Farmacologia dos anestesicos locais
15 pág.

Farmacologia dos anestesicos locais


Disciplina<strong>clínica Médica de Pequenos</strong> Ruminantes7 materiais10 seguidores
Pré-visualização11 páginas
Farmacologia dos Anestésicos Locais
10
Joshua M. Schulman e Gary R. Strichartz
Introdução
Caso
Fisiologia da Nocicepção
Transmissão da Sensação da Dor
Primeira Dor e Segunda Dor
Percepção da Dor
Analgesia e Anestesia
Classes e Agentes Farmacológicos
Química dos Anestésicos Locais
Grupo Aromático
Grupo Amina
Mecanismo de Ação dos Anestésicos Locais
Considerações Anatômicas
Canal de Sódio Regulado por Voltagem
Outros Receptores para Anestésicos Locais
Farmacocinética dos Anestésicos Locais
Absorção Sistêmica
Distribuição
Metabolismo e Excreção
Administração de Anestésicos Locais
Anestesia Tópica
Anestesia Infiltrativa
Bloqueio de Nervos Periféricos
Bloqueio Nervoso Central
Anestesia Regional Intravenosa
Principais Toxicidades
Agentes Individuais
Anestésicos Locais com Ligação Éster
Anestésicos Locais com Ligação Amida
Conclusão e Perspectivas Futuras
Leituras Sugeridas
INTRODUÇÃO
A palavra anestesia provém diretamente do grego: an, que sig-
nifica sem, e aisthesis, que significa sensação. Os anestésicos 
locais (AL) compreendem uma série de substâncias químicas 
localmente aplicadas, com estruturas moleculares semelhantes, 
capazes de inibir a percepção das sensações (sobretudo a dor) 
e também de prevenir o movimento. Os anestésicos locais são 
utilizados em uma variedade de situações, desde a sua aplicação 
tópica para queimaduras e pequenos cortes, até injeções durante 
tratamento dentário e bloqueio epidural e intratecal (“espinal”) 
durante procedimentos obstétricos e cirurgia de grande porte.
A cocaína, o primeiro anestésico local, provém das folhas 
do arbusto coca (Erythroxylon coca). A cocaína foi isolada 
pela primeira vez em 1860 por Albert Niemann, que obser-
vou seus poderes de produzir entorpecimento. Em 1886, Carl 
Koller introduziu a cocaína na prática clínica como anestésico 
oftalmológico tópico. Entretanto, suas propriedades aditivas e 
toxicidade levaram à pesquisa de substitutos. A procaína, o 
primeiro desses substitutos, foi sintetizada em 1905. Conhecida 
como Novocain®, ainda continua sendo utilizada hoje em dia, 
embora com menos freqüência do que alguns AL mais recen-
temente desenvolvidos.
Os anestésicos locais exercem seu efeito através do bloqueio 
dos canais de sódio regulados por voltagem, inibindo, assim, 
a propagação dos potenciais de ação ao longo dos neurônios 
(ver Cap. 6). Através da inibição da propagação do potencial 
de ação, os AL impedem a transmissão da informação para o 
sistema nervoso central (SNC) e a partir dele. Os AL não são 
seletivos para as fibras de dor; bloqueiam também outras fibras 
sensoriais, motoras e autônomas, bem como potenciais de ação 
no músculo esquelético e no músculo cardíaco. Esse bloqueio 
não-seletivo pode servir para outras funções úteis (ver Cap. 18) 
ou pode constituir uma fonte de toxicidade.
\ufffd Caso 
EM, de 24 anos de idade, é um estudante de pós-graduação em 
química orgânica. Uma tarde, enquanto está trabalhando no labo-
ratório, ele derrama um béquer de ácido fluorídrico (HF) na capela. 
Apesar do reflexo de retirar imediatamente a mão, algum líquido 
atinge as pontas dos dedos de sua mão esquerda. Alguns minutos 
depois, EM começa a sentir dor em ardência, que aumenta de 
intensidade e que é seguida de dor em queimação e latejante. 
Conhecendo a natureza corrosiva do ácido, EM começa a lavar as 
mãos com água e com uma solução de sulfato de magnésio (o 
magnésio atua como quelante para os íons fluoreto tóxicos). Liga 
também para o 911 e é levado ao pronto-socorro.
A médica residente verifica que o ácido penetrou nos leitos 
ungueais dos dedos afetados e que EM está sentindo uma intensa 
dor. Ela o elogia pela sua conduta apropriada e no momento oportu-
no e decide tratá-lo com gliconato de cálcio (outro agente quelante 
do fluoreto) para neutralizar o HF remanescente, juntamente com 
um bloqueio nervoso digital para reduzir a dor. Injeta lidocaína sem 
132 | Capítulo Dez
epinefrina, nos dedos, seguida de gliconato de cálcio. A princípio, 
EM percebe um alívio da ardência, embora a dor leve mais tempo 
para diminuir. Uma vez efetuados os curativos das feridas, EM já 
não sente nenhuma sensação nos dedos. No decorrer das próximas 
2 semanas, as feridas cicatrizam espontaneamente, e a dor, que 
agora está bem controlada com ibuprofeno, desaparece. EM con-
segue voltar a dedicar-se a seu trabalho no laboratório, porém esse 
contratempo com grave lesão o afeta de uma maneira imprevista: 
começa a planejar fazer medicina.
QUESTÕES 
\ufffd 1. Qual o mecanismo de ação da lidocaína? A que classe de 
fármacos pertence a lidocaína?
\ufffd 2. Por que EM apresentou inicialmente uma dor em ardência 
antes da dor de localização imprecisa, e por que a dor em 
ardência cede mais rapidamente do que a dor indistinta após 
a administração de lidocaína?
\ufffd 3. Por que a epinefrina é algumas vezes administrada com 
lidocaína, e por que ela não o foi neste caso?
FISIOLOGIA DA NOCICEPÇÃO
A nocicepção refere-se à ativação de fibras nervosas sensoriais 
primárias (nociceptores) por estímulos nocivos, isto é, estímulos 
que potencialmente provocam lesão tecidual. Esses estímulos 
incluem temperaturas elevadas, perturbações mecânicas intensas 
e substâncias químicas adstringentes. Os nociceptores possuem 
terminações nervosas livres localizadas na pele, nos tecidos 
profundos e nas vísceras. Os corpos celulares dos nociceptores 
localizam-se nos gânglios da raiz dorsal, próximo à medula espi-
nal, ou no gânglio trigeminal para inervação da face (Fig. 10.1). 
Os nociceptores transmitem impulsos da periferia para o corno 
dorsal da medula espinal, onde a informação é subseqüentemente 
processada através de circuito sináptico e transmitida a diver-
sas partes do cérebro. Por conseguinte, os nociceptores são os 
primeiros na cadeia de neurônios responsáveis pela percepção da 
dor. Como os nociceptores transmitem a informação ao cérebro, 
são denominados neurônios aferentes.
A lesão tecidual constitui o principal estímulo para a ati-
vação dos nociceptores. Os nociceptores não transmitem, 
por exemplo, informações acerca de uma brisa sobre a pele 
ou toque firme (os nervos que desempenham essa função são 
denominados mecanorreceptores táteis ou de baixo limiar). 
Na verdade, os nociceptores são ativados quando, por exemplo, 
colocamos a mão sobre um fogão quente ou fechamos uma 
porta sobre os dedos (ou derramamos ácido sobre eles). Os 
nociceptores possuem, em suas membranas celulares, recep-
tores para substâncias, como a bradicinina, que são libera-
das quando células adjacentes sofrem lesão. Esses receptores 
de transdução convertem os estímulos nocivos em “correntes 
geradoras”, que despolarizam o neurônio, podendo resultar em 
potenciais de ação (Fig. 10.1).
Para os estímulos sensoriais cuja intensidade está acima 
do limiar do nociceptor (por exemplo, acima de determinada 
temperatura), a freqüência de geração de potenciais de ação 
aumenta à medida que cresce a intensidade do estímulo. Se 
os impulsos nos aferentes nociceptivos forem freqüentes o 
suficiente, são percebidos como “dolorosos”. Em uma respos-
ta de circuito local (ou segmental), os axônios dos aferentes 
nociceptivos também se conectam indiretamente, através de 
interneurônios, com neurônios eferentes (motores) na medula 
Axônio
Terminações 
nervosas livres
Térmico
Mecânico 
Químico
1a
Lesão das células 
adjacentes
Bradicinina
Serotonina
Prostaglandinas
Serotonina
1b
Desgranulação 
do mastócito
4b
Dilatação do 
vaso sangüíneo
4a
Ativação dos 
nociceptores
2
CGRP e substância P liberados 
pelos nociceptores ativados
3
Medula espinal
Gânglio da raiz dorsal
Para o cérebro
Fig. 10.1 Ativação dos nociceptores. Os nociceptores transmitem a informação de dor através de uma variedade de mecanismos.