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1 PAULO SÉRGIO LIMA E SILVA PRINCÍPIOS DE GENÉTICA E EVOLUÇÃO ORGÂNICA MOSSORÓ RIO GRANDE DO NORTE 2014 2 Nenhuma parte deste trabalho poderá ser reproduzida sem prévia autorização escrita do autor. Para informações, dirija-se: Paulo Sérgio Lima e Silva Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) Departamento de Ciências Vegetais (DCV) Caixa Postal 137 59625-900 – Mossoró-RN Fone: (084) 3317-1758 3 “Um homem não pode fazer o certo em uma área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”. M. GANDHI Para meu filho Paulo Igor Barbosa e Silva 4 PREFÁCIO Esta apostila se destina aos alunos da disciplina Genética dos cursos da ESAM, onde essa disciplina é ministrada. Ela foi escrita após a constatação de que os vários livros de Genética e Evolução Orgânica existentes, apesar de excelentes em sua maioria, não discutem os assuntos em nível de extensão compatíveis com o conteúdo da disciplina referida. De qualquer forma, os livros sobre o assunto disponíveis foram amplamente consultados, para a elaboração da apostila. Esta segunda edição foi escrita com a intenção deliberada de aperfeiçoá-la no futuro. A experiência tem demonstrado que, em trabalhos desta natureza, é mais vantajoso elaborar-se uma “primeira aproximação” e depois aperfeiçoá-la, do que tentar, de início, fazer-se um trabalho mais elaborado. Apostila está dividida em duas partes. A primeira, contendo os oito primeiros capítulos, é dedicada à Genética e a segunda, com os dois capítulos finais, à Evolução Orgânica. Numa nova edição pretende-se incluir pelo menos dois novos capítulos na primeira parte (um sobre ligação fatorial e outro sobre o modo de ação dos genes) e um outro na segunda parte, tratando de aspectos da origem e evolução de plantas cultivadas. Esses e outros capítulos poderiam já constar nesta apostila, mas a urgência em colocar o que já tinha sido escrito à disposição dos estudantes impediu que novos capítulos fossem incluídos. Merecem agradecimentos o Prof. José Torres Filho, Chefe do Departamento de Ciências Vegetais da UFERSA, por sua assistência, e vários dos meus orientados e estudantes, que contribuíram com sugestões e críticas. Mossoró(RN), maio de 2014. Paulo Sérgio Lima e Silva 5 CONTEÚDO PÁGINAS CAPÍTULOS 1 1 – Natureza, Objetivos e Importância da Genética 16 2 – Identificação do Material Genético 58 3 – Primeiro Princípio Mendeliano: Segregação 74 4 – Segundo Princípio Mendeliano: Transmissão Independente 90 5 – Relações de Dominância e Alelos Múltiplos 115 6 – Genética do Sexo 146 7 – Introdução à Genética Quantitativa 168 8 – Introdução à Genética de Populações 187 9 – As teorias da Evolução de Lamarck e de Darwin 205 10 – A Teoria Moderna da Evolução 6 PARTE I GENÉTICA 7 Capítulo 1 NATUREZA, OBJETIVOS E IMPORTÂNCIA DA GENÉTICA 1. A GENÉTICA COMO RAMO DAS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS A História Natural, ciência que estuda os corpos naturais e os fenômenos que neles ocorrem, compreende três grandes divisões: Geologia ou estudo da terra, Mineralogia ou estudo dos minerais, e Biologia ou estudo dos seres vivos. A Biologia, por sua vez, também se divide em três grandes áreas: Zoologia, estudo dos animais, Botânica, estudo dos vegetais, e Biologia Geral, que trata dos fenômenos comuns dos seres vivos. Divide-se a Biologia Geral em ciências que podem ser classificadas em cinco grupos: Ciências Biostáticas – estudam o ser vivo sob o ponto de vista estático. São ciências biostáticas: a Morfologia, que estuda a forma exterior do ser vivo; a Citologia, que procura entender a organização da célula e o papel de cada orgânulo celular; a Histologia, que estuda os tecidos, isto é, grupos de células mais ou menos semelhantes em forma e função; e a Anatomia, estudo da estrutura de órgãos (conjuntos de tecidos relacionados em estrutura, e que coordenadamente desempenham funções no indivíduo) e sistemas (conjuntos de órgãos também relacionados em estrutura, e que efetuam uma função mais ampla no organismo); Ciências Biodinâmicas – representadas pela Fisiologia. Estuda os seres vivos sob o ponto de vista dinâmico ou das suas atividades; trata, pois, do funcionamento do organismo; Ciências Bioquímicas – estudam o ser vivo sob o ponto de vista químico e compreendem a Estequiologia., que trata da composição química e a Biodinamoquímica, que considera as transformações químicas que ocorrem no ser vivo; Ciências Biotáxicas – compreendem a Taxonomia, a Sistemática, a Biogeografia, a Paleontologia e a Ecologia. A Taxonomia estabelece as regras da denominação científica dos seres. A Sistemática agrupa as espécies segundo as suas afinidades recíprocas e as diferenças em sua organização. A Biogeografia trata da distribuição dos seres vivos na superfície da terra e dos fatores que a determinam. A Paleontologia estuda os fósseis, isto é, restos ou vestígios de seres que deixaram de existir e se conservam através de milhões e milhões de anos, nas camadas geológicas. A Ecologia estuda as relações entre os organismos e o meio, assim como as relações dos seres vivos com outros seres vivos da mesma espécie ou de espécies diferentes; Ciências Biogênicas – são a Ontogenia, a Fitogenia e a Genética. A 8 Ontogenia estuda as transformações por que passam o ser vivo, desde a formação do ovo até o seu desenvolvimento definitivo. A Filogenia estuda o desenvolvimento histórico dos seres vivos, segundo as fases de evolução por que passaram. Para se definir Genética, existe a necessidade da apresentação de alguns conceitos básicos. 2. DEFINIÇÃO DE GENÉTICA Denomina-se caráter, em Genética, a qualquer particularidade morfológica, estrutural ou funcional de um organismo. Por exemplo, a forma das folhas, a cor das pétalas, a fixação do dióxido de carbono durante a fotossíntese, o tempo de florescimento etc. são exemplos de caracteres nas plantas. De modo semelhante, a estatura, a cor dos olhos, a transmissão de impulsos elétricos ao longo das fibras nervosas, o desenvolvimento de características sexuais secundárias são exemplos de caracteres dos animais. O número de caracteres encontrados num indivíduo é praticamente incontável, dependendo da maior ou menor minúcia da observação. Em todos os tempos, as pessoas de um modo geral e especialmente os naturalistas se preocuparam com a notória semelhança que existe entre os caracteres dos descendentes e dos ascendentes, tanto entre animais, como entre vegetais. Denomina-se hereditariedade a essa semelhança entre os indivíduos ligados pela descendência, e herança, do ponto de vista biológico, tudo aquilo que é legado pelos antepassados aos descendentes, através dos gametas. A semelhança de caracteres entre os pais e os filhos é tida como conseqüência da transmissão de unidades ou genes de origem paterna e materna aos descendentes, através dos gametas. O termo gene foi criado em 1909 por Johannsen, um pesquisador dinamarquês, que desenvolveu suas pesquisas na Alemanha. A palavra gene na língua alemã é neutra, e Johannsen justificou este fato pela razão dos dois sexos contribuírem eqüitativamente com genes para originar um novo indivíduo. O termo gene origina-se da palavra grega “gênesis”, que significa “origem”. Um gene pode ser definido como um elemento do cromossomo situado num local definido, o locus, condicionando um certo caráter. Os genes herdados, em interação com o ambiente, condicionam os caracteres. Assim, por exemplo, o caráter estatura depende tanto de fatores herdados como de fatores tais como tipo de nutrição e atividade externa. Resultando os caracteres tanto da influência daherança como do ambiente, a hereditariedade não implica que os filhos sejam necessariamente idênticos aos pais. Indivíduos com igual patrimônio hereditário poderão ser diferentes, quando se desenvolvem em meios diversos. Provavelmente não ocorrem 9 dois seres exatamente iguais porque, mesmo que tenham o mesmo conjunto gênico, as condições ambientais em que se desenvolvem como alimento, luz e temperatura variam. Genética foi a palavra proposta por Bateson, em 1906, para designar o ramo da Biologia que estuda a herança e suas relações com o ambiente. Johannsen, em 1911, propôs o termo genótipo para designar a constituição hereditária, ou seja, a soma total dos fatores hereditários que um ser recebe dos pais, através dos gametas, e fenótipo para designar os caracteres de um indivíduo, ou seja, a soma total de suas peculiaridades de forma, tamanho, cor, comportamento externo e interno. Os organismos podem ser facilmente comparados quanto ao fenótipo, mas quanto ao genótipo só podem ser por métodos de estudo indiretos, como cruzamentos e experimentações. O que um indivíduo herda é o genótipo e não o fenótipo. Por exemplo, não herda a cor azul dos olhos e sim o gene que tem a potencialidade de, em determinadas condições ambientais, condicionar o caráter citado. Tanto o genótipo como o ambiente são importantes na determinação do fenótipo, pois são interdependentes. O genótipo condiciona diferentes genótipos, segundo as condições ambientais. Assim, o que o genótipo determina é a norma de reação do organismo aos diversos ambientes. Neste contexto, o termo “norma” não significa que algumas reações sejam normais e outras anormais. A norma de reação é toda a série, todo o repertório dos diversos caminhos do desenvolvimento que podem ocorrer nos portadores de um dado genótipo, em todos os ambientes, favoráveis ou desfavoráveis, naturais ou artificiais. Ela não é conhecida completamente para nenhum genótipo. Evidentemente é impossível fazer experimentação com os portadores de um genótipo expondo-os a todos os ambientes possíveis, já que o número de ambientes é virtualmente infinito. Coelhos da variedade Himalaia apresentam um curioso exemplo de norma de reação. Esses animais têm olhos de cor rosa e corpo com pelagem branca, exceto nas patas, focinho, orelhas e cauda., onde há pigmentação preta. Coelhos Himalaia herdam um gene com potencialidade de condicionar pelagem preta em temperaturas baixas e pelagem branca em temperaturas mais altas (superiores a 33oC). A pelagem preta pode ser induzida artificialmente, depilando-se, por exemplo, o dorso do animal e resfriando-se essa região com gelo. A pelagem que surge nesse local será preta, demonstrando essa experiência que um mesmo genótipo apresenta diferentes fenótipos, segundo as condições ambientais. 10 3. OBJETIVOS DA GENÉTICA A genética, a ciência da hereditariedade, procura respostas às três seguintes questões fundamentais: O que é herdado? Isto é, qual a natureza física e química do material genético que os pais transmitem aos seus descendentes? Como é transmitido este material dos pais aos descendentes? Ou seja, quais os mecanismos que fazem a ligação das gerações? Como age o material genético? Isto é, por qual processo garante-se a expressão dos caracteres considerados? A segunda questão, a mais formal, é a que foi respondida em primeiro lugar; a resposta surgiu com os estudos sistemáticos publicados em 1866 por Mendel. Os resultados de tais estudos são hoje apresentados, por razões didáticas, como sendo as duas leis de Mendel ou leis mendelianas. A natureza do material genético transmitido aos descendentes fora entrevista por A. Weismann que, em 1885, assinalou o provável papel dos cromossomos como partículas hereditárias, depois confirmado, por volta de 1910, por T.H. Morgan e C. B. Bridges, que assim emitiram a teoria cromossômica da hereditariedade. De qualquer forma, uma resposta definitiva à primeira questão, foi dada em 1944 pela descoberta por O Avery, C. Macleod e McCarty do papel dos ácidos nucléicos, descobertos por Miescher e Altmann (1889), na herança de bactérias. A resposta à última das três questões é a mais complexa, uma vez que implica no funcionamento metabólico da célula, considerado sob seu aspecto molecular. Depois de 1941, graças aos trabalhos de G. Beadle e E. Tatum e aos progressos realizados na Bioquímica, sabe-se que o material genético governa a produção de proteínas. Dentre essas proteínas, as enzimas desempenham um papel de primeiro plano no metabolismo celular; contudo, outras proteínas devem ser responsáveis pelas propriedades imunoquímicas, morfológicas, etc. da célula e, portanto, do organismo. 4. DIVISÃO DA GENÉTICA Conforme já mencionado, as leis de Mendel foram publicadas em 1866, mas não despertaram maiores atenções da comunidade científica. Alguns pesquisadores acreditam que os trabalhos de Mendel não interessaram muito aos cientistas da época pelo fato de terem sido publicados em revista com circulação restrita. Esse fato não parente ser muito procedente, pois a 11 revista era distribuída por mais de cem instituições científicas européias. Os trabalhos de Charles Darwin sobre evolução, publicados mais ou menos à mesma época do trabalho de Mendel, o nome pouco conhecido de Mendel e o fato de seu trabalho ter sido apresentado em termos matemáticos devem ter sido a causa do desinteresse aparente por suas descobertas. De qualquer forma, as leis mendelianas foram redescobertas em 1900, independentemente, por três europeus: de Hugo de Vries (Holanda), Carl Correns (Alemanha) e Erick Von Tschermak (Áustria). Foi praticamente a partir de 1900 que a Genética surgiu como ciência. Desde então, tem tido um desenvolvimento tão acentuado que vem sendo subdividida em áreas ou ramos. Por sua importância, merecem citação os seguintes: Genética Básica ou Mendeliana, Genética de Populações, Genética Quantitativa, Genética Fisiológica, Genética Molecular, Engenharia Genética. A Genética Mendeliana limita suas investigações às semelhanças ou diferenças entre pais especificados e sua descendência, isto é, ela estuda a hereditariedade ao nível de famílias. A Genética de Populações trata do fenômeno hereditário ao nível populacional. Isso é, esse ramo da genética está interessado nas conseqüências estatísticas do mendelismo em um grupo de famílias. A Genética Quantitativa ocupa-se com a herança das chamadas características quantitativas, isto é, caracteres condicionados geralmente por vários genes e bastante influenciados pelo ambiente. A Genética Fisiológica engloba os estudos que tratam do modo de ação dos genes. O modo de ação dos genes, do ponto de vista molecular, é estudado pela Genética Molecular. A Engenharia Genética é um ramo relativamente recente da Genética que engloba um conjunto de técnicas, chamadas técnicas do DNA recombinante, que trata do estudo da união de materiais genéticos de diferentes organismos. 5. IMPORTÂNCIA DA GENÉTICA Discutir a importância da genética é ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil, porque a Genética é importante sob inúmeros aspectos. Difícil, porque tais aspectos estão tão interrelacionados que se torna complicado discuti-los sem confundi-los. Afirmativas dessa natureza já dão uma espécie da importância da ciência da hereditariedade, mas não expõem com clareza a real importância da genética. A seguir, serão discutidos aspectos que mostram que a genética é importante para o homem, de modo direto e indireto, sob vários aspectos. 12 De imediato, pode-se aquilatar a importância da Genéticapor sua popularidade. Atualmente, jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e agências de propaganda abordam temas relacionados com a Genética. Nenhuma outra ciência tem atualmente a popularidade da Genética. Os cursos de pós-graduação em Genética, o número de livros sobre Genética, o número de profissões que passaram a incluir ou enfatizar a Genética em seus currículos e o número de pessoas desejosas de fazer da Genética uma profissão se multiplicam de maneira notável. Mas esta não é uma abordagem científica de se demonstrar a importância da Genética. Essa abordagem vai ser feita considerando-se que a Genética é importante sob os aspectos científico, agrícola, social, educacional, médico e político. Mas outros aspectos poderiam ser considerados. Por exemplo, a Genética tem importâncias econômica, ambiental, filosófica? Do ponto de vista científico pode-se dizer que a Genética é importante porque contribui para o conhecimento da herança do homem, de outros animais e dos vegetais e também porque os conhecimentos de Genética contribuem para o desenvolvimento de outras ciências biológicas. Costuma-se afirmar que a Genética ocupa a posição central entre as ciências biológicas, ou que a genética é na Biologia o que a teoria atômica é nas ciências físicas. O funcionamento celular é explicado em grande parte, atualmente, em termos genéticos. A genética de mitocôndrias e cloroplastos explica muitas características dos seres vivos (ler, por exemplo, Alberts et al., 1997). Assim, a Genética tem importância para a citologia. O número de contribuições da Genética para a Evolução Orgânica é tão grande que se torna impossível menciona-los aqui. Aliás, A Genética ocupa um grande espaço dos modernos livros de Citologia e de Evolução. A Teoria Moderna da Evolução baseia-se, em grande parte, em livros como The Genetical Theory of Natural Selection (Ronald A. Fisher) e Genetics and the Origin of Species (Theodosius Dobzhansky), dentre outros. Como entender o processo de especiação sem o conhecimento da genética da diferença entre espécies? (ler, por exemplo, Futuyama, 1997). A Genética tem importância também para a Ecologia, pois auxilia na preservação dos seres vivos (Wilson, 1997) sugerindo métodos de conservação de germoplasma, indicando o número de indivíduos que deve ser mantido para a conservação de germoplasma, etc. A rigor, a genética não contribui apenas para as ciências essencialmente biológicas. Para a Filosofia, que é a síntese dos conhecimentos humanos, a genética veio trazer a sua contribuição, permitindo delimitar e comprovar melhor a origem da vida, a evolução de animais e plantas, etc. Em alguns casos, a contribuição da Genética para 13 outras ciências é tão significativa que novas ciências híbridas surgem, como a Citogenética, por exemplo. A educação, problema de grande importância social e econômica, especialmente para os países em desenvolvimento, adquire novas bases com o conhecimento da hereditariedade de características tais como inteligência, habilidade, vocação, etc. A genética, mostrando que os indivíduos diferem entre si quanto a esses caracteres, pode determinar que as bases educacionais devem fundamentar-se nessas diferenças. É geralmente aceito que a genética tem uma contribuição de importância crescente à Medicina. Quatro setores parecem receber de forma preferencial essa contribuição: diagnóstico diferenciador, Medicina Legal, Eugenia e aconselhamento genético. Uma outra área da medicina que deverá receber contribuição da Genética é a da terapia gênica. Em inúmeros casos, os dados genéticos podem ser decisivos na determinação de um diagnóstico. O diagnóstico diferenciador pode ser feito em qualquer idade, mas existe maior interesse no diagnóstico pré-natal, que envolve a análise das células da criança (feto) quando ainda em desenvolvimento no útero materno, para se determinar se ela é normal ou afetada. O diagnóstico pré-natal é interessante pois permite que se inicie o tratamento ainda durante a gestação ou logo após o nascimento, evitando algumas vezes a manifestação da doença genética. Na fenilcetonúria, uma doença que causa retardo mental severo e óbito ainda na infância, pode-se evitar a manifestação do quadro clínico, desde que o diagnóstico seja precoce. A criança diagnosticada como afetada terá desenvolvimento normal se receber uma dieta pobre no aminoácido fenilalanina. Quando não existe tratamento disponível ou formas de se evitar a manifestação da doença, o diagnóstico pré-natal permite ao casal a opção de interromper a gestação pelo aborto do feto. No diagnóstico pré-natal o tecido fetal pode ser obtido por dois procedimentos: amniocentese e coleta de amostras da vilosidade coriônica. A amniocentese consiste na coleta, por volta da 16a. semana de gestação do flúido amniótico (líquido que envolve o feto no útero) com o auxílio de uma agulha de injeção inserida no abdômen materno, monitorando-se o caminho da agulha com o aparelho de ultra-som. As vilosidades coriônicas são formadas também por tecido fetal e compõem o tecido que formará a placenta. A coleta de pequena amostra das vilosidades coriônicas acontece entre a 8a. e a 16a. semanas de gestação, por meio de um cateter introduzido na vagina. 14 Depois que as células fetais são obtidas, existem três tipos de métodos para se realizar o diagnóstico diferenciador: análises dos cromossomos, dos produtos gênicos e do próprio material genético. Os cromossomos podem ser visualizados ao microscópio para se verificar a ocorrência de alguma aberração cromossômica. Muitas síndromes estão associadas a aberrações cromossômicas. Uma síndrome é um conjunto de características anormais no mesmo indivíduo. A Síndrome do Cri du Chat, em que bebês, crianças e adultos apresentam pelo menos 22 características anormais, que vão de baixa estatura a retardamento mental, é devida a uma perda de parte do cromossomo 5. Na Síndrome de Down, que é devida à presença de um cromossomo 21 adicional, os indivíduos apresentam inúmeras características anormais, entre as quais anomalias cardíacas e perda de audição. Os produtos gênicos podem ser analisados em testes bioquímicos, que revelam a presença ou ausência de certas enzimas ou proteínas críticas. Entretanto, esta abordagem implica uma série de limitações importantes. Em primeiro lugar, testes bioquímicos só podem ser aplicados numa minoria de genes, na qual se conhece o produto primário. O estudo da enzima exige que o gene apresente expressão no tecido sob análise. Além do mais, testes que avaliam o produto gênico são algumas vezes pouco confiáveis. Resta então extrair o DNA das células, para a análise direta dos genes. A extração e a purificação do DNA genômico compreendem vários passos que incluem a lise das células, extração das proteínas e do RNA e a precipitação do DNA. Cada tipo de macrmolécula (RNA, DNA, proteína, lipídeo, etc.) apresenta propriedades particulares que permitem seu isolamento e purificação. A maioria dos procedimentos baseia-se na solubilidade diferenciada das macromoléculas – a fração celular é tratada com soluções que dissolvem ou precipitam o composto desejado. Para isolar o DNA de células do sangue, por exemplo, o sangue é colhido com anticoagulante e em seguida adiciona-se uma solução de lise: a solução de células é então centrifugada para concentrar os núcleos no fundo do tubo, o sobrenadante é desprezado e o precipitado é ressuspendido em solução salina. Em seguida, adiciona-se um detergente para provocara ruptura das membranas e coloca-se a solução na estufa, a 37 oC, por uma noite. Assim, o DNA que estava no interior das células é liberado. Para separar o DNA das demais substâncias presentes no lisado celular, adiciona-se fenol para remover as proteínas, desnaturando-as e tornando-as insolúveis em água. A mistura é então centrifugada para separar o fenol com 15 proteínas da fase aquosa, que contém o DNA. Esta centrifugação leva à formação de 3 camadas: uma clara, na parte inferior do tubo (fenol), uma branca intermediária (proteínas coaguladas) e uma superior transparente (ácidos nucléicos). A camada superior é então transferida para outro recipiente e sobre ela são adicionados cloreto de potássio e álcool etílico gelado. Obtém-se assim, uma mistura com duas fases: a inferior, aquosa, com DNA dissolvido e a superior, alcoólica. Um bastão de vidro capilar é mergulhado na solução e girado suavemente de modo a ir misturando álcool e álcool, na região da interface. Quando as camadas são delicadamente misturadas, as longas moléculas de DNA enrolam-se no bastão de vidro e são removidas da solução.Para estudar o DNA é necessário fragmentar suas longas moléculas (Otto et al., 1998). Algumas linhagens de bactérias produzem enzimas que são capazes de destruir o DNA de outros organismos. Este fenômeno, conhecido como restrição, deu a estas enzimas o nome de endonucleases ou enzimas de restrição. O nome dessas enzimas refere-se à sua função, uma vez que elas restringem a multiplicação do vírus, que poderia interferir no funcionamento da bactéria. As enzimas de restrição possuem a propriedade de cortar a dupla hélice de DNA de uma forma muito precisa. Primeiro elas reconhecem uma seqüência específica no DNA que, normalmente, varia entre 4 e 6 bases e, então, cortam cada cadeia num dado ponto. A clivagem de uma molécula de DNA com determinada enzima de restrição digere o DNA e resulta em uma coleção típica e reproduzível de fragmentos, que refletem a freqüência e a localização dos sítios de clivagem. O gene que se deseja analisar estará contido em um ou mais fragmentos. A eletroforese em gel de agarose é uma forma simples e rápida para se separar e se visualizar fragmentos de DNA produzidos pela digestão com enzimas de restrição. Quando submetido a um campo elétrico em pH neutro, as moléculas de DNA são atraídas para o pólo positivo e repelidas do pólo negativo, porque o DNA apresenta carga negativa devida à presença do ácido fosfórico. Quando a migração do DNA é realizada em uma matriz que apresenta alguma resistência à migração das moléculas, os fragmentos menores podem se mover através da matriz com maior facilidade do que os fragmentos grandes. Assim, em um dado período, os fragmentos pequenos de DNA alcançarão distâncias maiores em relação à origem, quando comparados com os fragmentos grandes, os quais têm maior dificuldade para atravessar a resistência da matriz. O DNA, após a separação em gel de agarose, pode ser corado com um corante fluorescente, o brometo de etídio, e ser visualizado sob luz ultravioleta. Moléculas do brometo de etídio intercalam-se entre os nucleotídeos na dupla hélice do DNA, permitindo a observação dos 16 fragmentos presentes no gel. A molécula de DNA humano é tão grande e complexa que, após a digestão com qualquer enzima de restrição, milhões de fragmentos são gerados, de tal forma que é impossível individualizar os fragmentos quando o DNA é visualizado sob luz ultravioleta, após a eletroforese. Portanto, o que se observa não são propriamente bandas separadas, mas sim uma faixa contínua dos fragmentos distribuídos por ordem de tamanho. Nessa fase, qualquer DNA humano terá o mesmo aspecto, quer ele provenha de um indivíduo normal ou de um paciente com doença genética grave. Uma vez obtidos os fragmentos de DNA espalhados em ordem decrescente de tamanho a partir do ponto de origem (eletroforese), um determinado segmento de DNA, que contém o gene de interesse, pode ser detectado pela hibridização com uma sonda específica. A hibridização é um método que utiliza a tendência natural que uma cadeia simples de DNA tem de se reassociar com sua cadeia complementar para formar a dupla hélice. Dessa forma, um determinado fragmento de DNA pode ser localizado em uma mistura heterogênea, desde que se disponha de uma seqüência complementar ao fragmento. Essa seqüência complementar é chamada de sonda. A sonda deve ser previamente marcada de alguma forma para permitir sua identificação posteriormente. Existem vários métodos para se fazer essa marcação, mas a marcação radioativa ainda é a mais utilizada. Numa reação muito simples, alguns dos nucleotídeos que formam a sonda são substituídos por nucleotídeos semelhantes, mas que contenham átomos radioativos do fósforo (32P). Os átomos radioativos emitem radiação que funciona como um sinal. Essa radiação não pode ser observada diretamente, mas é capaz de marcar um filme de raios X da mesma forma que a luz impressiona um filme fotográfico. Assim, os segmentos de DNA são mergulhados numa solução de hidróxido de sódio, a qual provoca a desnaturação da fita dupla do DNA. O material é agora colocado para se hibridizar com uma sonda específica, marcada radiativamente, que se ligará somente na seqüência de DNA complementar a ela. Após a retirada do material que não se hibridizou, o material é exposto a um filme de raios X sensível à radioatividade. Como resultado, observa-se na auto-radiografia um padrão com uma ou mais bandas, indicando o número e o tamanho dos fragmentos de DNA complementares à sonda. Assim, para uma dada amostra de DNA, o padrão de bandas será constante, desde que o DNA seja digerido com a enzima correta e hibridizado com determinada sonda. Diferenças no padrão normal obtido indicam a presença de um gene alterado ou mutante Farah, 1997). 17 A Medicina Legal é a parte normativa – e não preventiva ou curativa – da Medicina que consiste, basicamente, no conhecimento médico e biológico do homem em tudo que possa interessar à Justiça (www.imesc.sp.gov.br). Há alguns anos, a contribuição da Genética para a Medicina Legal estava associada principalmente à solução de problemas relacionados com casos de paternidade duvidosa. Pode-se excluir a possibilidade de um homem ser o pai de uma criança pelo estudo dos grupos sangüíneos e de outros traços marcadores, mas não se pode provar a paternidade com certeza absoluta, muito embora quando se encontra algum tipo sangüíneo muito raro no suposto pai e no filho, a probabilidade possa atingir alto grau. Atualmente, com o chamado Teste do DNA (ver Apêndice) a solução desse tipo de problema é mais segura e outros tipos de problemas podem ser solucionados. Dessa forma, casos de homicídios e estupros têm sido resolvidos obtendo-se as impressões digitais do DNA a partir de gotas de sangue, bulbos capilares ou resíduos de esperma e comparando-se os resultados com os suspeitos do crime. Algumas vezes, tais técnicas foram empregadas na reabertura de casos judiciais que permitem inocentar o condenado. Como as impressões digitais do DNA permitem também estabelecer as relações de parentesco entre os indivíduos, elas têm sido empregadas na identificação de desaparecidos, das vítimas de acidentes ou dos corpos enterrados sem identificação. Em países que aceitam imigrantes com base na relação familiar com pessoas já residentes, essas técnicas possibilitam estabelecer o grau de parentesco entre dois indivíduos, permitindo a reunião de famílias. Pode-se definir Eugenia como o conjunto de medidas tendentes a melhorar o padrão genético das populações humanas. A Eugeniaé geralmente dividida em dois setores: Eugenia Positiva (que vista a incrementar a reprodução dos casais normais e com maiores probabilidades de não serem heterozigotos para os mesmos genes recessivos condicionadores de anomalias) e Eugenia Negativa (que visa a eliminar ou reduzir a reprodução de casais com alta probabilidade, ou certeza, de serem heterozigotos para os mesmos genes recessivos e daqueles com, pelo menos, um cônjuge afetado). Aconselhamento Genético é um processo de comunicação que trata dos problemas humanos associados com a ocorrência, ou risco de ocorrência, de uma desordem genética em uma família. O aconselhamento genético envolve uma tentativa de ajudar a uma pessoa ou a uma família a: (1) compreender os fatos médicos, incluindo-se o diagnóstico, provável curso da doença, e o possível controle; (2) apreciar o papel desempenhado pela hereditariedade no 18 aparecimento da doença, e o risco de recorrência nos parentes; (3) compreender as alternativas para tratar com os riscos de recorrência; (4) escolher a ação mais apropriada, tendo em vista os riscos envolvidos, o planejamento familiar, e os padrões éticos e religiosos, e agir de acordo com a decisão; e (5) fazer o melhor ajustamento possível à existência da desordem na família e/ou ao risco de recorrência. Um exemplo de consulta, visando aconselhamento genético foi fornecido por Freire-Maia (1976): Um jovem de 15 anos teve relações sexuais com uma sua irmã de 14, que deu à luz uma menina branca, absolutamente normal na base de minucioso exame clínico feito aos 2 meses. Um estudante de medicina, sobrinho de uma viúva sem filhos e residente no Rio de Janeiro, que está desejosa de adotar a criança, solicita esclarecimentos sobre os riscos de que a filha do incesto venha a manifestar, mais tarde, anomalia grave de ordem hereditária. Freire-Maia (1976) comentando dados de um trabalho sobre descendência de incestos informou que, de 18 crianças, 7 eram normais ou apresentavam defeitos sem grande significação, uma era prematura e morreu em 6 horas, uma morreu em 15 horas, uma morreu com 2 meses, duas eram retardadas, uma tinha um defeito nos lábios e 5 apresentavam Quociente Intelectual (QI) entre 50 e 70. Tradicionalmente, o termo terapia gênica envolve diversas tecnologias que têm em comum um novo conceito terapêutico, ou seja, a introdução de material genético para atuar na causa fundamental da doença, o gene. Apresenta como maiores dificuldades técnicas a obtenção da alta eficiência na transferência gênica, expressão adequada do gene transferido e a ocorrência de inserção casual no genoma da célula hospedeira.Existem técnicas físicas, químicas e biológicas para se introduzir um gene em outras células. Uma possibilidade é o método da microinjeção utilizado para a transferência direta de genes. Outra alternativa baseia-se no fato de que as células de mamíferos permitem a entrada de DNA na forma de precipitado de fosfato de cálcio. Quando cloreto de cálcio é adicionado ao DNA, que está diluído em fosfato, forma-se um precipitado fino de fosfato de cálcio e DNA. Acrescentando-se este precipitado às células em culturas, após algumas horas as células terão absorvido o DNA precipitado. Na eletroporação, as células-alvo são misturadas com o DNA a ser transferido; o conjunto é colocado em uma câmara e submetido a um breve pulso elétrico, que provoca a abertura dos poros da membrana celular, permitindo a entrada do DNA. O DNA também pode ser introduzido na célula por vesículas de fosfolipídios sintetizadas artificialmente, conhecidas como lipossomos. Tais vesículas fundem-se com a membrana celular e depositam o DNA diretamente no interior das células. Entretanto, o método 19 que mais tem sido empregado nas propostas de terapia gênica utiliza os vetores virais para a introdução do DNA. O material genético dos retrovirus é formado por duas moléculas de RNA, as quais são circundadas por uma cápsula protéica interna e uma dupla camada de lipídios. Nessa última camada, existem substâncias especiais, as glicoproteínas que se ligam à membrana da célula durante a infecção. Após entrar na célula, a cápsula protéica do vírus é quebrada e seu genoma de RNA é copiado em uma molécula de DNA. A dupla fita recém-formada de DNA se circulariza e seqüências específicas do retrovírus dirigem a integração do DNA viral no genoma da célula hospedeira. A terapia gênica é bem aceita nas comunidades médica e científica. O estágio inicial, no qual se discutia a viabilidade prática do processo já foi vencido. Contudo, ainda não se sabe se um dia será um procedimento largamente aplicado. O homem é quase que totalmente dependente das plantas e dos animais como fontes de alimentos, vestuário, combustível, medicamentos, materiais de construção, etc. Existem basicamente duas maneiras de se aumentar a quantidade e a qualidade desses produtos: através da melhoria das condições ambientais em que as plantas são cultivadas ou os animais são criados e por meio do melhoramento de plantas e animais. Melhoria do ambiente das plantas inclui adubações, irrigações, uso de pesticidas, etc. Por outro lado, melhoria do ambiente de exploração dos animais envolve melhores rações, melhor manejo, etc. O melhoramento das plantas (ou dos animais) é a arte e a ciência de melhorar o padrão genético das plantas (ou dos animais), em relação ao seu uso econômico. É através do melhoramento de plantas e de animais que se manifesta a importância agrícola da Genética. Freqüentemente, procura-se discutir qual dos dois fatores ambiente ou herança, é o mais importante. Ambos estão tão interrelacionados que dificilmente pode-se separar a importância de cada um deles. Entretanto, a respeito do assunto, pelo menos os dois aspectos devem ser considerados. Enquanto todo o melhoramento de ambiente custa dinheiro, o melhoramento genético é praticamente sem custo para agricultor. Isso é válido principalmente com as plantas, onde a semente melhorada custa relativamente pouco, em relação à não melhorada. Freqüentemente, melhores plantas ou animais levam à economia de recursos e trabalho. Por exemplo, variedades resistentes a doença e pragas dispensam o uso de defensivos, contribuindo ainda para diminuir a poluição ambiental. Vários problemas de ordem sociológica, incluindo alguns já ressaltados anteriormente, podem ser orientados de modo mais eficiente pela genética. Pesquisas realizadas na Dinamarca sobre o papel dos fatores genéticos e ambientais no desenvolvimento da criminalidade revelaram 20 que, de vários fatores avaliados, os mais relevantes foram: criminalidade em pelo menos um dos genitores, criminalidade em pelo menos um dos pais adotivos e diagnóstico psiquiátrico para a genitora. Isto significa que a criminalidade dos genitores e dos pais adotivos, assim como a presença de doença mental na genitora são importantes fatores na gênese da criminalidade entre os filhos. Assim, o conhecimento da predisposição hereditária da criminalidade, da tendência ao suicídio, de doenças mentais, etc. podem sugerir medidas mais adequadas para a solução desses problemas e para que problemas maiores não surjam. Talvez a simples permanência de indivíduos com esses problemas em instituições de correção não seja a única medida que deva ser tomada. Provavelmente, alternativas adicionais devam ser consideradas. A política também recebe influência da genética, através dos aspectos acima estudados. Além disso, problemas como regulamentação da imigração e da emigração, formas de governo, distribuição das atividades políticas segundo as competências sociais dos indivíduos, preconceitosraciais, etc, são orientados em bases mais seguras com os conhecimentos genéticos. 6. LITERATURA CITADA ALBERTS, B.; BRAY, D.; LEWIS, J.; RAFF, M.; ROBERTS, K.; WATSON, J.D. Biologia molecular da célula. 3.ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997. FARAH, S.B. DNA: segredos e mistérios. São Paulo, Sarvier, 1997. FREIRE-MAIA, N. Informação e aconselhamentos genéticos. In: ___________. Tópicos de genética humana. São Paulo, Ed. de Humanismo, Ciência e Tecnologia, 1976. Cap. 13, p. 166 – 220. FUTUYMA, D.J. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Genética, 1997. GRIFFITHS, A.J.; GELBART, W.M.; MILLER, J.H.; LEWONTIN, R.C. Genética moderna. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2001. OTTO, P.G.; OTTO, P.A.; FROTA-PESSOA, O. Genética humana e clínica. São Paulo, Roca, 1998. WILSON, E.O.: PETER, F.M. Biodiversidade. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997. 7. QUESTÕES PARA REFLEXÃO Qual a importância econômica da Genética? Qual a importância filosófica da Genética? 21 A Genética traz implicações éticas para a sociedade? A Genética traz implicações para as religiões? Quais as características que um geneticista deve ter para ser um bom profissional no Século XXI ? APÊNDICE O “TESTE DE DNA” Genoma é o termo usado para designar um complemento total de genes em uma célula, um indivíduo ou uma espécie. Cerca de 75 % do genoma humano é constituído de seqüências simples de DNA, isto é, seqüências de nucleotídeos únicas ou que aparecem muito poucas vezes representadas no genoma. O DNA restante é composto de seqüências que se repetem de centenas a milhões de vezes no genoma humano, compondo o DNA repetido (rDNA) Nesse ponto é interessante a distinção entre os genes e as outras seqüências de DNA presentes no genoma humano. A partir dos genes é sintetizado um RNA e, portanto, os genes apresentam uma atividade de transcrição. Embora a vasta maioria dos genes humanos codifique um polipeptídio específico, existe uma minoria de genes cujo produto final é RNA. De toda forma, o total de DNA codificador (genes) compõe somente cerca de 2 a 3% do genoma humano e encontra-se principalmente entre as seqüências únicas de DNA. O DNA não-codificador pode ser encontrado dentro dos genes, formando os íntrons (seqüências não representadas no mRNA), ou como pseudogenes (genes que se acredita foram um dia ativos, mas que perderam sua atividade ao longo da evolução) ou, ainda, podem ser seqüências dispersas entre os genes, DNA extragênico. Apesar da maior proporção do DNA humano ser composta de seqüências simples, em grande parte sua função ainda não foi esclarecida, tendo em vista que somente uma pequena fração deste DNA é codificador. A grande maioria do DNA com seqüências simples encontra-se em pequenos segmentos distribuídos entre as seqüências de DNA repetido. Isto é: DNA do núcleo = DNA simples + DNA repetido. DNA simples = DNA codificador (genes) + DNA não-codificador. DNA não-codificador = pseudogenes + íntrons + DNA extragênico. O DNA repetido, que compões cerca de 30% do genoma humano, pode ser classificado em DNA codificador (que forma as famílias de multigenes) e DNA não-codificador. Vários genes humanos são ditos pertencentes a uma família devido à notável semelhança que existe entre suas seqüências, embora eles possam exibir funções diferentes. Uma característica comum a essas famílias de genes é que possuem um número considerável de pseudogenes. O DNA repetido extragênico, o qual não inclui genes funcionais, é composto de um conjunto de seqüências que se repetem em tandem (uma após outra), ou por seqüências que se repetem individualmente dispersas no genoma. A categoria de seqüências repetidas em tandem é subdividida de acordo com o tamanho médio das unidades de repetição em: DNA satélite, minissatélite e microssatélite. O DNA satélite compreende seqüências relativamente grandes e sem atividade de transcrição. Nos DNA minissatélites, a seqüência repetida em tandem é de tamanho moderado. Famílias de DNA microssatélites incluem seqüências muito pequenas repetidas em tandem, que aparecem distribuídas ao longo do genoma. Na identificação de indivíduos com vistas às aplicações em Medicina Legal, as regiões hipervariáveis do DNA são muito importantes. Tais regiões são constituídas de pequenas seqüências repetidas em tandem, os minissatélites. Neste caso, o polimorfismo resulta das diferenças observadas no número das seqüências repetidas, sendo conhecido como VNTR, sigla para Variable Number of Tandem Repeats (número variável de repetições em tandem). O polimorfismo do tipo VNTR pode ser observado quando o DNA é digerido com qualquer enzima que não corte a unidade repetida, e é hibridizado com uma sonda adequada. A grande vantagem de se analisar VNTRs para a identificação de indivíduos é que se trata de regiões hipervariáveis. Embora cada indivíduo apresente no máximo dois alelos diferentes, muitos alelos podem estar presentes na população. Isto se deve ao fato de que a repetição de seqüências idênticas ou muito semelhantes na região dos minissatélites pode causar erros no alinhamento dos cromossomos homólogoss, o que acarreta em crossing-over desigual durante a meiose, produzindo alelos com número de cópias aumentado ou diminuído em relação à seqüência repetida original. Dessa forma, apesar de a posição dos VNTRs ser constante no genoma humano, o número de seqüências repetidas em cada VNTR é altamente variável entre indivíduos. Inúmeras seqüências de minissatélites encontram-se distribuídas nos 23 pares de cromossomos humanos e, convenientemente, apresentam entre si semelhanças suficientes para permitir a detecção simultânea de vários loci por uma única sonda. O padrão completo de hibridização com essas sondas é único para cada indivíduo, com exceção de 22 gêmeos idênticos. Pelo seu poder discriminatório, criou-se o termo DNA fingerprint para designar o padrão de bandas exibido por essas sondas, numa alusão ao uso das impressões digitais, que por tanto tempo mostraram ser um método eficiente para a identificação humana. Entretanto, ao contrário das tradicionais impressões digitais, as “impressões digitais do DNA” fornecem evidências não somente sobre a identidade individual, mas também sobre a relação de parentesco. Cada banda refe-se a um locus distinto e são herdadas independentemente. Dessa forma, metade das bandas observadas em um indivíduo foi herdada de sua mãe, enquanto a outra metade foi herdada de seu pai. 23 CApítulo 2 IDENTIFICAÇÃO DO MATERIAL GENÉTICO 1. A TEORIA CROMOSSÔMICA DA HERANÇA A teoria cromossômica da herança, ou seja, a teoria de que os cromossomos são os constituintes celulares portadores do material genético foi estabelecida durante o período de 1902 a 1904 por Sutton, Boveri e De Vries. Os fatos principais que serviram de base para o estabelecimento dessa teoria foram, entre outros, os seguintes: o óvulo e o espermatozóide contribuem com o mesmo número de cromossomos para a formação do zigoto, no momento da fertilização; as espécies se caracterizam por um número constante de cromossomos; a duplicação longitudinal dos cromossomos ma mitose fornece uma base perfeita para a igualdade genética dos núcleos das células-filhas e para os aspectos de conservação da herança; o comportamento dos cromossomos na meiose concorda com o que se espera da herança. Assim, a mistura ao acaso e o entrecruzamento que sofrem durante a meiose proporcionam uma fonte importante para a variabilidade que se observa entre os indivíduos. Além do mais, a meiose provê um meio de reduzir o número de cromossomos à metade, observado nos gametas; a relação entre os cromossomos e os fatores mendelianos ou genes. Assim, há cerca de 90 anos atrásjá se admitia os cromossomos como os prováveis portadores do material genético. Mas, qual é esse material? O presente capítulo descreverá experimentos que permitirão uma resposta a esta questão. 2. CONSTITUIÇÃO QUÍMICA DOS CROMOSSOMOS Desde que os cromossomos são os prováveis portadores do material genético, se existe interesse na identificação desse material, o passo inicial será se procurar saber de que estão constituídos os cromossomos. 2.1. Cromossomos de Vírus Por volta de 1880, conheciam-se de um lado as bactérias, patogênicas ou não (isto é, capazes de produzir ou não uma doença) e os venenos (substâncias químicas que provocam desordens no funcionamento dos seres vivos); bactérias e venenos eram, então, os vírus. 24 As bactérias puderam ser caracterizadas por seu tamanho apreciável e por sua propriedade de se multiplicar. Devido às suas dimensões, eram visíveis os microscópios da época e ficavam retidas nos filtros em uso. Os venenos, ao contrário, moléculas de tamanho bem mais reduzido, passavam pelos filtros e não se multiplicavam. Em 1892, Ivanovsky mostrou que o “mosaico do fumo” era devido a um agente que não pertencia a nenhuma das duas categorias referidas. Ele se multiplicava na planta de fumo após inoculação (era infeccioso), portanto não era um veneno, mas passava, como os venenos, através dos filtros que retinham as bactérias. Tratava-se, pois, de um representante de uma nova categoria de agentes patogênicos. Esse novo agente foi chamado de ultravírus: ultravírus do mosaico do fumo. Descobriu-se rapidamente que uma série de outras doenças também eram devidas a agentes análogos e, progressivamente, foram definidas com precisão as características dessa nova categoria de “organismos”, cuja individualidade se mostrou cada vez mais marcada. Foi então abandonado o termo ultravírus e vírus passou a ser a denominação das entidades análogas ao agente do mosaico do fumo. Todos os trabalhos realizados até o presente mostraram que os vírus não são capazes de se multiplicar, a não ser no interior de células vivas. Por outro lado, o estudo comparativo da composição química dos vírus conhecidos mostra que existe certo número de constituintes essenciais, presentes em todos os vírus, aos quais se adicionam, em certos tipos de vírus, um ou mais constituintes adicionais. Os constituintes essenciais são, de um lado, um ácido nucleico e, de outro, uma ou mais proteínas. Os constituintes adicionais são muito variados. Um vírus não possui nunca mais que um ácido nucleico. Todos os organismos que possuem ao mesmo tempo DNA e RNA não são vírus, se bem que, às vezes, seu tamanho seja próximo ao deles. Esse ácido nucleico ou é DNA ou RNA. Constitui uma parte mais ou menos importante da massa do vírus, desde 50% no caso dos bacteriófagos da série T, até menos de 1% no aso do vírus gripal. Encontram-se sempre proteínas num vírus, mas o número de proteínas diferentes existente num mesmo vírus é sempre muito limitado. Essas proteínas, como todas as demais, são dotadas de propriedades antigênicas. Certos vírus só contêm um ácido nucleico e proteínas. Outros, além dos dois constituintes essenciais, possuem constituintes adicionais, como lipídeos (que podem representar até 50% da massa total) ou polissacarídeos. 25 Em geral, os cromossomos de vírus são simples moléculas de DNA. De qualquer forma, existem vírus, como o TMV, cujo cromossomo é composto inteiramente de RNA e não de DNA. 2.2. Cromossomos de Procariontes As células de bactérias e de algas verdes-azuladas são classificadas como protocélulas e se caracterizam pela ausência da membrana nuclear, de mitocôndrias, de um aparelho mitótico definido e dos sistemas citoplasmáticos membranosos das eucélulas, isto é, as dos organismos superiores. Os cromossomos dos procariontes são formados de DNA. 2.3. Cromossomos de Eucariontes Os cromossomos dos eucariontes são constituídos basicamente por dois tipos de macromoléculas: ácidos nucleicos (DNA e RNA) e proteínas. Existem dois tipos de proteínas. Uma proteína básica de baixo peso molecular, histona, que nos espermatozóides de certos peixes (salmão, truta, etc.) é substituída por uma proteína comparável, a protamina. Todavia, nas células somáticas desses peixes a protamina é substituída por história. Além da proteína básica, existe nos cromossomos uma proteína ácida chamada proteína residual. A maneira pela qual essas quatro moléculas (DNA, RNA, proteína básica e proteína ácida) estão ligadas para formar um cromossomo ainda não foi elucidada completamente. Lipídios, cálcio, magnésio e possivelmente ferro também estão presentes nos cromossomos, com os seus papéis na estrutura e no comportamento igualmente incertos, e parece agora estar certo que a polimerase do DNA, a enzima necessária para a duplicação do DNA, também está presente no cromossomo, estando ligada, possivelmente, pelo magnésio, no corpo principal do cromossomo. 3. A CARACTERÍSTICA FUNDAMENTAL REQUERIDA NO MATERIAL GENÉTICO A diversidade dos organismos bem como a diversidade entre os organismos deve exigir que o material genético seja capaz de transportar mensagens muito complexas. Assim, antes de se proceder à tentativa de identificação do material genético, é útil se procurar conhecer a estrutura e 26 composição dos dois tipos de macromoléculas que constituem os cromossomos: proteínas e ácidos nucleicos. 4. PROTEÍNAS As proteínas compõem-se de subunidades moleculares chamadas polipectídeos. Por sua vez, os polipeotídeos estão constituídos por componentes químicos menores denominados aminoácidos, os quais, unidos, formam longas cadeias. As cadeias polipectídicas de uma proteína podem conter 200 ou mais moléculas de aminoácidos. Não obstante, sabe-se que nas proteínas somente se encontram 20 tipos principais de aminoácidos diferentes. A composição química de uma determinada proteína é uniforme: cada molécula compõe-se do mesmo número e tipo de cadeias polipeptídicas e, por sua vez, cada uma destas cadeias polipeptídicas se compõe do mesmo número e tipo de aminoácidos, unidos entre si exatamente na mesma seqüência. Pode-se considerar que uma proteína tem quatro níveis de organização estrutural. A estrutura primária de uma proteína refere-se à seqüência dos aminoácidos presentes na cadeia polipeptídica. A estrutura secundária é a orientação espacial dos aminoácidos, uns em relação aos outros. Na maior parte das proteínas, a cadeia polipeptídica está, em grandes porções de sua extensão, enrolada no que se chama de hélice alfa. A estrutura terciária refere-se à disposição espacial da molécula protéica, que se enovela, pelo dobramento da cadeia sobre ela mesma, em inúmeros pontos da seqüência de aminoácidos. A associação de cadeias protéicas para formar uma molécula composta é chamada de estrutura quaternária. 5. OS ÁCIDOS NUCLEICOS 5.1. Nucleotídios Levene e outros bioquímicos mostraram que os ácidos nucleicos poderiam ser decompostos em frações menores que foram denominadas, então, de nucleotídios. Cada nucleotídio, por sua vez, estava constituído por um açúcar, um grupo fosfórico e uma porção nitrogenada. O açúcar era de dois tipos (Figura 1). Ambos apresentavam cinco carbonos, mas enquanto um deles apresentava um grupo OH no carbono 2, o outro açúcar, nesse carbono, mostrava apenas um átomo de hidrogênio. O primeiro açúcar é chamado ribose e o segundo desoxirribose. Ainda que estes sejam os dois principais açúcares que se encontram nos ácidos nucleicos, qualquer ácido 27 nucleico em particular não apresenta, ao mesmo tempo, ambos os açúcares. Comoconseqüência, existem dois tipos de ácidos nucleicos: o ácido ribonucleico (RNA), que normalmente acha-se no citoplasma, e o ácido desoxirribonucleico (DNA) que, com raras exceções, somente se encontra no núcleo. O grupo fosfórico de cada nucleotídio une-se ao carbono 5 do açúcar (Figura 2). Além do açúcar e do grupo fosfórico, que eram componentes constantes de todos os nucleotídios de um ácido nucleico, também é encontrado um grupo nitrogenado muito mais variável, associado ao carbono 1 do açúcar. A unidade nitrogenada apresenta um ou dois anéis com carbono e nitrogênio e pode atuar como base (aceptor de íons hidrogênio), em contraste com a natureza ácida do grupo fosfórico. As bases com um só anel são as pirimidinas e as que possuem dois anéis são as purinas (Figura 3). No DNA, as duas principais pirimidinas encontradas são a citosina e a timina, enquanto que o RNA apresenta citosina e uracilo. A diferença entre a timina e o uracilo parece ser insignificante (a presença de um grupo metil, CH3, na posição número 5 da timina) mas é, não obstante, significativa, de modo que geralmente não se encontra timina no RNA, nem uracilo no DNA. As duas purina principais, adenina e guanina, se encontram tanto no DNA como no RNA. Além das diferenças na estrutura dos anéis, as bases apresentam um grupo amino (NH2) na posição número 6 de uma das pirimidinas e de uma das purinas (cotosina e adenina), e um grupo cetônico (C=O) na mesma posição das outras bases (timina, uracilo e guanina). O DNA e o RNA podem, portanto, ser descritos como portadores de dois tipos de bases 6-amino e dois tipos de bases 6-cetônicas, divididas exatamente entre purinas e pirimidinas. 5.2. Estrutura do DNA 5.2.1. Estrutura Primária Como cada uma das bases permite distinguir o nucleotídio que a transporta, existem em geral quatro tipos distintos de desoxirribonucleotídios no DNA e quatro ribonucleotídios no RNA. Desta forma, a combinação fosfato-desoxirribose-adenina dá origem a um nucleotídio denominado ácido desoxiadenílico. Os outros três nucleotídios do DNA são, de modo semelhante, ácido desoxicitidílico, ácido desoxiguanílico e ácido desoxitimidílico. Quando Levene descobriu os desoxirribonucleotídios, notou que podiam unir-se por meio de pontes fosfato-açúcar. Baseando-se em suas técnicas, que sem saber como haviam levado à 28 fragmentação do DNA, propôs que todos os desoxirribonucleotídios se achavam presentes em quantidades iguais, e que se uniam em pequenas cadeias de, aproximadamente, quatro nucleotídios distintos (tetranucleotídios), cada uma delas. Na década de 40, alguns bioquímicos, Charfaff e outros, mostraram que nem todas as bases nucleicas estavam presentes nas mesmas quantidades e que a relação entre as bases variava de uma espécie para outra (Tabela 1). Estes experimentos, em combinação com melhores técnicas de isolamento de filamentos moleculares, sugeriram que o DNA não era uma molécula simples formada pelos mesmos 4 nucleotídios, e sim uma cadeia muito longa, constituída por centenas ou milhares de nucleotídios distintos, em seqüências diversas. TABELA 1. Composição de bases do DNA em vários organismos (segundo STRICKBERGER, 1971). Organismos Purinas Pirimidinas (A + G)/ C + T(U)A G C T U ------------------------------%--------------------------- Homem (esperma) 31,0 19,1 18,4 31,5 - 1,00 Touro (esperma) 28,7 22,2 22,0 27,2 - 1,03 Rato 28,6 21,4 21,7 28,4 - 1,00 Salmão 29,7 20,8 20,4 29,1 - 1,02 Ouriço do mar 32,8 17,7 17,4 32,1 - 1,02 Trigo 27,3 22,7 22,8 27,1 - 1,00 Levedura 31,3 18,7 17,1 32,9 - 1,00 Escherichia coli 26,0 24,9 25,2 23,9 - 1,04 Nycobacterium tuberculosis 15,1 34,9 35,4 14,6 - 1,00 Bacteriófago T2 32,6 18,2 16,6 32,6 - 1,03 Bacteriófago 0 X 174 24,7 24,1 18,5 32,7 - 0,95 TMV 29,3 25,8 18,1 - 26,8 1,23 Vírus da pólio 30,4 25,4 19,5 - 24,7 1,26 Vírus influenza 23,0 20,0 24,5 - 32,5 0,75 1/ A, G, C, T e U representam, respectivamente, adenina, guanina, citosina, timina e uracilo. * 5 - Hidroximetilcitosina 5.2.2. Estrutura Secundária Após o estabelecimento da estrutura nucleotídica do DNA (estrutura primária), surgiram perguntas a respeito da relação entre cadeias nucleotídicas individuais: estariam tais cadeias presentes unicamente em condição simples?; estariam distribuídas ao acaso, umas ao lado das outras, em grupos de 2, 3 ou mais?; existiria uma relação regular entre elas? 29 Nos anos quarenta, algumas descobertas indicaram que a molécula de DNA apresentava uma organização regular. Chargaff e outros haviam mostrado que, como regra geral, a quantidade de bases aminadas na posição 6 (A + C) era igual à quantidade de bases com um grupo cetônico na posição 6 (T + G), em qualquer espécie em particular, o que significava talvez uma relação de pareamento entre estes dois tipos de bases. Os estudos com difração de raios X, realizados por Wilkins e outros, haviam mostrado evidências de uma fibra multifilamentada, com cerca de 22 A de diâmetro, que se caracterizava também pela presença de grupos dispostos ao longo da fibra, espaçados por 3,4 A e pela presença de uma unidade repetitiva a cada 3,4 A (1 A = 0,0001 micron = 0,0000001mm). Levando em consideração os fatos conhecidos nessa época, Watson e Crick propuseram, em 1953, uma estrutura de dupla hélice para o DNA que foi, com rapidez, amplamente aceita. Segundo Watson e Crick, a molécula de DNA apresenta dois filamentos e se acha enrolada como uma corda, de modo que as duas cadeias complementares somente podem ser separadas caso se permita que as suas extremidades girem livremente. O enrolamento é helicoidal, à semelhança de uma escala de corda, enrolada em hélice, que mantém sempre o mesmo diâmetro e a mesma largura em todos os degraus (Figura 4). Continuando com a analogia da escala, podemos considerar que cada um dos filamentos complementares do DNA é a metade da escada, isto é, a metade da largura de cada degrau, com um dos “braços” da escada conectando cada um destes “meio-degraus”. O braço da escada é composto de ligações fosfato-açúcar, que são continuamente repetidas sem alterações. Os “meio-degraus” de um “braço” de escada, que ligam- se aos “meios-degraus” do “braço” complementar são bases púricas ou pirimidicas. Cada degrau é, pois, um par de bases entre os dois filamentos complementares de DNA. Dimensionalmente, os degraus estão separados por uma distância de 3, 4 A e cada um deles forma com o precedente dez degraus e tem um comprimento de 34 A. Propondo estas dimensões e limitando o diâmetro da hélice dupla a 20 A, Watson e Crick verificaram que somente quando cada par de bases fosse constituído pela combinação de uma purina com uma pirimidina, poderia tal par ajustar-se à largura de cada degrau (próxima a 11 A). A união entre duas bases seria determinada por pontes de hidrogênio, que consistem na habilidade de um único átomo de hidrogênio (com carga positiva) ser compartilhado por um átomo de oxigênio (carga ligeiramente negativa) e um átomo de nitrogênio (carga ligeiramente negativa) opostos em cada uma das bases complementares. 30 Embora as ligações de hidrogênio sejam mais fracas que as ligações químicas usuais, o fato de muitas delas ocorrerem ao longo do comprimento da hélice dupla do DNA, pelo menos duas para cada par de bases, dá um alto grau de estabilidade e rigidez à molécula. Assim, as ligações de hidrogênio são responsáveis pelo ajuste exclusivo entre a adenina e a timina e entre a guanina e citosina. Em outras palavras, as bases do DNA de filamento duplo dariam relações quantitativas nas quais A = T E C = G OU A + G = C + T, ou (A + G)/C + T) = 1 (note-se, entretanto, que A + T não temque ser necessariamente igual a (G + C) (ver Tabela 1). Outras possíveis combinações de bases, tais como adenina e citosina, levariam à presença de 2 átomos de hidrogênio em uma das posições de enlace e a nenhum átomo nas outras. Ademais, para que as bases se ajustem de forma adequada, os açucares de um filamento devem estar dirigidos em direção oposta à dos açúcares do filamento complementar. Assim, pois, de maneira diferente ao que se sucede em uma escala regular, espera-se que os braços da escada (cada um dos filamentos de DNA) se apresentem em direções opostas. A estrutura do DNA apresentada oferece uma explicação adequada de como uma molécula pode formar cópias perfeitas de si mesma. Para replicar-se, o DNA enrolado em hélite tem, tão somente, que separar-se em seus dois filamentos, atrair os nucleotídios livres dispersos no meio, para que se pareiem com as bases de cada um dos filamentos e então unir tais nucleotídios, com a ajuda de enzimas adequadas, em novos filamentos. Como a adenina somente se pareia com a timina, um filamento somente pode atrair moléculas de timina nas posições em que apresenta adenina e vice-versa. De modo semelhante, a mesma relação é válida para citosina e guanina. Portanto, qualquer filamento separado só pode formar uma réplica exata do filamento complementar do qual se separou. Tem-se, pois, uma molécula capaz de duplicar-se exatamente e, portanto, de transmitir sua estrutura a todos os produtos da divisão celular. Nos casos em que não ocorre a igualdade entre as relações das bases complementares (A = T, G = C), como por exemplo no bacteriófago 0 X 174, isto indica uma estrutura de filamento simples e não complementar. Tais filamentos de DNA, chamados “filamentos +” podem, não bastante, produzir “filamentos” complementares, durante a replicação que, por sua vez, atuam como modelos para produzir mais filamentos +, por pareamento de bases. Assim, mesmo para o DNA de um só filamento, ainda se espera que seu modo de replicação esteja baseado no pareamento complementar exato. 31 5.3. Estrutura do RNA As características distintivas do RNA são, como já foi visto, o açúcar ribose e a substituição da base pirimídica timina por uraci.lo. A ausência geral de igualdade na proporção de bases de guanina e citosina e de adenina e uracilo no RNA significa uma falta de complementariedade entre tais bases, isto é, a ausência de uma hélice dupla. Como regra geral, o RNA mantém, portanto, uma estrutura de filamento simples, ainda que algumas formas de RNA pareçam apresentar dois filamentos, como acontece em alguns vírus. Não obstante, mesmo quando apresenta a estrutura de filamento simples, a estabilidade do RNA é incrementada pela capacidade que a molécula apresenta para dobrar-se sobre si mesma, de modo que um pareamento ocasional de bases e algumas p0ontes de hidrogênio permitem a formação de certa estrutura helicóide. 6. ÁCIDOS NUCLEICOS X PROTEÍNAS A discussão precedente permite que se avance na solução do problema de identificação do material genético. De início, deve ser dito que, nos organismos eucariônticos, nem o RNA nem a proteína residual parecem ser o material genético por, pelo menos, duas razões. Em primeiro lugar, ocorrem em proporções relativamente reduzidas no cromossomo (o DNA e a histona formam um complexo que perfaz de 60 a 90% da massa do cromossomo). Em segundo lugar, as quantidades de RNA e proteína ácida residual variam com o estado metabólico do núcleo. Restam assim como candidatos ao material genético o DNA e a proteína básica (histonas ou protaminas). Ainda que as histonas pareçam ser relativamente complexas, a protamina possui uma estrutura simples, constituída em sua maior parte pela união de grupos do aminoácido arginina. Uma de tais proteínas (ou as duas) poderia ser o material genético? Conforme já foi mencionado, a diversidade de organismos bem como a diversidade entre os organismos deve exigir que o material genético seja capaz de transportar mensagens muito complexas. Ainda que os peixes não sejam os organismos mais complexos, parece difícil aceitar a idéia de que o material genético de um peixe seja uma cadeia proteica repetitiva, a protamina, composta principalmente por um só aminoácido. Como pode uma cadeia tão simples determinar a síntese de outras proteínas com 32 numerosos tipos de aminoácidos? Também parece estranho que, até a formação do esperma, o material genético possa ser uma histona que, então, converte-se em uma protamina. Por outro lado, a porção ácido nucleico é uma característica constante de todas as células e apresenta, como já foi visto, uma variabilidade muito superior à da protamina. Assim, conhecendo-se apenas a composição química da célula e, mais especificamente a do cromossomo, chega-se à conclusão de que o DNA é o candidato mais forte ao cargo de material genético. Outras provas, que serão discutidas a seguir, mostrarão ser realmente o DNA, pelo menos na maioria dos casos, o material genético. Em alguns casos, o RNA é o material genético. 7.1 Transformação Bacteriana em Pneumococos Nos mamíferos, a pneumonia é algumas vezes causada por uma bactéria denominada Streptococcus pneumoniae (também conhecida como Diplococcus pneumoniae), comumente conhecida como pneumococos. Existem dois tipos de células pneumocócicas. Em um tipo, a célula secreta considerável porção de material polisscarídico e forma uma grande capsula em torno de si. A colônia produzida por essas células tem uma aparência reluzente e é chamada lisa (S), do inglês “smooth”. No outro tipo de célula bacteriana, nenhuma camada de muco polissacarídico é secretada. A colônia formada por esse tipo de células tem aparência irregular e é chamada rugosa ®, do inglês “rough”. As “células lisas” (S) são virulentas, pois a capsula de polissacarídios impede que a bactéria seja fagocitada, mas as rugosas ® não são virulentas. Investigações sobre a forma S do peneumococo revelaram a existência de muitas espécies de capsulas diferentes, devido às diferenças nas composições químicas de seu polissacarídeo. Os pneumococos S foram classificados como tipo I-S, tipo II-S, tipo III-S, etc. Cada um destes tipos é herdado e, assim, as bactérias poderão reproduzir suas capsulas específicas por inúmeras gerações celulares. A capacidade de produzir um tipo específico de polissacarídio, portanto, é parte do genótipo do organismo. Eventualmente, uma bactéria S pode sofrer um evento conhecido como mutação, transformando-se em bactéria do tipo R (esse evento ocorre com uma freqüência de 1 por 106 ou 107 células). O próprio tipo R também é herdado, pois é reproduzido através das gerações. Uma cultura de células R pode, ocasionalmente, dar origem a uma célula S, por uma Segunda mutação. Quando isso ocorre, o tipo S é idêntico àquele da colônia lisa da qual foi obtido o mutante original R. Não obstante, qualquer tipo de bactéria é sensível ao calor e, se a temperatura eleva-se suficientemente, as bactérias morrem. 33 7.2. Os Experimentos de Griffith Examoes serológicos com pneumococos, os causadores da pneumonia, eram cruciais antes da era dos antibióticos, por serem anti-soros específicos essenciais na terapia de entãoEm uma série básica de experimentos, Frederick Griffith, um médico londrino, mostrou, em 1928, que as bactérias de um tipo, mortas pelo calor, podiam ter uma influência hereditária sobre as bactérias de outro tipo. Ele observou que ratos injetados subcutaneamente com uma pequena quantidade de uma cultura viva R, derivada de pneumococo tipo II, juntamente com um grande inóculo de células do tipo III-S, mortas pelo calor, freqüentementesucumbiam à infecção, e que do sangue desses animais conseguia-se obter pneumococo tipo III, em cultura pura. Embora este inusitado fenômeno de “metamorfose ou de transformação tivesse atraídop a atenção de Griffith, ele não se ocupou mais intensamente com o assunto. Em vez deste tema, ele preferiu se dedicar a outros aspectos da bacteriologia médica até que, em 1941, trabalhando em seu laboratório londrino do Ministério da Saúde, ele foi estraçalhado por uma bomba nazista, pois não estivera disposto a, continuamente interromper seu trabalho para refugiar-se nos abrigos subterrâneos antibombas, sempre que fosse soado o alarme de perigo (Hausmann, 2002). Os seguintes fatos levaram à conclusão de que deveria ter ocorrido uma mudança ou transformação do tipo II-R ao tipo III-S, por meio da transferência de alguma substância ativa: a linhagem R era avirulenta e incapaz, por si mesma, de causar pneumonia fatal; a suspensão aquecida de células do tipo III-S não continha organismos viáveis; o tipo II-R não muta ao tipo III-S. As observações originais de Griffith foram posteriormente confirmadas por Neufeld e Levinthal (1928), Baurhenn (1932) e por Dawson (1930). 7.3. Os Experimentos de Dawson e Sia Em 1931, Dawson e Sia foram capazes de induzir a transformação “in vitro”. Isso foi possível cultivando-se células R em um meio contendo soro anti-R e células S mortas pelo calor. Essa foi uma contribuição importante, pois passou a permitir que os experimentos fossem feitos de uma maneira mais cômoda, mais simples e mais barata. O uso de ratos implicava, obviamente, na criação, manejo, morte, etc. desses animais. 34 7.4. Os Experimentos de Alloway Em 1932, Alloway foi capaz de obter transformação “in vitro”, usando extratos de células S, que tinham sido separados de outros elementos e restos celulares por filtração. Dessa maneira, ele mostrou que extratos “não-purificados” contendo o material transformante ativo sob forma solúvel eram tão efetivos, na indução de transformação específica, quanto as células intactas a partir das quais os extratos foram preparados. 7.5. Os Experimentos de Avery, Macleod e McCarty Em 1934, no Instituto Rockfeller, nos Estados Unidos, Oswald T. Avery e seus colaboradores Colin M. Macleod e Maclyn McCarty começaram a trabalhar pacientemente para identificar o componente específico do extrato das células mortas que causava a notável modificação. Os trabalhos deles foram realizados em três etapas: isolamento e purificação da substância transformante; análise do material transformante purificado; e determinação quantitativa da atividade biológica do material purificado. 7.5.1. Isolamento e Purificação da Substância Transformante No isolamento e purificação da substância transformante, a partir de extratos de células pneumocócicas, Avery e colaboradores seguiram os seguintes passos: a) Cultivo das bactérias tipos III em caldo de coração de boi; b) Centrifugação do material e ressuspensão em solução salina (NaCl) com aquecimento da suspensão a 65oC por 30 minutos, para inativação das enzimas que destroem o princípio transformante; c) Três lavagens das células mortas com solução salina, para remover polissacarídio capsular, proteína, ácido ribonucleico e polissacarídio somático; d) Agitação das células com solução salina contendo desoxicolato de sódio, para extrair componentes celulares solúveis; e) Separação das células por centrifugação e repetição do processo de extração por 2 ou 3 vezes. Precipitação do extrato para adição de 3 a 4 volumes de álcool etílico. O desoxicolato de sódio sendo solúvel em álcool permanece no sobrenadante e assim é removido. O precipitado forma uma massa fibrosa que flutua na superfície do álcool e pode ser removido com uma espátula; f) O precipitado é redissolvido em solução salina e agitado com clorofórmio, para a extração de proteínas. O procedimento é repetido 2 a 3 vezes e o material é reprecipitado em 3 a 4 volumes de álcool. O precipitado obtido é dissolvido em um volume maior de solução salina, ao qual são adicionados 3 a 5 mg da enzima bacteriana capaz de hidrolisar o polissacarídio tipo III; 35 g) O material obtido é precipitado em 3 a 4 volumes de álcool etílico e o precipitado é redissolvido em solução salina. O processo de desproteinização pelo clorofórmio é novamente usado para remover a proteína enzimática adicionada e traços remanescentes de proteína pneumocócica; h) O material obtido é fracionado em álcool etílico que é adicionado gota a gota à solução, com agitação constante com um bastão. Na concentração crítica de álcool, o material ativo separa-se na forma de filamentos fibrosos que enrolam-se no bastão. O precipitado é removido do bastão e lavado em uma mistura de álcool e solução salina. A produção de material obtido pelo método descrito varia de 10 a 25 mg por 75 litros de cultura e representa a maior porção ativa do material ativo presente no extrato bruto original. 7.5.2. Análise do Material Transformante Purificado Depois de terem isolado e purificado o material transformante, Avery, Macleod e McCarty o submeteram a uma série de análises e testes: a) Testes Químicos Qualitativos – Avery e colaboradores verificaram que o material purificado deu resultado negativo, quando submetido aos testes do biureto e Millon, para proteína. O teste orcinol foi fracamente positivo para ácido ribonucleico, mas a reação difenilamina de Dische, para ácido desoxirribonucleico foi fortemente positiva. b) Análise Química Elementar – quatro preparações purificadas foram analisadas para os teores de N, P, C e H. Foi verificado, com base na relação N/P, que parecia haver pouca proteína ou outras substâncias contendo N ou P presentes como impurezas, pois se isso acontecesse, a razão N/P seria consideravelmente alterada; c) Análises Enzimáticas – foi constatado que tripsina, quimiotripsina e ribonuclease não tiveram efeito sobre o princípio transformante, indicando que esta substância não é nem ácido ribonucleico, nem proteína susceptível à ação das enzimas trípticas. Além das enzimas puras, eles também testaram preparações enzimáticas obtidas dos órgãos de vários animais: fostatases de osso de coelho e de rim de porco, polinucleotidase da mucosa intestinal de cachorro, autolisatos de pneumococos e soro de cachorro e coelho. Foi verificado que as preparações que destruíram o princípio transformante destruíram também amostras de ácido desoxirribonucleico obtidas de esperma de peixe e de tecidos de mamíferos. Adicionalmente, Avery, Macleod e McCarty testaram o efeito do soro de cachorro e de coelho sobre a atividade da substância transformante. O soro dos dois animais foi dividido em três partes: uma parte foi aquecida a 65oC por 30 minutos, outra a 60oC por 30 minutos e a outra não foi aquecida. Cada parte foi misturada com o material transformante e, depois de 2 horas, todas as misturas foram aquecidas por 30 minutos a 65oC, para parar a atividade enzimática. Cada material foi, então, testado para atividade transformada, misturando-o com células do tipo R. Eles verificaram que o soro não aquecido destruiu totalmente a atividade transformante. Por outro lado, as amostras de soro de cachorro aquecidas a 60 ou a 65oC, por 30 minutos, não determinaram perda da atividade transformante. Assim, nesse animal, a enzima do soro responsável pela destruição do princípio transformante é inativada a 60oC. Todavia, foi requerida a exposição a 65oC por 30 minutos para destruição da enzima correspondente do soro do coelho. As mesmas amostras de soro de cachorro e coelho usadas no experimento precedenteforam também testadas para sua atividade depolimerase, em uma preparação de desorirribonucleato de sódio. Foi observado um marcante paralelismo entre a 36 temperatura de inativação da depolimerase e aquela da enzima que destrói a atividade do princípio transformante. De várias substâncias testadas quanto à capacidade de inibir a ação da enzima que destrói o princípio transformante, somente fluoreto de sódio possui um efeito inibidor significativo. De modo semelhante, tem sido verificado que o fluoreto, na mesma concentração, também inibe a despolimerização enzimática do ácido desoxirribonucleico. O fato da atividade transformante ser destruída somente pelas preparações contendo depolimerase para ácido desoxirribonucleico e o fato adicional de que em ambos os casos as enzimas são inativadas à mesma temperatura e inibidas pelo fluoreto fornecem evidências adicionais para a crença de que o princípio ativo é um ácido nucleico do tipo desoxirribose. (a) Análises Sorológicas – Avery, Macleod e McCarty verificaram, no curso do isolamento químico do material ativo, que quando os extratos brutos eram purificados, sua atividade sorológica no antisoro tipo II diminuía progressivamente, sem uma perda correspondente de sua atividade biológica. Desde que a proteína bem como o polissacarídeo capsular e somático dos pneumococos podem ser detectados por métodos sorológicos em altas diluições, eles concluíram que o material transformante praticamente não continha proteína ou polissacarídeo; (b) Estudos Fisicoquímicos – quando o material transformante foi submetido a ultracentrífuga, Avery, Macleod e McCarty concluíram tratar-se de uma substância homogênea e com moléculas uniformes em tamanho e muito assimétricas. Na análise eletroforética, eles verificaram que a substância transformante possuía um único componente, com mobilidade relativamente alta, comparável àquela de ácido nucleico. As curvas de absorção da radiação ultravioleta da substância transformante mostraram pontos de máximo e de mínimo na regiões de, respectivamente, 2600 A e 2350 A, que são características de ácidos nucleicos. 7.5.3. Determinação Quantitativa da Atividade Biológica Avery, Macleod e McCarty verificaram que o material isolado foi capaz de induzir transformação em quantidades variando de 0,02 a 0,003 ug. 7.5.4. As Conclusões Em 1944, portanto 10 anos depois do início de seus trabalhos, Avery, Macleod e McCarty publicaram os resultados obtidos, afirmando: a)“De pneumococos tipo III, foi isolada uma fração biologicamente ativa, em uma forma altamente purificada, que em minutos é capaz, sob condições culturais apropriadas, de induzir a transformação de linhagens R de pneumococos tipo II sem cápsulas em células completamente capsuladas, do mesmo tipo específico que aquelas dos microorganismos mortos pelo calor, dos quais o material indutor foi obtido”; 37 b) “Os dados obtidos por análises química, enzimática e sorológica, juntamente com os estudos preliminares de eletroforese, ultracentrifugação e espectroscopia ultravioleta indicam que, dentro dos limites dos métodos, a fração ativa não contém proteína, lipídios ou polissacarídeo sorologicamente ativo e consiste principalmente, se não somente, de uma forma viscosa altamente polimerizada de ácido desoxirribonucleico”. 7.6. Generalização A importância da descoberta de Avery e colaboradores teria sido reduzida, se a transformação fosse restrita ao caso dos caracteres das capsulas. Contudo, logo verificou-se que o fenômeno da transformação poderia ocorrer em outros caracteres de Diplococcus pneumoniae e em outras bactérias como Bacillus subtilis. Entretanto, jamais foi possível obter-se a transformação de numerosas bactérias e, em particular, da Escherichia coli. 7.7. O Fenômeno da Transformação Como se dá a transformação? Estudos recentes têm permitido evidenciar que, durante o processo de extração do DNA, por exemplo do DNA das bactérias III-S, ele se parte em moléculas transformantes menores (cerca de 1/200 do DNA total). Essas moléculas transformantes, contudo, são relativamente grandes, com peso molecular variando de 5.000.000 (Diplococcus pneumoniae) a 15.000.000 (Bacillus subtilis e Hemophilus influenzae). Ao se expor as bactérias receptoras (tipo II-R, por exemplo) às referidas moléculas, algumas bactérias podem sofrer transformação, se bem que a freqüência seja geralmente baixa. Nas culturas de bactérias em “estado competente” (transformável), a freqüência de transformação é em geral em torno de 1%, mas em condições ótimas pode alcançar, em D. pneumoniae, até 10%. A razão dessa baixa freqüência de transformação parece residir no número relativamente baixo de moléculas transformantes (10 mais ou menos) que uma bactéria receptora pode absorver. Tem sido proposto que na parede celular bacteriana existe um certo número de pontos de entrada, através dos quais podem entrar as moléculas transformantes. De qualquer forma, qualquer que seja o mecanismo de entrada, o DNA transformante parece penetrar na forma de filamento duplo, sendo desdobrado no interior da célula em filamentos simples. Em D. pneumoniae, acredita-se que só um dos filamentos permanece intacto, sendo então incorporado no DNA receptor, enquanto que o outro degenera em pequenos 38 fragmentos. O DNA transformante é substituído ou trocado por uma seção homóloga do DNA receptor. 8. EXPERIÊNCIAS DEMONSTRANDO A NATUREZA DO MATERIAL GENÉTICO EM VÍRUS 8.1. O Caso do Bacteriófago T2 8.1.1. O Bateriófago T2 Os bacteriófagos (ou mais simplesmente “fagos”) são vírus que, como o próprio nome indica, atacam as bactérias. Eles foram descobertos em 1915 por d’Hérelle e Twort. Entre os fagos que atacam a bactéria Escherichia coli, uma série de sete fatos diferentes, T1 a T7, é muito bem conhecida (T corresponde à abreviação de tipo). Esses sete tipos de vírus formam, de fato, dois grupos com propriedades bem definidas: os T pares (T2, T4 e T6) e os T ímpares (T1, T3, T5 e T7). Os T pares são especialmente interessantes, visto que seu DNA contém, em vez de citosina, uma base particular, a hidroximetilcitosina; esta base permite identificar comodamente o DNA do vírus. O bacteriófago T2, apesar de conter só DNA e proteínas, apresenta uma estrutura particularmente elaborada. Possui uma cabeça, correspondente a uma cápsula, e uma cauda. A cabeça do vírus é constituída de unidades formadas por uma única proteína e contém, além do DNA, certo número de proteínas internas. A cauda é formada por uma bainha helicoidal, constituída por cerca de 200 unidades protéicas idênticas, envolvendo um eixo tubular. Termina por uma placa que contém espinhos e fibras caudais. Como todas as bactérias, a E. coli é relativamente isolada do meio pela parede bacteriana e membrana plasmática. Antes de se multiplicar, o fago deve, pois, fixar-se sobre essa barreira complexa, depois rompê-la. Fala-se em fase de absorção e de penetração. Os constituintes do fago se dissociam em seguida e, durante alguns minutos, nenhuma unidade infecciosa, nenhum vírion, fica visível, mesmo se as células forem esmagadas. Esse fenômeno corresponde à fase de eclipse. Uma série inteira de fenômenos particularmente importantes se desenrola durante essa fase: entrada em jogo dos mecanismos de síntese dos constituintes virais, síntese desses contribuintes, depois reunião deles em vírions. O aparecimento do primeiro vírion intracelular marca o fim da fase de eclipse. 39 Os vírions formam-se, então, em grande quantidadee, pouco tempo depois, assiste-se a uma ruptura da parede bacteriana (lise bacteriana) que liberta os vírions para o meio. Trata-se da fase terminal do ciclo viral, a fase de liberação. Seria interessante saber aqui se é o DNA ou a proteína do fago, ou, talvez, ambos, que são necessários para a sua reprodução. Em 1952, Alfred Hershey e Martha Chase realizaram uma experiência verdadeiramente engenhosa para responder a esta questão. 8.1.2. Os Experimentos de Hershey e Chase Os experimentos de Hershey e Chase foram baseados no fato de que o fósforo é um dos principais constituintes do DNA, porém o enxofre não. A proteína, por outro lado, apresenta pouco fósforo, porém contém enxofre. Os estudos de Hershey e Chase foram realizados em duas etapas. Na primeira, eles cultivaram bactérias hospedeiras em meio com sulfato contendo enxofre trinta e cinco (S35) no lugar de enxofre trinta e dois (S32) ou de fosfato contendo fósforo trinta e dois (P32) no lugar de fósforo trinta e um (P31). Durante o processo de crescimento, a bactéria incorporou os isótopos radioativos (S35 e P32), “marcando”, portanto, seus constituintes protoplasmáticos com enxofre ou com fósforo radioativo. As bactérias marcadas eram então infectadas com fagos. Os fagos reproduziam-se dentro da bactéria e eram liberados após a lise. Estes descendentes foram coletados e verificou-se que estavam marcados com o isótopo específico da bactéria hospedeira. Na etapa seguinte da experiência, bactérias não-marcadas foram infectadas com fagos marcados. Dessas infecções, foram tiradas amostras em diferentes tempos; essas amostras foram agitadas violentamente por curto prazo num liquidificador e, consecutivamente centrifugadas. As bactérias, por serem muitas vezes mais pesadas que os vírus, são acumuladas no fundo do tubo de centrífuga, sobrando no sobrenadante as partículas virais. Medidas da radioatividade no sedimento e nosobrenadante mostraram que, após a separação mecânica dos fagos adsorvidos, cerca de 80 % do S35 ficava no sobrenadante – correspondentemente, 20 % ficava preso à bactéria – enquanto que 65 % do P32 se encontrava no sedimento, ligado às bactérias – os correspondentes 35 % permaneciam no sobrenadante. Isto quer dizer que, proporcionalmente, cerca de três vezes mais DNA do que proteína permanecia nas células infectadas. Em outras palavras, quando à infecção, foi produzida por fago marcado com S35, poucas marcas foram encontradas dentro das bactérias hospedeiras. Entretanto, a maior parte da proteína do fago marcada com S35 foi 40 encontrada ligada externamente à bactéria hospedeira, isto é, uma cápsula do vírus infectante. Quando foram usados fagos marcados com P32, encontrou-se pouca marcação na proteína da cápsula; a maior marcação foi encontrada dentro da bactéria hospedeira. Portanto, foi principalmente o DNA que penetrou na bactéria durante a infecção, enquanto que a maioria da proteína permaneceu ligada externamente à bactéria. Então, o material injetado na bactéria pelo vírus é o DNA, e é este o DNA que é necessário para a reprodução de partículas de vírus geneticamente idênticas. As poucas marcas encontradas no interior das bactérias e que foram devidas às proteínas poderiam servir para alguém questionar que essa pequena fração de proteína do fago continha informação genética. Mais recentemente, entretanto, os cientistas desenvolveram procedimentos pelos quais os protoplastos (células com as paredes removidas) de E. coli podem ser infectados com DNA puro do fago. Nesses experimentos, foi produzida uma prole normalde fagos infectivos, chamados de experimentos de transfecção, provando que o material genético de tais vírus bacterianos é o DNA (Snustad e Simmonds, 2001). 8.1.3. A Multiplicação de T2 em Escherichia coli Conforme já mencionado, a multiplicação do fago T2 em E. coli se faz seguindo as seguintes etapas: fase de adsorção e de penetração, fase de eclpse e fase de liberação. Na fase de adsorção e de penetração, ocorre a fixação do vírus por intermédio das fibras e da placa existentes na extremidade da cauda do fago. Uma enzima, antes mascarada na cauda do fago, desmascara-se e entra em ação. Essa enzima de penetração vai atacar as ligações glicosídicas que asseguram a coesão da parte mucoprotéica da parede bacteriana. Em seguida à intervenção da enzima de penetração, a parede bacteriana se desloca localmente, e elementos pertencentes a essa parede e ao citoplasma subjacente são liberados para o meio. Assiste-se, por outro lado, a uma contração da cauda do fago. O seu eixo tubular se insere na parede bacteriana, através da zona de menor resistência, e o conteúdo da cabeça do fago é injetado na bactéria, ficando no exterior um despojo constituído pela cabeça e pela cauda do fago. Na fase de eclipse, verifica-se, de um lado, a uma parada dos processos sintéticos normais da bactéria e, de outro, à entrada em funcionamento dos mecanismos destinados a garantir a síntese dos elementos do fago. A suspensão dos processos sintéticos normais é traduzida pela 41 interrupção da síntese das proteínas bacterianas e da destruição do cromossomo de E. coli. A reorientação do funcionamento celular é caracterizada pelo aparecimento de RNAs especiais, RNAs mensageiros e de proteínas novas chamadas proteínas precoces, que são enzimas necessárias à duplicação do DNA do fago. A síntese desse DNA se faz às custas do DNA do vírus infectante e dos restos do cromossomo bacteriano, de uma parte, e de elementos nutritivos do meio, de outra parte. As moléculas sintetizadas se acumulam no interior de um “fundo comum”, onde ocorre uma série de pareamentos entre cadeias vizinhas, seguidos de trocas de segmentos. Quanto às proteínas, distinguem-se as proteínas de estrutura, que serão incorporadas ao vírus, a várias outras, especialmente enzimas, necessárias à elaboração ou à liberação do vírus. As proteínas são quase exclusivamente sintetizadas às custas dos aminoácidos do meio de cultura. A síntese se dá ao nível dos ribossomos pré-existentes na bactéria, os quais trabalham sob o comando de ácidos ribonucleicos mensageiros específicos do fago. Esses RNAs são provenientes de uma transcrição de segmentos determinados de DNA viral. Os constituintes do fago acumulam-se separadamente e não se reunirão a não ser mais tarde. Na montagem ou formação do vírus, o DNA se condensa e toma a forma de uma formação dos vírus, o DNA se condensa e toma a forma de uma cabeça de fago. Ao redor desse núcleo, reúnem-se as proteínas da cabeça. Finalmente, aparece a cauda do fago. Na fase de liberação dos fatos, ocorre a ruptura da parede pela ação de uma enzima denominada endolisina e vários vírus são liberados para o meio. 8.2. O Caso do Vírus do Mosaico do Fumo (TMV) 8.2.1. O TMV O vírus do mosaico do fumo (TMV) penetra nas células das folhas e perturba o metabolismo destas, fazendo com que percam sua clorofila. Conseqüentemente, as zonas infectadas assumem um aspecto de regiões amarelas sobre o fundo verde da folha. O vírus é composto de proteína (94%) e de RNA (6%). A proteína e o RNA podem ser separados um do outro, purificados e estudados no que concerne ao seu poder infeccioso. Dentro de certas condições, pode-se reconstituir, a partir dos dois constituintes, proteína e RNA, uma partícula viral que possui propriedades totalmente idênticas àquelas do vírus original. Por fim, deve ser 42 dito que existem vírus mutantes que, por infecção, produzem na planta manchas que diferem pela forma, cor e comportamento. 8.2.2. Experimentos Demonstrando queo RNA é o Material Genético do TMV Dois tipos de experimentos demonstram que o material genético do TMV é o RNA e não a proteína. Em 1956, Gierer e Schramm mostraram que RNA puro de TMV era capaz infectar folhas de fumo e determinar a síntese de novos vírus de TMV. Como era esperado, tal síntese poderia ser evitada por ribonuclease (uma enzima que destrói o RNA). Por outro lado, a proteína pura do TMV não era capaz de condicionar a síntese de novas partículas virais. Outros experimentos que mostraram ser o RNA o material genético do TMV utilizaram vírus mistos. Esses experimentos foram publicados por Heinz Fraenkel-Conrat e colaboradores em 1957. Suponha-se que se tenha dois estoques de vírus, A e B, que formam manchas diferentes. Pode-se isolar a proteína A do RNA A e também a proteína b do RNA B. A proteína A é, a seguir, colocada na presença do RNA B e um tipo de vírus misto é assim reconstituído. Ele é utilizado para infectar uma folha de fumo, e as manchas que surgem indicam que o vírus é do tipo B. Portanto, o caráter B é transmitido pelo RNA B. Se for utilizado um vírus misto (proteína B + RNA A), observar-se-á uma mancha correspondente ao vírus do tipo A. É evidente que o RNA é o transmissor do caráter e que a proteína não tem papel hereditário. 9. EVIDÊNCIAS DA NATUREZA DO MATERIAL GENÉTICO NOS ORGANISMOS SUPERIORES No que se refere aos organismos superiores, até há pouco tempo, não existiam fatos comparáveis àqueles conhecidos para as bactérias ou vírus, os quais demonstram, de maneira indiscutível, que o material genético é o DNA ou RNA. Por exemplo, as tentativas de exdperiências de transformação nos fungos, insetos ou vertebrados (patos, por exemplo) foram feitas, mas os resultados foram duvidosos e irresproduzíveis. O que existiam, na realidade, eram evidências indicando que o DNA era o material genético desses organismos. Tais evidências eram as seguintes: 43 9.1. Concentração do DNA Celular Para uma dada espécie, A. Boivin, A. Vendrely e C. Vendrely assinalaram que a quantidade de DNA por célula é constante (Tabela 2), ao passo que as quantidades de RNA e proteínas não o são. Por outro lado, a quantidade de DNA por célula é duas vezes menor nos gametsa que nos tecidos diplóides. Tudo isso seria esperado de uma substância candidata ao material genético. Todavia, deve ser dito que também tem sido observada constância nas quantidades de histona ou de proteína básica por célula (proteínas encontradas nos cromossomos, como já foi visto). 9.2. Estabilidade Metabólica do DNA Experiências de avaliação das trocas entre as macromoléculas celulares contidas no protoplasma, efetuadas por técnicas onde se empregam isótopos radioativos, demonstram que, nas células que não se dividem, não há modificação do DNA; nesse caso, outras macromoléculas são degradadas e sintetizadas durante a intérfase. É o comportamento mais simples que se pode imaginar para o material genético, que ele deva ser conservado sem modificação, de uma geração a outra. 9.3. Sensibilidade do Material Genético nos Raios Ultravioleta Podem-se induzir mutações, ou seja, provocar alterações hereditárias no material genético, pela aação de diversas radiações, dentre as quais os raios ultravioleta. Se se estuda o efeito mutagênico dos raios ultravioleta (UV) em função de seus comprimentos de onda, constata-se que a curva de ação se superpõe quase que inteiramente à curva de absorção dos raios UV pelos ácidos nucleicos, com um máximo muito próximo de 2600 A (Figura 6). Tal observação permite concluir que o material genético não é constituído de proteínas; estsa apresentam um espectro de absorção com um máximo de 2800 A, muito diferente da curva de absorção mutagênica dos raios UV. Enfim, a ação mutagênica característica de alguns análogos estruturais das bases, que substituem as bases normais do DNA, e a ausência de ação mutagênica dos análogos dos aminoácidos falam a favor do papel do DNA e não das proteínas como material genético. 44 TABELA 2 – Quantidade de DNA em diferentes tipos de células de vários organismos (segundo PETIT e PRÉVOST, 1973) TECIDO DNA/célula x 10-13g Natureza da Célula Galo Touro Truta Fígado 25 65 53 Diplóide Eritrócitos 26 68 58 Diplóide Timo - 66 - Diplóide Rim 24 61 - Diplóide Espermatozóides 13 33 27 Haplóide 10. EXPERIMENTOS DEMONSTRANDO A NATUREZA DO MATERIAL GENÉTICO EM ORGANISMOS SUPERIORES Atualmente sabe-se que quando o DNA é adicionado a populações de células eucarióticas isoladas que estão multiplicando-se em cultura, ele penetra nas mesmas e, em algumas delas, isto resulta na produção de novas proteínas. Inicialmente realizados com DNA extraído em massa, estes experimentos agora podem ser realizados rotineiramente com DNA purificado, cuja incorporação resulta na produção de uma proteína particular. Embora por razões históricas, estes experimentos sejam descritos como transfecção quando realizados com células eucarióticas, eles são equivalentes à transformação bacteriana. O DNA que é introduzido na célula receptora torna-se parte do seu material genético, sendo herdado da mesma maneira que qualquer outra porção do mesmo. A sua expressão confere uma nova característica às células. Inicialmente, esses experimentos tiveram sucesso apenas com células individuais adaptadas à multiplicação em meio de cultura. Mais tarde, entretanto, DNA foi introduzido em óvulos de camundongo por microinjeção; ele se tornou parte do material genético do camundongo, como será explicado adiante. Embora seja correto dizer que o genoma de qualquer procarioto está contido num único cromossomo, a grande maioria das bactérias é portadora de um grande número de unidades genéticas acessórias. Essas unidades genéticas acessórias são genericamente tratadas por elementos genéticos móveis. Como elementos genéticos móveis são classificados os plasmídeos, os bacteriófagos e os elementos genéticos transponíveis. Os plasmídeos são elementos extracromossomais com capacidade de replicação autônoma, constituídos por uma molécula de DNA fita dupla circular. O tamanho do plasmídeo varia muito e a seqüência nucleotídica da maioria dos plasmídeos tem pouca ou nenhuma homologia com o cromossomo bacteriano, podendo ser considerados, sob este ponto de vista, como elementos 45 extranhos à bactéria. É comum encontrarem-se na natureza bactérias portadoras de inúmeros plasmídeos distintos. Esses plasmídeos tendem, contudo, a serem perdidos quando essas bactérias são mantidas em laboratório. Tal fato ocorre porque o DNA plasmidial usualmente nãocodifica nenhum produto com função essencial para a célula hospedeira. As vantagens adaptativas conferidas pela presença dos mesmos operam apenas quando outros fatores, que não a simples disponibilidade de nutrientes determinam a sobrevivência e a multiplicação da bactéria. São reconhecidamente funções plasmidiais a produção de toxinas e outras substâncias importantes na interação de bactérias parasitas com seus hospedeiros; resistênciaa muitos agentes antimicrobianos; produção de bacteriocinas, proteínas tóxicas que matam outras bactérias. Um avanço excitante das técnicas de transfecção, referidas acima, é a sua aplicação para a introdução de genesem plantas e animais. Uma planta ou animal que recebe uma informação genética nova a partir de um DNA exógeno é chamado de transgênico ou organismo geneticamente modificado. A estratégia de se injetar o DNA diretamente pode ser utilizada em óvulos de camundongos. Plasmídeos portadores do gene de interesse são injetados dentro do óvulo fecundado. Esse óvuloé implantado dentro de uma fêmea. Após o nascimento, o camundongo receptor pode ser examinado para verificar se ele efetivamente adquiriu o DNA exógeno, caso isso tenha acontecido, se ele é ou não expresso.Um exemplo particularmente marcante dos efeitos de um gene injetado é fornecido por uma linhagem de camundongos transgênica derivada de óvulos injetados com um plasmídeo contendo um gene parahormônio de crescimento do rato. Os níveis de hormônios do crescimento em alguns camundongos transgênicos foram centenas de vezes maiores do que os normais. O camundongo cresceu quase o dobro do tamanho do camundongo normal (Farah, 1997) . Apesar da parede celular representar uma barreira para a entrada de DNA em células vegetais, existe na natureza uma bactéria capaz de desempenhar essa função com grande eficiência. A Agrobacterium tumefaciens é uma bactéria comum no solo e pode infectar certas plantas através de um ferimento. Essa bactéria provoca na planta infectada a proliferação descontrolada das células formando um tumor. Mais ainda, essa bactéria é capaz de desviar o metabolismo da planta hospedeira, de tal forma que as células infectadas passam a sintetizar substâncias que, aparentemente, não interessam à planta, mas que são fundamentais para a bactéria, pois promovem a energia requerida para seu crescimento. Em outras palavras, a bactéria induz as células vegetais a trabalharem em benefício próprio. A capacidade de induzir tumor é 46 controlada pela informação genética presente em um plasmídeo que a bactéria carrega, o qual é conhecido como plasmídeo TI (Tumor inducing). O plasmídeo Ti é uma molécula circular de DNA longa, que se duplica independentemente do DNA cromossômico da bactéria. Possui a propriedade única de injetar um segmento do seu DNA, o T-DNA, nas células da planta com as quais a bactéria entre em contato. Durante a infecção, o T-DNA é desprendido do plasmídeo e direge-se para o núcleo da célula hospedeira, onde se integra ao cromossomo. A integração do TODA ocorre ao acaso no genoma da planta e, em muitos casos, múltiplas cópias do T-DNA podem se integrar na mesma célula. Após a integração, o T-DNA passa a se duplicar com o cromossomo da célula hospedeira. O segmento de T-DNA possui vários genes que estimulam o crescimento do tumor e que codificam substâncias importantes para a bactéria. Entretanto, os genes que controlam a transferência do T_DNA, ou seja aqueles responsáveis pela pela separação do T-DNA e por sua integração no genoma da célula hospedeira, encontram-se em outra região, deixada para trás com o restante do plasmídeo, conhecida como vir, de virulenta. Uma vez estabelecido que o segmento de T-DNA dos plasmídeos Ti, presentes na Agrobacterium tumefaciens, é transferido para células vegetais e integra-se ao cromossomo, é evidente seu uso potencial como vetor biológico na engenharia genética das plantas. Entretanto, não seria desejável a indução de tumor em plantas transgênicas. Para se evitar tal possibilidade, os genes responsáveis pela indução do tumor são retirados do T-DNA e substituídos pelo gene que se pretende transferir para a planta. O plasmídeo Ti, carregando um T-DNA assim modificado é dito desarmado e pode agora ser utilizado como vetor. Infelizmente, quando os genes indutores de tumor são deletados, torna-se difícil determinar se a trasnferência do T-DNA realmente ocorreu, pois as células que receberam esse segmento modificado passam a se comportar da mesma maneira que as células não-transformadas. Uma forma de contornar essa dificuldadeé inserir no T-DNA modificado algum outro gene que funcione como marcador como, por exemplo, genes que confiram resistência a antibióticos. Essa estratégia permite a seleção das células modificadas. Os plasmídeos Ti desarmados, carregando o gene de interesse, são reintroduzidos nas bactérias, que serão utilizadas para infectar células indiferenciadas de callus em cultura, protoplastos ou pequenos discos recortados das folhas, cujas bordas são suscetíveis à infecção. 47 Em qualquer uma dessas situações, uma planta adulta pode ser regenerada, com grau variável de dificuldade, na qual todas as células carregariam o gene exógeno transferido. Evidentemente, a transformação pelo T-DNA, embora represente um excelente sisitema de transferência gênica, só é viável em plantas sujeitas à infecção pela bactéria A. tumefaciens, ou seja , as dicotiledôneas. Dessa forma, lançou-se mãos de outros métodos para se alcançar a transferência gênica em espécies de monocotiledôneas. Tais métodos incluem a microinjeção e a eletroporação que, entretanto, exigem, como célula-alvo, protoplastos livres da parede celular, sendo assim úteis somente nos casos em que é possível regenerar uma planta adulta a partir de protoplastos. Um outro método que permite a transferência gênica para células vegetais intactas, incluindo cultura de células embrionárias ou de callus ou mesmo pequenos discos de folhas, foi criado posteriormente. Inicialmente, o DNA a ser transferido é precipitado na superfície de diminutas partículas de tungstênio ou de ouro, literalmente atiradas no tecido-alvo. O processo funciona como se uma espingarda de chumbinho fosse usada para bombardear micropartículas, com 1 a 4u de diâmetro, diretamente para o interior da célula. Por incrível que possa parecer, esse procedimento realmente funciona e tem sido usado com sucesso em espécies vegetais que se mostraram refratárias a outros métodos de transformação e/ou a regeneração a partir de protoplastos, como as monocotiledôneas (Farah, 1997). 11. LITERATURA CITADA AVERY, D. T.; MACLEOD, C.M. e MCCARTY, M. Studies ou the chemical nature of the substance inducing transformation of pneumoccal types. Induction of transformation by a deoxyrribonucleic acid fraction isolated from pneumococcus type III. Journal of Experimental Medicine, 79: 137-158, 1944. BERKALOFF, A; BOURGUET, J.; FAVARD, P. e GUINNEBAULT, M. Células e vírus. In: __________. Biologia e fisiologia celular. São Paulo, Ed. Edgard Blucher, 1975. Cap. 5, p. 214-266. CONN, E.E. e STUMPF, P.K. Aminoácidos e proteínas. In: ___________. Introdução à bioquímica. São Paulo, Ed. Edgard Blucher, 1975. Cap. 4, p. 57-82. CONN, E.E. e STUMPF, P.K. Ácidos nucleiocos e seus componentes. In: ___________. Introdução à bioquímica. São Paulo, Ed. Edgard Blucher, 1975. Cap. 5, p. 83-100. PETIT, C. e PRÉVOST, G. Experiências demonstrando a natureza do material genético. In: _________. Genética e evolução. São Paulo, Ed. Edgard Blucher. 1973. P. 12-18. 48 PETIT, C. e PRÉVOST, G. O caso dos organismos superiores, In: _________. Genética e evolução. São Paulo, Ed. Edgard Blucher. 1973. P. 18-23. STRICKBERGER, m.w. Ácidos nucleiocos. In: _________. Genética. Barcelona, Ediciones Omega, 1974. Cap. 4, p. 61-85. 49 Capítulo 3 PRIMEIRO PRINCÍPIO MENDELIANO: SEGREGAÇÃO Atualmente, pode-se supor com alto grau de confiança que um material químico específico, o DNA, é transmitido de geração a geração, e que este material possui a potencialidade de transportar e duplicar muitas mensagens biológicas diferentes. Todavia, a consideração apenas do DNA como material genético não permite decifrar mensagens particulares ou traçar sua herança. A compreensão da transmissão ou forma de herança do material genético exige a consideração de características óbvias, cuja pista possa ser seguida ao longo das gerações. Duas leis ou princípios permitem a compreensão da maneirade transmissão do material genético. Elas foram publicadas em 1866 por Gregor Mendel e têm servido de base para as atuais teorias genéticas. A primeira delas, chamada de princípio da segregação dos fatores (ou princípio da pureza dos gametas ou herança de um par de fatores ou monohibridismo) é o objetivo deste capítulo. 1 – MENDEL Johann Mendel nasceu em 22 de julho de 1822 na cidadezinha de Heinzendorf, na alta Silésia, naquele mesmo tempo dominada pelo império austríaco, e que hoje faz parte da Checoslováquia. Filho de pais pobres, fez os cursos primário e ginasial com brilhantismo, mas não podendo concluir os estudos, resolveu dedicar-se à Teologia. Assim, em 1840 inscreveu-se num curso de filosofia para futuros sacerdotes e em 1843 ingressou no Convento Agostiniano de Brunn (atual Bruno). Em 1847, Mendel recebe as ordens religiosas adotando na ocasião o nome de Gregor. Logo depois de formado, exerceu seu ministério nos hospitais da cidade, mas sem muito sucesso. O abade Napp, superior do mosteiro, ajuda-o a encontrar um lugar de “professor substituto” no ginásio de Znain. Entusiasmado com seu sucesso no ensino, Mendel apresentou-se em 1850 para prestar os exames de habilitação como professor efetivo. Todavia, foi reprovado por “não atender à terminologia técnica e por exxpressar idéias pessoais, não condizentes com a ciência tradicional”. No ano seguinte, a conselho do abade Napp, viajou para Viena, e lá inscreveu-se na Universidade, para cursar matemática e ciências físico-naturais. Embora sua performance na Universidade não tenha sido das mais notáveis, o treinamento deixou-o com conhecimentos técnicos e de matemática que lhe foram úteis posteriormente, em seus trabalhos 50 sobre a hereditariedade. Em 1853, habilitou-se novamente aos exames de professor, mas foi reprovado outra vez. Desiludido, Mendel volta para o mosteiro de Brunn. Em 1854, o abade Napp consegue que ele seja aceito como professor substituto no ginásio real de Brunn e ao mesmo tempo, a seu pedido, nomeia-o hortelão e jardineiro do mosteiro. Durante o período de 1855 a 1864, Mendel devotou-se às experiências sobre hereditariedade, usando plantas \de ervilhas e o jardim do mosteiro. Nos dias 8 de fevereiro e 8 de março de 1865, ele comunicou o resultado de suas experiências à sociedade de Brunn para o Estudo das Ciências Naturais, lendo um manuscrito de 47 páginas e meia intitulado “Experiências sobre os Híbridos das Plantas”. O trabalho foi recebido com frieza e logo esquecido. Alguns autores acreditam que isso foi devido ao fato de Mendel Ter publicado seus estudos numa revista local, de limitada circulação, o que impediu que seu trabalho fosse conhecido de muitos pesquisadores notáveis da época. Contudo, isso não parece ser muito procedente, pois a revista de Brunn era distribuída por mais de cem instituições científicas européias. Os trabalhos de Darwin (publicados em 1859), o nome pouco conheicdo de Mendel e o seu trabalho apresentado em termos matemáticos devem ter sido a causa do desinteresse aparente pelas suas descobertas. Mendel morreu em 6/01/1884, ainda ignorado por seus merecimentos. O trabalho de Mendel foi redescoberto em 1900, independentemente por três botânicos europeus: Hugo e Vries, na Holanda, conhecido por sua teoria da mutação e estudos com uma primulácea e com o milho; Carl Correns, na Alemanha, que realizava investigações com milho, ervilhas e feijões; e Eric von Tschemak-Seysenegg, na Áustria, que trabalhava com diversas plantas, inclusive ervilhas. Dos três, o primeiro a publicar os seus resultados foi de Vries, em março de 1900. Alguns historiadores mencionam também como descobridor das leis mendelianas o norte-americano Spillman, pelos seus trabalhos com trigo, publicados em 1901. Todos estes pesquisadores tomaram conhecimento do relato de Mendel, enquanto faziam levantamentos bibliográficos em busca de trabalhos relacionados aos seus próprios experimentos, e o citaram em suas publicações. 3 - MATERIAL E MÉTODO UTILIZADOS POR MENDEL Quando o trabalho de Mendel popularizou-se, muitos geneticistas concluíram que Mendel teve sucesso em decifrar o modo de transmissão dos genes, enquanto que seus predecessores não tiveram, devido ao material e metodologia por ele empregados. Isso se verá nas informações por 51 ele prestadas nos itens “Seleção das plantas experimentais” e Divisão e arranjo das experiências”, apresentadas logo adiante. A escolha por Mendel da ervilha-de-jardim, Pisum sativum L., como material para a realização de seus experimentos, não foi evidentemente casual, mas resultou de uma longa e cuidadosa meditação. Mendel escolheu a ervilha pelas seguintes razões: A polinização pode ser facilmente controlada nesta planta. A ervilha é planta de autofecundação. A contaminação por pólen estranho não se dá facilmente porque os órgãos de fertilização estão protegidos pela quilha; a deiscência da antera se dá dentro do botão, de modo que o estigma torna-se coberto por pólen já antes da abertura da flor. A fertilização artificial, segundo o próprio Mendel, é certamente um processo complicado, mas quase sempre viável. Para este fim, o botão é aberto antes de completamente deenvolvido, a quilha é removida, cada estame cuidadosamente extraído por meio de pinças, e depois disto, o estigma pode ser imediatamente coberto com pólen estranho; A planta de ervilha é fácil de ser cultivada, seja em canteiros seja em vasos, e possui ciclo relativamente curto; A ervilha apresentava grande número de variedades, com caracteres simples, bem visíveis e contrastantes; A ervilha produz relativamente grande número de sementes por planta, o que permite a obtenção de descendência numerosa, própria para análise estatística. Mendel, utilizando seus conhecimentos de Matemática e Biologia, planejou experiências que diferiram das realizadas por seus predecessores em três importantes aspectos: Em lugar de estudar somente um número relativamente pequeno de descendentes de um só cruzamento, Mendel cruzou muitos indivíduos iguais em relação a uma característica. Dessa maneira, todos os descendentes obtidos podiam ser considerados como resultantes de um único cruzamento e ele contava, assim, com um grande número de indivíduos para analisar, numa mesma geração; Dispondo de um grande número de descendentes, pôde introduzir uma Segunda inovação: o uso da matemática. Empregou-a de duas maneiras: para analisar os dados obtidos e para chegar a uma teoria que explicasse os resultados dos cruzamentos; Analisou um caráter de cada vez, ao invés de analisar a planta como um todo. Seleção das plantas experimentais Segundo Mendel, “as plantas experimentais devem necessariamente: possuir caracteres constantes e contrastantes; os híbridos de tais plantas devem, durante o período de florescimento, estar livres de toda a influência de pólen estranho ou então poderem ser facilmente protegidos. 52 Experiências feitas com diversos membros da família Leguminosae indicava que o gênero Pisum apresentava as qualificações necessárias. Algumas formas bem distintas deste gênero possuem caracteres que são constantes, reconhecíveis com facilidade e certeza e, quando seus híbridos são cruzados entre si, produzem progênies perfeitamente férteis. Ainda mais, a contaminação por pólen estranho não se dá facilmente, porque os órgãos de fertilização estão protegidos pela quilha; a deiscência da antera se dá dentro do botão, o estigma tornando-se coberto por pólen já antes da abertura da flor. Esta circunstância é de importância especial. Como vantagem adicional, que merece menção, pode ser citada a facilidade de cultura destasplantas, seja nos canteiros ou nos vasos, como também seu período de crescimento relativamente curto. A fertilização artificial é, certamente um processo complicado, mas quase sempre viável. Para este fim, o botão é aberto antes de completamente desenvolvido, a quilha removida, cada estame cuidadosamente extraído, por meio de pinças, e depois disto, o estigma pode ser imediatamente coberto com pólen estranho.” Em seus experimentos, Mendel escolheu os sete seguintes caracteres, cada um deles com dois aspectos alternativos: a) Forma da semente madura: sementes esféricas ou listas, isto é, sementes com a superfície lisa ou depressões superficiais X sementes enrugadas, ou seja, sementes com superfície com depressões profundas; b) Cor dos cotilédones: cotilédones amarelos X cotilédones verdes. A cor pode ser facilmente distinguida, se os tegumentos são transparentes; c) Cor do tegumento das sementes; tegumentos brancos, com os quais a cor branca das flores está constantemenmte correlacionada X tegumentos marrons, associados com a cor violeta das flores; d) Forma das vagens: vagens cheias ou lisas (sem constrições) X vagens enrugadas ou com constrições entre as sementes; e) Cor das vagens imaturas: vagens amarelas X vagens verdes; f) Posição das flores: flores axilares e conseqüentemente vagens axilares X flores terminais, isto é, reunidas no topo do caule, e conseqüentemente vagens também terminais; g) Comprimento do caule: caule comprido (183 a 214cm) X caule curto (23 a 31 cm). 53 h) Desses caracteres, a forma das sementes e a cor dos cotilédones manifesta-se já nas sementes colhidas, enquanto os aspectos dos outros caracteres somente podem ser distinguidos nas plantas das sementes colhidas. Mendel estudou a herança dos sete caracteres cruzando uma variedade que apresentasse um aspecto determinado de um caráter com outra que apresentasse o outro aspecto do mesmo caráter. 3 – RESULTADOS OBTIDOS POR MENDEL Para facilitar a exposição do assunto em pauta, são interessantes algumas convenções. O cruzamento inicial entre duas variedades é chamado geração paterna, ou P, sua descendência é chamada primeira geração filial ou F1 (F derivava do vocábulo latino filiale, que significa prole, progênie). As gerações sucessivas seguintes são denominadas F2, F3 e assim sucessivamente. Os cruzamentos de Mendel entre duas variedades distintas para cada um dos sete caracteres estudados, sempre produziam, de maneira uniforme, uma F1 de um só tipo (Tabela 1). Não obstante, quando se permitia que as plantas F1 se reproduzissem por auto-fecundação, na F2 apareciam os caracteres das duas variedades originais. Por exemplo, ao cruzar uma variedade de sementes lisas com outra de sementes rugosas, Mendel verificou que todas as sementes produzidas eram lisas. Por sua vez, estsa sementes davam por autofecundação uma F2 com 5474 sementes lisas e 1850 sementes rugosas. As proporções da F2 foram, em cada caso, muito próximas a 3:1 e podem, pois, serem escritas como 3/4:1/4 ou 0,75:0,25 ou 75%:25%. Para os sete caracteres estudados, os resultados obtidos pareciam ajustar-se ao seguinte modelo: a) Para qualquer caráter, a F1 derivada do cruzamento entre duas variedades distintas apresentava, exclusivamente, um dos aspectos do caráter e nunca o outro aspecto; b)Não importava qual das duas variedades produzisse o pólen ou o óvulo. O resultado era sempre o mesmo; c) O aspecto que havia desaparecido, ou se achava escondido na F1, reaparecia na F2, mas com uma freqüência de apenas um quarto do número total. 54 4 – INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS OBTIDOS POR MENDEL Mendel chamou de “fator” ao agente responsável pela determinação de cada um dos aspectos. Pelos resultados obtidos na F1 e na F2, conclui-se que o fator que determina um dos aspectos de cada caráter deveria estar escondido (na F1), mas não destruído. O fenômeno pelo qual um dos aspectos aparece e o outro aspecto não se manifesta, embora os fatores para ambos estejam presentes, é chamado dominância. Nos cruzamentos de Mendel, o fator para semente lisa é considerado dominante com relação ao fator para semente rugosa, o qual é considerado recessivo. Simbolicamente, pode-se representar com a letra S o fator para semente lisa e com s o fator para semente rugosa. O regular reaparecimento dos vários aspectos recessivos ocultos já se constituía, de per si, numa notável contribuição à teoria da hereditariedade, já que durante muito tempo considerava-se que os aspectos de cada caráter se fundiam e se diluíam na descendência híbrida. Não obstante, ainda não estava clara a forma em que os fatores estariam implicados na determinação de um aspecto qualquer. Considerando-se os símbolos adotados para o caráter “forma da semente”, o híbrido de semente lisa da F1 contém S (já que é liso), mas também deve conter s (já que na F2 produz algumas plantas de sementes rugosas). Como S é dominante sobre s, as plantas rugosas estudadas por Mendel devem conter s, mas quantos por planta? Um?, dois?, três? dois s e um S? Uma das maneiras de se eleger uma de tais possibilidades consistiria em se cultivar as plantas rugosas e se observar sua descendência. Mendel observou que a autofecundação das plantas com sementes rugosas sempre levava à produção de plantas com sementes rugosas, por tantas gerações quanto se prolongasse o experimento. Evidentemente, elas não possuíam fatores S. Por outro lado, as plantas da F2 com sementes lisas nem sempre produziam plantas com sementes lisas, quando autofecundadas, de 565 plantas com sementes lisas autofecundadas, somente 193 deram origem a plantas com sementes lisas, enquanto que 372 produziram plantas com sementes lisas e rugosas na proporção de 3:1. Em outras palavras, as plantas da F2 com sementes lisas eram de dois tipos: produtores “puros” de plantas com sementes lisas e produtores “híbridos” de plantas de sementes lisas e rugosas, na proporção de 372 lisos híbridos para 193 lisos puros, ou 2/3:1/3. A descendência lisa de produtores híbridos lisos-rugosos da F2, quando autofecundada, dava origem, por sua vez, aos dois tipos de plantas: um terço de produtores lisos puros e dois terços de produtores híbridos lisos-rugosos. Em resumo, nestes cruzamentos pode-se distinguir 55 três tipos de plantas: produtores lisos puros, produtores rugosos puros e produtores híbridos lisos- rugosos, conforme está indicado na Figura 1. A partir destes resultados, fica claro que as plantas lisas híbridas que produzem tanto plantas lisas como rugosas devem possuir fatores para ambos os aspectos. Portanto, a suposição mais simples é a de que uma planta híbrida para a forma da semente deve conter dois fatores: S e s. Com base neste argumento, deve-se imaginar que os produtores lisos e rugosos puros também devem apresentar dois fatores, SS e ss, respectivamente. Portanto, fica claro porque as plantas SS e ss são chamados de “raças puras”; quando autofecundadas, esperar-se-á de cada tipo apenas linhas puras. Por outro lado, os híbridos Ss não são raças puras, já que possuem os fatores S e s. Supondo-se que os fatores S e s possam separar-se ou segregar nos gametas do híbrido, alguns gametas serão portadores de S e outros de s; isto é, existem duas classes de pólen igualmente freqüentes. As combinações ao acaso de tais gametas, para formar os zigotos, explicarão as proporções observadas por Mendel. Desta maneira, Mendel demonstrou que um híbrido de duas variedades distintas possui os dois tipos de fatores paternos que, subseqüentemente, separam-se ou segregam nos gametas. Esta lei fundamental é conhecida comoo princípio da segregação e pode assim ser enunciada: “cada caráter é condicionado por um par de fatores, que se separam na formação dos gametas onde ocorrem em dose simples, isto é, puros”. 5 – TERMINOLOGIA Em termos modernos, um fator herdado que determina uma característica biológica de um organismo chama-se gene. Nos organismos diplóides, tais como as ervilhas, os genes se encontram em pares, muitos dos quais são reconhecidos porque produzem um efeito biológico determinado tal como a forma de semente ou a cor da vagem. Chama-se alelos aos dois genes que ocupam o mesmo locus de cromossomos homólogos. Em alguns casos, estes alelos são idênticos; assim, uma planta com sementes rugosas é portadora de dois alelos idênticos: s e s. Em alguns casos, tal como numa planta híbrida de sementes lisas, os alelos diferem, sendo um deles o gene ou alelo para liso, S, e o outro o gene ou alelo para rugoso, s. Os termos gene e alelo são, pois, correspondentes, com a restrição de que alelo se refere unicamente aos genes de um determinado par de genes. Isto é, enquanto o gene para sementes lisas é um alelo ou alélico do gene para sementes rugosas, não é um alelo do gene para cor amarela da semente. 56 Quando um par de genes de um organismo apresenta dois alelos idênticos, por exemplo S e S, considera-se que o organismo é homozigótico para tal par de genes, dizendo-se que é homozigoto. Quando em um par de genes se encontram dois alelos distintos, por exemplo S e s, o indicíduo é heterozigótico para este par de genes e é chamado um heterozigoto. A distinção entre o efeito do gene e o próprio gene deve ser sempre tida em mente. O gene para sementes lisas não é obviamente liso. Genes, na concepção moderna, são seções de fios de DNA e não réplicas em miniatura de várias partes de um organismo. A distinção entre a aparência de um organismo e os fatores genéticos que a influenciaram é feita com os termos fenótipo e genótipo. Em sentido amplo, o fenótipo refere-se a todos os aspectos biológicos, incluindo atributos químicos, estruturais, e de comportamento que podem ser observados em um organismo, mas exclui sua constituição genética. O genótipo define somente o material genético que um organismo herda de seus pais. Portanto, embora o genótipo varie com o tempo, com mudanças que ocorrem na aparência do organismo, o genótipo permanece relativamente constante, exceto para as raras alterações genéticas conhecidas como mutações. 6 – TESTES DE FENÓTIPOS As características da descendência dos cruzamentos realizados por Mendel podem ser preditas conhecendo-se o genótipo dos pais e quais dos genes são dominantes e quais os recessivos. Conforme já foi visto, indivíduos ss apresentam sementes rugosas, enquanto que indivíduos Ss e SS apresentam sementes lisas. A questão que surge é a seguinte: pode-se determinar o genótipo de um indivíduo, conhecendo-se seu fenótipo? Em alguns casos, a aparência do fenótipo recessivo, tais como sementes rugosas, já indica que o genótipo da planta é homozigótico para estes fatores, isto é, ss. Por outro lado, genótipos condicionantes do genótipo dominante, por exemplo, sementes lisas, podem ser tanto homozigóticos, SS, ou heterozitóticos, Ss. Mendel usou dois tipos de testes para distinguir os fenótipos dominantes homozigóticos dos heterozigóticos. O primeiro teste já foi descrito e consiste na autofertilização das plantas com sementes lisas. Os genótipos SS, logicamente, só produzirão descendência com sementes lisas, por outro lado, plantas Ss autofertilizadas produzirão sementes lisas r rugosas na razão de 3:1. Assim, o 57 aparecimento de descendência com sementes rugosas de plantas com sementes lisas autofecundadas ou de plantas com sementes lisas cruzadas com outras plantas de sementes lisas, é uma indicação de que os pais com sementes lisas são heterozigotos. Um teste adicional executado por Mendel foi o retrocruzamento (backcross) ou cruzamento-teste (testcross), entre plantas com sementes lisas e plantas com sementes rugosas. Se as plantas com sementes lisas forem homozigotas SS, o cruzamento SS x ss somente produzirá descendência com sementes lisas. Por outro lado, se as plantas com sementes lisas forem heterozigóticas, o cruzamento Ss x ss produzirá metade da descendência com sementes lisas e metade com sementes rugosas. Mendel retrocruzou as plantas híbridas com sementes lisas (Ss) com plantas com sementes rugosas (ss) e obteve: 106 sementes lisas (Ss) e 102 rugosas (ss), ou seja, uma razão aproximada de 1 lisa: 1 rugosa, como era esperado. 7. REPRESENTAÇÃO DOS GENES Na descrição de trabalho de Mendel, somente letras foram usadas com símbolos. Assim, por exemplo, S para o fator dominante para as sementes lisas e s para o fator recessivo de sementes rugosas. Não se deu nenhuma indicação a respeito de qual de tais fatores representava o aspecto normal do organismo, isto é, o aspecto encontrado com maior freqüência. Não obstante, em muitos experimentos, é interessante que os símbolos dos fatores genéticos indiquem se os fatores são normais (tipo selvagem) ou se diferem da normalidade (mutação). Simbolicamente, designa-se por + o fator que determina o tipo selvagem e por letras (derivadas dos respectivos nomes dos fatores) os fatores que determinam as mutações. Assim, usa-se vg para a mutação que produz moscas de Drosophila com asas vestigiais e H para as moscas sem pelos (do inglês Hairless). Na maioria dos casos, as letras minúsculas representam as mutações recessivas (vg) e as maiúsculas as mutações dominantes (H). Nos organismos diplóides, os homozigotos podem ser representados repetindo-se o símbolo duas vezes, vg/vg, ou deixando-se apenas um símbolo, vg. De forma semelhante, os homozigotos do tipo selvagem podem ser representados por +/+ ou, simplesmente, por +. Os heterozigotos para um só par de genes, como por exemplo vestigial e tipo selvagem, podem ser simbolizados por +/vg. Quando se trabalha com dois ou mais pares de genes, cada um associado a um cromossomo distinto, por exemplo vg e H, uma mosca homozigótica para ambas as mutações fica descrita como vg/vg, H/H ou como vg, H. O 58 heterozigoto tipo o selvagem/mutante para dois pares de genes, o “duplo heterozigoto” é simbolizado por vg/+, H/+. O gene para o tipo selvagem também pode ser simbolizado como um “sobre-índice” de um fator mutante em particular. Assim, o homozigoto de tipo selvagem para o fator vestigial tanto pode ser representado como vg+/vg+, como por +/+. Quando se estudam dois ou mais pares de genes, a designação do gene de tipo selvagem como um “sobre-índice” + permite a discriminação entre os dois diferentes genes de tipo selvagem, tais como vg+ e H+. Também são utilizados os símbolos +vg e +h. 8. LITERATURA CITADA BIOLOGICAL SCIENCES CURRICULUM STUDY. Tipos de herança. In: _________. Biologia. 8 ed. São Paulo, EDART, 1975. Parte II, Cap. 15, p. 67-96 BRIQUET JR., R. Introdução. In: _________. Lições de genética. Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola-MA, 1965. Cap. 1, p. 1-16. GARDNER, E. J. Genética mendeliana. In: _________. Genética. 5 ed. Rio de Janeiro, Ed. Interamericana, 1977. Cap. 2, p. 7-40. GAROZZO, F. Os Homens que Mudaram o Destino da Humanidade: Gregório Mendel. Rio de Janeiro, Ed. Três. 1975. STRICKBERGER. M. W. Mendelian principles: 1. Segregation. In: _______. Genetics. New York, The Macmillan Company, 1971. Cap. 6, p. 97-108. 59 CAPÍTULO 4 SEGUNDO PRINCÍPIO MENDELIANO: TRANSMISSÃO INDEPENDENTE Os cruzamentos em que se considera um único par de genes podemser chamados monohídricos. Como resultado de estudos de cruzamentos desta natureza, Mendel descobriu, conforme foi visto, o princípio da segregação. Através do uso deste princípio, tornou-se possível prever-se a separação entre dois diferentes alelos de um par de genes e seus subseqüentes comportamentos em cada geração. Embora esta descoberta tenha sido, por si mesma, de grande valor, Mendel não parou neste ponto seus experimentos. Ele realizou cruzamentos onde passou a considerar mais de um caráter, isto é, mais de um par de genes. A análise de alguns aspectos destes cruzamentos é o objetivo deste capítulo. 1 – CRUZAMENTOS DIHÍDRICOS Fenótipos Os cruzamentos em que se consideram dois pares de genes são denominados cruzamentos dihídricos. Um destes cruzamentos realizados por Mendel foi aquele relativo ao acasalamento de uma planta de sementes lisas e amarelas com uma planta de sementes rugosas e verdes. Como era esperado, devido à dominância, as sementes resultantes deste cruzamento foram lisas e amarelas. Todavia, quando as plantas F1 foram cultivadas e autofecundadas, produziram 556 sementes F2 dos seguintes tipos: 315 lisas amarelas 108 lisas e verdes 101 rugosas amarelas 32 rugosas verdes Em termos de proporção, estes números estão muito bem ajustados à razão 9:3:3:1. Na realidade, para tal proporção, os números teóricos esperados seriam os seguintes: 312,75 lisas amarelas 104,25 rugosas verdes 104,25 rugosas amarelas 34,75 rugosas verdes 60 Em termos biológicos, como a relação 9:3:3:1 poderia ser explicada? Uma maneira simples de analisar esta relação seria separar os resultados e analisá-los individualmente, com relação a cada par de genes, conforme mostra a Tabela 1. As razões F2, portanto, ajustam-se às razões esperadas de cruzamentos onde apenas 1 par de genes está envolvido. Quando nós combinamos estes dois grupos de resultados, em um único cruzamento dihídrico, encontramos que cada par de gene atua independentemente do outro par. Isto é, a chance para uma planta ser lisa ou rugosa não interfere com, ou é independente de, sua chance de ser amarela ou verde. Matematicamente, esta relação é expressa multiplicando-se a probabilidade de que uma planta apresenta certa característica, por exemplo, lisa, pela probabilidade de que apresente outra característica distinta, amarela, por exemplo. Assim, se uma semente tem uma probabilidade de 3/4 de ser lisa e uma probabilidade de 3/4 de ser amarela, a probabilidade de que seja, ao mesmo tempo, lisa e amarela será 3/4 x3/4 = 9/16. Desta maneira, podemos obter a proporção de cada combinação fenótipa simplesmente multiplicando-se as probabilidades fenótipos individuais: 3/4 liso x 3/4 amarelo = 9/16 liso e amarelo 3/4 liso x 1/4 verde = 3/16 liso e verde 1/4 rugoso x 3/4 amarelo = 3/16 rugoso e amarelo 1/4 rugoso x 1/4 verde = 1/16 rugoso e verde 16/16, e uma proporção de 9:3:3:1 Estas são exatamente as proporções observadas, provando a independência ou transmissão independente destes dois pares de genes. Genótipos A proposção 9:3:3:1, dada anteriormente, refere-se unicamente aos fenótipos produzidos no cruzamento dihídrico. Quais os genótipos envolvidos nestes cruzamentos? Se designarmos por S o fator ou gene que determina a forma lisa da semente, por s a forma rugosa da semente, por Y a cor amarela da semente, e por y a cor verde da seme nte, podemos representar as linhagens paternas originais do cruzamento de Mendel por SSYY e xxyy. Os gametas formados por cada uma de tais linhagens paternas teriam a fórmula SY ou sy, que se combinariam para dar uma F1 de genótipo SsYy. Obviamente, a relação de dominância existente entre S e s não é afetada pela existente entre Y e y ou vice-versa, já que todos os indivíduos da F1 apresentam sementes lisas e 61 amarelas. Quais os tipos de gametas produzidos na F1? Está claro que, segundo o princípio da segregação, a metade dos gametas apresentará S e a outra metade s. De maneira siminar, para o par de Yy, a metade dos gametas apresentará Y e a outra metade y. Existirão, pois, proporções idênticas de gametas SY e Sy e também proporções idênticas de gametas sY e sy. Em outras palavras, os quatro tipos de gametas produzidos na F1 serão SY, Sy, sY e sy, na proporção de 1:1:1:1, ou 1/4 :1/4:1/4:1/4. Como isto ocorre tanto para o pólen como para as ovocélulas da F1, a probabilidade de que cada um dos quatro tipos de grãos de pólen se combine com qualquer um dos tipos de ovocélulas será 1/4 x 1/4 = 1/16 (Figura 1). Como se pode notar com facilidade, nove das combinações resultarão em fenótipo liso e amarelo, três serão lisas e verdes, três serão rugosas e amarelas e uma será rugosa e verde. 2 – TESTE PARA OS GENÓTIPOS DIHÍDRICOS Como o liso é dominante sobre o rugoso e o amarelo é dominante sobre o verde, as plantas da F2 surgidas a partir de sementes rugosas e verdes devem ser homozigotas para ambos os recessivos e, portanto, apresentar uma constituição genética ssyy (duplo recessivo). Esperar-se-ia que tais plantas produzissem, por autofecundação, unicamente sementes rugosas e verdes, e isto foi exatamente o que Mendel encontrou. Por outro lado, as plantas lisas amarelas podem apresentar diversos genótipos: SSYY, SsYY, SSYy, SsYy. Por exemplo, a F1 híbrida resultante do cruzamento de plantas lisas e amarelas com plantas rugosas e verdes deveriam Ter genótipo Ss Yy. Para provar esta suposição, Mendel cruzou as plantas Ss Yy da F1 com os dois tipos paternos, da seguinte maneira: 1 – Ss Yy x ssyy (progenitor rugoso e verde 2 – Ss Yy x SSYY (progenitor liso e amarelo) Espera-se que a F1 produza quatro tipos de gametas em iguais proporções (SY, Sy, sY, sy), e o duplo recessivo (ssyy) do cruzamento no 1 produza unicamente gametas sy. Uma combinação deste cruzamento pode ser esquematizada da maneira apresentada na Tabela 2. Desta maneira, as quatro combinações fenotípicas da descendência seriam esperadas em iguais proporções. Mendel contou 207 sementes produzidas em tal cruzamento, as quais foram distribuídas nas seguintes classes: 55 amarelas e lisas e, portanto, de genôtipo Ss Yy. 51 verdes e lisas e, portanto, de genótipo Ss yy. 62 49 amarelas e rugosas e, portanto, de genótipo ssYy. 52 verde e rugosas e, portanto, de genótipo ss yy. Como se esperava, as quatro classes fenotípicas se apresentavam na proporção 1:1:1:1. O segundo cruzamento, entre a F1 híbrida e a variedade amarela lisa, produziu unicamente descendentes de um fenótipo: amarelo e liso. Isso também era exatamente o que se esperava, já que a variedade paterna amarela e lisa é homozigótica e todos os gametas que ela produz são do tipo SY. Como se pode observar pela Tabela 3, a descendência amarela e lisa deveria estar constituída por 4 genótipos da proporção 1:1:1:1. Como a autofecundação de um heterozigoto leva ao aparecimento de homozigotos recessivos na geração seguinte, Mendel permitiu que 177 das plantas amarelas e lisas da F2 se autofecundassem para detectar a presença de genes recessivos. Verificou que consistiam, com efeito, em quatro tipos distintos nas mesmas proporções: 45 plantas somente produziam sementes amarelas e lisas da F3 e, portanto, eram SSYY. 42 plantas somente produziam sementes lisas amarelas e verdes na F3 e, portanto, eram SSYy. 47 plantas produziam sementes amarelas, lisas e rugosas na F3 e, portanto, eram SsYY. 43 plantas produziam sementes lisas, amarelas e verdes e sementes rugosas, amarelas e verdes e, portanto, eram SsYy. Como resultado de tais provas, concluía-se que a F1 amarela e lisa apresentava o genótipo Ss Yy. Por outro lado, as plantas amarelas e lisas da F2 (derivados do cruzamento F1 x F1)deveriam apresentar quatro genótipos distintos – SSYY, SSYy e SsYy, na proporção de 1:2:2:4 (veja figura 1). Mendel comprovou tal proporção autofecundando 301 das 315 plantas amarelas e lisas originais da F2 (14 não produziram nem plantas nem sementes) e obteve os seguintes resultados: 38 plantas produziram unicamente sementes amarelas e lisas e eram portanto SSYY. 65 plantas produziram unicamente sementes lisas, amarelas e verdes e eram, portanto, SSYy. 60 produziram unicamente sementes amarelas, lisa e rugosas e eram, portanto, SsYY 138 produziram sementes lisas, amarelas e verdes e sementes rugosas, amarelas e verdes e eram, portanto, SsYy. 63 A proporção 38:65:60:138 representava, segundo Mendel, “uma aproximação muito boa das cifras 33:66:66:132 (esperadas), ou uma proporção aproximada de 1:2:2:4. 3 – CRUZAMENTO ENVOLVENDO 3 OU MAIS DIFERENÇAS GÊNICAS A excelente correspondência que Mendel encontrou, entre os resultados dos cruzamentos de dihibridismo e os esperados segundo a transmissão independente, também era observada para os cruzamentos em que estão envolvidos 3 pares de genes. No experimento de trihibridismo que Mendel realizou, os 3 pares de caracteres seguintes foram levados em consideração (o primeiro fator mencionado é o dominante): a) Forma da semente: lisa e rugosa (S e s). b) Cor da semente: amarela e verde (Y e y). c) Cor da flor: violeta e branca (V e v). Mendel cruzou plantas com sementes amarelas e lisas e com flores de cor violeta (SSYYVV) com plantas com sementes rugosas e verdes e com flores de cor branca (ssyyvv) e obteve uma F1 com o fenótipo do progenitor dominante (SsYyVv). Autofecundou a F1 e obteve, na F2, plantas que apresentavam 8 fenótipos e 27 genótipos, na seguinte proporção: 27 lisas, amarelas e violetas (8 genótipos) 9 lisas, amarelsa e brancas (4 genótipos) 9 lisas, verdes e violetas (4 genótipos) 9 rugosas, amarelas e violetas (4 genótipos) 3 lisas, verdes e brancas (2 genótipos) 3 rugosas, amarelas e brancas (2 genótipos) 3 rugosas, verdes e violetas (2 genótipos) 1 rugosa, verde e branca (1 genótipo) Tanto as proporções genotípicas como as genotípicas da geração F2 podem ser derivadas considerando-se que os híbridos da F1 formam 8 tipos distintos de gametas: SYV, SYv, SyV, Syv, sYV, sYv, syV e syv. Como no cruzamento dihíbrido, qualquer destes gametas tem a mesma probabilidade de se combinar com qualquer outro gameta. Assim, resultam as 8 x 8 = 64 combinações esperadas. Devido à dominância, somente se formam 8 fenótipos diferentes, já que alguns efeitos fenotípicos são produzidos por mais de um genótipo; por exemplo, liso, amarelo e 64 violeta pode ser, genotipicamente, produzido de 8 maneiras diferentes. Portanto, o número de fenótipos diferentes é sempre menor do que o número de genótipos. Quando o número de diferentes pares de genes envolvidos no cruzamento é superior a três, o número de possíveis combinações dos mesmos aumenta enormemente. A Tabela 4 apresenta os números para cada uma das diversas categorias que seriam esperadas para vários pares de genes diferentes. Como já foi visto, os diferentes tipos de gametas produzidos por um híbrido da F1 aumentam, à medida que aumenta o número de pares de genes, para os quais o referido híbrido é heterozigótico. Assim, um híbrido heterozigoto para n pares de genes produzirá 2n tipos diferentes de gametas. O número de combinações de gametas, resultante do cruzamento de híbridos da F1, pode ser obtido multiplicando-se os números de diferentes tipos de gametas eu podem ser produzidos por cada um dos indivíduos (híbridos) envolvidos no cruzamento, isto é, 2n x 2n = 22n = 4n. Este valor é o tamanho da população perfeita necessário para que cada genótipo se expresse em, pelo menos, um indivíduo, de acordo com sua freqüência esperada: por exemplo, os híbridos heterozigóticos para dois pares de genes (por exemplo, Aa Bb) produzirão o homozigoto duplo recessivo (aa bb) em 1 de cada 16 combinações, ou seja, uma vez em uma população perfeita de tamanho 16. Dentro de tal tamanho da população perfeita, alguns genótipos serão produzidos mais de uma vez e o número de possíveis genótipos produzidos será 3n. Note que, a cada aumento no número de pares de genes, corresponde um aumento muito maior no número de possíveis genótipos, de modo que para 10 pares de genes, por exemplo, seriam obtidos 310, ou seja, 69059 possíveis genótipos diferentes. Como nos indivíduos da maioria das espécies existem diferenças em muito mais de 10 pares de genes, o número de possíveis genótipos distintos é imenso. Inclusive se em uma espécie segregam independentemente apenas 20 pares de genes, o número de genótipos possíveis é de aproximadamente 3,5 bilhões. Também é interessante notar que, ao se aumentar o número de pares de genes considerados, ocorre uma diminuição relativa na proporção de genótipos homozigóticos. Por exemplo, um cruzamento entre indivíduos heterozitóticos para um só par de genes produzirá 3 genótipos, dos quais dois são homozigóticos (isto é, AA e aa). Um cruzamento entre indivíduos heterozigóticos para 2 pares de genes produzirá 9 genótipos, quatro dos quais são homozigóticos (AABB, AAbb, aaBB, aabb). O número de genótipos homozigóticos produzidos em cruzamentos onde estão envolvidos n pares de genes é, pois, 2n e o número de genótipos heterozigóticos é 3n – 2n. Com 65 pequena probabilidade de engano, pode-se dizer que a maioria, se não todos, dos indivíduos de qualquer população que se cruza livremente será, portanto, heterozigótica para, pelo menos um par de genes e, provavelmente, para muito mais. Dois fatores que contribuem para a imensa variabilidade possível entre os organismos que se reproduzem sexualmente são, pois: a) Os acasalamentos entre uma ampla variedade de genótipos que asseguram uma produção contínua de novas combinações em cada geração; b) A descendência de indivíduos heterozigotos está sempre segregando para várias diferenças gênicas. 5 – LITERATURA CITADA STRICKBERGER, M. W.Mendelian Principles: II. Independent assortment. In: _______. Genetics. New York, The Macmillan Company, 1971. Cap. 7, p. 109-25. PETIT, C. e PRÉVOST, G. Transmissão dos caracteres através da meiose estudada em um organismo diplóide (diploobionte). In: _________. Genética e evolução. São Paulo, Ed. Edgard Blucher, 1973. P. 62-73 66 CAPÍTULO 5 RELAÇÕES DE DOMINÂNCIA E ALELOS MÚLTIPLOS Vários estudos, realizados em diversos organismos, mostraram a validade dos princípios mendelianos da segregação e transmissão independente. Como regra geral, encontra-se que a proporção mendeliana é de 3:1 na F2 dos cruzamentos monohíbridos e de 9:3:3:1 na F2 dos dihíbridos. Estas proporções resultam, conforme já foi visto, da segregação de dois alelos distintos (um dominante e outro recessivo) para cada caráter. Os resultados de alguns cruzamentos, todavia, não se ajustam a estas proporções. Em outras palavras, os resultados de alguns experimentos não podem ser explicados com base em dominância simples ou na presença de somente dois tipos de alelos. Essas “exceções” às leis de Mendel serão discutidas neste e em outros capítulos seguintes. 1. RELAÇÕES DE DOMINÂNCIA 1.1. Ausência de Dominância Na dominância simples ou completa, o heterozigoto, embora geneticamente diferente, tem o mesmo fenótipo de um dos homozigotos, isto é, Aa = AA, e a presença do gene recessivo é, funcionalmente, oculta. A dominância, portanto, é considerada como um efeito funcional ou fisiológico. Todos os caracteres estudados por Mendel, à exceção de “época de floração”(para o qual seus experimentos foram infelizmente incompletos) mostram o fenômeno da dominância simples. Depois de Mendel, estudos sobre a época de floração em ervilhas foram realizados por vários geneticistas, especialmente por Rasmusson, tendo sido concluído que diferentes fatores, entre eles um par de genes chamado A, influenciavam a herança do referido caráter. De acordo com Rasmusson, existia uma diferença de aproximadamente 5 dias em época de floração entre AA e aa. Um cruzamento entre tais indivíduos deu um heterozigoto F1, Aa, com uma época de floração, aproximadamente, intermediária. Se for designada a época de floração de aa como zero, as épocas de floração dos diferentes genótipos são: genótipo aa = 0,0, precoce; genótipo Aa = 3,7, intermediário; genótipo AA = 5,2, tardio. Cruzando-se os heterozigotos, obtém-se as seguintes razões: Aa x Aa 67 1 AA : 2 Aa : 1 aa tardio intermediário precoce Note que embora as razões genótipas sejam exatamente aquelas esperadas em qualquer cruzamento com segregação mendeliana, é a razão fenotípica que é alterada de 3:1 para 1:2:1. Assim, a ausência de dominância faz com que cada um dos genótipos possa ser distinguido dos demais. Desde a época de Mende, muitos outros exemplos de ausência de dominância têm sido encontrados para várias características, tanto em plantas como em animais. Assim, por exemplo, em plantas de “maravilha” (Mirabilis jalapa) não há dominância na cor das flores. Varidades de flor vermelha cruzadas com variedades de flor branca produzem híbridos F1 de flor rosa. Do cruzamento de tais híbridos resultam, em F2 três fenótipos distintos, vermelho, rosa e branco, nas proporções de 1:2:1, respectivamente. O gene R condiciona a cor vermelha e o alelo r a cor branca. O hetrerozigoto Rr é de cor intermediária, rosa. Em F2, 1/4 das plantas é homozigota RR de flor vermelha, 1/2 heterozigota Rr de flor rosa, e 1/4 homozigota de flor branca, rr. Em animais, um exemplo que poderia ser citado é aquele referente ao “olho Bar”em drosófila. Moscas com olhso normais (B+/B+) possuem cerca de 800 facetas nos olhos, enquanto que moscas com olhos do tipo bar (B/B) apresentam comente 60 facetas. O número de facetas dos heterozigotos (B/B+) varia de 250 a 500. Em certos casos, os descendentes híbridos são mais semelhantes a um dos tipos parentais que ao outro, apesar dessa semelhança não ser completa. Esse fenômeno é designado “dominância incompleta” e ocorre, por exemplo, em relação ao comprimento do pedúnculo da flor de ervilha. 1.2. Sobredominância O fenótipo de um heterozigoto não é sempre igual ou intermediário àqueles dos homozigotos. Em alguns casos, para algumas diferenças gênicas, o heterozigoto pode exceder a ambos os pais homozigotos. Tais heterorigotos são descritos como sobredominantes. Por exemplo, em drosófila, o gene w para cor branca do olho, quando na condição heterozigótica (w+/w), condiciona um notável aumento na quantidade de certos pigmentos fluorescentes 68 (sepiapteridine e himmelblaus) em relação às quantidades dos mesmos pigmentos apresentadas pelos homozigotos w+/w+ e w/w. Foram sugeridos quatro tipos de ação alélica como uma base plausível para explicar a sobredominância (Brewbaker, 1969): ação alélica suplementar, caminhos alternativos de síntese, conceito da quantidade ótima, e substâncias híbridas. É possível que alguns desses tipos de ação alélica sejam confundidos com a codominância, que será discutida a seguir. Quando dois alelos realizam funções diversas ou produzem substâncias inteiramente diferentes, o heterozioto pode ser capaz de realizar ambas as funções. Isto é, em essência, ação alélica suplementar Um exemplo deste tipo de ação alélica é o dos alelos que governam a resistência da cultura do linho a umaferrugem específica. H. H. Flor demonstrou a existência de alelos múltiplos (ver adiante) em cinco locos, os quais conferem resistência a várias centenas de linhagens da ferrugem. Cada alelo confere resistência a uma linhagem diferente; os heterozigotos alélicos, então, são resistentes a duas linhagens. Se por exemplo, uma planta de linho de genótipo MlM1 for resistente à linhagem 1 e M2M2 resistente à linhagem 2, o heterozigoto M1M2 será resistente a ambas as linhagens. Um segundo tipo de ação alélica, denominado caminhos alternativos de síntese, foi proposto como fundamento da heterose monogênica. Este tipo difere da ação gênica suplementar, principalmente na função exercida pelo ambiente. Os alelos sensíveis à temperatura, em plantas e animais, constituem um dos melhores exemplos de caminhos alternativos. Suponha-se que o alelo R1 produza um pigmento vermelho com um máximo de expressividade a 27 oC; suponha-se também que o alelo R2 produza o mesmo pigmento, mas que este último tenha um máximo de atividade a l0 oC. Mesmo não havendo dominância, o heterozigoto R1R2 terá dois caminhos alternativos de síntese para deles se utilizar, um ativo em temperaturas baixas e outro ativo em temperaturas mais altas. Para explicar a sobredominância, o conceito de quantidade ótima postula que o homozigoto para um dos alelos produz uma quantidade insuficiente de uma dada substância, enquanto que o homozigoto para o outro alelo a produz em excesso. Supõe-se por outro lado que o heterozigoto para esses dosi alelos produz uma quantidade que está mais próxima do ótimo para o organismo. Há um quarto tipo de sobredominância, ainda hipotético, que pode ser denominado o da substância híbrida. Nesse caso, o homozigoto A1A1 produz uma substância X, o homozigoto A2A2 produz uma substância Y e o heterozigoto A1A2 produz uma substância Z. M. R. Irwin e L. J. 69 Cole cruzaram machos da raça de pombos Pearnleck com fêmeas da raça Ring e mostraram que os híbridos tinham quase todos os componentes antigênicos dos pais e mais um ou dois componentes não encontrados nos mesmos. 1.3. Codominância O fenômeno da codominância ocorre quando cada par de alelos está associado com uma determinada substância, e ambas as substâncias aparecem no heterozigoto. Por exemplo, se as substâncias X e Y se encontram associadas aos homozigotos AA e aa, respectivamente, o heterozigoto codominante Aa produziria ambas as substâncias, X e Y, ao mesmo tempo. A detecção dos codominantes é, usualmente, difícil. Uma técnica que tem sido amplamente usada em tal sentido é aquela que utiliza a sensibilidade de um organismo e materiais de diferentes organismos. Quando um material estranho, um antígeno, penetra na corrente sanguínea de um organismo, ele induz, algumas vezes, no receptor, a produção de substâncias chamadas anticorpos que reagem com este material e, conseqüentemente, reduzem os efeitos nocivos. Estes anticorpos são específicos para um dado antígeno e cada diferente antígeno provoca o desenvolvimento de um anticorpo diferente. Assim, a corrente sanguínea (mais especificamente o soro sanguíneo) de um indivíduo pode conter muitos diferentes tipos de antígenos. Os glóbulos vermelhos do sangue humano (eritrócitos) é um tipo de material que pode ser usado para induzir a produção de anticorpos. Se estes glóbulos são lavados e então injetados em um coelho, o soro sanguíneo do coelho logo conterá anticorpos que podem ser extraídos por métodos especiais e que reagirão com aquele tipo particular de eritrócito. O tipo de reaçãoque ocorre é uma acumulação, ou aglutinação, de células em grupos (numa terminologia mais formal, o antígeno seria descrito como um aglutinógeno e o anticorpo como umaaglutinina). Quando Landsteiner e Levine testaram os glóbulos vermelhos de várias pessoas, eles verificaram, inicialmente, três tipos gerais denominados M, N e MN. O tipo M induz a produção de anticorpos (soro anti-M) específicos para M, que não aglutinam N. Os glóbulos vermelhos do tipo N induzem a produção de anticorpos específicos para N (soro anti-N), que aglutinam M. Ambos os tipos de anticorpos, todavia, aglutinarão os glóbulos vermelhos MN. Através da análise da relação entre pessoas portadorsa dos vários tipos de sangue, verificou-se que os genes para M e N parecem ser alelos. Em homenagem a Landsteiner, este gene foi denominado L, e os alelos para M e N foram representados, respectivamente, por LM e 70 LN. Indivíduos LMLM possuem o fenótipo M e produzem somente gametas LM; indivíduos LNLN têm o fenótipo N e produzem somente gametas LN, indivíduos LMLN possuem o fenótipo MN e produzem ambos os tipos de gametas, LM e LN. Recentemente, alguns autores têm preferido omitor o L, e estes alelos são, então, designados simplesmente por M ou N. A Tabela 1 resume o que foi exposto. TABELA 1 – Genótipos, tipos de reação e fenótipos do sistema MN. Genótipos Reação com Anti-M Reação com Anti-N Grupos Sanguíneos (Fenótipos) LMLM + - M LMLN + + MN LNLN - + N Desde que existem três fenótipos, M, MN e N, existem 6 diferentes tipos possíveis de acasalamentos: M x M, M x MN, M x N, MN x MN, MN x N, e N x N. 2 – ALELOS MÚLTIPLOS Conforme já foi visto, as unidades hereditárias transmitidas de uma geração para outra (herdadas) foram denominadas fatores por Mendel e, atualmente, são conhecidas como genes. No início da ciência da genética, pensava-se que o gene se comportasse como uma partícula unitária. Acreditava-se que estas partículas estivessem organizadas, nos cromossomos, como as contas de um colar. Este conceito de gene ainda é útil para estudantes principiantes em Genética, mas não para estudantes de nível universitário. Atualmente, os genes são considerados segmentos de filamentos de DNA. O DNA, juntamente com uma matriz proteica, forma a nucleoproteína e organiza-se em estruturas denominadas cromossomos, os quais são encontrados no núcleo das células. Portanto, cada gene ocupa no cromossomo uma posição específica chamada locus (plural de loci). Já foi visto que cromossomos homólogos são cromossomos genética e morfologicamente similares, que se pareiam na meiose. Os genes que ocupam o mesmo nível ou locus de cromossomos homólogos encontram-se condicionando determinado caráter e são denominados alelomorfos ou alelos. Por definição, um organismo diplóide contém, unicamente, dois alelos ao mesmo tempo. Esta condição surge, logicamente, da presença de pares de cromossomos homólogos nos organismos diplóides. 71 Em alguns casos, os alelos são idênticos. Assim, por exemplo, uma planta com sementes rugosas possui dois alelos idênticos: s e s. Em outros casos, os alelos são diferentes. Por exemplo, uma planta heterozigota para sementes lisas possui os alelos S e s. Conforme já ressaltado anteriormente, os termos gene e alelo são, pois, corresppondentes, com a restrição de que a palavra alelo refere-se unicamente aos genes (de um determinado par) situados no mesmo locus de cromossomos homólogos. Por que existem alelos diferentes?, isto é, S e s, Y e y, etc. A resposta a esta questão será dada posteriormente, com mais detalhes. Por enquanto, é suficiente dizer que, normalmente, o DNA é uma molécula estável, com capacidade de autoduplicação. Em raras ocasiões, certas alterações, denominadas mutações, podem ocorrer em alguma parte da molécula do DNA. Estas alterações do DNA, isto é do gene (já que o gene é constituído de DNA), é que originam diferentes alelos. Em outras palavras, através do processo de mutação, um gene pode ser alterado em duas ou mais formas alternativas denominadas alelomorfos ou alelos. Nota-se, portanto, que embora nos experimentos de Mendel estivessem envolvidos apenas dois alelos (S e s), (Y e y), etc., mais de dois alelos diferentes podem ocorrer. O conjunto de todos os alemos diferentes, relativos a um determinado caráter, e que ocorrem dois a dois condicionando um aspecto qualquer deste caráter é denominado sistema de alelos múltiplos. Os alelos múltiplos podem ser representados de diversas maneiras. Entre outras, por um conjunto de letras e números (A1, A2, A3, ...Na ou A1, A2, A3, ..., Na) ou apenas por letras (C, cch, ch e ca). Um exemplo clássico de alelos múltiplos é aquele referente à série dos 4 alelos – C, cch, ch e ca – relacionados à cor da pelagem em coelhos. O gene C condiciona a cor selvagem denominada “agútil”, em que o pelo é preto ou marron escuro, possuindo, ainda, uma faixa amarela. O alelo cch condiciona a cor “chinchila”, que é cinza mais clara que a do agúti, faltando o pigmento amarelo. O alelo ch determina a pelagem “himalaia”, na qual o coelho apresenta a pelagem toda branca, à exceção das orelhas, patas, cauda e focinho que são pretos. Finalmente, o alelo ca condiciona ausência absoluta de pigmentos preto ou marron e amarelo, sendo o coelho “albino” de pelo branco e olhos cor de rosa. O gene C é dominante em relação a cch, ch e ca; o gene cch é dominante em relação a ch e ca; e o gene ch é dominante em relação a ca. A relação de dominância pode ser representada da seguinte maneira: C > cch > ch > ca, isto é, emordem decrescente. 72 Nas populações de coelhos podem ser encontrados 4 diferentes fenótipos e 10 diferentes genótipos, em relação à cor da pelagem, conforme se pode observar pela Tabela 2. TABELA 2 – Genótipos e fenótipos relativos à cor da pelagem em coelhos GENÓTIPOS FENÓTIPOS CC – Ccch – Cch – Cca Selvagem Cchcch – cchch – cchca Chinchila Chch – chca Himalaio caca Albino Os sistemas de alelos múltiplos também têm sido encontrados em plantas. Os sistemas mais comumente observados são aqueles relacionados com a autoesterilidade. East e colaboradores verificaram que, em fumo, um grão de pólen haplóide portador de um determinado alelo, por exemplo S1, não crescerá satisfatoriamente em um estilete diplóide feminino portador do mesmo alelo, por exemplo S1S2, mas é capaz de fecundar, com êxito, uma planta portadora de S2S3 ou de S3S4, etc. Assim, os casos em que as fecundações ocorrem sempre indicam a presença, no pólen, de um alelo diferente dos alelos da planta feminina. Os sistemas de autoesterilidade são vantajosos para os alelos novos pouco freqüentes e desvantajosos para os alelos comuns. Depois que um alelo torna-se comum, sua freqüência fica reduzida ou limitada pelas numerosas combinações estéreis às quais está exposto. Por outro lado, os alelos raros terão êxito na fecundação de quase todas as plantas, até que tenham se tornado demasiadamente comuns. 3 – SISTEMAS DE GRUPOS SANGUÍNEOS COM ALELOS MÚLTIPLOS 3.1. Sistema ABO No homem, ocorrem várias séries de alelos múltiplos, como por exemplo as que determinam alguns grupos sanguíneos. Em 1900, Landsteiner descobriu a existência de diferentes grupos sanguíneos humanos, ao verificar que juntando sangue de certas pessoas ao soro sanguíneo de outras, ocorria um fenômeno de aglutinação das hemácias. Transfusões de sangue entre essas pessoas de sangue incompatível resultavam em aglutinação das hemácias doadas, com oclusões de capilares do receptor, provocnado às vezes morte. Esssas aglutinações não eram porém gerais, isto é, não ocorriam em certos casos. Pesquisando esse problema, ele constatou que a hemaglutinação era uma reação do tipo antígeno-anticorpo. 73 Conforme foi visto anteriormente, antígenos são substâncias que têm a capacidadede estimular um organismo animal a formar anticorpos capazes de reagir especificamente com elas. Os anticorpos são substâncias proteicas (imunoglobulinas), existentes no soro sanguíneo ou tecidos fluidos do corpo animal, em estado normal ou após a introdução de umantígeno e que reagem especificamente com este, neutralizando-o e inativando-o. Das várias substâncias conhecidas, as proteínas são as mais antígênicas. Muitos polisacarídeos também são bons antígenos e até glicogênio de uma determinada espécie pode ser antígênico para outra. A antigenicidade de lipídios puros e carboidratos de cadeia longa não foi estabelecida. Contudo, quando lipídeos formam complexo com polissacarídeos ou proteínas é provável que passem a servir como determinante antigênico. Aparentemente, ácidos nucleicos “in natura” não são antigênicos. No caso de DNA, a antigenicidade pode ser mascarada pela histona presente na molécula. Trabalhos recentes mostraram que ácidos nucleicos “in natura” e purificados, como também nucleotídeos e nucleosídeos, podem se tornar antigênicos quando acoplados com carregadores adequados. Apenas os animais vertebrados são capazes de uma resposta fisiológica que resulta em produção de anticorpos. Com exceção do hagfish primitivo, pertencente ao grupo dos Cydostomatos, todos os demais vertebrados examinados demonstraram possuir capacidade imunológica. Embora não se compreenda inteiramente o significado da necessidade de produção de anticorpos, parece que com o grau de desenvolvimento evolutivo surge paralelamente nas sucessivas formas de vida da escala evolutiva a necessidade para sobrevivência de uma maior capacidade de formação de anticorpos como defesa contra doenças parasitárias e neoplásicas. Na maioria dos organismos altamente evoluídos filogeneticamente parece que a perda da capacidade de produção de anticorpos significa a morte por doenças infecciosas. O tipo de reação antígeno-anticorpo é muito variado e, segundo o seu efeito, os antígenos e anticorpos recebem denominações especiais, conforme se pode observar pela Tabela 3. Na reação de precipitação, forma-se um precipitado contendo o antígeno e o anticorpo, precipitado esse neutro, pois é incapaz de provocar reação orgânica. Na Lise, dá-se a dissolução do antígeno por desagregação da célula que o contém. No caso especial do glóbulo vermelho, o fenômeno chama- se hemólise e consiste numa alteração da membrana do glóbulo e conseqüente saída da hemoglobina. Na reação de aglutinação, os glóbulos vermelhos do sangue ou as células estranhas 74 antigênicas se juntam, grudam em massa como pilhas de pratos devido à ação do anticorpo sobre o antígeno. TABELA 3 – Denominações dos antígenos e anticorpos, segundo o tipo de reação que determinam. REAÇÃO ANTÍGENO ANTICORPO Precipitação Precipitinogênio Precipitina Lise Lisógeno Lisina Aglutinação Aglutinógeno Aglutinina Existem, porém, nos organismos, certos anticorpos naturais que são produzidos mesmo na ausência do antígeno. É o caso dos grupos sanguíneos estudados por Landsteiner, cujos anticorpos específicos são naturais. Landsteiner verificou que existiam nas hemácias dois aglutinógenos, A e B, e no soro dois anticorpos, anti-A e anti-B, específicos para esses antígenos. Com referência ao tipo de antígeno encontrado nas hemácisa, as pessoas podem ser classificadas em quatro grupos. As do grupo A que possuem agluitinógeno A, as do grupo B, com aglutinógeno B, as do grupo 0 (zero), desprovidas de aglutinógenos, e as do grupo AB, com aglutinógenos A e B. No grupo A não ocorrem anticorpos anti-A, específico para o aglutinógeno A, mas ocorre anticorpo anti-B específico para o antígeno B. No grupo B só existe aglutinina anti-A. No grupo 0, existem aglutininas anti-A e anti-B para os aglutinógenos A e B, respectivamente. No grupo Ab não ocorrem anticorpos específicos. Em clínica, a aglutinação sobrevém somente ao por-se em contato hemácisa transfundidas contendo antígenos incompatíveis com a corrente circulatória (soro) do receptor. Um indivíduo do grupo 0 não tem nenhum antígeno nas hemácias, podendo estas serem transferidas a qualquer pessoa. Os portadores de sangue tipo 0 são denominados doadores universais. Um indivíduo do grupo AB não possui aglutininas específicas no soro, podendo assim receber sangue de qualquer tipo. Os portadores de sangue tipo AB são conhecidos como receptores universais. A Tabela 4 sumaria o que foi exposto nos últimos parágrafos. 75 TABELA 4 – Antígenos, anticorpos e possibilidades de transfusão com relação ao sistema ABO Antígeno nas células vermelhas (Grupos sanguíneos) Anticorpo no soro Podem Receber de Podem doar a A Anti-B A e O A e AB B Anti-A B e O B eAB O Anti-A e anti-B 0 Todos (doador universal) AB Nenhum Todos (receptor universal) AB Deve ser mencionado que o uso de pessoas do tipo 0 como doadores universais e pessoas AB como receptores universais não é mais praticado. A razão para isso é perfeitamente clara: reações perigosas em transfusões comumente resultam principalmente da ação dos anticorpos do receptor sobre as células ministradas por transfusão (do doador) e não tanto da ação dos anticorpos presentes no sangue da tranfusão sobre as células do receptor. A razão pela qual os anticorpos do sangue da transfusão geralmente não causam destruição substancial das células do receptor está no fato de que estes são extensivamente neutralizados por antígenos do receptor além de diluídos pelo soro do receptor, o que os tornam inefetivos. Conseqüentemente, devido ao volume relativamente grande do sangue do receptor, quando comparado ao volume transfundido, os anticorpos do receptor comumente não são diluídos a ponto de não poderem agir sobre as células do doador. É óbvio que a transfusão seria falha se o título dos anticorpos no soro do doador fosse alto, ou se tranfusões freqüentes e volumosas forem aplicadas. Por certo número de razões, recipientes universais e doadores universais raramente são usados (em casos de guerra, por exemplo) e é de prática geral escolher o doador e o receptor do grupo sanguíneo principal (A ou B). Verificou-se que os grupos sanguíneos são transmitidos hereditariamente e condicionados por alelos múltiplos. O alelo IA condiciona a produção de antígeno A, o alelo IB determina a produção de antígeno B, e o alelo i não condiciona a produção de antígeno. Os alelos IA e IB são dominantes em relação ao alelo i, mas apresentam ausência de dominância entre si. A Tabela 5 apresenta os genótipos e respectivos fenótipos relativos ao sistema ABO, considerando-se os alelos IA, IB e i. 76 TABELA 5 – Genótipos e respectivos fenótipos ao sistema ABO, considerando-se os alelos IA, IB e i. GENÓTIPOS GRUPOS SANGUÍNEOS IAIA e IAi A IBIB e IBi B IAIB AB Ii O Thomsen e colaboradores descobriram que o antígeno A podia ser subdivido em duas variedades, A1 e A2, com uma correspondente subdivisão dos grupos A e AB em A1 e A2 e A1B e A2B, respectivamente. Ambos os antígenos A1 e A2 reagem com o anticorpo anti-A, mas somente o antígeno A1 apresenta capacidade de reagir com o soro anti-A1. A produção dos antígenos A1 e A2 é condicionada por gens alelos correspondentes, de forma que o que era denominado gene IA pode na realidade ser de dois tipos: IA1 e IA2. No genótipo IA1IA2, o alelo IA1 produz o antígeno A1 que reage com soro anti-A1; sendo os genótipos IA1IA2, IA1IA1 indistinguíveis, pois todos reagem com ambos anticorpos anti-A e anti-A1. Considerando-se essas subdivisões, os genótipos e genótipos do sistema ABO são apresentados na Tabela 6. TABELA 6 – Genótipose respectivos fenótipos relativos ao sistema ABO, considerando-se os alelos IA1, IA2 e i GENÓTIPOS GRUPOS SANGUÍNEOS IA1IA1 – IA1IA2 – IA1i A1 IA2IA2 – IA2i A2 IA1IB A1B IA2IB A2B IBIB – IBi B ii 0 Existem outro grupos raros A3 e A4 e, possivelmente A5, controlados por outros alelos cujos antígenos não reagem com soro anti-A1 e que reagem com o soro comum anti-A muito mais fracamente que o antígeno A2. 77 Conforme já foi mencionado, a identificação dos grupos sangüíneos por reações sorológicas tem grande aplicação em transfusões de sangue, em exclusões de paternidade e em estudos antropológicos. A freqüência dos grupos ABO varia nas diferentes populações humanas. 3.2. Grupos Sangüíneos Rh Outra série de alelos múltiplos humanos está relacionada aos grupos sangüíneos Rh. O conhecimento desses grupos data de 1940, quando Landsteiner, Wiener e outros verificaram que ao inocular sangue de macacos rhesus em cobaias e coelhos, estes reagiam produzindo anticorpos no soro, que hemolisavam hemácias do rhesus. O soro específico foi denominado anti-rhesus ou anti-Rh e o antígeno existente nas hemácias do rhesus, que determina a produção de anticorpos específicos, fator Rhesus ou fator Rh. Colocando-se soro anti-rhesus em contato com sangue humano, este era aglutinado na maioria dos casos, sendo denominado sangue Rh positivo (Rh+) e em outros casos não ocorria aglutinação, sendo, portanto, sangue Rh negativo (Rh–). A população de Nova York, estudada por Landsteiner e colaboradores, era constituída de 85% de pessoas com sangue Rh positivo e 15% com sangue Rh negativo. Tornou-se evidente com essas pesquisas a importância do diagnóstico do grupo sangüíneo, quanto ao fator Rh, antes de qualquer transfusão. .Se um indivíduo Rh negativo recebe uma transfusão de sangue Rh positivo, desenvolve anticorpos anti-Rh no seu soro e pode, numa Segunda transfusão com sangue Rh positivo, apresentar os fenômenos característicos de incompatibilidade sangüínea. A descoberta do fator Rh veio esclarecer a origem de uma forma de anemia denominada “eritroblastose fetal”, apresentada às vezes por recém-nascidos. Essa doença provoca distúrbios durante a gestação, podendo resultar em aborto, natimorto ou recém-nascido com anemia. A eritroblastose fetal se caracteriza por apresentar: (a) anemia, por destruição das hemácias; (b) queda da taxa de hemoglobina, em conseqüência da destruição das hemácias; (c) icterícia, formação de pigmentos que provêem da destruição das hemácias; (d) aumento da taxa de formas jovens de hemácias no sangue circulante; (e) persistência de focos extra-medulares de formação de hemácias; (f) aumento do fígado e baço-hepato-esplenomegalia; e (g) edema em casos graves – inchamento do corpo da criança. 78 Levine, estudando essa anomalia, verificou que as crianças que a apresentavam pertenciam ao grupo sanguíneo Rh positivo, tendo sempre mãe Rh negativo e pai Rh positivo. O feto Rh positivo, desenvolvido em mãe Rh negativo, induz no soro desta a formação de anticorpos anti- Rh. Em sucessivas gestações de fetos Rh positivo, a quantidade de anticorpos maternos anti-Rh aumenta. Em caso de passagem de antígeno Rh do feto para o organismo materno, provavelmente por ruptura de vasos da placenta, os anticorpos anti-Rh desenvolvidos na mãe podem agir sobre as hemácias do feto, hemolisando-as e provocando a enfermidade. Geralmente, na primeira gravidez a quantidade de anticorpos maternos é insuficiente para provocar os referidos distúrbios. A transfusão de sangue Rh positivo em mulher Rh negativo provoca nesta a produção de anticorpos anti-Rh e nesse caso já na primeira gravidez pode aparecer eritroblastose fetal. Demonstrou-se que o fator Rh é determinado geneticamente. O gene R dominante determina a produção do fator Rh e o alelo r recessivo determina a ausência do mesmo. Desta maneira, indivíduos Rh+ poderão ter genótipos RR ou Rr, enquanto que pessoas Rh– terão genótipos rr. Se uma mulher Rh negativo, ou seja rr, casa-se com um homem Rh positivo, dois casos podem ser considerados. No primeiro, o homem é homozigoto e todos os filhos serão Rh positivo, sendo grande a possibilidade de aparecimento de eritroblastose fetal. No segundo caso, o homem é Rh positivo mas heterozigoto e, assim, 50% dos descendentes serão Rh positivo e 50% Rh negativo. Neste caso, alguns filhos (Rh+) poderão apresentar a anomalia e outros (Rh–) não. A eritroblastose fetal seria muito mais freqüente do que realmente é se não interferissem outros fatores. Um desses, sem dúvida, é a raridade das hemorragias placentárias: muitos casos de gravidez em que há incompatibilidade quanto ao sistema Rh, transcorrem sem tais hemorragias e, portanto, a mãe não é sensibilizada. Outro fator importante, que protege contra a sensibilização quanto ao Rh, é a incompatibilidade concomitante quanto ao sistema ABO. Se as hemácias que passam do feto para a mãe são de um grupo sanguíneo ABO diferente do materno, os anticorpos (aglutininas) naturais da mãe podem destruí-las antes que elas tenham oportunidade de promover a sensibilização da mãe contra o antígeno Rh. Nos casos de eritroblastose fetal, é recomendável a substituição do sangue Rh positivo da criança por sangue Rh negativo, que não reage com o anticorpo anti-Rh desenvolvido pela mãe e 79 que será aos poucos substituído pelo próprio sangue da criança, a qual já está livre de anticorpos maternos. Atualmente, é possível evitar a sensibilização de uma mulher Rh negativo, apesar de seu marido ser Rh positivo. Se o bebê for Rh positivo e houver um volume significante de hemorragia transplacental, administra-se à mãe, após o parto, gamaglobulina anti D intravenosamente. Demonstrou-se que este agente elimina do sangue materno as células fetais e evita, assim, a sensibilização. Verificou-se, posteriormente, que o fator Rh é determinado não somente por um par de alelos, mas por uma série de alelos múltiplos. Segundo Fisher, os grupos sangüíneos Rh são condicionados por três loci adjacentes muito próximos, designados como loci C, D e E. No locus D, podem ocorrer os alelos D ou d; no locus C, os alelos C ou c, e no locus E, os alelos E ou e. São conhecidos outros alelos para cada um desses loci, mas a sua ocorrência é muito rara. A presença de cada um dos genes citados, no genótipo, em homozigose ou heterozigose, determina a presença do antígeno correspondente na hemácia. Existem anti-soros específicos para os antígenos D, d, C, c, E e e, sendo o específico para d muito raro. Podem ocorrer portanto, segundo Fisher, as seguintes combinações gênicas: CDE, CDe, cDE, cDe, Cde e cde. Segundo Wiener, as combinações gênicas de Fisher são, na realidade, devidas a um só gene com múltiplos efeitos antigênicos. Portanto, cada indivíduo possuiria um só p[ar de alelos que determinaria o tipo sangüíneo Rh. As combinações gênicas de Fisher, segundo Wiener, seriam representadas da maneira indicada na Tabela 7. TABELA 7 – Notações de Fisher e Wiener para o sistema Rh NOTAÇÃO DE FISHER NOTAÇÃO DE WIENER CDE Rz Cde R1 Rh+ CDE R2 Cde R0 CdE Ry Cde r’ CdE r’’ Rh– Cde R 80 Como o soro padrão anti-D é o mais facilmente obtido em grandes quantidades, muitos trabalhos publicados baseiam-se somente nesse soro, sendo considerados os indivíduos que possuem o gene D como Rh positivos e os que não o possuem como Rh negativos. 4 – APLICAÇÕES DO CONHECIMENTO DA HERANÇA DOS GRUPOS SANGUÍNEOS O conhecimento da genética dos grupos sangüíneos tem na medicina legal uma de suas maiores aplicações. Assim é que permite resolver os casosde paternidade questionada, mostrando quais os tipos sangüíneos que podem ser pai de uma criança conhecida (cuja mãe também é conhecida) e quais os tipos que não podem ser pai. Por exemplo, o pai de uma criança cujo tipo sangüíneo é MN deve Ter o gene M, se a mãe da criança tiver grupo sangüíneo do tipo N. Um homem de genótipo N (genótipo MN) acusado de ser o pai desta criança seria, portanto, excluído. Logicamente, a presença do gene M não indicaria necessariamente ser o indivíduo M ou MN. As provas de grupos sangüíneos são, pois, úteis para “excluir”, mas não para “acusar”, em casos de paternidade. Do mesmo modo, podem ser solucionados casos de falsas mães, troca de criança em maternidades, etc. 5 – FREQÜÊNCIAS DOS GRUPOS SANGUÍNEOS As freqüências dos grupos sangüíneos variam conforme os grupos humanos, como demonstram as Tabelas 8 e 9. TABELA 8 – Freqüências dos grupos sangüíneos do sistema ABO em amostras de populações humanas (segundo BRIQUET JR., 1965). POPULAÇÕES GRUPOS SANGUÍNEOS (%) O A B AB Negros americanos 46,4 34,1 17,2 2,3 Esquimós 23,9 56,2 11,2 8,7 Havaianos 36,5 60,8 2,2 0,5 Índios (carajás) 39,0 5,0 51,0 5,0 81 TABELA 9 – Freqüência de grupos sangüíneos do sistema MN em amostras de pessoas de várisa nacionalidades (segundo BRIQUET JR., 1965). NACIONALIDADES GRUPOS SANGÜÍNEOS (%) M N MN Norte-americanos 29,0 21,0 50,0 Chineses 33,2 18,2 48,6 Dinamarqueses 29,1 21,4 49,5 Egípcios 28,3 23,1 48,6 Alemães 30,2 19,7 50,1 Russos 32,2 21,2 46,6 6 – ASSOCIAÇÃO ENTRE GRUPOS SANGÜÍNEOS E OUTRAS CARACTERÍSTICAS É interessante mencionar ainda a possível correlação entre tipo sangüíneo e tendências para certas doenças, embora muitos autores não admitam tais associações. A Tabela 10 apresenta alguns dados a respeito do assunto. DOENÇA GRUPOS SANGUÍNEOS (%) O A B AB Demência precoce 45 42 9 4 Epilepsia 48 40 10 2 Malária 47 30 18 5 Sífilis 44 42 8 6 7 – LITERATURA CITADA BEÇAK, M. L. e BEÇAK, W. Alelos múltiplos. In: ________. Biologia. São Paulo, Liv. Nobel, 1966. Vol. III, p. 168-205 BRIQUET JÚNIOR, RAUL. Alelismo múltiplo. In: _______. Lições de genética com especial aplicação aos animais e ao homem. 2ª ed., Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola. Cap. X, p. 131-168. (Série Didática, no 22). LEVANON, Y. e ROSSETINI, S.M. Grupos sangüíneos humanos e transfusões de sangue e plasma. In: ____. Princípios de Imunologia. Piracicaba-SP, Gráf. E Ed. Universitária, /s. d./. Cap XIX, p. 246-273. McKUSIK, V.A. Os genes do desenvolvimento e da diferenciação. In: ______. Genética Humana. São Paulo, Ed. Polígono, 1971. Cap. 5, p. 137-152. 82 STRICKBERGER, M.W. Domonance and multiple alleles. In: _______. Genetics. New York, The Macmillan Company, 1972. Cap. 9, p. 153-171. 83 Capítulo 6 GENÉTICA DO SEXO A importância intrínseca do sexo é que ele é um mecanismo que provê a grande maioria da variabilidade genética que caracteriza a maior parte das populações naturais ou domesticadas de plantas e animais. Essa variabilidade genética se constitui na matéria-prima sobre a qual atuam o processo evolutivo da seleção natural e o melhoramento genético. Neste capítulo serão discutidos vários mecanismos determinantes do sexo e a herança de algumas características ligadas ao sexo. No decorrer do capítulo, o leitor deve Ter sempre em mente que, sendo o sexo uma característica extremamente complexa, na maioria dos organismos nem todos os aspectos referentes a sua determinação foram completamente elucidados. 1 – O CONCEITO DE SEXO O conceito de sexo tem sido prejudicado pelas formas sexuadas encontradas nos organismos superiores, especialmente no homem. Se o homem for tomado por base, para a definição de sexo, um grande número de organismos terá sua reprodução excluída da definição de reprodução sexuada, inclusive as abelhas, que são animais tipicamente sexuados. Isso porque nem sempre existem apenas dois sexos como no homem e a variedade de mecanismos determinantes do sexo é muito grande entre organismos. Por isso, talvez seja interessante considerar o sexo de uma maneira mais geral e incluir como reprodução sexual todo tipo de reprodução em que haja fusão de núcleos e respectiva divisão de redução, mesmo que em certos casos algumas fases desses processos estejam faltando. Por isso se diz que a reprodução sexuada depende de dois eventos: um tipo especial de divisão celular, a meiose, associada a um processo de fusão nuclear, a fertilização. A combinação desses dois processos em um determinado ciclo de vida é conhecida como reprodução sexuada. Com base nessas considerações, pode-se definir sexo, do ponto de vista genético, como o processo que envolve combinação, recombinação e segregação de genes. 2 – NÚMERO DE OCORRÊNCIA DOS SEXOS Na maioria dos organismos superiores, o número de sexos reduz-se a somente dois. Entretanto, nem todos os organismos possuem somente dois sexos. Algumas das formas 84 inferiores de vida animal e vegetal exibem diversos sexos. Por exemplo, uma variedade de protozoário ciliado Paramecium bursaria possui oito sexos ou “tipos sexuais” todos morfologicamente idênticos. Cada tipo sexual é fisiologicamente incapaz de conjugar-se com seu próprio tipo, mas pode trocar material genético com qualquer dos outros sete tipos da mesma variedade. Os sexos podem ser encontrados no mesmo indivíduo ou em diferentes indivíduos. Um animal que possui os dois órgãos reprodutivos, masculino e feminino, geralmente é denominado hermafrodita. As plantas que produzem flores com estames (masculinas) e flores com pistilo (femininas), numa mesma planta, são denominadas monóicas. Entretanto, algumas angiospermas são dióicas, isto é, têm os elementos masculino e feminino em indivíduos diferentes. 3 – DETERMINAÇÃO DO SEXO Todo organismo vivo é resultado do meio e da herança, e a determinação do sexo não é exceção a isso. Entretanto, em muitos organismos, o mecanismo genético é de tal maneria independente do meio ambiente que este tem papel muito secundário. Nesses organismos, pode- se dizer que a determinação sexual é genotípica. Por outro lado, em vários outros organismos, a determinação do sexo é altamente influenciada pelo ambiente. Esse ambiente pode Ter as mais variadas componentes como: temperatura, umidade, hormônios, tamanho, idade, lugar no corpo onde as células germinativas são produzidas, etc. Tal tipo de determinação do sexo pode ser chamada de ambiental. Evidentemente, essa é uma divisão mais didática do que biológica, porque todas as classes intermediárias ocorrem, desde uma determinação verdadeiramente genotípica até uma determinação completamente ambiental. Todavia, é interessante manter essa classificação por ela ser útil, de certa maneira, à descrição de certos tipos de determinação do sexo. 4 – OS CROMOSSOMOS SEXUAIS Pouco depois de 1900, McClung estabeleceu de forma definitiva a possível associação de uma característica sexual com a presença ou ausência de um determinado cromossoma. As observações que ele realizou nos machos de certos insetos diplóides permitiram constatar a presença de um cromossoma que se encontrava na metade dos espermatozóides, mas estava ausente na outra metade. Segundo McClung, como a relação sexual entre machos e fêmeas de 85 cada geração era de aproximadamente 1:1, o mecanismos cromossômico para a determinação do sexo deveria cumprir os seguintes requisitos: (a) O elemento sexual deveria estar localizado em um determinado cromossoma, que se comporta normalmente nas divisões celulares especiais que produzem os gametas; (b) Atéa formação dos gametas, todas as células do animal que determinam o sexo conterão o dito elemento sexual; (c) Na formação dos gametas, o número de espermatozóides com o tal elemento será igual ao de espermatozóides que não o possuem. Se esse elemento se encontra associado com a masculinidade ou com a feminilidade, essa distribuição entre os descendentes garantirá uma relação sexual de 1:1. Não obstante, McClung não foi capaz de verificar a presença do tal cromossomo acessório ou sexual nas fêmeas e acreditou que somente os machos continham o cromossomo sexual. Finalmente, em 1905, Wilson e Stevens estabeleceram que o referido cromossoma se apresentava tanto nos machos como nas fêmeas. Em Protenor, por exemplo, o macho tinha um cromossoma sexual ou cromossoma X e a fêmea tinha dois cromossomas X. Na meiose, todos os gametas formados pelas fêmeas conteriam um cromossoma X. Por outro lado, os machos apresentavam um cromossoma X apenas na metade de seus gametas. Desta maneira, a fecundação do gameta feminino pelo masculino sempre produzia zigotos com um cromossoma X procedente da fêmea, mas somente 50% dos zigotos possuíam um cromossoma X adicional procedente do macho. Assim, formar-se-iam, na mesma proporção, indivíduos 1X e 2X, sendo os primeiros machos e os últimos fêmeas. Os cromossomos não sexuais, chamados autossomas, não mostram diferenças sexuais e são, portanto, iguais em número tanto nos machos como nas fêmeas. Estudos posteriores realizados por Wilson, Stevens e Montgomery e outros estabeleceram uma ampla variedade de mecanismos cromossômicos envolvidos na determinação do sexo. O exemplo de Protenor era um dos mais simples, já que tão somente a presença ou ausência de um só cromossoma era um fator importante. Ao macho de Protenor, que formava dois tipos de gametas, com e sem o cromossma X, chamou-se sexo heterogamético. A fêmea, que produzia todos os gametas de um mesmo tipo, chamou-se sexo homogamético. Logo se verificou que o cromossoma X, único do macho de muitas espécies, pareia-se durante a meiose com outro cromossoma chamado cromossoma Y. Ainda que em alguns casos o 86 Y seja semelhante em aspecto ao cromossoma X, geralmente ele é morfologicamente diferenciável. Atualmente, os mecanismos dos cromossomos sexuais que estão envolvivos na determinação do sexo são distribuídos em duas categorias: machos heterogaméticos e fêmeas heterogaméticas. 4.1. Machos Heterogaméticos No homem e aparentemente em todos os outros mamíferos, a presença do cromossomo Y pode determinar a tendência à masculinidade. Os machos normais são cromossomicamente XY e as fêmeas XX. No que se refere aos cromossomos sexuais, o macho poduz dois tipos de gametas e, portanto, é sexualmente heterogamético. A fêmea, produzindo somente um tipo de gameta, é sexualmente homogamética. Esta maneira de influir na determinação dos sexos é normalmente conhecida como método XY. Em alguns insetos, especialmente naqueles da ordem Hemiptera (percevejos) e Orthoptera (gafanhotos e baratas), os machos são heterogaméticos, porém ou produzem espermas portadores de X, ou então gametas sem o cromossomo sexual. Nos machos destas espécies, o cromossomo X não tem homólogo, uma vez que não possuem cromossomo Y. Portanto, os machos exibem número ímpar em seu complemento cromossômico. A condição de um X e de dois X determina a masculinidade ou feminilidade, respectivamente. Se o único cromossoma X do macho está sempre incluído em um dos dois tipos de gametas formados, verifica-se que a proporção sexual de 1:1 será produzida na progênie. Essa maneira de influir na determinação do sexo é conhecida comumente com o método XO, onde o zero simboliza a ausência do cromossoma análogo ao Y do sistema XY. 4.2. Fêmeas Heterogaméticas Fêmeas heterogaméticas são encontradas num grande grupo de animais, incluindo as borboletas, mariposas, moscas d’água, bichos-da-seda e em alguns peixes e aves. A condição de um X e dois Y nestas espécies determina feminilidade ou masculinidade, respectivamente. As fêmeas de algumas espécies, como as galinhas, têm um cromossoma similar ao cromossoma Y do homem. Nestes casos, os cromossomas são comumente denominados como X e W, em substituição a X e Y, respectivamente, de modo a chamar a atenção para o fato de que a fêmea 87 (ZW) é o sexo heterogamético e o macho (ZZ) é o sexo homogamético. As fêmeas de outras espécies, por exemplo em certos lepidópteros, não têm homólogo ao único cromossoma sexual, como no caso do mecanismo XO discutido anteriormente. A fim de acentuar essa diferença, os símbolos ZZ e ZO são aplicados para designar machos e fêmeas, respectivamente. A Tabela 1 sumaria os mecanismos cromossômicos que influenciam a determinação do sexo. 5 – DETERMINAÇÃO GENÉTICA DO SEXO Já foi mencionado que o sexo é determinado por influências genéticas e ambientais, havendo casos com predominância de um ou de outro tipo de influência. A discussão apresentada no item anterior (cromossomos sexuais) pode levar à conclusão de que as influências genéticas para a determinação do sexo são exercidas unicamente através dos cromossomos sexuais. Por exemplo, indivíduos XX serão fêmeas e indivíduos XY serão machos. Isso não é verdade. Na drosófila, por exemplo, os cromossomos sexuais são do tipo XY (macho) e XX (fêmeas), mas eventualmente aparecem moscas XO (por perda do cromossoma sexual) que se assemelham e comportam como machos, embora estéreis. Excepcionalmente, aparecem também moscas XXY, que se desenvolvem em fêmeas. Assim, na drosófila e, como se verá, em outros organismos, a influência genética de determinação do sexo não se dá exclusivamente através dos cromossomas sexuais. Fato semelhante se dá com a influência ambiental. Não existe um único fator ambiental a influir sobre a determinação do sexo, mas geralmente vários. Deve-se, por conseguinte, considerar separadamente alguns dos muitos mecanismos conhecidos, genéticos e ambientais, de determinação do sexo. Os mecanismos genéticos serão estudados neste item. Os mecanismos ambientais serão apresentados no item seguinte. 5.1. Balanceamento Gênico Em Drosophila, a fêmea é do tipo XX e o macho XY. Eventualmente aparecem moscas XO, por perda do cromossoma sexual, que se assemelham e comportam como machos, mas são estéreis. Excepcionalmente, aparecem também moscas XXY, com um cromossoma sexual adicional, que se desenvolvem em fêmeas. Aparentemente, em Drosophila, o cromossoma Y não influi na determinação do sexo, apesar de estar relacionado à fertilidade do macho. A teoria da determinação do sexo em Drosophila melanogaster alcançou grande desenvolvimento após os estudos realizados por Bridges. Ele concluiu que os sexos em drosófila 88 dependiam de um balanço entre os genes de tendência masculina localizados nos autossomos, e os genes de tendência feminina localizados nos cromossomas X, sendo o Y um cromossoma praticamente isento de genes para a determinação do sexo. Assim, nesse organismo, a determinação do sexo é condicionada tanto pelos cromossomas X como pelos autossomas e depende da preponderância de um dos tipos de genes. O sexo no zigoto é determinado pela proporção ou “balanceamento” entre o número de cromossomas X e o número de complementos autossômicos (X/A): Se a proporção é 1, o zigoto desenvolve-se em fêmea; se é 0,5, desenvolve-se em macho. Se é intermediária entre 0,5 e 1, aparece o intersexuado. Quando a proporção é superior a 1, desenvolvem-se as metafêmeas e quando X/A é inferior a 0,5, tem-se os metamachos. Os intersexuados ou intersexos apresentam caracteres masculinos e femininos. Por outrolado, tanto metafêmeas como metamachos são estéreis. A Tabela 2 apresenta vários tipos sexuais de D. melanogaster e a Figura 1 mostra como vários desses tipos podem surgir, a partir do cruzamento de uma fêmea triplóide com um macho diplóide. Uma pergunta importante que foi resolvida no estudo da determinação do sexo em Drosophila melanogaster foi a seguinte: Há um só gene feminizante no cromossma X e um só gene masculinizante num dos autossomas ou haveria muitos? Foi demonstrado ainda mais que os genes para feminidade não são distribuídos unifornemente por todo o comprimento do cromossoma X. O método utilizado para tais demonstrações consistiu em se estudar fêmeas, machos e intersexos com duplicações ou deficiências para várias seções do cromossoma X. Com metodologia semelhante, foi verificado que os cromossomas 2 e 3 da drosófila possuem vários genes para masculinidade. Por outro lado, o cromossoma 4 parece ter pelo menos um gene feminizante. Isso poderia ser explicado admitindo-se que o pequeno cromossoma 4 de drosófila seja oriundo de uma primitiva fragmentação do X e conseqüentemente daí a sua “carga” feminizante. Todavia, essa carga não entra no “balanço gênico” que determina o sexo, por ser em dose dupla tanto no macho como na fêmea. O balanço gênico entre genes feminizantes do cromossoma X e masculinizantes dos autossomas, encontrado em drosófila, é um passo bastante evoluído da determinação genética do sexo. São passos intermediários aqueles em que o balanço é só entre o X e o Y como no bicho- da-seda e aqueles em que são importantes o X, o Y e os autossomas, como em Melandrium album. 89 No bicho-da-seda (Bombix mori) basta a presença de um Y para que o animal seja fêmea, não tendo sido encontrado combinações em que apareçam intersexos (Tabela 3). Geralmente, as plantas portadoras de flores são monóicas e, portanto, não possuem cromossomas sexuais. Verdadeiramente, a habilidade das células produzidas mitoticamente,`com exatamente os mesmos dotes genéticos para produzirem os tecidos com diferentes funções sexuais numa flor perfeita demonstra claramente a bipotencialidade das células destas plantas. A dioicia, que constitui o sistema quase absoluto de acasalamento dos animais, ocorre esporadicamente entre as plantas superiores, provavelmente, por conduzir a um desperdício de gametas em organismos sem mobilidade. Exemplos bem conhecidos de plantas dioicas demonstram que esta característica está usualmente sob o controle genético de um único locus gênico. Entretanto, pelo menos um caso bem documentado de sexualidade cromossômica é conhecido em Melandrium album. Nessa espécie, os cromossomos X possuem tendências feminizantes e os Y tendências masculinizantes, porém com seleção é possível aumentar o grau de feminidade, o que constitui uma boa indicação de alguns genes para determinação do sexo também nos autossomos (Tabela 4). 5.2. Cromossomo Y A determinação do sexo nos mamíferos, incluindo o homem, foi originalmente imaginada como seguindo o mesmo padrão da Drosophila, isto é, por equilíbrio entre genes feminizantes dos X e genes masculinizantes dos autossomas. Todavia, vários trabalhos demonstraram que nesses organismos o cromossoma Y desempenha um papel fundamentall na determinação do sexo. No homem, o cromossoma Y é absolutamente determinante do sexo masculino. Indivíduos com XX, XXX ou XXXX são na ausência de Y, sempre fêmeas. Os indivíduos que transportam um cromossoma Y são sempre machos, não obstando o número de cromossomas X que transportem. 5.3. Haplodiploidismo É bem conhecido que as abelhas machos se desenvolvem parteno-geneticamente de ovos não fecundados (partenogênese arrenótica) e, conseqüentemente, são haplóides. As fêmeas (tanto as operárias como as rainhas) originam-se de ovos fecundados (diplóides). Os cromossomas 90 sexuais não se envolvem neste mecanismo de determinação do sexo, o que é uma característica dos insetos da ordem dos Hymenópteras, incluindo entre eles as formigas, abelhas, vespas, etc. A quantidade e a qualidade do alimento disponível à larva diplóide é que determinará se aquela fêmeas será uma operária estéril ou uma rainha fértil. Por conseguinte, o meio ambiente neste caso determina a esterilidade ou a fertilidade, mas não altera o sexo determinado geneticamente. A proporção sexual dos descendentes está sob o controle da rainha. A maioria dos ovos depositados na colméia será fecundada e desenvolver-se-á em fêmeas operárias. Somente os ovos que a rainha seleciona para não serem fecundados (do seu armazenamento de esperma no receptáculo seminal) desenvolverão machos haplóides férteis. A abelha rainha, geralmente, acasala somente uma vez durante seu período de vida. A Figura 2 ilustra a determinação do sexo em abelha. A explicação da determinação do sexo por arrenotóquia não está ainda bem estabelecida. Várias teorias foram sugeridas. Certos autores deram como tentativa de explicação a teoria de Goldschmidt. Por essa teoria, os cromossomos deveriam levar genes que determinariam tendências femininas, enquanto o citoplasma deveria possuir tendências masculinas. Assim, um conjunto de genes não seria suficiente para dominar a dose masculinizante do citoplasma e, portanto, os indivíduos haplóides seriam machos; dois conjuntos de genes seriam suficientes para dominar a masculinidade citoplasmática de maneira que os indivíduos diplóides seriam fêmeas. Em 1957, Antônio Brito da Cunha e Warwick E. K. propuseram uma nova hipótese de trabalho para explicar a partenogênese arremótoca. Segundo essa explicação, teríamos de supor uma série de genes determinadores de tendências masculinas (m) e uma série de genes determinadores de tendências femininas (f) espalhados em diversos cromossomos. O efeito de m seria o mesmo tanto em indivíduos diplóides, como em organismos homozigotos, e o efeito de todos os m poderia ser representado como M. Esse M seria praticamente o mesmo tanto para diplóides como para homozigotos. O efeito dos genes f seria cumulativo e, portanto, somaria F nos haplóides e 2F no conjunto de cromossomos dos diplóides. Assim, o sexo seria determinado pelas equações 2F > M = O e M > F = O. 5.4. Efeitos de um Único Gene 5.4.1. Fatores Complementares do Sexo 91 Sabe-se que pelo menos dois membros na ordem dos insetos Hymenoptera produzem machos por homozigose em um único locus gênico, assim como por haplodiploidismo. Isto foi confirmado na vespa Bracon hebetor e mais recentemente em abelhas. Pelo menos nove alelos são conhecidos neste locus da Bracon, os quais podem ser representados por sa, sb, sc, ..., si. Todas as fêmeas têm que ser heterozigotas, tais como sasb, sdsg, etc. Se um indivíduo for homozigoto para qualquer um destes alelos, ou seja, sasa, sbsb, etc., o invíduo desenvolver-se-á em um macho diplóide, geralmente estéril. Os machos haplóides, evidentemente, seriam portadores de somente um dos alelos deste locus, isto é, sa, sc, sb, etc. 5.4.2. O Gene Transformador O gene recessivo tra no cromossoma 3 da Drosophila, quando em homozigose, transforma a fêmea diplóide em um macho estéril. Os indivíduos X/X, tra/tra aparentemente em suas morfologias externa e interna são machos normais, com exceção de que seus testículos são de tamanho muito reduzido. Esse gene, contudo, não tem efeito algum nos macjhos normais. A presença desse gene pode alterar consideravelmente as proporções sexuais. O maior significado desse gene reside especificamente no fato de que o mecanismo para determinação do sexofundamentado em numerosos genes, através de todo o genoma, pode aparentemente ser anulado pela substituição de um único gene. 5.4.3. Os Genes ba e ts No milho, os micrósporos são produzidos por flores msaculinas no pendão e os megásporos são produzidos por flores femininas na espiga. O gene recessivo para plantas estéreis (ba), quando homozigoto, torna a haste apenas masculina, eliminando as espigas. Por outro lado, o gene recessivo para pendão (ts), quando homozigoto, transforma o pendão em uma estrutura feminina funcional. Uma planta de genótipo ba/ba, ts/ts é apenas feminina, e uma planta com ba/ba, ts+/ts+ ou ba/ba, ts+/ts é apenas masculina. 6 – DETERMINAÇÃO AMBIENTAL DO SEXO Serão considerados agora alguns exemplos nos quais o meio ambiente determina predominantemente o sexo do indivíduo. Sob tal condição, cada zigoto deve conter todos os genes necessários para o desenvolvimento de ambos os sistemas reprodutivos. 92 Correspondentemente, algum mecanismo desconhecido deve existir para inibir a ação de alguns genes, mas permitindo que outros funcionem. No anelídeo marinho Ophrytrocha, todos os indivíduos se iniciam como machos e, quando adultos, produzem espermatozóides. Quando se tornam mais velhos e desenvolvem mais de vinte segmentos eles se transformam em fêmeas e produzem óculos. Se estsa fêmeas tiverem seu tamanho reduzido para menos de vinte segmentos, por subalimentação ou por amputação, elas se transformam novamente em machos e produzem espermatozóides. Quando se desenvolvem novamente mais de vinte segmentos, os mesmos indivíduos se tornam fêmeas e produzem óvulos. No Ophrytrocha, sobretudo o tamanho e o número de segmentos controlam a determinação do sexo. Um mecanismo ambiental diferente de determinação do sexo ocorre no verme marinho Bonellia. A fêmea tem cerca de 1 polegada de comprimento e tem uma organização anatômica razoavelmente complexa. Os machos são do tamanho dos grandes protozoários e têm órgãos rudimentares. Eles vivem como parasitas no útero das fêmeas. Todas as larvas criadas em isolamento tornam-se fêmeas. Larvas libertas em águas contendo fêmeas adultas podem Ter um destes dois destinos. Algumas serão atraídas pelas fêmeas e se agarram à probóscide das mesmas. Estas se transformam em machos e eventualmente migram para o trato reprodutor das fêmeas, onde levam sua existência parasitária. As outras larvas que não entraram em contato com as fêmeas adultas transformam-se em fêmeas. Foi demonstrado que a probóscide das fêmeas produz uma substância semelhante a um hormônio que influencia a larga em direção à masculinidade. Este fato significa, embora não demonstre, que a substância produtora de machos inibe a ação dos genes produtores de fêmeas da larva, enquanto permite que os genes produtores de machos funcionem. O caracol Crepidula combina parte das maneiras de determinação do sexo do Ophrytrocha e da Bonellia. Todos os espécimes novos são machos. Se criados em isolamento, a fase de macho inicial é seguida por um período de transição no qual o trato reprodutivo masculino degenera e o animal se transforma em fêmea. Se o animal novo se liga a uma fêmea, ele permanecerá macho enquanto estiver associado com a mesma. Se tal macho for isolado, ele se transformará em uma fêmea. A presença de um grande número de machos influencia alguns dos machos a se tornarem fêmeas. Quando um animal se transforma em fêmea, ele permanecerá neste estado. Aí, parece haver certa substância, semelhante a um hormônio secretado por ambos os 93 sexos, que influencia o sexo dos indivíduos nos arredores. Pode-se levantar a hipótese de que alguma espécie de equilíbrio hormonal pode ser mudada em qualquer direção pela presença de membros suficientes de um dos dois sexos. Como exemplo da influência do meio ambiente na determinação do sexo em plantas, pode- se citar o caso da Catasetum fimbriatum. Essa espécie possui 2 sexos, sendo que a mesma planta, algumas vezes, apresenta flores do sexo masculuino e em outros anos, flores do sexo feminino e, raramente, flores de ambos os sexos. Foi demonstrado que plantas colocadas em pleno sol produzem flores femininas e plantas sombreadas dentro de um estaleiro produzem flores masculinas; assim, a quantidade de luz recebida pela flor e provavelmente também a maior desidratação decorrente das condições do regime de água (mais severo fora do estaleiro0 condicionariam flor feminina, e um maior sobramento e umidade determinariam flor masculina. Em muitos casos, é possível demonstrar que a diferenciação sexual é controlada por hormônios. Isto representa um caso especializado de controle ambiental de determinação do sexo. Como se verá, a reversão sexual pode também ocorrer aqui, demonstrando que um determinado cariótipo é capaz de desenvolver qualquer tipo de sistema reprodutor. O tipo a ser produzido é determinado por um mecanismo de mudança, neste caso um balanço hormonal que deva o desenvolvimento para a direção da masculinidade ou da feminilidade. Nas aves, apenas uma das gônodas de uma fêmea normal se desenvolve em um ovário funcional. A outra gônoda permanece rudimentar. Se o ovário funcional de uma galinha for destruído, a gônoda rudimentar se transformará em um testítulo. Tais galinhas de sexo revertido podem mesmo ser pais de pintos, das quais se espera uma razão sexual de duas fêmeas para um macho, uma vez que nas aves a fêmea é que é sexualmente heterogamética. A interpretação deste tipo de reversão seuxal é a seguinte. Durante o desenvolvimento embrionário, o genótipo XY estimula a glândula pituitária a produzir hormônios femininos que levam a gônoda da galinha a se transformar em um ovário. Depois do desenvolvimento do ovário estar completo, a pituitária cessa de produzir hormônios femininos devido à sua inibição pelos hormônios produzidos pelos ovários, assim agindo com um sistema de desenvolvimento por realimentação (feed back). O alto nível de hormônio feminino secretado em seqüência pela pituitária e pelo ovário é suficiente para suprimir a ação das células do corpo, produtoras de hormônios masculinos, tais como as células produtoras de esteróides e as glândulas adrenais. Quando o ovário é removido, as células das adrenais ficam aptas a funcionar antes da pituitária por motivos desconhecidos. Como resultado, 94 as gônodas rudimentares se desenvolvem em testículos que são secretores de hormônios. O alto nível dos hormônios masculinos produzidos pelas adrenais e pelos testículos é, por outro lado, suficiente para suprimir a ação das células produtoras de hormônios femininos da pituitária. Quando bezerros gêmeos de diferentes sexos ocorrem em bovinos, a fêmea é usualmente um intersexo estéril chamado freemartin, com órgãos genitais externos femininos, mas com os órgãos internos mais ou menos parecidos com os do macho. O gêmeo macho é geralmente normal. F. R. Lillie, em 1917, sugeriu que a formação de um freemartin seria devida à fusão das membransa fetais dos bezerros gêmeos enquanto estavam no útero da mãe. A fusão das membranas fetais permitiria ao sangue de cada gêmeo circular nos vasos sangüíneos do outro. Os hormônios masculinos produzidos pelo macho gêmeo deveriam suprimir a diferenciação dos órgãos sexuais internos da fêmea co-gêmea. A influência hormonal ocorre apenas em uma direção. Isso indicaria que, nos bovinos, o hormônio feminino é produzido mais tarde, no desenvolvimento, que o hormônio masculino. 7 – HERANÇA LIGADA AO SEXO NA DROSÓFILA A primeira característica demonstrada estar localizada em cromossomas sexuais foi estudada porT. H. Morgan em 1910. Essa demonstração foi possível graças ao aparecimento de um único macho com olhos de cor branca, em uma cultura de Drosophila de olhos normalmente vermelhos. Este macho de olho branco foi acasalado com uma fêmea de olhos vermelhos. Todas as moscas em F1 tinham olhos vermelhos. Machos e fêmeas de F1 foram acasalados entre si e se obteve a geração F2. Nessa F2, todas as fêmeas eram de olhos vermelhos e metade dos machos era de olhos vermelhos e a outra metade, de olhos brancos. A interpretação desses resultados indica que o gene para olhos brancos estava localizado no cromossoma X e que, embora recessivo, ele era capaz de se expressar no macho. Isso faz supor que o cromossoma Y era destituído desse gene e que a expressão do gene para olhos brancos no macho representou um caso de “pseudo-dominância”. O termo hemizigoto é usado para descrever indivíduos que têm apenas um gene para uma certa característica. O fato crítico da herança ligada ao X é a ausência de transmissão do macho para macho (pai para filho). Isto é o resultado indiscutível do fato de que o cromossoma X do macho não se transmite a qualquer de seus filhos, mas sim a todas as suas filhas. Entre os produtos de um macho afetado por um traço recessivo ligado ao X, todos os filhos não são afetados e todas as 95 filhas o transportam. Se as filhas recebessem o gene recessivo ligado ao X da sua mãe, elas seriam homozigotas para o alelo e exibiriam o caráter. 8 – HERANÇA LIGADA AO SEXO NO HOMEM 8.1. Herança Ligada ao Cromossoma X Em D. melanogsater, foram estudados mais de 140 genes ligados ao cromossoma X. No homem também são conhecidos vários genes que se transmitem segundo o mecanismo descrito no item anterior (7) e que, portanto, parecem estar localizados no cromossoma X. Entre os caracteres condicionados por genes ligados ao cromossoma X no homem, os mais conhecidos são o daltonismo ou cegueira às cores vermelha-verde e a hemofilia. O gene d, que condiciona o daltonismo, é recessivo em relação ao alelo normal D e se localiza no cromossoma X. A mulher é daltônica só quando o gene recessivo ocorre em dose dupla, enquanto que no homem a presença desse gene em dose simples é suficiente para que se manifeste a anomalia. A Tabela 5 apresenta os genótipos e respectivos fenótipos do homem e da mulher, com relação ao daltonismo. TABELA 5 – Genótipos e fenótipos dos sexos masculino e feminino na espécie humana, com relação ao daltonismo. SEXO GENÓTIPO FENÓTIPO NORMAL DALTÔNICO Masculino XD Y Sim Xd Y Sim Feminino XDXD Sim XDXd Sim XdXd Sim No homem, o cromossoma X é de origem materna e para que ele apresente a anomalia (XdY), a mãe deverá ser daltônica (XdXd) ou normal, mas portadora do gene d para daltonismo (XDXd). Na mulher, um dos cromossomas é de origem paterna e outro de origem materna e, portanto, só é daltônica quando descende de pai daltônico e mãe daltônica ou portadora. Por essa razão, a freqüência de daltonismo é maior nos homens do que em mulheres. Similarmente, a hemofilia, uma anomalia do sangue, é restrita quase que inteiramente aos homens e estes descendem de mães normais, porém portadoras do gene para a anomalia. A hemofilia manifesta-se principalmente pela incapacidade de coagulação do sangue, quando 96 exposto ao ar. Em pessoas normais, essa habilidade limita a possibilidade de hemorragia. Em hemofílicos, porém, qualquer ferimento pode ocasionar a morte por perda de sangue. A mortalidade entre os hemofílicos é muito alta, especialmente na infância. A hemofilia é condicionada por um gene recessivo h, semiletal, ligado ao cromossoma X. A Tabela 6 apresenta os genótipos e fenótipos do homem e da mulher, com relação à hemofilia. TABELA 6 – Genótipos e fenótipos dos sexos masculinos e feminino na espécie humana, com relação à hemofilia. SEXO GENÓTIPO FENÓTIPO NORMAL HEMOFÌLICO Masculino XH Y Sim Xh Y Sim Feminino XHXH Sim XHXh Sim XhXh Sim Homens hemofílicos (XhY) quando sobrevivem até a idade de reprodução, produzem filhas normais, mas portadoras do gene para a anomalia (XHXh) que, por sua vez, o transmitem à metade de seus filhos. Metade das filhas de uma mulher portadora são também portadoras. Só é possível o aparecimento de mulher hemofílica (XhXh), exceptuando-se os casos de mutação, se um hemofílico se casar com uma mulher portadora. A probabilidade de ocorrer esse tipo de casamento é muito baixa, e daí a raridade de mulheres hemofílicas. 8.2. Herança Ligada ao Cromossoma Y Os cromossmas sexuais X e Y são freqüentemente de forma e tamanho desiguais. O fato destes cromossomos formarem pares durante a meiose é uma indicação de que eles contêm pelo menos alguns segmentos homólogos. Os genes nos segmentos homólogos são conhecidos como sendo incompleta ou parcialmente ligados ao sexo e podem recombinar-se por permuta, justamente como o fazem os loci gênicos dos autossomos homólogos. Entre esses genes, estão aqueles condicionadores da Doença de Oguchi e da Paraplegia Espática. Os genes do segmento não-homólogo do cromossoma X são conhecidos como sendo completamente ligados ao sexo e exibem a maneira peculiar de herança, já descrita anteriormente. No ser humano, alguns genes sãoconhecidos como localizados na porção não-homóloga do cromossoma Y. Nestes casos, a característica seria expressa somente nos machos e sempre seria transmitida de pai para filhjo. 97 Tais genes são denominados por certos autores como genes holândricos. Entre eles, são conhecidos os que condicionam presença de pelos longos e espessos nas orelhas (hipertricose), segundo e terceiro dedos do pés ligados e pele escamosa. A Figura 3 mostra esquematicamente as regiões homólogas e não-homólogas dos cromossomas X e Y do homem. 9 – CARACTERÍSTICAS COM EFEITO PARCIALMENTE LIGADO AO SEXO Os genes que governam características passíveis de serem influenciadas pelo sexo podem estar localizados em qualquer dos autossomas ou nas porções homólogas dos cromossomas sexuais. A expressão de dominância ou recessividade dos alelomorfos dos loci limitados ao sexo é reversa nos machos e nas fêmeas devido, em grande parte, às diferenças existentes no meio interno e causadas pelos hormônios sexuais. Por conseguinte, exemplos de características limitadas ao sexo são encontradas com maior facilidade nos animais superiores que apresentam sistemas endócrinos bem mais desenvolvidos. A calvície é uma característica com efeito parcialmente limitado ao sexo. O gene que a condiciona é dominante nos homens, mas age recessivamente nas mulheres (Tabela 7). TABELA 7 – Manifestação do Gene para Calvície GENÓTIPOS FENÓTIPOS HOMEM MULHER b'b’ Calvo Calva b’b Calvo Não-calva bb Não-calvo Não-calva 10 – CARACTERÍSTICAS COM EFEITO LIMITADO AO SEXO Alguns genes conseguem expressar-se somente em um dos sexos, seja devido às diferenças no meio interno hormonal ou devido às diferenças anatômicas. Por exemplo, sabe-se que os touros têm muitos genes destinados à produção de leite que eles conseguem transmitir às suas filhas, mas eles os seus filhos são incapazes de expressar esta característica. Por conseguinte, a produção de leite é limitada à expressão variável somente no sexo feminino. Quando a penetrância do gene em um dos sexos é zero, a característica será limitada ao sexo. Os galináceos possuem um gene recessivo para penas de galo que é penetrante somente no meio ambiente masculino (Tabela 8). 98 TABELA 8 – Manifestação do Gene para “Penas de Galo” GENÓTIPOS FENÓTIPOS MACHOS FÊMEAS H H Penas de galinha Penas de galinha H h Penas de galinha Penas de galinha h h Penas de galo Penas de galinha 11– LITERATURA CITADA BEÇAK, M. L. e BEÇAK, W. Determinação do sexo e herança ligada ao sexo. In: _______. Biologia; Genética e evolução. 6ª ed. São Paulo, Livraria Nobel, 1966. Vol. 14, cap. V, p. 58-107. KERR, W. E. Genética da determinação do sexo. In: PAVAN, C e CUNHA, A B. da (org.). Elementos de genética. 2ª ed. São Paulo, Companhia Editoral Nacional, 1966. Cap. 9, p. 249-291. LEVINE, L. Cromossomos sexuais e determinação do sexo. In: ________. Biologia do gene. São Paulo, Edgard Bludrer, 1977. Cap. 5, p. 105-125. LEVINE, R. P. Herança ligada ao sexo. In: ________. Genética. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1973. Cap. 5, p. 91-102. STANSFIELD, W. D. A genética do sexo. In: _______. Genética. Rio de Janeiro, McGraw-Hill do Brasil, 1974. Cap. 5, p. 95-128. STRICKBERGER, M. W. Sex determination and Sex linkage in diploids. In: _______. Genetics. London, The Macmillan Company, 1971. Cap. 12, p. 214-239. 99 Capítulo 7 INTRODUÇÃO À GENÉTICA QUANTITATIVA Qualquer um que tenha observado a segregação em híbridos de variedades de porte alto e baixo de ervilhas, característica que, aliás, Mendel estudou, ficou provavelmente impressionado com dois aspectos da variação na altura dos descendentes. Há, em primeiro lugar, uma diferença marcante entre os segregantes altos e baixos, de tal modo que ela pode ser considerada como qualitativa: por meio de uma simples classificação visual, as plantas podem ser perfeitamente agrupadas em duas categorias (altas e baixas). Devido a isso, a análise das observações pode proceder baseada nos métodos comuns da genética e a conclusão dirá que a diferença na altura das plantas é devida a um só par de genes e que o tipo alto é dominante sobre o baixo, conforme mostrou Mendel. Muitos caracteres de importância econômica, tanto em plantas como em animais, são deste tipo e são denominados caracteres quantitativos. O segundo aspecto da variabilidade, talvez menos evidente, é a variação existente dentro dos grupos de plantas altas e baixas. Examinando-se cuidadosamente um certo número de plantas baixas, poder-se-á verificar a existência de uma variação contínua desde mais baixas até mais altas, sendo os tipos intermediários mais freqüentes e os extremos menos freqüentes. Um gradiente semelhante a este pode ser encontrado no grupo das plantas altas. Muitos dos caracteres de plantas e animais variam dessa maneira e possuem importância econômica. Tais caracteres são denominados quantitativos ou métricos, justamente porque, para serem descritos, é necessário lançar mão de mensurações como de comprimento, de tempo, de peso ou de proporções. A genética quantitativa é o ramo da genética que se preocupa com o estudo dos caracteres quantitativos. Além de sua importância com área básica do conhecimento, a genética quantitativa também é importante por servir de suporte para outras áreas como o melhoramento de plantas e animais e evolução. O objetivo do presente capítulo é apresentar alguns dos princípios em que se baseia a genética quantitativa. 1 – EXPLICAÇÃO PARA A HERANÇA DE CARACTERES QUANTITATIVOS 100 Como explicar a variação existente nos grupos de plantas altas e baixas referida anteriormente? Ou, em termos mais gerais, como explicar a variação contínua observada em vários caracteres de plantas e animais, inclusive no homem? Por volta de 1916, ficou estabelecido que as variações contínuas das características métricas eram devidas a duas causas: a) Segregação simultânea de vários genes afetando o carácter; b) Fatores ambientais Todavia, muito tempo decorreu antes que isso ficasse estabelecido. J. G. Koelreuter, um dos primeiros hibridistas de plantas, já em 1760 estudava a variação contínua entre progênies segregantes de fumo. Ele cruzou variedades de fumo que diferiam bastante no tamanho de flor e em outros caracteres, mas não foi capaz de explicar a herança desses caracteres. Provavelmente por terem reconhecido que a variação contínua somente iria atrapalhar suas análises é que o próprio Mendel e os redescobridores do mendelismo evitaram, propositadamente, este tipo de variação no material de estudos. Essa variação foi, porém, objeto de intensos e laboriosos estudos no fim do século XIX, principalmente por Galton e seus discípulos na Inglaterra. Estes pesquisadores não conseguiram descobrir a maneira como a varaição contínua é transmitida de pai para filho, no entanto, por meio dos métodos estatísticos que aplicaram às suas observações, puderam mostrar ser esta variação herdável pelo menos parcialmente. É perfeitamente compreensível que este grupo tenha relutado em aceitar as proporções mendelianas simples quando o trabalho de Mendel foi difundido em 1900. O processo descontínuo de herança baseado em partículas foi por eles considerado como simples exceção do tipo contínuo de herança o qual, conforme postularam, tinha como princípio a “mistura” ou “fusão” de caracteres. Os primeiros adeptos do mendelismo, por sua vez, consideraram a herança contínua do grupo de Galton como incompatível com a variação genética descontínua. Alguns até, como Hugo de Vries, tomaram a existência de uma variação contínua num caráter, como prova de sua não herdabilidade. Estas diferenças de opinião geraram uma das mais acirradas controvérsias da história da Biologia. Em 1903, o biologista dinamarquês W. L. Johannsen publicou um trabalho que contribuiu para a explicação da herança dos caracteres quantitativos. De qualquer fomra, os primeiros passos que levaram a uma reconciliação entre os seguidores de Galton e os adeptos do mendelismo 101 foram dados por G. Y. Yule, em 1906. Neste ano, no trabalho “On the Theory of inheritance of quantitative compound characters on the basis of Mende’s laws” – a preliminary note”, Yule sugeriu não ser necessário um conflito entre a herança baseada em partículas e a herança contínua, bastando apenas postular a existência de um grande número de genes de efeito semelhante. Um melhorista de plantas da Suécia, Nilsson Enle, em 1909, logo descobriu um exemplo natural que se enquadrou no modelo proposto por Yule. Finalmente, uma demonstração definitiva de que a segregação de muitos genes de efeito semelhante pode explicar a herança de caracteres quantitativos, foi dada por E. M. East, em 1916. Nos três itens seguintes, os experimentos de Johannsen, Nilsson – Enle e de East serão descritos com algum detalhe. 2 – A TEORIA DA LINHAGEM PURA DE W. L. JOHANNSEN Johannnsen, em 1903, estudou os efeitos da seleção para peso das sementes em feijão, que é uma espécie estritamente autopolinizadora. No seu lote inicial de sementes das variedades comercial Princess, havia grãos de vários tamanhos. Assim, as sementes mais leves pesavam em torno de 15 centigramas, enquanto as mais pesadas tinham peso de 90 centigramas. Semeando progênies derivados de dezenove diferentes sementes do lote original, Johannsen obteve dezenove linhagens. Após estudo detalhado, ele concluiu que estsa linhagens apresentaram duas características importantes em relação ao peso das sementes. Ficou realçado, em primeiro lugar, que cada lote tinha um peso médio característico (Tabela 1). A linhagem no 1, a mais pesada, produziu sementes com um peso médio de 64,2 centigramas. Foram observados valores intermediários desde esta média maior até 35,1 centigramas, que foi o peso médio das sementes da linhagem no 19, cujas sementes eram as menores. Em outras palavras, as progênies de sementes mais pesadas em geral, caracterizavam-se por um maior peso médio dos grãos, enquanto que as progênies de sementes mais leves tinham peso médio menor.Isto foi indicativo de que existiam diferenças genéticas entre as linhagens. Dessa forma, Johannsen concluiu que o lote comercial de sementes era constituído de uma mistura de linhagens puras”. Uma linhagem pura ficou definida como uma progênie obtida da autofertilização de um só indivíduo homozigoto. Pôde-se observar, em segundo lugar, a ocorrência de diversos tamanhos dentro de cada progênie. Esta variabilidade dentro das progênies, no entanto, era muito menor do que a do lote original. Johannsen ficou convencido de que esta variabilidade não era de natureza genética, 102 mas tinha como causa as pequenas diferenças devidas a fatores ambientais, os quais afetavam cada uma das plantas com diferentes intensidades. Esta interpretação, na verdade, pode ser facilmente verificada em experimentos, conforme se mostra a seguir. TABELA 1 – Peso médio das sementes de feijão de linhagens obtidas a partir de progênies derivadas de 19 sementes (segundo Johannsen (1903), citado por STRICKBERGER (1973)). Peso das Sementes das Progênies (Sementes Paternas) Derivadas das 19 Sementes (em centigramas) Número da Linhagem 20x20 30x30 40x40 50x50 60x60 70x70 Peso Médio Peso das Sementes das Linhagens (Sementes Filiais) Obtidas das Progênies (em centigrama) 1 63,1 64,9 64,2 2 57,2 54,9 56,5 55,5 55,8 3 56,4 56,6 54.4 55.4 4 54,2 53,6 56,6 54,8 5 52,8 49,2 50,2 51,2 6 53,5 50,8 42,5 50,6 7 45,9 49,5 48,2 49,2 8 49,0 49,1 47,5 48,9 9 48,5 47,9 48,2 10 42,1 46,7 46,9 46,5 11 45,2 45,4 46,2 45,4 12 49,6 45,1 44,0 45,5 13 47,5 45,0 45,1 45,8 45,4 14 45,4 46,9 42,9 45,3 15 46,9 44,6 45,0 45,0 16 45,9 44,1 41,0 44,6 17 44,0 42,4 42,8 18 41,0 40,7 40,8 40,8 19 35,8 34,8 35,1 (b.1) Como uma primeira verificação, os feijões de cada linhagem pura foram agrupados em classes de 10 centigramas e semeados separadamente. Pôde-se notar que as diferentes classes de uma mesma linhagem pura produziam progênies cujo peso médio de sementes era igual. As categorias de 30, 40, 50 e 60 centigramas, por exemplo, ocorreram na linhagem número 13 (Tabela 1). O peso médio das respectivas progênies foi de 47,5, 45,0, 45,1 e 45,8 centigramas. Portanto, as sementes de uma linhagem pura, mesmo sendo diferentes no tamanho, produzem progênies cujo peso médio é aquele que caracteriza a linhagem. (b.2) Uma confirmação adicional foi obtida pela seleção sucessiva de feijões grandes e pequenos em cada linhagem, durante seis gerações. A Tabela 2 mostra os resultados. Após as seis gerações de seleção na linhagem número 1, o peso médio da linhagem proveniente de feijões mais pesados foi de 69 centigramas e, para a linhagem de feijões leves, este peso foi de 68 103 centigramas. Concluiu-se assim, que o peso médio permanecia nitidamente constante em cada linhagem, quer ela seja reproduzida a partir das sementes mais pesadas, quer seja a partir das mais leves. Johannsen explicou os resultados anteriores baseando-se nos efeitos conjuntos da herança e do ambiente. O componente ambiental da variação dependia de pequenas diferenças das condições externas e internas. Estas eram de várias naturezas e atuavam sobre cada uma das sementes. O ponto mais importante a considerar no componente hereditário da variação era a homozigose devida à autofecundação contínua e que caracterizava as linhagens. Este efeito da endogamia havia sido descrito matemat6icamente mesmo por Mendel. Demonstrou ele que, partindo-se de um heterozigoto Aa, a autofecundação contínua causava uma diminuição de 50% da heterozigose, por geração. Somente algumas gerações são necessárias para se chegar a uma população com igual número de indivíduos, AA e aa e uma proporção desprezível de indivíduos Aa. Esta redução na heterozigose manifesta-se em qualquer par de genes (me heterozigose), independentemente do número total de genes da planta. Com n pares de genes em heterozigose, a proporção de plantas completamente homizogóticas, após m gerações de autofecundação, é dada pela fórmula (2m – 1)/2mn. Com 5 pares de genes independentes, 85% da população será homozigota para todos os 5 locos, após 5 gerações de autofertilização. Se se estudam, por exemplo, 100 pares de genes independentes, o que, como se vê, é um número muito superior ao que se pode estudar, na maioria dos casos, chegar-se-á a 90% de homozigose nos 100 locos, após 10 gerações de autofertilização. TABELA 2 – Efeitos da seleção durante seis gerações numa linhagem da variedade Princess de feijão (segundo Johannsen (1916), citado por ALLARD (1971). Ano da colheita Peso médio das sementes paternais (em centigramas) Diferença Peso médio das sementes filiais (em centigramas) Diferença Linhagem de peso menor Linhagem de peso maior Linhagem de peso menor Linhagem de peso menor 1902 60 70 10 63,15 64,85 +1,7 1903 55 80 25 75,19 70,88 -4,3 1904 50 87 37 54,59 56,68 +2,1 1905 43 73 40 63.55 63,64 +0,1 1906 46 84 38 74,38 73,00 -1,4 1907 56 81 25 69,07 67,66 -1,4 104 A fórmula anterior pressupõe que todos os genótipos têm a mesma sobrevivência e que todos os genes são independentes. Se a primeira condição não foi satisfeita, haverá uma redução na intensidade de aproximação à homozigose, quando os heterozigotos forem favorecidos. Se, no entanto, estes tiverem maior aptidão de sobrevivência, ocorrerá o contrário. A ligação aumenta a proporção de indivíduos homozigóticos em qualquer geração, embora não influa na porcentagem de hopmozigose. É evidente, portanto, que a autopolinização, com exceção de situações genéticas especiais, reduz, rapidamente, qualquer população à condição homozigótica, qualquer que seja o número de pares de genes presentes no início. O produto final da autofecundação será uma população homozigótica, porém não homogênea, pois tais populações serão compostas por diferentes classes de famílias homozigóticas. Por enquanto será suficiente indicar que o número de tipos homozigóticos possíveis será de 2n em que n representa o número de pares de genes em heterozigose. Com um só par de genes, por exemplo, serão possíveis apenas duas linhagens puras, com 10 pares de genes este número passa a 1024 e, com 20 pares, a mais de um milhão. 3 – OS EXPERIMENTOS DE NILSSON-EHLE Nilsson-Ehle estudou as segregações da cor nas sementes e partes florais de trigo. Em 1906, foram feitos cruzamentos entre plantas que diferiam na cor das glumas: um pai tendo glumas de cor vermelho-castanha e o outro de glumas incolores. As plantas F1 possuíam glumas de cor vermelho-castanha. As famílias F2 segregaram 1410 plantsa de glumas vermelhas e somente 94 plantas de glumas incolores, discrepando claramente de uma proporção monogênica. A segregação, no entanto, se adapta muito bem a uma proporção de 15:1, o que poderia ser esperado na suposição de que dois genes idênticos governam a cor das glumas, sendo incolores apenas plantas de genótipo recessivo (aabb), isto é: o cruzamento AABB (vermelho-castanho) x aabb (incolor) daria uma F1 AaBb (vermelho-castanho) que, autofecundada, daria a seguinte F2: 105 AB Ab aB Ab AB AABB Vermelho-castanha AABb Vermelho-castanha AaBB Vermelho-castanha AaBb Vermelho-castanha Ab AABb Vermelho-castanha AAbb Vermelho-castanha AaBb Vermelho-castanha Aabb Vermelho-castanha aB AaBB Vermelho-castanha AaBb Vermelho-castanha aaBB Vermelho-castanha AaBb Vermelho-castanha ab AaBb Vermelho-castanha Aabb Vermelho-castanha aaBb Vermelho-castanha Aabb Incolor As variações descontínuas na cor das glumas serviram como um ponto de partida para Nilsson-Ehle, na interpretação dos dados de seus estudos sobre a variaçãocontínua na coloração de sementes. Quando variedades com sementes vermelhas foram cruzadas com variedades de sementes brancas, os híbridos F1 produziram sementes vermelho-claras, intermediárias na cor com relação aos pais. Nas famílias F2, a intensidade da coloração variou de forma contínua, desde o vermelho escuro até o incolor, ficando a maioria das sementes na classe intermediária, correspondente ao vermelho diluído. As únicas sementes que puderam ser distinguidas com facilidade das demais foram as incolores. Na maioria dos cruzamentos, aproximadamente 1/16 das plantas pertencia a essa classe. Nilsson-Ehle concluiu que fatgores duplicados eram responsáveis pela cor vermelha das sementes assim como pela cor das glumas. A posição intermediária da cor das sementes nas plantas F1 e a variação contínua na pigmentação das sementes F2 vermelhas porém, foram consideradas como resultado da ação cumulativa sem dominância dos alelos duplicados produtores de pigmentos. Assim a segregação 15:1 foi considerada como refletindo uma combinação de genótipo da distribuição 1:4:6:4:1, calculada com base na ação de gens duplicados não-dominantes, e não da distribuição 9:3:3:1 (para a qual se assume dominância). As figuras 1 e 2 ilustram esse modelo.Em outros cruzamentos de Nilsson-Ehle, as plantas com sementes brancas compreendiam apenas 1/64 da população F2; neste caso, ele postulou um terceiro loco afetando a cor vermelha, também de maneira quantitativa. 4 – OS EXPERIMENTOS DE E. M. EAST O tamanho da flor em fumo é um caráter muoto favorável para estudos sobre a herança quantitativa, por permanecer relativamente constante, mesmo se submetido a condições ambientais muito diferentes. Por esta razão, East selecionou duas variedades geneticamente puras de Nicotiana lonfiglora, para realizar um de seus estudos sobre a natureza da herança quantitativa. Os resultados obtidos estão sumariados na Tabela 3. 106 A natureza contínua da variabilidade fez excluir, logo de início, a possibilidade de aplicação dos métodos mendelianos padronizados para a análise da situação genética neste caso. East, no entanto, postulou que os dados poderiam satisfazer várias exigências básicas, se uma proporção suficiente da variação estivesse sob controle de genes mendelianos. O raciocínio de East ao correlacionar suas observações com o modelo mendeliano foi o seguinte: (a) Quando os pais eram mantidos em condições semelhantes, diferiam consideravelmente no tamanho da corda. As constantes biométricas dadas na Tabela 3 indicam que este contraste era real, e baseava-se nas diferenças genéticas existentes entre os pais. (b) Existiam diferenças entre os grupos parentais, apesar de estes terem sido endocruzados por longo tempo e terem, provavelmente, atingido uma completa homozigose. Esta variabilidade, presumivelmente, resultou de pequenas diferenças ambientais no campo experimental. (c) A variabilidade dentro da população F1 foi aproximadamente da mesma magnitude que a dos tipos parentais. Este fato está de acordo com o que se espera no mendelismo, pois todas as plantas de um híbrido entre duas linhagens puras devem ser geneticamente idênticas. (d) A geração F2 foi mais variável do que as gerações parentais e a geração F1, o que pode ser deduzido: das distribuições freqüência, dos desvios padrões e dos coeficientes de variação. Se comparada com as outras gerações, a geração F2 não pode ser considerada imune aos efeitos ambientais e, da mesma forma, não se pode esperar que ela seja drasticamente mais sensível a estes efeitos. O excesso de variabilidade na geração F2 não pode, portanto, ser tomado como conseqüência dos efeitos do ambiente. Em F2, porém, espera-se a ocorrência de segregação e recombinação de genes mendelianos. Assim, East postulou que eram estas as causas responsáveis pelo aumento da variabilidade nesta geração. Os resultados observados nas gerações parentais, F1 e F2, portanto, concordam com o que estabelece o mendelismo. Como conseqüência, resta saber o número e a natureza dos genes que governam o comprimento da corola. 107 TABELA 3 – Distribuições de freqüência para o comprimento da corda nas gerações parentais, F1 e F2, num cruzamento entre variedades de Nicotina longiflora. (Segundo East (1916), citado por ALLARD (1971)). Centro das Classes (mm) Geração e Ano de Plantio P1 1911 P1 1912 P1 1913 F1 1911 P2 1911 P2 1911 P2 1911 *F2 1912 *F2 1912 34 1 37 13 4 4 40 80 28 32 43 32 16 1 52 1 2 55 4 5 4 58 10 16 2 61 41 23 24 64 75 18 37 67 40 62 31 70 3 37 38 73 25 35 76 16 27 79 4 21 82 2 5 85 2 6 88 6 2 5 91 22 16 7 94 49 32 10 97 11 6 2 100 1 n 125 49 37 173 88 47 24 211 233 x 41 41 40 64 93 93 92 68 70 D.P. 1,8 2,0 1,1 2,9 2,3 2,2 2,7 5,9 6,8 C.V. 4,3 4,9 2,7 4,6 2,5 2,4 2,9 8,8 9,7 * Progênies F2 derivadas de duas plantas F1 e plantadas em 1912 Se a porção genética da variabilidade estivesse sendo controlada por um só par de alelos sem dominância esperar-se-iam três genótipos na geração F2, ou seja: AA, Aa e aa. Fenótipos semelhantes aos dos pais e da F1 deveriam estar associados a estes genótipos. Aproximadamente, um quarto da F2 deveria, por conseguinte, incidir no intervalo que vai de 34 a 43mm, um meio no intervalo de 55 a 70mm, e o restante um quarto da F2 deveria variar de 88 a 100mm. Todas as plantas da F2, em outras palavras, deveriam estar distribuídas em um destes três grupos distintos. Observando-se a tabela 3, nota-se que uma hipótese simples como esta não pode explicar a curva de distribuição que foi observada na geração F2. Supondo-se, porém, que as diferenças genéticas entre os pais sejam devidas não a um, mas a dois pares de alelos. Além disso, para maior clareza, considere-se que os valores 108 correspondentes aos pais sejam respectivamente, 40 e 90mm, que não haja dominância e que cada alelo tenha um efeito igual e cumulativo. Com base nesta hipótese, a geração F1 deveria Ter corolas com comprimento médio de 65mm. Isso porque 4 alelos seriam responsáveis por 90 – 40 = 50 cm, de modo que um alelo determinaria um aumento de 12,5cm. A geração F2 deveria ao invés de três Ter cinco classes com médias de 40, 52, 5, 65, 77,5 e 90mm, ocorrendo nas proporções de 1:4:6:4:1. As médias fenótípicas destas classes estão separadas por intervalos de aproximadamente 13mm. O tipo parental que se apresentou menos uniforme, por sua vez, variou numa amplitude de 15mm; por isso, estas cinco classes deveriam ser discretas, pelo menos aproximadamente. Nestas condições, os cinco genótipos ainda seriam identificáveis com apenas pequena margem de erro. Assumir a existência de um par a mais de alelos, como foi feito, parece ser um passo correto, apesar da curva de distribuição da F2 deduzida não ter correspondido com a curva realmente obtida. Isso pode ser confirmado construindo-se curvas baseadas em três e depois em quatro genes. Nas curvas assim obtidas, as freqüências esperadas aproximar-se-ão gradativamente da curva de distribuição normal observada na geração F2. Examinando-se a dsitribuição de freqüência da F2, nota-se que somente um indivíduo alcançou o limite inferior do tipo parental e corolas mais compridas; da mesma forma, nenhum atingiu a distribuição do tipo parental de corolas mais compridas; da mesma forma, nenhum atingiu a distribuição do tipo parental de corolas curtas. Os genótipos parentais, portanto, não foram recuperados numa população F2 constituída de 444 plantas. Com quatro genes há a possibilidade de se recuperar um genótipo parental; portanto, não é forade propósito admitir a existência de mais de quatro genes no presente caso. Se as suposições anteriores forem válidas e se estiverem envolvidos apenas 5 genes, as médias das classes assim esperadas deveriam diferir em 5mm. Qualquer genótipo, no entanto, está sujeito a variar numa amplitude de 11mm, pelo menos, devido aos efeitos de ambiente. Percebe-se, pois, que as classes genotípicas nestas condições devem se sobrepor genotipicamente, podendo a curva das distribuições, então, se aproximar de uma continuidade. Os resultados observados se enquadram bastante bem no que se espera quando se admite um número pequeno de genes, cinco no caso, governando o comprimento da corola neste híbrido. Convéwm frisar, no entanto, que nenhuma hipótese a respeito do número exato de genes ou da ação gênica pode ser aceita definitivamente. 109 A interpretação dada adapta-se bem aos fatos observados mas não serve como prova inequívoca de que a variação observada seja devida à existência de vários genes em segregação. Todavia, East obteve evidências confirmadoras de sua hipótese. Baseadop na interpretação adotada, fez previsões para a geração F3 e subseqüentes e comparou as previsões com dados observados. East fez as seguintes previsões: 1ª) Indivíduos tomados de vários pontos da curva de distribuição de uma população F2 devemproduzir progênies nitidamente diferentes no tamanho médio da corola. 2ª) Indivíduos F2 diferentes devem produzir progênies F3 com variabilidades diferentes. Entre as mais heterogêneas, devem estar algumas tão variáveis como a própria geração F2, as mais homogêneas devendo apresentar variabilidade semelhante à dos pais originais. 3ª) Nas gerações posteriores à F2, a variabilidade de uma família pode ser a mesma ou menor doq eu a da família da qual proveio, mas não maior. Com os dados das gerações F3, F4 e F5, mostrados nas Tabelas 4 e 5, é possível testar estas predições. Com relação à primeira predição, nota-se que os dados são claros no sentido de mostrarem várias famílias F3 consideravelmente diferentes com relação à média do caráter, e além disso que estas diferenças estavam associadas com o tamanho médio exibido pelos genitores F2 (Tabela 4). As predições restantes referem-se à comparação das famílias, no tocante à variabilidade. Pode-se notar que as famílias F3 diferiram bastante na variabilidade (Tabela 4). Isto se deduz não só das distribuições de freqüência, como dos coeficientes de variação. Não foram obtidas famílias F3 que se assemelhassem aos pais na variabilidade; este fato, no entanto, era de se esperar, devido ao pequeno número de famílias, nos ensaios. Entre 4 famílias na geração F4 (Tabela 5), todavia, duas apresentaram uma variabilidade bastante pequena, comparável à do pai de corolas mais curtas. Foi com base em raciocínios e observações como estas que se adotou o esquema mendeliano para explicar a herança de caracteres quantitativos. A explicação dada para a herança quantitativa foi denominada Hipótese dos Fatores Múltiplos. Esta hipótese passou a ser uma das contribuições mais importantes ao estudo da genética, apesar de ser relativamente simples, pois admite que os genótipos para um dado caráter quantitativo nada mais são do que a soma dos efeitos de um número definido de diferenças gênicas. 5 – LITERATURA CITADA 110 ALLARD, R.N. Herança quantitativa. In: _______. Princípios do melhoramento genético das plantas. São Paulo, Editoral Edgard Blucher, 1971. Cap. 8, p. 60-71. STRICKBERGER, M.W. Quantitative inheritance. In: _______. Genetics. New York, the Macmillan Company, 1971. Cap. 14, p. 260-278. 111 TABELA 4 – Distribuição de freqüências da geração F3 em um cruzamento entre variedades de Nicotina longiflora. (Segundo East (1916), citado por ALLARD (1971). Centro das Classes (mm) Famílias e Comprimeito dos Pais 1-2 46 1-3 50 2-5 50 1-4 60 1-1 72 2-1 77 2-4 80 2-3 81 2-6 82 34 37 40 43 1 6 2 46 4 20 7 3 49 26 53 25 9 1 52 44 49 55 25 0 55 38 15 55 37 1 58 22 4 18 70 1 61 7 19 4 1 2 1 64 1 10 20 2 8 1 67 25 16 14 8 3 70 59 33 21 16 5 73 41 43 39 20 12 76 19 34 39 32 20 79 2 20 32 41 40 82 6 10 17 41 85 1 1 3 30 88 3 90 91 1 2 94 97 n 143 147 160 175 170 159 166 143 162 x 54 50 53 56 70 73 74 76 80 D.P. 3,7 3,2 3,0 4,1 3,8 5,0 4,9 5,1 4,8 C.V. 7,0 6,3 5,7 7,2 5,2 6,9 6,6 6,6 5,9 112 TABELA 5 – Distribuição de freqüências das gerações F4 e F5 em um cruzamento entre variedades de Nicotina longiflora (Segundo East (1916) citado por ALLARD (1971)). Centro das Classes (mm) Geração e Ano de Plantio 1-2-1 F4 44 1-3-1 F4 43 2-6-1 F4 85 2-6-2 F4 87 1-3-1-1 F5 41 2-6-2-1 F5 90 34 3 37 6 40 48 43 8 2 90 46 42 23 14 49 95 122 52 38 41 55 1 1 58 61 64 67 4 70 5 73 4 6 2 76 9 11 3 79 38 21 8 82 75 23 14 85 59 41 20 88 6 29 25 91 3 8 25 94 1 5 20 97 1 8 n 184 189 195 164 161 125 x 46 46 82 83 42 88 D.P. 2,4 1,9 3,3 5,8 2,3 5,5 C.V. 5,2 4,0 4,0 7,0 5,5 6,3 113 Capítulo 8 INTRODUÇÃO À GENÉTICA DE POPULAÇÕES Investigando o mecanismo da hereditariedade, os geneticistas, no início deste século, descobriram e estabeleceram os princípios mendelianos, a partir de estudos realizados ao nível familiar. Issto é, eles limitaram suas investigações à semelhança ou dessemelhança entre determinados pais e sua descendência. Por exemplo, eles cruzaram uma planta de flores púrpuras com uma planta de flores brancas e examinaram as proporções dos tipos de plantas, quanto à cor das flores, surgidos na descendência (LI, 1955). A genética de populações, por outro lado, está interessada nas conseqüências estatísticas do mendelismo em um grupo de famílias ou indivíduos; ela estuda o fenômeno hereditário em um nível populacional. Presume-se que o mecanismo da hereditariedade seja aquele descrito pela genética mendeliana. O geneticista de populações visa, então, investigar as proporções de plantas com flores púrpuras e brancas em uma dada região, a freqüência dos vários tipos de cruzamentos em tal população regional, as proporções dos vários tipos de plantas de cada tipo de cruzamento, e a composição genética de uma geração quando comparada com a composição da próxima geração, sob várias circunstâncias (LI, 1955). A genética de Populações além de sua importância direta, é também importante indiretamente, por fornecer subsídios a várias outras áreas, entre as quais genética quantitativa, evolução orgânica e melhoramento de plantas e de animais. O objetivo do presente capítulo é apresentar o que hoje é conhecido como o “Teorema Fundamental” da genética de populações, demonstrado independentemente por G. H. Hardy e W. Weinberg, em 1908. 1 – FREQÜÊNCIAS GÊNICAS E GENOTÍPICAS 1.1. Freqüências Genotípicas Para descrever a constituição genética de um grupo de N indivíduos seria necessário especificar seus genótipos e saber em que freqüência estariam representados. Para simplificar, suponha-se que há interesse em certo loco autossômico A e que existiam dois diferentes alelos neste loco, A1 e A2 presentes entre os N indivíduos. Então, haveriam três genótipos possíveis, desde que se considere organismos diplóides: A1A1, A1A2 e A2A2. 114 Admita-se, ademais, que no grupo referido anteriormente, os N indivíduos estejam assim distribuídos: n1 indivíduos A1A1, n2 indivíduos A1A2 e n3 indivíduos A2A2, de modo que n1 + n2 + n3 = N. Então, as freqüências ou proporções dos três genótipos (denominadas freqüências genótipas) são, por definição, as seguintes: P = n1 = freqüência de A1A1 N H = n2 = freqüência de A1A2 N Q = n3 = freqüência de A2A2 NEvidentemente, P + H + Q = 1, pois n1/N + n2/N + n3/N = 1 Para ilustrar o que foi exposto, será considerado como exemplo aquele referente aos grupos sangüíneos do homem, do sistema MN. Esses grupos sangüíneos são determinados por dois alelos em um loco, e os três genótipos possíveis correspondem aos três grupos sangüíneos, M, MN e N, isto é: genótipo MM tem genótipo M, genótipo MN tem fenótipo MN e genótipo NN tem fenótipo N. Os dados da Tabela 1 foram tabulados em 1954 por A. Mourant, citado por FALCONER (1981) e referem-se aos números de indivíduos dos grupos sangüíneos M, MN e N em duas amostras de esquimós. TABELA 1 – Número de indivíduos dos grupos sangüíneos M, MN e N em duas amostras de esquimós, segundo A. Mourant, citado por FALCONER (1981) AMOSTRAS GRUPO SANGÜÍNEO TOTAIS M MN N Greenland 475 89 5 569 Iceland 233 385 129 747 A freqüência do genótipo MM na amostra de Greenland seria: (MM) = 475/569 = 0,835 = 83,5% As freqüências dos três genótipos nas duas populações seriam calculadas de maneira semelhante, obtendo-se os dados da Tabela 2. 115 TABELA 2 – Freqüências genotípicas para os três grupos sangüíneos do sistema M-N, em duas amostras de esquimós obtidas com os dados da Tabela 1. AMOSTRAS GRUPO SANGÜÍNEO TOTAIS M MN N Greenland 83,5 15,6 0,9 100 Iceland 31,2 51,5 17,3 100 1.2. Freqüências Gênicas Uma população, no sentido genético, não é apenas um grupo de indivíduos, mas um grupo de indivíduos que se acasalam, e a genética de uma população refere-se não só à constituição genética dos indivíduos, mas também à transmissão dos genes de uma geração para a seguinte. Os genótipos dos pais são desfeitos e um novo grupo de genótipos é constituído na progênie proveniente dos genes transmitidos pelos gametas. Os genes encontrados em populações têm, portanto, continuidade de geração para geração, o que não acontece com os genótipos nos quais eles aparecem. A constituição genética da população, com relação aos genes que ela transporta, é descrita pela relação das freqüências gênicas, ou seja, pela especificação dos alelos presentes em cada loco e pelo número ou proporção dos diferentes alelos em cada loco. Considere-se uma população de N indivíduos diplóides dos quais n1, n2 e n3 apresentam respectivamente genótipos A1A1, A1A2 e A2A2. Como cada indivíduo contém 2 genes e existem N indivíduos na população, existirão 2 N genes representativos no loco A. Cada indivíduo A1A1 possui 2 genes A e cada indivíduo A1A2 contém 1 gene A1. Desta forma, existem (2n1 + n2) genes A1 na população. De modo semelhante, cada indivíduo A2A2 possui 2 genes A2 e cada indivíduo A1A2 possui 1 gene A2. Assim, existem (2n3 + n2) genes A2 na população. Chamando-se de p a freqüência do alelo A1, tem-se que: p = 2n1 + n2 2N Por outro lado, se q é a freqüência do alelo A2, então: q = 2n3 + n2 2N A soma das freqüências gênicas também é, logicamente, igual a 1, isto é, p + q = 1, pois: 2n1 + n2 + 2n3 + n2 = 2N = 1 2N 2N 2N 116 Note-se que as freqüências gênicas podem também ser determinadas a partir das freqüências genotípicas. Já foi visto que: P = n1 ; H= n2 e Q = n3 N N N Como p = 2n1 + n2 = n1 + 1 n2 , 2N N 2 N então p = P + 1/2H De modo semelhante: q = Q + 1/2 H Para ilustrar o cálculo das freqüências gênicas, considerar-se-ão os dados constantes na Tabela 1. Para a população de Greenland, as freqüências gênicas podem ser obtidas a partir dos números de indivíduos da seguinte maneira: p = freqüência de M = 2 x 475 + 89 = 0,913 2 x 569 Na população de Iceland, as referidas freqüências podem ser calculadas de maneira semelhante, obtendo-se: p = 0,570 e q = 0,430. As citadas freqüências gênicas podem ser tam’bem obtidas, como já foi dito, a partir das freqüências genotípicas. Nesse caso, para a população de Greeland tem-se como dados da Tabela 2): p = 0,835 + 1/2 (0,156) = 0,913 q = 0,009 + 1/2 (0,156) = 0,087 Para a outra população, tem-se que (também com os dados da Tabela 2). p = 0,312 + 1/2 (0,515) = 0,570 q = 0,175 + 1/2 (0,515) = 0,430 2 – FATORES QUE ALTERAM AS PROPRIEDADES GENÉTICAS DE UMA POPULAÇÃO Podem-se agora esudar os agentes que promovem mudanças nas freqüências gênicas e, conseqüentemente, nas freqüências genotípicas. 117 2.1. Tamanho da População Os genes passados de uma geração para a próxima são amostras dos genes da geração parental. Por isso, a freqüência gênica está sujeita à variação causada pela amostragem entre gerações sucessivas, e quanto menor for o número de pais, amior será a variação da amostragem. Neste capítulo admitir-se-á sempre quie se está lidando com uma grande população o que significa simplesmente uma popula”cão na qual a variação atribuída à amostragem é tão pequena que pode ser desprezada. Considera-se, na prática, uma população grande aquela na qual o número de indivíduos adultos está na ordem das centenas e não das dezenas. 2.2. Seleção Não se pode ignorar os efeitos dos genes sobre a fertilidade e viabilidade poreque estes influenciam a constituição genética da geração seguinte. Os diferentes genótipos entre os pais podem apresentar fertilidades diferentes, e, se isto ocorre, contribuirão desigualmente para o conjunto de gametas formadores da próxima geração. Dessa forma, a freqüência gênica pode ser modificada durante o processo da transmissão. Além disso, os genótipos entre os zigotos recém- formados podem apresentar diferentes taxas de sobrevivência, e, assim, as freqüências gênicas na nova geração podem ser modificadas até que os indivíduos se tornem adultos e, por sua vez, sejam pais. Esses processos são chamados de seleção. 2.3. Migração e Mutação As freqüências gênicas numa população podem também ser modificadas pela imigração de indivíduos vindos de outras populações e por mutação. 2.4. Sistema de Acasalamento Os genótipos na progênie são determinados pela união de gametas aos pares, para formar o zigoto, e a união dos gametas é influenciada pelo sistema de acasalamento dos pais. Assim, a freqüência genotípica da geração descendente é influcienciada pelos genótipos dos pares que se acasalaram na geração dos pais. Supõe-se, primeiramente, que os acasalamentos são ao acaso, com respeito aos genótipos considerados. Acasalamento ao acaso quer dizer cada indivíduo tem igual possibilidade de acasalamento com qualquer outro indivíduo da população. 118 3 – EQUILÍBRIO DE HARDY-WEINBERG 3.1. Enunciado “Numa grande população, sob acasalamento do acaso, na ausência de migração, mutação e seleção, tanto as freqüências gênicas como as genotípicas são constantes de geração em geração e as freqüências genotípicas são determinadas pelas freqüências gênicas”. Estas propriedades da população foram primeiramente demonstradas de forma independente por Hardy e por Weinberg, em 1908, e são conhecidas como teorema ou Lei de Hardy-Weinberg. Tal população é dita estar em equilíbrio de Hardy-Weinberg. 3.2. Demonstração 3.2.1. 1º Método – Uso da Freqüência dos Gametas A demonstração do teorema de Hardy-Weinberg por esse método envolve três etapas: PRIMEIRA ETAPA: dos pais à produção de gametas Considere-se a geração dos pais com as seguintes freqüências gênicas e genotípicas: p = freqüência de A1 q = freqúência de A2 P = freqüência de A1A1 H = freqüência de A1A2 Q = freqüência de A2A2 Dois tipos de gametas são produzidos: os que levam A1 e os que levam A2. As freqüências desses tipos de gametas são as mesmas freqüências gênicas, p e q, na geração que os produz, porque indivíduosA1A1 somente produzem gametas A1, e indivíduos A1A2 produzem igual número de gametas A1 e A2. Assim, a freqüência de gametas A1 produzidos pela população inteira é (P + 1/2H) que, como já foi visto, é igual à freqüência gênica de A1. De modo semelhante, a freqüência de gametas A2, produzidos pela população é igual à freqüência gênica de A2 (Q + 1/2H). 119 SEGUNDA ETAPA: da união dos gametas aos genótipos nos zigotos produzidos Acasalamento ao acaso entre indivíduos é equivalente à união ao acaso de seus gametas. Podemos pensar num conjunto de gametas para o qual todos os indivíduos contribuem igualmente, os zigotos são formados pela união aos pares e ao acaso dos gametas constituintes do conjunto. As freqúências genotípicas entre os zigotos são, portanto, o produto das freqüências dos tipos de gametas que se uniram para produzi-los. As freqüências genotípicas na progênie, produzidas pelo acasalamento ao acaso, podem, portanto, ser determinadas multiplicando-se, simplesmente, as freqüências dos tipos gaméticos, como indica a Tabela 3, na qual se consideram as freqüências gênicas como sendo as mesmas machos e nas fêmeas. TABELA 3 – Genótipos resultantes da união de gametsa com freqüências gênicas p e q (veja o texto, para detalhes) GAMETAS MASCULINOS E RESPECTIVAS FREQÜÊNCIAS GAMETAS FEMININOS E RESPECTIVAS FREQÜÊNCIAS A1 A2 p q A1 p A1A1 A1A2 p2 pq A2 q A1A2 A2A2 pq q2 Não há necessidade de se fazer diferença entre a união de óvulos A1 com espermas A2 e a união de óvulos A2 com esperma A1. Assim, as freqüências genotípicas dos zigotos são: p2 = freqüência de A1A1 2pq = freqüência de A1A2 q2 = freqüência de A2A2 Note-se que essas freqüências genotípicas dependem, somente, da freqüência gênica nos pais, e não da sua freqüência genotípica. TERCEIRA ETAPA: dos genótipos dos zigotos à freqüência gênica na progênie. Conforme já foi visto, pode-se encontrar a freqüência de determinado gene somando-se a freqüência dos homozigotos para o alelo em questão com a metade da freqúência dos heterozigotos. Assim: 120 freqüência de A1 = p2 + 1/2 2pq = p (p + q) = p que é a mesma na geração dos pais. De modo semelhante, freqüência de A2 = q2 + 1/2 2pq = q (p + q) = q 3.2.2. 2º Método: Uso da Freqüência dos Acasalamentos Este método mostra, com mais detalhes, a estrutura de uma população sob acasalamento ao acaso, distinguindo os tipos de acasalamento de acordo com os genótipos dos pares, e também como as freqúências de Hardy-Weinberg surgem das leis de segregação de Mendel. PRIMEIRA ETAPA: Obtenção das freqüências de todosos tipos de acasalamentos, de acordo com as freqüências dos genótipos entre os pais. Novamente, considere-se a geração dos pais com as seguintes freqüências gênicas e genotípicas: p = freqüência de A1 q = freqüência de A2 p = freqüência de A1A1 H = freqüência de A1A2 Q = freqüência de A2A2 Existe um total de nove tipos de acasalamentos e suas freqüências, quando o acasalamento é ao acaso, são mostradas na Tabela 4. TABELA 4 – Freqüências de acasalamentos ao acaso entre indivíduos de genótipos A1A1, A1A2 e A2A2. Genótipos e Respectivas Freqüências nas Fêmeas Genótipos e Respectivas Freqüências nos Machos A1A1 P A1A2 H A2A2 Q A1A1 P P2 PH Q2 A1A2 H PH H2 HQ A2A2 Q PQ HQ Q2 Uma vez que o sexo dos pais é irrelevante neste contexto, alguns tipos de acasalamento são equivalentes, e o número de tipos diferentes é reduzido para seis, isto é, os seguintes acasalamentos são equivalentes: 121 A1A1 x A1A2 e A1A2 x A1A1 A1A1 x A2A2 e A2A2 x A1A1 A1A2 x A2A2 e A2A2 x A1A2 Pela soma das freqüências dos tipos equivalentes, obtém-se as freqüências dos tipos de acasalamentos, conforme apresentado na Tabela 5 TABELA 5 – Freqüências de acasalamento ao acaso entre indivíduos de genótipos A1A1, A1A2 e A2A2. A C A S A L A M E N T O S T I P O S F R E Q Ü Ê N C I A S 1 – A1A1 x A1A1 p2 2 – A1A1 x A1A2 2PH 3 – A1A1 x A2A2 2PQ 4 – A1A2 x A1A2 H2 5 – A1A2 x A2A2 2HQ 6 – A2A2 x A2A2 Q2 SEGUNDA ETAPA: Determinação dos genótipos da descendência produzida por cada tipo de acasalamento e obtenção da freqüência de cada genótipo na progênie. Isso é feito da seguinte maneira: a) O acasalamento A1A1 x A1A1 produz apenas descendentes A1A1, com freqüência p2. b) A1A1 x A1A2 produz indivíduos A1A1 e A1A2 com freqüências iguais a PH, isto é, 2PH/2. c) A1A1 x A2A2 só produz indivíduos A1A2 com freqüência 2PQ. d) A1A2 x A1A2 produz indivíduos A1A1, A1A2 e A2A2 com freqüências iguais a, respectivamente, 1/4 H2, 1/2 H2 e 1/4 H2. e) A1A2 x A2A2 produz indivíduos A1A2 e A2A2 com freqüências iguais a HQ. f) A2A2 x A2A2 só produz indivíduos A2A2 com freqüência Q2. O que foi obtido pode ser resumido na Tabela 6. 122 TABELA 6 – Genótipos e respectivas freqüências resultantes do acasalamento ao acaso entre indivíduos A1A1, A1A2 e A2A2 com freqüências de P, H e Q, respectivamente. ACASALAMENTOS GENÓTIPOS E FREQÜÊNCIAS DA PROGÊNIE TIPOS FREQÜÊNCI AS A1A1 A1A2 A2A2 A1A1 x A1A1 P2 P2 A1A1 x A1A2 2PH PH PH A1A1 x A2A2 2PQ 2PQ A1A2 x A1A2 H2 1/4 H2 1/2 H2 1/4 H2 A1A2 x A2A2 2HQ HQ HQ A2A2 x A2A2 Q2 Q2 TERCEIRA ETAPA: Determinação das freqüências dos genótipos na população como um todo. A freqüência do genótipo A1A1, f(A1A1) será: f (A1A1) = P2 + PH + 1/4 H2 f (A1A1) = (P + 1/2 H)2 mas P + 1/2 H = p Então: f (A1A1) = P2 f (A1A2) = PH + 2 PQ + 1/2 H2 + HQ f (A1A2) = 2P (Q + H/2) + H (Q + H/2) f (A1A2) = 4P/2 (Q + H/2) + 2H/2 (Q + H/2) f (A1A2) = 2P (Q + H/2) = H/2 (Q + H/2) f (A1A2) = 2 (P + H/2) (Q + H/2) f (A1A2) = 2 pq Por raciocínio semelhante, conclui-se que: f (AqA2) = q2 Como p2, 2pq e q2 são as freqüências do equilíbrio Hardy-Weinberg, o teorema fica demonstrado. A aplicação do teorema de Hardy-Weinberg será ilustrada com os dados obtidos por R. R. Race e R. Sanger, em 1954, e apresentados por FALCONER (1981), em uma amostra de 1279 ingleses. Os autores verificaram que nessa amostra as freqüências genotípicas para os grupos 123 sangüíneos M, MN e N foram de, respectivamente: 28,38, 49,57 e 22,05. Com esses valores, as freqüências gênicas são obtidas da maneira usual e são as seguintes: (M) = 28,38 + 1/2 x 49,57 = 53,165 (N) = 22,05 + 1/2 x 49,57 = 46,835 As freqüências genotípicas esperadas pela Lei de Hardy-Weinberg, obtidas, a partir das freqüências gênicas são as seguintes: p2 = (0,53165)2 = 28,265% 2pq = 2 x 0,53165 x 0,46835 = 49,800% q2 = (0,46835)2 = 21,935% Conclui-se que as freqüências observadas concordam satisfatoriamente com as esperadas para uma população no equilíbrio Hardey-Weinberg. 4 – PROPRIEDADES DE UMA POPULAÇÃO, COM RESPEITO A UM LOCO APENAS EXPRESSAS NA LEI DE HARDY-WEINBERG 4.1. Na ausência de mutação, migração e seleção, uma população grande sob acasalamento ao acaso é estável com respeito às freqüências gênicas e genotípicas e não existe tendência inerente para que suas propriedades genéticas se modifiquem de geração para geração. 4.2. As freqüências genotípicas na progênie, produzidas pelo acasalamento ao acaso dos pais são determinadas somente pelas freqüências gênicas entre eles. Conseqüentemente: a) Uma população sob equilíbrio de Hardy-Weinberg tem, na equação p2 + 2pq + q2 = 1 a relação entre as freqüências gênicas e genotípicas em qualquer geração. b) Essas freqüências genotípicas são estabelecidos por meio de uma geração de acasalamento ao acaso,independentemente das freqüências genotípicas dos pais. 5 – LITERATURA CITADA FALCONER, D. S. Constituição genética da população. In: _______. Introdução à genética quantitativa. Viçosa, Universidade Federal de Viçosa, 1981. Cap. 1, p. 5-19 LI, C.C. Harge random-mating populations. In: _______. Population genetics. Chicago, the University of Chicago Press, 1955. Cap. 1, p. 1-11. 124 PARTE II EVOLUÇÃO ORGÂNICA 125 Capítulo 9 AS TEORIAS DA EVOLUÇÃO DE LAMARCK E DE DARWIN Atualmente, a grande maioria dos biólogos aceita como demonstrado o fato de que os organismos evoluem, isto é, que os seres vivos se modificam através do tempo. Assim, os organismos que vivem hoje evoluíra, gradualmente de antepassados que, em geral, eram cada vez mais diferentes de seus descendentes, à medida que remontamos a um passado cada vez mais remoto. Os organismos atuais teriam evoluído a partir dos agregados pré-celulares primitivos de moléculas orgânicas que surgiram nos mares também primitivos, há mais de três bilhões de anos atrás. Em termos simples, a evolução nada mais é que aquilo que Charles Darwin chamou de “descendência com modificação” ou, como Theodosius Dobzhansky definiu, evolução “é a mudança na composição genética de uma população”. As modificações resoltam de êxitos diferenciais na reprodução por indivíduos que possuem diferentes características hereditárias. A teoria evolutiva é considerada, com razão, a mais unificante das teorias da biologia. Antes de terem sido intepretados pela teoria da evolução, a diversidade dos organismos, as semelhanças e diferenças entre tipos de organismos, os padrões de distribuição e comportamento, a adaptação e a interação representavam apenas um terrificante caos de fatos. Não existe área da biologia em que esta teoria tenha deixado de funcionar como um princípio ordenador. Por isso e também por facilitar o entendimento do melhoramento genético das plantas é que os processos de evolução orgânica serão tratados nesta apostila. Este capítulo considerará as teorias da evolução de Lamarck e de Darwin. O capítulo seguinte apresentará a chamada teoria moderna da evolução. 1 – TEORIAS SOBRE EVOLUÇÃO Até os nossos dias atuais, várias foram as teorias propostas para explicar de que maneira se processa a evolução. Atualmente,, a teoria aceita pela quase totalidade dos biólogos tem sido chamada de “Teoria Sintética da Evolução” ou “Teoria Moderna da Evolução”. O desenvolvimento dessa teoria foi um processo lento. Ela é baseada essencialmente na Teoria proposta por Charles Darwin em 1859. Como salienta MAYR (1977), a teoria evolutiva corrente deve mais a Darwin do que a qualquer outro evolucionista, e foi construída em torno de conceitos essenciais de Darwin. Não obstante, incorpora muitos elementos distintamente pré-darwinianos. 126 As idéias modernas de evolução incluem várias características que não faziam parte da teoria de Charles Darwin. Antes de Charles Darwin, o biólogo francês Jean Baptiste Lamarck foi o único a p[ropor uma hipótese bem elaborada para explicar como os animais e vegetais evoluem. Suas idéias sobre a evolução aparecem em seu livro Philosophie Zoologique, publicado em 1809, ano em que nasceu Charles Darwin. Por outro lado, é preciso frisar que Darwin não criou a teoria da evolução, teoria que diz que os seres vivos hoje existentes são descendentes modificados de seus ancestrais. A idéia foi sugerida por muitos cientistas anteriores. Aliás, em 1794, o avô de Darwin, Erasmus Darwin, publicou um longo tratado, intitulado Zoonomia, no qual afirmava sua crença na probabilidade da evolução, mas não apresentava nenhuma hipótese para explicar como ela ocorria. 2 – A TEORIA DE LAMARCK A teoria de Lamarck é baseada em duas suposições. Chamou a primeira de lei do uso ou desuso e, segundo ela, quanto mais uma parte do corpo é usada, mais se desenvolve; por outro lado, as partes que não são usadas enfraquecem vagarosamente, atrofiam-se e podem mesmo desaparecer. A Segunda suposição chamou de lei da herança dos caracteres adquiridos. Lamarck postulou que qualquer animal poderia transmitir a seus descendentes aquelas características que se desenvolveram pelouso ou se atrofiariam pelo desuso. Ele disse que as novas espécies aparecempor evolução, como resultado da aquisição ou perda de caracteres. Lamarck usou muitos exemplos da natureza para explicar sua hipótese. Sua explicação para o longo pescoço da girafa foi a seguinte: as girafas ancestrais provavelmente tinham pescoços curtos que eram submetidos a freqüentes distensões, para capacitá-los a alcançar a folhagem das árvores; os descendentes apresentavam pescoços mais longos que são também esticados freqüentemente, na procura de alimentos; finalmente, o contínuo esticamento do pescoço deu origem às modernas girafas. A hipótese de Lamarck poderia também ser aplicada às plantas: se, por exemplo, em uma região diminuísse a intensidade das chuvas, as plantas passariam, em conseqüência, a Ter necessidade de conservar água. Depois de muitos anos, à medida que a região ficasse mais e mais parecida a um deserto, as plantas passariam a seus descendentes as cartacterísticas para 127 evonomizar água que haviam adquirido. Dessa maneira, teriam se originado as plantas típicas de regiões desérticas, como os cactos, capazes de armazenar grandes quantidades de água. A explicação de Lamarck da evolução por meio da herança dos caracteres adquiridos pode parecer razoável. Os exeplos usados por ele poderão parecer convincentes porque a primeira das duas afirmações é válida: partes do animal mudam como resultado do uso ou desuso. É a Segunda afirmação que não pode ser experimentalmente comprovada; não há, até agora, nenhuma prova de que características adquiridas possam passar aos descendentes. 3 – A TEORIA DE DARWIN 3.1. A Viagem do Beagle Charles Dawin iniciou as observações que conduziram à sua teoria da evolução à idade de 22 anos. A essa idade, em 1831, ele partiu como naturalista a bordo de um navio da marinha inglesa, o H. M. S. A finalidade dessa viagem, que durou 5 anos, era mapear as costas da Amética do Sul e das ilhas do Pacífico (Figura 1). Darwin, como naturalista, deveria coletar espécimes de animais e vegetais encontrados e anotar suas observações. Pouco antes da viagem, Darwin recebeu de um de seus antigos professores, o livro “Princípios de Geologia”, escrito pelo seu amigo Charles Lyell. Nele, o autor afirmava que as forças naturais responsáveis pelos fenômenos geológicos do passado, era as mesmas existentes atualmente. Lyell admitia que essas forças haviam, provavelmente, produzido modificações na crosta terrestre através das épocas. O livro provocou forte impacto na imaginação de Darwin porque, durante a viagem, ao longo das costas sul-americanas, encontrou provas dessas modificações. O jovem naturalista levantou, então, as seguintes questões: se a terra havia passado por longas modificações, como seria ela há milhares de anos? Poderia ela ter mantido as mesmas formas vivas atuais ou não? Que outras formas poderiam ter existido? Nas plantas e animais da América do Sul, para ele estranhos, Darwin descobriu indícios de modificações nas espécies. Notou, por exemplo, que as emas que vivem nas planícies da Argentina são, nas proximidades de Buenos Aires, muito diferentes das encontradas no sul do continente. Além de coletar espécimes vivos, fez escavações, encontrando também fósseis de grandes mamíferos, bem diferentes das formas atuais. Entre os descobertos por ele na Argentina, haviamalguns de gigantescos mamíferos extintos, semelhantes em vários aspectos aos nossos tatus. Esses animais, com cerca de 4 metros de comprimento, dificilmente poderiam pertencer às 128 mesmas espécies atuais, mas como estas, só são encontradas na América. Posteriormente, o Beagle navegou através do desolado litoral da Patagônia, próximo ao extremo sul da América do Sul, onde Darwin viu alguns dos mais ricos depósitos fossilíferos do mundo. Os ossos de extintas espécies de animais estavam expostos aos milhares nos rochedos, fornecendo ampla evidência de que os animais de eras passadas eram diferentes doa atuais animais sul-americanos, mas claramente aparentados a eles. Depois de atravessar o Estreito de Magalhães, o Beagle navegou em direção ao norte, ao longo da costa sul-americana do Pacífico, passando cinco semanas nas ilhas Galápagos, 600 milhas a oeste da costa do Equador. Nessas ilhas, Darwin certificou-se de que os principais animais eram diferentes dos animais da costa sul-americana. Enormes lagartos encontravam-se em toda parte, alguns deles vivendo mesmo nas proximidades do mar e alimentando-se da vida marinha. Esses lagartos são peculiares às Ilhas Galápagos, mas seus parentes mais próximos são encontrados na América do Sul. Os jabutis gigantes, que dão nome às ilhas, eram os animais mais comuns de seu interior. Não somente esses jabutis pertencem a um grupo completamente diferente dos que habitam o interior do continente americano, como também cada ilha do arquipélago possui sua raça particular de jabutis (Figura 2). As descobertas feitas na América do Sul tiveram grande influência no modo de pensar de Charles Darwin, como salientou em sua autobiografia, escrita anos depois: “Durante a viagem do Beagle, fiquei profundamente impressionado com a descoberta feita nos pampas de grandes animais fósseis, cobertos por uma armadura semelhante à dos tatus atuais; em segundo lugar, com a maneira pela qual animais estreitamente relacionados substituem-se uns aos outros, à medida que se segue para o sul do continente; e, em terceiro lugar, pelo caráter sulamericano da maioria dos seres do Arquipélago das Galápagos e, mais especialmente, pelo modo em que eles diferem ligeiramente em cada ilha do grupo: nenhuma das ilhas me pareceu muito antiga do ponto de vista geológico. Era evidente que fatos como esses, bem como muitos outros, poderiam ser explicados somente na suposição de que as espécies se modificam gradualmente, e este assunto fascinou-me”. 3.2. A Influência de Malthus Em 1838, um ano depois do seu retorno à Inglaterra, Darwin teve a oportunidade de ler um livro escrito em 1798 por um clérigo inglês, Thomas R. Malthus, sobre populações humanas, no 129 qual o autor sustentava que, excetuando controle por doença, guerra, fome ou controle consistente da reprodução, o número de pessoas sobre a terra cresceria tanto que haveria apenas “lugar para se ficar em pé”. A hipótese de Malthus dizia que a população humana aumenta muito mais rapidamente do que a quantidade de alimento que ela pode produzir. Enquanto a população humana aumenta em progressão geométrica, o alimento pode aumentar somente em progressão aritmética. Concluía ele que o resultado desses aumentos desiguais poderia vir a causar fome na população e levá-la à luta pela vida. Malthus dizia: “tomado um número qualquer para representar a população do mundo, um bilhão, por exemplo, a espécie humana cresceria em progressão geométrica: 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, e assim por diante, enquanto que o alimento aumentaria em progressão aritmética: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, e assim por diante. Em dois séculos e um quarto, a relação da população para os meios de subsistência seria de 512 para 10; em três séculos de 4097 para 13. Corretas ou não as conclusões de Malthus, seu trabalho deu a Darwin uma série de idéias sobre um possível mecanismo para a evolução. Diz ele em sua autobiografia: “Em outubro de 1838, isto é, 15 meses após eu ter começado minha pesquisa sistemática, aconteceu-me ler, para distração, o trabalho de Malthus sobre população e, estando bem preparado para apreciar a luta pela existência que ocorre em todo lugar, como mostrou a longa e contínua observação dos hábitos dos animais e plantas, repentinamente ocorreu-me que, sob essas circunstâncias, variações favoráveis tenderiam a ser preservadas e as desfavoráveis a ser destruídas. O resultado disso seria a formação de novas espécies. Aqui tinha, finalmente, uma teoria pela qual trabalhar; mas estava tão ansioso por evitar as idéias preconcebidas, que me impus não escrever, por algum tempo, mesmo o mais breve esquema sobre o assunto. 3.3. Dados Obtidos Pela Observação e Experimentação Mediante observação cuidadosa de várias espécies na natureza, em seu jardim, e de animais mantidos em cativeiro perto de sua casa, Darwin convenceu-se de que os indivíduos de qualquer população diferem ligeiramente de que os indivíduos de qualquer população diferente ligeiramente um do outro em muitas características, incluindo aquelas que contribuem para a adaptação. Fez, conseqüentemente, a dedução lógica de que os fatores que controlam o número de indivíduos em uma espécie agem mais fortemente nos que estão relativamente mal-adaptados e favorecem aqueles que estão melhor adequados a seu ambiente. Uma vez que estes indivíduos 130 favorecidos deixarão maior descendência do que seus similares menos bem adaptados, este processo de seleção natural, prolongado por várias gerações, deveria implicar em adaptações constantemente mais perfeitas e complexas, produzindo dessa forma evolução progressiva. Convenceu-se de que a seleção natural, como a concebia, é muito semelhante à seleção artificial, por meio da qual criadores de animais e agricultores puderam produzir descendências muito alteradas e melhoradas de animais domésticos e de plantas cultivadas. Sobre isso, ele escreveu: “Mas quando comparamos o cavalo-de-tração com o cavalo-de-corrida, o dromédário com o camelo, as várias raças de carneiros adaptadas aos campos cultivados ou aos pastos das montanhas, cada uma fornecendo um tipo de lã bom para diferentes fins; quando comparamos as várias raças de cães, cada uma útil ao homem de uma maneira diferente; ... quando comparamos as inúmeras variedades de plantas cultivadas, usadas na culinária, existentes nos pomares e jardins, ... devemos, penso, ver mais que mera variabilidade. ... a chave é o poder humano de seleção cumulativa: a natureza fornece variações sucessivas; o homem acumula-as em certas direções úteis a ele. Neste sentido, pode-se dizer que ele fez para si as raças que lhe são úteis. Se é a seleção feita pelo homem que ocasiona as diferenças entre raças e variedades de animais domésticos e plantas cultivadas, qual a causa das diferenças entre animais e plantas na natureza? Darwin sabia que existiam pequenas, mas nítidas diferenças entre as tartarugas das várias ilhas do arquipélago das Galápagos. Essas diferenças poderiam ser consideradas como resultantes de processo de seleção? Se fossem, pensou, não é seleção feita pelo homem, mas pela própria natureza. A seleção pelo homem pode produzir novas variedades em tempo relativamente curto, mas a seleção provocada pela natureza ocorre muitomais lentamente. 3.4. A Teoria da Evolução pela Seleção Natural, de Darwin Os dogmas básicos da teoria darwiniana da evolução podem ser resumidos da maneira que se segue (as citações são tiradas de A Origem das Espécies, de C. Darwin): 1 – O número de indivíduos em qualquer população tende a aumentar geometricamente,quando as condições permitem a sobrevivência de toda a progênie . “Não há exceção à regra de que cada ser orgânico naturalmente aumenta em taxas altas até que, se não for destruído, a terra seria rapidamente coberta pela progênie de um único casal” 2 – O potencial para o rápido aumento raramente se cumpre. “Para cada espécie, muitos controles diferentes atuando nos diferentes períodos de vida e diferentes estações ou 131 anos, entram provavelmente em ação; algum ou vários controles são mais efetivos, mas todos irão concorrer na determinação do número médio ou mesmo na existência da espécie”. 3 – Darwin deduziu destes fatos que ocorre uma competição ou “luta” pela sobrevivência na qual muitos indivíduos são eliminados . “Em conseqüência, como mais indivíduos são produzidos em relação aos que podem sobreviver, há necessidade de existir em cada caso uma luta pela existência...”. 4 – Variação, na forma de diferenças individuais, edxiste em cada espécie ou população. “Ninguém pode supor qwue todos os indivíduos de uma mesma espécie são fundiso em um mesmo molde. Estas diferenças individuais são para nós da mais alta importância, pois elas são geralmente herdáveis como deve ser familiar para todos...”. Embora o mecanismo da hereditariedade fosse confuso e desconhecido no tempo de Darwin, a ocorrência da hereditariedade era conhecida e serviu de característica importante para explicar a teoria da evolução de Darwin. “Qualquer variação não herdável não é de importância para nós”. 5 – Pelas diferenças observadas entre indivíduos e entre variedades, Darwin deduziu que o processo de eliminação era seletivo . “É improvável, vendo-se que variações úteis ao homem no melhoramento de plantas e animais sem dúvida ocorreram, que não tenham ocorrido outras variações úteis a cada ser na grande e completa batalha pela vida. Podemos duvidar (lembrando que nascem muito mais indivíduos em relação àqueles que podem sobreviver) que indivíduos apresentando alguma vantagem, mesmo que pequen, sobre os outros, teriam maior probabilidade de sobreviver e procriar sua espécie?” Os que sobrevivem são considerados mais bem adaptados. Mas adaptabilidade não é definida no sentido limitado da capacidade relativa do organismo de “lutar” com os competidores por alimento, espaço e companheiro, nem simplesmente pela probabilidade de escapar à predação e doença. Darwin reconheceu que a adaptabilidade é melhor definida como a capacidade relativa de deixar descendência; “... Uso este termo em sentido amplo e metafórico, incluindo a dependência de um ser em relação ao outro, e incluindo (o que é muito mais importante) não apenas a vida do indivíduo mas a capacidade de deixar descendência”. 6 – Evolução é uma mudança gradual na composição hereditária da espécie . “Evidentemente ainda não se estabeleceu uma clara linha demarcatória entre as espécies e subespécies, isto é, as formas que na opinião de alguns naturalistas se aproximam, mas ainda não atingiram o grau de espécies: ou ainda, entre variedades inferiores e diferenças individuais. Estas 132 diferenças misturam-se umas com as outras por séries indistinguíveis; e esta série impressiona a mente com a idéia de uma passagem efetiva. Como conseqüência, observo diferenças individuais, embora de pequeno interesse ao taxonomista, como de alta importância para nós, como sendo os primeiros passos para as variedades menores como são superficialmente citadas em trabalhos de História Natural. E vejo as variedades que são de certo modo mais distintas e permanentes como os passos para as mais bem definidas e permanentes variedades; e as últimas levando para as subespécies e então às espécies. A passagem de um estágio de diferença para outro pode, em muitos casos, ser o simples resultado da natureza do organismo e das diferentes condições físicas às quais tem sido por muito tempo exposto; mas, com relação aos caracteres mais importantes e adaptativos, a passagem de um estágio diferencial ao outro pode ser atribuída com segurança à ação cumulativa da seleção natural... Uma variddade bem caracterizada pode então ser chjamada de uma espécie incipiente”. Neste contexto, Darwin acentua que a existência de numerosos exemplos de espécies “incipientes” na natureza é uma evidência da ocorrência de seleção. 3.5. A Divulgação da Hipótese de Darwin Darwin hesitou em publicar sua hipótese, sem antes acumular uma grande quantidade de provas para sustentá-la. Trabalhou vagarosa e cuidadosamente. Em 1842 escreveu, para seu uso, um esboço de 35 páginas; dois anos depois aumentou-o para um ensaio de 230 páginas. Nos 15 anos seguintes, continuou a coletar fatos para apoiar suas idéias, num esforço para produzir um trabalho totalmente convincente. Diz ele na sua autobiografia: “No começo de 1856, Lyell aconselhou-me a escrever sobre meus pontos de vista e comecei imediatamente a fazê-lo, numa escala três ou quatro vezes maior do que a que adotei, mais tarde, no meu livro sobre “A Origem das Espécies”; e assim mesmo tratava-se apenas de um resumo do material que eu havia coletado; cheguei assim, à metade do trabalho. Mas meus planos ruíram quando, no começo do verão de 1858, o Sr. Wallace, então no arquipélago malaio, remeteu-me um ensaio sobre “A tendência das variedades de se afastarem indefinidamente do tipo original”; esse ensaio continha uma teoria exatamente igual à minha. O Sr. Wallace exprimia o desejo de que eu mandasse para Lyell ler, caso o achasse bom. As circunstâncias pelas quais eu consenti por solicitação de Lyell e de Hooker, a permitir que um resumo de meu manuscrito, com uma carta a Asa Gray (botânico americano, grande amigo de Darwin e defensor do darwinianismo na América), datada de 5 de setembro de 1857, fosse publicada ao mesmo tempo que o ensaio de Wallace, são explicadas no 133 Journal of the Proceedings of the linnean Society. De início estava pouco inclinado a consentir porque pensei que o Sr. Wallace pudesse considerar meu procedimento injustificável pois, na ocasião, não sabia quanto ele era nobre e generoso. O extrato do meu manuscrito e a cara a Asa Gray não tinham sido feitos para serem impressos e o estilo era mau. O ensaio do Sr. Wallace, por outro lado, estava admiravelmente bem escrito e muito claro. Não obstante, nossos trabalhos reunidos não despertaram senão pouca atenção: a única crítica publicada a respeito, que me lembre, estava assinada pelo prof. Hauhgton, de Dublin, cujo veredicto foi que todas as novidades dos trabalhos estavam erradas e que o que havia de exato era já conhecido. Este julgamento mostra quanto é necessário que as teorias novas sejam explicadas detalhadamente para chamar a atenção do público”. Depois da apresentação deste trabalho, Darwin sentiu-se impelido a completar seu livro, A Origem das Espécies, que foi publicado em novembro de 1859. Apresentava uma grande quantidade de provas mostrando que os animais e as plantas devem ter sofrido um longo processo de evolução. As idéias de Darwin foram bem recebidas por muitos cientistas e por algumas pessoas leigas, mas chocaram muita gente. Houve debates públicos nos quais a teoria foi defendida e atacada, mas Darwin nunca participou deles. A Origem das Espécies não faz referências diretas ao lugar do homem na evolução. Doze anos depois, foi publicado um outro livro de Darwin, Descent of Man, que era um estudo da evolução do homem. 4 – LITERATURA CITADA BIOLOGICAL SCIENCES CURRICULUM STUDY. Mecanismo da evolução: dois pontos de vista em conflito. In. ______. Biologia: das moléculasao homem. São Paulo, EDART, 1973. Vol. I, cap. 3, p. 38-53. DARWIN, C. A Origem das espécies. São Paulo, HEMUS, s.d. DOBZHANSKY, T. Genética do processo evolutivo. São Paulo, Ed. Polígono, 1973. MAYR, E. Populações, espécies e evolução. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977. METTLER, L. E. e GREGG, T. G. Genética de populações e evolução. São Paulo, Ed. Polígono, 1973. STEBBINS, G. L. Processos de evolução orgânica. São Paulo, Ed. Polígono, 1970. 134 Capítulo 10 A TEORIA MODERNA DA EVOLUÇÃO A teoria moderna, sintética, da evolução reconhece quatro tipos básicos de profcessos: mutação (incluindo variações na estrutura e número de cromossomos), recombinação genética, seleção natural e isolamento reprodutivo. Os dois primeiros processos fornecem a variabilidade genética, sem a qual não pode ocorrer mudança; a seleção natural e o isolamento reprodutivo orientam populações de organismos em canais adaptativos. Ademais, três processos acessórios afetam o trabalho desses quatro processos básicos. Migração de indivíduos de uma população para outra, bem como hibridação entre raças ou espécies estreitamente relacionadas aumentam o total de variabilidade genética à disposição de uma população. Os efeitos do acaso, atuando em pequenas populações, podem alterar a maneira pela qual a seleção natural guia o curso da evolução. Os processos que em conjunto formam a teoria moderna da evolução serão discutidos neste capítulo. 1 – AS FONTES DA VARIABILIDADE A variabilidade observada nas populações de organismos de reprodução sexuada é devida a duas fontes e fatores: ambientais e genéticos. A variabilidade ambiental ou não-genética é devida a diferenças de nutrição, de aglometação, a doenças e a outros fatores do ambiente. A variabilidade genética, por sua vez, depende de duas classes de fatores, como já foi dito anteriormente: da ocorrência de fatores genéticos novos (por mutação ou através do fluxo gênico de outras populações (mutação)) e da ocorrência de genótipos novos por recombinação. 1.1. A Variabilidade Não-Genética Um dos mais importantes fatos sobre a variação fenotípica causada pelo meio é o de que ela é comumente adaptativa. Ajuda o organismo a ajustar-se melhor ao ambiente específico em que vive. Por exemplo, certas espécies de Ranunculus que vivem em águas rasas ou às margens de lagoas, onde o níuvel da água está sujeito a grandes variações, produzem folhas filamentosas quando estsa ficam profundamente submersas e folhas inteiriças quando estão próximas à superfície da água. A significação adaptativa dessas mudanças está em manterem um equilíbrio 135 ótimo entre os dois fatores necessários à fotossíntese: luz e água. Para a folha submersa, apenas a luz é um fator limitante. Em conseqüência, quanto maior a superfície da folha em relação a seu volume, maior é a proporção de células e cloroplastos que são diretamente expostos à luz relativamente fraca, filtrada, que penetra na água. Por outro lado, a folha não submersa recebe bsatante luz,mas pode perder água através da evaporação de sua face superior. Uma forma relativamente compacta tem a vantagem de reduzir esta perda d’água. Muitos evolucionistas, seguindo Lamarck, acreditaram que tais modificações adaptativas podem incorporar-se à hereditariedade e assim contribuir para a evolução adaptativa das espécies. A grande improbabilidade de que pudesse ocorrer tal incorporação em animais foi explicada no século passado pelo zoólogo alemão August Weismann, que verificou que as células germinativsa de animais, que conseqüentemente formarão ovos ou esperma, separam-se dos tecidos embrionários que darão origem a outras partes do corpo em um estágio bem inicial do desenvolvimento. É, por conseguinte, muito difícil conceber qualquer meio pelo qual a alteração de tecidos somáticos, músculos, por exemplo, pudesse induzir alterações correspondentes nos gametas, passando assim a futuras gerações. 1.2. A Variabilidade Genética Devido à seleção natural, qualquer população está adaptada ao ambiente específico em que vive. Em geral, conclui-se dese fato que determinado genótipo terá um valor ótimo de sobrevivência em determinada localidade, e por isso a seleção natural deveria favorecer indivíduos com este geótipo até que toda população se tornasse geneticamente uniforme. Apesar de lógica, esta conclusão está em conflito com a variação que ocorre em populações e também omite a óbvia vantagem para a evolução de acumular variabilidade genética para servir de material para adaptações evolutivas em condições mutáveis. Tanto Darwin como seus primeiros seguidores ficaram preocupados com esta contradição. Como consideravam a herança um fenômeno de mistura, eram obrigaos a acreditar que, devido à mistura, metade da variabilidade total seria perdida em cada geração. Ao mesmo tempo, entretanto, a existência de uma fonte infinita de variação genética era uma das pedras fundamentais da teoria evolutiva de Darwin. Estas duas suposições são diretamente opostas. A única resposta para esse impasse parecia ser uma taxa colossal de mutações. Além do mais, para manter a adaptabilidade em qualquer momento, mesmo com sta taxa colossal de mutações, a variação genética tinha que ser 136 apropriada. Isto, por sua vez, parecia ser possível apenas se mudanças genéticas fossem induzidas como resposta apropriada a certo número de exigências ambientais, isto é, se fossem adaptativos. Considerações darwinianas de seleção natural, baseadas em premissas genéticas de herança por mistura, portanto, conduziam “logicamente” a uma interpretação lamarckiana da indução de mudanças genéticas. Não surpreende que Darwin, assim como alguns dos melhores informados estudantes de evolução da passagem do século, aceitasse certas suposições lamarckianas. Uma das conquistas da genética foi ter demonstrado que várias das premissas desta cadeia “lógica” de argumentos estavam erradas. Não é verdade que um genótipo uniforme seja o ponto máximo possível da adaptação. Em realidade, uma quantidade específica e um tipo muito definido de variação genética podem provocar a adaptação e a adaptabilidade de uma população. As vantagens de um estoque de variação genética são evidentes: quanto maior o número de tipos genéticos em uma população, tanto maior a sua probabilidade de incluir geótipos capazes de suportar mudanças estacionais ou temporais, em particular as de natureza violenta. Quando em uma população, que normalmente vive em ambiente úmido, existem genótipos resistentes à seca, a população terá a possibilidade de sobrevivência durante um período anormal de seca, no qual são eliminados os genótipos dependentes de muita umidade. A variabilidade genética também permite uma utilização melhor do ambiente, porque torna possível a colonização de habitats marginais e vários subnichos. Ela age em direção oposta à especialização e produz elasticidade. O excesso de variabilidade genética, entretanto, inevitavelmente provoca a produção de muitos genótipos localmente inferiores. Este perigo é bem exemplificado por híbridos inviáveis. A variação genética extrema é tão indesejável como a uniformidade genética extrema. Como uma população consegue evitar os dois extremos? Como ocorre com freqüência na evolução, a seleção é um equilíbrio dinâmico entre duas forças opostas. Desde que a adaptação é mantida por seleção natural, que sempre envolve a eliminação de genótipos, a questão mais importante é: como pode uma população manter um reservatório adequado de variabilidade genética, se este é continuamente esvaziado pelaseleção natural? Esta pergunta pode ser respondida apenas após uma análise de todos os fatores que influenciam a quantidade de variação genética de uma população. Os fatores que influenciam a quantidade de variação genética de uma populaçao podem ser agrupados em três classes. A primeira consiste de mecanismos que produzem variação nova diretamente (por mutação) ou indiretamente (por recombinação, fluxo gênico), e que permitem a 137 manutenção da integridade desses fatores de geração para geração (herança devido a partículas). A segunda classe consiste de forças que tendem a reduzir a quantidade de variação genética por seleção natural ou por eliminação ao acaso. A terceira classe consiste de numerosos fenômenos e artifícios (fatores ecológicos e artifícios citofisiológicos) que protegem a variação genética dos efeitos erosivos da seleção natural e da eliminação ao acaso. As duas primeiras classes de fatores serão discutidas no restante deste capítulo com mais detalhes. Uma discussão sobre a terceira classe de fatores pode ser encontrada em MAYR (1977). 1.2.1. Mutações O termo mutação engloba uma variedade de fenômenos. De um modo geral, mutação é qualquer modificação no genótipo que não seja devida à recombinação gênica. Os cromossomos e também as organelas citoplasmáticas capazes de auto-reprodução sofrem alterações mutacionais. Mutações gênicas são causadas por alterações do próprio material genético; aberrações cromossômicas envolvem perda, aumento ou rearranjo de genes nos cromossomos. Os tipos de mutações podem ser resumidos da seguinte maneira: I – Mutações Gênicas – modificações causadas por substituição, adição ou subtração de nucleotídeos em uma seção do DNA ou RNA de um gene. II – Modificações Cromossômicas Estruturais – afetam o arranjo dos genes nos cromossomos. A – Modificações devidas à perda ou reduplicação de alguns genes a) Deficiência ou deleção – um dos cromossomos perde uma secção contendo um ou mais genes. Se o cromossomo normal tem os genes ABCDEFG, o cromossomo deficiente pode ser, por exemplo, ABCDEFG. b) Duplicação – uma seção de um cromossomo pode estar presente em sua localização normal, além de estar presente em um outro lugar. Se o cromossomo normal tem os genes ABCDEFG, a duplicação pode ser ABCDEFG ou algo equivalente. B – Modificações devidas a uma alteração no arranjo dos genes a) Translocação – dois cromossomos, ABCDEFG e HIJK, podem trocar partes, dando origem aos cromossomos “novos” ABCDJK e HIEFG. 138 b) Inversão – a posição de um bloco de genes em um cromossomo pode ser modificada por uma rotação de 180º. O cromossomo resultante tem os mesmos genes que o original, mas o arranjo dos genes é modificado, por exemplo, de ABCDEFG para AEDCBFG. c) Transposição – um bloco de genes é deslocado para uma nova posição no cromossomo, por exemplo, de ABCDEFG para ADEFBCG. III – Modificações Numéricas – Pode ser considerado coo regra que a célula somática contém dois e o gameta somente um de cada tipo característico de cromossomos de uma espécie. Assim, na célula somática, existem dois e, no gameta, um conjunto básico de cromossomos. Essa regra está sujeita a uma série de exceções, que podem ser classificadas em dois grupos bem gerais. No primeiro grupo, estão incluídos os casos onde ocorre um número não usual de repetições ou deficiências de um ou poucos cromossomos. No segundo grupo, estão inluídos os organismos caracterizados por um número não usual de repetições de todo o conjunto básico de cromossomos. a) Aneuploidia Aneuploidia é um termo geral que descreve os organismos cujo número de cromossomos não é um múltiplo perfeito do conjunto básico de cromossomos do grupo. Assim, se o número de cromossomos do conjunto básico de uma espécie é x e o número somático é 2x, um indivíduo dessa espécie tendo 2x mais ou menos um ou poucos cromossomos é um aneuplóide. É possível encontrarem-se muitas combinações aneuplóides. Se, por exemplo, ambos os membros de um par de cromossomos homólogos estão faltando nas células de um indivíduo, ele é chamado de nulissômico. Em um indivíduo monossômico, falta um cromossomo. Num indivíduo trissômico, existe o número somático normal de cromossomos mais um cromossoma extra, isto é, um determinado cromossoma está presente em triplicata. b) Euploidia Euploidia é um termo geral que descreve os casos onde há uma repetição de conjuntos básicos de cromossomos da espécie. Um organismo monoplóide tem um único conjunto básico de cromossomos da espécie ou, em outras palavras, o monoplóide tem somente o número básico de cromossomos da espécie. Um triplóide tem 3 conjuntos básicos completos de cromossomos, um tetraplóide tem 4, um pentaplóide, 5, um hexaplóide, 6, e assim por diante. Uma outra distinção entre euplóides é feita com base no grau de diferenciação dos conjuntos de cromossomos. Num autopoliplóide, cada um dos conjuntos básicos de cromossomos é 139 considerado idêntico ou, pelo menos, muito semelhante aos outros. Num alopoliplóide, os conjuntos básicos de cromossomos (genomas) são considerados diferenciados uns dos outros. Do ponto de vista da evolução, o fato mais importante a ser compreendido a respeito das mutações gênicas é o de que todas as espécies e raças atuais de organismos têm existido como populações bem sucedidas, bem adaptadas a seus ambientes, por milhares ou milhões de gerações. É de esperar, portanto, que todas as mutações potencialmente úteis hajam ocorrido pelo menos uma vez durante a história evolutiva das espécies e tenham sido incorporadas por seleção natural ao conjunto gênico. Conseqüentemente, a expectativa teórica seria a de que todas ou quase todas as mutações que viessem a ocorrer em uma população bem sucedida diminuiriam sua adaptação ao ambiente usual e, portanto, seriam rejeitadas pela seleção natural, a menos que o ambiente estivesse variando em relação às necessidades do organismo. E isto é, de fato, o que tem sido verificado experimentalmente. Na Drosophila, centenas de mutações têm sido obtidas, observando-se as que ocorrem espontaneamente em culturas de laboratórios, bem como sujeitando-se as moscas a radiações e a substâncias químicas que possuem efeitos específicos no DNA dos cromossomos. Linhagens dessas moscas mutantes têm sido colocadas em competição com seus alelos de tipo selvagem, em garrafas de laboratórios sob condições normais, com quase sempre o mesmo resultado. Após um número maior ou menor de gerações, os mutantes são eliminados pelos correspondentes alelos de tipo selvagem. Há, no entanto, algumas experiências em que moscas portadoras de alelos mutantes e de tipo selvagem foram postas em competição sob condições diferentes daquelas em que a mosca é usualmente criada. Algumas dessas experiências produziram resultados diferentes. Por exemplo, o mutante conhecido como eversae na Drosophila funebris é menos bem sucedido que as mostas de “tipo selvagem” quando criados a 16ºC ou 29ºC, mas é mais apto que o tipo selvagemquando as moscas são mantidas a 25ºC. As deficiências ou deleções são amiúde letal na condição heterozigota. Ocasionalmente, a função desempenhada pelos alelos normais nos locos faltantes pode ser tomada por genes, em qualquer outra parte do complemento cromossômico. Em outros casos, o organismo pode ter mudado seu ambiente de forma que uma determinada síntese química não é mais necessária. A primeira dessas situações excepcionais freqüentemente ocorre quando cromossomos inteiros se duplicaram nas células (trissomia, tetrassomia, etc). A ocorrência de perdas de sínteses químicas pode ser esperadaquando os organismos passam de uma existência independente para um modo 140 de vida as prófita ou parasita, mas não existe evidência experimental relativa a este tipo de mudança. Não possuímos, portanto, atualmente, boa evidência para indicar que as supressões de segmentos cromossômicos desempenham, por si mesmas, um papel significante na evolução. A duplicação de um loco gênico pode causar um desequilíbrio da atividade gênica que reduz a viabilidade de um organismo. Contudo, como alguns organismos podem tolerar duplicações do matereial cromossômico, as duplicações podem ter um papel na evolução de organismos que apresentem uma elevada variedade de atividades controladas por genes. Se um determinado loco gênico estiver presente em duplicata, um dos locos gênico poderá mutar para um alelo que possua uma função totalmente diferente, sem perturbar a adaptabilidade do organismo, uma vez que alelos não alterados no outro loco poderiam adequadamente realizar a função original do loco. Desse ponto de vista, trissômicos, tetrassômicos, etc. seriam interessantes do ponto de vista evolutivo, enquanto que os monossômicos, nulissômicos, etc não seriam desejáveis. As inversões e translocações de segmentos cromossômicos, quando presentes na condição heterozigota, podem aumentar a ligação genética e assim unir combinações gênicas adaptativas. A poliploidia é um método bastante comum de evolução em plantas superiores. Cerca de um quarto a um terço das espécies de plantas fanerógamas é poliplóide com referência a seus parentes mais próximos. Exemplos familiares em agriculturasão o trigo, a cevada, a batata, o fumo, o algodão, a alfafa e a maioria das gramíneas de pastagens. Não obstante, a poliploidia contribuiu pouco para a evolução progressiva. Em gêneros que contêm tanto diplóides como poliplóides, as tendências principais da evolução estão todas representadas por espécies diplóides, servindo as poliplóides meramente para multiplicar as variações de certos “temas” adaptativos particulares. Isto provavelmente acontece porque a grande quantidade de duplicação de genes dilui os efeitos de novas mutações e combinações gênicas a um ponto tal que os poliplóide têm grande dificuldade para desenvolver novos complexos gênicos verdadeiramente adaptativos. A poliploidia é rara em animais, e se restringe quase que inteiramente a formas que se reproduzem assexualmente. Isto se deve parcialmente ao fato de que a condição poliplóide complica a segregação dos cromossomos sexuais, de forma que são produzidos muitos intersexuados total ou parcialmente estéreis. Além disso, muitos animais poliplóides apresentam processos de desenvolvimento perturbados, ou órgãos internos (rins, centros nervosos) que 141 funcionam mais pobremente do que nos diplóides aparenteados. Estsa formsa, mesmo quando produzidas artificialmente, são difíceis de ser mantidas vivas. 1.2.2. Fluxo Gênico Todos os experimentos de seleção, seja com ratos, Drosophila ou animais domésticos, foram feitos com populações fechadas, com imput genético negligenciável. Em todos os casos, o tamanho da população [é demasiadamente pequeno, para que a mutação tenha tido um papel predominante, a não ser que tenha sido induzida artificialmente. A resposta dos estoques selecionados, independente de ter sido espetacular ou não, deve ter sido, em grande parte, devida à recombinação de um complemento gênico inicial, uma fonte de variação que obrigatoriamente termina. Populações naturais (exceto as mais rigidamente isoladas), em oposição, são populações abertas, com imput genético contínuo por migração gênica. Esta diferença de imput genético produz uma série de diferenças fundamentais entre populações fechadas e abertas. No sistema aberto, a variação genética existente não é infinitamente maior, como também de tipo diferente. O intenso e contínuo influxo de genes estranhos em qualquer população localizada, assim como a diversidade do ambiente no espaço e no tempo, nunca permitirão que o complexo gênico atinja estabilidade completa. Em um sistema aberto, a resposta à seleção é muito diferente do que em um sistema fechado. Por isso, não é admissível aplicar automaticamente às populações naturais as descobertas feitas em populações fechadas, de laboratório. Em organismos sexuados com relativa mobilidade, todas as espécies bem sucedidas e de distribuição ampla parecem ter um fluxo gênico suficiente para manter grande semelhança nos patrimônios gênicos de todas as populações. Geneticistas de populações, que sempre trabalham com populações fechadas, em que qualquer imput genético é devido a mutações, tendem a subestimar a magnitude deste em populações abertas. Para certos aspectos na evolução, é imaterial se o responsável por genes novos de uma população é a mutação ou a migração. Seria um erro crasso, entretanto, reunir estas duas fontes de variação de cálculos de seus efeitos, porque representam ordens de magnitude totalmente diferentes. 1.2.3. Recombinação O que se expõe à seleção natural não é o “gene nu”, mas o fenótipo, que é a manifestação do genótipo todo. O alvo da seleção é o indivíduo como um todo, e o evolucionista deve levar em 142 conta o genótipo total e não os genes individuais. Genótipos são combinações de genes, e o número possível de combinações, mesmo de pequeno número de genes, é assustador. Uma espécie (ou população) com 1000 locos, cada um com quatro alelos, poderia produzir 41000 tipos de gametas, com um resultado de 1010000 genótipos diplóides. Um casal único, diferindo entre si em 100 locos, por exemplo, no decorrer do tempo poderia dar origem a 31000 descendentes geneticamente diferentes. A variação genotípica é de importância crucial lna evolução, pois em diferentes backgrounds genéticos, um determinado gene poderia contribuir de modos diferentes para a viabilidade, variando desde letal até amplamente adaptado. A recombinação é a fonte mais importante de variação genética, isto é, de material para a seleção natural. A produção de genótipos diferentes pode ser aumentada muito pelo simples artifício de permitir a troca de material genético entre indivíduos sexuados. Este é o significado biológico da reprodução sexuada. A reprodução sexuada genuína sempre envolve a fusão de dois gametas haplóides para a produção de um zigoto diplóide. No espaço de tempo entre a fertilização e a formação do gameta ocorre a meiose, uma seqüência de duas divisões celulares, na qual há uma divisão do número de cromossomos. Nos animais superiores, esta redução do número de cromossomos precede imediatamente a formação de gametas. Em muitos organismos inferiores, ela ocorre em seguida à fertilização. Os detalhes complexos e ainda não inteiramente entendidos são descritos na literatura citológica. Para o nosso propósito, é suficiente chamar a atenção para o fato de que cromossomos paternos e maternos tendem a parear durante um estágio da meiose, fragmentar-se em vários lugares, e trocar segmentos. Esse processo é denominado crossing over. Os cromossomos dos gametas resultantes são, portanto, uma recombinação dos cromossomos homólogos dos pais. A quantidade de variação genética causada por crossing over é enorme. Pela recombinação, uma populaçãop pode gerar ampla variabilidade genética por muitas gerações, sem qualquer adição genética nova (por mutação ou fluxo gênico). Parece haver uma correlação inversa entre o número de gerações por unidade de tempo e a importância relativa da recombinação (se comparada com a mutação) como fonte de genótipos novos. Em um organismo com freqüência baixa de gerações, uma mutação nova apenas pode ser testadaem um background genético diferente em intervalor de muitos anos. No homem, por exemplo, uma mutação nova pode ser testada uma vez a cada 25 anos; em uma árvore gigante, cada 100 a 200 anos. Nestes organismos, a pressão de mutação como determinante de modificação evolutiva é de importância negligenciável. Para a sua plasticidade evolutiva, esses 143 tipos dependem do estoque de variação genética e da produção de uma grande diversidade de genótipos por recombinação sexual. No extremo oposto estão os microorganismos que, em grande parte, devem a sua plasticidade evolutiva à capacidade de estarem adaptados ao seu ambiente variável por mutações. Uma bactéria que se divide a cada 20 minutos, teoricamente daria origem a 272 (cerca de 1022) indivíduos no fim do dia. Uma mutação favorável que nesses organismos haplóides afeta o fenótipo quase que imediatamente, espalhar-se-á muito rapidamente. Considerando o enorme tamanho das populações de microorganismos e o grande número de gerações por unidade de tempo, mesmo uma taxa baixa de mutações pode suprir uma variabilidade que poderia dar o material necessário para a seleção, em um ambiente que se transforma lentamente. Em microorganismos, é possível que a mutação tome para si a função efetuada pela recombinação em organismos superiores. 2 – SELEÇÃO NATURAL 2.1. Natureza do Processo de Seleção Natural Os indivíduos constituintes de uma espécie diferem em vários aspectos. Os mais adaptados são consideradosaqueles possuiodores de certas características as quais são vantajosas para sua sobrevivência e reprodução. Estes indivíduos são naturalmente selecionados em detrimento dos demais, sempre que houver competição por algum fator necessário para a vida presente e que ocorra em quantidade limitada. Exemplos destes fatores são os alimentos, o companheiro necessário para a reprodução ou um lugar para viver. Tais características benéficas podem estar relacionadas com a forma física do indivíduo, pois o mais forte pode ser mais hábil para fugir ou então para vencer a luta. Podem também ser menos visíveis como aquelas que aumentam a resistência às doenças. Podem ainda ser aparentemente insignificantes como a maior perfeição aerodinâmica de certas sementes. Um caráter quando é adaptativo tem um aspecto importante: ele aumenta, no indivíduo que o possui, a possibilidade de contribuir com seus descendentes para a constituição da população da geração seguinte. A sobrevivência, naturalmente, é um constituinte importante da adaptação, pois um indivíduo precisa sobreviver até o estágio reprodutivo para poder ter descendentes. Ela, no entanto, é apenas um dos muitos fatores que determinam o sucesso na reprodução. 144 Um comportamento altruístico, por exemplo (isto é, preocupar-se com o bem-estar dos outros), pode tornar-se de importância adaptativa, se a atitude do altruísta for a de proteger seus parentes e assim garantir a sobrevivência de um maior número de descendentes. Isto é verdade, mesmo se o comportamento altruístoco venha a diminuir a probabilidade de sobrevivência do próprio altruósta. Um exemplo, neste caso, seria a preocupação de genitores em alimentarem seus filhos enquanto os próprios genitores passam fome nos períodos de escassez; ou então uma fêmea que atrai um predador para longe da toca, a fim de proteger os seus filhotes. A “sobrevivência do mais apto”, então, nem sempre significa uma atitude agoísta. Se as características que conferem maior adaptabilidade forem herdáveis, elas se acumularão durante as gerações e a constituição genética da população, em conseqüência, irá se alterar gradualmente. O resultado destas alterações é a evolução filética; seu objetivo é a maximização do grau de adaptação da população, e a força responsável por tudo é a seleção natural. Conforme já foi mencionado, a seleção natural é simplesmente a perpetuação diferencial e não-aleatória de diferentes genótipos. O resultado de sua ação pode ser visto sob dois ângulos: (1) a criação positiva de um padrão novo ou estabilizado de variação pela perpetuação diferencial de alguns genótipos e (2) a perda de variação devida à eliminação preferencial de outros genótipos. Ambos são, evidentemente, dois aspectos recíprocos de um único processo. Todas as populações estão sujeitas à seleção naturla, sejam elas humanas, de animais domésticos, de plantas cultivadas ou estoques de laboratório. No sentido darwiniano, a característica que varia é a adaptação. Na maioria das populações de animais e plantas domesticadas, no entanto, fica ao encargo do melhorista a escolha dos indivíduos que serão utilizados para a procriação. Trata-se, então de seleção artificial, cujas finalidades e objetivos são estabelecidos pelo homem. Na seleção artificial, a adaptabilidade é definida da mesma forma como na seleção natural, somente que o seu conceito é mais complexo, pois a adaptabilidade darwiniana fica substituída por um valor comercial. 2.2. Um Exemplo de Seleção Natural Dos exemplos sobre seleção nautral, o melhor analisado é o que se refere ao aumento das formas melânicas em mariposas. Este fenômeno foi denominado “melanismo industrial”, pois as alterações nas freqüências gênicas estiveram associadas, nos diferentes locais e durante o tempo, com o desenvolvimento industrial ocorrido nas últimas décadas. Ele ocorreu em torno dos centros 145 industriais do norte da Europa, dos Estados Unidos e principalmente da Inglaterra, onde são conhecidas mais de 70 espécies de mariposas com formas melânicas. Os estudos mais intensos foram feitos com a mariposa Biston betularia (L.) por pesquisadores ingleses. Os espécimes coletados desta espécie, antes da metade do século XIX, eram todos branco-acinzentados e com manchas negras sobre o corpo e as asas. Os padrões típicos de coloração (típico é a denominação dada às formas cinzentas) dão aos insetos uma camuflagem protetora durante o dia, quando estão pousados sobre troncos de árvores cobertos de líquen. Atualmente, muitas populações de betulária incluem mariposas inteiramente negras, ou do tipo carbonária. O caráter é controlado por um só par de alelos, sendo carbonária dominante em relação ao típico. Foi na Inglaterra, em 1848, que pela primeira vez se encontrou um espécime assim melânico. Com base em estimativas, acredita-se que o tipo negro constituía apenas `por cento das populações, naquele tempo. Sua freqüência, todavia, aumentou rapidamente em muitas cidades grandes como Manchester, e, no começo do século, passou a ser o tipo mais comum (mais de 90 por cento em muitas populações). Altamente importante, no caso, foi a descoberta de que a distribuição destas populações estava sensivelmente correlacionada com a dos distritos urbanos manufatureiros da Inglaterra. Hoje em dia, de fato, é só na Irlanda, norte da Escócia e sudoeste da Inglaterra, que se encontrma populações em que a maioria dos indivi\íduos é típica. Kettlewell investigou os fatores responsáveis por esta vantagem evidente das formas melânicas nas áreas industrializadas. A substituição tão rápida do tipo claro pelo escuro foi explicada, por este autor, como conseqüência de uma forte seleção direcional, devida principalmente à predação diferencial por parte dos pássaros. Sua tese inicial baseou-se na inexistência de líquenes nos bosques poluídos pela fumaça, ao redor dos centros densamente industrializados, e no fato de os troncos terem ficado cobertos de fuligem. Nestas localidades, a forma escura de betulária tem uma pigmentação que a deixa confundida com o ambiente. As formasclaras, porém, são pouco conspícuas somente quando pousadas sobre um fundo acinzentado, cmo é o produzido pelos líquenes nas áreas rurais não-poluídas. O referido autor escolheu duas áreas para seus estudos, um bosque poluído perto da cidade de Birmingham, onde a carbonária representava quase 87 por cento da população, e uma região não poluída em Dorset, ocupada por uma população monomórfica de mariposas típicas. Em cada área, realizou uma série de experimentos nos quais sempre adotou a técnica de marcar mariposas, soltá-las e recapturá-las. Marcando um certo número de indivíduos dos dois tipos, soltando-os e 146 fazendo uma captura posterior, pode determinar a freqüência de cada tipo após a recaptura. Os dados reforçaram a hipótese de que havia uma eliminação seletiva dos dois tipos. Verificou-se realmente que os tipos cjujo aspecto contrastava com o meio eram recapturados, proporcionalmente, em menor número do que os camuflados. Num dos experimentos, por exemplo, realizado num bosque poluído de Birmingham, foram soltas 154 mariposas carbonárias e 64 típicas. Destas mariposas marcadas, foram recapturadas 82 carbonárias (52%) e 16 típicas (25%). No habitat não poluído de Dorset, todavia, após a liberação de 406 carbonárias e 393 típicas, foram recapturadas 19 negras e 54 claras, o que dá 4,7 e 13,7 por cento, respectivamente. Tais resultados e os complementares colhidos nos diferentes habitats mostramque a seleção verdadeiramente ocorreu e que os indivíduos portadores de uma coloração protetora foram favorecidos. Por observações feitas diretamente, Kettlewell e Tinbergen descobriramum dos agentes seletivos que atuavam contra os tipos conspícuos. Um número igual de indivíduos escuros e claros foi colocado sobre troncos de árvores. Estas mariposas depois foram seguidas, observadas e fotografadas no decorrer do dia, de um lugar estratégico. Logo surgiram pássaros procurando pelas mariposas, capturando-as e comendo-as. Num destes testes, em Birmingham, os pássaros de uma espécie determinada comeram 43 das típicas ou facilmente detectáveis, para 15 das escuras ou carbonárias. Nas florestas não poluídas de Dorset, obtiveram-se resultados opostos: aí, 5 espécies de pássaros devoraram 164 carbonárias e somente 26 típicas. Estas últimas geralmente eram comidas só depois que as mariposas negras haviam sido completamente eliminadas. 2.3. Tipos de Seleção Natural Com base nas diferentes relações entre organismo-ambiente, foram reconhecidos três tipos diversos de seleção natural: seleção estabilizadora, seleção direcional e seleção disruptiva (Figura 11). 2.3.1. Seleção Estabilizadora Seleção estabilizadora é a ação da seleção natural que mantém uma população geneticamente constante. Ocorre sempre que a relação organismo-ambiente permanece estável por longos períodos de tempo. O oambiente não necessita permanecer inalterado em todos os seus aspectos, e de fato raramente assim permanece. Contudo, qualquer população específica de 147 organismos utiliza-se apenas de certsa partes do ambiente e o faz de um modo particular. Conseqüentemente, a relação organismo-ambiente modificar-se-á apenas se se alteram aqueles aspectos do ambiente que afetam a população interessada. A seleção estabilizadora mantém a constância genética favorecendo os indivíduos médios ou normais de uma população e eliminando os variantes extremos. Uma bem conhecida ilustração de sua ação direta foi fornecida por H. C. Bumpus, que em 1899 mediu o tamanho e as proporções dos indivíduos de um bando de pardais mortos em uma forte tempestade. Encontrou uma proporção inesperada e significativamente alta de pássaros com asas anormalmente longas ou curtas em relação à média da população. 2.3.2. Seleção Direcional A seleção direcional produz, relativamente a cercas características adaptativas, uma mudança regular da população em uma direção. Ocorre quando o ambiente está sofrendo uma mudança progressiva em uma direção determinada. Desviantes da norma em uma direção tendem a sobreviver com maior freqüência e a produzir maior descendência do que desviantes na direção oposta. Isto foi o que aconteceu durante a seleção de colon bacterium para resistência a doses cada vez maiores de puromicina. Desviantes com maior resistência à puromicina tinham uma melhor oportunidade de sobrevivência e de produção de descendência, enquanto células sensíveis, mesmo aquelas que se reproduzem mais rapidamente em um meio livre de puromicina, foram destruídas em grande número no ambiente que continha fortes concentrações da droga. Em condições naturais, a seleção direcional pode ser esperada sob dois diferentes conjuntos de condições. Poderá ocorrer em uma população sujeita a uma mudança progressiva do ambiente. Esta mudança poderia consistir, por exemplo, em um clima cada vez mais frio ou seco, ou em ataques de um determinado tipo de predadores que, por sua vez, estivessem desenvolvendo métodos cada vez mais eficientes de predação. Poderia tamb[ém consistir de uma progressiva melhora do ambiente, que favoreceria seleção para um maior potencial reprodutivo. A seleção direcional também poderá ocorrer em uma população que esteja migrando para um novo território que apresente condições ambientais progressivamente modificadas. 148 2.3.3. Seleção Disruptiva A selelcão disruptiva atua decompondo uma população previamente homogênea em várias formas adaptativas diferentes. Ocorre quando uma população já adaptada a um ambiente homogêneo se vê sujeita a pressões seletivas divergentes em diferentes aprtes de sua área. Um exemplo deste tipo de seleção é aquele referente a uma população de girassóis no Vale de Sacramento, na Califórnia. Quando descoberta, esta população geneticamente variável, produzida de um híbrido entre duas espécies, estava ocupando uma área de aproximaamente 90 m de comprimento por 6 de largura, em uma vala. Cinco anos depois, havia-se dividido em duas subpopulações, separadas por uma área gramada de aproximadamente 150 m de comprimento e na qual poucos girassóis poderiam crescer. Uma destas subpopulações, que ocupava um lugar relativamente seco, havia divergido na direção de um dos ascendentes do híbrido. A outra, que ocupava o fundo de uma vala que pemanecia úmida até quase o fim da primavera, retinha a variabilidade geral do híbrido original, com ligeira divergência na direção do outro ascendente. 3 – ISOLAMENTO REPRODUTIVO Considere-se uma população relativamente homogênea que viva em uma área específica e possua um conjunto gênico razoavelmente grande, do qual possam ser destacadas pela seleção natural e estabelecidas em novos habitats combinações que adaptem alguns de seus indivíduos a novas condições. Se esta condição existe e se ovos habitats se encontramdisponíveis, a linha adaptativa derivada da população inicial passará por uma irradiação adaptativa. Indivíduos que penetrem novas regiões fundarão subpopulações, que diferirão da população ancestral e entre si em relação a vários caracteres adaptativos. Desta forma, evoluirá uma espécie politípica, constituída por várias raças adaptadas a diferentes condições. Destas raças, ou grupos de raças, as mais facilmente reconhecíveis são usualmente chamadas subespécies. De tempos em tempos, mas de forma alguma sempre, as raças podem divergir de suas populações ancestrais, de modo a diminuir ou anular sua capacidade de trocar genes com outras raças. Isto pode acontecer mediante a redução da freqüência com que são produzidos híbridos interraciais ou da diminuição da viabilidade ou da fertilidade dos híbridosou de sua progênie. Quando qualquer dessas barreiras à troca de genes, conhecidas como mecanismos de isolamento, se torna suficientemente desenvolvidas, diz-se que as populações estão isoladas reprodutivamente. Classificam-se, então, como espécies distintas. Se, posteriormente, novas 149 mudanças ambientais permitem a migração de populações isoladas reprodutivamente para a mesma região, essas populações poderão existir lado a lado, cada uma delas mantendo seu complexo gênico particular. Cada uma destas espécies recém-desenvolvidsa pode sofrer seu próprio ciclo específico de irradiação adaptativa e especiação. Desta forma evolui uma irradiação adaptativa que é de ordem superior àquela que dá origem a uma espécie politípica. O resultado é a evolução de grupos de espécies relacionadas, que formam um gênero. Um sumário dos mais importantes mecanismos de isolamento que separam espécies animais e vegetais é apresentado na Tabela 1. 4 – HIBRIDAÇÃO Como a evolução consiste principalmente em mudanças nos complexos adaptativos de genes, a definição mais significativa de hibridação para um evolucionista é: cruzamento entre populações que possuam diferentes complexos adaptativos de genes. Tais populações tanto podem ser raças diferentes ou subespécies da mesma espécie, como espécies diferentes que estão separadas por mecanismos de isolamento variadamente desenvolvidas. A hibridação entre populações que possuem diferentes combinações adaptativas de genes pode aumentar consideravelmente a dimensão do conjunto gênico quanto a genes dotados de valores adaptativos diferentes, desde que os híbridos possma dar origem a progênies segregantes em gerações posteriores. A maioria dos segregados obtidos de tais híbridos terá certamente um valor adaptativo menor do que qualquer das populações ascendentes, particularmente no ambiente a que essas populações estão adaptadas. Uma pequena porção deles, contudo, pode resultar ser melhor adaptada a certos ambientes. Há, contudo, dois obstáculos para o sucesso de tais híbridos. Em primeiro lugar, a maioria dos híbridos entre espécies é total ou parcialmente estéril, de forma que é difícil ou impossível obter deles descendência segregante. Em segundo lugar, mesmo na segunda geração de um amplo cruzamento, os genótipos encontrados são altamente heterozigóticos e, assim, não se reproduzirão normalmente. A hibridação será, portanto, um fator importante na evolução somente se forem satisfeitas as três seguintes condições: (a) Deve haver um ou mais nichos ecológicos disponíveis para os quais certos derivados híbridos estejam melhor adaptados do que qualquer das populações ascendentes; 150 (b) Na progênie de híbridos parcialmente estéreis, a fertilidade deve ser restaurada enquanto ainda presentes as novas combinações gênicas valiosas resultantes da hibridação; (c) As novas combinações devem tornar-se suficientemente constantes, do ponto de vista genético, para que se possam manter sob condições naturais. 5 – MIGRAÇÃO Novos alelos podem ser adicionados ao reservatório gênico por mutação, como já foi visto, ou através de gametsa estranhos fornecidos por imigrantes de outras populações. Este último processo é chamado de troca gênmica ou, se é um processo recorrente, de fluxo gênico, que já foi disuctido no item 1.2.2. deste capítulo. Mutação e fluxo gênico são processos semelhantes, no sentido de que ambos fornecem novos alelos ou alelos adicionais para uma população. 6 – O PAPEL DO ACASO NA EVOLUÇÃO Um último fator que pode influenciar a diferenciarção de algumas populações é o acaso. Em qualquer população, caracteres que possuem valores adaptativos relativamente baixos podem oscilar na freqüência. Em uma geração pode haver uma proporção excepcionalmente alta de cruzamentos entre indivíduos homozigotos para um par de alelos. Isto aumenta temporariamente, na descendência desses indivíduos, a freqüência desse alelo. Este desvio será usualmente compensado em uma geração posterior por um aumento casual na freqüência de cruzamentos entre indivíduos homozigotos para o alelo oposto. Em populações grandes, estsa flutuações casuais nas freqüências de genes não podem ter nenhum efeito na evolução. Um desvio para uma direção da parte de alguns indivíduos será certamente equilibrado por um desvio casual para a direção oposta em qualquer outra parte da população. Se, contudo, uma população é bem pequena, pode-se esperar que tais flutuações possam ocasionalmente conduzir a uma completa perda de um alelo e à conseqüente “fixação” de homozigose para o alelo oposto. Em populações de Drosophila artificialmente organizadas, que possuem apenas de dez a cem moscas, temsido demonstrada essa fixação. Um outro efeito do acaso tem sido chamado de “Princípio da Fundação”. Esta expressão designa o estabelecimento de uma população nova por alguns poucos indivíduos fundadores originais (em casos extremos, por uma única fêmea fertilizada), portadores de apenas uma 151 pequena fração da variação genética total da população paterna. A população descendente contém apenas os relativamente poucos genes que os fundadores trouxeram consigo, até que sejam substituídos por mutação ou migração subseqüente. Freqüentemente, o princípio da fundação é responsável pela uniformidade genética e fenotípica de colnônias de animais, de populações periféricas isoladas, de colônias em águas temporárisa, em resumo, em qualquer população estabelecida por um ou poucos fundadores. TABELA 1 – Sumário dos mais importantes mecanismos de isolamento que separam espécies animais e vegetais (segundo STEBBINS, 1970) 1 – MECANISMOS PRÉ-ZIGÓTICOS: impedem a fecundação e a formação do zigoto. 1.1. Habitat: as populações vivem na mesma região, mas ocupam habitats diferentes. 1.2. Sazonal ou temporal: as populações existem na mesma região, mas apresentam maturidade sexual em épocas diferentes. 1.3. Etológica: as populações são isoladas por comportamentos diferentes e incompatíveis antes do acasalamento. Ocorre somente nos animais. 1.4. Mecânico: a fecundação cruzada é impedida ou atenuada por diferenças estruturais dos órgãos reprodutores (genitais nos animais, flores nas plantas). 2 – MECANISMOS PÓS-ZIGÓTICOS: a fecundação ocorre e zigotos híbridos são formados, mas estes são inviáveis, ou dão irigem a híbridos fracos ou estéreis. 2.1. Inviabilidade ou fraqueza do híbrido 2.2. Esterilidade estrutural do híbrido: os híbridos são estéreis porque as gônodas se desenvolvem anormalmente, ou a meiose de degenera antes de se completar. 2.3. Esterilidade segregacional do híbrido: os híbridos são estéreis devido à segregação anormal, para os gametas, de cromossomos inteiros, segmentos de cromossomos ou combinações de genes. 2.4. Deterioração de F2: os híbridos F1 são normais, vigorosos e férteis, porém a geração F2 contém muitos indivíduos fracos ou estéreis. 152 7 – LITERATURA CITADA BIOLOGICAL SCIENCES CURRICULUM STUDY. Mecanismo da evolução: dois pontos de vista em conflito. In. ______. Biologia: das moléculas ao homem. São Paulo, EDART, 1973. Vol. I, cap. 3, p. 38-53. DARWIN, C. A Origem das espécies. São Paulo, HEMUS, s.d. DOBZHANSKY, T. Genética do processo evolutivo. São Paulo, Ed. Polígono, 1973. MAYR, E. Populações, espécies e evolução. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977. METTLER, L. E. e GREGG, T. G. Genética de populações e evolução. São Paulo, Ed. Polígono, 1973. STEBBINS, G. L. Processos de evolução orgânica. São Paulo,Ed. Polígono, 1970. APÊNDICE O “TESTE DE DNA”