Prévia do material em texto
Suely Amaral Mello
Maria Carmen Silveira Barbosa
Ana Lúcia Goulart de Faria
organizadoras
Suely Amaral Mello
Maria Carmen Silveira Barbosa
Ana Lúcia Goulart de Faria
(Organizadoras)
Documentação pedagógica:
teoria e prática
ídrojoâo
Copyright © das autoras e dos autores
Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser
reproduzida, transmitida ou arquivada desde que levados em conta
os direitos dos autores e das autoras
Suely Amaral Mello; Maria Carmen Silveira Barbosa; Ana Lúcia
Goulart de Faria (Orgs.)
Documentação pedagógica: teoria e prática. São Carlos:
Pedro & João Editores, 2 017 .131p.
ISBN. 978-85-7993-438-4
1. Documentação pedagógica. 2. Olhares sobre a infância. 3. A
escuta. 4. Crianças, professor/a e produção de conhecimentos.
5. Autores. I. Título.
C D D -3 7 0
Capa: Hélio Márcio Pajeú (CCO Creative Commons (pixabay.com))
Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura
Brito
Conselho Científico da Pedro & João Editores:
Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi
(Unicamp/Brasil); Nair F. Gurgel do Amaral (UNIR/Brasil); Maria
Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da
Costa (UFSCar/Brasil); Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil)
Pedro & João Editores
www.pedroejoaoeditores.com.br
13568-878 - São Carlos - SP
2017
SUMÁRIO
DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA: outro 7
modo de escutar as crianças e a prática
pedagógica refletindo sobre a formação
continuada de professores e professoras - Suely
Amaral Mello; Maria Carmen Silveira Barbosa;
Ana Lúcia Goulart de Faria
PARTE I - Documentar a vida das crianças na 25
escola da infância
Documentar Processos, recolher sinais - Mara 27
Davoli
Afinando os olhos para captar momentos - 43
Mariano Dolci
Escutar para documentar - David Altimir 57
A arte do pintor de paisagens. Algumas 77
reflexões sobre a documentação - Meritxell
Bonàs
Parte II - Documentar: aguçar os olhos para captar 85
momentos
Dar visibilidade aos acontecimentos e aos 87
itinerários das experiências das crianças nas
instituições para a pequena infância - Anna Lia
Galardini e Sonia Iozzelli
Documentação como argumentação e narração: 99
dar visibilidade e forma aos processos na vida
quotidiana - Mara Davoli
A documentação como instrumento para dar 111
valor às relações entre as crianças
pequenininhas nas experiências quotidianas
compartilhadas na creche - Gloria Tognetti
Notas sobre os/as autores/as 129
DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA:
outro modo de escutar as crianças e a prática
pedagógica refletindo sobre a formação
continuada de professores e professoras
Suely Amaral Mello
Maria Carmen Silveira Barbosa
Ana Lúcia Goulart de Faria
I.
Desde o início do século XX, quando Maria
Montessori criou em Roma as Casas dei Bambini (Casas
das Crianças), a Itália vem contribuindo com a
constituição de olhares sobre a infância e a escola das
crianças pequenas. São muitos os autores e as autoras
que dialogam e confrontam suas idéias na busca de
uma educação de qualidade para a pequena infância.
Após a segunda grande guerra, no momento de
reconstrução da sociedade italiana, um grupo de
pessoas interessadas na formação das novas gerações,
perguntava-se sobre como seria uma escola capaz de
formar as crianças e os jovens para garantir que
Auschwitz não se repetisse. Para eles, não bastava
apenas as crianças frequentarem uma escola, era
preciso, seguindo/ em consonância com as palavras de
Theodor Adorno, uma escola comprometida com a
7
infância e a constituição de uma educação que não
admitisse a repetição do terror e da barbárie.
Foi na busca da resposta para este desafio que
Loris Malaguzzi e seus colaboradores constituíram um
tipo de escola e de gestão educacional que hoje é
denominado abordagem de Reggio Emília: uma
experiência de educação de crianças a ser vivida na
escola com adultos envolvidos em oferecer uma
instituição com gestão participativa e que se assume
responsável pela proposta educativa juntamente com
as famílias, no contexto de uma vida comunitária.
Portanto, na Itália, a pedagogia para a pequena
infância tem sido tomada como algo muito sério. Uma
atitude pedagógica vinculada às experiências políticas
de vida coletiva e individual, isto é, a um projeto de
vida e formação pessoal vinculado a um projeto de
sociedade. Nesta pedagogia, constituída após os anos
50, e especialmente dirigida às creches e as pré-escolas
vamos encontrar várias cidades envolvidas com o
desafio de acolher as crianças, de fazer vibrar suas
cem linguagens, de oferecer uma educação com
qualidade, plural, aberta ao mundo e criando, nas
comunidades e nas famílias, uma concepção de
criança potente e de escola da infância como lugar de
encontro e de vida em comum. A creche na Itália foi
proposta pelas feministas e pelos partidos de
esquerda, na contramão da política dominante que
apenas queria "abrigar" as crianças enquanto as mães
trabalhavam, revolucionando a educação das crianças
pequenininhas que até então conviviam apenas na
esfera privada
8
Em sua carreira como professor e gestor, Loris
Malaguzzi criou muitas estratégias políticas e
pedagógicas; uma delas tem sido imprescindível para
o sucesso de sua abordagem. Ela se chama
Documentação Pedagógica. No livro "Loris
Malaguzzi: biografia pedagógica" (2004, p. 64),
Alfredo Hoyuelos conta que quando Loris fazia seu
trabalho de consultor pedagógico na cidade de
Modena, já exercendo o cargo de gestor em Reggio
Emilia, sugeriu para as professoras que elaborassem
um diário numa caderneta, onde deveríam, com todo
o cuidado, anotar e refletir sobre tudo aquilo que
acontecia em sala e que "recolhesse a essência da vida
na escola". O objetivo era conversar, discutir sobre
estes escritos com ele e outros colegas no momento de
formação. Este pequeno caderno diário foi a gênese da
documentação pedagógica que, pouco a pouco, foi
expandindo as suas três funções.
A primeira é sua função política, de criar um
diálogo entre a escola e seus professores e as famílias e
a comunidade. Para que uma sociedade compreenda a
importância de uma escola de educação infantil, a
complexidade do seu funcionamento, as suas
especificidades curriculares, didáticas, ambientais é
preciso que ela seja conhecida por todos. Assim, a
Documentação Pedagógica, com suas diferentes
estratégias metodológicas como cartazes, filmes,
fotografias, festas, exposições de produções infantis
em vários espaços da cidade, visitas, convites aos
cidadãos para frequentarem eventos escolares foi
apresentando para a comunidade os seus fazeres, suas
9
propostas, seu dia a dia, e com isso conquistou a
adesão da população que compreendeu seu valor
como espaço educativo público para crianças,
inclusive os bebês.
A segunda função diz respeito ao modo como a
Documentação Pedagógica apoia e sistematiza o
acompanhamento da vida das crianças na escola, suas
produções, imagens de suas ações e interações,
palavras ditas em contextos de interações sociais e/ou
de investigações científicas ou em textos ditados para
o professor, criando memórias da vida individual de
cada criança e também da vida do grupo. E deste
modo podendo compartilhar com as famílias muitos
dos momentos vividos pelas crianças na escola e
oferecer a ela um tesouro de sua infância em registros.
Por fim, a terceira função, é a de constituir
material pedagógico para a reflexão sobre o processo
educativo. Os documentos (registros) criados pelos
professores e professoras, e também pelas crianças,
podem se constituir em matéria prima a ser
compartilhada com os/as colegas, base para a
discussão, ressignificação e avaliação de práticas.
A documentação, assim proposta, expõe com
transparência o que acontece entre ascrianças, entre as
crianças e as professoras/es, entre as professoras/es e a
gestão, e entre esses/as atores/as com as famílias e a
comunidade. A documentação transparente convida
as famílias para participarem diferentemente da
educação dos/as filhos/as. Assim temos um tripé que
sustenta a política educativa para a pequena infância:
família, professoras/es e crianças. Com o
10
protagonismo das crianças, um projeto com foco nas
meninas e nos meninos.
II.
Neste volume, temos a satisfação de apresentar a
tradução de dois pequenos livros sobre o tema da
Documentação Pedagógica que foram publicados em
Barcelona, pela Associação de Professores Rosa Sensat
(Associació de Maestros Rosa Sensat). Eles nos contam
uma história de formação, auto-formação e formação em
rede de professores e professoras. A Associação Rosa
Sensat é uma entidade da sociedade dvil, formada por
professores e professoras, que organiza todos os anos
propostas de formação também para os seus associados.
Algumas das atividades são definidas pela diretoria, em
seu plano de trabalho anual, contando com a
colaboração dos associados/as que sugerem temas,
pessoas a serem convidadas, etc., sendo abertas para
todos/as que quiserem participar. Outras atividades são
propostas pelos grupos de professores/as associados/as
que se organizam em Redes, ou Xarxas, como se
denomina em Catalão, e propõem grupos de estudo,
projetos de pesquisa e trabalho coletivos, etc.
A partir da definição do grupo é estabelecido um
programa de estudos que, muitas vezes, acaba se
materializando em uma experiência pedagógica
compartilhada. Em 2006, a Xarxa Territorial d'Educació
Infantil de Catalunya (Rede de Educação Infantil da
Catalunha1) decidiu trabalhar com a temática da
1 Nome do grupo de professores/as associados/as ao Rosa Sensat.
11
documentação pedagógica nas creches e pré-escolas.
Eles já conheciam um pouco o trabalho de Reggio
Emilia e também, há muitos anos, de uma maneira ou
outra, já faziam atividades de recolher, organizar e
registrar o cotidiano da escola, seja com fotos, com as
produções das crianças, cartazes e escritos reflexivos
dos professores entre outros2. Como afirmam os
professores da Xarxa (2009, p. 14)
"Documentar como aprendem as crianças é uma das
questões fundamentais da escola ativa, da escola que
valoriza, respeita e confia na criança da qual
desconhecem os limites do seu potencial"
Assim, apesar da formação acadêmica inicial
dos/as professores/as não haver propiciado o estudo
em profundidade da Documentação Pedagógica essas
professoras acreditaram que a formação continuada,
em Rede, podería dar conta desta lacuna e
convidaram interlocutores/as, com maior experiência,
para dar o passo inicial ao processo formativo com
palestras e debates. As atividades prosseguiram com
encontros, discussões, acompanhamentos das
documentações dos/as colegas, análises dos materiais
produzidos pois a documentação é um ato criativo
que exige múltiplos olhares e múltiplas interpretações.
2 No Jardim Caetano de Campos, a Prof. Alice já fazia nas décadas
de 1920 um certo exercício de documentação pedagógica. Vale a
pena conferir: http://www.labrimp.fe.usp.br/Arquivos/Galeria/
Arquivos/14/20.pdf
12
O livro que vocês têm em mãos faz parte dessa
história de formação de professores, ele está dividido em
duas partes. A primeira delas, Parte I, é chamada de
Documentar a vida das crianças na escola da infância (2008) e
mostra o início do processo formativo do grupo de
professores/as da Associação. A segunda parte,
denominada de Documentar: aguçar os olhos para captar
momentos (2009) é formada a partir de conferências
ministradas na Escola de Verão da Associação de
Professores Rosa Sensat para um grupo ampliado de
professores/as.
Na primeira parte do livro, vamos encontrar dois
textos de importantes colaboradores de Loris
Malaguzzi em Reggio Emília, Mara Davoli e Mariano
Dolci, que foram convidados pelos/as professores/as
do grupo de estudos para desencadear seus estudos
sobre a Documentação Pedagógica. Juntamente com
estes textos inaugurais, estão publicados artigos de
dois professores da rede pública catalã que escrevem a
partir da sua experiência de uso da documentação. A
escuta destes/as autores/as em suas conferências, os
debates que deram andamento as reflexões realizadas
a partir do evento, a transcrição e produção do livro,
levaram à promoção momentos de estudos e de
práticas compartilhadas por 30 profissionais da Xarxa
Territorial de Educado Infantil a Catalunya (Rede de
Educação Infantil da Catalunha)3.
3 O processo formativo e o trabalho com as crianças estão descritos
num livro denominado Documentar, um novo olhar (2009), que
não foi traduzido para o português, até o presente momento.
13
No prólogo do livro Documentar a vida das crianças
na escola vamos encontrar uma bela justificativa para a
formação continuada de professores e professoras em
Rede, formado pelas três conferências, temos o
seguinte prólogo.
Em suas mãos, você tem um livro que foi preparado no
movimento da Rede Territorial de Educação Infantil da
Catalunha. A Rede é uma fantástica aventura pedagógica
que começou no ano de 2004 e da qual a coleção "Temas de
Infância" editou um primeiro trabalho com o título "A
educação de 0 a 6 anos hoje", em 2009. Agora, publica-se o
segundo trabalho da Rede, que consiste em dois volumes
sobre o tema Documentar a vida de meninos e meninas na
escola d e 0 a 3 e d e 0 a 6 anos. Este é o primeiro volume,
inseparável de um segundo que se editará dentro da mesma
coleção, e que apresenta o trabalho realizado pelos
professores e pelas professoras durante dois períodos, com
foco na documentação de crianças ou nas grandes
descobertas que ocorrem diariamente na escola.
O fato de documentar o que faz uma menina ou um
menino, ou um grupo de meninos e meninas, não é nada
novo. São muitos os professores e professoras que há
décadas elaboram documentos a fim de lembrar, para poder
mostrar, para poder informar e para fazer uma reunião
entre companheiros e companheiras ou com as famílias ...
No início dos trabalhos da Rede, nos primeiros materiais
compartilhados, podia-se observar que predominavam dois
tipos de documentação: as cadernetas diárias sobre os
meninos e as meninas e as imagens de festa ou fatos
extraordinários.
O fato de poder compartilhar essa documentação já foi
positivo. Das imagens não havia nada a dizer, falavam por
14
si mesmas e se denunciavam por si mesmas, pela
homogeneidade da mensagem e conteúdo pedagógico
pobre: quase sempre mostravam grandes grupos de
meninos e meninas, quietos, olhando para a câmera ...
imagens que reproduziam festas tradicionais, como
carnaval e o dia do livro, imagens de situações em que
apenas os adultos pareciam se divertir.
As cadernetas, diversas, e de ampla tradição
especialmente na escola de 0 a 3, foram discutidas a partir
de duas vertentes: podem ser consideradas documentação?
E se considerarmos que sim, qualquer tipo de caderneta é
documentação? O debate permanece aberto, e é possível
que seja um aspecto da documentação que se tenha que
recuperar, tanto para refletir sobre ele como para poder
responder às questões suscitadas.
São estas duas - cadernetas e imagens - as únicas
maneiras de documentar, ou há outras? Durante os
períodos de tempo entre reuniões gerais da Rede, e com o
trabalho em grupo pequeno e a reflexão de cada um sobre
sua tarefa diária com meninos e meninas, pouco a pouco
foram aparecendo dúvidas, incertezas e novos interesses
para continuar trabalhando e para continuar a levantar
questões.
Em uma sessão de trabalho em grande grupo da Rede,
colocaram-se duas novas questões que fazem avançar o
debate: Por que se deseja documentar? Como se documentao que se quer documentar?
Como tantas outras vezes, mais que uma resposta às
perguntas, o que se pretendia era encontrar uma maneira de
enfrentar a situação - de certo modo inquietante - a que
havia conduzido o fato de levantar questões que, alguns
mais outros menos, pensávamos conhecer, saber e dominar.
E como tantas outras vezes, também passamos de um
extremo a outro e concordamos em captar pequenos
15
detalhes e fazer pequenas sequências. Os resultados não
foram sempre os esperados: tínhamos registrado centenas
de pés, mãos, olhos ... que mostravam uma grande
diversidade de gestos e olhares, mas raramente
compunham uma sequência. Desta vez, longe de
desanimar, se introduz na Rede uma nova dinâmica: a de
voltar a expor o que se queria explicar e começar a entender
a dimensão pública da documentação, de sua narrativa.
O mais relevante naquele momento do trabalho da Rede
foi a mudança de atitude, o novo olhar do dia a dia na
escola que permitia descobrir o extraordinário no cotidiano,
porque cada dia é uma festa, e um menino ou uma menina
descobrem alguma coisa.
Sem que estivéssemos plenamente conscientes, a
mudança já estava acontecendo, pois, esse olhar, essa escuta
do que é importante no dia a dia, é algo que contagia.
Muitas vezes nos perguntamos o que aconteceu. E tão
poderoso o fato de documentar? Sim e não, porque o fato de
documentar, além de observar para ver e ouvir aos meninos
e às meninas, envolve também uma outra maneira de
trabalhar entre os adultos. Requer uma decisão coletiva: não
é possível documentar sozinho, porque sobre o
documentado é necessário um diálogo, é necessário que o
outro ou a outra possam compreender, é necessário estar
disposto a despir-se e a aceitar a crítica. Por isso, na
documentação, vemos uma disposição ética do trabalho do
professor e da professora.
Entra-se no fundamental para poder aprender, por
curiosidade, por interesse, para se tomar consciência do que
se sabe e, portanto, com a vontade de saber mais. E neste
ponto que entram em ação as quatro conferências que
compõem este livro. Os pontos de vista dos dois professores
e duas professoras experientes na questão da
documentação.____________________________________
16
Dois são jovens, como a maior parte da Rede, mas sobre
a questão da documentação têm mais experiência do que
muitos dos mais velhos. Dois berçaristas que há tempo
experimentam formas de como e o que documentar para
explicar e explicar-se e conhecer o que fazem os meninos e
as meninas. Duas formas de pensar a documentação, e de
explica-la, que ajudaram a tomá-lo mais próxima, a
entender que todo professor e toda professora que o deseje
pode fazê-lo, porque seu contexto de trabalho é o mesmo
que o nosso.
A partir da Rede também pudemos ouvir e trabalhar
com um professor e uma professora de Reggio Emilia, com
uma longa trajetória profissional, que contribuíram com o
seu trabalho para fazer das escolas infantis municipais na
sua cidade uma referência pedagógica mundial. Um
trabalho feito com uma pedagogia rigorosa, criativa e
comprometida, e, portanto, muito exigente com o trabalho
dos professores e das professoras, para mostrar ao mundo a
imagem de uma infância potente desde seu nascimento e
capaz de expressar-se por múltiplas linguagens.
A documentação tem sido sua ferramenta fundamental
para dar a conhecer meninos e meninas, assim como um
elemento chave para construir sua pedagogia. Portanto,
poder escutá-los e refletir sobre suas contribuições tem
permitido compreender as dimensões, a complexidade e a
necessidade dessa forma de trabalhar na qual a
documentação é uma peça-chave e exige uma ética coletiva,
que também é necessário aprender.
Por isso, temos que colocar este livro, que por si mesmo
já é importante, no contexto do trabalho da rede, porque,
assim, adquire uma outra dimensão: a do compromisso
político e ético das centenas de professores e professoras
que contribuem de forma anônima para a melhoria da
educação infantil na Catalunha._______________________
17
Pode-se dizer que, para muitos professores e professoras
que trabalham na Rede Territorial de Educação Infantil da
Catalunha, estes têm sido anos particularmente difíceis. As
políticas educacionais para as crianças pequenas têm sido
adversas tanto para os meninos e meninas de 0 a 3 anos
como para os de 3 a 6 anos. Durante esse período, criaram-
se mais escolas infantis do que nunca e também foram
abertos mais "arremedos" de escolas infantis do que nunca,
tanto umas como outras com condições indignas para
meninos e meninas, famílias e profissionais. O 3 a 6 se
tomou secundário no que se refere a horários e presença de
especialistas, com horas "letivas" e "não letivas" e com os
tempos e as atividades importantes cobertos cada vez mais
por profissionais malformados, ou não formados
pedagogicamente, e mal pagos.
Essa realidade adversa não conseguiu reduzir o
entusiasmo por trabalhar em conjunto com os
companheiros e as companheiras da escola, da cidade ou da
região, muitas vezes em horários exaustivos, para poder
compartilhar o trabalho sobre a documentação, e assim
continuar a compartilhar e a discutir o que se faz, nas
assembléias gerais aos sábados pela manhã. Longe de
diminuir, o entusiasmo cresce e cresce, e com ele, a
delicadeza no trabalhar com meninos e meninas, que é, na
verdade, o propósito real e a força verdadeira da Rede.
Portanto, o livro que você tem em mãos é muito mais
que um livro: é uma maneira de entender o trabalho do
professor, de um professor ou uma professora que se sabe
sempre aprendendo com e dos meninos e meninas, e com e
dos companheiros e companheiras.
18
III.
Na segunda parte do livro, denominada
Documentar: aguçar os olhos para captar momentos, estão
reunidas três conferências de educadoras italianas.
Todas elas são, ou foram, professoras, gestoras e/ou
pesquisadoras da infância e da pedagogia: Anna Lia
Galardini e Sonia Iozzelli, da cidade de Pistoia, Mara
Davoli, de Reggio Emilia, e Gloria Tognetti, de San
Miniatto. Cada uma delas trabalha em um município
diferente e em seus textos compartilham a sua
experiência com os professores e professoras que
querem conhecer e compreender a Documentação
Pedagógica. A apresentação original do livro explica a
sua trajetória de elaboração.
Julho é um mês especial para os professores e
professoras que tem a vontade de melhorar a sua prática, o
seu trabalho de todo o dia com as crianças, os companheiros
e as famílias. Começa a ser tradição que, em plena Escola de
Verão (Escola d'Estiu), durante um período da semana, os
mestres de Educação Infantil se encontrem para
compartilhar projetos, para imaginar novas possibilidades,
para sonhar juntos contextos melhores para a infância. A
jornada de 2009 vai ser um convite para aguçar os olhos
para captar momentos da vida quotidiana, que estão
reunidos no livro que você tem nas mãos.
As melhores épocas da nossa pedagogia contam com
uma importante inspiração na realidade italiana, desde a
influência de Montessori até as irmãs Agazzi, passando pela
experiência de Barbiana e pelo impacto da pedagogia de
Reggio Emilia, com Malaguzzi e todos os seus
companheiros e colaboradores, que dialogaram com a nossa
19
realidade sempre disposta a aprender com aquela tradição
educativa.
Portanto, era lógico que para aprofundar sobre a
documentação pedagógica, temática de estudo dos últimos
anos entre nós, as experiências educativas de três cidades
italianas, que têm verdadeiros laboratórios de pedagogia,
preenchessem o encontro de conteúdo; da mítica Reggio à
rica e constante Pistoia, passando pela pequena e delicada
San Miniato. Três mulheres com uma longa trajetória de
construção de teorias sobre a educação de crianças
pequenas mostram, de maneiraharmônica, sua sólida
experiência, e, com ela, novos desafios em uma dialética
contínua entre teoria e prática.
Os textos publicados nesse livro são como uma faísca
que nos convida a seguir trabalhando cada vez com mais
certeza de que, em educação, as grandes coisas não são as
coisas grandes, as excepcionais, as extraordinárias; as
grandes coisas são as pequenas coisas e os pequenos
detalhes de cada dia, uma faísca que pode trazer luz e foco,
e que, com uma outra pedagogia, pode afastar o cinzento
do dia a dia.
IV.
Temos, portanto, neste livro, uma polifonia de
vozes que não apenas são investigativas em seus
modos de compreender as crianças, a pedagogia e a
escola, como também são muito propositivas. Este é
um livro com caráter de iniciação a um mundo da
pedagogia que muito nos orgulha, pois trata, com
muito respeito, da escolha profissional que fizemos e
nos convida a seguir trabalhando, investigando nossa
atividade profissional, uma profissão ainda nova e
pouco valorizada no mundo da educação.
20
O texto fala de uma pedagogia do dia a dia, que se
constrói a partir das ações e das práticas cotidianas4,
do seu registro, da análise e da reflexão que se faz a
partir deste cotidiano que transborda vitalidade,
alegria e memória. Uma outra pedagogia, uma
pedagogia que cria vida, onde teoria e prática não se
separam, assim como o saber e a experiência, o pensar
e o fazer, o viver e o narrar. Esperamos que gostem
tanto dele quanto nós e que suas indicações possam
contribuir para a constituição de pedagogias
democráticas, participativas e contextualizadas.
Além disto, cremos que o livro também toca em
duas importantes temáticas educativas, uma delas é
da formação continuada dos professores e professoras.
E certo que na formação inicial de professores/as
sempre ficam lacunas, aprender junto aos colegas,
organizar grupos de estudos, fazer pesquisa na escola
é o modo mais adequado de construir novas
pedagogias. As universidades, centros de pesquisa,
secretarias de educação são pontos de apoio, mas sem
professores/as desejosos/as de aprender, de investigar,
de criar novas abordagens educativas não há como
transformar hábitos de pensamento e ação, tão
arraigados na escola, que incidem na exclusão das
crianças (dentro ou fora da escola) ou na sua
medicalização e na transformação da docência numa
profissão da repetição, da cópia, do fazer sempre o
mesmo e não da invenção e da criação.
4 Ver: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/relat_seb_praticas.
cotidianas.pdf
21
E a segunda questão é a da abordagem da
didática. O século vinte construiu uma didática
sequencial, linear, onde cada um dos elementos tem
seu lugar na estrutura da organização do trabalho
pedagógico. Começamos qualquer trabalho
pedagógico com o planejamento estabelecendo
objetivos, definindo os conteúdos, estratégias,
avaliando o produto final, na década de 70, foi
introduzido o feedback para mostrar certo movimento
de retorno. Retomamos para começar na mesma
ordem. Há uma sequência e independência entre os
elementos que compõe a didática assim como o poder
do planejamento e da decisão está centrada,
especificamente, no/a docente.
A documentação pedagógica cumpre o papel de
uma outra forma de organização do trabalho
pedagógico. Menos formal, não linear, mais interativa.
A Documentação Pedagógica não é apenas uma
"novidade" na pedagogia. Ela pode ser incluída no
longo percurso histórico das pedagogias progressistas
constituindo uma ruptura no modo como se realiza a
didática hegemônica. A documentação pedagógica é
um processo que inclui:
• Vários atores e não apenas o/a professor/a no
processo de reflexão, planejamento e decisão
sobre os rumos educativo, portanto incita a
mudança em algumas regras relativas aos lugares
do poder ao propor o diálogo com as famílias e a
comunidade;
22
• Inclui a permanente escuta, observação, registro e
compartilhamento do acontecido exigindo,
permanente, a reflexão participativa;
• O valor dado aos processos é tão grande quanto
aquele destinado ao produto final. Se é que o
produto final será, efetivamente, avaliado como
tal;
• O processo a ser realizado é continuamente
planejado, executado e replanejado de acordo
com sua significância. As trajetórias podem
mudar e a singularidade de cada um tem lugar
num processo coletivo;
• O sentido das ações realizadas na escola é
fundamental; todas as aprendizagens precisam
ser contextualizadas e significativas;
• Há um compromisso social, histórico e singular
com a seleção do trabalho pedagógico, o tempo
das crianças e dos/as professores/as tem muito
valor.
• Os processos pedagógicos formam as crianças
como sujeitos e estudantes bem como os
professores e as professoras como sujeitos e
profissionais;
• A experiência educacional constrói história
pessoal e social, memória e possibilita a escolha
de percursos de vida individual e em comum.
Constituir no campo da didática uma virada, que
desloque o eixo por onde se constitui toda a
pedagogia escolar parece ser um grande desafio para
o qual nos aponta a Documentação Pedagógica. Um
convite. Um convite para repensar aprendizagem,
23
pratica docente, função social da escola e muitos
outros temas que fazem parte de nosso dia a dia
educacional.
Referências
ADORNO, Theodor. Educação e Emancipação. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2010
HOYELOS, Alfredo. Loris Malaguzzi: biografia
pedagógica. Edizioni Junior, 2004
XARXA TERRITORIAL D'EDUCACIÓ INFANTIL A
CATALUNYA. Documentar, uma mirada nova.
Barcelona. Coleçio Temes dTnfància, n.60, 2009.
2 4
PARTE I
Documentar a vida das crianças na
escola da infância
Documentar processos, recolher sinais
Mara Davoli
As professoras são como exploradores que utilizam
compassos e mapas. E, como os navegadores, sabem
onde está a meta (os objetivos, o currículo). Sabem
quais são as metas, mas sabem também que as metas
mudam a cada ano porque o terreno, o clima, as
estações, as meninas e os meninos são diferentes. Os
destinos, os objetivos, são importantes e não podemos
perdê-los de vista, mas o mais importante é saber como
e por que atingir esses objetivos. É importante para as
crianças e adultos voltar a percorrer seus próprios
passos, seus processos de conhecimento por meio de
uma atitude que é possível graças à observação, à
documentação e à interpretação (Loris Malaguzzi).
Nas escolas infantis d e 0 a 3 e d e 3 a 6 anos de
Reggio, a documentação é tanto argumentação como
narração e explicação de processos, situações e
experiências. Observar, documentar e interpretar têm
nos ajudado a repensar a didática: uma didática
compartilhada e da qual participam os adultos e as
crianças ao mesmo tempo. Porque a documentação,
independentemente do meio utilizado, acontece
durante o processo e não no fim da experiência. Esse
processo de deixar e recolher rastros reúne, em
2 7
primeiro lugar, os adultos, mas também os pequenos.
Obviamente, de formas diferentes, mas todas elas com
rastros e instrumentos que nos ajudam a percorrer de
novo a experiência vivida. Não são apenas memória
de algo que já aconteceu, são também processos que
nos permitem compreender como fizemos o que
fizemos.
Observar, interpretar, documentar, construir
O bserv ar é um ato de conhecim ento
"Observar" significa acima de tudo "conhecer".
Mas não se trata de um conhecimento abstrato, trata-
se de uma emoção do conhecimento que contém toda
a nossa subjetividade, expectativas, aquilo que
esperamos que aconteça, nossas hipóteses e nossas
teorias de referência, nas quais nós também estamos
refletidos. Toda observação que fazemos, precisamos
estar cientes, não é a verdade do que aconteceu: toda
observação é parcial porque o que sabemos ver,
capturar,fotografar, etc. depende do nosso ponto de
vista subjetivo, do que nós esperamos dos meninos e
das meninas, de se esperamos muito ou pouco.
Depende também das perguntas que nos fazemos
frente a cada situação. Quando nos dispomos a fazer
algo, não vamos "despidos", mas temos algumas
perguntas que nos levam a refletir sobre nossos
imaginários. Questões que não são uma jaula, mas um
terreno fértil que nos ajuda a captar o inesperado.
28
Tal como acontece na investigação científica,
quanto mais hipóteses tenhamos sobre una
determinada situação, mais capacitados estaremos
para compreendê-la. Quantas vezes, em determinadas
experiências científicas, chegou-se a resultados
distintos dos previstos. Portanto, «observar» é um
verbo ativo, um ato criativo que requer nossa
interpretação. Por este motivo, observar implica
repensar, pensar sem pré-conceitos.
D o cum en tar p ara narrar, descrever, in terp reta r e
con stru ir
Quando documentamos uma experiência,
recolhemos um grande volume de materiais, notas,
fotografias, gravações ... "quilos" de material. O que
fazemos com tudo isso? O risco maior é que esses
documentos permaneçam silenciosos devido a sua
grande quantidade. Quando finalmente temos
compilado todo o material, devemos dedicar tempo
para interligá-los (linguagem oral, as fotografias, as
produções das crianças...). Em seguida, temos que
buscar interpretá-los, relacionar a teoria com a prática,
construir conhecimentos novos, etc. Sobre o que
interpretamos, podemos ir além e tentar um avanço
teórico, fazer uma descoberta, por exemplo, sobre a
aprendizagem e o desenvolvimento da linguagem
falada, ou da linguagem escrita, que se refira tanto a
um grupo específico de crianças, como à teoria da
aprendizagem e à construção do conhecimento.
29
Quanto aos projetos, por exemplo, muitas vezes se
pode explicar como histórias dentro da própria
narração da experiência. Esta narração contém
significados teóricos tais como a forma como
planejamos, como foi a relação com os pequenos, etc.;
mas também poderiamos tomar esses mesmos
materiais, juntamente com o material de base, ou seja,
o material que serviu de base para essas narrações
(gravações, fotografias ...) para estudá-los e
aprofundar além da experiência concreta. Por
exemplo, qual é hoje o conceito de transformação e
variação para os meninos e meninas de cinco anos?
Conseguem conceituar? Como o fazem? Que
significados dão à palavra "transformar"? Havia uma
frase de uma criança que expressava claramente o que
ela entendia por "transformar". Para ela, "transformar"
era "não fazer totalmente diferente, mas manter um
pouco de igual e sobre aquele igual por um pouco de
diferente". Isso é uma teoria, um pensamento
concreto. Mas, como professora, posso estar
interessada em ver como conceitos como
transformação e variação são vividos por crianças em
diferentes contextos e com linguagens diversas. Posso
pensar em atividades nas quais a variação (por
exemplo, da linguagem musical, da cor, da palavra ...)
seja a base para construir a experiência. Música,
palavra e cor são diferentes, mas o conceito de
variação pode dar forma a atividades semelhantes
com linguagens diferentes. O que eu quero dizer
resumidamente, é: que tipo de processo ativa em
crianças e adultos esta forma de trabalhar? Que tipo
30
de processo ativa processos que podem ajudar a lidar
com situações desconhecidas? Pois, se eu experimentei
a variação com a cor, por exemplo, o que eu aprendi
me ajuda a entender a variação na linguagem musical.
Esta forma de trabalhar com meninos e meninas deve
nos ajudar a construir com eles uma maneira de
pensar que os ajude a aprender a aprender: não se
trata de enfatizar os conceitos, mas os processos de
aprendizagem. Os nossos meninos e meninas vivem
em um mundo em que as mudanças da sociedade, da
cultura e da tecnologia estão ficando mais rápidas.
Portanto, devemos ter uma mente flexível para nos
ajudar a aprender a aprender coisas novas.
Observação, documentação e interpretação
constituem três partes inseparáveis de um mesmo
processo. Os documentos que produzimos nos ajudam
a continuar a aprender todos os dias a nossa profissão,
porque todos a cada dia temos que reaprender. Servir-
nos da observação, da documentação e da
interpretação nos ajuda, e chega mesmo a ser
indispensável. Esses documentos que procuramos
produzir convertem-se em documentos úteis tanto
para valorar as experiências como para nos
autovalorar. Também são instrumentos que nos dão
apoio no processo de nos tomarmos profissionais
individuais e de grupo. Outra coisa fundamental que
diz respeito às crianças e aos adultos sem distinção é
viver, fazer, experimentar - que, apesar de ser
importante, não é suficiente. O ativismo é um risco
que corremos com as crianças (fazer muitas
produções, fazer muitas coisas ...). Fazer é importante,
31
mas não suficiente. Devemos permitir aos meninos e
às meninas, e a nós mesmos, tempo para refletir sobre
o que se faz e como se faz. São os processos de
metalinguagem e metaconhecimento que nos
permitem construir conhecimento. Quanto mais
situações são criadas para refletir em grupo, mais rico
será esse processo, pois mais pontos de vista se
manifestam. Em um grupo há sempre que ter alguém
que questiona o que a maioria opina ou que leva todo
o grupo a pensar o porquê das coisas.
Decisões prévias ao processo de documentação
O que, como e para que documentar?
Para documentar, a primeira coisa que, em minha
opinião, devemos perguntar é: Que tipo de
documentação queremos? Por que? E para quem?
Estas são questões que temos que nos fazer antes de
começar, pois o que decidimos observar está ligado à
utilidade que queremos extrair de uma documentação
concreta e também ao como o faremos (qual será o
instrumento ou instrumentos mais adequados).
A outra coisa de que temos de nos convencer
rapidamente é que temos de ser capazes de escolher.
Escolher é muito difícil, porque, trabalhando com
crianças pequenas, tudo nos parece igualmente
importante, e é; no entanto, se queremos avançar em
nossos pensamentos e em nossa maneira de ensinar,
temos que "de limitar", destacar algumas coisas.
32
Escolher não significa perder de vista o contexto, mas
focar algumas coisas específicas.
Uma vez concentrada nossa atenção, tendo
escolhido o que nos interessa, devemos decidir como
documentaremos o que vai acontecendo. Desde como
abordar o aspecto principal até que ferramentas e
suportes usaremos para documentá-lo. Por exemplo,
algumas vezes é mais útil usar papel e lápis; outras,
um gravador (a linguagem verbal é muito importante)
e, muitas vezes, a câmera digital é de grande utilidade
para reter imagens de um processo. No entanto, é
preciso lembrar que a facilidade de uso dos novos
meios implica no risco de utilizarmos apenas esses
sistemas. Por outro lado, fotografar também é
interpretar e escolher e, para isso, devemos estar
cientes de que o que registramos não é a verdadeira
realidade, ou, pelo menos, não toda a realidade.
Que instrumentos?
No que diz respeito à forma dos instrumentos
para observar e registrar, não há um melhor do que o
resto. O que é claro é que deve ser útil. Por exemplo,
como tenho facilidade de fazer esboços, o que eu
registrava em um grupo de crianças eram alguns
passos fundamentais, de acordo com minha
experiência, que as crianças seguiam para fazer uma
determinada produção, as trocas de conhecimento que
se produziam entre elas. Para dar um exemplo:
geralmente, na Escola, a cópia é malvista, mas quando,
digamos, estou fazendo uma figura e não consigo que
33
esta fique como eu gostaria e vejo que meu amigo
encontrou uma solução para isso, se eu estiver
preparada para captar o processo, posso aplicar a
cópiaà minha situação. E o que Vygotsky chama
"zona de desenvolvimento próximo". No entanto, se
eu não estou preparada, nem sequer vejo a solução ou
sou capaz de usá-la. Esta forma de observar e registrar
o processo de cada criança nos permite ver essas
coisas e estar perto de cada uma delas. Assim, ao final
de cada atividade, eu tenho vinte e seis produções
diferentes, e sei como cada um dos meninos e das
meninas conseguiu dar forma a seus pensamentos
com as mãos. Estas compilações individuais não ficam
apenas nas histórias pessoais de cada criança, mas se
tomam um patrimônio coletivo, são como blocos que
constroem a experiência conjunta da escola.
Refletir sobre como foram feitas algumas coisas é
necessário tanto para os meninos e meninas como
para os adultos. Dessa forma, podemos aprender com
eles para fazer o nosso trabalho, e eles aprendem a
aprender conosco.
Outra questão é decidir que tipo de instrumentos
escolhemos para documentar cada situação com um
grupo concreto de meninos e meninas em nossa
escola: a cotidianidade, a subjetividade, os projetos ...
pois, será o conjunto de instrumentos de
documentação que dará uma perspectiva do conjunto
de toda a experiência de meninos e meninas na escola;
não devemos tentar coloca-la toda em um só
instrumento.
34
Que recursos?
Em relação aos suportes da documentação, as
paredes das escolas de educação infantil declaram
quem são õs protagonistas da experiência. Nossa
tarefa se realiza tanto por meio de episódios simples
como por projetos que se estendem ao longo do
tempo. Assim, temos as folhas onde registramos as
observações subjetivas relativas a cada criança e que
comporão depois seus dossiês individuais, as
transcrições, a documentação da parede ou as
documentações projetadas em páginas que se
sucedem como em um livro; isto é, o material bruto.
Nestas últimas, cada página recebe, como se fosse o
capítulo de um livro, um título que funciona como
síntese ou resumo do que encontramos nas linhas que
se seguem.
No entanto, para funcionar bem, são necessários
espaços onde se possa reunir, onde ter os
instrumentos e onde, de vez em quando, se possa
fechar a porta e escrever, pensar sozinho ou com
companheiros onde ter os arquivos de fotos, de
material digital e em papel.
Os suportes (murais, expositores, prateleiras,
dossiês ...) existentes na escola também são
importantes. Às vezes, os grandes painéis de madeira
da escola se transformam em lousas em que, à medida
que o projeto ou a experiência cresce, vamos anotando
os fatos que vão acontecendo. Isso nos ajuda a tomar
visível esta primeira síntese, envolvendo também
35
crianças e famílias que vão enriquecendo a experiência
ao longo do processo.
No entanto, nossa vida com os meninos e meninas
não é feita apenas de projetos longos, mas também de
cotidianidade. Uma cotidianidade rica, feita de
situações de grande potencial educativo. De toda essa
riqueza da vida cotidiana, o que conseguimos ver da
rede complexa de relações e de coisas que acontecem?
O que podería nos ajudar a vê-la melhor? E cada
experiência requer uma maneira diferente de ser
tratada, coletada e documentada.
A documentação, instrumento de estudo e de
comunicação
Outro aspecto da documentação é a comunicação.
Uma pergunta fundamental que deve ser feita antes
de decidir o instrumento que usaremos, ou o suporte
mais adequado capaz de captar o processo, é: a quem
eu quero comunicar? Suponhamos que o assunto
escolhido seja o momento da refeição e como o
vivemos. Quero mostrar às famílias, porque interessa
falar sobre como se come em casa e como se come na
comunidade. Se este for o objetivo, o que opto por
observar implica um determinado meio. Se, por outro
lado, se trata de um pequeno grupo de trabalho
formado por professores, será útil um vídeo de estudo
que pode ser gravado em tempo real durante a
duração da experiência de alimentação. No entanto,
mesmo com uma gravação, se não se esclarece
anteriormente o que se quer ver, em que se está
36
interessado, o debate será limitado e disperso. Se
queremos que um vídeo seja útil para fazer uma
análise e interpretação de um momento específico
dentro do grupo -nesse caso, o momento da comida -,
temos que decidir com antecedência que aspectos
queremos investigar.
Devemos considerar que o vídeo é uma
linguagem que tem que falar de forma autônoma
como um filme ou um anúncio e que, portanto, sua
montagem se toma um tipo de escrita que dá sentido
ao que vemos. Ainda que ninguém de nós seja técnico
no assunto, somos especialistas em crianças e não em
vídeos, temos de estar cientes de que o tempo de
duração de um vídeo é parte importante desta
linguagem.
Dito isto, voltemos ao exemplo da hora da
refeição. A comida é uma rotina, comemos todos os
dias. A própria decisão de querer entender mais
plenamente o significado de um momento rotineiro é
importante porque permite sair da "jaula" das
atividades repetitivas de todos os dias. Decidir que
queremos documentar a hora da refeição quer dizer
tudo e não diz nada. Esse momento não é uma linha
reta e horizontal, mas é composto de muitas coisas que
acontecem simultaneamente e se as narramos todas
iguais, as mantemos todas no mesmo plano. Aqui
haveria uma primeira eleição, e é difícil escolher;
também a respeito do que se quer dizer. Na verdade,
eu me lembro que meus colegas mais jovens me
diziam: "Como tudo é igualmente importante, quase
não consigo ver nada".
3 7
Uma vez definido o contexto amplo do estudo,
possivelmente por meio da discussão em grupo,
podemos escolher um aspecto significativo ou um
momento concreto sobre o qual queiramos nos
aprofundar, sem perder de vista o contexto.
A comunicação com as famílias é um dos aspectos
da documentação que vai além dos projetos e da
cotidianidade. Se dedicarmos todo o tempo para gerir
essa comunicação com foco na elaboração de alguns
instrumentos (cadernetas diárias, álbuns ...), nos
faltará tempo para aprofundar nos significados e
aprender a fazer melhor o nosso trabalho. O problema
é pretender dar muitas coisas às famílias sem priorizar
a qualidade sobre a quantidade. Depois de um tempo,
as famílias preferirão menos materiais, mas melhor
organizados em lugar de muitos materiais desconexos.
Tanto as escolas de 0 a 3 como as de 3 a 6 têm,
como as pessoas, identidade própria. Por isso, a
entrada é o lugar que proclama a identidade de cada
escola e, portanto, é um espaço que deve dar
visibilidade a todas as pessoas que aí convivem, desde
os menores (por meio da síntese de algum projeto do
ano anterior) até a equipe da escola. Em minha escola,
um calendário mensal informa a todos o que se espera
fazer durante o mês, também há painéis e espaços
dedicados às famílias e à participação. É uma entrada
que procura refletir, por meio da documentação, os
traços globais do que é a escola.
Cada turma, por exemplo, tem sua própria
entrada, na qual se pendura a agenda diária, uma
documentação que é arquivada e que as professoras
38
fazem todos os dias. Trata-se, sem dúvida, de que
cada um aponte o como e o porquê dos instrumentos
que prioriza. Por exemplo, no que diz respeito à
agenda diária, para além da forma, que tipo de
estrutura podemos pensar para este instrumento tão
presente na vida cotidiana? Podemos pensar na
agenda diária como um instrumento que fazemos
sempre da mesma forma, independentemente da
idade dos pequenos? Todos os meninos e meninas tem
que aparecer todos os dias? Podemos pensar em fazer
a agenda na semana e ir todos os dias marcando um
acontecimento, uma história em que só aparecem
alguns dos pequenos? A agenda ou caderno de cada
grupo, além de ser um instrumento de comunicação
diária com famílias, também pode ser entendida como
uma forma de escrevera história de um grupo de
crianças ou como um instrumento de escrita diária do
processo vivido diária do processo vivido. Na minha
escola, a agenda ou diário do grupo se tomaram uma
espécie de fio condutor que perpassa o primeiro,
segundo e terceiro ano dos meninos e meninas. A
agenda fica na escola e as crianças levam para a casa
durante o ano, ora uma criança, ora outra. Assim,
podemos olhar para trás no tempo, para episódios
passados. Também é útil para as professoras
responsáveis por um grupo de meninos e meninas de
três anos reler o que suas companheiras professoras
fizeram no ano anterior com crianças da mesma idade.
Outra coisa interessante é manter um registro ou
notas das reuniões com as famílias com nossas
contribuições, e também com as contribuições das
39
famílias. Esse instrumento se utiliza também durante
os três anos em que os meninos e meninas estão na
escola.
Documentar para dar visibilidade aos processos
Em Reggio, não temos fichas de avaliação
subjetiva, mas temos muitos instrumentos de
documentação para fazer um retrato de cada criança,
mesmo que seja parcial e relativo, uma vez que o
retrato que podemos fazer sempre será relativo às
experiências da criança em um contexto humano e
material específico, neste caso, a escola.
E o que acontece com as produções dos meninos e
das meninas? Vão para casa sempre imediatamente?
Pode ser um material que nos ajude no processo de
reflexão? Que equilíbrio temos que construir entre os
instrumentos, dossiês e registros subjetivos e
individuais e os de grupo? De qualquer forma, cada
um sempre mantém, como pano de fundo, a presença
do grupo. Algumas produções vão para casa uma vez
por ano (às vezes são presentes para momentos
específicos) e outras são mantidas na escola durante os
três anos, sempre disponíveis nas prateleiras para
crianças e famílias. Meninos e meninas gostam muito
de ver o que faziam quando eram menores, o que,
além do prazer de se verem mais velhos, pode dar
origem à reflexão.
Por exemplo, eu me lembro que minhas
companheiras e eu, olhando alguns materiais
recolhidos, havíamos tentado fazer algumas perguntas
40
sobre as garatujas (como é que as crianças fazem
tantas garatujas? Por que apoiamos isso? O que a
criança tenta capturar com a garatuja?). Depois,
fizemos as mesmas perguntas aos maiores, de cinco
anos: Por que vocês passaram tanto tempo fazendo
garatujas aos três anos? Para que serviram? Querem
tentar fazer algumas garatujas agora e dizer como se
sentem?
Aqui estão algumas de suas respostas à questão
"O que são as garatujas":
• "E o primeiro desenho que você pode aprender"
• "A garatuja são as primeiras palavras do
desenho" (Quer dizer que se há palavras, há uma
história e um pensamento).
• "E um anel"
• "A primeira coisa é aprender a fazer círculos."
• "A garatuja é ar em círculo."
• "Dentro da garatuja pode acontecer erros, dentro
dos erros pode ter coisas bonitas "
• "Dentro das garatujas pode haver muitas
histórias."
Certamente, os meninos e meninas, tanto na
escola de 0 a 3 como na escola de 3 a 6, contam o
mundo inteiro dentro de um desenho. E realmente, o
mundo está nesses desenhos.
Em suma, não há uma única forma de
documentar, não há receitas. Para avançar, é
necessário que seja a própria pessoa que organize a
maneira de comunicar a própria experiência, é
necessário fazer uma síntese e declarar: "Isso é o que
eu entendí, coletei, interpretei e escolhi". Por isso, a
41
mesma situação, comunicada por quatro pessoas
diferentes, serão quatro experiências diferentes.
Sintetizar e comunicar nos ajuda a aprender o nosso
trabalho. Pessoalmente, tenho tido a sorte de ter ao
meu lado alguém tão "implacável", como Loris
Malaguzzi, que, quando lhe mostrávamos uma
documentação, dizia-nos que tendíamos a nos
embebedar de palavras e nos desafiava a buscar
respostas sobre os possíveis significados de cada coisa.
42
Afinando os olhos para captar momentos
Mariano Dolci
A importância da documentação é enorme porque
sem ela nenhum processo pedagógico se consolida.
Serve para a reflexão e para a construção pedagógicas
e, se bem feita, toma-se uma verdadeira "mina" de
recursos que, mesmo depois de cem anos, continua a
ser uma fonte de informação produtiva. É, como dizia,
uma "mina": não se sabe o que tem dentro, porque as
perguntas certas, nunca supérfluas, podem chegar
depois de anos e anos de investigação. De qualquer
modo, a documentação apresenta sempre novos
desafios. Quem se preocupa com documentar pode
cair na tentação de documentar tudo, mas é
impossível, e, por isso, não é útil. Isso me faz lembrar
de uma história de Borges sobre uns geógrafos da
China que estavam interessados em construir um
mapa em escala 1:1. É mais ou menos, o que disse
Bruner sobre a biografia "se dissesse tudo sobre uma
pessoa, levaria uma vida de oitenta anos para lê-la".
A escolha do foco: o que queremos documentar
E necessário fazer uma escolha. Aqui começam as
dificuldades. Mas também a discussão sobre o que
43
escolher faz parte da documentação e, como tal, deve
constar dela. A documentação serve em dois sentidos:
extemamente, serve para dar visibilidade ao trabalho
e identidade à escola e, intemamente, é útil aos
indivíduos e grupos a fim de estudar os processos
vividos. Portanto, começa-se com uma escolha que
lembra a decisão dos artistas "da realidade, o que
escolho para destacar e transmitir a mensagem?".
Além disso, para documentar é necessário um
método.
Penso que o importante e indispensável é que a
documentação seja feita pelos educadores. Muitos
pensam que para documentar é preciso confiar em
pessoas externas (fotógrafos, jornalistas ...), mas isso
não é possível.
É claro que devemos chamar especialistas quando
eles são úteis, mas apenas os educadores podem se
encarregar da documentação de experiências e
processos relacionados à educação de meninos e
meninas, pois é um material que tem que servir para
eles. O fotógrafo municipal de Reggio Emilia, que era
muito conhecido e tinha feito várias exposições, me
acompanhou em meu trabalho pois, em Reggio,
queriam fazer uma publicação sobre o meu trabalho.
Fui ver suas fotos e quase não tinha uma utilizável,
ainda que, do ponto de vista técnico, elas fossem
muito boas. Em troca, as das professoras eram
bastante ruins do ponto de vista técnico, mas tinham
conseguido captar o olhar das crianças e as relações
que havia entre elas. O fotógrafo não tinha olhos para
ver aquele tipo de coisas. Busque um fotógrafo
4 4
somente se tiver a certeza de que podemos dirigi-lo e
dar indicações relevantes e pertinentes para poder
trabalhar, especialmente se já estiver envolvido e tiver
entendido o verdadeiro problema, a situação e as
necessidades que essa atividade comporta.
Em primeiro lugar, como já dissemos, a
documentação é um aspecto fundamental do trabalho
do professor. Como disse Bruner, falando de uma
pessoa ou uma identidade: "não tem vida quem não a
explica." Se nós não explicitamos, se não narramos
nossas histórias, não nos fazemos conscientes do que
fizemos na vida. Da mesma forma, para um grupo,
para um coletivo, penso que acontece exatamente o
mesmo. Isto significa que uma das finalidades da
documentação é manter a memória do caminho
percorrido e do qual, frequentemente, nos
esquecemos. Isso nos dá uma ideia da nossa evolução.
Não percebemos nossas mudanças ao longo do tempo,
mas ver o que fazíamos cinco anos antes nos permite
perceber a direção que seguimos e, possivelmente, ter
uma ideia sobre onde chegaremos no futuro.
Outra coisa muito importante sobre a
documentação é que representa um relatório, ou, pelo
menos, um primeiro passo para um relatório porque
em relação aos princípios sagrados da pedagogiatodos nós, de um modo geral, concordamos, mas
quando se trata de discutir frente a um slide ou uma
série de fotos, as opiniões podem ser diferentes, e
quanto mais discussão se gera, melhor.
Por sua vez, a documentação também serve para
tomar visível a escola ao exterior, tanto aos pais como
4 5
aos professores, companheiros de outras escolas que
vem para partilhar as suas experiências. A
documentação oferece a oportunidade de falar sobre
algo concreto, por isso é um exercício muito útil para o
desenvolvimento de empatia (eu faço isso, mas o que
acontece na base disso que eu faço?"). Ouvir opiniões
dos demais sobre o que fazemos, é um ato necessário.
Quando se toma um costume, uma prática constante,
servirá também para ver as diferenças entre as pessoas
e para ver como uma determinada pessoa evolui de
forma diferente em relação aos problemas. Além
disso, nos permite ver que tanto opiniões como
evoluções são diferentes e enriquecem nosso processo.
Meta-conhecimento: saber o que se sabe
Se a documentação é bem feita e dela participam
os meninos e as meninas, aparecem elementos
importantes sobre a vida do pequenos que nos levam
a entrar no campo do meta-conhecimento, isto é, a ser
conscientes do que estão fazendo, de sua evolução, do
que tem feito nos últimos meses.
As crianças podem fazer desenhos maravilhosos,
mas os esquecem pouco depois. A documentação das
atividades permite melhorar a memória e continuar
com o projeto. Muitos amigos nossos de diferentes
partes do mundo, quando vinham a Reggio Emília,
ficavam maravilhados com a beleza de algumas
produções das crianças, especialmente algumas
coletivas e diziam "nós somos mais ricos que vocês e
damos às crianças mais materiais, como é que elas não
4 6
fazem coisas tão bonitas?". Então me lembrava como
em muitos lugares em Itália, se fazia as crianças
desenharem enquanto esperavam a hora de sair. Meia
hora antes de ir embora, entregavam-lhes a folha.
Quando a criança mostrava o desenho para sua mãe
na saída da escola, ela se limitava a dizer "Que bonito"
e, no dia seguinte, "Que lindo", com o que a
mensagem clara que a criança recebia era: "O que você
faz não me importa...como todas as coisas das
crianças". E quase como uma punição, como aos
adversários do Czar, que durante quinze dias eram
obrigados a cavar um buraco e por mais quinze dias se
dedicavam a enchê-lo de terra. Ou seja, faziam um
trabalho inútil e que lhes destruía a moral. Devemos
ter em mente que os pequenos têm "antenas" e, por
isso, na terceira vez em que ouvem "que bonito, que
lindo..." sem que se dê importância, sabem que a
aquilo não se dá valor algum.
Lembro-me de uma atividade sobre faisões que se
fez em uma escola em Reggio Emilia. Antes de
qualquer atividade, perguntaram às crianças o que
sabiam sobre faisões. Elas fizeram desenhos de uma
banalidade extraordinária: um círculo, patinhas, etc.
Eu não quero contar todo o processo aqui porque seria
muito longo, mas digo que durante quatro ou cinco
meses, elas trabalharam sobre faisões, observando até
mesmo como abriam os ovos numa fazenda,
queimando penas de perceber seu cheiro... O tema
tinha que manter o interesse dos meninos e meninas.
Quando, mais tarde, três ou quatro crianças de cinco
anos fizeram um enorme mural coletivo, de grande
4 7
beleza, nossos colegas pensaram que tinham recebido
ajuda: "aqui está a mão de um adulto", disseram.
Daí vem também o equívoco de que, em Reggio
Emilia, fazemos pequenos artistas, e não é assim. Se
aos mesmos meninos e meninas que haviam feito esta
coisa maravilhosa, pedíssemos para desenhar um
coelho, mais uma vez fariam um desenho pobre e
banal. Não é que eles tenham aprendido a desenhar,
eles aprenderam a expressar o que eles têm dentro; se
não tem nada dentro, não expressam nada. Trata-se de
expressar-se em termos de informações, mas
especialmente de emoções.... Se tiverem acumulado
muitas emoções sobre uma coisa em particular,
aparecerão produções muito ricas. No entanto, isso só
é possível se o interesse das crianças se mantém
durante um tempo, e se manifesta também na
documentação parcial sobre as atividades ("fomos
visitar uma granja", "vimos como os ovos se abriam",
etc.). Se meninos e meninas participam e conhecem
essas coisas, então eles sedimentam suas emoções,
memórias ... e fazem desenhos mais elaborados e
complexos. A documentação serve, portanto, à criança
e à professora.
Diferentes formas e tipos de documentação
Falta o aspecto técnico: como se documenta e que
técnica devemos utilizar?
E muito importante ter em conta o receptor dessa
documentação. Há pais que quase não vem à escola e
que passam distraidamente para buscar seu filho ou
4 8
filha. A documentação, nesse caso, deve basear-se em
imagens grandes, com poucos comentários escritos e
poucas considerações metodológicas. Pode ser útil,
além disso, fornecer um documento ou uma fotocópia
da atividade realizada.
Ou pode acontecer que atraia os pais e os faça
interessar-se. Nesse caso, evitaria também colocar
detalhes metodológicos de como se chegou a fazer a
atividade. Se, no entanto, a documentação deve servir
aos professores para manter a memória do que tem
sido feito, então os detalhes metodológicos são muito
importantes e convém acrescentar observações escritas
mais ou menos extensas. Sem esquecer que na
documentação também podem participar meninos e
meninas, mesmo os menores. Pode-se convidá-los a
fazer as coisas para que fique uma amostra.
A participação de meninas e meninos na
documentação tem que ser, em primeiro lugar,
organizada por educadores que coletam/recolhem os
desenhos e demais materiais. Depois se pode captar a
atenção da criança, a fim de retomar o fio da atividade
realizada e pedir para intervir perguntando-lhe sobre
o que fez ou pensou antes ou depois, isto é, mostrar
interesse sobre como foi procedendo em sua atividade.
E claro que, num primeiro momento, a professora
deve estar presente e que a criança não poderá de
separar dela imediatamente. Porém, temos de criar as
condições adequadas para que meninos e meninas
façam, descubram, manipulem à vontade enquanto
adultos se dedicam a sedimentar os resultados. Se
alguma coisa extraordinária que a criança faz não é
49
valorizada, se esquece. Quando meninos e meninas
espontaneamente fazem algo que, para nós, pode ser
um embrião de documentação, precisamos fazê-los
perceber isso e envolver os outros. E preciso dar valor
ao que fazem meninas e meninos.
A documentação pode ser útil para a criança. Se
ela percebe que o que faz, ou o que fez há, digamos,
um mês mudou um pouco e se lembra de forma
consciente, começa a entender que a documentação é
importante.
Naturalmente, perceber que a documentação é
importante, é, num primeiro momento, um processo
inconsciente na criança. Cabe aos educadores fazer
com que esse processo se tome consciente. Da mesma
forma, tem que ser assim nas demais atividades que
fazem na escola: não se trata de ensinar nossas
convenções, nossas regras; trata-se de tomar meninas
e meninos conscientes de suas próprias convenções.
Trata-se de saber descobrir e valorizar os progressos
que fazem dia a dia.
Vamos falar agora sobre os diferentes níveis de
documentação de acordo com a utilidade esperada:
costumo ouvir dizer que em Reggio separavam a
documentação denotativa da conotativa. Eu utilizaria
palavras mais simples. Penso que há três níveis de
documentação. O primeiro, a simples sequência
temporal do que aconteceu (os diferentes
acontecimentos de uma saída com os meninos e
meninas, por exemplo), o exemplo típico da
documentação que chamam "denotativa". Exemplo:
50
"Fizemos uma saída fora da escola". Com fotos do
início ao fim da excursão.
"Os meninos e meninas fizeramdesenhos". Um
desenho coletivo e muitos desenhos individuais.
"Fizemos um texto escrito contemplando as
declarações das crianças com as idéias expressas por
cada um". Um texto, uma recopilação de textos, etc.
Neste caso, o fio narrativo é cronológico e
funciona para as ações sucessivas ao longo do tempo.
É uma síntese, uma lista dos diferentes momentos
vividos. Por isso, é apenas preciso ter clara a sequência
programada das ações didáticas, ter uma câmera
fotográfica e reunir os materiais produzidos pelos
meninos e meninas. Esse tipo de documentação
descritiva, usado por muitos educadores, é adequado
para documentar um item, mas não para documentar
um processo, o que não significa em absoluto que seja
inútil, apenas não é suficiente para satisfazer outras
necessidades distintas.
O segundo nível é aquele em que as teorias,
hipóteses e pensamentos das crianças aparecem na
documentação de maneira implícita. Enquanto que o
primeiro nível um fotógrafo competente pode realizar,
este segundo nível só é acessível para os educadores.
Finalmente, o terceiro nível é aquele no qual não
apenas aparecem os pensamentos e teorias das
crianças, mas também as teorias e os pensamentos da
escola. Se a documentação estiver bem feita,
transmitirá implicitamente informações importantes,
tais como "por que fazemos essa atividade?", "que
sentido tem para nós?", "que conceito temos da
51
relação adulto-criança?", "como tentamos ser
coerentes com as nossas declarações?".
E claro que, quando anteriormente me referi ao
primeiro, segundo e terceiro nível, eu não os coloquei
em nível de importância, porque cada um desses
níveis pode ser útil em alguns campos e, acima de
tudo, porque eles podem juntar-se e complementar-se
a fim de ajudar a ter uma visão mais ampla dos
processos.
Será interessante dizer duas palavras sobre a
escolha do foco: o que pretendo documentar. Penso
que é muito útil fazer o que em Reggio é chamado de
"declaração de intenções" (Eu quero refletir sobre isso,
eu quero ter uma primeira ideia sobre aquilo...). Isso
não significa que, uma vez iniciada a atividade, não se
volte atrás, se necessário, por exemplo, quando a
direção adotada não é produtiva, ou simplesmente
para lembrar os passos que seguimos ou os erros e os
equívocos cometidos ... e também é positivo. Os
projetos devem gozar de certa elasticidade que nos
permita, inclusive, inverter sua direção se as crianças
impõem outra.
Na epistemologia valoriza-se um conceito original
denominado em inglês serendipity (serendipidade)
que se refere ao que se acaba encontrando em um
determinado processo de investigação, coisas com
extraordinário interesse que emergem e que, na
verdade, não são aquelas que estávamos procurando.
Quer dizer que, muitas vezes, a mesma investigação
nos leva a fazer descobertas inesperadas e
surpreendentes que não tem possivelmente nada a ver
52
com as nossas intenções originais. Eu penso que este é
um conceito importante para nós: buscamos certas
coisas, mas inevitavelmente encontramos outras que
não teríamos encontrado se não tivéssemos começado
a procurar.
Novamente refiro-me à "mina" de informação que
a documentação contém: trata-se de histórias pessoais.
Como a sedimentação da informação, pode servir
mesmo depois de anos.
Lembro-me que queríamos documentar a
primeira vez que uma marionete entrava em uma sala
da escola de 0 a 3: as câmeras fotográficas estavam
prontas, mas eu estava tão emocionado que eu fui
incapaz de puxar os fios e entrar em relação com as
crianças. Por sua vez, as professoras estavam muito
preocupadas com a possibilidade das crianças se
assustarem e das fotografias saírem mal. Ou seja, cada
um pensava em seu trabalho. Depois da experiência
compartilhamos as fotos feitas durante a sessão e
começamos a discutir o que as crianças pensavam.
Depois de alguns meses de atividade com marionetes
apareceu a pergunta correta: "Quando a marionete
entrou na sala, o que as crianças olharam?" Ninguém
se lembrava isso porque cada um havia estado tão
absorvido em seu trabalho e não havíamos prestado
atenção naquele momento.
No entanto, as imagens eram muito claras: os
olhos das crianças se separaram da marionete para
olhar primeiro o professor e, em seguida, a uma
criança mais velha, porque "se ela não tem medo,
significa que ninguém tem que ter medo..."
53
Tudo isso não teria surgido se não tivesse havido
uma boa documentação. Naquele tempo nós
desconhecíamos que podería servir também para isso,
durante a experiência nos foi possível percebê-lo. E é
assim que, como diz a ciência, não se trata de
encontrar respostas, mas sim de apresentar as
perguntas certas. Termino com uma outra história,
extraída de Jorge Luis Borges. Em O Aleph, a
recopilação de contos, Borges imagina que o grande
filósofo árabe-espanhol Averroes recebe a
incumbência de traduzir todo o trabalho de
Aristóteles para o árabe. Apesar de fazer o seu
trabalho muito bem, ele estava confuso frente a duas
palavras: "comédia" e "tragédia" porque na sociedade
em que vivia não existia teatro.
Até aqui a história é real: é verdade que traduziu
Aristóteles de maneira muito competente, mas
também é verdade que traduziu de maneira muito
confusa essas duas palavras, pois Averroes não tinha
ideia do que era o teatro, os atores ... De acordo com
Borges, cansado pelo esforço e preocupado porque
não entendia esses termos, Averroes se aproximou da
janela e viu umas crianças que brincavam e diziam:
"Eu subo em cima de você e brincamos de minaretel e
muezim2". Outra criança se põe na frente da primeira
e diz: "Eu serei o fiel que reza". Averroes fechou a
janela e passou a trabalhar novamente, sem ter visto
1 Nas mesquitas, torre alta e esbelta de onde o muezim convoca os
muçulmanos às 5 orações diárias [nota da tradutora]
2 Aquele que do alto do minarete conclama os fiéis às orações [nota
da tradutora]
54
que as crianças lhe haviam apresentado a solução para
o seu problema. Ele não teve olhos para ver.
Esta é a diferença entre o fotógrafo e nós,
professores e professoras, temos que aguçar pouco a
pouco os olhos para capturar esses momentos que só
nós podemos capturar graças à nossa própria história.
Ninguém pode nos ensinar a fazê-lo.
5 5
Escutar para documentar
David Altimir
Acreditar em uma imagem de menino ou de
menina capaz, potente, protagonista de suas
aprendizagens, demanda, isto é, exige criar contextos
onde sejam possíveis espaços de observação para
compreender como os pequenos constroem
conhecimentos. Os elementos que se recolhem da
observação se leem e se ordenam para facilitar sua
leitura: se interpretam. Deste exercício nasce uma
documentação que, tanto no momento de fazer-se
como no de ler-se, terá enviado uma imagem de
criança que demanda, e reivindica com força, ser
escutada para ser melhor compreendida.
Imagem da criança e da pedagogia da escuta
Poderiamos definir a "escuta" como a capacidade e
a necessidade de escutar, de coletar, de organizar e de
compreender o que a inteligência das crianças e dos
adultos produz no contexto da escola, i Não se trata
simplesmente de ouvir o que eles dizem, mas de criar
um clima receptivo no qual todos os protagonistas da
escola se encontrem, sejam crianças, pais ou
professores. A escuta é uma atitude receptiva que
5 7
pressupõe uma mentalidade aberta, uma
disponibilidade de interpretar as atitudes e as
mensagens lançadas pelos outros e, ao mesmo tempo,
a capacidade de recolhê-los e legitimá-los. Uma
atitude que é necessária adotar se se acredita em um
modelo educacional que considera crianças, meninos e
meninas, como portadores de cultura, como
indivíduos capazes de criar e construir significados
mediante processos sutis e complexos.
Deste clima,dessa atitude, nasce um estilo na
relação que o adulto e a criança estabelecem na escola.
É o que poderiamos chamar de "pedagogia da escuta."
Esta visão da pedagogia considera que as crianças e os
adultos têm que estar em relação com os demais para
aprender, já que não é possível que a aprendizagem
aconteça sem o diálogo entre as diferentes idéias dos
pequenos em relação aos fenômenos, informações,
acontecimentos.... Considera-se, portanto, que o
trabalho de ensinar está intimamente ligado aos
fatores que tornam possível a aprendizagem, aos quais
se encontram submetidas as crianças e também os
adultos que convivem na escola. Daí nasce a noção de
escuta como necessidade de ser coerente com as bases
ideológicas (psicologia, filosofia, sociologia, etc.) que
definem o mesmo projeto educativo, a mesma imagem
de criança.
Assim, desde o princípio, os conceitos de "escuta"
e de "pedagogia da escuta", estão inevitavelmente,
ligados às palavras "atitude" e "coerência". Por esta
razão, não falamos da atitude de escuta como apenas
dos adultos ou como um elemento isolado da ação
58
dentro da escola. Pretender limitar no tempo e no
espaço esta disponibilidade para escutar, para receber,
seria um absurdo. Se isso fosse feito, não seria uma
opção transformadora porque não daria valor real
nem à criança, nem aos seus companheiros, nem a sua
cultura. Além disso, quando falamos de escutar como
atitude, temos que compreender que esta precisa ser
permanente. Definitivamente, escutar é parte de uma
dinâmica que prevê outros aspectos, não apenas mais
interessantes, mas essenciais para garantir toda a
complexidade do processo que supõe trabalhar com as
concepções que estamos expondo.
O trajeto escuta-observação-interpretação-documentação
A escuta coloca o adulto na condição de
observador, mas não um observador neutro e objetivo,
e sim na condição de um elemento subjetivo que
forma parte da realidade que está observando e que
não somente a descreve, mas a constrói.
Interpretação Documentação
Observação Escuta
5 9
A dinâmica circular é a que melhor se ajusta a
essa força que se retroalimenta.
Observação
Observar não se limita à ação de tomar notas ou
de fotografar, que é uma ação que coloca os adultos
em relação com aquilo que está sendo observado. Por
isso, o observador é um personagem que interpreta e
que intervém no processo que está observando. Não é
possível pensar, porém, que essa observação seja o
resultado de uma atitude improvisada, se
concordamos que a observação implica numa certa
forma de "escolha", é evidente que o adulto tem que
definir o que quer observar. Definindo os objetivos, se
define o âmbito da observação. Assim, o adulto,
quando se encontra nesta condição de observador-
interprete (e, consequentemente, co-criador) da
realidade, tem que saber observar e utilizar os meios
coerentes que sejam necessários.
Documentação
A documentação é toda a coleção de imagens,
histórias, desenhos, palavras, idéias e produções de
crianças e adultos, surgidos a partir da vida da escola,
que são organizados para poder dar uma mensagem a
um leitor. Evidentemente, os leitores das
documentações que saem da escola são:
60
• As próprias crianças.
• As famílias dos meninos e das meninas da
escola.
• A equipe de adultos da escola.
• Os visitantes que podem entrar na escola e
quer precisam de informação e declarações sobre o
Projeto Educativo de Escola (estagiários, substitutos,
visitantes...).
A mensagem que esta documentação oferece
refere-se ao papel que cada um desses protagonistas
tem no interior desta escola.
Documentar é, portanto, uma oportunidade para
dar visibilidade à imagem da criança, de adulto e de
educação que se constrói em uma determinada
realidade. Esta não é uma tarefa fácil, nem estéril. E
uma prestação de contas. Não é um papel confortável
e simples, mas coloca os adultos ao lado das crianças
como reais co-protagonistas desta cena.
Tentemos agora descobrir o que se esconde, ou
melhor, em que consiste a tarefa de documentar.
A CRIANÇA
A primeira mensagem
Em primeiro lugar está a primeira mensagem: a
mais clara, a mais fundamental de todas. Uma
mensagem implícita que passa pelo fato de que há um
adulto que se interessa pelo que faz uma criança ou
um grupo de crianças, e que faz o esforço de recolher
os elementos, as informações necessárias para decifrar
61
a complexidade do que vê. Por exemplo, uma criança
que vê que há um adulto que toma nota do que ela
diz, que fotografa o que ela faz, que pergunta: "o que
aconteceu com você?" Ou ainda, "o que pensas
disto?". Esta é a primeira mensagem e, como dissemos
anteriormente, a mais fundamental. Fundamental
porque a própria imagem que as crianças constroem
de si mesmos e da escola, deriva do olhar dos adultos
que trabalham ali.
Certa vez, um professor estava com um grupo de
crianças mantendo uma conversação sobre um tema
aleatório, como costuma acontecer na escola, enquanto
tomava notas sobre o que lhe parecia mais importante
e significativo, reformulava perguntas, retomava
temas, etc. De repente, uma menina, vendo que ele
escrevia absolutamente tudo o que estavam dizendo,
perguntou:
- Professor, você escreveu o que eu disse antes?
Na verdade, ele não havia anotado e se sentiu
muito mal, então ele mentiu para a menina dizendo
que havia escrito. Mais tarde escreveu em segredo
aquela ideia que havia deixado passar, porque o que
era realmente significativo não era apenas o que
diziam os pequenos. O que fazia aquele professor ao
tomar notas em seu caderno das palavras das crianças
era, para ele, a mensagem fundamental. Mas, para as
crianças, a mensagem fundamental é que para
aprender é necessário:
• Que aquilo que se faz tenha sentido.
• Sentir-se reconhecidas, respeitadas, compreendidas
e ajudadas.
62
• Saber que confiam nelas.
• Saber que têm direito a estar erradas.
• Ter uma boa imagem de si.
Saber que alguém dá importância ao que elas
fazem.
Oportunidade para voltar a ver-se
Organizar todo o conjunto de elementos exige que
os adultos se comportem como se fossem uma espécie
de detetives que recolhem todas as provas e indícios
para compreender o que aconteceu. Depois de
recolher todos esses indícios, precisam classificá-los,
ordená-los e colocar uns ao lado dos outros para
poder construir, assim, uma história, uma ideia (este é
o exercício de interpretação ao qual se faz referência
acima). Finalmente, organizá-los e apresentá-los para
que os protagonistas façam, eles mesmo, uma leitura.
Os painéis dispostos nos espaços comuns da
escola, os espaços de documentação da turma, os
arquivos individuais que se organiza na escola para
levar para casa.... Estas e outras oportunidades são as
que a escola tem que oferecer para que as crianças
tenham a oportunidade de voltar a ver-se, a ouvir-se e
a reler-se. Os painéis são colocados nos espaços
previstos para a documentação na hora do desenho
nas classes, nas áreas comuns. É evidente, que
devemos levar em conta a especificidade do leitor no
momento de organizar formalmente este material. Na
documentação destinada às crianças de três a seis
anos, fica claro que poderemos privilegiar as imagens
63
já organizadas com algum -pequeno escrito comentando os
eventos ali registrados.
Painéis, mas também cadernetas ou cadernos,
podem ser lidos em diferentes situações no espaço da
escola e até mesmo em casa com as famílias.
Metacognição
Neste exercício de releitura do que tem sido feito,
se produz um fenômeno muito importante que
contribuirá para fundamentar as descobertas e as
novas aprendizagens: a metacognição, ou seja, a
consciência do conhecimento.
Digamos que não é suficiente que as crianças
saibam coisas novas ou que tenham novashabilidades, novas teorias interpretativas do mundo
onde vivem, etc. Precisamos saber como tomar
visíveis as mudanças na inteligência das crianças,
precisamos ajudá-los a saber que aprenderam coisas
novas. Portanto, os materiais de documentação que
tentam capturar, organizar e compreender este
processo de constmção do conhecimento, estarão ao
serviço dos principais protagonistas: as próprias
crianças. É claro que esta parte é particularmente rica
para as crianças uma vez que elas têm sido mais
"espectadoras" que atoras nas pesquisas, nas
propostas. As crianças que, por várias razões, não
participam com a mesma quantidade de intervenções
com que fazem outros companheiros, mas que em
nenhum caso se pode considerar como estejam "fora
de jogo", podem ser ajudadas, pela leitura da
64
documentação, que lhes fará verbalizar como elas têm
vivido um projeto ou experiência.
Quando há um projeto ou uma investigação
realizada por um pequeno grupo da turma, a
documentação toma-se também uma oportunidade de
"democratizar", por assim dizer, o resultado do
trabalho. E se os outros me explicam o que têm
aprendido, de alguma forma eu também aprendo. Ou
melhor, não se trata apenas de explicar o que tem sido
feito, mas de indagar como é que tem sido feito.
Em uma situação em que se trata de resolver jogos
de cálculo mental, este fenômeno toma-se
particularmente visível.
- Hummm! Quem sabe me dizer o quanto são
doze mais três?
- Quinze!
- E como você conseguiu chegar nesse "quinze"?
- E que dois mais três são cinco e dez com cinco
são quinze!
- Vocês ouviram crianças?
Verbalizar a resposta deste pequeno enigma
matemático bastante banal fez aparecer a formulação
de uma estratégia, que, ao ser verbalizada, faz com
que a criança tome consciência do caminho que
empreendeu para chegar à solução e, ao mesmo
tempo, é uma solução que outras crianças e adultos
poderão escutar.
Uma especial atenção precisa ser dada à primeira
pergunta do adulto: sem nenhuma sanção ou aplauso,
pedir à criança para explicar o raciocínio que lhe
permitiu chegar a esse resultado. O reconhecimento vem
65
mais tarde, quando a criança tiver sido capaz de
expressar compreensivelmente seu raciocínio. Desta
forma, como quem não quer nada, esta atitude permite
passar da centralidade do conhecimento (talvez a
prioridade do processo de avaliação das aprendizagens)
à centralidade da geração de conhecimentos.
O ADULTO
"Os professores e os profissionais de cada escola tem o
direito de contribuir para o desenvolvimento e o
aprofundamento dos marcos conceituais que definem
os conteúdos, os fins e as práticas da educação, através
de debates abertos no interior da equipe, com os
membros da coordenação pedagógica [...]. Para os
professores, portanto, deve haver o direito de diálogo e
a discussão de idéias e experiências para enriquecer os
instrumentos de avaliação e julgamento profissional ".
Loris Malaguzzi (2005)
Loris Malaguzzi, no livro "Carta pelos três
direitos", registrou os direitos dos adultos. Descreve
um adulto capaz e potente, que tem o direito de
construir o projeto da escola que o acolhe
conjuntamente com as crianças e suas famílias. O que
vai fazer com que este adulto seja potente? O mesmo
que para as crianças, o fato de que o adulto também
seja protagonista da sua própria aprendizagem. Isto é,
um adulto deve ter o direito de:
• Ler e fazer a interpretação do que viveu.
• Confrontar as suas interpretações, certezas e
dúvidas com os outros adultos na escola.
66
• Contribuir e fazer crescer o projeto educacional
em que trabalha
O valor da relação
Nesse sentido, a "relação" se toma uma palavra
forte, necessária para poder respeitar este direito. Os
professores não devem viver sozinhos, isolados em
suas salas, nem vê-las como territórios privados. Tem
o direito também de ter medos, e essa forma de
trabalho, mais assentada na incerteza que na certeza,
pode gerar novos, e legítimos, receios. Esses, no
entanto, podem ser superados dentro de uma equipe
de profissionais que trabalhem, que dialoguem e que
façam um esforço para tomar decisões colegiadas. Por
isso, aqueles que tem a sorte de trabalhar
acompanhados de outra pessoa adulta (algo que
muitas vezes acontece principalmente na primeira
etapa do 0-6) tem que fazer todo o possível para obter
o máximo rendimento pelo fato de que são duas
inteligências trabalhando conjuntamente. Para isso,
será necessária outra formação, uma outra maneira de
entrar em diálogo com os pequeninhos na escola. Já
não vai mais apenas ensinar. O "professor" precisará
ser forte em outras práticas. Leiamos um texto escrito
por Loris Malaguzzi (2006) em que nos é dito
precisamente o que envolve o trabalho como
professor:
"Nós temos que estar convencidos de que as
modalidades de aprendizagem e do conhecimento são
6 7
individuais e que o que nos interessa é descobrir e
compreender as interações através das quais as
crianças constroem suas habilidades. [...] temos que
estar convencidos das capacidades do trabalho
cooperativo dos meninos e das meninas, e
acreditarmos que o sucesso do projeto depende de
essas capacidades.
Devemos respeitar o tempo de ação e de pensamento
das crianças assim como as suas pausas e hesitações.
Temos de ajudar as crianças a refletir sobre suas
possíveis diferenças de opinião e dar liberdade de
propor alternativas categoricamente opostas.
Temos de ajudar as crianças a indicar claramente suas
hipóteses, não as subordinando às de seus
companheiros, sem medo de equivocar-se, para dar
valor às suas próprias idéias.
Temos de ajudar as crianças a detectar o
enriquecimento que provem da negociação de idéias e
atos.
Os professores e as professoras têm de assumir o papel
de mediação, propor intercâmbio entre conhecimentos
e saberes.
Também têm que destacar os significados que
aparecem e pedir a participação de todas as crianças.
Finalmente, têm de preservar, na medida do possível, a
neutralidade durante os processos de manifestação das
práticas e das idéias das crianças, convencidos de que
eles e elas dispõem de recursos para ir mais longe do
que se pensa. E fazer todo o possível para ajudá-los a
melhor expressar idéias [...] assim como assegurar-se
de que cada projeto cumpriu os objetivos de apoiar o
desenvolvimento da sua personalidade".
68
Treinar-se para fazer boas perguntas, inventar novas
didáticas
Quando dizemos que é preciso praticar para fazer
boas perguntas, em primeiro lugar, precisamos ler
essa expressão em seu sentido amplo e metafórico.
Entendemos "questões" como todo o conjunto de
provocações que o adulto pode fazer às crianças para
tentar gerar novos conhecimentos, portanto,
atividades, materiais, espaços da sala, as palavras de
ordem ... tudo pode ser considerado como
"perguntas".
O melhor treinamento para fazer boas perguntas é
tentar fazer perguntas que não contenham a resposta.
Trabalhar com essa responsabilidade é certamente
difícil, duro. Não há receitas possíveis porque há um
elemento inteiramente imprevisível, como disse Marta
Mata em uma entrevista em 1994:
- Entendo que há algo que você sempre pede para
um professor antes dele iniciar o trabalho com a
turmas entrar em aula
- Que tente se lembrar de seu tempo na escola: o
que não gostava, do que necessitava, o que não
suportava.... Somente dessa maneira não cairá no
mesmo erro. Se você não é consciente de como você
viveu sua escolaridade, você nunca vai deixar de fazer
as mesmas coisas tolas que eles fizeram para você.
Muitas vezes,x o que acontecia era que nos faziam
andar para trás ao invés de para frente. E os livros
mais recentes de pedagogia coincidem em que na
69
educação não se podem provar muitas teses, porque
há em todas as situações um fator distintivo/diferente.- Qual fator?
- A surpresa. Cada criança é uma surpresa, isso é a
única coisa real. E pode colocar por terra qualquer
teoria.
Isso faz com que o nosso campo de trabalho seja
extraordinário e que tenhamos todos os elementos
para vive-lo como lugar onde é possível construir a
nossa inteligência. Neste sentido, é que devemos fazer
um esforço para inventar didáticas originais, próprias,
próximas às especificidades de cada criança, cada
grupo, cada professor, cada equipe, cada bairro...
Em uma ficha proposta para crianças de três anos
de idade está escrita a consigna: "Coloque os adesivos
de laranjas sobre as laranjas". Neste exemplo,
poderiamos concordar que a pergunta contém a
resposta escrita. Assim, há apenas uma maneira de
responder: colar os adesivos sobre as laranjas.
Um estilo de proposta:
- Meninas e meninos, olhem para esta laranja.
Vamos cortar pela metade? Olhem! Quem quer
experimentar? Você quer pegar? Quem quer pintar o
cheiro da laranja?
Perdoem o exemplo, mas ele pode explicitar a
mensagem de que o segundo relato deixa mais espaço
para a surpresa, incerteza, para organizar o que o
cérebro das crianças possa produzir. Diante da
situação de fazer uma proposta ao grupo de crianças,
o professor tem o dever de organizar uma proposta
onde o maior número de interpretações e respostas
70
sejam possíveis. Você tem que "expandir" os conceitos
antes de colocá-los sobre a mesa ao redor da qual
estão as crianças da escola. As novas tecnologias nos
ajudam. Os sites de busca da Internet são uma
magnifica ajuda para este exercício.
Voltando ao exercício da laranja, ao qual fizemos
referência nas duas situações, coloque a palavra
"laranja" no Google e encontre entradas, tais como:
• Fazendo o suco de laranja.
• Buscando a outra metade da laranja?
• A laranja mecânica
• Papéis de seda para embrulhar laranjas.
• O movimento democrático é simbolizado com o
lenço laranja.
Sem ficarmos unicamente com este exemplo,
vamos tomá-lo como uma mostra do exercício
necessário a ser feito antes de propor um tema, um
problema, uma pesquisa com um grupo de crianças:
fazer uma ideia, a mais ampla possível, do cenário que
se está ao ponto de propor para os meninos e as
meninas. Só então estaremos realmente preparados
para percorrer os numerosos caminhos que eles nos
proporão com as suas idéias, perguntas ...
Da unidade didática ao projeto
Devemos acrescentar a esta dificuldade uma outra
inesperada, ela se refere à rigidez que os profissionais
que trabalham com crianças têm ao organizar as
unidades de ensino. A intenção é boa, trata-se de
encontrar uma linguagem comum, uma estratégia
comunicativa comum. O problema é que a própria
estrutura da unidade didática documento exige que se
71
organize por critérios que muitas vezes parecem
muito mais atitudes de controle e vigilância.
Pessoas como Carla Rinaldi, por exemplo, nos
ajudaram a ver a relação entre "programa" e "projeto"
de forma mais clara. As perguntas que nos fazemos
são: que espaço há para a construção genuína de
conhecimento no interior das unidades didáticas? Que
espaço se deixa para a incerteza? Como se acolhe
aquele elemento de surpresa, a subjetividade que se
refere Marta Mata?
Nos parece que o conhecimento, por não se
estruturar de modo linear, não pode ser organizado
mediante um instrumento rígido e previsível como as
propostas de unidades de ensino ou sequências
didáticas. As unidades didáticas demandam um
exercício importante, fundamental, antes que o projeto
aconteça. Antes, há um adulto, que pensa os objetivos
a atingir, o conteúdo a ser aprendido e as estratégias a
seguir para avaliar de acordo com os objetivos
identificados. Nesse momento, no antes, o adulto é
muito importante e está tão presente que, no momento
em que é apresentada a proposta e durante a sua
realização, ele vai se tomando cada vez mais ausente.
Será depois do trabalho que ele fará a avaliação a fim
de verificar se os objetivos foram alcançados e definir
as sucessivas propostas.
Em tudo isto, no entanto, uma questão é
amplamente negligenciada: o processo. Como e por
que meios e estratégias as crianças fizeram progressos,
aprendizagens, encontraram novas interrogações, etc.
72
Em vez da unidade didáticas, propomos,
portanto, a pluralidade do projeto. As idas e vindas, as
dúvidas, os caminhos que se escolhe e depois se
abandona, o retomo às questões já trabalhadas... As
estratégias e os procedimentos das crianças para
construir o seu conhecimento são mais deste tipo,
porque o seu "objetivo" primeiro é conhecer o mundo
onde eles se encontram. Nesta dinâmica alternativa, a
pessoa adulta faz igualmente um trabalho antes:
conhecer o conceito, mastigá-lo, expandi-lo, imaginar
propostas, materiais, situações de observação para
poder capturar este tipo de mariposas invisíveis que
se encontra no durante.
Imagens, observações e notas de adultos,
desenhos e palavras de crianças, leituras ... são todos
materiais, matérias-primas, que ao serem lidos e
interpretados se estruturam na forma de
documentação e que depois são oferecidos para
crianças e adultos, como testemunho do processo.
Documentação contra a avaliação
E aquele momento onde a documentação pode ser
considerada como o instrumento que vai ajudar a
fazer uma avaliação real, global e abrangente do
fenômeno da aprendizagem. Pois organizar a
avaliação apenas a partir dos objetivos que os adultos
desenharam antes do início da proposta é um
exercício parcial. Por meio dos vários materiais
recolhidos (fotos, notas, desenhos, comentários das
crianças ...) se poderá fazer uma leitura mais
73
complexa: sim, justamente mais complexa, porque
complexo é o processo de construção do conhecimento
e dificilmente interpretável em forma de escalas de
"objetivos". A objetividade do processo de avaliação,
embora surja da intenção de tomar a escola
democrática, representa um limite. A subjetividade do
processo de interpretação, se também
compartilharmos com as crianças, com outros adultos
e famílias, fortalece uma leitura inteligente dessa
complexidade que vai gerar uma cultura da infância.
Documentação como uma ferramenta de
autoformação
Todo este processo, feito principalmente por
profissionais da escola, representará, em primeiro
lugar, um exercício de formação, de auto formação
permanente. Quantas vezes imaginamos que alguém
estava nos observando, através de uma fechadura,
enquanto trabalhávamos com um grupo de crianças, e
nós, em silêncio constrangido, pensávamos que
tínhamos muito ainda para melhorar na qualidade do
nosso trabalho. A escuta e a documentação permitem
fazer esta leitura: ver a nós mesmos por meio de
nossos próprios olhos e através dos olhos do outro.
Este exercício é, de fato, oferecer de maneira
continuada às crianças o que pensamos e isso vai
toma-las mais conscientes de sua própria
aprendizagem. Se propusermos o mesmo exercício
para nós mesmos, vamos nos sentir protagonistas de
74
nosso próprio aprendizado e, ao mesmo tempo,
construtores de nossas imagens de criança.
1. Malaguzzi, Loris. "Uma carta diritti per tre" I
Taccuni, Comune di Reggio Emilia em castelhano,
Inclui-do na estrada com os direitos de meninas e
meninos, Colecção "Listening não é dado". Barcelona:
Reggio Children, Rosa Sensat, Octahedron, 2005.
2. Malaguzzi, Loris: Fontes, Coleção "Listening
não é dado" Barcelona: Reggio Children, Rosa Sensat,
Ochahedron,2006.
75
A arte do pintor de paisagens
Algumas reflexões em tomo da documentação
Meritxell Bonas
A documentação é uma ferramenta
imprescindível para seguir o desejo das crianças e
para conhecer e compreender o mundo. Toma visível
a sua atividade e permite refletir, melhorar o trabalho
de cada dia e ordenar o pensamento. A documentaçãotoma visível a trama de relações causais que é
produzida, seja em um momento fugaz, seja ao longo
de um período na escola. Por sua vez, permite mostra-
lo fora, estabelecer um diálogo com as famílias e
aprofundar o sentido de "comunidade".
Seguramente são várias as razões pelas quais um
professor ou toda uma equipe se decidem por
documentar o que veem e vivem dentro da escola. De
todas as razões, das possíveis respostas para o que é
que nos faz decidir começar a documentar, há uma
que me parece, pelo menos, atua como força inicial.
Chega um dia em que descobrimos, com os olhos
emocionados e expressão de surpresa, que as crianças
são incansáveis produtoras de maravilhas. É aí que
descobrimos a necessidade, ou mesmo, o dever de
tomar público o que nos acontece.
7 7
Falar de documentação é falar sobre a visibilidade.
A documentação toma visível as pessoas, escolas,
equipes, seus participantes e seus autores, bem como a
qualidade de seus processos. Faz visível os rastros de
cada pessoa, cada grupo, cada família em seu caminho
através da escola. Não deixa de ser uma grande
oportunidade para construir identidades, o que nos
leva a pensar em uma escola diferente, narrativas
incertas, onde os roteiros são escritos a partir das
vozes e ações de cada um. Um script que vive
construindo histórias.
As escolas narrativas se narram a si próprias (não
precisam de ninguém de fora para fazê-lo), elas
inventam cenários, palavras e tempos, e como o
escritor de romances, convidam as pessoas a imaginar
a partir da sua leitura. A documentação permite,
quando tomada pública, imaginar a possibilidade de
traçar formas, caminhos diferentes e inesperados,
além de tomar visível o que acontece. Além de tomar
visível aquilo que acontece, a documentação
interpreta, escreve teoria sobre uma prática que, ao
mesmo tempo, se legitima. É que documentar não
deixa de estar intimamente ligada à ética, não deixa de
ser uma escolha, um posicionamento, uma tomada de
decisão. Não deixa de ser também uma formulação de
como nós somos como professores e professoras, que
escola somos e para onde direcionamos nosso olhar.
Juntamente com isto, também é preciso falar sobre
certa dose de coragem, a coragem de tomar pública
essa decisão.
78
Na documentação seguimos pegadas, rastros e
pistas que as crianças mostram no seu desejo de
conhecer e entender, elementos invisíveis que exigem
uma complexidade interpretativa forte. Tomá-los
visíveis, capturá-los, nos aproxima de uma maior
compreensão de seus processos, suas relações, seus
símbolos e, por extensão, de uma maior compreensão
de como funciona a mente humana. Meninos e
meninas são a expressão mais fresca da mente.
Além disso, na documentação recolhemos os
processos, elaboramos de hipótese, falamos com
imagens e, finalmente, construímos cultura, uma
cultura da infância que requer uma escuta refinada,
matizada e diferenciada, uma escuta para o outro, mas
também para si mesmo. Quando documentamos, não
deixamos de falar sobre nós e nossas conexões,
ordenamos nosso pensamento. É uma verdadeira
investigação para professores, uma poderosa
investigação sobre sua realidade, sobre suas vidas
diárias. Mas a documentação não é válida somente
para os professores, mas como dissemos
anteriormente, também ajuda as crianças a tomar
consciência do processo, da história que estão
escrevendo, que estão vivendo. Quando a criança
reflete sobre seus pensamentos, processos ou ações,
aprende a compreender-se e a comprometer-se.
É um interessante diálogo entre autor e
espectador, onde um se funde com o outro, como se
fosse um reflexo onde um se encontra nos olhos do
outro. E a documentação também permite o transitar
entre o diferente e o corriqueiro, entre o próximo e o
79
distante. Ela ajuda a encontrar-se, a identificar-se sem
se ver. Às vezes, a documentação de uma sequência,
de um tempo curto e rápido, de algo que aconteceu
em um instante, pode nos ajudar a explicar toda a rede
de relações causais que existem dentro de uma escola.
Ao mesmo tempo, documentar não é apenas um
diálogo romântico de olhares entre professores e
crianças, mas também se nutre de olhares respeitosos
e gratos das famílias. Elas descobrem novas
dimensões ligadas ao respeito e ao valor que requerem
uma parte importante da vida de seu filho ou filha.
Um profundo respeito pela sua maneira de fazer e
decidir. E quando veem seus filhos, eles também
encontram a si mesmos. E um momento importante
para conhecer e saber o que acontece dentro da escola
e sentir-se parte de uma comunidade na qual seus
filhos são convidados a entrar.
Há também olhares de forasteiros, interrogantes e
curiosos que por um motivo ou outro, algum dia
entram na escola. A documentação pode ser o ponto
de encontro onde confluem pontos de vista diversos,
sentimentos díspares e críticos. E uma nova
oportunidade de compartilhar e fazer crescer o projeto
de cada escola.
Deve-se notar também que a documentação fala
sobre tempos diferentes. Às vezes, ela fala de tempos
longos, que precisam ser digeridos, pouco a pouco, e,
são documentados os processos de longa duração,
projetos que exigem semanas, meses, semestres são
processos infinitos em que não é possível vislumbrar o
final. Existem eixos do projeto de uma escola, traços
80
de partida por onde começar a indagar, que resultam
caminhos por onde se pode seguir caminhando,
sempre. A documentação, não busca uma solução
definitiva, não fecha portas, nem descobre verdades
únicas, mas abre possibilidades e amplia horizontes
para respostas que todos, de novo, podem inventar.
Também há tempos mais densos, onde a
densidade do momento é recolhida em sua brevidade,
tempos vividos na sua brevidade, tempos vividos na
procura de significados a perguntas diversas, sobre o
mundo, as suas leis, as suas regularidades, e os
trabalhos das crianças nos presenteiam de momentos
brilhantes, palavras fortes, decisivas e valentes, que
buscam generosamente respostas a muitos dos seus
interrogantes. Nesses momentos que a documentação
recolhe as intimas conversas entre as crianças,
sequências de ações encadeadas, detalhes quase
imperceptíveis que nos falam de tempos conhecidos
por todos nós. Dignificar as pequenas historias é
também um bom motivo para documentar. Os seus
protagonistas tomam-se, passo a passo, heróis da sua
própria história e nos convidam, gratuitamente, a
reconhecer-nos nela. Documentar não deixa de ser um
reconhecimento profundo para cada uma das pessoas,
para cada criança e suas famílias.
A documentação como memória/herança é
também uma dimensão interessante a levar em conta.
As diferentes documentações de uma escola podem
ser janelas por onde olhar o mundo, podem ser canais
de conexão com territórios distantes, hostis no
começo, mas cheio de mistérios a serem descobertos.
81
Podem ser motivos para interrogar-nos com perguntas
intermináveis. Respostas em repouso que passam de
um ano a outro. Do mesmo modo com se fosse uma
pedagogia convertida em papel de parede, a
documentação pinta, reivindica e decide, em cada
escola, com cada geração é construída em um diálogo
constante com a realidade, com o contexto social e
histórico do momento, com a sua contemporaneidade,
que já nasce em um tempo efêmero.
Documentar é um processo vivo, dinâmico, que
requer de nós o domínio de instrumentos e aparelhos
que talvez não tenham sido planejados para utilizar
com os professores: gravadores, máquinas
fotográficas, filmadoras, instrumentos de registro de
dados e observações, uma montagem cênica elegante,
que busca algo preciso, que permite investigar com
uma discrição afinadíssima e que sao movimentos em
um respeito requintado.
Mas quando documentar é convertido em uma
ação quotidiana dentro uma escola, maisque a
utilização de pequenos instrumentos ou técnicas,
demanda um debate político e cultural que
compromete as diferentes visões. Olhares
caleidoscópios sobre uma mesma realidade, que a
cada movimento nos recorda que é incerta. É assim
com a documentação toma-se um processo de
pesquisa permanente, um local de confrontação, de
formação, um espaço de reflexão entre os professores,
com as famílias, com outros profissionais, um local
para poder repensar e poder crescer em comunidade.
A formação de comunidades de pesquisa em tomo da
82
infância é, dia a dia, um dos desafios que cabe planejar
com mais força e responsabilidade.
A documentação nos faz descobrir uma das faces
mais amáveis da tarefa de compartilhar e acompanhar
as crianças em seu crescimento, em achar beleza,
esperança, e uma estima incondicional,
desconcertante, que nos faz vibrar. A cada dia se abre
a porta da escola, e por isso, cada novo dia, é possível
uma estreia, uma novidade.
As escolas municipais de Reggio Emília, propõe a
documentação como ação cotidiana dos professores,
falam dela como um "ato de amor" entre as crianças e
seus mestres, um ato recíproco onde um enriquece o
outro. Documentar é como fazer brilhar o outro, como
desenhar o outro com admiração e generosidade. Nos
faz crer novamente na pesquisa de nossos sentidos,
novas paisagens por onde caminhar, mas também
onde sentar-se e pintá-las.
83
PARTE II
Documentar: aguçar os olhos para
captar momentos
Dar visibilidade aos acontecimentos e aos itinerários
de experiência das crianças nas instituições para a
pequena infância
Anna Lia Galardini e Sonia Iozzelli
Os significados da documentação
Refletir sobre a documentação significa dedicar
tempo e energia profissional a um aspecto que
qualifica o projeto educativo e o toma coerente com as
necessidades de crescimento das crianças.
A documentação é agora um instrumento
indispensável para professores e educadores e suas
múltiplas tarefas: construir experiências positivas com
as crianças, sustentar seu próprio crescimento
profissional e, portanto, melhorar a própria
capacidade de comunicação com os meninos e as
meninas, com os colegas, com os pais e outros adultos.
Nesse sentido, trata-se colocar em prática um processo
cooperativo de observação e de interpretação que
ajuda os professores a melhor escutar e observar as
crianças com quem trabalham e as experiências que
realizam. A documentação recolhida, interpretada e
verificada de forma colegiada permite entrar na ação
educativa e representar pensamentos e idéias de uma
forma que não é arbitrária, mas que leva em conta as
8 7
crianças protagonistas da ação educativa e os
educadores responsáveis pela organização dos
acontecimentos. Graças a essa multiplicidade de vozes
e de testemunhos, a reflexão a partir da documentação
pode alcançar uma objetividade de avaliação e
representa, assim, uma preciosa oportunidade para
remodelar o projeto educativo e, especialmente, para
não limitar o trabalho dos professores e educadores
unicamente ao saber fazer.
O compromisso de documentar o que acontece em
uma comunidade educativa envolve, efetivamente,
uma atividade sistemática e atenta de observação e de
reflexão sobre a vida cotidiana na escola da infância,
uma atividade que nos enriquece do ponto de vista a
compreensão das potencialidades das crianças, que se
tomam visíveis precisamente porque são
compreendidas e respeitadas.
Documentar, no sentido etimológico do termo,
significa provar, ratificar, comunicar algo que se
considera importante ou significativo. Por isso, os
passos finais da documentação que estão na
preparação de painéis, livros, jornais, etc., terão
sentido se forem precedidas de ações contínuas e
compartilhadas na observação e na reflexão sobre os
contextos educativos para depois possibilitar que cada
comunicação "pública" esteja cheia de valor e
significado. Uma documentação que seja o reflexo de
experiências reelaboradas por todos os protagonistas é
capaz de colher os significados das práticas
vivenciadas pelas crianças, significados que tem suas
raízes e que se inspiram em cada uma das
88
sensibilidades culturais e pedagógicas dos adultos que
as organizam. Assim é construída, passo a passo, uma
identidade para a biografia da comunidade onde se
vive, se trabalha, e se entra em relação com os outros.
Na verdade, a documentação, para ter significado não
deve se limitar a explicar episódios individuais, mas
deve relacionar, em uma narrativa única e coerente,
episódios significativos de um projeto realizado e
criado para o bem-estar das crianças e suas famílias.
Está claro que narrar envolve uma visão geral de
tudo o que acontece durante o fazer educativo do qual
os professores têm a responsabilidade do projeto e da
verificação. Mas, ao mesmo tempo, documentar
significa escolher e explicar as cenas mais
significativas do projeto. Através de documentação,
consegue-se valorizar o que é feito com as crianças,
explicando e destacando o que acontece na vida
cotidiana, retirando o que é banal. Nos serviços
educativos acontecem muitas coisas que correm o
risco de cair no esquecimento se não as aprofundamos
com a reflexão, se não as explicamos. Trata-se
certamente de pequenas coisas "comuns", mas que se
tomam extraordinárias porque há alguém que as
percebe, as registra, e as toma memória para si mesmo
e para os outros. Na verdade, o objetivo é oferecer aos
olhos de todos os que passam pela instituição
educativa testemunhos do valor da infância que
tomem visíveis as competências e necessidades dos
meninos e meninas através dos pensamentos e
palavras de adultos que os cuidam: documentando se
deixam marcas permanentes do trabalho educativo e
89
das experiências das crianças e se oferecem para a
discussão e reflexão com outros adultos, pais,
professores, cidadãos.
E uma busca de sentido que envolve crianças e
adultos em um percurso de conhecimento recíproco,
capaz de restaurar histórias comuns e compartilhadas
e de ativar sensibilidades e consciências sobre tudo o
que as crianças sabem fazer, seja nos momentos de
atividades específicas, seja nas diversas rotinas do dia
a dia da escola.
E verdade que é preciso tempo para entender, para
se distanciar do que se tenha vivido na vida cotidiana e,
assim, ser capaz de explicá-lo, recompondo, em um
cenário coletivo, fragmentos de experiências que têm
coerência de conteúdo e significado. Na verdade, se se
quer documentar, há que se considerar que o espaço
fala, comunica, sempre transmite uma mensagem. Se se
deseja criar contextos educativos acolhedores e
agradáveis com as crianças, temos que fazer de tal modo
que saibamos falar do valor da infância e das
sensibilidades educativas que a escola constrói em tomo
das crianças. Se nas paredes da entrada está pendurada
numa documentação atrativa, não de "escritório", mas
rica em conteúdo, os pais recebem imediatamente uma
mensagem forte a respeito das propostas educativas e da
vontade de compartilhá-las e isso os encoraja a parar e a
prestar atenção. E o primeiro sinal por parte da escola da
infância da capacidade de colocar-se em sintonia com as
suas necessidades; em primeiro lugar, com a
necessidade de conhecer a realidade da escola,
necessidade que, na maioria dos casos os pais não sabem
90
explicitar porque a experienda da creche é
absolutamente nova para eles e, de inído, é muitas vezes
acompanhada de ansiedade e insegurança. As famílias
devem ser colocadas em condições de compreender
como a escola está organizada como se apresenta às
crianças, que experiências propõe e o que incentiva.
Confiar às paredes da entrada a tarefa de documentar a
história e as vivêndas das experiêndas educativas
significa iniciar um diálogo permanentena relação com
os pais, por essa razão significa promover a participação
de todos na vida da escola a partir da informação e do
conhedmento. Na verdade, a documentação tem a
função de ser também um arquivo de memórias onde
cada um se pode reconhecer e se redescobrir em uma
coletividade solidária predsamente porque é capaz de
construir um terreno comum que é bastante diferente da
transmissão de informações.
Desse modo, o que se documenta é um contexto
educativo que permite acolhimento e reconhecimento,
que permite gestos "amigos" e de proteção em relação
à cultura da infância e ao valor do educar.
O compromisso de explicar e explicar-se, de falar
de si mesmo e dos projetos que devem avançar, torna
a escola mais transparente, mais familiar e mais aberta
ao diálogo e à discussão e também mais rica de idéias
e sugestões sobre as crianças.
Além disso, viver um espaço significa senti-lo
como seu próprio, senti-lo familiar: uma foto que
registra rostos familiares ou acontecimentos vividos
pode fazer muito para orientar quem chega e quem
acolhe.
91
Para que não seja um espaço anônimo é
importante que tenha as marcas das crianças e dos
adultos de tal maneira que desde a entrada se perceba
a identidade das pessoas que vivem naquele espaço.
Para isso, pode haver fotos de quem trabalha na escola
e também fotos de diferentes grupos de crianças, de
maneira que se apresente a todos que entrem na escola
os valores e as escolhas educativas e, especialmente, a
vontade de participá-los e compartilhá-los. Quando
nós mostramos a nossa forma de fazer educação,
devemos sempre lembrar quem são os destinatários:
isso é muito importante se queremos que a
documentação seja eficaz e significativa.
Documentando para as crianças
Com a documentação, se oferece às crianças a
oportunidade de se dar conta de suas próprias
conquistas, e de melhor interiorizar a experiência
vivida.
Os meninos e as meninas percebem que o seu
fazer é importante justamente porque se dá forma e
valor à identidade do grupo através de seus
pensamentos e de suas histórias. A documentação
ajuda a lembrar uma experiência, a criar memória, a
enfatizar também com o que cada criança contribuiu
individualmente para o grupo e para reconhecer e
avaliar a própria identidade e a identidade do grupo.
Coletar paulatinamente os diálogos das crianças,
apontar as passagens mais destacadas, mas também
dizer o porquê do resultado de um episódio de jogo
92
ou de vida em comum ajuda a dar continuidade às
diversas experiências e dá a oportunidade para as
crianças que não tenham sido as protagonistas de
construir uma memória rica em significados.
A vida das crianças na escola contém muitas
pequenas coisas nas quais os afetos se unem ao prazer
de fazer juntos: descobertas, explorações, jogos, mas
também as trocas, o intercâmbio e laços de cooperação
e de amizade. Quando a documentação é capaz de
perceber este clima emocional, através das sequências
fotográficas, certamente oferece um presente
extraordinário para aquela criança, para um grupo de
crianças e para seus pais que recebem imagens de uma
infância ativa e aberta aos outros.
As crianças têm necessidade de voltar a examinar
as suas experiências, refletir sobre ela, para retirar
delas informações importantes para a sistematização
de seus conhecimentos. Documentar é uma maneira
eficaz de comunicar o que se considera importante na
experiência educativa e de compartilhar com as
famílias o projeto educativo e reforçar a sua
colaboração.
Documentando para professores
Falar de documentação significa falar sobre a
profissionalidade dos adultos que estão nas escolas. A
qualidade dos professores e educadores é marcada
justamente pela capacidade de construir conhecimento
a partir da experiência vivida e da reflexão sobre esta.
Trata-se de atuar para além da pratica diária,
93
permitindo que o pensamento e a competência
profissionais evoluam, à medida que se reflita sobre o
que não funcionou e sobre o que podería funcionar
melhor. Nesse processo, o compromisso de
documentar é um fator decisivo na medida em que o
processo de reconstituição não termina com a
explicação dos fatos, mas se concretiza a partir do
pensar, da discussão sobre os fatos para encontrar
conexões entre eles. Assim, a documentação assume a
importante função do auto formação na construção de
uma forma de pensar compartilhada pelo grupo. São
momentos de trabalho que ajudam o grupo a crescer
profissionalmente, por meio do prazer de
compreender e projetar juntos.
A documentação como uma reflexão requer dos
professores e educadores que estejam cientes do
projeto educativo que querem realizar de modo a fazê-
los prestar atenção ao trabalho de preparação.
Para documentar é necessário observar e, para
implementar estratégias de observação, é necessário
que primeiro os professores valorem os momentos de
experiência que vão comentar explicitando motivações
e intenções. Para fazer isso, cabe escolher e definir os
campos de observação. Na verdade, observar as
crianças não é um exercício trivial, porque não apenas
com os olhos, mas também com a mente.
Ao observar e transcrever o que fazem e dizem as
crianças, é possível descobrir o que chama sua
atenção, entender seus porquês, aprender como as
crianças realmente são. Ao transcrever o que fazem e
dizem as crianças, os adultos se aproximam delas; ao
9 4
observar as fotos, ao reler as conversas das crianças
enquanto se realizava a experiência, pode-se encontrar
aspectos que suscitam questões, que geram
curiosidade e interpretações da realidade ao redor.
Assumir uma atitude de observação exige
precisamente refletir sobre o material coletado,
seleciona-lo e escolher as linguagens mais eficazes
para apresenta-lo.
Assim, os professores e educadores serão mais
capazes de preparar experiências adequadas e propor
material apropriado para despertar novos interesse e
fazer novas descobertas possíveis.
A prática de observação também ajudar os
professores e educadores a compreender melhor cada
uma de suas crianças, suas preferências, seus ritmos e
estilos de conhecer. Para documentar também se faz
necessário refletir sobre os materiais recolhidos.
Repensar e refletir significa tomar consciência
crítica da própria prática e ajuda a distanciar-se de
tudo o que se faz, se diz, e se decide na própria ação e
a repensar sobre o seu próprio trabalho.
Pode-se concluir que a documentação recupera
uma dimensão cultural mais genuinamente
pedagógica, a tal ponto que garante um sábio
equilíbrio entre o fazer, o pensar, o refletir.
Documentar para as famílias
A relação entre as famílias e a escola encontra um
momento muito positivo na documentação porque os
pais se sentem mais participantes e tranquilos quando
95
são capazes de "ler" as experiências e a vida diária que
eles não veem.
A documentação os ajuda a "ser parte" da
experiência dos filhos, a se sentir envolvidos e a criar
experiências comuns. E também um estímulo para
interessarem-se pelo que acontece durante o tempo da
escola, para além da pergunta costumeira "o que meu
filho comeu?".
Através da leitura e reflexão sobre a
documentação, os pais se introduzem em um nível
mais elevado de conhecimento, que os ajuda a mudar
opiniões e expectativas.
A documentação é importante para compartilhar e
reforçar elementos do projeto educativo, e destaca a
identidade da escola.
A todos os sujeitos da comunidade educativa se
oferecem muitas possibilidades de informação,
reflexão, discussão, e também se contribui
positivamente para reforçar a perspectiva dos diversos
níveis da escola. Professores e educadores, ao
documentar, fazem emergir também a sua presença:
no âmbito dos acontecimentos corriqueiros e
excepcionais da vida diária,nos processos recíprocos
de aprendizagem no âmbito do tecido de relações que
é a escola, sempre com uma projeção que não deixa
nada ao acaso nem ao superficial.
A documentação também permite compartilhar
com outros a experiência didática: quando se entra em
uma escola e se observa o material produzido, já se
entende muito sobre que contexto educativo.
9 6
A documentação fala, explica, informa de maneira
eficaz o que se considera importante e relevante da
experiência escolar, coloca em evidência o que se faz
com as crianças e valoriza o que acontece.
A documentação deve saber explicar os momentos
e acontecimentos significativos da vida na escola sem
limitar-se a ocasiões especiais ou diferentes, como
festas, passeios, espetáculos, para não se reduzir a
uma documentação superficial e inoportuna na qual
não se pode reconhecer as opções educativas da
escola. É importante lembrar que, conforme os
destinatários, utiliza meios de comunicação diversos e
assume formas diferentes.
Documentar para a comunidade
Como instituições públicas para crianças, também
se têm o dever de usar a documentação para
apresentar à comunidade o que acontece dentro das
escolas. Tomar transparente o trabalho e tomar
visíveis crianças, professores e pais para a
comunidade mais ampla: são tarefas que pertencem ao
perfil profissional dos professores e que contribuem
para gerar um sentimento de pertencimento e de
adesão à escola e a seu valor educativo. Na verdade,
documentar significa dar força para a voz das crianças
e dos pais, e à dos próprios educadores
comprometidos com comunicar tudo o que escutam e
interpretam.
Quando se documenta a vida das crianças, de grão
em grão se constrói a história de uma creche ou pré-
9 7
escola. Constrói-se, assim, uma memória de grande
valor para aqueles que passam muitas horas de sua
vida nas escolas da infância, para os pais que trazem
seus filhos e para todos aqueles que trabalham com
grande empenho para criar um bom espaço e boas
experiências. Com a documentação é possível dar a
cada escola uma identidade que refletirá as pessoas
que ali estiveram envolvidas e criar um sentido de
continuidade para aqueles que ali trabalham.
98
Documentação como argumentação e narração: dar
visibilidade e forma aos processos na vida cotidiana
Mara Davoli
Documentar a vida cotidiana: aguçar os olhos para
captar momentos: um título aparentemente simples, na
realidade muito complexo que, a partir do fato de
observar e documentar, nos obriga a refletir sobre a
ideia de cotidiano nas instituições educativas e,
portanto, sobre que imagem de criança construímos e
dá forma à nossa cotidianidade.
"Fazer uma escola acolhedora (ativa, imaginativa, onde
você pode viver, documentável e comunicável, local de
investigação, de aprendizagem, de reconhecimento e
de reflexão), onde crianças, professores e famílias
estejam bem, é o nosso objetivo." (Malaguzzi, Loris)
A escola deve construir (no contexto das
obrigações rituais que a vida comunitária implica)
significados, valores e conexões entre o que acontece
durante um dia inteiro, mas também entre o que une
os dias, os meses e os anos. Uma qualidade educativa,
portanto, feita de muitos momentos diferentes,
pensados e vividos não separadamente, mas em
99
relação, que dão significado para um e outro e dão
valor a toda a experiência.
O problema é: que crédito damos à criança? Que
qualidades e competências lhe atribuímos? A imagem
da criança (e da infância) é uma imagem precária,
mutável, que varia através dos tempos e culturas
diferentes; uma imagem difícil de focar, talvez mais
hoje do que antes e de modo diferente, porque dentro
das micro-comunidades de cada creche e cada pré-
escola convivem culturas diferentes, confrontam-se,
encontram-se e, por vezes, se enfrentam.
A guçar os olhos para captar momentos, no entanto, é
apenas um primeiro passo que deve ajudar-nos a fazer
perguntas, reflexões, mas, acima de tudo, a buscar
sentido. Pois um mundo que não nos interessa e não
se entende é um mundo governado pelo tédio e pelo
cansaço de uma repetição sempre igual de
acontecimentos; e isso é verdade não só para crianças,
mas também para o nosso trabalho diário de
professores.
O que proponho é uma ideia de criança
"biologicamente predisposta a se comunicar, a estar
em relação, a viver em relação ...". (Rinaldi, Carla
(2009), In Dialogo con Reggio Emilia: Ascoltare,
ricercare, apprendere. Reggio Children).
Uma criança que tem a curiosidade dos
pesquisadores, pois tem uma disponibilidade natural
e inata para a exploração ...
Uma criança que procura maneiras próprias de
construir seu conhecimento pessoal e original do
mundo...
100
Uma ideia de infância que se baseia no
pressuposto de que "todas as crianças são inteligentes"
(como costumava dizer Loris Malaguzzi), porque
todas as crianças embarcam num percurso de
atribuição de sentido ao mundo, num processo
constante de construção de conhecimento, identidade,
valor...
O que lhe falta em muitas pesquisas acadêmicas
(mas pode estar em nas mãos de professores) são
investigações sobre as possibilidades de influência que
as crianças têm sobre outras crianças, vivendo e
construindo experiências juntas.
Tentarei fundamentar esta afirmação com uma
breve história, um fragmento retirado de um longo
projeto sobre linguagem musical que chamamos
Descubra a voz secreta das coisas do mundo em que
os protagonistas são um grupo de meninas e meninos
de cinco anos.
O contexto é o atelier de uma creche, as crianças
estão se perguntando "se todas as coisas que existem
mundo têm uma voz ... e se assim for, o que a produz,
que som, forma, caráter ... tem ou poderia ter." E uma
reflexão que faz surgir diferentes pontos de vista e
teorias. O adulto escuta, observa, registra, às vezes
intervém para retomar e tomar a lançar hipóteses que
tenham surgido.
No grupo há uma criança chamada Momi, que
tem síndrome de Down. Para ele não é fácil nem
simples entender por meio da linguagem verbal o que
o grupo está fazendo. Federico, que está sentado ao
101
seu lado, assume a responsabilidade de encontrar
formas eficazes de envolver seu amigo.
Inicialmente, com um diálogo entre eles: por um
momento se forma um subgrupo dentro do grupo,
mas gradualmente os argumentos e atitudes de
Federico atraem a atenção de outras crianças.
Federico - que é um defensor da tese de que todas
as coisas no mundo têm uma voz e falam a sua
própria língua e sabem entendê-la - diz em voz alta:
"Precisamos de um exemplo." Pega uma concha em
uma prateleira do atelier, leva-a até seu ouvido e, em
seguida, a aproxima ao ouvido de Momi, que ouve
com atenção e sorri.
Tentamos entender o que aconteceu de
extraordinário na escolha estratégica adotada por
Federico: em primeiro lugar, se colocou o problema
(ético) por estar mais próximo de seu amigo; mas
também deu um salto conceituai que, partindo de uma
tese teórica (todas as coisas têm uma voz), levou-o a
escolher um objeto - aquele objeto e não um outro -
que realmente se aproximando do ouvido fala com a
voz do mar. Portanto, faz uma demonstração
empírica, palpável, de sua teoria para todo o grupo.
Mas não só isso: primeiro a aproxima de sua
orelha, depois oferece a voz da concha à escuta de
Momi. E impressionante observar o olhar das duas
crianças, sua escuta e sua relação com o contexto.
Talvez uma pequena história como esta possa
colocar perguntas e ajudar-nos a refletir sobre como as
crianças aprendem e como constroem conhecimento e
sobre a relação entre ensino e aprendizagem.
102
Cada criança, com tempos e maneiras pessoais
que nem sempre podem ser programadas, pode nos
ajudar a refletir sobre como as crianças aprendem.
Isso nos dá um testemunho, eupenso, de como o
grupo é, ele mesmo, contexto fundamental de
aprendizagem; "com a convicção de que - como escreveu
Carla Rinaldi - o processo de aprendizagem é, certamente,
um processo individual, mas uma vez que as razões, as
explicações, as interpretações e os significados dos outros
são essenciais para a construção de nosso conhecimento, ele
é também um processo de relacionamento, um processo
criativo, um processo de construção social. "
O problema é: como podemos no dia a dia
construir a nossa imagem da criança? Como e onde
obter os dados?
E preciso uma capacidade de investigação que
saiba aguçar ao máximo os significados e técnicas de
observação, documentação e interpretação dos
processos de aprendizagem das crianças e de cada
criança em particular.
A documentação, se for feita e usada durante a
experiência, toma visível, ainda que parcialmente, as
estratégias cognitivas utilizadas por cada menino ou
menina: é, portanto, não apenas documentação de
produtos, mas também documentação de estratégias e
de processos; porque não é nossa tarefa nem nosso
objetivo anular diferenças, mas ouvir, dar valor e
visibilidade à qualidade das diferenças.
Se a documentação nos ajuda em tudo isso, os
documentos que produzimos são para nós, para a
nossa profissão, um instrumento indispensável de
103
conhecimento, de formação profissional, de auto-
avaliação e de avaliação individual e coletiva das
experiências.
São documentos que esboçam, escrevem e fazem
memória da história do grupo e eles assumem várias
formas: as paredes da escola dão visibilidade aos
protagonistas da experiência; em forma de livreto,
publicação, caderno individual... saem da escola para
entrar nas casas das crianças.
É importante que estes documentos sejam
presenças vivas, sempre visíveis e disponíveis para
consulta autônoma das crianças, porque eles podem
ser uma das maneiras que elas têm para percorrer um
percurso feito, para refletir sobre os significados do
que viveram e sobre as maneiras como aprenderam.
Muitas vezes, são sinais palpáveis de sua
aprendizagem e crescimento; traçam um fio de
memória que dá visibilidade ao presente, retém o
passado e abre o futuro.
São documentos disponíveis também para
consulta das famílias, às vezes atravessam o tempo e
traçam o percurso da experiência que cada criança em
relação ao grupo ...
Aqui está outra história breve, os diálogos entre
Enrico e a cor, uma viagem ao interior desta pintura
de um menino de três anos:
"Eu fiz o 1 e agora saiu um circuito ...Oh sim, eu tive a ideia
de fazer um circuito: com o preto não deu ...
"Olha, o verde!... É um bichinho... O "bichinho dos cavalos"
... Olhe onde foi parar!
104
"Eu fiz um alaranjado escuro claro ...
"Tente pintar de verde com laranja: fica azul! Azul ... um
bichinho azul?
"Agora eu faço ondas porque há toda a água do mar, vê? ...
"Oh! Veio uma luz toda branca e agora chegou, uma luz azul
... O bichinho dos cavalos sai lá do início e vai pra dentro do
mar... "
Essa pintura é absolutamente semelhante a muitas
realizadas por crianças desta idade, mas o que explica
ao professor e aos pais, o produto em si (na verdade,
qualquer produto)?
Usar o tempo (sabendo que é um luxo que nos
atribuímos) para observar não só o quê, mas também
o como pode nos ajudar seguramente a conhecer
melhor o Enrico, suas formas de construir
relacionamentos, para dar forma à sua língua, às suas
linguagens. Mas também para fazer perguntas, por
exemplo, sobre as múltiplas inter-relações entre signo,
cor e narração. Também nos dá valiosas indicações de
trabalho, por exemplo, sobre como planejar e
organizar futuras experiências de cor: que gama de
cores, como propor brincadeiras de variações e
transformações de cor, e assim por diante.
Observamos, documentamos, tentemos refinar o
olhar: como as crianças interpretam essa nossa
maneira de "ser professores"? Que significados
atribuem ao ato de documentar? Como sempre, nos
ajuda tentar conhecer e escutar seu ponto de vista, o
que proponho através de um breve trecho de algumas
frases de uma longa conversa sobre este assunto, feita
com crianças de cinco anos:
105
Professor: Vocês nos veem fazer anotações, escrever,
tirar fotos ... por que fazemos isso, vocês acham? Para que
serve isso?
Para entender melhor o que fazemos...
Para melhor se lembrar de como foi feito o
homenzinho ...
Compreensão e memória são, na verdade, dois
elementos intrínsecos ao fato de observar e
documentar...
Para lembrar por onde uma criança começou ...
Para saber como nós fazemos, uma vez que o
gravador ouve as palavras, mas não vê as imagens ...
As crianças parecem intuir que a documentação
não é apenas uma coleção de imagens, mas algo que
nos ajuda a captar e dar valor a diferentes
subjetividades...
Assim se entende que ao final de tudo eles os
veem já cozidos ... [refere-se a figuras de barro cozidas
que representam homenzinhos (nota do tradutor para
o catalão)].
E verdade que os sinais que recolhemos durante a
experiência são o que nos permite confrontar-nos com
os colegas, formular outras interpretações, ir além da
aparência dos produtos...
Professora: Desculpem, mas vocês acham que
devemos fazer as observações que eu fiz para todas as
crianças, por exemplo, para a Silvia e o Daniel? Não
bastam esses, se já se sabe como constroem os
homenzinhos?
106
Bem não! Porque você não sabe o que os outros
fazem, por onde começam! Um começa por um lugar,
outro, por outro lugar ... E você, como é que você faz
para saber por onde começam todos os outros? Não há
uma única maneira!
As crianças, se sabem ouvir, se lembram de
muitas maneiras que cada indivíduo é diferente do
outro e, portanto, tem direito a ser escutado, a ofertas
e propostas diferenciadas...
Veja você pois assim ensina às outras crianças
como fazê-lo ... porque nós também sabemos algumas
coisas, e, então você também pode aprender.
Aprender a ensinar, este é o nosso dever perene e
difícil: aprender a aprender ao longo da vida, um
direito que temos de assegurar às crianças, além de
garantir a nós mesmos.
E agora, para concluir este ponto, uma história
final, outra forma possível de documentação: a
história de um dos momentos de despedida de um
grupo de crianças e famílias que terminam a sua
experiência de três anos na escola infantil.
30 de junho: último dia de escola infantil
Combinamos que no último dia, as crianças que
no ano seguinte entrariam para o ensino fundamental
passariam a noite juntos na escola onde eles tinham
passado três anos.
Às 19 horas, chegam à escola para passar uma
noite juntos, cada um com sua mochila; seu conteúdo
é uma história que conta como cada menino e cada
1 07
menina se preparou para uma aventura cheia de
expectativas, desejos, mas também medo.
A emoção dos pais é igual se não superior à das
crianças; para muitos é a primeira vez que seu filho
passa uma noite "longe de casa". Irmãos e irmãs
menores aceitam não ser, desta vez, parte do grupo,
pois esta é uma aventura dos grandes!
Além disso, primeiro, vamos para um passeio ao
centro da cidade... à noite tem um aspecto diferente....
Jantamos em uma pizzaria no centro ... Descobriram
uma Reggio desconhecida, não apenas porque é noite,
mas porque a redescobrem com os amigos.
As pessoas, curiosas, nos param, perguntam quem
somos e o que fazemos na cidade à noite. Um garoto, a
quem as crianças param para perguntar se ele vive na
casa de onde ele parece sair, responde educadamente
e nos recebe no seu jardim.
Mas agora é hora de voltar para a escola, nossa
escola, mas os cheiros, os barulhos e a atmosfera à
noite são diferentes.
Fazemos uma atividade familiar: preparar o
quarto para dormir (que não será apenas o breve
repouso pós almoço).Das mochilas saem lanternas
que ajudam a superar alguns medos, especialmente
dos cantos escuros do parque.
O sexto aniversário de uma criança toma-se, em
certo sentido, o aniversário de todo o grupo, há um
clima de grande alegria e excitação; depois, de
maneiras e com tempos diferentes, nos preparamos
para enfrentar a noite e esperar o novo dia.
108
Eu escolhi concluir a minha intervenção com esta
história da vida cotidiana, extraordinária em sua
normalidade, para lembrar que cada um de nós
constrói sua identidade na relação; para afirmar que
também a alegria, o bem-estar, o fato de estar bem
com nós mesmos e com os outros, são elementos
necessários para a construção de qualquer
aprendizagem. Mas não só isso: são, sobretudo,
elementos indispensáveis para manter vivo um
sentimento de confiança e otimismo que é das crianças
e pelo qual devemos nos sentir responsáveis e
copartícipes.
109
A documentação como uma ferramenta para dar
valor ao relacionamento entre as crianças nas
experiências cotidianas compartilhadas na escola da
infância
Gloria Tognetti
A escola da infância se caracteriza por ser uma
comunidade de meninas e meninos que compartilham
experiências entre eles e com os educadores,
experiências intencionalmente programadas com um
propósito educacional e que depois alcança as
famílias, a fim de promover uma cultura renovada de
educação e de infância.
Na elaboração de um projeto educacional, as
possíveis teorias de referência com relação à
interpretação do desenvolvimento das crianças,
podem ser múltiplas e variadas, mas é importante
identificar um horizonte teórico de referência para
interpretar aquilo que observamos e documentamos e
para orientar de maneira eficaz a ação educativa.
Vemos, em seguida, muito sinteticamente
algumas das perspectivas presentes no decorrer da
formação de gerações de educadores:
- Perspectiva construtivista (Piaget), que segue a
descrição da criança que constrói a sua experiência em
uma dimensão de relação com objetos primeiro e
111
sucessivamente por meio da representação mental dos
objetos ("ações internalizadas"). Alguns autores, como
Carugati (1977), descrevem a criança de Piaget como "
ativo construtor solitário" do próprio
desenvolvimento;
- Perspectiva Sódo-Construtivista (Bronfenbrenner,
1979), no que diz respeito ao desenvolvimento, coloca
em primeiro plano a relação entre indivíduo e
contexto e os processos de "co-construção" entre vários
colegas significativos, sejam adultos ou outras
crianças. Lembremos o que se entende por contexto,
tema importante para os estudiosos no âmbito dessa
perspectiva, para ir além da equação contexto=
ambiente, um contexto é descrito, em primeiro lugar,
como construído pelas pessoas que aí "vivem", pelos
objetivos, ações e histórias das pessoas, como um
sistema social, além do ambiente físico que muda ao
longo do tempo, como mudam as pessoas.
Lembremos as referências ao contexto de
Bronfenbrenner que muito orientaram nosso projeto
dos contextos, o microssistema da escola da infância e
sua relação com a família ...
- Perspectiva Sociocultural (Bruner 1990, Rogoff
1990), que coloca o foco no componente cultural para
compreender os processos de desenvolvimento social
e cognitivo. "Nesta perspectiva, o desenvolvimento
das crianças encontra sua explicação na vida social e
cultural que as rodeia, é capaz de explicar como um
indivíduo avança na construção de uma visão da
realidade que seja comum, interpessoal e
culturalmente produzida e compartilhada ... Cultura
112
que cabe submeter à análise de significados que em
cada comunidade as pessoas negociam e
constroem."(Molinari, 2002, p. 31).
Cabe lembrar também como um desenvolvimento
desta perspectiva, os estudos de Corsaro (1997) e o
modelo da "teia de aranha". "Os campos institucionais
(os fios da rede) constituem estruturas dinâmicas e
estáveis sobre os quais as crianças tecem suas teias que
permitem o fluxo contínuo de informações e
mensagens culturais" (Molinari, 2002, p. 49).
De todas estas perspectivas derivam conceitos
importantes aos quais nós referimos muitas vezes
quando interpretamos os múltiplos aspectos da
profissionalidade docente.
O conceito de andaimes ou estrutura de apoio, ou
seja, a maneira pela qual um sujeito mais competente
ajuda a criança a organizar seus próprios
comportamentos e a participar nas sequências
interativas mais competentes.
O conceito de formato (Format) Bruner ou
moldura (frame) (Kaye), ou seja, formas estruturadas
de interação social, propostas primeiro pelo adulto e,
em seguida, ativamente controlado pela criança.
O conceito de zona de desenvolvimento próximo
(Vygotsky), identificado como a distância entre o nível
atual de desenvolvimento e o nível de
desenvolvimento potencial, ou seja, as habilidades que
podem ser implementadas em interação com um
parceiro mais competente.
O conceito de conflito sócio-cognitivo - conflito de
comunicação que se estabelece entre colegas mais ou
113
menos competentes (Doise e Mugny, 1981) - que
promove o progresso cognitivo individual
produzindo uma mudança - a construção comum de
uma resposta - por meio do confronto entre diferentes
pontos de vista.
Assim, cada modelo organizativo e os projetos
educacionais que eles envolvem estão impregnados de
teoria - estejamos ou não conscientes disso, sejamos
capazes de explicitá-las ou não - e queremos enfatizar
que a qualidade de um projeto é alimentada com a
capacidade, da parte de quem o prepara, de assumir
plenamente a responsabilidade educativa de preparar as
necessidades contextos capazes de acolher diferentes pontos
de vista, e de reconhecer a cada protagonista a mesma
dignidade de ser competente e "diferente", procurando o
melhor equilíbrio entre vínculos e possibilidades.
Aqueles que se ocupam da educação das crianças
se exige flexibilidade e disponibilidade para mudança.
Os modelos impermeáveis às contínuas mudanças,
que as próprias crianças muitas vezes propõem,
servem, em geral, apenas aos adultos, que escolhem
situações confortáveis onde se confirma um
conhecimento e uma maneira de agir habitual e
confortável, mas que não é capaz realmente de acolher
o ponto de vista das crianças e sua contribuição
construtiva para os processos de desenvolvimento:
"A adoção de uma imagem forte, rica e potente de
infância exige uma transformação correspondente do
papel do adulto em uma direção em que sua ação
esteja focada muito mais na organização dos contextos
estruturais do que nos estímulos dirigidos à ação das
114
crianças, muito mais na capacidade de
reconhecimento e de expansão da diversidade de
estilos de comportamento das crianças do que no
desejo de levá-las a ações precisas e pré-definidos,
muito mais na atenção ao processo de atuação como
expressão de uma estratégia evolutiva do que na
tentativa equivocada de enquadrar o estágio de
desenvolvimento alcançado no âmbito de supostos
parâmetros gerais " (Fortunati, 2006).
O ponto de vista sobre as crianças
Para aceitar a contribuição original do
pensamento das crianças é preciso ter uma grande
confiança nas potencialidades das crianças e saber
representa-la entre os educadores, as próprias
crianças, aos pais...
É importante voltar a focar o ponto de vista dos
educadores sobre o que as crianças juntas são capazes
de fazer, adotando simplesmente uma atitude
heurística, ou seja, de curiosidade em relação à
qualidade e às características das relações, inclusive
dedicando tempo para aprofundar a capacidade de
observar as interações entre crianças de diferentes
idades e de mesma idade, as interações de dupla ou
pequenos grupos e de experiências cotidianas
compartilhadas por todo o grupo.
Para fazer isso, mesmo admitindo que a escolhaesteja mais orientada à descoberta que não seja
intencional e consciente (porque já foi compartilhada e
amadurecida nas idéias e nas expectativas de quem
115
produziu o projeto), é necessário verificar que o
contexto seja adequado ao objetivo que se coloca, cabe
levantar hipóteses, experimentar, interpretar a
experiência com novos elementos que surgem,
remodelar o projeto.
O contexto
Na verdade, se se reconhece valor - em termos de
potencialidades orientadas a processos de
desenvolvimento compartilhado - às relações entre
crianças, inclusive de diferentes idades, é necessário
elaborar o projeto do contexto de modo que favoreça
as relações e lhes dê suporte.
E um erro pensar que "basta colocar juntos as
crianças para que aprendam a estar com os outros sem
que haja qualquer pensamento adulto que organize e
predisponha as condições desse estar juntos"
(Molinari, 2002, p. 13).
Se sabemos que não é suficiente proporcionar às
crianças um espaço para estar, para que esta situação
possa ser considerada como orientada a incentivar
relações significativas, o educador - ou grupo de
educadores - deve elaborar e compartilhar escolhas
que traduzam concretamente idéias e / ou expectativas
sobre O que pode acontecer em cada situação.
Perguntar sobre quais elementos do contexto
podem intervir e como reprojetar, por exemplo, o
espaço e o tempo das experiências que aconteçam na
dimensão social de um grupo de crianças, ou seja
como toma-lo capaz de corresponder aos anseios e às
116
necessidades de exploração das idades representadas,
é um exercício que exige explicitar o ponto de vista
dos educadores sobre as necessidades de exploração e
sobre os processos de conhecimento que caracterizam
os primeiros anos de vida. Perguntemo-nos, por
exemplo, de que uma criança de seis meses precisa?
Quanto de silêncio? Quantos estímulos? Em situações
de exploração e jogo deve-se privilegiar a relação com
o adulto ou a relação com outros bebês da mesma
idade, ou com os de um ou dois anos? Todas essas são
relações importantes? O que as caracteriza e toma
cada uma especial e insubstituível? O que é
importante nas fases típicas do desenvolvimento do
segundo ano? A pessoa que tem um comportamento
intrusivo e inadequado no jogo simbólico, que papel
tem? Nós não oferecemos respostas, mas os
educadores precisam continuar fazendo perguntas e
buscando respostas, não às cegas, mas observando as
crianças.
Sustentar as relações
A reconstrução narrativa do que acontece entre as
crianças e com as crianças - ou seja, com uma atenção
aos processos interindividuais e intraindividuais - é
uma das funções mais importantes do educador, pois
assim se consolidam os significados compartilhados e
enquadramento cultural e de regras onde os
significados tomar forma.
A relação não se identifica com o simples contato
e, para isso, a atitude que o adulto adota é crucial
11 7
(promovendo a auto regulação, em vez do controle,
pensando que as crianças são gradualmente mais
conscientes em vez de conformistas, pensando que
elas são mais criativas sem que isso implique uma
atitude de prevaricação). Isto é se constitui por meio
do modo como os professores se relacionam com as
crianças - por meio das palavras que eles usam para
descreve-las (pequeno / grande; bom / não bom;
capaz / incapaz ...), por meio dos significados
atribuídos aos gestos (agressividade / aceitação;
rejeitar / acolher; castigar/ recompensar ...) - e
restauram ao grupo o sentido do que acontece e a cada
um a própria parte no processo de tecer a trama de
uma história compartilhada.
As pesquisas em psicologia nos dizem que os
adultos, em geral, tendem a subestimar as habilidades
das crianças em idade pré-escolar, mas a relação diária
com elas deve ser capaz de levar o educador para
além dos estereótipos e dos preconceitos relacionados
à idade nas expectativas sobre os comportamentos das
crianças e nas atitudes educativas que devem ser
assumidas.
"Ser socialmente competente significa saber
aplicar a situações diferentes as capacidades
relacionais de que se dispõem e as regras ou
estratégias conhecidas" (Molinari, 2002, p. 133).
Devemos lembrar esta afirmação quando observamos
o comportamento das crianças pequenas e os níveis de
competência que se mostram nas relações que
acontecem nas experiências cotidianas em contextos
que explicitam suas próprias regras, de modo que as
118
tomam acessíveis - em termos de compreensão para
os que vivem nesses contextos e que são capazes de
motivar as crianças a expressar suas habilidades,
porque elas sabem que serão bem-vindas.
Qual é a atitude diante das tentativas de
comunicar interesses através de gestos ainda pouco
refinados? Experimentar os modos que eles dominam
para comunicar o próprio interesse para o outro é a
expressão de uma competência? Tolerar a intrusão de
um parceiro, porque ele é pequeno, o que significa?
Engatinhar até o castelo acabado de construir por
colegas de turma e atirar-se sobre ele, o que significa?
Lembramos que, já desde a experiência
montessoriana - turmas heterogêneas como contextos
nos quais as crianças podem experimentar diferentes
papéis e alimentar o desenvolvimento de habilidades
sociais e cognitivas -, uma reflexão sobre as
responsabilidades do professor no oferecimento de
espaço para as relações entre crianças de idades
diferentes não pode prescindir de algumas perguntas
e das respostas que se pode elaborar precisamente a
partir das experiências que ocorrem numa escola da
infância.
Qual é a abordagem que se faz frente às diferenças
individuais presentes em um grupo de crianças? As
crianças expressam diversidades pode se pode
relacionar com a idade cronológica, mas também com
os diferentes processos individuais de crescimento em
um grupo da mesma faixa etária.
Em qualquer caso, essas diferenças requerem que
o professor interaja com cada criança e com o grupo,
119
tendo em conta as diferentes competências de cada
um, em particular no que diz respeito aos níveis de
autonomia e às zonas desenvolvimento próximo
observadas. Essas são informações que podem
orientar a intervenção educativa em todas as situações
da experiência.
Se o professor se situa no grupo que compartilha
este ponto de vista, observará que acontece o mesmo
entre crianças de diferentes idades, e as relações que
se formam dentro do grupo expressam, em primeiro
lugar, interesse pela diversidade, mas também uma
capacidade precoce de "reconhecimento" da diferença,
de descentralização, da adaptação não-conformista,
mas orientada para a confrontação, que tem forte
valor evolutivo para os diferentes sujeitos ativos na
relação, para os mais competentes, para os menos
competentes.
Qual é a finalidade da ação educativa? Certamente
não treinamento relativo ao desempenho considerado
adequado em relação à idade da criança através do
ensino, mas sim a gama de possíveis percursos de
conhecimento dentro dos quais o professor "detém" os
processos de exploração, de busca de sentido, de
compreensão e de conexão criativa que as crianças
experimentam ativamente e, muitas vezes,
compartilham em pares e em pequenos grupos.
Portanto, se o que temos é uma forte consciência
do valor da interação entre pares nos processos de
desenvolvimento, o educador deve ser capaz, em
primeiro lugar, a abandonar a sua centralidade e
integrar-se às situações com uma atitude que
120
possibilite proporcionar espaço e tempo ao desejo de
proximidade e de descoberta entre as crianças:
- às relações exploratórias e de imitação e às
relações complementares e cooperativas,
- aos primeiros conflitos sócio cognitivos,
- às tentativas de comunicação que falhar e ao
desejo de tentar novamente.
Devo fazê-lo de modo intencional, mantendoum
olhar participativo e interessado em tudo o que
acontece, capaz de promover - sem interferir - a
evolução dos intercâmbios a níveis mais elevados de
competência.
Certamente, o potencial cognitivo e de exploração
das crianças requer contextos apropriados para
expressar-se e multiplicar as oportunidades que a
dimensão social das relações múltiplas, mas não
ocasionais, pode proporcionar.
Os microprocessos, muitas vezes silenciosos, mas
refinados, que acontecem entre as crianças em uma
vida diária comum, requerem atenção e sensibilidade
adultas capazes de promovê-los, apoiá-los e
acompanhá-los respeitando os tempos, as
modalidades e as linguagens das próprias crianças.
Como Loris Malaguzzi disse: "A palavra não está
lá, mas ela é transformada e flui entre as crianças com
um fluxo secreto que garante a continuidade do
diálogo e da reciprocidade, do sentir-se vivos,
escutados, compreendidos ... Olhe-os no rosto, nos
olhos, nas mãos, porque é ali onde nascem as palavras,
as ações, os sentimentos, o sentido do que eles fazem."
121
Portanto, renunciar a um protagonismo excessivo
por parte do educador significa projetar as
experiências que se articulam no tempo, para que
coloquem à disposição dos meninos e das meninas
contextos organizados para promover o encontro, a
relação e o compartilhamento, e limitar as propostas
muito estruturadas ou excessivamente orientadas a
um resultado ou a um produto.
Isso significa assumir a responsabilidade por
definir o contexto - onde, que grupo de crianças, que
materiais, quando, para quê, qual atitude do adulto,
com que instrumentos de documentação - e ter claro
qual o papel que se quer interpretar, referindo-se aos
conceitos de direção, mediação, reconhecimento,
promoção ...
Então, referindo-se a um contexto numa acepção
complexa: "alguém escreveu que o contexto deve ser
como um aquário onde se refletem e convivem em
equilíbrio idéias, moralidade, atitudes e culturas de
todos os que aí vivem" (Loris Malaguzzi).
Isso não significa desistir da identificação de
objetivos, mas significa ter a consciência de que os
processos individuais e interindividuais de
desenvolvimento podem ser diferentes, que não
necessariamente estão condicionados pela relação
direta com o adulto e que manter no centro a ideia das
crianças como um recurso que enriquece e
complexifica positivamente e introduz leituras
inesperadas das possibilidades oferecidas -
orientando o percurso para direções não previstas
122
pelo adulto - e pode ser um estímulo eficaz para a
descoberta de significados novos e originais.
Compartilhar as experiências com crianças sem
obscurecer as tramas de relações que ganham vida e as
potencialidades que daí derivam é uma arte e é uma
arte encontrar as palavras para descrevê-las sem trair
o seu valor.
Uma estudiosa italiana convidou-nos a refletir
sobre o fato de que "a sociabilidade, diferente do
conhecimento é um produto que não pode ser visto
em um trabalhinho que se leva para casa para mostrar
aos pais; portanto, dá menos satisfação e é mais difícil
toma-la um objeto consciente da atenção educativa, e
ainda assim, isso é precisamente o que deve acontecer
"(Molinari, 2002).
Precisamente porque o desenvolvimento social
não aparece no produto final de uma atividade, a
observação e a documentação são estratégias
fundamentais para restaurar o valor de tudo o que
acontece entre as crianças na experiência cotidiana na
escola da infância.
O objetivo da observação e da documentação é,
portanto, registrar e construir a memória para
compartilhar, primeiro com as famílias, o
protagonismo das crianças nas relações e, através
delas, os processos originais de desenvolvimento de
suas possibilidades.
Quando a linguagem verbal de crianças ainda não
está presente ou está em sua forma inicial, o professor
tem que exercitar, ainda mais, sua capacidade de
compreender os significados das ações -das atitudes -
123
e encontrar as palavras para interpretá-las e descreve-
las, respeitando os seus significados.
A documentação nos permite dar visibilidade e
reconhecimento ao que acontece no contexto
educativo, em uma perspectiva que explicite a
conexão entre os processos de crescimento individual
e a dimensão social que alimenta e sustenta esses
processos, a comunicação não-verbal que acontece
como pesquisa de contato, as palavras que esclarecem
- para nós mesmos e para os outros- significados e
sentidos da ação, das quantas coisas que as crianças
podem e sabem fazer juntas, não do ponto de vista da
necessidade de compartilhar espaços, objetos e afetos,
mas do ponto de vista do valor de ser iguais e
diferentes em processos de crescimento e de
descobertas compartilhadas.
Para os educadores, o costume de construir
"memória" de tudo aquilo significativo que acontece
nas experiências com as crianças permite alimentar
uma discussão sobre o assumir responsabilidades, a
fim de interpretar e de documentar "eventos"
significativos em relação aos pressupostos do projeto e
as expectativas sobre os processos de crescimento de
cada criança e das crianças em uma dimensão social
de grupo.
Em particular, a documentação pode ajudar:
A avaliação permanente das situações e
experiências oferecidas às crianças em termos de
solidez da organização, em relação tanto com as
124
características do contexto como com o grupo de
crianças;
- A leitura dos processos que se formam nas
experiências e a capacidade, por parte dos educadores,
para acompanhar esses processos com escolhas
apropriadas de organização educativa, de apoio e de
promoção do protagonismo das crianças.
E importante que os educadores sejam capazes de
interrogar-se, utilizando também a documentação,
sobre como a escolha dos projetos e seu
funcionamento favorece a autoregulação, em vez de
controle; transmite a ideia de crianças
progressivamente mais conscientes, em vez de
conformistas; mais criativas em vez de em busca de
afirmação através de atitudes de transgressão; como as
palavras que eles usam para descrevê-las (pequenos /
grandes; bons / não bons; capazes / incapazes) e os
significados atribuídos aos gestos (agressão /
aceitação; rejeição / acolhimento; punição /
recompensa) reconstitui para o grupo o sentido do que
acontece e a cada um reconstitui a própria
participação no tecer da trama de uma história
compartilhada.
A documentação possibilita observar e avaliar.
- A pertinência nas modalidades e escolha dos
tempos, para não se sobrepor às relações entre as
crianças e não substituí-las com a introdução de um
ponto de vista assimétrico em termos de poder, mas
tentar respeitar a interpretação que as crianças fazem
125
sobre o que acontece, com o objetivo de sustentar sua
continuidade e evitar a fragmentação;
- A sensibilidade educativa e a capacidade de
espera, para não dar respostas e soluções nas fases em
que as crianças ainda estão experimentando um ajuste
gradual entre elas na busca de um entendimento
mútuo, por vezes, com muitas dificuldades, com
relação a como compartilhar espaços, objetos,
significados;
- O reconhecimento dos modos de interação
significativos, para não interromper o fluxo de atenção
que pode se evidenciar na observação cuidadosa e
interessada da ação de um colega mais experiente ou
na intervenção em tentativas um pouco ingênuas de
um colega para oferecer um motivo de ação - um
ponto de vista - mais elaborado, mas adequado e
compreensível em termos de zona de
desenvolvimento próximo;
- A contenção da inquietação em relação à
comunicação gestual e corporal que as crianças
apresentam, evitando interpretações precipitadas das
intenções ainda não expressas plenamente, e
sobretudo, quando a interação não tenha terminado.
O material documental elaboradocom esses
pressupostos que apresentamos até agora, pode
sugerir propostas interessantes para quem está
investigando métodos de trabalho educativo que
querem colocar no centro não só a questão das
potencialidades individuais, mas também a leitura de
sua expressão nas experiências que acontecem no
126
encontro diário entre crianças, tentando entender o
passo importante dado na perspectiva de alguns
estudos sobre as relações entre as crianças que
"consiste em perguntar-se não quais capacidades
individuais tomam possível a interação social, mas
sim quais capacidades individuais se tomam possíveis
graças à interação social" (Camaioni, 2002).
Referências
BRONFENBRENNER, Urie. The Ecology of Human
Development. Harvard University Press, Cambridge
MA, 1979. (A ecologia do desenvolvimento humano.
Artmed Editora, Porto Alegre, 1996).
BRUNER, Jerome. Acts o f meaning. 1990 (Atos de
significação. Porto Alegre: Artmed, 1997).
CAMAIONI, Laura; Dl BLASIO, P. Psicologia dello
sviluppo, Bologna: II Mulino, 2002.
CARUGATI, Felice; SELLERI, Patrizia. Psicologia
sociale delVeducazione. Bologna: II Mulino, 1996 .
CORSARO, William A. The sociology of chilãhood. Pine
Forge Press, Newbury Park, CA, 1997. (Sociologia da
infância. Artmed Editora, Porto Alegre, 2011).
DOISE Willem et MUGNY Gabriel. Le Développement
Social de Vintelligence. Paris : InterEditions, 1981.
FORTUNATI, Aldo. Ueducazione dei bambini come
progetto delia comunità. Edizioni Junior, Azzano San
Paolo, 2006. (A educação infantil como projeto da
comunidade: crianças, educadores e pais nos novos
127
serviços para a infância e a família: a experiência de
San Miniato. Artmed Editora, Porto Alegre, 2009)
MOLINARI, E. Clinica psicológica in sindromi rare -
Aspetti genetici riabilitativi. Torino: Bollati Boringhieri,
2002.
ROGOFF, Barbara. Apprenticeship in thinking -
cognitive development in social context. N Y: Oxford
University Press, 1990.
128
NOTAS SOBRE OS/AS AUTORES/AS
Ana Lia Galardini e Sonia Iozzelli. Pedagogas. Há
mais de 30 anos que colaboram e trabalham em defesa
do direito à educação de todas as crianças. Duas
pessoas dedicadas ao seu trabalho, que amam a escola
e lutam por ela, e que durante esses anos ajudaram a
fazer de Pistóia uma cidade educadora.
Ana Lúcia Goulart de Faria. Professora da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/
Campus Campinas), e membro do Colegiado de
doutorado da Universidade de Milão Bicocca.
David Altimir é professor em uma escola na cidade
de Vic e durante sua formação trabalhou no município
de Reggio Emilia, na Itália. Foi coordenador da
Associación de Maestros Rosa Sensat de Barcelona,
escreve no blog desta associação e participa
ativamente com vários artigos da revista Infância.
Publicou o livro "Como escuchar a la infancia"
Gloria Tognetti (Saudosa). Psicóloga. Foi diretora do
Centro de Pesquisa e Documentação sobre a Infância
"La Bottega di Geppetto" (A Oficina de Gepeto), em
San Miniato, dedicada ao desenvolvimento de
políticas a favor das crianças e das famílias. Também
129
foi responsável pela formação das educadoras das
creches municipais.
Mara Davoli. Especialista em arte, trabalhou durante
35 anos como atelierista na Creche/Pré-escola Pablo
Neruda, de Reggio Emília. Atualmente colabora na
formação de professores, educadores e atelieristas
iniciantes.
Maria Carmen Silveira Barbosa. Professora da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.
Porto Alegre/RS
Mariano Dolci. Dentre suas inúmeras e diversificadas
atividades com marionetes e bonecos no teatro,
hospital psiquiátrico, observatório de Física, prisão,
ele dirigiu por mais de 30 anos o Laboratório de
animação de Reggio Emilia. Foi da equipe de Loris
Malaguzzi na formulação das políticas e pedagogias
para creches e pré-escolas de Reggio Emilia sempre
voltado para as linguagens expressivas em contexto
não teatral. Atualmente aposentado continua a fazer
oficinas principalmente de bonecos para a formação
de professores e professoras de creches e pré-escolas.
Meritxèll Bomàs Solé foi professora e diretora da
escola pública de educação básica El Martinet. Está
muito comprometida com a questão do corpo na
escola, da documentação pedagógica e com outras
discussões de inovação na escola. Podemos encontrar
maiores informações dessa experiência em
130
www.amicsdelmartinet.cat e em vídeos no YouTube
como: 30 minuts: una altra escola_CEIP El Martinet.
Suely Amaral Mello. Professora da Universidade
Estadual Paulista (UNESP). Campus de Marília.
131
Documentação pedagógica: teoria e prática
DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA:
I.null
II.null
IV.null
Documentar processos, recolher sinaisnull
Que instrumentos?null
A documentação, instrumento de estudo e de comunicação
Afinando os olhos para captar momentosnull
A escolha do foco: o que queremos documentarnull
A arte do pintor de paisagens Algumas reflexões em tomo da documentação
Os significados da documentação
Documentando para as crianças
Documentar para as famílias
Documentar para a comunidadenull
Documentação como argumentação e narração: dar visibilidade e forma aos processos na vida cotidiana
30 de junho: último dia de escola infantil
infância
O ponto de vista sobre as crianças
O contextonull
A documentação possibilita observar e avaliar.