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Este livro está disponível gratuitamente no site: 
www.servicosocialparaconcursos.net 
405Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 405-406, jul./set. 2013
Editorial
A revista Serviço Social & Sociedade	apresenta	aqui	importantes	reflexões	
sobre temas que permeiam o cotidiano do Serviço Social na área sociojurídica. 
Doze anos após a Revista n. 67 ter inaugurado a série de números especiais, com 
a reunião de artigos também sobre “temas sócio-jurídicos”, o presente número re-
visita e avança no debate sobre questões que se colocam no âmbito da teoria e da 
prática cotidiana de uma área que vem ampliando seus espaços sócio-ocupacionais 
nos anos recentes.
O texto que abre este número e que ancora os demais artigos aborda se a 
melhor denominação seria “campo” ou “área” sociojurídica e as principais deter-
minações	do	Serviço	Social	nessa	área,	tendo	como	base	as	contribuições	do	filó-
sofo marxista húngaro Georg Lukács para pensar o Direito.
Em seguida a essa fundamental contribuição, as tênues e incertas fronteiras 
entre o legal e o ilegal são reveladas a partir de uma discussão, resultado de pes-
quisa, sobre o mundo urbano e as formas de produção e circulação de riquezas que 
ativam a economia informal e o trabalho precário.
Avançando	as	 reflexões	sobre	espaços	sócio-ocupacionais	que	compõem	a	
área, a revista nos apresenta a inserção do Serviço Social no Ministério Público, 
com as contradições que a atravessam, e reforça, dentre outros, seu potencial para 
o diálogo	com	os	movimentos	sociais	e	o	fomento	e	fiscalização	das	políticas	pú-
blicas,	respaldado	no	projeto	ético-político-profissional.
Trazendo	a	necessária	reflexão	sobre	o	trabalho	interdisciplinar,	o	artigo	se-
guinte aborda a inquirição da vítima de violência sexual como afronta aos direitos 
humanos	da	criança,	 e	enfatiza	a	perícia	 realizada	por	profissionais	de	diversas	
áreas como instrumento para garantia da dignidade e do respeito à vítima.
Enfocando o espaço de trabalho ocupado pelo assistente social no Judiciário, 
outro	artigo	apresenta	construções	históricas	e	desafios	colocados	aí	ao	Serviço	Social,	
destacando particularidades teórico-metodológicas e éticas presentes no exercício 
profissional,	e	movimentos	políticos	da	categoria	na	perspectiva	dos	direitos.
Em texto conciso, mas esclarecedor, é abordada também a construção histó-
rica dos direitos humanos da criança e do adolescente, os processos políticos em 
que se inserem, e o uso do discurso em torno da defesa de direitos.
406 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 405-406, jul./set. 2013
A revista dá a conhecer ainda notável experiência de organização sindical e 
política de trabalhadores sociais do Poder Judiciário da Argentina, revelando a 
força do coletivo num contexto situado entre as tensões postas pela demanda pro-
vocada pela “questão social” e as respostas dadas pelo Estado via Judiciário.
Apresenta-se aqui também, os resultados de pesquisa realizada com base em 
sentenças judiciais e manifestações do Ministério Público, reveladoras de elemen-
tos ideológicos que fundamentam a criminalização de adolescentes trabalhadores 
no	tráfico	de	drogas.
Finalizando	os	textos/artigos,	temos	a	oportunidade	de	conhecer	significativo	
relato de experiência na área judiciária, que demonstra a efetiva contribuição do 
Serviço	Social	 para	 a	 viabilização	de	direitos,	 especificamente	 a	 conquista,	 em	
âmbito nacional, da licença/salário-maternidade nos casos de adoção, independen-
temente da idade da criança.
407Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Para entender o Serviço Social 
na área sociojurídica*
To understand Social Work in the socio‑legal sphere
Elisabete Borgianni**
Resumo: Tendo como base as contribuições de Lukács para pensar 
o Direito, o artigo aborda as principais determinações do Serviço 
Social na área sociojurídica e discute se a melhor denominação seria 
“campo”	ou	“área”	sociojurídica.	Aponta	ainda	alguns	dos	desafios	e	
possibilidades de atuação que estão postos aos assistentes sociais que 
trabalham nos espaços sócio-ocupacionais próprios do universo jurí-
dico ou que com ele têm interfaces.
Palavras-chaves: Serviço Social na área sociojurídica. Direito. Justi-
ciabilidade dos direitos sociais. Instituições do sociojurídico.
Abstract: Based on Lukács’s contributions for the analysis of Law, in the article we discuss both the 
main characteristics of Social Work in the socio-legal sphere, and the nuances between a socio-legal 
“area”	and	a	socio-legal	“field”.	Furthermore,	we	identify	some	of	the	challenges	faced	by	social	workers	
engaged in socio-occupational activities that are characteristic of or correlated with the judicial system.
Keywords: Social work in the socio-legal sphere. Law. Justiciability of social rights. Socio-legal 
institutions.
*	Recupero,	neste	texto,	parte	significativa	(inclusive	com	reprodução	literal	de	algumas	passagens)	das	
reflexões	que	fiz	no	processo	de	assessoria	ao	Grupo	de	Trabalho	do	Campo	Sociojurídico	do	Conjunto	CFESS/
Cress, as quais estão registradas no texto não publicado intitulado “O Serviço Social no ‘campo sociojurídico’: 
primeiras aproximações analíticas a partir de uma perspectiva crítico-ontológica” (cf. Borgianni, 2013).
** Assistente social do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mestre e doutora em Serviço Social 
pela PUC-SP, São Paulo, Brasil, presidente da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal 
de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), gestões 2009-13 e 2013-17. E-mail: beteju@terra.com.br.
 ARTIGOS
408 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Introdução
O presente artigo pretende somar-se ao esforço coletivo que vem sendo feito para conhecer, apoiar e desenvolver, na direção do projeto ético-político do Serviço Social brasileiro, o trabalho realizado pelos assistentes sociais nos diversos espaços sócio-ocupacionais pertencentes ao até aqui cha-
mado “campo sociojurídico”. Digo “até aqui” porque após estudos recentes venho 
desenvolvendo	a	compreensão	de	que	a	esfera	do	“jurídico”,	antes	de	configurar-se	
como um campo	específico	configura-se,	para	nós,	assistentes	sociais,	como	uma	
área de atuação e também de produção de conhecimento (a área sociojurídica).
Minha pretensão neste artigo que, como poderá ser observado, está baseado 
em estudos bastante preliminares, é apenas apontar alguns elementos fundamentais 
para	se	pensar	o	significado	da	atuação	do	assistente	social	nessa	área,	não	aden-
trando,	por	hora,	nas	especificidades	de	suas	institucionalidades	—	como	Tribunais	
de Justiça, Sistema Prisional, Ministério Público, Defensorias etc.
Entendendo que a busca da particularidade dos espaços que conformam o 
sociojurídico não pode prescindir de uma caracterização “geral”, proponho que 
trabalhemos a partir da perspectiva crítico-ontológica para a elucidação dos ele-
mentos centrais e comuns que comparecem à intervenção dos assistentes sociais 
que aí atuam. Esse esforço haverá de ser completado com o trabalho urgente e 
necessário de ir à busca das particularidades de cada uma das institucionalidades 
que	conformam	a	área	—	trabalho	que	já	começa	a	ser	realizado	por	alguns	assis-
tentes sociais que estão atuando nas instituições do sociojurídico, o que certamen-
te contribuirá com o aperfeiçoamento do Serviço Social brasileiro.
Assim, o que estou buscando aqui é apenas e tão somente captar as mediações 
históricas	fundamentais	que	podem	explicitar	o	significado	social	da	profissão	(tal	
como originariamente formulado com precisão por Marilda Iamamoto), no rico e 
problemático universo sociojurídico.
1. O uso da expressão “sociojurídico” no Serviço Social brasileiro: 
como tudo começou
O termo “sociojurídico” foi vinculado pela primeira vez ao Serviço Social 
brasileiro no momento de composição do número 67 da revista ServiçoSocial & 
409Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Sociedade, editada em setembro de 2001, quando inaugurava-se a série de Núme-
ros Especiais desse periódico. A elaboração do referido número ocorreu após soli-
citação do editor, José Xavier Cortez, de que a assessoria editorial da área (pela 
qual	eu	já	respondia	na	ocasião),	fizesse	um	projeto	para	a	edição	de	números	es-
peciais	da	revista	voltados	especificamente	para	temas	com	os	quais	os	assistentes	
sociais	estão	confrontados	diretamente	em	seu	cotidiano	profissional.	Na	época	
(como até hoje), Cortez vinha recebendo várias solicitações de que os livros, bem 
como o periódico editado por sua editora, contemplassem temas e demandas com 
os quais os assistentes sociais viam-se envolvidos em sua prática diária. E muitas 
das solicitações partiam de assistentes sociais que atuavam na área sociojurídica.
Foi quando sugeri ao Conselho Editorial que analisasse a possibilidade de 
iniciar a referida série com artigos relacionados à área penitenciária e judiciária, 
atingindo, com essa publicação, tanto os assistentes sociais que fazem os laudos 
periciais para juízes das Varas da Infância e Juventude (e que trabalham com casos 
de adoção, violência contra crianças, ato infracional de adolescentes etc.) e também 
das	Varas	de	Família	e	Sucessões	(casos	de	disputa	de	guarda	de	filhos,	interdições	
de idosos ou doentes mentais, entre outros), quanto aqueles que trabalham dentro 
do sistema prisional. No momento da escolha para o melhor termo a compor o 
chamado “olho de capa” do referido número, o Conselho Editorial fez várias su-
gestões, e a opção foi pela expressão “Temas Sociojurídicos”. Foi assim, portanto, 
a primeira vez que ocorreu a vinculação do termo “sociojurídico” ao Serviço Social 
brasileiro.1
Em seguida, ocorreria o 10º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, no 
Rio de Janeiro, e seus organizadores pensaram em criar naquele CBAS, pela primei-
ra	vez	na	história	de	nossos	congressos,	uma	seção	temática,	ou	um	painel	específi-
co,	para	aglutinar	os	profissionais	que	trabalham	no	sistema	penitenciário	e	no	Ju-
diciário, e consultaram-me sobre a expressão adequada para nomear a referida seção, 
ao que sugeri que poderiam também utilizar o termo sociojurídico, para chamar a 
atenção de todos os colegas que trabalham nos espaços sócio-ocupacionais que têm 
interface com o universo jurídico. Ali, no 10º CBAS, além de ter sido lançado o n. 
67 da revista Serviço Social & Sociedade, elaborou-se pela primeira vez uma agen-
da de compromissos que incluiriam ações relacionadas a essa área. A partir de 2002, 
1. O Comitê Editorial do n. 67 era formado pelas professoras Andrea Almeida Torres, Eunice Teresinha 
Fávero, Gizelda Morato Franzino, Sílvia Helena Pinho Chuairi, com colaboração especial de Maria Rachel 
Tolosa	Jorge.	Todas	com	inserção	e/ou	experiência	profissional	na	área.
410 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
vários Conselhos Regionais de Serviço Social do Brasil começaram também a criar 
suas Comissões Sociojurídicas que seriam, então, compostas por membros de dire-
ção e assistentes sociais que atuam no Tribunal de Justiça, no Ministério Público, 
nas instituições de cumprimento de medidas socioeducativas e no sistema prisional. 
O primeiro a fazê-lo foi o Cress/7ª Região-RJ, então presidido por Hilda Correa de 
Oliveira,	e	tendo	significativo	protagonismo	de	colegas	daquela	gestão	que	traba-
lhavam (e ainda trabalham) na área, como Andreia C. A. Pequeno (Tribunal de 
Justiça), Tânia Dahmer Pereira e Newvone Ferreira da Silva (Sistema Prisional). 
Andreia	Pequeno	relata	também	que	em	novembro	de	2003	foi	realizada	uma	Ofi-
cina Temática no 2º Congresso Paranaense de Assistentes Sociais e, naquele mesmo 
ano, “houve a incorporação, na grade curricular do curso de graduação da Faculda-
de de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de uma discipli-
na sobre o campo sociojurídico” (Pequeno, 2004, p. 11). Depois disso, já estando na 
direção do Conselho Federal de Serviço Social, compondo a gestão de 2002-2005, 
sob a lúcida presidência de Lea Braga, pude contribuir, juntamente com um grupo 
de colegas do CFESS e do Cress/Paraná, com a organização do I Seminário Nacio-
nal do Serviço Social no Campo Sociojurídico, que ocorreu em 2004, em Curitiba. 
A realização desse seminário havia sido uma deliberação do Encontro Nacional 
CFESS/Cress realizado em Salvador, em 2003, a partir de uma proposta encaminha-
da ao CFESS pelo Cress/7ª Região (Pequeno, idem).
Anoto que foi talvez naquele momento de organização do I Seminário que se 
utilizou pela primeira vez a expressão “Serviço Social no campo sociojurídico”. 
Foge-me totalmente à memória se a direção do CFESS chegou a debater ou não, 
na ocasião, se a melhor expressão seria “campo” ou “área”. A proposta enviada pelo 
Cress/7ª Região foi incorporada para ser levada ao Encontro Nacional, tendo sido 
ali votada sem grandes questionamentos sobre a terminologia.
O que recordo com muita clareza é que, tanto nós do CFESS, quanto os colegas 
do Cress/RJ tínhamos a preocupação de não incentivar nenhuma ideia de que haveria 
um Serviço Social próprio dessa área, algo, por exemplo, como um “Serviço Social 
Sociojurídico”.	Ao	contrário,	tínhamos	a	firme	convicção	de	que	seria	necessário	
sempre explicitar o entendimento de que a profissão é uma só e atua em diferentes 
espaços sócio-ocupacionais, entre eles os que têm interface com o jurídico.
O I Seminário Nacional realizado em Curitiba, em 2004, foi então de grande 
importância, não só por seu pioneirismo, mas pela qualidade da contribuição trazi-
da	pelas	reflexões	de	assistentes	sociais	da	área	e	de	palestrantes	bastante	próximos	
411Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
da temática. Porém o mais importante foi o conteúdo da agenda política ali delibe-
rada que, conforme relato de Eunice Fávero, recomendava, entre outros pontos:
que o Conjunto CFESS/Cress incorpore a denominação “campo das práticas socioju-
rídicas”; e fomente a articulação de comissões do campo sociojurídico em todas as 
regiões” com o objetivo de “discutir e sistematizar as atribuições, competências e 
aspectos éticos a partir do interior do projeto ético-político, o que certamente incen-
tivaria a produção de conhecimentos a respeito das práticas desenvolvidas nas diver-
sas áreas. (Fávero, 2012, p. 123)
Fávero lembra ainda que:
O	CBAS	de	2001,	mais	os	de	2004	e	2007,	 também	definiram	políticas	para	esse	
campo, sendo que a Agenda do 12º, realizada em Foz do Iguaçu em 2007, explicitava 
como compromissos:
“Discutir politicamente os temas das violências, visando superar a fragmentação das 
práticas, a naturalização da barbárie, a eliminação e criminalização dos pobres; pensar 
a indissociabilidade da discussão das violências do projeto ético-político do Serviço 
Social”;	“promover	a	reflexão	sobre	a	ampliação	dos	espaços	de	trabalho	no	campo	
sociojurídico;	refletir	sobre	o	investimento	no	Estado	Penal	em	detrimento	do	Estado	
Social, e priorizar práticas de prevenção; explicitar a denominação Serviço Social no 
Campo Sociojurídico e não Serviço Social Sociojurídico; compreender o estudo social 
e	a	perícia	social	com	objetivos	de	efetivação	de	direitos	—	avançar	em	sua	constru-
ção interdisciplinar e na relação teoria x prática”; “lutar e agilizar gestões para con-
solidação da rede nacional de proteção especial (Creas). (Agenda, 12º CBAS, apud 
Fávero, 2012, p. 124; grifos meus)
Foram	os	profissionais	da	área	sociojurídica	que	estavam	presentes	no	CBAS	
de Foz do Iguaçu que solicitaram ao CFESS a organização de outro evento especí-
fico,	o	que	redundou	no	II	Seminário	do	Serviço	Social	Sociojurídico,	realizado	em	
2009 em Cuiabá.2
2. Vale a pena recuperar o registro de Fávero (2012, p. 125): “[...] no 12º CBAS, de Foz do Iguaçu,aproximadamente	quarenta	profissionais,	de	vários	estados	brasileiros,	que	estão	na	intervenção	cotidiana	ou	
desenvolvendo estudos e pesquisas acadêmicas sobre esse campo, articularam-se para discutir e solicitar do 
CFESS	a	realização	do	II	Encontro	Sociojurídico.	Na	ocasião,	a	justificativa	era	a	necessidade	da	continuidade	
de articulação e premência dos debates em torno das questões teóricas, operacionais e ético-políticas que se 
impõem na realidade social contemporânea. Conforme a solicitação encaminhada ao CFESS, dez dos(as) 
412 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Além desses fatos, penso ser pertinente também resgatar aqui a importância 
de vários eventos realizados por colegas em diferentes pontos do Brasil, preocupa-
dos com a temática da atuação do assistente social nessa área. Entre eles destaco 
um que ocorreu em Natal (RN), no ano de 2002, denominado Serviço Social e 
Assistência Sociojurídica na Área da Criança e do Adolescente: Demandas e Fazer 
Profissional,	promovido	pela	base	de	pesquisa	Trabalho	Profissional	e	Proteção	
Social, sob a coordenação da professora doutora Maria Célia Nicolau.
Destaco a importância daquele evento de Natal, entre tantas outras iniciativas, 
pelo fato de os organizadores terem convidado a professora Marilda Iamamoto para 
ali fazer uma conferência, que meses depois seria transformada pela autora em 
valioso	texto,	publicado	sob	o	título	“Questão	social,	família	e	juventude:	desafios	
do assistente social na área sociojurídica”, como posfácio do livro Política Social, 
família e juventude: uma questão de direitos, organizado por Mione Sales, Maurí-
lio C. de Matos e Maria Cristina Leal, publicado em 2004 pela Cortez Editora e 
lançado por ocasião do I Seminário Nacional, de Curitiba. Ao que eu saiba esse foi 
o primeiro texto de uma das principais pesquisadoras brasileiras do Serviço Social 
dedicado a essa temática, embora Marilda nunca tenha atuado na área. Note-se que 
nesse texto a autora usará sempre a terminologia “área ou esfera sociojurídica”, e 
não “campo”, porém sem entrar no mérito dessa questão terminológica (cf. Iama-
moto, 2004, p. 261-314).3
Essa, digamos, “percepção” dos assistentes sociais brasileiros de que era 
necessário	olhar	com	mais	cuidado	e	profundidade	para	os	desafios	que	estão	pos-
tos	aos	que	atuam	na	área	sociojurídica	—	à	qual	a	revista	Serviço Social & Socie-
dade,	bem	como	o	conjunto	CFESS/Cress	conseguiram	captar	e	dar	voz	—,	é	tri-
butária do próprio movimento da história recente em nosso país, que engendrou 
tanto uma crescente judicialização	dos	conflitos	sociais,	quanto	a	justiciabilidade 
dos	direitos	sociais.	Veremos	isso	com	mais	detalhes	adiante,	mas	antes	cabe	refle-
tir sobre o que compõe essa área que tem interface com o direito e com o universo 
jurídico.
profissionais	 daquele	 grupo	 foram	escolhidos	 para	 compor	 uma	Comissão	Provisória,	 para	 as	 primeiras	
tratativas sobre um possível segundo encontro. Havia colegas do Espírito Santo, Pará, Paraná, Minas Gerais, 
Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, São Paulo, Distrito Federal, entre outros”.
3. Em 2005, Marilda Iamamoto daria também sua contribuição à área aceitando prefaciar a obra 
O Serviço Social e a psicologia no judiciário: construindo saberes, conquistando direitos, organizada por 
Eunice T. Fávero, Magda J. R. Melão e Maria Rachel Tolosa Jorge, e editada pela Cortez, em parceria com 
a Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/
SP) (ver Iamamoto, 2005).
413Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
2. Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica? A partir de que 
bases delimitar o que compõe essa área?
Quem	primeiro	trouxe-nos	uma	tentativa	de	definição	mais	“arredondada”	foi	
Eunice Teresinha Fávero, quando colocou que “o campo (ou sistema) sociojurídico 
diz respeito ao conjunto de áreas em que a ação social do Serviço Social articula-se 
a ações de natureza jurídica, como o sistema penitenciário, o sistema de segurança, 
os sistemas de proteção e acolhimento, como abrigos, internatos, conselhos de di-
reitos, dentre outros” (Fávero, 2003, p. 10). Em outra ocasião, a mesma autora fez 
elucidativa interpretação do papel social cumprido pelas instituições ou organizações 
próprias do sociojurídico: “[...] organizações que desenvolvem ações, por meio das 
quais aplicam sobretudo as medidas decorrentes de aparatos legais, civil e penal, e 
onde se executam determinações deles derivadas” (Fávero, 2012, p. 122-123). E a 
mesma completou: “[...] nessas áreas, direta ou indiretamente, trabalhamos com 
base normativa legal e em suas interpretações pelos operadores jurídicos” (Idem).
No II Seminário Nacional, procurei também dar uma contribuição no sentido 
de	definir	melhor	esse	“campo”	ou	área	e	propus	que	o	Serviço	Social	brasileiro	o	
perspectivasse de forma mais ampliada e profunda, avançando em relação ao que 
todos vínhamos fazendo, que era pensá-lo basicamente a partir das organizações 
ou instituições que o compõem. Sugeri, na ocasião, que buscássemos compreender 
melhor o que é esse “jurídico” de que tanto estávamos falando e recuperei uma das 
ideias correntes no mundo jurídico que me parece muito elucidativa, segundo a qual 
o jurídico é, antes de tudo, o lócus	de	resolução	dos	conflitos	pela	impositividade 
do Estado. E ressaltei, naquele momento, que essa característica, por si só, já colo-
ca	grandes	desafios	éticos	e	políticos	para	a	intervenção	do	assistente	social	(Bor-
gianni, 2012, p. 167). Na oportunidade chamei a atenção para algo que marca 
muito	o	trabalho	de	qualquer	assistente	social	—	ou	de	outro	trabalhador	que	tenha	
que	desempenhar	suas	funções	de	“perito”	nesse	“campo”	—,	que	são	as	determi-
nações complexas que emanam das polaridades antitéticas próprias da esfera jurí-
dica, por exemplo, aquelas que considero uma das mais marcantes: garantir direi-
tos em um espaço ou sistema que é também aquele onde se vai responsabilizar 
civil ou criminalmente alguém (Idem, p. 167-168).
Também naquele II Seminário, o promotor de Justiça Wanderlino Nogueira 
Neto fez observações que nos ajudam a pensar nosso trabalho nessa área. São 
pontuações	com	significativo	conteúdo	heurístico,	principalmente	porque	feitas	por	
414 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
alguém do universo jurídico. O dr. Wanderlino iniciou sua conferência colocando 
que o tema para o qual havia sido convidado a falar interessaria tanto a seu coleti-
vo “na esfera da proteção jurídico-social dos direitos humanos, quanto aos/às as-
sistentes sociais com atuação na esfera da proteção sociojurídica dos direitos so-
cioassistenciais”. E em seguida pontuou:
Aqui estou eu, um operador da Defesa dos Direitos Humanos, a falar para operadores/
as do Serviço Social: ambos/as a atuarem, cada qual a seu modo, na garantia do aces-
so ao Valor-Justiça, tanto em sistemas de políticas públicas, quanto no sistema de 
justiça. Isto é, a fazer do acesso a esses dois sistemas públicos, um “direito do cidadão 
e	um	dever	do	Estado”.	Essas	definições	dos	nossos	campos	de	ação	—	assemelhados	
mas	não	iguais	—,	já	balizam	inicialmente	nosso	enfoque	para	tratar	do	sucesso,	do	
insucesso e das limitações ou possibilidades de enfrentamento da questão social, em 
seu	aspecto	estrutural,	via	judicializações	conjunturais	e	pontuais	de	conflitos	de	in-
teresses e de demandas, nas relações sociais. (Nogueira Neto, 2012, p. 23)
Temos	então,	até	aqui,	o	registro	das	pouquíssimas	tentativas	de	definição	ou	
de delimitação do que caracteriza a atuação do assistente social nesse campo ou 
área que tem interface com o jurídico.
Avancemos,	portanto,	na	reflexão	utilizando-nos	das	mesmas	bases	teórico-me-
todológicas e históricas que dão sustentação ao projeto ético-político do Serviço 
Social brasileiro, ou seja, a perspectivacrítico-ontológica com que Marx analisou 
o	mundo	burguês	e	que	restou	tão	bem	explorada	por	Georg	Lukács	em	suas	refle-
xões a partir dos anos 1930 (essa perspectiva foi abordada em Borgianni, 1997).
2.1 “Campo jurídico” — um conceito pouco elucidativo
De forma sintética, podemos dizer que campo jurídico é um conceito que foi 
formulado	por	Pierre	Bourdieu,	que	o	define	como	determinado	espaço	social	no	
qual	os	chamados	“operadores	do	direito”	—	magistrados,	promotores	e	advogados	
—	“concorrem	pelo	monopólio	 do	direito	 de	 dizer	 o	Direito”	 (Bourdieu,	 apud	
Shiraishi Neto, 2008, p. 83; Gaglietti, 1999, p. 84-85).
Essa	é	uma	definição	que,	em	sua	imediaticidade,	parece	refletir	de	fato	algo	
que pode ser observado quando se trabalha nessa área: há um indiscutível e perma-
nente debate do cotidiano do universo jurídico, entre juízes, promotores e advoga-
415Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
dos, que buscam os elementos que melhor permitam, a cada um, dizer o Direito, 
diante	das	questões	ou	dos	conflitos	jurídicos	com	os	quais	se	confrontam.
Isso	até	incita-nos	a	levantar	algumas	perguntas:	—	Até	que	ponto	esse	é	um	
campo	específico	e/ou	privado	dos	chamados	“operadores	do	Direito?”,	Qual	seria	
a peculiar contribuição do Serviço Social nesse campo jurídico, espaço onde se 
disputa o direito de dizer o Direito?,	O	que	teriam	a	aportar	a	esse	espaço	os	assis-
tentes	sociais	que	se	querem	coerentes	com	o	projeto	ético-político	da	profissão?	
São perguntas que tentarei responder mais adiante.
Contudo,	 para	 avançar	 um	pouco	mais,	 é	 preciso	 recuperar	 o	 significado	
também do Direito e de universo jurídico que, à primeira vista, parecem construções 
sociais que foram sendo erguidas no processo do desenvolvimento do ser humano 
através da história. Construções que aparentemente teriam tido o escopo de afastar 
os homens progressivamente de suas “barreiras naturais”, fazendo com que supe-
rassem	seus	“sentimentos	inatos	de	vingança”	e	também	as	formas	instintivas	—	e	
por	vezes	bárbaras	—	de	resolução	de	conflitos.
Sob essa perspectiva, que eu diria “ingênua”, o direito e o universo jurídico 
teriam sido construídos como um conjunto de regras que objetivam deveres e prer-
rogativas, bem como delimitam quem deve garanti-los (especialistas, magistrados, 
promotores, advogados). Todo esse processo ocorreria ao longo de uma caminhada 
linear e rumo à construção de um sistema de ordenações normativas em que um 
ente	superior	aos	interesses	individuais	e	privados	—	o	Estado	—	também	teria	
sido	erguido	com	a	responsabilidade	de	equilibrar	ou	“pacificar”	relações	confli-
tuosas entre os indivíduos.
É bastante comum ver análises “históricas” sobre a evolução do direito ou do 
“estado	de	direito”	que	refletem	esse	tipo	de	visão	simplista	e	mecanicista,	segun-
do a qual a civilização teria marchado decididamente no curso da história no sen-
tido	de	implantar	regras	e	normas	que,	ao	fim	e	ao	cabo,	formariam	o	chamado	
“império das leis”, a partir do qual as relações singulares e coletivas poderiam ser 
reguladas. O Estado apareceria aí, então, como o elemento garantidor da chamada 
“paz	social”	frente	aos	“naturais”	conflitos	de	interesses	de	uma	sociedade	forma-
da por indivíduos que seriam iguais em termos das oportunidades que a sociedade 
pode oferecer-lhe e diferentes em suas capacidades de usufruí-las. A partir dessa 
visão idílica e falseadora do real, legalidade e legitimidade formariam os pressu-
postos formais do chamado estado de direito, segundo o qual “o homem” seria o 
centro e a razão do “sistema social”.
416 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Essas	são	definições	ou	explicações	que,	algumas	delas	reais	(no	caso	da	de	
Bourdieu,	que	citei	anteriormente),	ou	mistificadoras	neste	segundo	caso,	parecem	
levar-nos apenas ao vestíbulo do conhecimento, não fornecendo a clareza sobre as 
concretas determinações dessas esferas de objetivação do ser social que são o 
universo jurídico e o direito.
2.2 A perspectiva lukacsiana para pensar o Direito e o universo jurídico
A aproximação mais fecunda com as questões próprias dessa esfera pode ser 
alcançada se a análise partir dos fundamentos crítico-analíticos ou teórico-metodo-
lógicos que emanam da perspectiva crítico-dialética e ontológica de Marx, aponta-
da com tanta profundidade por Georg Lukács.
Em obra sintética e esclarecedora, Vitor Bartoletti Sartori (2010) se propôs a 
pensar	o	Direito	a	partir	dessa	perspectiva.	Em	virtude	de	sua	clareza	e	fidelidade	
à fonte lukacsiana é que utilizarei muitas passagens literais dessa obra, citando 
somente as páginas de onde foram extraídas. Recorrerei também às análises feitas 
por outros autores, como E. Pasukanis (1977), e R. Carli (2012), para demarcar 
elementos centrais sobre o direito e a política como duas das importantes e centrais 
objetivações do ser social.
Por tratar o Direito como parte de uma totalidade histórica, calçando suas 
análises nas categorias fundamentais do método de Marx, é que Lukács consegue 
avançar em relação a inúmeros autores que se debruçaram sobre esse tema nos 
últimos	dois	séculos	e	que,	por	vezes,	ficam	aprisionados	nos	limites	do	idealismo	
ou do positivismo.
Nessa direção, é pertinente resgatar, logo de início, que Lukács, ao tratar das 
objetivações do homem no processo de sua constituição enquanto ser social, res-
salta que o mesmo desenvolve duas formas de pôr teleológico: aquela voltada di-
retamente para a transformação da natureza e aquela voltada para, digamos, o in-
fluenciar	 de	 outros	 homens.	É	 o	 que	 ele	 denomina	 de	 teleologias	primárias e 
secundárias	—	ambas	intimamente	ligadas	entre	si.	Assim,	falando	de	modo	resu-
mido, enquanto o trabalho em sentido estrito é uma posição teleológica primária 
—	e	eternamente	necessária	—,	pela	qual	os	homens	se	apropriam	dos	elementos	
da natureza para produzir os meios de sua subsistência, as posições secundárias são 
417Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
aquelas que visam “extrair um determinado comportamento coletivo” (cf. Carli, 
2012, p. 9).4
No exemplo translúcido de Carli:
o	trabalho	significa	a	transformação	de	pedras	e	madeiras	em	instrumentos	[...],	 já	
outras esferas do ser social, como a política, por exemplo, não transformam a nature-
za; procuram agir sobre a sociedade. As posições secundárias não agem sobre a natu-
reza, mas sim sobre um grupo de homens. A ação política é uma posição teleológica 
secundária precisamente porque procura extrair um determinado comportamento de 
um coletivo. Um partido político procura, em suas ações, produzir uma reação espe-
cífica	de	indivíduos	determinados,	seja	para	a	conservação	da	ordem	estabelecida	ou	
para sua transformação (Idem).
E Carli recolhe de Lukács uma observação sobre a política que cabe também 
para o direito:
Com o desenvolvimento histórico posterior, isto é, com o surgimento das sociedades 
classistas, as posições teleológicas secundárias tornam-se formas de ideologia, que 
são as modalidades de comportamento através das quais os homens se fazem cons-
cientes	dos	conflitos	postos	e	“neles	se	inserem	mediante	a	luta”	(p.	18).
Resumindo, tanto o direito como a política são vistos por Lukács como ex-
pressões das teleologias secundárias. Aquelas que, diferentemente dos atos teleo-
lógicos voltados para a transformação da natureza para obtenção dos meios de vida 
—	e	que	 estão	 englobadas	 nas	 crescentemente	 complexas	 e	mediadas	 relações	
econômicas	—,	 expressam	as	mediações	que	 se	 criam	e	 se	 institucionalizam	a	
partir de atos teleológicos secundários, dando as formas da totalidade social no 
universo burguês.
Ressaltando que “secundário” nesse contexto não quer dizer menor ou de 
menor importância, mas apenas o lugar que ocupa em meio à totalidade social, 
Sartori aponta que o Direitoé um complexo que não possui caráter fundante, mas 
que não pode ser dissociado daquela esfera do ser social na qual ele produz seus 
meios	de	vida	—	a	esfera	econômica	(cf.	Sartori,	2010,	p.	94).
4.	Ou	nas	próprias	palavras	do	filósofo	húngaro:	“[...]	as	posições	teleológicas	necessárias	são	[...]	de	
duas	formas:	aquelas	que	visam	transformar,	com	finalidades	humanas,	objetos	naturais	[...]	e	aquelas	que	
tencionam incidir sobre a consciência dos outros homens para impedi-los de executar as posições desejadas” 
(Lukács, apud Sartori, 2010, p. 54).
418 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Assim é que Lukács, ao se indagar sobre o “lugar” do Direito na práxis social, 
observa que ele tem importante papel nas esferas relacionadas à reprodução social, 
configurando-se	como	uma	mediação	que	é	própria	da	sociedade	burguesa	—	e	que	
somente aí se desenvolve enquanto tal com toda a sua completude. Ou seja, embo-
ra	em	tempos	pretéritos	tenham	existido	variadas	formas	de	regulação	dos	conflitos	
humanos, bem como de “reparação de danos”, e de responsabilização daqueles que 
os causaram a alguém ou a alguma coisa,5 aquilo que realmente pode ser denomi-
nado com a expressão direito só surge em determinado estágio da trajetória do ser 
social ao longo da historia e quando estão presentes outras determinações peculia-
res àquele estágio.
O	que	o	filósofo	magiar	demarcará	então,	com	muita	precisão,	assim	como	já	
o	fizera	Marx,	é	que	somente	quando	presentes	categorias	históricas	como	classe 
social e Estado é que surge a ideia de direito como “conjunto de normas jurídicas 
de	acordo	com	as	quais	a	sociedade	se	organiza	com	a	finalidade	de	manter	a	ordem	
e o convívio social” (Sartori, 2010, p. 9).
Assim, a aparência do direito como algo acima dos interesses antagônicos das 
classes	 sociais,	 como	um	“sistema	autossuficiente	calcado	na	cientificidade	dos	
especialistas	e	na	precisão	do	reflexo	 jurídico,	supostamente	capaz	de	captar	as	
necessidades sociais como um todo” (Sartori, 2010, p. 107), só se resolve em de-
terminada	quadra	histórica:	justamente	aquela	que	faz	nascer	também	as	reificadas	
relações burguesas de produção, regidas pelo capital. Aliás, F. Engels já havia 
mostrado como o surgimento de especialistas dessa área e a autonomia relativa que 
o complexo jurídico vai adquirindo são produtos do desenvolvimento social. Se-
gundo o próprio Bourdieu, em “uma carta dirigida a Conrad Schmidt, Engels ob-
serva o aparecimento do direito enquanto tal, ou seja, como ‘esfera autônoma’, 
acompanhando os progressos da divisão do trabalho que levam à constituição de 
um	corpo	de	juristas	profissionais”	(Bourdieu,	1999,	p.	101).
5. Ranieri Carli mostra que Lawrence Krader estudou alguns povos comunitários e sua organização do 
poder	(e	também	da	“justiça”,	diria	eu).	[Krader]	“verificou	que	entre	os	esquimós,	por	exemplo,	era	constituído	
o seguinte arranjo de forças: ‘não possuem chefes, nem conselhos consultivos, nem assembleias deliberativas, 
embora pratiquem uma forma de liderança econômica individual: na caça da baleia, o dono do barco tem 
domínio sobre a tripulação, e o direito primordial sobre a presa’. As querelas eram resolvidas de modo peculiar: 
por meio do ‘duelo cantado’. O queixoso e o acusado cantam canções alternadas em que relatam as suas 
versões	sobre	o	incidente.	‘O	ofendido	relata	os	danos	a	ele	e	busca	reparação;	o	que	se	defende	afirma	a	
inocência, defendendo-se de outro modo. A decisão entre acusado e acusador é tomada pela comunidade’” 
(Krader, apud Carli, op. cit., p. 12).
419Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
A relação da gênese do direito com o desenvolvimento das formas econômi-
cas mercantis, bem como, naturalmente, com as formas políticas que se erguem a 
partir	dessa	base	material	—	o	Estado	burguês	que	dá	sustentação	às	profundas	
desigualdades	de	classes	que	daí	surgem,	por	exemplo	—,	é	vista	com	clareza	por	
Lukács, assim como já estava presente na tese seminal de E. Pasukanis sobre o 
significado	do	direito	numa	sociedade	cujas	relações	fundamentais	são	baseadas	
em	processos	nos	quais	os	produtores	do	trabalho	humano	ficam	igualados	na	for-
ma de mercadoria. De fato, como demonstrado genialmente por Marx, a forma 
mercadoria	“esconde”	o	real	valor	que	tem	o	trabalho	humano	—	enquanto	produ-
tor	de	possibilidades	novas	diante	da	natureza	e	dos	outros	homens	—,	sob	o	man-
to alienante e fetichizante do valor de troca	e	das	equivalências	mistificadas	que	
esse processo metabólico produz.
Outrossim, deve-se observar mais uma vez que a análise lukasciana, na estei-
ra de como procedera Marx na relação com seus objetos de estudo, não separa ar-
tificiosamente	os	elementos	de	uma	totalidade	concreta.	Eles	perspectivam	o	de-
senvolvimento do ser social burguês sempre como um processo unitário. Por isso, 
para Lukács era impossível pensar o direito e suas categorias centrais sem resgatar 
aquelas	que	fazem	parte	do	desenvolvimento	unitário	—	e	contraditório	—	da	so-
ciedade do capital, como propriedade privada, divisão social do trabalho, classes 
sociais, Estado etc. Desse modo, tão ou mais importante do que apenas localizar a 
gênese histórica do direito no surgimento da sociedade de classes é conseguir cap-
tar	as	forças	contraditórias	—	ou	as	“negatividades”	que	lhe	conferem	o	movimen-
to	—	que	operam	em	seu	interior,	bem	como	os	processos	que	as	encobrem.
Nesse sentido, foi Pasukanis quem conseguiu, a partir das contribuições de 
Marx, descrever um dos (senão o principal) vínculos problemáticos que se estabe-
lecem entre a forma jurídica e a mercantil:
Marx nos mostra a condição fundamental, enraizada na estrutura econômica da própria 
sociedade, da existência da forma jurídica, isto é, da unificação dos diferentes rendi-
mentos do trabalho segundo o princípio da troca de equivalentes. Ele descobre, assim, 
o profundo vínculo interno existente entre a forma jurídica e a forma mercantil. Uma 
sociedade que é constrangida, pelo estado de suas forças produtivas, a manter uma 
relação de equivalência entre o dispêndio de trabalho e a remuneração, sob uma 
forma que lembra, mesmo de longe, a troca de valores-mercadorias, será constran-
gida, igualmente, a manter a forma jurídica. Somente partindo desse momento fun-
420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
damental é que se pode compreender porque toda uma série de outras relações sociais 
reveste a forma jurídica. (Pasukanis, apud Sartori, 2010, p. 109; grifos meus)
A partir de perspectiva semelhante, Lukács destacou como os processos de 
circulação de mercadorias vieram a favorecer, ao longo da história do ser social 
burguês,	o	surgimento	de	sistematizações	e	reflexões	teóricas	e	doutrinárias	abstra-
tas e gerais que serviram para a regulação das trocas comerciais e para a produção 
capitalista em geral.
O	filósofo	húngaro	 consegue	 então	 capturar,	 pela	 análise,	 as	 contradições	
fundamentais que se estabelecem no interior da economia	—	enquanto	expressão	
de	teleologias	primárias,	como	vimos	—	e	do	direito	—	expressão	clara	de	teleo-
logias	de	tipo	secundário	—	bem	como	na	relação	entre	essas	duas	esferas	de	obje-
tivação do ser social. Nesse processo, o direito vai se revelando também como 
elemento	mistificador	das	reais	formas	antagônicas	das	relações	sociais	no	mundo	
burguês	e	até	como	indutor	de	novas	mistificações.	É	do	processo	de	equalização	
de relações entre desiguais, que ocorre na troca mercantil, que Lukács, segundo 
Sartori, extrai a ambiguidade	do	conceito	de	justiça	no	mundo	burguês.	O	filósofo	
húngaro capta toda a complexidade desse processo e, segundo Sartori, chega a 
apontar o direito como um dos sustentáculos da desigualdade em qualquer socie-
dade que não rompa com a forma de propriedade privada (ou estatal) dos meios de 
produção.	O	resgate	da	reflexão	luckasciana	contribui,portanto,	para	a	desmistifi-
cação daquela visão segundo a qual o direito poderia ordenar e coordenar interesses 
conflitantes	que	se	manifestam	na	vida	social.	O	que	aparece,	então,	com	todas	as	
suas nuances, é a característica que o direito e o ordenamento jurídico adquirem, 
ao longo do desenvolvimento do ser social, de tornarem-se escoras complexas de 
uma	ordem	 societária	 injusta	—	e	 ela	mesma	 reprodutora	 de	desigualdades	—	
fornecendo-lhe uma aparência de igualdade.6
6. “[...] o Direito não é burguês simplesmente por servir aos interesses burgueses, mas sim por estar 
indissociavelmente conectado com a gênese e com a manutenção da sociedade civil burguesa (e com a própria 
forma	mercantil).	Sua	configuração,	com	a	correlata	noção	de	 igualdade	 jurídica,	permanece	nos	 limites	
burgueses,	ou	seja,	da	sociedade	civil-burguesa,	mesmo	após	a	expropriação	dos	exploradores.	Isso	significa	
que,	mesmo	na	‘transição	ao	modo	de	produção	socialista’,	haveria	a	configuração	de	desigualdade,	pois	o	
direito perpetua sua forma após a mudança nominal de proprietário dos meios de produção, sendo, portanto, 
como	todo	o	direito,	o	direito	de	desigualdade.	Configura-se,	assim,	enorme	engano	entender-se	socialista	
uma sociedade que transfere juridicamente (ou seja, ‘com os limites aqui enumerados’) a propriedade dos 
meios de produção à coletividade” (Sartori, 2010, p. 114).
421Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Mas falar em reprodução das relações sociais na sociedade capitalista é falar 
em contradições e antagonismos, o que nos leva, já de início, à consideração de 
que o direito, também ele, é atravessado por essas negatividades e torna-se repro-
dutor mesmo dessas relações. Por isso é muito importante resgatar como Lukács, 
ao	afirmar	o	conteúdo	de	classe	do	direito,	não	deixa	de	apontar	o	complexo	de	
processos contraditórios que, justamente por isso, esse direito carrega em seu inte-
rior,	o	que	oportuniza	a	problematização	de	sua	aparente	neutralidade.	O	filósofo	
húngaro	reafirma,	sobretudo,	que	nenhum	desses	processos	decorre	de	qualquer	
teleologia estranha ao mundo dos homens: antes resultam da práxis concreta do ser 
social e por eles podem ser também transformados.
Nesse sentido, embora o direito seja um direito de classe	—	vale	dizer,	de	
classe	dominante	—,	esse	conteúdo	de	classe	não	pode	ser	apartado	do	complexo	
social total e das mediações que surgem permanentemente em seu interior, a partir 
das negatividades que se impõem. E nosso autor faz notar, nesse processo, que as 
abstrações próprias do direito garantem que princípios como liberdade, dignidade 
etc., convivam com aqueles que são próprios da sociedade que é regida pelo valor 
de	 troca	e	pelo	 trabalho	assalariado	—	como	competição	e	 impessoalidade,	por	
exemplo.
Segurança jurídica e “imparcialidade” são valores muito caros à necessida-
de de reprodução da sociedade regida pelo capital. Cumprem um papel funda-
mental	na	construção	de	uma	aparência	fetichizada	ou	até	reificada	de	relações	
de desigualdade que não podem aparecer enquanto tais. E todos os intrincados 
processos	societários	que	subjazem	ao	direito	e	ao	universo	jurídico	têm	que	ficar	
subsumidos para que ele possa cumprir suas funções na sociedade e inserir-se na 
vida normal de todos os homens. O fato de aparentemente ser uma esfera autos-
suficiente,	e	que	apenas	especialistas	podem	dominar	seus	códigos	e	linguagem,	
tem	a	ver	precisamente	com	aquilo	que	Lukács	 identificou	e	nomeou	como	o	
“novo fetichismo”:
O novo fetichismo [...] consiste no fato de que o Direito é tratado [...] como um cam-
po	fixo,	compacto,	determinado	com	univocidade	“lógica”	e,	desta	forma,	é	objeto	de	
pura manipulação não somente na práxis, mas também na teoria, onde é entendido 
como	um	complexo	fechado	na	própria	imanência,	autossuficiência,	acabado	em	si,	
que apenas é possível manejar corretamente mediante a lógica jurídica. (Lukács, apud 
Sartori, 2010, p. 96)
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Autonomia, especialistas e instituições que o sustentam também fazem parte 
das requisições básicas para que o direito possa existir na sociedade de desiguais e 
que produz cotidianamente a desigualdade.
O fato de o direito ter um caráter de classe e de ser sustentado por um Estado, 
também ele dominado por interesses de classe majoritárias, tem as maiores conse-
quências na vida das pessoas, principalmente quando “julgadas” por algum “crime”, 
ou por algum ato ilícito, pois elas estarão, no limite, à mercê dessa discricionarie-
dade de classe, ainda que isso se dê com muitas e complexas mediações.
Mas	é	importante	reafirmar	que	o	direito	não	é	algo	monolítico,	constituído	
por tendências unilineares que apontam em uma única direção de dominação clas-
sista;	pelo	contrário,	é	um	processo	social	permeado	de	contradições	—	embora	
pretendendo-se isentas delas. Nas palavras de Lukács,
O funcionamento do Direito positivo se apoia [...] sobre o seguinte método: manipu-
lar um turbilhão de contradições de modo tal que dele surja um sistema, não só 
unitário, mas também capaz de regular praticamente, tendendo ao ótimo, o contra-
ditório acontecer social, de sempre se mover com elasticidade entre polos antinômi-
cos	[...],	a	fim	de	sempre	reproduzir	—	no	curso	de	contínuas	alterações	do	equilíbrio	
no	interior	de	um	domínio	de	classes	em	lenta	ou	rápida	transformação	—	as	decisões	
e os estímulos às práticas sociais mais favoráveis àquela sociedade. (Lukács, apud 
Sartori, 2010, p. 115; grifos meus)
Em outros termos, o direito é também permeável à atuação das forças que 
pretendem nele incidir em busca de novos ordenamentos das relações sociais, e não 
só à manutenção do estado de coisas. É o que abordaremos no item sobre a justi-
ciabilidade dos direitos sociais.
Mas antes é preciso responder à questão inicial: qual é, então, a melhor forma 
para referirmo-nos ao Serviço Social quando o assistente social atua na interface 
com	o	jurídico	e	com	o	direito?
2.3 Afinal, Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica (ou “jurídico‑social”)?
À	luz	de	toda	a	reflexão	precedente,	proponho	que,	em	vez	de	“campo	socio-
jurídico” ou “jurídico-social”, adotemos a terminologia área sociojurídica.
423Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Justifico:	em	primeiro	lugar,	não	seria	“campo”,	naquele	sentido	de	Bourdieu,	
porque não estamos disputando (corporativamente) com magistrados, promotores 
ou advogados, nesse espaço ou nessa área, o direito de dizer o direito (ainda que 
seja o direito social!). Antes, é preciso ver tais operadores ou especialistas do di-
reito como trabalhadores que, tal qual os assistentes sociais, psicólogos, educadores 
etc., estão subordinados à mesma lógica do assalariamento de suas atividades, 
ainda que com diferenças bastante acentuadas (que têm a ver com aquilo que Lukács 
e Engels observaram sobre os “especialistas” do direito), que vale a pena a qualquer 
momento aprofundar pela análise.
O	que	 está	 dado	 como	desafio	 e	 possibilidade	 aos	 assistentes	 sociais	 que	
atuam nessa esfera em que o jurídico	é	a	mediação	principal	—	ou	seja,	nesse	lócus 
onde	os	conflitos	se	resolvem	pela	impositividade	do	Estado	—	é trazer aos autos 
de um processo ou a uma decisão judicial os resultados de uma rica aproximação 
à totalidade dos fatos que formam a tessitura contraditória das relações sociais 
nessa sociedade, em que predominam os interesses privados e de acumulação, 
buscando, a cada momento, revelar o real, que é expressão do movimento instau-
rado pelas negatividades intrínsecas e por processos contraditórios, mas que 
aparece como “coleção de fenômenos” nos quais estão presentes as formas misti-
ficadoras e fetichizantes que operam também no universo jurídico no sentido de 
obscurecer o que tensiona, de fato, a sociedade declasses.
A partir das expressões cotidianas mais singulares e aparentemente desprovi-
das de mediações sociais concretas é que os assistentes sociais que atuam nessa 
área têm que operar e trabalhar para reverter a tendência reprodutora da dominação, 
da culpabilização dos indivíduos e da vigilância de seus comportamentos.
Em	resumo:	se	o	direito	—	que	só	surge	quando	também	se	completam	os	
requisitos	históricos	para	o	surgimento	da	sociedade	de	classes	—	é	um	dos	sus-
tentáculos de uma ordem produtora e reprodutora de desigualdades, ele também 
tem em suas entranhas um incessante movimento de contrários. E para não esque-
cer	as	certeiras	lições	de	Iamamoto	a	respeito	do	significado	social	de	nossa	profis-
são, é justamente por isso que o Serviço Social pode operar no universo jurídico, 
optando por fortalecer um ou outro polo dessas contradições, tema do próximo item 
de	nossa	reflexão.
Em segundo lugar, vejo que a prioridade ontológica aqui é do “social”, e não 
do “jurídico”, uma vez que as teleologias primárias que põem a questão social como 
expressão	da	luta	de	classes	—	ou,	mais	precisamente,	as	disputas	permanentes	do	
424 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
capital contra o trabalho na busca de maior exploração, e do trabalho contra capital 
na	resistência	a	esse	processo	de	exploração	(e	tudo	que	daí	recorre)	—,	essa	luta,	
esse	conflito	é	que	põe	ao	ser	social	a	necessidade	da	 instituição	de	 teleologias	
secundárias, como o direito, o universo jurídico e a política, conforme já vimos.
Assim, sociojurídico expressa com mais precisão do que jurídico-social o que 
o Serviço Social quer nominar como espaço onde se põem demandas que têm uma 
especificidade	histórica	em	relação	a	outras	áreas.	Vale	dizer:	justamente	porque	a	
questão social é a expressão da luta de classes, da alienação do trabalho, da neces-
sidade que o capital tem de manter a propriedade privada (que, essa sim, é uma 
categoria jurídica) etc., e que gera o movimento da história e de todas as demais 
objetivações do ser social no mundo burguês, ela tem prioridade ontológica em 
relação às objetivações que se plasmam a partir de teleologias secundárias como o 
direito e a política.
Por	entender	o	“social”	—	ou	essa	partícula	sócio	—	como	expressão	conden-
sada da questão social, e dela emanarem continuamente as necessidades que ense-
jarão a intervenção de juristas, especialistas do direito, de agentes políticos e seus 
partidos etc., assim como, por ser espaço contraditório no qual os assistentes sociais 
atuam	—	buscando	defender	tanto	o	projeto	ético-político	da	profissão	como	seus	
direitos	como	trabalhadores	—	é	que	defendo	que	passemos	a	utilizar	a	expressão	
Serviço Social na área sociojurídica.
Assim, em termos sintéticos e simples, pode-se dizer que o trabalho do assis-
tente social na área sociojurídica é aquele que se desenvolve não só no interior das 
instituições estatais que formam o sistema de justiça (Tribunais de Justiça, Minis-
tério Público e Defensorias), o aparato estatal militar e de segurança pública, bem 
como o Ministério de Justiça e as Secretarias de Justiça dos estados, mas também 
aquele que se desenvolve nas interfaces com os entes que formam o Sistema de 
Garantias de Direitos (cf. Conanda, 2006) que, por força das demandas às quais 
têm que dar respostas, confrontam-se em algum momento de suas ações com a 
necessidade	de	resolver	um	conflito	de	interesses	(individuais	ou	coletivos)	lançan-
do mão da impositividade do Estado, ou seja, recorrendo ao universo jurídico.
Nesse	sentido,	a	existência	da	lide,	que	significa	“pretensão	resistida”	(cf.	Del-
fino,	2013)	e	de	um	processo	judicial	(seja	ele	civil,	criminal,	penal	ou	da	área	dos	
direitos da infância e juventude e dos relativos aos direitos humanos e aos direitos 
sociais) é um demarcador quase que obrigatório para considerarmos que se está em 
face ou não do universo sociojurídico. Assim, tanto o assistente social que atua em 
uma instituição de acolhimento de crianças e adolescentes, que estão sob a medida 
425Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
protetiva de acolhimento institucional (um abrigo), como aquele que atua em uma 
Vara de Infância, ou em uma Defensoria Pública, estará atuando no universo socio-
jurídico ou na interface com ele. Isso é fácil de perceber.
Também	os	assistentes	sociais	que	atuam	como	agentes	fiscais	nos	Conselhos	
de	Fiscalização	Profissional	(conjunto	CFESS/Cress)	e	em	suas	diretorias	fazem	
parte	do	universo	sociojurídico,	uma	vez	que	os	conselhos	profissionais	são	tribunais	
de ética e têm o poder de determinar juridicamente (ou seja, pela impositividade 
do	Estado)	quem	pode	ou	não	exercer	a	profissão	de	assistente	social	ou	se	deve	ter	
esse exercício suspenso ou não por força de decisão emanada dos julgamentos 
éticos, à luz das legislações pertinentes. Mais complexo é delimitar até que ponto 
os assistentes sociais que estão atuando nos Centros de Referência em Assistência 
Social (Cras) e/ou nos Centros Especializados de Referência em Assistência Social 
(Creas) estariam atuando também nas fronteiras desse universo.
Pode-se dizer, sem medo de errar, que dependerá de cada caso. Os casos que 
são atendidos no âmbito da política de assistência social e até da saúde podem, sim, 
ter interface com essa área. Basta pensar em um caso de violência doméstica ou 
abuso	sexual	de	criança	que	vai	ser	atendido	por	profissionais	de	toda	a	rede	de	
proteção de direitos, ou em um caso de proteção pela Lei Maria da Penha. Enquan-
to aquele caso estiver “judicializado”, ou constituir-se em uma lide (“pretensão 
resistida”, conforme vimos anteriormente), pertencerá ao universo sociojurídico. 
Ou seja, sua resolutividade, além de todas as iniciativas de proteção social e psico-
lógica, também será tributária de uma decisão judicial.
Após ter demarcado minimamente essas fronteiras, cabe apontar, ainda que 
brevemente, o potencial que está reservado aos assistentes sociais nessa área.
3. Judicialização das expressões da questão social e justiciabilidade dos 
direitos sociais no Brasil: espaço importante para o trabalho de assistentes 
sociais que atuam no sociojurídico
Vários autores têm se debruçado sobre a tendência, que vem se desenvolven-
do nos últimos anos no Brasil, de se levar ao Poder Judiciário, ou à área jurídica, 
centenas e milhares de casos que poderiam, ou deveriam, ser respondidos no âm-
bito da esfera política.
426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Alguns deles mostram que após as importantes conquistas trazidas pela 
Constituição de 1988 (também ela fruto de grandes embates sociais, como sabemos), 
instalou-se uma forte tendência neoliberal de desmonte e contrarreformas do Esta-
do, fazendo com que as políticas não fossem capazes de atender às demandas so-
cietárias e aos quesitos de proteção de direitos sociais determinados pela Consti-
tuição. Tampouco o movimento social e os sindicatos, centrais sindicais e entidades 
representativas	dos	 trabalhadores	 tiveram	força	suficiente	para	 fazer	valer	esses	
direitos para amplas parcelas da população brasileira.
Tal panorama levou a que o Poder Judiciário passasse a ser o depositário das 
demandas sociais dos segmentos mais fragilizados e subalternizados da sociedade, 
na busca de fazer valer os direitos sociais trabalhistas, de proteção de crianças, 
idosos etc. Ou seja, aquilo que pela pactuação política não está sendo possível 
conquistar em nosso país, desde Collor, Fernando Henrique, passando por Lula e 
agora	Dilma	—	porque	os	interesses	econômicos	e	financeiros	das	elites	dominan-
tes	determinam	claramente	os	rumos	do	Estado	brasileiro	—,	está	se	buscando	no	
Poder Judiciário, pois, sem muitas alternativas, a população não tem como reivin-
dicar fácil acesso a direitos básicos de cidadania.
José Paulo Netto, em 1999,já apontava, em lúcida análise sobre o governo 
Collor, como o Estado estava sendo colocado a serviço dos reordenamentos impos-
tos pelo projeto político do grande capital internacional, “subvertendo e negando a 
lógica constitucional de defesa de direitos” e levando a uma “inviabilização da 
alternativa constitucional da construção de um Estado com amplas responsabilida-
des sociais, garantidor de direitos sociais universalizados” (cf. Netto, 1999).
E também como outros autores, Beatriz Aguinsky e Ecleia Huff de Alencastro 
apontaram que, em todos os governos que vieram depois de Collor, as políticas 
sociais	passaram	a	ser	fragmentadas,	focalizadas	e	a	ter	sérios	problemas	de	finan-
ciamento, o que acabou por impedir sua implementação objetiva (cf. Aguinsky e 
Huff	de	Alencastro,	2006,	p.	19-26).	Por	isso,	os	autores	citados	podem	afirmar	que	
ao mesmo tempo em que houve a ampliação dos direitos positivados na Constitui-
ção Federal de 1988, ocorreu sua negação em diferentes instâncias administrativas, 
o que acabou por gerar esse fenômeno na esfera pública, que é o que alguns juristas 
e	cientistas	sociais	estão	chamando	de	“judicialização	dos	conflitos	sociais”	ou,	
ainda, “judicialização da política”.
Tal fenômeno, segundo Aguinsky e Huff de Alencastro (Idem), caracteriza-se 
pela transferência, para o Poder Judiciário, da responsabilidade de promover o 
enfrentamento à questão social, na perspectiva de efetivação dos direitos humanos. 
427Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Argumentam as autoras que a profunda e persistente deslegitimação do Estado como 
esfera de proteção social dos mais subalternizados fez com que o Poder Judiciário 
ou o sistema de justiça como um todo passasse a ser procurado por esses segmentos 
para que os direitos e atributos de cidadania sejam efetivados. Alguns pesquisado-
res	chegam	a	afirmar	que	o	enfraquecimento	da	política	e	das	esferas	de	resolução	
pública	dos	conflitos	e	das	reivindicações	sociais,	e	o	fato	de	o	próprio	Poder	Exe-
cutivo muitas vezes se colocar como violador de direitos por seus atos ou omissões 
perante a ganância do capital, fez com que a sociedade passasse a incumbir o Ju-
diciário da tarefa de possibilitar a efetivação dos direitos sociais.
Pertinente,	então,	parece	ser	a	definição	de	judicialização,	dada	por	Aguinsky	
e Huff de Alencastro, como a “tendência em curso de transferir para um poder es-
tatal, no caso do Judiciário, a responsabilidade de atendimento, via de regra indi-
vidual,	das	demandas	populares	—	coletivas	e	estruturais,	nas	quais	se	refratam	as	
mudanças do mundo do trabalho e as expressões do agravamento da questão social 
—	em	vez	de	fortalecer	a	perspectiva	de	garantia	de	direitos	positivados,	[o	que]	
pode contribuir para a desresponsabilização do Estado, sobretudo dos poderes 
Legislativo e Executivo, com a efetivação desses direitos, através de políticas pú-
blicas” (Aguinsky e Huff de Alencastro, 2006, p. 25).
Face	perversa	da	judicialização	dos	conflitos	da	sociedade	brasileira	é	também	
a crescente onda de encarceramento de pessoas pertencentes aos extratos mais 
vulnerabilizados da população (e cada vez mais jovens), bem como os apelos 
midiáticos pelo recrudescimento das penas e pela transformação de delitos comuns 
em crimes hediondos; isso para não falar da forte campanha pela redução da ida-
de penal. Alguém já denominou tal processo como próprio de uma era na qual 
impera um “populismo punitivo”. Nunca como hoje as “prisões da miséria” (na 
lúcida caracterização de Löic Wacquant) estiveram tão abarrotadas. E pior: desde 
Washington,	com	sua	política	de	tortura	para	obter	confissões	na	luta	“contra	o	
terrorismo”, e a administração forçada de alimentos a presos em greve de fome 
em Guantânamo, até a criminalização dos movimentos sociais em várias partes do 
mundo, assiste-se a uma regressão brutal nas tentativas de implementação das 
proteções lastreadas no direito dos direitos humanos.
Nesse	passo	de	nossa	 reflexão	é	pertinente	abordar	 também	o	 fato	de	que	
direito e lei não se confundem, sendo o primeiro sempre muito mais amplo e com-
plexo do que a própria lei ou do que as estruturas burocráticas que se formaram 
para garantir seu cumprimento. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto, o 
direito origina-se sempre nas relações sociais (ou “na rua”) e só posteriormente é 
428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
que é objetivado em leis. Tal dinâmica supõe, inclusive, a possibilidade de ques-
tionamento do próprio direito que foi cristalizado em uma lei. Em outros termos, é 
esse processo que possibilita a negação de vigência de uma lei, “colocando-a como 
contrária ao Direito” (Nogueira Neto, 2012, p. 30-31).
Mas outro aspecto da judicialização das expressões da questão social que 
também ganha bastante importância na atualidade é o chamado “controle judicial 
das políticas públicas”. Essa tendência vem se desenvolvendo com força e diz 
respeito às iniciativas da sociedade civil organizada para cobrar judicialmente que 
o Poder Executivo cumpra com o seu dever de implementar ações previstas nas 
legislações orçamentárias que destinam recursos às políticas sociais de proteção à 
infância	e	adolescência,	deficientes,	velhice,	contra	a	violência	doméstica	etc.	Tal	
alternativa é complexa porque envolve a chamada “separação dos poderes” e as 
vedações constitucionais de interferência de um poder sobre outro, e vem ganhan-
do cada vez mais relevância em nossa sociedade, principalmente nessa quadra 
histórica em que se está diante da omissão do Estado ou do não cumprimento de 
preceitos constitucionais que dispõem sobre aspectos vitais à existência dos indi-
víduos	 e	 grupos	 vulnerabilizados.	Nesse	 processo,	 verifica-se	 que	 as	 cortes	 de	
justiça têm sido cada vez mais pressionadas a se pronunciar sobre casos em que 
governantes vetam artigos de leis ou praticam atos que ferem preceitos fundamen-
tais	que	garantiriam	recursos	financeiros	mínimos	às	políticas	sociais	(saúde,	edu-
cação etc.). É o que ocorre, por exemplo, quando governantes vetam leis orçamen-
tárias (cf. Nogueira Neto, 2012, p. 39-41).
Assim, tem-se, neste campo do controle jurisdicional das políticas públicas 
—	ou	naquele	que	Piovesan	e	Vieira	(2013)	chamam	de	justiciabilidade	dos	direi-
tos	sociais	—,	um	enorme	potencial	de	 trabalho	para	os	assistentes	sociais,	que	
podem oferecer importantes subsídios às decisões dos tribunais de justiça para a 
efetivação de direitos de amplas parcelas da população que foram alijadas do aces-
so aos bens produzidos socialmente ao longo de séculos de dominação burguesa 
no País. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto (2012, p. 45),
“[...] nessa fronteira com as políticas públicas sobressaem os hard cases, na expressão 
de	Ronald	Dworkin,	que	pedem,	para	sua	solução,	argumentos	firmados	em	paradigmas	
ético-políticos [...] e na alta sensibilidade judicial e no seu comprometimento com os di-
reitos humanos, com o desenvolvimento humano autossustentado e com a democracia”.
Como abordei linhas atrás, há uma enorme contradição no capitalismo entre 
o sistema produtivo e a organização estatal e jurídica das relações sociais, gerando-se 
429Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
no interior desta contradição inúmeras outras, que acabam sendo o húmus para o 
trabalho de um assistente social quando este se coloca na direção ética e política 
da ampliação e concretização de direitos, e não no fortalecimento do polo da “res-
ponsabilização criminal”. Em outros termos, o âmbito daquilo que Piovesan e 
Vieira denominam de justiciabilidade dos direitos sociais pode ser considerado um 
espaço privilegiado para a atuação do assistente social hoje. Basta observar, por 
exemplo, o manancial de contradições que surgem no cenário jurídico a partir do 
momento em que o movimento social fez insculpirno texto da Constituição Fede-
ral o famoso artigo 6º, que trata dos direitos sociais.7 De fato, esse é um dos artigos 
mais importantes da Constituição para os assistentes sociais em seu trabalho coti-
diano, uma vez que é o que permite a exigibilidade daquilo que deve ser conside-
rado prioritário nas políticas públicas e que até oferece os argumentos concretos 
sobre a necessidade de construção de uma nova organização societária.
Diferente do que ocorre com direitos civis e políticos, a arena da exigibilida-
de dos direitos sociais é aquela em que o universo jurídico tem que buscar soluções 
políticas	e	administrativas	que,	ao	fim	e	ao	cabo,	questionam	as	formas	de	acumu-
lação, bem como acirram as disputas pelo fundo público. É como se o artigo 6º 
tivesse	o	potencial	de	deslocar	os	cidadãos	que	hoje	se	encontram	na	fila	dos	réus 
(como	devedores,	ladrões	de	baixa	periculosidade	e	pequenos	traficantes	etc.)	para	
a	fila	dos	requerentes	de	direitos	perante	o	Estado.	É	também	o	artigo	que	permite	
aos assistentes sociais contribuírem com promotores de justiça e defensores públi-
cos para que estes façam, perante as cortes, a denúncia daquilo que Canotilho 
chamou da “ditadura do caixa vazio”.
Em resumo, temos que com a Constituição de 1988, com o capítulo dos di-
reitos sociais e também das novas funções do Ministério Público, bem como com 
a criação de novas ações jurídicas,8 o assistente social que atua nessa área ganha a 
possibilidade de “dar os argumentos concretos e tangíveis àqueles que vão, no in-
terior do universo jurídico e no curso dos processos judiciais, “dizer o direito social” 
(cf. Piovesan e Vieira, op. cit.).
A Constituição de 1988 trouxe também aos assistentes sociais da área socio-
jurídica a possibilidade de demonstrarem, com dados concretos extraídos de estudos 
sobre a realidade de cada município onde vivem os cidadãos, das prisões onde estão 
7. Os direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal de 1988 são: educação, saúde, 
alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, 
assistência aos desamparados.
8. Como a de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, por exemplo.
430 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
encarcerados,	ou	das	instituições	que	têm	que	defendê-los	—	e,	principalmente,	do	
contato	cotidiano	com	a	população	que	é	alvo	ou	credora	da	Justiça	—,	como	o	não	
cumprimento dos preceitos fundamentais da Constituição lesam a vida e os direitos 
de	parcelas	significativas	da	sociedade.	Mas	para	isso	é	preciso	que	haja	assistentes	
sociais	conscientes	de	seu	papel.	Profissionais	que	sejam	bem	formados	do	ponto	de	
vista crítico analítico e que se disponham a perguntar insistentemente por que o 
universo	jurídico	tende	a	ser	mais	eficaz	e	célere	quando	se	trata	de	defender	o	di-
reito constitucional à propriedade e não apresenta a mesma celeridade e assertivi-
dade no que diz respeito ao direito à dignidade e à proteção física e moral de con-
denados,	 com	 relação	 à	 tortura	 e	maus-tratos	 nas	prisões,	 por	 exemplo?	Afinal,	
ambos	—	o	direito	à	propriedade	e	o	direito	do	cidadão	de	não	ser	agredido	pelo	
Estado	que	deveria	proteger	sua	integridade	quando	sob	sua	custódia	—,	são	iguais	
na esfera dos direitos fundamentais consagrados no Capítulo 5 da Constituição.
4. Alguns desafios da intervenção dos assistentes sociais na interface com 
o Direito e com o universo jurídico
O Serviço Social brasileiro construiu, nos últimos trinta anos, um projeto 
profissional	que	o	coloca	em	uma	perspectiva	de	resistência	à	exploração	capitalis-
ta.	Um	projeto	que	tem	potencial	para	capacitar	os	profissionais	para	um	desempe-
nho	qualificado	nos	diversos	campos	onde	atua,	iluminando-os	para	que	articulem	
suas ações cotidianas a sujeitos coletivos que também se mostrem empenhados 
tanto no acesso a direitos como na busca da construção de outra ordem societária. 
Esse projeto contém um conjunto de referências técnicas, teóricas, éticas e políticas 
para	o	exercício	profissional,	e	está	lastreado	na	perspectiva	crítica	e	ontológica	de	
análise da realidade social, tendo como pressuposto que a sociedade burguesa gera 
limites intransponíveis para se alcançar a real emancipação do ser social.
Mas no interior desse mesmo projeto há o reconhecimento de que as lutas por 
direitos e pela democratização radical das formas de exercício do poder político 
têm considerável potencial para a resistência à barbarização imposta pelo capita-
lismo em sua fase atual, bem como podem contribuir para o avanço de propostas 
coletivas que busquem uma nova organização societária.
A	profissão	viveu,	nas	três	últimas	décadas,	um	rico	movimento	teórico	e	po-
lítico que plasmou interpretações competentes e elucidativas acerca de inúmeros 
431Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
temas de interesse para a sociedade e para outras áreas de produção do conhecimen-
to próximas ao Serviço Social. É assim que ela tem hoje uma interlocução profícua 
e instigante com a Psicologia, com as Ciências Sociais em geral, com a Educação, 
e, notadamente, com o universo jurídico (principalmente no que tange às questões 
de efetivação de direitos de crianças e adolescentes, idosos, mulheres etc.), bem 
como	com	as	várias	profissões	do	campo	da	Saúde	e	da	Assistência	Social.
Um dos elementos propiciadores desses avanços (não o único, obviamente) 
foi a elucidação do significado social da profissão no mundo burguês, por meio das 
seminais análises de Marilda Iamamoto que, já à partida, advertia-nos de que o 
significado social	da	profissão	só	poderia	ser	profunda	e	verdadeiramente	apreen-
dido se a análise fosse capaz de integrar e, ao mesmo tempo, ultrapassar os ele-
mentos	internos	do	Serviço	Social,	ou	seja	—	sua	trajetória	histórica,	a	ação	dos	
profissionais	nos	diversos	campos	de	atuação,	os	parâmetros	legais	que	construiu	
etc.	—,	situando-o	no	contexto	da	totalidade	social	e	das	relações	mais	amplas	que	
o	condicionam.	Segundo	a	autora,	foram	essas	relações	que,	afinal,	acabaram	atri-
buindo ao Serviço Social particularidades	em	relação	a	outras	profissões.	Em	outros	
termos, Iamamoto mostrou-nos que, para compreender o que é e como se desen-
volveu o Serviço Social	enquanto	profissão	—,	ou	seja	como	atividade	assalariada,	
com	competências	específicas	e	atribuições	privativas,	e	cujos	profissionais	 são	
requisitados	por	instituições,	empresas	ou	organizações	em	geral	—,	era	preciso	
entender, primeiramente, como se dá o processo que Marx denomina produção e 
reprodução das relações sociais	no	mundo	burguês,	uma	vez	que	a	profissão	é	
impensável sem a inserção nessas relações.
Foi assim, pois, que Marilda observou que, além de o movimento de reprodu-
ção do capital recriar continuamente a apropriação do trabalho excedente sob a 
forma da mais-valia, ele cria e reproduz, em escala ampliada, os antagonismos das 
relações sociais por meio das quais efetiva-se a produção. Nesse mesmo processo, 
segundo Iamamoto,
[...] reproduz-se a contradição entre igualdade jurídica de livres proprietários, e a desi-
gualdade econômica que envolve a produção social, contraposta à apropriação privada do 
trabalho alheio, ou seja, recriam-se os antagonismos dessas relações e o véu ideológico 
que as envolve, encobrindo sua verdadeira natureza. (Iamamoto, 2007, p. 253)
Após	ressaltar,	então,	que	a	criação	de	uma	superpopulação	trabalhadora	—	
sempre	disponível	para	 ser	 recrutada	—	 faz	parte	da	particularidade	do	 regime	
432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
capitalista	e	que	os	salários	dos	trabalhadores	ficam	à	mercê	da	regulação	desfavo-
rável a seus interesses (justamente em virtude da existência daqueles trabalhadores 
sobrantes), Iamamoto mostra que é a partir dessa factualidade ontológica que se 
consubstancia a questãosocial no mundo burguês.
Assim,	uma	parcela	significativa	dos	assistentes	sociais	brasileiros	desenvol-
veu a compreensão de que a questão social não é apenas a expressão da pauperi-
zação	relativa	da	classe	trabalhadora	sob	o	domínio	do	capital,	significando,	prin-
cipalmente, o conjunto de reivindicações dos trabalhadores por seus direitos e pelo 
seu reconhecimento enquanto classe. Ela é também a expressão da intermediação 
do	Estado	nessas	relações	conflituosas	que	se	estabelecem	entre	trabalhadores	e	
empresariado. Nesse cenário, como já colocado anteriormente, o Estado e suas 
instituições que formam o Poder Judiciário, o Poder Executivo e o Legislativo 
passa a ter um papel fundamental na regulação das relações sociais antagônicas 
próprias do mundo burguês.9
É então, nesse complexo de determinações, em cujo centro opera a mediação 
do Estado capturado pelo capitalismo monopolista, que Iamamoto localiza a gêne-
se	e	o	significado	do	Serviço	Social	como	uma	profissão	que	—	inscrita	na	divisão	
social e técnica do trabalho, e tendo como “matéria-prima” as expressões da ques-
tão	social	—,	se	integra	“ao	processo	de	criação	das	condições	indispensáveis	ao	
funcionamento da força de trabalho e à extração da mais-valia”, embora não parti-
cipe diretamente da produção de mercadorias e do valor (Iamamoto, 2007, p. 256).
Por estar inserido e por ser fruto mesmo dessas relações entre o capital e o 
trabalho, e participar das respostas que o Estado e a sociedade têm que dar aos 
antagonismos de classe, o Serviço Social também adquire um caráter eminente-
mente contraditório. E com essas análises Iamamoto alcançará todas as premissas 
que lhe permitiram formular o que chamei, em outro lugar, de a Grande tese (ver 
Borgianni, 2008):
Como as classes sociais só existem em relação, pela mútua mediação entre elas, a 
atuação do assistente social é necessariamente polarizada pelos interesses de tais 
classes, tendendo a ser cooptada por aqueles que têm uma posição dominante. Reproduz, 
9. Iamamoto descreveu esse processo de forma cristalina já no início dos anos 1980: “O Estado passa 
a intervir diretamente nas relações entre empresariado e a classe trabalhadora, estabelecendo não só uma 
regulamentação	jurídica	do	mercado	de	trabalho,	através	da	legislação	social	e	trabalhista	específicas,	mas	
gerindo a organização e a prestação dos serviços sociais, como um novo tipo de enfrentamento da questão 
social” (In: Iamamoto e Carvaho, 1982, p. 77).
433Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
também, pela mesma atividade, interesses contrapostos que convivem em tensão. 
Responde tanto a demandas do capital como as do trabalho e só pode fortalecer um 
ou outro polo, pela mediação de seu posto. Participa tanto dos mecanismos de domi-
nação e exploração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, de respostas a 
necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e de reprodução dos antago-
nismos desses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel 
da história. A partir dessa compreensão é que se pode estabelecer uma estratégia 
profissional e política para fortalecer as metas do capital ou do trabalho, mas não se 
pode	excluí-los	do	contexto	da	prática	profissional,	visto	que	as	classes	só	existem	
inter-relacionadas.	É	isso	inclusive	que	viabiliza	a	possibilidade	do	profissional	colo-
car-se no horizonte dos interesses das classes trabalhadoras. (Iamamoto, in Iamamoto 
e Carvalho, 1982, p. 75; grifos meus)
Essa	afirmação	do	caráter	contraditório	do	exercício	de	qualquer	assistente	
social	foi	a	contribuição	maior	à	compreensão	dos	reais	desafios	que	estão	coloca-
dos	aos	profissionais	em	sua	prática	cotidiana.	De	fato,	ela	expressa	um	divisor	de	
águas	em	relação	a	análises	que	se	fixam	em	unilateralidades	ou	em	posições	vo-
luntaristas. Essa constatação ontológica tem o potencial de mostrar a qualquer 
profissional	que	sua	ação	pode	tanto	favorecer	os	interesses	do	capital	quanto	os	
do trabalho, pode reforçar iniciativas conservadoras, porque coladas à imediatici-
dade das relações alienadas, ou buscar resistir e romper com as formas autoritárias, 
desumanizadas e antidemocráticas que brotam continuamente do solo burguês, seja 
em uma instituição, seja em uma organização não governamental, ou na assessoria 
a movimentos sociais.
Daí também decorre o caráter essencialmente político	da	ação	profissional,	
“uma vez que ela se explica no âmbito das próprias relações de poder da sociedade” 
(Yazbek, 1999, p. 91).
Naturalmente,	 a	 possibilidade	de	 a	 profissão	 colocar-se	 na	 perspectiva	do	
reforço dos interesses da população trabalhadora, com a qual atua, depende mais 
de um projeto profissional coletivo do que da volição individual dos assistentes 
sociais.	É	esse	projeto	que	pode	orientar	permanentemente	as	ações	dos	profissionais	
em seus diversos campos de trabalho.
Assim,	pode-se	afirmar	que	a	partir	dessas	contribuições	que	iluminam	ou	
fornecem os elementos fundamentais a partir dos quais os assistentes sociais podem 
fazer a crítica ontológica das contradições sociais que se expressam em seu coti-
diano,	é	possível	e	necessário	fazer	a	análise	de	como	a	profissão	vem	se	desenvol-
vendo e delineando nos diversos espaços sócio-ocupacionais, incluídos os que 
434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
pertencem à área sociojurídica. Essa tarefa é urgente para todos nós que partilhamos 
do	projeto	ético-político	da	profissão	e	supõe	enorme	esforço	teórico	para	captar	
as complexas determinações que aí comparecem. Evidentemente, não tenho a me-
nor pretensão de aqui dar conta nem mesmo do começar essa tarefa. Alguns assis-
tentes sociais já iniciaram estudos que poderão potencializar muito nossos conhe-
cimentos	das	especificidades	próprias	desse	espaço	de	intervenção	profissional	(ver,	
especialmente, Fávero, 1990; Colmán, 2004; Alapanian, 2008; Torres, 2005; 
Dahmer, 2012; Tejadas, 2012).
É necessário e urgente pesquisar a gênese e os processos de criação e repro-
dução do Serviço Social em todos os espaços sócio-ocupacionais que formam o 
universo sociojurídico (sistema prisional, ministério público, defensorias, sistema 
socioeducativo, tribunais de justiça etc.), para conhecer, de fato, o que está se pas-
sando aí em seu interior e se possa avançar em propostas coerentes ou que expres-
sem nosso projeto ético-político a partir da “análise concreta de situações concretas”.
Aqui, o que posso então é apenas apontar, à luz dos fundamentos precedentes, 
alguns	dos	desafios	cruciais	com	os	quais	os	assistentes	sociais	se	deparam	nessa	
área.
Inicialmente,	destacaria	o	universo	de	questões	que	se	põem	aos	profissionais	
que atuam no interior das instituições do sociojurídico, pelo simples fato de, como 
visto, o jurídico	configurar-se	como	a	esfera	de	resolução	dos	conflitos	pela	impo-
sitividade do Estado. São questões de ordem ética e política que surgem nesse 
universo e das quais não se pode “escapar”, sendo necessário enfrentá-las com 
coerência.	Contribui	para	alargar	esse	desafio	a	crescente	criminalização	da	pobre-
za e a judicialização das expressões da questão social. Tais determinações se impõem 
hoje	no	cotidiano	profissional	nas	prisões,	nos	tribunais,	nas	unidades	de	internação	
de adolescentes, de forma avassaladora. Têm também expressão objetivada em todo 
um novo marco legal de caris conservador e que é fruto de articulações de parte da 
sociedade civil que vê no encarceramento, no recrudecimento das penas e na redu-
ção	da	idade	penal,	as	formas	reificadas	e	fetichizadas	de	reparação	das	vítimas	da	
crescente violência urbana que foi gerada no processo histórico de superexploração 
do trabalho e concentração de poder e renda nas mãos de uma elite minoritária 
numericamente, mas poderosíssima econômica e politicamente.
Já o aviltamento mercantil que atingiu o ensino superior noBrasil nas últimas 
décadas	pode	provocar	verdadeira	tragédia	profissional	no	desempenho	que	é	exi-
gido dos assistentes sociais nessa área que lida diretamente com os destinos das 
435Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
vidas das pessoas. De fato, nessa área, decide-se se alguém vai ser privado de li-
berdade,	ou	se	vai	perder	a	guarda	de	um	filho,	se	vai	poder	ou	não	adotar	uma	
criança ou conviver com um idoso.
Essa é uma esfera muito diferente daquela que é própria da execução das 
políticas sociais. A começar pelo fato de que na área sociojurídica não se trabalha 
contando com a mediação dos benefícios socioassistenciais. A mediação, via de 
regra,	passa	pelas	interpretações	que	os	profissionais	fazem	de	problemas,	situações	
e	conflitos	que	estão	judicializados, portanto aguardando uma decisão judicial, e 
não uma decisão ou um encaminhamento administrativo ou político. Nessas insti-
tuições do sociojurídico, como bem notou Colmán, o assistente social depara-se 
com	demandas	que	“são	apresentadas	de	 forma	 individualizada,	como	conflitos	
entre partes, com litígios, cabendo [ao Judiciário] aplicar as leis existentes, estabe-
lecendo	as	punições	cabíveis	e	encaminhando	soluções	para	as	situações	de	confli-
to” (Alapanian, 2008, p. 16). E aqui já podemos demarcar uma primeira armadilha 
ou	desafio	que	se	põe	ao	assistente	social	em	seu	cotidiano:	superar	a	aparência 
dos fenômenos com os quais vai trabalhar; tal aparência é a de problemas jurídicos, 
pois, como vimos, na realidade também carregam conteúdos de cunho eminente-
mente político e social, e nessas outras esferas é que também deveriam ganhar sua 
resolutividade.
Por isso, não se pode perder de vista, nem por um instante, nesse cotidiano 
que	tende	a	reiterar	a	aparência	reificada	da	processualidade	societária,	que	quem	
atua na área sociojurídica está confrontando o tempo todo com as contradições que 
surgem ou se renovam reiteradamente a partir da relação tensa entre as determina-
ções próprias da sociedade que é regida pelo capital e o buscar da “justiça”. Na 
definição	oficial,	por	exemplo,	como	exposta	por	Edson	Sêda,	o	Poder	Judiciário	é	
“um poder da República que só atua quando provocado em sua jurisdição, para 
resolver	conflitos	de	forma	definitiva. Nas hipóteses em que um juiz se manifesta, 
sua decisão deve ser cumprida, para que haja a estabilidade necessária à sociedade 
organizada e ao bem comum” (Sêda, 2007, p. 53; grifos meus).
Ora, evidentemente isso é apenas a face imediata e aparente do Poder Judi-
ciário, aparência que se desvanece quando começamos a pesquisar seu real signi-
ficado	na	sociedade	burguesa.	O	que	o	Poder	Judiciário	resolve	“de	forma	defini-
tiva” não são os problemas das pessoas ou da sociedade em geral, mas problemas 
e questões jurídicas, o que é muito diferente.
A chamada “tutela jurisdicional” protege bens jurídicos, que são mediações 
criadas	socialmente	e	representam	aquilo	que	uma	sociedade	definiu	que	deve	ser	
436 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
protegido pela lei e pela coercitividade do Estado. Por exemplo, assim como o 
bem jurídico protegido pela criminalização do homicídio é a vida, o bem jurídico 
protegido pela criminalização do roubo é a propriedade. E esses dois “bens” são 
de naturezas essencialmente diferentes. Sem o primeiro, não há nenhuma relação 
social, pois a vida, obviamente, tem prioridade sobre qualquer outra determinação 
para o ser social; mas a segunda, a propriedade, é apenas e tão somente uma 
criação humana, uma abstração jurídica. A propriedade é um bem jurídico do 
mundo burguês.
Porém a “propriedade” não pode ser atingida ou fragilizada porque faz 
parte da sustentação da ordem natural criada pelas relações burguesas de produ-
ção.	Por	isso	é	que	a	lei,	no	caso	dos	conflitos	fundiários,	ao	fim	e	ao	cabo,	acaba	
protegendo sempre a propriedade, e não necessariamente o proprietário. Isso 
porque a propriedade aqui adquire um papel muito mais importante do que apenas 
o	de	ser	o	direito	de	usufruto	de	um	bem	por	alguém.	Ela	significa	condição	de	
existência de uma relação social de exploração de homens sobre outros homens. 
Mesmo que, em alguns casos, busque-se até argumentar pela função social da 
propriedade, será aquele outro sentido dela que prevalecerá sempre. Vê-se isso 
na maioria dos processos de desocupação de terrenos ocupados pela população 
carente de moradia.
Tendo isso consciente, nenhum assistente social poderia ter dúvidas, por 
exemplo,	se	fosse	chamado	a	atuar	em	desocupações,	de	qual	postura	profissional	
e ética deveria ter. A justiça ou o universo jurídico “deixados a si mesmos” atuarão 
sempre nesse sentido: de restituir a “ordem das coisas”, embora, como vimos, uma 
ordem	produtora	—	e	tendencialmente	reprodutora de desigualdades. Se os homens 
e mulheres que adquirem consciência desse processo não atuarem no sentido de 
incrustar nele elementos de negatividade (resistências, oposições etc.), ele se mo-
verá sempre nessa direção, e as mediações que serão produzidas serão sempre 
aquelas que servem à reiteração da ordem.
E	aqui	podemos	apontar	mais	um	dos	desafios	que	estão	postos	para	os	assis-
tentes sociais que atuam nessa área: a tendência de incorporarem, como sendo 
atribuição	de	sua	profissão,	ou	de	seu	fazer	profissional,	os	instrumentos	de	“aferi-
ção de verdades jurídicas”, como o são o exame criminológico ou a inquirição de 
vítimas ou testemunhas, sob a eufemística ideia da “redução de danos”.
E aí, nesses espaços nos quais vem imperando a lógica da judicialização das 
expressões da questão social e da criminalização das parcelas mais subalternizadas 
da população, o que tem que ser defendido como sendo próprio de nossa interven-
437Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
ção é o estudo social (ver Fávero, 2003). O que é próprio de nossa intervenção é o 
estudo social, que, a partir de aproximações possíveis, deve buscar reproduzir as 
determinações que constituem a totalidade sobre a qual somos chamados a emitir 
um	parecer	técnico.	Como	já	exposto,	para	essa	reprodução	ser	o	mais	fiel	possível,	
devemos ser capazes de capturar, pela análise, as mediações fundamentais que dão 
forma à realidade sobre a qual estamos pesquisando e as negatividades que lhe dão 
o movimento.
Esse trabalho de pesquisa em nada se assemelha à reprodução imediata e 
superficial do existente, ou à reprodução literal das palavras de um presidiário, 
que está sendo entrevistado por nós, ou de um casal que está em litígio pela guar-
da de um filho em uma Vara de Família. Por ser-nos demandado, nessa esfera, um 
estudo de situações complexas, nosso trabalho, também ele, torna-se de alta com-
plexidade, o que, a bem da verdade, nos impediria de fazer um laudo ou um parecer 
a partir de um contato de vinte minutos com alguém. Mas em muitos locais é isso 
que nos está sendo exigido.
A armadilha está em o assistente social ir se tornando prisioneiro do pos-
sibilismo mais ordinário: se só é possível fazer isso, então vamos fazer, pois, 
caso	contrário,	o	preso	ficará	sem	um	laudo	e	não	poderá	progredir	de	regime…	
O assistente social passa a considerar que aquilo é uma forma de “redução de 
danos”.
É	o	mesmo	raciocínio	que	se	usa	para	justificar	a	atuação	junto	a	crianças	
vítimas de violência sexual: para garantir que a criança não tenha que ser ouvida 
várias vezes sobre a violência sofrida, passo a admitir que ela seja ouvida de uma 
forma que também viola seus direitos e traz danos à sua vida psíquica, como vários 
especialistas já apontaram. E pior: contribuo para reforçar a visão de que a saída 
está no encarceramento dos pretensos agressores, em um cenário no qual a prisão 
só tem servido para tornar homens e mulheres muito piores do que quando entraram 
para o sistema prisional.
E aqui entramos em mais uma das armadilhasque estão postas no cotidiano 
de quem trabalha na esfera do chamado sistema de justiça: nessa área há um risco 
enorme de o assistente social deixar-se envolver pela “força da autoridade” que 
emana do poder de resolver as questões jurídicas pela impositividade, que é o que 
marca o campo sociojurídico, e “encurtar” o panorama para onde deveria voltar-se 
sua visão de realidade, deixando repousar essa mirada na chamada lide, ou no 
conflito	judicializado	propriamente	dito;	passando	a	agir	como	se	fora	o	próprio	
juiz, ou como um “terceiro imparcial”, mas cuja determinação irá afetar profunda-
438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
mente a vida de cada pessoa envolvida na lide. Por exemplo, em um processo em 
que alguém está sendo acusado de negligência para com uma criança, seja o pai ou 
a mãe: a decisão judicial buscará “recompor o direito da criança que foi violado”, 
podendo, no limite, alijar ou esse pai ou essa mãe, ou ambos, do poder familiar 
sobre essa criança. O assistente social, diferentemente de um juiz ou de um promo-
tor, diante de um caso assim, terá que olhar para a totalidade da problemática e suas 
consequências, e não só para a proteção dos direitos da criança que, sem dúvida, 
será o foco da atenção do juiz.
O mesmo ocorre quando estamos lidando com problemas relacionados a uma 
denúncia de abuso sexual. Para um juiz da área criminal, o que estará em seu foco 
de atenção será a reconstituição de uma verdade jurídica para a incriminação do 
suposto abusador. Por isso, para ele são tão importantes as provas. Já o foco de 
trabalho de um assistente social terá que ser muito mais amplo e profundo, para 
que possa atuar visando a proteção de direitos de todos os envolvidos. Sobre isso 
é importante ter contato com as pesquisas e a literatura especializada que já co-
meça a surgir sobre o tema, principalmente aquelas que vêm discutindo de forma 
crítica os chamados depoimentos especiais, ou escutas especiais, de crianças víti-
mas de abuso sexual (ver AASPTJSP/Cress/9ª Região, 2012; Azambuja, 2011), 
esta última uma importante promotora de Justiça que buscou seu doutoramento na 
área	de	Serviço	Social	para	abastecer-se	das	reflexões	realizadas	em	nossa	área	de	
conhecimento.
Deve-se	chamar	a	atenção,	ainda,	para	outro	desafio	que	se	põe	no	cotidiano	
dos assistentes sociais: ao assumir para si as demandas e as práticas institucionais 
sem	questioná-las,	apenas	reproduzindo	respostas	fiscalizadoras	dos	comportamen-
tos, e criminalizadoras dos sujeitos que são alvo da ação judicial, passam a não se 
ver, eles mesmos, como trabalhadores, e não participam dos movimentos próprios 
da classe trabalhadora, de seus sindicatos, de suas entidades representativas, de seus 
fóruns	de	debates.	É	comum	hoje	vermos	muitos	e	muitos	profissionais	afirmando	
coisas do tipo: “não participo desse ou daquele movimento porque são movimentos 
políticos,	e	minha	atuação	é	técnica	e	não	política…”.	Tem-se	até	a	impressão	de	
que esses colegas se consideram como uma “elite” que não está sujeita aos mesmos 
constrangimentos societários que a classe trabalhadora em geral sofre. E presas 
fáceis dos processos de alienação, muitos assistentes sociais não conseguem dar o 
passo	seguinte,	ou	até	simultâneo,	às	suas	intervenções	profissionais,	que	é	o	passo	
da participação nos movimentos coletivos e organizados de sua classe.
439Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Para	finalizar,	é	 importante	destacar	que	a	atuação	de	um	assistente	social	
nessa área não pode estar a serviço da culpabilização, da vigilância dos comporta-
mentos ou dos julgamentos morais. Tampouco pode servir ao engodo de grande 
parte das instituições jurídicas que, em virtude da precarização e do desmonte que 
em	seu	interior	foi	promovido,	ficam	apenas	fazendo	“os	processos	judiciais	anda-
rem” com atos meramente burocráticos e burocratizantes.
Nosso trabalho tem que ser no sentido da oposição a esse estado de coisas, na 
resistência às mais diferentes formas de alienação, questionando e adensando nos-
sos estudos sociais com os dados da realidade; levando para o interior dos autos 
dos processos o direito que vem “da rua”, “dizendo o direito da rua” e dos movi-
mentos sociais que também exigem justiça.
Nosso papel não é o de “decidir”, mas o de criar conhecimentos desalienantes 
a respeito da realidade sobre a qual vai se deliberar naquilo que se refere à vida de 
pessoas. E há importantes espaços para isso no interior desse universo, uma vez 
que até mesmo os juristas mais conservadores sabem que a situação de fato impe-
ra sobre qualquer direito.
Marx escreveu em algum lugar:
“Direito	contra	direito,	vence	a	força…”
Ousamos parafrasear o mestre alemão:
Direito contra direito pode vencer a força dos que se juntam
na busca da real democratização das relações sociais,
para a ultrapassagem da ordem do capital.
Recebido em 3/6/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013
440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
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Jogos de poder nas dobras do legal e do ilegal:
anotações de um percurso de pesquisa
Games of Power between the lines of the legal and the illegal: 
notes of a research
Vera Telles*
Resumo: O texto volta-se para os jogos de poder que se processam 
justamente nas dobras do legal e ilegal, formal e informal. Se é verda-
de que a transitividade de pessoas, bens e mercadorias nas fronteiras 
incertas do legal e ilegal, formal e informal, constitui um fenômeno 
transversal da experiência contemporânea e está no cerne dos proces-
sos de mundialização, argumenta-se que nem por isso a passagem de 
um lado a outro dessas fronteiras porosas é coisa simples. A questão 
que se procura trabalhar nesse texto é que esses campos de força ofe-
recem uma via de entrada para entender o lugar e o papel do Estado 
nos ordenamentos sociais, pondo em foco os modos de operação das 
forças da lei e da ordem em contextos situados, sob a perspectiva do 
que alguns autores vêm propondo nos termos de uma “antropologia 
do Estado”.
Palavras-chave: Práticas urbanas. Ilegalismos. Jogos de poder. Antro-
pologia do Estado.
Abstract: The article is about the games of power that exist between the lines of the legal and the 
illegal, the formal and the informal. If it is true that the transitivity of people, goods and merchandise 
on the uncertain borders between the legal and the illegal, the formal and the informal is a transversal 
phenomenon of the contemporary experience and that it is in the center of the globalization processes, 
that does not mean the passage from one side to the other one of those porous borders is simple. What 
we	discuss	in	this	article	is	that	those	fields	of	force	offer	an	entry	to	understand	the	importance	and	
the role of the State in the social planning, focusing the way the forces of law and order operate in 
situated contexts, under the view of what some authors have been calling a “state anthropology”.
Keywords: Urban practices. Illegalism. Games of Power. State anthropology.
* Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. 
Pesquisadora e vice-coordenadora do Laboratório de Pesquisa Social (USP). E-mail: tellesvs@uol.com.br; 
www.veratelles.net.
444 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
Este texto trata dos jogos de poder inscritos na trama dos ilegalismos que se alojam, hoje, no cerne da vida e da economia urbana, aqui e alhures. O ponto de partida do que se pretende discutir diz respeito a um mundo urbano	alterado	e	redefinido	por	formas	contemporâneas	de	produção	e	
circulação de riquezas, que ativam os circuitos da chamada economia informal, que 
mobilizam	as	várias	figuras	do	trabalho	precário	e	se	processam	nas	fronteiras	in-
certas do formal e informal, legal e ilegal, também o ilícito. Tomo como referência 
empírica a cidade de São Paulo, tendo em mira processos transnacionais que colo-
cam	essas	reconfigurações	em	ressonância	com	o	que	vem	ocorrendo	em	outros	
lugares. E é isso que coloca a questão de se entender o modo como esses desloca-
mentos	e	essas	reconfigurações	se	processam	nos	circuitos	urbanos	de	circulação	
de riquezas e as relações de poder inscritas em seus pontos de interseção.
Essas são questões que tentei trabalhar em textos anteriores, apoiando-me nos 
percursos de uma pesquisa já de muitos anos em duas frentes articuladas de inves-
tigação: os mercados de consumo popular no centro da cidade e o varejo da droga 
em	um	bairro	da	periferia	de	São	Paulo.	De	forte	conteúdo	etnográfico,	essas	pes-
quisas nos permitiram seguir e descrever essa transitividade depessoas, bens e 
mercadorias entre o formal e o informal, o legal e ilegal, o lícito e o ilícito. Mais 
ainda,	o	mais	importante:	essas	pesquisas	nos	permitiram	flagrar	as	fricções	engen-
dradas nas passagens dessas fronteiras porosas. Fronteiras porosas, mas não vazias: 
os espaços não são lisos, e sim estriados, para usar os termos de Deleuze e Guatarri, 
e é justamente nesses estriamentos que se dão os agenciamentos políticos que con-
dicionam	(permitem,	bloqueiam,	filtram,	direcionam)	essa	circulação	de	pessoas,	
bens e mercadorias nos espaços urbanos.
Em	um	primeiro	momento,	essas	questões	se	apresentaram	nas	filigranas	dos	
percursos, que tratamos de reconstituir, de trabalhadores que lançavam mão de 
forma descontínua e intermitente das oportunidades legais e ilegais que coexistem 
e se superpõem nos mercados de trabalho: as “mobilidades laterais” entre o formal 
e o informal, legal e ilegal, para usar os termos de Ruggiero e South (1997) ao 
descreverem situações parecidas, alojadas, hoje, no coração das economias urbanas 
também dos países do Norte. Ao seguirmos esses percursos, chamava-nos a atenção 
o modo como os indivíduos transitavam (e transitam) nas fronteiras porosas do 
legal e do ilegal, fazendo uso dos códigos e repertórios de ambos os lados. Sobre-
tudo, chamava-nos a atenção o exercício de algo como uma “arte do contornamen-
to” dos constrangimentos, ameaças e riscos (também riscos de morte) inscritos 
nesses	pontos	de	passagem:	o	pesado	jogo	de	chantagem	e	extorsão	de	fiscais	de	
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prefeitura e das forças da ordem; a violência da polícia sempre presente nesses 
percursos;	 também	os	controles	mafiosos	de	 territórios	e	pontos	de	venda;	bem	
como a eventualidade de algum desarranjo nos acertos instáveis com os empresá-
rios do ilícito (não apenas dos negócios da droga). “Ardis de uma inteligência 
prática”, essa noção trabalhada por Vernant e Detienne (1974) nos foi especial-
mente valiosa para entender o modo como os indivíduos lidam com as circunstân-
cias movediças nas fronteiras do legal-ilegal e fazem, a cada situação, a negociação 
dos “critérios de plausibilidade moral” de suas escolhas, para usar os termos de 
Ruggiero e South ao caracterizar a lógica da “economia de bazar” que hoje se 
instala no coração das economias urbanas: nos termos nativos, os critérios do 
“certo”	e	do	“errado”	—	“é	preciso	andar	pelo	certo”	é	a	expressão	que	se	ouve	
nesses lugares. Também: o modo como, nesses pontos de fricção, os indivíduos 
negociam os parâmetros do aceitável e os limites do tolerável nos jogos de poder 
que se estruturam nesse seu encontro com as injunções da lei e da ordem (Telles e 
Hirata, 2010; Telles, 2010a; Hirata, 2010).
Esses agenciamentos práticos nas dobras do legal e ilegal nos pareciam (e nos 
parecem) estratégicos para entender os ordenamentos sociais que se processam nos 
circuitos dos mercados informais e ilegais da cidade. Foi daí que partimos, desdo-
brando nossas questões de pesquisa na medida em que tratamos de entender a 
mecânica desses agenciamentos. O que poderia ser visto como versão atualizada 
da “viração” associada à cultura popular ou à “dialética da malandragem”, para 
lembrar aqui o texto famoso de Antonio Candido, passava a ganhar outra fatura. 
Muito	longe	das	visões	algo	pacificadas	do	mundo	social	veiculadas	por	essas	ex-
pressões, essas dobraduras do legal e ilegal pareciam circunscrever jogos de poder 
e	relações	de	força,	campos	de	tensão	e	de	conflito,	que	precisariam	ser	bem	enten-
didos. Certamente, algo constitutivo da “economia de bazar,” para reter os termos 
de Ruggiero e South e que, no caso de nossas cidades, carrega uma história de 
longa data, acompanhando os percursos dos desde sempre expansivos mercados 
informais, sempre próximos e tangentes aos mercados ilícitos, entrelaçados, ambos, 
nos tempos, fatos e circunstâncias da história urbana. Mas esses agenciamentos nos 
pareciam,	sobretudo,	estratégicos	para	entender	as	inflexões	recentes	desses	mer-
cados por conta de suas conexões com os circuitos ilegais de economias transna-
cionais. No coração da modernidade globalizada da(s) cidade(s), esses mercados 
mudaram	de	 escala	 e	 ganharam	outras	 configurações,	 acompanhando	 ritmos	 e	
evoluções aceleradíssimos da abertura dos mercados e expansão de circuitos trans-
nacionais por onde circulam bens e mercadorias, transpassando fronteiras, regula-
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mentações, restrições nacionais, de que o fenômeno maciço do contrabando e fal-
sificações	é	o	registro	visível	nos	centros	urbanos	dos	países	a	norte	e	a	sul,	leste	e	
oeste do planeta. Em São Paulo, no mesmo período e mais intensamente a partir 
dos anos 2000, o mercado varejista de droga se estruturou de forma mais ampla e 
mais	articuladas	do	que	em	décadas	passadas.	Mas	isso	também	significa	dizer	que	
a expansão da economia da droga e suas capilaridades no mundo urbano acompa-
nharam	a	aceleração	dos	fluxos	de	circulação	de	riquezas	em	uma	cidade	que,	no	
correr	desses	anos,	também	se	firmou	e	se	confirmou	na	potência	econômica	e	fi-
nanceira própria de uma cidade globalizada (Telles, 2010b).
O fato é que essa ampla circulação de bens, produtos e populações que tran-
sitam nesses mercados depende, em grande medida, dos agenciamentos políticos 
que se fazem justamente nas dobras do legal-ilegal, formal-informal: corrupção, 
mercados de proteção e práticas de extorsão que variam conforme circunstâncias, 
contextos e microconjuturas políticas e, sobretudo, dos níveis de tolerância ou in-
criminação que pesam sobre essas atividades. O que, em um primeiro momento, 
aparecia	nas	filigranas	das	“histórias	minúsculas”	que	recolhíamos	em	nosso	tra-
balho de campo ganhava outra envergadura e delineava a face política desses 
mercados. E era isso que nos parecia (e nos parece) importante de ser bem enten-
dido. Aqui, nesse registro, noção de mercadoria política proposta por Michel Mis-
se (2006) foi (e é) de especial importância para conferir inteligibilidade a esses 
agenciamentos nas dobras do legal e do ilegal. É uma noção que opera efetivamen-
te como um operador analítico: desativa a categoria moral-normativa de corrupção, 
desloca	a	discussão	do	campo	da	avaliação	moral	dessas	práticas	e	define	um	es-
paço conceitual a partir do qual é possível deslindar a dinâmica política desses 
mercados, melhor dizendo: o lugar do Estado na formação e estruturação desses 
mercados.	O	que	está	aqui	sendo	formulado	como	dobras	do	legal	e	ilegal	qualifica-se	
e ganha em precisão. Nos termos de Misse, trata-se da articulação desses mercados, 
informais e ilícitos, como um outro mercado, um mercado político, também ilegal, 
que	passa	por	dentro	dos	aparatos	legais	oficiais	e	nos	quais	são	transacionadas	as	
mercadorias políticas (acordos, suborno, compra de proteção, corrupção) dos quais 
dependem o funcionamento desses mercados e que são constitutivos de seus modos 
de regulação.
Nas páginas que seguem, gostaria de retomar e desdobrar algumas dessas 
questões na tentativa de avançar o que pode ser entendido como pistas e hipóteses 
de trabalho a serem experimentadas em nossas pesquisas.
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A discussão que se segue organiza-se em torno de duas ordens de questões:
Primeiro ponto: os campos de força que se estruturam nas dobras do legal e 
ilegal. Isso me parece importante para conferir estatuto (e tirar consequências) à 
dinâmica	dos	conflitos,	disputas	e	tensões	que	se	armam	nesses	pontos	de	fricção	
com as forças da lei e da ordem, no jogo oscilante de práticas que transitam entre 
tolerância, formas de negociação, dispositivos de controle e repressão. É por esse 
prisma que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa pelos 
sentidos de ordem e seuinverso, bem como dos critérios de legitimidade dos orde-
namentos	sociais	que	vêm	se	engendrando	nas	fronteiras	incertas	—	em	disputa	
—	do	legal	e	legal.	Essa	é	uma	hipótese	lançada	em	textos	anteriores	(Kessler	e	
Telles, 2010a; Telles e Hirata, 2010; Telles, 2010) e que eu gostaria de retrabalhar 
nas páginas que se seguem. Ainda: o lugar estratégico da transação das mercadorias 
políticas na interface desses mercados com os poderes públicos nos permite avan-
çar uma segunda hipótese: são jogos de poder que se fazem nos pontos em que se 
entrelaçam as redes urbanas de circulação de riquezas e as redes de poder em dis-
puta em torno dos modos de apropriação dessa riqueza circulante. É isso o que 
parece	estar	em	pauta	nos	conflitos	e	disputas	instalados	nos	meandros	urbanos	do	
comércio informal e ilegal.
Segundo	ponto:	o	estatuto	e	o	lugar	das	etnografias	desses	mercados,	informais	
e ilegais. Já aviso, de partida, que não se pretende entrar aqui na espinhosa polêmi-
ca,	cara	aos	antropólogos,	sobre	a	escrita	etnográfica.	Tampouco	se	pretende	en-
frentar	 a	 também	espinhosa	 discussão	 sobre	 os	 desafios	 teórico-metodológicos	
postos	pelas	dinâmicas	transnacionais	que	redefinem	por	inteiro	o	campo	empírico	
do	trabalho	etnográfico.	Essas	são	questões	importantes,	mas	sua	discussão	ficará	
para outro momento. Aqui, o ponto é outro e diz respeito ao conhecimento que se 
pode produzir na descrição desses agenciamentos políticos, que nos interessa aqui 
bem entender. Na verdade, é uma terceira hipótese que eu gostaria de experimentar, 
uma hipótese teórico-metodológica que diz respeito ao modo de tratar a presença 
(e lugar) do estado e dos dispositivos legais nesses mercados e que remete ao que 
alguns autores vêm propondo nos termos de uma antropologia do Estado visto pelo 
ângulo de suas práticas em contextos situados ou, como propõem Das e Poole 
(2004),	 a	 partir	 de	 suas	 “margens”.	Nesse	 plano,	 a	 etnografia	desses	mercados	
desdobra-se	em	uma	etnografia	política,	colocando	em	mira	os	jogos	de	poder	e	
relações de força que se processam nesses campos de disputa. Por essa via, podemos 
entender algo das dimensões políticas envolvidas nesses mercados.
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Fronteiras da lei como campo de disputas
Antes de mais nada, será preciso se deter sobre essa transitividade entre o 
formal e o informal, legal e ilegal, e também o ilícito, que está no centro das dinâ-
micas urbanas de nossas cidades. De partida, vale dizer que se trata de uma trama 
intrincada	de	relações	que	torna	inviável	sustentar	definições	fixas,	categoriais	e	
normativas dessas categorias. De um lado, ao longo das rotas transnacionais dos 
circuitos informais, os produtos passam, como bem nota Rosana Pinheiro-Macha-
do (2008), por verdadeiras metamorfoses legais, na própria medida em que os có-
digos formais e parâmetros legais variam de um país a outro, como também varia 
o grau de tolerância das autoridades locais em relação a essas práticas mercantis. 
Por	outro	lado,	a	etnografia	desses	mercados	mostra	uma	composição	variada	de	
procedimentos e expedientes formais e informais, legais e ilegais postos em ação 
para a circulação e transação desses produtos: as mercadorias podem ter uma origem 
formal legal, chegando ao consumidor pelas vias das práticas do comércio de rua, 
da	fraude	fiscal	nas	lojas	em	que	são	negociadas,	passando	(ou	não)	pelos	trajetos	
do “contrabando de formiga” nas regiões de fronteira ou, então, pelos trajetos mais 
obscuros e mais pesados dos empresários dos negócios ilegais que agenciam o 
contrabando dos produtos que chegam pelos contêineres desembarcados nos prin-
cipais portos do país (cf. Freire, 2012). Os atores também transitam de um lado e 
de outro das fronteiras porosas do legal e do ilegal: ambulantes em situação regu-
larizada pela Prefeitura, mas que se abastecem de produtos de origem incerta, 
quase	sempre	 indiscernível	 (contrabando,	 falsificações,	“desvio”);	pequenos	co-
merciantes envolvidos nos negócios do contrabando, mas que cuidam de respeitar 
(na medida do possível) os códigos legais na montagem de seus negócios. Ainda: 
migrantes bolivianos em situação regularizada e que estão à frente (patrões) de 
confecções	de	produtos	falsificados,	infringindo	ao	mesmo	tempo	códigos	da	le-
gislação do trabalho, além do emprego de migrantes em situação irregular (conter-
râneos e outros, como os paraguaios), tudo isso se compondo (mas nem sempre), 
sob modulações variadas, em uma nebulosa de situações incertas entre o legal e o 
ilegal que acompanham as extensas redes de subcontratação vinculadas ao pode-
roso e globalizado circuito da moda e das grifes famosas (Côrtes, 2013). Também: 
empresários chineses bem estabelecidos, migração mais antiga, situação regulari-
zada e de posse de títulos da cidadania brasileira e que, como mostra a pesquisa de 
Douglas Toledo Piza (2012), fazem uso dos recursos legais de que dispõem para se 
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lançar nos nebulosos negócios de importação (quer dizer: contrabando) e os negó-
cios imobiliários, também nebulosos, vinculados às galerias que se multiplicaram 
nos últimos anos nos centros do comércio popular em São Paulo.
Quanto aos mercados de bens ilícitos, essa transitividade entre o formal e o 
informal, legal e ilegal, processa-se nos meandros da “economia de bazar” que 
hoje se instala no coração dinâmico das economias urbanas. É questão que também 
aparece	nas	filigranas	das	etnografias	desses	mercados:	uma	superposição	de	ati-
vidades	informais	e	ilegais	na	qual	os	fluxos	de	dinheiro,	de	mercadorias,	de	bens	
de origem ilícita e também as drogas se entrecruzam em um complexo sistema de 
trocas, se inscrevem no jogo das relações sociais e passam a compor as dinâmicas 
urbanas que transbordam amplamente o perímetro dos territórios da pobreza. 
Mesmo quando se considera as atividades inequivocamente criminosas (quer dizer: 
sujeitas aos processos de incriminação), como é o caso dos pontos de venda de 
droga em um bairro de periferia, as situações perdem a nitidez suposta nessas 
formas	de	tipificação	quando	seguimos	os	traços	dos	percursos	de	bens	e	pessoas	
nas dinâmicas locais e do entorno imediato. Assim, por exemplo, na região em que 
fazemos	nossas	pesquisas,	temos	o	exemplo	do	traficante	local,	patrão	da	“biquei-
ra” instalada no bairro e que, preocupado com o seu futuro e o de sua família, 
trata de abrir um pequeno empreendimento no entorno próximo, uma loja de 
roupas ou, então, no caso de um gerente desse mesmo ponto de droga, uma 
lan-house intensamente frequentada pelos jovens da região. Um e outro, com a 
expertise própria dos que sabem lidar com os meandros das atividades ilegais, 
tratam	de	se	precaver	e	evitar	complicações	com	fiscais	da	Prefeitura,	de	tal	modo	
que seus empreendimentos, na contramaré do que acontece em todos os lugares, 
são	mais	do	que	legais	—	produtos	comprados	em	lojas,	com	nota	fiscal,	nada	
pirateado,	nada	falsificado,	tudo	comprovado	e	tudo	muito	bem	documentado	em	
registros formais legais. Ao mesmo tempo em que se tornam pequenos empreen-
dedores locais, são eles, junto com outros tantos de seus parceiros nos negócios 
ilícitos, que fazem circular algo como os “excedentes” dos negócios da droga ao 
promover melhorias nos campos de várzea, distribuir cestas básicas, organizar 
festas juninas e, não poucas vezes, fazer a mediação e a negociação com órgãos 
da Prefeitura responsáveis por esses assuntos locais. A descrição dessas situações 
já foi feita em outras ocasiões e não é o caso de retomá-las (cf. Telles e Hirata, 
2007, 2010; Telles, 2009, 2010; Hirata, 2010).
Poderíamos multiplicar os exemplos. Por ora, importa salientar essa multipli-
cidade e heterogeneidade interna às situações de formalidade ou legalidade, tanto 
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quanto às situações informais e ilegais. Esta é a primeira questão a ser destacada: 
as fronteiras do legal e do ilegal não são lineares, muito menos dicotômicas. Dis-
positivos (e práticas) formais e informais, legais e ilegais, operam como agencia-
mentos práticos, situados, fazendo a combinação de recursos e repertórios de um 
lado e de outro; algo como marcadores e pontos de referência que fazem o traçado 
de territórios rizomáticos transpassados por redes superpostas de coisas e pessoas, 
transversais às várias situações de vida e trabalho e que se desdobram em outras 
tantas situações e outras tantas teias de relações situadas em outros contextos pró-
ximos ou superpostos (cf. Chauvin, 2009; Fischer e Spire, 2009; Heyman, 1999).
No entanto, se há porosidade nas fronteiras do legal e do ilegal, formal e in-
formal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples. Esse é o se-
gundo ponto a ser discutido, o mais importante: leis e códigos formais têm efeitos 
de poder e condicionam o modo como esses mercados e essas atividades se estru-
turam. Circunscrevem campos de força e é em relação a eles que essa transitivida-
de de pessoas, bens e mercadorias precisa ser bem situada. E, a rigor, descrita. São 
campos	de	força	que	se	deslocam,	se	redefinem	e	se	refazem	conforme	a	vigência	
de formas variadas de controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimen-
tos de incriminação dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância, 
a transgressão consentida e a repressão.
Essas fronteiras, portanto, são politicamente sensíveis. E circunscrevem cam-
pos de disputa em que se combinam e se alternam a negociação, formas de contro-
le, tolerância e repressão. É por esse prisma que se pode dizer que nesses campos 
de força se processa uma disputa surda ou aberta sobre os sentidos de ordem e o 
seu inverso, bem como dos critérios de legitimidade dos ordenamentos sociais 
(também em disputa) que vêm se engendrando nessas fronteiras incertas.
* * *
Se é verdade que essa transitividade entre o legal e ilegal, entre o formal e 
informal	vem	sendo	flagrada	em	inúmeras	pesquisas	e	está	no	cerne	das	questões	
discutidas por vários autores, também é verdade que as dimensões políticas dessas 
práticas e dessas atividades nem sempre são problematizadas. E é isso que será 
preciso entender. O fato é que se há porosidade nas fronteiras do legal e ilegal, 
formal e informal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples. 
Esse o ponto a ser discutido: leis e códigos formais têm efeitos de poder e condi-
cionam o modo como esses mercados e essas atividades se estruturam. Circunscre-
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vem campos de força e é em relação a eles que essa transitividade de pessoas, bens 
e mercadorias precisa ser situada. E, a rigor, descrita. São campos de força que se 
deslocam,	se	redefinem	e	se	refazem	conforme	a	vigência	de	formas	variadas	de	
controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimentos de incriminação 
dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância, a transgressão 
consentida e a repressão conforme contextos, microconjunturas políticas e as rela-
ções	de	poder	que	se	configuram	em	cada	qual.
Essas	fronteiras,	portanto,	são	politicamente	sensíveis.	E	isso	significa	dizer	
que será importante colocar no foco da análise justamente os jogos de poder que 
se processam nas dobras do legal e ilegal, do formal e informal. É por esse prisma 
que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa surda ou 
aberta sobre os sentidos de ordem e o seu inverso, bem como dos critérios de legi-
timidade dos ordenamentos sociais (também em disputa) que vêm se engendrando 
nessas fronteiras incertas.
* * *
Para bem situar essas questões, permito-me lançar mão de uma situação tra-
balhada por Maria Pita (2012) em Buenos Aires: é uma situação que nos interessa, 
pois,	no	conflito	aberto	em	torno	dos	ambulantes	senegaleses,	é	possível	apreender	
o que parece estar em jogo nos campos de disputa que se armam nos centros de 
comércio popular em São Paulo, quiçá em outros lugares. Migrantes recentes, em 
sua maioria em situação irregular, desenvolviam um comércio de rua interditado 
pelos códigos urbanos nos locais em que se instalaram. As denúncias se multipli-
caram: maus-tratos por parte das forças policiais, violência, abuso de poder, discri-
minação racial, além da expropriação de bens e ganhos obtidos com o comércio 
informal. Também, o mais importante: o escândalo da diferença de tratamento em 
relação a outros ambulantes, com os quais prevaleciam os arreglos e transações em 
troca da garantia de não serem molestados. A situação terminou por mobilizar ad-
vogados ativistas dos direitos humanos e desdobrou-se nas instâncias judiciais para 
resolver um litígio, no qual estavam em jogo os modos de aplicação da lei e os 
modos de operação das forças da ordem. Este é o ponto que me interessa frisar: nas 
cenas descritas por Maria Pita, os sinais do legal e ilegal se invertem, colocando 
em foco as irregularidades, quando não a ilegalidade dos modos de operação das 
forças da ordem. Quer dizer: os arreglos e a compra de proteção para uns; a vio-
lência extralegal para os outros, os senegaleses. Quanto a esses, a suposta ilegali-
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dade de suas atividades também foi colocada em questão em uma disputa de inter-
pretação da própria lei, dadas as ambivalências dos códigos urbanos que abriam 
brechas pelas quais as atividades de sobrevivência que eles desenvolviam não 
poderiam	ser	tipificadas	como	ilegais,	nem	crime,	nem	contravenção.	No	final,	a	
solução não foi favorável aos senegaleses: em nome da lei e da ordem, os poderes 
de	polícia	foram	reafirmados	como	modo	de	gestão	e	regulação	desses	territórios.	
Muito concretamente, esse o outro ponto a ser enfatizado: o seu poder de aplicar 
—	ou	não	aplicar	—	a	lei,	sob	a	lógica	própria	de	seu	poder	discricionário,	autori-
zando	uns	 e	 interditando	 outros,	 tipificando	 os	 delitos	 de	 uns	 e	 outros	 (crime,	
contravenção), abrindo a uns (e não a outros) o ambivalente jogo de acordos, entre 
chantagem e compra de proteção em troca da não aplicação da lei.
Essa cena aberta em torno dos senegaleses em Buenos Aires nos oferece, em 
filigrana,	o	que	parece	estar	contido	nos	campos	de	força	estruturados	nos	mercados	
informais de São Paulo. Assim, por exemplo: para contornar as formalidades legais 
e ampliar o raio de ação no combate à pirataria, as forças policiais não hesitam em 
lançar	mão	de	outros	modos	de	tipificação	legal:	crime	contra	as	relações	de	con-
sumo;	sonegação	fiscal	ou	formação	de	quadrilhas	(quer	dizer:	enquadramento	na	
definição	de	crime	organizado).	Ou,	então,	por	desacato	à	autoridade	no	caso	dos	
incautos que não acatarem a voz de comando da Polícia Militar, que hoje está à 
frente de um aberto e ofensivo “combate” aos ambulantes “irregulares”, por conta 
de um muito controvertido acordo da Prefeitura de São Paulo e o governo do Es-
tado, a chamada “Operação Delegada”: a rigor, como diz Daniel Hirata (2012), uma 
“gambiarra	jurídica”	que	suspende	as	circunscrições	legais	que	definem	as	atribui-
ções da Polícia Militar, de modo a ampliar o seu espaço de atuação nesse terreno 
em	que	as	funções	de	fiscalização	e	controle	eram	de	responsabilidade	de	outras	
instâncias	políticas	(fiscais	da	Prefeitura)	e	outros	órgãos	de	polícia.	Sob	a	lógica	
muito moderna e muito contemporânea das “tecnologias securitárias como modo 
de gestão do espaço urbano” (Hirata, 2012), processa-se a simbiose entre ordem 
pública e segurança urbana. Na prática, como enfatiza Hirata, uma legislação de 
exceção que amplia os poderes discricionários da polícia na execução dessas ope-
rações, alterando as formas de controle e os modosde incriminação das transgres-
sões legais ou irregularidades urbanas do comércio de rua.
Trata-se, certamente, de um endurecimento das formas de controle. Mas é 
também importante notar o modo como as forças da ordem operam. É nesse plano 
miúdo	e	cotidiano	que	se	pode	flagrar	o	poder	discricionário	de	que	dispõem	as	
forças policiais nos modos de aplicar (ou não aplicar) a lei e que se duplica e se 
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amplia na própria medida da imprecisão inscrita nos códigos legais, ainda mais 
quando se referem a situações também elas muito embaralhadas e intrincadas 
quanto ao estatuto das atividades desenvolvidas. Mas é nesse terreno que entram 
em cena práticas nebulosas que oscilam entre acordos, corrupção, troca de favores, 
compra	de	proteção	—	enfim,	a	 transação	das	mercadorias	políticas,	sempre	no	
limiar da chantagem, da extorsão e também dos usos da violência extralegal.
Como mostra Carlos Freire (2012), esses dispositivos de controle acompanham 
programas	de	intervenção	urbana	que	redefinem	regras,	critérios	e	procedimentos	
para a distribuição e a ocupação do comércio de rua nesses espaços, bem como a 
atribuição de garantias a uns, a suspensão de autorização a outros ou, então, a in-
terdição das atividades a outros tantos. Ao mesmo tempo, novos dispositivos jurí-
dicos são colocados em ação, como exigência para a formalização dessas atividades, 
introduzindo	novas	clivagens,	as	quais,	na	prática,	deslocam	e	redefinem	as	próprias	
fronteiras	do	que	é	considerado	formal	e	informal,	legal	e	ilegal.	Na	fina	etnografia	
que Carlos Freire faz das mutações recentes desses mercados, as regulações estatais 
postas em operação poderiam ser vistas como “um conjunto de táticas que recriam 
a informalidade, transformando-a em governamentalidade” (Alsayyad e Roy, 2009), 
táticas que combinam dispositivos políticos-jurídicos (promoção do chamado 
empreendedorismo, conversão dos ambulantes em microempreendedores), o uso 
da coerção para impor as novas regras do jogo e a repressão aberta, quando não o 
uso	da	violência	extralegal	justificada	em	nome	do	“combate	à	pirataria”	e	a	“guer-
ra ao crime” agora associado ao comércio de rua nesses lugares. Há toda uma 
cartografia	política	do	comércio	que	se	redefine,	cujos	contornos	são	cambiantes	
tanto	quanto	as	regras	—	em	disputa	—	que	regem	o	acesso	e	o	funcionamento	
desses mercados, ao mesmo tempo em que há legião de ambulantes que, desprovi-
dos do “credenciais” de reconhecimento, são expulsos, sujeitos às formas mais 
agressivas de controle e repressão, espalhando-se por outros cantos da cidade.
Essa conjugação entre formas de intervenção urbana e dispositivos de contro-
le terminaram por estruturar um acirrado campo de disputa justamente em torno 
das regras de ocupação desses espaços. Regras cambiantes e incertas quanto aos 
critérios que autorizam uns e não outros para o exercício de suas atividades e que 
definem	sua	distribuição	entre	os	lugares	mais	valorizados	e	os	que	ficam	nas	suas	
fímbrias.	Campos	de	tensão	e	de	conflito	que	também	se	estruturam	em	torno	das	
taxas cobradas de uns e outros para o exercício das atividades; taxas de legalidade 
duvidosa em alguns casos, de legitimidade contestada em outros, até porque é tudo 
mesmo muito nebuloso: nunca se sabe ao certo se são dispositivos legais ou, então, 
454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
formas	quase	institucionalizadas	dos	mercados	de	proteção	ou	acordos	mafiosos	
com as autoridades informais que fazem a gestão desses espaços ou, ainda, os 
meandros intrincados da corrupção, mobilizando atores e suas redes de relações: 
empresários dos negócios ilegais, forças policiais, políticos e suas máquinas parti-
dárias, gestores urbanos, funcionários de agências estatais, também empresas pri-
vadas envolvidas nos chamados projetos de recuperação urbana da região e nas 
quais	 não	 faltam	conexões	 transnacionais	 (fontes	 de	financiamento,	 acionistas,	
consultores). Nos meandros dessa cadeia de relações, processam-se os agenciamen-
tos	políticos	igualmente	nebulosos,	acordos	e	negociações,	conflitos,	disputas	e,	
muito frequentemente, histórias de morte.
Tudo	isso	é	matéria	da	fina	etnografia	desses	mercados	que	os	autores	aqui	
citados nos entregam. Por ora, essas rápidas (e incompletas) indicações são aqui 
lançadas pelas questões que suscitam. Esses dois exemplos, ou melhor, essas duas 
cenas urbanas, senegaleses em Buenos Aires, ambulantes em São Paulo, fazem ver 
os modos operantes da lei e dos códigos formais, melhor dizendo: as práticas e os 
agenciamentos situados pelos quais a presença do Estado deixa suas marcas im-
pressas	na	cartografia	cambiante	desses	territórios.	Nos	termos	de	Veena	Das	(2007),	
“assinaturas do Estado” impressas no modo como códigos, normas, leis circulam, 
são agenciados, negociados, postos em ação nos contextos situados desses territó-
rios,	redefinindo	a	distribuição	do	permitido,	do	tolerado	e	do	reprimido,	bem	como	
o jogo oscilante entre a repressão e os acordos negociados, entre o legal e o extra-
legal.	Altera-se	a	cartografia	política,	tanto	quanto	a	distribuição	dos	lugares,	das	
posições, das hierarquias na ocupação desses espaços. É importante notar que as 
“assinaturas do Estado” são o registro da presença do Estado, a sua face legal-bu-
rocrática, com diz a autora, incorporada nas regras e regulações desses espaços e 
dessas atividades, nos seus dispositivos, agentes e procedimentos pelos quais elas 
se efetivam, operando como uma “força gravitacional” das práticas e modos como 
os atores lidam com a situação, e seus pontos de fricção, os recursos mobilizados 
para	contornar,	resistir,	enfrentar	e,	no	final	das	contas,	sobreviver	nesses	lugares	
(Das, 2007).
No caso dos mercados de bens ilícitos, Gabriel Feltran (2012) nos entrega 
outras tantas situações que nos ajudam a pensar essas questões. Nas três “situações 
etnográficas”	trabalhadas	por	Feltran	em	um	bairro	da	periferia	da	cidade	de	São	
Paulo, as “assinaturas do Estado” também circulam no modo como “crime” e 
“criminosos”,	“trabalhadores”	e	“bandidos”	são	qualificados	(ou	não)	como	tais	
no	jogo	interativo	(e	conflitivo)	com	a	polícia	no	uso	de	seu	poder	discricionário	
455Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
para	aplicar	(flagrante,	prisão)	ou	não	a	lei	(acordos,	transações).	Mas	as	“assina-
turas do estado” também circulam conforme as “credenciais” dos indivíduos en-
volvidos e que condicionam o modo como a polícia arbitra essas situações, quer 
dizer, condicionam os jogos estratégicos de poder nesses contextos situados: seja 
a	situação	legal	dos	indivíduos	—	menores	de	idade	e,	portanto,	amparados	pelo	
Estatuto da Criança e do Adolescente, garotos em situação de “liberdade assistida”, 
sob tutela de entidades sociais locais ou, então, ex-presidiários e indivíduos em 
situação de liberdade condicional e que, por isso mesmo, tentam por todas as vias 
contornar	o	flagrante	(operação	de	registro	legal)	e	a	volta	à	prisão	—;	seja	o	modo	
como uns e outros se situam no interior do “mundo do crime”: o preço do acordo 
varia conforme a posição do indivíduo no mercado local de drogas e conforme sua 
importância no interior da organização criminosa que controla os negócios ilícitos 
na	região;	seja,	finalmente,	no	modo	como	os	acordos	são	feitos	(ou	não)	confor-
me essas credenciais (legais e não legais) e a rede de relações que uns e outros são 
capazes de mobilizar: a família e seus “conhecimentos” no mundo do crime e nas 
esferas legais, a polícia, delegados e advogados que operam a transação entre a lei 
e o “crime”, grupos criminosos que arcam (ou não) com os custos dos acordos e 
que se declinam conforme os protocolos de suas relações com as forças da ordem 
e da lei.
Colocadas lado a lado, essas microcenas que pontuam os mercados informaise os mercados de bens ilícitos fazem ver os modos operantes da gestão diferencial 
dos	ilegalismos	—	algo	que	faz	parte	dos	modos	de	funcionamento	do	poder.1 É 
importante	reter	a	questão:	a	noção	de	gestão	diferencial	dos	ilegalismos	define	um	
plano conceitual que permite situar o lugar da lei e dos dispositivos formais não 
como referência normativa, mas como locus de ajustamentos variáveis das relações 
de poder nos meandros desses mercados e dessas atividades das quais estamos aqui 
tratando (Peralva, 2010; Telles, 2010). E isso tem consequências que seria preciso 
explorar.
Primeiro: é esse um espaço conceitual que nos permite situar e conferir esta-
tuto a práticas e agenciamentos políticos que se fazem nas dobras do legal e do 
1. Ao cunhar essa noção, Foucault desloca a discussão da tautológica e estéril binaridade legal-ilegal, 
para colocar no centro da investigação os modos como as leis operam, não para coibir ou suprimir os 
ilegalismos, mas para diferenciá-los internamente, “riscar os limites de tolerância, dar terreno para alguns, 
fazer pressão sobre outros, excluir uma parte, tornar útil outra, neutralizar estes, tirar proveito daqueles 
(Foucault, 1997, p. 227). A noção de ilegalismos e gestão diferencial de ilegalismos foi tratada por mim em 
trabalhos anteriores. Cf. Telles, 2009, 2010.
456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
ilegal. As leis, diz Foucault, “não são feitas para impedir tal ou qual comportamen-
to, mas para diferenciar as maneiras de contornar a própria lei” (Foucault, 1994, p. 
716).	Mas	é	justamente	nesses	torneios	da	lei	que	as	questões	se	configuram.	É	isso	
o que está aqui sendo visado ao se chamar a atenção para o que acontece nas dobras 
do legal-ilegal.
Segundo: as microcenas rapidamente indicadas nas páginas anteriores também 
fazem ver que a gestão diferencial dos ilegalismos se processa em contextos situa-
dos. E é por referência a essa dimensão contextual que se pode apreender os cam-
pos de força e de disputa que se instauram em torno dessas fricções com a lei e o 
Estado, não como entidades formais abstratas, mas na lógica de seus modos de 
operação nesses terrenos que se tecem em torno dos modos incertos e diferenciados 
de aplicação (ou não aplicação) da lei. É aí que se instauram campos de força que 
colocam em cena uma meada de atores distribuídos nas posições e hierarquias que 
conformam	a	cartografia	cambiante	desses	territórios.	É	o	terreno	do	arbítrio,	do	
uso da violência e dos dispositivos de exceção constitutivos dos modos operantes, 
práticos, da lei e das forças da ordem. Mas é esse também o campo de negociações, 
acordos, disputas entre os atores envolvidos, também eles transitando entre dispo-
sitivos legais e ilegais.
Terceiro:	nesses	contextos	situados,	matéria	da	etnografia	fina	desses	merca-
dos e dessas atividades, é que se pode apreender a face política dessa trama de 
práticas informais e ilegais, na sua interface com as forças da lei e os dispositivos 
políticos, também jurídicos, que circunscrevem, para usar os termos de Fischer e 
Spire (2009), as arenas da gestão dos ilegalismos. É isso que será preciso ainda bem 
entender	e,	por	essa	via,	conferir	estatuto	—	político,	 teórico	—	aos	conflitos	e	
disputas inscritos nesses pontos de fricção com a lei e que acompanham a expansão 
dos ilegalismos nas tramas urbanas.
Antropologia do Estado: apontamentos
Se é importante entender o lugar do Estado e da lei nesses ordenamentos, 
isso nos coloca uma questão de ordem teórico-metodológica: de partida, será 
preciso se desvencilhar das “imagens verticais” do Estado (Ferguson e Gupta, 
2002;	Gupta,	2006)	e	das	definições	normativas	da	lei	e	do	direito.	Quer	dizer:	o	
Estado e as leis tomados como entidades unitárias (ou típico-ideais), pressuposto 
457Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
e axioma a partir do qual tudo o que ocorre no plano das práticas efetivas aparece 
no registro da falta, da falha ou, então, no caso de nossas sociedades, das “heran-
ças malditas” legadas por uma história de longa duração (Das e Poole, 2004). 
Exigência, portanto, de um deslocamento de perspectivas para perscrutar as rela-
ções de poder tal como elas se processam nos contextos situados de tempo e de 
espaço (Misse, 2006, 2009).
Mais ainda: exigência de um deslocamento de perspectiva para dar conta das 
redefinições	dos	jogos	de	poder	nesses	pontos	de	inflexão	do	mundo	contemporâneo	
e bem situar as interrogações (outras perguntas) acerca dos ordenamentos sociais 
que vêm se desenhando nas últimas décadas. Como dizem Das e Poole (2004), é o 
caso de se perguntar pela relação entre práticas extralegais e os modos de funcio-
namento do Estado, algo que se instala no interior de suas funções de ordenamen-
to. É isso, dizem as autoras, que pode nos dar uma chave para entender a própria 
produção da ordem, rastreando os modos de operação dos dispositivos legais e das 
agências estatais, seus tempos, seus procedimentos, suas técnicas e tecnologias de 
ação, em contextos situados no tempo e no espaço. Mais ainda e mais fundamen-
talmente: em vez de partir da imagem consolidada do Estado como entidade polí-
tica e administrativa que tende a se debilitar ou a se desarticular nas suas margens 
territoriais	e	sociais	(os	confins	do	Estado,	vistos	como	zonas	sem	lei,	territórios	
do não direito), é o caso de deslocar o campo a partir do qual as questões podem 
ser formuladas. Pois é o Estado que produz essas “margens” e, sendo assim, trata-se, 
então, de rastrear o modo como “as práticas e políticas da vida nessas áreas mode-
lam as práticas políticas de regulação e disciplinamento que constituem aquilo a 
que chamamos “o Estado” (Das e Poole, 2004, p. 3). São nessas margens que “o 
Estado	está	constantemente	redefinindo	seus	modos	de	governar	e	legislar”,	justa-
mente nesses pontos de fricção com práticas e outras formas de regulação inscritas 
nas tramas da vida nesses lugares.
No centro dos debates contemporâneos, essas são, certamente, questões de 
fronteira, aqui apenas muito rápida e toscamente indicadas. Nos limites destas 
páginas,	vale	dizer	e	enfatizar:	é	nesse	plano	que	o	exercício	etnográfico	ganha	toda	
a sua importância para perscrutar os agenciamentos práticos dos dispositivos polí-
ticos postos em ação, suas técnicas, protocolos e modos de operação. Não por 
acaso, os autores aqui citados (e outros) chamam a atenção justamente para isso: a 
importância de uma antropologia do Estado. Na formulação de Das e Poole (2004), 
trata-se de tomar como perspectiva o que acontece nas suas “margens” e, por essa 
via, entender a mecânica de funcionamento do próprio Estado ao rastrear as relações 
458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
que articulam internamente lei e exceção, direito e “vida nua”. Na versão de Fischer 
e Spire (2009), o ponto de mira são as arenas de gestão diferencial dos ilegalismos, 
que	permitem	rastrear	as	redefinições	e	deslocamentos	da	lei	e	do	direito	(e	do	lugar	
da lei e do direito) que acompanham o atual recentramento das atividades do Esta-
do e seus operadores em torno dos dispositivos de governamentalidade (quer dizer, 
gestão das populações). Na proposta de Heymna e Smart (1999), trata-se de colocar 
em foco as práticas e processos (e não regras e estruturas) e, por essa via, entender 
os nexos que articulam o Estado e práticas ilegais, que perpassam os modos de 
operação de suas agências, suas instâncias e seus postos burocráticos, e que podem 
abrir um caminho para o entendimento dos modos de formação e a mecânica de 
funcionamento das leis e do Estado. É sob essa perspectiva, dizem os autores, que 
é possível se desvencilhar do cânone que postula o Estado como entidade unitária 
e portador de uma única racionalidade. O Estado não é uma invenção da lei e da 
ordem, dizem os autores, mas uma rede complexa dolegal e do ilegal: as leis criam 
inevitavelmente a sua contrapartida, zonas de ambiguidade e de ilegalidade, que 
criam	por	sua	vez	todo	um	campo	de	práticas	e	agenciamentos	que	se	ramificam	
por vários lados, também mercados alternativos e oportunidades para bens e servi-
ços ilegais.
Esses autores, cada qual partindo de suas respectivas chaves teóricas e cam-
pos	 de	 problematização,	 tratam	de	 colocar	 no	 foco	 do	 trabalho	 etnográfico	 os	
nexos que articulam Estado e práticas ilegais, regulações estatais e não estatais, o 
formal	e	o	que	escapa	às	suas	codificações.	Transversal	a	todas	essas	questões	está	
uma indagação de fundo sobre os processos pelos quais Estado, leis e ordem se 
constituem e como operam em contextos situados. Esse é um registro interessan-
te para se apreender o sentido das transformações que abalaram, nos últimos 
tempos, justamente as relações entre Estado, economia e sociedade, de tal forma 
que essas categorias (Estado, leis, ordem) perdem sua autoevidência como refe-
rência	normativa	e	axioma	não	refletido	das	categorias	cognitivas	(e	normativas)	
das ciências sociais. E é justamente nesses deslocamentos que, em vez do uso 
normativo	 e	 pré-codificado	 dessas	 categorias,	 estas	 assinalam	o	 lugar	 de	 uma	
questão,	questão	política,	também	questão	ou	questões	de	pesquisa	—	que	precisa	
ser problematizado.
Essa é uma discussão de fundo, que vai além do que se pretende e se tem 
condições de fazer nos limites destas páginas. Mas é importante reter essas ques-
tões,	pois	elas	ajudam	a	qualificar	o	campo	de	disputa	que	se	estrutura	nessas	
fronteiras incertas, também elas em disputa, do formal e informal, do legal e 
459Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
ilegal. No que diz respeito aos mercados informais, seria possível dizer que, nas 
filigranas	das	cenas	descritivas	comentadas	páginas	atrás,	parece	se	explicitar	um	
campo	de	disputas	em	que	as	próprias	fronteiras	da	economia	estão	se	redefinin-
do nos meandros, também em disputa, desses mercados: campos de força e de 
disputa que se estruturam em torno das regras e critérios que introduzem novas 
clivagens,	 definem	 a	 cartografia	 política,	 sempre	 cambiante,	 desses	 lugares	 e	
regem o acesso (e bloqueios) a esses mercados; disputas em torno dos modos 
legais e extralegais de regulação desses mercados; disputas em torno dos meios 
legais e extralegais de apropriação da riqueza circulante; disputas em torno dos 
critérios de ordem e seu avesso. Seguindo Beatrice Hibou (1998), em outro con-
texto de discussão, mas com fortes ressonâncias com o que se está aqui discutin-
do, a incerteza quanto às fronteiras do legal e ilegal, bem como das regras do jogo 
nesses campos de disputa, é também uma forma de governo e um instrumento de 
poder.	Mas,	então,	seria	possível	desdobrar	a	questão	pois	fica	a	sugestão	de	que	
se trata de “modos de governar as fronteiras de criação de riquezas”, para usar os 
termos de Jannet Roitman (2004), em um texto no qual essas linhas estão forte-
mente inspiradas.
No coração de nossas cidades (e outras), esses mercados podem ser tomados 
como “fronteiras analíticas”, para usar a expressão de Saskia Sassen (2008), em 
que	as	regras	e	os	jogos	de	poder	estão	se	redefinindo.	Mas	é	por	isso	mesmo	que	
são um lócus privilegiado para entender os nexos que articulam lei e exceção, di-
reito e violência, contratos e força no próprio modo como os mercados são produ-
zidos. É em torno desses nexos que se estruturam os campos de força contidos nos 
modos como ordenamentos sociais se fazem nas fronteiras incertas do legal e do 
ilegal. Nas microcenas que pontilham esses mercados, temos as pistas para enten-
der o modo como os ordenamentos sociais são fabricados, engendrados em um 
campo de disputa que desloca, faz e refaz a demarcação entre a lei e o extralegal, 
entre justiça e força, entre acordos pactuados e a violência, entre a ordem e seu 
avesso. Também os limites do tolerável e intolerável, esse ponto que estala nas 
formas	abertas	de	conflito	e	que	também	se	pode	ouvir	nos	“rumores	da	multidão”	
(Thompson).
Recebido em 14/6/2013 ■ Aprovado em 20/6/2013
460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
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Serviço Social e Ministério Público:
aproximações mediadas pela defesa 
e garantia de direitos humanos*
Social Work and Department of Justice: approaches mediated 
by the defense and guarantee of human rights
Silvia da Silva Tejadas**
Resumo: Este artigo aborda a emergência do Ministério Público 
na esfera pública, balizado pela missão, ainda em disputa na instituição, 
de defesa do regime democrático e dos direitos humanos. A inserção 
do Serviço Social na Instituição é atravessada pelas contradições que 
a permeiam e compartilha de propósitos convergentes à sua missão, 
dado	o	 projeto	 ético-político-profissional.	Apresenta	 potencial	 para	
contribuir no diálogo com os movimentos sociais e conselhos de di-
reitos,	bem	como	no	fomento	e	na	fiscalização	das	políticas	públicas,	
fundamentado em um ideário emancipatório.
Palavras-chave: Ministério Público. Serviço Social. Direitos humanos.
* Este artigo teve como ponto de partida a tese de doutorado da autora, publicada com o título O direito 
humano à proteção social e sua exigibilidade: um estudo a partir do Ministério Público (2012), tendo sido o 
texto original acrescido de dados atualizados sobre os encontros nacionais do Serviço Social no Ministério 
Público,	bem	como	de	considerações	sobre	as	atribuições	da	profissão	na	instituição	em	questão.	A	investigação,	
de cunho qualitativo, fundamentou-se no materialismo histórico e dialético, constituindo-se em estudo de caso. 
Para o estudo, utilizaram-se as seguintes fontes: grupo focal com assistentes sociais; questionário com 
coordenadores de Centros de Apoio de diversos estados; 234 artigos de promotores, procuradores de Justiça 
e 45 artigos de assistentes sociais, apresentados em congressos e encontros do Ministério Público; documentos 
e pesquisas sobre a instituição. O objetivo central do estudo foi analisar a atuação do Ministério Público estadual 
na exigibilidade da proteção social brasileira após 1988, quando a Constituição Federal o incumbe da defesa 
dos interesses sociais, individuais indisponíveis e do regime democrático.
** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/
RS, Brasil. Especialista em Família pela Clínica Domus e em Educação de Jovens e Adultos, na Perspectiva 
da Educação Popular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2002 é assistente social do 
Ministério Público do Rio Grande do Sul. E-mail: silviast@mp.rs.gov.br.
463Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Abstract: This article approaches the emergence of the Department of Justice in the public sphere. 
Such emergence is oriented by the mission (which is still in dispute in the institution) of defending the 
democratic regime and the human rights. The insertion of Social Work in the institution is crossed by 
the contradictions that permeate it and share the purposes of the mission of the institution, given its 
ethical-political-professional project. It shows potential to contribute to the dialogue with the social 
movements and rights councils, as well as to the increase and inspection of public politics, as it is 
marked by emancipatory ideas.
Keywords: Department of Justice. Social Work. Human Rights.
1. Introdução
O presente artigo aborda o recente processo histórico de inserção do Serviço Social no Ministério Público brasileiro, instituição incumbida pela Constituição Federal de 1988 da defesa do regime democrático e	dos	interesses	individuais	indisponíveis	e	sociais.	A	partir	do	final	
de década de 1990, desencadeia-se um movimento de contratação de assistentes 
sociais na instituição, o que se acentuou na década de 2000. Tendo em vista per-
curso	histórico	tão	recente,	abrem-se	múltiplas	possibilidades	de	qualificar	e	dire-
cionar	o	exercício	profissional	nesse	espaço	sócio-ocupacional.
Inicialmente, situa-se de modo breve o processo histórico do Ministério Pú-
blico até a assunção da missão insculpida no artigo 127 da Constituição Federal, 
oferecendo,	ainda,	uma	visão	geral	acerca	da	instituição	e	de	seus	desafios.	Em	
seguida, são discutidos os caminhos que o Serviço Social vem percorrendo na 
instituição,	as	demandas,	as	requisições,	a	direção	social	que	a	profissão	vem	deli-
neando, seus principais limites e possibilidades.
São tecidas possibilidades para as atribuições do Serviço Social no Ministério 
Público,	 à	 luz	 do	projeto	 ético-político-profissional,	 que	 tenham	potencial	 para	
contribuir	com	as	lutas	sociais	pela	defesa	e	garantia	dos	direitos	humanos.	Ao	final,	
sinalizam-se	os	desafios	organizativos	para	a	profissão	e	as	alianças	necessárias	
para que o Serviço Social contribua na aproximação do Ministério Público aos 
propósitos	definidos	pela	Constituição	Federal.
464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
2. A emergência do ministério público como instituição de 
defesa de direitos
As origens da instituição Ministério Público revelam seu surgimento com o 
advento da Revolução Francesa, em 1789, e da Declaração dos Direitos do Homem 
e do Cidadão, quando os reis deixaram de realizar a justiça pessoalmente, dele-
gando tal função ao magistrado. Nessas circunstâncias, surgiu a necessidade de 
um	órgão	fiscalizador	ao	 juiz	—	o	Ministério	Público	 (Maia	Neto,	1999).	Seu	
nascedouro o coloca no lugar de acusador, a princípio como representante do in-
teresse do monarca e, depois, especialmente a partir do século XVIII, com o libe-
ralismo, passou a representar os interesses da sociedade no papel acusatório 
(Porto, 2006).
No	Brasil,	figura	mais	próxima	ao	representante	do	Ministério	Público	surgiu	
no Brasil Colônia, nas disposições contidas nas Ordenações Filipinas. Naquele 
período histórico, o Ministério Público não existia como instituição, os promotores 
públicos da época eram nomeados e exonerados livremente pelos presidentes das 
províncias	e	vinculavam-se	ao	Poder	Executivo	(Maia	Neto,	1999).	A	figura	do	
promotor público passou a existir com a Lei n. 261, de 3/12/1841 (reforma do 
Código de Processo Criminal), mas a existência formal da instituição está vincula-
da ao Decreto Federal n. 1.030, de 1890, no início da República, no governo do 
marechal Deodoro da Fonseca (Maia Neto, 1999).
Os apontamentos históricos acerca do processo de constituição do Ministério 
Público	permitem	identificar	correlações	entre	o	papel	destacado	ou	restrito	e	o	
período histórico. Nesse sentido, nas ditaduras civil e militar, por exemplo, cons-
tata-se uma restrição na atuação e importância social da instituição, observando-se 
o contrário nos períodos de maior abertura política.
A	Constituição	Federal	de	1988	diferenciou-se	das	demais	por	definir	o	Mi-
nistério Público com maior precisão: garantindo-lhe autonomia funcional e admi-
nistrativa; estabelecendo critérios formais para a escolha do procurador-geral da 
República e dos estados; permitindo a exclusividade da promoção da ação penal, 
bem comoampliando a titularidade para o inquérito civil e para a ação civil públi-
ca no que concerne aos interesses difusos e coletivos (Porto, 2006).
Assim, no decorrer do processo histórico, as funções do Ministério Público 
foram	se	modificando,	sendo	hoje	caracterizado	como	instituição	voltada	para	a	
465Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
defesa dos interesses da sociedade, no que diz respeito aos direitos difusos, indivi-
duais indisponíveis e sociais.1
Ritt (2002), ao analisar o papel do Ministério Público, constituído recente-
mente, ressalta que as garantias conquistadas pela instituição, como a indepen-
dência funcional, vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídios, 
passando a ser considerada, por alguns, como poder de Estado, não vêm neces-
sariamente acompanhadas de um entendimento claro de sua missão institucional 
e da consequente importância na realização de uma sociedade justa e igualitária.
Já para Porto (2006), o paradoxo vivido pelo Ministério Público reside na 
assunção da missão de defesa dos interesses coletivos, ao mesmo tempo em que 
conserva a condição de instituição estatal. Defende o referido autor que o Minis-
tério Público transitou da sociedade política para a sociedade civil, a partir da 
visão gramsciana de Estado, por três razões: a social, devido à vocação de atuar 
na defesa da sociedade; a política, pelo compromisso assumido na história de 
defesa da democracia e de suas instituições; a jurídica, em razão das garantias 
constitucionais.
As	reflexões	dos	autores	citados,	sem	dúvida,	conferem	relevo	aos	dilemas	
contemporâneos da instituição, uma vez que ela passou a assumir importância para 
o conjunto da sociedade, sem estar plenamente preparada para tanto. O papel de 
zelar pelos direitos coletivos, ou seja, pelos interesses da maioria da sociedade e, 
em especial, daqueles segmentos mais vulnerabilizados pela pobreza e por formas 
variadas de discriminação, implica agregar novos conhecimentos sobre o sistema 
de proteção social, sobre o funcionamento e a estrutura das políticas públicas, sobre 
habilidades de negociação e de debate com distintos atores sociais. Isso leva a 
concluir que a instituição passa a necessitar de promotores e procuradores de jus-
tiça e servidores com novas competências e habilidades que se coadunem com sua 
missão institucional, o que, por certo, é um processo em construção.
1.	Nessa	seara,	Mazzilli	(1998)	esclarece	os	interesses	definidos	legalmente,	distinguindo-os	quanto	à	
disponibilidade e à titularidade. No primeiro caso, disponíveis são os interesses de maiores e capazes, como 
os patrimoniais, e indisponíveis são direitos como os relativos à vida e à liberdade. Já com relação à 
titularidade, têm-se interesses: individuais; individuais homogêneos (grupo de pessoas que partilham de 
prejuízos divisíveis decorrentes de uma mesma circunstância); coletivos no sentido estrito (grupo de pessoas 
determináveis que partilham de prejuízos indivisíveis decorrentes de uma mesma relação jurídica); difusos 
(grupo de pessoas indetermináveis com danos indivisíveis e reunidas pelas mesmas circunstâncias do fato); 
interesse público em sentido estrito (Estado é o titular, se distingue do interesse privado); interesse público 
em sentido lato.
466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
A autonomia e a independência funcional visam conferir à instituição, no 
âmbito do estado democrático de direito, uma atuação não subjugada a interesses 
de governos ou de qualquer outro dispositivo de poder presente na sociedade. Nes-
sa esteira, o Ministério Público tem o dever de agir quando os segmentos mais 
vulnerabilizados e enfraquecidos na luta política apresentam necessidades não 
supridas,	como	crianças	e	adolescentes,	idosos,	interditos,	pessoas	com	deficiência,	
entre outros, tendo um papel ativo na defesa de direitos.
O regime democrático exige dos agentes do Poder Público atuação em defesa dos 
interesses gerais e indisponíveis dos cidadãos. A realização efetiva da Justiça é alvo 
da instituição do Ministério Público. O promotor de Justiça, como seu representante, 
é um verdadeiro justitie-ombudsman, delegado permanente da coletividade, advogado 
por excelência da sociedade, que vela pela correta aplicação da lei e funciona como 
instância de tutela individual e coletiva de cidadania. (Maia Neto, 1999, p. 35)
Nesse contexto, há uma corrente percepção institucional de que é mais pro-
dutiva a intervenção em situações de não garantia de direitos no âmbito extrajudi-
cial, visto que a jurisdicionalização de causas pode se estender por longos períodos. 
Rojo	(2003,	p.	25)	ratifica	tal	assertiva	quando	refere	que
a jurisdicionalização pode surtir o efeito contrário e transformar-se em um mecanismo 
que ajude a postergar as decisões. Com efeito, este recurso à lei e seus magistrados 
pode permitir ao poder político criar uma aparência de tratamento do assunto, quando 
em realidade o que ele consegue é suspender a resolução deslocando as demandas a 
um	espaço	 supostamente	 técnico	 onde	 os	 cidadãos	 teriam	mais	 dificuldades	 para	
controlar ou apressar sua evolução.
Dessa	forma,	a	jurisdicionalização	de	conflitos	é	matéria	controversa	que,	se	
por um lado pode constituir-se em meio de assegurar direitos, por outro pode mas-
carar negativas de direitos e, mais do que isso, institucionalizar possíveis lutas 
sociais, que teriam maior êxito se desenvolvidas no contexto social no qual se 
produzem.
Nesse diapasão, o Ministério Público está imerso em relações sociais, e sua 
aproximação ou afastamento da missão atribuída constitucionalmente encontra 
conexão com interesses, projetos políticos e relações que se estabelecem e que 
estão em disputa. Entre relações e projetos, o Ministério Público emerge do texto 
constitucional com a potência de criar novas hegemonias, em direção a uma socie-
467Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
dade mais igualitária, em que os frutos do desenvolvimento das forças produtivas 
sejam compartilhados entre todos. Todavia, o novo emerge emaranhado ao velho. 
O Ministério Público é incumbido de uma missão que não foi apropriada interna-
mente por todos os seus membros, evidenciando-se a disputa pela hegemonia da 
direção social da instituição.
A missão constitucional do Ministério Público se efetivará na medida em que 
a instituição for capaz de dialogar com os diferentes atores que compõem a esfera 
pública, portadores de interesses e projetos políticos distintos. Assim, não lhe bas-
ta a vontade de constituir-se em um articulador da garantia dos direitos humanos, 
pois esta é apenas parte; há, ainda, as circunstâncias (Nogueira, 2004). A explici-
tação de interesses e projetos, o desvendamento de sua essência, no claro-escuro 
do real, e a sua apreensão pelos agentes ministeriais são essenciais. A visão de to-
talidade, a conexão entre os fragmentos do real e a compreensão crítica da corre-
lação de forças é que dará qualidade política à intervenção do Ministério Público, 
por meio de sua preparação para o diálogo entre os atores que interagem na esfera 
pública.	Isso	desafia	o	Ministério	Público	a	construir	dispositivos	analíticos	dire-
cionados a essas realidades complexas, que permitam o dimensionamento de estra-
tégias e posicionamentos em favor daqueles interesses que se coadunam com os 
direitos humanos a ser garantidos por meio das políticas públicas.
Ao	atribuir-se	significado	a	essas	relações	percebe-se	que	elas	são	atravessa-
das por contradições. Constata-se que a instituição vive, nas suas relações com os 
demais	atores	da	esfera	pública,	uma	tensão	fundante	entre	a	posição	de	fiscal	e	a	
de parceiro, que acaba por se expressar na ambiguidade da identidade institucional. 
A	partir	dessa	ambiguidade,	identificam-se	tendências	distintas	das	relações	esta-
belecidas, as quais podemser agrupadas de forma reguladora e dialógica. A primei-
ra, amparada em perspectiva iluminista, coloca a instituição no lugar do saber, 
portanto capaz de oferecer saídas, orientar, conduzir as relações ou de lançar mão 
de	mecanismos	coercitivos.	Essa	 tendência	revela	a	dificuldade	em	transitar	em	
meio a uma dinâmica complexa de relações e interesses, vislumbrando como alter-
nativa o uso do lugar de autoridade da instituição. A segunda, que pode ser alinha-
da com uma ideia de direção político-cultural, volta-se para a construção de meca-
nismos educativos, com potencial para a indução de políticas públicas. Essas 
tendências nem sempre se apresentam na realidade de modo límpido; por vezes 
estão imbricadas nas experiências cotidianas.
É necessário reconhecer que a própria missão atribuída ao Ministério Público 
na Constituição coloca-o em lugar de centralidade. Esse lugar convida à postura 
468 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
iluminista, ao caminho da arrogância e do messianismo. Por outro lado, essa missão 
dá-se no âmbito do estado democrático de direito, que tensiona para a construção 
de	direções	 hegemonicamente	 edificadas,	 ou	 seja,	 requer	 capacidade	 de	 dirigir	
técnica e politicamente, de construir consensos (Nogueira, 2004) e “saídas” alicer-
çadas coletivamente. As situações, individuais e coletivas, que aportam ao Minis-
tério Público, são dotadas de complexidade, pois manifestam as ausências e as 
negações de direitos. Esse contexto insta à oscilação entre a impotência e o mes-
sianismo, o que é um risco às relações e à atuação institucional, pois ambas as 
posições podem conduzir à omissão e a comportamentos antidemocráticos.
No entanto, os achados da pesquisa realizada indicam que o reconhecimento 
dos diferentes interesses e a capacidade de negociação, sem transigir nos direitos 
a serem garantidos, podem auxiliar na convergência de direção social. Nessa 
perspectiva, os caminhos escolhidos para a ação devem fortalecer a democracia e 
a corresponsabilidade dos atores envolvidos, alcançando a pactuação de acordos 
que	conduzam	à	afirmação	dos	direitos.	Assim,	a	atuação	institucional	na	direção	
das políticas públicas, capazes de disponibilizar os direitos assegurados no plano 
legal é, sem dúvida, um caminho profícuo para a consecução da sua missão, mas 
encontra, nas relações estabelecidas, a sua potência e a sua fraqueza.
Identificam-se	duas	vertentes	no	que	concerne	às	políticas	públicas:	a	do	fo-
mento	e	a	da	fiscalização.	No	caso	do	fomento,	evidencia-se	que	o	guia	para	a	ação	
institucional são os direitos garantidos legalmente e ainda não efetivados, consti-
tuindo-se	numa	agenda	de	direitos.	A	fiscalização	das	políticas	públicas,	por	sua	
vez, relaciona-se com a qualidade da política pública, evidenciando que não basta 
a oferta de programas, projetos e serviços correlacionados a direitos; é preciso 
avaliar sua qualidade e correspondência aos direitos assegurados. Dessa forma, a 
fiscalização	é	dotada	de	expressiva	complexidade,	pois	conduz	o	Ministério	Públi-
co	ao	âmago	das	políticas,	à	sua	gestão,	aos	paradigmas	que	as	definem,	aos	seus	
processos cotidianos de trabalho.
Tanto	a	atuação	rumo	ao	fomento	das	políticas	públicas	quanto	a	sua	fiscali-
zação indicam a necessidade de que a instituição esteja devidamente apoiada por 
equipes	técnicas	multidisciplinares,	qualificadas	quanto	à	concepção	e	ao	funcio-
namento das políticas públicas, o que requer determinado arcabouço de conheci-
mentos técnicos. Além disso, pede o planejamento das ações institucionais, visto 
que	o	fomento	e	a	fiscalização	são	incompatíveis	com	ações	voluntaristas	e	condi-
cionadas aleatoriamente às demandas externas, pois são atividades que requerem 
especialização e direcionamentos claros dos trabalhos, em termos metodológicos 
469Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
e	de	suas	finalidades.	É	nesse	contexto	desafiador	e	complexo	que	o	Serviço	Social	
vem atuando desde meados da década de 1990, sendo essa caminhada objeto de 
análise do próximo item.
3. O processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público
O	Serviço	Social	é	uma	profissão	com	inserção	recente	no	Ministério	Público	
e fruto do processo de mudança vivido pela instituição quanto à assunção da missão 
de	defesa	dos	direitos	individuais	indisponíveis	e	sociais.	Identifica-se	a	consonân-
cia entre a missão institucional quanto à garantia de direitos humanos e o projeto 
ético-político-profissional,	sendo	aqui	apontadas	algumas	das	construções	coletivas	
da	categoria	no	Ministério	Público	e,	ainda,	seus	limites	e	desafios.
Inicia-se pela discussão e apresentação da categoria demandas, pois estas 
expressam a intencionalidade da instituição ao incorporar os assistentes sociais em 
seus	quadros.	Identifica-se	que	as	demandas	encaminhadas	aos	profissionais	são	as	
mais diversas; porém, quanto ao âmbito da intervenção, é possível reuni-las em 
dois grupos: em situações individuais e em matérias de direito difuso e coletivo. O 
primeiro grupo envolve o estudo social, subsidiando os promotores de justiça 
quanto à condução de violações de direitos nesse âmbito; o outro, atividades rela-
tivas à exigibilidade de políticas públicas,	tais	como:	fiscalização,	fomento,	acom-
panhamento, controle e avaliação; realização de estudos e pesquisas sobre deter-
minada	realidade;	articulação	política	relativa	à	promoção	de	diálogos,	firmatura	
de pactos, termos e parcerias para garantir direitos/cumprimento de políticas públi-
cas;	vistorias	em	entidades	com	o	fito	de	avaliar	a	qualidade	do	atendimento.
Os artigos apresentados no I, II, III e IV Encontro Nacional do Serviço Social 
no Ministério Público (ENSSMP), realizados de 2006 a 2012, bianualmente, são 
aqui	considerados	expressão	das	demandas	trabalhadas	pelos	profissionais	neste	
espaço sócio-ocupacional. Foram elaborados, no período, setenta artigos, entre os 
quais o tema com maior destaque é a direção social do Serviço Social no Ministé-
rio Público, com 34,27% (24) das produções, sendo que muitos dos textos realizam 
a	apresentação	das	experiências	profissionais,	enfocando	os	avanços	e	dificuldades	
na aproximação daquilo que consideram o direcionamento almejado pela categoria 
na	instituição.	Em	seguida,	tem-se	a	temática	da	fiscalização	de	entidades	de	aten-
dimento	e	políticas	públicas	que	figura	com	10%	(7)	do	todo,	o	que	encontra	rela-
470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
ção com a atuação no âmbito do direito coletivo e com a previsão em diversas le-
gislações	de	 atribuições	 do	Ministério	Público	na	fiscalização	das	 entidades	de	
atendimento e da defesa de direitos de modo geral, materializada por meio das 
políticas públicas.
É	interessante	apontar,	igualmente,	a	significância	das	produções	em	torno	
dos novos sujeitos de direitos, ou seja, segmentos como o idoso, a pessoa com 
deficiência,	a	mulher,	que,	juntos,	contam	com	25,71%	(18)	das	produções.	O	in-
fantojuvenil, por sua vez, embora não apareça como tema central, consta em mui-
tos artigos como pano de fundo, em discussões cujo foco está deslocado para outros 
temas:	a	estratégia	metodológica	do	trabalho	em	rede	ou	do	estudo	de	caso,	a	fis-
calização de entidades, a garantia do direito à convivência familiar, o disque 100 
ou o ato infracional praticado por adolescente. O mesmo ocorre, em menor medida, 
com	o	segmento	idoso	e	pessoa	com	deficiência,	quando	o	tema	é	a	interdição.
A	amplitude	das	demandas	identificadas	permite	compreendê-las	como	requi-
sições que estão impregnadas de visões de mundo, de concepções e de posições 
políticas.	Por	exemplo,	o	primeiro	grupo	de	demandas	—	as	de	cunho	individual	
—	encontra	relação	com	a	tradição	de	atuação	do	Serviço	Social	no	Poder	Judiciá-
rio, na elaboração de estudos sociais relativos a situações familiares onde há vio-
lação de direitosou litígios. Certamente, essa forma histórica de inserção marca o 
ingresso do Serviço Social no Ministério Público, pois seus membros tinham como 
referência essa atuação, demandando-a em um primeiro momento. A atenção a 
demandas de cunho individual é atravessada por contradições que, encharcadas da 
vivência no mundo jurídico, assumem determinadas características, como a ten-
dência a serem desenraizadas de suas bases econômicas e sociais, para serem 
abstraídas e respondidas de modo fragmentário. Nesse sentido, Aguinsky (2003), 
pesquisadora sobre a inserção do Serviço Social no Poder Judiciário, explicita tais 
características:
A moralidade implicada no ethos da sociedade liberal providencia uma análise e tra-
tamento da questão social delimitada na ótica de problemas isolados, fragmentando a 
vida social que deixa de ser apreendida como totalidade, mas, antes, como um agre-
gado de partes autônomas. Essa moralidade, ao mesmo tempo em que pode ser pon-
derada como instrumento ideológico de ocultamento das bases materiais e estruturais 
da questão social, dimensiona seu enfrentamento (da questão social) na perspectiva 
da internalização social de normas e deveres que se constituem de modo despolitiza-
do	—	como	que	na	fundamentação	de	uma	expectativa	social	prevalente,	na	direção	
de comportamentos desenraizados politicamente frente às expressões de desigualdade 
471Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
na sociedade que, em verdade, traduzem demandas de direitos sociopolíticos, que 
assim não são consideradas.
Aos argumentos expostos por Aguinsky (2003) quanto à abordagem da ques-
tão social nessa dimensão, cumpre acrescentar que o Ministério Público é institui-
ção distinta do Poder Judiciário, pois suas atribuições devem assumir a direção da 
garantia dos direitos humanos no contexto judicial e extrajudicial. Assim, a refe-
rência	do	Serviço	Social	Judiciário	pode	conduzir	a	uma	ênfase	da	atuação	profis-
sional na esfera individual, assumindo facetas fragmentárias, pontuais, menos 
abrangentes e descoladas da missão da instituição ministerial. Pode, também, 
constituir-se em espaço de garantia de direitos a sujeitos que os tiveram violados 
ou sonegados. Por seu turno, o Serviço Social tem o potencial de descortinar na 
instituição um leque de intervenções voltadas para a garantia de direitos de coleti-
vidades, em caráter mais abrangente e continuado, quando sua intervenção se 
volta ao fomento de políticas públicas de Estado.
Os artigos apresentados pelos assistentes sociais nos encontros do Serviço 
Social no Ministério Público retratam experiências de intervenção no âmbito das 
coletividades,	na	fiscalização	de	entidades,	no	fomento	de	políticas	públicas	e,	até	
mesmo,	na	reflexão	em	torno	de	intervenções	relativas	às	avaliações	sociais,	de	
modo que o tema das políticas públicas se revela permanente. A tendência predo-
minante é a do debate em torno das políticas públicas da proteção social de modo 
genérico, enfocando o papel do Estado na garantia dos direitos humanos, perfazen-
do 58,57% (41), sendo que apenas 18,57% (13) não abordavam o tema das políticas 
públicas.	Quanto	 à	 discussão	 específica	das	 políticas,	 emergem	dos	materiais	 a	
saúde, com 7,14% (5), a assistência social, com 5,72% (4), e a educação, com 4,28% 
(3), dando-se maior relevo à primeira, em torno das temáticas da saúde do traba-
lhador, da saúde em geral e da saúde mental.
Neste contexto de leitura das políticas públicas da proteção social, as duas 
dimensões	—	individual	e	coletiva	—	chegam	a	ser	dicotomizadas,	contrapostas	
nos textos analisados, muito embora, como já referido, a preocupação com a con-
textualização e a compreensão dos determinantes da vida social acompanhe o 
conjunto das análises, mesmo as que se referem ao âmbito individual. Não se trata 
de optar por uma dimensão de intervenção ou outra, mas de percebê-las no movi-
mento contraditório do real, conectando a particularidade e a universalidade, isso 
dentro	de	um	processo	de	planejamento	da	atividade	profissional	que	não	permita	
a captura pela alienação do cotidiano.
472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Portanto, a questão das demandas sociais para o Serviço Social não é algo percebido 
na visibilidade aparente dos problemas e necessidades sociais, mas é um processo que 
requer um aprofundamento analítico na investigação da realidade social em suas várias 
facetas, para que possam ser devidamente operadas as mediações teórico-políticas 
[...]. (Serra, 2000, p. 165)
No que diz respeito à direção social da atuação do Serviço Social no Minis-
tério Público, o I ENSSMP, promotor da primeira síntese coletiva sobre o tema, 
concluiu ser
a atuação no campo da assessoria, subsidiando e propondo ao Ministério Público no 
campo das políticas públicas e na garantia de direitos nas diversas áreas, buscando 
coletivizar os casos individuais [...] fomentar a materialização dos direitos sociais em 
políticas públicas. (Rio Grande do Sul, 2006, p. 26)
Nesse contexto, o objeto da intervenção do Serviço Social, compreendido 
genericamente	como	a	questão	social,	vai	adquirir	contornos	específicos	neste	es-
paço sócio-ocupacional. Como assinala Baptista (2002), a delimitação do objeto 
da intervenção requer sucessivas aproximações, em um processo permanente de 
reconstrução.
A	direção	social	e	o	processo	de	delimitação	do	objeto	confluem	para	o	pro-
jeto ético‑político‑profissional. Evidencia-se, nos materiais analisados, a percepção 
de que há uma profunda relação entre a missão institucional do Ministério Público, 
conferida na Constituição Federal de 1988, e o projeto ético-político do Serviço 
Social, especialmente quanto à defesa da democracia e dos direitos humanos, 
conforme segue:
[...] antes de representar uma resposta técnico-operativa às solicitações institucionais, 
construídas majoritariamente pela ótica dos demandatários (promotores de Justiça), 
visa atender originalmente às demandas dos usuários do Serviço Social, tendo como 
fio	condutor	o	referencial	ético-político	construído	historicamente	pela	profissão,	e	
expresso	no	atual	Código	de	Ética	Profissional.	Este	traz	em	seu	bojo	princípios	que	
reforçam	a	materialização	de	uma	conduta	aliada	não	apenas	a	um	projeto	profissional,	
mas, sobretudo, a um projeto societário anticapitalista e antiburguês. Dentre tais 
princípios, frisamos a defesa do aprofundamento da democracia, o posicionamento 
em favor da equidade e da justiça social, a ampliação e consolidação da cidadania 
e o compromisso com a qualidade dos serviços prestados. (Silva e Silva, 2006, p. 4)
473Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Ramos (2002), docente em Serviço Social, discutindo o projeto ético-político 
da	profissão	e	suas	conexões	com	um	projeto	societário,	delimita	melhor	os	limites	
e	potencialidades	do	projeto	profissional:
Do	meu	ponto	de	vista,	a	denominação	ético-político,	presente	no	projeto	profissional,	
não	se	fundamenta	em	uma	visão	mecanicista,	como	se	o	projeto	profissional	tivesse	
condições para ocupar o lugar de um projeto societário. O termo projeto ético-políti-
co	profissional	expressa	a	existência,	neste	projeto	coletivo,	da	nítida	dimensão	ética,	
na	medida	em	que	convoca	os	profissionais	de	Serviço	Social	para	refletir	sobre	os	
valores e desvalores que orientam suas ações. Ao fazer isto, este projeto vincula-se à 
defesa	de	determinados	valores	e	princípios	éticos	identificados	com	a	busca	da	eman-
cipação humana. O termo projeto ético-político apresenta, ainda, uma clara dimensão 
política, que se constrói no bojo das relações sociais, no movimento das classes sociais, 
considerando as opções políticas subjetivas e a construção de estratégias no campo 
democrático-popular, estabelecendo, no entanto, um conjunto de mediações no am-
biente	profissional.	(Ramos,2002,	p.	92)
Contudo, a assertiva de Silva e Silva (2006) contém outro elemento impor-
tante	para	a	análise,	além	da	afirmação	do	projeto	ético-político	profissional.	Ela	
retrata certa contraposição entre as demandas instituintes e as dos usuários. Aliás, 
essa disjunção é apresentada por autores do Serviço Social, como Serra (2000), 
para	a	qual,	no	caso	da	profissão,	há	uma	separação	entre	quem	demanda	e	quem	
recebe diretamente os serviços, sendo as demandas compreendidas como requisições 
técnico-operativas. Tal posicionamento permite introduzir um aspecto essencial 
para	a	condução	da	intervenção	profissional	na	instituição,	ou	seja,	de	que	as	de-
mandas institucionais são o ponto de partida do delineamento da intervenção pro-
fissional,	como	menciona	Baptista	(2002,	p.	32):
Na	prática,	a	(re)construção	do	objeto	da	ação	profissional	é	um	processo	que	envol-
ve operacionalização das demandas institucionais, das pressões dos usuários e das 
decisões	profissionais.	Uma	vez	que	a	intervenção	e	o	planejamento	da	ação	do	pro-
fissional	se	realizam	primordialmente	nas	instituições,	é	a	demanda	institucional	o	
ponto de partida e o ponto de referência para essa construção e para o planejamento 
da intervenção. Isso não implica a redução da decisão e da ação aos limites institucio-
nais, mas o reconhecimento de que essa demanda pode potencializar a abertura de 
novos espaços para enfrentamento concreto da questão a ser trabalhada.
474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Todavia,	Iamamoto	(2008),	em	recente	obra	que	discute	a	profissão	e	seus	
rumos frente ao capitalismo contemporâneo, discorre sobre o trânsito entre a aná-
lise	da	profissão	e	o	seu	efetivo	exercício,	ou	seja,	a	autora	parte	da	condição	de	
trabalho assalariado alienado e pontua seus condicionantes à efetivação da direção 
social que se projeta. Sustenta ela:
Esta condição sintetiza tensões entre o direcionamento que o assistente social preten-
de	imprimir	ao	seu	trabalho	concreto	—	afirmando	sua	dimensão	teleológica	e	cria-
dora	—,	condizente	com	um	projeto	profissional	coletivo	e	historicamente	fundado;	
e os constrangimentos inerentes ao trabalho alienado que se repõem na forma assa-
lariada do exercício profissional. (Iamamoto, 2008, p. 214)
Para	essa	autora,	o	significado	social	do	trabalho	do	assistente	social	depende	
das condições e relações estabelecidas com seus contratantes, no caso, do Ministé-
rio Público, agentes do Estado, administradores da instituição. Os empregadores 
determinam as necessidades sociais a serem atendidas, a matéria sobre a qual inci-
de o trabalho (recortes das expressões da questão social), as suas condições (inten-
sidade, jornada, salário, controle do trabalho, produtividade e metas) e efeitos na 
reprodução das relações sociais (Iamamoto, 2008).
No que tange às condições de trabalho, evidencia-se um empenho da instituição 
na disponibilização de recursos materiais	para	o	exercício	profissional	(Dortas,	2006).	
Apesar disso, as resoluções dos encontros nacionais (Rio Grande do Sul, 2006; Dis-
trito Federal, 2008) mencionam a necessidade de adequar as condições de trabalho 
às normativas profissionais vigentes (Resolução CFESS n. 493/2006, de 21/8/2006), 
assim como fazem referência à precarização do trabalho técnico com contratações 
terceirizadas em alguns estados, criando dois quadros, um concursado e outro tercei-
rizado (Grupo Focal, P1). Nesse sentido, as agendas de lutas, são: criação do cargo 
de assistente social onde não há; criação de adicional de periculosidade devido à 
realização de visitas domiciliares em locais perigosos; nomeação de concursados; 
abertura de concursos públicos; defesa do ingresso por meio exclusivo do concurso 
público; fortalecimento do movimento de redução da carga horária, conforme Projeto 
de	Lei	n.	1.897/2007.	Em	muitos	Estados,	o	número	insuficiente	de	profissionais	já	
vem resultando na demora do atendimento às demandas, assim como a excessiva 
demanda	individual	dificulta	a	atenção	às	matérias	coletivas	(Grupo	Focal,	P7).
As condições de trabalho não estão apartadas da direção social que a inter-
venção	venha	a	adquirir,	pois	o	desenvolvimento	da	profissão	guarda	relação	com	
475Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
a (re)valorização da sua função social, perpassando aspectos concretos, como a 
criação de novos postos de trabalho, constituição de novas demandas, diante de 
novas necessidades sociais e pela valorização salarial. Todavia, todos esses aspec-
tos são determinados historicamente, sendo permeados pelos processos sociais da 
realidade	e	pelos	movimentos	da	própria	categoria	profissional	(Serra,	2000).
É justamente nesse espaço tenso e contraditório que se situa o protagonismo 
dos	assistentes	sociais.	A	atuação	do	profissional	tem	relativa	autonomia,	pois	as	
condições dadas pelo empregador condicionam os resultados do trabalho e, com 
isso,	o	projeto	profissional,	como	mencionado	a	seguir:
[...] a possibilidade de imprimir uma direção social ao exercício profissional	do	assis-
tente	social	—	moldando	o	seu	conteúdo	e	o	modo	de	operá-lo	—	decorre	da	relativa 
autonomia de	que	ele	dispõe,	resguardada	pela	legislação	profissional	e	passível	de	
reclamação judicial. A efetivação dessa autonomia é dependente da correlação de 
forças econômica, política e cultural em nível societário e se expressa, de forma 
particular, nos distintos espaços ocupacionais, que envolvem relações com sujeitos 
sociais determinados: a instituição estatal (Poder Executivo e Ministério Público, Ju-
diciário e Legislativo); as empresas capitalistas; as organizações político-sindicais; as 
organizações privadas não lucrativas e as instâncias públicas de controle democrático 
(Conselhos de Políticas e de Direitos, conferências, fóruns e ouvidorias), que sofrem 
profundas metamorfoses sociais em tempo de capital fetiche. (Iamamoto, 2008, p. 220)
Dessa	forma,	foram	identificadas	nos	textos	analisados	estratégias intracate-
gorias e gerais. As estratégias intracategorias assumem a faceta articuladora do 
grupo	profissional,	no	sentido	de	forjar	a	direção	social	da	intervenção,	fortalecer	
a identidade, buscar legitimação e reconhecimento, obter as condições necessárias 
ao	seu	trabalho	e	o	aprimoramento	profissional.	As	estratégias	intracategorias	são	
aquelas	 construídas	 a	 partir	 do	 coletivo	—	categoria	 profissional	 no	Ministério	
Público.
As estratégias intracategorias denotam a percepção de que isoladamente os 
profissionais	perdem	força	nas	suas	demandas	e	proposições	de	trabalho,	sendo	a	
aliança	entre	os	pares	um	modo	de	dar	visibilidade	ao	conjunto	dos	atores	profis-
sionais e buscar alguma condição de protagonismo. Ramos (2002), ao discutir a 
construção de projetos coletivos, tendo por base a produção de Agnes Heller, Karl 
Marx e Gramsci, nomeia três elementos que contribuem para a viabilização/proje-
ção de projetos coletivos: a necessidade, a consciência e a vontade.
476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
As necessidades são construídas social e historicamente com mediação da 
cultura. A busca por suprir as necessidades leva os indivíduos a se agruparem co-
letivamente com vistas à construção de um projeto societário que os satisfaça. A 
formação da consciência humano-genérica se dá como mediação para a ação cole-
tiva. Os grupos sociais, no desenvolvimento de suas lutas, consolidam alianças 
voltadas para a superação do plano corporativo, na direção do universal e da uni-
dade que, em busca de uma nova hegemonia, materializa-se em propostas políticas 
e valores éticos. A vontade, por sua vez, distingue-se do mero desejo, pois é per-
meada por relações sociais e tensões. Além disso, a realização da vontade coletiva 
carece de previsão, de concepção de mundo, de querer e de paixão (Ramos, 2002).
No que diz respeito às estratégias gerais,ou seja, aquelas relativas à relação 
profissional-instituição,	 que	vêm	 sendo	 construídas	 pelos	 assistentes	 sociais	 do	
Ministério Público, no cotidiano de implantação e implementação de seu trabalho, 
especialmente	o	documento	final	 do	 I	Encontro	Nacional	 do	Serviço	Social	 no	
Ministério Público foi profícuo quanto ao seu delineamento, pautando:
[...]	definir	e	divulgar	o	papel	do	profissional	de	Serviço	Social	na	instituição;	distin-
guir atribuições periciais e de assessoramento técnico (incluindo a produção diferen-
ciada	de	documentos),	definindo	o	papel	do	assistente	social	no	Ministério	Público	
como de assessoramento técnico; obter o reconhecimento das atribuições e possibili-
dades do Serviço Social; atuar na perspectiva da interdisciplinaridade e intersetoria-
lidade;	dar	maior	visibilidade	ao	projeto	ético-político	do	SS	no	cotidiano	profissional;	
apresentar-se	como	uma	profissão	habilitada	a	atuar	no	campo	das	políticas	públicas	
(fiscalização,	fomento,	acompanhamento,	controle	e	avaliação),	não	se	limitando	aos	
casos individuais, de acordo com as atribuições do MP; deixar claro que o espaço 
profissional	do	SS	do	MP	não	é	campo	de	execução	de	políticas	públicas;	legitimar	o	
espaço de trabalho; pensar nas demandas do interior dos estados; criar espaços de 
diálogo entre os integrantes do Ministério Público (membros e servidores). (Rio 
Grande do Sul, 2006, p. 26)
Como se pode observar, as estratégias construídas pelos assistentes sociais 
buscam alcançar o reconhecimento e a delimitação de atribuições, convergindo para 
a	sua	visibilidade	como	uma	área	profissional	capaz	de	contribuir	na	tarefa	institu-
cional de defesa e garantia do direito à proteção social.
A coletivização das demandas individuais, buscando percebê-las como direi-
tos universais, é uma das estratégias centrais do Serviço Social na instituição 
477Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
(Grupo	Focal,	P8).	Essa	estratégia	encontra	consonância	com	as	reflexões	de	Iama-
moto	(2008)	quanto	ao	desafio	para	o	assistente	social,	no	seu	trabalho	cotidiano,	
de desentranhar das situações singulares de indivíduos, famílias, grupos e segmen-
tos, atravessadas por determinações de classe, as suas dimensões universais. Com 
isso, propõe transitar da esfera privada para a cena pública onde se processa a luta 
por direitos.
Todavia, no espaço do grupo focal, é pontuada a complexidade de transformar 
demandas individuais em coletivas, pois exige um processo de mudança na insti-
tuição como um todo e do demandante de determinada ação, ou seja, os condicio-
nantes institucionais estão sempre presentes:
[...] porque antes de o promotor aceitar a nossa proposta de coletivizar aquilo que 
aparece individualmente, ele tem que se sentir incomodado pela questão social e ele 
não se sente, porque ele nunca visitou uma favela [...]. Ele vem naquela trajetória de 
classe, e aí chega lá o instituído que está bem colocado porque quem não tem projeto 
assume o projeto em vigor e o projeto em vigor das instituições é um projeto burguês, 
todas as instituições estão atravessadas por ele. (Grupo Focal, P1)
As	reflexões	de	Aguinsky	(2003)	acerca	do	Poder	Judiciário	podem	auxiliar	
a	compreender	as	 lógicas	que	operam	no	Sistema	de	Justiça	e	que	dificultam	a	
ruptura com o lugar tradicional deste. Nesse diapasão, o direito apresenta-se como 
um	dos	instrumentos	utilizados	pelo	Estado	para	gerir	conflitos	presentes	nas	rela-
ções sociais, na ótica de comportamentos socialmente admissíveis e desejáveis, que 
não coloquem em risco os interesses do capital.
Assim, um estudo social construído a partir da ótica da garantia de direitos 
foge ao lugar-comum do enquadramento das relações sociais. Ele traz novos prismas 
interpretativos para as situações individuais que as conectam ao universal, às de-
terminações sociais, políticas, econômicas e culturais e, por isso, causa estranheza. 
Contraditoriamente, a própria missão contemporânea do Ministério Público o 
conduz ao encontro de visões mais abrangentes e contextualizadoras. Nessa con-
cepção, talvez alguns dos agentes ministeriais ainda não estejam plenamente pre-
parados para fazer a mediação particular-universal, para transpor o individual ao 
coletivo, para perceber a situação individual de modo menos criminalizante ou 
culpabilizador.
Transparece, nos dados coletados, aquilo que as pesquisadoras em Serviço 
Social Martinelli e Koumrouyan (1994) chamaram de “indicadores coletivamente 
478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
construídos”, representados por dois eixos: a efetividade das ações e o seu alcance 
social. O primeiro, relativo à força política das ações desenvolvidas no que tange 
à transformação social da realidade; o segundo, referente ao impacto junto à popu-
lação. Essa parece ser a questão que se coloca nos textos produzidos pelos assis-
tentes sociais do Ministério Público e das expressões verbais quanto ao desenvol-
vimento de ações que impactem a realidade social na direção da garantia dos 
direitos humanos.
4. O direito difuso e coletivo como eixo da atuação do Serviço Social
Para que se possa incidir institucionalmente no direcionamento do trabalho 
profissional,	é	relevante	a	perspectiva	interdisciplinar,	a	qual	figura	entre	as	es-
tratégias	mencionadas	pelos	profissionais,	embora	sem	maior	densidade	na	pro-
dução. É curiosa a baixa relevância da temática, pois a interdisciplinaridade re-
mete ao diálogo com o direito, área do conhecimento central na instituição, pois 
de formação de seus membros. A esse propósito, Aguinsky (2003, p. 90) pontua 
que “de nada adiantaria a atuação do assistente social, alcançando com sua com-
petência	particular,	o	que	a	ótica	do	Direito	não	alcança	se,	ao	final,	não	fosse	
esta	competência	traduzida	em	outra	—	a	da	linguagem	institucional,	a	linguagem	
do Direito”.
Assim,	coloca-se,	ao	mesmo	tempo,	como	possibilidade	e	desafio	a	constitui-
ção de processos dialógicos com os membros do Ministério Público. É por meio 
das decisões tomadas por eles que as indicações do Serviço Social terão incidência 
intrainstitucional e na atuação da instituição em face dos distintos atores da esfera 
pública, implicados com a efetivação ou não dos direitos humanos.
A perspectiva interdisciplinar articula-se à dimensão do planejamento. Sousa 
(2008) realiza uma síntese das estratégias que devem ser implementadas pelo Ser-
viço Social no Ministério Público, articulando diferentes dimensões:
[...] o Serviço Social necessita apropriar-se de seu lugar, impor seus limites, realizar 
pesquisas, estudos e planejar melhor sua atuação para propor ações que somadas à 
missão do Ministério Público contribuam efetivamente para a construção de uma nova 
ordem societária. (Sousa, 2008, p. 7)
479Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
A questão que se coloca é a necessidade de superar o cotidiano e envidar 
esforços	no	sentido	de	planejar	e	refletir	acerca	dele,	sob	pena	de	a	intervenção	
profissional	submergir	às	demandas	cotidianas	que,	 tratadas	de	modo	pontual,	
muitas vezes se tornam empobrecedoras das possibilidades de contribuição do 
Serviço Social no que diz respeito à garantia dos direitos humanos. Assim, o 
planejamento
vem em oposição àquela em que as decisões são tomadas ao sabor das necessidades 
emergentes, quando as atividades são informadas e decididas em razão do desenvol-
vimento natural de uma situação, sem uma consciência clara de sua importância no 
espaço mais amplo, no qual se insere. (Baptista, 2002, p. 79)
Nesse viés, Baptista (2002), a partir de suas diversas produções na área do 
planejamento, propõe dois critérios básicos para a eleição de prioridades de inter-
venção: a relevância e a viabilidade. A relevância diz respeito à percepção sobre o 
impacto da ação, em que a questão em análise deve ser vistano seu conjunto, ve-
rificando	a	importância	de	cada	variável	com	relação	ao	problema,	suas	determi-
nações, interação entre diferentes aspectos, consequências e processos emergentes. 
Já	a	viabilidade	relaciona-se	à	avaliação	da	influência	do	planejador	sobre	os	pro-
blemas objeto do planejamento. Ela exige a leitura da governabilidade de quem 
planeja sobre o espectro da ação vislumbrada.
Avançando um pouco mais, a autora mencionada traz contribuições impor-
tantes para se pensar o processo de planejamento do Serviço Social no Ministério 
Público. Propõe, para o estudo da viabilidade das prioridades, a análise dos seguin-
tes aspectos:
[...] o âmbito institucional, suas funções e responsabilidades; as possibilidades con-
cretas	de	intervenção	em	termos	financeiros,	de	pessoal,	de	conhecimentos	acumula-
dos,	de	técnicas	e	de	prazos;	a	coerência	com	a	política	definida	em	outros	níveis;	a	
compatibilidade com a situação social, econômica e política vigente; a oportunidade 
política	para	agir	sobre	a	causa	identificada;	o	índice	de	possibilidade	de	aceitação,	
por parte da população usuária. (Baptista, 2002, p. 76)
Tais contribuições são pertinentes, uma vez que oferecem elementos concre-
tos para o processo de planejamento. A direção social que se pretende imprimir à 
intervenção do Serviço Social na instituição não se faz a partir do voluntarismo ou 
do mero pensamento desejoso. Ela carece de processos de formulação que façam 
480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
uma apropriada análise da conjuntura institucional, das relações e dos projetos 
políticos em disputa no espectro dos direitos humanos, que mapeie as forças apoia-
doras e opositoras dos processos de garantia de direitos e, sobretudo, indique a 
composição das alianças necessárias, pois o assistente social isoladamente é incapaz 
de conduzir e incidir em processos emancipatórios, visto que se constituem em 
tarefa coletiva.
No que tange às possibilidades de contribuição, os materiais estudados con-
vergem para o eixo central da contribuição quanto ao acesso da população aos seus 
direitos, no cenário da atuação extrajudicial. A atuação no âmbito coletivo é per-
cebida	como	privilegiada	pelos	profissionais,	com	base	no	entendimento	de	que	sua	
participação em matérias coletivas, que são ou precisam ser objeto da intervenção 
da instituição, deve ocorrer na defesa, garantia e ampliação de direitos.
Foram apontadas, por membro da instituição, contribuições relativas à sensi-
bilidade	para	a	identificação	de	necessidades	sociais	e	quanto	ao	diálogo	com	dife-
rentes segmentos, sendo emblemática dessas possibilidades a seguinte assertiva:
Tem contribuído de forma consistente na aproximação das pessoas e dos segmentos 
sociais em situação de vulnerabilidade em relação à instituição, no planejamento e na 
execução de planos e projetos institucionais voltados à garantia dos direitos constitu-
cionais, na abertura de diálogos importantes na busca de soluções para as questões 
apresentadas aos órgãos ministeriais e nos procedimentos voltados ao cumprimento 
das funções atribuídas ao Ministério Público. (Questionário, 2)
Dentre as possibilidades de contribuição, destaca-se, ainda, a de favorecer o 
diálogo com a sociedade civil, especialmente os movimentos sociais organizados, 
com os quais o assistente social poderá atuar como “ponte entre o promotor e a 
sociedade”	(Grupo	Focal,	P8).	Na	mesma	perspectiva,	outro	profissional	menciona,	
à	luz	de	seu	espaço	específico	de	intervenção,	que	a	atuação	do	Serviço	Social	na	
interlocução com os movimentos sociais já está sendo incorporada ao processo de 
trabalho da instituição. É proposta, também, a atuação junto ao controle social das 
políticas públicas, em comissões temáticas dos conselhos (Metzner e Pollis, 2006). 
As deliberações do I Encontro Nacional do Serviço Social no Ministério Público 
(Rio Grande do Sul, 2006, p. 29) da mesma forma apontavam para esse entendi-
mento: “promover, fomentar e fortalecer ações de articulação entre os atores da 
rede	social;	—	fortalecer	o	controle	social	em	articulação	com	os	movimentos	sociais,	
com vistas ao enfrentamento das questões coletivas”.
481Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
O eixo da intervenção, que se volta para o fortalecimento do controle social 
e dos movimentos sociais, encontra sentido na perspectiva gramsciana no que 
tange à construção da contra-hegemonia. Esta diz respeito à possibilidade de supe-
ração da condição de subalternidade pelos grupos dominados, incidindo na cons-
trução	de	novos	modos	de	pensar,	que	se	refletem	na	concepção	de	mundo,	a	partir	
da	reflexão	crítica	que	supera	o	senso	comum	(Simionatto,	2009).
A atuação por meio de redes sociais, as mediações com vários órgãos e atores 
sociais e a gestão participativa (relação direita com os usuários, socialização de 
conhecimentos, interdisciplinaridade, fortalecimento dos usuários) são eixos me-
todológicos	 percebidos	 como	possíveis	 no	 exercício	 profissional	 no	Ministério	
Público (Metzner e Pollis, 2006). Foram mencionados, por assistente social parti-
cipante de grupo focal, além dos já mencionados, mecanismos concretos, com re-
lação aos quais o Serviço Social vem contribuindo no sentido da democratização 
das relações entre o Ministério Público e a sociedade, bem como quanto à constru-
ção de movimentos contra-hegemônicos, como a realização das audiências públicas 
nas comunidades para captação de demandas de proteção social, ao lado da contri-
buição na mediação com os movimentos sociais e com os mecanismos de controle 
social (Grupo Focal, P2). Tais contribuições requerem, sob o ponto de vista de 
participante do grupo focal (P2), o desenvolvimento de metodologias que permitam 
a articulação com os movimentos sociais e conselhos de direitos, bem como uma 
ampliação da participação da comunidade.
Além dos eixos já mencionados, o do assessoramento técnico quanto à exigi-
bilidade de políticas públicas (fiscalização, fomento, acompanhamento e avaliação) 
mostra-se como uma possibilidade de compor as atribuições do Serviço Social, de 
modo alinhado com a missão do Ministério Público. Esse âmbito de assessoria vem 
revelando-se	mais	eficaz	e	de	grande	importância	para	a	população	que	vivencia	o	
não acesso a direitos, além de ter um impacto social maior, haja vista abranger 
conjuntos populacionais expressivos e ter repercussões transgeracionais.
Em diversos textos produzidos por assistentes sociais, as políticas públicas 
são destacadas como forma de efetivar os objetivos traçados na Constituição Federal, 
competindo ao Ministério Público utilizar todos os meios jurídicos disponíveis para 
tê-las implementadas. “[...] evidencia-se a importância e urgência da ação ministe-
rial	no	campo	das	políticas	públicas,	quanto	ao	seu	fomento	e	qualificação.	Esse	
tipo de intervenção pode resultar em uma futura redução das demandas individuais 
nas diversas áreas nas quais o Ministério Público atua” (Rey, Perin e Tejadas, 2008, 
p. 5). A mesma ideia é compartilhada por membros do Ministério Público:
482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Conclui-se então que as políticas públicas são instrumentos imprescindíveis para que 
os objetivos traçados pela Constituição de 1988 sejam efetivamente cumpridos, ca-
bendo ao Ministério Público utilizar instrumentos jurídicos dos quais dispõe para 
vê-las implementadas, garantindo, com isso, o desenvolvimento e a democracia, 
pressupostos de uma sociedade livre, justa e igualitária. (Ramos, 2001, p. 26-27)
A esse propósito, Gravronski (2006), incursionando o tema, destaca diversos 
aspectos que envolvem a atuação do promotor de justiça na tutela de direitos cole-
tivos. Menciona o autor as peculiaridades extrajudiciais do assunto, a necessária 
criatividade do membro da instituição, a articulação com a sociedade civile com 
órgãos	públicos	afins,	a	assessoria de servidores especializados, além do domínio 
de instrumentos como o inquérito civil ou o procedimento administrativo, o com-
promisso de ajustamento de conduta, a recomendação e a ação civil pública.
Nesse contexto, a fiscalização de entidades de atendimento visa avaliar a 
qualidade dos serviços que estão sendo oferecidos à população, tendo por base o 
marco legal vigente, pesquisas e estudos sobre as políticas públicas em análise. O 
conhecimento	na	área	do	Serviço	Social	situa	o	assistente	social	como	profissional	
especializado, habilitado para a realização de avaliações de programas de acolhi-
mento institucional para crianças e adolescentes, de unidades de internação, de 
instituições de longa permanência para idosos, de escolas (infantis, ensino funda-
mental e médio), de instituições especializadas no atendimento a pessoas com de-
ficiência	e	a	dependentes	químicos,	entre	outras.	A	atribuição	no	campo	da	fiscali-
zação de entidades requer o uso de múltiplos instrumentos, como: estudo da 
temática,	estruturação	de	roteiros	específicos,	visita	institucional,	entrevistas	com	
dirigentes, técnicos, usuários dos serviços e, ainda, observação e coleta de imagens.
É	importante	destacar	que,	de	modo	geral,	a	atribuição	de	fiscalização	não	é	
exclusiva do Ministério Público, mas também de competência de outros órgãos do 
Sistema de Garantia de Direitos, inclusive conselhos de direitos. Nesse sentido, 
impõe-se a necessidade de processos de trabalho conjuntos, o que, sem dúvida, 
aumenta	as	possibilidades	de	influência	quanto	à	qualificação	das	políticas	públicas,	
o compartilhamento de saberes e a corresponsabilização.
A avaliação de projetos e/ou de políticas públicas, por sua vez, visa analisar 
a pertinência, a adequação ao marco legal e ao acúmulo de conhecimentos acerca 
das políticas públicas, por meio da análise de projetos apresentados pelo Poder 
Público ou organizações não governamentais, envolvendo aspectos metodológicos, 
de infraestrutura e de recursos humanos. São instrumentos para a avaliação de 
483Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
projetos e/ou políticas públicas: estudo da temática; estruturação de roteiros espe-
cíficos;	possibilidade	de	coleta	de	campo,	com	visita	institucional,	entrevista	com	
gestores, técnicos, usuários dos serviços, observação, imagens e/ou análise de 
documentos, como planos, projetos e relatórios. Nesse caso, há a análise da polí-
tica pública como um todo, com seus múltiplos serviços, às vezes demandando 
vistorias a diversos equipamentos.
Ainda no rol de atribuições no âmbito das matérias de direito difuso e coleti-
vo, o Serviço Social pode contribuir com a realização de estudos e pesquisas, re-
lacionados a temas de interesse das Promotorias de Justiça e a centros de apoio 
operacionais, ou decorrentes da reiteração de determinadas demandas e da obser-
vação de tendências quanto a lacunas na execução de determinadas políticas e/ou 
à necessidade de implementação de mudanças paradigmáticas. Nesse caso, além 
do	conjunto	de	conhecimentos	oriundos	da	formação	profissional,	pode	ser	neces-
sária a consulta a especialistas nas áreas em análise, bem como o estudo de legis-
lações e a consulta a pesquisas das ciências sociais.
No processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público, é funda-
mental	que	se	atue	no	sentido	de	incidir	nas	atribuições	da	profissão,	aproximando-as	
da intervenção no âmbito do direito difuso e coletivo, visto o potencial destes na 
ampliação	e	garantia	dos	direitos	humanos.	Nessa	contextura,	o	desafio	está	em	
constituir processos de trabalho planejados que partam da interpretação crítica da 
realidade, avaliando estratégias, alianças e proposições viáveis que considerem
o potencial de que dispõe para impulsionar a luta por direitos e a democracia em todos 
os poros da vida social; potencial esse derivado das contradições presentes nas relações 
sociais, do peso político dos interesses em jogo e do posicionamento teórico-prático 
dos	sujeitos	profissionais	ante	os	projetos	societários.	(Iamamotto,	2008,	p.	417)
Para tanto, a percepção dicotomizada entre condicionantes e possibilidades 
conduz a vieses ora fatalistas, ora messiânicos. O primeiro percebe a lógica do 
capital	 como	 intransponível,	 não	 identificando	possibilidades	 de	 dar	 direção	 às	
atividades, subsumindo aos comandos instituintes. O segundo subestima os deter-
minantes	e	superestima	a	vontade	do	coletivo	profissional	(Iamamotto,	2008).	A	
busca por caminhos coletivos pelo Serviço Social tem a potência de oferecer a 
densidade	política	necessária	à	categoria	para	incidir	na	definição	de	suas	atribuições,	
pautada pela leitura da conjuntura institucional e das alianças capazes de fortalecer 
484 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
a direção social do Ministério Público em torno da defesa da democracia e dos 
direitos humanos.
5. Considerações finais
É no contexto de reordenamento jurídico e institucional do Ministério Públi-
co que o Serviço Social se insere, sendo que, desde os primeiros momentos, vem 
buscando constituir uma identidade e direção social hegemônica. No diferenciado 
território	nacional,	a	profissão	trilha	um	caminho	repleto	de	ambiguidades	e	con-
tradições, em que a direção social de sua intervenção, anunciada no projeto éti-
co-político-profissional,	compartilha	de	propósitos	convergentes	com	a	missão	da	
instituição, conferida pela Constituição brasileira. Contudo, a materialização de 
projetos que se interconectam dialeticamente oscila entre o devir e a concretude, 
entre as possibilidades e os limites. Nesse diapasão, o Serviço Social é uma pro-
fissão	das	ciências	sociais	aplicadas,	capacitada	para	atuar	na	transversalidade	das	
políticas públicas, compreendendo-as como processo histórico de concessão-con-
quista, por isso imersas em relações entre diferentes atores da esfera pública.
Nessa orientação, o Serviço Social pode e tem contribuído no diálogo com 
os movimentos sociais, com os conselhos de direitos, perseguindo o propósito de 
que o fomento de políticas públicas se faça de modo articulado às demais instân-
cias	que	atuam	na	defesa	de	direitos.	Ao	mesmo	tempo,	no	âmbito	da	fiscalização	
da qualidade das políticas públicas, tem contribuído para oferecer subsídios 
quanto ao planejamento desses processos, calcado nos acúmulos técnicos dispo-
níveis. Considerando que o projeto de consolidação da democracia é coletivo e 
não se restringe aos muros do Ministério Público, o Serviço Social vem se cons-
tituindo	como	uma	área	profissional	que	tem	contribuições	importantes	a	ofere- 
cer em direção a um ideário emancipatório, no qual os direitos humanos sejam 
realidade.
Recebido em 14/5/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013
485Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
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A interdisciplinaridade na violência sexual*
The interdisciplinarity in sexual violence
Maria Regina Fay de Azambuja**
Resumo: O artigo aborda a inquirição da vítima de violência sexu-
al como afronta aos direitos humanos da criança, na medida em que 
busca a obtenção da prova em detrimento da proteção da vítima. 
Aponta a ação interdisciplinar como indispensável ao trabalho envol-
vendo violência sexual praticada contra a criança, dando ênfase à 
perícia	realizada	por	profissionais	de	diversas	áreas	(Serviço	Social,	
Psicologia, Pedagogia, Pediatra) como instrumento capaz de produzir 
a prova e de garantir a dignidade e o respeito à vítima.
Palavras-chave: Criança. Violência sexual. Inquirição. Direitos huma-
nos. Proteção integral
Abstract: The article is about the inquiry of the victim of sexual violence as an affront to children’s 
human rights, because it searches to get evidence at the loss of the victim’s protection. It points out 
that the interdisciplinary action is essential to the work involving the sexual violence against children, 
and it emphasizes the examination accomplished by professionals from different areas (Social Work, 
Psychology, Education, Pediatrics) as a way to produce evidence and to guarantee the victim’s digni-
ty and respect.
Keywords: Child. Sexual violence. Enquiry. Human rights. Full protection.
* O artigo trata de alguns aspectos do tema pesquisado na elaboração da tese de Doutorado em Serviço 
Social realizado na PUC-RS.
** Procuradora de Justiça, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude, 
Educação, Família e Sucessões, especialista em violência doméstica pela Universidade de São Paulo (USP), 
doutora em Serviço Social pela PUC-RS, professora de Direito de Família e Direito da Criança e do Adolescente 
na Faculdade de Direito da PUC-RS, Porto Alegre, Brasil; voluntária no Programa de Proteção à Criança do 
Hospital de Clínicas de Porto Alegre. E-mail: mra.ez@terra.com.br.
488 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
Introdução
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) denunciam que a vio-lência é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Em nosso país, o Relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presi-dência da República (SDH-PR) revela que, em 2012, o serviço do 
disque denúncia (100) recebeu mais de 40 mil denúncias, sendo 31.635 sobre 
violência sexual e 8.160 mil sobre exploração sexual (Brasil, 2012).
Para o enfrentamento da violência, em especial a de natureza sexual, enten-
dida como fenômeno social, faz-se necessário envolver a família e diferentes pro-
fissionais	que	costumam	interagir	com	a	criança,	de	professores,	médicos,	assisten-
tes sociais e psicólogos a advogados, promotores de justiça e magistrados. Nessa 
tarefa, cada um deve exercer funções distintas, todas elas especializadas, uma vez 
que o trabalho com vítimas de violência sexual requer uma proposta de atendimen-
to interdisciplinar.
O presente artigo aborda a violência sexual praticada contra a criança, apre-
sentando a ação interdisciplinar como essencial para a proteção dos direitos huma-
nos da criança.
1. A inquirição da criança: uma afronta aos direitos humanos
Embora não se trate de tema novo, uma vez que vem sendo enfrentado há 
muitos anos pelo sistema de justiça, a concepção da criança como sujeito de direi-
tos humanos, que tem como matriz a Convenção das Nações Unidas sobre os Di-
reitos da Criança, passou a exigir mudanças na abordagem e nos encaminhamentos 
dos casos de violência sexual, já que os marcos legais nacionais “deverão urgente-
mente se adequar de maneira radical, sem reservas que atinjam os princípios bási-
cos dessa normativa internacional” (Nogueira Neto, 2008, p. 3). Nesse sentido, 
quando se fala em direitos humanos, quer-se acentuar “a essencialidade humana de 
crianças e adolescentes, ancorada nos princípios da dignidade, da liberdade e do 
direito” (Idem, p. 10).
Na vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), partindo do 
princípio	de	que	a	criança	é	prioridadeabsoluta,	os	profissionais,	antes	e	depois	
de acionarem a rede de proteção, devem proporcionar um espaço de “verdadeira 
489Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
escuta”, com o mínimo de interferência, dispondo-se a ouvir o que a criança tem 
a falar. Escutar, como ensinam Fuziwara e Fávero (2011, p. 46), envolve
ouvir com os ouvidos, os olhos, a razão e os sentimentos, sem que estes últimos se 
sobreponham	à	necessária	interação	profissional	e	humanizada,	para	que	o	impacto	
que a revelação pode causar não supere o entendimento de que a criança é um ser em 
formação e toda e qualquer ação e reação frente à violência sofrida vai afetá-la de 
alguma maneira.
Crianças vítimas de violência sexual, em especial de natureza intrafamiliar, 
percorrem um longo e difícil caminho. As denúncias são mais frequentes na atua-
lidade	do	que	há	vinte	anos,	dando	visibilidade	às	dificuldades	que	o	Judiciário	
enfrenta	para	esclarecer	os	fatos	e	afirmar,	em	última	análise,	se	houve	ou	não	a	
violência noticiada. Quando a violência deixa marcas físicas, a solução se mostra 
mais	simples,	pois,	afinal,	o	perito	aponta	as	lesões	no	corpo	da	vítima.	Sabe-se,	no	
entanto, que a maior parte dos casos levados ao Judiciário lá aporta sem exame 
físico ou com resultado negativo, elevando a complexidade da tarefa do julgador. 
O sistema de justiça não se encontra preparado para o enfrentamento do fenômeno 
da	violência	sexual.	Granjeiro	(2008,	p.	162-163)	afirma	que	esse	despreparo	re-
sulta “de uma crise decorrente do esgotamento do paradigma da cultura legalista 
—	a	lei	resolve	tudo	—	e	da	própria	formação	acadêmica,	que	aliena	o	jurista	e	não	
o afasta das pré-noções ideológicas que moldaram a concepção jurídica de mundo, 
esta	insuficiente	de	dar	conta”,	nas	palavras	de	Souza	Júnior	(2002,	p.	146),	“da	
complexidade e das mutações das realidades sociais, políticas e morais numa con-
juntura de transição paradigmática”.
Com	a	Constituição	Federal	de	1988,	os	tratados	de	direitos	humanos	ratifica-
dos pelo Brasil tornam-se inexequíveis sempre que o sistema de justiça optar pelo 
“paradigma da positivação das normas e a separação do Direito de qualquer outra 
área do conhecimento” (Granjeiro, 2008, p. 162). O Judiciário, dentro da visão de 
que o processo não é fato social, mas um sistema de normas, deixa de indagar sobre 
sua valorização ética e, desde décadas que antecederam a Constituição Federal de 
1988, vem valorizando, de forma privilegiada, a inquirição da vítima como meio de 
produzir	a	prova.	Para	esse	fim,	poderia	ter	valorizado	iniciativas	de	cunho	interdis-
ciplinar, já que conta, em seus quadros, com técnicos da área da Saúde e do Serviço 
Social. Entretanto, optou por manter a prática de inquirição da criança com o intui-
to de extrair da vítima o relato da cena e a indicação do autor, fazendo recair sobre 
ela a complexa incumbência de produzir a prova e, quiçá, levar o abusador à cadeia.
490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
Esse procedimento, face à condição de dependência que a criança tem da 
família, acaba por se constituir num paradoxo, já que, a despeito da intenção pro-
tetiva, termina por expô-la e até mesmo desrespeitá-la como sujeito de direitos, 
obrigando-a a expor sua intimidade em uma situação constrangedora e formal. Do 
relato da criança que é submetida à inquirição poderão derivar consequências ne-
fastas para si e para os demais familiares, considerando os possíveis efeitos desse 
procedimento sobre a constituição familiar. Do mesmo modo, a lembrança das si-
tuações	de	violência,	se	não	acompanhadas	por	profissionais	especializados,	pode	
desencadear fantasias e sofrimento que também constituem desrespeito à sua 
condição de sujeito de direitos humanos. Assim, o Depoimento Sem Dano ou o 
Depoimento Especial, apresentado como solução para a inquirição da vítima:
Certamente diminui o dano aos operadores do Direito que, como cirurgiões, usam a 
colocação do “campo cirúrgico” para conseguir realizar a “violência” de cortar o 
paciente.	Estabelecidos	em	outra	 sala,	e	 tendo	como	porta-voz	um	profissional	da	
saúde,	ficam	protegidos	do	impacto	do	relacionamento	direto	com	a	vítima.	A	criança	
tem sua intimidade revelada, sua ferida tocada num ambiente mais hospitaleiro, mas 
que	não	anestesia	a	violência	da	inquirição.	Qualquer	profissional	da	saúde	sabe	que	
falar e reproduzir o trauma torna a dor aguda novamente. A presença de brinquedos e 
de um técnico que supostamente possa “saber fazer perguntas adequadas” ou “tradu-
zir a linguagem dos operadores do Direito” não anestesia a dor. A anestesia, para que 
a criança possa falar no trauma, só se instala num ambiente terapêutico e não avalia-
tivo ou inquiridor. (Ferreira, 2012, p. 195)
Em outras palavras, diante da incompetência do sistema para apurar os fatos, 
recorre-se, mais uma vez, à vítima, atribuindo-lhe a árdua missão de produzir a 
prova. Dessa forma, a criança passa da condição de vítima à de testemunha-chave 
da acusação, deixando-se de lado a proteção que a lei lhe confere. Se antes da 
Constituição Federal de 1988 a inquirição da criança vítima de violência sexual 
vinha abraçada pelo manto da legalidade, na atualidade, choca-se frontalmente com 
os direitos humanos da criança e do adolescente.
Os crimes que deixam vestígios exigem a realização do exame de corpo de 
delito por perito capacitado. Nesse sentido, ressalta França (1998, p. 7):
A	finalidade	da	perícia	é	produzir	a	prova,	e	a	prova	não	é	outra	coisa	senão	o	elemen-
to demonstrativo do fato. Assim, tem ela a faculdade de contribuir com a revelação 
da existência ou não de um fato contrário ao direito, dando ao magistrado a oportuni-
dade de se aperceber da verdade e de formar a sua convicção.
491Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
No âmbito do processo penal, “quando a infração deixar vestígios, será indis-
pensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a 
confissão	do	acusado”	(artigo	158,	CPP).	“Os	peritos	elaborarão	o	laudo	pericial,	
onde descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos 
formulados” (artigo 160, CPP). Nesse caso, por quesitos entendem-se “as questões 
formuladas	sobre	um	assunto	específico,	que	exigem	como	respostas	opiniões	ou	
pareceres. Os quesitos podem ser oferecidos pela autoridade judicial e partes até o 
ato de diligência” (artigo 176, CPP).
O depoimento da vítima, considerada por alguns autores como testemunha, 
não se reveste de credibilidade absoluta. Suas declarações vêm impregnadas de 
impressões	pessoais,	 havendo	 “um	certo	 coeficiente	 pessoal	 na	 percepção	 e	 na	
evocação da memória, que torna, necessariamente, incompleta a recordação, de 
forma que não há maior erro que considerar a testemunha como uma chapa foto-
gráfica”	 (Altavilla,	 1982,	 p.	 252).	Diversos	 são	os	 fatores	 a	 interferir	 na	 prova	
testemunhal, como o interesse, a emoção, entre outros. O mesmo autor assinala que, 
quanto mais intensa é uma concentração afetiva, mais facilidade existe para, decor-
rido algum tempo, haver o desvio da atenção do primeiro objeto para um objeto 
diverso. E complementa: “a violenta ressonância emotiva, colorida de desagrado, 
que em nós pode provocar um objeto, pode, particularmente, facilitar ou apressar 
um desvio de atenção” (Idem, p. 253).
Torna-se necessário, portanto, “conhecer com precisão a posição processual 
de uma testemunha e as suas relações de interesse, de amizade ou de parentesco com 
as	partes”	(Altavilla,	1982,	p.	255),	a	fim	de	valorar	com	adequação	o	teor	de	seu	
depoimento. A inquirição da vítima, nos crimes que envolvem violência sexual in-
trafamiliar, agrega elementos que decorrem da posição que o abusado ocupa na fa-
mília e no processo, porquanto, na maioria dos casos, além de o agressor manter 
vínculos afetivos com a vítima,a criança é também a única testemunha. Para Furniss 
(1993, p. 312), “o não das crianças, quando questionadas se sabiam do abuso, não 
significa	que	não	tenham	estado	envolvidas,	que	não	tenham	sabido	ou	que	não	te-
nham	sido	afetadas	por	ele;	ele	geralmente	significa	que	elas	estão	assustadas	demais	
para falar”. Nesse sentido, não é de surpreender que as vítimas de violência sexual 
considerem os julgamentos traumáticos, uma vez que passa a ser exigido delas que 
se impliquem retrospectivamente na experiência. Relatos “apontam os julgamentos 
como mais traumáticos que o próprio fato, levando-as a recorrer, defensivamente, a 
respostas evasivas” (Vilhena, 2001, p. 61). Também é preciso considerar que a 
criança, “mesmo dizendo a verdade, é tão facilmente sugestionável que pode, com 
492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
facilidade, ser induzida a retratar-se numa acareação, especialmente sendo-lhe opos-
ta uma pessoa a quem tema e respeite” (Altavilla, 1982, p. 332).
Práticas recepcionadas pela velha Carta Constitucional, como a inquirição da 
criança	com	o	fim	de	produzir	a	prova	da	autoria	e	da	materialidade,	permanecem	
sendo	reproduzidas	pela	Justiça	Criminal,	que	não	se	beneficia	dos	conhecimentos	
desenvolvidos por outras áreas do saber. No processo penal inquisitivo, “não se 
encontram exigências comunicacionais, pois o inquirido é tratado por seu inquisitor 
como um objeto da investigação, e não como uma pessoa em processo de compre-
ensão recíproca, isto é, como sujeito de direitos [...]” (Potter, 2010, p. 51). Dessa 
forma, a utilização do velho método da inquirição, além dos prejuízos emocionais 
que pode causar à criança, dá ensejo a que o abusador ou outros familiares atribuam 
a ela a responsabilidade pela prisão do autor dos fatos, levando a vítima a sentir-se 
responsável pelos prejuízos causados ao grupo familiar, além de contribuir para 
mascarar o real motivo da condenação do abusador, ou seja, a prática de crime. 
Se, diferentemente, houvesse a preocupação de ouvir a criança, provavelmente 
muitas dessas consequências poderiam ser evitadas e, respeitada em seus direitos, 
a criança abusada poderia colaborar com a justiça, sinalizando a melhor alternativa 
de encaminhamento da questão sub judice sem carregar nenhuma culpa relacionada 
ao ato de que foi vítima nem às consequências familiares que dele podem advir.
Qual	a	diferença	entre	inquirir	e	ouvir	a	criança?	“Inquirir”	significa	pergun-
tar, indagar, fazer perguntas direcionadas, investigar, pesquisar. “Ouvir”, por sua 
vez,	significa	escutar	o	que	ela	tem	a	dizer,	dar	ouvidos,	dar	atenção	às	palavras	da	
criança, o que pode vir expresso por intermédio do brinquedo, como valioso ins-
trumento	 utilizado	 por	 profissionais	 da	 saúde	mental	 na	 avaliação	 da	 criança1. 
Nesse sentido, Alves (1994) explica:
Escutar é complicado e sutil. [...] Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. 
É preciso também que haja silêncio dentro da alma. [...] A gente não aguenta ouvir o 
que o outro diz sem logo dar um palpite melhor [...]. Sem misturar o que ele diz com 
aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descan-
1. O brinquedo é uma forma ímpar de contar o ocorrido, uma vez que lida com a memória e o 
comportamento implícitos. “Ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, suas angústias e 
problemas internos, dominando-os pela ação [...]. Isso permite que ela domine a situação externa que vivencia, 
tornando-se ativa e não passiva.” No caso do abuso sexual, o brinquedo expresso em sessões de avaliação 
ou de psicoterapia é um indicador privilegiado da ocorrência do fato e sua repercussão dentro da criança em 
geral, assim como uma forma de alívio e caminho para elaboração (Ferreira et al., 2011, p. 151).
493Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
sada consideração [...] E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a 
dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais cons-
tante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
Quando o Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece a peculiar condição 
de pessoa em desenvolvimento da criança e do adolescente, está falando de sua 
imaturidade ou, em outras palavras, de seu incompleto estágio de desenvolvimen-
to físico, mental e psicossocial, fato que os diferencia dos adultos. Recente altera-
ção, introduzida com a Nova Lei da Adoção (Lei n. 12.010/2009), demonstra a 
necessidade de proteger a criança, recorrendo-se, preferencialmente, a sua ouvida 
por equipe interdisciplinar, respeitado o estágio de desenvolvimento e compreensão 
sobre	as	implicações	de	suas	manifestações.	A	nova	lei,	por	outro	lado,	fixa	o	limi-
te de doze anos para a oitiva do adolescente em audiência, numa clara demonstra-
ção da importância de preservar a criança de situações que possam comprometer 
seu desenvolvimento saudável (artigo 28, ECA). Considerar a fala da criança, como 
prevê o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança 
(ONU, 1989), não exige necessariamente o uso da palavra falada, porquanto o 
sentido	da	norma	é	muito	mais	amplo,	significando	a	necessidade	de	respeito	in-
condicional à vítima, como pessoa em fase especial de desenvolvimento.
A	prova	da	materialidade	é	a	questão	de	 fundo	a	 justificar	a	 inquirição	da	
criança por aqueles segmentos que sustentam a sua obrigatoriedade, independen-
temente de idade, nos feitos que envolvem a violência sexual. Inquirir a criança, 
nos	 feitos	criminais,	não	 tem	por	finalidade	saber	como	ela	está	se	sentindo	ou	
mesmo propiciar a aplicação de medida de proteção (artigo 101, ECA), em que 
pese “a assistência ao paciente vítima de abuso sexual” e o fato de esse método já 
ter sido objeto “de importantes estudos quanto aos seus aspectos clínicos e de saú-
de	mental”	 (Benfica	 e	Souza,	 2002,	 p.	 173).	A	 inquirição,	 como	 já	 se	 afirmou,	
busca trazer aos autos a prova da materialidade, em especial nos casos em que a 
violência não deixou vestígios físicos, em afronta aos direitos humanos inseridos 
na Constituição Federal de 1988.
Procedimentos voltados a sobrecarregar a criança com a produção da prova 
precisam ser repensados e reexaminados à luz dos direitos humanos, da proteção 
integral	e	dos	conhecimentos	científicos	disponíveis	em	diferentes	áreas	do	saber.	
Tem	partido	dos	profissionais	a	necessidade	de	buscar	outras	formas	de	intervenção,	
uma	vez	que	o	modelo	tradicional,	no	qual	as	diferentes	profissões	não	se	comuni-
cam, não aponta bons índices de sucesso, levando-os a recorrer, cada vez mais, às 
494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
propostas interdisciplinares que “permitem resultados novos que não seriam alcan-
çados sem esse esforço comum” (Paviani, 2008, p. 41).
Promotores, procuradores de justiça, juízes de direito, desembargadores, as-
sistentes	sociais,	psicólogos	e	demais	técnicos,	todos	gostariam	de	poder	afirmar	ou	
negar, com segurança, a ocorrência da violência sexual. Alguns segmentos, diante 
da incerteza, apostam na inquirição da criança, como se fazia antes de ela ser reco-
nhecida como sujeito de direitos, período em que tais práticas não eram sequer 
questionadas. Potter (2010, p. 51), referindo-se às condutas utilizadas pelo processo 
penal,	 afirma:	 “Os	meios	probatórios	 inquisitoriais	 no	processo	penal	 brasileiro	
acabam por ofender tanto os direitos das vítimas quanto dos acusados por entender 
ambos como objeto e fonte de verdade e não sujeitos de fala”. Prossegue a autora:
A equivocada abordagem dos operadores jurídicos às vítimas-testemunhas infantoju-
venis para comprovar o fato criminoso é o inquisitorialismo inerente à estrutura 
processual, que permite ampliação de poderes contra todos os que não ocupam espa-
ços de poder, como vítimas, acusados, testemunhas. (Idem)
Ademais,devido ao medo de represálias, à culpa associada com o ato de 
aceitação da sedução e ao medo de dissolução da família, a inquirição da vítima de 
violência sexual intrafamiliar pode fazer com que a criança retire a acusação, como 
confirma	 a	 prática	 forense.	E,	 ainda,	 “a	 criança	 pode	 não	 desejar	 discutir	 o(s)	
incidente(s) novamente porque a recordação é dolorosa e os pais podem pertinen-
temente apoiar a criança nesta resistência” (Johnson, 1992, p. 301). Furniss chama 
ainda a atenção para o fato de que as ameaças de violência e de desastre na família 
levam a criança, em muitos casos, a mentir, o que ocorre com mais frequência 
quando negam ter ocorrido o abuso. Para o autor, “as crianças mentem sobre o 
abuso sexual porque estão com medo de serem castigadas, não acreditadas e não 
protegidas”	(1993,	p.	31).	Tais	constatações,	presentes	no	dia	a	dia	dos	profissionais	
que	atuam	na	área,	contribuem	para	demonstrar	a	complexidade	do	tema,	justifi-
cando o envolvimento dos diversos campos do conhecimento no estudo, na pesqui-
sa	e	na	reflexão	a	seu	respeito.
2. Ação interdisciplinar e a proteção à criança
O trabalho com famílias em que a violência sexual está presente “é incômodo, 
tenso, permeado por desfiles de tragédias, de violências pessoais, sociais, institu-
495Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
cionais	—	explícitas	ou	simbólicas”	(Fávero,	2006,	p.	39),	inviabilizando	que	um	
único	profissional	dê	conta	da	demanda.	Nesse	contexto,	a	interdisciplinaridade2 
“parece consistir num movimento processual na efetivação de experiências espe-
cíficas	e	que	surgem	da	necessidade	e	da	contingência	do	próprio	estatuto	do	co-
nhecimento” (Paviani, 2008, p. 14). A colaboração interdisciplinar se faz necessá-
ria	em	face	da	“rigidez,	da	artificialidade	e	da	falsa	autonomia	das	disciplinas,	as	
quais não permitem acompanhar as mudanças no processo pedagógico e a produção 
de conhecimentos novos” (Idem). Propostas dessa natureza pressupõem o “aban-
dono de posições acadêmicas prepotentes, unidirecionais e não rigorosas, que fa-
talmente são restritivas, primitivas e tacanhas, impeditivas de aberturas novas, 
camisas de força que acabam por restringir alguns olhares, tachando-os de menores” 
(Souza, 1999, p. 163).
Como bem assinala Iamamoto (2002, p. 41),
é	necessário	desmistificar	a	ideia	de	que	uma	equipe,	ao	desenvolver	ações	coordena-
das, cria uma identidade entre seus participantes que leva à diluição de suas particula-
ridades	 profissionais.	 São	 as	 diferenças	 de	 especializações	 que	 permitem	atribuir	
unidade à equipe, enriquecendo-a e, ao mesmo tempo, preservando aquelas diferenças.
Desta forma, cabe ressaltar que o trabalho interdisciplinar “consiste num es-
forço de busca da visão global da realidade, como superação das impressões está-
ticas	e	do	hábito	de	pensar	fragmentador	e	simplificador	da	realidade”	(Luck,	1994,	
p. 72). É uma atividade que possibilita um enfoque globalizador frente a uma 
realidade complexa. Para Japiassu (1976, p. 72),
interdisciplinaridade corresponde a uma evolução dos tempos atuais, resultante de um 
caminho irreversível, vindo preencher os vazios deixados pelo saber proveniente das 
áreas de especialidade do conhecimento, [e] constitui importante instrumento de re-
organização	do	meio	 científico,	 a	 partir	 da	 construção	de	um	 saber	 que	 toma	por	
empréstimo os saberes de outras disciplinas, integrando-os num conhecimento de um 
2. Em épocas passadas ocorreram importantes tentativas no mesmo sentido, sendo possível que “Platão 
tenha	sido	um	dos	primeiros	intelectuais	a	colocar	a	necessidade	de	uma	ciência	unificada,	propondo	que	esta	
tarefa	fosse	desempenhada	pela	filosofia”	(Santomé,	1998,	p.	46).	A	Escola	de	Alexandria,	na	Antiguidade,	
pode ser considerada a instituição mais antiga a assumir um compromisso com a integração do conhecimento, 
a	partir	de	uma	ótica	filosófico-religiosa,	reunindo	“sábios	de	todos	os	centros	intelectuais	do	mundo	helenístico;	
as	influências	judias,	egípcias	e	gregas	misturavam-se	com	outras	mais	distantes,	trazidas	por	mercadores	e	
exploradores” (Idem).
496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
nível hierarquicamente superior, desencadeando uma transformação institucional mais 
adequada ao bem da sociedade e do homem.
Também no campo da teoria jurídica, são observadas evidências da necessi-
dade de
romper	definitivamente	com	as	visões	ingênuas	do	direito,	que	o	colocam	seja	como	
reflexo,	seja	como	autônomo	face	à	política,	sem	que	os	ditos	críticos	discutam,	ao	
menos, os diferentes sentidos que possuem as normas jurídicas ou se elas constituem, 
por exemplo, um sistema aberto ou fechado, em relação à problemática político-social 
do “mundo da vida”. (Rocha, 2000, p. 152)
Em outras palavras, por ser a violência sexual intrafamiliar praticada contra 
a criança um fenômeno multicausal, uma abordagem de atendimento que não con-
sidere	todos	os	fatores	intervenientes	dificilmente	atingirá	as	metas	propostas,	como	
a minimização dos danos causados pela violência e a interrupção do seu ciclo 
perpetuador, oferecendo à família a oportunidade de reconstrução dos seus vínculos 
afetivos. Chaves, referindo-se ao sistema de justiça, assinala que “o juiz se vale, 
cada vez mais, de todo o quadro técnico que o auxilia e que, por vezes, até aponta 
a solução adequada para casos sub judice, não sendo possível prescindir do estudo 
social”, assim como de laudos elaborados por médicos e psicólogos, “dada a com-
plexidade extrema das situações trazidas a juízo, mormente aquelas que envolvem 
abuso sexual” (2011, p. 349).
Os	profissionais	que	trabalham	com	o	abuso	sexual	praticado	contra	a	criança,	
no âmbito intrafamiliar, sabem que “a interdisciplinaridade é um objetivo nunca 
completamente alcançado e por isso deve ser permanentemente buscado”, em es-
pecial por não se tratar apenas de uma proposta teórica. Sua perfectibilidade é rea-
lizada na prática, em experiências reais de trabalho em equipe, nas quais “exerci-
tam-se suas potencialidades, problemas e limitações” (Santomé, 1998, p. 66), pois 
mediante a comunicação que a troca acontece, permanecendo viva a individualida-
de dos envolvidos com a proposta.
Gomes,	Silva	e	Njaine	(1999,	p.	179),	em	estudo	bibliográfico	que	se	propôs	
a enfrentar a prevenção à violência contra a criança e o adolescente, sob a ótica da 
saúde, assinalam que “todas as propostas [...] destacam a necessidade de se adotar 
um	trabalho	interdisciplinar	por	parte	dos	profissionais”,	evidenciando	um	consen-
so entre os estudiosos do tema. No entanto, é também da literatura que vem a 
497Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
constatação de que, “apesar da crescente atenção por parte dos pesquisadores para 
o tema do abuso sexual de crianças, o trabalho nesse campo é fragmentado, de-
sorganizado e, em geral, metodologicamente difuso” (Amazarray e Koller, 1998, 
p. 561). Para vencer a fragmentação, “as disciplinas devem comunicar-se umas 
com as outras, confrontando e discutindo suas perspectivas”, como sinalizam 
Quáglia, Marques e Pedebos (2011, p. 282). Para Mendes, Lewgoy e Silveira (2008, 
p. 30) a complexidade da proposta de trabalho interdisciplinar “consiste justamen-
te na sua própria construção, que é impregnada por trocas e articulações mais 
profundas entre os diferentes elementos participantes”.
Os	estudos	disponíveis	já	permitem	afirmar	que	a	criança	exposta	à	violência	
sexual, no âmbito da família, apresenta sinais não verbais, por meio de alterações 
no	comportamento,	na	maioria	das	vezes	não	decodificados	pelos	 responsáveis.	
Jung (2006, p. 27) salienta, referindo-se às manifestações da criança:
Ela pode reagir com um estado de estresse emocional caracterizado por agitação, ou 
pode reagir pelo choque e recuo, com anestesia afetiva seguida por terror,regressões 
a comportamentos mais infantis e manifestações psicossomáticas. As queixas psicos-
somáticas	são	habituais,	pois	geralmente	expressa	suas	dificuldades	não	na	fala,	mas	
no corpo [...].
Além dos danos físicos, a violência sexual,
por ser uma experiência que está além dos limites da compreensão da criança e para 
a	qual	ela	não	está	fisicamente	nem	psicologicamente	preparada,	e	por	ser	uma	situa-
ção imposta numa atmosfera de coerção e abuso de poder, rompe o curso normal de 
seu desenvolvimento psicossexual e, como consequência, diferentes tipos de sintomas 
podem surgir. (Jung, 2006, p. 19)
Por	vir	acompanhada	de	particularidades	capazes	de	elevar	as	dificuldades	
dos	profissionais	que	lidam	com	a	criança	vítima,	a	família	e	o	abusador,	a	violên-
cia sexual intrafamiliar não pode ser enfrentada de forma fragmentada, sob pena 
de	 tal	 intervenção	 não	 surtir	 efeitos	 benéficos.	Em	consequência,	 como	 se	 tem	
sustentado, ela requer uma proposta de trabalho de cunho interdisciplinar por suas 
múltiplas implicações no âmbito pessoal e familiar, social e legal.
Em razão das graves sequelas que as vítimas desse tipo de violência costumam 
apresentar, não se admite que os órgãos de proteção, por despreparo e desconheci-
498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
mento do tema, venham a reforçar, com condutas inadequadas, os danos que recaem 
sobre a criança. Como assinala Fávero (2012, p. 182), a efetivação da proteção 
integral da criança vítima de violência sexual exige
a	formação	e	capacitação	continuada,	 teórica	 técnica	e	ética	—	especialmente	dos	
agentes	que	atuam	nas	áreas	de	educação,	saúde,	assistência	social	e	justiça	—	para	
desenvolverem a capacidade de reconhecer os sinais da violência contra a criança e o 
adolescente, denunciá-la e enfrentá-la, numa atitude coletiva e pró-ativa de proteção.
Nesse sentido, o Projeto de Lei n. 8.045/2010 (origem 156/2009), atualmente 
na Câmara dos Deputados, e que trata da alteração do Código de Processo Penal, 
seguindo tendências contemporâneas, cria o Título V para tratar dos direitos da 
vítima, a quem assegura, entre outros, o direito de ser tratada com dignidade e 
respeito condizentes com sua situação e o direito de receber imediato atendimento 
médico e atenção psicossocial.
Substituir métodos de trabalho utilizados no período anterior à Constituição 
Federal de 1988, que não garantiam os direitos assegurados à criança, por uma 
proposta interdisciplinar, que considera a criança como pessoa em fase especial de 
desenvolvimento, investindo na interdisciplinaridade como instrumento capaz de 
garantir a proteção integral à criança, é a proposta que se traz ao debate.
Face às particularidades do tema, nem sempre será possível obter uma res-
posta certa e segura sobre a existência da violência sexual anunciada. Em outras 
palavras, nem sempre uma sentença condenatória corresponderá à verdade dos 
fatos, assim como uma sentença absolutória nem sempre afasta a ocorrência do 
abuso.	A	incerteza,	que	tanto	angustia	os	profissionais,	não	pode	anular	a	atenção	
e o cuidado que a criança e a família envolvida merecem receber. Em todos os 
casos,	os	profissionais	terão	que	se	debruçar	com	afinco,	competência	e	preparo	
técnico sobre a questão, sem abrir mão do compromisso com a dignidade humana 
e com a proteção integral à criança.
Nesse contexto, a interdisciplinaridade é condição necessária para estabelecer 
uma razão comunicativa de validade, uma vez que permite
a intersecção dos conhecimentos expressos pelas várias disciplinas, sendo necessário 
estabelecer	uma	linguagem	comum	através	de	um	sistema	permeável,	flexível,	dialé-
tico; e onde os agentes sejam mediadores e harmonizadores, conhecedores do proces-
so	e	identificadores	dos	problemas,	o	que	ensejará	o	compartilhamento	de	referenciais	
teóricos [...]. (Giorgis, 2010, p. 34)
499Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
À luz do princípio da proteção integral assegurada à criança, práticas antigas 
precisam ser revistas e repensadas sob a ótica do novo paradigma estabelecido pela 
Constituição Federal. A mudança se torna mais difícil em virtude da posição de 
objeto, reservada à criança no processo penal, que costuma estar marcada pela 
falta de proteção, em total discrepância com sua condição de sujeito de direitos, há 
mais de duas décadas anunciada nas disposições constitucionais. A situação de 
desproteção vivenciada pela criança no ambiente familiar costuma ser reeditada 
nas demais instâncias, inclusive no decorrer do processo penal. O que se espera é 
que, no âmbito do sistema de justiça, os promotores de justiça, defensores públicos, 
advogados, magistrados e técnicos imprimam uma conduta diferente daquela ex-
perimentada no âmbito familiar, vindo a adotar uma postura capaz de respeitar as 
crianças, tratando-as
como indivíduos autônomos e íntegros, dotados de personalidade e vontade próprias 
que, na sua relação com o adulto, não podem ser tratados como seres passivos, subal-
ternos ou meros objetos, devendo participar das decisões que lhes dizem respeito, 
sendo ouvidos e considerados em conformidade com suas capacidades e grau de de-
senvolvimento. (Brasil, 2006, p. 25)
Para que a criança, inserida nas diferentes relações familiares, possa ser con-
siderada	sujeito	de	direitos,	profissionais	de	várias	áreas	do	conhecimento	terão	que	
se envolver, buscando os fundamentos de sua ação numa atitude interdisciplinar 
que, como assinala Fávero (2010, p. 201),
supõe	complementaridade,	não	fragmentação	—	o	que	dispensaria	o	intérprete.	Atuar	
interdisciplinarmente implica reconhecer os óbvios limites da área de conhecimento, 
o que, no caso, exige humildade intelectual, exige deixar de ser o centro da ação 
processual ou, melhor dizendo, deixar a base positivista predominante na leitura e 
interpretação da lei e do Direito para dispor-se a entender o processo de conhecimen-
to como construção por um sujeito coletivo.
O conhecimento disponível na atualidade a respeito do desenvolvimento in-
fantil parece apontar para a importância de substituir a inquirição da criança por 
perícia realizada por equipe interdisciplinar, composta por assistentes sociais, pe-
diatras, psicólogos e psiquiatras especializados no atendimento infantil.
Enquanto a inquirição renova o sofrimento da criança, sem garantir a credi-
bilidade esperada pelo sistema criminal, a perícia, nos moldes propostos, possibi-
500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
lita conhecer a situação vivida pela criança e sua família, permitindo a busca de 
medidas de proteção (artigo 101, ECA) ou de medidas a serem aplicadas aos pais 
(artigo 129, ECA).
O sistema de justiça, ao lado de outros órgãos, ocupa papel relevante no 
sistema de defesa, proteção e promoção de direitos previstos na normativa in-
ternacional e na legislação brasileira, devendo assumir-se como integrante do 
processo de desenvolvimento nacional, na busca da justiça social, da paz e da 
ordem na sociedade. No entanto, alerta a Associação Brasileira de Magistrados, 
Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP) 
(2008, p. 11):
As práticas do sistema de justiça nem sempre incorporaram a mudança de paradigmas 
operada pelo ECA e pelas intervenções de outras áreas setoriais. Seria injusto atribuir 
esta	falta	apenas	aos	operadores	do	direito,	especificamente	a	magistrados,	promo-
tores de Justiça e defensores públicos. Percebe-se, pelo contrário, uma falta de reco-
nhecimento de prioridade do direito de crianças e adolescentes pelas instituições do 
sistema de justiça, em manifesta afronta ao preceito constitucional do art. 227.
Para que se possa investir em ações de cunho interdisciplinar, urge que se 
busque	capacitar	os	profissionais	do	Serviço	Social	e	da	Saúde	para	avaliar	a	crian-
ça e elaboraro laudo. De outro lado, há que se capacitar os promotores de justiça, 
advogados	e	magistrados	para	que	reconheçam	o	valor	científico	de	tais	perícias,	
retirando da criança a responsabilidade de provar os fatos e apontar o abusador, 
tarefas que competem aos promotores de justiça e magistrados.
Alterações no currículo escolar, a começar pelo ensino fundamental, com a 
inclusão de conteúdos do Estatuto da Criança e do Adolescente, como prevê a lei, 
são urgentes. De igual forma, a matéria deve ser incluída nos currículos dos cur-
sos	do	ensino	superior,	favorecendo,	a	curto	e	médio	prazo,	maior	qualificação	
profissional.
As mudanças a serem operadas são apontadas com clareza na normativa in-
ternacional e na legislação brasileira. Resta, no entanto, a difícil tarefa de não es-
morecer na luta por efetivo acesso aos direitos da criança frente à lentidão com que 
eles são realizados, de modo a evitar que se façam muitas vítimas de violência 
sexual intrafamiliar antes que crianças e adolescentes sejam respeitados como su-
jeito de direitos, não só na letra fria da lei, mas também nas ações que interferem 
na sua vida social.
501Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
3. A perícia interdisciplinar como meio de prova e garantia de direitos 
humanos à criança
A perícia interdisciplinar, defendida por muitos, costuma ser desprezada pelos 
defensores dos métodos de inquirição, em franca expansão no país.
Reafirmamos	a	defesa	da	utilização	do	trabalho	interdisciplinar,	com	assisten-
tes sociais, pediatras e psicólogos, capacitados para o trabalho com crianças vítimas 
de violência sexual. Laudos são meios de prova e como tal precisam ser reconhe-
cidos. Assim como as lesões físicas são apuradas por médico-legista, em perícia 
realizada em consultório, sem a interferência de outro técnico e sem o acompanha-
mento em tempo real por magistrado, advogados e réu, a constatação dos danos 
sociais e psíquicos há que ser apurada por assistentes sociais e psicólogos, cujos 
laudos técnicos devem ser levados aos autos do processo, constituindo-se prova da 
materialidade.
O promotor de justiça Francisco Cembranelli, que trabalhou na acusação do 
caso Isabella, em entrevista concedida ao jornal Zero Hora, em Porto Alegre, ao 
ser questionado sobre as possibilidades de se obter a condenação do réu em crimes 
que	não	contam	com	testemunhas	presenciais,	afirmou	“existirem	outros	meios	para	
se provar o que a acusação alega; testemunhos, muitas vezes, são falhos; provas 
científicas,	não”.	Para	o	promotor	de	justiça,	“é	importante	evoluirmos	e	não	ficar-
mos tentando conseguir condenações como se estivéssemos nos anos 1960 [...]” 
(Zero Hora, 2010, p. 48).
A criança, como sujeito de direitos humanos, merece proteção em todas as 
situações, especialmente quando se vê envolvida em processo judicial na condição 
de vítima, não podendo o sistema de justiça se sobrepor ao sistema de garantias de 
direitos enunciado na normativa internacional. Ao Poder Judiciário cabe dispensar 
tratamento condizente com os princípios constitucionais da proteção integral e da 
dignidade da pessoa humana, o que pressupõe conhecer o contexto de vida da 
criança nas suas diversas facetas, investindo, cada vez mais, em ações cooperativas 
de cunho interdisciplinar.
A prática de inquirir crianças vítimas de violência sexual, em virtude dos 
novos paradigmas que norteiam a proteção da infância, a partir da década de 1980, 
motivou a edição da Resolução n. 20/2005 do Conselho Econômico e Social das 
Nações Unidas. Segundo o documento, milhões de crianças do mundo inteiro são 
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vítimas de violência provocada pela prática de crimes e de abuso de poder por 
parte de adultos, podendo os danos ser agravados quando são chamadas a auxilia-
rem na instrução dos processos judiciais. A resolução assinala, ainda, que os direi-
tos humanos da criança devem ser considerados em primeiro lugar, incluindo-se o 
direito à proteção e à chance de um desenvolvimento harmonioso; o direito de 
expressar livremente suas opiniões e crenças; o direito de ser informada sobre o 
andamento de processo judicial que diga respeito a fatos de sua vida, bem como 
sobre todos os seus possíveis desdobramentos (ONU, 2005).
Não	estamos	afirmando	que	a	criança	deve	ser	mantida	à	margem	do	proces-
so judicial, mas que o tratamento a ela dispensado precisa estar em consonância 
com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, sendo-lhe 
oportunizado ser levada à presença da autoridade judiciária sempre que desejar 
revelar fatos e fazer pedidos, em respeito a sua condição de pessoa em fase especial 
de desenvolvimento. Nesse sentido, o item XI da Resolução n. 20/2005 assegura a 
participação da criança nas audiências e julgamentos desde que previamente pla-
nejada	e	assegurada	a	continuidade	do	seu	relacionamento	com	os	profissionais	
com quem vem mantendo contato durante todo o desenrolar do processo. Direito 
de participar e de ser ouvida são garantias da criança, o que não pode ser confun-
dido	com	o	dever	de	ser	inquirida	com	o	fim	de	produzir	a	prova	de	fato	em	que	
figura	como	vítima	(ONU,	2005).
A mudança de concepção da criança no sistema jurídico brasileiro, fruto de um 
longo debate que se iniciou em 1924, com a Declaração de Genebra, exige alterações 
profundas nas condutas e práticas exercidas desde o início do século XX. Decorridos 
vinte anos da edição do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda são tímidas as 
iniciativas que valorizam a criança, respeitando sua condição de sujeito de direitos 
humanos. Para isso, os cursos de Direito, assim como os de Serviço Social, de Pe-
dagogia, de Medicina, de Psicologia, precisam se tornar parceiros da criança, in-
cluindo essa discussão em seus currículos e possibilitando maior capacitação dos 
profissionais	para	o	reconhecimento	da	criança	como	sujeito	de	direitos.
Considerações finais
Reconhecer	as	dificuldades	que	existem	na	identificação	da	violência	sexual	
praticada contra a criança parece ser o primeiro passo para a valorização do traba-
503Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
lho interdisciplinar. No entanto, não basta esse reconhecimento. É preciso ter claro 
que a criança é detentora de direitos humanos, fato que impede a utilização de 
práticas que coloquem em risco o direito ao respeito e ao desenvolvimento físico, 
mental, moral, espiritual e social em condições de liberdade e de dignidade.
Embora a presença de técnicos do Serviço Social, da Psicologia e da Psiquia-
tria no sistema de justiça não constitua fato novo, há que se retomar o debate do 
papel	desses	profissionais,	valorizando	seu	conhecimento	científico,	reconhecendo	
seus instrumentos de trabalho e possibilitando o verdadeiro exercício da atividade 
interdisciplinar, caminho capaz de garantir os direitos humanos à criança vítima de 
violência sexual. Não se pode, à luz dos princípios constitucionais, dissociar as 
ações que visam a condenação do réu daquelas que buscam a garantia de direitos 
humanos à criança e ao adolescente, como se fossem compartimentos diversos e 
autônomos. Há que se trabalhar nas duas frentes com a clareza de que em hipótese 
alguma a proteção da criança pode ser mitigada em nome de um resultado conde-
natório.	Nisso,	talvez,	resida	a	maior	dificuldade	neste	momento.
Recebido em 6/3/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013
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O Serviço Social no Judiciário:
construções e desafios com base na realidade paulista*
The Social Work in the Judiciary: constructions and 
challenges based on the reality of São Paulo State
Eunice Teresinha Fávero**
Resumo: Este artigo apresenta algumas construções históricas e 
importantes	desafios	colocados	ao	Serviço	Social	no	Judiciário.	Para	
isso,	toma	como	base	o	cotidiano	profissional	no	Tribunal	de	Justiça	
do Estado de São Paulo, particularidades teórico-metodológicas e 
éticas	que	se	fazem	presentes	no	exercício	profissional	nessa	área,	e	
movimentos políticos da categoria em direção ao acesso e à garantia 
de direitos.
Palavras-chave: Serviço Social. Campo sociojurídico. Cotidiano 
profissional.	Direitos.
Abstract: This article presents some historical constructions and important challenges for the 
Social Work in the Judiciary. For so, it is based on the professional daily activity in the Supreme Court 
of São Paulo State, on the theoretical-methodological particularities and ethical principles of the pro-
fessional practice in this area, and on the category’s political movements aiming at the access and the 
guarantee of rights.
Keywords:	Social	Work.	Socio-juridical	field.	Professional	daily	activity.	Rights.
* Este artigo tem como base palestras proferidas no V Encontro Estadual dos Assistentes Sociais e 
Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ocorrido em dezembro de 2012, promovido pela 
Associação dos Assistentes Sociais do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ-SP), e no II 
Seminário Nacional sobre o Serviço Social no Campo Sociojurídico, em outubro de 2009, promovido pelo 
Conselho Federal de Serviço Social (CFESS).
** Assistente social/SP, com atuação e pesquisa na área judiciária; primeira secretária da AASPTJ-SP 
nas gestões 2001-2005 e 2009/2011; mestre e doutora em Serviço Social pela PUCSP; docente na Universidade 
Cruzeiro do Sul-SP, São Paulo, Brasil. E-mail: eunicetf@gmail.com.
509Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Introdução
Este	texto	apresenta	reflexões	sobre	as	construções	históricas	e	os	desafios	do	Serviço	Social	no	Judiciário,	com	base	no	cotidiano	profissional	do	Tribunal	de	Justiça	do	Estado	de	São	Paulo	(TJSP).	Reflexões	e	indaga-ções	a	respeito	do	que	tem	sido	construído	e	quais	desafios	estão	postos	
no	dia	a	dia	de	trabalho	—	tanto	em	termos	de	questões	teóricas,	metodológicas	e	
éticas	que	permeiam	o	exercício	profissional,	como	questões	políticas	presentes	
nesse fazer.
As ideias aqui expostas partem da experiência de trabalho no Judiciário pau-
lista, da militância na Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal 
de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), e de pesquisas sobre a história 
do Serviço Social nessa instituição, sobre condições de trabalho e sobre a realidade 
social constatada no trabalho cotidiano com indivíduos que vivenciam expressões 
da questão social, transformadas nesse espaço sócio-ocupacional em demandas 
judiciais	—	em	especial	nos	âmbitos	da	Justiça	da	Infância	e	da	Juventude	e	da	
Justiça da Família.
O debate sobre a história do Serviço Social no campo sociojurídico1 a partir 
do	cotidiano	profissional	e,	particularmente,	as	construções	históricas	dessa	profis-
são	no	Judiciário	paulista	e	seus	desafios	remetem	à	reflexão	sobre	a	relação	entre	
demandas	com	as	quais	os	profissionais	se	deparam	diariamente,	a	precarização	do	
trabalho e a necessária organização coletiva para fazer frente às condições adversas 
do labor cotidiano. E isso com o propósito de fortalecer o potencial que o Serviço 
Social tem para contribuir com o acesso à Justiça e aos direitos humanos e, no seu 
interior, os direitos sociais.
1. Neste texto, “campo sociojurídico” é utilizado como sendo aquele que reúne “o conjunto de áreas 
em que a ação do Serviço Social articula-se a ações de natureza jurídica, como o sistema judiciário, o sistema 
penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento como abrigos, internatos, 
conselhos de direitos, entre outros. O termo sociojurídico, enquanto síntese dessas áreas, tem sido disseminado 
no	meio	profissional	do	Serviço	Social,	em	especial	com	a	sua	escolha	como	tema	central	da	revista Serviço 
Social & Sociedade n. 67 (Cortez Editora), pelo comitê que a organizou, tendo sido incorporado, a seguir, 
como	uma	das	sessões	temáticas	do	X	CBAS	—	Congresso	Brasileiro	de	Assistentes	Sociais/2001”	(Fávero,	
2003, p. 10). Em trabalho que vem sendo realizado atualmente junto ao CFESS por Grupo de Trabalho 
constituído para elaborar as diretrizes de atuação dos assistentes sociais nesse campo, os conceitos de “campo” 
e	de	“área”	estão	sendo	estudados	(a	partir	de	análises	de	Elizabete	Borgianni),	de	maneira	a	ser	definido	o	
mais apropriado para nominar esse espaço sócio-ocupacional.
510 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Portanto, trata-se de um debate que leva em conta a história do Serviço Social 
no Judiciário, construída no cotidiano de trabalho pelos assistentes sociais e por 
todos	os	sujeitos	com	os	quais	eles	interagem	no	exercício	profissional,	direta	ou	
indiretamente. Então, história, cotidiano, trabalho, justiça e direitos se colocam 
como	centrais	nessa	reflexão,	com	vistas	a	desvelar	o	exercício	profissional	lá	na	
ponta, nas suas articulações com a realidade social e institucional.
Para	 caminhar	 até	 a	 história	 do	 tempo	presente,	 quando	os	 desafios	 estão	
postos concretamente, são retomados alguns marcos da história do Serviço Social 
no Brasil e no Judiciário paulista (com um flash sobre seu início e outro foco no 
presente),	em	articulação	com	a	ética	e	as	competências	profissionais	—	sintoniza-
das (ou não) com fundamentos teóricos, metodológicos e técnicos do Serviço Social 
nos diferentes momentos. Nessa direção, vamos buscar também debater sobre como 
nessa	história	e	nesse	cotidiano	o	poder-saber	profissional	se	põe	frente	às	expres-
sões da questão social.
Marcos históricos: origem, prática profissional e ética
O Serviço Social no Brasil tem 77 anos de existência,2 e o Serviço Social no 
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo tem 65 anos,3 ainda que desde o início 
da	profissão	neste	país	alguns	assistentes	sociais	já	realizassem	trabalhos	no	então	
denominado Juizado de Menores, sem remuneração e/ou integrando o antigo Co-
missariado de Menores.
Os pioneiros do Serviço Social no TJSP foram também pioneiros do Serviço 
Social no Brasil, a exemplo da professora Helena Iracy Junqueira e do professor 
José Pinheiro Cortez. Ambos compuseram o grupo de professores da Escola de 
Serviço Social de São Paulo e militaram no PartidoDemocrata Cristão. Defendiam 
concepções de justiça social e de direitos com base no doutrinarismo católico, com 
um viés, ainda que embrionário, da social-democracia, e tiveram participação de-
cisiva na implantação do Serviço Social no primeiro Juizado de Menores da capital, 
2.	Considerando	como	marco	inicial	da	profissão	no	Brasil	a	criação	da	Escola	de	Serviço	Social,	em	
1936, em São Paulo (SP).
3. Considerando como marco desse início a criação, em 1949, do Serviço de Colocação Familiar junto 
ao Juízo de Menores, na capital paulista.
511Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
em 1949, por meio do Serviço de Colocação Familiar,4 instituído pela Lei estadual 
n.	500	—	que	ficou	conhecida	como	Lei	de	Colocação	Familiar.
Serviço este que, se utilizarmos denominação atual, pode ser considerado 
como o primeiro programa de família de apoio ou família acolhedora, ou, ainda, 
pode ser compreendido como o primeiro programa de transferência de renda de que 
se	tem	notícia	no	Estado	de	São	Paulo,	na	medida	em	que	incluía	repasse	financei-
ro inicialmente às famílias de apoio e posteriormente às próprias famílias das 
crianças e adolescentes cujos “casos” (como então se denominava) chegavam ao 
Judiciário com demanda de acolhimento institucional.
Em depoimento concedido em 1993,5 o assistente social e professor José Pi-
nheiro	Cortez	afirma,	em	relação	ao	auxílio	financeiro	à	família	de	origem,	previs-
to por esse programa para evitar a “internação de menores” (como se denominava 
então o acolhimento institucional de crianças e adolescentes), que:
A maior parte dos casos era de pobreza, que a gente tratando ou não tratando, continua 
pobre e que se eu não der comida não come. [...]. Era um dinheiro necessário para 
viver, mas não para tirar a condição de total dependência. Claro, a pessoa era estimu-
lada a trabalhar [por meio do acompanhamento realizado pelo assistente social], mas 
dava-se o mínimo necessário, porque se não se desse isso, a criança ia para a rua ou 
para uma instituição e aí seria mais caro para o Estado e para a sociedade. (Fávero, 
1999, p. 95)
Assim, respondendo às demandas colocadas pela ampliação das expressões 
da questão social, esse trabalho foi uma forma de assistência social com o objetivo 
de realização da justiça, vinculada ao ideário da doutrina social da Igreja Católica. 
O que, naquele momento histórico, não implicava questionamentos da ordem social 
burguesa	que	ditava	a	direção	disciplinadora	e	controladora	da	ação	profissional	
frente aos então chamados “desajustamentos sociais” (Idem, p. 95), que poderiam 
culminar no acolhimento institucional de uma criança ou adolescente.
4. A execução do Serviço de Colocação Familiar permaneceu sob a responsabilidade dos Juizados de 
Menores da capital até 1985, quando passou a ser administrado pelo Instituto de Assuntos da Família (Iafam), 
vinculado ao Poder Executivo estadual, vindo a ser extinto alguns anos depois.
5. Depoimento concedido para pesquisa de mestrado da autora deste texto. Tese publicada com o título 
Serviço Social, práticas judiciárias, poder: implantação e implementação do Serviço Social no Juizado de 
Menores de São Paulo, em 1999; e em 2005, com o título Serviço Social, práticas judiciárias, poder: 
implantação e implementação do Serviço Social no Juizado da Infância e Juventude de São Paulo, pela Veras 
Editora, São Paulo.
512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
O Serviço Social começa então, no Judiciário paulista, com uma direção mais 
voltada para a proposição e o desenvolvimento de ações que assegurassem alguma 
proteção	 social	—	ainda	que	 com	uma	visão	de	 justiça	 social	 direcionada	pela	
doutrina social da Igreja Católica, que naquele momento iluminava a formação 
moral	e	ética	dos	estudantes	de	Serviço	Social	—	e	menos	identificada	com	ações	
focadas no controle social de comportamentos considerados “desviantes” do padrão 
dominante burguês. Isso vai se dar com a criação e a formalização, em 1957, das 
Secções	de	Informações	e	de	Serviço	Social,	que	ficaram	conhecidas	como	Serviço	
Social de Gabinete, trabalho que foi instituído em razão do aumento da demanda 
de	natureza	social	e	pelas	competências	inerentes	aos	profissionais	dessa	área,	que	
detinham	um	 saber	 específico	 sobre	 as	 relações	 sociais	 e	 familiares.	 Saber	 que	
passa	a	ser	sistematizado	em	informes,	relatórios	ou	laudos,	com	a	finalidade	de	
dar suporte à decisão judicial:
Então	os	relatórios	eram	assim:	estudava-se	profundamente	o	pedido,	o	significado	
do	pedido,	a	situação	familiar	a	respeito	daquele	problema	que	se	apresentava	ali	—	
digamos,	orientando	um	pedido	de	internação:	então	vinha	o	significado	da	internação,	
a situação da família, o trabalho que se tinha feito com a família no sentido de evitar 
a internação, o entendimento feito com a escola para a criança frequentar escola. 
Também se acertava, por exemplo: todo mês a família tinha que vir trazer para o as-
sistente social o boletim da criança ou a própria criança, ou havia um entendimento 
direto com a escola... O caso era bem conduzido, era bem apresentado, inclusive [...], 
quando você acabava de ler um relatório você tinha uma situação, um universo com-
pleto”. (Depoimento Borges, apud Fávero, 1999, p. 117)
Então,	 isso	significa	que	há	aproximadamente	sessenta	anos	os	assistentes	
sociais têm como principais atribuições no Judiciário paulista: conhecer os sujeitos 
que procuram ou são encaminhados a essa instituição, em especial nas áreas da 
infância	e	 juventude	e	família	—	sujeitos	que,	via	de	regra,	vivem	situações	de	
violação	de	direitos	e	de	conflitos	os	mais	diversos;	sistematizar	esse	conhecimen-
to em informes, relatórios ou laudos, e encaminhar ao magistrado, de maneira a 
contribuir	para	que	ele	forme	um	“juízo”	sobre	a	situação	e	defina	a	sentença,	que	
poderá	vir	a	ser	definitiva	na	vida	de	indivíduos	e	famílias.	Sentenças	que	desde	
aquela época e até os dias de hoje determinam o acolhimento institucional de crian-
ças, as colocam em outras famílias, garantindo, em tese, sua proteção, aplicam 
medidas	socioeducativas	—	da	advertência	à	internação	—,	destituem	o	poder	fa-
miliar,	definem	ou	redefinem	a	guarda	de	filhos,	dão	base	em	alguns	casos,	ainda	
513Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
que indiretamente, à responsabilização penal de supostos violadores de direitos de 
crianças, mulheres, idosos etc.
Mas	que	subsídios	são	esses	que	cabia	—	e	cabe	—	ao	assistente	social	ofe-
recer	para	contribuir	com	a	decisão	judicial?	De	que	lugar	profissional,	institucio-
nal,	político	o	assistente	social	falava	e	fala	hoje?	Por	que	o	estudo	social	ou	a	
chamada perícia social, com características muitas vezes descritivas do relato dos 
sujeitos atendidos e da demanda que apresentam, se tornou trabalho fundamental 
no Judiciário em detrimento de um maior investimento em diagnósticos sociais 
articulados com as amplas dimensões da realidade social e ações articuladas com 
outras organizações sociais e, dessa maneira, com maior possibilidade de contri-
buição	para	o	acesso	aos	direitos	e	à	justiça?	E,	afinal,	de	que	Justiça	se	fala	e	que	
direitos	são	esses?
O assistente social foi e é chamado pelo Estado a fazer parte do Poder Ju-
diciário para contribuir com a aplicação da lei. O estudo que realizava e que 
realiza, o parecer social que elabora com base nesse estudo, e que é registrado 
em	um	relatório	ou	laudo,	tem	contribuído	para	flexibilizar	ou	para	manter	infle-
xível	a	lei?	A	lei	“tem	um	poder	formal	de	gerir	e	de	ordenar	a	vida,	implicando	
em direitos e deveres”. Na sociedade brasileira, em que a lei é essencialmente 
positivista,	ela	define,	de	acordo	com	Ewald	 (apud	Fávero,	1999,	p.	41),	“um	
espaço	de	liberdade,	traça-lhe	os	limites	[...];	ela	define	uma	partilha	simples	e	
imperfeita entre o permitido e o proibido;estabelece uma igualdade entre os ci-
dadãos, que deixa na sua indistinção, pois é indiferente à sua existência singular”. 
Dessa maneira, a lei generaliza e estabelece formalmente a igualdade entre os 
cidadãos, ainda que opere com desigualdades, as quais, nessa perspectiva, não 
são consideradas.
Assim, o estudo que o assistente social realizava e realiza contribui para des-
vendar	 a	 realidade	 em	 sua	 construção	 histórica	 e	 social,	 ou	 para	 ocultar	—	ou	
justificar	—	essa	construção?	Nesse	sentido,	na	realização	desse	estudo	sob	uma	
perspectiva crítica, não se pode ignorar que a desigualdade e a exploração social 
que permeiam a realidade social são inerentes ao padrão capitalista que rege a 
economia e a política no Brasil.
Quando o Serviço Social tem início no Judiciário, o viés funcional positivis-
ta e o doutrinarismo social da Igreja Católica, aliados ao metodologismo do Servi-
ço Social de casos individuais, de matriz norte-americana, eram referências para o 
exercício	profissional.
514 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Esse início do Serviço Social no Judiciário paulista praticamente coincide com 
o	estabelecimento	do	1º	Código	de	Ética	Profissional	do	Assistente	Social,	de	1948,	
fundamentado em pressupostos neotomistas e positivistas, em que
a	ação	profissional	é	claramente	subordinada	à	intenção	ético-moral	dos	seus	agentes,	
entendida como uma decorrência natural da fé religiosa. A ética é concebida como a 
“ciência dos princípios e das normas que se devem seguir para fazer o bem e evitar o 
mal” (Abas, 1948, p. 40);6	sua	importância	é	afirmada	em	face	da	atuação	profissional	
voltada às “pessoas humanas desajustadas ou empenhadas no desenvolvimento da 
própria personalidade” (idem). (Barroco, 2001, p. 96)
A ética operava, portanto, de maneira prescritiva, traduzia na prática dogmas 
cristãos, e buscava o aperfeiçoamento da personalidade das pessoas atendidas, de 
maneira a que mantivessem “atitude habitual de acordo com as leis e os bons cos-
tumes da comunidade” (idem, p. 96, citando Abas, 1948).
As transformações sociais e culturais que ganham corpo particularmente no 
mundo ocidental, e sobretudo a partir da década de 1960, ainda que tenham envol-
vido	significativos	setores	da	sociedade	brasileira,	não	aparecem	de	maneira	explí-
cita	no	Serviço	Social	naquele	momento.	Mesmo	que	tenham	existido	profissionais	
que se envolveram na luta por transformações e pela liberdade social e política, isso 
não	vai	refletir	de	forma	clara	nas	normativas	e	na	literatura	da	profissão,	literatura	
que praticamente inexistia então, na medida em que o Serviço Social nesse período 
desenvolvia apenas uma dimensão interventiva e não investigativa, com bases 
científicas.
Todavia,	considerando	a	consciência	possível	à	época	—	entendida,	conforme	
Goldmann, como o “máximo de possibilidade histórica que a consciência de um 
grupo	possa	ter	em	um	determinado	momento”	(apud	Baptista,	1986,	p.	63)	—	e	
os limites teórico-metodológicos decorrentes do embasamento no neotomismo, no 
positivismo	e	no	tecnicismo,	nota-se	uma	preocupação	com	a	autonomia	profissio-
nal	e	os	princípios	éticos	decorrentes	dessa	direção	social	da	profissão,	concorde-se	
ou não com eles nos dias de hoje. Isto é revelado em depoimentos concedidos pelo 
professor José Pinheiro Cortez e pela assistente social Zilnay Catão Borges, dois 
dos pioneiros do Serviço Social no Judiciário paulista.
6. Referência conforme texto original.
515Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
O professor Cortez, ao analisar o papel do Serviço Social no Judiciário em 
suas primeiras décadas,7	afirma:
A ação do Serviço Social repousa muito mais na intencionalidade do próprio Serviço 
Social	do	que	nos	fatos	sobre	os	quais	ele	atua	[...].	Importante	é	definir	o	papel	do	
Serviço	Social	na	esfera	do	Judiciário.	E	esse	papel	não	é	uma	definição	só	da	lei	nem	
só do Poder Judiciário. É também, e fundamentalmente, nossa, dos assistentes sociais. 
Então, vou trabalhar os Serviços Sociais junto ao Poder Judiciário a partir de uma 
ótica	específica	e	nossa,	e	que	eu	vou	tentar	convencer	o	Poder	Judiciário,	o	juiz,	o	
legislador, seja quem for, a adotar essa ótica [...].
O problema da neutralidade do perito [...] existe, mas não deve existir; o indivíduo 
não é totalmente neutro na problemática social [...]. Essa postura que o assistente 
social condiciona o Serviço Social às instituições, inclusive à chamada Poder Judiciá-
rio, essa postura é que nós temos que questionar, não é correto. É um autossuicídio. 
É aceitar as instituições do momento, e o Poder Judiciário é um poder político, no 
sentido amplo da palavra político. (In: Fávero, 1999, p. 134-135)
Zilnay Catão Borges, por sua vez, ao falar sobre o poder inerente ao trabalho 
profissional	no	cotidiano,	materializado	em	relatórios,8	afirma:
Nós tínhamos o direito, eu digo, de vida ou morte. Se você pegar os processos daque-
la época vai ver que eram relatórios grandes, até meio chatos para ler. Não chatos, 
porque eram muito bem-feitos, mas eram relatórios grandes, bons [...].
De jeito nenhum o assistente social alterava relatórios por exigência do juiz. Às vezes 
ele podia não concordar [...]. É um direito que lhe cabia, como juiz [...]. Ficava o 
nosso relatório, documentado, e o juiz colocava o parecer dele. Mas isso era raríssimo 
acontecer. [...]
[...] dava um medo danado. O medo era uma das discussões que a gente vivia tendo: 
gente, veja a responsabilidade que a gente está tendo, porque o juiz vê o que se escre-
ve	no	final	e	põe	“de	acordo”.	Então,	os	casos	não	iam	imediatamente	para	o	juiz,	
eram	muito	 bem	estudados	 pela	 chefia	 e	 refeitos	 se	 algum	aspecto	 não	 estivesse	
muito	bem	claro	para	justificar	a	medida	final	(idem,	p.	116).
Ainda que outras marcas tenham sido importantes na história do Serviço 
Social	no	Judiciário	paulista	—	como	algumas	experiências	com	trabalhos	comu-
7. Depoimento em 1993 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista.
8. Depoimento em 1994 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista.
516 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
nitários nos anos 1960 e 1970, bem como trabalhos interdisciplinares, realizados 
por	profissionais	significativos	nessa	história,	e	que	fizeram	diferença	na	ampliação	
e	na	qualificação	do	trabalho	no	Judiciário9	—,	até	por	volta	dos	anos	1980	a	mar-
ca	da	tradição	positivista	e	doutrinária	foi	expressiva	no	exercício	profissional	do	
assistente	social	nessa	instituição	e,	é	possível	afirmar,	se	faz	presente	em	algumas	
intervenções até hoje, mesmo que a partir dos anos 1990 um novo projeto ético e 
político	tenha	passado	a	nortear	a	formação	e	a	prática	profissional	do	assistente	
social.	Um	projeto	que	é	hegemônico,	o	que	não	necessariamente	significa	que	seja	
de	domínio	e	aceito	por	todos	os	profissionais	na	atualidade.	Da	mesma	maneira	
que	não	é	possível	afirmar	com	segurança	que	antes	dessa	década,	entre	os	profis-
sionais que atuavam no Judiciário, não existissem vozes dissonantes do conserva-
dorismo e do doutrinarismo social cristão, e que indistintamente todos assumiram 
integralmente uma perspectiva de trabalho apenas com vistas à adaptação dos in-
divíduos ao meio, que era característica do Serviço Social tradicional.
Projeto profissional, trabalho no cotidiano e desafios contemporâneos
A visita ao passado, em particular aos anos 1940-1950, com a perspectiva de 
conhecer um pouco da história e, como ensina o historiador italiano Alessandro 
Portelli (1997), “aprendermos um pouquinho com ela”, é importante para avanços 
na construção de transformações no presente e no futuro. Tais transformações de-
pendem	de	os	profissionais	se	indagarem	e	se	posicionarem	em	relação	às	ativida-
des	que	realizam	no	tempo	presente	e	em	que	condições:	em	relação	à	ética	profis-
sional, àscondições e relações de trabalho, à judicialização e à criminalização de 
expressões da questão social, às tentativas de uso desvirtuado do trabalho do assis-
tente social para obtenção de provas testemunhais com vistas à responsabilização 
penal,	e	tantas	outras	questões	e	desafios	com	os	quais	os	profissionais	se	deparam	
lá na ponta do exercício cotidiano de trabalho.
Torna-se	 importante	a	 reflexão	 sobre	como	estão	 se	posicionando	e	o	que	
fazem os assistentes sociais no tempo presente no dia a dia de trabalho, nos diver-
sos	espaços	que	ocupam	no	Judiciário	—	alargando	aqui	o	tempo	presente	desde	o	
início da década de 1990 até os dias atuais. Como acontece a atuação na Justiça da 
9. Como Terezinha Davidovich, João Batista Aducci, Maria Antonieta Guerriero e tantos outros.
517Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Infância e da Juventude, na Justiça da Família e nos demais espaços que demandam 
seu	trabalho	nessa	instituição?	Quais	os	referenciais	teóricos	e	metodológicos	que	
guiam	a	intervenção?	Quais	os	princípios	éticos	que	iluminam	a	escuta	que	estabe-
lecem com os indivíduos, famílias e grupos com os quais trabalham, os relatórios 
que	elaboram	e	os	pareceres	que	emitem?	Como	estão	sendo	apropriadas	as	legis-
lações sociais pós-Constituição Federal de 1988 e como se inserem e se articulam 
nesse	trabalho	as	normativas	e	os	programas	sociais	dela	decorrentes?	Como	os	
profissionais	se	organizam	politicamente	para	fazer	avançar	o	compromisso	com	a	
efetivação	da	justiça	social	e	dos	direitos?	E	qual	perspectiva	de	justiça	social	e	de	
direitos	norteia	esse	fazer	profissional?
Não é pretensão nem é possível descrever aqui respostas a todas essas e a 
tantas	outras	questões	que	movem,	ou	que	poderiam	mover,	os	profissionais	da	área	
comprometidos	com	a	direção	social	posta	pelo	projeto	profissional	hegemônico	
do Serviço Social na contemporaneidade. Mas são as perguntas à realidade que 
instigam a construção de novos caminhos em busca de respostas efetivas.
A	década	de	1990	marca	essa	história	pela	significativa	ampliação	do	quadro	
de	profissionais,	tanto	na	capital	(que	já	iniciara	uma	ampliação	na	década	de	1980)	
como em cidades do interior do estado de São Paulo. Isso em virtude do constante 
aumento da demanda de trabalho, decorrente tanto da ampliação das expressões da 
questão social que chegam ao Judiciário devido à desigualdade social e à ausência 
ou	insuficiência	de	políticas	universais	de	proteção	social,	como	das	normativas	
legais e institucionais que estabelecem mais claramente a proteção de direitos de 
crianças, adolescentes, idosos, mulheres e famílias a partir da Constituição Federal 
de 1988.
Não	é	por	acaso	que	essa	década	—	nominada	aqui	de	década	de	organização	
e	de	conquistas	—	marca	a	criação	oficial	da	Equipe	Técnica	de	Coordenação	e	
Desenvolvimento	Profissional	dos	Assistentes	Sociais	e	Psicólogos	do	TJSP,	para	o	
planejamento	e	a	execução	das	atividades	de	aprimoramento	profissional.	Marca	
também o início da organização política formal dos assistentes sociais e psicólogos 
do TJSP (que já vinham construindo um processo organizativo nos anos anteriores), 
com a criação, em 1992, da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do 
Tribunal	de	Justiça	do	Estado	de	São	Paulo	—	AASPTJ-SP,	com	o	objetivo	de	tra-
balhar,	sobretudo,	na	direção	da	defesa	de	direitos	desses	profissionais.	É	também	a	
partir	da	segunda	metade	dessa	década	que	vários	profissionais	do	Judiciário	pau-
lista	—	a	maior	parte	deles	com	alguma	participação	na	organização	política	da	
categoria	—	começam	a	desenvolver	pesquisas	no	âmbito	acadêmico	sobre	o	traba-
518 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
lho do assistente social no Judiciário e, portanto, a sistematizar conhecimentos com 
base	científica	sobre	seu	trabalho,	articulando	o	fazer	cotidiano	a	análises	teóricas.10
Essa década de conquistas no âmbito do Judiciário paulista é a mesma em que 
o	Serviço	Social	consolida	as	bases	do	atual	projeto	ético	e	político	da	profissão:	
em	1993,	após	amplo	debate	entre	segmentos	da	categoria	profissional,	é	estabele-
cido	o	atual	Código	de	Ética	profissional	e	promulgada	a	Lei	n.	8.662/1993,	que	
deu	nova	regulamentação	à	profissão,	bem	como,	em	1996,	são	lançadas	as	atuais	
diretrizes curriculares pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço 
Social (Abepss). Documentos esses e diretrizes que marcam a ruptura do projeto 
profissional	com	a	direção	conservadora,	assumindo	claramente	uma	direção	social	
no	exercício	profissional	norteada	pelos	seguintes	princípios:
Reconhecimento da liberdade como valor ético central, pela defesa intransigente dos 
direitos humanos, pela ampliação e consolidação da cidadania, pela defesa do apro-
fundamento da democracia, o posicionamento em favor da equidade e justiça social, 
pelo empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, pela garantia do 
pluralismo,	pela	opção	por	um	projeto	profissional	vinculado	ao	processo	de	constru-
ção	de	uma	nova	ordem	societária	—	sem	dominação-exploração	de	classe,	etnia	e	
gênero, pela articulação com os movimentos de outras categorias, pelo compromisso 
com a qualidade dos serviços prestados e pelo exercício do Serviço Social sem ser 
discriminado nem discriminar. (CFESS, 2011)
Esses	princípios	éticos	estão	dispostos	no	atual	Código	de	Ética	Profissional	
e	se	contrapõem	radicalmente	àqueles	estabelecidos	no	Código	de	Ética	Profissio-
nal de 1948, que levavam a traduzir na prática dogmas doutrinários cristãos, ações 
na direção de ajustamentos de indivíduos à ordem social dominante, e valores 
moralizantes relacionados ao agir conforme “os bons costumes”. Isto é, ao que a 
moral burguesa, ditada pelos detentores dos meios de produção e do poder político, 
definia	que	deveria	ser	o	comportamento	da	população	trabalhadora,	a	serviço	dos	
interesses do capital.
10.	Entre	as	profissionais/pesquisadoras	estão	Ana	Maria	da	Silveira,	Rita	de	Cássia	Silva	Oliveira,	
Abigail Franco, Selma Magalhães, Dalva Azevedo, Sílvia Alapanian, Dilza Silvestre Matias, Catarina Volic, 
Leni Ribeiro, Áurea Fuziwara, Ester Gast, além da autora deste texto. É importante destacar que a maioria 
dessas pesquisas foi acolhida e impulsionada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o 
Adolescente da Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP (NCA-PUC-SP), coordenado pela professora 
Myrian Veras Baptista.
519Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Mas não se pode esquecer que essa mesma década de 1990 foi marcada pelo 
avanço do neoliberalismo, da precarização do trabalho e pelo aumento considerável 
dos indicadores de pobreza, miséria e violência no Brasil. E isso, no que se refere 
à	categoria	dos	assistentes	sociais,	vai	se	refletir	mais	explicitamente	na	década	
seguinte.
Assim, se a década de 1990 foi de consolidação da organização e de algumas 
conquistas,	é	possível	afirmar	que	a	primeira	década	do	século	XXI	se	torna	a	de	
resistência ao avanço desenfreado da precarização e da exploração do trabalho em 
geral, particularmente no que diz respeito ao Serviço Social, do trabalho do assis-
tente	social,	e	de	lutas	pelos	direitos	desses	profissionais	bem	como	pelo	acesso	e	
efetivação de direitos da população usuária dos serviços sociais.
Nesse contexto, no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, é 
extinta	em	2001	a	Equipe	Técnica	de	Coordenação	e	Desenvolvimento	Profissional	
dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP, praticamente eliminando as ativida-
des	 de	 capacitação	 dos	 profissionais	 de	Serviço	Social	 e	 de	Psicologia,	 sendo	
criados, enquanto espaço de resistência, apenas os Grupos de Estudos11 sobre di-
versos temas relacionados ao trabalho cotidiano, que passam a realizar reuniões 
mensais e são todos coordenados por assistentes sociais ou psicólogos do próprioTJSP, “sem ônus” para essa instituição.12
A pesquisa realizada pela AASPTJ/SP sobre as condições de trabalho dos 
assistentes sociais e psicólogos do TJSP, publicada com o título Serviço Social e 
Psicologia no Judiciário, construindo saberes, conquistando direitos (Fávero, 
Melão e Tolosa Jorge, 2005), revela claramente essa situação, demonstrada tanto 
pela bárbara realidade social da população atendida no dia a dia de trabalho do 
assistente social e do psicólogo (situações de extrema pobreza, violência interpes-
soal e intrafamiliar, não acesso à proteção social), como pelo sofrimento no traba-
lho	vivido	por	muitos	profissionais	—	pelas	precárias	condições	materiais	de	tra-
11. Cabe aqui a lembrança de que entre as responsáveis pelo estabelecimento desses espaços de 
resistências estão as psicólogas Magda Melão e Denise Alonso, e a assistente social Sílvia Sant’Anna, e que 
por vários anos os encontros dos grupos aconteceram na sede da AASPTJ/SP, portanto, fora do espaço 
institucional.
12. Conforme ressalvado nas publicações das datas dessas reuniões (que continuam), no Diário Oficial 
da	instituição.	O	que	significa	que	os	profissionais	participantes	são	liberados	do	atendimento	à	população	
no dia da reunião, todavia devem dar conta de todo o trabalho pelo qual são responsáveis no dia a dia, bem 
como não recebem ajuda de custo para essa participação, e eventuais convidados para palestras não são 
remunerados pela instituição.
520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
balho, e ainda, em muitos casos, pelas relações verticalizadas e autoritárias por 
parte de superiores administrativos que ignoram e desrespeitam particularidades 
do	trabalho	do	profissional.
Entretanto, no interior do permanente movimento da história, ao mesmo 
tempo também aparecem várias possibilidades e proposições de ações na direção 
da resistência, denotando o compromisso com a qualidade no trabalho, com base 
nas	prerrogativas	profissionais	e	nos	direitos	sociais.
Assim,	nos	primeiros	anos	da	década	de	2000	é	que	por	fim	os	assistentes	
sociais	conseguem	que	sejam	definidas	oficialmente	suas	atribuições	profissionais	
(ainda que com cortes na proposta então encaminhada ao TJSP pela AASPTJ/SP).13 
Também nessa década é que, por meio da AASPTJ-SP, a categoria organizada 
passa a estabelecer maior articulação com outras organizações sociais na busca da 
efetivação de direitos, sobretudo no que se refere aos direitos da criança e do ado-
lescente. E que participa ativamente de movimentos de greve em conjunto com 
demais	 trabalhadores	 do	 Judiciário,	 e	mais	 recentemente	—	na	 atual	 gestão	da	
AASPTJ14	—	inicia	a	caminhada	em	direção	à	maior	articulação	com	profissionais	
de outros espaços sócio-ocupacionais do campo sociojurídico, visando ampliar e 
fortalecer a organização política das categorias, em direção ao acesso à justiça e 
aos direitos sociais.
Retomando	as	reflexões	sobre	a	justiça	e	os	direitos	no	cotidiano	profissional,	
no tempo presente, é importante indagar sobre como o Serviço Social no espaço do 
Judiciário pode contribuir para o acesso à justiça e aos direitos em meio à barbárie 
que permeia a realidade social e que chega nesse espaço sócio-ocupacional fragmen-
tada, geralmente como demandas individuais. Tudo isso necessita ser pensado tendo 
em perspectiva a apropriação das bandeiras da justiça e dos direitos enquanto meios 
estratégicos em direção à possibilidade histórica da justiça social que implique equi-
dade, socialização da riqueza socialmente produzida, universalidade do acesso a bens 
e serviços que possibilitem e garantam a dignidade do ser humano (Fávero, 2012).
Os	direitos	humanos	—	de	natureza	social,	econômica	e	cultural,	em	sua	
configuração	moderna,	como	ensina	Barroco	(2009)	—	respaldam-se	em	conquis-
13. A íntegra das atribuições elencadas então pela AASPTJ-SP pode ser localizada anexa ao artigo 
“Questão	social,	 família	e	 juventude:	desafios	do	 trabalho	do	assistente	social	na	área	sociojurídica”,	de	
Marilda V. Iamamoto, publicado no livro Política social, família e juventude, 2004.
14. Gestão 2009-2013, que articulou ações com vistas à criação da Associação Nacional dos Assistentes 
Sociais	e	Psicólogos	da	Área	Sociojurídica	—	AaSP	Brasil	—	em	2012.
521Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
tas não exclusivas da burguesia. Ainda que sejam limitados pela sua fundação 
com base na democracia e na cidadania burguesas, representando, portanto, in-
teresses relacionados à defesa da propriedade privada e dos meios de produção 
inerentes ao sistema capitalista conforme cada país e momento histórico, a luta 
de classes possibilita que os trabalhadores incorporem a luta pelos direitos hu-
manos como forma de resistência à exploração e à desigualdade, o que se con-
cretiza em meados do século XX, com a agregação, nas declarações de direitos 
humanos, dos direitos sociais, econômicos e culturais aos direitos civis e políticos 
(Barroco, 2009, p. 57-58).
Assim, entende-se aqui que, mesmo nos limites da atuação cotidiana, uma das 
formas de materializar a contribuição com a justiça e os direitos nessa perspectiva 
pode se dar com o desvelamento e a interpretação crítica da demanda trazida e/ou 
vivida pelos indivíduos sociais (seja na abordagem individual ou coletiva) atendidos 
pelo assistente social.
No	espaço	de	trabalho	no	Judiciário,	o	profissional	encontra	diversas	situações	
de violações de direitos, expressas por pessoas que vivem muitas vezes em condi-
ções de apartação social, que passam por experiências de violência social e inter-
pessoal, que estão por vezes em situações-limite de degradação humana, com 
vínculos sociais e familiares rompidos ou fragilizados, que vivenciam o sofrimen-
to social decorrente dessas rupturas e da ausência de acesso a direitos. Nesse con-
texto,	se	o	profissional	trabalha	em	consonância	com	a	defesa	e	a	garantia	de	direi-
tos, ele avançará nessa direção ao possibilitar um espaço de informação, de diálogo 
e	de	escuta	desses	sujeitos,	ao	estimular	a	reflexão	crítica	a	respeito	dos	problemas	
e dilemas que vivenciam, ao agir, em conjunto com eles, para conhecer e estabele-
cer caminhos viáveis para o acesso a direitos.
Estabelecer	o	exercício	profissional	cotidiano	com	essa	perspectiva	exige	o	
entendimento de que os processos de trabalho dos quais o assistente social partici-
pa têm como objeto as expressões da questão social e que essas expressões expõem 
violações de direitos, geralmente provocadas por situações estruturais e conjunturais 
—	entendimento	que	pressupõe	a	análise	crítica	das	dimensões	que	constituem	esse	
processo de trabalho. Para isso, torna-se fundamental imprimir ao trabalho cotidia-
no a dimensão investigativa crítica, efetivando o processo de conhecimento da 
demanda que chega concretamente para o atendimento e a partir da qual a inter-
venção é desencadeada. E isso exige o domínio dos meios de trabalho, dos recursos 
materiais e, em especial, dos recursos teóricos, metodológicos, técnicos e éticos; 
522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
exige processar o conhecimento da realidade social, seus movimentos, as correlações 
de	forças	e	as	suas	possibilidades,	tendo	clareza	da	finalidade	do	trabalho.	Ou	seja,	
ter	clareza	do	que	é	necessário	conhecer,	qual	é	a	finalidade	desse	conhecimento,	
no	interior	das	competências	técnica,	política	e	ética	inerentes	à	área	profissional,	
que	revelam	que	profissão	é	essa	e	quem	são	os	profissionais	que	a	exercem.
Dessa maneira, ao realizar um estudo social por exemplo, que conteúdos 
pertinentes	ao	Serviço	Social	o	assistente	social	domina,	investiga	e	sistematiza?	
O que busca conhecer acerca de relações e de vínculos sociais presentes (ou ausen-
tes) na vida dos sujeitos, no que se refere ao trabalho, com a cidade e com o terri-
tório,	com	as	políticas	sociais?Como	acontecem	as	relações	com	a	família,	qual	
sua capacidade protetiva, com qual proteção social o indivíduo e/ou a família 
conta?	Como	ensina	a	professora	Aldaíza	Sposati,	vínculo	em	termos	de	proteção	
social é algo muito simples, é “contar com”. O indivíduo ou a família conta com o 
quê?	A	resposta,	conforme	essa	autora,	é	diferente	para	cada	família,	e	por	isso	se	
faz necessário levar em conta sua condição objetiva.15
No exercício do trabalho cotidiano, a dimensão ética exclui qualquer possi-
bilidade	de	desvirtuamento	de	sua	finalidade,	como,	por	exemplo,	o	uso	de	um	
laudo, de uma visita domiciliar ou de uma entrevista no espaço físico da instituição 
com o objetivo de obter informações que venham a servir de provas para aplicação 
de punição a um suposto violador de direitos de uma criança ou suposto autor de 
outros crimes. O conteúdo expresso em um relatório ou laudo pode nessa área ju-
diciária ser considerado como mais uma “prova” em ações de responsabilização 
penal, mas o objetivo, quando da sua construção, não é esse. O trabalho realizado 
pelo assistente social ao comportar a dimensão investigativa tem como inerente a 
produção do conhecimento sobre o cotidiano e seus sujeitos, de modo a explicar a 
realidade social e contribuir com a efetivação de direitos, e não a construção de 
provas que sirvam de base a ações de responsabilização na área criminal.
Nesse	sentido,	um	dos	desafios	postos	aos	assistentes	sociais	que	atuam	no	
Judiciário (mas não só nessa área) está em não fazer uso do saber-poder, que é 
inerente	ao	exercício	profissional,	em	contraposição	à	ética	profissional.	O	que,	no	
espaço do Judiciário, pode acontecer de maneira mais diluída, na medida em que 
o poder decisório é inerente à “natureza” institucional. Nos processos de trabalho, 
15. Anotações de conferência sobre “Vulnerabilidade e capacidade protetiva de territórios e famílias”, 
realizada por Aldaíza Sposati em aula magna no mestrado em Políticas Sociais da Universidade Cruzeiro do 
Sul/SP, em 10 de maio de 2012.
523Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
ao realizar entrevistas e registrá-las em relatórios, o assistente social sistematiza 
um saber a respeito dos indivíduos e grupos atendidos que, no âmbito do Judiciário, 
pode ser tomado como “verdade” e interpretado em diferentes perspectivas. Esse 
conhecimento produzido, para revelar-se como ponto de vista do Serviço Social, 
necessita ter como base fundamentos teóricos, metodológicos e éticos inerentes à 
profissão,	e	ser	expresso	com	clareza,	concisão	e	consistência.	Entretanto,	ao	ler	
um laudo ou um relatório, qual é o ângulo de visão de um promotor, de um juiz, de 
um	gestor?	Que	leitura	e	interpretação	podem	fazer?	Que	direção	social	e	profis-
sional	guiará	a	decisão	em	relação	à	medida	a	ser	tomada?
O relatório social, o laudo social e o parecer social podem ser vistos como 
instrumentos de poder. Um poder-saber que necessita ser viabilizado na direção da 
garantia	de	direitos,	 em	estreita	 articulação	 com	o	 atual	 projeto	profissional	 do	
Serviço Social, e não como indicador de ações disciplinares, coercitivas e punitivas, 
desvirtuando	a	finalidade	do	trabalho	que	cabe	ao	profissional	da	área.	Para	isso,	é	
essencial a investigação rigorosa da realidade social vivida pelos sujeitos e grupos 
sociais envolvidos nas ações judiciais, desvelando a dimensão histórico-social que 
constrói as situações concretas atendidas no trabalho cotidiano.
Nessa	linha	de	construções	e	de	desafios,	considera-se	necessário	o	investimen-
to na área de trabalho judiciária como espaço de investigação permanente, de ma-
neira que suas produções contribuam com a criação de resistências à desvalorização 
do	saber	profissional,	à	criminalização	da	pobreza	e	à	judicialização	dos	conflitos	
familiares e das expressões da questão social. Assumir efetivamente a pesquisa 
também como instrumento de trabalho, contribuindo para que o conhecimento dela 
decorrente seja aplicado no dia a dia da intervenção e contribua com avaliações e 
proposições	de	políticas	sociais	e	institucionais,	coloca-se	como	importante	desafio.
Para	lidar	com	desafios	e	realizar	investimentos	em	algumas	frentes,	no	sen-
tido de contribuir com o acesso à justiça e aos direitos, ao fortalecimento da capa-
cidade	 argumentativa	 e	 consequente	 fortalecimento	do	 projeto	 da	 profissão	 na	
contemporaneidade, é necessário o estabelecimento de estratégias e a efetivação de 
ações políticas organizadas.
Avanços nesse sentido possivelmente poderão ser alcançados se ações coletivas 
forem viabilizadas. Entre tais ações considera-se importante: construir parâmetros 
que	definam	um	número	mínimo	de	profissionais	em	relação	ao	número	de	proces-
sos	e	situações	atendidas	em	cada	Vara	e/ou	Fórum	—	em	articulação	com	outras	
áreas do conhecimento e organizações políticas; manter a vigilância e articulações 
para que o acesso a essa área de trabalho seja por meio de concursos públicos, para 
524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
os quais as organizações representativas da categoria devem ser chamadas a opinar 
em	termos	de	projeto	de	profissão	e,	inerente	a	isso,	por	exemplo,	sobre	a	bibliogra-
fia-base	para	esses	concursos;	organizar,	nacionalmente,	mobilização	para	que	o	
assistente	social	(e	demais	profissionais	que	compõem	as	equipes	multiprofissionais)	
não seja subordinado administrativamente ao magistrado titular da Vara onde atua. 
Nesse sentido, considera-se importante a elaboração de proposta para que as equipes 
técnicas que atuam no Judiciário tenham coordenação própria, indicada pela cate-
goria organizada, prestando serviços no âmbito do sistema de justiça à população 
que	dele	necessita,	 sem	que	os	profissionais	 precisem,	 a	 cada	dia,	 provar	 a	que	
vieram para cada superior hierárquico que chega a uma Vara de Família, Vara da 
Infância,	Vara	Criminal,	ou	em	outros	espaços	de	trabalho	da	área	—	superiores	
muitas vezes alienados da dimensão histórica e política da realidade social e do 
trabalho	que	compete	aos	profissionais	de	Serviço	Social.
Entende-se como necessário o estabelecimento de estratégias para conquista 
de autonomia administrativa porque, sem desconsiderar a existência de magistrados 
ou gestores comprometidos com o respeito ao direito da população e aos direitos 
dos trabalhadores na instituição, permanece ainda de maneira expressiva no Judi-
ciário, particularmente no paulista, situações de autoritarismo, reforçadas pela 
posição hierárquica administrativa, que não raro invade a autonomia técnica, so-
bretudo no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude. E essa realidade muitas 
vezes	tem	como	consequência	o	adoecimento	dos	profissionais,	a	alienação,	quan-
do não a saída da instituição em busca de outro trabalho, ou a constante contagem 
dos dias que faltam para a aposentadoria. E, é importante lembrar, tudo isso não 
nos exime de considerar que como em todas as áreas, também podem existir pro-
fissionais	do	Serviço	Social	coniventes	com	o	autoritarismo,	com	a	banalização	da	
vida humana e com o desrespeito à ética.
É	fundamental	a	valorização	do	trabalho	interdisciplinar	—	porém	mantendo	
relações	de	horizontalidade,	e	não	de	subalternidade	—,	do	próprio	conhecimento	
e de ações nele embasadas.
Estreitamente	articulado	a	esse	desafio	e	proposição,	é	importante	organizar	o	
debate e encaminhamentos para a criação, na estrutura administrativa do Tribunal de 
Justiça, de Secretaria de Serviço Social e de Psicologia (e/ou outras áreas do conhe-
cimento	que	integram	ou	venham	a	integrar	a	equipe	multiprofissional),	vinculada	
diretamente	à	presidência	do	Tribunal,	dirigida	de	direito	e	de	fato	por	esses	profis-
sionais. Uma secretaria com autonomia, poder decisório e dotação orçamentária para 
desenvolvimento,	entre	outros,	de	projetos	de	formação	continuada	dos	profissionais	
525Serv.Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
e	de	assessoria	a	eles	nas	variadas	particularidades	do	exercício	profissional	cotidia-
no, o que poderia ser viabilizado por meio de atividades de supervisão continuada.
Entre	 as	 estratégias	necessárias	para	 fazer	 frente	 aos	desafios,	 coloca-se	 a	
ampliação da organização política16	e,	vale	reafirmar,	o	investimento	na	pesquisa,	
na produção de conhecimentos com base nas demandas e nas atividades de trabalho 
que os assistentes sociais realizam cotidianamente. Conforme já observado, é im-
prescindível a inserção dessa dimensão investigativa no trabalho cotidiano, ou seja, 
inserir a pesquisa como parte dos processos de trabalho, socializar os seus resulta-
dos,	de	maneira	a	contribuir	com	avanços	qualitativos	no	exercício	profissional	e	
como suporte à luta política. Nesse sentido, é importante provocar a universidade 
para que viabilize pesquisas e estudos críticos sobre essa área, ainda um tanto dis-
tante do debate acadêmico.
Uma estratégia que também poderá fortalecer essa área de trabalho está na 
definição	das	competências	e	de	parâmetros	para	a	atuação	dos	assistentes	sociais	
no campo sociojurídico, que vem sendo desenvolvida pelo conjunto CFESS/Cress. 
E que necessita avançar na busca da participação da categoria que está lá na ponta 
do atendimento, para que se manifeste sobre o que faz e o que propõe, com base 
na diversidade de experiências e realidades socioterritoriais do país.
São	muitas	as	construções	e	maiores	ainda	os	desafios	postos	aos	assistentes	
sociais como um todo, particularmente os do Judiciário, conforme tratado neste 
texto.	Não	foi	pretensão	pontuar	todos	esses	desafios,	nem	será	possível	avançar	
na	construção	de	respostas	num	curto	prazo.	São	construções	e	desafios	que	não	se	
dão isoladamente no espaço local de trabalho, apartados da conjuntura social e 
política nacional e mundial e sem articulações com outras organizações sociais e 
políticas.	São	os	desafios	postos	no	cotidiano	que	movem	a	história,	e	esse	movi-
mento	necessita	ser	desvelado	e	influenciado	pelos	profissionais,	tanto	no	dia	a	dia	
da	luta	política	como	no	dia	a	dia	da	intervenção	profissional	—	com	democracia,	
sem preconceitos, respeitando a diversidade e as diferenças, e com compromisso 
com a qualidade dos serviços prestados, como tão claramente alerta o Código de 
Ética	Profissional	do	assistente	social.
Recebido em 31/5/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013
16. O que, no estado de São Paulo, a AASPTJ/SP tem buscado levar à frente, com a luta pela ampliação 
de seus quadros e áreas de abrangência.
526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
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527Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Lutas Sociais e Direitos Humanos 
da criança e do adolescente:
uma necessária articulação
Social struggles and children and adolescents’ 
Human Rights: a necessary articulation
Aurea Satomi Fuziwara*
Resumo: Este artigo problematiza os direitos humanos da criança 
e do adolescente, com fundamento na teoria crítica, abordando a sua 
construção histórica e os processos políticos em que se inserem. Pro-
blematizando	dados	sobre	a	situação	da	infância,	reflete	criticamente	
sobre o uso do discurso em torno da defesa de direitos.
Palavras-chave: Direitos humanos. Criança e adolescente. Lutas 
sociais.
Abstract: In this article we discuss the children and the adolescents’ human rights. The discussion 
is based on the Critical Theory, and it approaches their historical construction and political processes 
in which they operate. While it discusses data related to the situation of childhood, it critically debates 
about the use of discourse in the defense of rights.
Keywords: Human Rights. Child and adolescent. Social struggles.
* Assistente social, servidora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, docente em pós-graduação 
lato sensu, doutoranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Faculdade de Ciências 
Sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), São Paulo, Brasil. pesquisadora do Núcleo de Pesquisa 
sobre Ética e Direitos Humanos (NEPEDH) do mesmo programa. E-mail: fuziwara.aurea@gmail.com.
528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Introdução
O presente	artigo	apresenta	uma	reflexão	sobre	o	desafio	de	efetivarmos	os direitos humanos da criança e do adolescente, percorrendo algumas questões fundamentais que problematizam o processo histórico, a cons-trução	da	concepção	de	direitos	e	os	desafios	colocados	cotidianamente.
A	literatura	técnica	e	científica	tem	abordado	os	direitos	da	criança	e	do	ado-
lescente sob diferentes prismas, abordando seu desenvolvimento, suas demandas, 
seus direitos, as políticas sociais públicas e privadas, as campanhas de promoção e 
defesa de direitos etc. Ou seja, um grande volume de enfoques que fragmentam a 
realidade pode obscurecer aspectos cruciais para compreender e enfrentar a violação 
de direitos por ação e por omissão, seja da família, da sociedade e/ou do Estado.
A infância na história
Para problematizarmos a realidade vivida pelas crianças e adolescentes exi-
ge-se	sempre	um	olhar	histórico.	Philippe	Ariès	é	um	historiador	ao	qual	pesquisa-
dores das mais diferentes perspectivas recorrem. É preciso salientar, em nossa 
perspectiva, que a retirada da densidade das lutas históricas e do enfoque dos seus 
protagonistas em geral propicia apenas uma descrição dos fenômenos, não possi-
bilitando aprofundar as contradições existentes.
Consideramos ser determinante paraesta análise partirmos da compreensão 
da construção dos direitos humanos no processo histórico, abarcando a infância 
nesse processo. Assim como muitos autores, utilizávamos do termo “a história da 
infância”, mas atentando para esta expressão, atualmente a consideramos inapro-
priada.	Afinal,	não	há	uma história da infância, mas existem complexas expressões 
das ações humanas em relação à criança e ao adolescente no processo histórico. 
Esta é uma primeira demarcação que pode nos auxiliar numa leitura mais apro-
fundada	sobre	o	tema.	Com	essa	perspectiva,	 torna-se	inerente	refletir	sobre	as	
lutas sociais em que esse segmento se fez presente, em geral vitimizado pela ne-
gação da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Não por acaso, o 
Estatuto da Criança e do Adolescente tem esse princípio que perpassa toda sua 
fundamentação.
529Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Ainda	nos	atendo	à	situação	da	infância,	Ariès	é	um	autor	fundamental,	que	
em sua análise traz elementos para o olhar atento ao cotidiano da sociedade, inves-
tigando as relações aparentemente triviais para a história. Este autor faz parte de 
um leque de pesquisadores que passam a se preocupar com essas relações buscan-
do avançar na leitura da história. Por seu prisma de estudos, aponta a realidade da 
criança em documentos, em telas que retrataram a vida das famílias, muitas vezes 
verificando	que	em	geral	os	pequenos	apareciam	quase	ao	acaso	nas	imagens.	Os	
pesquisadores	e	os	documentos	(oficiais	ou	não,	como	cartas	familiares)	nos	for-
necem	significativos	elementos	sobre	formas	de	presença	das	crianças	na	vida	dos	
adultos. O mesmo autor nos informa que o termo infância decorre da palavra enfant, 
que é literalmente “não falante”. Esta “fase” teria como indicador a idade de até 
sete anos de vida, quando devido à aquisição ainda frágil da linguagem e da con-
dição biológica, por não ter a dentição completa, a criança não conseguiria se ex-
pressar com perfeição. Contudo, o historiador vai demarcar o lugar social de não 
ser ouvido. Evidentemente, estamos aqui realizando um sobrevoo ligeiro em relação 
à obra desse autor, fundamental para o debate sobre a infância.
A humanidade começou a efetivamente reconhecer a criança e o adolescente 
em suas particularidades há menos de dois séculos, cabendo aos adultos preservar 
seu pleno desenvolvimento por meio de cuidados privados e públicos. Nas obras 
de	Ariès	(1978)	e	de	Rizzini	e	Pilloti	(2009)	temos	um	vasto	leque	para	aprofundar	
as pesquisas sobre o atendimento à infância, que no caso brasileiro vai ter início 
com	a	catequização	das	crianças	indígenas	e	dos	filhos	oriundos	das	relações	entre	
homens europeus e mulheres indígenas e africanas. Essa é uma primeira marca 
sobre o domínio que permanece contra o desenvolvimento das crianças e adoles-
centes no Brasil. Não podemos negar o quanto essa trajetória vai demarcar decisi-
vamente os rumos do trato a grande parcela da infância.
Direitos humanos
Para	esta	reflexão,	buscaremos	alguns	elementos	sobre	o	processo	histórico	
da construção dos direitos humanos, que perpassa pelas revoluções burguesas. 
Estes processos históricos fundam a construção dos direitos civis e políticos cunha-
dos pelo ideário liberal. Os principais autores nos quais nos apoiamos são Trindade 
(2003 e 2011a); Hobsbawm (2012 e 2008), Mészáros (2008) e Barroco (2010).
530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Conforme estes e outros autores, os direitos humanos devem ser considerados 
enquanto conjunto de direitos econômicos, políticos, civis, sociais, culturais e 
ambientais, os quais são interdependentes e indivisíveis (ainda que limitado ao 
aspecto jurídico-formal). A trajetória de lutas e conquistas desses direitos é a refe-
rência histórica para compreendermos a busca da liberdade individual e da ruptura 
com a dependência interpessoal, traço marcante da sociedade feudal, que ainda 
mantinha resquícios naquele capitalismo nascente. Nesse sentido, o contrato entre 
“pessoas livres” seria o elemento-chave para o avanço da sociedade, que passaria 
a ter novos proprietários (por aquisição, e não apenas por herança). Contudo, para 
a elaboração de regras nessa nova forma de relação social, os burgueses liberais 
também	precisavam	consolidar	direitos	políticos	—	de	votar	e	de	ser	votado	—,	
para romper com o comando da nobreza e do clero. Era preciso construir uma nova 
classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Era preciso construir 
uma nova classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Neste 
sentido, retirando
[...] os direitos humanos do campo da transcendência, evidenciou-se sua inscrição na 
práxis sócio-histórica, [...] ao se apoiar em princípios e valores ético-políticos racionais, 
universais, dirigidos à liberdade e à justiça, a luta pelos direitos humanos incorporou 
conquistas que não pertencem exclusivamente à burguesia, pois são parte da riqueza 
humana produzida pelo gênero humano ao longo de seu desenvolvimento histórico, 
desde a Antiguidade. (Barroco, 2010, p. 55)
É nesse processo que se consolida a concepção de igualdade liberal, pautada 
na	busca	de	uma	pretensa	e	artificial	equivalência	 jurídica	(Trindade,	2011a).	A	
história demonstra que esses direitos nasceram do desejo da burguesia de tomar 
para si privilégios restritos ao clero e à aristocracia. A possibilidade de pensar na 
igualdade social exigiu que a classe trabalhadora tomasse para si a bandeira de luta 
para que esses direitos fossem acessíveis a todos.
A Declaração dos Direitos Humanos de 1948 tem restrições, mas é importan-
te registrar que
[...] foi resultado daquela correlação mundial de forças. Sem a pressão dos países do 
bloco soviético e sem a ascensão operária que se alastrava pelo mundo, seria inima-
ginável a inclusão dos direitos econômicos, sociais e culturais naquele documento, 
assim como seria inimaginável a inclusão do direito de autodeterminação dos povos 
sem as lutas de libertação nacional então em curso. (Trindade, 2011b)
531Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Portanto, a reivindicação era pelo direito de todos, mas provocada sempre pela 
classe que vive do trabalho. Esse fato não decorre de uma luta entre “bons e maus”, 
não se tratando de um atributo de caráter, mas da real necessidade do ser social que 
se constrói em busca de respostas às suas questões diante da vida real:
Ora, a principal relação entre a história dos movimentos operários, que são um fenô-
meno bastante recente do ponto de vista histórico, e os direitos humanos reside no 
fato de que os movimentos operários geralmente são compostos de pessoas que são 
“subprivilegiadas”, na palavras de R. D. Roosevelt, e que se preocupam com seus 
problemas.	Isso	quer	dizer	que	eles	se	preocupam	com	pessoas	que,	segundo	as	defi-
nições de suas épocas, não têm os mesmos direitos, ou têm menos direitos do que 
outras pessoas ou outros grupos. Ora, as pessoas raramente exigem direitos, lutam por 
eles	ou	se	preocupam	com	eles,	a	não	ser	que	não	os	desfrutem	suficientemente	ou	de	
nenhuma forma ou, caso desfrutem deles, a não ser que sintam que esses direitos não 
estão seguros. (Hobsbawm, 2008, p. 418)
Não pretendemos e nem temos condições de aprofundar a respeito das con-
tradições desse processo histórico, sendo imprescindível nos apoiarmos nos autores 
citados para o devido estudo. Queremos neste breve artigo sinalizar que se os di-
reitos humanos são uma construção social recente, também assim o é o reconheci-
mento da categoria criança e adolescente.1 A forma como eram pouco consideradas 
expressa parte do funcionamento da sociedade, em seus diversos processos. No 
caso da sociedade brasileira, é imprescindível pensarmos a infância marcada por 
uma violência de origem, que é a invasão, primeiramente de Portugal, às terras1. Deve-se registrar que é possível observar em textos inclusive acadêmicos o uso de termos “as crianças 
e os adolescentes”, e não necessariamente adotando-a como categoria “criança”, “adolescente”. Parece uma 
observação preciosista, mas entendemos ser crucial para maior aproximação com a realidade. Não se trata de 
seres sociais lançados a esmo na história: criança e adolescente são sujeitos em condição peculiar de 
desenvolvimento, inseridos em classe, com origem de classe, de diversas etnias e, no Brasil, de uma 
miscigenação étnico-cultural etc. Neste sentido, parece-nos importante que tenhamos sempre este cuidado: 
defendemos uma sociedade justa, igualitária, com direitos diferenciados para situações desiguais etc., para 
todas as crianças e adolescentes. Porém temos como premissa que há fatores determinantes que favorecem e/
ou prejudicam o pleno desenvolvimento desse sujeito. Não retiramos aqui as violências e as opressões às quais 
a criança e o adolescente da chamada classe média alta vive, com suas agendas superlotadas de compromissos 
que nem sempre lhes permite vivenciar seus desejos, sonhos e projetos. Há que se considerar, portanto, que 
as opressões da sociedade capitalista recaem brutalmente sobre a criança e o adolescente que têm origem na 
classe trabalhadora, mas também sobre aqueles oprimidos pelo ethos capitalista. Não se trata de “comparar” 
quem “padece” mais ou menos, mas fazer a defesa intransigente de uma sociedade realmente livre.
532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
deste território. Os estudos arqueológicos asseguram que os indígenas povoam este 
território há mais de 11 milhões de anos e que em 1500 havia cerca de 10 milhões 
de habitantes, dos quais cerca de 5,6 milhões na bacia amazônica. Posteriormente, 
sabemos das atrocidades que aconteceram sob o comando da Coroa portuguesa e 
da Igreja Católica, pois conforme o desenvolvimento mercantil avançou, foram 
sendo traçados novos “acordos”, entre eles o escravismo de africanos e posterior-
mente	o	“fim”	dessa	barbárie.	Estas	questões	não	são	de	menos	importância;	são	
fundamentos da sociedade brasileira.
Afinal,	como	essa	sociedade	assistiu,	sem	grande	repercussão,	à	recente	mor-
te por atropelamento de uma criança indígena de quatro anos, membro da família 
Guarani-Kaiowá	do	acampamento	de	Tekoha	Apyka’i?	Segundo	o	movimento	de	
luta indígena, a criança é a quinta atropelada nos mesmos moldes de outras cinco 
pessoas, sendo que a primeira foi o seu avô, um líder religioso.
Não podemos cair na explicação maniqueísta-moralista para podermos avan-
çar na análise e no enfrentamento das questões que assumem características com-
plexas, mas que têm como fundamento a desigualdade social e a expropriação, 
necessidades para o desenvolvimento do capitalismo. Para quem importa a defesa 
dos	direitos	humanos?
Grupos especiais que esperam desfrutar de certas prerrogativas raramente se incomo-
dam em erigir o que eles já possuem. [...]
Entretanto,	o	historiador	não	pode	ficar	 satisfeito	com	a	observação	óbvia.	Pois	os	
movimentos	operários	europeus	surgiram,	e	consequentemente	começaram	a	influenciar	
a	luta	pelos	direitos	humanos	se	por	sua	definição,	numa	época	em	que	o	próprio	con-
ceito destes direitos estava passando por mudanças bastante profundas. (Hobsbawm, 
2008, p. 419)
As lutas pelos direitos humanos, desencadeadas pela busca dos interesses de 
indivíduos e o movimento operário (pelos direitos do trabalhador, por uma vida 
digna e de forma mais ampla, pelo socialismo), contribuíram fundamentalmente para 
reinvindicações estruturantes visando mudanças econômicas e sociais. Hobsbawm 
(2008, p. 435) nos alerta ainda que a questão central não é o fato de indivíduos terem 
direitos econômicos e sociais, mas “políticas de cobrar impostos aos ricos para criar 
um fundo para pagamento aos pobres, aos desempregados e aos velhos, bem como 
para custear a educação popular. Sem essas políticas, estes direitos humanos são 
totalmente inúteis”.
533Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Parece-nos que a questão-chave é a sequência do raciocínio desse historiador: 
“No	desenvolvimento	destas	políticas,	surgem	inevitavelmente	conflitos	entre	os	
direitos individuais e os sociais” (Idem).
Nesse	contexto	de	conflito	de	interesses	a	concepção	liberal	dos	direitos	hu-
manos se respalda no que Marx chamou de ilusão jurídica, não no sentido de ser 
mera ilusão, mas no do mascaramento de interesses em leis teoricamente “justas” 
e	“neutras”.	Ao	se	referir	a	conflito,	estão	sendo	anunciadas	divergências	que	podem	
até ser pautas de “negociação”, mas em uma sociedade desigual essa relação já está 
predeterminada.
Os direitos humanos liberais, ao retirar (ilusoriamente) as determinações 
históricas,	consideram	os	sujeitos	e	seus	direitos	como	abstrações,	ficções	e	impõem	
o respeito “à sagrada propriedade privada” e aos indivíduos egoístas, protegidos 
por	um	leque	de	instituições	criadas	para	tal	finalidade.	Como	explica	Marx	(2007,	
p. 35): “A liberdade individual e esta aplicação sua constituem o fundamento da 
sociedade burguesa. Sociedade que faz com que todo homem encontre noutros 
homens não a realização de sua liberdade, pelo contrário, a limitação desta.”
Criança e adolescente e o desafio de se efetivar direitos humanos
A literatura especializada tem possibilitado maior divulgação da realidade 
vivida pela criança e pelo adolescente. Se por um lado isso pode ser um indicador 
importante sobre o reconhecimento das particularidades dessa fase de desenvolvi-
mento em toda sua complexidade, por outro, devido à cultura existente, ainda termos 
a passividade da sociedade em relação às violações.
As discussões sobre a violação dos direitos da criança muitas vezes deixam 
de	 articular	 as	 determinações	macrossocietárias.	 Se	 a	 literatura	 científica	 vem	
avançando nessa crítica, a mídia mantém a postura de enfocar os “pobres abando-
nados”	 e	 os	 “infratores”,	 colocando-os	 na	mesma	perspectiva	 justificadora	 das	
violações e mantendo a lógica menorista do Código de Menores. Muitas legislações 
foram construídas com foco na criança abandonada. Maria Regina Fay Azambuja2 
explica que
2. Disponível em: <http://www.mp.rs.gov.br/infancia/doutrina/id615.htm>. Acesso em: 29 maio 2013.
534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
A	Declaração	de	Genebra,	em	1924,	afirmou	“a	necessidade	de	proclamar	à	criança	
uma proteção especial”, abrindo caminho para conquistas importantes que foram 
galgadas nas décadas seguintes. Em 1948, as Nações Unidas proclamaram o direito a 
cuidados e à assistência especial à infância, através da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos, considerada a maior prova histórica do consensus omnium gentifum 
sobre um determinado sistema de valores. Os Pactos Internacionais de Direitos Hu-
manos, indiscutivelmente, proporcionaram a mudança de paradigmas experimentada 
no	final	da	década	de	oitenta	e	início	dos	anos	noventa	na	área	da	proteção	da	infância.
A sociedade brasileira convive com as marcas da ditadura civil-militar de 
1964, e nos processos de lutas e resistências avançou para a “transição democrá-
tica”, mas, de acordo com Netto (2004), mantém, com particularidades, a históri-
ca “refuncionalização” das “formas socioeconômicas” existentes na formação 
brasileira.
Salientamos, com essas rápidas notas, que é fundamental romper com o dis-
curso de que o debate sobre a família e a infância sejam voltados para conservado-
rismo ou que sejam acessórias. Para desconstruir esses discursos aparentemente 
críticos	nos	é	exigido	rigor	da	análise	histórica.	Afinal,	as	lutas	sociais	expressam	
as contradições profundas vividas pelo ser social que se constrói nessas relações 
históricas. É inegável que, diante da barbárie que afeta segmentos como a popula-
ção infantojuvenil, há uma tendência dea luta se expressar mais em buscar “con-
servar” os direitos minimamente consensuais (à vida, à sobrevivência, à alimenta-
ção). Tão grave é a realidade de crianças diante dos conflitos gerados pelo 
capitalismo vigente, que se apresentam os recuos com uma aparente agenda limi-
tada de reivindicações. É esse contexto de barbárie que deve nos alarmar, sendo 
crucial a adoção de estratégias que se dirijam a outro projeto de sociedade.
Nesse sentido, é importante registrar que a United Nations Children’s Fund 
(Unicef) lançou o relatório A situação mundial da infância em 2012, trazendo 
elementos	sobre	os	avanços	e	desafios	com	relação	à	criança	num	mundo	cada	vez	
mais urbano.
As	dificuldades	enfrentadas	pelas	crianças	em	comunidades	pobres	frequentemente	
são	obscurecidas	—	e	portanto,	perpetuadas	—	pelas	médias	estatísticas	que	servem	
de base para decisões sobre alocação de recursos. Uma vez que médias consideram 
todos os dados em conjunto, a pobreza de alguns é mascarada pela riqueza de outros. 
Como	consequência,	crianças	que	já	são	menos	favorecidas	ficam	privadas	de	serviços	
essenciais. (p. iv)
535Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Esta é uma questão-chave quanto à realização dos direitos humanos: atender 
individual e coletivamente os diferentes segmentos, por meio de serviços que ga-
rantam a sua realização.
Não tratamos esta questão como algo simples ou mera carta de intenções ou 
conciliação de interesses, posto que no capitalismo são antagônicos. Trindade traz 
os elementos históricos que provam que a cada risco de a burguesia ter seu poder 
abalado, a reação sempre foi sangrenta. No Brasil de 2013 as mortes decorrentes 
desses	conflitos	têm	sido	matéria	cotidiana,	seja	nas	ocupações	militares	nas	fave-
las, no confronto no direito à terra, no assassinato de jovens negros da periferia (que 
autores	 vão	definir	 como	genocídio	da	 juventude	negra),	 no	 espancamento	dos	
estudantes e trabalhadores nas suas (nossas) manifestações por direitos etc.
Outro importante estudo que demonstra a imperiosa atenção que devemos ter 
em relação à infância é o 5º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos no 
Brasil (2001-2010) publicado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universida-
de de São Paulo (NEV-USP). Na apresentação o coordenador do NEV, dr. Sérgio 
Adorno, explicita que
Este	relatório	reafirma	uma	vez	mais	o	imperativo	de	superar	o	estágio	de	“descon-
fiança”,	que	domina	o	que	se	poderia	chamar	de	“opinião	pública	informada”,	segun-
do a qual persistem sérios problemas de violações de direitos humanos no Brasil em 
grande	 escala,	 ocorrendo	diariamente	 em	 todo	o	 país.	Embora	 essa	 desconfiança	
ainda seja sustentada pelos fatos cotidianos, impõe-se ultrapassar esse estágio na di-
reção de uma fase de mapeamento das situações e elaboração de políticas públicas 
informadas	e	eficientes.	É	evidente	que	gerar	informações	sobre	violações	de	direitos	
humanos são é uma tarefa simples, sobretudo para os governos. Assumir que essas 
violações ocorrem cotidianamente e que envolvem a constante ameaça à vida e à in-
tegridade física das pessoas, muitas vezes causadas por agentes públicos, parece 
ainda ser visto por muitos governantes como politicamente inconveniente, até porque 
parte das graves violações de direitos humanos tem a ver com a omissão dos Estados 
na proteção e promoção de direitos humanos. (NEV-USP, 2012, p. 7)
Essa perspectiva de análise perpassa o relatório, que anuncia que nos dois 
últimos relatórios (2006 e 2010) houve ênfase na abordagem dos direitos econômi-
cos, sociais e culturais. Em nossa leitura, observamos o grande volume de publica-
ções,	 sejam	oficiais,	da	academia	especificamente	ou	dos	movimentos	sociais	e	
outras organizações dos trabalhadores (associações populares, sindicatos etc.) que 
536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
têm se debruçado seriamente sobre o tema violação dos direitos humanos no Brasil. 
Este é um indicador importante que expressa a provocação da realidade.
Os	desafios	colocados	para	os	trabalhadores	são	imensos	e	nos	parecem	exigir	
uma apropriação urgente e profunda sobre a não efetivação de direitos legalmente 
constituídos e que exigem políticas públicas estatais para se materializar. O chama-
do Estado democrático de direito vem mobilizando sua “funcionalidade” impulsio-
nada	por	interesses	privados,	como	autores	de	diversas	perspectivas	têm	refletido	
suas produções. Atualmente vivemos o avanço da política neoliberal, com as mo-
dalidades de privatização de serviços e/ou desenvolvimento das “parcerias públi-
co-privadas” em que em geral o Estado transfere recursos públicos (estrutura, 
equipamento e orçamento) para a área privada. Debatendo a política social na 
atual	conjuntura,	Sales	(2006,	p.	210-211)	afirma	que
É mister, portanto, compreender a situação da infância e adolescência como uma 
expressão	da	questão	social,	logo	em	conexão	com	os	demais	desafios	sociais	do	país,	
e o papel do conjunto de atores sociais vinculados à luta pela garantia dos seus direi-
tos, assegurando-lhe a centralidade e visibilidade devidas. Pois como diria Mendes, 
“o que está em jogo, em última instância, é o tema da democracia e da cidadania [...]. 
Ninguém que fale da infância, do ponto de vista do paradigma da proteção integral, 
deixa de falar em democracia. Mas são poucos aqueles que, falando de democracia, 
falam de infância”.
O enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente expressa a 
defesa de diferentes projetos de sociedade, ainda que isso não se seja declarado. E 
esta é uma questão muito cara aos processos políticos: qual a direção social dessas 
lutas,	suas	estratégias,	seus	balanços	críticos?	Exige-se	uma	avaliação	permanente	
do avanço político face às novas roupagens colocadas na “velha” questão social.
Expressão destas violências são apontadas no relatório do NEV, anteriormente 
citado: “Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 53.000 crianças entre 
0 e 18 anos morreram vítimas de homicídio em 2002. Cerca de 150 milhões de 
meninas e mais de 70 milhões de meninos foram submetidos a abusos sexuais de 
toda ordem” (NEV-USP, 2012, p. 222).
Poderíamos abrandar nossas “consciências” de cidadãos da sétima economia 
mundial imaginando que o Brasil não faz parte dessa realidade. Contudo, o país 
comete muitas violações dessa estatística, sendo o quarto país que mais comete 
homicídios de suas crianças e adolescentes.	Dados	oficiais	informam	ainda	que	em	
537Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
2009, no Brasil, entre as crianças de cinco a dezessete anos, 9,8% deles, ou seja, 
4.250.401, encontravam-se exercendo “trabalho”, sendo que o trabalho infantil é 
vedado legalmente, sendo, que desse número, 1.380.489 tinham idades entre cinco 
e catorze anos.
O 5º Relatório do NEV traz uma importante abordagem sobre adolescência e 
violência, criticando a inexistência de pesquisas abrangentes sobre as medidas 
socioeducativas em meio aberto, porém enfatizando debate da privação de liberda-
de dos adolescentes. Esta questão soma-se a outros elementos que gravitam em 
torno do agravamento penal na sociedade. Notadamente, o discurso distorce a 
realidade, mobilizando a opinião pública a partir de fatos de grande impacto e co-
moção social. Contudo, tais fatos são deliberadamente escolhidos. Os dados sobre 
o	perfil	do	adolescente	que	se	encontra	cumprindo	medida	de	internação	ou	mesmo	
do jovem encarcerado explicita que os sujeitos encarcerados são aqueles perten-
centes à camada mais violada em seus direitos fundamentais. No estado de São 
Paulo, de 2010 a 2013 houve um aumento de 32,5% de aumento de adolescentes 
cumprindo medida socioeducativa de internação. O Conselho Nacional de Justiça3 
realizou um levantamento envolvendo 340 unidades de internação no território 
brasileiro mapeando asviolações de direitos dos adolescentes internados. Há rei-
vindicações para a efetivação da resolução do CNJ para a contratação de equipes 
interprofissionais	 nas	Vara	da	 Infância	 e	 da	 Juventude.	A	 resolução	 foi	 um	dos	
desdobramentos da pesquisa do Ipea, que apontou a existência de 80 mil crianças 
vivendo em instituições de acolhimento sem que estas cumprissem ao menos dis-
posições legais (para não dizer das pedagógicas etc.). Segundo dados do Ministério 
da Justiça, por meio do Disque 100, mais de 128 mil crianças e adolescentes foram 
vítimas de maus-tratos e agressões. Deste total, 68% sofreram negligência; 49,20%, 
violência psicológica; 46,70%, violência física; 29,20%, violência sexual; e 8,60%, 
exploração do trabalho infantil. Atualmente, segundo dados do CNJ, 36.929 vivem 
em instituições de acolhimento.
A sociedade atuou de forma decisiva para incluir o artigo 227 na Constituição, 
bem como na elaboração e aprovação do ECA. Marcada pela luta pela redemo-
cratização, entendemos que o Estatuto é um marco ético-político.4 Não pode ser 
3.	Conheça	e	pesquise	no	portal	do	Conselho	Nacional	de	Justiça,	em	<www.cnj.jus.br>.	A	fiscalização	
da aplicação das medidas socioeducativas é realizada também pelo Programa Justiça ao Jovem, do CNJ, e 
pelos demais atores do Sistema de Garantia de Direitos Humanos da Criança e do Adolescente.
4.	Expressão	que	definimos	na	nossa	dissertação	de	mestrado	(2006).
538 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
tomado como o instrumento central, mas como uma referência que somente foi 
possível conquistar num dado contexto ideopolítico em que foi disputado e apro-
vado. Ocorreram perdas nessas disputas, e o seu não cumprimento revela o quanto 
a sociedade brasileira não rompeu com a cultura menorista, autoritária, centraliza-
dora, patriarcal-machista-patrimonialista. O reconhecimento da criança como su-
jeito de direitos exige, efetivamente, intensa mudança cultural. Neste sentido, 
apesar de sabermos dos limites dos instrumentos legais, é importante registrar a 
relevância da Resolução n. 113, de 19 de abril de 2006, publicada pelo Conselho 
Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Nela se explicita a 
definição	do	chamado	“Sistema	de	Garantia	de	Direitos”:
Art. 1º O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se 
na articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade 
civil, na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos 
de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da criança e 
do adolescente, nos níveis federal, estadual, distrital e municipal.
§ 1º Esse Sistema articular-se-á com todos os sistemas nacionais de operacionalização 
de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, educação, assistência social, 
trabalho, segurança pública, planejamento, orçamentária, relações exteriores e pro-
moção da igualdade e valorização da diversidade. (Conanda, 2006)
Esta Resolução utiliza, não por acaso, o termo “direitos humanos” e em seu 
teor trata inclusive da eleição dos membros da sociedade civil, situação esta deba-
tida intensamente com o protagonismo do Fórum Estadual dos Direitos da Criança 
e do Adolescentes de São Paulo. As Resoluções ns. 105 e 106 do Conanda estabe-
leceram normas para a criação e o funcionamento desses Conselhos, inclusive que 
a eleição dos representantes da sociedade civil seja realizada por meio de pleito 
“em fórum próprio”, ou seja, sem a condução pelo poder governamental. Não cabe 
aqui debater as relevantes questões sobre as sociedades civil e política, bem como 
a avaliação do (mal) uso que se tem feito desses mecanismos de controle social. 
Porém,	deve-se	verificar	a	existência	de	um	conjunto	de	instrumentos	normativos	
que ainda são negligenciados.
A exemplo dessas problematizações, temos as Regras de Bangcoc,5 estabele-
cida pela Resolução n. 2.010/16, de 22 de julho de 2010, e o Conselho Econômico 
5.	Veja	a	tradução	não	oficial	realizada	pela	Pastoral	Carcerária	disponível	em:	<www.carceraria.org.
br> e outros documentos importantes em: <www.adital.com.br>. Acesso em: 20 jan. 2013.
539Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
e Social, que recomendou à Assembleia Geral a adoção das regras das Nações 
Unidas para o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade 
para mulheres infratoras. A resolução foi aprovada na 65ª Assembleia da Organi-
zação das Nações Unidas, enfatizando a importância do reconhecimento das par-
ticularidades do gênero feminino, visando, dentre diversas dimensões da questão, 
“assegurar que a mulher infratora fosse tratada justa e igualmente durante a prisão, 
processo, sentença e encarceramento, com atenção especial dedicada aos problemas 
específicos	enfrentados	pelas	mulheres	infratoras,	tais	como	gravidez	e	cuidados	
com	os	filhos”.
Segundo a legislação brasileira, as unidades prisionais devem ter berçários 
(art. 83, § 2º da Lei n. 7.210/1984, com as alterações da Lei n. 11.942/2009) e 
creches	para	filhos	entre	seis	meses	e	sete	anos	(art.	89	da	Lei	n.	7.210/1984,	com	
as alterações da Lei n. 11.942/2009). No Código de Processo Penal, em relação à 
prisão domiciliar (perspectiva apontada também nas Regras de Tóquio sobre as 
alternativas à prisão), temos que:
Art. 318. Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente 
for: (Redação dada pela Lei n. 12.403, de 2011).
[...]
III	—	 imprescindível	aos	cuidados	especiais	de	pessoa	menor	de	6	 (seis)	 anos	de	
idade	ou	com	deficiência;	(Incluído	pela	Lei	n.	12.403,	de	2011).
IV	—	gestante	a	partir	do	7º	(sétimo)	mês	de	gravidez	ou	sendo	esta	de	alto	risco.	
(Incluído pela Lei n. 12.403, de 2011).
A	Lei	de	Execução	Penal	define	que	caso	a	unidade	não	garanta	condições	
para a amamentação e/ou convívio entra a genitora e a criança, deverá ser determi-
nada a prisão domiciliar.
Portanto, as legislações estabelecem direitos que não são respeitados e geram 
outras violações. Ainda vivenciamos um discurso machista que está presente inclu-
sive na defesa de que a criança deve permanecer com a genitora somente no perío-
do de amamentação, ainda na perspectiva higienista e de controle do corpo da 
mulher. Contudo, o direito à amamentação sequer é respeitado. São contradições 
que perpassam pela lógica punitiva-conservadora.
O	texto	legal	acima	pode	ser	tensionado	ao	se	afirmar	os	direitos	fundamen-
tais da criança e do adolescente, valendo-se da defesa das penas alternativas para 
reduzir os danos causados ao grupo familiar. Contudo, há pouca política propria-
540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
mente dita nas políticas sociais (a segurança pública é uma delas). Vemos a baixa 
institucionalidade no controle social e o discurso do senso comum sobre a falência 
do Estado.
A prisão domiciliar que deveria ser determinada em substituição à prisão 
preventiva quando o agente for “imprescindível aos cuidados especiais”, conforme 
nossos	argumentos	no	percurso	desta	reflexão,	devem	ser	complementados	com	o	
princípio do superior interesse da criança e do adolescente, que são sujeitos de 
direitos e pessoas em condições peculiares de desenvolvimento. Portanto, enten-
demos que a substituição da prisão preventiva pela domiciliar deva ser aplicada 
em	todas	as	condições	possíveis,	independentemente	da	idade	dos	filhos. E abre-se 
a imperiosa necessidade de discutirmos as figuras parentais e os vínculos prote-
tivos — e não necessariamente a mãe biológica. A ciência demonstrou a relevân-
cia da presença materna na primeira infância, mas não se restringiu a ela. Estas 
breves pontuações sobre o encarceramento de mulheres abrem muitas frentes, não 
para aperfeiçoar o cárcere, o que consideramos ser um engodo, mas para proble-
matizar a função do sistema penal-punitivonuma sociedade opressora que precisa 
construir a todo momento novos depositários e “bodes expiatórios” para mascarar 
suas contradições.
Considerações para debates
Enfrentar a questão da violação de direitos humanos da criança e do adoles-
cente requer, nesse sentido, uma profunda e sistemática articulação das análises 
sobre a sociedade contemporânea, as perspectivas ideopolíticas que fundamentam 
as decisões adotadas na elaboração e na execução das políticas públicas e o con-
fronto com a real mudança na vida da população.
A história também nos elucida os processos provocados pelos trabalhadores 
e, aproximando-as para a interpretação da conjuntura, podem favorecer nossa re-
flexão	crítica:
Foi a herança histórica dos movimentos socialistas e operários, da tradição de racio-
nalismo esclarecido do século VII, que manteve esses instintos [xenofobia, racismo, 
machismo, antissemitismo e inferiorização das mulheres] sob controle. Sem ela, eles 
não teriam nem tentado, nem conseguido, tornar-se foco para os direitos iguais e 
541Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
universais e para a emancipação universal do homem. Pois nem todos os movimentos 
dos que exigiam direitos tinham esta intenção ou esta capacidade. [...]
Será	que	tudo	isso	ainda	é	verdadeiro?	Provavelmente,	só	até	um	certo	limite.	A	lin-
guagem dos direitos humanos ainda é falada, mas num cenário diferente daquele do 
século XIX e do início do século XX. A luta por direitos humanos ainda é vista, em 
diversos países, como parte de um programa geral pelo progresso da humanidade, em 
nível individual e coletivo, na direção de um futuro melhor e mais genuíno para o 
homem. (2000, p. 438)
O	texto	anterior,	escrito	originalmente	em	1982,	nos	instiga	a	afirmar,	como	
Trindade (2011) que estamos vivendo um recuo imenso na agenda de direitos hu-
manos liberais! Estamos lutando pelo direito civil de participar criticamente (com 
a reação violenta do Estado em defesa dos interesses privados), em que está des-
cartado	o	direito	ao	conflito	de	posições,	que	é	base	da	democracia.	Estamos	exi-
gindo	o	fim	da	tortura!	O	Brasil	engatinha	com	a	Comissão	da	Verdade	quando	os	
demais países já avançaram imensamente nesse processo. E recentemente volta-se 
a	afirmar	que	a	solução	de	todos	os	males	brasileiros	é	a	redução	da	maioridade	
penal e que há “uma nova forma de fazer política” por meio das mobilizações 
momentâneas/instantâneas (flash mob)6 para “expressar” as discordâncias e desa-
parecer também com a mesma rapidez, banalizando (desvalorizando) a política e 
as formas tradicionais de luta (movimentos sociais, sindicatos e partidos).
É importante nos apropriarmos das conquistas normativo-legais sem nos 
iludirmos quanto aos fundamentos ontológicos do direito na lógica da sociedade 
capitalista. São conquistas, mas conforme explicita Barroco, referindo-se às Decla-
rações de Direitos Humanos:
[...] podem ser considerados como uma medida para evidenciar o grau de humaniza-
ção-desumanização do ser social, e, uma forma de contribuição, ainda que limitada, 
para a sua reprodução em patamares menos desumanizantes. [...]
Portanto,	compreender	essa	contraditoriedade	significa	saber	que	a	defesa	dos	Direi-
tos Humanos pode servir, por um lado, à apologia do capitalismo, contribuindo para 
a legitimação ideológica de interesses de dominação e para o ocultamento das formas 
de degradação da vida humana. Mas, se, ao mesmo tempo, o reconhecimento univer-
6. Essas manifestações vêm gerando o interesse de pesquisadores, tema que não temos propriedade 
para debater neste artigo. Contudo, é um fato relevante para entendermos principalmente a forma particular 
pela qual a juventude (adolescentes e jovens adultos) vem buscando se “expressar”.
542 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
sal da totalidade dos Direitos Humanos e o seu alargamento é um produto concreto 
do conjunto das lutas sociais, embora limitado, ele representa uma estratégia de re-
sistência, no universo da luta de classes, no interior das lutas mais gerais dos traba-
lhadores e dos movimentos populares. (2010, grifos no original)
A presença da pauta dos direitos humanos não apenas na agenda dos órgãos 
governamentais, internacionais, da mídia, dos trabalhadores, da academia e dos 
movimentos populares, representa a disputa que está colocada e, principalmente, o 
retrocesso nos patamares mínimos de convívio. Desenvolver nosso conhecimento 
sobre as questões macrossocietárias e da sociabilidade no presente tem como nor-
te comum a proteção de toda a vida planetária. As propostas de conciliação e de 
aperfeiçoamento do sistema em vigor são desnudadas ao confrontarmos a inexis-
tência de mudanças efetivas na vida da maioria da população. O Brasil dessa pri-
meira década do novo milênio teve êxito em garantir maior acúmulo de riquezas, 
aprofundando-se a distância entre os mais ricos e os mais pobres. Não se trata de 
não valorizar as políticas sociais que minimizam o sofrimento humano, mas de 
reconhecer seus limites.
A luta social propriamente dita tem como fundamento o processo de constru-
ção de uma lógica de sociedade, mesmo quando não se tem consciência disso. 
Nesse sentido, defender os direitos humanos da criança e do adolescente é uma 
estratégia que entendemos necessária para a perspectiva revolucionária e emanci-
patória, exigindo que possamos construir processos de sociabilidade que disputem 
o ethos dominante burguês, mas com direção e projeto político.
Recebido em 11/6/2013 ■ Aprovado em 17/6/2013
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544 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Condiciones laborales de Trabajadores 
Sociales en el Poder Judicial de Neuquén
Work conditions of the social workers from the Judiciary of Neuquén
Martha Valdevenito*
Resumen: El presente artículo se propone recuperar la experiencia 
organizacional, sindical y política, de las Trabajadoras Sociales del 
Poder Judicial de Neuquén. Este proceso de sindicalización del sector 
se extiende hasta el año 2007. El análisis pone énfasis en las tensiones 
que se producen entre la “cuestión social” y las formas de enfrenta-
miento que asume una institución del Estado como el Poder Judicial, 
constituyendo a la profesión como un permanente campo de lucha.
Palabras Claves: Trabajo Social. Cuestión Social. Condiciones Labo-
rales. Sindicalización. Poder Judicial.
Abstract: This article aims at recovering the organizational, political and union experience of the 
social workers from the Judiciary of Neuquén. Such a unionization process of the sector went on until 
2007. The analysis emphasizes the tensions between the “social issue” and the ways the Judiciary 
confronted	it,	which	made	the	profession	become	a	permanent	field	of	struggles.
Keywords: Social work. Social issue. Work conditions. Unionization. Judiciary
* Licenciada en Servicio Social (UN Comahue), Especialista en Políticas Sociales y Derechos de la 
Infancia, (Universidad Nacional Del Comahue, Unicef), Especialización en Estudios de las Mujeres y Género; 
maestranda en Trabajo Social (Universidad Nacional de La Plata), Trabajadora Social del Gabinete 
Interdisciplinario del Poder Judicial de Neuquén Capital, Argentina. E-mail: mvaldevenito@yahoo.com.ar.
545Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Introducción
El presente artículo tiene la intención de recuperar la experiencia organi-zacional, sindical y política de las Trabajadoras Sociales del Poder Ju-dicial de la provincia de Neuquén que va a culminar con la Sindicaliza-ción del Sector en el año 2007. La propuesta es hacer un recorrido 
histórico desde la inserción de la profesión en este espacio socio ocupacional en el 
año 1970 hasta el año 2010. La mirada se va a centrar en las formas de organización 
del colectivo profesional en el contexto de las tensiones existentes entre la deman-
da que provoca la “cuestión social” y el enfrentamiento que realiza una de las 
instituciones del Estado para dar respuesta.
Recuperar este proceso ha sido posible a partir de la relación con la academia 
en instancias de formación posibilitando romper con la enajenación que caracteri-
za el proceso de trabajo, superando transitoriamente las expresiones del cotidiano: 
fragmentación, pragmatismo, espontaneísmo, para incursionar en procesos de re-
flexión	que	posibilitaron	apropiarnos	de	esa	realidad	caótica	y	descifrar	sus	cone-
xiones macroscópicas.
La sindicalización fue protagonizada por Trabajadoras Sociales y Psicólogos, 
ambas profesiones han desarrollado históricamente alianzas y conformado un co-
lectivo para enfrentar las condiciones laborales de la institución. Este artículo re-
cupera	las	implicancias	y	transformaciones	que	ese	proceso	significó	para	la	inter-
vención en el Trabajo Social y el desarrollo de otras experiencias ligadas a la 
formación, a la relación con la Universidad y al Colegio de Profesional, posibili-
tando un intercambio que coloca a la profesión en relación con debates actuales de 
la región.
Compartimos la concepción que nos aporta Marilda Iamamoto (1998) cuando 
nos propone que la práctica profesional se inserta en el juego de relaciones sociales 
y de sus mecanismos de poder económico, político y cultural preservando las par-
ticularidades de la profesión en tanto actividad inscripta en la división social y 
técnica del trabajo.
El Trabajo Social en el ámbito judicial representa un espacio ocupacional 
particular vinculado a la intervención de la “cuestión social” que se expresa en la 
justicia como una institución más del Estado. La intervención profesional excede 
la denominada “función pericial” y se vincula a las constantes transformaciones 
societarias expresadas en los marcos legales. Representa un campo de tensiones 
546 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
donde el Trabajador Social vende su fuerza de trabajo (Iamamoto, 1992, p. 202), 
recibe una demanda de la Institución judicial y va construyendo constantemente 
estrategias para lograr el acceso al servicio de Justicia por parte de los usuarios.
La carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén establece en el art. 111 que 
“los profesionales auxiliares de la justicia son funcionarios del poder judicial”. Este 
ordenamiento legal visualiza claramente al Estado como regulador y controlador 
de	la	fuerza	de	trabajo.	Tal	definición	ha	constituido	el	fundamento	histórico	(1970	
a 2007) para negar de manera sistemática derechos laborales, sindicales y políticos 
al sector.
La crítica al cotidiano (Netto, 2012) posibilitó trascender la mirada del expe-
diente	provocando	reflexiones	más	allá	de	cada	instrumento	legal	que	conforma	la	
intervención del Trabajador Social, para centrar el análisis en los fundamentos de 
la profesión en la institución justicia y la reconstrucción de la particularidad de la 
intervención en ese ámbito.
Este proceso se colectivizó a partir de la puesta en marcha de las primeras 
jornadas de capacitación: “El Trabajo Social en la Justicia desde una perspectiva 
Histórico Crítica”,“El debate contemporáneo del Trabajo Social en el ámbito de la 
Justicia”, dirigidas a Trabajadoras Sociales de Neuquén y Río Negro y del Minis-
terio de Desarrollo Social (MDS), organismo ejecutor de las leyes de violencia de 
género y protección de la infancia. La experiencia ha resultado una de las conquis-
tas	derivadas	del	proceso	de	sindicalización,	en	tanto,	se	modificaron	las	condicio-
nes laborales apremiantes del período posterior a la crisis del 2001, posibilitando 
un nuevo contexto que plantea otras preocupaciones a resolver en el marco de las 
instancias	reflexivas	y	propositivas	de	los	espacios	del	Trabajo	Social.
Organización y condiciones formales de Trabajo en el Poder Judicial
Las Trabajadoras Sociales de la Justicia de la Provincia de Neuquén consti-
tuimos veinticinco profesionales distribuidas en las cinco circunscripciones que 
abarcan el territorio. Se trata de Neuquén Capital que concentra la mayor parte de 
las trabajadoras sociales, nucleadas en el Gabinete Interdisciplinario del fuero de 
1. Decreto Ley n. 1.436, Carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén.
547Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Familia que depende de Superintendencia del Tribunal Superior de Justicia (TSJ) 
y otro grupo de compañeras/os ubicados en las Defensorías de Niñez y Adolescen-
cia dependiente de las Defensorías del Tribunal de Justicia.
Las otras cuatro circunscripciones tienen como cabeceras a Cutral Có, Zapa-
la, Junín de los Andes, Villa La Angostura y Chos Malal. Allí cada Juzgado Civil 
y Defensorías de Niñez cuenta con Trabajadoras Sociales y Psicólogos.
Los ingresos a Justicia son a partir de concursos de antecedentes y oposición, 
inclusión formal inmediata a partir de una categoría de ingresante, obra social, 
vacaciones y aguinaldo garantizados por el acceso a la planta judicial.
Actualmente los tribunales evaluadores se encuentran conformados por Tra-
bajadoras Sociales y un abogado, veedores sindicales y del colegio de profesiona-les. La conformación de los tribunales ha resultado un ámbito de tensión y disputa, 
dado que, anterior al proceso de sindicalización, los evaluadores se encontraban 
conformados por jueces magistrados, psiquiatras, médicos y/o psicólogos como 
agentes legitimados por la institución para evaluar un cargo de Trabajador/a Social 
omitiendo	la	figura	de	un	Trabajador/a	Social	en	este	ámbito.
La planta del Poder Judicial para los Trabajador/as Sociales representa un 
ámbito de ingreso formal al mercado de trabajo con todas las consecuencias de allí 
derivadas. Las condiciones laborales de los contratos precarizados que tuvieron 
vigencia en la década de 1990 conformaron parte del pliego de demandas del sec-
tor, siendo erradicados de la planta logrando de esta manera una inserción y per-
manencia ligada a la estabilidad y garantía de los derechos laborales.
Las tensiones entre las formas de enfrentamiento de la cuestión social 
desde el Poder Judicial de Neuquén y la organización de los 
Trabajadores Sociales
El Servicio Social se incorpora a los organismos del Poder Judicial en Ar-
gentina en el año 1930 (Oliva, 2007), en la provincia de Neuquén la inserción se 
va a producir en el año 1970 siendo una de las primeras profesiones convocadas 
desde el campo jurídico, que se inserta en el ámbito judicial. La profesión se ins-
cribe en un ámbito caracterizado por una organización patriarcal, donde la hege-
monía	es	el	derecho.	Esta	profesión	asume	y	define	al	resto	de	las	y	los	profesio-
548 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
nales no abogados como auxiliares de jueces y magistrados, como lo expresado 
en la Carta Orgánica.
El Servicio Social como profesión ha recorrido un proceso histórico donde la 
organización de los trabajadores está vinculada a las demandas sociales que plantea 
la “cuestión social” (Guerra, 2001)2 producto de la expansión de la crisis capitalis-
ta y las formas de enfrentamiento que el Estado adopta desde uno de sus organismos, 
tiene	como	función,	la	regulación	del	conflicto	y	mantención	del	orden	dominante.	
En este contexto hemos reconstruido que la profesión ha transitado tres momentos:
Período que va de 1970 hasta 1983 y recorre el proceso de dictadura militar 
donde puede advertirse falta de representación sindical. Si bien la actividad sindical 
se encontraba limitada por el contexto de dictadura, se evidencia también que des-
de el ámbito sindical no se asumía al sector como trabajadoras con demandas es-
pecíficas	(Antunes,	2001).3
La	 estructura	 judicial	 es	 altamente	 estratificada,	 jueces	 y	magistrados	 se	
organizan en la Asociación de Magistrados que representa los intereses del sector, 
los denominados “empleados” del TSJ se organizan en el Sindicato de Judiciales 
de Neuquén (Sejun) y los denominados “profesionales auxiliares” aparecen en la 
historia de la institución como una franja no reconocida por ambas organizacio-
nes, excluidos de cualquier tipo de representación que considere sus reclamos 
particulares.
Para Alain Bihr (1991, p. 89), estas diversas categorías de trabajadores tienen 
en común la precariedad del empleo y de la remuneración; desregulación de las 
condiciones de trabajo, en relación con las normas legales vigentes y la consabida 
regresión de los derechos sociales, así como la ausencia de protección y libertad 
sindical,	configurando	una	tendencia	a	la	individualización	extrema	de	la	relación.
A partir de la década de 1980 se registran Trabajadoras Sociales agremiadas 
al sindicato, con una representación formal individual y Trabajadoras Sociales 
incluidas en la Asociación de Magistrados, evidenciándose en este punto la tensión 
2. “En el capitalismo monopolista el Estado pasa a intervenir directamente en la cuestión social por lo 
que	 desarrolla	 una	modalidad	 de	 intervención	 tipificadas	 en	 políticas	 sociales	 que	 son	 tratadas	 como	
problemáticas particulares” (Guerra, 2001, p. 2). 
3. Las dimensiones de la crisis contemporánea del sindicalismo se manifiestan a través de la 
fragmentación, heterogeneización y complejización de la clase que vive del trabajo, lo cual cuestiona de raíz 
al	sindicalismo	tradicional	y	dificulta	también	la	organización	sindical	de	otros	segmentos	que	integran	la	
clase trabajadora.
549Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
no resuelta la tensión profesional-trabajador que va a recorrer los distintos modos 
de organización que van asumiendo las Trabajadoras Sociales a lo largo de la 
historia.
Durante este período rigen los marcos legales basados en el Paradigma de la 
Doctrina de la Situación Irregular, cuya Ley Nacional estaba representada por la 
Ley de Patronato sancionada a principios del siglo XIX. La infancia, como expre-
sión de la “cuestión social”, comienza a ser regulada a partir de la estrategia del 
Estado, cuyo fundamento sería la represión y reclusión de los sectores pauperizados.
La tarea profesional se dirige básicamente a determinar la “situación de ries-
go” de la población usuaria, que una vez detectada desde el juzgado se deriva a los 
organismos ejecutores de la ley de infancia. Se trata básicamente de una estrategia 
ligada a la reclusión e institucionalización de ese sector poblacional. Se evidencia, 
la concepción de peligrosidad social (Daroqui; Guemeureman, 2000), la moraliza-
ción de la pobreza, la estigmatización y como resultado la construcción social de 
los sectores peligrosos que requieren de una “acción efectiva del Estado”. Para 
Daroqui y Guemureman (2000), el positivismo como pensamiento se instala en la 
política dando respuestas, ya no solo con la interpretación de una realidad comple-
ja, sino brindando los instrumentos necesarios para operar sobre ella, de ahí su 
aporte activo a fundar los marcos teóricos, no solo del servicio social, sino de la 
psicología y psiquiatría.
La década de 1990 — expansión del neoliberalismo. El contexto socio eco-
nómico político se caracterizó por el desmantelamiento del Estado, regresión en 
términos de derechos de los trabajadores, políticas de privatización y crecimiento 
acelerado de la pobreza que comienza a expresarse en los márgenes de las grandes 
ciudades. La capital de Neuquén va a iniciar un proceso de urbanización acelerado 
en el oeste de la ciudad donde se va a ubicar la población más pobre de la provincia.
En materia de intervención, como consecuencias de las nuevas expresiones 
de la “cuestión social”, el nuevo milenio inaugura instrumentos legales que provo-
can cambios paradigmáticos en materia de infancia y violencia de género4. Se 
termina con un siglo de intervenciones basadas en la concepción minorizante de la 
infancia y de las mujeres para dar lugar a la concepción de sujetos de derechos y 
ciudadanía.
4. Convención Internacional del Niño/a y Adolescente, Convención Internacional sobre Eliminación 
de todas las formas de discriminación hacia las mujeres y Tratados sobre violencia de género.
550 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
El	cambio	de	los	marcos	legales	modificaron	las	estructuras	institucionales,	
los Juzgados de Menores se transforman en Juzgados de Familia, siendo cuatro en 
la actualidad; la Defensoría del Menor pasó a ser Defensoría de Niñez y Adoles-
cencia. No se trató sólo del cambio de nominaciones, la institución judicial fue 
adquiriendo	modificaciones	previstas	en	la	sanción	de	las	correspondientes	leyes	
que inauguraron nuevos servicios, requirieron espacios de formación, logrando en 
diez años ir avanzando en la adecuación institucional en todas las circunscripciones 
judiciales.
En este contexto y como forma de dar respuesta a la crisis, además de la mo-
dificación	de	la	estructura	el	poder	judicial,	se	convocó	a	profesionales	especiali-
zados en violencia, nueva temática a ser abordada por la justicia. Se registra en este 
momento condiciones laboralescompatibles con la época histórica, el poder judicial 
ofrece	condiciones	laborales	en	el	marco	de	la	precarización	y	flexibilización	labo-
ral5 que se van a mantener casi una década.
En materia de reclamos de las condiciones laborales, los/las Trabajadores So-
ciales mantienen las reivindicaciones históricas referidas a la creación de la carrera 
judicial, el escalafón etc. Se trata de una época en la que el reclamo del sector no es 
asumido por ningún ámbito de representación. Durante este período comienzan a 
colectivizarse las demandas, sin embargo se adopta una estrategia ligada a la lógica 
burocrática dominante. Algunos/as compañeros/as inician juicios individuales al 
TSJ ubicándose como funcionarios y esperan ser reconocidos en la tarea diferencial 
promoviendo de esta manera promover la creación de la carrera judicial.
Período postcrisis de 2001. Se	manifiesta	la	expresión	de	la	crisis	en	la	etapa	
de	expansión	del	capitalismo	financiero	a	nivel	mundial.	En	el	país	toman	fuerza	
las demandas de los movimientos sociales, de desocupados, de trabajadores orga-
nizados que van a culminar con la explosión de la crisis acontecida en el mes de 
diciembre de ese año.
La región no es ajena a las diversas formas de organización y movimientos, 
durante este período tiene vigencia dos mandatos consecutivos de Jorge Sobisch 
en la provincia. Se trató de un período histórico de violencia, corrupción, per- 
secución	sindical,	ataques	manifiestos	a	la	ley	de	infancia,	cuestionamiento	a	la	
independencia de poderes denunciados por distintos sectores y movimientos so-
ciales de la provincia.
5. Ver Diario Río Negro, mayo de 1999, llamado a concurso para asistente social.
551Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Los/las trabajadores/as sociales y psicólogos/as comienzan a agruparse, tal 
como va aconteciendo en diversos espacios sociales, conformando hacia 2004 la 
Asociación de Profesionales Auxiliares de la Justicia.
En marzo del mencionado año se obtiene la Personería Jurídica de la Asocia-
ción, siendo los objetivos: “Ejercer la representación de los Asociados en todos 
aquellos aspectos que hagan a los intereses laborales como Profesionales Auxiliares 
Permanentes	del	Poder	Judicial;	Propiciar	y	promover	el	 intercambio	científico,	
académico, técnico y de actualización entre las distintas disciplinas que integran la 
asociación	con	el	fin	de	tener	un	desarrollo	y	enriquecimiento	de	la	tarea	profesio-
nal dentro del poder judicial”.
Se trata de la primera organización colectiva como grupo de trabajadores 
asalariados de la justicia, con un potencial de 40 profesionales compuestos por 
Trabajadores Sociales, Psicólogos y Médicas de toda la provincia.
Se inaugura una modalidad de organización social y política para llevar ade-
lante los reclamos históricos de la carrera judicial. Se trata de una asociación que 
define	la	identidad	de	los/las	trabajadores/as	como	profesionales	recorriendo	nue-
vamente el aspecto contradictorio de la tensión trabajador/profesional. Durante el 
período	se	verifican	para	la	profesión	el	contexto	de	mayor	abuso	y	violación	de	
las incumbencias profesionales, dado que ante la emergencia de la crisis capitalis-
ta, la falta de respuesta de las políticas públicas a las expresiones de la “cuestión 
social”, se produce la personalización más extrema del trabajo.
Ante la denuncia de las condiciones laborales6, acción que el colectivo reali-
za de manera pública a través de medios televisivos y radiales, aparece la respues-
ta de la institución desde su modalidad represiva depositando en el/la trabajador/a 
social el incumplimiento de las Leyes de Violencia Familiar e Infancia y Adoles-
cencia. La sanción hacia los/las trabajadores/as, se constituye en la única salida 
institucional para el cumplimiento de los requerimientos de los juzgados.
La sanción y el disciplinamiento a los trabajadores durante esa época se visua-
lizó en los distintos acuerdos, mecanismos de toma de decisiones de ese poder, 
iniciando sumarios individuales y colectivos, sanciones y puesta en marcha de 
auditorías. Se inicia una persecución hacia los profesionales del sector sin prece-
dentes en al historia del Poder Judicial de Neuquén. Un aspecto a destacar es que 
6. Nota a la Secretaria de Gestión Humana con presentación del documento denominado “Colapso del 
Gabinete Interdisciplinario”, Asociación de Profesionales de la Justicia Apajun (2006). 
552 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
la coordinación del Gabinete Interdisciplinario de Neuquén se encontraba a cargo 
durante ese período de un médico psiquiatra denunciado por organismos de derechos 
humanos7 por presunta participación en el período de terrorismo de Estado en Ar-
gentina. Se trata de un aspecto que visualizaba algunas continuidades del aparato 
represivo estatal.
En materia de intervención el fuero de familia habilitó el dispositivo de guar-
dia emergente a partir de la sanción de la Ley n. 2.212 de violencia familiar para 
todas las demandas que ingresaban a la institución. Se trataba del uso de un teléfo-
no celular que funciona las 24 horas, los 365 días del año, donde un abogado re-
cepcionaba la demanda legal e inmediatamente derivaba al servicio social sin 
evaluación previa de la demanda, para que la trabajadora social concurriera al lugar, 
incluyendo los horarios nocturnos y de madrugada, para producir un informe social.
La reconstrucción de la particularidad8 de la intervención de este período 
visualizó que el dispositivo de guardias constituyó la respuesta que la institución 
brindó a la “cuestión social” en un contexto postcrisis 2001 caracterizado por la 
mayor expresión de desigualdad, ausencia de políticas sociales, desmantelamiento 
de los escasos programas de atención, siendo las trabajadoras sociales del Poder 
Judicial las primeras agentes de intervención ante la demanda social.
La intervención social constituía el espacio de mayor expresión del cotidiano, 
se inscribía en el caos, la urgencia, la inmediatez, la improvisación trasformándose 
en una respuesta burocrática despojada de evaluación de criterios de intervención, 
de proceso, de dirección. En síntesis, un escenario donde la demanda caótica de la 
institución implicó un escenario de violación a las incumbencias profesionales.
La reconstrucción cuantitativa de la tarea de ese período nos muestra datos 
tales como: más del 50% de las urgencias eran vinculadas al requerimiento de 
traslado de personas para entrevistas psicológicas, psiquiátricas y/o audiencias 
judiciales. Desde el sector se abrió una fuerte crítica a las demandas de la judica-
7. Neuquén (AN). Por tercera vez se intentará hoy iniciar el juicio contra 27 policías acusados de 
torturar a detenidos en la Unidad 11, la mayor cárcel de la provincia. La Asociación Zainuco, que actúa como 
querellante, presentó un hábeas corpus para que se les brinde protección a 15 detenidos que declararán como 
testigos ya que fueron víctimas de la represión, ocurrida en abril de 2004. El organismo también pidió que 
se excluya de la lista de testigos al psiquiatra Ignacio López Proumen atento a su presunta participación en 
los hechos de terrorismo de estado que fueran perpetrados durante la dictadura militar en los años 1976-1983. 
Diario Río Negro, 3/mayo/2010. 
8. En sus estudios sobre la realidad en tanto totalidad concreta, Luckás realiza un importante análisis 
de las categorías de particularidad, singularidad y generalidad (Mallardi, 2012, p. 59).
553Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
tura, en tanto, determinados requerimientos no representaban incumbencias profe-
sionales sino acciones que conformaban parte de un ideario cultural e institucional 
vinculado a la representación del rol del trabajo social negativamente asumido.
La crítica situación nos interpeló como colectivo profesionaly nos vimos en 
la	tarea	de	generar	instancias	de	reflexión,	logrando	apropiarnos	de	esa	realidad	
caótica	y	 definir	 incumbencias,	 en	principio	para	 ejercer	 nuestra	 práctica	 en	 el	
marco de la legislación profesional y el código de ética. Por otro lado, para no 
asumir las lagunas institucionales y delimitar las intervenciones profesionales que 
correspondían a la psicología, psiquiatría, medicina y/o abogacía.
En este período de crisis la “cuestión social” va a ser abordada desde nuevos 
paradigmas en la era del derecho, aparece como marco legal la Doctrina de Pro-
tección Integral de la Infancia y Adolescencia cuya principal declamación es “la 
infancia como sujetos de derecho”. Al Trabajador Social se va a encomendar la 
intervención en el marco de los “derechos vulnerados” a diferencia de detectar la 
“situación de riesgo”, estableciendo diagnósticos de vulneración de derechos 
universales.
Como propuesta aparece en los distintos ámbitos, académicos, judiciales, 
institucionales, sociales, escolares, políticos, el discurso hegemónico de la desju-
dicialización de la pobreza, la desinstitucionalización, desarticulando la estrategia 
de reclusión e institucionalización que constituyo la base metodológica del control 
de la población del periodo anterior. Se asume ahora como “la solución” de la 
“cuestión social” por parte del Estado la restitución de derechos a los niños “ciu-
dadanos” y a las mujeres víctimas de la violencia.
En este marco se observa una creciente judicialización de derechos, ausencia 
de las obligaciones del Estado que deben materializarse en políticas públicas, cre-
ciente incorporación del tercer sector y creciente desarrollo de tecnicaturas que 
comienzan a proliferar en condiciones de extrema precariedad para abordar la cada 
vez mayor complejidad de la “cuestión social”. El Estado provincial adopta la es-
trategia de descentralización, asignando la competencia a los municipios, quienes 
no contaron con la partida presupuestaria para hacer frente a las demandas y en un 
proceso acelerado debieron organizarse para abordar las situaciones delegadas.
Se	ha	verificado	en	este	tiempo	que	la	descentralización	significó	ausencia	de	
la intervención del estado para asumir la “cuestión social”, precarización extrema 
de los trabajadores y des-profesionalización del campo psicosocial, predominando 
técnicos	y	agentes	denominados	“operadores”,	figuras	en	quienes	han	delegado	la	
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intervención en la materia. Los nuevos paradigmas dejan en evidencia que el Esta-
do, lejos de garantizar esos derechos proclamados en esta era, por un lado, registra 
la mayor ausencia de políticas públicas para abordar la “cuestión social” y por otro, 
pone en evidencia que la relación capital/trabajo está generando, en este período 
histórico, una de las mayores expresiones de deshumanización.
En materia de organización de las trabajadoras se destaca en el año 2006 un 
espacio de organización colectiva intradisciplinaria que surge como consecuencia 
de las condiciones socio ocupacionales vigentes. La intención inicial era generar 
un	dispositivo	de	reflexión	para	problematizar	la	condición	de	género	considerando	
las implicancias de una profesión femeneizada en un ámbito patriarcal y la condi-
ción de clase dada nuestra condición de asalariadas.
Posteriormente la propuesta se inscribió en un proyecto de extensión de la 
Universidad Nacional del Comahue, coordinado por la Lic. Silvia Mansilla, docen-
te a cargo de la cátedra paralela “Seminario de Servicio Social con residencia 
Institucional”. Este proceso constituyó un espacio fundante, pues se trató del primer 
ámbito intradisciplinario colectivo y organizado, donde las Trabajadoras Sociales 
nos reunimos durante varios meses interrumpiendo el cotidiano que desbordaba, 
para instituir un espacio que, sumado a los procesos que se venían gestando histó-
ricamente, va a motorizar una organización superior en la historia de los trabajado-
res	de	la	justicia,	la	inclusión	como	sector	específico	al	sindicato	judicial.
El espacio de supervisión se desarrolló en el ámbito laboral, nos apropiamos 
del tiempo y lugar para suspender la tarea cotidiana. Si bien, reconociendo la hete-
rogeneidad del colectivo profesional, integraron este espacio colegas con quienes 
habíamos	desarrollado	un	vínculo	de	confianza,	dado	el	carácter	hostil	y	represivo	
de la institución. Se trata de un ámbito que fortaleció personal y políticamente al 
grupo, promoviendo y reorientando un proyecto profesional que se venía gestando 
históricamente.
Período 2007 a 2010 — Sindicalización de los Trabajadores Sociales. El 
contexto más represivo y de mayor expresión de las consecuencias de la crisis de 
2001 posibilitó que se inaugurara un período trascendental, la sindicalización de 
los/las trabajadores sociales. Durante este período se incorpora a los reclamos 
históricos, carrera judicial y escalafón, la Aprobación de Incumbencias Profesio-
nales del Servicio Social, construcción colectiva que surge a partir del período de 
mayor	tensión	y	conflicto	producto	de	la	crisis	y	las	manifestaciones	creciente	de	
la “cuestión social”.
555Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Algunas de las estrategias que el colectivo adoptó para la acción política 
sindical fueron sostener la organización colectiva que el conjunto construyó en otros 
periodos históricos, asumir una dimensión política de la práctica, superar la dimen-
sión profesional para asumirse como trabajadoras asalariadas con un trabajo espe-
cífico	en	el	marco	de	la	división	social	y	técnica	del	trabajo.	Superar	el	aislamien-
to e integrarnos con las compañeras del interior de la provincia, dotó al reclamo un 
carácter más abarcativo, la asamblea es el espacio donde construimos el pliego de 
reclamos del sector y esbozamos la carrera judicial.
Mantuvimos la unidad y organización frente a la represión institucional en un 
conflicto	que	se	mantuvo	por	más	de	ocho	meses	donde	realizamos	las	siguientes	
medidas de fuerza: paro, quite de colaboración, asambleas en los lugares de traba-
jo y en distintos organismos manifestando la problemática del sector, pegatina y 
escarches.
Adoptamos acciones sindicales directas, esta estrategia la desplegamos en la 
ejecución de los concursos informando a los/las participantes que los mismos ca-
recían de legitimidad y eran pasibles de ser impugnados por el sector, en tanto, 
presentaban irregularidad por la conformación del tribunal examinador, por la au-
sencia de veedores del colegio o sindicales. Nos asociamos con actores sociales 
como los colegios profesionales y la universidad, aspecto clave para deslegitimar, 
por ejemplo, los requerimientos que no constituían incumbencias profesionales, 
dando el colegio la legitimidad al reclamo. Además, constituyó una forma de ubicar 
el	conflicto	en	la	dimensión	pública	implicando	un	amparo	social	trascendente.
Realizamos denuncias públicas en medios radiales y televisivos, escarches, 
dado que durante el periodo postcrisis 2001 se implementaron pasantías laborales 
que además de constituir una profundización de la precarización laboral, los usua-
rios eran asistidos por estudiantes de psicología violando el derechos a la asistencia 
profesional además del riesgo que implica la atención preprofesional en materia de 
violencia de genero, maltrato infantil.
La institución baso su estrategia en acciones de represión, sanción y per- 
secución9 a los reclamos y organización de las trabajadoras. El TSJ crea el primer 
9. 2010 Testimonio Acuerdo 4517 (21 de abril 2010)
11º Equipo Interdisciplinario sobre informe de la Secretaría de Superintendencia.
Visto: Informe de medidas de quite de colaboración del Equipo Interdisciplinario informada y ratificada 
por la entidad gremial [...]. Que no resulta posible permitir que no ser

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