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Este livro está disponível gratuitamente no site: www.servicosocialparaconcursos.net 405Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 405-406, jul./set. 2013 Editorial A revista Serviço Social & Sociedade apresenta aqui importantes reflexões sobre temas que permeiam o cotidiano do Serviço Social na área sociojurídica. Doze anos após a Revista n. 67 ter inaugurado a série de números especiais, com a reunião de artigos também sobre “temas sócio-jurídicos”, o presente número re- visita e avança no debate sobre questões que se colocam no âmbito da teoria e da prática cotidiana de uma área que vem ampliando seus espaços sócio-ocupacionais nos anos recentes. O texto que abre este número e que ancora os demais artigos aborda se a melhor denominação seria “campo” ou “área” sociojurídica e as principais deter- minações do Serviço Social nessa área, tendo como base as contribuições do filó- sofo marxista húngaro Georg Lukács para pensar o Direito. Em seguida a essa fundamental contribuição, as tênues e incertas fronteiras entre o legal e o ilegal são reveladas a partir de uma discussão, resultado de pes- quisa, sobre o mundo urbano e as formas de produção e circulação de riquezas que ativam a economia informal e o trabalho precário. Avançando as reflexões sobre espaços sócio-ocupacionais que compõem a área, a revista nos apresenta a inserção do Serviço Social no Ministério Público, com as contradições que a atravessam, e reforça, dentre outros, seu potencial para o diálogo com os movimentos sociais e o fomento e fiscalização das políticas pú- blicas, respaldado no projeto ético-político-profissional. Trazendo a necessária reflexão sobre o trabalho interdisciplinar, o artigo se- guinte aborda a inquirição da vítima de violência sexual como afronta aos direitos humanos da criança, e enfatiza a perícia realizada por profissionais de diversas áreas como instrumento para garantia da dignidade e do respeito à vítima. Enfocando o espaço de trabalho ocupado pelo assistente social no Judiciário, outro artigo apresenta construções históricas e desafios colocados aí ao Serviço Social, destacando particularidades teórico-metodológicas e éticas presentes no exercício profissional, e movimentos políticos da categoria na perspectiva dos direitos. Em texto conciso, mas esclarecedor, é abordada também a construção histó- rica dos direitos humanos da criança e do adolescente, os processos políticos em que se inserem, e o uso do discurso em torno da defesa de direitos. 406 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 405-406, jul./set. 2013 A revista dá a conhecer ainda notável experiência de organização sindical e política de trabalhadores sociais do Poder Judiciário da Argentina, revelando a força do coletivo num contexto situado entre as tensões postas pela demanda pro- vocada pela “questão social” e as respostas dadas pelo Estado via Judiciário. Apresenta-se aqui também, os resultados de pesquisa realizada com base em sentenças judiciais e manifestações do Ministério Público, reveladoras de elemen- tos ideológicos que fundamentam a criminalização de adolescentes trabalhadores no tráfico de drogas. Finalizando os textos/artigos, temos a oportunidade de conhecer significativo relato de experiência na área judiciária, que demonstra a efetiva contribuição do Serviço Social para a viabilização de direitos, especificamente a conquista, em âmbito nacional, da licença/salário-maternidade nos casos de adoção, independen- temente da idade da criança. 407Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Para entender o Serviço Social na área sociojurídica* To understand Social Work in the socio‑legal sphere Elisabete Borgianni** Resumo: Tendo como base as contribuições de Lukács para pensar o Direito, o artigo aborda as principais determinações do Serviço Social na área sociojurídica e discute se a melhor denominação seria “campo” ou “área” sociojurídica. Aponta ainda alguns dos desafios e possibilidades de atuação que estão postos aos assistentes sociais que trabalham nos espaços sócio-ocupacionais próprios do universo jurí- dico ou que com ele têm interfaces. Palavras-chaves: Serviço Social na área sociojurídica. Direito. Justi- ciabilidade dos direitos sociais. Instituições do sociojurídico. Abstract: Based on Lukács’s contributions for the analysis of Law, in the article we discuss both the main characteristics of Social Work in the socio-legal sphere, and the nuances between a socio-legal “area” and a socio-legal “field”. Furthermore, we identify some of the challenges faced by social workers engaged in socio-occupational activities that are characteristic of or correlated with the judicial system. Keywords: Social work in the socio-legal sphere. Law. Justiciability of social rights. Socio-legal institutions. * Recupero, neste texto, parte significativa (inclusive com reprodução literal de algumas passagens) das reflexões que fiz no processo de assessoria ao Grupo de Trabalho do Campo Sociojurídico do Conjunto CFESS/ Cress, as quais estão registradas no texto não publicado intitulado “O Serviço Social no ‘campo sociojurídico’: primeiras aproximações analíticas a partir de uma perspectiva crítico-ontológica” (cf. Borgianni, 2013). ** Assistente social do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mestre e doutora em Serviço Social pela PUC-SP, São Paulo, Brasil, presidente da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), gestões 2009-13 e 2013-17. E-mail: beteju@terra.com.br. ARTIGOS 408 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Introdução O presente artigo pretende somar-se ao esforço coletivo que vem sendo feito para conhecer, apoiar e desenvolver, na direção do projeto ético-político do Serviço Social brasileiro, o trabalho realizado pelos assistentes sociais nos diversos espaços sócio-ocupacionais pertencentes ao até aqui cha- mado “campo sociojurídico”. Digo “até aqui” porque após estudos recentes venho desenvolvendo a compreensão de que a esfera do “jurídico”, antes de configurar-se como um campo específico configura-se, para nós, assistentes sociais, como uma área de atuação e também de produção de conhecimento (a área sociojurídica). Minha pretensão neste artigo que, como poderá ser observado, está baseado em estudos bastante preliminares, é apenas apontar alguns elementos fundamentais para se pensar o significado da atuação do assistente social nessa área, não aden- trando, por hora, nas especificidades de suas institucionalidades — como Tribunais de Justiça, Sistema Prisional, Ministério Público, Defensorias etc. Entendendo que a busca da particularidade dos espaços que conformam o sociojurídico não pode prescindir de uma caracterização “geral”, proponho que trabalhemos a partir da perspectiva crítico-ontológica para a elucidação dos ele- mentos centrais e comuns que comparecem à intervenção dos assistentes sociais que aí atuam. Esse esforço haverá de ser completado com o trabalho urgente e necessário de ir à busca das particularidades de cada uma das institucionalidades que conformam a área — trabalho que já começa a ser realizado por alguns assis- tentes sociais que estão atuando nas instituições do sociojurídico, o que certamen- te contribuirá com o aperfeiçoamento do Serviço Social brasileiro. Assim, o que estou buscando aqui é apenas e tão somente captar as mediações históricas fundamentais que podem explicitar o significado social da profissão (tal como originariamente formulado com precisão por Marilda Iamamoto), no rico e problemático universo sociojurídico. 1. O uso da expressão “sociojurídico” no Serviço Social brasileiro: como tudo começou O termo “sociojurídico” foi vinculado pela primeira vez ao Serviço Social brasileiro no momento de composição do número 67 da revista ServiçoSocial & 409Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Sociedade, editada em setembro de 2001, quando inaugurava-se a série de Núme- ros Especiais desse periódico. A elaboração do referido número ocorreu após soli- citação do editor, José Xavier Cortez, de que a assessoria editorial da área (pela qual eu já respondia na ocasião), fizesse um projeto para a edição de números es- peciais da revista voltados especificamente para temas com os quais os assistentes sociais estão confrontados diretamente em seu cotidiano profissional. Na época (como até hoje), Cortez vinha recebendo várias solicitações de que os livros, bem como o periódico editado por sua editora, contemplassem temas e demandas com os quais os assistentes sociais viam-se envolvidos em sua prática diária. E muitas das solicitações partiam de assistentes sociais que atuavam na área sociojurídica. Foi quando sugeri ao Conselho Editorial que analisasse a possibilidade de iniciar a referida série com artigos relacionados à área penitenciária e judiciária, atingindo, com essa publicação, tanto os assistentes sociais que fazem os laudos periciais para juízes das Varas da Infância e Juventude (e que trabalham com casos de adoção, violência contra crianças, ato infracional de adolescentes etc.) e também das Varas de Família e Sucessões (casos de disputa de guarda de filhos, interdições de idosos ou doentes mentais, entre outros), quanto aqueles que trabalham dentro do sistema prisional. No momento da escolha para o melhor termo a compor o chamado “olho de capa” do referido número, o Conselho Editorial fez várias su- gestões, e a opção foi pela expressão “Temas Sociojurídicos”. Foi assim, portanto, a primeira vez que ocorreu a vinculação do termo “sociojurídico” ao Serviço Social brasileiro.1 Em seguida, ocorreria o 10º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, no Rio de Janeiro, e seus organizadores pensaram em criar naquele CBAS, pela primei- ra vez na história de nossos congressos, uma seção temática, ou um painel específi- co, para aglutinar os profissionais que trabalham no sistema penitenciário e no Ju- diciário, e consultaram-me sobre a expressão adequada para nomear a referida seção, ao que sugeri que poderiam também utilizar o termo sociojurídico, para chamar a atenção de todos os colegas que trabalham nos espaços sócio-ocupacionais que têm interface com o universo jurídico. Ali, no 10º CBAS, além de ter sido lançado o n. 67 da revista Serviço Social & Sociedade, elaborou-se pela primeira vez uma agen- da de compromissos que incluiriam ações relacionadas a essa área. A partir de 2002, 1. O Comitê Editorial do n. 67 era formado pelas professoras Andrea Almeida Torres, Eunice Teresinha Fávero, Gizelda Morato Franzino, Sílvia Helena Pinho Chuairi, com colaboração especial de Maria Rachel Tolosa Jorge. Todas com inserção e/ou experiência profissional na área. 410 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 vários Conselhos Regionais de Serviço Social do Brasil começaram também a criar suas Comissões Sociojurídicas que seriam, então, compostas por membros de dire- ção e assistentes sociais que atuam no Tribunal de Justiça, no Ministério Público, nas instituições de cumprimento de medidas socioeducativas e no sistema prisional. O primeiro a fazê-lo foi o Cress/7ª Região-RJ, então presidido por Hilda Correa de Oliveira, e tendo significativo protagonismo de colegas daquela gestão que traba- lhavam (e ainda trabalham) na área, como Andreia C. A. Pequeno (Tribunal de Justiça), Tânia Dahmer Pereira e Newvone Ferreira da Silva (Sistema Prisional). Andreia Pequeno relata também que em novembro de 2003 foi realizada uma Ofi- cina Temática no 2º Congresso Paranaense de Assistentes Sociais e, naquele mesmo ano, “houve a incorporação, na grade curricular do curso de graduação da Faculda- de de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de uma discipli- na sobre o campo sociojurídico” (Pequeno, 2004, p. 11). Depois disso, já estando na direção do Conselho Federal de Serviço Social, compondo a gestão de 2002-2005, sob a lúcida presidência de Lea Braga, pude contribuir, juntamente com um grupo de colegas do CFESS e do Cress/Paraná, com a organização do I Seminário Nacio- nal do Serviço Social no Campo Sociojurídico, que ocorreu em 2004, em Curitiba. A realização desse seminário havia sido uma deliberação do Encontro Nacional CFESS/Cress realizado em Salvador, em 2003, a partir de uma proposta encaminha- da ao CFESS pelo Cress/7ª Região (Pequeno, idem). Anoto que foi talvez naquele momento de organização do I Seminário que se utilizou pela primeira vez a expressão “Serviço Social no campo sociojurídico”. Foge-me totalmente à memória se a direção do CFESS chegou a debater ou não, na ocasião, se a melhor expressão seria “campo” ou “área”. A proposta enviada pelo Cress/7ª Região foi incorporada para ser levada ao Encontro Nacional, tendo sido ali votada sem grandes questionamentos sobre a terminologia. O que recordo com muita clareza é que, tanto nós do CFESS, quanto os colegas do Cress/RJ tínhamos a preocupação de não incentivar nenhuma ideia de que haveria um Serviço Social próprio dessa área, algo, por exemplo, como um “Serviço Social Sociojurídico”. Ao contrário, tínhamos a firme convicção de que seria necessário sempre explicitar o entendimento de que a profissão é uma só e atua em diferentes espaços sócio-ocupacionais, entre eles os que têm interface com o jurídico. O I Seminário Nacional realizado em Curitiba, em 2004, foi então de grande importância, não só por seu pioneirismo, mas pela qualidade da contribuição trazi- da pelas reflexões de assistentes sociais da área e de palestrantes bastante próximos 411Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 da temática. Porém o mais importante foi o conteúdo da agenda política ali delibe- rada que, conforme relato de Eunice Fávero, recomendava, entre outros pontos: que o Conjunto CFESS/Cress incorpore a denominação “campo das práticas socioju- rídicas”; e fomente a articulação de comissões do campo sociojurídico em todas as regiões” com o objetivo de “discutir e sistematizar as atribuições, competências e aspectos éticos a partir do interior do projeto ético-político, o que certamente incen- tivaria a produção de conhecimentos a respeito das práticas desenvolvidas nas diver- sas áreas. (Fávero, 2012, p. 123) Fávero lembra ainda que: O CBAS de 2001, mais os de 2004 e 2007, também definiram políticas para esse campo, sendo que a Agenda do 12º, realizada em Foz do Iguaçu em 2007, explicitava como compromissos: “Discutir politicamente os temas das violências, visando superar a fragmentação das práticas, a naturalização da barbárie, a eliminação e criminalização dos pobres; pensar a indissociabilidade da discussão das violências do projeto ético-político do Serviço Social”; “promover a reflexão sobre a ampliação dos espaços de trabalho no campo sociojurídico; refletir sobre o investimento no Estado Penal em detrimento do Estado Social, e priorizar práticas de prevenção; explicitar a denominação Serviço Social no Campo Sociojurídico e não Serviço Social Sociojurídico; compreender o estudo social e a perícia social com objetivos de efetivação de direitos — avançar em sua constru- ção interdisciplinar e na relação teoria x prática”; “lutar e agilizar gestões para con- solidação da rede nacional de proteção especial (Creas). (Agenda, 12º CBAS, apud Fávero, 2012, p. 124; grifos meus) Foram os profissionais da área sociojurídica que estavam presentes no CBAS de Foz do Iguaçu que solicitaram ao CFESS a organização de outro evento especí- fico, o que redundou no II Seminário do Serviço Social Sociojurídico, realizado em 2009 em Cuiabá.2 2. Vale a pena recuperar o registro de Fávero (2012, p. 125): “[...] no 12º CBAS, de Foz do Iguaçu,aproximadamente quarenta profissionais, de vários estados brasileiros, que estão na intervenção cotidiana ou desenvolvendo estudos e pesquisas acadêmicas sobre esse campo, articularam-se para discutir e solicitar do CFESS a realização do II Encontro Sociojurídico. Na ocasião, a justificativa era a necessidade da continuidade de articulação e premência dos debates em torno das questões teóricas, operacionais e ético-políticas que se impõem na realidade social contemporânea. Conforme a solicitação encaminhada ao CFESS, dez dos(as) 412 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Além desses fatos, penso ser pertinente também resgatar aqui a importância de vários eventos realizados por colegas em diferentes pontos do Brasil, preocupa- dos com a temática da atuação do assistente social nessa área. Entre eles destaco um que ocorreu em Natal (RN), no ano de 2002, denominado Serviço Social e Assistência Sociojurídica na Área da Criança e do Adolescente: Demandas e Fazer Profissional, promovido pela base de pesquisa Trabalho Profissional e Proteção Social, sob a coordenação da professora doutora Maria Célia Nicolau. Destaco a importância daquele evento de Natal, entre tantas outras iniciativas, pelo fato de os organizadores terem convidado a professora Marilda Iamamoto para ali fazer uma conferência, que meses depois seria transformada pela autora em valioso texto, publicado sob o título “Questão social, família e juventude: desafios do assistente social na área sociojurídica”, como posfácio do livro Política Social, família e juventude: uma questão de direitos, organizado por Mione Sales, Maurí- lio C. de Matos e Maria Cristina Leal, publicado em 2004 pela Cortez Editora e lançado por ocasião do I Seminário Nacional, de Curitiba. Ao que eu saiba esse foi o primeiro texto de uma das principais pesquisadoras brasileiras do Serviço Social dedicado a essa temática, embora Marilda nunca tenha atuado na área. Note-se que nesse texto a autora usará sempre a terminologia “área ou esfera sociojurídica”, e não “campo”, porém sem entrar no mérito dessa questão terminológica (cf. Iama- moto, 2004, p. 261-314).3 Essa, digamos, “percepção” dos assistentes sociais brasileiros de que era necessário olhar com mais cuidado e profundidade para os desafios que estão pos- tos aos que atuam na área sociojurídica — à qual a revista Serviço Social & Socie- dade, bem como o conjunto CFESS/Cress conseguiram captar e dar voz —, é tri- butária do próprio movimento da história recente em nosso país, que engendrou tanto uma crescente judicialização dos conflitos sociais, quanto a justiciabilidade dos direitos sociais. Veremos isso com mais detalhes adiante, mas antes cabe refle- tir sobre o que compõe essa área que tem interface com o direito e com o universo jurídico. profissionais daquele grupo foram escolhidos para compor uma Comissão Provisória, para as primeiras tratativas sobre um possível segundo encontro. Havia colegas do Espírito Santo, Pará, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, São Paulo, Distrito Federal, entre outros”. 3. Em 2005, Marilda Iamamoto daria também sua contribuição à área aceitando prefaciar a obra O Serviço Social e a psicologia no judiciário: construindo saberes, conquistando direitos, organizada por Eunice T. Fávero, Magda J. R. Melão e Maria Rachel Tolosa Jorge, e editada pela Cortez, em parceria com a Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/ SP) (ver Iamamoto, 2005). 413Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 2. Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica? A partir de que bases delimitar o que compõe essa área? Quem primeiro trouxe-nos uma tentativa de definição mais “arredondada” foi Eunice Teresinha Fávero, quando colocou que “o campo (ou sistema) sociojurídico diz respeito ao conjunto de áreas em que a ação social do Serviço Social articula-se a ações de natureza jurídica, como o sistema penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento, como abrigos, internatos, conselhos de di- reitos, dentre outros” (Fávero, 2003, p. 10). Em outra ocasião, a mesma autora fez elucidativa interpretação do papel social cumprido pelas instituições ou organizações próprias do sociojurídico: “[...] organizações que desenvolvem ações, por meio das quais aplicam sobretudo as medidas decorrentes de aparatos legais, civil e penal, e onde se executam determinações deles derivadas” (Fávero, 2012, p. 122-123). E a mesma completou: “[...] nessas áreas, direta ou indiretamente, trabalhamos com base normativa legal e em suas interpretações pelos operadores jurídicos” (Idem). No II Seminário Nacional, procurei também dar uma contribuição no sentido de definir melhor esse “campo” ou área e propus que o Serviço Social brasileiro o perspectivasse de forma mais ampliada e profunda, avançando em relação ao que todos vínhamos fazendo, que era pensá-lo basicamente a partir das organizações ou instituições que o compõem. Sugeri, na ocasião, que buscássemos compreender melhor o que é esse “jurídico” de que tanto estávamos falando e recuperei uma das ideias correntes no mundo jurídico que me parece muito elucidativa, segundo a qual o jurídico é, antes de tudo, o lócus de resolução dos conflitos pela impositividade do Estado. E ressaltei, naquele momento, que essa característica, por si só, já colo- ca grandes desafios éticos e políticos para a intervenção do assistente social (Bor- gianni, 2012, p. 167). Na oportunidade chamei a atenção para algo que marca muito o trabalho de qualquer assistente social — ou de outro trabalhador que tenha que desempenhar suas funções de “perito” nesse “campo” —, que são as determi- nações complexas que emanam das polaridades antitéticas próprias da esfera jurí- dica, por exemplo, aquelas que considero uma das mais marcantes: garantir direi- tos em um espaço ou sistema que é também aquele onde se vai responsabilizar civil ou criminalmente alguém (Idem, p. 167-168). Também naquele II Seminário, o promotor de Justiça Wanderlino Nogueira Neto fez observações que nos ajudam a pensar nosso trabalho nessa área. São pontuações com significativo conteúdo heurístico, principalmente porque feitas por 414 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 alguém do universo jurídico. O dr. Wanderlino iniciou sua conferência colocando que o tema para o qual havia sido convidado a falar interessaria tanto a seu coleti- vo “na esfera da proteção jurídico-social dos direitos humanos, quanto aos/às as- sistentes sociais com atuação na esfera da proteção sociojurídica dos direitos so- cioassistenciais”. E em seguida pontuou: Aqui estou eu, um operador da Defesa dos Direitos Humanos, a falar para operadores/ as do Serviço Social: ambos/as a atuarem, cada qual a seu modo, na garantia do aces- so ao Valor-Justiça, tanto em sistemas de políticas públicas, quanto no sistema de justiça. Isto é, a fazer do acesso a esses dois sistemas públicos, um “direito do cidadão e um dever do Estado”. Essas definições dos nossos campos de ação — assemelhados mas não iguais —, já balizam inicialmente nosso enfoque para tratar do sucesso, do insucesso e das limitações ou possibilidades de enfrentamento da questão social, em seu aspecto estrutural, via judicializações conjunturais e pontuais de conflitos de in- teresses e de demandas, nas relações sociais. (Nogueira Neto, 2012, p. 23) Temos então, até aqui, o registro das pouquíssimas tentativas de definição ou de delimitação do que caracteriza a atuação do assistente social nesse campo ou área que tem interface com o jurídico. Avancemos, portanto, na reflexão utilizando-nos das mesmas bases teórico-me- todológicas e históricas que dão sustentação ao projeto ético-político do Serviço Social brasileiro, ou seja, a perspectivacrítico-ontológica com que Marx analisou o mundo burguês e que restou tão bem explorada por Georg Lukács em suas refle- xões a partir dos anos 1930 (essa perspectiva foi abordada em Borgianni, 1997). 2.1 “Campo jurídico” — um conceito pouco elucidativo De forma sintética, podemos dizer que campo jurídico é um conceito que foi formulado por Pierre Bourdieu, que o define como determinado espaço social no qual os chamados “operadores do direito” — magistrados, promotores e advogados — “concorrem pelo monopólio do direito de dizer o Direito” (Bourdieu, apud Shiraishi Neto, 2008, p. 83; Gaglietti, 1999, p. 84-85). Essa é uma definição que, em sua imediaticidade, parece refletir de fato algo que pode ser observado quando se trabalha nessa área: há um indiscutível e perma- nente debate do cotidiano do universo jurídico, entre juízes, promotores e advoga- 415Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 dos, que buscam os elementos que melhor permitam, a cada um, dizer o Direito, diante das questões ou dos conflitos jurídicos com os quais se confrontam. Isso até incita-nos a levantar algumas perguntas: — Até que ponto esse é um campo específico e/ou privado dos chamados “operadores do Direito?”, Qual seria a peculiar contribuição do Serviço Social nesse campo jurídico, espaço onde se disputa o direito de dizer o Direito?, O que teriam a aportar a esse espaço os assis- tentes sociais que se querem coerentes com o projeto ético-político da profissão? São perguntas que tentarei responder mais adiante. Contudo, para avançar um pouco mais, é preciso recuperar o significado também do Direito e de universo jurídico que, à primeira vista, parecem construções sociais que foram sendo erguidas no processo do desenvolvimento do ser humano através da história. Construções que aparentemente teriam tido o escopo de afastar os homens progressivamente de suas “barreiras naturais”, fazendo com que supe- rassem seus “sentimentos inatos de vingança” e também as formas instintivas — e por vezes bárbaras — de resolução de conflitos. Sob essa perspectiva, que eu diria “ingênua”, o direito e o universo jurídico teriam sido construídos como um conjunto de regras que objetivam deveres e prer- rogativas, bem como delimitam quem deve garanti-los (especialistas, magistrados, promotores, advogados). Todo esse processo ocorreria ao longo de uma caminhada linear e rumo à construção de um sistema de ordenações normativas em que um ente superior aos interesses individuais e privados — o Estado — também teria sido erguido com a responsabilidade de equilibrar ou “pacificar” relações confli- tuosas entre os indivíduos. É bastante comum ver análises “históricas” sobre a evolução do direito ou do “estado de direito” que refletem esse tipo de visão simplista e mecanicista, segun- do a qual a civilização teria marchado decididamente no curso da história no sen- tido de implantar regras e normas que, ao fim e ao cabo, formariam o chamado “império das leis”, a partir do qual as relações singulares e coletivas poderiam ser reguladas. O Estado apareceria aí, então, como o elemento garantidor da chamada “paz social” frente aos “naturais” conflitos de interesses de uma sociedade forma- da por indivíduos que seriam iguais em termos das oportunidades que a sociedade pode oferecer-lhe e diferentes em suas capacidades de usufruí-las. A partir dessa visão idílica e falseadora do real, legalidade e legitimidade formariam os pressu- postos formais do chamado estado de direito, segundo o qual “o homem” seria o centro e a razão do “sistema social”. 416 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Essas são definições ou explicações que, algumas delas reais (no caso da de Bourdieu, que citei anteriormente), ou mistificadoras neste segundo caso, parecem levar-nos apenas ao vestíbulo do conhecimento, não fornecendo a clareza sobre as concretas determinações dessas esferas de objetivação do ser social que são o universo jurídico e o direito. 2.2 A perspectiva lukacsiana para pensar o Direito e o universo jurídico A aproximação mais fecunda com as questões próprias dessa esfera pode ser alcançada se a análise partir dos fundamentos crítico-analíticos ou teórico-metodo- lógicos que emanam da perspectiva crítico-dialética e ontológica de Marx, aponta- da com tanta profundidade por Georg Lukács. Em obra sintética e esclarecedora, Vitor Bartoletti Sartori (2010) se propôs a pensar o Direito a partir dessa perspectiva. Em virtude de sua clareza e fidelidade à fonte lukacsiana é que utilizarei muitas passagens literais dessa obra, citando somente as páginas de onde foram extraídas. Recorrerei também às análises feitas por outros autores, como E. Pasukanis (1977), e R. Carli (2012), para demarcar elementos centrais sobre o direito e a política como duas das importantes e centrais objetivações do ser social. Por tratar o Direito como parte de uma totalidade histórica, calçando suas análises nas categorias fundamentais do método de Marx, é que Lukács consegue avançar em relação a inúmeros autores que se debruçaram sobre esse tema nos últimos dois séculos e que, por vezes, ficam aprisionados nos limites do idealismo ou do positivismo. Nessa direção, é pertinente resgatar, logo de início, que Lukács, ao tratar das objetivações do homem no processo de sua constituição enquanto ser social, res- salta que o mesmo desenvolve duas formas de pôr teleológico: aquela voltada di- retamente para a transformação da natureza e aquela voltada para, digamos, o in- fluenciar de outros homens. É o que ele denomina de teleologias primárias e secundárias — ambas intimamente ligadas entre si. Assim, falando de modo resu- mido, enquanto o trabalho em sentido estrito é uma posição teleológica primária — e eternamente necessária —, pela qual os homens se apropriam dos elementos da natureza para produzir os meios de sua subsistência, as posições secundárias são 417Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 aquelas que visam “extrair um determinado comportamento coletivo” (cf. Carli, 2012, p. 9).4 No exemplo translúcido de Carli: o trabalho significa a transformação de pedras e madeiras em instrumentos [...], já outras esferas do ser social, como a política, por exemplo, não transformam a nature- za; procuram agir sobre a sociedade. As posições secundárias não agem sobre a natu- reza, mas sim sobre um grupo de homens. A ação política é uma posição teleológica secundária precisamente porque procura extrair um determinado comportamento de um coletivo. Um partido político procura, em suas ações, produzir uma reação espe- cífica de indivíduos determinados, seja para a conservação da ordem estabelecida ou para sua transformação (Idem). E Carli recolhe de Lukács uma observação sobre a política que cabe também para o direito: Com o desenvolvimento histórico posterior, isto é, com o surgimento das sociedades classistas, as posições teleológicas secundárias tornam-se formas de ideologia, que são as modalidades de comportamento através das quais os homens se fazem cons- cientes dos conflitos postos e “neles se inserem mediante a luta” (p. 18). Resumindo, tanto o direito como a política são vistos por Lukács como ex- pressões das teleologias secundárias. Aquelas que, diferentemente dos atos teleo- lógicos voltados para a transformação da natureza para obtenção dos meios de vida — e que estão englobadas nas crescentemente complexas e mediadas relações econômicas —, expressam as mediações que se criam e se institucionalizam a partir de atos teleológicos secundários, dando as formas da totalidade social no universo burguês. Ressaltando que “secundário” nesse contexto não quer dizer menor ou de menor importância, mas apenas o lugar que ocupa em meio à totalidade social, Sartori aponta que o Direitoé um complexo que não possui caráter fundante, mas que não pode ser dissociado daquela esfera do ser social na qual ele produz seus meios de vida — a esfera econômica (cf. Sartori, 2010, p. 94). 4. Ou nas próprias palavras do filósofo húngaro: “[...] as posições teleológicas necessárias são [...] de duas formas: aquelas que visam transformar, com finalidades humanas, objetos naturais [...] e aquelas que tencionam incidir sobre a consciência dos outros homens para impedi-los de executar as posições desejadas” (Lukács, apud Sartori, 2010, p. 54). 418 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Assim é que Lukács, ao se indagar sobre o “lugar” do Direito na práxis social, observa que ele tem importante papel nas esferas relacionadas à reprodução social, configurando-se como uma mediação que é própria da sociedade burguesa — e que somente aí se desenvolve enquanto tal com toda a sua completude. Ou seja, embo- ra em tempos pretéritos tenham existido variadas formas de regulação dos conflitos humanos, bem como de “reparação de danos”, e de responsabilização daqueles que os causaram a alguém ou a alguma coisa,5 aquilo que realmente pode ser denomi- nado com a expressão direito só surge em determinado estágio da trajetória do ser social ao longo da historia e quando estão presentes outras determinações peculia- res àquele estágio. O que o filósofo magiar demarcará então, com muita precisão, assim como já o fizera Marx, é que somente quando presentes categorias históricas como classe social e Estado é que surge a ideia de direito como “conjunto de normas jurídicas de acordo com as quais a sociedade se organiza com a finalidade de manter a ordem e o convívio social” (Sartori, 2010, p. 9). Assim, a aparência do direito como algo acima dos interesses antagônicos das classes sociais, como um “sistema autossuficiente calcado na cientificidade dos especialistas e na precisão do reflexo jurídico, supostamente capaz de captar as necessidades sociais como um todo” (Sartori, 2010, p. 107), só se resolve em de- terminada quadra histórica: justamente aquela que faz nascer também as reificadas relações burguesas de produção, regidas pelo capital. Aliás, F. Engels já havia mostrado como o surgimento de especialistas dessa área e a autonomia relativa que o complexo jurídico vai adquirindo são produtos do desenvolvimento social. Se- gundo o próprio Bourdieu, em “uma carta dirigida a Conrad Schmidt, Engels ob- serva o aparecimento do direito enquanto tal, ou seja, como ‘esfera autônoma’, acompanhando os progressos da divisão do trabalho que levam à constituição de um corpo de juristas profissionais” (Bourdieu, 1999, p. 101). 5. Ranieri Carli mostra que Lawrence Krader estudou alguns povos comunitários e sua organização do poder (e também da “justiça”, diria eu). [Krader] “verificou que entre os esquimós, por exemplo, era constituído o seguinte arranjo de forças: ‘não possuem chefes, nem conselhos consultivos, nem assembleias deliberativas, embora pratiquem uma forma de liderança econômica individual: na caça da baleia, o dono do barco tem domínio sobre a tripulação, e o direito primordial sobre a presa’. As querelas eram resolvidas de modo peculiar: por meio do ‘duelo cantado’. O queixoso e o acusado cantam canções alternadas em que relatam as suas versões sobre o incidente. ‘O ofendido relata os danos a ele e busca reparação; o que se defende afirma a inocência, defendendo-se de outro modo. A decisão entre acusado e acusador é tomada pela comunidade’” (Krader, apud Carli, op. cit., p. 12). 419Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 A relação da gênese do direito com o desenvolvimento das formas econômi- cas mercantis, bem como, naturalmente, com as formas políticas que se erguem a partir dessa base material — o Estado burguês que dá sustentação às profundas desigualdades de classes que daí surgem, por exemplo —, é vista com clareza por Lukács, assim como já estava presente na tese seminal de E. Pasukanis sobre o significado do direito numa sociedade cujas relações fundamentais são baseadas em processos nos quais os produtores do trabalho humano ficam igualados na for- ma de mercadoria. De fato, como demonstrado genialmente por Marx, a forma mercadoria “esconde” o real valor que tem o trabalho humano — enquanto produ- tor de possibilidades novas diante da natureza e dos outros homens —, sob o man- to alienante e fetichizante do valor de troca e das equivalências mistificadas que esse processo metabólico produz. Outrossim, deve-se observar mais uma vez que a análise lukasciana, na estei- ra de como procedera Marx na relação com seus objetos de estudo, não separa ar- tificiosamente os elementos de uma totalidade concreta. Eles perspectivam o de- senvolvimento do ser social burguês sempre como um processo unitário. Por isso, para Lukács era impossível pensar o direito e suas categorias centrais sem resgatar aquelas que fazem parte do desenvolvimento unitário — e contraditório — da so- ciedade do capital, como propriedade privada, divisão social do trabalho, classes sociais, Estado etc. Desse modo, tão ou mais importante do que apenas localizar a gênese histórica do direito no surgimento da sociedade de classes é conseguir cap- tar as forças contraditórias — ou as “negatividades” que lhe conferem o movimen- to — que operam em seu interior, bem como os processos que as encobrem. Nesse sentido, foi Pasukanis quem conseguiu, a partir das contribuições de Marx, descrever um dos (senão o principal) vínculos problemáticos que se estabe- lecem entre a forma jurídica e a mercantil: Marx nos mostra a condição fundamental, enraizada na estrutura econômica da própria sociedade, da existência da forma jurídica, isto é, da unificação dos diferentes rendi- mentos do trabalho segundo o princípio da troca de equivalentes. Ele descobre, assim, o profundo vínculo interno existente entre a forma jurídica e a forma mercantil. Uma sociedade que é constrangida, pelo estado de suas forças produtivas, a manter uma relação de equivalência entre o dispêndio de trabalho e a remuneração, sob uma forma que lembra, mesmo de longe, a troca de valores-mercadorias, será constran- gida, igualmente, a manter a forma jurídica. Somente partindo desse momento fun- 420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 damental é que se pode compreender porque toda uma série de outras relações sociais reveste a forma jurídica. (Pasukanis, apud Sartori, 2010, p. 109; grifos meus) A partir de perspectiva semelhante, Lukács destacou como os processos de circulação de mercadorias vieram a favorecer, ao longo da história do ser social burguês, o surgimento de sistematizações e reflexões teóricas e doutrinárias abstra- tas e gerais que serviram para a regulação das trocas comerciais e para a produção capitalista em geral. O filósofo húngaro consegue então capturar, pela análise, as contradições fundamentais que se estabelecem no interior da economia — enquanto expressão de teleologias primárias, como vimos — e do direito — expressão clara de teleo- logias de tipo secundário — bem como na relação entre essas duas esferas de obje- tivação do ser social. Nesse processo, o direito vai se revelando também como elemento mistificador das reais formas antagônicas das relações sociais no mundo burguês e até como indutor de novas mistificações. É do processo de equalização de relações entre desiguais, que ocorre na troca mercantil, que Lukács, segundo Sartori, extrai a ambiguidade do conceito de justiça no mundo burguês. O filósofo húngaro capta toda a complexidade desse processo e, segundo Sartori, chega a apontar o direito como um dos sustentáculos da desigualdade em qualquer socie- dade que não rompa com a forma de propriedade privada (ou estatal) dos meios de produção. O resgate da reflexão luckasciana contribui,portanto, para a desmistifi- cação daquela visão segundo a qual o direito poderia ordenar e coordenar interesses conflitantes que se manifestam na vida social. O que aparece, então, com todas as suas nuances, é a característica que o direito e o ordenamento jurídico adquirem, ao longo do desenvolvimento do ser social, de tornarem-se escoras complexas de uma ordem societária injusta — e ela mesma reprodutora de desigualdades — fornecendo-lhe uma aparência de igualdade.6 6. “[...] o Direito não é burguês simplesmente por servir aos interesses burgueses, mas sim por estar indissociavelmente conectado com a gênese e com a manutenção da sociedade civil burguesa (e com a própria forma mercantil). Sua configuração, com a correlata noção de igualdade jurídica, permanece nos limites burgueses, ou seja, da sociedade civil-burguesa, mesmo após a expropriação dos exploradores. Isso significa que, mesmo na ‘transição ao modo de produção socialista’, haveria a configuração de desigualdade, pois o direito perpetua sua forma após a mudança nominal de proprietário dos meios de produção, sendo, portanto, como todo o direito, o direito de desigualdade. Configura-se, assim, enorme engano entender-se socialista uma sociedade que transfere juridicamente (ou seja, ‘com os limites aqui enumerados’) a propriedade dos meios de produção à coletividade” (Sartori, 2010, p. 114). 421Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Mas falar em reprodução das relações sociais na sociedade capitalista é falar em contradições e antagonismos, o que nos leva, já de início, à consideração de que o direito, também ele, é atravessado por essas negatividades e torna-se repro- dutor mesmo dessas relações. Por isso é muito importante resgatar como Lukács, ao afirmar o conteúdo de classe do direito, não deixa de apontar o complexo de processos contraditórios que, justamente por isso, esse direito carrega em seu inte- rior, o que oportuniza a problematização de sua aparente neutralidade. O filósofo húngaro reafirma, sobretudo, que nenhum desses processos decorre de qualquer teleologia estranha ao mundo dos homens: antes resultam da práxis concreta do ser social e por eles podem ser também transformados. Nesse sentido, embora o direito seja um direito de classe — vale dizer, de classe dominante —, esse conteúdo de classe não pode ser apartado do complexo social total e das mediações que surgem permanentemente em seu interior, a partir das negatividades que se impõem. E nosso autor faz notar, nesse processo, que as abstrações próprias do direito garantem que princípios como liberdade, dignidade etc., convivam com aqueles que são próprios da sociedade que é regida pelo valor de troca e pelo trabalho assalariado — como competição e impessoalidade, por exemplo. Segurança jurídica e “imparcialidade” são valores muito caros à necessida- de de reprodução da sociedade regida pelo capital. Cumprem um papel funda- mental na construção de uma aparência fetichizada ou até reificada de relações de desigualdade que não podem aparecer enquanto tais. E todos os intrincados processos societários que subjazem ao direito e ao universo jurídico têm que ficar subsumidos para que ele possa cumprir suas funções na sociedade e inserir-se na vida normal de todos os homens. O fato de aparentemente ser uma esfera autos- suficiente, e que apenas especialistas podem dominar seus códigos e linguagem, tem a ver precisamente com aquilo que Lukács identificou e nomeou como o “novo fetichismo”: O novo fetichismo [...] consiste no fato de que o Direito é tratado [...] como um cam- po fixo, compacto, determinado com univocidade “lógica” e, desta forma, é objeto de pura manipulação não somente na práxis, mas também na teoria, onde é entendido como um complexo fechado na própria imanência, autossuficiência, acabado em si, que apenas é possível manejar corretamente mediante a lógica jurídica. (Lukács, apud Sartori, 2010, p. 96) 422 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Autonomia, especialistas e instituições que o sustentam também fazem parte das requisições básicas para que o direito possa existir na sociedade de desiguais e que produz cotidianamente a desigualdade. O fato de o direito ter um caráter de classe e de ser sustentado por um Estado, também ele dominado por interesses de classe majoritárias, tem as maiores conse- quências na vida das pessoas, principalmente quando “julgadas” por algum “crime”, ou por algum ato ilícito, pois elas estarão, no limite, à mercê dessa discricionarie- dade de classe, ainda que isso se dê com muitas e complexas mediações. Mas é importante reafirmar que o direito não é algo monolítico, constituído por tendências unilineares que apontam em uma única direção de dominação clas- sista; pelo contrário, é um processo social permeado de contradições — embora pretendendo-se isentas delas. Nas palavras de Lukács, O funcionamento do Direito positivo se apoia [...] sobre o seguinte método: manipu- lar um turbilhão de contradições de modo tal que dele surja um sistema, não só unitário, mas também capaz de regular praticamente, tendendo ao ótimo, o contra- ditório acontecer social, de sempre se mover com elasticidade entre polos antinômi- cos [...], a fim de sempre reproduzir — no curso de contínuas alterações do equilíbrio no interior de um domínio de classes em lenta ou rápida transformação — as decisões e os estímulos às práticas sociais mais favoráveis àquela sociedade. (Lukács, apud Sartori, 2010, p. 115; grifos meus) Em outros termos, o direito é também permeável à atuação das forças que pretendem nele incidir em busca de novos ordenamentos das relações sociais, e não só à manutenção do estado de coisas. É o que abordaremos no item sobre a justi- ciabilidade dos direitos sociais. Mas antes é preciso responder à questão inicial: qual é, então, a melhor forma para referirmo-nos ao Serviço Social quando o assistente social atua na interface com o jurídico e com o direito? 2.3 Afinal, Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica (ou “jurídico‑social”)? À luz de toda a reflexão precedente, proponho que, em vez de “campo socio- jurídico” ou “jurídico-social”, adotemos a terminologia área sociojurídica. 423Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Justifico: em primeiro lugar, não seria “campo”, naquele sentido de Bourdieu, porque não estamos disputando (corporativamente) com magistrados, promotores ou advogados, nesse espaço ou nessa área, o direito de dizer o direito (ainda que seja o direito social!). Antes, é preciso ver tais operadores ou especialistas do di- reito como trabalhadores que, tal qual os assistentes sociais, psicólogos, educadores etc., estão subordinados à mesma lógica do assalariamento de suas atividades, ainda que com diferenças bastante acentuadas (que têm a ver com aquilo que Lukács e Engels observaram sobre os “especialistas” do direito), que vale a pena a qualquer momento aprofundar pela análise. O que está dado como desafio e possibilidade aos assistentes sociais que atuam nessa esfera em que o jurídico é a mediação principal — ou seja, nesse lócus onde os conflitos se resolvem pela impositividade do Estado — é trazer aos autos de um processo ou a uma decisão judicial os resultados de uma rica aproximação à totalidade dos fatos que formam a tessitura contraditória das relações sociais nessa sociedade, em que predominam os interesses privados e de acumulação, buscando, a cada momento, revelar o real, que é expressão do movimento instau- rado pelas negatividades intrínsecas e por processos contraditórios, mas que aparece como “coleção de fenômenos” nos quais estão presentes as formas misti- ficadoras e fetichizantes que operam também no universo jurídico no sentido de obscurecer o que tensiona, de fato, a sociedade declasses. A partir das expressões cotidianas mais singulares e aparentemente desprovi- das de mediações sociais concretas é que os assistentes sociais que atuam nessa área têm que operar e trabalhar para reverter a tendência reprodutora da dominação, da culpabilização dos indivíduos e da vigilância de seus comportamentos. Em resumo: se o direito — que só surge quando também se completam os requisitos históricos para o surgimento da sociedade de classes — é um dos sus- tentáculos de uma ordem produtora e reprodutora de desigualdades, ele também tem em suas entranhas um incessante movimento de contrários. E para não esque- cer as certeiras lições de Iamamoto a respeito do significado social de nossa profis- são, é justamente por isso que o Serviço Social pode operar no universo jurídico, optando por fortalecer um ou outro polo dessas contradições, tema do próximo item de nossa reflexão. Em segundo lugar, vejo que a prioridade ontológica aqui é do “social”, e não do “jurídico”, uma vez que as teleologias primárias que põem a questão social como expressão da luta de classes — ou, mais precisamente, as disputas permanentes do 424 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 capital contra o trabalho na busca de maior exploração, e do trabalho contra capital na resistência a esse processo de exploração (e tudo que daí recorre) —, essa luta, esse conflito é que põe ao ser social a necessidade da instituição de teleologias secundárias, como o direito, o universo jurídico e a política, conforme já vimos. Assim, sociojurídico expressa com mais precisão do que jurídico-social o que o Serviço Social quer nominar como espaço onde se põem demandas que têm uma especificidade histórica em relação a outras áreas. Vale dizer: justamente porque a questão social é a expressão da luta de classes, da alienação do trabalho, da neces- sidade que o capital tem de manter a propriedade privada (que, essa sim, é uma categoria jurídica) etc., e que gera o movimento da história e de todas as demais objetivações do ser social no mundo burguês, ela tem prioridade ontológica em relação às objetivações que se plasmam a partir de teleologias secundárias como o direito e a política. Por entender o “social” — ou essa partícula sócio — como expressão conden- sada da questão social, e dela emanarem continuamente as necessidades que ense- jarão a intervenção de juristas, especialistas do direito, de agentes políticos e seus partidos etc., assim como, por ser espaço contraditório no qual os assistentes sociais atuam — buscando defender tanto o projeto ético-político da profissão como seus direitos como trabalhadores — é que defendo que passemos a utilizar a expressão Serviço Social na área sociojurídica. Assim, em termos sintéticos e simples, pode-se dizer que o trabalho do assis- tente social na área sociojurídica é aquele que se desenvolve não só no interior das instituições estatais que formam o sistema de justiça (Tribunais de Justiça, Minis- tério Público e Defensorias), o aparato estatal militar e de segurança pública, bem como o Ministério de Justiça e as Secretarias de Justiça dos estados, mas também aquele que se desenvolve nas interfaces com os entes que formam o Sistema de Garantias de Direitos (cf. Conanda, 2006) que, por força das demandas às quais têm que dar respostas, confrontam-se em algum momento de suas ações com a necessidade de resolver um conflito de interesses (individuais ou coletivos) lançan- do mão da impositividade do Estado, ou seja, recorrendo ao universo jurídico. Nesse sentido, a existência da lide, que significa “pretensão resistida” (cf. Del- fino, 2013) e de um processo judicial (seja ele civil, criminal, penal ou da área dos direitos da infância e juventude e dos relativos aos direitos humanos e aos direitos sociais) é um demarcador quase que obrigatório para considerarmos que se está em face ou não do universo sociojurídico. Assim, tanto o assistente social que atua em uma instituição de acolhimento de crianças e adolescentes, que estão sob a medida 425Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 protetiva de acolhimento institucional (um abrigo), como aquele que atua em uma Vara de Infância, ou em uma Defensoria Pública, estará atuando no universo socio- jurídico ou na interface com ele. Isso é fácil de perceber. Também os assistentes sociais que atuam como agentes fiscais nos Conselhos de Fiscalização Profissional (conjunto CFESS/Cress) e em suas diretorias fazem parte do universo sociojurídico, uma vez que os conselhos profissionais são tribunais de ética e têm o poder de determinar juridicamente (ou seja, pela impositividade do Estado) quem pode ou não exercer a profissão de assistente social ou se deve ter esse exercício suspenso ou não por força de decisão emanada dos julgamentos éticos, à luz das legislações pertinentes. Mais complexo é delimitar até que ponto os assistentes sociais que estão atuando nos Centros de Referência em Assistência Social (Cras) e/ou nos Centros Especializados de Referência em Assistência Social (Creas) estariam atuando também nas fronteiras desse universo. Pode-se dizer, sem medo de errar, que dependerá de cada caso. Os casos que são atendidos no âmbito da política de assistência social e até da saúde podem, sim, ter interface com essa área. Basta pensar em um caso de violência doméstica ou abuso sexual de criança que vai ser atendido por profissionais de toda a rede de proteção de direitos, ou em um caso de proteção pela Lei Maria da Penha. Enquan- to aquele caso estiver “judicializado”, ou constituir-se em uma lide (“pretensão resistida”, conforme vimos anteriormente), pertencerá ao universo sociojurídico. Ou seja, sua resolutividade, além de todas as iniciativas de proteção social e psico- lógica, também será tributária de uma decisão judicial. Após ter demarcado minimamente essas fronteiras, cabe apontar, ainda que brevemente, o potencial que está reservado aos assistentes sociais nessa área. 3. Judicialização das expressões da questão social e justiciabilidade dos direitos sociais no Brasil: espaço importante para o trabalho de assistentes sociais que atuam no sociojurídico Vários autores têm se debruçado sobre a tendência, que vem se desenvolven- do nos últimos anos no Brasil, de se levar ao Poder Judiciário, ou à área jurídica, centenas e milhares de casos que poderiam, ou deveriam, ser respondidos no âm- bito da esfera política. 426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Alguns deles mostram que após as importantes conquistas trazidas pela Constituição de 1988 (também ela fruto de grandes embates sociais, como sabemos), instalou-se uma forte tendência neoliberal de desmonte e contrarreformas do Esta- do, fazendo com que as políticas não fossem capazes de atender às demandas so- cietárias e aos quesitos de proteção de direitos sociais determinados pela Consti- tuição. Tampouco o movimento social e os sindicatos, centrais sindicais e entidades representativas dos trabalhadores tiveram força suficiente para fazer valer esses direitos para amplas parcelas da população brasileira. Tal panorama levou a que o Poder Judiciário passasse a ser o depositário das demandas sociais dos segmentos mais fragilizados e subalternizados da sociedade, na busca de fazer valer os direitos sociais trabalhistas, de proteção de crianças, idosos etc. Ou seja, aquilo que pela pactuação política não está sendo possível conquistar em nosso país, desde Collor, Fernando Henrique, passando por Lula e agora Dilma — porque os interesses econômicos e financeiros das elites dominan- tes determinam claramente os rumos do Estado brasileiro —, está se buscando no Poder Judiciário, pois, sem muitas alternativas, a população não tem como reivin- dicar fácil acesso a direitos básicos de cidadania. José Paulo Netto, em 1999,já apontava, em lúcida análise sobre o governo Collor, como o Estado estava sendo colocado a serviço dos reordenamentos impos- tos pelo projeto político do grande capital internacional, “subvertendo e negando a lógica constitucional de defesa de direitos” e levando a uma “inviabilização da alternativa constitucional da construção de um Estado com amplas responsabilida- des sociais, garantidor de direitos sociais universalizados” (cf. Netto, 1999). E também como outros autores, Beatriz Aguinsky e Ecleia Huff de Alencastro apontaram que, em todos os governos que vieram depois de Collor, as políticas sociais passaram a ser fragmentadas, focalizadas e a ter sérios problemas de finan- ciamento, o que acabou por impedir sua implementação objetiva (cf. Aguinsky e Huff de Alencastro, 2006, p. 19-26). Por isso, os autores citados podem afirmar que ao mesmo tempo em que houve a ampliação dos direitos positivados na Constitui- ção Federal de 1988, ocorreu sua negação em diferentes instâncias administrativas, o que acabou por gerar esse fenômeno na esfera pública, que é o que alguns juristas e cientistas sociais estão chamando de “judicialização dos conflitos sociais” ou, ainda, “judicialização da política”. Tal fenômeno, segundo Aguinsky e Huff de Alencastro (Idem), caracteriza-se pela transferência, para o Poder Judiciário, da responsabilidade de promover o enfrentamento à questão social, na perspectiva de efetivação dos direitos humanos. 427Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Argumentam as autoras que a profunda e persistente deslegitimação do Estado como esfera de proteção social dos mais subalternizados fez com que o Poder Judiciário ou o sistema de justiça como um todo passasse a ser procurado por esses segmentos para que os direitos e atributos de cidadania sejam efetivados. Alguns pesquisado- res chegam a afirmar que o enfraquecimento da política e das esferas de resolução pública dos conflitos e das reivindicações sociais, e o fato de o próprio Poder Exe- cutivo muitas vezes se colocar como violador de direitos por seus atos ou omissões perante a ganância do capital, fez com que a sociedade passasse a incumbir o Ju- diciário da tarefa de possibilitar a efetivação dos direitos sociais. Pertinente, então, parece ser a definição de judicialização, dada por Aguinsky e Huff de Alencastro, como a “tendência em curso de transferir para um poder es- tatal, no caso do Judiciário, a responsabilidade de atendimento, via de regra indi- vidual, das demandas populares — coletivas e estruturais, nas quais se refratam as mudanças do mundo do trabalho e as expressões do agravamento da questão social — em vez de fortalecer a perspectiva de garantia de direitos positivados, [o que] pode contribuir para a desresponsabilização do Estado, sobretudo dos poderes Legislativo e Executivo, com a efetivação desses direitos, através de políticas pú- blicas” (Aguinsky e Huff de Alencastro, 2006, p. 25). Face perversa da judicialização dos conflitos da sociedade brasileira é também a crescente onda de encarceramento de pessoas pertencentes aos extratos mais vulnerabilizados da população (e cada vez mais jovens), bem como os apelos midiáticos pelo recrudescimento das penas e pela transformação de delitos comuns em crimes hediondos; isso para não falar da forte campanha pela redução da ida- de penal. Alguém já denominou tal processo como próprio de uma era na qual impera um “populismo punitivo”. Nunca como hoje as “prisões da miséria” (na lúcida caracterização de Löic Wacquant) estiveram tão abarrotadas. E pior: desde Washington, com sua política de tortura para obter confissões na luta “contra o terrorismo”, e a administração forçada de alimentos a presos em greve de fome em Guantânamo, até a criminalização dos movimentos sociais em várias partes do mundo, assiste-se a uma regressão brutal nas tentativas de implementação das proteções lastreadas no direito dos direitos humanos. Nesse passo de nossa reflexão é pertinente abordar também o fato de que direito e lei não se confundem, sendo o primeiro sempre muito mais amplo e com- plexo do que a própria lei ou do que as estruturas burocráticas que se formaram para garantir seu cumprimento. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto, o direito origina-se sempre nas relações sociais (ou “na rua”) e só posteriormente é 428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 que é objetivado em leis. Tal dinâmica supõe, inclusive, a possibilidade de ques- tionamento do próprio direito que foi cristalizado em uma lei. Em outros termos, é esse processo que possibilita a negação de vigência de uma lei, “colocando-a como contrária ao Direito” (Nogueira Neto, 2012, p. 30-31). Mas outro aspecto da judicialização das expressões da questão social que também ganha bastante importância na atualidade é o chamado “controle judicial das políticas públicas”. Essa tendência vem se desenvolvendo com força e diz respeito às iniciativas da sociedade civil organizada para cobrar judicialmente que o Poder Executivo cumpra com o seu dever de implementar ações previstas nas legislações orçamentárias que destinam recursos às políticas sociais de proteção à infância e adolescência, deficientes, velhice, contra a violência doméstica etc. Tal alternativa é complexa porque envolve a chamada “separação dos poderes” e as vedações constitucionais de interferência de um poder sobre outro, e vem ganhan- do cada vez mais relevância em nossa sociedade, principalmente nessa quadra histórica em que se está diante da omissão do Estado ou do não cumprimento de preceitos constitucionais que dispõem sobre aspectos vitais à existência dos indi- víduos e grupos vulnerabilizados. Nesse processo, verifica-se que as cortes de justiça têm sido cada vez mais pressionadas a se pronunciar sobre casos em que governantes vetam artigos de leis ou praticam atos que ferem preceitos fundamen- tais que garantiriam recursos financeiros mínimos às políticas sociais (saúde, edu- cação etc.). É o que ocorre, por exemplo, quando governantes vetam leis orçamen- tárias (cf. Nogueira Neto, 2012, p. 39-41). Assim, tem-se, neste campo do controle jurisdicional das políticas públicas — ou naquele que Piovesan e Vieira (2013) chamam de justiciabilidade dos direi- tos sociais —, um enorme potencial de trabalho para os assistentes sociais, que podem oferecer importantes subsídios às decisões dos tribunais de justiça para a efetivação de direitos de amplas parcelas da população que foram alijadas do aces- so aos bens produzidos socialmente ao longo de séculos de dominação burguesa no País. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto (2012, p. 45), “[...] nessa fronteira com as políticas públicas sobressaem os hard cases, na expressão de Ronald Dworkin, que pedem, para sua solução, argumentos firmados em paradigmas ético-políticos [...] e na alta sensibilidade judicial e no seu comprometimento com os di- reitos humanos, com o desenvolvimento humano autossustentado e com a democracia”. Como abordei linhas atrás, há uma enorme contradição no capitalismo entre o sistema produtivo e a organização estatal e jurídica das relações sociais, gerando-se 429Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 no interior desta contradição inúmeras outras, que acabam sendo o húmus para o trabalho de um assistente social quando este se coloca na direção ética e política da ampliação e concretização de direitos, e não no fortalecimento do polo da “res- ponsabilização criminal”. Em outros termos, o âmbito daquilo que Piovesan e Vieira denominam de justiciabilidade dos direitos sociais pode ser considerado um espaço privilegiado para a atuação do assistente social hoje. Basta observar, por exemplo, o manancial de contradições que surgem no cenário jurídico a partir do momento em que o movimento social fez insculpirno texto da Constituição Fede- ral o famoso artigo 6º, que trata dos direitos sociais.7 De fato, esse é um dos artigos mais importantes da Constituição para os assistentes sociais em seu trabalho coti- diano, uma vez que é o que permite a exigibilidade daquilo que deve ser conside- rado prioritário nas políticas públicas e que até oferece os argumentos concretos sobre a necessidade de construção de uma nova organização societária. Diferente do que ocorre com direitos civis e políticos, a arena da exigibilida- de dos direitos sociais é aquela em que o universo jurídico tem que buscar soluções políticas e administrativas que, ao fim e ao cabo, questionam as formas de acumu- lação, bem como acirram as disputas pelo fundo público. É como se o artigo 6º tivesse o potencial de deslocar os cidadãos que hoje se encontram na fila dos réus (como devedores, ladrões de baixa periculosidade e pequenos traficantes etc.) para a fila dos requerentes de direitos perante o Estado. É também o artigo que permite aos assistentes sociais contribuírem com promotores de justiça e defensores públi- cos para que estes façam, perante as cortes, a denúncia daquilo que Canotilho chamou da “ditadura do caixa vazio”. Em resumo, temos que com a Constituição de 1988, com o capítulo dos di- reitos sociais e também das novas funções do Ministério Público, bem como com a criação de novas ações jurídicas,8 o assistente social que atua nessa área ganha a possibilidade de “dar os argumentos concretos e tangíveis àqueles que vão, no in- terior do universo jurídico e no curso dos processos judiciais, “dizer o direito social” (cf. Piovesan e Vieira, op. cit.). A Constituição de 1988 trouxe também aos assistentes sociais da área socio- jurídica a possibilidade de demonstrarem, com dados concretos extraídos de estudos sobre a realidade de cada município onde vivem os cidadãos, das prisões onde estão 7. Os direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal de 1988 são: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados. 8. Como a de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, por exemplo. 430 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 encarcerados, ou das instituições que têm que defendê-los — e, principalmente, do contato cotidiano com a população que é alvo ou credora da Justiça —, como o não cumprimento dos preceitos fundamentais da Constituição lesam a vida e os direitos de parcelas significativas da sociedade. Mas para isso é preciso que haja assistentes sociais conscientes de seu papel. Profissionais que sejam bem formados do ponto de vista crítico analítico e que se disponham a perguntar insistentemente por que o universo jurídico tende a ser mais eficaz e célere quando se trata de defender o di- reito constitucional à propriedade e não apresenta a mesma celeridade e assertivi- dade no que diz respeito ao direito à dignidade e à proteção física e moral de con- denados, com relação à tortura e maus-tratos nas prisões, por exemplo? Afinal, ambos — o direito à propriedade e o direito do cidadão de não ser agredido pelo Estado que deveria proteger sua integridade quando sob sua custódia —, são iguais na esfera dos direitos fundamentais consagrados no Capítulo 5 da Constituição. 4. Alguns desafios da intervenção dos assistentes sociais na interface com o Direito e com o universo jurídico O Serviço Social brasileiro construiu, nos últimos trinta anos, um projeto profissional que o coloca em uma perspectiva de resistência à exploração capitalis- ta. Um projeto que tem potencial para capacitar os profissionais para um desempe- nho qualificado nos diversos campos onde atua, iluminando-os para que articulem suas ações cotidianas a sujeitos coletivos que também se mostrem empenhados tanto no acesso a direitos como na busca da construção de outra ordem societária. Esse projeto contém um conjunto de referências técnicas, teóricas, éticas e políticas para o exercício profissional, e está lastreado na perspectiva crítica e ontológica de análise da realidade social, tendo como pressuposto que a sociedade burguesa gera limites intransponíveis para se alcançar a real emancipação do ser social. Mas no interior desse mesmo projeto há o reconhecimento de que as lutas por direitos e pela democratização radical das formas de exercício do poder político têm considerável potencial para a resistência à barbarização imposta pelo capita- lismo em sua fase atual, bem como podem contribuir para o avanço de propostas coletivas que busquem uma nova organização societária. A profissão viveu, nas três últimas décadas, um rico movimento teórico e po- lítico que plasmou interpretações competentes e elucidativas acerca de inúmeros 431Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 temas de interesse para a sociedade e para outras áreas de produção do conhecimen- to próximas ao Serviço Social. É assim que ela tem hoje uma interlocução profícua e instigante com a Psicologia, com as Ciências Sociais em geral, com a Educação, e, notadamente, com o universo jurídico (principalmente no que tange às questões de efetivação de direitos de crianças e adolescentes, idosos, mulheres etc.), bem como com as várias profissões do campo da Saúde e da Assistência Social. Um dos elementos propiciadores desses avanços (não o único, obviamente) foi a elucidação do significado social da profissão no mundo burguês, por meio das seminais análises de Marilda Iamamoto que, já à partida, advertia-nos de que o significado social da profissão só poderia ser profunda e verdadeiramente apreen- dido se a análise fosse capaz de integrar e, ao mesmo tempo, ultrapassar os ele- mentos internos do Serviço Social, ou seja — sua trajetória histórica, a ação dos profissionais nos diversos campos de atuação, os parâmetros legais que construiu etc. —, situando-o no contexto da totalidade social e das relações mais amplas que o condicionam. Segundo a autora, foram essas relações que, afinal, acabaram atri- buindo ao Serviço Social particularidades em relação a outras profissões. Em outros termos, Iamamoto mostrou-nos que, para compreender o que é e como se desen- volveu o Serviço Social enquanto profissão —, ou seja como atividade assalariada, com competências específicas e atribuições privativas, e cujos profissionais são requisitados por instituições, empresas ou organizações em geral —, era preciso entender, primeiramente, como se dá o processo que Marx denomina produção e reprodução das relações sociais no mundo burguês, uma vez que a profissão é impensável sem a inserção nessas relações. Foi assim, pois, que Marilda observou que, além de o movimento de reprodu- ção do capital recriar continuamente a apropriação do trabalho excedente sob a forma da mais-valia, ele cria e reproduz, em escala ampliada, os antagonismos das relações sociais por meio das quais efetiva-se a produção. Nesse mesmo processo, segundo Iamamoto, [...] reproduz-se a contradição entre igualdade jurídica de livres proprietários, e a desi- gualdade econômica que envolve a produção social, contraposta à apropriação privada do trabalho alheio, ou seja, recriam-se os antagonismos dessas relações e o véu ideológico que as envolve, encobrindo sua verdadeira natureza. (Iamamoto, 2007, p. 253) Após ressaltar, então, que a criação de uma superpopulação trabalhadora — sempre disponível para ser recrutada — faz parte da particularidade do regime 432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 capitalista e que os salários dos trabalhadores ficam à mercê da regulação desfavo- rável a seus interesses (justamente em virtude da existência daqueles trabalhadores sobrantes), Iamamoto mostra que é a partir dessa factualidade ontológica que se consubstancia a questãosocial no mundo burguês. Assim, uma parcela significativa dos assistentes sociais brasileiros desenvol- veu a compreensão de que a questão social não é apenas a expressão da pauperi- zação relativa da classe trabalhadora sob o domínio do capital, significando, prin- cipalmente, o conjunto de reivindicações dos trabalhadores por seus direitos e pelo seu reconhecimento enquanto classe. Ela é também a expressão da intermediação do Estado nessas relações conflituosas que se estabelecem entre trabalhadores e empresariado. Nesse cenário, como já colocado anteriormente, o Estado e suas instituições que formam o Poder Judiciário, o Poder Executivo e o Legislativo passa a ter um papel fundamental na regulação das relações sociais antagônicas próprias do mundo burguês.9 É então, nesse complexo de determinações, em cujo centro opera a mediação do Estado capturado pelo capitalismo monopolista, que Iamamoto localiza a gêne- se e o significado do Serviço Social como uma profissão que — inscrita na divisão social e técnica do trabalho, e tendo como “matéria-prima” as expressões da ques- tão social —, se integra “ao processo de criação das condições indispensáveis ao funcionamento da força de trabalho e à extração da mais-valia”, embora não parti- cipe diretamente da produção de mercadorias e do valor (Iamamoto, 2007, p. 256). Por estar inserido e por ser fruto mesmo dessas relações entre o capital e o trabalho, e participar das respostas que o Estado e a sociedade têm que dar aos antagonismos de classe, o Serviço Social também adquire um caráter eminente- mente contraditório. E com essas análises Iamamoto alcançará todas as premissas que lhe permitiram formular o que chamei, em outro lugar, de a Grande tese (ver Borgianni, 2008): Como as classes sociais só existem em relação, pela mútua mediação entre elas, a atuação do assistente social é necessariamente polarizada pelos interesses de tais classes, tendendo a ser cooptada por aqueles que têm uma posição dominante. Reproduz, 9. Iamamoto descreveu esse processo de forma cristalina já no início dos anos 1980: “O Estado passa a intervir diretamente nas relações entre empresariado e a classe trabalhadora, estabelecendo não só uma regulamentação jurídica do mercado de trabalho, através da legislação social e trabalhista específicas, mas gerindo a organização e a prestação dos serviços sociais, como um novo tipo de enfrentamento da questão social” (In: Iamamoto e Carvaho, 1982, p. 77). 433Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 também, pela mesma atividade, interesses contrapostos que convivem em tensão. Responde tanto a demandas do capital como as do trabalho e só pode fortalecer um ou outro polo, pela mediação de seu posto. Participa tanto dos mecanismos de domi- nação e exploração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, de respostas a necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e de reprodução dos antago- nismos desses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel da história. A partir dessa compreensão é que se pode estabelecer uma estratégia profissional e política para fortalecer as metas do capital ou do trabalho, mas não se pode excluí-los do contexto da prática profissional, visto que as classes só existem inter-relacionadas. É isso inclusive que viabiliza a possibilidade do profissional colo- car-se no horizonte dos interesses das classes trabalhadoras. (Iamamoto, in Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 75; grifos meus) Essa afirmação do caráter contraditório do exercício de qualquer assistente social foi a contribuição maior à compreensão dos reais desafios que estão coloca- dos aos profissionais em sua prática cotidiana. De fato, ela expressa um divisor de águas em relação a análises que se fixam em unilateralidades ou em posições vo- luntaristas. Essa constatação ontológica tem o potencial de mostrar a qualquer profissional que sua ação pode tanto favorecer os interesses do capital quanto os do trabalho, pode reforçar iniciativas conservadoras, porque coladas à imediatici- dade das relações alienadas, ou buscar resistir e romper com as formas autoritárias, desumanizadas e antidemocráticas que brotam continuamente do solo burguês, seja em uma instituição, seja em uma organização não governamental, ou na assessoria a movimentos sociais. Daí também decorre o caráter essencialmente político da ação profissional, “uma vez que ela se explica no âmbito das próprias relações de poder da sociedade” (Yazbek, 1999, p. 91). Naturalmente, a possibilidade de a profissão colocar-se na perspectiva do reforço dos interesses da população trabalhadora, com a qual atua, depende mais de um projeto profissional coletivo do que da volição individual dos assistentes sociais. É esse projeto que pode orientar permanentemente as ações dos profissionais em seus diversos campos de trabalho. Assim, pode-se afirmar que a partir dessas contribuições que iluminam ou fornecem os elementos fundamentais a partir dos quais os assistentes sociais podem fazer a crítica ontológica das contradições sociais que se expressam em seu coti- diano, é possível e necessário fazer a análise de como a profissão vem se desenvol- vendo e delineando nos diversos espaços sócio-ocupacionais, incluídos os que 434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 pertencem à área sociojurídica. Essa tarefa é urgente para todos nós que partilhamos do projeto ético-político da profissão e supõe enorme esforço teórico para captar as complexas determinações que aí comparecem. Evidentemente, não tenho a me- nor pretensão de aqui dar conta nem mesmo do começar essa tarefa. Alguns assis- tentes sociais já iniciaram estudos que poderão potencializar muito nossos conhe- cimentos das especificidades próprias desse espaço de intervenção profissional (ver, especialmente, Fávero, 1990; Colmán, 2004; Alapanian, 2008; Torres, 2005; Dahmer, 2012; Tejadas, 2012). É necessário e urgente pesquisar a gênese e os processos de criação e repro- dução do Serviço Social em todos os espaços sócio-ocupacionais que formam o universo sociojurídico (sistema prisional, ministério público, defensorias, sistema socioeducativo, tribunais de justiça etc.), para conhecer, de fato, o que está se pas- sando aí em seu interior e se possa avançar em propostas coerentes ou que expres- sem nosso projeto ético-político a partir da “análise concreta de situações concretas”. Aqui, o que posso então é apenas apontar, à luz dos fundamentos precedentes, alguns dos desafios cruciais com os quais os assistentes sociais se deparam nessa área. Inicialmente, destacaria o universo de questões que se põem aos profissionais que atuam no interior das instituições do sociojurídico, pelo simples fato de, como visto, o jurídico configurar-se como a esfera de resolução dos conflitos pela impo- sitividade do Estado. São questões de ordem ética e política que surgem nesse universo e das quais não se pode “escapar”, sendo necessário enfrentá-las com coerência. Contribui para alargar esse desafio a crescente criminalização da pobre- za e a judicialização das expressões da questão social. Tais determinações se impõem hoje no cotidiano profissional nas prisões, nos tribunais, nas unidades de internação de adolescentes, de forma avassaladora. Têm também expressão objetivada em todo um novo marco legal de caris conservador e que é fruto de articulações de parte da sociedade civil que vê no encarceramento, no recrudecimento das penas e na redu- ção da idade penal, as formas reificadas e fetichizadas de reparação das vítimas da crescente violência urbana que foi gerada no processo histórico de superexploração do trabalho e concentração de poder e renda nas mãos de uma elite minoritária numericamente, mas poderosíssima econômica e politicamente. Já o aviltamento mercantil que atingiu o ensino superior noBrasil nas últimas décadas pode provocar verdadeira tragédia profissional no desempenho que é exi- gido dos assistentes sociais nessa área que lida diretamente com os destinos das 435Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 vidas das pessoas. De fato, nessa área, decide-se se alguém vai ser privado de li- berdade, ou se vai perder a guarda de um filho, se vai poder ou não adotar uma criança ou conviver com um idoso. Essa é uma esfera muito diferente daquela que é própria da execução das políticas sociais. A começar pelo fato de que na área sociojurídica não se trabalha contando com a mediação dos benefícios socioassistenciais. A mediação, via de regra, passa pelas interpretações que os profissionais fazem de problemas, situações e conflitos que estão judicializados, portanto aguardando uma decisão judicial, e não uma decisão ou um encaminhamento administrativo ou político. Nessas insti- tuições do sociojurídico, como bem notou Colmán, o assistente social depara-se com demandas que “são apresentadas de forma individualizada, como conflitos entre partes, com litígios, cabendo [ao Judiciário] aplicar as leis existentes, estabe- lecendo as punições cabíveis e encaminhando soluções para as situações de confli- to” (Alapanian, 2008, p. 16). E aqui já podemos demarcar uma primeira armadilha ou desafio que se põe ao assistente social em seu cotidiano: superar a aparência dos fenômenos com os quais vai trabalhar; tal aparência é a de problemas jurídicos, pois, como vimos, na realidade também carregam conteúdos de cunho eminente- mente político e social, e nessas outras esferas é que também deveriam ganhar sua resolutividade. Por isso, não se pode perder de vista, nem por um instante, nesse cotidiano que tende a reiterar a aparência reificada da processualidade societária, que quem atua na área sociojurídica está confrontando o tempo todo com as contradições que surgem ou se renovam reiteradamente a partir da relação tensa entre as determina- ções próprias da sociedade que é regida pelo capital e o buscar da “justiça”. Na definição oficial, por exemplo, como exposta por Edson Sêda, o Poder Judiciário é “um poder da República que só atua quando provocado em sua jurisdição, para resolver conflitos de forma definitiva. Nas hipóteses em que um juiz se manifesta, sua decisão deve ser cumprida, para que haja a estabilidade necessária à sociedade organizada e ao bem comum” (Sêda, 2007, p. 53; grifos meus). Ora, evidentemente isso é apenas a face imediata e aparente do Poder Judi- ciário, aparência que se desvanece quando começamos a pesquisar seu real signi- ficado na sociedade burguesa. O que o Poder Judiciário resolve “de forma defini- tiva” não são os problemas das pessoas ou da sociedade em geral, mas problemas e questões jurídicas, o que é muito diferente. A chamada “tutela jurisdicional” protege bens jurídicos, que são mediações criadas socialmente e representam aquilo que uma sociedade definiu que deve ser 436 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 protegido pela lei e pela coercitividade do Estado. Por exemplo, assim como o bem jurídico protegido pela criminalização do homicídio é a vida, o bem jurídico protegido pela criminalização do roubo é a propriedade. E esses dois “bens” são de naturezas essencialmente diferentes. Sem o primeiro, não há nenhuma relação social, pois a vida, obviamente, tem prioridade sobre qualquer outra determinação para o ser social; mas a segunda, a propriedade, é apenas e tão somente uma criação humana, uma abstração jurídica. A propriedade é um bem jurídico do mundo burguês. Porém a “propriedade” não pode ser atingida ou fragilizada porque faz parte da sustentação da ordem natural criada pelas relações burguesas de produ- ção. Por isso é que a lei, no caso dos conflitos fundiários, ao fim e ao cabo, acaba protegendo sempre a propriedade, e não necessariamente o proprietário. Isso porque a propriedade aqui adquire um papel muito mais importante do que apenas o de ser o direito de usufruto de um bem por alguém. Ela significa condição de existência de uma relação social de exploração de homens sobre outros homens. Mesmo que, em alguns casos, busque-se até argumentar pela função social da propriedade, será aquele outro sentido dela que prevalecerá sempre. Vê-se isso na maioria dos processos de desocupação de terrenos ocupados pela população carente de moradia. Tendo isso consciente, nenhum assistente social poderia ter dúvidas, por exemplo, se fosse chamado a atuar em desocupações, de qual postura profissional e ética deveria ter. A justiça ou o universo jurídico “deixados a si mesmos” atuarão sempre nesse sentido: de restituir a “ordem das coisas”, embora, como vimos, uma ordem produtora — e tendencialmente reprodutora de desigualdades. Se os homens e mulheres que adquirem consciência desse processo não atuarem no sentido de incrustar nele elementos de negatividade (resistências, oposições etc.), ele se mo- verá sempre nessa direção, e as mediações que serão produzidas serão sempre aquelas que servem à reiteração da ordem. E aqui podemos apontar mais um dos desafios que estão postos para os assis- tentes sociais que atuam nessa área: a tendência de incorporarem, como sendo atribuição de sua profissão, ou de seu fazer profissional, os instrumentos de “aferi- ção de verdades jurídicas”, como o são o exame criminológico ou a inquirição de vítimas ou testemunhas, sob a eufemística ideia da “redução de danos”. E aí, nesses espaços nos quais vem imperando a lógica da judicialização das expressões da questão social e da criminalização das parcelas mais subalternizadas da população, o que tem que ser defendido como sendo próprio de nossa interven- 437Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 ção é o estudo social (ver Fávero, 2003). O que é próprio de nossa intervenção é o estudo social, que, a partir de aproximações possíveis, deve buscar reproduzir as determinações que constituem a totalidade sobre a qual somos chamados a emitir um parecer técnico. Como já exposto, para essa reprodução ser o mais fiel possível, devemos ser capazes de capturar, pela análise, as mediações fundamentais que dão forma à realidade sobre a qual estamos pesquisando e as negatividades que lhe dão o movimento. Esse trabalho de pesquisa em nada se assemelha à reprodução imediata e superficial do existente, ou à reprodução literal das palavras de um presidiário, que está sendo entrevistado por nós, ou de um casal que está em litígio pela guar- da de um filho em uma Vara de Família. Por ser-nos demandado, nessa esfera, um estudo de situações complexas, nosso trabalho, também ele, torna-se de alta com- plexidade, o que, a bem da verdade, nos impediria de fazer um laudo ou um parecer a partir de um contato de vinte minutos com alguém. Mas em muitos locais é isso que nos está sendo exigido. A armadilha está em o assistente social ir se tornando prisioneiro do pos- sibilismo mais ordinário: se só é possível fazer isso, então vamos fazer, pois, caso contrário, o preso ficará sem um laudo e não poderá progredir de regime… O assistente social passa a considerar que aquilo é uma forma de “redução de danos”. É o mesmo raciocínio que se usa para justificar a atuação junto a crianças vítimas de violência sexual: para garantir que a criança não tenha que ser ouvida várias vezes sobre a violência sofrida, passo a admitir que ela seja ouvida de uma forma que também viola seus direitos e traz danos à sua vida psíquica, como vários especialistas já apontaram. E pior: contribuo para reforçar a visão de que a saída está no encarceramento dos pretensos agressores, em um cenário no qual a prisão só tem servido para tornar homens e mulheres muito piores do que quando entraram para o sistema prisional. E aqui entramos em mais uma das armadilhasque estão postas no cotidiano de quem trabalha na esfera do chamado sistema de justiça: nessa área há um risco enorme de o assistente social deixar-se envolver pela “força da autoridade” que emana do poder de resolver as questões jurídicas pela impositividade, que é o que marca o campo sociojurídico, e “encurtar” o panorama para onde deveria voltar-se sua visão de realidade, deixando repousar essa mirada na chamada lide, ou no conflito judicializado propriamente dito; passando a agir como se fora o próprio juiz, ou como um “terceiro imparcial”, mas cuja determinação irá afetar profunda- 438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 mente a vida de cada pessoa envolvida na lide. Por exemplo, em um processo em que alguém está sendo acusado de negligência para com uma criança, seja o pai ou a mãe: a decisão judicial buscará “recompor o direito da criança que foi violado”, podendo, no limite, alijar ou esse pai ou essa mãe, ou ambos, do poder familiar sobre essa criança. O assistente social, diferentemente de um juiz ou de um promo- tor, diante de um caso assim, terá que olhar para a totalidade da problemática e suas consequências, e não só para a proteção dos direitos da criança que, sem dúvida, será o foco da atenção do juiz. O mesmo ocorre quando estamos lidando com problemas relacionados a uma denúncia de abuso sexual. Para um juiz da área criminal, o que estará em seu foco de atenção será a reconstituição de uma verdade jurídica para a incriminação do suposto abusador. Por isso, para ele são tão importantes as provas. Já o foco de trabalho de um assistente social terá que ser muito mais amplo e profundo, para que possa atuar visando a proteção de direitos de todos os envolvidos. Sobre isso é importante ter contato com as pesquisas e a literatura especializada que já co- meça a surgir sobre o tema, principalmente aquelas que vêm discutindo de forma crítica os chamados depoimentos especiais, ou escutas especiais, de crianças víti- mas de abuso sexual (ver AASPTJSP/Cress/9ª Região, 2012; Azambuja, 2011), esta última uma importante promotora de Justiça que buscou seu doutoramento na área de Serviço Social para abastecer-se das reflexões realizadas em nossa área de conhecimento. Deve-se chamar a atenção, ainda, para outro desafio que se põe no cotidiano dos assistentes sociais: ao assumir para si as demandas e as práticas institucionais sem questioná-las, apenas reproduzindo respostas fiscalizadoras dos comportamen- tos, e criminalizadoras dos sujeitos que são alvo da ação judicial, passam a não se ver, eles mesmos, como trabalhadores, e não participam dos movimentos próprios da classe trabalhadora, de seus sindicatos, de suas entidades representativas, de seus fóruns de debates. É comum hoje vermos muitos e muitos profissionais afirmando coisas do tipo: “não participo desse ou daquele movimento porque são movimentos políticos, e minha atuação é técnica e não política…”. Tem-se até a impressão de que esses colegas se consideram como uma “elite” que não está sujeita aos mesmos constrangimentos societários que a classe trabalhadora em geral sofre. E presas fáceis dos processos de alienação, muitos assistentes sociais não conseguem dar o passo seguinte, ou até simultâneo, às suas intervenções profissionais, que é o passo da participação nos movimentos coletivos e organizados de sua classe. 439Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Para finalizar, é importante destacar que a atuação de um assistente social nessa área não pode estar a serviço da culpabilização, da vigilância dos comporta- mentos ou dos julgamentos morais. Tampouco pode servir ao engodo de grande parte das instituições jurídicas que, em virtude da precarização e do desmonte que em seu interior foi promovido, ficam apenas fazendo “os processos judiciais anda- rem” com atos meramente burocráticos e burocratizantes. Nosso trabalho tem que ser no sentido da oposição a esse estado de coisas, na resistência às mais diferentes formas de alienação, questionando e adensando nos- sos estudos sociais com os dados da realidade; levando para o interior dos autos dos processos o direito que vem “da rua”, “dizendo o direito da rua” e dos movi- mentos sociais que também exigem justiça. Nosso papel não é o de “decidir”, mas o de criar conhecimentos desalienantes a respeito da realidade sobre a qual vai se deliberar naquilo que se refere à vida de pessoas. E há importantes espaços para isso no interior desse universo, uma vez que até mesmo os juristas mais conservadores sabem que a situação de fato impe- ra sobre qualquer direito. Marx escreveu em algum lugar: “Direito contra direito, vence a força…” Ousamos parafrasear o mestre alemão: Direito contra direito pode vencer a força dos que se juntam na busca da real democratização das relações sociais, para a ultrapassagem da ordem do capital. Recebido em 3/6/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013 440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 Referências bibliográficas AASPTJSP; CRESS-SP (Orgs.). Violência sexual e escuta judicial de crianças e adolescen- tes: a proteção de direitos segundo especialistas. São Paulo: Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e Conselho Regional de Serviço Social do Estado de São Paulo, 2012. AGUINSKY, Beatriz G.; HUFF DE ALENCASTRO, Ecleria. Judicialização da questão social: rebatimento no processo de trabalho dos assistentes sociais no Poder Judiciário. Katalysis, Florianópolis, jan./jun. 2006. ALAPANIAN, Sílvia. Serviço Social e o Poder Judiciário: reflexões sobre o direito e o Poder Judiciário. São Paulo: Veras, 2008. v. 1. AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. Inquirição de criança vítima de violência sexual: proteção ou violação de direitos? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011. BORGIANNI, Elisabete. 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Se é verda- de que a transitividade de pessoas, bens e mercadorias nas fronteiras incertas do legal e ilegal, formal e informal, constitui um fenômeno transversal da experiência contemporânea e está no cerne dos proces- sos de mundialização, argumenta-se que nem por isso a passagem de um lado a outro dessas fronteiras porosas é coisa simples. A questão que se procura trabalhar nesse texto é que esses campos de força ofe- recem uma via de entrada para entender o lugar e o papel do Estado nos ordenamentos sociais, pondo em foco os modos de operação das forças da lei e da ordem em contextos situados, sob a perspectiva do que alguns autores vêm propondo nos termos de uma “antropologia do Estado”. Palavras-chave: Práticas urbanas. Ilegalismos. Jogos de poder. Antro- pologia do Estado. Abstract: The article is about the games of power that exist between the lines of the legal and the illegal, the formal and the informal. If it is true that the transitivity of people, goods and merchandise on the uncertain borders between the legal and the illegal, the formal and the informal is a transversal phenomenon of the contemporary experience and that it is in the center of the globalization processes, that does not mean the passage from one side to the other one of those porous borders is simple. What we discuss in this article is that those fields of force offer an entry to understand the importance and the role of the State in the social planning, focusing the way the forces of law and order operate in situated contexts, under the view of what some authors have been calling a “state anthropology”. Keywords: Urban practices. Illegalism. Games of Power. State anthropology. * Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. Pesquisadora e vice-coordenadora do Laboratório de Pesquisa Social (USP). E-mail: tellesvs@uol.com.br; www.veratelles.net. 444 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 Este texto trata dos jogos de poder inscritos na trama dos ilegalismos que se alojam, hoje, no cerne da vida e da economia urbana, aqui e alhures. O ponto de partida do que se pretende discutir diz respeito a um mundo urbano alterado e redefinido por formas contemporâneas de produção e circulação de riquezas, que ativam os circuitos da chamada economia informal, que mobilizam as várias figuras do trabalho precário e se processam nas fronteiras in- certas do formal e informal, legal e ilegal, também o ilícito. Tomo como referência empírica a cidade de São Paulo, tendo em mira processos transnacionais que colo- cam essas reconfigurações em ressonância com o que vem ocorrendo em outros lugares. E é isso que coloca a questão de se entender o modo como esses desloca- mentos e essas reconfigurações se processam nos circuitos urbanos de circulação de riquezas e as relações de poder inscritas em seus pontos de interseção. Essas são questões que tentei trabalhar em textos anteriores, apoiando-me nos percursos de uma pesquisa já de muitos anos em duas frentes articuladas de inves- tigação: os mercados de consumo popular no centro da cidade e o varejo da droga em um bairro da periferia de São Paulo. De forte conteúdo etnográfico, essas pes- quisas nos permitiram seguir e descrever essa transitividade depessoas, bens e mercadorias entre o formal e o informal, o legal e ilegal, o lícito e o ilícito. Mais ainda, o mais importante: essas pesquisas nos permitiram flagrar as fricções engen- dradas nas passagens dessas fronteiras porosas. Fronteiras porosas, mas não vazias: os espaços não são lisos, e sim estriados, para usar os termos de Deleuze e Guatarri, e é justamente nesses estriamentos que se dão os agenciamentos políticos que con- dicionam (permitem, bloqueiam, filtram, direcionam) essa circulação de pessoas, bens e mercadorias nos espaços urbanos. Em um primeiro momento, essas questões se apresentaram nas filigranas dos percursos, que tratamos de reconstituir, de trabalhadores que lançavam mão de forma descontínua e intermitente das oportunidades legais e ilegais que coexistem e se superpõem nos mercados de trabalho: as “mobilidades laterais” entre o formal e o informal, legal e ilegal, para usar os termos de Ruggiero e South (1997) ao descreverem situações parecidas, alojadas, hoje, no coração das economias urbanas também dos países do Norte. Ao seguirmos esses percursos, chamava-nos a atenção o modo como os indivíduos transitavam (e transitam) nas fronteiras porosas do legal e do ilegal, fazendo uso dos códigos e repertórios de ambos os lados. Sobre- tudo, chamava-nos a atenção o exercício de algo como uma “arte do contornamen- to” dos constrangimentos, ameaças e riscos (também riscos de morte) inscritos nesses pontos de passagem: o pesado jogo de chantagem e extorsão de fiscais de 445Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 prefeitura e das forças da ordem; a violência da polícia sempre presente nesses percursos; também os controles mafiosos de territórios e pontos de venda; bem como a eventualidade de algum desarranjo nos acertos instáveis com os empresá- rios do ilícito (não apenas dos negócios da droga). “Ardis de uma inteligência prática”, essa noção trabalhada por Vernant e Detienne (1974) nos foi especial- mente valiosa para entender o modo como os indivíduos lidam com as circunstân- cias movediças nas fronteiras do legal-ilegal e fazem, a cada situação, a negociação dos “critérios de plausibilidade moral” de suas escolhas, para usar os termos de Ruggiero e South ao caracterizar a lógica da “economia de bazar” que hoje se instala no coração das economias urbanas: nos termos nativos, os critérios do “certo” e do “errado” — “é preciso andar pelo certo” é a expressão que se ouve nesses lugares. Também: o modo como, nesses pontos de fricção, os indivíduos negociam os parâmetros do aceitável e os limites do tolerável nos jogos de poder que se estruturam nesse seu encontro com as injunções da lei e da ordem (Telles e Hirata, 2010; Telles, 2010a; Hirata, 2010). Esses agenciamentos práticos nas dobras do legal e ilegal nos pareciam (e nos parecem) estratégicos para entender os ordenamentos sociais que se processam nos circuitos dos mercados informais e ilegais da cidade. Foi daí que partimos, desdo- brando nossas questões de pesquisa na medida em que tratamos de entender a mecânica desses agenciamentos. O que poderia ser visto como versão atualizada da “viração” associada à cultura popular ou à “dialética da malandragem”, para lembrar aqui o texto famoso de Antonio Candido, passava a ganhar outra fatura. Muito longe das visões algo pacificadas do mundo social veiculadas por essas ex- pressões, essas dobraduras do legal e ilegal pareciam circunscrever jogos de poder e relações de força, campos de tensão e de conflito, que precisariam ser bem enten- didos. Certamente, algo constitutivo da “economia de bazar,” para reter os termos de Ruggiero e South e que, no caso de nossas cidades, carrega uma história de longa data, acompanhando os percursos dos desde sempre expansivos mercados informais, sempre próximos e tangentes aos mercados ilícitos, entrelaçados, ambos, nos tempos, fatos e circunstâncias da história urbana. Mas esses agenciamentos nos pareciam, sobretudo, estratégicos para entender as inflexões recentes desses mer- cados por conta de suas conexões com os circuitos ilegais de economias transna- cionais. No coração da modernidade globalizada da(s) cidade(s), esses mercados mudaram de escala e ganharam outras configurações, acompanhando ritmos e evoluções aceleradíssimos da abertura dos mercados e expansão de circuitos trans- nacionais por onde circulam bens e mercadorias, transpassando fronteiras, regula- 446 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 mentações, restrições nacionais, de que o fenômeno maciço do contrabando e fal- sificações é o registro visível nos centros urbanos dos países a norte e a sul, leste e oeste do planeta. Em São Paulo, no mesmo período e mais intensamente a partir dos anos 2000, o mercado varejista de droga se estruturou de forma mais ampla e mais articuladas do que em décadas passadas. Mas isso também significa dizer que a expansão da economia da droga e suas capilaridades no mundo urbano acompa- nharam a aceleração dos fluxos de circulação de riquezas em uma cidade que, no correr desses anos, também se firmou e se confirmou na potência econômica e fi- nanceira própria de uma cidade globalizada (Telles, 2010b). O fato é que essa ampla circulação de bens, produtos e populações que tran- sitam nesses mercados depende, em grande medida, dos agenciamentos políticos que se fazem justamente nas dobras do legal-ilegal, formal-informal: corrupção, mercados de proteção e práticas de extorsão que variam conforme circunstâncias, contextos e microconjuturas políticas e, sobretudo, dos níveis de tolerância ou in- criminação que pesam sobre essas atividades. O que, em um primeiro momento, aparecia nas filigranas das “histórias minúsculas” que recolhíamos em nosso tra- balho de campo ganhava outra envergadura e delineava a face política desses mercados. E era isso que nos parecia (e nos parece) importante de ser bem enten- dido. Aqui, nesse registro, noção de mercadoria política proposta por Michel Mis- se (2006) foi (e é) de especial importância para conferir inteligibilidade a esses agenciamentos nas dobras do legal e do ilegal. É uma noção que opera efetivamen- te como um operador analítico: desativa a categoria moral-normativa de corrupção, desloca a discussão do campo da avaliação moral dessas práticas e define um es- paço conceitual a partir do qual é possível deslindar a dinâmica política desses mercados, melhor dizendo: o lugar do Estado na formação e estruturação desses mercados. O que está aqui sendo formulado como dobras do legal e ilegal qualifica-se e ganha em precisão. Nos termos de Misse, trata-se da articulação desses mercados, informais e ilícitos, como um outro mercado, um mercado político, também ilegal, que passa por dentro dos aparatos legais oficiais e nos quais são transacionadas as mercadorias políticas (acordos, suborno, compra de proteção, corrupção) dos quais dependem o funcionamento desses mercados e que são constitutivos de seus modos de regulação. Nas páginas que seguem, gostaria de retomar e desdobrar algumas dessas questões na tentativa de avançar o que pode ser entendido como pistas e hipóteses de trabalho a serem experimentadas em nossas pesquisas. 447Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 A discussão que se segue organiza-se em torno de duas ordens de questões: Primeiro ponto: os campos de força que se estruturam nas dobras do legal e ilegal. Isso me parece importante para conferir estatuto (e tirar consequências) à dinâmica dos conflitos, disputas e tensões que se armam nesses pontos de fricção com as forças da lei e da ordem, no jogo oscilante de práticas que transitam entre tolerância, formas de negociação, dispositivos de controle e repressão. É por esse prisma que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa pelos sentidos de ordem e seuinverso, bem como dos critérios de legitimidade dos orde- namentos sociais que vêm se engendrando nas fronteiras incertas — em disputa — do legal e legal. Essa é uma hipótese lançada em textos anteriores (Kessler e Telles, 2010a; Telles e Hirata, 2010; Telles, 2010) e que eu gostaria de retrabalhar nas páginas que se seguem. Ainda: o lugar estratégico da transação das mercadorias políticas na interface desses mercados com os poderes públicos nos permite avan- çar uma segunda hipótese: são jogos de poder que se fazem nos pontos em que se entrelaçam as redes urbanas de circulação de riquezas e as redes de poder em dis- puta em torno dos modos de apropriação dessa riqueza circulante. É isso o que parece estar em pauta nos conflitos e disputas instalados nos meandros urbanos do comércio informal e ilegal. Segundo ponto: o estatuto e o lugar das etnografias desses mercados, informais e ilegais. Já aviso, de partida, que não se pretende entrar aqui na espinhosa polêmi- ca, cara aos antropólogos, sobre a escrita etnográfica. Tampouco se pretende en- frentar a também espinhosa discussão sobre os desafios teórico-metodológicos postos pelas dinâmicas transnacionais que redefinem por inteiro o campo empírico do trabalho etnográfico. Essas são questões importantes, mas sua discussão ficará para outro momento. Aqui, o ponto é outro e diz respeito ao conhecimento que se pode produzir na descrição desses agenciamentos políticos, que nos interessa aqui bem entender. Na verdade, é uma terceira hipótese que eu gostaria de experimentar, uma hipótese teórico-metodológica que diz respeito ao modo de tratar a presença (e lugar) do estado e dos dispositivos legais nesses mercados e que remete ao que alguns autores vêm propondo nos termos de uma antropologia do Estado visto pelo ângulo de suas práticas em contextos situados ou, como propõem Das e Poole (2004), a partir de suas “margens”. Nesse plano, a etnografia desses mercados desdobra-se em uma etnografia política, colocando em mira os jogos de poder e relações de força que se processam nesses campos de disputa. Por essa via, podemos entender algo das dimensões políticas envolvidas nesses mercados. 448 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 Fronteiras da lei como campo de disputas Antes de mais nada, será preciso se deter sobre essa transitividade entre o formal e o informal, legal e ilegal, e também o ilícito, que está no centro das dinâ- micas urbanas de nossas cidades. De partida, vale dizer que se trata de uma trama intrincada de relações que torna inviável sustentar definições fixas, categoriais e normativas dessas categorias. De um lado, ao longo das rotas transnacionais dos circuitos informais, os produtos passam, como bem nota Rosana Pinheiro-Macha- do (2008), por verdadeiras metamorfoses legais, na própria medida em que os có- digos formais e parâmetros legais variam de um país a outro, como também varia o grau de tolerância das autoridades locais em relação a essas práticas mercantis. Por outro lado, a etnografia desses mercados mostra uma composição variada de procedimentos e expedientes formais e informais, legais e ilegais postos em ação para a circulação e transação desses produtos: as mercadorias podem ter uma origem formal legal, chegando ao consumidor pelas vias das práticas do comércio de rua, da fraude fiscal nas lojas em que são negociadas, passando (ou não) pelos trajetos do “contrabando de formiga” nas regiões de fronteira ou, então, pelos trajetos mais obscuros e mais pesados dos empresários dos negócios ilegais que agenciam o contrabando dos produtos que chegam pelos contêineres desembarcados nos prin- cipais portos do país (cf. Freire, 2012). Os atores também transitam de um lado e de outro das fronteiras porosas do legal e do ilegal: ambulantes em situação regu- larizada pela Prefeitura, mas que se abastecem de produtos de origem incerta, quase sempre indiscernível (contrabando, falsificações, “desvio”); pequenos co- merciantes envolvidos nos negócios do contrabando, mas que cuidam de respeitar (na medida do possível) os códigos legais na montagem de seus negócios. Ainda: migrantes bolivianos em situação regularizada e que estão à frente (patrões) de confecções de produtos falsificados, infringindo ao mesmo tempo códigos da le- gislação do trabalho, além do emprego de migrantes em situação irregular (conter- râneos e outros, como os paraguaios), tudo isso se compondo (mas nem sempre), sob modulações variadas, em uma nebulosa de situações incertas entre o legal e o ilegal que acompanham as extensas redes de subcontratação vinculadas ao pode- roso e globalizado circuito da moda e das grifes famosas (Côrtes, 2013). Também: empresários chineses bem estabelecidos, migração mais antiga, situação regulari- zada e de posse de títulos da cidadania brasileira e que, como mostra a pesquisa de Douglas Toledo Piza (2012), fazem uso dos recursos legais de que dispõem para se 449Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 lançar nos nebulosos negócios de importação (quer dizer: contrabando) e os negó- cios imobiliários, também nebulosos, vinculados às galerias que se multiplicaram nos últimos anos nos centros do comércio popular em São Paulo. Quanto aos mercados de bens ilícitos, essa transitividade entre o formal e o informal, legal e ilegal, processa-se nos meandros da “economia de bazar” que hoje se instala no coração dinâmico das economias urbanas. É questão que também aparece nas filigranas das etnografias desses mercados: uma superposição de ati- vidades informais e ilegais na qual os fluxos de dinheiro, de mercadorias, de bens de origem ilícita e também as drogas se entrecruzam em um complexo sistema de trocas, se inscrevem no jogo das relações sociais e passam a compor as dinâmicas urbanas que transbordam amplamente o perímetro dos territórios da pobreza. Mesmo quando se considera as atividades inequivocamente criminosas (quer dizer: sujeitas aos processos de incriminação), como é o caso dos pontos de venda de droga em um bairro de periferia, as situações perdem a nitidez suposta nessas formas de tipificação quando seguimos os traços dos percursos de bens e pessoas nas dinâmicas locais e do entorno imediato. Assim, por exemplo, na região em que fazemos nossas pesquisas, temos o exemplo do traficante local, patrão da “biquei- ra” instalada no bairro e que, preocupado com o seu futuro e o de sua família, trata de abrir um pequeno empreendimento no entorno próximo, uma loja de roupas ou, então, no caso de um gerente desse mesmo ponto de droga, uma lan-house intensamente frequentada pelos jovens da região. Um e outro, com a expertise própria dos que sabem lidar com os meandros das atividades ilegais, tratam de se precaver e evitar complicações com fiscais da Prefeitura, de tal modo que seus empreendimentos, na contramaré do que acontece em todos os lugares, são mais do que legais — produtos comprados em lojas, com nota fiscal, nada pirateado, nada falsificado, tudo comprovado e tudo muito bem documentado em registros formais legais. Ao mesmo tempo em que se tornam pequenos empreen- dedores locais, são eles, junto com outros tantos de seus parceiros nos negócios ilícitos, que fazem circular algo como os “excedentes” dos negócios da droga ao promover melhorias nos campos de várzea, distribuir cestas básicas, organizar festas juninas e, não poucas vezes, fazer a mediação e a negociação com órgãos da Prefeitura responsáveis por esses assuntos locais. A descrição dessas situações já foi feita em outras ocasiões e não é o caso de retomá-las (cf. Telles e Hirata, 2007, 2010; Telles, 2009, 2010; Hirata, 2010). Poderíamos multiplicar os exemplos. Por ora, importa salientar essa multipli- cidade e heterogeneidade interna às situações de formalidade ou legalidade, tanto 450 Serv. Soc. Soc., São Paulo,n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 quanto às situações informais e ilegais. Esta é a primeira questão a ser destacada: as fronteiras do legal e do ilegal não são lineares, muito menos dicotômicas. Dis- positivos (e práticas) formais e informais, legais e ilegais, operam como agencia- mentos práticos, situados, fazendo a combinação de recursos e repertórios de um lado e de outro; algo como marcadores e pontos de referência que fazem o traçado de territórios rizomáticos transpassados por redes superpostas de coisas e pessoas, transversais às várias situações de vida e trabalho e que se desdobram em outras tantas situações e outras tantas teias de relações situadas em outros contextos pró- ximos ou superpostos (cf. Chauvin, 2009; Fischer e Spire, 2009; Heyman, 1999). No entanto, se há porosidade nas fronteiras do legal e do ilegal, formal e in- formal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples. Esse é o se- gundo ponto a ser discutido, o mais importante: leis e códigos formais têm efeitos de poder e condicionam o modo como esses mercados e essas atividades se estru- turam. Circunscrevem campos de força e é em relação a eles que essa transitivida- de de pessoas, bens e mercadorias precisa ser bem situada. E, a rigor, descrita. São campos de força que se deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência de formas variadas de controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimen- tos de incriminação dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância, a transgressão consentida e a repressão. Essas fronteiras, portanto, são politicamente sensíveis. E circunscrevem cam- pos de disputa em que se combinam e se alternam a negociação, formas de contro- le, tolerância e repressão. É por esse prisma que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa surda ou aberta sobre os sentidos de ordem e o seu inverso, bem como dos critérios de legitimidade dos ordenamentos sociais (também em disputa) que vêm se engendrando nessas fronteiras incertas. * * * Se é verdade que essa transitividade entre o legal e ilegal, entre o formal e informal vem sendo flagrada em inúmeras pesquisas e está no cerne das questões discutidas por vários autores, também é verdade que as dimensões políticas dessas práticas e dessas atividades nem sempre são problematizadas. E é isso que será preciso entender. O fato é que se há porosidade nas fronteiras do legal e ilegal, formal e informal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples. Esse o ponto a ser discutido: leis e códigos formais têm efeitos de poder e condi- cionam o modo como esses mercados e essas atividades se estruturam. Circunscre- 451Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 vem campos de força e é em relação a eles que essa transitividade de pessoas, bens e mercadorias precisa ser situada. E, a rigor, descrita. São campos de força que se deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência de formas variadas de controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimentos de incriminação dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância, a transgressão consentida e a repressão conforme contextos, microconjunturas políticas e as rela- ções de poder que se configuram em cada qual. Essas fronteiras, portanto, são politicamente sensíveis. E isso significa dizer que será importante colocar no foco da análise justamente os jogos de poder que se processam nas dobras do legal e ilegal, do formal e informal. É por esse prisma que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa surda ou aberta sobre os sentidos de ordem e o seu inverso, bem como dos critérios de legi- timidade dos ordenamentos sociais (também em disputa) que vêm se engendrando nessas fronteiras incertas. * * * Para bem situar essas questões, permito-me lançar mão de uma situação tra- balhada por Maria Pita (2012) em Buenos Aires: é uma situação que nos interessa, pois, no conflito aberto em torno dos ambulantes senegaleses, é possível apreender o que parece estar em jogo nos campos de disputa que se armam nos centros de comércio popular em São Paulo, quiçá em outros lugares. Migrantes recentes, em sua maioria em situação irregular, desenvolviam um comércio de rua interditado pelos códigos urbanos nos locais em que se instalaram. As denúncias se multipli- caram: maus-tratos por parte das forças policiais, violência, abuso de poder, discri- minação racial, além da expropriação de bens e ganhos obtidos com o comércio informal. Também, o mais importante: o escândalo da diferença de tratamento em relação a outros ambulantes, com os quais prevaleciam os arreglos e transações em troca da garantia de não serem molestados. A situação terminou por mobilizar ad- vogados ativistas dos direitos humanos e desdobrou-se nas instâncias judiciais para resolver um litígio, no qual estavam em jogo os modos de aplicação da lei e os modos de operação das forças da ordem. Este é o ponto que me interessa frisar: nas cenas descritas por Maria Pita, os sinais do legal e ilegal se invertem, colocando em foco as irregularidades, quando não a ilegalidade dos modos de operação das forças da ordem. Quer dizer: os arreglos e a compra de proteção para uns; a vio- lência extralegal para os outros, os senegaleses. Quanto a esses, a suposta ilegali- 452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 dade de suas atividades também foi colocada em questão em uma disputa de inter- pretação da própria lei, dadas as ambivalências dos códigos urbanos que abriam brechas pelas quais as atividades de sobrevivência que eles desenvolviam não poderiam ser tipificadas como ilegais, nem crime, nem contravenção. No final, a solução não foi favorável aos senegaleses: em nome da lei e da ordem, os poderes de polícia foram reafirmados como modo de gestão e regulação desses territórios. Muito concretamente, esse o outro ponto a ser enfatizado: o seu poder de aplicar — ou não aplicar — a lei, sob a lógica própria de seu poder discricionário, autori- zando uns e interditando outros, tipificando os delitos de uns e outros (crime, contravenção), abrindo a uns (e não a outros) o ambivalente jogo de acordos, entre chantagem e compra de proteção em troca da não aplicação da lei. Essa cena aberta em torno dos senegaleses em Buenos Aires nos oferece, em filigrana, o que parece estar contido nos campos de força estruturados nos mercados informais de São Paulo. Assim, por exemplo: para contornar as formalidades legais e ampliar o raio de ação no combate à pirataria, as forças policiais não hesitam em lançar mão de outros modos de tipificação legal: crime contra as relações de con- sumo; sonegação fiscal ou formação de quadrilhas (quer dizer: enquadramento na definição de crime organizado). Ou, então, por desacato à autoridade no caso dos incautos que não acatarem a voz de comando da Polícia Militar, que hoje está à frente de um aberto e ofensivo “combate” aos ambulantes “irregulares”, por conta de um muito controvertido acordo da Prefeitura de São Paulo e o governo do Es- tado, a chamada “Operação Delegada”: a rigor, como diz Daniel Hirata (2012), uma “gambiarra jurídica” que suspende as circunscrições legais que definem as atribui- ções da Polícia Militar, de modo a ampliar o seu espaço de atuação nesse terreno em que as funções de fiscalização e controle eram de responsabilidade de outras instâncias políticas (fiscais da Prefeitura) e outros órgãos de polícia. Sob a lógica muito moderna e muito contemporânea das “tecnologias securitárias como modo de gestão do espaço urbano” (Hirata, 2012), processa-se a simbiose entre ordem pública e segurança urbana. Na prática, como enfatiza Hirata, uma legislação de exceção que amplia os poderes discricionários da polícia na execução dessas ope- rações, alterando as formas de controle e os modosde incriminação das transgres- sões legais ou irregularidades urbanas do comércio de rua. Trata-se, certamente, de um endurecimento das formas de controle. Mas é também importante notar o modo como as forças da ordem operam. É nesse plano miúdo e cotidiano que se pode flagrar o poder discricionário de que dispõem as forças policiais nos modos de aplicar (ou não aplicar) a lei e que se duplica e se 453Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 amplia na própria medida da imprecisão inscrita nos códigos legais, ainda mais quando se referem a situações também elas muito embaralhadas e intrincadas quanto ao estatuto das atividades desenvolvidas. Mas é nesse terreno que entram em cena práticas nebulosas que oscilam entre acordos, corrupção, troca de favores, compra de proteção — enfim, a transação das mercadorias políticas, sempre no limiar da chantagem, da extorsão e também dos usos da violência extralegal. Como mostra Carlos Freire (2012), esses dispositivos de controle acompanham programas de intervenção urbana que redefinem regras, critérios e procedimentos para a distribuição e a ocupação do comércio de rua nesses espaços, bem como a atribuição de garantias a uns, a suspensão de autorização a outros ou, então, a in- terdição das atividades a outros tantos. Ao mesmo tempo, novos dispositivos jurí- dicos são colocados em ação, como exigência para a formalização dessas atividades, introduzindo novas clivagens, as quais, na prática, deslocam e redefinem as próprias fronteiras do que é considerado formal e informal, legal e ilegal. Na fina etnografia que Carlos Freire faz das mutações recentes desses mercados, as regulações estatais postas em operação poderiam ser vistas como “um conjunto de táticas que recriam a informalidade, transformando-a em governamentalidade” (Alsayyad e Roy, 2009), táticas que combinam dispositivos políticos-jurídicos (promoção do chamado empreendedorismo, conversão dos ambulantes em microempreendedores), o uso da coerção para impor as novas regras do jogo e a repressão aberta, quando não o uso da violência extralegal justificada em nome do “combate à pirataria” e a “guer- ra ao crime” agora associado ao comércio de rua nesses lugares. Há toda uma cartografia política do comércio que se redefine, cujos contornos são cambiantes tanto quanto as regras — em disputa — que regem o acesso e o funcionamento desses mercados, ao mesmo tempo em que há legião de ambulantes que, desprovi- dos do “credenciais” de reconhecimento, são expulsos, sujeitos às formas mais agressivas de controle e repressão, espalhando-se por outros cantos da cidade. Essa conjugação entre formas de intervenção urbana e dispositivos de contro- le terminaram por estruturar um acirrado campo de disputa justamente em torno das regras de ocupação desses espaços. Regras cambiantes e incertas quanto aos critérios que autorizam uns e não outros para o exercício de suas atividades e que definem sua distribuição entre os lugares mais valorizados e os que ficam nas suas fímbrias. Campos de tensão e de conflito que também se estruturam em torno das taxas cobradas de uns e outros para o exercício das atividades; taxas de legalidade duvidosa em alguns casos, de legitimidade contestada em outros, até porque é tudo mesmo muito nebuloso: nunca se sabe ao certo se são dispositivos legais ou, então, 454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 formas quase institucionalizadas dos mercados de proteção ou acordos mafiosos com as autoridades informais que fazem a gestão desses espaços ou, ainda, os meandros intrincados da corrupção, mobilizando atores e suas redes de relações: empresários dos negócios ilegais, forças policiais, políticos e suas máquinas parti- dárias, gestores urbanos, funcionários de agências estatais, também empresas pri- vadas envolvidas nos chamados projetos de recuperação urbana da região e nas quais não faltam conexões transnacionais (fontes de financiamento, acionistas, consultores). Nos meandros dessa cadeia de relações, processam-se os agenciamen- tos políticos igualmente nebulosos, acordos e negociações, conflitos, disputas e, muito frequentemente, histórias de morte. Tudo isso é matéria da fina etnografia desses mercados que os autores aqui citados nos entregam. Por ora, essas rápidas (e incompletas) indicações são aqui lançadas pelas questões que suscitam. Esses dois exemplos, ou melhor, essas duas cenas urbanas, senegaleses em Buenos Aires, ambulantes em São Paulo, fazem ver os modos operantes da lei e dos códigos formais, melhor dizendo: as práticas e os agenciamentos situados pelos quais a presença do Estado deixa suas marcas im- pressas na cartografia cambiante desses territórios. Nos termos de Veena Das (2007), “assinaturas do Estado” impressas no modo como códigos, normas, leis circulam, são agenciados, negociados, postos em ação nos contextos situados desses territó- rios, redefinindo a distribuição do permitido, do tolerado e do reprimido, bem como o jogo oscilante entre a repressão e os acordos negociados, entre o legal e o extra- legal. Altera-se a cartografia política, tanto quanto a distribuição dos lugares, das posições, das hierarquias na ocupação desses espaços. É importante notar que as “assinaturas do Estado” são o registro da presença do Estado, a sua face legal-bu- rocrática, com diz a autora, incorporada nas regras e regulações desses espaços e dessas atividades, nos seus dispositivos, agentes e procedimentos pelos quais elas se efetivam, operando como uma “força gravitacional” das práticas e modos como os atores lidam com a situação, e seus pontos de fricção, os recursos mobilizados para contornar, resistir, enfrentar e, no final das contas, sobreviver nesses lugares (Das, 2007). No caso dos mercados de bens ilícitos, Gabriel Feltran (2012) nos entrega outras tantas situações que nos ajudam a pensar essas questões. Nas três “situações etnográficas” trabalhadas por Feltran em um bairro da periferia da cidade de São Paulo, as “assinaturas do Estado” também circulam no modo como “crime” e “criminosos”, “trabalhadores” e “bandidos” são qualificados (ou não) como tais no jogo interativo (e conflitivo) com a polícia no uso de seu poder discricionário 455Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 para aplicar (flagrante, prisão) ou não a lei (acordos, transações). Mas as “assina- turas do estado” também circulam conforme as “credenciais” dos indivíduos en- volvidos e que condicionam o modo como a polícia arbitra essas situações, quer dizer, condicionam os jogos estratégicos de poder nesses contextos situados: seja a situação legal dos indivíduos — menores de idade e, portanto, amparados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, garotos em situação de “liberdade assistida”, sob tutela de entidades sociais locais ou, então, ex-presidiários e indivíduos em situação de liberdade condicional e que, por isso mesmo, tentam por todas as vias contornar o flagrante (operação de registro legal) e a volta à prisão —; seja o modo como uns e outros se situam no interior do “mundo do crime”: o preço do acordo varia conforme a posição do indivíduo no mercado local de drogas e conforme sua importância no interior da organização criminosa que controla os negócios ilícitos na região; seja, finalmente, no modo como os acordos são feitos (ou não) confor- me essas credenciais (legais e não legais) e a rede de relações que uns e outros são capazes de mobilizar: a família e seus “conhecimentos” no mundo do crime e nas esferas legais, a polícia, delegados e advogados que operam a transação entre a lei e o “crime”, grupos criminosos que arcam (ou não) com os custos dos acordos e que se declinam conforme os protocolos de suas relações com as forças da ordem e da lei. Colocadas lado a lado, essas microcenas que pontuam os mercados informaise os mercados de bens ilícitos fazem ver os modos operantes da gestão diferencial dos ilegalismos — algo que faz parte dos modos de funcionamento do poder.1 É importante reter a questão: a noção de gestão diferencial dos ilegalismos define um plano conceitual que permite situar o lugar da lei e dos dispositivos formais não como referência normativa, mas como locus de ajustamentos variáveis das relações de poder nos meandros desses mercados e dessas atividades das quais estamos aqui tratando (Peralva, 2010; Telles, 2010). E isso tem consequências que seria preciso explorar. Primeiro: é esse um espaço conceitual que nos permite situar e conferir esta- tuto a práticas e agenciamentos políticos que se fazem nas dobras do legal e do 1. Ao cunhar essa noção, Foucault desloca a discussão da tautológica e estéril binaridade legal-ilegal, para colocar no centro da investigação os modos como as leis operam, não para coibir ou suprimir os ilegalismos, mas para diferenciá-los internamente, “riscar os limites de tolerância, dar terreno para alguns, fazer pressão sobre outros, excluir uma parte, tornar útil outra, neutralizar estes, tirar proveito daqueles (Foucault, 1997, p. 227). A noção de ilegalismos e gestão diferencial de ilegalismos foi tratada por mim em trabalhos anteriores. Cf. Telles, 2009, 2010. 456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 ilegal. As leis, diz Foucault, “não são feitas para impedir tal ou qual comportamen- to, mas para diferenciar as maneiras de contornar a própria lei” (Foucault, 1994, p. 716). Mas é justamente nesses torneios da lei que as questões se configuram. É isso o que está aqui sendo visado ao se chamar a atenção para o que acontece nas dobras do legal-ilegal. Segundo: as microcenas rapidamente indicadas nas páginas anteriores também fazem ver que a gestão diferencial dos ilegalismos se processa em contextos situa- dos. E é por referência a essa dimensão contextual que se pode apreender os cam- pos de força e de disputa que se instauram em torno dessas fricções com a lei e o Estado, não como entidades formais abstratas, mas na lógica de seus modos de operação nesses terrenos que se tecem em torno dos modos incertos e diferenciados de aplicação (ou não aplicação) da lei. É aí que se instauram campos de força que colocam em cena uma meada de atores distribuídos nas posições e hierarquias que conformam a cartografia cambiante desses territórios. É o terreno do arbítrio, do uso da violência e dos dispositivos de exceção constitutivos dos modos operantes, práticos, da lei e das forças da ordem. Mas é esse também o campo de negociações, acordos, disputas entre os atores envolvidos, também eles transitando entre dispo- sitivos legais e ilegais. Terceiro: nesses contextos situados, matéria da etnografia fina desses merca- dos e dessas atividades, é que se pode apreender a face política dessa trama de práticas informais e ilegais, na sua interface com as forças da lei e os dispositivos políticos, também jurídicos, que circunscrevem, para usar os termos de Fischer e Spire (2009), as arenas da gestão dos ilegalismos. É isso que será preciso ainda bem entender e, por essa via, conferir estatuto — político, teórico — aos conflitos e disputas inscritos nesses pontos de fricção com a lei e que acompanham a expansão dos ilegalismos nas tramas urbanas. Antropologia do Estado: apontamentos Se é importante entender o lugar do Estado e da lei nesses ordenamentos, isso nos coloca uma questão de ordem teórico-metodológica: de partida, será preciso se desvencilhar das “imagens verticais” do Estado (Ferguson e Gupta, 2002; Gupta, 2006) e das definições normativas da lei e do direito. Quer dizer: o Estado e as leis tomados como entidades unitárias (ou típico-ideais), pressuposto 457Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 e axioma a partir do qual tudo o que ocorre no plano das práticas efetivas aparece no registro da falta, da falha ou, então, no caso de nossas sociedades, das “heran- ças malditas” legadas por uma história de longa duração (Das e Poole, 2004). Exigência, portanto, de um deslocamento de perspectivas para perscrutar as rela- ções de poder tal como elas se processam nos contextos situados de tempo e de espaço (Misse, 2006, 2009). Mais ainda: exigência de um deslocamento de perspectiva para dar conta das redefinições dos jogos de poder nesses pontos de inflexão do mundo contemporâneo e bem situar as interrogações (outras perguntas) acerca dos ordenamentos sociais que vêm se desenhando nas últimas décadas. Como dizem Das e Poole (2004), é o caso de se perguntar pela relação entre práticas extralegais e os modos de funcio- namento do Estado, algo que se instala no interior de suas funções de ordenamen- to. É isso, dizem as autoras, que pode nos dar uma chave para entender a própria produção da ordem, rastreando os modos de operação dos dispositivos legais e das agências estatais, seus tempos, seus procedimentos, suas técnicas e tecnologias de ação, em contextos situados no tempo e no espaço. Mais ainda e mais fundamen- talmente: em vez de partir da imagem consolidada do Estado como entidade polí- tica e administrativa que tende a se debilitar ou a se desarticular nas suas margens territoriais e sociais (os confins do Estado, vistos como zonas sem lei, territórios do não direito), é o caso de deslocar o campo a partir do qual as questões podem ser formuladas. Pois é o Estado que produz essas “margens” e, sendo assim, trata-se, então, de rastrear o modo como “as práticas e políticas da vida nessas áreas mode- lam as práticas políticas de regulação e disciplinamento que constituem aquilo a que chamamos “o Estado” (Das e Poole, 2004, p. 3). São nessas margens que “o Estado está constantemente redefinindo seus modos de governar e legislar”, justa- mente nesses pontos de fricção com práticas e outras formas de regulação inscritas nas tramas da vida nesses lugares. No centro dos debates contemporâneos, essas são, certamente, questões de fronteira, aqui apenas muito rápida e toscamente indicadas. Nos limites destas páginas, vale dizer e enfatizar: é nesse plano que o exercício etnográfico ganha toda a sua importância para perscrutar os agenciamentos práticos dos dispositivos polí- ticos postos em ação, suas técnicas, protocolos e modos de operação. Não por acaso, os autores aqui citados (e outros) chamam a atenção justamente para isso: a importância de uma antropologia do Estado. Na formulação de Das e Poole (2004), trata-se de tomar como perspectiva o que acontece nas suas “margens” e, por essa via, entender a mecânica de funcionamento do próprio Estado ao rastrear as relações 458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 que articulam internamente lei e exceção, direito e “vida nua”. Na versão de Fischer e Spire (2009), o ponto de mira são as arenas de gestão diferencial dos ilegalismos, que permitem rastrear as redefinições e deslocamentos da lei e do direito (e do lugar da lei e do direito) que acompanham o atual recentramento das atividades do Esta- do e seus operadores em torno dos dispositivos de governamentalidade (quer dizer, gestão das populações). Na proposta de Heymna e Smart (1999), trata-se de colocar em foco as práticas e processos (e não regras e estruturas) e, por essa via, entender os nexos que articulam o Estado e práticas ilegais, que perpassam os modos de operação de suas agências, suas instâncias e seus postos burocráticos, e que podem abrir um caminho para o entendimento dos modos de formação e a mecânica de funcionamento das leis e do Estado. É sob essa perspectiva, dizem os autores, que é possível se desvencilhar do cânone que postula o Estado como entidade unitária e portador de uma única racionalidade. O Estado não é uma invenção da lei e da ordem, dizem os autores, mas uma rede complexa dolegal e do ilegal: as leis criam inevitavelmente a sua contrapartida, zonas de ambiguidade e de ilegalidade, que criam por sua vez todo um campo de práticas e agenciamentos que se ramificam por vários lados, também mercados alternativos e oportunidades para bens e servi- ços ilegais. Esses autores, cada qual partindo de suas respectivas chaves teóricas e cam- pos de problematização, tratam de colocar no foco do trabalho etnográfico os nexos que articulam Estado e práticas ilegais, regulações estatais e não estatais, o formal e o que escapa às suas codificações. Transversal a todas essas questões está uma indagação de fundo sobre os processos pelos quais Estado, leis e ordem se constituem e como operam em contextos situados. Esse é um registro interessan- te para se apreender o sentido das transformações que abalaram, nos últimos tempos, justamente as relações entre Estado, economia e sociedade, de tal forma que essas categorias (Estado, leis, ordem) perdem sua autoevidência como refe- rência normativa e axioma não refletido das categorias cognitivas (e normativas) das ciências sociais. E é justamente nesses deslocamentos que, em vez do uso normativo e pré-codificado dessas categorias, estas assinalam o lugar de uma questão, questão política, também questão ou questões de pesquisa — que precisa ser problematizado. Essa é uma discussão de fundo, que vai além do que se pretende e se tem condições de fazer nos limites destas páginas. Mas é importante reter essas ques- tões, pois elas ajudam a qualificar o campo de disputa que se estrutura nessas fronteiras incertas, também elas em disputa, do formal e informal, do legal e 459Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 ilegal. No que diz respeito aos mercados informais, seria possível dizer que, nas filigranas das cenas descritivas comentadas páginas atrás, parece se explicitar um campo de disputas em que as próprias fronteiras da economia estão se redefinin- do nos meandros, também em disputa, desses mercados: campos de força e de disputa que se estruturam em torno das regras e critérios que introduzem novas clivagens, definem a cartografia política, sempre cambiante, desses lugares e regem o acesso (e bloqueios) a esses mercados; disputas em torno dos modos legais e extralegais de regulação desses mercados; disputas em torno dos meios legais e extralegais de apropriação da riqueza circulante; disputas em torno dos critérios de ordem e seu avesso. Seguindo Beatrice Hibou (1998), em outro con- texto de discussão, mas com fortes ressonâncias com o que se está aqui discutin- do, a incerteza quanto às fronteiras do legal e ilegal, bem como das regras do jogo nesses campos de disputa, é também uma forma de governo e um instrumento de poder. Mas, então, seria possível desdobrar a questão pois fica a sugestão de que se trata de “modos de governar as fronteiras de criação de riquezas”, para usar os termos de Jannet Roitman (2004), em um texto no qual essas linhas estão forte- mente inspiradas. No coração de nossas cidades (e outras), esses mercados podem ser tomados como “fronteiras analíticas”, para usar a expressão de Saskia Sassen (2008), em que as regras e os jogos de poder estão se redefinindo. Mas é por isso mesmo que são um lócus privilegiado para entender os nexos que articulam lei e exceção, di- reito e violência, contratos e força no próprio modo como os mercados são produ- zidos. É em torno desses nexos que se estruturam os campos de força contidos nos modos como ordenamentos sociais se fazem nas fronteiras incertas do legal e do ilegal. Nas microcenas que pontilham esses mercados, temos as pistas para enten- der o modo como os ordenamentos sociais são fabricados, engendrados em um campo de disputa que desloca, faz e refaz a demarcação entre a lei e o extralegal, entre justiça e força, entre acordos pactuados e a violência, entre a ordem e seu avesso. Também os limites do tolerável e intolerável, esse ponto que estala nas formas abertas de conflito e que também se pode ouvir nos “rumores da multidão” (Thompson). Recebido em 14/6/2013 ■ Aprovado em 20/6/2013 460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 Referências bibliográficas ALSALYYAD, N.; ROY, A. Modernidade medieval. Novos Estudos, São Paulo, p. 1-26, 26 nov. 2009. CHAUVIN, S. En attendant les papiers. Politix, Paris, v. 87, n. 3, p. 47, 2009. CORTÊS, T. 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A inserção do Serviço Social na Instituição é atravessada pelas contradições que a permeiam e compartilha de propósitos convergentes à sua missão, dado o projeto ético-político-profissional. Apresenta potencial para contribuir no diálogo com os movimentos sociais e conselhos de di- reitos, bem como no fomento e na fiscalização das políticas públicas, fundamentado em um ideário emancipatório. Palavras-chave: Ministério Público. Serviço Social. Direitos humanos. * Este artigo teve como ponto de partida a tese de doutorado da autora, publicada com o título O direito humano à proteção social e sua exigibilidade: um estudo a partir do Ministério Público (2012), tendo sido o texto original acrescido de dados atualizados sobre os encontros nacionais do Serviço Social no Ministério Público, bem como de considerações sobre as atribuições da profissão na instituição em questão. A investigação, de cunho qualitativo, fundamentou-se no materialismo histórico e dialético, constituindo-se em estudo de caso. Para o estudo, utilizaram-se as seguintes fontes: grupo focal com assistentes sociais; questionário com coordenadores de Centros de Apoio de diversos estados; 234 artigos de promotores, procuradores de Justiça e 45 artigos de assistentes sociais, apresentados em congressos e encontros do Ministério Público; documentos e pesquisas sobre a instituição. O objetivo central do estudo foi analisar a atuação do Ministério Público estadual na exigibilidade da proteção social brasileira após 1988, quando a Constituição Federal o incumbe da defesa dos interesses sociais, individuais indisponíveis e do regime democrático. ** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/ RS, Brasil. Especialista em Família pela Clínica Domus e em Educação de Jovens e Adultos, na Perspectiva da Educação Popular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2002 é assistente social do Ministério Público do Rio Grande do Sul. E-mail: silviast@mp.rs.gov.br. 463Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Abstract: This article approaches the emergence of the Department of Justice in the public sphere. Such emergence is oriented by the mission (which is still in dispute in the institution) of defending the democratic regime and the human rights. The insertion of Social Work in the institution is crossed by the contradictions that permeate it and share the purposes of the mission of the institution, given its ethical-political-professional project. It shows potential to contribute to the dialogue with the social movements and rights councils, as well as to the increase and inspection of public politics, as it is marked by emancipatory ideas. Keywords: Department of Justice. Social Work. Human Rights. 1. Introdução O presente artigo aborda o recente processo histórico de inserção do Serviço Social no Ministério Público brasileiro, instituição incumbida pela Constituição Federal de 1988 da defesa do regime democrático e dos interesses individuais indisponíveis e sociais. A partir do final de década de 1990, desencadeia-se um movimento de contratação de assistentes sociais na instituição, o que se acentuou na década de 2000. Tendo em vista per- curso histórico tão recente, abrem-se múltiplas possibilidades de qualificar e dire- cionar o exercício profissional nesse espaço sócio-ocupacional. Inicialmente, situa-se de modo breve o processo histórico do Ministério Pú- blico até a assunção da missão insculpida no artigo 127 da Constituição Federal, oferecendo, ainda, uma visão geral acerca da instituição e de seus desafios. Em seguida, são discutidos os caminhos que o Serviço Social vem percorrendo na instituição, as demandas, as requisições, a direção social que a profissão vem deli- neando, seus principais limites e possibilidades. São tecidas possibilidades para as atribuições do Serviço Social no Ministério Público, à luz do projeto ético-político-profissional, que tenham potencial para contribuir com as lutas sociais pela defesa e garantia dos direitos humanos. Ao final, sinalizam-se os desafios organizativos para a profissão e as alianças necessárias para que o Serviço Social contribua na aproximação do Ministério Público aos propósitos definidos pela Constituição Federal. 464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 2. A emergência do ministério público como instituição de defesa de direitos As origens da instituição Ministério Público revelam seu surgimento com o advento da Revolução Francesa, em 1789, e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quando os reis deixaram de realizar a justiça pessoalmente, dele- gando tal função ao magistrado. Nessas circunstâncias, surgiu a necessidade de um órgão fiscalizador ao juiz — o Ministério Público (Maia Neto, 1999). Seu nascedouro o coloca no lugar de acusador, a princípio como representante do in- teresse do monarca e, depois, especialmente a partir do século XVIII, com o libe- ralismo, passou a representar os interesses da sociedade no papel acusatório (Porto, 2006). No Brasil, figura mais próxima ao representante do Ministério Público surgiu no Brasil Colônia, nas disposições contidas nas Ordenações Filipinas. Naquele período histórico, o Ministério Público não existia como instituição, os promotores públicos da época eram nomeados e exonerados livremente pelos presidentes das províncias e vinculavam-se ao Poder Executivo (Maia Neto, 1999). A figura do promotor público passou a existir com a Lei n. 261, de 3/12/1841 (reforma do Código de Processo Criminal), mas a existência formal da instituição está vincula- da ao Decreto Federal n. 1.030, de 1890, no início da República, no governo do marechal Deodoro da Fonseca (Maia Neto, 1999). Os apontamentos históricos acerca do processo de constituição do Ministério Público permitem identificar correlações entre o papel destacado ou restrito e o período histórico. Nesse sentido, nas ditaduras civil e militar, por exemplo, cons- tata-se uma restrição na atuação e importância social da instituição, observando-se o contrário nos períodos de maior abertura política. A Constituição Federal de 1988 diferenciou-se das demais por definir o Mi- nistério Público com maior precisão: garantindo-lhe autonomia funcional e admi- nistrativa; estabelecendo critérios formais para a escolha do procurador-geral da República e dos estados; permitindo a exclusividade da promoção da ação penal, bem comoampliando a titularidade para o inquérito civil e para a ação civil públi- ca no que concerne aos interesses difusos e coletivos (Porto, 2006). Assim, no decorrer do processo histórico, as funções do Ministério Público foram se modificando, sendo hoje caracterizado como instituição voltada para a 465Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 defesa dos interesses da sociedade, no que diz respeito aos direitos difusos, indivi- duais indisponíveis e sociais.1 Ritt (2002), ao analisar o papel do Ministério Público, constituído recente- mente, ressalta que as garantias conquistadas pela instituição, como a indepen- dência funcional, vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídios, passando a ser considerada, por alguns, como poder de Estado, não vêm neces- sariamente acompanhadas de um entendimento claro de sua missão institucional e da consequente importância na realização de uma sociedade justa e igualitária. Já para Porto (2006), o paradoxo vivido pelo Ministério Público reside na assunção da missão de defesa dos interesses coletivos, ao mesmo tempo em que conserva a condição de instituição estatal. Defende o referido autor que o Minis- tério Público transitou da sociedade política para a sociedade civil, a partir da visão gramsciana de Estado, por três razões: a social, devido à vocação de atuar na defesa da sociedade; a política, pelo compromisso assumido na história de defesa da democracia e de suas instituições; a jurídica, em razão das garantias constitucionais. As reflexões dos autores citados, sem dúvida, conferem relevo aos dilemas contemporâneos da instituição, uma vez que ela passou a assumir importância para o conjunto da sociedade, sem estar plenamente preparada para tanto. O papel de zelar pelos direitos coletivos, ou seja, pelos interesses da maioria da sociedade e, em especial, daqueles segmentos mais vulnerabilizados pela pobreza e por formas variadas de discriminação, implica agregar novos conhecimentos sobre o sistema de proteção social, sobre o funcionamento e a estrutura das políticas públicas, sobre habilidades de negociação e de debate com distintos atores sociais. Isso leva a concluir que a instituição passa a necessitar de promotores e procuradores de jus- tiça e servidores com novas competências e habilidades que se coadunem com sua missão institucional, o que, por certo, é um processo em construção. 1. Nessa seara, Mazzilli (1998) esclarece os interesses definidos legalmente, distinguindo-os quanto à disponibilidade e à titularidade. No primeiro caso, disponíveis são os interesses de maiores e capazes, como os patrimoniais, e indisponíveis são direitos como os relativos à vida e à liberdade. Já com relação à titularidade, têm-se interesses: individuais; individuais homogêneos (grupo de pessoas que partilham de prejuízos divisíveis decorrentes de uma mesma circunstância); coletivos no sentido estrito (grupo de pessoas determináveis que partilham de prejuízos indivisíveis decorrentes de uma mesma relação jurídica); difusos (grupo de pessoas indetermináveis com danos indivisíveis e reunidas pelas mesmas circunstâncias do fato); interesse público em sentido estrito (Estado é o titular, se distingue do interesse privado); interesse público em sentido lato. 466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 A autonomia e a independência funcional visam conferir à instituição, no âmbito do estado democrático de direito, uma atuação não subjugada a interesses de governos ou de qualquer outro dispositivo de poder presente na sociedade. Nes- sa esteira, o Ministério Público tem o dever de agir quando os segmentos mais vulnerabilizados e enfraquecidos na luta política apresentam necessidades não supridas, como crianças e adolescentes, idosos, interditos, pessoas com deficiência, entre outros, tendo um papel ativo na defesa de direitos. O regime democrático exige dos agentes do Poder Público atuação em defesa dos interesses gerais e indisponíveis dos cidadãos. A realização efetiva da Justiça é alvo da instituição do Ministério Público. O promotor de Justiça, como seu representante, é um verdadeiro justitie-ombudsman, delegado permanente da coletividade, advogado por excelência da sociedade, que vela pela correta aplicação da lei e funciona como instância de tutela individual e coletiva de cidadania. (Maia Neto, 1999, p. 35) Nesse contexto, há uma corrente percepção institucional de que é mais pro- dutiva a intervenção em situações de não garantia de direitos no âmbito extrajudi- cial, visto que a jurisdicionalização de causas pode se estender por longos períodos. Rojo (2003, p. 25) ratifica tal assertiva quando refere que a jurisdicionalização pode surtir o efeito contrário e transformar-se em um mecanismo que ajude a postergar as decisões. Com efeito, este recurso à lei e seus magistrados pode permitir ao poder político criar uma aparência de tratamento do assunto, quando em realidade o que ele consegue é suspender a resolução deslocando as demandas a um espaço supostamente técnico onde os cidadãos teriam mais dificuldades para controlar ou apressar sua evolução. Dessa forma, a jurisdicionalização de conflitos é matéria controversa que, se por um lado pode constituir-se em meio de assegurar direitos, por outro pode mas- carar negativas de direitos e, mais do que isso, institucionalizar possíveis lutas sociais, que teriam maior êxito se desenvolvidas no contexto social no qual se produzem. Nesse diapasão, o Ministério Público está imerso em relações sociais, e sua aproximação ou afastamento da missão atribuída constitucionalmente encontra conexão com interesses, projetos políticos e relações que se estabelecem e que estão em disputa. Entre relações e projetos, o Ministério Público emerge do texto constitucional com a potência de criar novas hegemonias, em direção a uma socie- 467Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 dade mais igualitária, em que os frutos do desenvolvimento das forças produtivas sejam compartilhados entre todos. Todavia, o novo emerge emaranhado ao velho. O Ministério Público é incumbido de uma missão que não foi apropriada interna- mente por todos os seus membros, evidenciando-se a disputa pela hegemonia da direção social da instituição. A missão constitucional do Ministério Público se efetivará na medida em que a instituição for capaz de dialogar com os diferentes atores que compõem a esfera pública, portadores de interesses e projetos políticos distintos. Assim, não lhe bas- ta a vontade de constituir-se em um articulador da garantia dos direitos humanos, pois esta é apenas parte; há, ainda, as circunstâncias (Nogueira, 2004). A explici- tação de interesses e projetos, o desvendamento de sua essência, no claro-escuro do real, e a sua apreensão pelos agentes ministeriais são essenciais. A visão de to- talidade, a conexão entre os fragmentos do real e a compreensão crítica da corre- lação de forças é que dará qualidade política à intervenção do Ministério Público, por meio de sua preparação para o diálogo entre os atores que interagem na esfera pública. Isso desafia o Ministério Público a construir dispositivos analíticos dire- cionados a essas realidades complexas, que permitam o dimensionamento de estra- tégias e posicionamentos em favor daqueles interesses que se coadunam com os direitos humanos a ser garantidos por meio das políticas públicas. Ao atribuir-se significado a essas relações percebe-se que elas são atravessa- das por contradições. Constata-se que a instituição vive, nas suas relações com os demais atores da esfera pública, uma tensão fundante entre a posição de fiscal e a de parceiro, que acaba por se expressar na ambiguidade da identidade institucional. A partir dessa ambiguidade, identificam-se tendências distintas das relações esta- belecidas, as quais podemser agrupadas de forma reguladora e dialógica. A primei- ra, amparada em perspectiva iluminista, coloca a instituição no lugar do saber, portanto capaz de oferecer saídas, orientar, conduzir as relações ou de lançar mão de mecanismos coercitivos. Essa tendência revela a dificuldade em transitar em meio a uma dinâmica complexa de relações e interesses, vislumbrando como alter- nativa o uso do lugar de autoridade da instituição. A segunda, que pode ser alinha- da com uma ideia de direção político-cultural, volta-se para a construção de meca- nismos educativos, com potencial para a indução de políticas públicas. Essas tendências nem sempre se apresentam na realidade de modo límpido; por vezes estão imbricadas nas experiências cotidianas. É necessário reconhecer que a própria missão atribuída ao Ministério Público na Constituição coloca-o em lugar de centralidade. Esse lugar convida à postura 468 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 iluminista, ao caminho da arrogância e do messianismo. Por outro lado, essa missão dá-se no âmbito do estado democrático de direito, que tensiona para a construção de direções hegemonicamente edificadas, ou seja, requer capacidade de dirigir técnica e politicamente, de construir consensos (Nogueira, 2004) e “saídas” alicer- çadas coletivamente. As situações, individuais e coletivas, que aportam ao Minis- tério Público, são dotadas de complexidade, pois manifestam as ausências e as negações de direitos. Esse contexto insta à oscilação entre a impotência e o mes- sianismo, o que é um risco às relações e à atuação institucional, pois ambas as posições podem conduzir à omissão e a comportamentos antidemocráticos. No entanto, os achados da pesquisa realizada indicam que o reconhecimento dos diferentes interesses e a capacidade de negociação, sem transigir nos direitos a serem garantidos, podem auxiliar na convergência de direção social. Nessa perspectiva, os caminhos escolhidos para a ação devem fortalecer a democracia e a corresponsabilidade dos atores envolvidos, alcançando a pactuação de acordos que conduzam à afirmação dos direitos. Assim, a atuação institucional na direção das políticas públicas, capazes de disponibilizar os direitos assegurados no plano legal é, sem dúvida, um caminho profícuo para a consecução da sua missão, mas encontra, nas relações estabelecidas, a sua potência e a sua fraqueza. Identificam-se duas vertentes no que concerne às políticas públicas: a do fo- mento e a da fiscalização. No caso do fomento, evidencia-se que o guia para a ação institucional são os direitos garantidos legalmente e ainda não efetivados, consti- tuindo-se numa agenda de direitos. A fiscalização das políticas públicas, por sua vez, relaciona-se com a qualidade da política pública, evidenciando que não basta a oferta de programas, projetos e serviços correlacionados a direitos; é preciso avaliar sua qualidade e correspondência aos direitos assegurados. Dessa forma, a fiscalização é dotada de expressiva complexidade, pois conduz o Ministério Públi- co ao âmago das políticas, à sua gestão, aos paradigmas que as definem, aos seus processos cotidianos de trabalho. Tanto a atuação rumo ao fomento das políticas públicas quanto a sua fiscali- zação indicam a necessidade de que a instituição esteja devidamente apoiada por equipes técnicas multidisciplinares, qualificadas quanto à concepção e ao funcio- namento das políticas públicas, o que requer determinado arcabouço de conheci- mentos técnicos. Além disso, pede o planejamento das ações institucionais, visto que o fomento e a fiscalização são incompatíveis com ações voluntaristas e condi- cionadas aleatoriamente às demandas externas, pois são atividades que requerem especialização e direcionamentos claros dos trabalhos, em termos metodológicos 469Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 e de suas finalidades. É nesse contexto desafiador e complexo que o Serviço Social vem atuando desde meados da década de 1990, sendo essa caminhada objeto de análise do próximo item. 3. O processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público O Serviço Social é uma profissão com inserção recente no Ministério Público e fruto do processo de mudança vivido pela instituição quanto à assunção da missão de defesa dos direitos individuais indisponíveis e sociais. Identifica-se a consonân- cia entre a missão institucional quanto à garantia de direitos humanos e o projeto ético-político-profissional, sendo aqui apontadas algumas das construções coletivas da categoria no Ministério Público e, ainda, seus limites e desafios. Inicia-se pela discussão e apresentação da categoria demandas, pois estas expressam a intencionalidade da instituição ao incorporar os assistentes sociais em seus quadros. Identifica-se que as demandas encaminhadas aos profissionais são as mais diversas; porém, quanto ao âmbito da intervenção, é possível reuni-las em dois grupos: em situações individuais e em matérias de direito difuso e coletivo. O primeiro grupo envolve o estudo social, subsidiando os promotores de justiça quanto à condução de violações de direitos nesse âmbito; o outro, atividades rela- tivas à exigibilidade de políticas públicas, tais como: fiscalização, fomento, acom- panhamento, controle e avaliação; realização de estudos e pesquisas sobre deter- minada realidade; articulação política relativa à promoção de diálogos, firmatura de pactos, termos e parcerias para garantir direitos/cumprimento de políticas públi- cas; vistorias em entidades com o fito de avaliar a qualidade do atendimento. Os artigos apresentados no I, II, III e IV Encontro Nacional do Serviço Social no Ministério Público (ENSSMP), realizados de 2006 a 2012, bianualmente, são aqui considerados expressão das demandas trabalhadas pelos profissionais neste espaço sócio-ocupacional. Foram elaborados, no período, setenta artigos, entre os quais o tema com maior destaque é a direção social do Serviço Social no Ministé- rio Público, com 34,27% (24) das produções, sendo que muitos dos textos realizam a apresentação das experiências profissionais, enfocando os avanços e dificuldades na aproximação daquilo que consideram o direcionamento almejado pela categoria na instituição. Em seguida, tem-se a temática da fiscalização de entidades de aten- dimento e políticas públicas que figura com 10% (7) do todo, o que encontra rela- 470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 ção com a atuação no âmbito do direito coletivo e com a previsão em diversas le- gislações de atribuições do Ministério Público na fiscalização das entidades de atendimento e da defesa de direitos de modo geral, materializada por meio das políticas públicas. É interessante apontar, igualmente, a significância das produções em torno dos novos sujeitos de direitos, ou seja, segmentos como o idoso, a pessoa com deficiência, a mulher, que, juntos, contam com 25,71% (18) das produções. O in- fantojuvenil, por sua vez, embora não apareça como tema central, consta em mui- tos artigos como pano de fundo, em discussões cujo foco está deslocado para outros temas: a estratégia metodológica do trabalho em rede ou do estudo de caso, a fis- calização de entidades, a garantia do direito à convivência familiar, o disque 100 ou o ato infracional praticado por adolescente. O mesmo ocorre, em menor medida, com o segmento idoso e pessoa com deficiência, quando o tema é a interdição. A amplitude das demandas identificadas permite compreendê-las como requi- sições que estão impregnadas de visões de mundo, de concepções e de posições políticas. Por exemplo, o primeiro grupo de demandas — as de cunho individual — encontra relação com a tradição de atuação do Serviço Social no Poder Judiciá- rio, na elaboração de estudos sociais relativos a situações familiares onde há vio- lação de direitosou litígios. Certamente, essa forma histórica de inserção marca o ingresso do Serviço Social no Ministério Público, pois seus membros tinham como referência essa atuação, demandando-a em um primeiro momento. A atenção a demandas de cunho individual é atravessada por contradições que, encharcadas da vivência no mundo jurídico, assumem determinadas características, como a ten- dência a serem desenraizadas de suas bases econômicas e sociais, para serem abstraídas e respondidas de modo fragmentário. Nesse sentido, Aguinsky (2003), pesquisadora sobre a inserção do Serviço Social no Poder Judiciário, explicita tais características: A moralidade implicada no ethos da sociedade liberal providencia uma análise e tra- tamento da questão social delimitada na ótica de problemas isolados, fragmentando a vida social que deixa de ser apreendida como totalidade, mas, antes, como um agre- gado de partes autônomas. Essa moralidade, ao mesmo tempo em que pode ser pon- derada como instrumento ideológico de ocultamento das bases materiais e estruturais da questão social, dimensiona seu enfrentamento (da questão social) na perspectiva da internalização social de normas e deveres que se constituem de modo despolitiza- do — como que na fundamentação de uma expectativa social prevalente, na direção de comportamentos desenraizados politicamente frente às expressões de desigualdade 471Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 na sociedade que, em verdade, traduzem demandas de direitos sociopolíticos, que assim não são consideradas. Aos argumentos expostos por Aguinsky (2003) quanto à abordagem da ques- tão social nessa dimensão, cumpre acrescentar que o Ministério Público é institui- ção distinta do Poder Judiciário, pois suas atribuições devem assumir a direção da garantia dos direitos humanos no contexto judicial e extrajudicial. Assim, a refe- rência do Serviço Social Judiciário pode conduzir a uma ênfase da atuação profis- sional na esfera individual, assumindo facetas fragmentárias, pontuais, menos abrangentes e descoladas da missão da instituição ministerial. Pode, também, constituir-se em espaço de garantia de direitos a sujeitos que os tiveram violados ou sonegados. Por seu turno, o Serviço Social tem o potencial de descortinar na instituição um leque de intervenções voltadas para a garantia de direitos de coleti- vidades, em caráter mais abrangente e continuado, quando sua intervenção se volta ao fomento de políticas públicas de Estado. Os artigos apresentados pelos assistentes sociais nos encontros do Serviço Social no Ministério Público retratam experiências de intervenção no âmbito das coletividades, na fiscalização de entidades, no fomento de políticas públicas e, até mesmo, na reflexão em torno de intervenções relativas às avaliações sociais, de modo que o tema das políticas públicas se revela permanente. A tendência predo- minante é a do debate em torno das políticas públicas da proteção social de modo genérico, enfocando o papel do Estado na garantia dos direitos humanos, perfazen- do 58,57% (41), sendo que apenas 18,57% (13) não abordavam o tema das políticas públicas. Quanto à discussão específica das políticas, emergem dos materiais a saúde, com 7,14% (5), a assistência social, com 5,72% (4), e a educação, com 4,28% (3), dando-se maior relevo à primeira, em torno das temáticas da saúde do traba- lhador, da saúde em geral e da saúde mental. Neste contexto de leitura das políticas públicas da proteção social, as duas dimensões — individual e coletiva — chegam a ser dicotomizadas, contrapostas nos textos analisados, muito embora, como já referido, a preocupação com a con- textualização e a compreensão dos determinantes da vida social acompanhe o conjunto das análises, mesmo as que se referem ao âmbito individual. Não se trata de optar por uma dimensão de intervenção ou outra, mas de percebê-las no movi- mento contraditório do real, conectando a particularidade e a universalidade, isso dentro de um processo de planejamento da atividade profissional que não permita a captura pela alienação do cotidiano. 472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Portanto, a questão das demandas sociais para o Serviço Social não é algo percebido na visibilidade aparente dos problemas e necessidades sociais, mas é um processo que requer um aprofundamento analítico na investigação da realidade social em suas várias facetas, para que possam ser devidamente operadas as mediações teórico-políticas [...]. (Serra, 2000, p. 165) No que diz respeito à direção social da atuação do Serviço Social no Minis- tério Público, o I ENSSMP, promotor da primeira síntese coletiva sobre o tema, concluiu ser a atuação no campo da assessoria, subsidiando e propondo ao Ministério Público no campo das políticas públicas e na garantia de direitos nas diversas áreas, buscando coletivizar os casos individuais [...] fomentar a materialização dos direitos sociais em políticas públicas. (Rio Grande do Sul, 2006, p. 26) Nesse contexto, o objeto da intervenção do Serviço Social, compreendido genericamente como a questão social, vai adquirir contornos específicos neste es- paço sócio-ocupacional. Como assinala Baptista (2002), a delimitação do objeto da intervenção requer sucessivas aproximações, em um processo permanente de reconstrução. A direção social e o processo de delimitação do objeto confluem para o pro- jeto ético‑político‑profissional. Evidencia-se, nos materiais analisados, a percepção de que há uma profunda relação entre a missão institucional do Ministério Público, conferida na Constituição Federal de 1988, e o projeto ético-político do Serviço Social, especialmente quanto à defesa da democracia e dos direitos humanos, conforme segue: [...] antes de representar uma resposta técnico-operativa às solicitações institucionais, construídas majoritariamente pela ótica dos demandatários (promotores de Justiça), visa atender originalmente às demandas dos usuários do Serviço Social, tendo como fio condutor o referencial ético-político construído historicamente pela profissão, e expresso no atual Código de Ética Profissional. Este traz em seu bojo princípios que reforçam a materialização de uma conduta aliada não apenas a um projeto profissional, mas, sobretudo, a um projeto societário anticapitalista e antiburguês. Dentre tais princípios, frisamos a defesa do aprofundamento da democracia, o posicionamento em favor da equidade e da justiça social, a ampliação e consolidação da cidadania e o compromisso com a qualidade dos serviços prestados. (Silva e Silva, 2006, p. 4) 473Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Ramos (2002), docente em Serviço Social, discutindo o projeto ético-político da profissão e suas conexões com um projeto societário, delimita melhor os limites e potencialidades do projeto profissional: Do meu ponto de vista, a denominação ético-político, presente no projeto profissional, não se fundamenta em uma visão mecanicista, como se o projeto profissional tivesse condições para ocupar o lugar de um projeto societário. O termo projeto ético-políti- co profissional expressa a existência, neste projeto coletivo, da nítida dimensão ética, na medida em que convoca os profissionais de Serviço Social para refletir sobre os valores e desvalores que orientam suas ações. Ao fazer isto, este projeto vincula-se à defesa de determinados valores e princípios éticos identificados com a busca da eman- cipação humana. O termo projeto ético-político apresenta, ainda, uma clara dimensão política, que se constrói no bojo das relações sociais, no movimento das classes sociais, considerando as opções políticas subjetivas e a construção de estratégias no campo democrático-popular, estabelecendo, no entanto, um conjunto de mediações no am- biente profissional. (Ramos,2002, p. 92) Contudo, a assertiva de Silva e Silva (2006) contém outro elemento impor- tante para a análise, além da afirmação do projeto ético-político profissional. Ela retrata certa contraposição entre as demandas instituintes e as dos usuários. Aliás, essa disjunção é apresentada por autores do Serviço Social, como Serra (2000), para a qual, no caso da profissão, há uma separação entre quem demanda e quem recebe diretamente os serviços, sendo as demandas compreendidas como requisições técnico-operativas. Tal posicionamento permite introduzir um aspecto essencial para a condução da intervenção profissional na instituição, ou seja, de que as de- mandas institucionais são o ponto de partida do delineamento da intervenção pro- fissional, como menciona Baptista (2002, p. 32): Na prática, a (re)construção do objeto da ação profissional é um processo que envol- ve operacionalização das demandas institucionais, das pressões dos usuários e das decisões profissionais. Uma vez que a intervenção e o planejamento da ação do pro- fissional se realizam primordialmente nas instituições, é a demanda institucional o ponto de partida e o ponto de referência para essa construção e para o planejamento da intervenção. Isso não implica a redução da decisão e da ação aos limites institucio- nais, mas o reconhecimento de que essa demanda pode potencializar a abertura de novos espaços para enfrentamento concreto da questão a ser trabalhada. 474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Todavia, Iamamoto (2008), em recente obra que discute a profissão e seus rumos frente ao capitalismo contemporâneo, discorre sobre o trânsito entre a aná- lise da profissão e o seu efetivo exercício, ou seja, a autora parte da condição de trabalho assalariado alienado e pontua seus condicionantes à efetivação da direção social que se projeta. Sustenta ela: Esta condição sintetiza tensões entre o direcionamento que o assistente social preten- de imprimir ao seu trabalho concreto — afirmando sua dimensão teleológica e cria- dora —, condizente com um projeto profissional coletivo e historicamente fundado; e os constrangimentos inerentes ao trabalho alienado que se repõem na forma assa- lariada do exercício profissional. (Iamamoto, 2008, p. 214) Para essa autora, o significado social do trabalho do assistente social depende das condições e relações estabelecidas com seus contratantes, no caso, do Ministé- rio Público, agentes do Estado, administradores da instituição. Os empregadores determinam as necessidades sociais a serem atendidas, a matéria sobre a qual inci- de o trabalho (recortes das expressões da questão social), as suas condições (inten- sidade, jornada, salário, controle do trabalho, produtividade e metas) e efeitos na reprodução das relações sociais (Iamamoto, 2008). No que tange às condições de trabalho, evidencia-se um empenho da instituição na disponibilização de recursos materiais para o exercício profissional (Dortas, 2006). Apesar disso, as resoluções dos encontros nacionais (Rio Grande do Sul, 2006; Dis- trito Federal, 2008) mencionam a necessidade de adequar as condições de trabalho às normativas profissionais vigentes (Resolução CFESS n. 493/2006, de 21/8/2006), assim como fazem referência à precarização do trabalho técnico com contratações terceirizadas em alguns estados, criando dois quadros, um concursado e outro tercei- rizado (Grupo Focal, P1). Nesse sentido, as agendas de lutas, são: criação do cargo de assistente social onde não há; criação de adicional de periculosidade devido à realização de visitas domiciliares em locais perigosos; nomeação de concursados; abertura de concursos públicos; defesa do ingresso por meio exclusivo do concurso público; fortalecimento do movimento de redução da carga horária, conforme Projeto de Lei n. 1.897/2007. Em muitos Estados, o número insuficiente de profissionais já vem resultando na demora do atendimento às demandas, assim como a excessiva demanda individual dificulta a atenção às matérias coletivas (Grupo Focal, P7). As condições de trabalho não estão apartadas da direção social que a inter- venção venha a adquirir, pois o desenvolvimento da profissão guarda relação com 475Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 a (re)valorização da sua função social, perpassando aspectos concretos, como a criação de novos postos de trabalho, constituição de novas demandas, diante de novas necessidades sociais e pela valorização salarial. Todavia, todos esses aspec- tos são determinados historicamente, sendo permeados pelos processos sociais da realidade e pelos movimentos da própria categoria profissional (Serra, 2000). É justamente nesse espaço tenso e contraditório que se situa o protagonismo dos assistentes sociais. A atuação do profissional tem relativa autonomia, pois as condições dadas pelo empregador condicionam os resultados do trabalho e, com isso, o projeto profissional, como mencionado a seguir: [...] a possibilidade de imprimir uma direção social ao exercício profissional do assis- tente social — moldando o seu conteúdo e o modo de operá-lo — decorre da relativa autonomia de que ele dispõe, resguardada pela legislação profissional e passível de reclamação judicial. A efetivação dessa autonomia é dependente da correlação de forças econômica, política e cultural em nível societário e se expressa, de forma particular, nos distintos espaços ocupacionais, que envolvem relações com sujeitos sociais determinados: a instituição estatal (Poder Executivo e Ministério Público, Ju- diciário e Legislativo); as empresas capitalistas; as organizações político-sindicais; as organizações privadas não lucrativas e as instâncias públicas de controle democrático (Conselhos de Políticas e de Direitos, conferências, fóruns e ouvidorias), que sofrem profundas metamorfoses sociais em tempo de capital fetiche. (Iamamoto, 2008, p. 220) Dessa forma, foram identificadas nos textos analisados estratégias intracate- gorias e gerais. As estratégias intracategorias assumem a faceta articuladora do grupo profissional, no sentido de forjar a direção social da intervenção, fortalecer a identidade, buscar legitimação e reconhecimento, obter as condições necessárias ao seu trabalho e o aprimoramento profissional. As estratégias intracategorias são aquelas construídas a partir do coletivo — categoria profissional no Ministério Público. As estratégias intracategorias denotam a percepção de que isoladamente os profissionais perdem força nas suas demandas e proposições de trabalho, sendo a aliança entre os pares um modo de dar visibilidade ao conjunto dos atores profis- sionais e buscar alguma condição de protagonismo. Ramos (2002), ao discutir a construção de projetos coletivos, tendo por base a produção de Agnes Heller, Karl Marx e Gramsci, nomeia três elementos que contribuem para a viabilização/proje- ção de projetos coletivos: a necessidade, a consciência e a vontade. 476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 As necessidades são construídas social e historicamente com mediação da cultura. A busca por suprir as necessidades leva os indivíduos a se agruparem co- letivamente com vistas à construção de um projeto societário que os satisfaça. A formação da consciência humano-genérica se dá como mediação para a ação cole- tiva. Os grupos sociais, no desenvolvimento de suas lutas, consolidam alianças voltadas para a superação do plano corporativo, na direção do universal e da uni- dade que, em busca de uma nova hegemonia, materializa-se em propostas políticas e valores éticos. A vontade, por sua vez, distingue-se do mero desejo, pois é per- meada por relações sociais e tensões. Além disso, a realização da vontade coletiva carece de previsão, de concepção de mundo, de querer e de paixão (Ramos, 2002). No que diz respeito às estratégias gerais,ou seja, aquelas relativas à relação profissional-instituição, que vêm sendo construídas pelos assistentes sociais do Ministério Público, no cotidiano de implantação e implementação de seu trabalho, especialmente o documento final do I Encontro Nacional do Serviço Social no Ministério Público foi profícuo quanto ao seu delineamento, pautando: [...] definir e divulgar o papel do profissional de Serviço Social na instituição; distin- guir atribuições periciais e de assessoramento técnico (incluindo a produção diferen- ciada de documentos), definindo o papel do assistente social no Ministério Público como de assessoramento técnico; obter o reconhecimento das atribuições e possibili- dades do Serviço Social; atuar na perspectiva da interdisciplinaridade e intersetoria- lidade; dar maior visibilidade ao projeto ético-político do SS no cotidiano profissional; apresentar-se como uma profissão habilitada a atuar no campo das políticas públicas (fiscalização, fomento, acompanhamento, controle e avaliação), não se limitando aos casos individuais, de acordo com as atribuições do MP; deixar claro que o espaço profissional do SS do MP não é campo de execução de políticas públicas; legitimar o espaço de trabalho; pensar nas demandas do interior dos estados; criar espaços de diálogo entre os integrantes do Ministério Público (membros e servidores). (Rio Grande do Sul, 2006, p. 26) Como se pode observar, as estratégias construídas pelos assistentes sociais buscam alcançar o reconhecimento e a delimitação de atribuições, convergindo para a sua visibilidade como uma área profissional capaz de contribuir na tarefa institu- cional de defesa e garantia do direito à proteção social. A coletivização das demandas individuais, buscando percebê-las como direi- tos universais, é uma das estratégias centrais do Serviço Social na instituição 477Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 (Grupo Focal, P8). Essa estratégia encontra consonância com as reflexões de Iama- moto (2008) quanto ao desafio para o assistente social, no seu trabalho cotidiano, de desentranhar das situações singulares de indivíduos, famílias, grupos e segmen- tos, atravessadas por determinações de classe, as suas dimensões universais. Com isso, propõe transitar da esfera privada para a cena pública onde se processa a luta por direitos. Todavia, no espaço do grupo focal, é pontuada a complexidade de transformar demandas individuais em coletivas, pois exige um processo de mudança na insti- tuição como um todo e do demandante de determinada ação, ou seja, os condicio- nantes institucionais estão sempre presentes: [...] porque antes de o promotor aceitar a nossa proposta de coletivizar aquilo que aparece individualmente, ele tem que se sentir incomodado pela questão social e ele não se sente, porque ele nunca visitou uma favela [...]. Ele vem naquela trajetória de classe, e aí chega lá o instituído que está bem colocado porque quem não tem projeto assume o projeto em vigor e o projeto em vigor das instituições é um projeto burguês, todas as instituições estão atravessadas por ele. (Grupo Focal, P1) As reflexões de Aguinsky (2003) acerca do Poder Judiciário podem auxiliar a compreender as lógicas que operam no Sistema de Justiça e que dificultam a ruptura com o lugar tradicional deste. Nesse diapasão, o direito apresenta-se como um dos instrumentos utilizados pelo Estado para gerir conflitos presentes nas rela- ções sociais, na ótica de comportamentos socialmente admissíveis e desejáveis, que não coloquem em risco os interesses do capital. Assim, um estudo social construído a partir da ótica da garantia de direitos foge ao lugar-comum do enquadramento das relações sociais. Ele traz novos prismas interpretativos para as situações individuais que as conectam ao universal, às de- terminações sociais, políticas, econômicas e culturais e, por isso, causa estranheza. Contraditoriamente, a própria missão contemporânea do Ministério Público o conduz ao encontro de visões mais abrangentes e contextualizadoras. Nessa con- cepção, talvez alguns dos agentes ministeriais ainda não estejam plenamente pre- parados para fazer a mediação particular-universal, para transpor o individual ao coletivo, para perceber a situação individual de modo menos criminalizante ou culpabilizador. Transparece, nos dados coletados, aquilo que as pesquisadoras em Serviço Social Martinelli e Koumrouyan (1994) chamaram de “indicadores coletivamente 478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 construídos”, representados por dois eixos: a efetividade das ações e o seu alcance social. O primeiro, relativo à força política das ações desenvolvidas no que tange à transformação social da realidade; o segundo, referente ao impacto junto à popu- lação. Essa parece ser a questão que se coloca nos textos produzidos pelos assis- tentes sociais do Ministério Público e das expressões verbais quanto ao desenvol- vimento de ações que impactem a realidade social na direção da garantia dos direitos humanos. 4. O direito difuso e coletivo como eixo da atuação do Serviço Social Para que se possa incidir institucionalmente no direcionamento do trabalho profissional, é relevante a perspectiva interdisciplinar, a qual figura entre as es- tratégias mencionadas pelos profissionais, embora sem maior densidade na pro- dução. É curiosa a baixa relevância da temática, pois a interdisciplinaridade re- mete ao diálogo com o direito, área do conhecimento central na instituição, pois de formação de seus membros. A esse propósito, Aguinsky (2003, p. 90) pontua que “de nada adiantaria a atuação do assistente social, alcançando com sua com- petência particular, o que a ótica do Direito não alcança se, ao final, não fosse esta competência traduzida em outra — a da linguagem institucional, a linguagem do Direito”. Assim, coloca-se, ao mesmo tempo, como possibilidade e desafio a constitui- ção de processos dialógicos com os membros do Ministério Público. É por meio das decisões tomadas por eles que as indicações do Serviço Social terão incidência intrainstitucional e na atuação da instituição em face dos distintos atores da esfera pública, implicados com a efetivação ou não dos direitos humanos. A perspectiva interdisciplinar articula-se à dimensão do planejamento. Sousa (2008) realiza uma síntese das estratégias que devem ser implementadas pelo Ser- viço Social no Ministério Público, articulando diferentes dimensões: [...] o Serviço Social necessita apropriar-se de seu lugar, impor seus limites, realizar pesquisas, estudos e planejar melhor sua atuação para propor ações que somadas à missão do Ministério Público contribuam efetivamente para a construção de uma nova ordem societária. (Sousa, 2008, p. 7) 479Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 A questão que se coloca é a necessidade de superar o cotidiano e envidar esforços no sentido de planejar e refletir acerca dele, sob pena de a intervenção profissional submergir às demandas cotidianas que, tratadas de modo pontual, muitas vezes se tornam empobrecedoras das possibilidades de contribuição do Serviço Social no que diz respeito à garantia dos direitos humanos. Assim, o planejamento vem em oposição àquela em que as decisões são tomadas ao sabor das necessidades emergentes, quando as atividades são informadas e decididas em razão do desenvol- vimento natural de uma situação, sem uma consciência clara de sua importância no espaço mais amplo, no qual se insere. (Baptista, 2002, p. 79) Nesse viés, Baptista (2002), a partir de suas diversas produções na área do planejamento, propõe dois critérios básicos para a eleição de prioridades de inter- venção: a relevância e a viabilidade. A relevância diz respeito à percepção sobre o impacto da ação, em que a questão em análise deve ser vistano seu conjunto, ve- rificando a importância de cada variável com relação ao problema, suas determi- nações, interação entre diferentes aspectos, consequências e processos emergentes. Já a viabilidade relaciona-se à avaliação da influência do planejador sobre os pro- blemas objeto do planejamento. Ela exige a leitura da governabilidade de quem planeja sobre o espectro da ação vislumbrada. Avançando um pouco mais, a autora mencionada traz contribuições impor- tantes para se pensar o processo de planejamento do Serviço Social no Ministério Público. Propõe, para o estudo da viabilidade das prioridades, a análise dos seguin- tes aspectos: [...] o âmbito institucional, suas funções e responsabilidades; as possibilidades con- cretas de intervenção em termos financeiros, de pessoal, de conhecimentos acumula- dos, de técnicas e de prazos; a coerência com a política definida em outros níveis; a compatibilidade com a situação social, econômica e política vigente; a oportunidade política para agir sobre a causa identificada; o índice de possibilidade de aceitação, por parte da população usuária. (Baptista, 2002, p. 76) Tais contribuições são pertinentes, uma vez que oferecem elementos concre- tos para o processo de planejamento. A direção social que se pretende imprimir à intervenção do Serviço Social na instituição não se faz a partir do voluntarismo ou do mero pensamento desejoso. Ela carece de processos de formulação que façam 480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 uma apropriada análise da conjuntura institucional, das relações e dos projetos políticos em disputa no espectro dos direitos humanos, que mapeie as forças apoia- doras e opositoras dos processos de garantia de direitos e, sobretudo, indique a composição das alianças necessárias, pois o assistente social isoladamente é incapaz de conduzir e incidir em processos emancipatórios, visto que se constituem em tarefa coletiva. No que tange às possibilidades de contribuição, os materiais estudados con- vergem para o eixo central da contribuição quanto ao acesso da população aos seus direitos, no cenário da atuação extrajudicial. A atuação no âmbito coletivo é per- cebida como privilegiada pelos profissionais, com base no entendimento de que sua participação em matérias coletivas, que são ou precisam ser objeto da intervenção da instituição, deve ocorrer na defesa, garantia e ampliação de direitos. Foram apontadas, por membro da instituição, contribuições relativas à sensi- bilidade para a identificação de necessidades sociais e quanto ao diálogo com dife- rentes segmentos, sendo emblemática dessas possibilidades a seguinte assertiva: Tem contribuído de forma consistente na aproximação das pessoas e dos segmentos sociais em situação de vulnerabilidade em relação à instituição, no planejamento e na execução de planos e projetos institucionais voltados à garantia dos direitos constitu- cionais, na abertura de diálogos importantes na busca de soluções para as questões apresentadas aos órgãos ministeriais e nos procedimentos voltados ao cumprimento das funções atribuídas ao Ministério Público. (Questionário, 2) Dentre as possibilidades de contribuição, destaca-se, ainda, a de favorecer o diálogo com a sociedade civil, especialmente os movimentos sociais organizados, com os quais o assistente social poderá atuar como “ponte entre o promotor e a sociedade” (Grupo Focal, P8). Na mesma perspectiva, outro profissional menciona, à luz de seu espaço específico de intervenção, que a atuação do Serviço Social na interlocução com os movimentos sociais já está sendo incorporada ao processo de trabalho da instituição. É proposta, também, a atuação junto ao controle social das políticas públicas, em comissões temáticas dos conselhos (Metzner e Pollis, 2006). As deliberações do I Encontro Nacional do Serviço Social no Ministério Público (Rio Grande do Sul, 2006, p. 29) da mesma forma apontavam para esse entendi- mento: “promover, fomentar e fortalecer ações de articulação entre os atores da rede social; — fortalecer o controle social em articulação com os movimentos sociais, com vistas ao enfrentamento das questões coletivas”. 481Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 O eixo da intervenção, que se volta para o fortalecimento do controle social e dos movimentos sociais, encontra sentido na perspectiva gramsciana no que tange à construção da contra-hegemonia. Esta diz respeito à possibilidade de supe- ração da condição de subalternidade pelos grupos dominados, incidindo na cons- trução de novos modos de pensar, que se refletem na concepção de mundo, a partir da reflexão crítica que supera o senso comum (Simionatto, 2009). A atuação por meio de redes sociais, as mediações com vários órgãos e atores sociais e a gestão participativa (relação direita com os usuários, socialização de conhecimentos, interdisciplinaridade, fortalecimento dos usuários) são eixos me- todológicos percebidos como possíveis no exercício profissional no Ministério Público (Metzner e Pollis, 2006). Foram mencionados, por assistente social parti- cipante de grupo focal, além dos já mencionados, mecanismos concretos, com re- lação aos quais o Serviço Social vem contribuindo no sentido da democratização das relações entre o Ministério Público e a sociedade, bem como quanto à constru- ção de movimentos contra-hegemônicos, como a realização das audiências públicas nas comunidades para captação de demandas de proteção social, ao lado da contri- buição na mediação com os movimentos sociais e com os mecanismos de controle social (Grupo Focal, P2). Tais contribuições requerem, sob o ponto de vista de participante do grupo focal (P2), o desenvolvimento de metodologias que permitam a articulação com os movimentos sociais e conselhos de direitos, bem como uma ampliação da participação da comunidade. Além dos eixos já mencionados, o do assessoramento técnico quanto à exigi- bilidade de políticas públicas (fiscalização, fomento, acompanhamento e avaliação) mostra-se como uma possibilidade de compor as atribuições do Serviço Social, de modo alinhado com a missão do Ministério Público. Esse âmbito de assessoria vem revelando-se mais eficaz e de grande importância para a população que vivencia o não acesso a direitos, além de ter um impacto social maior, haja vista abranger conjuntos populacionais expressivos e ter repercussões transgeracionais. Em diversos textos produzidos por assistentes sociais, as políticas públicas são destacadas como forma de efetivar os objetivos traçados na Constituição Federal, competindo ao Ministério Público utilizar todos os meios jurídicos disponíveis para tê-las implementadas. “[...] evidencia-se a importância e urgência da ação ministe- rial no campo das políticas públicas, quanto ao seu fomento e qualificação. Esse tipo de intervenção pode resultar em uma futura redução das demandas individuais nas diversas áreas nas quais o Ministério Público atua” (Rey, Perin e Tejadas, 2008, p. 5). A mesma ideia é compartilhada por membros do Ministério Público: 482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Conclui-se então que as políticas públicas são instrumentos imprescindíveis para que os objetivos traçados pela Constituição de 1988 sejam efetivamente cumpridos, ca- bendo ao Ministério Público utilizar instrumentos jurídicos dos quais dispõe para vê-las implementadas, garantindo, com isso, o desenvolvimento e a democracia, pressupostos de uma sociedade livre, justa e igualitária. (Ramos, 2001, p. 26-27) A esse propósito, Gravronski (2006), incursionando o tema, destaca diversos aspectos que envolvem a atuação do promotor de justiça na tutela de direitos cole- tivos. Menciona o autor as peculiaridades extrajudiciais do assunto, a necessária criatividade do membro da instituição, a articulação com a sociedade civile com órgãos públicos afins, a assessoria de servidores especializados, além do domínio de instrumentos como o inquérito civil ou o procedimento administrativo, o com- promisso de ajustamento de conduta, a recomendação e a ação civil pública. Nesse contexto, a fiscalização de entidades de atendimento visa avaliar a qualidade dos serviços que estão sendo oferecidos à população, tendo por base o marco legal vigente, pesquisas e estudos sobre as políticas públicas em análise. O conhecimento na área do Serviço Social situa o assistente social como profissional especializado, habilitado para a realização de avaliações de programas de acolhi- mento institucional para crianças e adolescentes, de unidades de internação, de instituições de longa permanência para idosos, de escolas (infantis, ensino funda- mental e médio), de instituições especializadas no atendimento a pessoas com de- ficiência e a dependentes químicos, entre outras. A atribuição no campo da fiscali- zação de entidades requer o uso de múltiplos instrumentos, como: estudo da temática, estruturação de roteiros específicos, visita institucional, entrevistas com dirigentes, técnicos, usuários dos serviços e, ainda, observação e coleta de imagens. É importante destacar que, de modo geral, a atribuição de fiscalização não é exclusiva do Ministério Público, mas também de competência de outros órgãos do Sistema de Garantia de Direitos, inclusive conselhos de direitos. Nesse sentido, impõe-se a necessidade de processos de trabalho conjuntos, o que, sem dúvida, aumenta as possibilidades de influência quanto à qualificação das políticas públicas, o compartilhamento de saberes e a corresponsabilização. A avaliação de projetos e/ou de políticas públicas, por sua vez, visa analisar a pertinência, a adequação ao marco legal e ao acúmulo de conhecimentos acerca das políticas públicas, por meio da análise de projetos apresentados pelo Poder Público ou organizações não governamentais, envolvendo aspectos metodológicos, de infraestrutura e de recursos humanos. São instrumentos para a avaliação de 483Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 projetos e/ou políticas públicas: estudo da temática; estruturação de roteiros espe- cíficos; possibilidade de coleta de campo, com visita institucional, entrevista com gestores, técnicos, usuários dos serviços, observação, imagens e/ou análise de documentos, como planos, projetos e relatórios. Nesse caso, há a análise da polí- tica pública como um todo, com seus múltiplos serviços, às vezes demandando vistorias a diversos equipamentos. Ainda no rol de atribuições no âmbito das matérias de direito difuso e coleti- vo, o Serviço Social pode contribuir com a realização de estudos e pesquisas, re- lacionados a temas de interesse das Promotorias de Justiça e a centros de apoio operacionais, ou decorrentes da reiteração de determinadas demandas e da obser- vação de tendências quanto a lacunas na execução de determinadas políticas e/ou à necessidade de implementação de mudanças paradigmáticas. Nesse caso, além do conjunto de conhecimentos oriundos da formação profissional, pode ser neces- sária a consulta a especialistas nas áreas em análise, bem como o estudo de legis- lações e a consulta a pesquisas das ciências sociais. No processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público, é funda- mental que se atue no sentido de incidir nas atribuições da profissão, aproximando-as da intervenção no âmbito do direito difuso e coletivo, visto o potencial destes na ampliação e garantia dos direitos humanos. Nessa contextura, o desafio está em constituir processos de trabalho planejados que partam da interpretação crítica da realidade, avaliando estratégias, alianças e proposições viáveis que considerem o potencial de que dispõe para impulsionar a luta por direitos e a democracia em todos os poros da vida social; potencial esse derivado das contradições presentes nas relações sociais, do peso político dos interesses em jogo e do posicionamento teórico-prático dos sujeitos profissionais ante os projetos societários. (Iamamotto, 2008, p. 417) Para tanto, a percepção dicotomizada entre condicionantes e possibilidades conduz a vieses ora fatalistas, ora messiânicos. O primeiro percebe a lógica do capital como intransponível, não identificando possibilidades de dar direção às atividades, subsumindo aos comandos instituintes. O segundo subestima os deter- minantes e superestima a vontade do coletivo profissional (Iamamotto, 2008). A busca por caminhos coletivos pelo Serviço Social tem a potência de oferecer a densidade política necessária à categoria para incidir na definição de suas atribuições, pautada pela leitura da conjuntura institucional e das alianças capazes de fortalecer 484 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 a direção social do Ministério Público em torno da defesa da democracia e dos direitos humanos. 5. Considerações finais É no contexto de reordenamento jurídico e institucional do Ministério Públi- co que o Serviço Social se insere, sendo que, desde os primeiros momentos, vem buscando constituir uma identidade e direção social hegemônica. No diferenciado território nacional, a profissão trilha um caminho repleto de ambiguidades e con- tradições, em que a direção social de sua intervenção, anunciada no projeto éti- co-político-profissional, compartilha de propósitos convergentes com a missão da instituição, conferida pela Constituição brasileira. Contudo, a materialização de projetos que se interconectam dialeticamente oscila entre o devir e a concretude, entre as possibilidades e os limites. Nesse diapasão, o Serviço Social é uma pro- fissão das ciências sociais aplicadas, capacitada para atuar na transversalidade das políticas públicas, compreendendo-as como processo histórico de concessão-con- quista, por isso imersas em relações entre diferentes atores da esfera pública. Nessa orientação, o Serviço Social pode e tem contribuído no diálogo com os movimentos sociais, com os conselhos de direitos, perseguindo o propósito de que o fomento de políticas públicas se faça de modo articulado às demais instân- cias que atuam na defesa de direitos. Ao mesmo tempo, no âmbito da fiscalização da qualidade das políticas públicas, tem contribuído para oferecer subsídios quanto ao planejamento desses processos, calcado nos acúmulos técnicos dispo- níveis. Considerando que o projeto de consolidação da democracia é coletivo e não se restringe aos muros do Ministério Público, o Serviço Social vem se cons- tituindo como uma área profissional que tem contribuições importantes a ofere- cer em direção a um ideário emancipatório, no qual os direitos humanos sejam realidade. Recebido em 14/5/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013 485Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 Referências bibliográficas AGUINSKY, Beatriz Gershenson. 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Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 A interdisciplinaridade na violência sexual* The interdisciplinarity in sexual violence Maria Regina Fay de Azambuja** Resumo: O artigo aborda a inquirição da vítima de violência sexu- al como afronta aos direitos humanos da criança, na medida em que busca a obtenção da prova em detrimento da proteção da vítima. Aponta a ação interdisciplinar como indispensável ao trabalho envol- vendo violência sexual praticada contra a criança, dando ênfase à perícia realizada por profissionais de diversas áreas (Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, Pediatra) como instrumento capaz de produzir a prova e de garantir a dignidade e o respeito à vítima. Palavras-chave: Criança. Violência sexual. Inquirição. Direitos huma- nos. Proteção integral Abstract: The article is about the inquiry of the victim of sexual violence as an affront to children’s human rights, because it searches to get evidence at the loss of the victim’s protection. It points out that the interdisciplinary action is essential to the work involving the sexual violence against children, and it emphasizes the examination accomplished by professionals from different areas (Social Work, Psychology, Education, Pediatrics) as a way to produce evidence and to guarantee the victim’s digni- ty and respect. Keywords: Child. Sexual violence. Enquiry. Human rights. Full protection. * O artigo trata de alguns aspectos do tema pesquisado na elaboração da tese de Doutorado em Serviço Social realizado na PUC-RS. ** Procuradora de Justiça, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude, Educação, Família e Sucessões, especialista em violência doméstica pela Universidade de São Paulo (USP), doutora em Serviço Social pela PUC-RS, professora de Direito de Família e Direito da Criança e do Adolescente na Faculdade de Direito da PUC-RS, Porto Alegre, Brasil; voluntária no Programa de Proteção à Criança do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. E-mail: mra.ez@terra.com.br. 488 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 Introdução Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) denunciam que a vio-lência é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Em nosso país, o Relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presi-dência da República (SDH-PR) revela que, em 2012, o serviço do disque denúncia (100) recebeu mais de 40 mil denúncias, sendo 31.635 sobre violência sexual e 8.160 mil sobre exploração sexual (Brasil, 2012). Para o enfrentamento da violência, em especial a de natureza sexual, enten- dida como fenômeno social, faz-se necessário envolver a família e diferentes pro- fissionais que costumam interagir com a criança, de professores, médicos, assisten- tes sociais e psicólogos a advogados, promotores de justiça e magistrados. Nessa tarefa, cada um deve exercer funções distintas, todas elas especializadas, uma vez que o trabalho com vítimas de violência sexual requer uma proposta de atendimen- to interdisciplinar. O presente artigo aborda a violência sexual praticada contra a criança, apre- sentando a ação interdisciplinar como essencial para a proteção dos direitos huma- nos da criança. 1. A inquirição da criança: uma afronta aos direitos humanos Embora não se trate de tema novo, uma vez que vem sendo enfrentado há muitos anos pelo sistema de justiça, a concepção da criança como sujeito de direi- tos humanos, que tem como matriz a Convenção das Nações Unidas sobre os Di- reitos da Criança, passou a exigir mudanças na abordagem e nos encaminhamentos dos casos de violência sexual, já que os marcos legais nacionais “deverão urgente- mente se adequar de maneira radical, sem reservas que atinjam os princípios bási- cos dessa normativa internacional” (Nogueira Neto, 2008, p. 3). Nesse sentido, quando se fala em direitos humanos, quer-se acentuar “a essencialidade humana de crianças e adolescentes, ancorada nos princípios da dignidade, da liberdade e do direito” (Idem, p. 10). Na vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), partindo do princípio de que a criança é prioridadeabsoluta, os profissionais, antes e depois de acionarem a rede de proteção, devem proporcionar um espaço de “verdadeira 489Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 escuta”, com o mínimo de interferência, dispondo-se a ouvir o que a criança tem a falar. Escutar, como ensinam Fuziwara e Fávero (2011, p. 46), envolve ouvir com os ouvidos, os olhos, a razão e os sentimentos, sem que estes últimos se sobreponham à necessária interação profissional e humanizada, para que o impacto que a revelação pode causar não supere o entendimento de que a criança é um ser em formação e toda e qualquer ação e reação frente à violência sofrida vai afetá-la de alguma maneira. Crianças vítimas de violência sexual, em especial de natureza intrafamiliar, percorrem um longo e difícil caminho. As denúncias são mais frequentes na atua- lidade do que há vinte anos, dando visibilidade às dificuldades que o Judiciário enfrenta para esclarecer os fatos e afirmar, em última análise, se houve ou não a violência noticiada. Quando a violência deixa marcas físicas, a solução se mostra mais simples, pois, afinal, o perito aponta as lesões no corpo da vítima. Sabe-se, no entanto, que a maior parte dos casos levados ao Judiciário lá aporta sem exame físico ou com resultado negativo, elevando a complexidade da tarefa do julgador. O sistema de justiça não se encontra preparado para o enfrentamento do fenômeno da violência sexual. Granjeiro (2008, p. 162-163) afirma que esse despreparo re- sulta “de uma crise decorrente do esgotamento do paradigma da cultura legalista — a lei resolve tudo — e da própria formação acadêmica, que aliena o jurista e não o afasta das pré-noções ideológicas que moldaram a concepção jurídica de mundo, esta insuficiente de dar conta”, nas palavras de Souza Júnior (2002, p. 146), “da complexidade e das mutações das realidades sociais, políticas e morais numa con- juntura de transição paradigmática”. Com a Constituição Federal de 1988, os tratados de direitos humanos ratifica- dos pelo Brasil tornam-se inexequíveis sempre que o sistema de justiça optar pelo “paradigma da positivação das normas e a separação do Direito de qualquer outra área do conhecimento” (Granjeiro, 2008, p. 162). O Judiciário, dentro da visão de que o processo não é fato social, mas um sistema de normas, deixa de indagar sobre sua valorização ética e, desde décadas que antecederam a Constituição Federal de 1988, vem valorizando, de forma privilegiada, a inquirição da vítima como meio de produzir a prova. Para esse fim, poderia ter valorizado iniciativas de cunho interdis- ciplinar, já que conta, em seus quadros, com técnicos da área da Saúde e do Serviço Social. Entretanto, optou por manter a prática de inquirição da criança com o intui- to de extrair da vítima o relato da cena e a indicação do autor, fazendo recair sobre ela a complexa incumbência de produzir a prova e, quiçá, levar o abusador à cadeia. 490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 Esse procedimento, face à condição de dependência que a criança tem da família, acaba por se constituir num paradoxo, já que, a despeito da intenção pro- tetiva, termina por expô-la e até mesmo desrespeitá-la como sujeito de direitos, obrigando-a a expor sua intimidade em uma situação constrangedora e formal. Do relato da criança que é submetida à inquirição poderão derivar consequências ne- fastas para si e para os demais familiares, considerando os possíveis efeitos desse procedimento sobre a constituição familiar. Do mesmo modo, a lembrança das si- tuações de violência, se não acompanhadas por profissionais especializados, pode desencadear fantasias e sofrimento que também constituem desrespeito à sua condição de sujeito de direitos humanos. Assim, o Depoimento Sem Dano ou o Depoimento Especial, apresentado como solução para a inquirição da vítima: Certamente diminui o dano aos operadores do Direito que, como cirurgiões, usam a colocação do “campo cirúrgico” para conseguir realizar a “violência” de cortar o paciente. Estabelecidos em outra sala, e tendo como porta-voz um profissional da saúde, ficam protegidos do impacto do relacionamento direto com a vítima. A criança tem sua intimidade revelada, sua ferida tocada num ambiente mais hospitaleiro, mas que não anestesia a violência da inquirição. Qualquer profissional da saúde sabe que falar e reproduzir o trauma torna a dor aguda novamente. A presença de brinquedos e de um técnico que supostamente possa “saber fazer perguntas adequadas” ou “tradu- zir a linguagem dos operadores do Direito” não anestesia a dor. A anestesia, para que a criança possa falar no trauma, só se instala num ambiente terapêutico e não avalia- tivo ou inquiridor. (Ferreira, 2012, p. 195) Em outras palavras, diante da incompetência do sistema para apurar os fatos, recorre-se, mais uma vez, à vítima, atribuindo-lhe a árdua missão de produzir a prova. Dessa forma, a criança passa da condição de vítima à de testemunha-chave da acusação, deixando-se de lado a proteção que a lei lhe confere. Se antes da Constituição Federal de 1988 a inquirição da criança vítima de violência sexual vinha abraçada pelo manto da legalidade, na atualidade, choca-se frontalmente com os direitos humanos da criança e do adolescente. Os crimes que deixam vestígios exigem a realização do exame de corpo de delito por perito capacitado. Nesse sentido, ressalta França (1998, p. 7): A finalidade da perícia é produzir a prova, e a prova não é outra coisa senão o elemen- to demonstrativo do fato. Assim, tem ela a faculdade de contribuir com a revelação da existência ou não de um fato contrário ao direito, dando ao magistrado a oportuni- dade de se aperceber da verdade e de formar a sua convicção. 491Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 No âmbito do processo penal, “quando a infração deixar vestígios, será indis- pensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado” (artigo 158, CPP). “Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos formulados” (artigo 160, CPP). Nesse caso, por quesitos entendem-se “as questões formuladas sobre um assunto específico, que exigem como respostas opiniões ou pareceres. Os quesitos podem ser oferecidos pela autoridade judicial e partes até o ato de diligência” (artigo 176, CPP). O depoimento da vítima, considerada por alguns autores como testemunha, não se reveste de credibilidade absoluta. Suas declarações vêm impregnadas de impressões pessoais, havendo “um certo coeficiente pessoal na percepção e na evocação da memória, que torna, necessariamente, incompleta a recordação, de forma que não há maior erro que considerar a testemunha como uma chapa foto- gráfica” (Altavilla, 1982, p. 252). Diversos são os fatores a interferir na prova testemunhal, como o interesse, a emoção, entre outros. O mesmo autor assinala que, quanto mais intensa é uma concentração afetiva, mais facilidade existe para, decor- rido algum tempo, haver o desvio da atenção do primeiro objeto para um objeto diverso. E complementa: “a violenta ressonância emotiva, colorida de desagrado, que em nós pode provocar um objeto, pode, particularmente, facilitar ou apressar um desvio de atenção” (Idem, p. 253). Torna-se necessário, portanto, “conhecer com precisão a posição processual de uma testemunha e as suas relações de interesse, de amizade ou de parentesco com as partes” (Altavilla, 1982, p. 255), a fim de valorar com adequação o teor de seu depoimento. A inquirição da vítima, nos crimes que envolvem violência sexual in- trafamiliar, agrega elementos que decorrem da posição que o abusado ocupa na fa- mília e no processo, porquanto, na maioria dos casos, além de o agressor manter vínculos afetivos com a vítima,a criança é também a única testemunha. Para Furniss (1993, p. 312), “o não das crianças, quando questionadas se sabiam do abuso, não significa que não tenham estado envolvidas, que não tenham sabido ou que não te- nham sido afetadas por ele; ele geralmente significa que elas estão assustadas demais para falar”. Nesse sentido, não é de surpreender que as vítimas de violência sexual considerem os julgamentos traumáticos, uma vez que passa a ser exigido delas que se impliquem retrospectivamente na experiência. Relatos “apontam os julgamentos como mais traumáticos que o próprio fato, levando-as a recorrer, defensivamente, a respostas evasivas” (Vilhena, 2001, p. 61). Também é preciso considerar que a criança, “mesmo dizendo a verdade, é tão facilmente sugestionável que pode, com 492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 facilidade, ser induzida a retratar-se numa acareação, especialmente sendo-lhe opos- ta uma pessoa a quem tema e respeite” (Altavilla, 1982, p. 332). Práticas recepcionadas pela velha Carta Constitucional, como a inquirição da criança com o fim de produzir a prova da autoria e da materialidade, permanecem sendo reproduzidas pela Justiça Criminal, que não se beneficia dos conhecimentos desenvolvidos por outras áreas do saber. No processo penal inquisitivo, “não se encontram exigências comunicacionais, pois o inquirido é tratado por seu inquisitor como um objeto da investigação, e não como uma pessoa em processo de compre- ensão recíproca, isto é, como sujeito de direitos [...]” (Potter, 2010, p. 51). Dessa forma, a utilização do velho método da inquirição, além dos prejuízos emocionais que pode causar à criança, dá ensejo a que o abusador ou outros familiares atribuam a ela a responsabilidade pela prisão do autor dos fatos, levando a vítima a sentir-se responsável pelos prejuízos causados ao grupo familiar, além de contribuir para mascarar o real motivo da condenação do abusador, ou seja, a prática de crime. Se, diferentemente, houvesse a preocupação de ouvir a criança, provavelmente muitas dessas consequências poderiam ser evitadas e, respeitada em seus direitos, a criança abusada poderia colaborar com a justiça, sinalizando a melhor alternativa de encaminhamento da questão sub judice sem carregar nenhuma culpa relacionada ao ato de que foi vítima nem às consequências familiares que dele podem advir. Qual a diferença entre inquirir e ouvir a criança? “Inquirir” significa pergun- tar, indagar, fazer perguntas direcionadas, investigar, pesquisar. “Ouvir”, por sua vez, significa escutar o que ela tem a dizer, dar ouvidos, dar atenção às palavras da criança, o que pode vir expresso por intermédio do brinquedo, como valioso ins- trumento utilizado por profissionais da saúde mental na avaliação da criança1. Nesse sentido, Alves (1994) explica: Escutar é complicado e sutil. [...] Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. [...] A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor [...]. Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descan- 1. O brinquedo é uma forma ímpar de contar o ocorrido, uma vez que lida com a memória e o comportamento implícitos. “Ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, suas angústias e problemas internos, dominando-os pela ação [...]. Isso permite que ela domine a situação externa que vivencia, tornando-se ativa e não passiva.” No caso do abuso sexual, o brinquedo expresso em sessões de avaliação ou de psicoterapia é um indicador privilegiado da ocorrência do fato e sua repercussão dentro da criança em geral, assim como uma forma de alívio e caminho para elaboração (Ferreira et al., 2011, p. 151). 493Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 sada consideração [...] E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais cons- tante e sutil de nossa arrogância e vaidade. Quando o Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece a peculiar condição de pessoa em desenvolvimento da criança e do adolescente, está falando de sua imaturidade ou, em outras palavras, de seu incompleto estágio de desenvolvimen- to físico, mental e psicossocial, fato que os diferencia dos adultos. Recente altera- ção, introduzida com a Nova Lei da Adoção (Lei n. 12.010/2009), demonstra a necessidade de proteger a criança, recorrendo-se, preferencialmente, a sua ouvida por equipe interdisciplinar, respeitado o estágio de desenvolvimento e compreensão sobre as implicações de suas manifestações. A nova lei, por outro lado, fixa o limi- te de doze anos para a oitiva do adolescente em audiência, numa clara demonstra- ção da importância de preservar a criança de situações que possam comprometer seu desenvolvimento saudável (artigo 28, ECA). Considerar a fala da criança, como prevê o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), não exige necessariamente o uso da palavra falada, porquanto o sentido da norma é muito mais amplo, significando a necessidade de respeito in- condicional à vítima, como pessoa em fase especial de desenvolvimento. A prova da materialidade é a questão de fundo a justificar a inquirição da criança por aqueles segmentos que sustentam a sua obrigatoriedade, independen- temente de idade, nos feitos que envolvem a violência sexual. Inquirir a criança, nos feitos criminais, não tem por finalidade saber como ela está se sentindo ou mesmo propiciar a aplicação de medida de proteção (artigo 101, ECA), em que pese “a assistência ao paciente vítima de abuso sexual” e o fato de esse método já ter sido objeto “de importantes estudos quanto aos seus aspectos clínicos e de saú- de mental” (Benfica e Souza, 2002, p. 173). A inquirição, como já se afirmou, busca trazer aos autos a prova da materialidade, em especial nos casos em que a violência não deixou vestígios físicos, em afronta aos direitos humanos inseridos na Constituição Federal de 1988. Procedimentos voltados a sobrecarregar a criança com a produção da prova precisam ser repensados e reexaminados à luz dos direitos humanos, da proteção integral e dos conhecimentos científicos disponíveis em diferentes áreas do saber. Tem partido dos profissionais a necessidade de buscar outras formas de intervenção, uma vez que o modelo tradicional, no qual as diferentes profissões não se comuni- cam, não aponta bons índices de sucesso, levando-os a recorrer, cada vez mais, às 494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 propostas interdisciplinares que “permitem resultados novos que não seriam alcan- çados sem esse esforço comum” (Paviani, 2008, p. 41). Promotores, procuradores de justiça, juízes de direito, desembargadores, as- sistentes sociais, psicólogos e demais técnicos, todos gostariam de poder afirmar ou negar, com segurança, a ocorrência da violência sexual. Alguns segmentos, diante da incerteza, apostam na inquirição da criança, como se fazia antes de ela ser reco- nhecida como sujeito de direitos, período em que tais práticas não eram sequer questionadas. Potter (2010, p. 51), referindo-se às condutas utilizadas pelo processo penal, afirma: “Os meios probatórios inquisitoriais no processo penal brasileiro acabam por ofender tanto os direitos das vítimas quanto dos acusados por entender ambos como objeto e fonte de verdade e não sujeitos de fala”. Prossegue a autora: A equivocada abordagem dos operadores jurídicos às vítimas-testemunhas infantoju- venis para comprovar o fato criminoso é o inquisitorialismo inerente à estrutura processual, que permite ampliação de poderes contra todos os que não ocupam espa- ços de poder, como vítimas, acusados, testemunhas. (Idem) Ademais,devido ao medo de represálias, à culpa associada com o ato de aceitação da sedução e ao medo de dissolução da família, a inquirição da vítima de violência sexual intrafamiliar pode fazer com que a criança retire a acusação, como confirma a prática forense. E, ainda, “a criança pode não desejar discutir o(s) incidente(s) novamente porque a recordação é dolorosa e os pais podem pertinen- temente apoiar a criança nesta resistência” (Johnson, 1992, p. 301). Furniss chama ainda a atenção para o fato de que as ameaças de violência e de desastre na família levam a criança, em muitos casos, a mentir, o que ocorre com mais frequência quando negam ter ocorrido o abuso. Para o autor, “as crianças mentem sobre o abuso sexual porque estão com medo de serem castigadas, não acreditadas e não protegidas” (1993, p. 31). Tais constatações, presentes no dia a dia dos profissionais que atuam na área, contribuem para demonstrar a complexidade do tema, justifi- cando o envolvimento dos diversos campos do conhecimento no estudo, na pesqui- sa e na reflexão a seu respeito. 2. Ação interdisciplinar e a proteção à criança O trabalho com famílias em que a violência sexual está presente “é incômodo, tenso, permeado por desfiles de tragédias, de violências pessoais, sociais, institu- 495Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 cionais — explícitas ou simbólicas” (Fávero, 2006, p. 39), inviabilizando que um único profissional dê conta da demanda. Nesse contexto, a interdisciplinaridade2 “parece consistir num movimento processual na efetivação de experiências espe- cíficas e que surgem da necessidade e da contingência do próprio estatuto do co- nhecimento” (Paviani, 2008, p. 14). A colaboração interdisciplinar se faz necessá- ria em face da “rigidez, da artificialidade e da falsa autonomia das disciplinas, as quais não permitem acompanhar as mudanças no processo pedagógico e a produção de conhecimentos novos” (Idem). Propostas dessa natureza pressupõem o “aban- dono de posições acadêmicas prepotentes, unidirecionais e não rigorosas, que fa- talmente são restritivas, primitivas e tacanhas, impeditivas de aberturas novas, camisas de força que acabam por restringir alguns olhares, tachando-os de menores” (Souza, 1999, p. 163). Como bem assinala Iamamoto (2002, p. 41), é necessário desmistificar a ideia de que uma equipe, ao desenvolver ações coordena- das, cria uma identidade entre seus participantes que leva à diluição de suas particula- ridades profissionais. São as diferenças de especializações que permitem atribuir unidade à equipe, enriquecendo-a e, ao mesmo tempo, preservando aquelas diferenças. Desta forma, cabe ressaltar que o trabalho interdisciplinar “consiste num es- forço de busca da visão global da realidade, como superação das impressões está- ticas e do hábito de pensar fragmentador e simplificador da realidade” (Luck, 1994, p. 72). É uma atividade que possibilita um enfoque globalizador frente a uma realidade complexa. Para Japiassu (1976, p. 72), interdisciplinaridade corresponde a uma evolução dos tempos atuais, resultante de um caminho irreversível, vindo preencher os vazios deixados pelo saber proveniente das áreas de especialidade do conhecimento, [e] constitui importante instrumento de re- organização do meio científico, a partir da construção de um saber que toma por empréstimo os saberes de outras disciplinas, integrando-os num conhecimento de um 2. Em épocas passadas ocorreram importantes tentativas no mesmo sentido, sendo possível que “Platão tenha sido um dos primeiros intelectuais a colocar a necessidade de uma ciência unificada, propondo que esta tarefa fosse desempenhada pela filosofia” (Santomé, 1998, p. 46). A Escola de Alexandria, na Antiguidade, pode ser considerada a instituição mais antiga a assumir um compromisso com a integração do conhecimento, a partir de uma ótica filosófico-religiosa, reunindo “sábios de todos os centros intelectuais do mundo helenístico; as influências judias, egípcias e gregas misturavam-se com outras mais distantes, trazidas por mercadores e exploradores” (Idem). 496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 nível hierarquicamente superior, desencadeando uma transformação institucional mais adequada ao bem da sociedade e do homem. Também no campo da teoria jurídica, são observadas evidências da necessi- dade de romper definitivamente com as visões ingênuas do direito, que o colocam seja como reflexo, seja como autônomo face à política, sem que os ditos críticos discutam, ao menos, os diferentes sentidos que possuem as normas jurídicas ou se elas constituem, por exemplo, um sistema aberto ou fechado, em relação à problemática político-social do “mundo da vida”. (Rocha, 2000, p. 152) Em outras palavras, por ser a violência sexual intrafamiliar praticada contra a criança um fenômeno multicausal, uma abordagem de atendimento que não con- sidere todos os fatores intervenientes dificilmente atingirá as metas propostas, como a minimização dos danos causados pela violência e a interrupção do seu ciclo perpetuador, oferecendo à família a oportunidade de reconstrução dos seus vínculos afetivos. Chaves, referindo-se ao sistema de justiça, assinala que “o juiz se vale, cada vez mais, de todo o quadro técnico que o auxilia e que, por vezes, até aponta a solução adequada para casos sub judice, não sendo possível prescindir do estudo social”, assim como de laudos elaborados por médicos e psicólogos, “dada a com- plexidade extrema das situações trazidas a juízo, mormente aquelas que envolvem abuso sexual” (2011, p. 349). Os profissionais que trabalham com o abuso sexual praticado contra a criança, no âmbito intrafamiliar, sabem que “a interdisciplinaridade é um objetivo nunca completamente alcançado e por isso deve ser permanentemente buscado”, em es- pecial por não se tratar apenas de uma proposta teórica. Sua perfectibilidade é rea- lizada na prática, em experiências reais de trabalho em equipe, nas quais “exerci- tam-se suas potencialidades, problemas e limitações” (Santomé, 1998, p. 66), pois mediante a comunicação que a troca acontece, permanecendo viva a individualida- de dos envolvidos com a proposta. Gomes, Silva e Njaine (1999, p. 179), em estudo bibliográfico que se propôs a enfrentar a prevenção à violência contra a criança e o adolescente, sob a ótica da saúde, assinalam que “todas as propostas [...] destacam a necessidade de se adotar um trabalho interdisciplinar por parte dos profissionais”, evidenciando um consen- so entre os estudiosos do tema. No entanto, é também da literatura que vem a 497Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 constatação de que, “apesar da crescente atenção por parte dos pesquisadores para o tema do abuso sexual de crianças, o trabalho nesse campo é fragmentado, de- sorganizado e, em geral, metodologicamente difuso” (Amazarray e Koller, 1998, p. 561). Para vencer a fragmentação, “as disciplinas devem comunicar-se umas com as outras, confrontando e discutindo suas perspectivas”, como sinalizam Quáglia, Marques e Pedebos (2011, p. 282). Para Mendes, Lewgoy e Silveira (2008, p. 30) a complexidade da proposta de trabalho interdisciplinar “consiste justamen- te na sua própria construção, que é impregnada por trocas e articulações mais profundas entre os diferentes elementos participantes”. Os estudos disponíveis já permitem afirmar que a criança exposta à violência sexual, no âmbito da família, apresenta sinais não verbais, por meio de alterações no comportamento, na maioria das vezes não decodificados pelos responsáveis. Jung (2006, p. 27) salienta, referindo-se às manifestações da criança: Ela pode reagir com um estado de estresse emocional caracterizado por agitação, ou pode reagir pelo choque e recuo, com anestesia afetiva seguida por terror,regressões a comportamentos mais infantis e manifestações psicossomáticas. As queixas psicos- somáticas são habituais, pois geralmente expressa suas dificuldades não na fala, mas no corpo [...]. Além dos danos físicos, a violência sexual, por ser uma experiência que está além dos limites da compreensão da criança e para a qual ela não está fisicamente nem psicologicamente preparada, e por ser uma situa- ção imposta numa atmosfera de coerção e abuso de poder, rompe o curso normal de seu desenvolvimento psicossexual e, como consequência, diferentes tipos de sintomas podem surgir. (Jung, 2006, p. 19) Por vir acompanhada de particularidades capazes de elevar as dificuldades dos profissionais que lidam com a criança vítima, a família e o abusador, a violên- cia sexual intrafamiliar não pode ser enfrentada de forma fragmentada, sob pena de tal intervenção não surtir efeitos benéficos. Em consequência, como se tem sustentado, ela requer uma proposta de trabalho de cunho interdisciplinar por suas múltiplas implicações no âmbito pessoal e familiar, social e legal. Em razão das graves sequelas que as vítimas desse tipo de violência costumam apresentar, não se admite que os órgãos de proteção, por despreparo e desconheci- 498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 mento do tema, venham a reforçar, com condutas inadequadas, os danos que recaem sobre a criança. Como assinala Fávero (2012, p. 182), a efetivação da proteção integral da criança vítima de violência sexual exige a formação e capacitação continuada, teórica técnica e ética — especialmente dos agentes que atuam nas áreas de educação, saúde, assistência social e justiça — para desenvolverem a capacidade de reconhecer os sinais da violência contra a criança e o adolescente, denunciá-la e enfrentá-la, numa atitude coletiva e pró-ativa de proteção. Nesse sentido, o Projeto de Lei n. 8.045/2010 (origem 156/2009), atualmente na Câmara dos Deputados, e que trata da alteração do Código de Processo Penal, seguindo tendências contemporâneas, cria o Título V para tratar dos direitos da vítima, a quem assegura, entre outros, o direito de ser tratada com dignidade e respeito condizentes com sua situação e o direito de receber imediato atendimento médico e atenção psicossocial. Substituir métodos de trabalho utilizados no período anterior à Constituição Federal de 1988, que não garantiam os direitos assegurados à criança, por uma proposta interdisciplinar, que considera a criança como pessoa em fase especial de desenvolvimento, investindo na interdisciplinaridade como instrumento capaz de garantir a proteção integral à criança, é a proposta que se traz ao debate. Face às particularidades do tema, nem sempre será possível obter uma res- posta certa e segura sobre a existência da violência sexual anunciada. Em outras palavras, nem sempre uma sentença condenatória corresponderá à verdade dos fatos, assim como uma sentença absolutória nem sempre afasta a ocorrência do abuso. A incerteza, que tanto angustia os profissionais, não pode anular a atenção e o cuidado que a criança e a família envolvida merecem receber. Em todos os casos, os profissionais terão que se debruçar com afinco, competência e preparo técnico sobre a questão, sem abrir mão do compromisso com a dignidade humana e com a proteção integral à criança. Nesse contexto, a interdisciplinaridade é condição necessária para estabelecer uma razão comunicativa de validade, uma vez que permite a intersecção dos conhecimentos expressos pelas várias disciplinas, sendo necessário estabelecer uma linguagem comum através de um sistema permeável, flexível, dialé- tico; e onde os agentes sejam mediadores e harmonizadores, conhecedores do proces- so e identificadores dos problemas, o que ensejará o compartilhamento de referenciais teóricos [...]. (Giorgis, 2010, p. 34) 499Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 À luz do princípio da proteção integral assegurada à criança, práticas antigas precisam ser revistas e repensadas sob a ótica do novo paradigma estabelecido pela Constituição Federal. A mudança se torna mais difícil em virtude da posição de objeto, reservada à criança no processo penal, que costuma estar marcada pela falta de proteção, em total discrepância com sua condição de sujeito de direitos, há mais de duas décadas anunciada nas disposições constitucionais. A situação de desproteção vivenciada pela criança no ambiente familiar costuma ser reeditada nas demais instâncias, inclusive no decorrer do processo penal. O que se espera é que, no âmbito do sistema de justiça, os promotores de justiça, defensores públicos, advogados, magistrados e técnicos imprimam uma conduta diferente daquela ex- perimentada no âmbito familiar, vindo a adotar uma postura capaz de respeitar as crianças, tratando-as como indivíduos autônomos e íntegros, dotados de personalidade e vontade próprias que, na sua relação com o adulto, não podem ser tratados como seres passivos, subal- ternos ou meros objetos, devendo participar das decisões que lhes dizem respeito, sendo ouvidos e considerados em conformidade com suas capacidades e grau de de- senvolvimento. (Brasil, 2006, p. 25) Para que a criança, inserida nas diferentes relações familiares, possa ser con- siderada sujeito de direitos, profissionais de várias áreas do conhecimento terão que se envolver, buscando os fundamentos de sua ação numa atitude interdisciplinar que, como assinala Fávero (2010, p. 201), supõe complementaridade, não fragmentação — o que dispensaria o intérprete. Atuar interdisciplinarmente implica reconhecer os óbvios limites da área de conhecimento, o que, no caso, exige humildade intelectual, exige deixar de ser o centro da ação processual ou, melhor dizendo, deixar a base positivista predominante na leitura e interpretação da lei e do Direito para dispor-se a entender o processo de conhecimen- to como construção por um sujeito coletivo. O conhecimento disponível na atualidade a respeito do desenvolvimento in- fantil parece apontar para a importância de substituir a inquirição da criança por perícia realizada por equipe interdisciplinar, composta por assistentes sociais, pe- diatras, psicólogos e psiquiatras especializados no atendimento infantil. Enquanto a inquirição renova o sofrimento da criança, sem garantir a credi- bilidade esperada pelo sistema criminal, a perícia, nos moldes propostos, possibi- 500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 lita conhecer a situação vivida pela criança e sua família, permitindo a busca de medidas de proteção (artigo 101, ECA) ou de medidas a serem aplicadas aos pais (artigo 129, ECA). O sistema de justiça, ao lado de outros órgãos, ocupa papel relevante no sistema de defesa, proteção e promoção de direitos previstos na normativa in- ternacional e na legislação brasileira, devendo assumir-se como integrante do processo de desenvolvimento nacional, na busca da justiça social, da paz e da ordem na sociedade. No entanto, alerta a Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP) (2008, p. 11): As práticas do sistema de justiça nem sempre incorporaram a mudança de paradigmas operada pelo ECA e pelas intervenções de outras áreas setoriais. Seria injusto atribuir esta falta apenas aos operadores do direito, especificamente a magistrados, promo- tores de Justiça e defensores públicos. Percebe-se, pelo contrário, uma falta de reco- nhecimento de prioridade do direito de crianças e adolescentes pelas instituições do sistema de justiça, em manifesta afronta ao preceito constitucional do art. 227. Para que se possa investir em ações de cunho interdisciplinar, urge que se busque capacitar os profissionais do Serviço Social e da Saúde para avaliar a crian- ça e elaboraro laudo. De outro lado, há que se capacitar os promotores de justiça, advogados e magistrados para que reconheçam o valor científico de tais perícias, retirando da criança a responsabilidade de provar os fatos e apontar o abusador, tarefas que competem aos promotores de justiça e magistrados. Alterações no currículo escolar, a começar pelo ensino fundamental, com a inclusão de conteúdos do Estatuto da Criança e do Adolescente, como prevê a lei, são urgentes. De igual forma, a matéria deve ser incluída nos currículos dos cur- sos do ensino superior, favorecendo, a curto e médio prazo, maior qualificação profissional. As mudanças a serem operadas são apontadas com clareza na normativa in- ternacional e na legislação brasileira. Resta, no entanto, a difícil tarefa de não es- morecer na luta por efetivo acesso aos direitos da criança frente à lentidão com que eles são realizados, de modo a evitar que se façam muitas vítimas de violência sexual intrafamiliar antes que crianças e adolescentes sejam respeitados como su- jeito de direitos, não só na letra fria da lei, mas também nas ações que interferem na sua vida social. 501Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 3. A perícia interdisciplinar como meio de prova e garantia de direitos humanos à criança A perícia interdisciplinar, defendida por muitos, costuma ser desprezada pelos defensores dos métodos de inquirição, em franca expansão no país. Reafirmamos a defesa da utilização do trabalho interdisciplinar, com assisten- tes sociais, pediatras e psicólogos, capacitados para o trabalho com crianças vítimas de violência sexual. Laudos são meios de prova e como tal precisam ser reconhe- cidos. Assim como as lesões físicas são apuradas por médico-legista, em perícia realizada em consultório, sem a interferência de outro técnico e sem o acompanha- mento em tempo real por magistrado, advogados e réu, a constatação dos danos sociais e psíquicos há que ser apurada por assistentes sociais e psicólogos, cujos laudos técnicos devem ser levados aos autos do processo, constituindo-se prova da materialidade. O promotor de justiça Francisco Cembranelli, que trabalhou na acusação do caso Isabella, em entrevista concedida ao jornal Zero Hora, em Porto Alegre, ao ser questionado sobre as possibilidades de se obter a condenação do réu em crimes que não contam com testemunhas presenciais, afirmou “existirem outros meios para se provar o que a acusação alega; testemunhos, muitas vezes, são falhos; provas científicas, não”. Para o promotor de justiça, “é importante evoluirmos e não ficar- mos tentando conseguir condenações como se estivéssemos nos anos 1960 [...]” (Zero Hora, 2010, p. 48). A criança, como sujeito de direitos humanos, merece proteção em todas as situações, especialmente quando se vê envolvida em processo judicial na condição de vítima, não podendo o sistema de justiça se sobrepor ao sistema de garantias de direitos enunciado na normativa internacional. Ao Poder Judiciário cabe dispensar tratamento condizente com os princípios constitucionais da proteção integral e da dignidade da pessoa humana, o que pressupõe conhecer o contexto de vida da criança nas suas diversas facetas, investindo, cada vez mais, em ações cooperativas de cunho interdisciplinar. A prática de inquirir crianças vítimas de violência sexual, em virtude dos novos paradigmas que norteiam a proteção da infância, a partir da década de 1980, motivou a edição da Resolução n. 20/2005 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Segundo o documento, milhões de crianças do mundo inteiro são 502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 vítimas de violência provocada pela prática de crimes e de abuso de poder por parte de adultos, podendo os danos ser agravados quando são chamadas a auxilia- rem na instrução dos processos judiciais. A resolução assinala, ainda, que os direi- tos humanos da criança devem ser considerados em primeiro lugar, incluindo-se o direito à proteção e à chance de um desenvolvimento harmonioso; o direito de expressar livremente suas opiniões e crenças; o direito de ser informada sobre o andamento de processo judicial que diga respeito a fatos de sua vida, bem como sobre todos os seus possíveis desdobramentos (ONU, 2005). Não estamos afirmando que a criança deve ser mantida à margem do proces- so judicial, mas que o tratamento a ela dispensado precisa estar em consonância com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, sendo-lhe oportunizado ser levada à presença da autoridade judiciária sempre que desejar revelar fatos e fazer pedidos, em respeito a sua condição de pessoa em fase especial de desenvolvimento. Nesse sentido, o item XI da Resolução n. 20/2005 assegura a participação da criança nas audiências e julgamentos desde que previamente pla- nejada e assegurada a continuidade do seu relacionamento com os profissionais com quem vem mantendo contato durante todo o desenrolar do processo. Direito de participar e de ser ouvida são garantias da criança, o que não pode ser confun- dido com o dever de ser inquirida com o fim de produzir a prova de fato em que figura como vítima (ONU, 2005). A mudança de concepção da criança no sistema jurídico brasileiro, fruto de um longo debate que se iniciou em 1924, com a Declaração de Genebra, exige alterações profundas nas condutas e práticas exercidas desde o início do século XX. Decorridos vinte anos da edição do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda são tímidas as iniciativas que valorizam a criança, respeitando sua condição de sujeito de direitos humanos. Para isso, os cursos de Direito, assim como os de Serviço Social, de Pe- dagogia, de Medicina, de Psicologia, precisam se tornar parceiros da criança, in- cluindo essa discussão em seus currículos e possibilitando maior capacitação dos profissionais para o reconhecimento da criança como sujeito de direitos. Considerações finais Reconhecer as dificuldades que existem na identificação da violência sexual praticada contra a criança parece ser o primeiro passo para a valorização do traba- 503Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 lho interdisciplinar. No entanto, não basta esse reconhecimento. É preciso ter claro que a criança é detentora de direitos humanos, fato que impede a utilização de práticas que coloquem em risco o direito ao respeito e ao desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social em condições de liberdade e de dignidade. Embora a presença de técnicos do Serviço Social, da Psicologia e da Psiquia- tria no sistema de justiça não constitua fato novo, há que se retomar o debate do papel desses profissionais, valorizando seu conhecimento científico, reconhecendo seus instrumentos de trabalho e possibilitando o verdadeiro exercício da atividade interdisciplinar, caminho capaz de garantir os direitos humanos à criança vítima de violência sexual. Não se pode, à luz dos princípios constitucionais, dissociar as ações que visam a condenação do réu daquelas que buscam a garantia de direitos humanos à criança e ao adolescente, como se fossem compartimentos diversos e autônomos. Há que se trabalhar nas duas frentes com a clareza de que em hipótese alguma a proteção da criança pode ser mitigada em nome de um resultado conde- natório. Nisso, talvez, resida a maior dificuldade neste momento. Recebido em 6/3/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013 Referências bibliográficas ABMP. O sistema de justiça da infância e da juventude nos 18 anos do Estatuto da Crian- ça e do Adolescente. Desafios na Especialização para a garantia de direitos de crianças e Adolescentes. Brasília, jul. 2008. Disponível em: <http://www.abmp.org.br/UserFiles/File/ levantamento_sistema_justica_ij.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2013. ALTAVILLA, Enrico. Psicologia judiciária. 3. ed. Coimbra: Armênio Amado, 1982.ALVES, Rubem. Escutatória. 1994. Disponível em: <http://www.rubemalves.com.br/ escutatorio.htm>. Acesso em: 3 jan. 2013. AMAZARRAY, Mayte Raya; KOLLER, Silvia Helena. Alguns aspectos observados no desenvolvimento de crianças vítimas de abuso sexual. 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Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 O Serviço Social no Judiciário: construções e desafios com base na realidade paulista* The Social Work in the Judiciary: constructions and challenges based on the reality of São Paulo State Eunice Teresinha Fávero** Resumo: Este artigo apresenta algumas construções históricas e importantes desafios colocados ao Serviço Social no Judiciário. Para isso, toma como base o cotidiano profissional no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, particularidades teórico-metodológicas e éticas que se fazem presentes no exercício profissional nessa área, e movimentos políticos da categoria em direção ao acesso e à garantia de direitos. Palavras-chave: Serviço Social. Campo sociojurídico. Cotidiano profissional. Direitos. Abstract: This article presents some historical constructions and important challenges for the Social Work in the Judiciary. For so, it is based on the professional daily activity in the Supreme Court of São Paulo State, on the theoretical-methodological particularities and ethical principles of the pro- fessional practice in this area, and on the category’s political movements aiming at the access and the guarantee of rights. Keywords: Social Work. Socio-juridical field. Professional daily activity. Rights. * Este artigo tem como base palestras proferidas no V Encontro Estadual dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ocorrido em dezembro de 2012, promovido pela Associação dos Assistentes Sociais do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ-SP), e no II Seminário Nacional sobre o Serviço Social no Campo Sociojurídico, em outubro de 2009, promovido pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). ** Assistente social/SP, com atuação e pesquisa na área judiciária; primeira secretária da AASPTJ-SP nas gestões 2001-2005 e 2009/2011; mestre e doutora em Serviço Social pela PUCSP; docente na Universidade Cruzeiro do Sul-SP, São Paulo, Brasil. E-mail: eunicetf@gmail.com. 509Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Introdução Este texto apresenta reflexões sobre as construções históricas e os desafios do Serviço Social no Judiciário, com base no cotidiano profissional do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP). Reflexões e indaga-ções a respeito do que tem sido construído e quais desafios estão postos no dia a dia de trabalho — tanto em termos de questões teóricas, metodológicas e éticas que permeiam o exercício profissional, como questões políticas presentes nesse fazer. As ideias aqui expostas partem da experiência de trabalho no Judiciário pau- lista, da militância na Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), e de pesquisas sobre a história do Serviço Social nessa instituição, sobre condições de trabalho e sobre a realidade social constatada no trabalho cotidiano com indivíduos que vivenciam expressões da questão social, transformadas nesse espaço sócio-ocupacional em demandas judiciais — em especial nos âmbitos da Justiça da Infância e da Juventude e da Justiça da Família. O debate sobre a história do Serviço Social no campo sociojurídico1 a partir do cotidiano profissional e, particularmente, as construções históricas dessa profis- são no Judiciário paulista e seus desafios remetem à reflexão sobre a relação entre demandas com as quais os profissionais se deparam diariamente, a precarização do trabalho e a necessária organização coletiva para fazer frente às condições adversas do labor cotidiano. E isso com o propósito de fortalecer o potencial que o Serviço Social tem para contribuir com o acesso à Justiça e aos direitos humanos e, no seu interior, os direitos sociais. 1. Neste texto, “campo sociojurídico” é utilizado como sendo aquele que reúne “o conjunto de áreas em que a ação do Serviço Social articula-se a ações de natureza jurídica, como o sistema judiciário, o sistema penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento como abrigos, internatos, conselhos de direitos, entre outros. O termo sociojurídico, enquanto síntese dessas áreas, tem sido disseminado no meio profissional do Serviço Social, em especial com a sua escolha como tema central da revista Serviço Social & Sociedade n. 67 (Cortez Editora), pelo comitê que a organizou, tendo sido incorporado, a seguir, como uma das sessões temáticas do X CBAS — Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais/2001” (Fávero, 2003, p. 10). Em trabalho que vem sendo realizado atualmente junto ao CFESS por Grupo de Trabalho constituído para elaborar as diretrizes de atuação dos assistentes sociais nesse campo, os conceitos de “campo” e de “área” estão sendo estudados (a partir de análises de Elizabete Borgianni), de maneira a ser definido o mais apropriado para nominar esse espaço sócio-ocupacional. 510 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Portanto, trata-se de um debate que leva em conta a história do Serviço Social no Judiciário, construída no cotidiano de trabalho pelos assistentes sociais e por todos os sujeitos com os quais eles interagem no exercício profissional, direta ou indiretamente. Então, história, cotidiano, trabalho, justiça e direitos se colocam como centrais nessa reflexão, com vistas a desvelar o exercício profissional lá na ponta, nas suas articulações com a realidade social e institucional. Para caminhar até a história do tempo presente, quando os desafios estão postos concretamente, são retomados alguns marcos da história do Serviço Social no Brasil e no Judiciário paulista (com um flash sobre seu início e outro foco no presente), em articulação com a ética e as competências profissionais — sintoniza- das (ou não) com fundamentos teóricos, metodológicos e técnicos do Serviço Social nos diferentes momentos. Nessa direção, vamos buscar também debater sobre como nessa história e nesse cotidiano o poder-saber profissional se põe frente às expres- sões da questão social. Marcos históricos: origem, prática profissional e ética O Serviço Social no Brasil tem 77 anos de existência,2 e o Serviço Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo tem 65 anos,3 ainda que desde o início da profissão neste país alguns assistentes sociais já realizassem trabalhos no então denominado Juizado de Menores, sem remuneração e/ou integrando o antigo Co- missariado de Menores. Os pioneiros do Serviço Social no TJSP foram também pioneiros do Serviço Social no Brasil, a exemplo da professora Helena Iracy Junqueira e do professor José Pinheiro Cortez. Ambos compuseram o grupo de professores da Escola de Serviço Social de São Paulo e militaram no PartidoDemocrata Cristão. Defendiam concepções de justiça social e de direitos com base no doutrinarismo católico, com um viés, ainda que embrionário, da social-democracia, e tiveram participação de- cisiva na implantação do Serviço Social no primeiro Juizado de Menores da capital, 2. Considerando como marco inicial da profissão no Brasil a criação da Escola de Serviço Social, em 1936, em São Paulo (SP). 3. Considerando como marco desse início a criação, em 1949, do Serviço de Colocação Familiar junto ao Juízo de Menores, na capital paulista. 511Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 em 1949, por meio do Serviço de Colocação Familiar,4 instituído pela Lei estadual n. 500 — que ficou conhecida como Lei de Colocação Familiar. Serviço este que, se utilizarmos denominação atual, pode ser considerado como o primeiro programa de família de apoio ou família acolhedora, ou, ainda, pode ser compreendido como o primeiro programa de transferência de renda de que se tem notícia no Estado de São Paulo, na medida em que incluía repasse financei- ro inicialmente às famílias de apoio e posteriormente às próprias famílias das crianças e adolescentes cujos “casos” (como então se denominava) chegavam ao Judiciário com demanda de acolhimento institucional. Em depoimento concedido em 1993,5 o assistente social e professor José Pi- nheiro Cortez afirma, em relação ao auxílio financeiro à família de origem, previs- to por esse programa para evitar a “internação de menores” (como se denominava então o acolhimento institucional de crianças e adolescentes), que: A maior parte dos casos era de pobreza, que a gente tratando ou não tratando, continua pobre e que se eu não der comida não come. [...]. Era um dinheiro necessário para viver, mas não para tirar a condição de total dependência. Claro, a pessoa era estimu- lada a trabalhar [por meio do acompanhamento realizado pelo assistente social], mas dava-se o mínimo necessário, porque se não se desse isso, a criança ia para a rua ou para uma instituição e aí seria mais caro para o Estado e para a sociedade. (Fávero, 1999, p. 95) Assim, respondendo às demandas colocadas pela ampliação das expressões da questão social, esse trabalho foi uma forma de assistência social com o objetivo de realização da justiça, vinculada ao ideário da doutrina social da Igreja Católica. O que, naquele momento histórico, não implicava questionamentos da ordem social burguesa que ditava a direção disciplinadora e controladora da ação profissional frente aos então chamados “desajustamentos sociais” (Idem, p. 95), que poderiam culminar no acolhimento institucional de uma criança ou adolescente. 4. A execução do Serviço de Colocação Familiar permaneceu sob a responsabilidade dos Juizados de Menores da capital até 1985, quando passou a ser administrado pelo Instituto de Assuntos da Família (Iafam), vinculado ao Poder Executivo estadual, vindo a ser extinto alguns anos depois. 5. Depoimento concedido para pesquisa de mestrado da autora deste texto. Tese publicada com o título Serviço Social, práticas judiciárias, poder: implantação e implementação do Serviço Social no Juizado de Menores de São Paulo, em 1999; e em 2005, com o título Serviço Social, práticas judiciárias, poder: implantação e implementação do Serviço Social no Juizado da Infância e Juventude de São Paulo, pela Veras Editora, São Paulo. 512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 O Serviço Social começa então, no Judiciário paulista, com uma direção mais voltada para a proposição e o desenvolvimento de ações que assegurassem alguma proteção social — ainda que com uma visão de justiça social direcionada pela doutrina social da Igreja Católica, que naquele momento iluminava a formação moral e ética dos estudantes de Serviço Social — e menos identificada com ações focadas no controle social de comportamentos considerados “desviantes” do padrão dominante burguês. Isso vai se dar com a criação e a formalização, em 1957, das Secções de Informações e de Serviço Social, que ficaram conhecidas como Serviço Social de Gabinete, trabalho que foi instituído em razão do aumento da demanda de natureza social e pelas competências inerentes aos profissionais dessa área, que detinham um saber específico sobre as relações sociais e familiares. Saber que passa a ser sistematizado em informes, relatórios ou laudos, com a finalidade de dar suporte à decisão judicial: Então os relatórios eram assim: estudava-se profundamente o pedido, o significado do pedido, a situação familiar a respeito daquele problema que se apresentava ali — digamos, orientando um pedido de internação: então vinha o significado da internação, a situação da família, o trabalho que se tinha feito com a família no sentido de evitar a internação, o entendimento feito com a escola para a criança frequentar escola. Também se acertava, por exemplo: todo mês a família tinha que vir trazer para o as- sistente social o boletim da criança ou a própria criança, ou havia um entendimento direto com a escola... O caso era bem conduzido, era bem apresentado, inclusive [...], quando você acabava de ler um relatório você tinha uma situação, um universo com- pleto”. (Depoimento Borges, apud Fávero, 1999, p. 117) Então, isso significa que há aproximadamente sessenta anos os assistentes sociais têm como principais atribuições no Judiciário paulista: conhecer os sujeitos que procuram ou são encaminhados a essa instituição, em especial nas áreas da infância e juventude e família — sujeitos que, via de regra, vivem situações de violação de direitos e de conflitos os mais diversos; sistematizar esse conhecimen- to em informes, relatórios ou laudos, e encaminhar ao magistrado, de maneira a contribuir para que ele forme um “juízo” sobre a situação e defina a sentença, que poderá vir a ser definitiva na vida de indivíduos e famílias. Sentenças que desde aquela época e até os dias de hoje determinam o acolhimento institucional de crian- ças, as colocam em outras famílias, garantindo, em tese, sua proteção, aplicam medidas socioeducativas — da advertência à internação —, destituem o poder fa- miliar, definem ou redefinem a guarda de filhos, dão base em alguns casos, ainda 513Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 que indiretamente, à responsabilização penal de supostos violadores de direitos de crianças, mulheres, idosos etc. Mas que subsídios são esses que cabia — e cabe — ao assistente social ofe- recer para contribuir com a decisão judicial? De que lugar profissional, institucio- nal, político o assistente social falava e fala hoje? Por que o estudo social ou a chamada perícia social, com características muitas vezes descritivas do relato dos sujeitos atendidos e da demanda que apresentam, se tornou trabalho fundamental no Judiciário em detrimento de um maior investimento em diagnósticos sociais articulados com as amplas dimensões da realidade social e ações articuladas com outras organizações sociais e, dessa maneira, com maior possibilidade de contri- buição para o acesso aos direitos e à justiça? E, afinal, de que Justiça se fala e que direitos são esses? O assistente social foi e é chamado pelo Estado a fazer parte do Poder Ju- diciário para contribuir com a aplicação da lei. O estudo que realizava e que realiza, o parecer social que elabora com base nesse estudo, e que é registrado em um relatório ou laudo, tem contribuído para flexibilizar ou para manter infle- xível a lei? A lei “tem um poder formal de gerir e de ordenar a vida, implicando em direitos e deveres”. Na sociedade brasileira, em que a lei é essencialmente positivista, ela define, de acordo com Ewald (apud Fávero, 1999, p. 41), “um espaço de liberdade, traça-lhe os limites [...]; ela define uma partilha simples e imperfeita entre o permitido e o proibido;estabelece uma igualdade entre os ci- dadãos, que deixa na sua indistinção, pois é indiferente à sua existência singular”. Dessa maneira, a lei generaliza e estabelece formalmente a igualdade entre os cidadãos, ainda que opere com desigualdades, as quais, nessa perspectiva, não são consideradas. Assim, o estudo que o assistente social realizava e realiza contribui para des- vendar a realidade em sua construção histórica e social, ou para ocultar — ou justificar — essa construção? Nesse sentido, na realização desse estudo sob uma perspectiva crítica, não se pode ignorar que a desigualdade e a exploração social que permeiam a realidade social são inerentes ao padrão capitalista que rege a economia e a política no Brasil. Quando o Serviço Social tem início no Judiciário, o viés funcional positivis- ta e o doutrinarismo social da Igreja Católica, aliados ao metodologismo do Servi- ço Social de casos individuais, de matriz norte-americana, eram referências para o exercício profissional. 514 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Esse início do Serviço Social no Judiciário paulista praticamente coincide com o estabelecimento do 1º Código de Ética Profissional do Assistente Social, de 1948, fundamentado em pressupostos neotomistas e positivistas, em que a ação profissional é claramente subordinada à intenção ético-moral dos seus agentes, entendida como uma decorrência natural da fé religiosa. A ética é concebida como a “ciência dos princípios e das normas que se devem seguir para fazer o bem e evitar o mal” (Abas, 1948, p. 40);6 sua importância é afirmada em face da atuação profissional voltada às “pessoas humanas desajustadas ou empenhadas no desenvolvimento da própria personalidade” (idem). (Barroco, 2001, p. 96) A ética operava, portanto, de maneira prescritiva, traduzia na prática dogmas cristãos, e buscava o aperfeiçoamento da personalidade das pessoas atendidas, de maneira a que mantivessem “atitude habitual de acordo com as leis e os bons cos- tumes da comunidade” (idem, p. 96, citando Abas, 1948). As transformações sociais e culturais que ganham corpo particularmente no mundo ocidental, e sobretudo a partir da década de 1960, ainda que tenham envol- vido significativos setores da sociedade brasileira, não aparecem de maneira explí- cita no Serviço Social naquele momento. Mesmo que tenham existido profissionais que se envolveram na luta por transformações e pela liberdade social e política, isso não vai refletir de forma clara nas normativas e na literatura da profissão, literatura que praticamente inexistia então, na medida em que o Serviço Social nesse período desenvolvia apenas uma dimensão interventiva e não investigativa, com bases científicas. Todavia, considerando a consciência possível à época — entendida, conforme Goldmann, como o “máximo de possibilidade histórica que a consciência de um grupo possa ter em um determinado momento” (apud Baptista, 1986, p. 63) — e os limites teórico-metodológicos decorrentes do embasamento no neotomismo, no positivismo e no tecnicismo, nota-se uma preocupação com a autonomia profissio- nal e os princípios éticos decorrentes dessa direção social da profissão, concorde-se ou não com eles nos dias de hoje. Isto é revelado em depoimentos concedidos pelo professor José Pinheiro Cortez e pela assistente social Zilnay Catão Borges, dois dos pioneiros do Serviço Social no Judiciário paulista. 6. Referência conforme texto original. 515Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 O professor Cortez, ao analisar o papel do Serviço Social no Judiciário em suas primeiras décadas,7 afirma: A ação do Serviço Social repousa muito mais na intencionalidade do próprio Serviço Social do que nos fatos sobre os quais ele atua [...]. Importante é definir o papel do Serviço Social na esfera do Judiciário. E esse papel não é uma definição só da lei nem só do Poder Judiciário. É também, e fundamentalmente, nossa, dos assistentes sociais. Então, vou trabalhar os Serviços Sociais junto ao Poder Judiciário a partir de uma ótica específica e nossa, e que eu vou tentar convencer o Poder Judiciário, o juiz, o legislador, seja quem for, a adotar essa ótica [...]. O problema da neutralidade do perito [...] existe, mas não deve existir; o indivíduo não é totalmente neutro na problemática social [...]. Essa postura que o assistente social condiciona o Serviço Social às instituições, inclusive à chamada Poder Judiciá- rio, essa postura é que nós temos que questionar, não é correto. É um autossuicídio. É aceitar as instituições do momento, e o Poder Judiciário é um poder político, no sentido amplo da palavra político. (In: Fávero, 1999, p. 134-135) Zilnay Catão Borges, por sua vez, ao falar sobre o poder inerente ao trabalho profissional no cotidiano, materializado em relatórios,8 afirma: Nós tínhamos o direito, eu digo, de vida ou morte. Se você pegar os processos daque- la época vai ver que eram relatórios grandes, até meio chatos para ler. Não chatos, porque eram muito bem-feitos, mas eram relatórios grandes, bons [...]. De jeito nenhum o assistente social alterava relatórios por exigência do juiz. Às vezes ele podia não concordar [...]. É um direito que lhe cabia, como juiz [...]. Ficava o nosso relatório, documentado, e o juiz colocava o parecer dele. Mas isso era raríssimo acontecer. [...] [...] dava um medo danado. O medo era uma das discussões que a gente vivia tendo: gente, veja a responsabilidade que a gente está tendo, porque o juiz vê o que se escre- ve no final e põe “de acordo”. Então, os casos não iam imediatamente para o juiz, eram muito bem estudados pela chefia e refeitos se algum aspecto não estivesse muito bem claro para justificar a medida final (idem, p. 116). Ainda que outras marcas tenham sido importantes na história do Serviço Social no Judiciário paulista — como algumas experiências com trabalhos comu- 7. Depoimento em 1993 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista. 8. Depoimento em 1994 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista. 516 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 nitários nos anos 1960 e 1970, bem como trabalhos interdisciplinares, realizados por profissionais significativos nessa história, e que fizeram diferença na ampliação e na qualificação do trabalho no Judiciário9 —, até por volta dos anos 1980 a mar- ca da tradição positivista e doutrinária foi expressiva no exercício profissional do assistente social nessa instituição e, é possível afirmar, se faz presente em algumas intervenções até hoje, mesmo que a partir dos anos 1990 um novo projeto ético e político tenha passado a nortear a formação e a prática profissional do assistente social. Um projeto que é hegemônico, o que não necessariamente significa que seja de domínio e aceito por todos os profissionais na atualidade. Da mesma maneira que não é possível afirmar com segurança que antes dessa década, entre os profis- sionais que atuavam no Judiciário, não existissem vozes dissonantes do conserva- dorismo e do doutrinarismo social cristão, e que indistintamente todos assumiram integralmente uma perspectiva de trabalho apenas com vistas à adaptação dos in- divíduos ao meio, que era característica do Serviço Social tradicional. Projeto profissional, trabalho no cotidiano e desafios contemporâneos A visita ao passado, em particular aos anos 1940-1950, com a perspectiva de conhecer um pouco da história e, como ensina o historiador italiano Alessandro Portelli (1997), “aprendermos um pouquinho com ela”, é importante para avanços na construção de transformações no presente e no futuro. Tais transformações de- pendem de os profissionais se indagarem e se posicionarem em relação às ativida- des que realizam no tempo presente e em que condições: em relação à ética profis- sional, àscondições e relações de trabalho, à judicialização e à criminalização de expressões da questão social, às tentativas de uso desvirtuado do trabalho do assis- tente social para obtenção de provas testemunhais com vistas à responsabilização penal, e tantas outras questões e desafios com os quais os profissionais se deparam lá na ponta do exercício cotidiano de trabalho. Torna-se importante a reflexão sobre como estão se posicionando e o que fazem os assistentes sociais no tempo presente no dia a dia de trabalho, nos diver- sos espaços que ocupam no Judiciário — alargando aqui o tempo presente desde o início da década de 1990 até os dias atuais. Como acontece a atuação na Justiça da 9. Como Terezinha Davidovich, João Batista Aducci, Maria Antonieta Guerriero e tantos outros. 517Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Infância e da Juventude, na Justiça da Família e nos demais espaços que demandam seu trabalho nessa instituição? Quais os referenciais teóricos e metodológicos que guiam a intervenção? Quais os princípios éticos que iluminam a escuta que estabe- lecem com os indivíduos, famílias e grupos com os quais trabalham, os relatórios que elaboram e os pareceres que emitem? Como estão sendo apropriadas as legis- lações sociais pós-Constituição Federal de 1988 e como se inserem e se articulam nesse trabalho as normativas e os programas sociais dela decorrentes? Como os profissionais se organizam politicamente para fazer avançar o compromisso com a efetivação da justiça social e dos direitos? E qual perspectiva de justiça social e de direitos norteia esse fazer profissional? Não é pretensão nem é possível descrever aqui respostas a todas essas e a tantas outras questões que movem, ou que poderiam mover, os profissionais da área comprometidos com a direção social posta pelo projeto profissional hegemônico do Serviço Social na contemporaneidade. Mas são as perguntas à realidade que instigam a construção de novos caminhos em busca de respostas efetivas. A década de 1990 marca essa história pela significativa ampliação do quadro de profissionais, tanto na capital (que já iniciara uma ampliação na década de 1980) como em cidades do interior do estado de São Paulo. Isso em virtude do constante aumento da demanda de trabalho, decorrente tanto da ampliação das expressões da questão social que chegam ao Judiciário devido à desigualdade social e à ausência ou insuficiência de políticas universais de proteção social, como das normativas legais e institucionais que estabelecem mais claramente a proteção de direitos de crianças, adolescentes, idosos, mulheres e famílias a partir da Constituição Federal de 1988. Não é por acaso que essa década — nominada aqui de década de organização e de conquistas — marca a criação oficial da Equipe Técnica de Coordenação e Desenvolvimento Profissional dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP, para o planejamento e a execução das atividades de aprimoramento profissional. Marca também o início da organização política formal dos assistentes sociais e psicólogos do TJSP (que já vinham construindo um processo organizativo nos anos anteriores), com a criação, em 1992, da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo — AASPTJ-SP, com o objetivo de tra- balhar, sobretudo, na direção da defesa de direitos desses profissionais. É também a partir da segunda metade dessa década que vários profissionais do Judiciário pau- lista — a maior parte deles com alguma participação na organização política da categoria — começam a desenvolver pesquisas no âmbito acadêmico sobre o traba- 518 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 lho do assistente social no Judiciário e, portanto, a sistematizar conhecimentos com base científica sobre seu trabalho, articulando o fazer cotidiano a análises teóricas.10 Essa década de conquistas no âmbito do Judiciário paulista é a mesma em que o Serviço Social consolida as bases do atual projeto ético e político da profissão: em 1993, após amplo debate entre segmentos da categoria profissional, é estabele- cido o atual Código de Ética profissional e promulgada a Lei n. 8.662/1993, que deu nova regulamentação à profissão, bem como, em 1996, são lançadas as atuais diretrizes curriculares pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (Abepss). Documentos esses e diretrizes que marcam a ruptura do projeto profissional com a direção conservadora, assumindo claramente uma direção social no exercício profissional norteada pelos seguintes princípios: Reconhecimento da liberdade como valor ético central, pela defesa intransigente dos direitos humanos, pela ampliação e consolidação da cidadania, pela defesa do apro- fundamento da democracia, o posicionamento em favor da equidade e justiça social, pelo empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, pela garantia do pluralismo, pela opção por um projeto profissional vinculado ao processo de constru- ção de uma nova ordem societária — sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero, pela articulação com os movimentos de outras categorias, pelo compromisso com a qualidade dos serviços prestados e pelo exercício do Serviço Social sem ser discriminado nem discriminar. (CFESS, 2011) Esses princípios éticos estão dispostos no atual Código de Ética Profissional e se contrapõem radicalmente àqueles estabelecidos no Código de Ética Profissio- nal de 1948, que levavam a traduzir na prática dogmas doutrinários cristãos, ações na direção de ajustamentos de indivíduos à ordem social dominante, e valores moralizantes relacionados ao agir conforme “os bons costumes”. Isto é, ao que a moral burguesa, ditada pelos detentores dos meios de produção e do poder político, definia que deveria ser o comportamento da população trabalhadora, a serviço dos interesses do capital. 10. Entre as profissionais/pesquisadoras estão Ana Maria da Silveira, Rita de Cássia Silva Oliveira, Abigail Franco, Selma Magalhães, Dalva Azevedo, Sílvia Alapanian, Dilza Silvestre Matias, Catarina Volic, Leni Ribeiro, Áurea Fuziwara, Ester Gast, além da autora deste texto. É importante destacar que a maioria dessas pesquisas foi acolhida e impulsionada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o Adolescente da Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP (NCA-PUC-SP), coordenado pela professora Myrian Veras Baptista. 519Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Mas não se pode esquecer que essa mesma década de 1990 foi marcada pelo avanço do neoliberalismo, da precarização do trabalho e pelo aumento considerável dos indicadores de pobreza, miséria e violência no Brasil. E isso, no que se refere à categoria dos assistentes sociais, vai se refletir mais explicitamente na década seguinte. Assim, se a década de 1990 foi de consolidação da organização e de algumas conquistas, é possível afirmar que a primeira década do século XXI se torna a de resistência ao avanço desenfreado da precarização e da exploração do trabalho em geral, particularmente no que diz respeito ao Serviço Social, do trabalho do assis- tente social, e de lutas pelos direitos desses profissionais bem como pelo acesso e efetivação de direitos da população usuária dos serviços sociais. Nesse contexto, no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, é extinta em 2001 a Equipe Técnica de Coordenação e Desenvolvimento Profissional dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP, praticamente eliminando as ativida- des de capacitação dos profissionais de Serviço Social e de Psicologia, sendo criados, enquanto espaço de resistência, apenas os Grupos de Estudos11 sobre di- versos temas relacionados ao trabalho cotidiano, que passam a realizar reuniões mensais e são todos coordenados por assistentes sociais ou psicólogos do próprioTJSP, “sem ônus” para essa instituição.12 A pesquisa realizada pela AASPTJ/SP sobre as condições de trabalho dos assistentes sociais e psicólogos do TJSP, publicada com o título Serviço Social e Psicologia no Judiciário, construindo saberes, conquistando direitos (Fávero, Melão e Tolosa Jorge, 2005), revela claramente essa situação, demonstrada tanto pela bárbara realidade social da população atendida no dia a dia de trabalho do assistente social e do psicólogo (situações de extrema pobreza, violência interpes- soal e intrafamiliar, não acesso à proteção social), como pelo sofrimento no traba- lho vivido por muitos profissionais — pelas precárias condições materiais de tra- 11. Cabe aqui a lembrança de que entre as responsáveis pelo estabelecimento desses espaços de resistências estão as psicólogas Magda Melão e Denise Alonso, e a assistente social Sílvia Sant’Anna, e que por vários anos os encontros dos grupos aconteceram na sede da AASPTJ/SP, portanto, fora do espaço institucional. 12. Conforme ressalvado nas publicações das datas dessas reuniões (que continuam), no Diário Oficial da instituição. O que significa que os profissionais participantes são liberados do atendimento à população no dia da reunião, todavia devem dar conta de todo o trabalho pelo qual são responsáveis no dia a dia, bem como não recebem ajuda de custo para essa participação, e eventuais convidados para palestras não são remunerados pela instituição. 520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 balho, e ainda, em muitos casos, pelas relações verticalizadas e autoritárias por parte de superiores administrativos que ignoram e desrespeitam particularidades do trabalho do profissional. Entretanto, no interior do permanente movimento da história, ao mesmo tempo também aparecem várias possibilidades e proposições de ações na direção da resistência, denotando o compromisso com a qualidade no trabalho, com base nas prerrogativas profissionais e nos direitos sociais. Assim, nos primeiros anos da década de 2000 é que por fim os assistentes sociais conseguem que sejam definidas oficialmente suas atribuições profissionais (ainda que com cortes na proposta então encaminhada ao TJSP pela AASPTJ/SP).13 Também nessa década é que, por meio da AASPTJ-SP, a categoria organizada passa a estabelecer maior articulação com outras organizações sociais na busca da efetivação de direitos, sobretudo no que se refere aos direitos da criança e do ado- lescente. E que participa ativamente de movimentos de greve em conjunto com demais trabalhadores do Judiciário, e mais recentemente — na atual gestão da AASPTJ14 — inicia a caminhada em direção à maior articulação com profissionais de outros espaços sócio-ocupacionais do campo sociojurídico, visando ampliar e fortalecer a organização política das categorias, em direção ao acesso à justiça e aos direitos sociais. Retomando as reflexões sobre a justiça e os direitos no cotidiano profissional, no tempo presente, é importante indagar sobre como o Serviço Social no espaço do Judiciário pode contribuir para o acesso à justiça e aos direitos em meio à barbárie que permeia a realidade social e que chega nesse espaço sócio-ocupacional fragmen- tada, geralmente como demandas individuais. Tudo isso necessita ser pensado tendo em perspectiva a apropriação das bandeiras da justiça e dos direitos enquanto meios estratégicos em direção à possibilidade histórica da justiça social que implique equi- dade, socialização da riqueza socialmente produzida, universalidade do acesso a bens e serviços que possibilitem e garantam a dignidade do ser humano (Fávero, 2012). Os direitos humanos — de natureza social, econômica e cultural, em sua configuração moderna, como ensina Barroco (2009) — respaldam-se em conquis- 13. A íntegra das atribuições elencadas então pela AASPTJ-SP pode ser localizada anexa ao artigo “Questão social, família e juventude: desafios do trabalho do assistente social na área sociojurídica”, de Marilda V. Iamamoto, publicado no livro Política social, família e juventude, 2004. 14. Gestão 2009-2013, que articulou ações com vistas à criação da Associação Nacional dos Assistentes Sociais e Psicólogos da Área Sociojurídica — AaSP Brasil — em 2012. 521Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 tas não exclusivas da burguesia. Ainda que sejam limitados pela sua fundação com base na democracia e na cidadania burguesas, representando, portanto, in- teresses relacionados à defesa da propriedade privada e dos meios de produção inerentes ao sistema capitalista conforme cada país e momento histórico, a luta de classes possibilita que os trabalhadores incorporem a luta pelos direitos hu- manos como forma de resistência à exploração e à desigualdade, o que se con- cretiza em meados do século XX, com a agregação, nas declarações de direitos humanos, dos direitos sociais, econômicos e culturais aos direitos civis e políticos (Barroco, 2009, p. 57-58). Assim, entende-se aqui que, mesmo nos limites da atuação cotidiana, uma das formas de materializar a contribuição com a justiça e os direitos nessa perspectiva pode se dar com o desvelamento e a interpretação crítica da demanda trazida e/ou vivida pelos indivíduos sociais (seja na abordagem individual ou coletiva) atendidos pelo assistente social. No espaço de trabalho no Judiciário, o profissional encontra diversas situações de violações de direitos, expressas por pessoas que vivem muitas vezes em condi- ções de apartação social, que passam por experiências de violência social e inter- pessoal, que estão por vezes em situações-limite de degradação humana, com vínculos sociais e familiares rompidos ou fragilizados, que vivenciam o sofrimen- to social decorrente dessas rupturas e da ausência de acesso a direitos. Nesse con- texto, se o profissional trabalha em consonância com a defesa e a garantia de direi- tos, ele avançará nessa direção ao possibilitar um espaço de informação, de diálogo e de escuta desses sujeitos, ao estimular a reflexão crítica a respeito dos problemas e dilemas que vivenciam, ao agir, em conjunto com eles, para conhecer e estabele- cer caminhos viáveis para o acesso a direitos. Estabelecer o exercício profissional cotidiano com essa perspectiva exige o entendimento de que os processos de trabalho dos quais o assistente social partici- pa têm como objeto as expressões da questão social e que essas expressões expõem violações de direitos, geralmente provocadas por situações estruturais e conjunturais — entendimento que pressupõe a análise crítica das dimensões que constituem esse processo de trabalho. Para isso, torna-se fundamental imprimir ao trabalho cotidia- no a dimensão investigativa crítica, efetivando o processo de conhecimento da demanda que chega concretamente para o atendimento e a partir da qual a inter- venção é desencadeada. E isso exige o domínio dos meios de trabalho, dos recursos materiais e, em especial, dos recursos teóricos, metodológicos, técnicos e éticos; 522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 exige processar o conhecimento da realidade social, seus movimentos, as correlações de forças e as suas possibilidades, tendo clareza da finalidade do trabalho. Ou seja, ter clareza do que é necessário conhecer, qual é a finalidade desse conhecimento, no interior das competências técnica, política e ética inerentes à área profissional, que revelam que profissão é essa e quem são os profissionais que a exercem. Dessa maneira, ao realizar um estudo social por exemplo, que conteúdos pertinentes ao Serviço Social o assistente social domina, investiga e sistematiza? O que busca conhecer acerca de relações e de vínculos sociais presentes (ou ausen- tes) na vida dos sujeitos, no que se refere ao trabalho, com a cidade e com o terri- tório, com as políticas sociais?Como acontecem as relações com a família, qual sua capacidade protetiva, com qual proteção social o indivíduo e/ou a família conta? Como ensina a professora Aldaíza Sposati, vínculo em termos de proteção social é algo muito simples, é “contar com”. O indivíduo ou a família conta com o quê? A resposta, conforme essa autora, é diferente para cada família, e por isso se faz necessário levar em conta sua condição objetiva.15 No exercício do trabalho cotidiano, a dimensão ética exclui qualquer possi- bilidade de desvirtuamento de sua finalidade, como, por exemplo, o uso de um laudo, de uma visita domiciliar ou de uma entrevista no espaço físico da instituição com o objetivo de obter informações que venham a servir de provas para aplicação de punição a um suposto violador de direitos de uma criança ou suposto autor de outros crimes. O conteúdo expresso em um relatório ou laudo pode nessa área ju- diciária ser considerado como mais uma “prova” em ações de responsabilização penal, mas o objetivo, quando da sua construção, não é esse. O trabalho realizado pelo assistente social ao comportar a dimensão investigativa tem como inerente a produção do conhecimento sobre o cotidiano e seus sujeitos, de modo a explicar a realidade social e contribuir com a efetivação de direitos, e não a construção de provas que sirvam de base a ações de responsabilização na área criminal. Nesse sentido, um dos desafios postos aos assistentes sociais que atuam no Judiciário (mas não só nessa área) está em não fazer uso do saber-poder, que é inerente ao exercício profissional, em contraposição à ética profissional. O que, no espaço do Judiciário, pode acontecer de maneira mais diluída, na medida em que o poder decisório é inerente à “natureza” institucional. Nos processos de trabalho, 15. Anotações de conferência sobre “Vulnerabilidade e capacidade protetiva de territórios e famílias”, realizada por Aldaíza Sposati em aula magna no mestrado em Políticas Sociais da Universidade Cruzeiro do Sul/SP, em 10 de maio de 2012. 523Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 ao realizar entrevistas e registrá-las em relatórios, o assistente social sistematiza um saber a respeito dos indivíduos e grupos atendidos que, no âmbito do Judiciário, pode ser tomado como “verdade” e interpretado em diferentes perspectivas. Esse conhecimento produzido, para revelar-se como ponto de vista do Serviço Social, necessita ter como base fundamentos teóricos, metodológicos e éticos inerentes à profissão, e ser expresso com clareza, concisão e consistência. Entretanto, ao ler um laudo ou um relatório, qual é o ângulo de visão de um promotor, de um juiz, de um gestor? Que leitura e interpretação podem fazer? Que direção social e profis- sional guiará a decisão em relação à medida a ser tomada? O relatório social, o laudo social e o parecer social podem ser vistos como instrumentos de poder. Um poder-saber que necessita ser viabilizado na direção da garantia de direitos, em estreita articulação com o atual projeto profissional do Serviço Social, e não como indicador de ações disciplinares, coercitivas e punitivas, desvirtuando a finalidade do trabalho que cabe ao profissional da área. Para isso, é essencial a investigação rigorosa da realidade social vivida pelos sujeitos e grupos sociais envolvidos nas ações judiciais, desvelando a dimensão histórico-social que constrói as situações concretas atendidas no trabalho cotidiano. Nessa linha de construções e de desafios, considera-se necessário o investimen- to na área de trabalho judiciária como espaço de investigação permanente, de ma- neira que suas produções contribuam com a criação de resistências à desvalorização do saber profissional, à criminalização da pobreza e à judicialização dos conflitos familiares e das expressões da questão social. Assumir efetivamente a pesquisa também como instrumento de trabalho, contribuindo para que o conhecimento dela decorrente seja aplicado no dia a dia da intervenção e contribua com avaliações e proposições de políticas sociais e institucionais, coloca-se como importante desafio. Para lidar com desafios e realizar investimentos em algumas frentes, no sen- tido de contribuir com o acesso à justiça e aos direitos, ao fortalecimento da capa- cidade argumentativa e consequente fortalecimento do projeto da profissão na contemporaneidade, é necessário o estabelecimento de estratégias e a efetivação de ações políticas organizadas. Avanços nesse sentido possivelmente poderão ser alcançados se ações coletivas forem viabilizadas. Entre tais ações considera-se importante: construir parâmetros que definam um número mínimo de profissionais em relação ao número de proces- sos e situações atendidas em cada Vara e/ou Fórum — em articulação com outras áreas do conhecimento e organizações políticas; manter a vigilância e articulações para que o acesso a essa área de trabalho seja por meio de concursos públicos, para 524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 os quais as organizações representativas da categoria devem ser chamadas a opinar em termos de projeto de profissão e, inerente a isso, por exemplo, sobre a bibliogra- fia-base para esses concursos; organizar, nacionalmente, mobilização para que o assistente social (e demais profissionais que compõem as equipes multiprofissionais) não seja subordinado administrativamente ao magistrado titular da Vara onde atua. Nesse sentido, considera-se importante a elaboração de proposta para que as equipes técnicas que atuam no Judiciário tenham coordenação própria, indicada pela cate- goria organizada, prestando serviços no âmbito do sistema de justiça à população que dele necessita, sem que os profissionais precisem, a cada dia, provar a que vieram para cada superior hierárquico que chega a uma Vara de Família, Vara da Infância, Vara Criminal, ou em outros espaços de trabalho da área — superiores muitas vezes alienados da dimensão histórica e política da realidade social e do trabalho que compete aos profissionais de Serviço Social. Entende-se como necessário o estabelecimento de estratégias para conquista de autonomia administrativa porque, sem desconsiderar a existência de magistrados ou gestores comprometidos com o respeito ao direito da população e aos direitos dos trabalhadores na instituição, permanece ainda de maneira expressiva no Judi- ciário, particularmente no paulista, situações de autoritarismo, reforçadas pela posição hierárquica administrativa, que não raro invade a autonomia técnica, so- bretudo no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude. E essa realidade muitas vezes tem como consequência o adoecimento dos profissionais, a alienação, quan- do não a saída da instituição em busca de outro trabalho, ou a constante contagem dos dias que faltam para a aposentadoria. E, é importante lembrar, tudo isso não nos exime de considerar que como em todas as áreas, também podem existir pro- fissionais do Serviço Social coniventes com o autoritarismo, com a banalização da vida humana e com o desrespeito à ética. É fundamental a valorização do trabalho interdisciplinar — porém mantendo relações de horizontalidade, e não de subalternidade —, do próprio conhecimento e de ações nele embasadas. Estreitamente articulado a esse desafio e proposição, é importante organizar o debate e encaminhamentos para a criação, na estrutura administrativa do Tribunal de Justiça, de Secretaria de Serviço Social e de Psicologia (e/ou outras áreas do conhe- cimento que integram ou venham a integrar a equipe multiprofissional), vinculada diretamente à presidência do Tribunal, dirigida de direito e de fato por esses profis- sionais. Uma secretaria com autonomia, poder decisório e dotação orçamentária para desenvolvimento, entre outros, de projetos de formação continuada dos profissionais 525Serv.Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 e de assessoria a eles nas variadas particularidades do exercício profissional cotidia- no, o que poderia ser viabilizado por meio de atividades de supervisão continuada. Entre as estratégias necessárias para fazer frente aos desafios, coloca-se a ampliação da organização política16 e, vale reafirmar, o investimento na pesquisa, na produção de conhecimentos com base nas demandas e nas atividades de trabalho que os assistentes sociais realizam cotidianamente. Conforme já observado, é im- prescindível a inserção dessa dimensão investigativa no trabalho cotidiano, ou seja, inserir a pesquisa como parte dos processos de trabalho, socializar os seus resulta- dos, de maneira a contribuir com avanços qualitativos no exercício profissional e como suporte à luta política. Nesse sentido, é importante provocar a universidade para que viabilize pesquisas e estudos críticos sobre essa área, ainda um tanto dis- tante do debate acadêmico. Uma estratégia que também poderá fortalecer essa área de trabalho está na definição das competências e de parâmetros para a atuação dos assistentes sociais no campo sociojurídico, que vem sendo desenvolvida pelo conjunto CFESS/Cress. E que necessita avançar na busca da participação da categoria que está lá na ponta do atendimento, para que se manifeste sobre o que faz e o que propõe, com base na diversidade de experiências e realidades socioterritoriais do país. São muitas as construções e maiores ainda os desafios postos aos assistentes sociais como um todo, particularmente os do Judiciário, conforme tratado neste texto. Não foi pretensão pontuar todos esses desafios, nem será possível avançar na construção de respostas num curto prazo. São construções e desafios que não se dão isoladamente no espaço local de trabalho, apartados da conjuntura social e política nacional e mundial e sem articulações com outras organizações sociais e políticas. São os desafios postos no cotidiano que movem a história, e esse movi- mento necessita ser desvelado e influenciado pelos profissionais, tanto no dia a dia da luta política como no dia a dia da intervenção profissional — com democracia, sem preconceitos, respeitando a diversidade e as diferenças, e com compromisso com a qualidade dos serviços prestados, como tão claramente alerta o Código de Ética Profissional do assistente social. Recebido em 31/5/2013 ■ Aprovado em 10/6/2013 16. O que, no estado de São Paulo, a AASPTJ/SP tem buscado levar à frente, com a luta pela ampliação de seus quadros e áreas de abrangência. 526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 Referências bibliográficas BAPTISTA, M. V. Goldmann e o estruturalismo genético. 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Abstract: In this article we discuss the children and the adolescents’ human rights. The discussion is based on the Critical Theory, and it approaches their historical construction and political processes in which they operate. While it discusses data related to the situation of childhood, it critically debates about the use of discourse in the defense of rights. Keywords: Human Rights. Child and adolescent. Social struggles. * Assistente social, servidora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, docente em pós-graduação lato sensu, doutoranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Faculdade de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), São Paulo, Brasil. pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre Ética e Direitos Humanos (NEPEDH) do mesmo programa. E-mail: fuziwara.aurea@gmail.com. 528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Introdução O presente artigo apresenta uma reflexão sobre o desafio de efetivarmos os direitos humanos da criança e do adolescente, percorrendo algumas questões fundamentais que problematizam o processo histórico, a cons-trução da concepção de direitos e os desafios colocados cotidianamente. A literatura técnica e científica tem abordado os direitos da criança e do ado- lescente sob diferentes prismas, abordando seu desenvolvimento, suas demandas, seus direitos, as políticas sociais públicas e privadas, as campanhas de promoção e defesa de direitos etc. Ou seja, um grande volume de enfoques que fragmentam a realidade pode obscurecer aspectos cruciais para compreender e enfrentar a violação de direitos por ação e por omissão, seja da família, da sociedade e/ou do Estado. A infância na história Para problematizarmos a realidade vivida pelas crianças e adolescentes exi- ge-se sempre um olhar histórico. Philippe Ariès é um historiador ao qual pesquisa- dores das mais diferentes perspectivas recorrem. É preciso salientar, em nossa perspectiva, que a retirada da densidade das lutas históricas e do enfoque dos seus protagonistas em geral propicia apenas uma descrição dos fenômenos, não possi- bilitando aprofundar as contradições existentes. Consideramos ser determinante paraesta análise partirmos da compreensão da construção dos direitos humanos no processo histórico, abarcando a infância nesse processo. Assim como muitos autores, utilizávamos do termo “a história da infância”, mas atentando para esta expressão, atualmente a consideramos inapro- priada. Afinal, não há uma história da infância, mas existem complexas expressões das ações humanas em relação à criança e ao adolescente no processo histórico. Esta é uma primeira demarcação que pode nos auxiliar numa leitura mais apro- fundada sobre o tema. Com essa perspectiva, torna-se inerente refletir sobre as lutas sociais em que esse segmento se fez presente, em geral vitimizado pela ne- gação da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Não por acaso, o Estatuto da Criança e do Adolescente tem esse princípio que perpassa toda sua fundamentação. 529Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Ainda nos atendo à situação da infância, Ariès é um autor fundamental, que em sua análise traz elementos para o olhar atento ao cotidiano da sociedade, inves- tigando as relações aparentemente triviais para a história. Este autor faz parte de um leque de pesquisadores que passam a se preocupar com essas relações buscan- do avançar na leitura da história. Por seu prisma de estudos, aponta a realidade da criança em documentos, em telas que retrataram a vida das famílias, muitas vezes verificando que em geral os pequenos apareciam quase ao acaso nas imagens. Os pesquisadores e os documentos (oficiais ou não, como cartas familiares) nos for- necem significativos elementos sobre formas de presença das crianças na vida dos adultos. O mesmo autor nos informa que o termo infância decorre da palavra enfant, que é literalmente “não falante”. Esta “fase” teria como indicador a idade de até sete anos de vida, quando devido à aquisição ainda frágil da linguagem e da con- dição biológica, por não ter a dentição completa, a criança não conseguiria se ex- pressar com perfeição. Contudo, o historiador vai demarcar o lugar social de não ser ouvido. Evidentemente, estamos aqui realizando um sobrevoo ligeiro em relação à obra desse autor, fundamental para o debate sobre a infância. A humanidade começou a efetivamente reconhecer a criança e o adolescente em suas particularidades há menos de dois séculos, cabendo aos adultos preservar seu pleno desenvolvimento por meio de cuidados privados e públicos. Nas obras de Ariès (1978) e de Rizzini e Pilloti (2009) temos um vasto leque para aprofundar as pesquisas sobre o atendimento à infância, que no caso brasileiro vai ter início com a catequização das crianças indígenas e dos filhos oriundos das relações entre homens europeus e mulheres indígenas e africanas. Essa é uma primeira marca sobre o domínio que permanece contra o desenvolvimento das crianças e adoles- centes no Brasil. Não podemos negar o quanto essa trajetória vai demarcar decisi- vamente os rumos do trato a grande parcela da infância. Direitos humanos Para esta reflexão, buscaremos alguns elementos sobre o processo histórico da construção dos direitos humanos, que perpassa pelas revoluções burguesas. Estes processos históricos fundam a construção dos direitos civis e políticos cunha- dos pelo ideário liberal. Os principais autores nos quais nos apoiamos são Trindade (2003 e 2011a); Hobsbawm (2012 e 2008), Mészáros (2008) e Barroco (2010). 530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Conforme estes e outros autores, os direitos humanos devem ser considerados enquanto conjunto de direitos econômicos, políticos, civis, sociais, culturais e ambientais, os quais são interdependentes e indivisíveis (ainda que limitado ao aspecto jurídico-formal). A trajetória de lutas e conquistas desses direitos é a refe- rência histórica para compreendermos a busca da liberdade individual e da ruptura com a dependência interpessoal, traço marcante da sociedade feudal, que ainda mantinha resquícios naquele capitalismo nascente. Nesse sentido, o contrato entre “pessoas livres” seria o elemento-chave para o avanço da sociedade, que passaria a ter novos proprietários (por aquisição, e não apenas por herança). Contudo, para a elaboração de regras nessa nova forma de relação social, os burgueses liberais também precisavam consolidar direitos políticos — de votar e de ser votado —, para romper com o comando da nobreza e do clero. Era preciso construir uma nova classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Era preciso construir uma nova classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Neste sentido, retirando [...] os direitos humanos do campo da transcendência, evidenciou-se sua inscrição na práxis sócio-histórica, [...] ao se apoiar em princípios e valores ético-políticos racionais, universais, dirigidos à liberdade e à justiça, a luta pelos direitos humanos incorporou conquistas que não pertencem exclusivamente à burguesia, pois são parte da riqueza humana produzida pelo gênero humano ao longo de seu desenvolvimento histórico, desde a Antiguidade. (Barroco, 2010, p. 55) É nesse processo que se consolida a concepção de igualdade liberal, pautada na busca de uma pretensa e artificial equivalência jurídica (Trindade, 2011a). A história demonstra que esses direitos nasceram do desejo da burguesia de tomar para si privilégios restritos ao clero e à aristocracia. A possibilidade de pensar na igualdade social exigiu que a classe trabalhadora tomasse para si a bandeira de luta para que esses direitos fossem acessíveis a todos. A Declaração dos Direitos Humanos de 1948 tem restrições, mas é importan- te registrar que [...] foi resultado daquela correlação mundial de forças. Sem a pressão dos países do bloco soviético e sem a ascensão operária que se alastrava pelo mundo, seria inima- ginável a inclusão dos direitos econômicos, sociais e culturais naquele documento, assim como seria inimaginável a inclusão do direito de autodeterminação dos povos sem as lutas de libertação nacional então em curso. (Trindade, 2011b) 531Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Portanto, a reivindicação era pelo direito de todos, mas provocada sempre pela classe que vive do trabalho. Esse fato não decorre de uma luta entre “bons e maus”, não se tratando de um atributo de caráter, mas da real necessidade do ser social que se constrói em busca de respostas às suas questões diante da vida real: Ora, a principal relação entre a história dos movimentos operários, que são um fenô- meno bastante recente do ponto de vista histórico, e os direitos humanos reside no fato de que os movimentos operários geralmente são compostos de pessoas que são “subprivilegiadas”, na palavras de R. D. Roosevelt, e que se preocupam com seus problemas. Isso quer dizer que eles se preocupam com pessoas que, segundo as defi- nições de suas épocas, não têm os mesmos direitos, ou têm menos direitos do que outras pessoas ou outros grupos. Ora, as pessoas raramente exigem direitos, lutam por eles ou se preocupam com eles, a não ser que não os desfrutem suficientemente ou de nenhuma forma ou, caso desfrutem deles, a não ser que sintam que esses direitos não estão seguros. (Hobsbawm, 2008, p. 418) Não pretendemos e nem temos condições de aprofundar a respeito das con- tradições desse processo histórico, sendo imprescindível nos apoiarmos nos autores citados para o devido estudo. Queremos neste breve artigo sinalizar que se os di- reitos humanos são uma construção social recente, também assim o é o reconheci- mento da categoria criança e adolescente.1 A forma como eram pouco consideradas expressa parte do funcionamento da sociedade, em seus diversos processos. No caso da sociedade brasileira, é imprescindível pensarmos a infância marcada por uma violência de origem, que é a invasão, primeiramente de Portugal, às terras1. Deve-se registrar que é possível observar em textos inclusive acadêmicos o uso de termos “as crianças e os adolescentes”, e não necessariamente adotando-a como categoria “criança”, “adolescente”. Parece uma observação preciosista, mas entendemos ser crucial para maior aproximação com a realidade. Não se trata de seres sociais lançados a esmo na história: criança e adolescente são sujeitos em condição peculiar de desenvolvimento, inseridos em classe, com origem de classe, de diversas etnias e, no Brasil, de uma miscigenação étnico-cultural etc. Neste sentido, parece-nos importante que tenhamos sempre este cuidado: defendemos uma sociedade justa, igualitária, com direitos diferenciados para situações desiguais etc., para todas as crianças e adolescentes. Porém temos como premissa que há fatores determinantes que favorecem e/ ou prejudicam o pleno desenvolvimento desse sujeito. Não retiramos aqui as violências e as opressões às quais a criança e o adolescente da chamada classe média alta vive, com suas agendas superlotadas de compromissos que nem sempre lhes permite vivenciar seus desejos, sonhos e projetos. Há que se considerar, portanto, que as opressões da sociedade capitalista recaem brutalmente sobre a criança e o adolescente que têm origem na classe trabalhadora, mas também sobre aqueles oprimidos pelo ethos capitalista. Não se trata de “comparar” quem “padece” mais ou menos, mas fazer a defesa intransigente de uma sociedade realmente livre. 532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 deste território. Os estudos arqueológicos asseguram que os indígenas povoam este território há mais de 11 milhões de anos e que em 1500 havia cerca de 10 milhões de habitantes, dos quais cerca de 5,6 milhões na bacia amazônica. Posteriormente, sabemos das atrocidades que aconteceram sob o comando da Coroa portuguesa e da Igreja Católica, pois conforme o desenvolvimento mercantil avançou, foram sendo traçados novos “acordos”, entre eles o escravismo de africanos e posterior- mente o “fim” dessa barbárie. Estas questões não são de menos importância; são fundamentos da sociedade brasileira. Afinal, como essa sociedade assistiu, sem grande repercussão, à recente mor- te por atropelamento de uma criança indígena de quatro anos, membro da família Guarani-Kaiowá do acampamento de Tekoha Apyka’i? Segundo o movimento de luta indígena, a criança é a quinta atropelada nos mesmos moldes de outras cinco pessoas, sendo que a primeira foi o seu avô, um líder religioso. Não podemos cair na explicação maniqueísta-moralista para podermos avan- çar na análise e no enfrentamento das questões que assumem características com- plexas, mas que têm como fundamento a desigualdade social e a expropriação, necessidades para o desenvolvimento do capitalismo. Para quem importa a defesa dos direitos humanos? Grupos especiais que esperam desfrutar de certas prerrogativas raramente se incomo- dam em erigir o que eles já possuem. [...] Entretanto, o historiador não pode ficar satisfeito com a observação óbvia. Pois os movimentos operários europeus surgiram, e consequentemente começaram a influenciar a luta pelos direitos humanos se por sua definição, numa época em que o próprio con- ceito destes direitos estava passando por mudanças bastante profundas. (Hobsbawm, 2008, p. 419) As lutas pelos direitos humanos, desencadeadas pela busca dos interesses de indivíduos e o movimento operário (pelos direitos do trabalhador, por uma vida digna e de forma mais ampla, pelo socialismo), contribuíram fundamentalmente para reinvindicações estruturantes visando mudanças econômicas e sociais. Hobsbawm (2008, p. 435) nos alerta ainda que a questão central não é o fato de indivíduos terem direitos econômicos e sociais, mas “políticas de cobrar impostos aos ricos para criar um fundo para pagamento aos pobres, aos desempregados e aos velhos, bem como para custear a educação popular. Sem essas políticas, estes direitos humanos são totalmente inúteis”. 533Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Parece-nos que a questão-chave é a sequência do raciocínio desse historiador: “No desenvolvimento destas políticas, surgem inevitavelmente conflitos entre os direitos individuais e os sociais” (Idem). Nesse contexto de conflito de interesses a concepção liberal dos direitos hu- manos se respalda no que Marx chamou de ilusão jurídica, não no sentido de ser mera ilusão, mas no do mascaramento de interesses em leis teoricamente “justas” e “neutras”. Ao se referir a conflito, estão sendo anunciadas divergências que podem até ser pautas de “negociação”, mas em uma sociedade desigual essa relação já está predeterminada. Os direitos humanos liberais, ao retirar (ilusoriamente) as determinações históricas, consideram os sujeitos e seus direitos como abstrações, ficções e impõem o respeito “à sagrada propriedade privada” e aos indivíduos egoístas, protegidos por um leque de instituições criadas para tal finalidade. Como explica Marx (2007, p. 35): “A liberdade individual e esta aplicação sua constituem o fundamento da sociedade burguesa. Sociedade que faz com que todo homem encontre noutros homens não a realização de sua liberdade, pelo contrário, a limitação desta.” Criança e adolescente e o desafio de se efetivar direitos humanos A literatura especializada tem possibilitado maior divulgação da realidade vivida pela criança e pelo adolescente. Se por um lado isso pode ser um indicador importante sobre o reconhecimento das particularidades dessa fase de desenvolvi- mento em toda sua complexidade, por outro, devido à cultura existente, ainda termos a passividade da sociedade em relação às violações. As discussões sobre a violação dos direitos da criança muitas vezes deixam de articular as determinações macrossocietárias. Se a literatura científica vem avançando nessa crítica, a mídia mantém a postura de enfocar os “pobres abando- nados” e os “infratores”, colocando-os na mesma perspectiva justificadora das violações e mantendo a lógica menorista do Código de Menores. Muitas legislações foram construídas com foco na criança abandonada. Maria Regina Fay Azambuja2 explica que 2. Disponível em: <http://www.mp.rs.gov.br/infancia/doutrina/id615.htm>. Acesso em: 29 maio 2013. 534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 A Declaração de Genebra, em 1924, afirmou “a necessidade de proclamar à criança uma proteção especial”, abrindo caminho para conquistas importantes que foram galgadas nas décadas seguintes. Em 1948, as Nações Unidas proclamaram o direito a cuidados e à assistência especial à infância, através da Declaração Universal dos Direitos Humanos, considerada a maior prova histórica do consensus omnium gentifum sobre um determinado sistema de valores. Os Pactos Internacionais de Direitos Hu- manos, indiscutivelmente, proporcionaram a mudança de paradigmas experimentada no final da década de oitenta e início dos anos noventa na área da proteção da infância. A sociedade brasileira convive com as marcas da ditadura civil-militar de 1964, e nos processos de lutas e resistências avançou para a “transição democrá- tica”, mas, de acordo com Netto (2004), mantém, com particularidades, a históri- ca “refuncionalização” das “formas socioeconômicas” existentes na formação brasileira. Salientamos, com essas rápidas notas, que é fundamental romper com o dis- curso de que o debate sobre a família e a infância sejam voltados para conservado- rismo ou que sejam acessórias. Para desconstruir esses discursos aparentemente críticos nos é exigido rigor da análise histórica. Afinal, as lutas sociais expressam as contradições profundas vividas pelo ser social que se constrói nessas relações históricas. É inegável que, diante da barbárie que afeta segmentos como a popula- ção infantojuvenil, há uma tendência dea luta se expressar mais em buscar “con- servar” os direitos minimamente consensuais (à vida, à sobrevivência, à alimenta- ção). Tão grave é a realidade de crianças diante dos conflitos gerados pelo capitalismo vigente, que se apresentam os recuos com uma aparente agenda limi- tada de reivindicações. É esse contexto de barbárie que deve nos alarmar, sendo crucial a adoção de estratégias que se dirijam a outro projeto de sociedade. Nesse sentido, é importante registrar que a United Nations Children’s Fund (Unicef) lançou o relatório A situação mundial da infância em 2012, trazendo elementos sobre os avanços e desafios com relação à criança num mundo cada vez mais urbano. As dificuldades enfrentadas pelas crianças em comunidades pobres frequentemente são obscurecidas — e portanto, perpetuadas — pelas médias estatísticas que servem de base para decisões sobre alocação de recursos. Uma vez que médias consideram todos os dados em conjunto, a pobreza de alguns é mascarada pela riqueza de outros. Como consequência, crianças que já são menos favorecidas ficam privadas de serviços essenciais. (p. iv) 535Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 Esta é uma questão-chave quanto à realização dos direitos humanos: atender individual e coletivamente os diferentes segmentos, por meio de serviços que ga- rantam a sua realização. Não tratamos esta questão como algo simples ou mera carta de intenções ou conciliação de interesses, posto que no capitalismo são antagônicos. Trindade traz os elementos históricos que provam que a cada risco de a burguesia ter seu poder abalado, a reação sempre foi sangrenta. No Brasil de 2013 as mortes decorrentes desses conflitos têm sido matéria cotidiana, seja nas ocupações militares nas fave- las, no confronto no direito à terra, no assassinato de jovens negros da periferia (que autores vão definir como genocídio da juventude negra), no espancamento dos estudantes e trabalhadores nas suas (nossas) manifestações por direitos etc. Outro importante estudo que demonstra a imperiosa atenção que devemos ter em relação à infância é o 5º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos no Brasil (2001-2010) publicado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universida- de de São Paulo (NEV-USP). Na apresentação o coordenador do NEV, dr. Sérgio Adorno, explicita que Este relatório reafirma uma vez mais o imperativo de superar o estágio de “descon- fiança”, que domina o que se poderia chamar de “opinião pública informada”, segun- do a qual persistem sérios problemas de violações de direitos humanos no Brasil em grande escala, ocorrendo diariamente em todo o país. Embora essa desconfiança ainda seja sustentada pelos fatos cotidianos, impõe-se ultrapassar esse estágio na di- reção de uma fase de mapeamento das situações e elaboração de políticas públicas informadas e eficientes. É evidente que gerar informações sobre violações de direitos humanos são é uma tarefa simples, sobretudo para os governos. Assumir que essas violações ocorrem cotidianamente e que envolvem a constante ameaça à vida e à in- tegridade física das pessoas, muitas vezes causadas por agentes públicos, parece ainda ser visto por muitos governantes como politicamente inconveniente, até porque parte das graves violações de direitos humanos tem a ver com a omissão dos Estados na proteção e promoção de direitos humanos. (NEV-USP, 2012, p. 7) Essa perspectiva de análise perpassa o relatório, que anuncia que nos dois últimos relatórios (2006 e 2010) houve ênfase na abordagem dos direitos econômi- cos, sociais e culturais. Em nossa leitura, observamos o grande volume de publica- ções, sejam oficiais, da academia especificamente ou dos movimentos sociais e outras organizações dos trabalhadores (associações populares, sindicatos etc.) que 536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 têm se debruçado seriamente sobre o tema violação dos direitos humanos no Brasil. Este é um indicador importante que expressa a provocação da realidade. Os desafios colocados para os trabalhadores são imensos e nos parecem exigir uma apropriação urgente e profunda sobre a não efetivação de direitos legalmente constituídos e que exigem políticas públicas estatais para se materializar. O chama- do Estado democrático de direito vem mobilizando sua “funcionalidade” impulsio- nada por interesses privados, como autores de diversas perspectivas têm refletido suas produções. Atualmente vivemos o avanço da política neoliberal, com as mo- dalidades de privatização de serviços e/ou desenvolvimento das “parcerias públi- co-privadas” em que em geral o Estado transfere recursos públicos (estrutura, equipamento e orçamento) para a área privada. Debatendo a política social na atual conjuntura, Sales (2006, p. 210-211) afirma que É mister, portanto, compreender a situação da infância e adolescência como uma expressão da questão social, logo em conexão com os demais desafios sociais do país, e o papel do conjunto de atores sociais vinculados à luta pela garantia dos seus direi- tos, assegurando-lhe a centralidade e visibilidade devidas. Pois como diria Mendes, “o que está em jogo, em última instância, é o tema da democracia e da cidadania [...]. Ninguém que fale da infância, do ponto de vista do paradigma da proteção integral, deixa de falar em democracia. Mas são poucos aqueles que, falando de democracia, falam de infância”. O enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente expressa a defesa de diferentes projetos de sociedade, ainda que isso não se seja declarado. E esta é uma questão muito cara aos processos políticos: qual a direção social dessas lutas, suas estratégias, seus balanços críticos? Exige-se uma avaliação permanente do avanço político face às novas roupagens colocadas na “velha” questão social. Expressão destas violências são apontadas no relatório do NEV, anteriormente citado: “Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 53.000 crianças entre 0 e 18 anos morreram vítimas de homicídio em 2002. Cerca de 150 milhões de meninas e mais de 70 milhões de meninos foram submetidos a abusos sexuais de toda ordem” (NEV-USP, 2012, p. 222). Poderíamos abrandar nossas “consciências” de cidadãos da sétima economia mundial imaginando que o Brasil não faz parte dessa realidade. Contudo, o país comete muitas violações dessa estatística, sendo o quarto país que mais comete homicídios de suas crianças e adolescentes. Dados oficiais informam ainda que em 537Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 2009, no Brasil, entre as crianças de cinco a dezessete anos, 9,8% deles, ou seja, 4.250.401, encontravam-se exercendo “trabalho”, sendo que o trabalho infantil é vedado legalmente, sendo, que desse número, 1.380.489 tinham idades entre cinco e catorze anos. O 5º Relatório do NEV traz uma importante abordagem sobre adolescência e violência, criticando a inexistência de pesquisas abrangentes sobre as medidas socioeducativas em meio aberto, porém enfatizando debate da privação de liberda- de dos adolescentes. Esta questão soma-se a outros elementos que gravitam em torno do agravamento penal na sociedade. Notadamente, o discurso distorce a realidade, mobilizando a opinião pública a partir de fatos de grande impacto e co- moção social. Contudo, tais fatos são deliberadamente escolhidos. Os dados sobre o perfil do adolescente que se encontra cumprindo medida de internação ou mesmo do jovem encarcerado explicita que os sujeitos encarcerados são aqueles perten- centes à camada mais violada em seus direitos fundamentais. No estado de São Paulo, de 2010 a 2013 houve um aumento de 32,5% de aumento de adolescentes cumprindo medida socioeducativa de internação. O Conselho Nacional de Justiça3 realizou um levantamento envolvendo 340 unidades de internação no território brasileiro mapeando asviolações de direitos dos adolescentes internados. Há rei- vindicações para a efetivação da resolução do CNJ para a contratação de equipes interprofissionais nas Vara da Infância e da Juventude. A resolução foi um dos desdobramentos da pesquisa do Ipea, que apontou a existência de 80 mil crianças vivendo em instituições de acolhimento sem que estas cumprissem ao menos dis- posições legais (para não dizer das pedagógicas etc.). Segundo dados do Ministério da Justiça, por meio do Disque 100, mais de 128 mil crianças e adolescentes foram vítimas de maus-tratos e agressões. Deste total, 68% sofreram negligência; 49,20%, violência psicológica; 46,70%, violência física; 29,20%, violência sexual; e 8,60%, exploração do trabalho infantil. Atualmente, segundo dados do CNJ, 36.929 vivem em instituições de acolhimento. A sociedade atuou de forma decisiva para incluir o artigo 227 na Constituição, bem como na elaboração e aprovação do ECA. Marcada pela luta pela redemo- cratização, entendemos que o Estatuto é um marco ético-político.4 Não pode ser 3. Conheça e pesquise no portal do Conselho Nacional de Justiça, em <www.cnj.jus.br>. A fiscalização da aplicação das medidas socioeducativas é realizada também pelo Programa Justiça ao Jovem, do CNJ, e pelos demais atores do Sistema de Garantia de Direitos Humanos da Criança e do Adolescente. 4. Expressão que definimos na nossa dissertação de mestrado (2006). 538 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 tomado como o instrumento central, mas como uma referência que somente foi possível conquistar num dado contexto ideopolítico em que foi disputado e apro- vado. Ocorreram perdas nessas disputas, e o seu não cumprimento revela o quanto a sociedade brasileira não rompeu com a cultura menorista, autoritária, centraliza- dora, patriarcal-machista-patrimonialista. O reconhecimento da criança como su- jeito de direitos exige, efetivamente, intensa mudança cultural. Neste sentido, apesar de sabermos dos limites dos instrumentos legais, é importante registrar a relevância da Resolução n. 113, de 19 de abril de 2006, publicada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Nela se explicita a definição do chamado “Sistema de Garantia de Direitos”: Art. 1º O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da criança e do adolescente, nos níveis federal, estadual, distrital e municipal. § 1º Esse Sistema articular-se-á com todos os sistemas nacionais de operacionalização de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, educação, assistência social, trabalho, segurança pública, planejamento, orçamentária, relações exteriores e pro- moção da igualdade e valorização da diversidade. (Conanda, 2006) Esta Resolução utiliza, não por acaso, o termo “direitos humanos” e em seu teor trata inclusive da eleição dos membros da sociedade civil, situação esta deba- tida intensamente com o protagonismo do Fórum Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescentes de São Paulo. As Resoluções ns. 105 e 106 do Conanda estabe- leceram normas para a criação e o funcionamento desses Conselhos, inclusive que a eleição dos representantes da sociedade civil seja realizada por meio de pleito “em fórum próprio”, ou seja, sem a condução pelo poder governamental. Não cabe aqui debater as relevantes questões sobre as sociedades civil e política, bem como a avaliação do (mal) uso que se tem feito desses mecanismos de controle social. Porém, deve-se verificar a existência de um conjunto de instrumentos normativos que ainda são negligenciados. A exemplo dessas problematizações, temos as Regras de Bangcoc,5 estabele- cida pela Resolução n. 2.010/16, de 22 de julho de 2010, e o Conselho Econômico 5. Veja a tradução não oficial realizada pela Pastoral Carcerária disponível em: <www.carceraria.org. br> e outros documentos importantes em: <www.adital.com.br>. Acesso em: 20 jan. 2013. 539Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 e Social, que recomendou à Assembleia Geral a adoção das regras das Nações Unidas para o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras. A resolução foi aprovada na 65ª Assembleia da Organi- zação das Nações Unidas, enfatizando a importância do reconhecimento das par- ticularidades do gênero feminino, visando, dentre diversas dimensões da questão, “assegurar que a mulher infratora fosse tratada justa e igualmente durante a prisão, processo, sentença e encarceramento, com atenção especial dedicada aos problemas específicos enfrentados pelas mulheres infratoras, tais como gravidez e cuidados com os filhos”. Segundo a legislação brasileira, as unidades prisionais devem ter berçários (art. 83, § 2º da Lei n. 7.210/1984, com as alterações da Lei n. 11.942/2009) e creches para filhos entre seis meses e sete anos (art. 89 da Lei n. 7.210/1984, com as alterações da Lei n. 11.942/2009). No Código de Processo Penal, em relação à prisão domiciliar (perspectiva apontada também nas Regras de Tóquio sobre as alternativas à prisão), temos que: Art. 318. Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for: (Redação dada pela Lei n. 12.403, de 2011). [...] III — imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade ou com deficiência; (Incluído pela Lei n. 12.403, de 2011). IV — gestante a partir do 7º (sétimo) mês de gravidez ou sendo esta de alto risco. (Incluído pela Lei n. 12.403, de 2011). A Lei de Execução Penal define que caso a unidade não garanta condições para a amamentação e/ou convívio entra a genitora e a criança, deverá ser determi- nada a prisão domiciliar. Portanto, as legislações estabelecem direitos que não são respeitados e geram outras violações. Ainda vivenciamos um discurso machista que está presente inclu- sive na defesa de que a criança deve permanecer com a genitora somente no perío- do de amamentação, ainda na perspectiva higienista e de controle do corpo da mulher. Contudo, o direito à amamentação sequer é respeitado. São contradições que perpassam pela lógica punitiva-conservadora. O texto legal acima pode ser tensionado ao se afirmar os direitos fundamen- tais da criança e do adolescente, valendo-se da defesa das penas alternativas para reduzir os danos causados ao grupo familiar. Contudo, há pouca política propria- 540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 mente dita nas políticas sociais (a segurança pública é uma delas). Vemos a baixa institucionalidade no controle social e o discurso do senso comum sobre a falência do Estado. A prisão domiciliar que deveria ser determinada em substituição à prisão preventiva quando o agente for “imprescindível aos cuidados especiais”, conforme nossos argumentos no percurso desta reflexão, devem ser complementados com o princípio do superior interesse da criança e do adolescente, que são sujeitos de direitos e pessoas em condições peculiares de desenvolvimento. Portanto, enten- demos que a substituição da prisão preventiva pela domiciliar deva ser aplicada em todas as condições possíveis, independentemente da idade dos filhos. E abre-se a imperiosa necessidade de discutirmos as figuras parentais e os vínculos prote- tivos — e não necessariamente a mãe biológica. A ciência demonstrou a relevân- cia da presença materna na primeira infância, mas não se restringiu a ela. Estas breves pontuações sobre o encarceramento de mulheres abrem muitas frentes, não para aperfeiçoar o cárcere, o que consideramos ser um engodo, mas para proble- matizar a função do sistema penal-punitivonuma sociedade opressora que precisa construir a todo momento novos depositários e “bodes expiatórios” para mascarar suas contradições. Considerações para debates Enfrentar a questão da violação de direitos humanos da criança e do adoles- cente requer, nesse sentido, uma profunda e sistemática articulação das análises sobre a sociedade contemporânea, as perspectivas ideopolíticas que fundamentam as decisões adotadas na elaboração e na execução das políticas públicas e o con- fronto com a real mudança na vida da população. A história também nos elucida os processos provocados pelos trabalhadores e, aproximando-as para a interpretação da conjuntura, podem favorecer nossa re- flexão crítica: Foi a herança histórica dos movimentos socialistas e operários, da tradição de racio- nalismo esclarecido do século VII, que manteve esses instintos [xenofobia, racismo, machismo, antissemitismo e inferiorização das mulheres] sob controle. Sem ela, eles não teriam nem tentado, nem conseguido, tornar-se foco para os direitos iguais e 541Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 universais e para a emancipação universal do homem. Pois nem todos os movimentos dos que exigiam direitos tinham esta intenção ou esta capacidade. [...] Será que tudo isso ainda é verdadeiro? Provavelmente, só até um certo limite. A lin- guagem dos direitos humanos ainda é falada, mas num cenário diferente daquele do século XIX e do início do século XX. A luta por direitos humanos ainda é vista, em diversos países, como parte de um programa geral pelo progresso da humanidade, em nível individual e coletivo, na direção de um futuro melhor e mais genuíno para o homem. (2000, p. 438) O texto anterior, escrito originalmente em 1982, nos instiga a afirmar, como Trindade (2011) que estamos vivendo um recuo imenso na agenda de direitos hu- manos liberais! Estamos lutando pelo direito civil de participar criticamente (com a reação violenta do Estado em defesa dos interesses privados), em que está des- cartado o direito ao conflito de posições, que é base da democracia. Estamos exi- gindo o fim da tortura! O Brasil engatinha com a Comissão da Verdade quando os demais países já avançaram imensamente nesse processo. E recentemente volta-se a afirmar que a solução de todos os males brasileiros é a redução da maioridade penal e que há “uma nova forma de fazer política” por meio das mobilizações momentâneas/instantâneas (flash mob)6 para “expressar” as discordâncias e desa- parecer também com a mesma rapidez, banalizando (desvalorizando) a política e as formas tradicionais de luta (movimentos sociais, sindicatos e partidos). É importante nos apropriarmos das conquistas normativo-legais sem nos iludirmos quanto aos fundamentos ontológicos do direito na lógica da sociedade capitalista. São conquistas, mas conforme explicita Barroco, referindo-se às Decla- rações de Direitos Humanos: [...] podem ser considerados como uma medida para evidenciar o grau de humaniza- ção-desumanização do ser social, e, uma forma de contribuição, ainda que limitada, para a sua reprodução em patamares menos desumanizantes. [...] Portanto, compreender essa contraditoriedade significa saber que a defesa dos Direi- tos Humanos pode servir, por um lado, à apologia do capitalismo, contribuindo para a legitimação ideológica de interesses de dominação e para o ocultamento das formas de degradação da vida humana. Mas, se, ao mesmo tempo, o reconhecimento univer- 6. Essas manifestações vêm gerando o interesse de pesquisadores, tema que não temos propriedade para debater neste artigo. Contudo, é um fato relevante para entendermos principalmente a forma particular pela qual a juventude (adolescentes e jovens adultos) vem buscando se “expressar”. 542 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 sal da totalidade dos Direitos Humanos e o seu alargamento é um produto concreto do conjunto das lutas sociais, embora limitado, ele representa uma estratégia de re- sistência, no universo da luta de classes, no interior das lutas mais gerais dos traba- lhadores e dos movimentos populares. (2010, grifos no original) A presença da pauta dos direitos humanos não apenas na agenda dos órgãos governamentais, internacionais, da mídia, dos trabalhadores, da academia e dos movimentos populares, representa a disputa que está colocada e, principalmente, o retrocesso nos patamares mínimos de convívio. Desenvolver nosso conhecimento sobre as questões macrossocietárias e da sociabilidade no presente tem como nor- te comum a proteção de toda a vida planetária. As propostas de conciliação e de aperfeiçoamento do sistema em vigor são desnudadas ao confrontarmos a inexis- tência de mudanças efetivas na vida da maioria da população. O Brasil dessa pri- meira década do novo milênio teve êxito em garantir maior acúmulo de riquezas, aprofundando-se a distância entre os mais ricos e os mais pobres. Não se trata de não valorizar as políticas sociais que minimizam o sofrimento humano, mas de reconhecer seus limites. A luta social propriamente dita tem como fundamento o processo de constru- ção de uma lógica de sociedade, mesmo quando não se tem consciência disso. Nesse sentido, defender os direitos humanos da criança e do adolescente é uma estratégia que entendemos necessária para a perspectiva revolucionária e emanci- patória, exigindo que possamos construir processos de sociabilidade que disputem o ethos dominante burguês, mas com direção e projeto político. Recebido em 11/6/2013 ■ Aprovado em 17/6/2013 Referências bibliográficas ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981. AZAMBUJA, M. R. A criança, o adolescente: aspectos históricos. 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El análisis pone énfasis en las tensiones que se producen entre la “cuestión social” y las formas de enfrenta- miento que asume una institución del Estado como el Poder Judicial, constituyendo a la profesión como un permanente campo de lucha. Palabras Claves: Trabajo Social. Cuestión Social. Condiciones Labo- rales. Sindicalización. Poder Judicial. Abstract: This article aims at recovering the organizational, political and union experience of the social workers from the Judiciary of Neuquén. Such a unionization process of the sector went on until 2007. The analysis emphasizes the tensions between the “social issue” and the ways the Judiciary confronted it, which made the profession become a permanent field of struggles. Keywords: Social work. Social issue. Work conditions. Unionization. Judiciary * Licenciada en Servicio Social (UN Comahue), Especialista en Políticas Sociales y Derechos de la Infancia, (Universidad Nacional Del Comahue, Unicef), Especialización en Estudios de las Mujeres y Género; maestranda en Trabajo Social (Universidad Nacional de La Plata), Trabajadora Social del Gabinete Interdisciplinario del Poder Judicial de Neuquén Capital, Argentina. E-mail: mvaldevenito@yahoo.com.ar. 545Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 Introducción El presente artículo tiene la intención de recuperar la experiencia organi-zacional, sindical y política de las Trabajadoras Sociales del Poder Ju-dicial de la provincia de Neuquén que va a culminar con la Sindicaliza-ción del Sector en el año 2007. La propuesta es hacer un recorrido histórico desde la inserción de la profesión en este espacio socio ocupacional en el año 1970 hasta el año 2010. La mirada se va a centrar en las formas de organización del colectivo profesional en el contexto de las tensiones existentes entre la deman- da que provoca la “cuestión social” y el enfrentamiento que realiza una de las instituciones del Estado para dar respuesta. Recuperar este proceso ha sido posible a partir de la relación con la academia en instancias de formación posibilitando romper con la enajenación que caracteri- za el proceso de trabajo, superando transitoriamente las expresiones del cotidiano: fragmentación, pragmatismo, espontaneísmo, para incursionar en procesos de re- flexión que posibilitaron apropiarnos de esa realidad caótica y descifrar sus cone- xiones macroscópicas. La sindicalización fue protagonizada por Trabajadoras Sociales y Psicólogos, ambas profesiones han desarrollado históricamente alianzas y conformado un co- lectivo para enfrentar las condiciones laborales de la institución. Este artículo re- cupera las implicancias y transformaciones que ese proceso significó para la inter- vención en el Trabajo Social y el desarrollo de otras experiencias ligadas a la formación, a la relación con la Universidad y al Colegio de Profesional, posibili- tando un intercambio que coloca a la profesión en relación con debates actuales de la región. Compartimos la concepción que nos aporta Marilda Iamamoto (1998) cuando nos propone que la práctica profesional se inserta en el juego de relaciones sociales y de sus mecanismos de poder económico, político y cultural preservando las par- ticularidades de la profesión en tanto actividad inscripta en la división social y técnica del trabajo. El Trabajo Social en el ámbito judicial representa un espacio ocupacional particular vinculado a la intervención de la “cuestión social” que se expresa en la justicia como una institución más del Estado. La intervención profesional excede la denominada “función pericial” y se vincula a las constantes transformaciones societarias expresadas en los marcos legales. Representa un campo de tensiones 546 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 donde el Trabajador Social vende su fuerza de trabajo (Iamamoto, 1992, p. 202), recibe una demanda de la Institución judicial y va construyendo constantemente estrategias para lograr el acceso al servicio de Justicia por parte de los usuarios. La carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén establece en el art. 111 que “los profesionales auxiliares de la justicia son funcionarios del poder judicial”. Este ordenamiento legal visualiza claramente al Estado como regulador y controlador de la fuerza de trabajo. Tal definición ha constituido el fundamento histórico (1970 a 2007) para negar de manera sistemática derechos laborales, sindicales y políticos al sector. La crítica al cotidiano (Netto, 2012) posibilitó trascender la mirada del expe- diente provocando reflexiones más allá de cada instrumento legal que conforma la intervención del Trabajador Social, para centrar el análisis en los fundamentos de la profesión en la institución justicia y la reconstrucción de la particularidad de la intervención en ese ámbito. Este proceso se colectivizó a partir de la puesta en marcha de las primeras jornadas de capacitación: “El Trabajo Social en la Justicia desde una perspectiva Histórico Crítica”,“El debate contemporáneo del Trabajo Social en el ámbito de la Justicia”, dirigidas a Trabajadoras Sociales de Neuquén y Río Negro y del Minis- terio de Desarrollo Social (MDS), organismo ejecutor de las leyes de violencia de género y protección de la infancia. La experiencia ha resultado una de las conquis- tas derivadas del proceso de sindicalización, en tanto, se modificaron las condicio- nes laborales apremiantes del período posterior a la crisis del 2001, posibilitando un nuevo contexto que plantea otras preocupaciones a resolver en el marco de las instancias reflexivas y propositivas de los espacios del Trabajo Social. Organización y condiciones formales de Trabajo en el Poder Judicial Las Trabajadoras Sociales de la Justicia de la Provincia de Neuquén consti- tuimos veinticinco profesionales distribuidas en las cinco circunscripciones que abarcan el territorio. Se trata de Neuquén Capital que concentra la mayor parte de las trabajadoras sociales, nucleadas en el Gabinete Interdisciplinario del fuero de 1. Decreto Ley n. 1.436, Carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén. 547Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 Familia que depende de Superintendencia del Tribunal Superior de Justicia (TSJ) y otro grupo de compañeras/os ubicados en las Defensorías de Niñez y Adolescen- cia dependiente de las Defensorías del Tribunal de Justicia. Las otras cuatro circunscripciones tienen como cabeceras a Cutral Có, Zapa- la, Junín de los Andes, Villa La Angostura y Chos Malal. Allí cada Juzgado Civil y Defensorías de Niñez cuenta con Trabajadoras Sociales y Psicólogos. Los ingresos a Justicia son a partir de concursos de antecedentes y oposición, inclusión formal inmediata a partir de una categoría de ingresante, obra social, vacaciones y aguinaldo garantizados por el acceso a la planta judicial. Actualmente los tribunales evaluadores se encuentran conformados por Tra- bajadoras Sociales y un abogado, veedores sindicales y del colegio de profesiona-les. La conformación de los tribunales ha resultado un ámbito de tensión y disputa, dado que, anterior al proceso de sindicalización, los evaluadores se encontraban conformados por jueces magistrados, psiquiatras, médicos y/o psicólogos como agentes legitimados por la institución para evaluar un cargo de Trabajador/a Social omitiendo la figura de un Trabajador/a Social en este ámbito. La planta del Poder Judicial para los Trabajador/as Sociales representa un ámbito de ingreso formal al mercado de trabajo con todas las consecuencias de allí derivadas. Las condiciones laborales de los contratos precarizados que tuvieron vigencia en la década de 1990 conformaron parte del pliego de demandas del sec- tor, siendo erradicados de la planta logrando de esta manera una inserción y per- manencia ligada a la estabilidad y garantía de los derechos laborales. Las tensiones entre las formas de enfrentamiento de la cuestión social desde el Poder Judicial de Neuquén y la organización de los Trabajadores Sociales El Servicio Social se incorpora a los organismos del Poder Judicial en Ar- gentina en el año 1930 (Oliva, 2007), en la provincia de Neuquén la inserción se va a producir en el año 1970 siendo una de las primeras profesiones convocadas desde el campo jurídico, que se inserta en el ámbito judicial. La profesión se ins- cribe en un ámbito caracterizado por una organización patriarcal, donde la hege- monía es el derecho. Esta profesión asume y define al resto de las y los profesio- 548 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 nales no abogados como auxiliares de jueces y magistrados, como lo expresado en la Carta Orgánica. El Servicio Social como profesión ha recorrido un proceso histórico donde la organización de los trabajadores está vinculada a las demandas sociales que plantea la “cuestión social” (Guerra, 2001)2 producto de la expansión de la crisis capitalis- ta y las formas de enfrentamiento que el Estado adopta desde uno de sus organismos, tiene como función, la regulación del conflicto y mantención del orden dominante. En este contexto hemos reconstruido que la profesión ha transitado tres momentos: Período que va de 1970 hasta 1983 y recorre el proceso de dictadura militar donde puede advertirse falta de representación sindical. Si bien la actividad sindical se encontraba limitada por el contexto de dictadura, se evidencia también que des- de el ámbito sindical no se asumía al sector como trabajadoras con demandas es- pecíficas (Antunes, 2001).3 La estructura judicial es altamente estratificada, jueces y magistrados se organizan en la Asociación de Magistrados que representa los intereses del sector, los denominados “empleados” del TSJ se organizan en el Sindicato de Judiciales de Neuquén (Sejun) y los denominados “profesionales auxiliares” aparecen en la historia de la institución como una franja no reconocida por ambas organizacio- nes, excluidos de cualquier tipo de representación que considere sus reclamos particulares. Para Alain Bihr (1991, p. 89), estas diversas categorías de trabajadores tienen en común la precariedad del empleo y de la remuneración; desregulación de las condiciones de trabajo, en relación con las normas legales vigentes y la consabida regresión de los derechos sociales, así como la ausencia de protección y libertad sindical, configurando una tendencia a la individualización extrema de la relación. A partir de la década de 1980 se registran Trabajadoras Sociales agremiadas al sindicato, con una representación formal individual y Trabajadoras Sociales incluidas en la Asociación de Magistrados, evidenciándose en este punto la tensión 2. “En el capitalismo monopolista el Estado pasa a intervenir directamente en la cuestión social por lo que desarrolla una modalidad de intervención tipificadas en políticas sociales que son tratadas como problemáticas particulares” (Guerra, 2001, p. 2). 3. Las dimensiones de la crisis contemporánea del sindicalismo se manifiestan a través de la fragmentación, heterogeneización y complejización de la clase que vive del trabajo, lo cual cuestiona de raíz al sindicalismo tradicional y dificulta también la organización sindical de otros segmentos que integran la clase trabajadora. 549Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 no resuelta la tensión profesional-trabajador que va a recorrer los distintos modos de organización que van asumiendo las Trabajadoras Sociales a lo largo de la historia. Durante este período rigen los marcos legales basados en el Paradigma de la Doctrina de la Situación Irregular, cuya Ley Nacional estaba representada por la Ley de Patronato sancionada a principios del siglo XIX. La infancia, como expre- sión de la “cuestión social”, comienza a ser regulada a partir de la estrategia del Estado, cuyo fundamento sería la represión y reclusión de los sectores pauperizados. La tarea profesional se dirige básicamente a determinar la “situación de ries- go” de la población usuaria, que una vez detectada desde el juzgado se deriva a los organismos ejecutores de la ley de infancia. Se trata básicamente de una estrategia ligada a la reclusión e institucionalización de ese sector poblacional. Se evidencia, la concepción de peligrosidad social (Daroqui; Guemeureman, 2000), la moraliza- ción de la pobreza, la estigmatización y como resultado la construcción social de los sectores peligrosos que requieren de una “acción efectiva del Estado”. Para Daroqui y Guemureman (2000), el positivismo como pensamiento se instala en la política dando respuestas, ya no solo con la interpretación de una realidad comple- ja, sino brindando los instrumentos necesarios para operar sobre ella, de ahí su aporte activo a fundar los marcos teóricos, no solo del servicio social, sino de la psicología y psiquiatría. La década de 1990 — expansión del neoliberalismo. El contexto socio eco- nómico político se caracterizó por el desmantelamiento del Estado, regresión en términos de derechos de los trabajadores, políticas de privatización y crecimiento acelerado de la pobreza que comienza a expresarse en los márgenes de las grandes ciudades. La capital de Neuquén va a iniciar un proceso de urbanización acelerado en el oeste de la ciudad donde se va a ubicar la población más pobre de la provincia. En materia de intervención, como consecuencias de las nuevas expresiones de la “cuestión social”, el nuevo milenio inaugura instrumentos legales que provo- can cambios paradigmáticos en materia de infancia y violencia de género4. Se termina con un siglo de intervenciones basadas en la concepción minorizante de la infancia y de las mujeres para dar lugar a la concepción de sujetos de derechos y ciudadanía. 4. Convención Internacional del Niño/a y Adolescente, Convención Internacional sobre Eliminación de todas las formas de discriminación hacia las mujeres y Tratados sobre violencia de género. 550 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 El cambio de los marcos legales modificaron las estructuras institucionales, los Juzgados de Menores se transforman en Juzgados de Familia, siendo cuatro en la actualidad; la Defensoría del Menor pasó a ser Defensoría de Niñez y Adoles- cencia. No se trató sólo del cambio de nominaciones, la institución judicial fue adquiriendo modificaciones previstas en la sanción de las correspondientes leyes que inauguraron nuevos servicios, requirieron espacios de formación, logrando en diez años ir avanzando en la adecuación institucional en todas las circunscripciones judiciales. En este contexto y como forma de dar respuesta a la crisis, además de la mo- dificación de la estructura el poder judicial, se convocó a profesionales especiali- zados en violencia, nueva temática a ser abordada por la justicia. Se registra en este momento condiciones laboralescompatibles con la época histórica, el poder judicial ofrece condiciones laborales en el marco de la precarización y flexibilización labo- ral5 que se van a mantener casi una década. En materia de reclamos de las condiciones laborales, los/las Trabajadores So- ciales mantienen las reivindicaciones históricas referidas a la creación de la carrera judicial, el escalafón etc. Se trata de una época en la que el reclamo del sector no es asumido por ningún ámbito de representación. Durante este período comienzan a colectivizarse las demandas, sin embargo se adopta una estrategia ligada a la lógica burocrática dominante. Algunos/as compañeros/as inician juicios individuales al TSJ ubicándose como funcionarios y esperan ser reconocidos en la tarea diferencial promoviendo de esta manera promover la creación de la carrera judicial. Período postcrisis de 2001. Se manifiesta la expresión de la crisis en la etapa de expansión del capitalismo financiero a nivel mundial. En el país toman fuerza las demandas de los movimientos sociales, de desocupados, de trabajadores orga- nizados que van a culminar con la explosión de la crisis acontecida en el mes de diciembre de ese año. La región no es ajena a las diversas formas de organización y movimientos, durante este período tiene vigencia dos mandatos consecutivos de Jorge Sobisch en la provincia. Se trató de un período histórico de violencia, corrupción, per- secución sindical, ataques manifiestos a la ley de infancia, cuestionamiento a la independencia de poderes denunciados por distintos sectores y movimientos so- ciales de la provincia. 5. Ver Diario Río Negro, mayo de 1999, llamado a concurso para asistente social. 551Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 Los/las trabajadores/as sociales y psicólogos/as comienzan a agruparse, tal como va aconteciendo en diversos espacios sociales, conformando hacia 2004 la Asociación de Profesionales Auxiliares de la Justicia. En marzo del mencionado año se obtiene la Personería Jurídica de la Asocia- ción, siendo los objetivos: “Ejercer la representación de los Asociados en todos aquellos aspectos que hagan a los intereses laborales como Profesionales Auxiliares Permanentes del Poder Judicial; Propiciar y promover el intercambio científico, académico, técnico y de actualización entre las distintas disciplinas que integran la asociación con el fin de tener un desarrollo y enriquecimiento de la tarea profesio- nal dentro del poder judicial”. Se trata de la primera organización colectiva como grupo de trabajadores asalariados de la justicia, con un potencial de 40 profesionales compuestos por Trabajadores Sociales, Psicólogos y Médicas de toda la provincia. Se inaugura una modalidad de organización social y política para llevar ade- lante los reclamos históricos de la carrera judicial. Se trata de una asociación que define la identidad de los/las trabajadores/as como profesionales recorriendo nue- vamente el aspecto contradictorio de la tensión trabajador/profesional. Durante el período se verifican para la profesión el contexto de mayor abuso y violación de las incumbencias profesionales, dado que ante la emergencia de la crisis capitalis- ta, la falta de respuesta de las políticas públicas a las expresiones de la “cuestión social”, se produce la personalización más extrema del trabajo. Ante la denuncia de las condiciones laborales6, acción que el colectivo reali- za de manera pública a través de medios televisivos y radiales, aparece la respues- ta de la institución desde su modalidad represiva depositando en el/la trabajador/a social el incumplimiento de las Leyes de Violencia Familiar e Infancia y Adoles- cencia. La sanción hacia los/las trabajadores/as, se constituye en la única salida institucional para el cumplimiento de los requerimientos de los juzgados. La sanción y el disciplinamiento a los trabajadores durante esa época se visua- lizó en los distintos acuerdos, mecanismos de toma de decisiones de ese poder, iniciando sumarios individuales y colectivos, sanciones y puesta en marcha de auditorías. Se inicia una persecución hacia los profesionales del sector sin prece- dentes en al historia del Poder Judicial de Neuquén. Un aspecto a destacar es que 6. Nota a la Secretaria de Gestión Humana con presentación del documento denominado “Colapso del Gabinete Interdisciplinario”, Asociación de Profesionales de la Justicia Apajun (2006). 552 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 la coordinación del Gabinete Interdisciplinario de Neuquén se encontraba a cargo durante ese período de un médico psiquiatra denunciado por organismos de derechos humanos7 por presunta participación en el período de terrorismo de Estado en Ar- gentina. Se trata de un aspecto que visualizaba algunas continuidades del aparato represivo estatal. En materia de intervención el fuero de familia habilitó el dispositivo de guar- dia emergente a partir de la sanción de la Ley n. 2.212 de violencia familiar para todas las demandas que ingresaban a la institución. Se trataba del uso de un teléfo- no celular que funciona las 24 horas, los 365 días del año, donde un abogado re- cepcionaba la demanda legal e inmediatamente derivaba al servicio social sin evaluación previa de la demanda, para que la trabajadora social concurriera al lugar, incluyendo los horarios nocturnos y de madrugada, para producir un informe social. La reconstrucción de la particularidad8 de la intervención de este período visualizó que el dispositivo de guardias constituyó la respuesta que la institución brindó a la “cuestión social” en un contexto postcrisis 2001 caracterizado por la mayor expresión de desigualdad, ausencia de políticas sociales, desmantelamiento de los escasos programas de atención, siendo las trabajadoras sociales del Poder Judicial las primeras agentes de intervención ante la demanda social. La intervención social constituía el espacio de mayor expresión del cotidiano, se inscribía en el caos, la urgencia, la inmediatez, la improvisación trasformándose en una respuesta burocrática despojada de evaluación de criterios de intervención, de proceso, de dirección. En síntesis, un escenario donde la demanda caótica de la institución implicó un escenario de violación a las incumbencias profesionales. La reconstrucción cuantitativa de la tarea de ese período nos muestra datos tales como: más del 50% de las urgencias eran vinculadas al requerimiento de traslado de personas para entrevistas psicológicas, psiquiátricas y/o audiencias judiciales. Desde el sector se abrió una fuerte crítica a las demandas de la judica- 7. Neuquén (AN). Por tercera vez se intentará hoy iniciar el juicio contra 27 policías acusados de torturar a detenidos en la Unidad 11, la mayor cárcel de la provincia. La Asociación Zainuco, que actúa como querellante, presentó un hábeas corpus para que se les brinde protección a 15 detenidos que declararán como testigos ya que fueron víctimas de la represión, ocurrida en abril de 2004. El organismo también pidió que se excluya de la lista de testigos al psiquiatra Ignacio López Proumen atento a su presunta participación en los hechos de terrorismo de estado que fueran perpetrados durante la dictadura militar en los años 1976-1983. Diario Río Negro, 3/mayo/2010. 8. En sus estudios sobre la realidad en tanto totalidad concreta, Luckás realiza un importante análisis de las categorías de particularidad, singularidad y generalidad (Mallardi, 2012, p. 59). 553Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 tura, en tanto, determinados requerimientos no representaban incumbencias profe- sionales sino acciones que conformaban parte de un ideario cultural e institucional vinculado a la representación del rol del trabajo social negativamente asumido. La crítica situación nos interpeló como colectivo profesionaly nos vimos en la tarea de generar instancias de reflexión, logrando apropiarnos de esa realidad caótica y definir incumbencias, en principio para ejercer nuestra práctica en el marco de la legislación profesional y el código de ética. Por otro lado, para no asumir las lagunas institucionales y delimitar las intervenciones profesionales que correspondían a la psicología, psiquiatría, medicina y/o abogacía. En este período de crisis la “cuestión social” va a ser abordada desde nuevos paradigmas en la era del derecho, aparece como marco legal la Doctrina de Pro- tección Integral de la Infancia y Adolescencia cuya principal declamación es “la infancia como sujetos de derecho”. Al Trabajador Social se va a encomendar la intervención en el marco de los “derechos vulnerados” a diferencia de detectar la “situación de riesgo”, estableciendo diagnósticos de vulneración de derechos universales. Como propuesta aparece en los distintos ámbitos, académicos, judiciales, institucionales, sociales, escolares, políticos, el discurso hegemónico de la desju- dicialización de la pobreza, la desinstitucionalización, desarticulando la estrategia de reclusión e institucionalización que constituyo la base metodológica del control de la población del periodo anterior. Se asume ahora como “la solución” de la “cuestión social” por parte del Estado la restitución de derechos a los niños “ciu- dadanos” y a las mujeres víctimas de la violencia. En este marco se observa una creciente judicialización de derechos, ausencia de las obligaciones del Estado que deben materializarse en políticas públicas, cre- ciente incorporación del tercer sector y creciente desarrollo de tecnicaturas que comienzan a proliferar en condiciones de extrema precariedad para abordar la cada vez mayor complejidad de la “cuestión social”. El Estado provincial adopta la es- trategia de descentralización, asignando la competencia a los municipios, quienes no contaron con la partida presupuestaria para hacer frente a las demandas y en un proceso acelerado debieron organizarse para abordar las situaciones delegadas. Se ha verificado en este tiempo que la descentralización significó ausencia de la intervención del estado para asumir la “cuestión social”, precarización extrema de los trabajadores y des-profesionalización del campo psicosocial, predominando técnicos y agentes denominados “operadores”, figuras en quienes han delegado la 554 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 intervención en la materia. Los nuevos paradigmas dejan en evidencia que el Esta- do, lejos de garantizar esos derechos proclamados en esta era, por un lado, registra la mayor ausencia de políticas públicas para abordar la “cuestión social” y por otro, pone en evidencia que la relación capital/trabajo está generando, en este período histórico, una de las mayores expresiones de deshumanización. En materia de organización de las trabajadoras se destaca en el año 2006 un espacio de organización colectiva intradisciplinaria que surge como consecuencia de las condiciones socio ocupacionales vigentes. La intención inicial era generar un dispositivo de reflexión para problematizar la condición de género considerando las implicancias de una profesión femeneizada en un ámbito patriarcal y la condi- ción de clase dada nuestra condición de asalariadas. Posteriormente la propuesta se inscribió en un proyecto de extensión de la Universidad Nacional del Comahue, coordinado por la Lic. Silvia Mansilla, docen- te a cargo de la cátedra paralela “Seminario de Servicio Social con residencia Institucional”. Este proceso constituyó un espacio fundante, pues se trató del primer ámbito intradisciplinario colectivo y organizado, donde las Trabajadoras Sociales nos reunimos durante varios meses interrumpiendo el cotidiano que desbordaba, para instituir un espacio que, sumado a los procesos que se venían gestando histó- ricamente, va a motorizar una organización superior en la historia de los trabajado- res de la justicia, la inclusión como sector específico al sindicato judicial. El espacio de supervisión se desarrolló en el ámbito laboral, nos apropiamos del tiempo y lugar para suspender la tarea cotidiana. Si bien, reconociendo la hete- rogeneidad del colectivo profesional, integraron este espacio colegas con quienes habíamos desarrollado un vínculo de confianza, dado el carácter hostil y represivo de la institución. Se trata de un ámbito que fortaleció personal y políticamente al grupo, promoviendo y reorientando un proyecto profesional que se venía gestando históricamente. Período 2007 a 2010 — Sindicalización de los Trabajadores Sociales. El contexto más represivo y de mayor expresión de las consecuencias de la crisis de 2001 posibilitó que se inaugurara un período trascendental, la sindicalización de los/las trabajadores sociales. Durante este período se incorpora a los reclamos históricos, carrera judicial y escalafón, la Aprobación de Incumbencias Profesio- nales del Servicio Social, construcción colectiva que surge a partir del período de mayor tensión y conflicto producto de la crisis y las manifestaciones creciente de la “cuestión social”. 555Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 Algunas de las estrategias que el colectivo adoptó para la acción política sindical fueron sostener la organización colectiva que el conjunto construyó en otros periodos históricos, asumir una dimensión política de la práctica, superar la dimen- sión profesional para asumirse como trabajadoras asalariadas con un trabajo espe- cífico en el marco de la división social y técnica del trabajo. Superar el aislamien- to e integrarnos con las compañeras del interior de la provincia, dotó al reclamo un carácter más abarcativo, la asamblea es el espacio donde construimos el pliego de reclamos del sector y esbozamos la carrera judicial. Mantuvimos la unidad y organización frente a la represión institucional en un conflicto que se mantuvo por más de ocho meses donde realizamos las siguientes medidas de fuerza: paro, quite de colaboración, asambleas en los lugares de traba- jo y en distintos organismos manifestando la problemática del sector, pegatina y escarches. Adoptamos acciones sindicales directas, esta estrategia la desplegamos en la ejecución de los concursos informando a los/las participantes que los mismos ca- recían de legitimidad y eran pasibles de ser impugnados por el sector, en tanto, presentaban irregularidad por la conformación del tribunal examinador, por la au- sencia de veedores del colegio o sindicales. Nos asociamos con actores sociales como los colegios profesionales y la universidad, aspecto clave para deslegitimar, por ejemplo, los requerimientos que no constituían incumbencias profesionales, dando el colegio la legitimidad al reclamo. Además, constituyó una forma de ubicar el conflicto en la dimensión pública implicando un amparo social trascendente. Realizamos denuncias públicas en medios radiales y televisivos, escarches, dado que durante el periodo postcrisis 2001 se implementaron pasantías laborales que además de constituir una profundización de la precarización laboral, los usua- rios eran asistidos por estudiantes de psicología violando el derechos a la asistencia profesional además del riesgo que implica la atención preprofesional en materia de violencia de genero, maltrato infantil. La institución baso su estrategia en acciones de represión, sanción y per- secución9 a los reclamos y organización de las trabajadoras. El TSJ crea el primer 9. 2010 Testimonio Acuerdo 4517 (21 de abril 2010) 11º Equipo Interdisciplinario sobre informe de la Secretaría de Superintendencia. Visto: Informe de medidas de quite de colaboración del Equipo Interdisciplinario informada y ratificada por la entidad gremial [...]. Que no resulta posible permitir que no ser