temos como pró-
ximo passo amparar-nos no pensamento de Eco (2003), em A obra aberta, 
por entender que o teórico discorre sobre a Arte enquanto uma comunica-
ção do imaginário que complementa

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.