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DIREITO E ECONOMIA 
 
Em cada época existiu uma base fundamental da riqueza ou recurso 
estratégico e em cada época o direito procurou definir os direitos e deveres correlativos 
sobre esses recursos energéticos. 
 
Economia e Direito sob perspectiva histórica 
 
O quadro Económico As instituições jurídicas 
 
 A era agrícola ----------------------- O direito de propriedade (s/ 
 terra) 
 A era comercial ------------------------ O contrato 
 A era industrial ------------------------- A relação capital – trabalho 
 (do liberalismo ao socialismo) 
 A era pós-industrial ------------------ O direito de propriedade 
 intelectual 
A era agrícola e o direito de propriedade 
 Poderes de possuir, usar, usufruir e alienar a “coisa” 
 Do direito Romano ao direito costumeiro 
 A propriedade: de direito sobre a terra a direito sobre as pessoas (no feudalismo, 
por ex.) 
 Propriedade e “status” 
 A propriedade comum: os baldios 
 
 
Da era agrícola à era comercial 
 
 A ordem mercantil assente na moeda 
 A ordem mercantil é urbana (a cidade como lugar de acumulação dos 
excedentes monetários) 
 O direito moderno tem características favoráveis ao desenvolvimento do 
capitalismo: 
- A prevalência do contrato sobre o estatuto 
- O primado da lei (maior segurança) 
 
A revolução liberal 
 
 Liberdade e propriedade como direitos naturais do homem 
 A propriedade como condição da liberdade do homem (código civil) 
 
Os direitos de mercado 
 
 O direito de propriedade 
 A liberdade de empresa 
 A liberdade contratual 
 A liberdade de concorrência 8instituições de direito privado) 
 O direito subjectivo: o indivíduo dispõe de poderes sobre uma coisa (ou uma 
pessoa), obtendo a garantia jurídica de uma segurança específica quanto ao 
exercício desse poder. 
 
 
A era industrial 
 
 A relação de trabalho, fundada nos princípios da liberdade e autonomia 
contratuais 
Evolução de sentido da propriedade (no liberalismo) 
Do poder de controlo sobre um objecto ao poder de controlo sobre um sujeito (o 
trabalhador assalariado) 
 O proprietário (do capital, da empresa) determina as tarefas dos outros; sujeita-
os às suas ordens; e supervisiona a execução destas. 
A propriedade e a liberdade como direitos “formais” 
 Para a maior parte dos cidadãos só existe em potência como uma faculdade 
adormecida 
 Da propriedade privada (individual) à propriedade colectiva (pública, social) 
 
A relação de trabalho: de contrato livre a relação regulada pela lei 
 A relação de trabalho evoluiu para constituir uma “situação jurídica”, o que 
significa que os direitos e deveres das partes passam a ser definidos na lei: 
- o direito a remuneração adequada 
- a obrigação de pagar certas contribuições 
- o direito a determinados benefícios 
 
 
Do direito do Estado liberal ao direito do Estado social 
 
 Das liberdades e direitos civis aos direitos sociais, económicos e culturais 
 Do Estado liberal ao Estado social (Estado providência): evolução das funções 
económicas do Estado 
 Do direito liberal (privado) ao direito público da Economia 
A CONSTITUIÇÃO ECONÓMICA 
 
O conceito 
 
 Constituição (ou ordem) económica 
- de conceito económico (factual) a noção jurídica: conjunto de 
princípios e normas fundamentais que definem as funções económicas e 
regulam as actividades e relações económicas de um país. 
- Constituição formal e constituição material 
 
Entre o mercado e o estado 
 A lógica essencial das Constituições Económicas assenta ora nos direitos 
fundamentais das pessoas com incidência na área económico-social, ora 
na definição de uma ordem económico-social. 
 Liberdades; propriedade; mercado e concorrência como mecanismos 
reguladores 
 Incumbências prioritárias do Estado 
 Instrumentos de intervenção estatal 
 
 A constituição económica do liberalismo 
 A constituição de 1822: 
- “A constituição política da nação portuguesa tem por objecto manter a 
liberdade, a segurança e a propriedade dos portugueses” (art. 1º) 
- “A liberdade consiste em não serem obrigados a fazer o que a lei não 
manda, nem a deixar de fazer o que ela não proíbe” (art. 2º) 
 
A constituição económica de 1976 
 
 Modelo assente no equilíbrio entre: 
- economia de mercado e interesse público e social 
 Princípios fundamentais: 
- democracia económica e social: subordinação do poder económico ao 
poder político 
- pluralidade de sectores de propriedade de meios de produção e de 
formas de iniciativa económica (da irreversibilidade das nacionalizações 
à admissibilidade das privatizações) 
- planeamento democrático 
 Liberdade económica e propriedade privada 
 Direitos económicos, sociais e culturais; novos direitos 
 “ O alargamento das funções do governo que aparecia no séc. XIX como uma 
terrível interferência no individualismo, entendo-o hoje como uma condição do sucesso 
da iniciativa individual” (Keynes) 
Sistema económico e Constituição económica 
 “A questão hoje não é a de contrapor duas concepções de Estado – o Estado 
mínimo do liberalismo e o Estado produtor do intervencionismo, mas de 
combinar as necessidades de regulação económica e a definição dos limites da 
intervenção estatal” 
 “Os ‘programas’ subjacentes à Constituição económica contemporânea devem 
ser vistos como orientações no sentido de compatibilizar liberdade económica e 
justiça distributiva, autonomia e igualdade de oportunidades” (Sousa Franco 
e Oliveira Martins) 
 
Os direitos do mercado: a propriedade (art. 62º) 
 A propriedade privada: adquirir, usar e fruir, transmitir, não ser privado. 
 Restrições ao direito de propriedade privada 
- Bens do domínio público (art. 84º): reserva de propriedade pública 
- Restrições ao uso e fruição: reserva agrícola e ecológica; planeamento urbano 
- Restrições ao direito de não ser privado do direito: requisição e expropriação 
por utilidade pública 
 Outras formas de propriedade: pública ou colectiva, cooperativa e social 
 
 
A propriedade de bens (meios) de produção 
 O direito de usar e fruir a “cosia” traduz-se num direito de gestão e exploração 
económica do bem. 
 A propriedade (titularidade) e a gestão/exploração podem ser separadas e 
atribuídas a entidades distintas (ex. contratos de concessão nos quais o Estado cede 
a exploração das redes de comunicação e distribuição de energia (infra-estruturas 
públicas) a sociedades de direito privado (PT e EDP, respectivamente) 
A liberdade de iniciativa privada (art. 61º) 
 Esta liberdade inclui: 
- A liberdade de criação e gestão de empresas 
- A liberdade de organização 
- A liberdade de investimento e acesso 
- A liberdade de contratação ou negocial 
 Restrições: direitos dos trabalhadores; regras ambientais; regras de 
concorrência… 
Os direitos sociais como limites às liberdades económicas 
 Os direitos sociais: direitos dos trabalhadores; direito à saúde; direito à educação 
 Os direitos económicos: o direito ao trabalho 
 Os novos direitos: direito a um ambiente são; direitos dos consumidores; direito 
à protecção dos dados pessoais 
 
As funções do Estado (art. 9º da CRP) 
 Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade entre os 
portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, 
culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das 
estruturas económicas e sociais; 
 Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a 
natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar umcorrecto 
ordenamento do território; 
 Promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, tendo em 
conta, designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e 
da Madeira; (art. 9º da CRP) 
As funções do estado (art. 81º da CRP) 
 Assegurar a plena utilização das forças produtivas, designadamente zelando pela 
eficiência do sector público 
 Promover a coesão económica e social de todo o território nacional, orientado o 
desenvolvimento no sentido de um crescimento equilibrado de todos os sectores 
e regiões 
 Assegurar o funcionamento eficiente dos mercados, de modo a garantir a 
equilibrada concorrência entre as empresas, a contrariar as formas de 
organização monopolistas e a reprimir os abusos de posição dominante e outras 
práticas lesivas do interesse geral; 
 Desenvolver as relações económicas com todos os povos 
 Garantir a defesa dos interesses e os direitos dos consumidores 
 
A evolução das funções económicas do Estado 
 A redistribuição no Estado – providência – transferência e recursos de um grupo 
social para outro (política fiscal); provisão de bens que o governo obriga os 
indivíduos a consumir (educação, saúde) 
 A estabilização no Estado – promotor e no Estado – produtor – satisfação de 
níveis de crescimento económico, emprego, preços – política monetária; 
mercado de trabalho; política industrial 
 
 
O Estado regulador 
 A regulação -> aumentar a eficiência do mercado corrigindo as suas falhas: 
poderes de monopólio, externalidades negativas, falhas de informação, 
insuficiente provisão de bens públicos 
 A regulação dos “mercados emergentes” 
 O reforço da função reguladora > a gestão de riscos 
- A acção reguladora vista como menos burocrática e mais independente de 
interferências partidárias; mais propensa a defender os interesses dos 
consumidores que dos produtores 
 O impulso regulatório/desregulatório da CE 
 
“A CONSTITUIÇÃO ECONÓMICA EUROPEIA” 
 Objectivos: desenvolvimento harmonioso das actividades económicas na CE; 
expansão económica contínua e equilibrada; estabilidade acrescida; 
elevação do nível de vida; desenvolvimento de relações estreitas entre os 
Estados 
 Instrumentos: mercado comum; aproximação das políticas económicas dos 
EM; UEM 
 Princípios: legalidade, igualdade, não discriminação, concorrência, liberdade 
económica, princípio social, solidariedade; subsdiaridade 
 
A Constituição Económica Europeia: a evolução 
 Tratado de Roma, 1957 – integração pelos mercados (produtos, capitais, 
trabalho; liberdade de estabelecimento das empresas) 
 Acto Único Europeu, 1986 – criação de mercado único; política de coesão 
social; política de I & D, política de ambiente 
 Tratado da União Europeia, Maastricht, 1992 – União Económica e Monetária 
(UEM) 
 Tratado de Amsterdão, 1996 – BCE, PESC 
 Tratado de Nice, 2001 
 Tratado de Lisboa (TUE, TFUE), 2010 
 
 A dinâmica da Constituição económica europeia 
 Regulamentos, directivas, decisões 
 O papel da Comissão e do tribunal de justiça 
 A perda de autonomia dos Estados – membros em matéria de política 
económica e de direito económico 
 
 
ART. 2º TUE 
“A união funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da 
democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do 
Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são 
comuns aos Estados – membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não 
discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e 
mulheres” 
ART. 3º TUE (ex. Art. 2.º) 
1. A União tem por objectivo promover a paz, os seus valores e o bem – estar dos 
seus povos. 
2. A União proporciona aos seus cidadãos um espaço de liberdade, segurança e 
justiça sem fronteiras internas, em que seja assegurada a livre circulação de 
pessoas, em conjugação com medidas adequadas em matéria de controlos na 
fronteira externa, de asilo e imigração, bem como de prevenção da criminalidade 
e combate a este fenómeno. 
3. A União estabelece um mercado interno. Empenha-se no desenvolvimento 
sustentável da Europa, assente num crescimento económico equilibrado e na 
estabilidade dos preços, numa economia social de mercado altamente 
competitiva que tenha como meta o pleno emprego e o progresso social, e num 
elevado nível de protecção e de melhoramento da qualidade do ambiente. A 
União fomenta o progresso científico e tecnológico. A União combate a 
exclusão social e as discriminações. 
ART. 5º TCE 
1. A delimitação das competências de União rege-se pelo princípio da atribuição. O 
exercício das competências da União rege-se pelos princípios da 
subsidiariedade e da proporcionalidade. 
2. Em virtude do princípio da atribuição, a União actua unicamente dentro dos 
limites das competências que os Estados – membros lhe tenham atribuído nos 
Tratados para alcançar os objectivos fixados por estes últimos. A competências 
que não sejam atribuídas à União nos Tratados pertencem aos Estados – 
membros. 
A Constituição Económica Europeia: que modelo? 
 Um modelo liberal? Só parcialmente: 
- o mercado europeu é um mercado regulado, caracterizado mais por um 
“laisser-passer” do que por um “laissez-faire” (regulação da concorrência) 
- as políticas económicas/financeiras e sociais: UEM; coesão (fundos 
estruturais); ambiente; consumo implicam uma governação económica de 
pendor por vezes dirigista e proteccionista. 
 
 A neutralidade a respeito do regime da propriedade (artigo 295.º, hoje 345.º 
TFUE) 
 
Efeitos da Constituição Europeia sobre a Constituição Portuguesa 
 Integração pelo mercado – Liberalização da circulação de factores de produção 
(‘integração negativa’) 
 Integração de políticas – regulação por meio da coordenação de políticas 
económicas e monetárias, e da harmonização de políticas de ambiente, saúde, 
segurança, etc. (‘integração positiva’) 
 
Integração pelo mercado 
 União aduaneira: abolição de direitos e contingentes 
 Da liberdade de circulação de trabalhadores à de pessoas (cidadania da união) 
- Obstáculos não pautais: - barreiras físicas; - exigências sanitárias; - 
dificuldade de transportes; - barreiras técnicas, diferenças da normalização, 
mercados públicos, ajudas de Estado, fiscais 
- Liberdade de circulação de capitais 
 Liberdade de estabelecimento: trabalhadores independentes, profissões liberais; 
empresas (estabelecimento principal e secundário) 
Integração de políticas 
 Na origem: as políticas comuns e as políticas coordenadas (políticas nos 
domínios da agricultura, dos transportes, do comércio com países 
terceiros) 
 AUE – novas políticas 
 Tratado UE/TFUE: reforço da integração de políticas financeiras e 
orçamentais económicas – a moeda única e o BCE (controlo de políticas 
orçamentais nacionais para evitar défices excessivos - + 3% do PIB- e 
dívidas públicas - +60% PIB- // pacto de estabilidade e de crescimento – 
PEC) 
Novas tendências: a Comunidade Europeia como “estado regulador” 
 Porquê o súbito (e tardio) crescimento na Europa do “estado regulador” 
- a tradição europeia e a influência americana 
- as políticas de liberalização e privatização 
- do Estado – providência e “keynesiano” ao Estado regulador 
 
 
 
Efeitos da Constituição europeia sobre a Constituição portuguesa 
 
 Impulso liberalizador (da propriedade e da iniciativa económica) 
- Desmantelamento de monopólios públicos (ex. telecomunicações, energia), 
restrições às ‘golden shares’ 
- Restrições dos auxílios estatais 
- Regulação do mercado interno(regras anti-trust) 
 
 Impulso regulatório 
- Harmonização das condições de acesso a certas profissões 
- Regras em matéria de ambiente; consumo; saúde e segurança laborais; 
mercado da informação 
 
 
 
Limitação da autonomia económica do Estado 
 
Efeitos da Constituição europeia sobre a Constituição portuguesa 
 A liberdade de estabelecimento das empresas no mercado interno > efeitos sobre 
o regime interno do investimento estrangeiro 
 A proibição dos auxílios estatais > limitação da função do Estado promotor 
 O regime dos serviços de interesse económico geral (serviços públicos) > 
sujeição às regras da concorrência 
 Os critérios de convergência económica > esvaziamento dos principais 
instrumentos da política económica (política cambial; política económica) 
 
Artigo 6.º 
1. A União reconhece os direitos, as liberdades e os princípios enunciados na 
Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, de 7 de Dezembro de 
2000, comas adaptações que lhe foram introduzidas em 12 de Dezembro de 
2007, em Estrasburgo, e que tem o mesmo valor jurídico que os Tratados. 
 
EVOLUÇÃO DAS FUNÇÕES E ORGANIZAÇÃO DO ESTADO PRODUTOR 
(OU ESTADO EMPRESÁRIO) 
 
As origens: o serviço público (económico) 
 O serviço público económico = acção do Estado de produção de bens e serviços 
 As principais formas de organização: 
- Do serviço público administrativo à empresa pública 
- A concessão da gestão e exploração de serviços públicos a empresas privadas 
- Nacionalização e empresas públicas 
 
Os princípios do serviço público 
 Obrigação e continuidade de fornecimento 
 Igualdade de tratamento dos utentes 
 Equilíbrio nacional das tarifas 
 
 Os serviços públicos como instrumentos de política industrial 
 
 O serviço público como compromisso entre racionalidade económica e 
justiça social 
 
O serviço público económico 
 Na análise neoclássica, o serviço público compensa as falhas do mercado: os 
mecanismos normais das trocas e de formação dos preços não funcionam dada a 
natureza do bem ou do mercado (monopólio natural no caso de grandes infra-
estruturas) (ex. distribuição de água e energia, transporte ferroviário, serviço 
telefónico) 
 A realização do óptimo económico implica que a colectividade tome a seu cargo 
a produção do bem fora da lógica mercantil 
 O serviço público constitui ainda a resposta à aspiração dos indivíduos (social) à 
segurança e à protecção (serviço público universal) 
O serviço público económico em Portugal 
 A origem do conceito (séc. XIX): do Estado – poder ao Estado – prestador 
 Na época liberal: investimentos em infra-estruturas de interesse geral, correios e 
telecomunicações, estradas, caminhos de ferro, imprensa nacional, etc. 
 A gestão pública considerada superior à gestão privada por não prosseguir o 
lucro e por ser socialmente mais eficaz 
 Administração directa (ex. fábricas de material de guerra) e concessão 
 Personalização de serviços dadas as exigências de autonomia e flexibilidade de 
exploração e gestão 
 Criação de empresas públicas e participação no capital de empresas privadas 
(anos 60) 
A empresa pública 
 A empresa pública sobrepôs-se ao serviço público económico 
 A noção de empresa pública abrangia aí a sociedade de capitais públicos; a 
sociedade de economia mista controlada e o estabelecimento industrial e 
comercial 
 Em Portugal, a empresa pública foi encarada inicialmente como uma espécie de 
serviço público personalizado ou o seu ‘substrato’ 
Nacionalizações e (re)privatizações em Portugal 
 1974/76 – o maior surto de nacionalizações em Portugal: bancos emissores; 
bancos comerciais; seguros; petróleos, siderurgia; electricidade, celulose, 
transportes aéreos, ferroviários, comunicação social 
 
Regime das nacionalizações 
 A nacionalização não pode ser arbitrária, devendo obedecer a um interesse 
público (art. 80º, d) da CRP) 
 Não poderão pôr em causa a subsistência do sector privado 
 Está vedada a nacionalização de empresas que sejam suporte de liberdades 
fundamentais 
Forma e processo das nacionalizações 
 “A lei determinará os meios e as formas de intervenção e de apropriação 
colectiva de meios de produção” (art. 83º da CRP) 
 Reserva relativa de competência da AR (art.165º da CRP) 
- Até 2008 não foi adoptada qualquer legislação sobre esta matéria (exc. reforma 
agrária) 
 
 
A lei n.º 62-A/2008 
 
A lei n.º 62-A/2008 de 11 de Novembro – nacionaliza todas as acções 
representativas do capital social do Banco Português de Negócios, S.A., e 
aprova o regime jurídico de apropriação pública por via de nacionalização. 
 A nacionalização só é legítima se justificada por “motivos excepcionais e 
especialmente fundamentados” indispensáveis à salvaguarda do interesse 
público - > Decreto – lei 
 Direito a indemnização “tendo por referência o valor dos respectivos 
direitos avaliados à luz da situação patrimonial e financeira da pessoa 
colectiva à data do acto da nacionalização” 
O regime das empresas públicas (DL 260/76) 
 “empresas criadas pelo Estado com capitais próprios ou fornecidos por outras 
entidades públicas para exploração de actividades de natureza económica ou 
social” (pessoas colectivas de direito público) 
 Dotadas de organização e gestão específicas (excl. sociedades de capitais 
públicas e mistas) 
 Base institucional (não ‘pessoal’: não tinham sócios) 
 Tutela governamental (gestores; controlo da empresa; tutela técnica e 
económico-financeira) 
 Estrutura orgânica especial: CA; CF; conselhos regionais; trabalhadores podiam 
eleger 1 representante para o CA; parecer sobre nomeação dos gestores, a 
nomear pelo Governo 
 Aspectos do regime regidos pelo direito privado: trabalho; concorrência; regime 
especial de falência. 
As (re)privatizações (Lei 11/90) 
 Fundamentos e objectivos 
 Processo: 
- Decisão política 
- Avaliação prévia 
- Transformação da EP em sociedade anónima (por acções) 
- Selecção do método (concurso público; oferta em bolsa; subscrição pública; 
venda directa); regimes preferenciais 
 
 
Poderes especiais; Golden shares 
 Possibilidade de deliberações sobre certas matérias serem condicionadas a 
confirmação do administrador do Estado (Art. 15º, n.º 1) 
 Acções na titularidade do Estado que lhe conferem direito de veto sobre certas 
decisões (Art. 15º, nº 3) 
Privatizações 
 A amplitude do conceito de privatização 
 Privatização em sentido restrito e em sentido amplo 
 Fundamentos: ineficiência da gestão pública; diminuir desequilíbrio de 
orçamentos públicos, aliviando défices e obtendo receitas pela venda; redução 
do peso político dos sindicatos; democratização do capital; redução do peso do 
Estado. 
O regime das privatizações 
1 - A título excepcional, e sempre que razões de interesse nacional o requeiram, o 
diploma que aprovar os estatutos da empresa a reprivatizar poderá prever, para 
garantia do interesse público, que as deliberações respeitantes a determinadas 
matérias fiquem condicionadas a confirmação por um administrador nomeado 
pelo Estado. 
2 - Para efeitos do disposto no número anterior, o diploma referido deve identificar as 
matérias em causa, bem como o regime de exercício das competências do administrador 
nomeado pelo Estado. 
3 - Poderá ainda o diploma referido no n.º 1 do artigo 4.º, e também a título excepcional, 
sempre que razões de interesse nacional o requeiram, prever a existência de acções 
privilegiadas, destinadas a permanecer na titularidade do Estado, as quais, 
independentemente do seu número, concederão direito de veto quanto às alteraçõesdo pacto social e outras deliberações respeitantes a determinadas matérias, 
devidamente tipificadas nos mesmos estatutos. 
 (L 11/90 - Art. 15º) 
 
Limites à aquisição de capital por entidades estrangeiras 
3 - O diploma que operar a transformação poderá ainda limitar o montante das acções 
a adquirir ou a subscrever pelo conjunto de entidades estrangeiras ou cujo capital 
seja detido maioritariamente por entidades estrangeiras, bem como fixar o valor 
máximo da respectiva participação no capital social e correspondente modo de 
controlo, sob pena de venda coerciva das acções que excedam tais limites, ou perda do 
direito de voto conferido por essas acções, ou ainda de nulidade de tais aquisições ou 
subscrições, nos termos que forem determinados. 
(Revogado pelo artigo único da Lei n.º 102/2003, de 15/11) 
4 - Para efeitos dos números anteriores, consideram-se como a mesma entidade duas ou 
mais entidades que tenham entre si relações de simples participação ou relações de 
participação recíprocas de valor superior a 50% do capital social de uma delas ou que 
sejam dominadas por um mesmo accionista. 
 (L 11/90, Art. 13º) 
 
O novo regime do sector empresarial (DL 558/99) 
 As Entidades Públicas Empresariais (EPE) 
 As Sociedades comerciais nas quais o Estado ou outras entidades públicas 
exerçam ou possam exercer um influência dominante em virtude de: I) detenção 
da maioria do capital ou dos direitos de voto; ii) direito a designar ou a destituir 
a maioria dos membros dos órgãos de administração ou de fiscalização. 
 No direito comunitário: toda e qualquer empresa na qual os poderes públicos 
possam exercer, directa ou indirectamente, uma influência dominante em virtude 
da propriedade, da participação financeira ou das regras que regem a empresa 
 Missão: “obtenção de níveis adequados de satisfação das necessidades da 
colectividade, economia, eficiência e eficácia”, “equilíbrio económico-
financeiro do sector público” 
 Princípio da subordinação ao direito privado; critérios de boa gestão. 
 Relação entre administradores e Estado objecto de contratos de gestão com 
metas quantificadas. 
 
A ‘função accionista’ do Estado 
 Direitos exercidos pela DG do Tesouro 
 Ao Conselho de Ministros cabe emitir orientações estratégicas 
 Orientações específicas pelo M. Finanças e Ministro do sector. 
 Mecanismos de acompanhamento e controlo 
 Obrigação das empresas públicas de facultarem ao Estado/entidade pública 
informações (projectos, planos, documentos, relatórios) 
 Sujeição a controlo financeiro da IGF e Trib. Contas. 
 
Regimes especiais 
 Empresas que exploram serviços de interesse económico geral 
 Empresas que exercem poderes de autoridade 
 O estatuto privado e mercado concorrencial não prejudicou o princípio 
do serviço público (ex. telecoms, energia, águas, etc.). 
 O cumprimento das obrigações de serviço público pode ser 
assegurado por empresas concessionárias, públicas ou privadas. 
 
Influência da UE sobre o regime do Estado empresário 
Redução/controlo do sector público empresarial 
 Apesar do princípio da neutralidade em matéria de Propriedade (art. 295º 
TUE), a jurisprudência do TJCE evoluiu no sentido de considerar excepcionais 
os monopólios públicos: telecomunicações; energia; transportes. 
 O princípio da neutralidade tem sido interpretado de modo restritivo: a Comissão 
contestou os poderes especiais do Estado em empresas estratégicas (golden 
shares) – e.g. Acórdão Elf-Aquitaine 
 O princípio da transparência das relações financeiras entre os Estados e as 
empresas públicas ou que beneficiem de direitos especiais ou 
exclusivos (Directiva 2000/52/CE, da Comissão de 26.7.2000). 
 A regulamentação das condições de aplicação da derrogação da sujeição das 
empresas encarregadas de serviços de interesse económico geral 
às regras da concorrência (Acórdãos Comuna de Almelo, 1994, 
Proc. C-393/92; Altmark, 2003, Proc. C-280/00). 
 
O Acórdão Altmark (2003) 
 «Na medida em que uma intervenção estatal deva ser considerada a 
contrapartida das prestações efectuadas pelas empresas beneficiárias para 
cumprir obrigações de serviço público, de forma que estas empresas não 
beneficiam de uma vantagem financeira (anti-concorrencial), esta 
intervenção não cai sob a alçada do art. 87º, nº 1.» 
 CONDIÇÕES A RESPEITAR: 
 A empresa deve estar incumbida de obrigações de serviço público 
claramente definidas. 
 Os parâmetros de cálculo das compensações devem ser estabelecidos de 
forma objectiva e transparente. 
 A compensação não pode ultrapassar o necessário para cobrir os custos 
incorridos pelo cumprimento das obrigações de serviço público além de 
um lucro razoável. 
 Preferência pelo concurso público para selecção do operador. 
 
O regime dos serviços de interesse económico geral na UE: o Livro Branco 
(2004) 
 Serviços de interesse geral e modelo europeu: o consenso quanto à necessidade 
de combinar mecanismos de mercado e missões de serviço público. 
 Uma responsabilidade partilhada entre a UE e os Estados-Membros (art. 16 
TUE). 
 Os objectivos do serviço público: coesão social e territorial, competitividade, 
direitos fundamentais (art. 36 da Carta dos DF). 
 Os princípios do serviço público: qualidade, universalidade, acessibilidade, 
direitos dos consumidores e dos utentes. 
 
REGULAÇÃO E ESTADO REGULADOR 
O conceito de regulação 
 A regulação pública da economia: conjunto de medidas legislativas, 
administrativas e convencionadas por meio das quais o Estado determina, 
controla ou influencia o comportamento de agentes económicos tendo em vista: 
 evitar efeitos lesivos das actividades económicas sobre interesses 
socialmente legítimos (quer económicos, quer extra-económicos) 
 orientá-los em direcções socialmente desejáveis. 
 A regulação como institucionalização de agências de regulação independentes 
em domínios política e economicamente sensíveis («núcleo da moderna 
regulação»). 
 
Do Estado produtor ao Estado regulador 
 Compete ao Estado «já não produzir e distribuir bens e serviços públicos 
directamente, mas apenas regular, supervisionar e facilitar a produção e 
distribuição destes mesmos bens por parte de terceiros, incluindo as 
empresas privadas» 
Tipos de regulação 
1. A polícia económica 
i. Regulação do acesso às actividades económicas: sujeição a autorização 
ou licenciamento (ex. licenciamento industrial; licenciamento comercial; 
indústria e comércio de armamento; actividades bancária e seguradora) 
ii. Regulação do exercício das actividades económicas (ex. concorrência) 
2. O fomento económico: indicações, incentivos, apoios ou auxílios aos agentes 
económicos (políticas públicas; planos; programas; contratos económicos). 
3. A regulação de «mercados emergentes»: instituir o mercado de modo pró-
activo, defendendo-o das suas próprias falhas (em sectores regidos anteriormente 
por monopólios públicos ou privados). 
4. A regulação do risco (e.g. legislação ambiental, da segurança alimentar, de 
defesa do consumidor; regulação das novas tecnologias). 
 
Áreas de regulação 
 – Planeamento e formas de orientação e auxílio aos agentes económicos; 
 – Acesso à actividade económica; 
 – Actividade monetária e financeira; 
 – Concorrência; 
 - Mercados emergentes; 
 – Ambiente; 
 – Qualidade e segurança de produtos e serviços; 
 – Informação e comunicação. 
 
Formas de regulação 
 Regulação mundial, regional, nacional ou local 
 Regulação geral ou sectorial 
 Regulação unilateral ou negociada 
 
Novas tendências 
 A expansão do uso do termo «regulação»na Europa associada ao 
estabelecimento de novos regimes e instituições de supervisão e controlo das 
empresas gestoras das redes e/ou operadoras das «utilities»: as agências 
reguladoras. 
 A UE como “regulatory state”. 
 O esbatimento das fronteiras entre a polícia e o fomento económicos. 
 
O planeamento 
 O Plano 
 acto jurídico, aprovado por órgãos ou autoridades públicas, que define e 
hierarquiza objectivos a prosseguir no domínio económico-social durante 
um determinado período de tempo; estabelece as acções destinadas a 
prossegui-los; define os mecanismos necessários à sua implementação. 
 A elaboração do plano 
 assenta num conjunto de instrumentos técnicos (diagnóstico de situação, 
técnicas de previsão macroeconómicas) e de decisões políticas (definição 
de objectivos). 
 A execução do plano 
 pressupõe a coordenação de acções entre vários agentes estaduais (da 
Administração central ou regional) e não estaduais. 
 O plano na CRP (1976): 
 imperativo para o sector público estadual; 
 obrigatório por força de contratos-programa para outras actividades de 
interesse público 
 indicativo para os sectores público não estadual, privado e cooperativo, 
definindo o enquadramento a que haviam de submeter-se as empresas 
desses sectores. 
 Com a revisão de 1989, a CRP deixou de fazer referência explícita à figura 
unitária do Plano, substituída pela referência genérica a «planos», suprimindo a 
disposição relativa à força jurídica do Plano. 
 O planeamento democrático do desenvolvimento económico: princípio 
fundamental da organização económica. 
 Planeamento económico-social; planeamento técnico (e.g. ordenamento do 
território) 
 
Medidas de estímulo ou fomento 
 Sistema Integrado de Incentivos ao Investimento (SIII) -> incentivos 
fiscais e financeiros 
 apoio ao investimento em geral 
 às PME 
 à cooperação e concentração de empresas 
 à investigação e desenvolvimento tecnológico. 
 Os critérios para atribuição dos incentivos assentavam na produtividade 
económica, no sector (ex. indústrias extractivas) e na localização da unidade 
produtiva. 
 Sistema de Estímulos de Base Regional (SEBR) 
 Sistema de Incentivos de Base Regional (SIBR) 
 
Os fundos europeus 
 Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) 
 Fundo Social Europeu (FSE) 
 Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola (FEOGA) – Secção 
Orientação, Instrumento Financeiro de Orientação da Pesca (IFOP). 
 Fundo de Coesão (destinado aos países cujo PIB médio por habitante é inferior a 
90% da média comunitária) 
 Desde 1989, os instrumentos de apoio comunitário têm sido aplicados ao abrigo 
de Quadros Comunitários de Apoio, apoiados em planos a médio prazo 
aprovados pelo Governo português: QCA I (1989-1993), QCA II (1994-1999), 
QCA III (2000-2006), Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) 
(2007-2013). 
 Ao abrigo dos QCA, têm sido executados diversos programas de ajudas ao 
desenvolvimento, quer de incidência sectorial, quer regional, envolvendo 
diversos sistemas de incentivos ao desenvolvimento de diversos sectores da 
actividade económica. 
 O Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) oferece o enquadramento 
para a aplicação da política comunitária de coesão económica e social em 
Portugal no período 2007-2013. 
 O QREN assume como principal desígnio estratégico a qualificação dos 
portugueses, valorizando o conhecimento, a ciência, a tecnologia e a inovação, 
bem como a promoção de níveis elevados e sustentados de desenvolvimento 
económico e sociocultural e de qualificação territorial, num quadro de 
valorização da igualdade de oportunidades e do aumento da eficiência e 
qualidade das instituições públicas. 
 
 
Regulação do acesso 
Artigo 61.º CRP (Iniciativa privada, cooperativa e autogestionária) 
 “1. A iniciativa económica privada exerce-se livremente nos quadros definidos pela 
Constituição e pela lei e tendo em conta o interesse geral.” 
 As limitações à iniciativa privada: as reservas do sector público 
 Sectores vedados-> reservas de controlo (Lei n.º 88-A/97) 
 Reservas de propriedade (bens do domínio público – art. 84º CRP) 
 Reservas de autorização: regimes de acesso condicionado 
 
Bancos e seguradoras 
 Bancos 
 autorização pelo Banco de Portugal no caso de instituições a constituir 
com sede em Portugal, com maioria do capital ou domínio detidos por 
residentes ou filiais de instituições autorizadas em da UE; M. Finanças 
nos outros casos. 
 capital social mínimo; satisfação pelos detentores de participações 
qualificadas de requisitos de idoneidade pessoal e profissional que 
garantam uma gestão sã e prudente da instituição; suficiência de meios 
técnicos e de recursos financeiros para o tipo e volume de operações a 
realizar. 
 Seguradoras: 
 autorização por despacho do Ministro das Finanças. 
 capital social mínimo; aptidão dos accionistas detentores de uma 
participação qualificada para garantir uma gestão sã e prudente; 
adequação e suficiência dos meios técnicos e recursos financeiros 
relativamente aos ramos de seguro a explorar. 
 
Licenciamento industrial 
 DL n.º 209/2008, 29-09 - Regime de exercício da actividade industrial – 
REAI 
 conciliar o direito ao livre exercício da actividade industrial com outros 
valores como a defesa da saúde pública e dos trabalhadores, a segurança 
de pessoas e bens, a higiene e segurança dos locais de trabalho, o 
correcto ordenamento do território e a qualidade do ambiente. 
 As obrigações do industrial 
 O dever geral de prevenção do risco. 
 Os direitos de terceiros 
 direito de reclamação relativamente às condições de funcionamento de 
qualquer estabelecimento. 
 Terceiros para este efeito são não apenas os directamente interessados - 
trabalhadores, outros industriais, pessoas directamente afectadas -, mas 
também os cidadãos em geral, designadamente os que habitam em áreas 
limítrofes, independentemente de serem afectadas directamente pelo 
exercício irregular de uma actividade industrial. 
 
Investimento estrangeiro 
 Código de Investimentos Estrangeiros (DL n.° 239/76, 06-04; DL n.º 348/77, 
24-08) 
 regime de autorização prévia (autorização geral ou protocolo 
contratual) visando permitir a apreciação do interesse do 
investimento e conferir maior segurança ao investidor estrangeiro 
(garantias) – o Instituto do Investimento Estrangeiro. 
 DL n.º 197-D/86, 18-07 
 simples declaração prévia para os residentes no território da 
CE/ UE; deixa de se proceder à avaliação do impacto económico 
do investimento. 
 DL n.º 203/2003, 10-09 
 regime especial de contratação de apoios e incentivos 
exclusivamente aplicável a grandes projectos de 
investimento, nacionais e estrangeiros, enquadráveis no 
âmbito das atribuições da Agência para o Investimento e 
Comércio Externo de Portugal – AICEP, E. P. 
 
 
 
A REGULAÇÃO DA CONCORRÊNCIA 
 
A história da regulação da concorrência 
 A evolução da estrutura dos mercados: crescimento dimensional (aumentos de 
capital) e concentração de empresas (fusões, aquisições); redes transnacionais. 
 As primeiras leis “anti-trust” (Sherman Act, 1890, Clayton Act, 1914). 
 O mercado interno europeu: a política e as regras da concorrência da CE/UE, 
condição essencial do funcionamento deste mercado. 
 
Portugal: do Estado Novo (lei do condicionamento industrial) à adesão à Comunidade 
Europeia 
 
A regulação da concorrência na EU 
• Regras sobre coligações 
• Regras sobre abusos de posição dominante 
• Regras sobre concentrações 
•Regras sobre auxílios estatais 
 (Artigos 101º e s. do Tratado UE) 
 
 Condutas 
 Estruturas + condutas 
 Evitar prejuízo duradouro para a concorrência 
 Evitar distorções por via indirecta 
 
Regras com efeito directo e de aplicabilidade imediata (pelas autoridades 
administrativas e judiciárias nacionais) 
 
As regras aplicáveis às empresas 
 Artigo 101.o TFUE (ex-artigo 81.º TCE) 
 
A REGRA: 
 1. São incompatíveis com o mercado comum e proibidos todos os acordos entre 
empresas, todas as decisões de associações de empresas e todas as práticas 
concertadas que sejam susceptíveis de afectar o comércio entre os Estados-Membros e 
que tenham por objectivo ou efeito impedir, restringir ou falsear a concorrência no 
mercado comum, designadamente as que consistam em ( … ) 
 
A SANÇÃO: 
2. São nulos os acordos ou decisões proibidos pelo presente artigo. 
 
Regulamento da CE nº 1/2003, de 16.12 
 
 Que “empresas”? – qualquer unidade económica com autonomia real, 
económica, independentemente da forma jurídica; singular ou colectiva, privada 
ou pública (excluem-se as relações internas a um grupo). 
 Que “associações de empresas”? – formas de cooperação entre empresas 
independentes (ex. ACEs, AEIEs, ‘joint ventures’). 
 Que práticas concertadas? – concertação ou coordenação de comportamentos. 
 
As formas de coligação 
 Os acordos restritivos 
 As decisões de associação (não as associações em si, mas os actos que 
obriguem as partes a adoptar práticas anticoncorrenciais) 
 As práticas concertadas: coordenação de comportamentos entre empresas 
 
 Cooperação horizontal: entre concorrentes efectivos ou potenciais no mesmo 
sector (ex. cartel de farmacêuticas em concurso público de hospitais; caso das 
vitaminas) 
 Cooperação vertical: entre empresas em diferentes fases do processo de 
produção/distribuição (ex. caso Nestlé) 
 
As práticas restritivas (art.101º) 
 Exemplificação: 
 Fixação de preços de compra e de venda e de outras condições de 
transacção (ex. preços impostos ou mesmo indicativos; preços ou 
honorários mínimos; sistemas colectivos de descontos mútuos; 
modalidades e prazos de entrega, prazos de pagamento) 
 Limitação ou controlo da produção, distribuição, desenvolvimento 
técnico ou dos investimentos 
 Repartição de mercados ou de fontes de abastecimento (concessões de 
exclusividade) 
 Aplicação de condições desiguais a prestações equivalentes 
 Cláusulas de subordinação (tie-in agreements) 
 
Órgãos competentes 
 A Comissão Europeia – Direcção-geral da Concorrência 
 “… a Comissão velará pela aplicação dos princípios enunciados nos artigos 101.o e 
102.o A pedido de um Estado-Membro, ou oficiosamente, e em cooperação com as 
autoridades competentes dos Estados-Membros, que lhe prestarão assistência, a 
Comissão instruirá os casos de presumível infracção a estes princípios. Se a Comissão 
verificar que houve infracção, proporá os meios adequados para se lhe pôr termo.” 
(art.105.º, nº 1) 
 Tribunal de Primeira Instância e Tribunal de Justiça da UE 
 Autoridades da concorrência e tribunais nacionais 
 
Âmbito de aplicação (1) 
 O princípio do efeito anticoncorrencial ou da territorialidade objectiva 
 As coligações ou concentrações devem produzir o seu efeito no território 
do Mercado Interno, ainda que estejam sediadas fora deste 
 Caso Gencor, 1996 – concentração entre sociedade de direito 
inglês e sociedade de direito sul-africano 
 Caso Aérospatiale – DeHavilland, 1991 
 
Âmbito de aplicação (2) 
 A susceptibilidade de afectação do comércio entre os Estados-Membros 
 Regra de competência que delimita o campo de aplicação dos Arts. 101. º 
e 102.º em relação aos direitos nacionais. 
 A afectação deve ser sensível: 
 10% ou 15% de quota de mercado quanto a acordos entre 
concorrentes e não concorrentes, respectivamente. 
 Impacto sobre o comportamento das empresas implantadas 
noutros Estados. 
 
 
As excepções à proibição das coligações 
(art. 101.º, 3) - o “balanço económico” 
 O princípio da proibição das coligações pode, todavia, ser declarado inaplicável: 
— a qualquer acordo, ou categoria de acordos, entre empresas; 
— a qualquer decisão, ou categoria de decisões, de associações de empresas; e 
— a qualquer prática concertada, ou categoria de práticas concertadas, 
que contribuam para melhorar a produção ou a distribuição dos produtos 
ou para promover o progresso técnico ou económico, contanto que aos 
utilizadores se reserve uma parte equitativa do lucro daí resultante… 
 
Formas de operacionalizar o balanço económico 
 Os certificados negativos (ex. decisão da CE, 1992, sobre o acordo entre a Ford 
e a Volkswagen para a criação de uma empresa conjunta em Palmela) 
 As isenções por categoria 
 Visam garantir formas de cooperação em benefício do mercado interno, 
da reestruturação da produção e distribuição, da maior capacidade 
competitiva das empresas europeias; ou seja, valorizam mais a análise 
económica do que a análise jurídica. 
 
As isenções por categoria 
• Acordos/práticas concertadas horizontais (Orientações sobre a aplicação do 
artigo 101.º do TFUE aos acordos de cooperação horizontal (2011/C 11/01) 
 Investigação e desenvolvimento (Reg (UE) N.º 1217/2010 da Comissão, 
14-12-2010) 
 Produção, especialização, subcontratação (Reg (UE) N.º 1218/2010 da 
Comissão, 14-12- 2010 - acordos de especialização) 
 Compra, comercialização, normalização 
 Transferência de tecnologia (concessão de licenças de exploração de 
patentes ou de outros direitos de propriedade intelectual) 
• Acordos/práticas concertadas verticais (Reg (UE) N.º 330/2010 da Comissão,20-
4-2010; Orientações relativas às restrições verticais, Bruxelas, 10.5.2010 SEC 
(2010) 411 final) 
 Acordos de distribuição exclusiva, franchising 
 
Os abusos de posição dominante (art. 102.º) 
 É incompatível com o mercado comum e proibido, na medida em que tal seja 
susceptível de afectar o comércio entre os Estados-Membros, o facto de uma ou 
mais empresas explorarem de forma abusiva uma posição dominante no 
mercado comum ou numa parte substancial deste. 
 Esta proibição não admite excepções. 
 
Em que consiste uma posição dominante? 
 Na determinação da posição dominante, atende-se a critérios estruturais: 
 estrutura do mercado; e 
 quotas de mercado das empresas. 
 Uma empresa em posição dominante é aquela que tem a possibilidade de 
assumir comportamentos independentes que a habilitam a actuar sem ter 
em conta os concorrentes, compradores ou fornecedores. (posição 
dominante individual ou colectiva) 
 A noção de “mercado relevante” 
 (Comunicação da Comissão sobre a definição de mercado relevante para efeitos 
do direito comunitário da concorrência, OJ C 372, 9.12.1997) 
 
 
O “mercado relevante” 
 Critério decisivo do ponto de vista geográfico e do produto ou serviço - para o 
apuramento da existência de uma posição dominante permitindo o cálculo da 
quota de mercado da empresa ou grupo de empresas. 
 Mercado geográfico relevante – onde as empresas em causa fornecem 
produtos ou serviços em condições de concorrência homogéneas. 
 Mercado de produto relevante – inclui todos os produtos e/ou serviços 
considerados permutáveis ou substituíveis 
(ex. United Brands; Hoffman-La-Roche; Continental Can) 
 
As práticas abusivas 
a) Imposição, de forma directa ou indirecta, de preços de compra ou de venda ou outras 
condições de transacção não equitativas. 
b) Limitações da produção, distribuição ou desenvolvimento técnico em prejuízo dosconsumidores. 
c) Aplicação, relativamente a parceiros comerciais, de condições desiguais no caso de 
prestações equivalentes colocando-os, por esse facto, em desvantagem na concorrência. 
d) Cláusulas de subordinação ou “tie-in”(ex. caso Microsoft) 
 
O controlo de concentrações 
 Concentração de empresas 
 Fusão 
 Aquisição de participações sociais 
 Formação de empresas comuns 
 
 A “pré-história” deste regime 
 da indiferença ao Acórdão Philip Morris/Rothmans (Proc. 142 e 156/84) 
(participação social em empresa concorrente) 
 Da teoria do dano efectivo à teoria do dano potencial. 
 Do Regulamento nº 4064/1989 ao Regulamento nº 139/2004, de 20.1. 
 
O regime actual 
 Âmbito: concentrações de dimensão comunitária: 
 Volume de negócios 
 Volume total superior a 5 mil milhões de euros; volume realizado 
na UE por, pelo menos, 2 das empresas superior a 250mil 
milhões de euros 
 Mercado relevante (excluem-se concentrações puramente internas) 
 Procedimento: notificação prévia – antes da sua realização e após a conclusão do 
acordo, anúncio de OPA ou aquisição de uma participação de controlo. 
 
O problema da extra-territorialidade 
 O caso General Electric/Honeywell: concentração rejeitada pela CE e autorizada 
nos EUA 
 UE – prevalência do teste do domínio do mercado (dano potencial) 
 EUA – prevalência do teste da diminuição substancial da concorrência 
(dano efectivo – critério menos exigente…) 
 
Os auxílios estatais (art. 107.º) 
 São incompatíveis com o mercado comum os auxílios de Estado, qualquer 
que seja a sua forma, que sejam susceptíveis de favorecer certas empresas ou 
produções, afectando o comércio e falseando a concorrência entre Estados-
Membros. 
 (favorecimento de importações/exportações; 
 Sanção: nulidade dos auxílios (com obrigação de eventual reembolso). 
 
 Auxílio … 
 toda e qualquer vantagem concedida, directa ou indirectamente, por meio 
de recursos públicos. 
 de Estado 
 “Estado”: administração central, regional e local, institutos públicos, 
organismos de utilidade pública, empresas públicas e participadas. 
As derrogações (excepções à proibição) (art. 107.º, nº 2) 
 Automáticas 
 Os auxílios de natureza social a consumidores individuais (não 
empresas). 
 Os auxílios destinados a remediar danos causados por calamidades 
naturais. 
 
 Facultativas 
 Os auxílios destinados a promover o desenvolvimento económico de 
regiões com nível de vida anormalmente baixo/grave situação de 
subemprego. 
 Os auxílios destinados a fomentar um projecto importante de interesse 
europeu. 
 Os auxílios destinados a facilitar o desenvolvimento de certas actividades 
ou regiões menos desenvolvidas. 
 Os auxílios destinados a promover a cultura e a conservação do 
património. 
 
 
 
REGULAÇÃO DOS MERCADOS EMERGENTES 
A regulação dos “mercados emergentes” 
• Regulação sectorial, regulação económica, 
“núcleo da moderna regulação” 
• acção reguladora do Estado dirigida a sectores de actividade marcados, 
no passado, por formas de organização e exploração em regime de 
monopólio público, abertos à concorrência sob o impulso conjugado de 
• factores políticos e ideológicos (políticas de privatização e 
liberalização 
• técnicos (novas tecnologias) 
• económicos (a mudança das condições de investimento e 
exercício das actividades em causa) 
 
• «A regulação da concorrência actua, em regra, ex post e sanciona comportamentos 
quando existe violação da lei da concorrência. A regulação (sectorial) actua ex ante e 
define regras ou preços que a entidade supervisora tem de acompanhar continuamente». 
(Abel Mateus) 
• A regulação cria um espaço sujeito a regras específicas, o que constitui uma excepção 
ao funcionamento do mercado em nome da promoção do próprio mercado. 
 
• Que sectores? 
• serviços básicos (utilities), explorados e prestados em rede (sectores em rede): 
telecomunicações, distribuição de água, energia eléctrica e gás, televisão na 
origem do estatuto do monopólio estiveram razões de ordem técnica, económica 
e social: «monopólios naturais» implicando elevado investimento inicial em 
capital necessário para a implantação da rede, o que funcionou como uma 
barreira à entrada e à concorrência. 
• a filosofia do serviço público universal: acesso geral em condições de qualidade 
adequadas e a preços acessíveis 
os Estados assumiram a responsabilidade de financiar e orientar esse investimento, 
realizado por vezes com a participação de entidades privadas no quadro de contratos de 
concessão. 
 
Novos regimes 
• Que objectivos? 
Na transição do monopólio para o regime concorrencial, a regulação procura: 
• promover activamente o (novo) mercado, defendendo-o das suas próprias 
falhas: 
• maior risco de abusos de posição dominante das ex-empresas 
monopolistas 
• eventuais exterioridades negativas e falhas de informação dos 
consumidores. 
• defender os interesses dos consumidores ou utentes 
• definir e aplicar standards técnicos, quer no que respeita à gestão 
da rede, quer à prestação do serviço, de forma a assegurar o seu 
funcionamento regular nas melhores condições de quantidade e 
de qualidade da oferta. 
 
Novas instituições reguladoras 
• As agências reguladoras independentes ou “entidades administrativas 
independentes - EAI”. 
• A sua criação teve em vista compaginar a natureza público-estatal do regulador, 
dotando-o de poderes de autoridade, com um grau adequado de autonomia 
orgânica e funcional. 
• O estatuto de autonomia orgânica e amplos poderes: 
• poder normativo (emissão de regulamentos, fixação de standards) 
• autoridade para licenciar operadores 
• supervisão, investigação e inspecção 
• aplicação de sanções por incumprimento 
 
• Às EAI compete fazer cumprir estes princípios pelas empresas às quais estas 
responsabilidades sejam atribuídas no sector respectivo. 
• Lei n.º 23/96, de 26 de Julho, relativa à protecção dos consumidores ou 
utilizadores de serviços públicos essenciais: 
princípios a que deve obedecer a prestação de serviços públicos: 
a. boa fé, de acordo com a sua natureza e com os interesses dos 
consumidores (art. 3.º), 
b. disponibilização de informação completa e clara (art. 4.º) 
c. continuidade (art. 5.º) 
d. qualidade (art. 7.º) 
 
Interesses em conflito 
• Tratando-se de serviços definidos como de interesse público (serviços de 
interesse económico geral), a função reguladora procura compatibilizar: 
• a garantia da concorrência no mercado, por um lado; e 
• a satisfação do interesse geral no que respeita à cobertura, acesso, 
qualidade e preço devido pela prestação do serviço, por outro lado; 
• i.e., a lógica económica e a lógica social. 
• Estes dois objectivos tendem, no entanto, a colidir. 
 
 Um caso de estudo: 
as telecomunicações em Portugal 
• O sistema nacional de telecomunicações foi no passado assegurado 
por 2 empresas públicas e 1 empresa mista, todas em regime de 
monopólio, repartindo entre si segmentos deste mercado: 
• Correios e Telégrafos de Portugal (CTT) 
• Telefones de Lisboa e Porto (TLP) (desde 1969, cessada a 
concessão do Estado à Anglo-Portuguese Telephone Company) 
• Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) (com capital 
parcialmente privado) - comunicações intercontinentais. 
 
• Após 1974: 
• A Lei da delimitação de sectores - vedou explicitamente o sector das 
telecomunicações à iniciativa privada. 
 
Do monopólio à liberalização 
 O desenvolvimento de meios técnicos de comunicação (telemóvel, 
computador, etc.) e de novas infraestruturas(cabo, fibra óptica, etc.) induziu a 
abertura do mercado, questionando-se do mesmo passo os direitos exclusivos 
detidos pelas empresas públicas ou concessionárias. 
• As razões de ordem técnica e económica que haviam fundamentado o 
monopólio perderam, gradualmente, a sua razão de ser. 
 A liberalização das telecomunicações foi promovida activamente pela CE 
(Comissão e Tribunal de Justiça): 
• Caso British Telecom: a Comissão considerou como abuso de posição 
dominante a recusa pela BT a agências privadas de emissão de telexes da 
utilização das infraestruturas e serviços básicos por ela mantidos. 
• a decisão repousou no argumento de que o «monopólio natural» estava 
em vias de ser superado por desenvolvimentos tecnológicos que haviam 
tornado viável a concorrência pelo menos numa parte do mercado que a 
British Telecom costumava servir em exclusividade. 
• A política comunitária desenvolvida durante os anos 90, traduziu-se na 
adopção de um conjunto de actos legislativos visando liberalizar a oferta 
de serviços de telecomunicações. 
 
A Lei n.º 91/97, de 1 de Agosto 
– Lei de bases das telecomunicações 
• Esta lei consagrou o princípio da liberalização do mercado das telecomunicações 
(art. 7.º, quanto aos serviços; art. 11.º, quanto às redes). 
• A concessão do serviço público de telecomunicações à Portugal Telecom, S.A. 
 de acordo com o DL n.º 478/99, de 5 de Novembro, o contrato entre o 
Estado e operadores privados toma a forma de concessão quando inclua, 
não só a prestação do serviço, mas também - como é o caso - o 
estabelecimento, gestão e exploração das infraestruturas que constituam 
a rede básica de telecomunicações (art. 8.º, n.º 2, do DL n.º 478/99, de 5 
de Novembro). 
 contrato de 20 de Março de 1995, celebrado ao abrigo do DL n.º 40/95, 
de 15 de Fevereiro, contendo as bases do contrato de concessão do 
serviço público de telecomunicações exclusivo da exploração dos 
serviços fornecidos através da rede fixa por 30 anos. 
 A PT não se encontra sujeita à aplicação da Lei de Defesa da 
Concorrência «no âmbito e na vigência do respectivo contrato de 
concessão» (art. 41.º, n.º 2 do DL n.º 371/93, de 29 de Outubro). 
 DL n.º 219/2000, de 9 de Setembro, autorizou a transferência da 
concessão da Portugal Telecom para a PT Comunicações. 
 
O regime dos preços 
• O regime de preços das prestações do serviço universal é definido por meio de 
uma convenção celebrada entre a Autoridade da Concorrência, o ICP - 
ANACOM e o prestador ou prestadores do serviço universal. Trata-se de um 
caso de regulação normativa pública convencionada, podendo entender-se que a 
referida convenção integra a categoria dos designados contratos regulatórios 
(regulatory contracts). 
• Instituído o mercado, a regulação dos preços pode eventualmente ser suprimida 
dos segmentos competitivos do mercado, embora mantida para o monopólio da 
gestão da rede: 
- o controlo de preços deixou de aplicar-se à prestação do serviço telefónico ou 
de acesso à Internet por parte da PT, não deixando, no entanto, de manter-se no 
que respeita aos preços de conexão de operadores privados à rede. 
- à medida que a concorrência se expande, reduzir-se-á o esforço da regulação, 
que tenderá a ficar confinado às regras técnicas de compatibilidade e 
interoperabilidade entre redes. 
- a regulação da concorrência ganhará, assim, gradualmente, a sua plena 
expressão. 
 
Âmbito do serviço universal 
• O serviço universal é regido pelos princípios da universalidade, igualdade, 
continuidade e acessibilidade de preços (DL n.º 458/99, art. 1.º). 
• O âmbito do serviço abrange, na linha das orientações europeias: 
a) a ligação à rede telefónica fixa, num local fixo, e acesso ao 
serviço fixo de telefone a todos os utilizadores que o solicitem; 
b) a oferta de postos públicos, em número suficiente, nas vias 
públicas e em locais públicos; 
c) a disponibilização de listas telefónicas e de um serviço 
informativo, que incluam os números de assinantes do serviço 
fixo de telefone e do serviço telefónico móvel. 
d) Prevê-se que o conceito de serviço universal de telecomunicações 
e o seu âmbito evoluam de forma a acompanhar o progresso da 
tecnologia, o desenvolvimento do mercado e as modificações da 
procura por parte dos utilizadores. 
• O serviço universal de telecomunicações pode, em princípio, ser prestado por 
mais de uma entidade, quer distinguindo as prestações que o integram, quer as 
zonas geográficas, sem prejuízo da sua prestação no todo do território nacional. 
• Compete ao membro do Governo responsável pela área das comunicações 
designar a entidade ou entidades responsáveis pela prestação do serviço 
universal de telecomunicações na sequência de concurso. 
 
A Autoridade Nacional das Comunicações – ANACOM 
• O princípio da separação institucional entre operador e regulador de 
telecomunicações foi proclamado desde que foi lançado o processo de 
liberalização do sector. 
• Ao regulador deve ser assegurada: 
• independência funcional: não sujeição a poderes de superintendência e 
tutela por parte do Governo (em conformidade com o art. 199º, al. d), 
CRP), o que não obsta ao dever da entidade reguladora de se sujeitar a 
directrizes do Governo sem forma de lei, designadamente, a princípios 
orientadores da política de comunicações. 
• independência orgânica: os membros do Conselho de Administração, 
nomeados por resolução do Conselho de Ministros sob proposta do 
membro do Governo responsável pela área das comunicações, por um 
período de 5 anos, «são independentes no exercício das suas funções, não 
estando sujeitos a instruções ou orientações específicas». 
• Os membros do Conselho de Administração (um presidente e dois a quatro 
vogais) são nomeados de «entre pessoas com reconhecida idoneidade, 
independência e competência técnica e profissional», não podendo ser nomeado 
quem seja ou tenha sido membro dos corpos gerentes das empresas dos sectores 
das comunicações nos últimos dois anos, ou seja ou tenha sido trabalhador ou 
colaborador permanente das mesmas com funções de direcção ou chefia no 
mesmo período de tempo (DL n.º 309/2001). 
• Conselho Consultivo: representação dos interesses sectoriais: departamentos 
ministeriais, autoridade da concorrência, concessionárias dos serviços, 
operadores dos diversos serviços, outros interesses económicos como os dos 
fabricantes de equipamentos e dos utilizadores. 
 
“Operador com poder de mercado significativo” 
• O operador dominante é qualificado como «operador com poder de mercado 
significativo (PMS)», conceito inovador que se substitui à noção convencional 
de posição dominante (DL n.º 415/98, de 31/12). 
• Presume-se que dispõem de poder de mercado significativo as entidades que 
detenham uma quota superior a 25% de um mercado de telecomunicações da 
área geográfica em que se encontrem habilitadas para operar. (Art. 7º, n.º 2, do 
DL n.º 415/98) 
• A ANACOM detém, no entanto, o poder de determinar, em função dos critérios 
estabelecidos no n.º 4 do mesmo art. 7º, que uma dada entidade dispõe de poder 
de mercado significativo ainda que não tenha uma quota de mercado superior a 
25%, após parecer prévio da AdC, competindo-lhe determinar, declarar e 
publicar anualmente a lista das entidades que dispõem de um poder de mercado 
significativo (PMS) nos mercados relevantes. 
• Uma vez declarado com PMS, o operador fica sujeito a uma regulação 
reforçada, implicando obrigações específicas (art. 7.º, n.º 4, do DL n.º 415/98). 
• Por deliberação de 3 de Agosto de 2000, foi decidido: 
1. Declarar a Portugal Telecom, S.A., ou a entidade que legalmente lhe suceder 
enquantoconcessionária, como detentora de poder de mercado significativo no 
mercado nacional de interligação, no mercado das redes telefónicas fixas e/ou serviços 
telefónicos fixos e no mercado dos circuitos alugados. 
2. Declarar a TMN - Telecomunicações Móveis Nacionais, S.A., e a Telecel - 
Comunicações Pessoais, S.A., como detentoras de poder de mercado significativo no 
mercado das redes telefónicas móveis e/ou serviços telefónicos móveis. 
 
A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO - World Trade Organisation 
 É a única instituição internacional com intervenção no domínio das regras do 
comércio à escala global. 
 A sua missão é assegurar que os fluxos de comércio se processam de forma 
pacífica, previsível e tão livre quanto possível. 
 
A defesa do comércio livre 
 As tarifas/direitos aduaneiros sobre produtos industriais foram reduzidos 
progressivamente e representam hoje menos de 5% nos países industriais. Nos 
primeiros 25 anos depois da II Grande Guerra, o crescimento económico 
mundial foi de cerca de 5% por ano, uma taxa elevada que se deve em parte a 
pautas aduaneiras mais baixas. O crescimento do comércio foi em média de 8%. 
 Os dados mostram uma relação estatística clara entre liberalização do comércio 
e crescimento económico. 
 A teoria económica oferece explicações para esta relação. Todos os países, 
incluindo os mais pobres, possuem recursos — humanos, industriais, naturais, 
financeiros — que podem utilizar para produzir bens e serviços para os seus 
mercados internos e para exportação. A teoria diz-nos que todos podem 
beneficiar com a troca de bens e serviços. 
 O princípio das vantagens comparativas indica que os países prosperam 
quando aproveitam esses seus recursos, concentrando-se no que podem produzir 
em melhores condições e importando de outros aqueles que estes produzem 
melhor. 
 
O GATT – Acordo sobre Pautas Aduaneiras e Comércio 
 A Carta de Havana foi assinada em1948, mas não foi seguida da ratificação por 
alguns Estados, incluindo os EUA. 
 O GATT manteve-se como o único acordo multilateral que rege o comércio 
internacional até ao estabelecimento da OMC. 
 O Acordo conservou o seu conteúdo original, sendo-lhe mais tarde adicionada a 
secção sobre desenvolvimento e vários acordos multilaterais de adesão 
voluntária. 
 Estes progressos foram alcançados por meio de rondas de negociação (“trade 
rounds”). 
 Como resultado do Uruguay Round, foi criada a OMC, em 1995. 
 
Ciclos de Negociação 
 
 Os membros da OMC 
 A OMC tem 153 membros (desde Julho de 2008), representando mais de 97% 
do comércio mundial. 30 outros países negoceiam a adesão. 
 As decisões são tomadas por todos os membros, normalmente, por consenso. O 
voto por maioria é também possível, mas nunca foi utilizado pela OMC e foi 
raramente utilizado pelo GATT. 
 
As funções da OMC 
 Administrar os acordos da OMC 
 Fórum para negociações comerciais 
 Controlar as políticas comerciais nacionais 
 Resolver litígios comerciais 
 Conceder assistência técnica e formação de países em desenvolvimento 
 Cooperar com outras organizações internacionais 
 Orçamento: 185 milhões de francos suíços para 2008 
Staff: 625 
Director-Geral: Pascal Lamy 
 
A orgânica interna 
 Conferência Ministerial – principal órgão decisório; reúne pelo menos uma vez 
cada dois anos. 
 Conselho Geral – composto normalmente pelos embaixadores e chefes de 
delegação em Genebra, e por vezes representantes enviados das capitais, que 
reúne várias vezes na sede em Genebra. O Conselho Geral reúne também como 
“Trade Policy Review Body” e “Dispute Settlement Body”. 
 Goods Council, Services Council e Intellectual Property (TRIPS) Council 
reportam ao Conselho Geral. 
 Numerosos comités especializados (specialized committees), grupos de 
trabalho (working groups, working parties) intervêm a respeito de acordos 
individuais e outros tópicos como o ambiente, o desenvolvimento, pedidos de 
adesão. 
 
Um sistema multilateral de comércio 
- multilateral trading system 
 No coração deste sistema encontram-se os Acordos da OMC, negociados e 
assinados pela larga maioria das potências comerciais mundiais, e ratificados 
pelos respectivos parlamentos. 
 Estes acordos oferecem as regras legais de base do comércio internacional. 
Essencialmente, são contratos, que garantem aos países membros importantes 
direitos em matéria de comércio. Eles obrigam os governos a manter as suas 
políticas comerciais dentro dos limites acordados. 
 Os acordos são negociados e assinados pelos governos. Mas o seu objectivo é 
auxiliar os produtores de bens e de serviços, os exportadores e importadores a 
conduzir os seus negócios. 
 
Os acordos da OMC 
 O GATT continua a ser o principal código do comércio de mercadorias. 
 No Kennedy Round, Tokyo Round e Uruguay Round foram adoptados novos 
acordos e compromissos temporais. 
 No conjunto, trata-se de cerca de 30 000 páginas contendo esses acordos e 
compromissos assumidos por membros individuais. 
 Por meio destes acordos, os Estados Membros da OMC operam um sistema de 
comércio não discriminatório que define os seus direitos e as suas obrigações. 
 Cada país recebe garantias de que as suas exportações serão tratadas de modo 
equitativo e não discriminatório nos mercados de outros países. 
 Cada Estado compromete-se a tratar do mesmo modo os produtos de origem 
nacional e os produtos importados no seu território. 
 O sistema concede aos países menos desenvolvidos alguma flexibilidade na 
implementação dos compromissos. 
 
Princípios fundamentais 
 A cláusula da nação mais favorecida – Most-favoured Nation Clause (MFNC) 
 Tratamento nacional – National treatment 
 Transparência 
 Not-unfair trade 
 
A cláusula da nação mais favorecida (Art. 1º do GATT) 
«Qualquer vantagem, favor, privilégio, ou imunidade concedida por uma parte 
contratante a um produto originário de outro país ou a ele destinado será, imediata e 
incondicionalmente, extensiva a todo o produto similar originário dos territórios de 
todas as outras Partes contratantes ou a eles destinado . Esta disposição refere-se aos 
direitos aduaneiros e às imposições de qualquer espécie que incidam sobre as 
importações ou exportações, assim como aos que incidam sobre as transferências 
internacionais de importações ou exportações …» 
 
Tratamento nacional (Art. 2º do GATT) 
 «Nenhuma parte contratante imporá qualquer proibição ou restrição à 
importação de um produto originário do território de outra parte contratante ou à 
exportação de um produto destinado ao território de outra parte contratante, a menos 
que imponha uma proibição ou restrição semelhante à importação de produto 
similarário de qualquer país terceiro ou à exportação de produto similar com destino a 
qualquer país terceiro». 
 
O Acordo anti-dumping 
(Art. 6 do GATT) 
 Se uma empres colocar no mercado um produto a um preço inferior ao que 
normalmente aplica no mercado interno, entende-se que preatica dumping. 
 Tratar-se-á de concorrência desleal? 
 A OMC não o julga, A OMC disciplina o modo como os governos podem ou 
não reagir a práticas de dumpring de outros Estados - no“Anti- Dumping 
Agreement”. 
 
 Este Acordo autoriza os Estados a agir de uma forma que normalmente violaria os 
princípios do GATT. 
 A acção anti-dumping consiste em aplicar direitos de importação extraordinários 
sobre determinados produtos de modo a aproximar o preço do ‘valor normal’ e evitar 
prejuízos à indústria nacional. 
 
O Acordo sobre as subvenções 
 O Acordo disciplina a utilização das subvençõese regula a reacção que os 
Estados podem adoptar a fim de contrariar os efeitos das subvenções. 
 O Estado afectado pode efectuar uma investigação e aplicar uma taxa extra 
(“countervailing duty”) sobre as mercadorias importadas que alega prejudicarem 
os produtores nacionais. 
 O Acordo define subvenção e subvenção específica (“specific” subsidy”) — i.e. 
subvenção aplicável apenas a uma empresa, indústria, grupo de empresas no país 
que concede a subvenção. 
 O Acordo é aplicável apenas a subvenções específicas: “domestic” e à 
exportação. 
 Prohibited subsidies: dirigidos especificamente a distorcer o comércio 
internacional 
 Actionable subsidies: o Estado queixoso tem de demonstrar o prejuízo. 
Se não o fizer, a a subvenção é permitida. 
 
Agricultura 
 O GATT deixou abertas várias limitações à liberalização no que se refere à 
agricultura, admitindo as quotas de importação e os subsídios. 
 O comércio de produtos agrícolas tornou-se muito distorcido, especialmente, 
devido às subvenções à agricultura. 
 O Uruguay Round estabeleceu o primeiro acordo multilateral dedicado a este 
sector. 
 
O tratamento especial e diferencial dos PVD 
 146 disposições nos acordos específicos 
 Objectivo: aumentar as oportunidades de comércio 
 Acordo sobre as subvenções 
 Períodos de transição alargados 
 Assistência técnica 
 “Least-developed countries” (nunca intervieram em painéis) 
 
Resolução de litígios 
 O procedimento de resolução de litígios é conduzido pelo Dispute Settlement 
Body e é decisivo para garantir a efectividade das regras do GATT/OMC. 
 Os Estados Membros podem submeter litígios à OMC quando crêem que os seus 
direitos estão a ser infringidos. 
 As decisões são tomadas por peritos especialmente nomeados para o efeito e 
baseiam-se em interpretações dos Acordos e compromissos individuais dos 
Estados. 
 O sistema encoraja os Estados a resolver as suas disputas por meio de consulta. 
 Se esta não resultar, podem seguir um procedimento em fases : 
- decisão de painel (designação: 45 dias; decisão: 6 meses); 
- recurso para o Apellate Body. 
 A confiança neste sistema é mensurável pelo número de casos levados à OMC 
— cerca de 300 em 8 anos. 
 
REGULAÇÃO EM MATÉRIA DO AMBIENTE 
 
A EVOLUÇÃO E A FORMAÇÃO DO DIREITO DO AMBIENTE 
 
 Desde sempre as actividades humanas tiveram influência sobre o ambiente, no entanto 
historicamente pode observar-se que houve factores que vieram agravar os problemas ambientais 
vividos globalmente, entre eles a revolução industrial e o fomento do modo de produção 
capitalista. 
 Apesar dos problemas ambientais terem raízes mais antigas, só recentemente e graças aos 
avanços da ciência e da mentalidade das populações se começou a praticar a regulação do 
ambiente e a tentar reverter alguns dos estragos que já haviam sido causados. É de salientar o 
primeiro acordo assinado que revelou uma preocupação ambiental, o “International Convention 
for the Protection of Birds Useful to Agriculture”, assinado em París a 19 de Março de 1902. No 
período pós-guerra assistiu-se a uma tentativa de reconstrução das áreas destruídas, bem como 
e, consequentemente, a um repentino crescimento económico, acarretando uma grande 
acumulação de resíduos resultantes do desenvolvimento das próprias actividades económicas. 
 Relativamente à história mais próxima, digamos que os primeiros passos do 
direito do ambiente- um pouco mais tardio que a preocupação ambiental- remontam aos 
anos 1960 nos EUA e aos anos 1970 na Europa. De certa maneira, esta preocupação 
nasceu do choque que um futuro se descobria como podendo ser ou não possível. 
 Em 1962, dá-se a proclamação por parte da Assembleia Geral das Nações Unidas 
do princípio da soberania permanente dos estados sobre os recursos naturais e a Nova 
Ordem Económica Internacional, era o começo do priveligiar do melhoramento do estado 
de bem-estar e o aumento da pressão sobre os recursos naturais. 
 A degradação ambiental começa a verificar-se resultado de acidentes e crises 
locais. Este facto levou à percepção por parte das populações de que os recursos teriam 
de ser utilizados de maneira racional e sustentável. 
 No entanto, só nos finais da década de 60 se pode atribuir o “pódio” à intervenção 
no que respeita à materia Ambiental: a evolução da própria ciência permitiu aos cientistas 
um conhecimento mais profundo sobre o impacto ambiental causado pelo crescimento 
económico. A comunidade científica começa a lançar alertas ambientais referentes à 
poluição causada por radiações atómicas, insecticidas, detergentes, etc. resultando na 
realização de inúmeras conferências sobre o tema. Paralelamente à comunidade científica, 
também os media voltaram a sua atenção para este tipo de assuntos, contribuindo assim 
fortemente para própria expansão da preocupação ambiental. As preocupações ambientais 
deixavam de ser um assunto apenas discutido pela comunidade científica e por poucas 
mentes esclarecidas, passando a ganhar uma dimensão política e social a nível mundial. 
 Em 1972, é de referir a Conferência realizada em Estocolmo sobre a Declaração 
sobre Ambiente Humano: os assuntos ambientais passavam agora a ter um carácter de 
preocupação e cuidado global, deixando de serem os assuntos ambientais apenas 
regulados pela soberania de cada país. Era agora importante olhar para o mundo como 
um só e constituiu-se um “Plano de Acção” onde 109 recomendações conjuntas com uma 
longa resolução sobre os mecanismos institucionais e financeiros deveriam ser 
implementadas pelo próprio sistema das Nações Unidas. 
 Em Portugal, actualmente, verifica-se a importância do Direito Comunitário em 
termos de matéria ambiental, cuja grande maioria de diplomas traduz a necessidade de 
transposição de directivas comunitárias, sobretudo ao nível sectorial. Além de princípios 
específicos em certos domínios (v.g., Água;Florestas), é detectável uma principiologia 
comum ao Direito do Ambiente que decorre fundamentalmente do artigo 3º da LBA (Lei 
Base do Ambiente) e do artigo 66º/2 da CRP (Constituição da República Portuguesa). 
 Estes constituem apenas alguns dos pontos essenciais a ter em atenção 
relativamente à evolução do direito do ambiente. Concluímos que o progresso atingiu 
tanto os direitos internos dos diferentes países como o direito internacional, podendo 
assim afirmar que hoje o direito do ambiente adquiriu a necessária coerência para ser não 
apenas um novo ramo do direito mas um prisma que permite reler todo o direito. 
 
CARACTERÍSTICAS DO DIREITO DO AMBIENTE 
Actualmente, é amplamente reconhecido o impacto ambiental causado pelo 
próprio desenvolvimento económico e social e pressupõe-se, assim, uma gestão e 
utilização racionais dos recursos existentes e a necessidade de protecção que deve ser 
realizada de modo a assegurar a sua própria conservação e o próprio desenvolvimento das 
gerações vindouras. A regulação do ambiente surge, assim, como uma medida de 
regulação da própria Economia. 
 Como em termos económicos a regulação do ambiente é vista como uma 
externalidade negativa, isto é, um custo produzido por uma entidade económica que não 
afecta directamente o preço dos produtos e serviços dessa mesma entidade, é defendida a 
tese de que a regulação do mercado deverá constituir uma função própria dos poderes 
públicos. 
 Esta regulação por parte dos poderes públicos poderá ser realizada através de 
vários métodos de regulação, dos quais se destacam: a definição e imposição de normas, 
o controlo administrativo e a aplicação de sanções, e o contrato-programa (espécie de 
contrato realizado entre as entidades públicas e a própria actividade industrial deforma a 
“consciencializar” e introduzir nas empresas o sentido de responsabilidade ambiental a 
ter em conta aquando da tomada de decisões económicas e o consequente impacto 
ambiental). 
 Introduzidas estas ideias principais, podemos passar agora às próprias noções e 
características do Direito do Ambiente abordadas durante a apresentação oral: 
 A tutela Objectiva e Subjectiva do Direito do Ambiente 
No que respeita ao método de caracterização da tutela jurídica do ambiente 
podemos considerar dois tipos: 1) A tutela Objectiva: A tutela objectiva do 
ambiente implica deveres de actuação da autoridade política, implicitamente 
expressa a ideia de que deverá existir e ser formado um Direito do Ambiente, 
sendo que este deverá conter os princípios e normas que regem os 
comportamentos que afectem o ambiente; 2) A tutela Subjectiva: A tutela 
subjectiva do ambiente explicita a consagração do direito ao ambiente como um 
Direito Humano. 
 
Características do Direito do Ambiente: 
 Nos tópicos que se seguem e, com base no próprio Manual da disciplina, são 
ilustradas as características principais desta vertente do direito: 
 Ênfase na Prevenção e Precaução, que é justificada pelo facto de, em termos 
ambientais, a mera aplicação de sanções constituir uma medida ineficaz; 
 Existência e co-relação com o campo cientifico-técnico: é essencial a 
colaboração com entidades com conhecimento cientifico sobre os impactes que o 
desenvolvimento de uma actividade económica terão de modo a se saber quais os 
limites a aplicar, medidas a tomar, etc; 
 Forte Dimensão Internacional e Global: faz parte do conhecimento geral que 
os impactos ambientais poderão apresentar um carácter transfronteirisso, veja-se 
o caso da central Nuclear de Chernobyl na Ucrânica ou mesmo o derrame de 
petróleo que aconteceu na Galiza, Espanha. 
 
A REGULAÇÃO EM MATÉRIA AMBIENTAL: PORTUGAL E A CEE 
 Em Portugal, a regulação pública em matéria ambiental exprime-se, de uma forma 
geral, em proibições ou condicionamentos jurídicos quanto à prática e ao 
desenvolvimento de inúmeras actividades económicas, paralelamente ligados à existência 
de medidas de controlo e fiscalização. 
 Em Portugal, a formação do Direito Ambiental foi tardia, sublinhando-se o facto 
de só em 1987 terem sido adoptadas as Leis de Bases do Ambiente (LBA). 
 Anteriormente a este feito, em termos de matéria ambiental, a legislação 
portuguesa era parcelar e dispersa, sendo apenas importante notar o artigo 66º * (ver 
anexo) da Constituição da República de 1976 como iniciante do desenvolvimento deste 
tipo de matéria. 
 Em Portugal, a adopção das LBA veio reproduzir o princípio geral constante da 
CRP (Constituição da República Portuguesa) de que todos os cidadãos têm direito a um 
ambiente humano ecologicamente equilibrado e o dever de o defender. Surge ainda, 
paralelamente, a definição do dever do Estado de promover uma melhoria da qualidade 
de vida, apelando assim a iniciativas populares e comunitárias. 
A intervenção estatual é guiada por príncipios específicos, dos quais destacamos: 
 Princípio da prevenção 
 Princípio do equilíbrio 
 Princípio da participação 
 Princípio da unidade de gestão e acção do Estado 
 Princípio da cooperação Internacional 
 Princípio da responsabilização 
As LBA vieram, ainda, enunciar quais os métodos de intervenção a adoptar por parte da 
intervenção pública, métodos estes que podem ser enunciados como: 
 O planeamento global, isto é, a estratégia nacional a adoptar de conservação da 
natureza, incluindo, por exemplo, a designação das “áreas protegidas” 
 A função normativa, isto é, o estabelecimento de critérios e normas de qualidade 
na regulamentação do uso do solo e recursos 
 A função fiscalizadora, isto é, a designação de instituições de sistemas de controlo 
e vigilância na avaliação prévia do impacte ambiental resultante de algum tipo de 
actividade económica e, ainda, no licenciamento destas mesmas actividades 
 Dos exemplos anteriormente dados e, de acordo com o que constituiu a própria 
análise do nosso trabalho, destacamos a função fiscalizadora, nomeadamente na avaliação 
prévia do impacte ambiental e no licenciamento do desenvolvimento de novas actividades 
económicas. 
 No que respeita à acção dos poderes públicos destinada a proteger o ambiente, a 
licença ambiental figura um papel fundamental. A emissão de uma licença ambiental 
constitui actualmente um requisito prévio do próprio avanço de uma construção, 
ampliação e funcionamento de estabelecimentos. Este regime é aplicável em matéria de 
avaliação prévia de impacte ambiental. 
 A exigência actual de uma avaliação prévia do impacte ambiental constitui uma 
afirmação do principio da prevenção. Esta avaliação constitui uma formalidade essencial 
da aprovação de projectos de obras públicas pelo Governo. 
 Este constitui, de uma forma geral, o regime aplicável geral, sendo que para além 
deste é relevante destacar, ainda, o regime especial da prevenção de riscos e acidentes 
graves (cabe ao responsável pela actividade perigosa a prevenção de acidentes), regime 
este que transpõe para o direito português a própria directiva comunitária em termos de 
matéria de regulação ambiental. 
 Agentes de regulação pública do ambiente 
 Governo (ex: Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território -
MAOT) 
 Organizações não governamentais (ex: QUERCUS) 
 Em termos Europeus, a protecção do ambiente como objecto da acção comunitária 
teve início nos anos setenta, nomeadamente com o Tratado da União Europeia. 
 Em termos gerais, não é possível afirmar que a politica do ambiente seja uma 
política comum, na medida em que é conferida aos Estados-Membros a sua autonomia 
para a formulação e execução de políticas internas preferenciais. 
 No que diz respeito aos princípios de regulação comunitária do ambiente, estes 
equivalem, em larga medida, aos princípios que orientam a generalidade das políticas 
ambientais, nomeadamente os princípios da precaução e prevenção, princípios da 
correcção, princípios do utilizador-pagador e o da integração. 
 O instrumento típico da intervenção da CE em termos de matéria ambiental é a 
directiva, ou seja, o estabelecimento de medidas de obrigação de acção, das quais se 
destacam a elaboração de planos de saneamento ou o já referido pré-requisito, a avaliação 
prévia do impacte ambiental.

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