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TEORIA GERL DO PROCESSo

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fundamentais: poder, população 
e território. Assim, como doutrina Moraes (2009, p. 3), o Estado “é forma 
histórica de organização jurídica limitado a um determinado território e com 
população definida e dotado de soberania, que em termos gerais e no sentido 
moderno, configura-se em um poder supremo no plano interno e em um 
poder independente no plano internacional”.
Dessa forma, como a autotutela de direitos passou a não mais ser permi-
tida, como regra, entendeu-se que o Estado deveria atuar predominantemente 
como um terceiro imparcial, substituindo a atuação das partes na solução do 
conflito. Portanto, delegou-se a palavra final quanto ao litígio social a terceiro 
estranho à relação existente entre as partes, no caso, ao Estado.
Em um primeiro momento, a função pacificadora coube ao próprio 
soberano, em virtude da crença predominante na época de que todos 
os poderes estavam concentrados na sua pessoa. Posteriormente, com 
a separação de poderes, que é a base estruturante do Estado de Direito, 
passou-se a atribuir tal função ao Poder Judiciário, no exercício do que se 
houve por bem denominar jurisdição.
É importante que se ressalte, conforme lição de Wambier e Talamini, que 
as fases históricas das formas de solução de conflitos
[...] não ocorreram de forma marcadamente distinta, de modo 
que se possa enxergá-las, num olhar voltado para o passado 
histórico, absolutamente separadas umas das outras. Não houve 
marcos divisórios nítidos, precisos, entre essas diferentes fases, 
correspondentes a distintos modos de solução de conflitos 
admitidos pelas diversas sociedades ocidentais. (2014, p. 96)
“
Pesquise mais
Para melhor compreensão da evolução histórica trilhada para a solução 
de conflitos de interesses, indicamos a seguinte leitura complementar:
WAMBIER, L. R.; TALAMINI, E. Curso Avançado de Processo Civil. 14. ed. 
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. p. 93-97.
Seção 1.1 / Direito e sociedade: evolução histórica da resolução de conflitos - 17
De qualquer forma, após o estabelecimento e fortalecimento da insti-
tuição Estado, as formas anteriores de resolução de conflitos foram perdendo 
força, deslocando-se a regra geral para a ideia de que a pacificação social deve 
ser, precipuamente, atividade estatal.
Assim, em virtude da estruturação do Estado de Direito, calcado no 
princípio da separação de poderes, podemos afirmar que cabe ao Estado, 
precipuamente, a prestação da atividade jurisdicional, que tem seus 
contornos desenhados visando à solução concreta de litígios existentes 
entre os membros da sociedade.
Nesse contexto, apesar de uno e indivisível, o poder estatal tem suas 
funções divididas de acordo com as atividades por ele predominantemente 
desenvolvidas. Assim, podemos falar em Poder Legislativo (função típica 
consistente em legislar, criar leis), Poder Executivo (função típica calcada em 
executar graciosamente as leis) e Poder Judiciário (função precípua consis-
tente em prolatar a solução concreta de conflitos).
Uma vez que esteja instaurado o conflito de interesses e não tenha sido 
possível uma composição amigável entre as partes, uma autocomposição, caberá 
ao Poder Judiciário solucionar o litígio, impondo às partes sua decisão. Nas 
palavras de Monnerat (2015, p. 74), “trata-se do método jurisdicional, que conta 
com a participação do Estado, que, como terceiro imparcial, impõe a solução da 
lide independentemente do concurso da vontade das partes”.
Reflita
Considerando que o Estado também pode figurar como parte em determi-
nado litígio, como, por exemplo, na hipótese da necessidade de cobrança 
de um determinado imposto de uma pessoa que não efetuou o respectivo 
pagamento, qual órgão deverá ficar responsável pelo julgamento dessa 
lide? A imparcialidade estaria, nesta hipótese, comprometida?
Entende-se que a separação de poderes, ou, como vimos, a separação 
de funções do poder estatal, é suficiente para preservar a imparcialidade no 
julgamento do litígio, ainda que figure, por exemplo, a administração pública 
como parte em determinada lide. Assim, será do Estado-juiz, ou seja, do 
Poder Judiciário, a competência para julgar inclusive as causas envolvendo 
outros poderes estatais.
Com tais premissas, podemos facilmente compreender a existência da 
íntima relação entre o fortalecimento do Estado e a atividade jurisdicional 
de resolução de conflitos. Foi justamente o Estado que tomou para si a 
função pacificadora de conflitos de interesses, impondo às partes a solução 
18 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
ditada pelo Poder Judiciário, ou, segundo a doutrina de Cintra, Grinover e 
Dinamarco (2014, p. 41),
[...] o Estado, já suficientemente fortalecido, impõe-se sobre 
os particulares e, prescindindo da voluntária submissão destes, 
impõe-lhes imperativamente sua solução para os conflitos 
de interesses. À atividade mediante a qual os juízos estatais 
examinam as pretensões e resolvem os conflitos dá-se o nome 
de jurisdição.
“
Assimile
A partir dessas noções, retomemos a evolução histórica das formas de 
solução de conflitos:
• Autotutela: a própria parte envolvida faz valer seu direito.
• Arbitragem: o conflito solucionado por terceiro imparcial.
• Atividade jurisdicional: função pacificadora atribuída ao Estado ou 
a terceiro expressamente autorizado pelo Estado.
• Autocomposição: as próprias partes envolvidas solucionam o 
conflito de interesses.
A partir do exposto, podemos esquematizar as formas históricas de 
resolução de conflitos da seguinte forma, conforme a Figura 1.2.
Figura 1.2 | Formas históricas de resolução de conflitos
Fonte: adaptada de Rodrigues e Lamy (2018, p. 24).
Outro tema que devemos conceituar e traçar um paralelo é entre o Direito 
Material e Direito Processual. Como já ressaltado, o agrupamento humano, 
decorrente de seu interesse coletivo em sobreviver em comunidade, faz com 
Seção 1.1 / Direito e sociedade: evolução histórica da resolução de conflitos - 19
que seja necessária a intervenção estatal para a criação de normas jurídicas 
que tutelem a disciplina a respeito dos bens e interesses dos jurisdicionados.
Contudo, em função de conflitos de interesses entre as pessoas que fazem 
parte da sociedade, pelos mais diversos motivos, surge a necessidade de um 
regramento que seja capaz de proporcionar a resolução desses conflitos. 
Como bem afirma Dinamarco:
[...] o ordenamento jurídico divide-se, portanto, em dois planos 
distintos, interagentes mas autônomos e cada qual com sua 
função específica. Às normas substanciais compete definir 
modelos de fatos capazes de criar direitos, obrigações ou situa-
ções jurídicas novas na vida comum de pessoas, além de estabe-
lecer consequências específicas na ocorrência desses fatos. As 
normas processuais ditam critérios para a revelação da norma 
substancial concreta emergente deles, com vista à efetivação 
prática das soluções ditadas pelo direito material. (2018, p. 15)
“
Evidencia-se, pois, a diferença entre o Direito Material e o Processual, 
pois não basta a existência de normas de conduta voltadas aos direitos das 
partes, pois, havendo o descumprimento dessas normas, o Estado deve ter 
instrumentos para a composição da lide.
Veremos mais à frente a diferença entre norma material e processual. 
Entretanto, não podemos seguir sem termos uma breve noção sobre o tema. 
Para tanto, esclarecemos que, modernamente, a doutrina enxerga o cenário 
do seguinte modo: embora sejam distintas as normas de Direito Material e 
Direito Processual, elas devem ser integradas para o exercício da prestação 
jurisdicional. Como bem afirma Didier Jr.:
Ao processo cabe a realização dos projetos do direito material, 
em uma relação de complementaridade que se assemelha àquela 
que se estabelece entre o engenheiro e o arquiteto. O direito 
material sonha, projeta; ao direito processual cabe