Estudar
10 pág.

Estudar


DisciplinaPolítica Social544 materiais1.980 seguidores
Pré-visualização3 páginas
1 
 
POLÍTICA SOCIAL: a serviço de quem? 
Kyriê Machado da Rosa
*
 
RESUMO: O artigo realiza uma discussão sobre a Política Social e os impactos que esta gerou e 
gera para o Estado, mercado e sociedade. Elabora uma breve análise de como foi construída esta 
política no Brasil e suas repercussões neste país de capitalismo tardio. Reverbera sobre a 
desqualificação do que é coletivo e público, em detrimento do que é individual e privado. Analisa 
sobre para quem esta política serve e de que forma isso ocorre. Realiza uma célere reflexão da 
política e identifica quais as suas contribuições e entraves para seus usuários. 
Palavras-chave: Política Social. Classe Trabalhadora. Capitalismo. 
 
A Política Social é um tema bastante estudado por várias vertentes teóricas e, 
por isso mesmo, identifica-se diversas interpretações sobre seus impactos para a 
sociedade e para o Estado. Há os que defendam que ela onera o Estado e há os 
que defendam que ela é fruto de uma conquista da classe que vive do trabalho, 
contudo, torna-se difícil a partir de uma análise mais profunda, defender posições 
tão extremadas, sem perceber que uma teoria, não necessariamente invalida a 
outra. 
 Esta política possui o \u201cpoder\u201d de despertar estas compreensões tão 
antagônicas, pois, como dela participam os três setores \u2013 Estado, mercado e 
sociedade, as disputas de classe encontram espaço para se manifestar de maneira 
genuína. E cabe aos pesquisadores desta temática, em especial, os trabalhadores 
sociais que sobre ela debruçam suas pesquisas, desvelar os reais impactos que a 
mesma gera para todos os envolvidos, pois, é possível verificar a partir de uma 
análise mais profunda, que este antagonismo possa estar duplamente representado 
na Política Social. 
 Este artigo problematiza sobre estes diferentes entendimentos teóricos e que 
não necessariamente esta política \u201csirva\u201d somente ao capital ou a classe 
trabalhadora e que é possível, a duplicidade deste \u201cservir\u201d. 
 
1. A POLÍTICA SOCIAL E SUA DUALIDADE 
 
* Bacharel em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), 
Assistente Social da Universidade Federal do Rio Grande do SUL (UFRGS) no Departamento de 
Atenção à Saúde (DAS/UFRGS), Especialista em Oncologia/Hematologia pela Residência Integrada 
em Saúde do Grupo Hospitalar Conceição (RIS/GHC), Mestranda em Serviço Social do Programa de 
Pós-Graduação da Faculdade de Serviço Social da PUCRS, bolsista CAPES. E-mail: 
kyri.rosa@gmail.com 
 
2 
 
A Política Social é duplamente conquista dos trabalhadores e instrumento do 
Estado capitalista. Porém, é importante ressaltar que foi a partir do aparecimento da 
Política Social, que os direitos coletivos foram garantidos, contudo, torna-se 
necessário discutir como os mesmos são efetivados e legitimados nos tempos atuais 
e para quem essa política está configurada. 
A origem da Política Social é anterior até mesmo ao surgimento do 
capitalismo, pois esta apareceu como uma forma de responder à algumas 
demandas da população, onde o Estado e a sociedade uniram-se para dar conta 
dessas solicitações no período pré-capitalistas. A Igreja Católica é uma das 
primeiras Instituições a conceder \u201crespostas\u201d para a sociedade através da caridade 
que levaria \u201ca Deus\u201d. E por isso, desde o seu surgimento, a Política Social está 
repleta de contradições. 
Com a consolidação do capitalismo como o sistema vigente na maior parte do 
mundo, a Política Social passou também a responder os anseios da sociedade, da 
disputa instituída entre o capital e a classe trabalhadora e com isso, foi necessário 
criar estratégias que respondessem as demandas desta dicotomia existente entre as 
diferentes classes. As conquistas adquiridas através desta política só foi alcançada a 
partir de uma grande mobilização da classe trabalhadora no embate com a classe 
burguesa. 
 
A política social como um componente ou produto, que é, da velha e 
conflituosa relação entre Estado e sociedade, no marco das formações 
sociais de classe (não importam a natureza e a idade que tenham), vai 
sempre lidar com interesses opostos, já que ela resulta da pressão 
simultânea de sujeitos distintos. (PEREIRA, 2008, p.28). 
 
A política pode ser entendida como contenção e ao mesmo tempo, ampliação 
dos direitos da classe trabalhadora. Pois, embora ela seja um potencializador de 
controle da pobreza, nunca é pensada para a superação da mesma ou para 
superação das desigualdades geradas por este sistema. A caridade e a repressão 
constituídas nesta política não permitem que os sujeitos usuários da mesma sejam 
entendidos como sujeitos históricos, frutos de um sistema que não permite a 
superação da ordem (e dos papéis) instituída e com isso, os usuários são vistos 
como \u201ccoitados e/ou meliantes\u201d. 
 
Da mesma forma, os seus impactos não produzem invariavelmente a 
melhoria das condições humanas, especialmente das camadas mais 
3 
 
pobres. Para que isso aconteça de alguma forma, há que existir contínuo 
controle de parcelas organizadas da sociedade sobre atos e ações dos 
governos, bem como sobre demandas ou imposições do capital, que 
também são acatadas e processadas pelo Estado. (PEREIRA, 2008, p. 
28). 
 
 
As transformações ocorridas no capitalismo desde a década de 1970 geraram 
importantes transformações societárias com amplo impacto no mundo do trabalho, 
onde os trabalhadores (em especial, os da América Latina) viram seus direitos ao 
trabalho e benefícios adquiridos cortados de maneira exponencial. E cada vez mais, 
a dificuldade de permanência no mercado formal de trabalho e a enorme exigência 
de qualificação para manter-se no mesmo, têm \u201cempurrado\u201d os trabalhadores para a 
informalidade e com isso, tem aumentado o número de usuários de política social, 
em especial, da política de assistência social. 
 
De fato, o chamado \u201cmercado de trabalho\u201d vem sendo radicalmente 
reestruturado \u2013 e todas as \u201cinovações\u201d levam à precarização das 
condições de vida da massa dos vendedores de força de trabalho: a 
ordem do capital é hoje, reconhecidamente, a ordem do desemprego e da 
\u201cinformalidade\u201d. (NETTO, 2012, p. 416). 
 
 
Pensando nesses fatores, em que dimensões a Política Social se estabelece? 
De quem ela dá conta? E quem dá conta dela? O Estado tem se colocado como o 
principal responsável pela manutenção e legitimidade desta política e no Brasil, é 
seu dever garantir o mínimo à sua população como acesso à saúde, educação, 
entre outros. Conduto, vivemos em um mundo onde o capital tem ocupado cada vez 
mais espaço e com isso, tem \u201cdesautorizado\u201d o Estado de suas obrigações 
constitucionais. 
A desqualificação do Estado tem sido, como é notório, a pedra de toque 
do privatismo da ideologia neoliberal: a defesa do Estado mínimo\u201d 
pretende, fundamentalmente, o \u201cEstado máximo para o capital\u201d, nas 
palavras de Przerworski, constitui um \u201cprojeto histórico da Direita\u201d, dirigido 
para a acumulação [capitalista] de todas as cadeiras impostas pela 
democracia. (NETTO, 2012, p. 422). 
 
 
O capital vem \u201cchamando\u201d à sociedade civil para também dar conta das 
demandas da classe trabalhadora, o que tem gerado um Estado cada vez menos 
responsável por sua população. 
 
O intitulado \u201cterceiro setor\u201d alimenta-se da opinião, mais ou menos notória, 
da necessidade de aprimorar a gestão da politica social. Nele se buscam 
4 
 
resultados, participação, eficiência, eficácia, nos programas sociais, por 
intermédio da atuação conjunta do estado e de \u201csetores\u201d da sociedade. 
Com o \u201cterceiro setor\u201d, retomam-se antigas práticas da filantropia e do 
voluntariado, agora com trajes empresariais, decretando um novo mundo, 
livre de antagonismos e de conflitos