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Prof. Dr. José Ribamar da Silva Júnior
Prof. Adjunto IV Anestesiologia Veterinária / DCVET/CCA/UEMA
São Luís- MA
2017
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ELETROCARDIOGRAMA
O Eletrocardiograma (E.C.G.) é o registro extracelular das variações do
potencial elétrico do músculo cardíaco em atividade. As ondas de despolarização e
repolarização que se propagam ao longo das fibras cardíacas podem ser consideradas
dipolos em movimento como momentos dipolares variáveis. Estes dipolos determinam
campos elétricos variáveis que podem ser detectados pela medida da diferença de
potencial através de eletrodos colocados na superfície cutânea.
1. HISTÓRICO
Os primórdios do estudo da fisiologia cardíaca, feitos por William Harvey em
1616, correlacionavam o batimento cardíaco com a circulação sangüínea, porém só em
1887 Augustus Waller registrou pela primeira vez o potencial elétrico cardíaco a partir
da superfície corpórea, sendo o primeiro a usar o termo eletrocardiograma. A partir daí,
outros estudiosos como Eithoven e Nürr desenvolveram novos aparelhos para registro
da atividade elétrica cardíaca e conceitos na eletrocardiografia, passando a ser utilizada
como auxílio no diagnóstico. Em 1949, Lannek efetivou um estudo sistemático dos
registros em cães saudáveis e doentes, introduzindo um sistema de derivações pré-
cordiais (Tilley, 1992; Ferreira et al., 1998).
Inventado no início do século XX (1902) pelo cientista holandês Willem
Einthoven, o eletrocardiógrafo, por definição, é um aparelho (voltímetro) que capta o
potencial elétrico gerado pela atividade cardíaca que se propaga até a superfície do
corpo, convertendo-a num registro gráfico da amplitude em função do tempo, o qual se
denomina eletrocardiograma (Ferreira et al., 1998). O aparelho criado por Einthoven, na
verdade era um galvanômetro de corda, onde o paciente não mantinha contato direto
com o equipamento. O exame era feito com a imersão parcial de suas extremidades
numa solução salina contida em três grandes cubas, com estas conectadas por fios à
máquina.
Os dois antebraços e a perna esquerda, que ficavam imersos na solução
condutora durante o exame, representam os vértices do “triângulo de Einthoven” em
cujo centro se situa o órgão cardíaco. Desta forma, os potenciais gerados pelo coração
durante o ciclo sístole-diástole (contração/relaxamento) podem ser registrados
aplicando-se eletrodos em diferentes posições do corpo. Na prática, existem locais
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padronizados onde os eletrodos de registro são colocados, de acordo com orientações
pré-estabelecidas. Na realidade, o que se mede é a diferença de potencial elétrico entre
dois pontos no campo elétrico gerado pelo dipolo elétrico cardíaco ao longo do ciclo
cardíaco. Os pontos de medida são escolhidos e padronizados, originando as várias
derivações.
Com o avanço da medicina a eletrocardiografia computadorizada tem
apresentado maior acurácia em relação ao método convencional, conforme citam
Shiwen et al. (1996), pois a mensuração computadorizada da ECG detecta leituras de 1
milissegundo, enquanto na convencional a leitura só pode ser feita a partir de 5
milissegundos, com papel em velocidade de 100 mm/s.
2. INDICAÇÕES E LIMITAÇÕES
O eletrocardiograma (ECG) constitui um método pouco oneroso, não-invasivo e
prático (Fernandes et al., 2004), sendo considerado um meio diagnóstico de avaliação
clínica do paciente com doença cardíaca. Primariamente utilizado para detecção de
arritmias cardíacas, este exame pode ser usado para fornecer informações quanto ao
tamanho das câmaras cardíacas, estado de oxigenação do músculo cardíaco e alterações
hidroeletrolíticas que alterem o ritmo cardíaco (Vailati et al., 2009). Embora o ECG
apresente limitações, é útil para o diagnóstico da maioria das doenças cardiológicas. No
momento da realização do ECG podemos definir o ritmo e o número de batimentos
cardíacos por minuto, permitindo assim a identificação de arritmias cardíacas
(alterações do ritmo cardíaco) e os distúrbios da condução elétrica do coração (retardos
na condução do estímulo elétrico do coração), como os bloqueios cardíacos. Todavia, o
ECG é um retrato do momento do paciente, desta forma, alterações do ritmo cardíaco
que cessaram antes da realização do exame, não serão identificadas.
Em pacientes humanos com dor no peito, a presença de isquemia coronariana,
indicativa de um comprometimento das artérias do coração por placas de gordura ou
ateromas (doença arterial coronariana), poderá ser sugerida em um ECG de repouso
somente em 50% dos casos.
Também em pacientes humanos os quadros de infarto do miocárdio poderão
evoluir com um ECG normal, embora na maioria das vezes ocorram anormalidades,
principalmente quando o ECG é realizado de uma forma seriada. O aumento das
câmaras cardíacas, chamadas de sobrecargas ou hipertrofias (dos átrios e/ou
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ventrículos), como observadas na hipertensão arterial, nas doenças das válvulas
cardíacas ou nas doenças do músculo cardíaco, também poderão ser observadas durante
este exame. Outras doenças não cardiológicas como os distúrbios da tireóide, do
aparelho digestivo, embolia pulmonar (acometimento da circulação do pulmão por
coágulos de sangue), acidente vascular cerebral (derrame cerebral), anormalidades dos
eletrólitos do sangue (exemplo: excesso de potássio), distúrbios do metabolismo
(exemplo: falta de cálcio),entre outras, também podem se manifestar por alterações no
ECG . Vários medicamentos, cardiológicos ou não, também podem alterar diversos
parâmetros observados no ECG.
Outra limitação do ECG se baseia no fato de que os valores referenciais podem
sofrer variação ou influência de acordo com a raça, tamanho, conformação e idade, e
ainda com a posição dos eletrodos e do paciente na mesa de exame.
Outro aspecto deste exame pode ser observado no trabalho de Yamaki et al.
(2007), que estudando as alterações eletrocardiográficas em cães com Cardiomiopatia
Dilatada Idiopática (CMDI), relataram a baixa sensibilidade do exame
eletrocardiográfico convencional em detectar arritmias transitórias quando comparado
ao método de Holter (eletrocardiograma por longo período de tempo). Outra observação
deste trabalho é a constatação da presença de taquicardias ventriculares nos episódios de
síncope em cães portadores da CMDI.
Segundo Samesina & Amodeo (2001) em pacientes humanos com Hipertrofia
Ventricular Esquerda (HVE) não há correlação dos achados de ECG e do estudo
radiológico do coração e somente 35% a 50% dos pacientes com HVE pelo ECG são
identificados pelo exame de raios X de tórax. Na identificação de aumento do coração
pelo exame de raios X com ECG normal, os estudos demonstraram que apenas em 16%
dos pacientes há o desenvolvimento subseqüente de alterações eletrocardiográficas
correspondentes a HVE. Para os autores tais observações sugerem que os achados
radiográficos e eletrocardiográficos estão, provavelmente, avaliando fenômenos
diferentes.
3. ELETROFISIOLOGIA CARDÍACA
O primeiro grupo de células a se despolarizarem são as células do nodo sinusal
que são auto excitáveis. A onda de atividade se propaga e temos a despolarização dos
dois átrios. A despolarização atrial produz um vetor dirigido predominantemente para
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frente e para a esquerda, determinando a onda P no registro eletrocardiográfico. Em
seguida, a onda é transmitida ao nódulo atrioventricular, ocorrendo logo após a
despolarização do septo interventricular, da esquerda para a direita (onda Q). A onda de
despolarização atinge, em seguida, as paredesdo ventrículo (onda R) Em vista da
predominância da massa ventricular esquerda, o vetor resultante volta-se para a
esquerda, para baixo e para trás. Por último, tem-se a despolarização da região alta
posterior do septo interventricular e das paredes ventriculares, parte que não recebe
ramificação da rede de Purkinje. O vetor resultante gira para uma posição obliqua
dirigido para trás, para cima e para a direita (onda S) (Fig.1).
A repolarização ventricular se processa numa ordem totalmente distinta,
progredindo do epicárdio para o endocárdio. Isto se deve a serem mais curtos os
potenciais de ação das células próximas ao epicárdio, resultando daí serem estas as
primeiras a se respolarizarem (onda T). A direção média predominante durante a
repolarização é do ápice para a base do coração, isto é, aproximadamente oposta à
direção da despolarização ventricular (onda R).
A repolarização do átrio é encoberta pela despolarização do ventrículo, não
sendo registrada no ECG.
Figura 1. Relação entre potencial de ação do músculo cardíaco e formação das deflexões no
eletrocardiograma.
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4. PRINCÍPIOS GERAIS DO ECG
4.1 SISTEMA DE VETORES
As deflexões das ondas geradas durante a atividade elétrica do coração
obedecem a uma regra geral: impulsos gerados do pólo negativo ao positivo, deixam o
traçado com uma deflexão positiva e vice versa. Quando o vetor não obedece a uma
direção a qualquer dos sentidos (negativo ou positivo) as deflexões são simétricas
(Fig.2)
4.2 SISTEMA DE DERIVAÇÕES
O sistema de derivações basicamente foi criado para observação simultânea do
“coração” em várias posições ou ângulos, ou seja, cada derivação é representada por um
par de eletrodos (positivo e negativo) que visualiza a atividade elétrica cardíaca em
diferentes posições. As derivações são classificadas, de acordo com a posição no plano
frontal ou horizontal em:
Derivações bipolares - Constituem o triangulo de Einthoven. Nestas
derivações, a corrente elétrica corre entre os pólos de registros, um positivo e
outro negativo: Derivação DI: Os pólos de registro estão entre os membros
anteriores direito (MAD) (-) e esquerdo (MAE) (+) ; Derivação DII: Os pólos
de registro estão entre o membro anterior direito (MAD) (-) e membro posterior
esquerdo (MPE) (+); Derivação DIII: Os pólos de registro estão entre o
membro anterior esquerdo (MAE) (-) e membro posterior esquerdo (MPE) (+)
(Fig. 3A).
Derivações unipolares - Existe apenas um pólo de registro sobre a pele, que é
o pólo positivo. O pólo negativo é obtido pelos demais eletrodos, formando um
terra comum no eletrocardiógrafo: aVR: Pólo positivo está no MAD (+)
comparado aos membros MAE e MPE (-); aVL: Pólo positivo está no MAE (+)
comparado aos MAD e MPE (-); aVF: Pólo positivo está na MPE (+)
comparados aos MAD e MAE (-) (Fig. 3A).
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Derivações Unipolares Precordiais - Os eletrodos são colocados sobre o tórax
do paciente que constituem o pólo positivo: (2) Derivação CVRLU (V4):
colocado sobre o 6º espaço intercostal esquerdo, próximo a junção
costocondral; (1) DERIVAÇÃO CVRL (Rv2): colocado sobre o 5º espaço
intercostal direito, próximo ao esterno; (4) Derivação CV10 (V10): colocada
sobre o processo espinhoso da 7ª vértebra torácica; (3) Derivação CVRL (V2):
colocada no 6º espaço intercostal esquerdo, próximo ao bordo esternal (Fig.
3B).
Figura 2. Representação do formato das deflexões de acordo com a direção do vetor.
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4.3 SISTEMA DE EIXOS CARDÍACOS
A atividade elétrica cardíaca produz simultaneamente muitos potenciais com
múltiplas direções, sendo assim o eixo elétrico refere-se a uma direção média do
processo de ativação durante o ciclo cardíaco. Para o cálculo do sistema de eixos
usamos as derivações (I, II, III, aVL e aVR). Nos aparelhos computadorizados os eixos
podem ser calculados mais facilmente, observando-se apenas as derivações I e III. Para
tal, tabelas de eixo já foram padronizadas.
Figura 3. (A) Representação das derivações bipolares DI, DII, DIII e das
derivações unipolares aVR, aVL e aVF. (B) Representação das derivações
precordiais (E) lado esquerdo (D) lado direito.
A
B
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4.4 PADRONIZAÇÃO DO ECG
Figura 4. Representação das deflexões e traçado do ECG e medidas básicas do eletrocardiograma.
Para correta interpretação das deflexões observadas durante a realização do
ECG, o exame tem que seguir algumas padronizações. Estas são importantes
principalmente nos aparelhos convencionais, sendo menos relevante nos aparelhos
computadorizados.
Na eletrocardiografia convencional o aparelho tem que ser padronizado na
velocidade de registro de 50 mm/seg, com calibração de milivoltagem: 1 cm = 1 mV
(N). A derivação para leitura das ondas, intervalos e segmentos é a derivação II. O
paciente tem que estar posicionado em decúbito lateral direito com os membros
posicionados mais paralelamente entre si. O manipulador não pode estar usando
aparelhos eletrônicos ou que emitam qualquer tipo de frequência. Para análise
eletrocardiográfica os seguintes passos devem ser feitos:
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Calcular a frequência cardíaca;
Determinar o ritmo;
Medir as ondas, os complexos e intervalos: onda P, intervalo PR, complexo
QRS, segmento ST, onda T e intervalo QT;
Examinar todas as derivações;
Determinar o eixo elétrico.
4.4.1 MEDIDAS ELETROCARDIOGRÁFICAS EM CÃES E GATOS
* Para os dois grupos: Derivação V2 e V4: R < 1 mV; V10: T negativa, relação R/Q <1.
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Tabela 2. Valores de referência para as variáveis de eletrocardiografia convencional e
computadorizada em cães. Onda P (P), intervalo PR (PR), onda Q (Q), complexo QRS (QRS), onda
T (T), segmento ST (ST), intervalo QT (QT).
ECG
convencional
Medidas
P PR Q QRS T ST QT EIXO
graus
Milivoltagem
(mV)
0,4
-
-
2,5
(raças pequenas)
3
(raças grandes)
< 25% de R
< +0,15
ou
< -0,2
+ 40 a +100
Segundos
(s)
0,04
0,06-0,13
-
0,05
(raças pequenas)
0,06
(raças grandes)
-
-
0,15-0,25
-
ECG*
Computadorizada
P
PR
Q
QRS
T
ST
QT
EIXO
graus
Milivoltagem
(mV)
0,2
0,21
0,24
-
-
1,21
1,29
1,41
-
-
-
70,46
71,23
70,70
Segundos
(s)
44,54
46,42
48,50
91,30
95,50
101,70
-
54,78
59,70
63,30
-
-
202,46
199,70
205,40
* ECG computadorizado: mensurações foram feitas em três categorias de animais. O 1º valor – cães até 9 kg, 2º - de 10 a
19,9 kg, 3º - > 19,9 kg.
* Para os dois grupos: Derivação rV2: T positiva e R<3mV ; V2: S < 0,8 mV e R < 3 mV; V4: S <0,7 mV e R < 3 mV; V10:
QRS negativo e T negativa (exceto Chihuahua).
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5. AS ALTERAÇÕES NO TRAÇADO
Durante a avaliação do traçado temos que levar em consideração principalmente:
frequência cardíaca, ritmo, eixo e hipertrofia.
5.1 DETERMINAÇÃO DA FREQUÊNCIACARDÍACA (FC)
Nos aparelhos convencionais a determinação da FC pode ser calculada de
algumas formas:
1ª – velocidade de registro de 25 mm/s e ritmo sinusal (sem arritmia): fixa-se um QRS
que coincida com uma linha mais grossa do papel de registro em seguida conta-se 05
quadrados menores (0,02s) e apartir deste observamos o próximo QRS. Neste exemplo
a FC é de aproximadamente 75 bpm.
2º - velocidade de 50 mm/s e ritmo sinusal: marca-se 30 quadrados (geralmente os
papeis de registro possuem marcações a cada 15 quadrados. Na velocidade de 50 mm/s
os dois espaços entre estas marcações representam 3s), marcados estes quadrados soma-
se o número de complexos QRS dentro deste espaço, o resultado deve ser multiplicado
por 20, então teremos a FC. No exemplo abaixo temos entre as marcações (30
quadrados) 8 complexos QRS, então: 8 x 20 = 160. A FC é de 160 bpm.
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3º - Arritmias – Em traçados com arritmia devemos somar a quantidade de quadrados
menores (0,02s) entre dois complexos QRS. O resultado desta soma é o dividendo do
número 3000, se a velocidade de registro for de 50mm/s e de 1500 se a velocidade for
de 25 mm/s.
Nos aparelhos computadorizados esta mensuração é mais fácil e basta
marcarmos (com recurso do próprio aparelho) o intervalo entre três complexos QRS
(Figura abaixo).
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5.2 RITMO
Os distúrbios de ritmo (ou disritmias) podem ser devidos a causas patológicas
locais do miocárdio (hipóxia, infecção, etc.) ou condições patológicas gerais com
repercussão direta sobre o coração (como a uremia). Os distúrbios patológicos do ritmo
devem ser cuidadosamente diferenciados das alterações resultantes de reações
fisiológicas do coração. Primariamente devemos observar se existe relação entre onda P
e os complexos QRS. A presença de uma onda P para cada complexo QRS define o
ritmo sinusal.
5.2.1. FORMAÇÃO NORMAL DO IMPULSO NO NODO SINUSAL
5.2.1.1. Ritmo sinusal: caracteriza-se pela existência de uma sequência ritmada de dois
ciclos cardíacos, onde os intervalos R-R entre os ciclos cardíacos tem a mesma duração.
Neste ritmo toda onda p conduz a um QRS:
1. Arritmias: não há relação entre os intervalos R-R de dois ciclos cardíacos. Estas
podem ser classificadas em quatro categorias: ritmo variável (arritmia sinusal),
batimento suplementares e pausas, ritmos rápidos e bloqueios cardíacos.
R R
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5.2.1.2. Arritmia sinusal: ondas P são idênticas, porém a frequência de despolarização
do nódulo é variável, sendo os intervalos R-R, durante o exame, diferentes. Esta
diferença não pode ultrapassar o dobro do espaço considerado normal para o exame.
Arritmia comum durante o ciclo respiratório, sendo denominada arritmia sinusal
respiratória:
Marcapasso migratório: onda P são diferentes, indicando que a despolarização parte
de pontos diferentes dentro do nódulo sino atrial ou fora dele. Quando não
acompanhado de outras alterações não tem significado clínico:
ONDAS -P- IDÊNTICAS.
ONDAS -P- SÃO DIFERENTES.
R R R R
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5.2.2. ALTERAÇÕES NA FORMAÇÃO DO IMPULSO SINUSAL
5.2.2.1. Bradicardia Sinusal: ritmo de origem sinusal, porém com frequência abaixo dos
limites considerados para a espécie.
5.2.2.2. Taquicardia Sinusal: como no item anterior é um ritmo sinusal com frequência
acima dos valores fisiológicos. Em algumas situações pode ser mais grave e mais
danoso ao coração do que a bradicardia sinusal
5.2.3. ALTERAÇÕES NA FORMAÇÃO DO IMPULSO SUPRAVENTRICULAR
5.2.3.1. Complexos Prematuros Atriais (APC)/ Complexos Prematuros
Atrioventriculares: Qualquer célula do coração pode gerar um impulso, quando este
impulso é gerado fora do nódulo sinusal passamos a denominá-lo de foco ectópico.
Estes pontos ectópicos ao serem conduzidos por todo o coração podem gerar os
complexos prematuros ou extra-sístoles, no caso atriais. Quando o estímulo é gerado em
qualquer ponto do átrio temos no traçado do ECG uma onda P’, geralmente positiva e
muito parecida com as ondas P normais, neste caso dizemos que houve um complexo
atrial prematuro. Quando este estímulo é gerado no nódulo átrio-ventricular temos no
ECG uma onda P’, geralmente negativa em DII ou até mesmo isoelétrica.
Extra-sístole atrial: estimulação prematura proveniente de um foco atrial
que não o nódulo sinusal. Onda P anormal e antes do tempo previsto;
Extra-sístole nodal (juncional): estimulação prematura, que se origina de
uma descarga ectópica no nódulo AV, assim o impulso faz o caminho
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norma, gerando um complexo QRS idêntico aos demais, porém sem a
precedência da onda P;
5.2.3.2. Taquicardia Atrial / Flutter Atrial/ Fibrilação Atrial: quando ocorrem mais de 3
ou 4 extra-sístoles atriais dizemos que o paciente tem taquicardia atrial, a partir da
taquicardia se o quadro evoluir teremos o flutter e em seguida a fibrilação atrial.
Fibrilação atrial: A fibrilação e o flutter atrial são padrões de descargas elétricas muito
rápidas, as quais fazem com que os átrios contraiam de modo extremamente rápido e,
conseqüentemente, fazem que os ventrículos contraiam mais rapidamente e de forma
menos eficaz do que o normal. Esses ritmos anormais podem ser esporádicos ou
persistentes. Durante a fibrilação, ou o flutter, as contrações atriais são tão rápidas que
as paredes atriais simplesmente tremulam, impedindo que o sangue seja bombeado de
modo eficaz para o interior dos ventrículos. Na fibrilação, o ritmo atrial é irregular e,
conseqüentemente, o ritmo ventricular também é irregular. No flutter, tanto o ritmo
atrial como o ventricular comumente são regulares e é caracterizado pela existência de
pequenas ondulações na linha de base entre os complexos QRS. Em ambos os casos, os
ventrículos batem mais lentamente que os átrios, pois o nodo atrioventricular e o feixe
de His não conseguem conduzir impulsos elétricos em velocidade tão alta e apenas um
em cada dois a quatro impulsos pode ser transmitido. Além disso, os ventrículos batem
muito rapidamente, o que impede o seu enchimento completo. Por essa razão, o coração
bombeia quantidades insuficientes de sangue, a pressão arterial cai e o indivíduo pode
apresentar um quadro de insuficiência cardíaca. A fibrilação ou o flutter atrial pode
ocorrer sem que haja qualquer outro sinal de cardiopatia. No entanto, freqüentemente, a
causa é um problema subjacente, como a cardiopatia reumática, a doença arterial
coronariana, a hipertensão arterial, o consumo abusivo de álcool ou o excesso de
hormônio tireoidiano (hipertireoidismo).
COMPLEXO ATRIAL PREMATURO
P
QRS
P
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5.2.3.3. Complexo de Escape Atrioventricular: se por algum motivo o nódulo sinusal
deixa de funcionar, qualquer ponto do coração pode gerar um estímulo caracterizando
uma extra-sístole atrial ou ventricular. A diferença entre um foco ectópico doente, capaz
de gerar estímulo e um complexo de escape é que este último sempre aparece após uma
pausa, caracterizando que o nódulo sinusal deixou de funcionar. Nas extra-sístoles de
focos doentes as onda geradas antecedem o próximo registro no ECG.
5.2.3.4. Ritmo de Escape Atrioventricular: quando temos vários batimentos originados
do nódulo sinusal, caracterizando que o ritmo agora é comandado pelo nódulo átrio-
ventricular,temos um ritmo de escape atrioventricular.
5.2.3.5. Taquicardia Atrioventricular: é o passo seguinte a um ritmo de escape
atrioventricular.
5.2.4. ALTERAÇÕES NA FORMAÇÃO DO IMPULSO VENTRICULAR
5.2.4.1. Complexos Prematuros Ventriculares (VPC): Extra-sístole ventricular (ESV):
origina-se de um foco ectópico ventricular, sem onda P precedente e com QRS bizarro.
5.2.4.2. Taquicardia Ventricular/ Fibrilação Ventricular/ Flutter Ventricular: Dentre as
arritmias (desordens em que não há obediência de um rítmo estável), as mais comuns
são as extra-sístoles, o "flutter" e a fibrilação. Extra-sístoles são batimentos que
aparecem fora do ritmo esperado e que podem originar-se no próprio marcapasso
sinusal ou em qualquer outro local (extra-sístoles sinusais, atriais, nodais, ventriculares).
Extra-sístoles ocasionais não são indicação de doença cardíaca. Já a ocorrência de extra-
sístoles freqüentes, especialmente atriais e ventriculares, são sinal de hiperirritabilidade
geral do miocárdio ou de foco irritativo. Um foco irritativo pode disparar sozinho em
alta freqüência provocando taquicardia ventricular, por exemplo. A taquicardia
ventricular é em si uma situação desfavorável do ponto de vista clínico, porque o
enchimento dos ventrículos fica prejudicado e o gasto de energia pelo miocárdio
aumenta significativamente. Além disso, ocorre o perigo de evolução para "flutter" e,
depois, fibrilação sobrevindo a morte se não houver pronta reversão da situação.
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“Flutter” é uma situação inicial de desorganização do batimento cardíaco.
Caracteriza-se pela alta freqüência de repetição da ativação (acima de 300/min) e pela
forma anômala e às vezes variável das ondas registradas no ECG. Do ponto de vista
funcional o "flutter" se deve ao estabelecimento de um caminho circular de onda
excitatória, que é percorrido repetidamente sem necessitar intervenção de um
"marcapasso" para a sua manutenção. O "flutter" atrial parece dever-se à propagação em
circulo em torno das veias cavas. No "flutter" se origina frequentemente de um episódio
de taquicardia atrial e ventricular (foco ectópico). Na taquicardia os potenciais de ação
se sucedem de modo que a despolarização de um ciclo ocorre de durante um período
refratário relativo do ciclo precedente nas células de PA mais longo. Nestes caminhos,
então, a propagação se fará com menor velocidade.
A situação se agrava no batimento seguinte, com a chegada precoce de nova
onda de atividade. Assim, progressivamente estabelecem-se no miocárdio vias de
condução lenta (bloqueio de 1° grau), em face de outras de condução normal. Em breve
aparece bloqueio parcial com chance de reexcitação da área pela onda de atividade que
progrediu ao longo da via normal. A recirculação da atividade (reentrada) é favorecida
pelo fato de que os bloqueios parciais se fazem sentir com maior intensidade numa
direção de propagação do que na outra.
O "flutter", já em si perigoso quando ocorre no ventrículo, pode evoluir para um
grau maior de desorganização chamado fibrilação. Na fibrilação, o circuito único
observado no "flutter" se quebra em múltiplos circuitos locais, de modo que a excitação
do miocárdio perde a sua unicidade. Durante o "flutter" a câmara inteira (ventrículo ou
átrio) é excitada a cada circuito. Na fibrilação, cada pequena área recircula dentro de si
própria, a tempos e freqüências diferentes de outras áreas: é a desorganização final do
batimento, e caracteriza-se no ECG pela total falta de fixação de forma de onda, com
oscilações de alta freqüência, de intensidade e polaridade variável. A fibrilação se
origina do "flutter" porque a alta freqüência deste faz com que se acentuem as pequenas
diferenças de duração de período refratário existentes entre os pontos contíguos do
coração.
5.2.4.3. Parada sinusal: ocorre quando o marca-passo não despolariza e após uma pausa
outro centro de comando assume o inicio da despolarização. Dependendo do local de
inicio da despolarização a frequência de despolarização pode ser diferente da anterior.
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RITMOS RÁPIDOS
1. Taquicardia paroxística: significa freq. cardíaca rápida, de inicio súbito, origina-se,
geralmente, de foco ectópico, pode ser:
Atrial (supraventricular): origem atrial com sequência normal de ondas;
Nodal (supraventricular): origina-se no nódulo AV (não temos onda P);
Ventricular: semelhante às ESV.
2. Flutter: grosseiramente pode ser classificada como uma taquicardia mais acentuada,
pode ser atrial ou ventricular. Geralmente a evolução dos “flutters” são as fibrilações.
3. Fibrilações: taquicardias elevadas. Podem ser atriais ou ventriculares. Nas atriais
raramente algum impulso atravessa e consegue chegar ao nódulo AV. Nas fibrilações
ventriculares o ritmo é caótico, irregular e fatal.
4. Taquicardia Sinusal Habitual: a resposta fisiológica a várias situações, tais como:
ansiedade, exercício físico, febre, tireotoxicose, hipoxia, hipotensão arterial, pós-
operatório ou insuficiência cardíaca. Tem início e término graduais, com frequência
cardíaca acima de 100 batimentos por minuto (bpm). Ao eletrocardiograma, a onda P
tem morfologia e duração semelhantes ao ritmo sinusal, precedendo cada complexo
QRS. O intervalo PR diminui proporcionalmente à elevação da frequência cardíaca. A
compressão do seio carotídeo diminui a frequência da taquicardia, com seu retorno
gradual aos níveis anteriores, após o término da manobra. O mecanismo mais freqüente
desta taquicardia é o hiperautomatismo.
5. Taquicardia Sinusal Inapropriada: A taquicardia sinusal inapropriada é a aceleração
da freqüência sinusal na ausência de estresse fisiológico. Os indivíduos acometidos
podem tem freqüência sinusal elevada em repouso ou acelerações exageradas ao realizar
mínimo esforço. Mais comum em mulheres sem cardiopatia. O mecanismo pode ser a
hipersensibilidade do nódulo sinusal à estimulação adrenérgica.
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6. Taquicardia Sinusal Re-Entrante: A reentrada sinusal está geralmente associada à
cardiopatia. Tem início e término abruptos, e pode vir acompanhada de bloqueio
atrioventricular do primeiro ou segundo grau (tipo Wenckebach). A freqüência cardíaca
pode variar de 100 a 150 bpm. A compressão do seio carotídeo pode reduzir a
freqüência ou interromper a taquicardia.
7. Taquicardias envolvendo vias acessórias: As taquicardias envolvendo vias
acessórias são chamadas taquicardias recíprocas (TR). Na forma mais comum, a
ativação é a partir dos átrios para os ventrículos, através do nódulo A-V normal,
retornando através da via acessória para os átrios. Resulta uma taquicardia com QRS
estreito, durante a qual as ondas P são inscritas depois do complexo QRS. Esta direção
da taquicardia é chamada ortodrômica. Muito raramente, a condução pode ser na
direção oposta, quando resulta uma TR antedrômica, com um complexo QRS alargado.
Vias acessórias (p. ex., feixe de Kent), que ligam os átrios e ventrículos sem passar pelo
nódulo A-V, são responsáveis pela síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW). Nos
pacientes acometidos, um padrão de ECG típico, com intervalo P-R curto e complexo
QRS indistinto (onda d), está associado com arritmias. A condução anterógrada sobre a
via acessória é necessária para criar o intervalo P-R curto e a onda d, mas é a condução
retrógrada que é importante para manutenção da TR ortodrômica. Portanto, uma via
acessória cancelada (P-R normal, ausência de onda d em ritmo sinusal) pode manter a
arritmia. Na síndrome de Lown-Ganong-Levine (LGL), a via acessória liga o átrio
com o tecido do feixe de His, sem passar pelo nódulo A-V. O intervalo P-R é curto,
como na síndrome deWPW, mas o complexo QRS é normal. Pacientes com a síndrome
de LGL têm o mesmo tipo de arritmias que aqueles com a síndrome de WPW, e seu
tratamento clínico é similar.
8. Taquicardia Ventricular Paroxística tipo Torsades de Pointes: Torsade de pointes
("mudança dos pontos") é uma taquiarritmia ventricular caracterizada por um vetor
QRS em alteração contínua. Provoca sintomas e morte em pacientes com as raras
síndromes congênitas do Q-T longo. Sua importância na prática diária é que é
desencadeada por drogas (especialmente antiarrítmicos, que são contra-indicados em
seu tratamento posterior). O tratamento é interromper todas as medicações cardioativas
(p. ex., antidepressivos, fenotiazinas), normalizar os eletrólitos (particularmente
potássio e magnésio) e estabilizar a eletrofisiologia cardíaca, se necessário por marca-
22
passo de hiperestimulação atrial. Várias síndromes congênitas de Q-T longo são
reconhecidas. As 2 mais importantes são a síndrome de Jervell-Lange-Neilson
(autossômica recessiva com surdez associada) e a síndrome de Romano-Ward
(autossômica dominante sem surdez). Os pacientes acometidos mostram anormalidades
acentuadas de Q-T (duração e forma) e estão sob risco de torsade de pointes que pode
ser fatal. b-bloqueadores e/ou ganglionectomia de gânglio estrelado melhoram o
prognóstico.
BLOQUEIOS CARDÍACOS: Os bloqueios de condução são de 3 tipos:
1. Bloqueio de 1º grau = aumento do tempo de condução;
2. Bloqueio de 2º grau = bloqueio parcial, com passagem de um ou mais batimentos de
uma série;
3. Bloqueio completo = não passa batimento algum.
Bloqueio de um dos tipos acima pode ocorrer em qualquer lugar do coração. A
não ser no caso dos bloqueios nodais SA e AV por hiperatividade vagal ou fadiga
fisiológica, a existência de bloqueios indica alteração patológica local ou patologia com
influencia indireta no coração. (Não se deve esquecer dos bloqueios causados por
manobras cirúrgicas ou terapêuticas).
Os bloqueios de 1º grau indicam uma dificuldade parcial de propagação, sendo
geralmente observados no nódulo AV (aumento do intervalo PR). O bloqueio de 1º grau
pode se transformar em bloqueio de 2º grau com mero aumento da freqüência cardíaca
ou com a evolução da lesão. No bloqueio de 2º grau, o tempo de condução através da
zona lesada aumenta progressivamente, de um batimento para o outro, até que num
dado ciclo cardíaco, a condução é bloqueada. A partir do ciclo em que falhou a
condução, repete-se uma nova série de batimentos em que a atividade atravessa a região
de bloqueio com dificuldade crescente de ciclo para ciclo, até que novamente o último
ciclo da série é bloqueado. A estas séries repetidas se dá o nome de “ciclos de
Wenckebach”. O bloqueio de segundo grau pode evoluir para o bloqueio completo, já
discutido acima.
A fadiga cumulativa de condução, associada à condução lenta, é uma
propriedade de regiões do miocárdio em que se processa atividade elétrica na forma de
23
componente lento isolado. Por isto, o fenômeno é frequentemente observável no nódulo
AV. O aparecimento do componente lento isolado está intimamente ligado à existência
de bloqueios de 1º e 2º graus.
5.2 DEFEITOS NA CONDUÇÃO INTRAVENTRICULAR
5.2.1 BLOQUEIOS DE RAMO
Estes bloqueios são atrasos ou interrupções da condução que envolve um ou
mais ramos ventriculares do feixe de His. Podem ser estruturais ou funcionais quando
são causados por despolarizações que ocorrem no período refratário. É importante
identificar os bloqueios, pois podem ser os primeiros indicadores de cardiopatia
subjacente que justificam diagnóstico e tratamento adicionais (Ettinger et al., 2004).
Basicamente ocorre mudança da configuração e prolongamento do QRS.
QUADRO 1. Resumo dos tipos de bloqueios átrio-ventriculares.
BAV de 1
o
grau : prolongamento anormal do intervalo PR (maior que 0,20 s); relação 1:1 entre P e
QRS.
BAV de 2
o
grau - Tipo Mobitz I: ocorre aumento progressivo do intervalo PR até que ocorra o
bloqueio da despolarização atrial.
BAV de 2º grau - Tipo Mobitz II: ocorre bloqueio súbito da despolarização atrial sem que haja
aumento progressivo dos PRs precedentes ao bloqueio.
BAV de 2º grau - Tipo 2:1: a condução atrioventricular está alterada em uma razão fixa, na qual uma
em cada duas despolarizações atriais é bloqueada, ou seja, 50% das ondas P estão bloqueadas.
Fisologicamente este tipo de apresentação pode representar tanto um padrão Mobitz I cujo
prolongamento se deu de tal forma que ocorreu bloqueio no primeiro prolongamento do PR, ou
Mobitz II com padrão fixo. Este tipo de apresentação deve ter sua diferenciação por outros critérios.
BAV Tipo avançado: a condução atrioventricular está alterada em uma relação fixa, na qual mais de
uma onda P é bloqueada antes que haja condução.
BAV do 3
o
grau: Não há correlação entre a despolarização atrial e a ventricular (dissociação
atrioventricular). Os estímulos provenientes dos átrios são totalmente bloqueados (bloqueio
atrioventricular total), sendo o ritmo cardíaco determinado por escape abaixo da região do bloqueio.
24
BAV DE 1º GRAU – Intervalo PR=187 (normal PR=91,30 a 101,70)
BAV DE 2º GRAU
BAV DE 2º GRAU MOBITZ TIPO I
BAV DE 2º GRAU MOBITZ TIPO II
BAV DE 3º GRAU
25
1. O bloqueio do ramo esquerdo (BRE) : caracteriza-se por um atraso ou bloqueio da
condução do impulso em ambos os fascículos, anterior e posterior, do ramo esquerdo do
feixe de His. O ventrículo esquerdo é ativado depois do direito, o que torna o complexo
QRS amplo e atípico (Tilley & Smith, 2008). A lesão que origina o BRE deverá ser
extensa porque o ramo esquerdo do feixe de His é extenso e largo ao contrário do ramo
direito que é anatomicamente vulnerável à lesão devido ao fato de ser estreito, longo e
sem ramificações (Tilley & Smith, 2008). A etiologia inclui todo o tipo de alterações
ventriculares (Ettinger et al., 2004). Os bloqueios no feixe de His são secundários a
diversas afecções cardíacas como cardiomiopatia, fibrose, trauma, neoplasia ou no
período após cirurgia cardíaca. Uma estenose subaórtica pode originar BRE e a
hipertrofia ventricular esquerda promove o aparecimento do Bloqueio de fascículo
anterior esquerdo. O BRE, segundo Guerreiro (2009) é muito pouco freqüente em cães.
26
Tabela 3. Alterações do ECG em cães e gatos com bloqueio de ramo esquerdo.
ALTERAÇÕES
DO ECG NO
BRE
CÃO
GATO pequenos grandes
QRS (seg.)
> 0,07 > 0,08 0,06
QRS largo e positivo em DI, DII,
DIII, aVF, V2, V4; invertido em
aVR, aVL e rV2.
QRS largo e bizarro em DI,
DII, DIII e aVF, V2 e V4;
QRS invertido em aVR e rV2
Q
Pequena em DI, V2 e V4 Ausência de onda Q em DI e
V4.
2. Bloqueio do ramo direito (BRD) - O ramo direito do Feixe de His é de menor
espessura que o ramo esquerdo, sendo assim a possibilidade de lesão neste ramo é
maior, embora não haja alteração hemodinâmica do paciente (Gabay, 2003). Traduz-se
pela mesma alteração da condução, mas desta vez afetando o ramo direito do feixe de
His, que provoca uma ativação tardia do ventrículo direito (Tilley, 1992). Ocorre
ocasionalmente em canídeos saudáveis, em animais com cardiopatias congênitas ou
dirofilariose, sem repercussões hemodinâmicas (Tilley,1992). BRD é a forma mais
frequente de alteração da condução intraventricular nos canídeos. Na raça Beagle, este
bloqueio pode ser causado pela variação genética da espessura da parede ventricular
direita. Os complexos QRS gerados neste tipo de bloqueio são, geralmente, bizarros e se
assemelham a uma taquicardia ventricular, porém verificamos a presença de onda p.
No diagnóstico eletrocardiográfico destas alterações temos:
Complexos QRS estão prolongados (duração superior a 0,07 segundos) tanto no
BRE quanto no BRD;
Os complexos QRS são amplos e positivos nas derivações I, II, III e aVF, no
BRE e negativos em aVR e aVL;
No BRD as ondas S são profundas, largas e amplas nas derivações I, II, III e
aVF (Tilley & Smith, 2008);
No BRD o eixo cardíaco elétrico médio está desviado para a direita.
27
BLOQUEIO DE RAMO DIREITO
Tabela 4. Alterações do ECG em cães e gatos com bloqueio de ramo direito completo e
incompleto.
ALTERAÇÕES DO
ECG NO BRD
(completo)
CÃO
GATO
pequenos
grandes
QRS (seg.)
> 0,06 > 0,07 0,06
QRS bizarros, eixo para a direita.
Diferenciar de dilatação ventricular
direita. Complexo pode estar invertido,
podendo aparecer e desaparecer.
QRS positivo em aVR e rV2
Eixo - Desvio para direita.
ALTERAÇÕES DO
ECG NO BRD*
(incompleto)
CÃO
GATO
pequenos grandes
QRS (seg.) Positivo em aVR, aVL e rV2
S Largas em DI, DII, DIII, aVF, V2, e V4,
onda S presente ou padrão “W” em V10
(complexo invertido).
Eixo Desvio de eixo para direita
* quando uma das citações estão presentes, porém com QRS de duração normal.
3. Bloqueio do fascículo anterior esquerdo (BFAE): São alterações não comuns
corresponde ao atraso ou bloqueio da condução nesse fascículo (anterior ou posterior)
28
do ramo esquerdo do feixe de His. A ativação do ventrículo esquerdo é modificada ou
atrasada, o que origina um bloqueio do fascículo e do músculo papilar correspondente
(Tilley, 1992). No BFAE as ondas Q são pequenas, as ondas R são amplas nas
derivações I e aVL e as ondas S são bastante profundas nas derivações II, III e aVF.
QRS são de duração normal com eixo desviado acentuadamente para a esquerda. No
gato o BAFE tem QRS de duração maior que 0,04 segundos, eixo > -60º, onda Q
pequena e R alta em DII, DIII e aVF ultrapassando a onda R.
OUTROS TIPOS
Dissociação Eletro-Mecânica: A atividade elétrica sem pulso é caracterizada
pela ausência de pulso detectável na presença de algum tipo de atividade
elétrica, com exclusão da taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular. Ao
monitor aparecem evidências de atividade elétrica organizada, porém o músculo
cardíaco está muito fraco ou muito mal perfundido para responder ao estímulo
elétrico. O prognóstico dos pacientes com Dissociação eletromecância é
reservado, e a causa determinante deve ser verificada e corrigida. Dentre as
principais causas destacam-se: Hipoxemia, acidose severa, tamponamento
cardíaco, pneumotórax hipertensivo, hipovolemia, vagotomia, embolia
pulmonar.
IMPORTANTE
BATIMENTOS SUPRAVENTRICULARES: São
semelhantes aos complexos normais e antecipam o
próximo batimento sem onda p sendo
acompanhados por uma pausa. Quando este
batimento for acompanhado por onda p, esta
geralmente é negativa e vem antecipada por uma
parada atrial, a este batimento supraventricular
chamamos de juncional ou nodal.
29
6. AUMENTO DAS CÂMARAS CARDÍACAS: como citado anteriormente o ECG
não é o exame ideal para diagnóstico de hipertrofias (hipertrofia (concêntrica) ou
dilatação (excêntrica). Sendo assim laudos eletrocardiográficos normais podem
esconder alterações, assim como laudo que sugerem alterações não tem confirmação
diagnóstica em patologia (anatopatologia) em 90% dos casos.
6.1 AUMENTO ATRIAL ESQUERDO – Onda P com duração aumentada sendo mais
bem observada de DII. Tanto no cão como no gato, a onda P > 0,04 seg (P mitral), a
onda P pode estar chanfrada. Podem estar associadas a esta condição:
Distúrbios na via de condução do nódulo sino atrial para o nódulo átrio
ventricular, nestes casos a onda P além de larga pode estar chanfrada;
Insuficiência valvar mitral adquirida, principalmente nas endocardioses (cão) e
cardiomiopatias dilatada, hipertrófica e restritiva no gato;
Cardiopatias congênitas (displasias de valvas).
6.2 AUMENTO ATRIAL DIREITO – no aumento atrial direito a onda P está
aumentada em DII, DII e aVF em pelo menos uma destas derivações (DII). A onda P
está alta, delgada e espiculada com milivoltagem > 0,4 mV (P pulmonar) no cão e no
gato P > 0,2 mV. O intervalo PR neste caso pode descer abaixo da linha de base após a
onda p. Podem estar associados a este aumento:
Frequências cardíacas elevadas, principalmente nas taquicardias sinusais, sendo
esta uma condição normal;
Doença respiratória crônica;
Cardiopatias congênitas: estenose da pulmonar ou displasia da tricúspide;
Hipertireoidismo (gato).
6.3 AUMENTO BIATRIAL - onda P com amplitude e duração aumentadas. Onda P >
0,4 mV e > 0,04 seg no cão. No gato, onda P > 0,04 seg e 0,2 mV. No cão podem estar
associados:
cardiopatia congênita e insuficiências valvares da mitral e da tricúspide crônica
ou insuficiência da valva mitral crônica associada a hipertensão pulmonar.
No gato cardiomiopatia hipertrófica e dilatada, defeito septal ventricular.
30
6.4 AUMENTO VENTRICULAR DIREITO – Em casos leves o eletrocardiograma
(ECG) pode ser normal. Em casos mais graves pode-se observar um padrão de aumento
de ventrículo direito (hipertrofia ventricular) e bloqueio de ramo direito. Caso estejam
presentes ondas P aumentadas em amplitude, deve-se suspeitar de aumento do átrio
direito por displasia de tricúspide. Geralmente observamos complexo QRS com duração
normal e presença de ondas Q. Verificam-se também ondas S profundas, maiores que
0,05mV em DI para cães e ainda presença destas nas derivações II, III e aVF. Em gatos
ainda temos onda S proeminente em V2 e V4 com onda T positiva em V10. Desvio do
eixo elétrico médio para a direita no plano frontal (acima de + 103º [cães] e > + 160º
[gatos]), arritmias são raras (Goodwin, 2002). A onda Q está presente ( > 0,5 mV).
Condições associadas:
Cardiopatias congênitas;
Dirofilariose;
Hipertireoidismo;
Insuficiências valvares mitral e tricúspide (cães);
DPOC (cão).
No bloqueio de ramo direito temos além da onda Q profunda, QRS largo e sem
onda R, na maioria dos casos. Se o QRS estiver entalhado, porém com a mesma duração
não tem significado clínico.
6.5 AUMENTO VENTRICULAR ESQUERDO - A hipertrofia ventricular esquerda
geralmente é uma resposta à sobrecarga. Em cães uma das condições mais comumente
associadas é derivada da endocardiose da valva mitral, sendo baixa a incidência nos
felinos. A hipertrofia das células cardíacas ocorre por modificação no processo de
síntese protéico através de vários estímulos hemodinâmicos e neuro-humorais. As
alterações mais comuns no alargamento ventricular esquerdo são: onda R alta, QRS
prolongado, segmento ST infradesnivelado ou oculto e onda T alterada.
No Bloqueio de ramo esquerdo temos QRS largos (exageradamente largos são
mais frequentes). Condições associadas ao aumento ventricular esquerdo:
No cão: insuficiências valvares mitral (+ comum) e tricúspide;
No gato: cardiomiopatia primária.
6.5 AUMENTO BIVENTRICULAR- caracterizado por complexo QRS largo com
presença de onda Q, S ou QS e aumento da milivoltagem de onda R. Onda S profunda e
31
R alta em V2 e V4, eixo elétrico > + 103º (cão), Q profundas em DI, DII, DIII, e aVF.
Nas cardiomegalias severas o ECG pode estar normal. Nesta patologia o eixo pode estar
normal.
7. ANORMALIDADES DO SEGMENTO ST e ONDA T – (Tabela 6)
8. COMPLEXOS QRS DE BAIXA VOLTAGEM – São complexos de baixa
voltagem estando associado a varias causas dentre elas: obesidade, pneumotórax, efusão
pleural, cardiomiopatia (doxorubicina), variação normal, padronização incorreta, efusão
pericárdica, cardiomiopatia severa.
Tabela 5. Alterações do ECG em cães e gatos com aumento ventricular esquerdo.
ALTERAÇÕES CÃO GATO
pequenos Grandes
Onda R* (mV) > 2,5 > 3 > 0,9 em DII; > 1 em V2 e
V4
QRS (seg.) > 0,05 > 0,06 > 0,04
ST Infradesnivelado Em direção oposta à principal
deflexão do QRS
T > 25% da onda R > 0,3mV em DII
Eixo < +40º > 0º
Relação R/Q - > 1 mV em V10
* cães com menos de 2 anos de idade e tórax estreito: > 3mV em DII e aVF e > 1,5 mV
em DI; a soma das amplitudes das ondas R em DI e aVF > 4 mV; cães idosos > em DI
comparadas com DIII e aVF.
9. EIXO
Refere-se à direção da despolarização que se difunde através do coração para
estimular a contração miocárdica. A direção desta despolarização é representada por um
vetor que nos mostra por onde passa a maior parte do estímulo elétrico. Para a
determinação do eixo, nos aparelhos convencionais, devemos observar as derivações D1
e aVF que são as derivações que apontam para o eixo normal do coração. Se o QRS for
32
positivo (para cima em DI, o vetor aponta para o lado positivo. Se o QRS for positivo
em aVF, o vetor aponta para baixo na metade positiva da esfera. Na figura abaixo
vemos um resumo da classificação dos vetores.
Figura 5. Diagrama de eixos (cão).
Nos aparelhos computadorizados a determinação do eixo se baseia nas
derivações DI e DIII. Para tal, tabelas de eixo já estão prontas, bastando apenas o
cálculo da diferença entre as ondas positivas e negativas de cada derivação.
33
Após o cálculo das diferenças observamos nas tabelas de eixo (anexo) vemos
que o eixo normal está próximo de 90º.
Tabela 6. Anormalidades do ECG no segmento ST e onda T em cães e gatos.
ANORMALIDADES CÃO GATO
ST (mV)
> -0,2 ou > + 0,15 em DI,
DII, DIII, aVR, aVL e aVF
; > -0,3 em V2; > + 0,3 em
V2 e V4; ligeiramente
curvo antes da onda T.
1
Condições
Isquemia, infarto (não
comum), doença renal,
digitálicos, trauma
cardíaco, pericardite ou
artefatos (várias causas).
Variação normal, isquemia,
hipercalemia, digitálicos,
pericardite.
T
> 25% de onda R,
espiculadas ou chanfradas,
negativa em rV2 (acima de
2 meses) e positiva em V10
(exceto Chiuaua),
alternates ( pos x neg)
> 0,3 mV, espiculada ou
chanfrada, polaridade
reversa ao complexo QRS,
1/3 da onda R.
Condições Hipóxia e infartos; defeitos
na condução
intraventricular, distúrbios
eletrolíticos, doença
metabólicas.
Hipóxia, distúrbios
eletrolíticos, doença
metabólicas, aumento das
descargas simpáticas.
P.S – Ondas T pequenas e bifásicas podem ser achadas nos casos de hipocalcemia ou
hipocalemia. Intervalos QT prolongados podem ser resultantes de alterações nas
concentrações séricas de K
+
(geralmente por hipocalemia sem bradicardia) e Ca
++
.
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ALTERNÂNCIA ELÉTRICA COM TAQUICARDIA SUPRAVENTRICULAR
SUSTENTADA
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CÃO SOB INFUSÃO DE SOLUÇÃO DE KCL a 10% ( 1º TRECHO – ARRITMIA
SINUSAL / 2º TRECHO – SUPRESSÃO DE MILIVOLTAGEM COM
SUPRADESNIVELAMENTO DE ST / 3º TRECHO – INICIO DE TAQUICARDIA
VENTRICULAR / 4º TRECHO – TAQUICARDIA VENTRICULAR COM
ASSISTOLIA / 5º TRECHO – FLUTTER VENTRICULAR
36
37
ANEXO
38
39
40