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Resumo: Manual de psicologia hospitalar

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MANUAL DE PSICOLOGIA HOSPITALAR
INTRODUÇÃO
O que é psicologia hospitalar?
É o campo de entendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento.
O adoecimento se dá quando o sujeito humano, carregado de subjetividade, esbarra em um “real”, de natureza patológica, denominado “doença”, presente em seu próprio corpo, produzindo uma infinidade de aspectos psicológicos que podem evidenciar no paciente, na família, ou na equipe de profissionais.
Objeto da psicologia hospitalar: os aspectos psicológicos (e não as causas psicológicas).
A PH não trata apenas das doenças psicossomáticas, mas sim dos aspectos psicológicos de toda e qualquer doença.
Aspecto psicológico: manifestações da subjetividade humana diante da doença, tais como sentimentos, desejos, a fala, os pensamentos e comportamentos, as fantasias e lembranças, as crenças, os sonhos, os conflitos, o estilo de vida e o estilo de adoecer.
Psicossomática: influência da mente sobre o corpo, o que implica as emoções, os conflitos psíquicos e o estresse como responsáveis diretos pela etiopatogenia de diversas doenças, como a úlcera duodenal, a hipertensão, a artrite, a colite ulcerativa, o hipertireoidismo, a neurodermatite e a asma.
A PH nasceu da psicossomática e da psicanálise, e, atualmente, vem ampliando seu campo conceitual e sua prática clínica, criando uma identidade própria e diferente.
Quando uma vivência psicológica vem precipitar o inicio do processo patogênico, diz-se então que essa vivência foi um fator psicológico desencadeante que agiu sobre uma vulnerabilidade física preexistente. Muitas vezes a vivência psicologia nada tem a ver com o início da doença, mas ajuda a piorar o quadro clínico já instalado, ou influi negativamente no tratamento, dificultando-o. Nesses casos pode-se dizer que tal vivência teria sido um fator psicológico agravante.
A doença poderia ser definida como uma situação de perdas, entretanto, a doença não é feita só de perdas; também se ganha: ganha-se mais atenção e cuidados, ganha-se o direito de não trabalhar, entre outros. Esses ganhos demonstram como aspectos psicológicos podem atuar como fatores de manutenção do adoecimento.
O conjunto de sentidos que o sujeito confere a sua doença constitui, como consequência, o campo dos aspectos psicológicos.
Além de considerar paciente, família e equipe individualmente, a PH também se ocupa das relações entre elas, constituindo-se em uma verdadeira psicologia de ligação, com a função de facilitar os relacionamentos entre pacientes, familiares e médicos.
Qual o objetivo da psicologia hospitalar?
O objetivo da psicologia hospitalar é a subjetividade.
A doença é um real do corpo no qual o homem esbarra, e quando isso acontece toda a sua subjetividade é sacudida. É então que entra em cena o psicólogo hospitalar, que se oferece para escutar esse sujeito adoentado.
A psicologia está interessada em dar voz à subjetividade do paciente, restituindo-lhe o lugar de sujeito que a medicina lhe afasta.
Uma característica importante da PH é a de que ela não estabelece uma meta ideal para o paciente alcançar, mas simplesmente aciona um processo de elaboração simbólica do adoecimento. Ela se propõe a ajudar o paciente a fazer a travessia da experiência do adoecimento, mas não diz onde vai dar essa travessia, e não diz porque não pode, não diz porque não sabe. O psicólogo participa dessa travessia como ouvinte privilegiado, não como guia.
A psicologia hospitalar jamais poderia funcionar a partir de uma filosofia de cura. A subjetividade não tem cura.
Sua filosofia: curar sempre que possível, aliviar quase sempre, escutar sempre.
Como funciona a psicologia hospitalar?
Quando o psicólogo entra no quarto do paciente, o que ele faz? O psicólogo trabalha com o corpo simbólico, mas onde está esse corpo simbólico? Está nas palavras e em nenhum outro lugar. Seu campo de trabalho são as palavras. Eis a estratégia da PH: tratar do adoecimento no registro do simbólico porque no registro do real já o trata a medicina.
Mesmo em casos em que o paciente encontra-se impossibilitado de falar, ainda assim essa orientação do trabalho pela palavra é valida, já que existem muitos signos não verbais com valor de palavra, como gestos, olhares, a escrita e mesmo o silêncio.
O que interessa à PH não é a doença em si, mas a relação que o doente tem com o seu sintoma ou, em outras palavras, o que nos interessa é o destino do sintoma, o que o paciente faz com sua doença, o significado que lhe confere, e a isso só chegamos pela linguagem, pela palavra. 
A conversa é assimétrica: um fala mais do que o outro, e é exatamente o silêncio do psicólogo que dá peso, consequência e significado à palavra do paciente.
Ao escutar, o psicólogo sustenta a angustia do paciente o tempo suficiente para que ele possa submetê-la ao trabalho de elaboração simbólica.
Angustia não se resolve, se dissolve, em palavras.
Para concretizar a sua estratégia de trabalhar o adoecimento no registro do simbólico, a psicologia hospitalar se vale de duas técnicas: escuta analítica e manejo situacional. A primeira reúne as intervenções básicas da psicologia clínica, e a segunda engloba intervenções direcionadas à situação concreta que se forma em torno do adoecimento.
Eis alguns exemplos dessas intervenções: controle situacional, gerenciamento de mudanças, análise institucional, mediação de conflitos, psicologia de ligação, etc. 
Essa passagem do consultório para a realidade institucional do hospital é o grande desafio técnico da psicologia hospitalar. 
O paradigma
“Em vez de doenças existem doentes”.
O ser humano como um todo.
O paradigma holístico propõe olhar a doença com amplitude.
Criar conexões produtivas entre a ciência e outros campos do saber, como a psicologia, a espiritualidade, a política e a cultura em geral.
PRIMEIRA PARTE: DIAGNÓSTICO
Olhos para ver além do biológico
Em medicina, diagnóstico é o conhecimento da doença por meio de seus sintomas, enquanto na PH o diagnóstico é o conhecimento da situação existencial e subjetiva da pessoa adoentada em sua relação com a doença.
O diagnóstico é a maneira de organizar todo o material que o paciente trás, o modo de construir um mapa para depois analisá-lo e decidir o melhor caminho a seguir.
O diagnóstico é uma hipótese de trabalho, não uma verdade absoluta. 
O psicólogo trabalha com o sentido das coisas, não com a verdade das coisas.
O diagnóstico em PH não tem a ver com psicodiagnóstico. O diagnóstico em PH não se vale de testes. Seu instrumento é o olho clínico do psicólogo. Atualmente, o psicodiagnóstico não tem aplicação em psicologia hospitalar.
Eixo I – Diagnóstico reacional
O modo como a pessoa reage à doença.
Adoecer é entrar numa espécie de órbita que apresenta quatro posições principais: negação, revolta, depressão e enfrentamento (essa ordem não é fixa).
Essas posições não são especificas somente para a doença.
Segundo Lacan, acontecimentos como esses, que desorganizam a vida do sujeito, deveriam mesmo ser chamados de “encontro com o real”, com o que não tem nome e, portanto causa angústia. 
Posição negação
Para muitas pessoas, a única possibilidade imediata diante da doença é a negação. Quando alguém nega a doença, não o está fazendo propositadamente, e muito menos para irritar os outros. O paciente o faz porque naquele instante é o que ele pode fazer. 
Projeta a doença no outro.
Na posição de negação a pessoa pode agir como se a doença simplesmente não existisse, ou então minimiza sua gravidade e adia as providências e cuidados necessários. 
Na negação, o medo da doença encontra-se reprimido, e o que surge é uma angústia vaga, indefinida e flutuante.
Muitos pacientes escondem sua doença das pessoas mais queridas e próximas, numa tentativa de protegê-la. “Ela não vai aguentar saber que estou com câncer”. Outras vezes a negação da doença é por vergonha.
A negação também pode ocorrer da parte dos familiares e médicos em relação ao paciente. São situações em que se questiona se é melhor contar ou não contar para o

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