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Edelvino Razzolini Filho ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAL E PATRIMÔNIO ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAL E PATRIMÔNIO AD M IN IS TR AÇ ÃO D E M AT ER IA L E PA TR IM ÔN IO Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-3588-5 9 7 8 8 5 3 8 7 3 5 8 8 5 Edelvino Razzolini Filho Administração de Material e Patrimônio IESDE Brasil S.A. Curitiba 2013 Edição revisada © 2006-2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autoriza- ção por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ __________________________________________________________________________________ R219a Razzolini Filho, Edelvino. Administração de material e patrimônio / Edelvino Razzolini Filho. - 1. ed., rev. - Curi- tiba, PR : IESDE Brasil, 2013. 330 p. : 24 cm Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-3588-5 1. Administração de material 2. Logística empresarial. I. Título. 13-1182. CDD: 658.7 CDU: 658.7 22.02.13 27.02.13 043049 __________________________________________________________________________________ Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: IESDE Brasil S.A. IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. Edelvino Razzolini Filho Doutor e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, Especialista em Marketing, Administrador de Empresas. Atualmente é professor e coorde- nador do curso de Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Foi su- pervisor de vendas e gerente de vendas de di- versas empresas distribuidoras de materiais e equipamentos médico-hospitalares na região Sul do Brasil; gerente de produtos de indústria farmacêutica com atuação em todo o território nacional. Foi sócio-diretor da empresa K. R. Con- sultoria e Assessoria Empresarial Ltda., atuando com treinamento e consultorias na área de lo- gística; também foi diretor-presidente da UNIE- DUC Cooperativa dos Educadores e Consultores de Curitiba; autor de diversos livros e artigos publicados em revistas e eventos científicos na- cionais e internacionais. su m ár io su m ár io su m ár io su m ár io Administração de materiais | 13 13 | Considerações iniciais 14 | Recursos à disposição das organizações 17 | Conceito de administração de materiais 19 | Evolução das organizações e da administração de materiais 24 | Logística e Supply Chain Management (SCM) O sistema de administração de materiais e patrimônio | 33 33 | Funções componentes de um sistema de administração de materiais 39 | Atividades da administração de materiais 43 | Os estoques e a área de materiais A administração de materiais nas organizações | 55 55 | A organização da área de materiais 59 | Localização e abrangência da administração de materiais 65 | Papel da administração de materiais nas organizações Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais | 75 75 | Introdução 75 | Identificação de materiais 79 | Classificação de materiais 82 | Controle de materiais 88 | Avaliação de desempenho como ferramenta de controle O método ABC de classificação de materiais | 97 98 | Classificação de materiais conforme o valor – classificação ABC 104 | Outros critérios para a classificação dos materiais 106 | Ferramentas e indicadores de gerenciamento dos estoques Sistemas de armazenagem | 119 121 | Razões para a manutenção de espaços de armazenagem 125 | Funções dos sistemas de armazenagem 131 | Opções de armazenagem e tipos de armazéns 134 | Atividades nos sistemas de armazenagem Dimensionamento e controle de estoques | 139 139 | Considerações iniciais 140 | Como dimensionar os estoques 142 | Política de estoque e previsão de demanda 151 | Controle de estoque Planejamento e programação da produção | 165 165 | Introdução 166 | Questões introdutórias ao planejamento 167 | Planejamento da produção 173 | Programação da produção – programa-mestre de produção 175 | A administração de materiais e a produção su m ár io su m ár io su m ár io su m ár io Material Requirements Planning (MRP) | 181 181 | Introdução 183 | O MRP e as informações que o alimentam 186 | O funcionamento do MRP A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais | 199 199 | Introdução 199 | Integração e otimização 199 | Melhoria contínua (kaizen) 200 | Resposta às necessidades dos clientes 202 | O que é necessário para implantar o JIT? 208 | O JIT, seus objetivos operacionais e a questão dos estoques 212 | Os custos no ambiente JIT Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades | 221 221 | Introdução 222 | O sistema logístico – conceitos elementares 230 | Os subsistemas logísticos 233 | Funções e atividades logísticas Os sistemas de distribuição | 243 244 | Canais de distribuição – a interface da administração de materiais com o marketing 247 | Planejamento de distribuição 255 | Inter-relacionamento da distribuição física com os demais elementos do composto de marketing Os sistemas de transportes | 263 263 | Introdução 264 | Modal de transporte 265 | Transporte próprio ou terceirizado? 265 | Roteirização 265 | Nível de serviço 266 | O sistema de transportes 273 | Os intervenientes (atores) nos sistemas de transportes O gerenciamento da cadeia de suprimento (SCM) | 283 283 | Introdução 285 | Supply Chain Management (SCM) – conceitos básicos 291 | Colaboração nas cadeias de suprimento 295 | Outras considerações sobre o SCM A cadeia de suprimento digital e os negócios eletrônicos | 305 305 | A informação nas cadeias de suprimento 314 | Tipologia do comércio eletrônico – a linguagem do E 318 | Soluções organizacionais nas cadeias de suprimento digitais Referências | 325 A dm inistração de M aterial e P atrim ônio Apresentação A Administração de Material e Patrimônio é uma das mais relevantes disciplinas nos cursos de Administração. Sua relevância é tão expressiva que, atualmente, passou a receber a denominação genérica Logística Empresarial. Um dos primeiros livros de logística a ser publicado no Brasil, por volta de 1990, trazia em seu subtítulo a expres- são “administração de materiais”, para demonstrar como já naquele momento havia um reconhe- cimento da importância dessa disciplina. Então, atualmente, com a ênfase dada à logística nas or- ganizações, essa disciplina está recebendo o seu merecido destaque. Um dos objetivos deste livro é destacar a impor- tância da Administração de Material e Patrimônio dentro dos cursos de Administração, preenchen- do, talvez, uma importante lacuna no mercado editorial. O livro é composto por 15 capítulos e está estru- turado em três partes essenciais: a primeira parte apresenta os conceitos básicos da administração de materiais; a segunda parte apresenta conceitos dos sistemas de armazenagem e da gestão de es- toques, além de apresentar algumas ferramentas para seu adequado gerenciamento; e a terceira parte apresenta os conceitos modernos da logísti- ca empresarial e do seu gerenciamento. Os cinco primeiros capítulos compõem a pri- meira parte do livro e têm a finalidade de introdu- zir o aluno nos conceitos essenciais da administra- ção de materiais. No capítulo 1 são apresentados os conceitos da administração de materiais e a forma como esses conceitos foram evoluindo ao longo do tempo; no capítulo 2 se apresenta o sistema de administra- ção de materiais e patrimônio, destacando-se as funções que compõem esse sistema; o capítulo 3 mostra a administração de materiais nas organi- zações, destacando-se sua localização (em termos de organograma)e sua abrangência nos sistemas gerenciais; já o capítulo 4 trata da identificação, classificação e controle de materiais e dos bens pa- trimoniais, como elementos essenciais para uma administração de materiais eficiente, que auxilie a organização a atingir os objetivos estabelecidos pela alta administração; por fim, o capítulo 5 apre- senta o método ABC de classificação de materiais como uma importante ferramenta para facilitar o gerenciamento dos recursos materiais (principal- mente os estoques), de forma a minimizar os in- vestimentos de recursos organizacionais. A segunda parte do livro, que são os capítulos de 6 a 10, objetiva apresentar o papel da armaze- nagem para uma boa administração de materiais. O capítulo 6 apresenta os conceitos essenciais de um sistema de armazenagem e os principais sis- temas de armazenagem, com suas respectivas es- truturas. No capítulo 7 se discorre sobre o dimensio- namento e o controle dos estoques, demonstrando o papel das variáveis demanda e tempo sobre o controle dos estoques. No capítulo 8 se apresen- tam os conceitos de planejamento e programação de materiais, sua importância e relevância para a diminuição dos investimentos em estoques. O ca- pítulo 9 trata do planejamento das necessidades de recursos materiais para o adequado funciona- mento dos sistemas produtivos, apresentando os conceitos de MRP (Material Requirement Planning) e sua evolução. Por fim, o capítulo 10 trata da Filo- sofia Just-in-Time, seus conceitos elementares, sua evolução e importância para a administração de materiais. A terceira parte do livro busca relacionar a ad- ministração dos materiais no contexto mais amplo da moderna logística empresarial. Para tanto, o ca- pítulo 11 apresenta o sistema logístico, seus com- ponentes e as atividades logísticas (primárias e se- cundárias). No capítulo 12 se apresenta o sistema A dm inistração de M aterial e P atrim ônio A dm inistração de M aterial e P atrim ônio de distribuição, relacionando seu impacto sobre a administração de materiais. O capítulo 13 trata do sistema de transportes e busca demonstrar o papel da variável tempo para a administração de mate- riais. O capítulo 14 trata de um tema atual e sempre relevante: a administração da cadeia de suprimen- tos, que é extremamente importante para a admi- nistração de materiais. No último capítulo da obra aborda-se outro tema relevante e atual: a cadeia de abastecimento e o comércio eletrônico, uma vez que a prática do comércio eletrônico apresenta crescimento constante nos dias atuais. Assim estruturado, o livro busca apresentar os conceitos e as ferramentas essenciais para uma adequada administração dos recursos materiais e patrimoniais que são colocados à disposição das organizações e que necessitam ser minimizados para que os resultados possam ser maximizados. Com essa visão em mente é que se buscou elabo- rar o presente livro. Portanto, desejamos ao leitor uma boa leitura e ótimo aproveitamento dos con- teúdos aqui disponibilizados. Administração de materiais O objetivo deste capítulo é apresentar o conceito de administração de materiais e sua evolução ao longo do tempo, como forma de estabelecer as bases para a aprendizagem desse conteúdo tão importante para a formação do administrador. A administração de materiais é de vital importância para a redução de custos e aprimoramento dos processos produtivos, quando corretamente compreendida e desempenhada. Analisando-se os balanços das organiza- ções é possível perceber que os investimentos em estoques representam uma média de 1/3 dos ativos totais das empresas. Isso significa que é funda- mental gerenciar adequadamente os materiais que são utilizados nos pro- cessos produtivos. Considerações iniciais Essencialmente, a atividade administrativa implica o processo de trans- formação de recursos de entrada em recursos de saída, conforme se visualiza na figura a seguir: Fornecedores ClientesRecursos de entrada Recursos de saída Processamento dos recursos Processos administrativos Processos operacionais Processos tecnológicos Outros processos Financeiros Materiais Humanos Energéticos Tecnológicos Equipamentos Etc. Juros/Lucros Produtos Salários Serviços Marcas/Patentes Etc. Figura 1 – A dinâmica do funcionamento organizacional. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. 13 14 Administração de materiais Os recursos de entrada são obtidos junto a fornecedores, e podem ser ordenados em grupos principais: recursos financeiros; recursos materiais; recursos humanos; recursos energéticos; recursos tecnológicos; equipamen- tos; facilidades1 etc. A organização agrupa esses recursos e, utilizando-se de processos inter- nos, os transforma em recursos de saída, destinados aos seus clientes. Isso implica que os recursos colocados à disposição da organização, obtidos de seus fornecedores, devem ser bem gerenciados para se obter as saídas de recursos desejados pelos clientes da organização. Essa transformação de recursos depende em grande parte da adminis- tração de materiais, que é responsável por obter e gerenciar os recursos que serão processados pela organização. É exatamente sobre essa atividade, a administração de materiais, que vamos discorrer nesta obra, buscando de- monstrar o seu papel para a Administração, como ela funciona e os resulta- dos que oferece aos sistemas organizacionais. Recursos à disposição das organizações Como se percebe, pela figura 1 (A dinâmica do funcionamento organiza- cional), os recursos que são disponibilizados às organizações, para que atin- jam seus objetivos, têm sua origem naquilo que genericamente chamamos de fornecedores. Tais fornecedores podem disponibilizar às organizações os diferentes tipos de recursos de que elas precisam para operacionalizar seus processos produtivos, podendo ser visualizados na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Materiais Patrimoniais Financeiros (capitais) Energéticos Tecnológicos Humanos Recursos organizacionais Figura 2 – Os recursos gerenciáveis pelas organizações. 1 Do inglês facilities, para significar todos os recur- sos adicionais necessários aos processos produtivos, como: instalações de ar comprimido, instalações elétricas, de gás etc. Administração de materiais 15 Claro que existem outros recursos que podem ser utilizados pelas organi- zações, como os recursos informacionais. Porém, relacionamos apenas os seis encontrados na figura 2, e daremos ênfase aos recursos materiais e aos patri- moniais, uma vez que os mesmos são o objeto de nosso estudo. Os fornecedores dos recursos financeiros são chamados de capitalistas e podem fornecer capitais próprios, os sócios ou acionistas, ou capitais de ter- ceiros, os fornecedores, bancos etc. Os fornecedores dos recursos energéticos podem ser os governos (energia elétrica, gás etc.) ou empresas privadas (madeira, óleo diesel etc.). Os fornecedores de recursos tecnológicos (máquinas, equipamentos, soft- ware, processos etc.) podem ser tanto empresas públicas quanto privadas. Os recursos humanos podem ser fornecidos por empresas terceirizadas ou contratados diretamente pela própria organização. Os recursos materiais são as matérias-primas, materiais auxiliares e os in- sumos utilizados nos processos produtivos, os de escritório, de higiene e lim- peza etc., e devem ser corretamente administrados, uma vez que são recur- sos de uso contínuo e precisam ser adquiridos e gerenciados visando atingir os objetivos de redução de custos e/ou de maximização de resultados. Ge- ralmente, os recursos materiais encontram-se no chamado Ativo Circulante das organizações e recebem o nome genérico de estoques. Por fim, os recursos patrimoniais são aqueles que compõem o chama- do Ativo Permanente das organizações e são representados por máquinas, equipamentos, veículos, móveis, utensílios e demais facilidades necessárias ao funcionamento da organização. Recursos materiais Essencialmente, entende-sepor recursos materiais quaisquer bens que sejam utilizados nos processos produtivos organizacionais. Segundo Mar- tins e Alt (2000, p. 6), “por transmitirem a ideia de que são capazes de gerar produtos e serviços e, portanto, produzir riquezas, os bens são muitas vezes considerados como sinônimo de recursos”. Para a administração de materiais, os bens (parte do patrimônio da or- ganização) são sinônimos de recursos materiais e, assim, são considerados 16 Administração de materiais apenas aqueles que integram o chamado Ativo Circulante das organizações e que, genericamente, recebem o nome de estoques. Ou seja, o objeto central da administração de materiais é o estoque à disposição das organizações. Os estoques são compostos, basicamente, de materiais auxiliares, maté- rias-primas, produtos em processo (WIPs – Work in Process) e produtos acaba- dos. Cada um desses materiais merecerá um cuidado e atenção diferenciada para que os objetivos da organização possam ser atingidos. A correta gestão dos estoques é a essência da administração de materiais. Recursos patrimoniais Para a contabilidade, o patrimônio de uma organização é entendido como o conjunto de bens, direitos e obrigações que são colocados à sua disposi- ção pelos sócios e/ou fornecedores. O papel da administração de materiais e do patrimônio é zelar por tais recursos, gerindo-os de forma a garantir sua utilização racionalmente para permitir que se atinjam os objetivos organiza- cionais de maximização dos resultados (lucro). Esse “conjunto de bens, direitos e obrigações” representa um conjunto de recursos que, bem administrado, poderá contribuir com os objetivos da organização, uma vez que, ainda segundo a ciência contábil, o patrimônio líquido é representado pela seguinte equação: Patrimônio Líquido = (Bens + Direitos) – Obrigações No conjunto de bens e direitos encontram-se os recursos patrimoniais (ativos permanentes), os estoques, os recursos financeiros etc. e, no conjunto dos direitos, encontram-se os resultados da venda dos produtos e/ou ser- viços gerados pelos processos produtivos, representados, entre outros, por duplicatas a receber. Para a disciplina de administração de materiais quando nos referimos ao patrimônio, estamos dedicando atenção apenas aos bens que fazem parte do ativo permanente. Como se pode perceber, pelos conteúdos acima, a administração de re- cursos materiais é diferente da administração dos patrimoniais, embora sua gestão tenha a mesma finalidade, ou seja, contribuir para que se atinjam os objetivos das organizações, em termos de minimizar os recursos (materiais ou patrimoniais) para possibilitar uma maximização dos resultados. Administração de materiais 17 Conceito de administração de materiais Para compreender o significado da administração de materiais, é necessá- rio compreender o significado das duas palavras: administração e materiais. A palavra administração designa tanto a ciência que estuda os fenôme- nos organizacionais, quanto o local onde se localizam os serviços adminis- trativos ou, ainda, o conjunto de regras que objetivam ordenar e controlar os processos organizacionais, com produtividade e eficiência, visando atingir resultados predeterminados. Por outro lado, a palavra materiais assume o significado do conjunto de objetos, instrumentos, equipamentos, ferramentas ou outros que são utiliza- dos em um serviço ou processo produtivo. Ou, ainda, o mobiliário ou conjun- to de utensílios de uma organização. Dessas duas palavras, assim conceituadas, podemos inferir que adminis- tração de materiais implica gerenciar os recursos à disposição de uma deter- minada organização para atingir os objetivos estabelecidos. Porém, não são todos os recursos apresentados na figura 1 que são objeto do gerenciamen- to pela área de atuação da administração de materiais. Apenas os recursos materiais propriamente ditos e os relacionados com o patrimônio é que são objetos de preocupação da área de materiais. Inicialmente, podemos definir a administração de materiais como sendo o conjunto de regras, ou normas, que visam ordenar os processos organizacio- nais relacionados com os materiais à disposição da organização, com produti- vidade e eficiência, de forma a atingir objetivos preestabelecidos. Segundo diferentes autores, existem formas diversas de se conceituar a administração de materiais. Segundo Arnold (1999, p. 26), a administração de materiais é a função “responsável pelo fluxo de materiais a partir do forne- cedor, passando pela produção até o consumidor” ou, ainda, “planejamento e controle da distribuição e administração da logística”. Para Martins e Alt (2000, p. 5), [...] a administração dos recursos materiais engloba a sequência de operações que tem seu início na identificação do fornecedor, na compra do bem, em seu recebimento, transporte interno e acondicionamento, em seu transporte durante o processo produtivo, em sua armazenagem como produto acabado e, finalmente, em sua distribuição ao consumidor final. 18 Administração de materiais Para Arnold (1999, p. 26) “administração de materiais é uma função coor- denadora responsável pelo planejamento e controle do fluxo de materiais”. Por outro lado, Francischini e Gurgel (2002, p. 5) definem a administra- ção de materiais como a “atividade que planeja, executa e controla, nas con- dições mais eficientes e econômicas, o fluxo de material, partindo das es- pecificações dos artigos a comprar até a entrega do produto terminado ao cliente”. Outra definição útil é a do Council of Supply Chain Management Professio- nals (CSCMP), ou Conselho dos Profissionais de Administração das Cadeias de Suprimentos, que definem a administração de materiais como sendo “a logística de entrada de materiais, desde os fornecedores até o processo pro- dutivo”. Ou, ainda, a movimentação e a administração de materiais e produ- tos acabados desde a obtenção (compra), até o processo de produção2. Nos três primeiros conceitos apresentados, temos em comum a existência de um “fluxo” de materiais desde o fornecedor, atravessando a organização, até chegar ao cliente final. Apenas para o CSCMP é que o fluxo se encerra no processo produtivo. Além disso, também está implícita no conceito a existên- cia de uma “quantidade” de materiais em movimentação. Como fluxo se rela- ciona com tempo, isso significa que temos duas variáveis essenciais a serem consideradas nos conceitos apresentados: (1) quantidade; e (2) tempo. Essas duas variáveis (quantidade e tempo) serão sempre objetos de preo- cupação da administração de materiais. Importante esclarecer, também, que o objeto de preocupação da administração de materiais, sua razão de ser, deve estar focada em: utilizar da maneira mais racional possível os recursos da organização � (maximizando-os); e apresentar um nível de serviço em consonância com o desejado pelo � cliente. Isso significa que a administração de materiais deve preocupar-se em ge- renciar adequadamente os fluxos de materiais ao longo dos processos, de forma a garantir sua melhor utilização e, ao mesmo tempo, oferecendo o mais alto nível de serviços possível aos clientes. Na evolução dos conceitos como consequência da evolução da admi- nistração, como se verá no próximo tópico, o que existiam eram termos 2 No original em inglês: Materials Management - Inbound logistics from suppliers through the pro- duction process. The mo- vement and management of materials and products from procurement through production. Administração de materiais 19 diferentes com significados semelhantes. Ou seja, tratava-se de atividades relacionadas com o deslocamento de materiais e um fluxo de informações, desde uma fonte de matéria-prima até o cliente final. Ao longo do tempo, a evolução natural conduziu ao conceito mais amplo de logística, que vem ocupando espaço nas organizações, conquistando respeito profissional e in- fluindo na estratégia das organizações. Finalmente, podemos conceituar a administração demateriais como sendo o conjunto de regras, ou normas, que visam adequar os processos orga- nizacionais aos fluxos de materiais à disposição da organização, garantindo sua maximização, para atingir os objetivos organizacionais e os de satisfação do cliente em termos de nível de serviço. Ao longo do texto, utilizaremos indistintamente as expressões adminis- tração de materiais, suprimentos, gestão de suprimentos ou logística de su- primentos, com o mesmo significado acima exposto. Uma vez que sabemos conceitualmente o que é administração de mate- riais, podemos analisar sua evolução ao longo do tempo e como as organi- zações evoluíram sob essa perspectiva. Evolução das organizações e da administração de materiais Para se compreender como as organizações evoluíram, e com elas a admi- nistração de materiais, é necessário entender o ambiente no qual as organi- zações se inserem, ou seja, o cenário (“pano de fundo”) em que elas precisam competir. Para isso, efetuamos um corte temporal a partir da II Grande Guerra Mundial (IIGGM), iniciando com a década de 1950 para explicar esse ambiente e suas consequências para as organizações. Uma vez que, segundo Corrêa e Corrêa (2004, p. 34-35): A guerra praticamente ocorreu sobre a Europa e o Japão. Numa situação de guerra, os envolvidos não apenas visam a objetivos militares, mas também industriais de seus inimigos, de onde saem equipamentos e suprimentos. Isso significa que ao final da IIGGM a capacidade produtiva mundial encontrava-se severamente deprimida. Ao mesmo tempo, a capacidade de demanda, reprimida por muitos anos durante a guerra, estava vivendo um período de “bolha de consumo”. No início da década de 1950, o mundo vivia ainda as consequências do pós-guerra, em que as indústrias estavam focadas em atender às demandas de um mundo em reconstrução, um mercado francamente comprador, exi- 20 Administração de materiais gindo grandes volumes de produção para atender a duas necessidades bási- cas: redução de custos operacionais; satisfazer clientes ávidos por novidades. Quando as empresas precisam competir através de grandes volumes, para reduzir seus custos operacionais, a administração de materiais deve estar focada no gerenciamento de seus inventários. Na década de 1960, com o mundo reconstruído e clientes atendidos em suas necessidades, em termos de produtos básicos, surgem os grandes su- permercados, sobretudo nos Estados Unidos da América, e com as empresas necessitando realizar grandes esforços para concretizar vendas, passa a ser imperioso agregar valor aos produtos através da adição de serviços. Nesse cenário, o marketing ocupa o espaço central das preocupações organizacio- nais e a ênfase da administração de materiais passa a ser a distribuição dos produtos. Já na década de 1970 o mundo assiste ao fenômeno da “invasão” de pro- dutos japoneses, sem compreender muito bem o que acontecia. O início da década teve a primeira grande crise do petróleo (1973), quando o barril de petróleo chegou à casa dos U$30.00, fazendo com que os países produtores auferissem grandes ganhos com suas exportações e, como consequência, buscassem aplicações para seus recursos financeiros. Isso gerou uma enorme onda de investimentos de capitais, levando as organizações a focarem na lu- cratividade, uma vez que precisavam remunerar adequadamente os capitais investidos. Nesse caso, a administração de materiais teve que se concentrar nos processos produtivos para garantir eficiência operacional. Na década seguinte, 1980, em virtude da conquista de mercado pelos japoneses, as organizações, compreendendo que o sustentáculo das in- dústrias japonesas era o fenômeno da gestão da qualidade, investiram em programas de qualidade e fizeram com que o cenário passasse a represen- tar uma competição mundial extremamente acirrada, em que conquistava clientes aquela organização com produtos com qualidade, preços competi- tivos e entregas pontuais. Isso conduziu a administração de materiais a ge- renciar os fluxos de materiais (matérias-primas) tanto nas compras, quanto na produção, como nas vendas, de forma a assegurar a qualidade desde o início até o final do processo. Na década de 1990, como reflexo do processo evolutivo, as empresas se tornam globais, ou seja, passam a atuar em diferentes pontos do globo ter- restre e, para isso, estabelecem parcerias com seus fornecedores e/ou distri- Administração de materiais 21 buidores, para garantir que seus produtos cheguem antes que os do con- corrente aos clientes. Também ganha força a preocupação com as questões ecológicas, levando as organizações a cuidarem com a compra de materiais ecologicamente corretos e com produtos idem. Isso conduz a administração de materiais a novas técnicas de gerenciamento, uma vez que era necessá- rio ajustar os processos internos aos processos dos seus fornecedores e/ou clientes, fazendo com que o foco passasse a ser nos processos gerenciais. Ao iniciar o século XXI, na década de 2000, o fenômeno da globalização ganha ainda mais força e a adição de inúmeros novos competidores globais (suportados, inclusive, pelas facilidades da tecnologia da informação dispo- nível), ao invés de parcerias, as empresas começam a estabelecer alianças tanto com fornecedores quanto com clientes, as preocupações com as ques- tões ecológicas evoluem ainda mais (observe as exigências de certificação ambiental para inúmeras empresas) e ganha espaço a preocupação com as questões sociais. A esse cenário, a administração de materiais é obrigada a responder com ações flexíveis e extremamente ágeis, uma vez que as organizações com- petem com velocidade cada vez maior e, por outro lado, atuando em um número maior de países. Além disso, o surgimento do comércio eletrônico também exige maior atenção às questões espaço-temporais. Um resumo do processo evolutivo aqui descrito encontra-se no quadro a seguir. Quadro 1 – Quadro evolutivo da administração de materiais Época Cenário de negócios Ênfase organizacional Ênfase de materiais (R O D RI G U EZ , 2 00 4. A da p ta do .) Anos 1950 Volume de produção Foco nos custos opera-cionais Foco no inventário Anos 1960 Vendas Agregação de valor atra-vés de serviços Foco na distribuição Anos 1970 Investimento de capitais Foco na lucratividade Foco na produção Anos 1980 Competição acirrada Foco na gestão da quali-dade total Foco em compras – pro- dução – vendas Anos 1990 Globalização, parcerias, ecologia Competição baseada no tempo Foco nos processos gerenciais Anos 2000 Globalização, alianças, ecologia e responsabili- dade social Competição baseada no tempo e no espaço geográfico Foco na flexibilidade e na agilidade 22 Administração de materiais O quadro mostra como as organizações evoluíram e de que forma as exi- gências sobre os sistemas gerenciais foram se ampliando. Na verdade, as exi- gências em cada um dos cenários de negócios continuam sendo feitas sobre os sistemas gerenciais. Tudo isso fez com que a administração de materiais fosse ganhando cada vez mais relevância para as organizações. A administração de materiais, com o apoio das Tecnologias da Informa- ção e de Comunicação (TICs), tem atuado de forma integrada na gestão do fluxo de materiais através dos processos produtivos. Assim, os sistemas inte- grados de gestão empresarial (ERPs) são os responsáveis por assegurar que a administração de materiais consiga cumprir os objetivos organizacionais com eficiência e eficácia. A partir dessa evolução, e da inclusão da área dentro do sistema logís- tico, a expressão mais utilizada para designar a área de materiais é gestão de suprimentos que, segundo Arnold (1999, p. 30), “inclui todas as atividades em movimentar bens, do fornecedor para o início do processo produtivo” e, incluindo-se a distribuição física, do final do processo produtivo até o cliente final (consumidor3). Importância da administração de materiais Diante do processo evolutivo por que passou, a administração de mate- riaisassume importância essencial para as organizações ao ter que realizar o equilíbrio entre o nível de serviços a ser oferecido aos clientes e o custo de fornecer tal nível de serviços. Ainda segundo Arnold (1999, p. 31), [...] agrupando-se todas as atividades envolvidas na movimentação e estocagem de bens em um departamento, a empresa tem uma oportunidade melhor de fornecer o melhor serviço a um custo mínimo e assim aumentar lucros. A preocupação geral da administração de materiais é balancear prioridade e capacidade. O mercado estabelece a demanda. A administração de materiais deve planejar as prioridades da empresa (quais bens produzir e quando) para atender a essa demanda. A capacidade é a habilidade do sistema de produzir ou entregar bens. Prioridade e capacidade devem ser planejados e controlados para atender à demanda de consumidores a um custo mínimo. Como é possível perceber, trata-se de um desafio enorme e, para tanto, é necessário compreender o fluxo, apresentado na figura a seguir, que começa nos fornecedores, atravessa a organização, passa pelos canais de distribui- ção, até chegar aos clientes finais. 3 Usamos a expressão clien- te, de forma abrangente, para incluir todos os elos da chamada cadeia de su- primentos: atacadistas, dis- tribuidores, varejistas etc., e não apenas o consumidor ou usuário final. Administração de materiais 23 Figura 3 – O fluxo de materiais. Fornecedor ClientesSuprimentos Distribuição Física Processo Produtivo MP Transformação (WIPs) PA A gestão de suprimentos é a gestão de um fluxo de materiais. Legenda: MP = Matéria-prima WIPs = Work in Process ou Progress (Produtos em Processo) PA = Produtos Acabados Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. A gestão desse fluxo de materiais implica uma série de atividades (que compõem processos) que, em última análise, visam assegurar a disponibi- lidade dos materiais certos, na hora certa, no lugar correto, em condições de utilização, por um custo que atenda às expectativas da organização e de seus clientes. A área de materiais é, em essência, uma importante área operacional das organizações, “e paradoxalmente, no nível das unidades de operações pro- priamente dito, a tomada de decisões em muitas empresas ainda não obe- dece a uma consideração mais sistêmica de impactos nos resultados globais da organização” (CORRÊA; CORRÊA, 2004, p. 45). A área de materiais é uma [...] atividade de gerenciamento estratégico de recursos escassos (humanos, tecnológicos, informacionais e outros), de sua interação e dos processos que produzem e entregam produtos e serviços visando atender a necessidades e ou desejos de qualidade, tempo e custo de seus clientes. Além disso, deve também compatibilizar este objetivo com as necessidades de eficiência no uso dos recursos que os objetivos estratégicos da organização requerem. (CORRÊA; CORRÊA, 2004, p. 45) O comentário acima deixa clara a importância estratégica da adminis- tração de materiais para, com um adequado gerenciamento dos recursos escassos, atender aos interesses dos diferentes públicos das organizações, gerando as saídas esperadas por cada um desses públicos, que estão relacio- nadas na figura 1: juros, para os capitais de terceiros; lucros, para os capitais próprios; produtos e/ou serviços, para os clientes; salários, para os empre- gados; marcas e/ou patentes, para a sobrevivência da organização; tributos, para os governos; e, ainda, outras saídas que atendam às necessidades ou desejos de outros públicos específicos. 24 Administração de materiais Em síntese, a importância da administração de materiais se caracteriza por reduzir custos e pela garantia de que os materiais corretos estarão no lugar certo, ao tempo certo e, ainda, que os recursos à disposição da organi- zação serão utilizados da forma mais racional / produtiva possível. Na continuação, vamos apresentar uma breve introdução à logística em- presarial para possibilitar unificar a linguagem que será adotada doravante. Logística e Supply Chain Management (SCM) Vamos estabelecer alguns conceitos iniciais para que seja possível en- tender porque vamos utilizar indistintamente os termos administração de materiais, suprimentos, gestão de suprimentos ou logística de suprimentos, com o mesmo significado. Logística empresarial A chamada logística empresarial é um conceito definido também pelo CSCMP (2008), como sendo a parte do processo da cadeia de suprimentos que planeja, implementa e controla o fluxo e o armazenamento, à jusante e reverso, com eficiência e eficácia, dos bens, serviços e informações rela- cionadas, desde um ponto de origem até o ponto de consumo ou utiliza- ção; com o objetivo de atender às exigências dos clientes e os propósitos da organização. Como é possível perceber, o conceito acima é muito semelhante ao con- ceito de administração de materiais, apresentado há pouco, uma vez que modernamente a administração de materiais tem sido chamada de logística de suprimentos ou, simplesmente, suprimentos. Além disso, o conceito deixa clara a existência de fluxos: de materiais; e de informações. Ou seja, um fluxo físico, que conduz os bens e/ou serviços produzidos em direção ao cliente final (à jusante), ou do cliente final de volta para algum ponto do processo (à montante, a chamada logística reversa). A palavra logística entrou no cotidiano da empresas a partir do momento em que ocorreu a estabilização econômica do Brasil, quando os responsá- Administração de materiais 25 veis pela administração das organizações descobriram que os estoques ele- vados, na maioria das vezes, escondiam os problemas existentes. Assim, a expressão logística empresarial é utilizada para englobar três dos principais subsistemas logísticos: suprimentos, produção e distribuição física, confor- me se percebe na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Logística empresarial Logística de suprimentos + Logística de produção + Logística de distribuição física Figura 4 – A composição da logística empresarial. Além desses três subsistemas existem ainda, pelo menos, mais dois que são relevantes: o de pós-venda e o da logística reversa. Supply Chain Management (SCM) O Supply Chain Management (SCM), ou administração das cadeias de su- primentos, trata de uma abordagem mais estratégica da logística, em que a mesma é percebida como fator de diferenciação para as organizações, a partir da utilização das tecnologias da informação e da comunicação, uma vez que atualmente as organizações necessitam de mais flexibilidade e agilidade no atendimento de seus mercados. Isso obriga as organizações a integrarem seus processos internamente e, ao mesmo tempo, a buscar integrá-los com os de seus fornecedores e/ou clientes, visando reduzir custos e/ou aumentar sua eficiência na satisfação de desejos e necessidades dos clientes. Portanto, o SCM é a integração da organização a partir de uma aborda- gem da logística como elemento diferenciador, buscando integrar o ambien- te interno com o externo para otimizar processos, possibilitando maior valor agregado e todas as etapas da cadeia produtiva. Essa abordagem pode ser percebida na figura a seguir. 26 Administração de materiais Planejamento e controle da produção Suprimentos Logística Ambiente internoDistribuição Ambiente externo (R A ZZ O LI N I F IL H O , 2 00 1a ) Figura 5 – A logística como fator integrador e diferenciador. Os objetivos do SCM são três: redução de custos; adição de valor; e gerar vantagem estratégica para a organização. Segundo Ching (1999, p. 67), o SCM pode ser compreendido como todo esforço realizado nos processos empresa- riais que geram valor ao cliente final, na forma de produtos e serviços. Portanto, segundo o autor, é uma forma de gerenciamento integrado do planejamento e controle do fluxo de mercadorias, informações e recursos, ao longo da cadeia logística. Isso significa que uma das tarefas essenciais da logística é o gerencia-mento de relacionamentos, de forma cooperativa, formando parcerias do tipo ganha-ganha, de forma que todos os membros da cadeia sejam beneficiados. Diante dessas considerações, pode-se definir Supply Chain Management (SCM) como [...] a administração sinérgica dos canais de suprimentos de todos os participantes da cadeia de valor, através da integração de seus processos de negócios, visando sempre agregar valor ao produto final, em cada elo da cadeia, gerando vantagens competitivas sustentáveis ao longo do tempo. (RAZZOLINI FILHO, 2001a) Ampliando seus conhecimentos O papel da administração de materiais na logística (VERLANGIERI*, 2000) Na década de setenta, as empresas não davam muita atenção para as com- pras de matérias-primas e sua administração. Tinham valores relativamente Administração de materiais 27 baixos, considerando todo o processo industrial e, portanto, achavam sem muita importância no contexto geral. Foi nesta época que os compradores ganharam fama de serem corruptí- veis, pois muitos denegriram a imagem da categoria, obtendo ganhos pesso- ais de fornecedores, para facilitar fechamentos, já que havia pouca fiscalização e auditoria no setor. Naquele tempo, os compradores de uma maneira geral não tinham uma formação de nível superior e consequentemente não tinham um salário con- siderado bom. Talvez por isso, muitos ficavam tentados em tirar proveito da situação e obter ganhos extras, devido a terem todo o controle da situação. No final dos anos setenta e começo dos anos oitenta, a situação se modifi- cou. Acabou aquela fase de vamos produzir à vontade, fazer altos estoques e depois deixar para o departamento de vendas se incumbir de desovar tudo. Começava uma crise violenta no Brasil, onde o conceito de logística começou a surgir por aqui, lentamente nas empresas, pois necessitavam ter um diferen- cial da situação vigente. Nesta fase, onde qualquer ganho conseguido com economia dos custos era importante, comprar e administrar os materiais passou a ser tão importan- te como as vendas da empresa. Foi uma época de “limpeza” nos departamentos de compras. Muitos funcio- nários foram dispensados e até o departamento inteiro, em muitas empresas. Começou a se formar uma nova mentalidade em compras, com: profissionais de nível superior; � boa fluência verbal, para argumentar/negociar; � boa apresentação para representar a empresa; � muitos com formação técnica, conforme os materiais comprados; � bom salário, que representava sua importância para a empresa. � Quem assumiu compras nesta fase, verificou que os antigos compradores: abarrotavam os estoques com matérias-primas, para não ter o risco de � faltar material para produção e serem cobrados; 28 Administração de materiais não tinham controles históricos das aquisições (fornecedor, preço, con- � dição de pagto, prazo de entrega etc.); não tinham critérios técnicos para escolha de fornecedores consultados; � não tinham um � follow-up confiável (os fornecedores entregavam com atrasos, com erros de materiais, com quantidades a mais proposital- mente e muitas vezes com preços diferentes do pedido); não havia uma verificação mais apurada e constante do padrão de qua- � lidade dos materiais dos fornecedores. Desta época para os dias atuais, a administração de materiais só evoluiu e passou a ser um elo super importante na cadeia logística, por que: atende ao cliente interno (manufatura); � é responsável pela não interrupção da produção por falta de material; � tem que ter um estoque mínimo, devido ao custo de manutenção de � estoque; tem que adquirir sempre prontamente novas compras, conforme osci- � lação na demanda. Os profissionais desta área são considerados de várias maneiras nas empre- sas, em termos de cargo. Antes todos eram compradores. Depois foram deno- minados analistas de suprimentos, analistas de materiais, compradores, entre outros. Cada empresa designa o cargo, conforme a abrangência da atividade. A administração de materiais, pela sua importância, vai além do papel que executa em uma indústria e ganha o papel principal em vários negócios, entre eles os mercados, os super/hiper mercados e as grandes empresas de varejo, como os mega magazines. Estas empresas que compram para revender põem em prática toda uma ótima administração de materiais, que envolve estudos dos lotes econômicos de compra, lotes ideais de compra, estoque mínimo, estoque regulador, tempo de pedido, tempo de ressuprimento etc. Hoje em dia é muito comum ter vários cursos de aperfeiçoamento pro- fissional nesta área. O profissional de logística, para ser mais valorizado, tem que entender sobre todos os assuntos que dizem respeito a cadeia logística e portanto não pode deixar de entender de administrar materiais. * Marcos Valle Verlangieri é diretor da Vitrine Serviços de Informações S/C Ltda. Administração de materiais 29 Atividades de aplicação 1. Após a leitura do capítulo, com suas palavras, procure conceituar ad- ministração de materiais escrevendo seu conceito em no máximo 5 linhas. 2. Em uma rápida pesquisa, procure identificar e relacionar os principais recursos tecnológicos que as organizações utilizam. Se possível, sepa- rar por organizações industriais, comerciais e de serviços, uma vez que cada uma delas utilizará recursos tecnológicos diferentes. 3. Entende-se por recursos patrimoniais: a) o ativo circulante das organizações. b) o conjunto de bens, direitos e obrigações das organizações. c) o ativo permanente à disposição das organizações. d) o Patrimônio Líquido das organizações. e) a diferença entre bens e direitos menos as obrigações. 4. Podemos entender Supply Chain Management, de forma resumida, como a busca de: a) integração interna dos processos logísticos. b) sinergia dos processos organizacionais internos. c) sinergia entre os processos logísticos da organização. d) integração dos processos de todos os membros da cadeia de su- primentos. e) integrar a logística de suprimentos com produção e distribuição física. 30 Administração de materiais Gabarito 1. A administração de materiais é a área funcional da administração que se responsabiliza por gerenciar o processo de suprir uma organização com os materiais necessários ao seu adequado funcionamento, bem como o gerenciamento do patrimônio à disposição das organizações. 2. Organizações industriais: sistemas CAD/CAM, sistemas de progra- mação da produção, sistemas MRP, sistemas de gerenciamento de armazéns, máquinas e equipamentos de produção, máquinas e equi- pamentos para movimentação de materiais, computadores, equipa- mentos de comunicação, redes etc. Organizações comerciais: sistemas de gerenciamento de armazéns, sistemas de gerenciamento de estoques, sistemas para gerenciamen- to de distribuição, sistemas roterizadores, máquinas e equipamentos para movimentação de materiais, computadores, equipamentos de comunicação, redes etc. Organizações de serviços: computadores, sistemas específicos para gerenciamento de suas atividades principais, sistemas contábeis, de gerenciamento de recursos humanos, equipamentos de comunica- ção, redes etc. 3. C 4. D Administração de materiais 31 32 Administração de materiais O sistema de administração de materiais e patrimônio Os estudos de Ludwig Von Bertalanffy (criador da teoria geral dos siste- mas) permitiram compreender o fato de todas as áreas do conhecimento pos- suírem sistemas e que tais sistemas possuem características, regras e normas (leis), independentemente da área das ciências em que se encontram. Um sistema pode ser entendido como um conjunto de elementos de uma mesma espécie que constituem um corpo (grupamento) intimamen- te relacionado. Ou, ainda, como um conjunto de elementos interagentes, interatuantes, interdependentes e que se inter-relacionam para atingir um objetivo comum. Para nossos objetivos, vamos assumir que um sistema é um conjunto de partes interdependentes, interatuantes e interagentesque, combinadas, atuam sinergicamente sobre entradas produzindo as saídas desejadas. Como todas as demais áreas organizacionais, a administração de mate- riais também funciona como um sistema, com suas funções e processos pró- prios, para garantir o atingimento dos seus objetivos e, com isso, contribuir para que se atinjam os objetivos organizacionais. Neste capítulo vamos ver como o sistema administração de materiais funciona. Funções componentes de um sistema de administração de materiais A administração de materiais implica um conjunto de atividades coorde- nadas, de forma que possibilite ao administrador manter uma sintonia per- feita entre a produção e os setores de apoio, além de possibilitar resultados econômico-financeiros compensadores. Tais atividades coordenadas compreendem desde a previsão do material (em relação ao tipo, quantidade, qualidade etc.), aquisição (compras), ins- peção e recebimento, armazenamento, fornecimento aos setores da produ- ção, acompanhamento das modificações nos estoques, reaprovisionamen- to, controle dos materiais estocados, conservação do material armazenado, 33 34 O sistema de administração de materiais e patrimônio além de inúmeras outras atividades que visam garantir a existência contínua de estoques, organizados de forma a não permitir que ocorram faltas sem onerar excessivamente o investimento total. As funções e as atividades da administração de materiais podem ser sinte- tizadas em quatro subsistemas principais, que compreendem todas as ativi- dades relacionadas no parágrafo anterior, conforme se verá na continuação. Subsistema normalização Esse subsistema tem por finalidade selecionar, padronizar e especificar os materiais, além de classificá-los e codificá-los de forma a garantir a unifor- midade do que entra no processo produtivo para gerar produtos finais que atendam às especificações da produção e, ao mesmo tempo, atendam às exigências de qualidade por parte dos clientes. É o subsistema que responde a questão “o que” comprar, armazenar e distribuir? O subsistema normalização e suas principais atividades são apresentados na figura a seguir. Normalização e padronização de materiais Classificação de materiais Subsistema normalização Figura 1 – O subsistema normalização. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Entende-se por normalização a forma como são organizadas as ativida- des, como se definem as normas e a utilização de regras; bem como a elabo- ração, publicação e disseminação do uso das normas e regras, com o objeti- vo de selecionar, avaliar e certificar os fornecedores da organização. O subsistema normalização tem a responsabilidade de adequar tecnica- mente os materiais que entram nos processos produtivos das organizações, definindo os padrões (tanto em termos técnicos quanto em termos de quali- O sistema de administração de materiais e patrimônio 35 dade), e realizando a catalogação e classificação dos materiais, conforme os sistemas de gestão adotados pela organização. Subsistema controle Tem como responsabilidade a gestão e a valoração dos estoques disponí- veis à organização. Busca responder às questões quando comprar e quanto com- prar? É o subsistema responsável por garantir que as quantidades necessárias estejam disponíveis no lugar e no momento em que sejam necessárias. Assim, é fundamental que as quantidades a serem adquiridas sejam as mais econômicas possíveis, auxiliando no objetivo de minimizar os recursos utilizados. A minimização dos recursos passa, principalmente, pelos financeiros, uma vez que o impacto das compras se reflete imediatamente no fluxo de caixa da organização. O subsistema controle pode ser visto, com suas funções, na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Gestão dos estoques Valoração dos estoques Subsistema controle Figura 2 – O subsistema controle. Garantir que os materiais certos, nas quantidades certas, ao preço mais econômico possível, estejam disponíveis quando e onde são necessários so- mente é possível com um controle apurado sobre os níveis de estoques que devem ser gerenciados pela área de materiais. Subsistema aquisição Também chamado, simplesmente, compras, é o subsistema responsável pelas compras de materiais necessários às operações das organizações e, além disso, também é responsável pela venda (alienação) dos materiais inu- 36 O sistema de administração de materiais e patrimônio tilizáveis ou inservíveis, e mesmo do patrimônio da organização que esteja obsoleto ou já completamente depreciado. O subsistema compras depende fundamentalmente das informações ori- ginadas no subsistema controle, uma vez que é em virtude das informações daquele sistema que se consegue realizar as compras nas condições mais vantajosas possíveis para a organização. O subsistema aquisição, com suas respectivas funções, pode ser visualiza- do na figura que segue. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Aquisição de materiais Alienação de materiais Subsistema aquisição Figura 3 – O subsistema aquisição. A área de compras atua em profunda sintonia com os demais subsistemas, uma vez que, para iniciar o processo de compras, depende das informações (sob a forma de requisições) que recebe do controle. Recebendo as informa- ções do controle busca informações geradas pelo subsistema normalização e que constam na base de dados do cadastro de fornecedores devidamente homologados pela normalização. Então, consulta-se o subsistema armaze- namento para verificar capacidade de estocagem, de forma a assegurar que os materiais comprados possam ser alocados adequada e corretamente no sistema de armazenagem. Após todas essas etapas, emitem-se as ordens de compra aos fornecedo- res que ofertaram as condições mais vantajosas para a aquisição. Subsistema armazenamento É o subsistema responsável pela recepção dos materiais, seu armazena- mento e distribuição. Apresenta as funções de inspeção e controle da qua- O sistema de administração de materiais e patrimônio 37 lidade, o armazenamento propriamente dito, a movimentação interna dos materiais e o seu transporte. Sua representação gráfica encontra-se a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Recebimento, inspeção e controle da qualidade Armazenamento Movimentação e transporte Subsistema armazenamento Figura 4 – O subsistema armazenamento. As atividades desempenhadas no subsistema armazenamento são rele- vantes para que se garanta a qualidade dos materiais que entram nos pro- cessos produtivos. No momento do recebimento, é necessário realizar um controle quantitativo e qualitativo dos materiais que chegam. O controle quantitativo, segundo Francischini e Gurgel (2002, p. 29-30), tem as seguintes atividades: conferência; contagem; canhoto (anotar no recibo a ser entregue ao transportador que o recebimento está sujeito à ins- peção de qualidade, quando o procedimento for demorar); registro (regis- trar a entrada dos documentos para encaminhamento à contabilidade); e documentação. Por outro lado, o controle qualitativo, ainda segundo Francischini e Gurgel (2002, p. 30-31), tem a responsabilidade de averiguar a qualidade do material recebido, assegurando que ele esteja em consonância com as normas técnicas de especificação, ensaio e recebimento dos itens que compõem o produto, a partir das condições contratuais estabelecidas nos pedidos de compras. A movimentação e o transporte também são duas atividades essenciais para o bom funcionamento da administração de materiais. A movimentação refere-se ao trânsito interno dos materiais, produtos em processo e produtos acabados. Seu adequado gerenciamento visa diminuir os tempos de ciclo entre as diferentes atividades internas e, ainda, assegurar a integridade física dos bens movimentados. 38 O sistema de administração de materiais e patrimônio O transporte refere-se aos elos de ligação externos: dos fornecedores com a administração de materiais, para que os materiais comprados entremno sistema; e, o fluxo de produtos acabados desde a organização em direção aos clientes. Como é possível perceber, os subsistemas são “o coração” da administra- ção de materiais, uma vez que asseguram o bom funcionamento da área. Além disso, os quatro subsistemas interagem completamente entre si, con- forme se percebe na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Figura 5 – O sistema de administração de materiais. Normalização e padronização de materiais Classificação de materiais Subsistema normalização Aquisição de materiais Alienação de materiais Subsistema aquisição Gestão dos estoques Valoração dos estoques Subsistema controle Recebimento, inspeção e controle da qualidade Armazenamento Movimentação e transporte Subsistema armazenamento Para alguns autores, como Francischini e Gurgel (2002), as tarefas da ad- ministração de materiais são, principalmente, administração de compras, planejamento e controle da produção, distribuição e tráfego. Independente da nomenclatura que se dê aos diferentes subsistemas organizacionais, ou às atividades neles desenvolvidas, existe consenso em relação às atividades até aqui descritas. Além disso, como a figura permite perceber, todos os subsistemas obje- tivam coordenar os fluxos (de informação e físicos) de materiais representa- dos pelos estoques, uma vez que o volume a ser estocado é significativo para as organizações, pois envolve desde a entrada de suprimentos (materiais auxiliares e matéria-prima), passando pelos estoques dentro do processo produtivo (produtos em processo), chegando aos produtos acabados, que serão distribuídos aos clientes finais. Essa relação dos estoques ao longo da organização pode ser visualizada na figura a seguir. O sistema de administração de materiais e patrimônio 39 Ed el vi no R az zo lin i Fi lh o. Figura 6 – Visualização dos estoques ao longo do processo produtivo. Recursos de entrada Recursos de saídaE1 Processo produtivo E3 E2 Os recursos de entrada são todas as entradas do processo produtivo, in- cluindo-se as matérias-primas e materiais auxiliares (representados por E1), dentro da produção estão os estoques de produtos em processo (indicados como E2) e, ao final, encontram-se os estoques de produtos acabados (no caso, E3). Os recursos de saída da organização são os produtos acabados que seguem em direção ao cliente final (mercado). Essa visão dos fluxos de ma- teriais permite concluir que a administração de materiais e de patrimônio não pode ser tratada de maneira isolada e está profundamente integrada às seguintes áreas da administração: Orçamentos; � Pesquisa e Desenvolvimento (P & D); � Planejamento e Controle da Produção (PCP); � Planejamento da Distribuição; � Logística; � Produção; � Administração de Ativos Fixos (Permanentes), ou seja, Contabilidade. � Outro ponto importante a ser considerado são os impactos na socieda- de, pois as preocupações com a responsabilidade social e a ecologia devem iniciar a partir do momento em que a organização inicia seus processos de aquisição, desenvolvendo fornecedores também responsáveis social e eco- logicamente, e encerra-se na destinação final dos resíduos gerados pelos produtos que a organização coloca no mercado. Atividades da administração de materiais As principais atividades desenvolvidas pela administração de materiais são aquelas relacionadas dentro de cada um dos subsistemas já apresenta- dos, e podem ser assim relacionadas: 40 O sistema de administração de materiais e patrimônio normalizar e padronizar os materiais; � catalogar e classificar os materiais; � gerenciar e valorar os estoques; � adquirir (comprar) materiais; � fazer o acompanhamento ( � follow-up) das aquisições; alienar materiais obsoletos ou inservíveis; � receber e inspecionar os materiais; � controlar a qualidade dos materiais; � movimentar internamente os materiais; � transportar os materiais e produtos acabados; � realizar o armazenamento dos materiais e produtos acabados; � etc. � Todas essas atividades têm como principal objetivo conseguir economia dos materiais no processo produtivo. Isso significa que é essencial uma boa atividade de planejamento para a realização dessas atividades. Isso significa que o estabelecimento das normas e regras que condicionam os materiais a serem entregues pelos fornecedores é a primeira etapa de um pro- cesso com o objetivo de garantir que as especificações sejam claras para todos os envolvidos, desde o início. Outra vantagem da normalização é possibilitar simplificações no projeto do produto e padronização de seus componentes. A catalogação dos materiais auxiliará significativamente para que os usu- ários e clientes internos tenham condições de requisitar os materiais que já estão homologados pelo serviço de normalização e padronização. Além disso, possibilita uma maior abertura no tratamento com os fornecedores e uma negociação sistemática para o aprimoramento do fornecimento. A classificação dos materiais permitirá que o gerenciamento e a valoração dos estoques e dos sistemas de armazenagem sejam facilitados pela utiliza- ção de modernas técnicas de gerenciamento e, inclusive, da informatização dos sistemas gerenciais. A partir disso, o processo de aquisição também fica facilitado, uma vez que se sabe claramente o que deve ser comprado para O sistema de administração de materiais e patrimônio 41 atender às especificações de cada cliente ou usuário. Quando a atividade está bem estruturada, as aquisições são realizadas com maior eficiência, ge- rando o abastecimento dos processos com pontualidade, condições finan- ceiras adequadas (leia-se preços ou custos) e qualidade. A aquisição de materiais é abordada pelas organizações numa visão sim- ples e objetiva através dos seus departamentos de compras (em algumas organizações a denominação pode ser diretoria, divisão, setor ou seção de compras). Também pode ser denominada de departamento de suprimentos (sobretudo naquelas organizações onde existe uma área específica denomi- nada logística). Mesmo nas micro e pequenas organizações a atividade de compras está presente, sendo realizada pelo próprio dono. A atividade de administração do patrimônio é responsável pela aliena- ção (venda) dos materiais obsoletos (que ficam defasados pelo tempo, por qualquer razão) ou inservíveis (que não apresentam mais condições de utili- zação). Caso não consiga alienar (vender) tais materiais, essa atividade tem a responsabilidade de recomendar a baixa contábil de tais materiais para que deixem de aparecer nos demonstrativos contábeis, oferecendo uma análise irreal dos recursos à disposição da organização. Outra atividade importante é a realização da manutenção dos materiais, equipamentos, máquinas, facili- dades etc., que são utilizados para o funcionamento das organizações. A recepção e inspeção dos materiais adquiridos implicam um recebimen- to bem informado, com o suporte das atividades de normalização, padroni- zação, catalogação e classificação, para somente receber o material adequa- do para organização. O controle da qualidade dos materiais visa assegurar que os materiais sejam aqueles mais adequados aos processos produtivos e, além disso, im- plica uma atenção especial para identificar desperdícios mínimos, mas repe- titivos, que podem comprometer os resultados da organização. A atividade de movimentação interna é essencial para garantir a inte- gridade física dos materiais e, ainda, para evitar desperdícios e reduzir os tempos de ciclo (lead times) dos processos internos, uma vez que o tempo também é um recurso escasso que deve ser objeto de preocupação de todas as áreas organizacionais. A movimentação implica a utilização de equipa- mentos (empilhadeiras, transelevadores, carrinhos manuais etc.), e recursos de apoio (paletes, caixas etc.), que também devem ser motivo de preocupa- ção da administração de materiais. 42 O sistema de administração de materiaise patrimônio O transporte também é uma das atividades importantes, pois ocorre em duas fases do processo: no transporte dos fornecedores para a organização (por ocasião das aquisições), e da organização para os clientes (por ocasião das vendas). Assim, a organização tem duas opções para a atividade de trans- porte: transporte próprio ou transporte terceirizado. Quando a organização opta por realizar o transporte com seus próprios equipamentos (veículos), tais recursos devem ser gerenciados pela adminis- tração do patrimônio, uma vez que representam investimentos em ativos permanentes e a preocupação com os custos é uma das mais importantes no gerenciamento de tais recursos. Porém, o nível de serviço oferecido aos clientes pode ser elevado a partir dessa estratégia. Caso a organização opte por terceirizar o transporte, a gestão dos fretes é essencial para garantir que os custos operacionais da atividade sejam os mais baixos possíveis e, além disso, a preocupação com o nível de serviço oferecido implica sistemas de avaliação de desempenho dos operadores de transporte (transportadores) para garantir que os clientes tenham suas necessidades ou expectativas atendidas. Ou seja, qualquer que seja a estra- tégia da organização, é necessário criar um sistema de transportes o mais econômico possível. Quanto à armazenagem, é necessário que a atividade encontre o suporte mais adequado possível, em termos de recursos (equipamentos, estruturas etc.) e de sistemas (tecnologias, software etc.). Trata-se da atividade respon- sável por guardar os materiais ou produtos acabados pelo tempo que seja necessário para atender às demandas dos clientes (internos e externos), no momento em que elas ocorram. Por fim, existem algumas outras atividades que se incorporam à adminis- tração de materiais na atualidade, principalmente aquelas relacionadas com a chamada logística reversa, como: planejar o sistema de forma a simplificar ou facilitar a reciclagem de todos os materiais, seletiva e proveitosamente; controlar eventuais perdas nas embalagens de produtos acabados e plane- jar a reutilização de embalagens sempre que possível; planejar e implemen- tar a utilização de novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), ainda não utilizadas na área; entre outras. Como é possível perceber, são inúmeras as atividades que a administra- ção de materiais tem sob sua responsabilidade, caracterizando-se como uma das áreas-chave para o sucesso organizacional. O sistema de administração de materiais e patrimônio 43 Os estoques e a área de materiais Duas das principais atividades da administração de materiais dizem respeito à aquisição (compras) de materiais e o seu armazenamento. Essas atividades são exercidas diretamente sobre os estoques. Portanto, vamos discorrer sobre os estoques, sua importância e seu papel para o sistema de administração de materiais. Conforme indicado na figura 6, os três tipos prin- cipais de estoques são os de matérias-primas, produtos em processo e pro- dutos acabados. Porém, não os únicos, conforme veremos na continuação. Os estoques podem ser definidos como os materiais (bens) mantidos por uma organização para abastecer o processo produtivo ou para atender os clientes (através das vendas). Assim, todas as organizações necessitam de estoques para manter-se em funcionamento. Além disso, como já comenta- mos, os estoques representam parte significativa dos ativos totais (algo em torno de trinta por cento) e, com isso, consomem elevados volumes de re- cursos financeiros para sua manutenção. Segundo Arnold (1999, p. 265), os estoques variam de 20% e 60% dos ativos totais e, na medida em que são utilizados, o seu valor é transformado em dinheiro, melhorando o fluxo de caixa e o retorno sobre o investimento realizado. Como existem custos para manter estoques, esses custos exercem impacto sobre os custos operacionais, diminuindo as margens de lucro. Por- tanto, uma boa administração dos estoques à disposição das organizações é de fundamental importância. Podemos classificar os estoques em uma organização, segundo Arnold (1999, p. 267), em: Matérias-primas � – são os bens ainda não disponibilizados aos proces- sos produtivos, incluindo materiais, subconjuntos e peças componen- tes que se agregam ao produto final. Materiais auxiliares � – são os itens que não se agregam aos produtos acabados. Porém, são necessários de alguma forma no processo, como as embalagens. Produtos em processo � 1 – também chamados de produtos em elabo- ração, são aqueles materiais que já entraram no processo de transfor- mação e estão sendo processados ou aguardam para entrar no proces- so, mas que já saíram do estoque de matérias-primas. 1 Do inglês WIP: Work In Process (ou Progress). 44 O sistema de administração de materiais e patrimônio Produtos acabados � – são aqueles bens que passaram pelo processo produtivo e estão prontos para serem vendidos, como itens comple- tos. Podem ficar armazenados na fábrica ou num centro de distribui- ção, ou em vários pontos dispersos no sistema de distribuição. Suprimentos de manutenção, reparo e operações (MRO) � – como o nome indica, são os itens utilizados no processo produtivo, mas que não se agregam ao produto acabado. Incluem lubrificantes, peças sobressa- lentes, ferramentas manuais, gabaritos, materiais de limpeza etc. Estoques de distribuição � – são os produtos acabados que estão lo- calizados (posicionados) no sistema de distribuição, o mais próximo possível dos mercados da organização. São diferentes as formas de se classificar os estoques dentro de uma organi- zação, pelo seu valor, pela sua importância para o processo etc. Uma das formas mais frequentemente utilizadas é a que se relaciona com o fluxo de materiais, conforme indicado na figura 6 e a seguir, representamos de outra forma. Figura 7 – Os estoques e o fluxo de materiais. (A RN O LD , 1 99 9, p . 2 67 . A da p ta do .) Demanda clientes Mercado A Demanda clientes Mercado B Demanda clientes Mercado N Produtos em Processo Suprimentos MRO Matérias-primas Materiais auxiliares Produtos acabados Fornecedor A Fornecedor B Fornecedor N Depósito A Depósito B Depósito N A forma como um bem será classificado como um item de estoque es- pecífico depende do ambiente produtivo em que se encontra. Uma bateria, por exemplo, é um produto acabado para o seu fabricante, mas é um com- ponente (matéria-prima) para uma montadora de automóveis. O sistema de administração de materiais e patrimônio 45 Classificação dos estoques pelas suas funções Outra forma de se classificar os estoques é pelas funções que desempe- nham no sistema de administração de materiais, o que justifica as razões pelas quais se mantêm estoques. Assim, os estoques podem ser: Estoques de antecipação � – são mantidos para antecipar-se às de- mandas futuras, como promoções de vendas, épocas de sazonalida- de (natal, dia das mães etc.), férias coletivas, ou ameaças de greves. O objetivo é ajudar no nivelamento da produção (que tem capacidade sempre limitada) e na redução dos custos de mudança nos níveis de produção. Estoque de ciclo � – são os estoques necessários para o atendimento a um ciclo normal de operações, que pode ser definido em dias, semanas, quinzenas ou meses, conforme a visão de cada organização. São aque- las quantidades mantidas em estoque para garantir um determinado ciclo produtivo. Também chamados de estoque de tamanho do lote. Estoques em trânsito � – são aquelas quantidades de materiais que não se encontram nem na origem nem no destino final. Pode ser con- siderado parte do estoque cíclico. Sua existência é resultado do tempo necessário para transportar os materiais de um ponto a outro. Estoque de segurança � – trata-se daquela parcela de materiais que são mantidos como excedentes do estoque cíclico, devido à incerteza da demanda ou do prazo de entrega. É a quantidade que garantirá o consumo ou as vendas, em caso de atrasos de fornecedorese ou pro- dução, aumento do consumo ou das vendas. É mantido para proteger a organização dessas possibilidades. Também chamado de estoque de flutuação, de armazenamento intermediário, ou estoque reserva. O estoque de segurança determina que o estoque médio seja igual à metade do pedido mais o estoque de segurança. Estoque especulativo � – São estoques mantidos por outras razões que não a de satisfazer a demanda. Por exemplo, para antecipar um au- mento de preço ou falta de matéria-prima. Estoque parado � – são os estoques sobre os quais não houve deman- da por um determinado período de tempo; pode estar obsoleto ou não ter tido saída em um depósito particular. 46 O sistema de administração de materiais e patrimônio Segundo Arnold (1999, p. 270), existem também os estoques hedge e os estoques de suprimentos MRO. Estoque � hedge – para produtos considerados commodities, por exem- plo, grãos, produtos animais e minérios que são comercializados no mercado mundial têm seus preços flutuando em função da oferta e demanda mundiais. Caso os compradores prevejam que os preços irão subir, podem fazer estoques hedge (de segurança contra oscilações nos preços) quando os preços ainda estão baixos. Estoques de suprimentos MRO � – são os itens de manutenção, reparo e operações, utilizados para oferecer o suporte necessário às opera- ções e atividades de manutenção. Funções dos estoques Quando falamos que os estoques formam um “fluxo” ao longo das ca- deias de suprimentos, definimos aí a principal função dos estoques: regular os fluxos de materiais existentes ao longo da cadeia de suprimentos. Ocorre que os fluxos não são simultâneos e nem ocorrem nos mesmos volumes ao longo das cadeias. Assim, a principal função dos estoques nas cadeias de su- primentos é regular os fluxos de materiais, uma vez que os fluxos de entrada e saída de materiais funcionam de forma irregular. Ou seja, a velocidade com que os materiais são recebidos não é necessariamente igual à velocidade com que vão para o processo produtivo ou como produtos acabados em direção aos clientes, conforme a figura a seguir permite perceber, numa ana- logia com uma caixa d’água residencial. (M A RT IN S; A LT , 2 00 0, p . 1 34 . A da p ta do .) V(t) Estoque v(t) Nível de estoque Figura 8 – Entradas e saídas de materiais em um sistema. O sistema de administração de materiais e patrimônio 47 Se considerarmos V(t) como sendo a velocidade de entrada dos materiais no sistema e v(t) como sendo a velocidade de saída, pode-se concluir as se- guintes possibilidades: possibilidade A – V(t) > v(t): ocorre aumento nos estoques; � possibilidade B – V(t) < v(t): ocorre diminuição nos estoques; ou � possibilidade C – V(t) = v(t): os estoques permanecem inalterados. � Para não termos diferenças nos níveis de estoques seria necessário que as velocidades fossem sempre iguais, ou seja, a produção e a demanda aconte- cessem simultaneamente (possibilidade C), o que não existe em termos reais. Diante dessa diferença entre as velocidades, é necessário manter os esto- ques em um determinado nível para regular o fluxo. Outra razão para a manutenção dos estoques diz respeito à criação de utilidade dos materiais, da seguinte forma: Utilidade espacial � – significa ter o material no lugar (espaço) certo e essa utilidade é criada pela atividade de transporte (transportar é des- locar alguma coisa de um ponto A para um ponto B). Utilidade temporal � – significa fazer com que o material esteja dispo- nível no momento (tempo) em que ele é necessário. Essa utilidade é criada pela atividade de armazenagem (armazenar é guardar alguma coisa para utilizar em um momento futuro). Essas são as principais funções para os estoques nas cadeias de suprimentos. Razões para a manutenção de estoques Controlar os estoques pode ser uma atividade essencial para a sobrevi- vência das organizações, sobretudo quando elas atuam com margens de lucro bastante reduzidas, fazendo com que pequenos erros na sua gestão provoquem grandes prejuízos ou, ainda, quando mantêm em estoque ma- teriais de baixo giro, fazendo com que os custos de manutenção de tais esto- ques diminuam a lucratividade. Para garantir que a administração de materiais cumpra seus objetivos, a palavra de ordem é: giro. O giro dos estoques é uma medida empregada para 48 O sistema de administração de materiais e patrimônio verificar a velocidade de giro que se consegue do capital empregado em esto- ques e, ao mesmo tempo, se os estoques são mantidos em níveis baixos. Além das funções dos estoques, existem algumas razões para sua manu- tenção nos sistemas organizacionais. Segundo Ballou (2006, p. 272-273), “são inúmeros os motivos que justificam a presença de estoques em um canal de suprimentos”. Vamos enumerar tais motivos a favor, bem como relacionar algumas razões contrárias à manutenção dos estoques. A primeira razão é melhorar o nível de serviço ao cliente, porque, quando os estoques são posicionados próximos aos clientes, acabam “satisfazendo as altas expectativas destes em matéria de disponibilidade. E dessa dispo- nibilidade muitas vezes acaba resultando não apenas a manutenção como também o aumento do nível das vendas” (BALLOU, 2006, p. 272). Ocorre que os estoques auxiliam a atividade de marketing na venda dos produtos da organização, uma vez que eles podem ser posicionados, nas quantidades demandadas, próximos aos pontos de venda. Com isso, é possí- vel atender os clientes que precisam de disponibilidade imediata ou tempos de reposição mais curtos. A segunda razão para se manter estoques é a redução dos custos; porque, mesmo que os custos de manutenção de estoques cresçam, sua existência acaba diminuindo os custos operacionais em outras atividades do canal de suprimentos de tal modo que pode ser altamente compensador. Ocorre que uma produção com menor oscilação, com maior constância operacional, per- mite manter os recursos humanos envolvidos em níveis estáveis e, ainda, os custos de preparação dos lotes podem ser minimizados. Também se sabe que os custos unitários de produção, para grandes lotes, são menores. Além disso, consegue-se redução nos custos de fretes, uma vez que ao se transportar volu- mes maiores (cargas consolidadas), os preços dos fretes são mais baixos. Por outro lado, as críticas à manutenção de estoques são relacionadas, em primeiro lugar, a questões de ordem financeira, uma vez que os esto- ques seriam um desperdício, pois “absorvem capital que teria utilização mais rentável se destinado a incrementar a produtividade e a competitividade” (BALLOU, 2006, p. 273); isso porque os estoques não agregam valor aos pro- dutos acabados, apesar de armazenarem valor. Outra crítica é que os estoques “escondem” os problemas de qualidade por não permitirem que os mesmos efetivamente apareçam. Além disso, a manutenção de estoques dificulta o planejamento cooperativo do canal de suprimentos. O sistema de administração de materiais e patrimônio 49 Ampliando seus conhecimentos Justificando os estoques (BALLOU, 2006, p. 273. Adaptado.) A fabricação de papel depende de caras máquinas Fourdrinier e outros equipamentos com grande capacidade de produção. Porém, equipamentos como esses exigem que os mesmos sejam mantidos em permanente ativida- de (com a máxima utilização possível). Por outro lado, a demanda de produtos de papel industrial (por exemplo, papel kraft de embalagem, sacolas de várias camadas e produtos de grande volume) não é estável e nem garantida, acontecendo de forma aleatória e, até mesmo, sazonal. Embora grandes pedidos possam ser programados diretamente, a produ- ção de pedidos pequenos é onerosa demais, considerando a necessidade de preparação dos equipamentos que leva até trinta minutos em máquinas cuja operação chega a custar R$7.000,00 por hora. Ou seja, parar a operação de uma máquina como essa durante duas vezes por dia representa custos diários de R$14.000,00 ou R$280.000,00 mensais, seconsiderarmos que a organiza- ção trabalhe vinte dias por mês. Assim, produzir para estoque aqueles itens nos quais os pedidos pequenos acontecem com frequência, e abastecer pedidos pequenos a partir daquele estoque de produtos padronizados, reduz o tempo de preparação, algo que mais do que compensa o custo de manutenção de estoques. A função vital do estoque de segurança, na gestão de compras (SANTÂNGELO, 2008) Muitos gestores de compras/materiais, por falta de informação/conheci- mento, não trabalham com o dimensionamento ideal do estoque de segu- rança. Mas também, não podemos criticar estes profissionais, pois lidar com 50 O sistema de administração de materiais e patrimônio incertezas na demanda, é um DESAFIO CONSTANTE. O Gestor de abasteci- mento não possui “Bola de Cristal” para poder prever em 100% a demanda de determinado bem, pois contingências como: atrasos no ressuprimento de materiais, desvios na previsão de demanda, rendimento da produção abaixo do planejado, fazem parte do cotidiano do gestor de compras. Para lidar com essas incertezas, atuantes em toda cadeia logística, devem ser utilizados estoques de segurança. Entretanto, o grande desafio do com- prador é identificar o perfeito dimensionamento deste estoque. Muitas em- presas determinam de maneira inadequada seus estoques de segurança, pois não se baseiam em medidas precisas das incertezas do processo. Isto ocasiona custos desnecessários que frequentemente não são mensurados. Se por um lado o excesso de estoque de segurança gera custos desnecessários de ma- nutenção de estoques, relativos aos custos financeiro (capital empatado) e de armazenagem, por outro lado o subdimensionamento gera perdas de vendas (por rupturas) ou frequentes backorders (postergação de pedidos), gerando um nível de serviço ao cliente insatisfatório. Assim, a questão principal referente à formação de estoques de segurança é: “qual é o estoque mínimo que irá garantir o nível de serviço ao cliente de- sejado pela empresa?” Os custos de manutenção de estoques e de backorders e/ou vendas perdidas são muitas vezes ignorados por não serem registrados na contabilidade das empresas. Desta maneira é habitual que mesmo gran- des organizações não tenham informações gerenciais referentes ao custo de excesso ou de falta de estoques em um determinado período de operação. É fundamental destacar que a mensuração desses custos é o primeiro passo para avaliar a situação da política de estoques da empresa e justificar ou não um trabalho de revisão. Por desconhecimento da dimensão das incertezas inerentes aos processos, podem ser cometidos erros que se traduzem em custos desnecessários. Um exemplo é a formação de estoques de segurança no feeling, sem qual- quer parametrização. É comum, por exemplo, que o setor comercial de uma empresa coloque uma margem de segurança na previsão de demanda, a fim de não perder vendas, sem se basear em estatísticas ou séries históricas de demandas reais e erros de previsão. O que se tem ao final é um custo exces- O sistema de administração de materiais e patrimônio 51 sivo de manutenção de estoques, decorrente de um superdimensionamento do estoque de segurança. Outro problema comum é a utilização da meta de vendas como previsão de demanda. Se essa meta é frequentemente superes- timada em relação à demanda real/potencial de mercado, ou seja, inclui por si só uma margem de segurança, como consequência os níveis de estoque deverão ficar constantemente acima do mínimo necessário. Tem sido comum também a aplicação de regras simplificadas, não necessariamente embasadas nas características específicas do processo de cada empresa, que utilizam uma porcentagem da demanda no lead time (demanda esperada durante o tempo de ressuprimento), como por exemplo 50%, para a formação do estoque de segurança. Assim, se a companhia tem uma expectativa de vender 100 unida- des de um produto durante o lead time, 50 unidades seriam mantidas a mais em estoque para suportar eventuais variabilidades nessa expectativa inicial. De maneira análoga, algumas empresas dimensionam seus estoques de segurança por número de períodos de demanda, mantendo, por exemplo, “duas semanas em estoque” ou “quatro dias como estoque de segurança”, em geral de maneira empírica, sem fazer uma avaliação razoável de todas as in- certezas. Há também o problema da antecipação de pedidos de ressuprimen- to feita sem maiores cuidados. Ocorrem casos em que o setor de compras de uma empresa, preocupado com eventuais atrasos do fornecedor, passa a pedir com um certo tempo de antecedência, sem se basear em estatísticas de atrasos desse fornecedor. O que ocorre na prática é um aumento do lead time de compra, muitas vezes desnecessário, aumentando o tempo em que o capital fica empatado em estoque. Para saber quais incertezas são relevantes para a definição de políticas de estoque e que custos elas estão gerando para a empresa, é preci- so entender e modelar todo o processo logístico, desde a abertura de requisi- ção de um pedido até o atendimento ao cliente, passando pela produção de produtos acabados e aquisição de matérias-primas. Assim, é possível definir indicadores referentes às incertezas do processo e quantificá-las. É de extrema importância, portanto, a criação de uma base de dados contendo séries his- tóricas desses indicadores que forneçam informações de seu comportamento ao longo do tempo. 52 O sistema de administração de materiais e patrimônio Atividades de aplicação 1. Qual a diferença entre um sistema de normalização e a classificação de materiais? 2. Quais são os principais tipos de estoques encontrados nas organizações? a) Matérias-primas, materiais auxiliares e materiais tecnológicos. b) Matérias-primas, produtos em elaboração e materiais auxiliares. c) Matérias-primas, produtos acabados e produtos em elaboração. d) Matérias-primas, produtos acabados e materiais circulantes. e) Matérias-primas, materiais auxiliares e insumos adicionais. 3. As funções e as atividades da administração de materiais podem ser sintetizadas em quatro subsistemas, sendo: A - Subsistema aquisição B - Subsistema armazenagem C - Subsistema controle D - Subsistema normalização Considerando as finalidades desses subsistemas, assinale A, B, C ou D em cada atividade abaixo. Normalizar e padronizar os materiais. )( Catalogar e classificar os materiais. )( Adquirir (comprar) materiais. )( Fazer o acompanhamento ( )( follow-up) das aquisições. Alienar materiais obsoletos ou inservíveis. )( Movimentar internamente os materiais. )( Transportar os materiais e produtos acabados. )( Realizar o armazenamento dos materiais e produtos acabados. )( Controlar perdas em embalagens. )( O sistema de administração de materiais e patrimônio 53 Gabarito 1. A atividade de classificação de materiais é parte integrante desse sub- sistema, que tem por finalidade selecionar, padronizar e especificar os materiais. Além disso, deve classificar e codificar os materiais para ga- rantir a uniformidade do que entra no processo produtivo. Ou seja, a diferença é que a classificação de materiais é uma parte do sistema de normalização. 2. C 3. D, D, A, A, A, B, B, B, C A administração de materiais nas organizações Cada organização estrutura sua área de materiais conforme sua conveni- ência e modelo gerencial adotado. Atualmente, as estruturas organizacionais tradicionais já não são unanimidade entre os estudiosos da Administração, “as organizações progressivas estão reprojetando seus processos pela criação de organizações modulares, virtuais e sem fronteiras” (SILVA, 2001, p. 486). Porém, independente da forma como se estrutura a área de materiais, o importante é compreender o seu papel nas organizações. Portanto, na con- tinuação se propõe uma estrutura básica, padrão, em que se contemplam as atividades da administração de materiais e, depois, se comenta sobre o papel da administraçãode materiais nas organizações atuais. A organização da área de materiais Quanto à questão do posicionamento da área de gestão de suprimen- tos na estrutura hierárquica da empresa, existem diferentes posições e todas com justificativas válidas. Pela importância e âmbito de atuação, a área de suprimentos deve pos- suir autoridade e autonomia, sobretudo numa visão de logística integrada, em que essa área é responsável por agregar valor aos produtos através da criação de utilidade de tempo (o produto na hora certa) e de lugar (o produ- to no lugar certo). Existem organizações nas quais a área de materiais, sobretudo a ativida- de de aquisição, se subordina à produção, para garantir fluxo contínuo de abastecimento e, de certa forma, “esconder” os problemas de qualidade. Em outras, a área se encontra subordinada ao financeiro, em virtude dos eleva- dos volumes de recursos financeiros consumidos na atividade compras. Porém, qualquer que seja a abordagem da organização em relação à ad- ministração de materiais, o importante é que suas funções sejam claras e bem-definidas para contribuir com o desempenho organizacional. 55 56 A administração de materiais nas organizações O organograma da área de suprimentos Um organograma é a representação gráfica das diferentes funções exis- tentes em uma organização e deve demonstrar a necessária relação hierár- quica e funcional existente entre as diferentes áreas. Diante disso, e dada a devida importância, autoridade e autonomia necessárias à área de supri- mentos, é preciso entender como a mesma se estruturará internamente. Independente de qual será a estrutura adotada, existem algumas ativida- des, ou funções, que são chaves para o bom desempenho da administração de materiais, entre as quais é possível relacionar: análise; � Planejamento e Controle da Produção (PCP); � compras; � recepção; � controle de qualidade; � armazenagem; e � expedição. � Isso pode ser mais bem visualizado na figura a seguir. A área de materiais ocupa-se de atividades importantes para o desempenho dos processos produtivos porque o objetivo central do sistema de materiais deve ser a garantia do fluxo de abastecimento, na hora certa, com o menor custo possí- vel e com a necessária qualidade dos materiais que são introduzidos no sistema. Figura 1 – Modelo de organograma, tradicional, para a área de materiais. Direção Análise PCP Distribuição e tráfego Compras Recepção Controle de qualidade Armazena- gem Expedição Gerência de produção Gerência de materiais Gerência de marketing Gerência de finanças Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. A administração de materiais nas organizações 57 É importante esclarecer que apenas algumas funções administrativas (produção, marketing e finanças) foram incluídas, uma vez que o objetivo é demonstrar apenas a gerência de administração de materiais, com suas diferentes atividades. Como a figura permite perceber, existem oito áreas principais a serem gerenciadas para que os objetivos de redução de custos e maximização dos resultados possam ser atingidos. Na sequência, apresenta-se melhor cada uma dessas áreas. Descrição das funções da área de materiais Cada uma das áreas apresentadas no organograma tem uma gama de funções para que os objetivos da organização possam ser atingidos. O papel da área de materiais é fazer com que essas funções estejam funcionando de forma coordenada para conseguir os resultados desejados e podem ser des- critas, de forma simplificada, da seguinte forma: Análise � – trata-se de uma área essencial, por executar atividades de planejamento e controle, como o cálculo periódico de quantidades de estoques mínimos e máximos, lotes econômicos etc., e o respectivo acompanhamento dessas situações, bem como acompanhar o desen- volvimento das atividades de normalização, padronização, cataloga- ção e classificação dos materiais. Além disso, é uma área essencial para o monitoramento de tendências do ambiente no qual se insere a ativi- dade da administração de materiais. PCP � – planejamento e controle da produção – a atividade de planejar e controlar a produção é essencial para o sucesso da administração de materiais, uma vez que deve garantir que as atividades produtivas ocorram conforme o planejado e, ao mesmo tempo, garantir que os materiais necessários ao processo sejam disponibilizados no momen- to certo. É responsável por estabelecer os planos de produção, a pro- gramação da produção, planejar as necessidades de recursos e contro- lar a execução do processo produtivo. É um setor-chave para o bom desempenho da área, uma vez que estabelece uma interface objetiva com as demais áreas da organização. Compras � – área responsável pelas aquisições de todos os materiais, serviços, equipamentos necessários e/ou os recursos patrimoniais, ao preço mais adequado, para todas as áreas da empresa. Atribuições es- 58 A administração de materiais nas organizações senciais dessa área são a seleção, desenvolvimento, classificação e ava- liação do desempenho de fornecedores, para garantir que os objetivos organizacionais possam ser atingidos com um mínimo de recursos. A atividade de compras é extremamente importante, uma vez que apre- senta interface com a área financeira, pelos impactos gerados no fluxo de caixa, na medida em que os volumes de recursos envolvidos nessa atividade são significativos. Recepção � – área encarregada do recebimento de todos os suprimen- tos adquiridos, tendo sob sua responsabilidade a conferência dos su- primentos (no ato do recebimento) em termos de quantidade, condi- ções acordados no ato do pedido (preço, prazos etc.) e qualidade (em conjunto com o controle de qualidade). Controle de qualidade � – responsável pela inspeção das entregas, incluindo a realização de testes apropriados, sempre que necessário, uma vez que é essencial assegurar-se da conformidade da qualidade, certificando-se de que está de acordo com o encomendado e com as especificações da área solicitante e do fornecedor. Armazenagem � – é a área responsável por guardar os materiais até o momento em que sejam demandados por outra área da organização, e normalmente divide-se em dois ou três tipos diferentes: almoxari- fado de entrada (insumos e matérias-primas), almoxarifado de saída (produtos acabados), e almoxarifados de suprimentos de expediente (de escritório, de higiene e limpeza etc.). Distribuição e tráfego � – às vezes também chamada de expedição, essa área tem responsabilidades mais amplas que a expedição, uma vez que se ocupa em planejar as rotas de distribuição, definir volumes de es- toques a serem disponibilizados nos canais de distribuição, gerenciar o tráfego e os roteiros definidos, entre outras atividades que podem, inclusive, incluir aquelas descritas a seguir, como a de expedição. Expedição � – normalmente subordinada ao almoxarifado, que tem a responsabilidade pela expedição de suprimentos aos setores da pro- dução, a fornecedores externos (para eventuais processamentos/be- neficiamentos ou devoluções), aos clientes e aos demais setores da empresa. Além disso, é responsável pela contratação de serviços de transporte sempre que necessário, tanto para a compra de suprimen- tos como para a entrega de produtos acabados aos clientes. A administração de materiais nas organizações 59 Como é possível perceber, trata-se apenas de uma apresentação concisa das atividades desempenhadas dentro da área de materiais. Além dessas, outras atividades podem ser desempenhadas, conforme a estrutura em cada organização. Porém, o importante é compreender que tais atividades são es- senciais para que a administração de materiais atinja seus objetivos e, além disso, contribua com o atingimento dos objetivos mais amplos da organiza- ção (estratégicos). Localização e abrangência da administração de materiais Em relação à localização da área de administração de materiais, o raciocí- nio é o mesmo aplicado à sua estrutura organizacional, umavez que a abor- dagem gerencial de cada organização é que vai determinar como e onde a área estará localizada na hierarquia organizacional e qual a abrangência que deverá apresentar. É importante, e necessário, compreender as interfaces da administração com as diferentes funções organizacionais para se compreender sua abran- gência. Ocorre que em ambientes extremamente competitivos e com ca- deias produtivas complexas, é necessário compreender que a abrangência da administração de materiais extrapola o microambiente organizacional, interagindo com o meio externo de forma direta, ampla e que exerce impac- tos sobre a administração da organização como um todo. Marketing Tecnologia Finanças Planejamento Recursos Humanos Produção Administração de materiais Figura 2 – Interfaces da área de materiais com as demais funções organizacionais. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. 60 A administração de materiais nas organizações A área de materiais se relaciona com praticamente todas as demais áreas da organização, uma vez que exercerá impacto (ou será impactada) em cada uma delas, de forma sistêmica. Assim, vejamos como essa inter-relação ocorre em cada uma das interfaces. Marketing � – é onde ocorre definição das necessidades do mercado e, assim, a área de materiais deve acompanhar atentamente o planeja- mento do marketing para poder assegurar que os materiais necessá- rios à transformação de matérias-primas em produtos acabados este- jam disponíveis no momento certo. Sem acompanhar as necessidades de produto acabado não é possível determinar com maior precisão as quantidades de matéria-prima, materiais auxiliares e outros materiais que deverão estar sendo enviados para o início do processo produtivo. Ou seja, a função marketing é responsável por “sinalizar” as quantida- des e os momentos em que os materiais deverão ser transformados em produtos. Produção � – é a função que demanda as matérias-primas e os materiais auxiliares que serão transformados em produtos acabados. Além disso, como é responsável pela garantia do processo e dos produtos acaba- dos, sob a lógica da qualidade, exigirá que o sistema de administração de materiais disponibilize os produtos nas quantidades corretas, no tempo correto, com a qualidade desejada ao menor custo total possí- vel. Através da atividade de PCP, a área de materiais organiza o fluxo de abastecimento de matérias-primas e materiais auxiliares para o proces- so produtivo. Assim, a interface das duas áreas é direta e intensa. Finanças � – responsável por suprir os recursos financeiros necessários ao pagamento das aquisições (compras) efetuadas, a área financeira sofre o impacto das aquisições realizadas pela área de materiais sobre o fluxo de caixa da organização. Segundo Martins e Alt (2000, p. 267), “há uma ênfase, cada vez maior, das empresas no fluxo de caixa”. Portanto, as duas áreas devem trabalhar em uníssono para garantir que os compromissos financeiros assumidos possam ser honrados nos prazos acordados entre a organização (através da área de compras) e seus fornecedores. Além disso, o acompanhamento dos custos, através da contabilidade, tam- bém é uma das interfaces entre a área de materiais e finanças. Recursos Humanos (RH) � – responsável por fornecer mão de obra ne- cessária ao funcionamento da área de suprimentos, e às demais fun- ções organizacionais, a função RH (atualmente, chamada de gestão de A administração de materiais nas organizações 61 pessoas) tem a responsabilidade de acompanhar as demandas da fun- ção em termos de pessoas, capacitá-las para o exercício das atividades e, por isso, precisa receber com antecedência as demandas da área de suprimentos. Através do planejamento das necessidades de recursos, a área de suprimentos informa suas necessidades à função recursos humanos que se encarregará de provê-los no tempo certo. Tecnologia � – é a área responsável pelo gerenciamento dos recursos da Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC) que são utiliza- dos no dia a dia das atividades de materiais. A função administração de materiais depende de vários software que são utilizados nas suas operações, como os sistemas de compras, de administração de arma- zéns, de gerenciamento de transportes e outros, além de recursos de comunicação e transferência de dados entre a organização e seus for- necedores, ou entre a organização e os clientes. Assim, a interface da administração de materiais com a área de tecnologia também é gran- de e exige relacionamento estreito entre as duas áreas. Planejamento � – uma das preocupações constantes da administra- ção de materiais deve ser com o futuro da organização. É necessário pensar no que a organização necessitará em termos de instalações, equipamentos, pessoas, recursos financeiros e outras necessidades para manter, ou aprimorar, os serviços executados pela área. Assim, é necessário estabelecer mecanismos de interação permanente com a área de planejamento para garantir que as demandas da área sejam contempladas na atividade de planejamento da organização. Como é possível perceber, as interfaces da área de suprimentos com outras funções administrativas são significativas e exigem um adequado gerenciamento em virtude da abrangência que a função administração de materiais apresenta. Além disso, a interação com o ambiente externo também é significativa, uma vez que a área estabelece relacionamentos com fornecedores, presta- dores de serviços, clientes etc., conforme se percebe na figura a seguir. Ou seja, a área de materiais, como todas as demais em uma organização, atua em dois ambientes, um interno e outro externo. Portanto, as interfaces exis- tentes também acontecem nos dois ambientes. No ambiente interno, as interfaces já foram apresentadas, e comentadas, acima. Em relação ao ambiente externo, é necessário perceber como as orga- 62 A administração de materiais nas organizações nizações interagem com os diferentes “atores” que fazem parte das cadeias produtivas. Uma cadeia produtiva compreende todas as organizações envol- vidas no processo de criação de produtos destinados a clientes finais, desde a matéria-prima, insumos, equipamentos e todos os demais envolvidos no processo, visando satisfazer as necessidades ou desejos de clientes finais. Ou seja, o conceito de cadeia produtiva permite compreender as diferen- tes inter-relações que ocorrem ao longo de cada uma das etapas necessárias para a transformação de matérias-primas e insumos em produtos acabados, permitindo, ainda, perceber que são diversos os agentes intervenientes (“atores”) nesses processos. Daí a necessidade de se compreender a abran- gência externa da administração de materiais. Uma cadeia produtiva sofre a influência de diversos “atores”, tais como: bancos, sindicatos, seguradoras, ONGs, transportadores, governos, entre outros. Portanto, podemos diferenciar a abrangência da administração de mate- riais sob o ponto de vista interno e sob o ponto de vista externo. Sob o ponto de vista interno, o enfoque da administração de materiais deve concentrar-se na eficiência do fluxo interno de materiais. Já sob o ponto de vista externo, tal enfoque se dá na distribuição dos bens. De um lado, concentrando-se na rede de fornecimento e, de outro, nas estratégias de mercado. Ou seja, a visão dos fluxos externos se dá à mon- tante e a jusante. À montante, da rede de fornecimento até a organização e, à jusante, da organização em direção aos seus clientes, permitindo que se observe a interação com vários “atores” das cadeias produtivas. Fornecedores Clientes Serviços públicos Outros “atores” Transporta- dores Instituições financeiras Administração de materiais Figura 3 – Interfaces da área de materiais com os “atores” do meio externo. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. A administração de materiais nas organizações 63 As interfaces com tais “atores” podem ser descritas da seguinte forma: Interface com os fornecedores � –a principal interface da administra- ção de materiais acontece com os fornecedores, que são a origem dos fluxos de materiais à jusante. Além disso, um dos principais papéis da administração de materiais é a seleção, manutenção e avaliação de fornecedores qualificados. Além disso, os fornecedores devem ser in- tegrados ao sistema da organização para garantir que os tempos de ciclo (lead times) sejam os menores possíveis. Os fornecedores devem ser informados de todos os planos de expansão nos volumes da pro- dução para que não se corra o risco de ficar sem matérias-primas para alimentar o processo produtivo. Portanto, o fluxo de informações deve ser alimentado e retroalimentado continuamente por ambas as inter- faces, a organização e os fornecedores. Interface com transportadores � – os transportadores são outro im- portante elemento em um sistema de administração de materiais, uma vez que, reduzindo os tempos de trânsito (transit time), também po- dem contribuir para a redução dos tempos de ciclo (lead times) totais da organização. A área da administração de materiais deve trabalhar em sintonia com seus prestadores de serviços de transporte, de for- ma que as informações sobre as necessidades, atuais e futuras, sejam transmitidas a eles visando garantir espaço de transporte disponível quando necessário à organização. Interface com instituições financeiras � – outro importante fluxo exis- tente nas operações da administração de materiais são os fluxos finan- ceiros (tanto de pagamentos quanto de recebimentos), que exercem impacto sobre o fluxo de caixa das organizações. Assim, um relacio- namento estreito com as instituições financeiras permite que a área gerencie melhor tais fluxos, em sintonia com a função finanças. Se não houver processos integrados entre a organização, seus fornecedores e as instituições financeiras envolvidas, certamente os fluxos de recursos financeiros também demorarão um tempo maior para recompor o cai- xa dos envolvidos. Interface com serviços públicos � – quando se menciona o serviço público, a primeira coisa que nos vem à mente é o chamado “Custo Brasil”. Ocorre que muitos dos serviços públicos são essenciais para a manutenção da necessária infraestrutura que oferece suporte à admi- 64 A administração de materiais nas organizações nistração de materiais, como estradas, portos, aeroportos, armazéns públicos, fiscalização etc. Assim, é tarefa da administração de mate- riais monitorar os serviços públicos para assegurar que os fluxos de materiais, financeiros e de informações aconteçam dentro de padrões de normalidade. Por exemplo, se ocorrer uma greve portuária e a or- ganização depender de matérias-primas (ou qualquer outro material) importadas e estiver sem estoques para poder suportar o período de paralisação, certamente ocorrerão problemas no processo produtivo. Interface com clientes � – os clientes são, ou deveriam ser, a razão da existência da organização. Porém, muitas organizações não dão devi- da importância para o relacionamento que possuem com seus clien- tes. A área de materiais interage com os clientes na medida em que se responsabiliza por “cumprir as promessas do marketing”, visando garantir que os produtos estejam disponíveis aos clientes quando e onde os mesmos desejarem. O principal papel da administração de materiais, na interface com os clientes, ocorre através das atividades de armazenagem e de transporte. Na armazenagem pelo fato de que se disponibilizam as quantidades necessárias de produtos para que es- tejam disponíveis o mais próximo e rapidamente possível aos clientes. Em relação ao transporte, a interface ocorre na medida que a área de materiais se responsabiliza por contratar meios de transporte que ga- rantam o menor tempo de transporte (transit time) possível. Interface com outros “atores” � – além dos já relacionados, existem inúmeros outros agentes que atuam nas cadeias produtivas, com os quais a administração de materiais deve interagir. Pode interagir, por exemplo, com instituições de pesquisa (universidades, institutos etc.) que estudam novos materiais ou novas aplicações para os já existen- tes, novos processos ou qualquer outra pesquisa que possa apresentar aplicação no dia a dia da área. Deve interagir com as organizações que geram novas tecnologias, uma vez que, nos próximos anos, “as em- presas usarão extensivamente modelagem, simulação e sistemas de informação adaptativos e de resposta rápida, tudo isso por meio de processos e equipamentos de última geração” (MARTINS e ALT, 2000, p. 57). Interage com os sindicatos das categorias profissionais dos seus recursos humanos, com organizações não governamentais que se ocupam de questões sociais e ecológicas, por exemplo, entre tantos outros possíveis “atores” que podem interagir com a área. A administração de materiais nas organizações 65 Podem existir, ainda, outras interfaces no processo de administrar os re- cursos materiais e patrimoniais em uma organização. Porém, as interfaces re- lacionadas permitem concluir a abrangência da administração de materiais para as organizações. Papel da administração de materiais nas organizações Compreender que a administração de materiais exerce papel preponde- rante nas organizações é compreender que: A administração de materiais tecnicamente bem aparelhada é, sem dúvida, uma das condições fundamentais para o equilíbrio econômico e financeiro de uma empresa. Tratar adequadamente do abastecimento, do planejamento e do reaproveitamento de materiais contribui para a melhoria do resultado de qualquer organização. (FRANCISCHINI; GURGEL, 2002, p. 2) Ou seja, o papel da administração de materiais é essencial para o suces- so organizacional. Podemos sintetizar esse papel a partir da análise de três pontos principais, conforme segue. Em primeiro lugar, de forma geral, como deve acontecer com todas as demais funções administrativas de uma organização, o papel central é con- tribuir com a estratégia da organização. Nesse aspecto, a área de materiais deve alinhar suas operações à estratégia geral da organização. Por exemplo, se a organização adota uma estratégia competitiva baseada na diferencia- ção, a área de materiais deverá estar atenta a quaisquer oportunidades de oferecer as necessárias inovações que gerem diferenciação aos olhos dos clientes. Por outro lado, se a organização adotar uma estratégia competiti- va visando ser líder em preços, caberá à área de materiais garantir que suas operações apresentem os menores custos totais possíveis para assegurar que a estratégia da organização seja atingida. Ou seja, é necessário que a estratégia da área de suprimentos esteja ali- nhada com a estratégia geral da organização, de modo que os objetivos sejam atingidos, uma vez que, embora uma área sozinha não possa ser res- ponsável pelo sucesso da organização, o fracasso em qualquer área pode significar fracasso da organização como um todo. Chopra e Meindl (2003, p. 27) acreditam que o sucesso ou fracasso de uma organização estão intima- mente relacionados a dois tópicos: 66 A administração de materiais nas organizações 1. A estratégia competitiva e todas as estratégias funcionais devem estar alinhadas para formarem uma estratégia global coordenada. Cada estratégia funcional deve apoiar outras estratégias funcionais e ajudar a empresa a alcançar o objetivo de sua estratégia competitiva. 2. As diferentes funções em uma empresa devem estruturar apropriadamente seus processos e recursos para que possam executar essas estratégias com êxito. Para Bowersox e Closs (2001, p. 23): Do ponto de vista estratégico, os executivos de logística procuram atingir uma qualidade predefinida de serviço ao cliente por meio de uma competência operacional que represente o estado da arte. O desafio é equilibrar as expectativas de serviços e os gastos de modo a alcançar os objetivos do negócio. De acordo com Chopra e Meindl (2003, p. 22), “as decisões da cadeia de suprimento exercemum forte impacto sobre o sucesso ou o fracasso de uma empresa porque influenciam significativamente tanto a receita gerada quanto o custo embutido”. Assim, a área de materiais, seja pelo volume de recursos financeiros movimentados, seja pelos impactos nos processos pro- dutivos, é de vital importância para a estratégia das organizações. Em segundo lugar, a administração de materiais tem como preocupação garantir que os fluxos de materiais aconteçam dentro do planejado. Ainda conforme Chopra e Meindl (2003, p. 22), “cadeias de suprimento bem-suce- didas gerenciam os fluxos de produtos, de informações e monetário para oferecer ao cliente um alto nível de disponibilidade de produtos, mantendo os custos baixos”. Ocorre que os tempos de ciclo de execução das ativida- des em cada uma das áreas, dentro e fora da organização, são diferentes e, com isso, fazem com que exista a necessidade da formação de estoques nas diversas interfaces para garantir uma normalidade de funcionamento dos fluxos físicos (matérias-primas e produtos), de informação e financeiros, com o objetivo de garantir o atendimento de cada uma das fases da cadeia de su- primento no momento em que ocorram as necessidades de materiais. Para Novaes (2001, p. 37), [...] os fluxos associados à logística, envolvendo também a armazenagem de matéria-prima, dos materiais em processamento e dos produtos acabados, percorrem todo o processo, indo desde os fornecedores, passando pela fabricação, seguindo desta ao varejista, para atingir finalmente o consumidor final, o alvo principal de toda a cadeia de suprimento. Portanto, percebe-se a complexidade do gerenciamento dos fluxos, uma vez que seu adequado gerenciamento tem por objetivo final atender às ne- cessidades e/ou expectativas dos clientes finais. Caso os fluxos não sejam bem gerenciados, os problemas surgem rapidamente e, como principais consequências, acontece elevação dos níveis de estoques na cadeia de su- primento e, ao mesmo tempo, uma perda no nível de serviço aos clientes. A administração de materiais nas organizações 67 O impacto da elevação dos níveis de estoques é sentido no fluxo de caixa da organização, uma vez que ocorre excessiva imobilização de recursos finan- ceiros em estoques; a perda no nível de serviço impacta diretamente sobre as vendas, gerando diminuição no volume e, consequentemente, também menor volume de recursos financeiros à disposição da organização. Assim, o fluxo dos materiais também representa um papel extremamente relevante para a administração de materiais e, por extensão, para a organização. Por fim, em terceiro lugar, a administração de materiais deve se preocu- par em equilibrar os tempos de ciclo entre as diferentes etapas do processo produtivo e dos processos logísticos, visando garantir uniformidade do fluxo físico ao longo dos canais de suprimentos e de distribuição. Conforme Ber- taglia (2003, p. 9), atualmente as organizações precisam “reduzir o tempo e o custo ao longo da cadeia de abastecimento a fim de obter uma resposta mais efetiva às necessidades do consumidor”. Existem duas maneiras de se garantir o equilíbrio dos tempos de ciclo: a primeira relaciona-se com a formação de estoques antecipatórios (buffer) em cada uma das interfaces da cadeia de suprimentos; e a segunda implica gerenciar os fluxos de informações para responder rapidamente às deman- das de cada um dos elos da cadeia. Ou seja, uma das formas implica a for- mação dos estoques, o que ocasiona os problemas já comentados. Porém, para determinados tipos de produtos (sobretudo os de consumo de massa), não existe alternativa para se assegurar um nível de serviço elevado, a não ser através da formação de tais estoques que vão equilibrar os diferentes tempos de ciclo existentes ao longo do processo. A outra forma implica que a organização deve possuir um sistema de in- formações (suportado por tecnologia) que permita obter rapidamente (pre- ferencialmente em tempo real), as informações de cada um dos elos subse- quentes da cadeia de suprimentos, de tal sorte que o elo anterior responda rapidamente às demandas que ocorrem permanentemente. Ou seja, a lógica é a da substituição dos estoques físicos por informações que permitam ao processo produtivo somente produzir o que efetivamente é demandado e, como consequência, a administração de matérias alimenta o processo também à medida da demanda. As duas formas de se equilibrar os tempos de ciclo podem ser percebidas na figura 4, onde se apresentam exatamente as duas abordagens: antecipa- ção de estoques X resposta rápida. 68 A administração de materiais nas organizações Trata-se de adotar modelos de gerenciamento de estoques que são di- ferentes na essência, mas iguais nos objetivos: satisfazer rapidamente às exigências ou necessidades dos clientes e, ao mesmo tempo, atender aos objetivos de custos ou maximização de resultados das organizações. ELO 1 ELO 2 ELO “n” Estoque Estoque Abordagem antecipatória: estoques como amortecedores dos tempos de ciclo. Abordagem de resposta: a informação (pedido) “puxando” estoques. ELO 1 ELO 2 ELO “n” Entregas Entregas Pedidos Pedidos Figura 4 – Gestão de estoques por antecipação X gestão por resposta rápida. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Como a figura permite perceber, são dois modelos completamente dis- tintos de gerenciamento dos materiais ao longo de uma cadeia de supri- mentos, ou mesmo do processo dentro de uma organização. Porém, cada um deles encontra aplicabilidade dentro de uma organização e não se pode afirmar categoricamente que um seja superior ao outro. Ampliando seus conhecimentos Uma visão da dupla estratégia Edelvino Razzolini Filho A partir de uma publicação do Boston Consulting Group, de 1968, reve- lou-se que algumas empresas praticavam dois tipos de planejamento: um “planejamento da ação” e, outro, “planejamento para mudança estratégica”. O primeiro tipo referia-se às questões do dia a dia das organizações, sendo A administração de materiais nas organizações 69 muito mais operacional e, portanto, reativo. O segundo preocupava-se com uma visão de futuro da organização e, portanto, pró-ativo. Atualmente, retoma-se, com trinta anos de atraso, essa questão da neces- sidade das empresas trabalharem com o duplo planejamento, pois “a capaci- dade das empresas de ter hoje um desempenho eficaz depende de decisões que foram tomadas no passado; as decisões que tomam hoje de seguir nessa ou naquela direção modelam suas opções no futuro” (ABELL, 1999). O planejamento “da ação”, para hoje, é muito mais reativo porque refere-se às mudanças que são necessárias “para garantir que as atividades funcionais próprias e as dos parceiros da cadeia de suprimentos se harmonizem com a estratégia”(ABELL, 1999). Portanto, trata-se de uma visão de estratégia logís- tica uma vez que, no dia a dia, os envolvidos na gestão da organização não têm tempo de antecipar-se às pressões ambientais, sendo levados a reagirem a tais pressões, no momento em que elas ocorrem, realizando os chamados “reajustes de rota”. Por outro lado, “as escolhas para definição do posicionamento da empresa no futuro têm, inevitavelmente, um escopo mais amplo, uma vez que os mer- cados vão evoluir, os concorrentes farão o melhor que puderem e sua base de competências poderá ser expandida ou modificada” (ABELL, 1999). Essa “visão de futuro” implica logística estratégica porque, assim, as organizações são obri- gadas a serem pró-ativas, antecipando-se às pressões ambientais, fazendo da logística um novo produto a ser oferecido ao ambiente da organização. Podemos exemplificar essa questão com uma situação prática: a definição entre a terceirização de serviços logísticos a um prestador de serviços tradi- cionais integrado ou a contratação de um operador logístico. No caso da con- tratação de um prestador de serviços tradicionais integrado, temos uma visão de estratégia logística, pois as negociações são mais rápidas e ficam num nível operacional,os contratos estabelecidos apresentam duração menor (de seis meses a um ano) e tende a concentrar-se numa única atividade logística (transporte, estoque ou armazenagem) e o objetivo é a redução de custos específicos. No caso da contratação de um operador logístico, encontramos a visão da logística estratégica, uma vez que as negociações para contratos tendem a ser longas e normalmente são efetuadas num nível gerencial mais elevado, o operador oferece múltiplas atividades logísticas de forma integrada (transpor- 70 A administração de materiais nas organizações te, estocagem, armazenagem, desembaraços, processamento de informações etc.), o objetivo é a redução dos custos totais da logística, além de melhoria no nível de serviços e aumentar a flexibilidade, os contratos são de longa duração (acima de 3 anos) e geram dependência entre os parceiros. Uma visão da diferença entre estratégia logística e logística estratégica pode ser encontrada na tabela 1, a seguir, em que se apresentam estratégias logísticas sob diferentes enfoques, e se procura mostrar como a logística es- tratégica atuaria em cada um dos casos, o que permite uma clara diferencia- ção do que se pretende demonstrar. Quadro 1 – Tipologia das estratégias logísticas e logística estratégica Enfoque Estratégia logística Logística estratégica (F A BB E- CO ST ES ; C O LL IN , 1 99 4) Dominação de Custos Redução dos custos logísticos Redução de todos os custos atra- vés da logística Diferenciação Qualidade dos serviços logísticos A logística como fator de dife-renciação Inovação A logística é o suporte para a inovação A logística é a fonte/motor para a inovação Alianças Logística como um meio para alianças A logística como a fonte/motor para as Alianças EX PA N SÃ O Profissão Logística como um suporte para integração Logística como um novo produto Missão Logística como um suporte para expansão Logística ordenada para con- quistar novos clientes Diversificação Uso das sinergias logísticas Diversificar através da logística Atividades de aplicação 1. Relacione algumas razões pelas quais a área de materiais, principalmen- te a função compras, pode estar subordinada à função produção em algumas organizações e, em outras, subordinada à função finanças. A administração de materiais nas organizações 71 2. Construa três organogramas: um para a área de administração de materiais para uma pequena empresa do ramo de comércio de au- topeças; um organograma para a área de administração de materiais para uma média empresa do ramo indústria de produtos químicos e um organograma para a área de administração de materiais para uma grande empresa do ramo hospitalar. 3. Relacione alguns pontos de interface da área da administração de ma- teriais com um instituto de pesquisa de mercado (como o instituto A. C. Nielsen – <www.acnielsen.com.br>). Gabarito 1. Em certas organizações, a função compras pode subordinar-se à fun- ção produção em virtude de que essa área funcional pode querer exercer o controle total pelo processo produtivo, começando pelas compras, inspeções e controle de qualidade. Em outras organizações, pode subordinar-se à área financeira em virtu- de da necessidade de se controlar melhor os gastos da organização em função do impacto que as compras exercem sobre o fluxo de caixa. 2. Autopeças: por se tratar de uma empresa de pequeno porte, a ativida- de de administração de materiais resume-se às compras e pode estar subordinada a uma gerência geral (geralmente o próprio dono) ou ser realizada pelo próprio dono do negócio (o mais comum). Gerência geral Compras Indústria de produtos químicos: no caso de uma empresa de médio porte, a área pode estar subordinada a uma gerência geral e dividir- -se em compras de materiais gerais e compras de matérias-primas, in- cluindo uma área de inspeção e controle. 72 A administração de materiais nas organizações Gerência geral Gerência de materiais Compras de matéria-prima Compras gerais Inspeção e controle Grande empresa do ramo hospitalar: uma grande empresa certamen- te incluirá demais áreas para a administração de materiais, podendo apresentar o seguinte organograma: Direção geral Diretoria de materiais Gerência de armazenagem Gerência de compras Inspeção e controle Compras de matéria-prima Compras de ma- teriais diversos Compras de insumos Controle de estoques Controle de transportes 3. Um instituto de pesquisa deve fornecer informações sobre previsões de mercado (que nortearão as previsões de vendas), perspectivas de interesses de clientes (que nortearão os estoques de produtos acaba- dos), localização de mercados (que definirão estudos de localização de estoques), entre outras áreas de interface. A administração de materiais nas organizações 73 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Introdução Para bem administrar os materiais é necessário que eles estejam correta- mente caracterizados através de um sistema que possibilite identificar, sem equívocos, cada um dos materiais que devem ser administrados. Isso signi- fica possuir uma metodologia que objetive simplificar e organizar todos os processos da administração de materiais. Para que isso ocorra, a administração de materiais deve definir formal- mente um padrão, através do qual todos os materiais devem ser identifica- dos de maneira precisa, através de uma caracterização que siga critérios e padrões que evitem duplicidades de materiais pela falta de uniformidade. Uma vez que os materiais tenham sido identificados, eles podem ser classificados, também, a partir de algum padrão, o que permitirá um melhor controle e, consequentemente, gerenciamento. Identificação de materiais Assim como as pessoas precisam ser identificadas, os materiais também devem apresentar um caráter único dentro de uma organização. Assim, é ne- cessário estabelecer uma forma de identificar os materiais que são utilizados nas organizações para que eles não sejam confundidos em termos de sua utilização, características individuais ou quaisquer outros critérios de geren- ciamento úteis à organização. Geralmente, uma forma de se identificar os materiais é pela sua caracte- rização em termos do uso: matéria-prima, materiais em processo e materiais acabados. O objetivo é apresentar descrições padronizadas, em termos de abreviaturas e unidades de medidas utilizadas para cada um dos materiais. Por exemplo, centímetro = cm, metro = m, quilograma = kg. Ou uma identi- 75 76 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais ficação que envolva o tipo de embalagem: tambor = tb., litro = lt., caixa = cx. e assim sucessivamente. Um exemplo de como seria possível identificar os materiais poderia ser: Tipo de material Unidade Abreviatura da unidade Embalagem Fornecedor Matéria-prima Quilograma kg Sacos Empresa ABC Matéria-prima Metro m Fardos Empresa GHI Matéria-prima Litro lt Tambor Empresa DEF Material em processo Metro m Individual - Material acabado Litro lt Caixa com 12 - A partir de uma identificação simples como a apresentada acima é possí- vel começar um processo de identificação padronizada dos materiais. Porém, é importante considerar que nem todos os materiais precisaram ser identi- ficados, uma vez que isso implica custos e tempo de trabalho para realizar o processo. Isso significa que é necessário categorizar os materiais, como por exem- plo: materiais não cadastrados e materiais cadastrados. Dentro dos materiais cadastrados existirão aqueles que serão de cadastro permanente (porque são comprados / utilizados continuamente na organização) e outros de ca- dastro transitório ou não permanente, uma vez que podem ser adquiridos / utilizados uma única vez ou muito esporadicamente dentro da organização. Dos materiais de cadastro permanente é possível dividi-los em mate- riais estocáveis ou não estocáveis (em virtude do tempo que levam para serem consumidos / utilizadosna organização). Daqueles estocáveis, ainda é possível dividi-los em materiais controlados ou não controlados pela contabilidade. Os materiais que serão cadastrados permanentemente são aqueles que são importantes para a organização e exigem planejamento e gerenciamen- to das compras e administração de materiais. Esses são os materiais de res- ponsabilidade integral e direta da administração de materiais. A identificação de materiais é realizada através de uma padronização. Tal padronização é conhecida como Padrão de Descrição de Materiais (PDM), que possui descrições inequívocas para os materiais. Trata-se de um recurso que visa enriquecer a descrição dos materiais mantidos no cadastro da organiza- Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 77 ção com o objetivo de eliminar a multiplicidade dos itens e, com isso, conferin- do maior rapidez, qualidade e otimizando a administração de materiais. Geralmente, o PDM possibilita que se adote um número ilimitado de ca- racterísticas para cada tipo de material e, além de otimizar os processos de gestão, é importante para um funcionamento adequado dos sistemas lo- gísticos, ao permitir processar grandes volumes de materiais com agilidade, velocidade, produtividade e flexibilidade, ao se racionalizar outros recursos organizacionais (equipamentos, humanos e financeiros). Um PDM é um conjunto de dados padronizados que permitem a identifi- cação de um material. Deve seguir uma estruturação, evitando-se identificar os materiais conforme a vontade do administrador ou do usuário. Tal rigor é necessário para evitar que sejam cadastrados materiais em duplicidade ou a inexistência de um padrão em um processo de ordenamento de itens. A descrição padronizada de materiais apresenta a seguinte estrutura: Nome padronizado + características complementares Onde: Nome padronizado: nome básico + nome modificador Características complementares: características técnicas + características adicionais. O nome básico é a denominação mais elementar que um material pode receber (por exemplo, parafuso, arruela, porca, rolamento ou fusível). O nome básico não deve conter abreviaturas e deve seguir terminologia téc- nica. O nome modificador é um complemento que se usa para diferenciar os materiais que possuam um mesmo nome básico. Por exemplo: parafuso (nome básico), rosca fina ou rosca grossa (nome modificador). Geralmente o modificador é escolhido dentro das seguintes variedades, preferencialmente na sequência sugerida: material; � tipo; � formato; � aplicação. � 78 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Como características complementares entendem-se o conjunto de atribu- tos referentes a aspectos mecânicos, químicos, elétricos, de desempenho e/ ou de forma de apresentação que visam individualizar o nome padronizado. Assim, as características técnicas que identificam os materiais podem ser: material; � tipo; � formato; � aplicações; � dimensões; � segurança. � Em relação às características adicionais, subdividem-se em: caracterís- ticas próprias, outras ou referências. As características próprias podem ser propriedades químicas, composições, cor ou outras características aplicáveis exclusivamente àquele material que se está identificando. Outro aspecto importante em termos de identificação dos materiais diz respeito à forma como se abreviam seus nomes. As abreviaturas também devem ser padronizadas e utilizadas com o objetivo de se diminuir o tama- nho da descrição padronizada, uma vez que isso reduz custos de processa- mento de dados. Tais abreviaturas devem ser definidas de forma a não pre- judicar a precisão e clareza da descrição, uniformizando e padronizando a descrição dos materiais. Como as abreviaturas serão utilizadas por cada organização em particular, é necessário que se crie um glossário próprio da organização para consulta de todas as abreviaturas utilizadas no PDM. No mesmo glossário, é neces- sário incluir também as unidades de medida padronizadas na organização. As unidades de medidas são códigos que indicam a unidade de medida das quantidades adotadas pela área de materiais e que deve ser única para toda a organização. Uma boa identificação garante que o material a ser administrado atende às especificações da organização conforme a necessidade de cada área, com a qualidade desejada. Portanto, quando o material está descrito da forma mais clara e detalhada possível, facilita as atividades da função compras, eco- nomizando tempo e garantindo satisfação do cliente/usuário do material. Pode-se afirmar que uma correta identificação de materiais permite: Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 79 Quadro 1 – Vantagens da identificação de materiais Padronização de materiais e equipamentos utilizados na organização. � Maior ganho de escala nas compras e redução de custos. � Aumento da agilidade dos processos de compras. � Otimização da gestão dos estoques, redução de falhas (materiais ativos � e inativos). A identificação é necessária para que se estabeleça uma forma clara de se caracterizar os materiais dentro da organização, de maneira lógica, através de uma divisão e subdivisão em estruturas, classes, grupos e subgrupos de materiais. A descrição padronizada deve ser organizada a partir de normas brasilei- ras ou internacionais ou, na inexistência de normas, em terminologia utiliza- da pelo mercado fornecedor. Além disso, não se devem utilizar palavras que representem marcas comerciais ou com sentido genérico. Ou seja, não se deve usar, por exemplo, a palavra Omo®, uma vez que o correto seria sabão em pó. Nem tampouco se deve usar a palavra veículo quando se deseja iden- tificar uma camioneta; ou a expressão calçado quando se deseja identificar uma bota de borracha. Uma vez que se tomaram todas as providências necessárias à identifica- ção dos materiais, é necessário definir os procedimentos necessários ao seu cadastramento, de forma a disciplinar as inclusões, alterações e exclusões do cadastro. É possível perceber que a identificação de materiais é um importante ins- trumento que servirá de base para uma correta administração de materiais. Porém, a identificação é parte de um procedimento mais amplo incluído na classificação de materiais. Classificação de materiais O termo classificação de materiais é genérico e abrangente, caracterizan- do a atividade responsável por identificar, codificar e catalogar os materiais de uma organização. Em virtude do elevado número de itens que existem 80 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais em qualquer organização, independente do seu porte, é necessário encon- trar alguma forma de organizar os materiais à sua disposição. Portanto, a classificação dos materiais é um passo fundamental para uma boa adminis- tração de materiais. Para uma boa classificação de materiais é necessário considerar alguns princípios gerais válidos para qualquer tipo de organização, quais sejam: Quadro 2 – Vantagens da classificação de materiais Uniformizar a linguagem na área da administração de suprimentos. � Eliminar a possibilidade de duplicidade de itens em estoque. � Considerar a possibilidade de intercâmbio entre os materiais a serem � gerenciados. Tornar a padronização efetiva, simplificando procedimentos. � Facilitar a troca de serviços e cooperação entre as diferentes áreas da � organização. Facilitar processos de integração entre diferentes elos da cadeia de su- � primentos. Considerar, simultaneamente, necessidades totais de aquisição e/ou � utilização (produção, inspeção, controle de qualidade, controle de in- ventários etc.). Ao se estruturar um sistema de classificação de materiais é necessário pensar nas vantagens resultantes para que ele possa apresentar os benefí- cios esperados e, como consequência, auxiliar a administração de materiais para atingir as metas propostas pela direção da organização.Existem diferentes maneiras de se classificar os materiais dentro das orga- nizações. Cada organização deverá adotar seu critério próprio para atender às suas necessidades de classificar os materiais. Porém, alguns dos critérios para tal classificação podem ser assim relacionados: Pela periculosidade do material � – essa forma de classificação obje- tiva determinar o grau de perigo que o material pode apresentar às pessoas, ao patrimônio da organização, a outros materiais (por incom- Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 81 patibilidade), e qual o risco que apresenta. Como desvantagem, essa classificação não fornece a importância do material. Pela dificuldade de aquisição � – é uma forma que considera a difi- culdade ou facilidade de se adquirir (comprar) o material, agilizando a reposição dos estoques. Pelo valor do consumo � – considera o montante de dinheiro necessá- rio para a aquisição dos materiais, identificando principalmente aque- les que representam maiores investimentos em estoques. Porém, essa forma de classificação não considera a importância operacional dos materiais em estoque. Pela importância operacional � – é a forma de classificação que leva em consideração a importância (necessidade) do material para o funcionamento da organização. Identifica aqueles materiais que são essenciais para o funcionamento dos sistemas organizacionais. Sua desvantagem consiste no fato de que não apresenta uma análise eco- nômica dos materiais, sugerindo que sua utilização deve ser em con- junto com a classificação pelo valor de consumo. Pela perecibilidade do material � – é uma classificação que identifica se o material é perecível ou não, quanto tempo o mesmo pode ficar armazenado, quais as exigências para sua armazenagem etc. Identifica os materiais que exigem cuidados para armazenagem, movimentação e transporte. Pelo mercado fornecedor � – é uma forma de classificação que busca identificar a origem dos materiais em termos dos seus fornecedores, se são locais, estaduais, nacionais ou estrangeiros ou, ainda, simples- mente se são materiais nacionais ou importados. Essa forma de classi- ficação é complementar para os procedimentos de aquisição, uma vez que é auxiliar na elaboração de programas de importação e, ainda, em programas de substituição de importações. Pela possibilidade de fazer ou comprar � – é uma forma de classifica- ção que leva em consideração a capacidade da empresa em produzir o material que necessita, se pode ser recondicionado ou comprado de terceiros. É uma forma de classificação que complementa os procedi- mentos de aquisição, ao facilitar a organização da programação e do planejamento de compras. 82 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Como se percebe, as formas de classificar os materiais são variadas e cabe a cada organização definir qual a melhor forma de estruturar seus sistemas de classificação de materiais. Porém, qualquer que seja o sistema adotado pela organização, é possível perceber que nenhum deles sozinho será sufi- ciente para agilizar os processos operacionais da área de administração de materiais, exigindo sempre a adoção de sistemas de classificação mistos, considerando os diferentes critérios de classificação. Outro aspecto importante da identificação e classificação dos materiais é a necessidade de controle, uma vez que os objetivos de redução de custos e melhoria do nível de serviço aos clientes devem ser sempre perseguidos pela administração de materiais. Controle de materiais A atividade de controlar os materiais existentes em uma organização é das mais relevantes, uma vez que objetiva assegurar que os materiais certos estejam disponíveis no lugar e na hora certa, ao menor custo possível. Existe uma máxima gerencial extremamente importante: “não se consegue geren- ciar o que não se consegue controlar”. Para a administração de materiais isso é essencial, uma vez que tem a obrigação de controlar todos os materiais existentes dentro da organiza- ção. Ou seja, é necessário controlar absolutamente todos os materiais que entram na organização (matérias-primas), o que é utilizado nos processos produtivos (produtos em processo) e, por fim, aquilo que sai em direção aos clientes (produtos acabados). No quadro 2, verificamos que uma das vantagens de se identificar e clas- sificar os materiais é que se pode considerar, ao mesmo tempo, as necessida- des totais de compras e/ou utilização. Isso pode ocorrer tanto para a produ- ção, quanto para o controle de qualidade, o controle dos inventários e outros controles que se façam necessários. Os principais controles de materiais dizem respeito ao (1) controle da pro- dução, para acompanhar os estoques de materiais em processo; (2) controle de estoques de matérias-primas, para planejar e realizar as compras da orga- nização; (3) controle de materiais acabados, para garantir o abastecimento adequado aos clientes; (4) controle da movimentação dos materiais, inter- namente à organização; (5) controle dos materiais em transporte, seja nos Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 83 processos de aquisição ou nos de distribuição, com vistas à garantia do cum- primento de prazos. De todas as formas ou necessidades de controle, a mais importante é o con- trole dos estoques da organização, uma vez que os mesmos representam o “consumo” de grandes volumes de recursos financeiros. É necessário gerenciar e controlar todo o fluxo de informações e de materiais ao longo dos processos produtivos. Isso implica atividades, desde a colocação de pedidos de aquisição, até a entrega dos materiais (produtos acabados) aos clientes da organização, incluindo o planejamento da produção, compras, produção e distribuição. Isso implica que, em alguns casos, o controle envolve atividades de projeto dos pro- dutos e/ou outras atividades decorrentes das demandas do mercado. Controle realizado nos almoxarifados Os controles de estoques são um dos principais tipos de controle reali- zados pela administração de materiais. Na sequência, abordam-se diversos tipos de controle realizados nas organizações pelos almoxarifados. Claro que, dependendo das políticas organizacionais e do porte da organização, alguns dos controles não são mais efetuados pelo almoxarifado, sobretudo em organizações que contam com elevado grau de informatização de seus sistemas. Porém, o importante é a compreensão dos mecanismos e dos ob- jetivos de tais controles, o que é relevante para a compreensão da função exercida pela administração de materiais. O controle é uma das principais razões para a eficiência e a importância da administração de materiais e sua realização possibilita que se obtenham as seguintes informações principais: Quadro 3 – Principais informações proporcionadas pelo controle Dados cadastrais do fornecedor. � Preço médio do item controlado. � Quantidades de materiais em estoques, na data do levantamento. � Data da última aquisição e preço pago. � Quantidades máximas e mínimas a serem consideradas com relação � aos estoques disponíveis. 84 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Cálculo sobre as possibilidades do estoque em relação ao consumo médio. � Dados estatísticos de consumo por área da organização e/ou dados � globais. Áreas da organização (departamento, divisão, setor, seção etc.) que uti- � lizam o material, datas de fornecimentos, quantidades, custos e outras informações relevantes sobre o material requisitado. Tipo de acondicionamento do material, embalagem de apresentação, � de comercialização e de movimentação, unidade (caixa, cento, dúzia, metro etc.) e observações gerais sobre a apresentação, aspecto, conser- vação etc. Observações gerais sobre o comportamento do material no estoque e/ � ou na linha de produção, conforme ocorram devoluções ou outras situ- ações registradas pela área de materiais. Como se pode perceber,todos os dados podem ser controlados com o uso da tecnologia da informação (computadores e sistemas) ou com auxí- lio de livros ou fichas especificamente adaptados para tal finalidade. Além disso, é possível perceber que são vários os tipos de controle necessários à área da administração de materiais. Alguns dos recursos utilizados (em grande parte das organizações) para o exercício efetivo do controle podem ser assim relacionados: Ficha de prateleira � – é um documento que se destina ao controle do material no próprio local onde está armazenado (fisicamente). Sendo corretamente preenchida, sua utilização evita a necessidade da con- tagem rotineira para checagem da quantidade real disponível fisica- mente no estoque. Fica permanentemente junto ao material e são rea- lizadas as anotações cada vez que o material é retirado do estoque ou, caso contrário, sempre que se registram novas entradas. Kardex � – é um sistema de arquivo que apresenta a vantagem de fa- cilitar o manuseio das fichas. Substitui, com vantagens, as fichas de prateleira, uma vez que contém todos os dados relacionados com o material e, conforme a sistemática adotada, além dos lançamentos de entrada e saídas de materiais, permite informações sobre o fornece- dor, preços etc. Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 85 Requisição de Materiais (RM) � – é um documento utilizado pelos usu- ários para requisitar os materiais de que necessitam, no almoxarifado. As requisições de materiais devem ser claras e objetivas, apresentando ao almoxarifado, ao usuário e à contabilidade todas as informações ne- cessárias para o controle dos materiais e dos gastos daí resultantes. Guia (ou folha) de transferência � – é o documento utilizado para re- gistrar a transferência de produtos em processo (semiacabados) da produção para o almoxarifado. Requisição de compras � – trata-se do formulário utilizado pelo almo- xarifado para solicitar à área de compras a reposição dos materiais por ele controlados. Nota de recebimento � – é um documento que transcreve os dados da nota fiscal para facilitar seu fluxo dentro da organização. A nota fiscal, por ser documento legal, deve ser sempre encaminhada à contabili- dade. Assim, a nota de recebimento reproduz os dados da nota fiscal para que os usuários tenham informações precisas sobre a chegada dos materiais requisitados. Pode-se perceber a importância dos documentos acima relacionados ao adequado controle dos materiais e, assim, todos devem receber atenção es- pecial tanto para sua emissão quanto para a distribuição. Isso exige precisão nas informações, uma vez que tais documentos serão mantidos em arquivos, tanto para a realização de acertos internos quanto para atender a eventuais auditorias (internas ou externas). Mesmo que a organização conte com sistemas informatizados (e geral- mente conta), é necessária a utilização de alguns dos documentos acima relacionados, se não todos. Além disso, existem ainda situações em que se realiza o chamado duplo controle de material (ou controle duplo); isso nada mais é do que utilizar simultaneamente dois tipos de fichas. Geralmente, para a realização do controle duplo, utiliza-se a ficha de prateleira e uma ficha de controle geral, onde são registrados os estoques máximos e míni- mos, a identificação padronizada do material, as datas de movimentações, os documentos que as originam, saldos em estoques etc. Independente do sistema ou dos modelos adotados, é preciso considerar que esses deverão atender completamente às necessidades organizacionais. 86 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais O recebimento de materiais e a inspeção como ferramenta de controle Outra importante atividade de controle é o recebimento de materiais que tem por objetivo garantir que o material entregue pelos fornecedores esteja de acordo (em conformidade) com as especificações constantes no pedido de compra (ou ordem de fornecimento). Geralmente, o controle no recebimento ocorre a partir da Nota Fiscal (NF) emitida pelo fornecedor, quando é feita a conferência da quantidade de material entregue, confrontando-se com a ordem de fornecimento (ou de compra). Outra forma de realizar o controle, segundo Francischini e Gurgel (2002), é gerar uma via/guia cega (um documento que é uma cópia da Nota Fiscal sem as quantidades) para que o recebedor faça a conferência de todos os materiais entregues sem contar com a informação antecipada das quan- tidades. Esse procedimento visa garantir que realmente se realizará a confe- rência do material e, ainda, possibilita confrontar a via cega com a Nota Fiscal e a NF com o pedido de compra, ou vice-versa. A inspeção no recebimento, como controle, pode ser realizada imediata- mente no ato do recebimento ou a posteriori, retirando-se amostras para en- saios ou testes de laboratório (se necessários, quando cabíveis). Importante lembrar que, na maioria das organizações, fornecedores certificados, com a qualificação necessária, são dispensados de inspeções no recebimento. A NBR ISO 8403:1994 define inspeção de recebimento como o [...] conjunto de atividades de medição, exame, ensaio, verificação etc., de uma ou mais características do produto recebido e a comparação dos resultados com requisitos especi- ficados, a fim de determinar se há conformidade para cada uma dessas características. O objetivo da NBR é garantir que os produtos recebidos somente sejam utilizados se estiverem em conformidade com os requisitos especificados e tenham efetivamente sido inspecionados. Geralmente, os materiais recebidos podem receber três identificações possíveis: Material aprovado � – aquele que atende a todos os requisitos estabe- lecidos na ordem de fornecimento e pode ser utilizado imediatamente pela produção. Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 87 Material aguardando inspeção � – quando amostras do material rece- bido foram encaminhadas para análises e seus resultados ainda não estão disponíveis. Material reprovado � – quando o material inspecionado não atende às características especificadas (parcial ou totalmente), não podendo ser utilizado pela produção e devendo ser devolvido ao fornecedor. Ainda segundo Francischini e Gurgel (2002), a inspeção de recebimento é uma atividade obrigatória; mas não necessariamente igual para todos os tipos de materiais recebidos. Assim, os tipos de inspeção recebem classifica- ções e podem ser relacionados da seguinte forma: Quanto ao volume � – a inspeção pode ser 100%, quando todos os materiais recebidos são inspecionados; ou, inspeção por amostragem, quando se retiram aleatoriamente amostras do material recebido e se inspecionam somente tais amostras. Quando se realiza inspeção amostral, o procedimento para um determinado tamanho da amostra (n) deve indicar: o Nível de Qualidade Aceitável (NQA); o tamanho da amostra; o plano de amostragem utilizado; o nível de inspeção; o grau de severidade da inspeção (atenuado, normal ou severo); o índice de aceitação (qual a base para se aceitar ou rejeitar o lote). Quanto ao tipo de ensaio � – na inspeção os ensaios podem ser destru- tivos ou não destrutivos. Os ensaios destrutivos são aqueles que inu- tilizam o material inspecionado, enquanto que os não destrutivos são aqueles que não provocam alterações significativas nas características dos materiais inspecionados. Quanto à natureza � – a inspeção, nesse caso, pode ser quantitativa ou qualitativa. A inspeção quantitativa implica a utilização de medidas dimensionais, como pesagem, contagem ou outras técnicas quanti- tativas. A inspeção qualitativa implica a verificação da conformidade do material recebido, a partir do exame de atributos, como inspeção visual, admitindo-se alguns erros grosseiros de avaliação, riscos super- ficiais, limpeza, rugosidade, cores etc. Como se pode perceber, a inspeção tem a finalidade de assegurar medidas corretivasem materiais ou fornecedores que não atendam aos requisitos espe- cificados para o fornecimento, de tal forma que os erros cometidos não voltem a acontecer, garantindo o bom desempenho no recebimento dos materiais. 88 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Avaliação de desempenho como ferramenta de controle Outra ferramenta importante para o controle, que é mais importante a cada dia que passa, é a avaliação de desempenho. Avaliar desempenho signi- fica adotar medidas de controle que permitam verificar eventuais distorções em relação ao que se planejou e, então, agir, visando eliminar ou corrigir os desvios verificados, pois, segundo Martins e Alt (2000, p. 47), “uma medida de desempenho é uma maneira de medir o desempenho em determinada área, e de agir sobre os desvios em relação aos objetivos traçados”. Avaliar ou medir o desempenho “significa mesurar, medir e comparar em relação a padrões ou objetivos preestabelecidos” (RAZZOLINI FILHO, 2000, p. 27). Com isso, percebemos que um processo de avaliação de desempenho deve permitir comparações, mensurações, medições em relação a objetivos (que devem ser definidos pela área de materiais) ou padrões (como normas ou padrões industriais). Ou seja, é necessário dispor de fontes de informações confiáveis para que o processo de avaliação seja consistente. Segundo Robbins (2000, p. 142), “as fontes de informação mais utilizadas para medir o desempenho são a observação pessoal, relatórios estatísticos, informes verbais, relatórios escritos e bancos de dados acessados por com- putador”. E as informações são a essência do processo decisório. Portanto, quando se contam com informações confiáveis sobre o desempenho da administração de materiais, é possível gerenciar com mais qualidade, apre- sentando resultados concretos que melhoram o desempenho da área e, por extensão, da organização como um todo. Ainda segundo Razzolini Filho (2000, p. 27-31), para que uma medida de desempenho apresente eficácia, precisa satisfazer algumas exigências: dados coletados a partir de fontes confiáveis, para garantir que sejam � precisos e completos; informações relevantes, oferecendo utilidade, não sendo apenas mais � um número ou um relatório que não será utilizado; ser de fácil compreensão para todos os seus usuários; e � ser direta e específica, clara e objetiva. � Por fim, um sistema de medição de desempenho, para apresentar a eficá- cia desejada, deve responder a cinco perguntas básicas: Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 89 Por que avaliar? � – qualquer sistema de avaliação de desempenho deve ser desenvolvido a partir de necessidades específicas, motivo pelo qual a organização organiza e estrutura um sistema de medição. É necessário o sistema estar alinhado com a estratégia da organização, pois as medidas utilizadas devem alinhar-se com a estratégia adotada, de forma que os resultados obtidos expressem a efetividade que se espera do sistema. Por exemplo: se a organização adota uma estraté- gia de competição com ênfase nos custos, não será possível adotar-se medições focadas na qualidade do serviço oferecido aos clientes. O que avaliar? � – é preciso considerar os pontos de medição no sis- tema e quais os indicadores serão considerados, os critérios conside- rados serão os custos das operações / processos? Ou contemplarão o nível de serviço? Por exemplo: será medido o número de caixas rece- bidas no armazém por hora, ou será medido o número de acertos na operação? São diferentes medidas com focos distintos, que podem apresentar dados diferentes para o processo decisório. Como avaliar? � – nos sistemas de avaliação de desempenho existem diferentes opções para mensurar o desempenho do sistema. Pode-se avaliar o desempenho como um todo (por exemplo, toda a área de materiais), de subsistemas dentro do mesmo (como a área de recebi- mento de materiais), as interfaces do sistema (por exemplo, a interface com a produção ou com o marketing), é possível avaliar o desempenho dos fornecedores, dos transportadores, armazenadores ou qualquer outro ponto. A resposta a essa questão implica indicar quais os pontos em que se estabelecerão os mecanismos de controle (mensuração) e quais indicadores serão utilizados. Quando avaliar? � – ao se definir um processo de avaliação de desem- penho, é necessário considerar que medir desempenho representa custos e, ainda, demanda tempo. Portanto, é preciso estabelecer uma periodicidade para os processos de avaliação, ou seja, de quanto em quanto tempo serão realizadas as medições para que os indicadores obtidos possam ser utilizados nos processos gerenciais. O que fazer com os resultados da avaliação? � – não se pode esquecer da afirmação: “não se pode gerenciar o que não se consegue controlar”. Ou seja, implantar um sistema de avaliação de desempenho apenas como mais uma ferramenta que fornecerá dados para controle estatís- tico não é a melhor alternativa. Todo e qualquer processo de medição 90 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais de desempenho deve servir para os gerentes tomarem decisões em relação a eventuais desvios do que foi planejado para o funcionamen- to do sistema ao qual se avalia. Caso a organização não possua um sistema formal de avaliação de desem- penho, a área da administração de materiais deverá ocupar-se em desenvolver um conjunto de indicadores que facilitem o processo de gerenciamento. Para Martins e Alt (2000, p. 276-277), é preciso definir quais as necessidades /expec- tativas dos clientes, que nível de serviço será oferecido a eles e como o serviço da organização pode ser comparado com os concorrentes (através de bench- marking) ou com outras empresas, mesmo que de outras áreas de atuação. Além disso, é necessário que os objetivos (alvos a serem atingidos) sejam exequíveis, uma vez que objetivos não alcançáveis são desmotivantes e atra- palham os processos. Ampliando seus conhecimentos Automação da identificação e comunicação (BANZATO, 2002) Quando abordamos automação utilizando tecnologia da informação, a ex- pectativa que se tem é a de grandes investimentos em software que proces- sem dados a uma incrível velocidade, facilitando sobremaneira as operações burocráticas e aumentando a produtividade. Porém, muitas vezes subestima-se a forma como a informação será inseri- da (“input”) no sistema para processamento, bem como sua transmissão atra- vés dos diversos meios pela cadeia de abastecimento. Investimentos em soluções de tecnologia de automação são viabilizados devido a dois grandes benefícios: melhoria na qualidade e aumento da velo- cidade da informação. Os software desenvolvidos para processamento de informações logísticas proporcionam mais velocidade e qualidade da informação, porém não traba- lham isolados das demais atividades e elementos de uma cadeia de abaste- cimento. Para que essas soluções possam funcionar com a máxima eficácia, é necessário que a informação também seja recebida e transferida de maneira Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 91 rápida e com qualidade. É neste ponto que visualizamos claramente a impor- tância dos sistemas de automação na identificação e comunicação de dados. Automação da identificação e comunicação Considere, por exemplo, uma empresa que está adquirindo uma solução para programação com capacidade finita, com possibilidade de simulação para responder rapidamente às suas necessidades de reprogramação da produção. Após a implementação da solução, a diretoria espanta-se com os resulta- dos alcançados: perda de vendas; � dispensa de pedidos; � atrasos no atendimento das necessidades dos clientes; � demora na tomada de decisões, entre outros problemas. � O que aconteceu? No primeiro momento, analisando superficialmente, a tentativa é de responsabilizar o sistema ou a empresa responsável por sua im- plementação. Se isso ocorrer, a soluçãodo problema passa a ser uma tomada de decisão: abortar o projeto. Uma análise mais adequada, abrangente e sistêmica do processo de logís- tica e de implementação do sistema pode mostrar que a causa de todos esses efeitos indesejáveis não está diretamente relacionada com a solução adquiri- da, mas sim com as informações que a mesma está utilizando. O que foi diagnosticado: A acuracidade de informações que entravam no sistema era inadequa- � da e, portanto, gerava-se saídas inadequadas (antes da existência do software, o pessoal responsável, mesmo com perda de produtividade, ajustava a programação à realidade existente). Alterações nas eficiências de equipamentos em função de paradas não � programadas não estavam sendo consideradas pelo sistema, pois esta- vam sendo atualizadas mensalmente (médias) e não em tempo real. Após o processamento dos dados, as informações de saída demoravam � a serem recebidas pela produção. O sistema de gestão visual (kanban) estava sendo mais rápido que os resultados obtidos pelo software. 92 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Resumindo: a qualidade e velocidade das informações que entram e saem do software são decisivas para a eficácia da logística. Portanto, o software con- tinuava sendo uma ferramenta com alto potencial de melhoria para o negó- cio e fundamental para que a empresa se tornasse mais competitiva. O que faltou, neste caso específico, foi considerar a importância da automação na identificação e comunicação de dados. Tecnologia de identificação Consideram-se como soluções de tecnologia de identificação, as ferramen- tas que são utilizadas para se estabelecer a identidade de um elemento da cadeia de abastecimento1. As soluções utilizadas para identificação muitas vezes são integradas com as soluções para comunicação de dados. Dentre as principais tecnologias de identificação, podemos citar: etiquetas de códigos de barras; � sistemas de endereçamento; � transponder (RFID - � Radio Frequency Identification, identificação via ra- diofrequência); identificação visual; � OCR (reconhecimento óptico de caracteres); � sistemas de escaneamento para identificação volumétrica; � GPS ( � Global Positioning System, posicionamento via satélite), entre outros. Tecnologia de comunicação Consideram-se como soluções de tecnologia de comunicação aquelas res- ponsáveis pela transmissão de uma informação entre os elementos da cadeia de abastecimento. Neste caso, entre as soluções utilizadas para comunicação de dados, pode- se citar: radiofrequência (RFDC, � Radio Frequency Data Collection); comunicação via infravermelho; � 1 Elementos da cadeia de abastecimento - É todo componente da cadeia de abastecimento, seja uma informação, recurso operacional (equi- pamento, espaço, veículos etc.), financeiro, material ou humano. Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 93 EDI ( � Electronic Data Interchange, intercâmbio eletrônico de dados); internet; � XML ( � Extended Markup Language, protocolo de comunicação); comunicação baseada na voz (reconhecimento de voz); � comunicação baseada na luz (exemplo, sistema � pick-to-light); sistemas de linhas privativas (LP) / � frame relay; WAP/SMS ( � Short Mensaging System) etc. Conclusão Antes de investir na automação de parte das atividades de sua cadeia de abastecimento, utilizando software de supply chain, deve-se considerar a ne- cessidade de integração dessas soluções com os sistemas de automação de identificação e comunicação de dados, de forma que as tecnologias sejam in- tegradas e os benefícios sejam efetivamente capitalizados. Atividades de aplicação 1. Pesquise o que é um padrão e, depois, relacione três exemplos de pa- drões conhecidos. 2. O que é uma guia/via cega? Qual sua finalidade? 3. Numere a segunda coluna de acordo com a primeira. 1.ª Coluna Descrição Documento 2.ª Coluna 01 Documento que se destina ao controle do material no pró- prio local onde o mesmo está armazenado (fisicamente). Requisição de materiais 02 Documento que registra a transferência de produtos em processo da produção para o almoxarifado. Nota de re- cebimento 03 Documento utilizado pelo almoxarifado para solicitar à área de compras a reposição dos materiais por ele controlados. Kardex 04 Documento utilizado pelos usuários para requisitar os materiais de que necessitam, no almoxarifado. Ficha de prateleira 05 Sistema de arquivo que, conforme a sistemática adotada, além dos lançamentos de entrada e saídas de materiais, permite informações sobre o fornecedor, preços etc. Requisição de compras 06 Documento que transcreve os dados da nota fiscal para facilitar seu fluxo dentro da organização. Guia de transferência 94 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais Gabarito 1. De acordo com a ISO (International Organization for Standardization), um padrão é um “documento aprovado por um organismo reconhe- cido que provê, pelo uso comum e repetitivo, regras, diretrizes ou ca- racterísticas de produtos, processos ou serviços cuja obediência não é obrigatória”. Exemplos: A moeda de um país. O real é o padrão monetário do Brasil. O dólar dos Estados Unidos etc; ISO 9.001; ISO 14.000; NBR 10.520; In- formação e documentação; citações em documentos; apresentação. 2. É uma cópia da Nota Fiscal sem as quantidades, para que o recebedor faça a conferência de todos os materiais entregues sem contar com a informação antecipada das quantidades. Esse procedimento visa ga- rantir que realmente se realizará a conferência do material e, ainda, possibilita confrontar a via cega com a Nota Fiscal e a NF com o pedido de compra, ou vice-versa. 3. 1ª. Coluna Descrição Documento 2ª. Coluna 01 Documento que se destina ao controle do material no pró- prio local onde o mesmo está armazenado (fisicamente). Requisição de materiais 04 02 Documento que registra a transferência de produtos em processo da produção para o almoxarifado. Nota de recebimento 06 03 Documento utilizado pelo almoxarifado para solicitar à área de compras a reposição dos materiais por ele con- trolados. Kardex 05 04 Documento utilizado pelos usuários para requisitar os materiais de que necessitam, no almoxarifado. Ficha de prateleira 01 05 Sistema de arquivo que, conforme a sistemática adotada, além dos lançamentos de entrada e saídas de materiais, permite informações sobre o fornecedor, preços etc. Requisição de compras 03 06 Documento que transcreve os dados da nota fiscal para facilitar seu fluxo dentro da organização. Guia de transferência 02 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais 95 96 Identificação, classificação e controle de materiais e bens patrimoniais O método ABC de classificação de materiais Classificar um material implica agrupá-lo, ordená-lo de alguma forma, com o objetivo de estabelecer a identificação, codificação, cadastramento e a catalogação de todos os materiais de uma organização. Cada organização terá seus objetivos próprios para classificar os materiais que utiliza. Porém, os benefícios oriundos da classificação de materiais são comuns a todas as organizações. Uma das formas mais usuais e importantes para se classificar os materiais dentro de uma organização é a partir de uma análise do valor monetário que estes representam. O princípio da classificação ABC tem sua origem na chamada de curva 80-20 ou Princípio de Pareto, homenagem a Vilfredo Pareto, economista ita- liano que no século XIX realizou estudo sobre distribuição de riqueza, cons- tatando que isso acontecia de maneira desuniforme; pois 80% da riqueza eram concentradas nas mãos de uma pequena parcela da população (apro- ximadamente 20%). A classificação de materiais conforme o seu valor é denominada classifica- ção ABC de materiais. Ela significa que se analisaram os gastos da organização com seus materiais e os valores representativos de cada umdesses materiais, de forma que eles podem ser relacionados da seguinte forma: Materiais Classe A � – representam o grupo de itens mais significativos nos gastos da organização, merecendo atenção rigorosa por parte da gerência. Materiais Classe B � – é um grupo de itens em uma situação interme- diária, exigindo um controle menos rigoroso que aqueles da classe A, porém mais rigoroso que o tratamento dispensado aos da classe C. Materiais Classe C � – são aqueles itens menos relevantes em termos de custos, exigindo menor atenção em termos de controle por parte da administração. A classificação ABC é uma importante e útil ferramenta para o gerencia- mento dos materiais de uma organização, constituindo-se em importante 97 98 O método ABC de classificação de materiais indicador gerencial, e sua construção é relativamente simples, conforme ve- remos a seguir. Classificação de materiais conforme o valor – classificação ABC A classificação de materiais ABC, pelo critério de valor, significa que, em determinado período de tempo (usualmente de seis meses a um ano), con- trola-se o consumo dos materiais em estoque (itens) para classificá-los (ou agrupá-los) em ordem decrescente de importância. Segundo Francischini e Gurgel (2002, p. 97), [...] analisar em profundidade milhares de itens num estoque é uma tarefa extremamente difícil e, na grande maioria das vezes, desnecessária. É conveniente que os itens mais importantes, segundo algum critério, tenham prioridade sobre os menos importantes. Assim, economiza-se tempo e recursos. Ou seja, quando ordenamos os materiais, a partir de algum critério, po- demos prestar atenção ao gerenciamento daqueles que realmente são mais significativos para o processo de gerenciamento. Melhorando a qualidade da ação gerencial da área de administração de materiais. Ainda segundo Francischini e Gurgel (2002, p. 98), a importância da aná- lise pode ser resumida no quadro a seguir: Quadro 1 – Importância da análise a partir da classificação ABC de materiais Aspecto de análise Itens de grande impor-tância (Classe A) Itens de pouca impor- tância (Classe C) (F RA N C IS C H IN I; G U RG EL , 2 00 2, p. 9 8. A da p ta do .) Número de itens estocados Poucos Muitos Valor envolvido Elevado Pequeno Profundidade na análise Maior Menor Margem de erro Menor Maior Benefício relativo Maior Menor Atenção da administração Elevada Pequena Ou seja, a classificação de materiais é um resumo de informações relevan- tes (notórias), oportunas, consistentes e úteis para o processo decisório da área de administração de materiais. Dessa forma, a classificação ABC de materiais apresenta uma medida da importância que cada material (item estocado) apresenta para a organização. O método ABC de classificação de materiais 99 Assim, classificando-se os materiais se estabelece a ordem de importância de cada um e, a partir daí, permite um controle mais rigoroso dos materiais com a consequente diminuição dos materiais estocados. Portanto, o geren- ciamento de materiais, a partir da análise da classificação ABC, permite que: os estoques existentes nos armazéns sejam melhor gerenciados, em � termos de custos, espaços para armazenamento, consumo de equipa- mentos e energia, tempo despendido para seu gerenciamento etc.; se reduza o valor médio (custo) dos estoques mantidos pela empresa; � se reduzam os custos de transportes; e � se reduza ao mínimo o número de pedidos de compras. � Apesar de não existir uma maneira cientificamente aceita para afirmar qual percentual de itens pertence a cada uma das classes de materiais, é possível afirmar que os itens agrupam-se em cada classe a partir de um padrão que se repete em diferentes organizações de uma forma semelhan- te, conforme segue: Classe A � – composta por aqueles itens que consomem o maior volu- me de recursos financeiros das organizações. O que se constata, na prática, é que aproximadamente dez por cento dos itens representam oitenta por cento do valor gasto em estoques. Portanto, o controle ri- goroso desses itens assume importância fundamental, pois represen- tam a maior parcela dos custos. Classe B � – formada pelo grupo de itens que representam os custos intermediários com materiais. Na prática, observa-se que tais itens são em torno de vinte e cinco por cento dos materiais e representam algo em torno de quinze por cento dos gastos. Com isso, a atenção dedica- da em termos de controle pode ser menos rigorosa do que a despen- dida aos itens classe A. Classe C � – formada pelo agrupamento de itens que representam os valores mais baixos em termos de consumo de recursos. Nas situações práticas, observa-se que esses itens representam em torno de sessenta e cinco por cento do total de materiais e consomem apenas algo em torno de cinco por cento do valor investido. Embora representem um grande número de itens, exigem menor controle da área de suprimen- tos (o que não significa ausência de controle). De forma simplificada, as classes de materiais podem ser assim resumidas: 100 O método ABC de classificação de materiais Quadro 2 – Representatividade dos materiais na classificação ABC Itens Classe A – 10% dos itens consomem 80% dos recursos financeiros. Itens Classe B – 15% dos itens consomem 15% dos recursos financeiros. Itens Classe C – 65% dos itens consomem 5% dos recursos financeiros. Pelo quadro acima, pode-se concluir que em termos quantitativos o número de itens que exige maior rigor no controle, por parte da área de ma- teriais, é limitado a algo em torno de dez por cento do total, o que significa que seu gerenciamento pode ser melhor executado. Ocorre que gerenciar materiais significa que é necessário preocupar-se com uma série de questões, como espaço, pessoas, equipamentos, ener- gia etc., o que significa consumo de recursos financeiros (FRANCISCHINI; GURGEL, 2002, p. 97). Para analisar o total de materiais gerenciados pela administração de materiais (muitas vezes formado por milhares de itens), mesmo contando com o auxílio dos recursos da tecnologia da informação, seria necessário despender muito tempo e recursos. Portanto, ao se analisar apenas um grupo menor de materiais (que consomem mais recursos), o pro- cesso de gerenciamento pode ser simplificado e, ainda, com maior impacto sobre os resultados financeiros. Além disso, a classificação ABC de materiais pode ser muito útil também no gerenciamento do fluxo de caixa das organizações, uma vez que possibi- lita que se avalie o impacto das compras sobre o mesmo. Técnica para construção da curva ABC Para se “construir” uma curva ABC, considera-se a utilização anual em va- lores monetários dos materiais. O procedimento para a classificação por pe- ríodo (vamos considerar período anual) em valor monetário é o descrito no quadro a seguir: Quadro 3 – Passos para a construção da curva ABC de materiais 1. Determinar o consumo anual de cada item (em unidades). O método ABC de classificação de materiais 101 2. Multiplicar o consumo anual de cada item pelo respectivo custo unitá- rio, obtendo a demanda total anual de cada item. 3. Ordenar os itens pelo valor de seu consumo no período. 4. Listar os itens em ordem decrescente do seu consumo anual em valores monetários. 5. Colocar a percentagem acumulada de cada um dos itens ordenados, em relação ao total. 6. Indicar os valores num eixo de ordenadas cartesianas onde, aleatoria- mente, se separam os materiais nas classes A, B e C, conforme o levan- tamento realizado. Para facilitar a compreensão, vamos construir uma curva ABC da empresa Razzolini & Filhos, que fabrica apenas 10 produtos (chamados PA a PJ), con- forme relacionado no quadro a seguir. A primeira etapa implica a construção de uma tabela em que se cumprem os passos 1, 2 e 3 do quadro 3. Tabela 1 – Consumo anual de materiais na empresa Razzolini & Filhos Produto Custo unitário (R$) Consumo anual (em unidades) Valor do consumo anual (R$) (custo unitário x consumo anual)Ordem PA 40,00 300 12.000,00 6.º PB 20,00 6 000 120.000,00 2.º PC 70,00 30 2.100,00 8.º PD 149,00 110 16.390,00 5.º PE 0,50 241 000 120.500,00 1.º PF 0,09 74.000 6.660,00 7.º PG 10,00 2 500 25.000,00 4.º PH 4,40 23 000 101.200,00 3.º PI 125,00 15 1.875,00 9.º PJ 3,00 160 480,00 10.º A próxima etapa significa cumprir os passos 4 e 5 do quadro 3 consistindo em ordenar o consumo valorizado em ordem decrescente, acumulando-se o valor do consumo e calculando-se o percentual em relação ao total: 102 O método ABC de classificação de materiais Tabela 2 – Consumo anual acumulado de materiais na empresa Razzo- lini & Filhos Produto Valor do consumo (R$) Valor do consumo acumulado (R$) % em relação ao total PE 120.500,00 120.500,00 29,66 PB 120.000,00 240.500,00 59,21 PH 101.200,00 341.700,00 84,12 PG 25.000,00 366.700,00 90,27 PD 16.390,00 383.090,00 94,31 PA 12.000,00 395.090,00 97,26 PF 6.660,00 401.750,00 98,90 PC 2.100,00 403.850,00 99,42 PI 1.875,00 405.725,00 99,88 PJ 480,00 406.205,00 100 A tabela acima nos permite identificar que apenas dois itens (PE e PB) representam juntos quase sessenta por cento dos materiais a serem geren- ciados (uma relação 20-60). Se somarmos o terceiro item na ordem de impor- tância (PH), teremos uma relação 30-84, ou seja, três itens (30%) representam oitenta e quatro por cento (84%) do valor de consumo de recursos financei- ros da organização. Também é possível perceber que os demais sete itens (70%) representam apenas 10% do valor do consumo de recursos financeiros. Portanto, é mais fácil gerenciar apenas os três itens principais uma vez que eles representam um volume maior de recursos e, assim, uma redução nos seus custos tem um impacto muito maior para o caixa da organização. Por exemplo, se reduzirmos em 50% os custos com o produto PF teremos uma redução de R$3.330,00 ou apenas 0,82% dos gastos totais (3.330,00 / 406.205,00). Porém, se reduzirmos apenas 10% no consumo do produto PE, por exemplo, teremos uma redução da ordem de R$12.050,00 ou 2,97% (quase três por cento) do total dos custos. Ou seja, o esforço (50%) para re- duzir o produto PF (que é intermediário) é muito grande se comparado com o esforço (10%) para reduzir o produto PE, demonstrando a importância de se ter uma visão clara do consumo anual dos itens A. Por fim, a etapa final da construção da curva ABC significa indicar os valo- res encontrados (na tabela 2), no eixo de coordenadas cartesianas, de forma a se obter a curva ABC, conforme se percebe na figura a seguir. O método ABC de classificação de materiais 103 Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 PE PB PH PG PD PA PF PC PI PJ A B C 10% 20% 70% % d o va lo r d e co ns um o % sobre os itens do estoque 100% Figura 1 – Gráfico da curva ABC. Resumindo a classificação ABC A classificação ABC é uma ferramenta muito importante e útil para a ad- ministração de materiais porque permite identificar quais itens merecem atenção e tratamento diferenciados quanto à sua administração. Trata-se de uma ferramenta gerencial que pode ser utilizada para o gerenciamento dos estoques, definição de políticas comerciais (de vendas), estabelecimento de prioridades na programação de operações, além de outras possibilidades administrativas. A definição das classes A, B e C segue critérios de bom-senso e conveniên- cia dos controles definidos pela gerência (a isso chamamos princípios heu- rísticos). Como regra geral, coloca-se, no máximo, 20% dos itens na classe A, 30% na classe B e o restante (50%) na classe C. Porém, cada organização pode adotar o critério que lhe seja mais conveniente para controles mais eficientes e efetivos. Outro aspecto relevante diz respeito ao período de tempo considerado. Geralmente, o tempo a ser considerado para a construção de uma classifica- ção ABC é dependente do ramo de atividade da organização. Geralmente, re- comenda-se utilizar os últimos doze meses, o que permite que se considerem as sazonalidades anuais. Porém, com grande frequência, se utiliza períodos de tempo menores, como um semestre, um trimestre, um quadrimestre etc. 104 O método ABC de classificação de materiais Outros critérios para a classificação dos materiais Claro que a classificação dos materiais pelo seu valor de consumo não é a única forma de se classificar os materiais existentes em uma organização. Embora a classificação ABC seja a regra geral, existem outras formas de se classificar os materiais, em razão de outros fatores. Isso acontece com base na experiência do gestor, no seu bom-senso e nas práticas usuais dentro da or- ganização. A seguir, veremos as outras formas de se classificar os materiais. Materiais perecíveis e de custo baixo Os materiais perecíveis (que apresentam curto período de vida como iogurtes) conforme a regra da classificação ABC deveriam ser classificados como itens C (uma vez que apresentam baixo custo). Porém, em virtude do pequeno prazo de validade que apresentam, devem ser considerados como Classe A em termos de gerenciamento (pois somente podem ser estocados por curtos períodos de tempo). Materiais importados e de custo intermediário Pelos valores que apresentam, esses materiais deveriam ser classificados como A (em alguns casos) ou como B (na maioria dos casos). Porém, o tempo de ciclo de importação leva o administrador de materiais a classificá-lo como um item Classe C. Isso ocorre porque o tempo de ciclo de abastecimento é muito longo, geralmente. Materiais volumosos e de custo baixo ou intermediário Materiais que ocupem grandes espaços de armazenagem e que apresen- tem custo unitário baixo ou intermediário deveriam ser classificados como Classe B ou Classe C. Porém, para se evitar construção de novos espaços de armazenagem, devem ser classificados como A, buscando elevar sua rotação (giro) e, com isso, ocupando menos espaço físico na área de armazenagem. O método ABC de classificação de materiais 105 Materiais classificados por critério de aquisição (compra) Geralmente, utiliza-se essa classificação quando existe algum tipo de difi- culdade na aquisição do material, conforme se percebe no quadro a seguir. Quadro 4 – Classificação de materiais pelo critério de aquisição Classificação Grau de dificuldade na aquisição Características E Alto Processo de aquisição é muito complexo e caro ou existem elevadas incertezas no fornecimento. F Médio Materiais com processo de aquisição intermediário entre os dois extremos. G Baixo Materiais de fornecimento flexível, ágil, rápido e pon- tual. Existem fornecedores alternativos qualificados para o item (geralmente, trata-se de uma commodity). Materiais críticos Geralmente, esse é um critério complementar de classificação, que consis- te em considerar a relevância do material em relação ao seu impacto global para os processos organizacionais (produção e/ou comercialização), e o grau de dificuldade na sua aquisição (compra). Assim, poder-se-ia construir uma classificação especial para esses itens, como a que segue: Quadro 5 – Classificação de materiais pelo critério de criticidade Classificação Grau de importância Características X Baixo Material com total possibilidade de ser intercambiado (subs- tituído por outro equivalente existente na organização), ou com compra fácil e de rápido ciclo de reposição. Y Médio Material cuja criticidade é intermediária, ficando entre os dois extremos. Z Alto Também considerado vital, sem nenhum similar na organização, cuja falta acarretaria a paralização de uma ou mais fases produti- vas, ou comprometeria a integridade de algum equipamento. Como se pode perceber, os diversos critérios para a classificação dos materiais existem em função de outros fatores. Daí a necessidade de que o gestor tenha experiência, bom-senso e, ainda, conheça as práticas usuais da organização. 106 O método ABC de classificação de materiais Enfim, é importante esclarecer que, dependendo da resposta quese busca obter sobre o critério de gerenciamento adotado, outras estratifica- ções poderão ser adotadas, tais como saldo, margem de contribuição, quan- tidade, impacto no andamento da produção, faturamento, regularidade da demanda, estratégia produtiva etc. Ferramentas e indicadores de gerenciamento dos estoques Embora a classificação ABC seja uma importante ferramenta para o ge- renciamento dos estoques, existem outras ferramentas e/ou indicadores que permitem que se gerencie de forma adequada os estoques das organiza- ções, sobre os quais se discorre na sequência. Políticas de materiais Uma política é uma definição formal preestabelecida, com a finalidade de orientar os responsáveis pelo processo decisório na direção dos objetivos es- tratégicos organizacionais. Ou seja, de forma geral, as políticas existem para que, na ausência de pessoal responsável por tomar a decisão, seus substi- tutos possam decidir de forma coerente com a linha de ação adotada pela organização para que se atinjam os resultados previamente determinados (objetivos). Assim, uma política de materiais implica as decisões preestabelecidas para a área de materiais, definindo as regras para dimensionamento dos estoques, tanto no nível de gestão, quanto de operação. É importante que exista um bom processo de divulgação das políticas para que todos na área conheçam claramente as “regras do jogo”. Na continuação, relacionam-se alguns exemplos de “regras” que podem compor uma política de materiais (são apenas exemplos, cabendo a cada organização definir sua política). Procure dimensionar adequadamente os estoques, de forma que se � invista o mínimo necessário de capital de giro em estoques. Os estoques devem ser sempre otimizados em termos do seu giro e do � mínimo emprego de capitais. O método ABC de classificação de materiais 107 Racionalize os estoques, verificando cuidadosa e criteriosamente a ne- � cessidade de cada item e se o mesmo pode ser substituído por outro já existente no cadastro de materiais. Quando for homologar um ma- terial, dê preferência àqueles já padronizados. O estoque existente deve garantir um nível de serviço ao cliente de � 98% prontamente e de 100% em até 48 horas. A organização objetiva manter uma média de cobertura de 10 dias para � itens classe A, 20 dias para itens classe B e de 30 dias para os itens classe C. Pedido perfeito – nosso objetivo é entregar 100% das solicitações pon- � tualmente, em condições adequadas, na quantidade certa, com a qua- lidade desejada (sem danos), e com a documentação correta. Como é possível perceber, uma política de materiais é formada por um conjunto de objetivos (regras) ou princípios de conduta para os responsáveis pela área da administração de materiais. Nível de serviço O nível de serviço é utilizado tanto como um parâmetro quanto como um indicador. Trata-se de um parâmetro quando é estabelecido pela organi- zação, como parte de sua política de materiais, e de um indicador quando é utilizado para monitorar o desempenho da área de materiais. Existem diversas formas de se definir o que seja nível de serviço. Porém, para compreender o que é nível de serviço é necessário, antes, definir o que é serviço ao cliente. Serviço ao cliente é “o parâmetro do desempenho do sistema de logística em criar utilidade de momento e lugar para o produto, incluindo suporte pós-venda” (LAMBERT et al., 1998, p. 113). O principal papel do serviço ao cliente é o de fornecer utilidade espacial, temporal e de condições de uso. Portanto, tornar um produto disponível “é, em si, um conceito complexo que sofre o impacto de uma infinidade de fatores que, juntos, constituem o serviço ao cliente” (LAMBERT et al., 1998, p. 113). Assim, um serviço ao cliente é a realização de todos os meios possíveis para satisfazê-lo, oferecendo facili- dades e informações sem limitar a duração desses serviços, mesmo que eles sejam oferecidos graciosamente, sem custo adicional para o cliente, pois o importante é o estabelecimento de relações duradouras com os clientes. 108 O método ABC de classificação de materiais Ressaltamos que cada transação com o cliente apresenta um caráter único, exigindo considerar se aquele serviço que está sendo prestado é o mais adequado tanto para o cliente quanto para a empresa, pois “às vezes os serviços da organização não são a melhor maneira de criar valor para os clientes. Explicar esse fato aos clientes pode ser parte de um bom marketing de relacionamento” (CHURCHILL; PETER, 2000, p. 299). Embora, muitas vezes, os clientes não tenham parâmetros para avaliar os serviços que lhes são oferecidos (dadas as características destes) mesmo de maneira empírica, ou pouco estruturada, os clientes estarão avaliando os custos e os benefícios em suas decisões de compra. A esse respeito, Chur- chill e Peter (2000, p. 14.) comentam que “em algumas situações, como as compras importantes ou as organizacionais, os clientes podem avaliar aten- tamente uma série de benefícios e custos em suas decisões”. A logística, em conjunto com o marketing, pode aumentar o valor para o cliente através de aumentos nos níveis de serviço ao cliente. Uma vez que exis- tem muitas combinações possíveis entre custos e benefícios, existem, também, muitas combinações estratégicas para se oferecer um valor superior ao cliente, através dos serviços logísticos. O importante é que “para proporcionar servi- ços de qualidade, a organização precisa adequá-los às necessidades e desejos de clientes específicos e criar valor. Em outras palavras, raramente os serviços podem ser altamente padronizados” (CHURCHILL; PETER, 2000, p. 299). Serviço ao cliente pode ser entendido, ainda, como todas as atividades en- volvidas no aceite, processamento, faturamento e entrega de pedidos aos clien- tes, nas condições, quantidades e prazos acordados, de forma percebida como satisfatória pelo cliente, atingindo os objetivos da empresa. Ou também, [...] um processo que ocorre entre comprador, vendedor e um terceiro. O processo resulta em um valor agregado ao produto ou serviço que foram objetos de troca. Esse valor agregado no processo de troca pode ser de curto prazo, em uma única transação, ou em um prazo mais longo, como em um relacionamento contratual. O valor agregado também é compartilhado, de modo que cada uma das partes da transação ou contrato esteja melhor no final da transação do que estava antes do ocorrido. (LAMBERT et al., 1998, p. 113) Na prática, o que se percebe é que poucas empresas “têm políticas defini- das de serviço ao cliente e muito menos uma organização suficientemente flexível para gerenciá-lo e controlá-lo, quando se considera que esse serviço pode ser o mais importante elemento no composto mercadológico da com- panhia” (CHRISTOPHER, 1997, p. 30). Portanto, a empresa que puder ofertar maiores benefícios (nível de serviço) e/ou custos menores, estará apresen- O método ABC de classificação de materiais 109 tando um serviço ao cliente de maior valor, tendo, assim, a possibilidade de obter vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes. Giro de estoque O giro dos estoques é uma forma de se definir quantas vezes um deter- minado item “girou” (rodou, ou se renovou completamente) dentro dos esto- ques de uma organização em determinado período de tempo. Geralmente, calcula-se o giro dos estoques para o período de um ano. Ou seja, o giro é um indicador de desempenho que mostra a velocidade de renovação dos estoques durante um período de tempo. Esse indicador, tanto pode ser expresso no valor global dos estoques (o mais usual), quanto pode ser calculado apenas para um item isolado (geralmente de Classe A) ou grupo de itens. Esse indicador é calculado pela fórmula: Fórmula para cálculo do giro de estoques Giro no período = Demanda no período ( de saídas num período) Estoque médio no período (saldo médio no período) Existe ainda a possibilidade de se obter o giro de estoque contábil (dado pelo valor dos estoques). Porém,para a administração de materiais, é mais interessante utilizar o modelo acima, que considera dados físicos (quantitati- vos), uma vez que existe a possibilidade de distorções no giro contábil (preço considerado pela média e pela absorção de rateios, entre outras). O cálculo é fácil e direto. Por exemplo, considerando-se um material que apresente o comportamento conforme o quadro abaixo; vamos calcular o seu giro anual. Tabela 3 – Demonstrativo de saldo anual Produto X–1 Demanda mensal (un.) Saldo de estoque no mês (un.) Janeiro 1 240 340 Fevereiro 1 130 220 Março 1 220 100 Abril 2 124 120 110 O método ABC de classificação de materiais Produto X–1 Demanda mensal (un.) Saldo de estoque no mês (un.) Maio 2 222 135 Junho 2 145 154 Julho 2 510 210 Agosto 2 524 280 Setembro 2 532 270 Outubro 1 980 150 Novembro 1 870 140 Dezembro 1 840 120 Totais 23 337 2 239 Giro do estoque no ano = 22 337 2 239/12 = 22 337 186,58 = 119,72 ou 119 vezes Isso significa dizer que o estoque renovou-se 119 vezes ao longo do ano. Importante destacar que quanto maior o giro dos estoques melhor está sendo o gerenciamento deles. É possível, ainda, correlacionar o giro dos es- toques com a classificação ABC de materiais, para verificar-se como está o comportamento do giro em cada classe de materiais, como o exemplo no quadro abaixo: Quadro 6 – Exemplo de análise de giro de estoque com classificação ABC Giro anual Classe A Classe B Classe C Zero Giro nulo Giro nulo Giro nulo Entre 0 e 10 vezes Giro baixo (ruim) Giro baixo (ruim) Giro baixo (ruim) Entre 10 e 20 vezes Giro baixo (ruim) Giro baixo (ruim) Giro razoável Entre 20 e 30 vezes Giro baixo (ruim) Giro razoável Giro bom Entre 30 e 40 vezes Giro razoável Giro bom Giro ótimo (meta) Entre 40 e 50 vezes Giro bom Giro ótimo (meta) Giro ótimo Acima de 50 vezes Giro ótimo (meta) Giro ótimo Giro ótimo Importante destacar que os giros por classes de materiais indicados no quadro 6 são apenas um exemplo, uma vez que tais giros dependem sempre do ramo de atividade da organização, da sua estratégia de administração de materiais e de processo de produção (flexibilidade e desempenho), como, ainda, das incertezas ambientais envolvidas em cada caso. Conforme comentado quando se falou das políticas de materiais, um dos objetivos da administração de materiais (uma meta) deve ser sempre a otimi- O método ABC de classificação de materiais 111 zação da utilização dos recursos disponíveis (no caso dos estoques, o capital de giro), ou seja, isso significa buscar permanentemente aumentar o giro dos estoques. Índice de cobertura Também chamado de tempo médio em estoque, é um indicador calcu- lado de maneira inversa ao giro dos estoques. É um indicador que permite visualizar a disponibilidade média dos estoques em termos de tempo. A fórmula para o seu cálculo é dada por: Fórmula para cálculo do tempo médio em estoque Tempo médio em estoque = Estoque médio no período (Saldo médio no período) Demanda no período ( de saídas num período) Usando-se os mesmos dados do exemplo anterior temos: Tempo médio em estoque = 186,58 22 337 = 0,00835 anos Como o número em anos não diz muita coisa pode ser transformado em meses ou, ainda, em dias, da seguinte forma: 0,00835 anos . 12 meses = 0,1002 meses ou, 0,1002 meses . 30 dias = 3,006 dias Isso nos indica durante quanto tempo os estoques estão disponíveis para atender às necessidades operacionais imediatas da organização. Além desses indicadores e/ou ferramentas da administração de materiais, existem outros que podem ser utilizados, como o indicador de cobertura de- sejada, o capital de giro empregado em estoques, o estoque de segurança etc. O importante é compreender que as formas como classificamos os mate- riais permitem um melhor ou pior controle e, consequentemente, os resulta- dos obtidos serão melhores ou piores. 112 O método ABC de classificação de materiais Ampliando seus conhecimentos Por que classificamos coisas? (BIBLIOTECA VIRTUAL GS1, 2008) Quase todos os aspectos de nossas vidas estão sujeitos à classificação. Classifi- camos quase tudo, dividindo nosso mundo em uma série de categorias arbitrárias. Diferentes povos classificam coisas de diferentes formas. Algumas pessoas colo- cam suas meias numa gaveta; outras separam meias brancas das meias coloridas. No universo dos negócios, a classificação é uma necessidade. Mesmo numa base bilateral quando vendedor e comprador estão negociando, as de- finições comuns se tornam necessárias. Eles não discutem GTINs1 de produtos individuais, mas usam grupamentos comuns de produtos. Um fabricante de laticínios e um varejista do setor de mercearias fazem negócios baseados nas categorias de laticínios. Nenhum sistema de classificação é inerentemente “melhor” que o outro. A única medida de sucesso de um sistema de classificação é o seu valor. Diferen- tes pessoas têm diferentes necessidades; assim, o que é bom para uma pessoa pode não ser bom para outra. Entretanto, esta falta de universalidade não nos tira o ânimo de elaborar um sistema certo para todos os nossos propósitos. Por mais que tentemos, não podemos evitar o agrupamento ou ordem, a or- ganização e a classificação. Por que precisamos de um sistema de classificação flexível, aceito glo- balmente, adaptável e com manutenção constante? A filosofia básica por trás da separação do produto dentro de uma loja vare- jista de produtos alimentícios historicamente baseou-se numa estrutura depar- tamental de uma organização. Esta estrutura foi estabelecida com os seguintes critérios: habilidades do funcionário, temperatura de armazenamento, fonte e similaridade do produto. A estrutura de compra, por outro lado, concentrou-se no fornecedor como base para agrupar os produtos. Aos compradores foram designados fornecedores com produtos similares. Isto foi feito para obter máxima eficiência de transporte do produto. Se uma pessoa simples contro- lava toda a faixa de produtos de um fornecedor, o custo do frete e o estoque poderiam ser minimizados. Os fornecedores também mantiveram sua própria 1 GTINs: Global Trade Item Number ou Número Global de Item Comercial. Trata-se de um número de identificação de produtos, exclusivo, que pode ser aplicado a qualquer item para o qual exista a necessidade de se recuperar informações preestabelecidas e que possa ser custeado, pedido ou faturado em qualquer elo de uma cadeia de suprimentos. O método ABC de classificação de materiais 113 estrutura de categoria e esta estrutura empregou de forma mais livre algumas associações de atributos do produto. Isto variou de fornecedor a fornecedor. Com o advento da administração da categoria, muitos desses critérios dentro da comunidade varejista ficaram intactos. A nova estrutura ainda era muito parecida com a forma como o produto foi agrupado dentro da loja e a filosofia na qual ela foi construída. Nesse ínterim, os suprimentos continua- ram os mesmos, talvez até melhores, com base no advento de estruturas inde- pendentes como ACNielsen (<www.acnielsen.com.br/site/index.shtml>), IRI (Information Resources, Inc. – <http://us.infores.com/>), GFK (GFK Indicator – <www.gfkindicator.com.br/home/>) etc. Tradicionalmente, para muitos varejistas, quando um novo item é lançado, ele é designado para a estrutura de categoria usada pelo varejista. No passa- do, um dos principais problemas ao comunicar eletronicamente novos itens era a impossibilidade de o EDI (Eletronic Data Interchange ou Intercâmbio ele- trônico de dados) atingir um determinado representante com a organização varejista. O EDI também não tinha nenhuma forma que permitisse ao varejista responder à comunicação declarando o aceite do item e dos dados relativos ao item. Ao contrário de outra transmissão mais popular como fatura, preço, promoção, que já tinham um link conectado no back end do varejista, este link para novos itens precisava ser ajustado manualmente. Esta conexão era esta- belecida pelo varejistaquando o item era designado a um comprador particu- lar, usualmente em um “Novo Formulário de Itens”. Na década de 1990, a UCCnet2 introduziu o conceito de sincronização. Esta era a solução para os dois problemas inerentes na solução EDI. Primeiro ele era centrado em uma série de respostas definidas extraídas das aplicações do legado do varejista e fornecia um mecanismo para mirar dentro da organização varejista. A utilização de uma estrutura comum de categoria foi empregada para comunicar um novo item entre um vendedor e um compra- dor. Contudo, isto forçava fornecedor e varejista a optar entre empregar a nova estrutura internamente e mapear sua estrutura existente para a nova. Depen- dendo do grau de fechamento das duas estruturas, o nível de esforço variava. O mapeamento tornou-se uma situação comum de onde frequentemente di- versos compradores recebiam as informações. Contudo, não optar pelo mape- amento criou uma situação onde era necessário adotar dois sistemas usando diferentes estruturas para manter as mesmas pessoas, papéis e capacidades. 2 UCCnet: é uma organização que fornece um serviço de registro de dados baseado na Internet para empresas que atuam no comércio eletrô- nico. Trata-se de um código denominado UCC – Uniform Commercial Code, ou Código Comercial Uniforme. 114 O método ABC de classificação de materiais Embora não existam formas certas e erradas de classificar coisas, o ideal seria que os parceiros comerciais usassem uma linguagem comum para agru- par produtos. Juntamente com seus sistemas de classificação de legados, a linguagem comum simplificaria da mesma forma como a língua inglesa é aceita e usada como a língua comum nos negócios internacionais. A experiência mostra que existem três tipos de organização com rela- ção à classificação: Organizações com mais de um sistema adequado de classificação � (30%). Organizações que têm apenas um sistema adequado de classificação � (~27%). Organizações que não têm nenhum sistema adequado de classificação � (~40%). Os fabricantes precisam ter a habilidade de traçar o perfil dos produtos em conceitos diversos, para maximizar a exposição de seleção aos varejistas. Eles devem também alinhar tudo isso com os seus próprios sistemas de classifica- ção, que podem ser baseados nos departamentos de informações, produção ou vendas. Uma linguagem comum para classificação de produtos traz muitos benefícios para as cadeias / redes de suprimento: Melhora a precisão da informação sobre o produto. � Elimina atividades supérfluas e reduz custo de lançamento e manuten- � ção de itens. Permite mapeamento para diferentes parceiros comerciais ou concei- � tos de provedores terceirizados de soluções, reduzindo custos. Oportunidade de agrupar produtos com atributos específicos de cate- � gorias. Simplifica os processos de publicação e subscrição. � Permite mecanismos simples de defesa com resultados consistentes. � Os varejistas precisam ter meios para alinhar produtos a diversas estruturas internas, como: por comprador, pela forma como o produto é comercializado ou pela forma como o produto é transportado. Além disso, os varejistas têm di- ferentes estruturas de classificação, exclusivas para suas próprias organizações. O método ABC de classificação de materiais 115 Atividades de aplicação 1. Com base no quadro a seguir, elabore uma classificação ABC de materiais. Material Consumo no perí-odo (unidades) Custo unitário R$ Valor do consumo anual R$ Ordem X 1 9 500 10,00 X 2 4 950 4,50 X 3 1 190 70,10 X 4 15 550 1,00 X 5 67 500 9,45 X 6 16 900 2,43 X 7 10 850 3,40 X 8 9 745 54,18 X 9 13 570 1,12 X 10 1 320 17,44 Totais - - 2. Dos materiais abaixo descritos, quais você classificaria como classe A, B ou C? E quais você adotaria algum dos outros critérios de classifica- ção apontados? Por quê? (Veja o exemplo) Material Comentários Classificação Areia fina peneirada Commodity de fácil aquisição. Barato. Classe C - G - X Óleo lubrificante para correias Turbina para avião ERJ 145 Placa de circuito impresso Chapa de aço Inox 2m x 1m x 3mm 3. Considerando-se as informações do quadro abaixo, qual o giro do ma- terial considerado? Como você qualificaria este giro? Semana 01 02 03 04 05 06 07 08 09 Vendas 30 40 50 80 70 90 20 70 60 Saldo final 15 10 20 70 60 50 40 30 80 116 O método ABC de classificação de materiais Gabarito 1. Etapa 1 Material Consumo no período (unidades) Custo unitário R$ Valor do consumo anual R$ Ordem X 1 9 500 10,00 95.000,00 3.º X 2 4 950 4,50 22.275,00 8.º X 3 1 190 70,10 83.419,00 4.º X 4 15 550 1,00 15.550,00 9.º X 5 67 500 9,45 637.875,00 1.º X 6 16 900 2,43 41.067,00 5.º X 7 10 850 3,40 36.890,00 6.º X 8 9 745 54,18 527.984,10 2.º X 9 13 570 1,12 15.198,40 10.º X 10 1 320 17,44 23.020,80 7.º Totais - - 1.498.279,30 100% Etapa 2 Produto Consumo anual (R$) Valor do consumo acumulado % em relação ao total X 5 637.875,00 637.875,00 42,57% X 8 527.984,10 1.165.859,10 77,81% X 1 95.000,00 1.260,859,10 84,15% X 3 83.419,00 1.344.278,10 89,72% X 6 41.067,00 1.385.345,10 92,46% X 7 36.890,00 1.422.235,10 94,92% X 10 23.020,80 1.445.255,90 96,46% X 2 22.275,00 1.467.530,90 97,95% X 4 15.550,00 1.483.080,90 98,99% X 9 15.198,40 1.498.279,30 100% A B C O método ABC de classificação de materiais 117 Etapa 3: Gráfico Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 X5 X8 X1 X3 X6 X7 X10 X2 X4 X9 A B C % d o va lo r d e co ns um o % sobre os itens do estoque 100% 2. Material Comentários Classificação Areia fina peneirada Commodity de fácil aquisição. Barato. Classe C - G - X Óleo lubrificante para correias Material de fácil aquisição. Classe C - G - X Turbina para avião ERJ 145 Material de aquisição complexa e cara. Classe A - E - Z Placa de circuito impresso Material de aquisição complexa e cara. Classe A - F - Y Chapa de aço Inox 2m x 1m x 3mm Material de aquisição intermediária. Classe B - F - Y Pode-se adotar os critérios acima em virtude dos custos de aquisição e da eventual dificuldade de obtenção dos materiais. 3. Semana 01 02 03 04 05 06 07 08 09 Total Vendas 30 40 50 80 70 90 20 70 60 510 Saldo final 15 10 20 70 60 50 40 30 80 375 Estoque médio no período = 375 / 9 = 41,67 Giro do estoque = 510 / 41,67 = 12,24 O giro foi de 12,24 vezes no período considerado (09 semanas). Esse giro poderia ser classificado como um giro bom. Porém, para se dizer a qualidade do giro de um determinado material é necessário saber qual o giro médio do ramo de negócios. 118 O método ABC de classificação de materiais Sistemas de armazenagem Antes de se falar de sistemas de armazenagem é necessário compreender o que é armazenar. Armazenar, de forma simples, é guardar algo para utilizar em um momento futuro. Portanto, armazenar significa que se cria utilidade temporal, ao disponibilizar um material no momento (futuro) em que ele seja necessário. De uma forma mais técnica, armazenar significa “guardar reguladores de fluxos de negócio”. Ou seja, em cada etapa de um processo produtivo, ou ainda mais amplo, em cada etapa de uma cadeia de suprimentos, existem tempos de ciclo que são diferentes uns dos outros. Isso leva à necessidade da formação de estoques nessas etapas intermediárias para garantir a regulari- dade no funcionamento dos fluxos. A figura abaixo demonstra a existência desses “reguladores de fluxos de negócios”, representados pela figura do tra- pezoide existente entre cada um dos elos da cadeia de suprimentos. Estoque Estoque EstoqueFornecedor Indústria Varejo Cliente Figura 1 – Os estoques regulando o fluxo dentro de uma cadeia de suprimentos. Ed el vi no R az zo lin i Fi lh o. O tempo de ciclo (lead time) é o tempo que decorre desde o momento em que um pedido é efetuado por um dos elos da cadeia de suprimentos e o instante em que o mesmo é entregue. Como a produção e o consumo/utili- zação não são simultâneos, existe a necessidadeda manutenção de alguma quantidade de estoques para atender a tais pedidos. É exatamente a exis- tência desses estoques que exige que a administração de materiais gerencie sistemas de armazenagem. E o que é um sistema de armazenagem? Pode-se compreendê-lo como um conjunto de instalações físicas (edificações), equipamentos de movi- mentação, estruturas de armazenagem, métodos, pessoas e todos os demais recursos necessários para manter os estoques em condições de serem en- tregues no momento em que sejam solicitados pelos clientes (internos e/ ou externos). A figura a seguir demonstra um exemplo de estrutura para armazenagem. 119 120 Sistemas de armazenagem Figura 2 – Estrutura de armazenagem. IE SD E Br as il S. A . Como a figura permite observar, encontramos uma estrutura física, equi- pamento de movimentação, recursos humanos, energia e, implícito, méto- dos de armazenamento e sistemas de gerenciamento. Portanto, um sistema de armazenagem é aquele subsistema da adminis- tração de materiais que se responsabiliza por receber os materiais, inspecio- ná-los e controlar sua qualidade, movimentação interna, e transporte em di- reção aos clientes. Além disso, realiza o armazenamento propriamente dito, a guarda e conservação dos materiais, conforme visto na figura a seguir. Em síntese, é o subsistema responsável pela recepção dos materiais, seu armazenamento e distribuição. Costuma-se dizer que, para saber a “saúde” de uma organização, basta visitar o seu sistema de armazenagem e verificar o fun- cionamento do mesmo. Se seu funcionamento for dinâmico e vibrante é porque a organização está obtendo os resultados que deseja. Porém, caso contrário, é provável que se possa deduzir que a organização enfrenta dificuldades. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Recebimento, inspeção e controle da qualidade Armazenamento Movimentação e transporte Subsistema armazenamento Figura 3 – O subsistema armazenamento. Sistemas de armazenagem 121 Portanto, as atividades desempenhadas no subsistema armazenamento são como o “coração” da organização pulsando. Se a pulsação for forte e re- gular as “coisas vão bem”, caso contrário, pode ser que a organização esteja enfrentando problemas. Segundo Ballou (1993), a armazenagem, juntamen- te com o manuseio de mercadorias, é um dos componentes essenciais dos sistemas logísticos, uma vez que os seus custos podem representar (depen- dendo do ramo de atividade) de 12 a 40% de todos os custos logísticos de uma empresa. Um sistema de armazenamento implica a existência de espaço físico para promover a guarda dos materiais. Segundo Ballou (1993), são quatro os mo- tivos básicos pelos quais se mantém espaço físico de armazenagem: redução de custos de transporte e de produção; � coordenar suprimento e demanda; � atender às necessidades da produção; e � atender demandas da área de marketing. � Uma outra razão para a armazenagem podem ser questões tributárias. Na continuação se aprofundam essas razões pelas quais se mantêm espaços físicos para armazenamento. Razões para a manutenção de espaços de armazenagem Basicamente, os espaços de armazenagem destinam-se à manutenção de estoques. Porém, as razões pelas quais se mantêm os estoques são distintas e se configuram dentro de uma, ou mais, das razões expostas acima. Sem espaços adequados, os estoques podem se deteriorar e, com isso, não atingir seus objetivos básicos: equilibrar os fluxos de negócios ou atender às neces- sidades dos clientes. Portanto, a existência dos espaços físicos é plenamente justificada e auxilia a organização a atingir seus objetivos de negócios. Vejamos com maiores detalhes cada uma das razões para a manutenção dos espaços de armazenamento. 122 Sistemas de armazenagem Reduzir custos de transporte e de produção Quando se mantém espaço físico para estocar, é possível comprar maio- res volumes e, com isso, conseguir descontos no transporte, pelo volume que se transporta, uma vez que cargas completas sempre são mais baratas do que cargas fracionadas. Outra possibilidade é centralizar a fabricação e dispersar os estoques para pontos próximos aos locais de demanda, confor- me se percebe no exemplo da empresa “Móveis Beta”. Exemplo: a fábrica “Móveis Beta” produz móveis populares em fábrica lo- calizada no município de Rio Negrinho – SC e possui depósitos localizados em Porto Alegre – RS, Curitiba – PR, São Paulo – SP e Belo Horizonte – MG. Os seus custos médios mensais, relacionados com o exemplo em questão, estão expressos no quadro abaixo: Item de custo Entrega direta de Rio Negrinho – SC Entrega a partir dos 4 depósitos Alteração nos custos Custo de Produção R$350.000,00 R$310.000,00 (R$40.000,00) Custo de Transporte Para os depósitos Para o cliente local 0 R$35.000,00 R$35.000,00 R$210.000,00 R$125.000,00 (R$85.000,00) Custo de Estocagem R$10.000,00 R$55.000,00 R$45.000,00 Totais R$570.000,00 R$525.000,00 (R$45.000,00) Como é possível perceber, pelo exemplo, a redução nos custos, no valor de R$45.000,00, é compensadora, mesmo com o acréscimo nos custo de estocagem que a partir da fábrica são bastante reduzidos, uma vez que se aproveita uma estrutura já existente. Porém, como ocorre queda nos custos de produção (R$40.000,00) e nos custos de transporte com a distribuição para os clientes locais (R$85.000,00), é extremamente compensador manter os quatro depósitos regionalizados. Em síntese, os custos de transporte para os depósitos e de estocagem (que aumentam) são compensados pela queda nos custos de produção e de distribuição (transporte para os clientes). Coordenar suprimento e demanda Existem empresas que enfrentam o problema da sazonalidade (quando a demanda é maior que a produção em determinados períodos ou, ainda, quando ocorre o inverso, demanda menor que a capacidade de produção), conforme as figuras a seguir demonstram. Sistemas de armazenagem 123 Volume de produção/ Demanda Tempo Figura 4 – Demanda sazonal tipo A. Demanda Capacidade de produção Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. A figura permite perceber que, durante certo tempo, a capacidade de produção é bastante superior à demanda e, depois, passa a ser inferior. Isso obriga a empresa a produzir com sua capacidade de produção constante, formando estoques que serão utilizados no momento em que a produção passa a ter capacidade inferior à demanda. Outra situação é o inverso, ou seja, quando a empresa tem um período em que a produção é inferior à demanda, conforme se percebe na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Tempo Figura 5 – Demanda sazonal tipo B. Volume de produção/ Demanda Demanda Capacidade de produção Na verdade, a figura é uma espécie de continuação da anterior, uma vez que a sazonalidade é sempre cíclica, ou seja, repete-se ao longo do tempo. Porém, o importante é a compreensão da necessidade da formação de esto- ques nos períodos de queda da demanda para fazer frente aos períodos em que a demanda supera a capacidade produtiva da organização. São exemplos de sazonalidade as safras de frutas e legumes que obrigam as indústrias alimentícias a armazenar produção para atender à demanda nos período de entressafra. Outro exemplo são as indústrias de brinquedos e 124 Sistemas de armazenagem produtos natalinos que também enfrentam esse tipo de sazonalidade, obri- gando-se a formar estoque naqueles períodos nos quais a demanda é menor que sua capacidade produtiva. Em síntese, segundo Ballou (1993, p. 155), “toda vez que fica muito caro co- ordenar suprimento e demanda de forma precisa, são necessários estoques”. Atender às necessidades da produção A esse respeito, é necessário considerar dois aspectos, o primeiro diz res- peito à manutenção de estoques de insumos e matérias-primas necessários ao processo produtivo; o segundo aspecto está relacionado com caracte- rísticas da produção, ou seja, determinados processos produtivos exigem a manutenção de estoques de produtos aindaem elaboração, antes da sua disponibilização à área de marketing para o processo de distribuição. Atualmente, as principais indústrias do mundo, em praticamente todos os ramos industriais, têm procurado adotar o Just-In-Time (JIT1), visando diminuir ou eliminar a necessidade de manter estoques através de sincronização do su- primento com a demanda em termos de tempos e quantidades, de modo que as matérias-primas e/ou produtos acabados cheguem no momento em que sejam necessários. Porém, nem sempre isso é possível, sendo que alguns pro- cessos produtivos exigem que se mantenham estoques. Por exemplo, a indús- tria de laticínios exige que os queijos sejam mantidos durante certo período em estoque para serem “curados”, ou a indústria de bebidas que mantém pro- dutos acabados envelhecendo antes de serem disponibilizados ao mercado. Atender às demandas da área de marketing Um dos objetivos da área de marketing é disponibilizar os produtos rapida- mente aos clientes, uma vez que se agrega valor aos produtos ao disponibilizá- -los no lugar e na hora certos. Com isso, criam-se duas utilidades básicas: a utili- dade espacial (o produto no lugar certo) e a utilidade temporal (na hora certa). Segundo Bowersox e Closs (2001, p. 326): Como apoio ao escoamento da produção, os depósitos também possibilitam embarques, diretos a clientes, de sortimentos de produtos variados. Essa possibilidade também agrada à área de marketing, já que significa um aperfeiçoamento da capacidade de prestação de serviços. Ainda segundo os autores, o fornecimento direto de sortimento de pro- dutos apresenta duas vantagens: primeiro, entrega única de sortimento com- 1 JIT = filosofia de produ- ção baseada no modelo adotado pela Toyota® que objetiva estoques ociosos iguais a zero (ou próximos disso). Sistemas de armazenagem 125 pleto de produtos em carga consolidada reduz custos logísticos; e, segundo, produtos de baixo giro de estoque podem ter seus estoques diminuídos pela possibilidade de serem adquiridos como parte do sortimento completo em cargas consolidadas. Ou seja, quando se estocam os produtos próximos aos seus clientes, o nível de serviço é aumentando através de entregas mais rápidas. Por motivos tributários Uma última razão para a necessidade de espaços de armazenagem pode ser a redução de tributos incidentes sobre os produtos acabados. Muitas organizações, sobretudo em final de exercícios fiscais, podem optar pela manutenção dos produtos acabados em seus armazéns até o mo- mento efetivo da venda aos clientes finais para evitar a tributação incidente sobre os produtos (impostos). Como é possível perceber, são vários os motivos pelos quais as organiza- ções necessitam de espaços físicos para a manutenção de estoques. Esses espaços físicos são denominados armazéns, depósitos, almoxarifados, ou outras formas de denominação, dependendo do porte da organização. Para compreender os sistemas de armazenagem, é necessário conhecer as suas principais funções e as atividades ali desenvolvidas, de forma a co- nhecer as razões principais pelas quais se mantêm tais estruturas, sobre o que se discorre na continuação. Funções dos sistemas de armazenagem As funções de um armazém, dentro da administração de materiais, visam à prestação de serviço aos seus usuários ou clientes e a forma como os ar- mazéns são projetados é reflexo de tais serviços. Assim, as funções de um sistema de armazenagem podem ser resumidas, segundo Ballou (1993), da seguinte forma: abrigar estoques; consolidar cargas; realizar transferências e/ou transbordos; e agrupar itens de uma linha de produtos (realizar ativida- de de mixing). Para Bowersox e Closs (2001), as funções de um depósito são estratégicas e representam: 126 Sistemas de armazenagem vantagens econômicas decorrentes da consolidação de cargas, práti- � cas de break bulk e cross dock2, processamento/adiamento e da forma- ção de estoque; e vantagens de serviços, resultantes de estoque ocasional, sortimento, � combinação, apoio à produção e presença no mercado. Vejamos as funções dos sistemas de armazenagem sob cada uma dessas perspectivas. Abrigar estoques Este, provavelmente, é o uso mais óbvio dos sistemas de armazenamento: guardar os estoques que são gerados pelo desbalanceamento entre a oferta e a procura, protegendo-os e oferecendo vários serviços, como manutenção de registros para controle, realização de giro de estoques e de reparos que eventualmente sejam necessários. Consolidação O armazenamento proporciona uma vantagem econômica intrínseca que é a consolidação de cargas, uma vez que um sistema de armazenagem pode receber e consolidar produtos de várias origens, para enviar a um único clien- te em entrega única, conforme figura a seguir. Segundo Ballou (1993, p. 159), “se a mercadoria é originária de muitas fontes diferentes, a empresa pode economizar no transporte se as entregas forem feitas num armazém, onde as cargas são agregadas ou consolidadas e, então, transportadas num único carregamento até seu destino final”. Ainda segundo o autor, a consolidação de cargas é uma das atividades mais comum no suprimento de materiais. Cliente Armazém de consolidaçãoFornecedor B Fornecedor N Fornecedor A Figura 6 – Exemplo de operação de consolidação. (B O W ER SO X ; C LO SS , 2 00 1, p . 3 27 . A da p ta do .) 2 Tanto a operação de break bulk quanto a de cross dock são operações de transbordo de cargas em que se recebem cargas consolidadas e as transfe- rem, consolidadas ou não, para outros veículos. Sistemas de armazenagem 127 A atividade de consolidação tanto pode ser própria como contratada de empresas especializadas na realização dessa operação. Transferências e transbordos – desconsolidação Essa é uma operação oposta à consolidação e é uma das mais comuns atividades desenvolvidas nos armazéns, quando se fracionam (desagregam) quantidades recebidas de forma consolidada. Geralmente, essa operação é realizada em armazéns localizados regional- mente, próximos dos clientes, de forma que se recebem volumes consolidados (grandes volumes) e, nesses armazéns, são realizadas as operações de transferên- cia e/ou de transbordo. De forma usual são utilizados modais de transporte com grande capacidade de carga para a transferência consolidada a essas instalações e, então, realiza-se a transferência ou o transbordo para modais de transporte com capacidade de carga menor, conforme se percebe nas figuras a seguir. Figura 7 – Exemplo de operação de transferência. (B A LL O U , 1 99 3, p . 1 61 . A da p ta do .) FábricaArmazémCliente B Cliente N Cliente A 45 toneladas5 toneladas 6 toneladas 8 toneladas A figura 7 permite perceber que se receberam 45 toneladas no armazém e foram despachadas dezenove para os clientes, ficando armazenadas vinte e seis toneladas de produtos no armazém. Figura 8 – Exemplo de operação de transbordo. (B A LL O U , 1 99 3, p . 1 61 . A da p ta do .) FábricaArmazémCliente B Cliente N Cliente A 135 toneladas Transporte ferroviário 45 toneladas rodoviário 45 toneladas rodoviário 45 toneladas rodoviário 128 Sistemas de armazenagem A figura 8 mostra que cento e trinta e cinco toneladas que chegaram ao armazém foram transferidas aos clientes em três veículos distintos, caracteri- zando uma operação de transbordo, ou seja, a carga não ficou armazenada, sendo apenas transferida de um modal de transporte (no caso, o ferroviário) para outro (o rodoviário). Break bulk e cross dock Embora semelhante às atividades de consolidação, as operações de break bulk e cross dock não contam com formação de estoques. Ou seja, os esto- ques apenas passam pelas instalações de armazém. No depósito de break bulk ocorre a separação de pedidos individuais para entregas locais. Os carregamentos maiores (completos), desde a fábrica até o armazém, são efetuados de forma a permitir menores custos de transporte e facilitar o rastreamento das cargas. Na operaçãode cross dock são envolvidos mais de um fabricante, sendo que nas instalações de armazenagem chegam carregamentos completos de vários fabricantes e, à medida que os produtos são recebidos, são separados por clientes e literalmente movimentados de uma doca de carregamento/ descarregamento à outra, para serem carregados nos veículos que os levarão até os clientes finais. Trata-se de uma operação semelhante à de transferência, com a diferença de que não permanecem estoques nos armazéns. Agrupamento de itens ou sortimento (atividade de mixing) Essa é uma operação de suporte a estratégias de produção localizada para empresas com extensas linhas de produtos, em que fabricantes pro- duzem apenas um produto ou um grupo pequeno em fábricas especializa- das, despacham essa produção para uma instalação de armazenagem cen- tral, onde agrupam suas linhas completas de produtos. Depois, os itens são agrupados de acordo com os pedidos recebidos dos clientes. Essa estratégia pode aumentar os custos de armazenagem. Porém, os custos de produção, pela especialização das fábricas, são reduzidos em virtude da fabricação de lotes maiores para menos itens em cada uma das plantas. Sistemas de armazenagem 129 Processamento/adiamento Essas são instalações preparadas para realizar operações leves (simples) de processamento ou fabricação. São instalações destinadas a suportar es- tratégias de adiamento ou postergação da produção. Por exemplo, um fabricante de equipamentos de informática, adotando a estratégia de fabricar na China ou na Índia (com custos de produção mais baixos), comercializando esses produtos na Europa, poderá instalar um ar- mazém em um país europeu. Receberá os equipamentos sem embalagens, em contêineres, e somente ao receber os pedidos dos clientes providenciará a atividade de embalar os produtos e anexar seus manuais nos respectivos idiomas dos países para que se destinem. Formação de estoque sazonal ou ocasional São pequenas instalações de armazenagem localizadas próximas dos mercados consumidores para possibilitar que fábricas com capacidade de produção limitadas ou fortemente sazonais posicionem seus estoques pró- ximos a mercados estratégicos. Com isso, é possível atender a pedidos de clientes durante os períodos críticos de comercialização. Os fornecedores de defensivos e implementos agrícolas, por exemplo, utilizam armazenagem ocasional para colocar seus produtos mais perto de agricultores sensíveis à prestação de serviço, na época do plantio. Após o período de venda sazonal, os estoques são recolhidos para armazéns centrais. (BOWERSOX; CLOSS, 2001, p. 329) Geralmente, essas instalações mantêm uma pequena variedade de pro- dutos, em um grande número de depósitos, para atender a mercados espe- cíficos por períodos de tempo limitados. Combinação Um armazém dessa natureza recebe cargas completas de diferentes fa- bricantes, conforme a figura a seguir, onde os produtos são descarregados e combinados com outros para o atendimento de clientes ou mercados distintos. 130 Sistemas de armazenagem Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Cliente A B C Armazém de combinaçãoFabricante B Fabricante N Fabricante A Figura 9 – Exemplo de operação de combinação. Outra possibilidade é combinar os carregamentos oriundos das fábricas com estoques previamente armazenados de forma regular, uma vez que “depósitos de transbordo que fazem combinação de produtos em trânsito contribuem para a redução efetiva de estoque em sistemas logísticos” (BO- WERSOX; CLOSS, 2001, p. 329). É uma operação de armazenagem que possibilita separação de pedidos de acordo com especificações dos clientes e, portanto, é bastante utilizado por grandes redes varejistas ou por grandes atacadistas. Apoio à produção Também são instalações de armazenagem com alguma capacidade para realizar operações leves (simples) de fabricação, “para alimentar setores de montagem com materiais processados, componentes e subconjuntos, de forma econômica e em tempo hábil” (BOWERSOX; CLOSS, 2001, p. 329). A lógica dessa armazenagem é possibilitar fluxos constantes para os setores de montagem das indústrias, de componentes e materiais. Outra possibilidade é a manutenção de estoques de segurança quando os ciclos de produção são longos ou existem variações significativas no uso desses materiais. Presença no mercado Embora não existam evidências científicas que corroborem a existência de instalações de mercado com essa finalidade, os responsáveis pela área de marketing são fervorosos defensores desses armazéns, uma vez que eles permitem responder mais rapidamente às demandas dos clientes. Sistemas de armazenagem 131 São armazéns instalados com a finalidade de aumentar a capacidade de resposta às necessidades dos clientes, proporcionando entregas mais rápi- das do que se fossem efetuadas de depósitos mais distantes. A lógica desses armazéns é criar a utilidade temporal através de maior rapidez de entrega. Como se viu, são diferentes tipos de instalações de armazenagem para atender a diferentes propósitos organizacionais. As instalações podem aten- der a uma ou várias dessas finalidades simultaneamente, desenvolvendo di- versas atividades como veremos a seguir. Opções de armazenagem e tipos de armazéns Ao perceber a necessidade de armazenagem, uma organização pode deci- dir entre diferentes opções, quais sejam: construir seu próprio armazém; alugar espaço físico em armazéns de terceiros; alugar um armazém já existente; ou manter seus estoques em trânsito. Vejamos cada uma dessas alternativas. Armazéns próprios Um armazém próprio, embora represente custos, pode representar algu- mas vantagens competitivas para a organização que o possui sobretudo se for utilizado como parte da estratégia da organização. Não se pode deixar de considerar, contudo, que os custos de armazenagem são sempre elevados. A decisão por instalações próprias decorre de uma taxa de retorno que seja atrativa, uma vez que essa opção implica o investimento de capital. Porém, as vantagens daí advindas também são atrativas, quais sejam: Quadro 1 – Vantagens de armazéns próprios Aumento de eficiência nas operações. � Aumento do nível de serviço. � Diminuição dos custos de armazenagem quando a taxa de utilização do � armazém é elevada. Possibilidade de transformar o espaço de armazenagem em espaço de � manufatura, se necessário. Utilização do armazém como base para escritório de vendas. � 132 Sistemas de armazenagem Aumento do controle sobre as operações de armazenagem. � Utilização do armazém como garagem da frota de veículos ou departa- � mento de transportes. Utilização do armazém como departamento de compras. � Quando a organização opta por construir seus próprios armazéns é ne- cessário estabelecer uma relação custo X benefício para tomar a melhor decisão. Alugar espaço em armazéns de terceiros Existem diferentes serviços de locação de espaço físico em áreas de ar- mazenagem, uma vez que os operadores logísticos se especializam nesse tipo de atividade, prestando todos os serviços acessórios, como controle do estoque, movimentação, picking3 etc. Essa opção é válida, sobretudo, para organizações que necessitam expan- dir suas áreas de armazenagem enquanto constroem espaços próprios, ou que precisam contratar espaço físico adicional por curtos períodos de tempo (em função de sazonalidade, por exemplo). Outra hipótese ocorre com organizações importadoras que alugam espaço em armazéns alfandegados, o que lhes possibilita pagar o imposto de importação apenas na medida da liberação dos produtos para sua linha de produção ou para comercialização. Alugar armazém Trata-se de uma opção intermediária entre armazém próprio ou aluguel de espaço em armazéns existentes. A decisão pelo aluguel de um armazém inteiro, geralmente, envolve a or- ganização em compromissos de longo prazo, diferentemente da opção de alugar apenas espaços em armazéns gerenciados por terceiros. A vantagem de alugar todo o armazémestá no gerenciamento próprio dos estoques, com todas as operações sendo executadas por pessoal da própria organização. 3 Picking é a atividade de separação de pedidos para despacho. Sistemas de armazenagem 133 Manter estoques em trânsito Essa é uma operação relacionada com o tempo durante o qual os mate- riais permanecem nos veículos de transporte (tempo de trânsito). Segundo Ballou (1993, p. 167), “é um tipo especial de armazenagem que requer co- ordenação precisa com a escolha do modal de transporte”, pois diferentes opções de transporte representam tempos de trânsito diferenciados, possi- bilitando escolher um modal que reduza substancialmente ou mesmo elimi- ne a necessidade de armazenagem convencional. São diferentes as possibilidades de armazenagem que as organizações podem adotar. Tudo depende das características dos materiais a serem ar- mazenados e/ou da estratégia adotada pela organização. Tipos de armazéns Existem diferentes tipos de armazéns, conforme os produtos que são alo- cados nesses espaços, e cada um oferece serviços específicos e característi- cos. Assim, podem ser encontrados os tipos que a seguir se descrevem, entre outros. Armazéns para granéis São estruturas de armazenagem que contam com recursos para manu- seio e armazenagem de produtos sob forma de granéis, como petróleo e seus derivados, outros produtos químicos líquidos, xaropes etc. Armazéns para commodities São aquelas estruturas de armazenagem cujos serviços são limitados a alguns tipos de mercadorias-padrão de baixo custo e fáceis de serem obtidas (commodities), como madeira, grãos (soja, arroz, milho, café etc.), algodão, fumo etc. Armazéns frigorificados São estruturas de armazenagem refrigeradas que servem para a guarda de produtos perecíveis se expostos a temperaturas elevadas. Como contam com capacidade de regulagem da temperatura, permitem que se armaze- 134 Sistemas de armazenagem nem produtos como frutas, vegetais, comida congelada, carnes (aves, suínos, bovinos etc.) e alguns produtos farmacêuticos como vacinas, por exemplo. Armazéns para utilidades domésticas e mobiliário Geralmente, as utilidades domésticas e o mobiliário exigem equipamen- tos de movimentação e estruturas diferenciados para garantir sua integrida- de física e melhor gerenciamento. Assim, esse tipo de armazém é um arma- zém altamente especializado. Armazéns gerais Também chamados de armazéns de mercadorias em geral, são instala- ções que armazenam uma ampla gama de produtos, não exigindo facilida- des ou recursos especializados como os tipos anteriores exigem. Atividades nos sistemas de armazenagem O funcionamento de um depósito bem gerenciado implica a execução de diferentes atividades, que podem ser assim resumidas, segundo Arnold (1999): Recebimento de produtos � – é o sistema de armazenagem que realiza o aceite dos produtos que chegam através de transportadoras ou da fábrica anexa. Com isso, o sistema de armazenagem assume a respon- sabilidade pelos materiais e, portanto, deve: checar os produtos com um pedido de material ou com o conhecimento de transporte4; confe- rir as quantidades; verificar a existência de danos e, caso positivo, fazer os relatórios devidos; e inspecionar os materiais, se necessário. Identificação dos materiais � – todos os itens recebidos devem ser identificados pelo número de unidade de armazenamento adequada, e a quantidade recebida deve ser registrada em sistema apropriado. Despacho de produtos para armazenamento � – após recebidos e identificados, os materiais devem ser separados e guardados no local designado. Guarda dos produtos � – os materiais são mantidos no estoque com proteção adequada até o momento em que sejam requisitados. 4 Conhecimento de trans- porte é o documento emiti- do pelo transportador para a operação de transporte Sistemas de armazenagem 135 Realização do � picking – quando requisitados, os materiais devem ser selecionados, separados e conduzidos até uma área específica para a preparação. Preparo de remessas � – os materiais que integram um único pedido de- vem ser reunidos e conferidos para evitar omissões ou erros de picking. Os registros dos pedidos devem ser atualizados para a baixa do estoque. Despacho de remessas � – depois que os pedidos são devidamente acondicionados em embalagens adequadas, os documentos de embar- que são preparados e os materiais alocados em veículos de transporte. Manutenção de sistemas de informações � – cada item de estoque deve ter seu registro próprio, indicando quantidades em estoque, quantida- des recebidas, quantidades liberadas e sua localização no armazém. Como se viu, um sistema de armazenagem é um conjunto de recursos que devem ser adequadamente gerenciados pela administração de mate- riais para contribuir com os objetivos organizacionais. Ampliando seus conhecimentos Armazenagem de materiais (FRANCISCHINI; GURGEL, 2002, p. 213-214) Equipamentos modernos e funcionando com o máximo de potencial, um sistema de movimentação adequado às necessidades que o produto a ser tra- balhado irá exigir, um método racional para a manutenção do nível de custos sem afetar sua produtividade, um complexo grau de mecanização das mais diversas unidades de trabalho são fatores que certamente modificarão o an- damento do produto na empresa. Porém, são as condições do trabalho que determinam as possibilidades reais de melhoria. Elas servem de base para a escolha do sistema de armaze- nagem de cargas e da operação do almoxarifado. Não basta possuir um grande capital e um sistema moderno para estoca- gem se, na aplicação do sistema, não se atender às expectativas e necessida- des do referido produto. 136 Sistemas de armazenagem Pequenos problemas vão ocorrer, pois fatores externos podem interferir diretamente nos métodos dos sistemas de armazenagem. O desenvolvimen- to futuro, por exemplo, torna-se um problema, uma vez que, na maioria das vezes, abdica do uso de certos métodos atualmente aplicados com sucesso. Máquinas ultrapassadas e com pequeno aproveitamento só tendem a im- pedir a expansão dos programas de produção, tornando-os antieconômicos, no caso da redução de vendas. Um equipamento mal utilizado pode trazer prejuízos imensos no processo de produção. No entanto, fatores diretamente relacionados com a produção são os mais importantes, pois tornam-se presentes em todos os casos e restringem a seleção a um número limitado de equipamentos. Nesse sentido, os mais importantes são: o material transportado, o custo da modificação e a natureza da produção. Outro fator preponderante no que se refere a métodos para manuseio e es- tocagem são as características físicas dos materiais. Por exemplo, gases devem ser manipulados em contendores adequados e resistentes à pressão; líquidos e semilíquidos são contidos e transportados em sistemas compatíveis com sua utilização econômica. Mais uma vez, as condições do ambiente associadas à característica do produto se fazem presentes no processo de produção. Atividades de aplicação 1. Explique o que é um armazém e quais são suas finalidades principais. 2. Analise as afirmativas abaixo e assinale com a letra V se forem verda- deiras ou com a letra F se estiverem incorretas (falsas). É correto afirmar que um sistema de armazenagem é como o )( “pulmão” de uma organização. Armazenar significa guardar estoques, que funcionam como )( reguladores dos fluxos de negócios. O )( lead time é o tempo que decorre desde o momento em que um pedido é efetuado por um dos elos da cadeia de suprimentos até o instante em que é entregue. Sistemas de armazenagem 137 São motivos básicos pelos quais se mantém espaço físico )( de armazenagem: redução de custos de produção e de armazenagem; coordenar suprimento e oferta; atender às necessidades da produção; atender necessidades da área de marketing; e questões tributárias. 3. A adoção de uma estratégia de manter estoques em trânsito é interes- sante para um processode produção Just-In-Time (JIT)? Por quê? Gabarito 1. É uma instalação física com equipamentos de movimentação, estrutu- ras, métodos e pessoas, processos, sistemas destinados à manutenção de estoques em condições seguras para serem entregues a clientes / usuários, no momento em que sejam necessários. 2. F, V,V, F 3. Sim, é uma estratégia interessante porque tais estoques não interfe- rem no fluxo de materiais dentro do processo produtivo. 138 Sistemas de armazenagem Dimensionamento e controle de estoques Considerações iniciais Uma das perguntas mais importantes a serem respondidas pela adminis- tração de materiais é: Quanto estoque manter? Essa é a questão-chave a ser respondida para que se dimensione adequadamente o tamanho dos estoques a serem mantidos pelas organizações. Não se pode esquecer que os estoques são todos os materiais e suprimentos que uma organização mantém para sua atividade de comercialização ou para suprir o processo de produção. Também não se pode esquecer a expressão comum nas organizações que “estoque custa dinheiro”, uma vez que manter estoque implica vários custos às empresas. Segundo diversos autores, em termos financeiros, os estoques para as empresas de manufatura podem representar de 20 a 60% dos ativos totais ou de 12 a 40% dos custos logísticos totais. A existência dos estoques significa que existem custos de estocagem que aumentam os custos opera- cionais e, como consequência, diminuem os lucros. Vejamos o impacto da existência dos estoques: Quadro 1 – Exemplos de custos associados à existência de estoques Custo de armazenagem – quanto mais estoque, maior necessidade de � área física, implicando custos de aluguel ou de capital. Custo de manuseio – maiores estoques, mais necessidades de pessoas e � equipamentos para manuseio e movimentação, significando custos de mão de obra e de equipamentos. Custo de perdas – sempre existe um determinado percentual de danos � aos materiais decorrentes da armazenagem, manuseio ou movimenta- ção, representando custos de perdas. Custo de obsolescência – elevados níveis de estoques significam maio- � res possibilidades de que os materiais se tornem obsoletos, implicando maiores custos de materiais que não serão mais utilizados ou comercia- lizados. 139 140 Dimensionamento e controle de estoques Furtos e roubos – a existência dos estoques implica o risco de furtos ou � roubos, levando a custos com seguros, instalações e equipamentos de proteção etc. Custos do valor do estoque – são os custos representados por juros pa- � gos a fornecedores ou o custo do capital (oportunidade). Custo de obtenção de estoques – são os custos relacionados com as � compras, recepção, inspeções etc. Como se pode perceber, os estoques exercem um impacto significati- vo sobre os custos operacionais das organizações. Porém, a falta de esto- ques também implica custos (de perda de vendas, perda de imagem etc.) e, portanto, é necessário dimensionar adequadamente os volumes de es- toques a serem mantidos pela organização, visando atingir os objetivos de lucratividade. Como dimensionar os estoques As decisões sobre o dimensionamento dos estoques passam por dois aspectos básicos, em primeiro lugar, a afirmativa de que “estoque custa di- nheiro” é decorrente da necessidade de se imobilizar capital de giro para a manutenção dos estoques; e, em segundo lugar, o nível de serviço a ser ofe- recido pelos estoques que a organização deseja prestar aos seus usuários ou clientes. Essa questão pode ser percebida na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. 10 8 6 4 2 1 99 98 97 96 95 94 Capital de giro em estoques Redução de custos Atendimento aos clentes Nível de serviço (%) Capital de giro Nível de serviço Figura 1 – Conflito entre nível de serviço e imobilização de capital de giro. Dimensionamento e controle de estoques 141 A figura permite perceber que uma boa administração do capital de giro implica reduzir o montante aplicado em estoques para um mínimo possível. Por outro lado, garantir níveis de serviço implica melhorar o atendimento aos clientes, o que representa um conflito, uma vez que para aumentar o nível de serviço é preciso aumentar também os níveis de estoques (consu- mindo mais capital de giro). O capital de giro em estoques é entendido como o valor total de recursos financeiros investidos em materiais (matérias-primas, produtos em proces- so ou produtos acabados), lembrando que capital de giro, de forma ampla, é entendido como o montante de recursos financeiros que se encontram aplicados nos chamados ativos circulantes (disponibilidades, estoques e créditos). Por outro lado, o nível de serviço é compreendido como um desempe- nho da qualidade de atendimento aos usuários/clientes da área de materiais, em termos do atendimento que recebem em função da existência (ou não) de estoques, em termos de tempo de ciclo de pedido, de porcentagens de quantidades atendidas, ou de combinações desses objetivos. Segundo Bowersox e Closs (2001, p. 223), as [...] decisões que envolvem estoques são de alto risco e de alto impacto. O comprometimento com determinado nível de estoque e a subsequente expedição de produtos para mercados, em antecipação a vendas futuras, acarretam várias atividades logísticas. Sem um estoque adequado, a atividade de marketing poderá detectar perdas de vendas e declínio da satisfação dos clientes. Por outro lado, o planejamento de estoque também tem papel crítico para a produção. Ou seja, de um lado, a falta de estoques pode significar insatisfação de clientes ou paradas do processo produtivo, de outro lado, estoques elevados implicam custos e imobilização de capital de giro. Então, como resolver o dilema do dimensionamento dos estoques? Como responder à pergunta de “quanto estoque manter”? A resposta a essa questão implica a formulação de políticas de estoques que exigem conhecer o papel deles para o marketing e a produção das orga- nizações, buscando reduzir seus volumes sem afetar os níveis de serviço. Isso significa estabelecer uma política de estoque, a partir de previsões de demanda, conforme se verá na continuação. 142 Dimensionamento e controle de estoques Política de estoque e previsão de demanda Política de estoque Uma política de estoque implica o estabelecimento de normas sobre o que e quando comprar ou produzir e em que quantidades. Inclui ainda de- cisões relacionadas com o posicionamento dos estoques, ou seja, alocá-los nas fábricas ou em centros de distribuição (armazéns). Uma alternativa é alocar os estoques o mais próximo possível dos clien- tes, em armazéns descentralizados, localizados nos mercados preferenciais da organização, para atender aos clientes no momento de suas demandas (criando, assim, utilidade temporal). Outra alternativa é retardar a distribuição dos estoques, deixando-os nas plantas produtivas (fábricas) e somente disponibilizando-os ao mercado no momento em que ocorrem os pedidos. Na primeira alternativa antecipam-se os estoques como forma de resposta à demanda, na segunda alternativa os estoques são substituídos por um melhor gerenciamento das informações, ou seja, a organização mantém um sistema de informação de mercado em que monitora as necessidades dos clientes e implanta sistemas logísticos de resposta rápida para atender à demanda no momento em que ela ocorre. Uma outra questão relacionada com a política de estoques diz respeito às decisões de gerenciamento. A primeira opção é o gerenciamento centra- lizado, mantendo uma interdependência de estoque entre todos os centros de distribuição (armazéns), o que exige elevado nível de coordenação e de comunicação, suportado por tecnologia de informação. A segunda opção é manter gerenciamento de estoque descentralizado, independente, em cada centro de distribuição (armazém). Qualquer que seja a alternativa adotada, o controle deve ser sempre centralizado. Previsão de demanda Para responder à questão “quanto estoquemanter?”, é necessário saber an- tecipadamente qual será a demanda para o material. Isso significa que é ne- cessário prever a demanda a partir das necessidades dos usuários ou clientes. A previsão de demanda é uma atividade essencial para qualquer organi- zação, uma vez que vai determinar o planejamento de todas as suas unidades Dimensionamento e controle de estoques 143 funcionais. Previsão de demanda é o insumo básico para o planejamento e o controle de todas as áreas funcionais da organização, como a administração de materiais, o marketing, a produção, finanças etc. Segundo Ballou (2006, p. 242), “cada uma das áreas funcionais tem problemas específicos de previ- são. A previsão logística abrange tanto a natureza espacial quanto a natureza temporal da demanda, a extensão de sua variabilidade e seu grau de alea- toriedade”. Ou seja, é preciso saber onde a demanda vai ocorrer, quando vai acontecer, e quanto ela variará e de que forma isso acontece. Saber onde (espaço) localizar os estoques e quando (tempo) acontece- rá o volume de demanda é fundamental para uma boa administração de materiais. A localização espacial da demanda é essencial para que se possa planejar onde localizar as instalações de armazenagem, bem como determi- nar a quantidade correta de estoques ao longo das estruturas de armazena- gem existentes na cadeia de abastecimento e, ainda, definir quais os meios (modais) de transporte mais adequados. Assim, as técnicas de previsão de demanda devem ser aquelas que melhor reflitam as diferenças geográficas que influem sobre os padrões de demanda. Para tanto, é necessário compreender os diferentes tipos de de- mandas existentes e quais os métodos que podem ser utilizados para prever a demanda. De uma forma genérica, é possível afirmar que existem demandas regu- lares e irregulares, dependentes e independentes e esses tipos de demanda é que vão determinar qual o melhor método de previsão a ser adotado pela organização. Vejamos cada um desses tipos. Demanda regular A demanda é dita regular quando os padrões de demanda podem ser di- vididos em componentes de tendência que apresentem uma regularidade, sejam sazonais ou aleatórios, desde que a parte de variações aleatórias seja uma parte pequena das demais variações na série temporal considerada. A figura a seguir demonstra um modelo de demanda regular aleatório em que a variação das vendas não se afasta muito da média de vendas ao longo do tempo, demonstrando que as previsões decorrentes são muito próximas da demanda real. Assim, as variações aleatórias são muito pequenas e a con- fiabilidade das previsões é boa. 144 Dimensionamento e controle de estoques Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Vendas em R$ Legenda: = Vendas reais Tempo Figura 2 – Modelo de padrão de demanda regular aleatório sem tendência ou sazonalidade. Vendas médias Outra situação de demanda regular possível é quando existe uma ten- dência de crescimento das vendas sem sazonalidade, conforme demonstra a figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Vendas em R$ Vendas médias Legenda: = Vendas reais Tempo Figura 3 – Modelo de padrão de demanda regular com tendência, sem sazonalidade. Por fim, existe uma situação em que a demanda apresenta regularidade mesmo diante de sazonalidades. Assim, é possível projetar o comportamento da demanda através de médias históricas, conforme se percebe na figura a seguir. Dimensionamento e controle de estoques 145 Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Vendas em R$ Legenda: Vendas reais Tendência das vendas Vendas de tendências e sazonais continuadas Tempo Figura 4 – Modelo de padrão de demanda aleatório com tendência e sazonalidade. Como se percebe, embora o comportamento da demanda seja diferen- ciado em cada caso, existe sempre uma regularidade no comportamento da demanda. Daí o porquê da denominação demanda regular. Demanda irregular A irregularidade acontece quando a demanda é intermitente em termos de um baixo volume geral e da incerteza em relação a quando a demanda ocorrerá e quais quantidades serão demandadas. A demanda irregular acontece no início e no final do ciclo de vida dos produtos1, quando são demandados por poucos clientes que se encon- tram espalhados em um número elevado de pontos de distribuição (geo- graficamente). A figura a seguir demonstra o comportamento da demanda irregular. 1 Ciclo de vida do produ- to são os estágios pelos quais os produtos passam ao longo de sua existên- cia, começando na pes- quisa e desenvolvimento, introdução, crescimento, maturidade e terminando com o declínio e retirada de mercado. 146 Dimensionamento e controle de estoques Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Vendas em R$ Tempo Figura 5 – Exemplo de um padrão de demanda irregular. Como a figura permite perceber, a demanda irregular não apresenta um padrão de comportamento, sendo completamente aleatória. Demanda dependente A demanda dependente, como seu nome indica, deriva de determina- ções estabelecidas em programação de produção de outros produtos. Por exemplo, a quantidade de novos motores a ser encomendada de um forne- cedor será resultado do número de geladeiras que um fabricante colocará na sua linha de produção. Portanto, a previsão de necessidades a partir de demanda dependente resulta em perfeição de previsão, posto que a demanda do produto final é conhecida com exatidão e antecedência. Demanda independente A demanda independente é a mais usual e é aquela gerada a partir de um número elevado de clientes que fazem compras individuais de parte do mix de produtos distribuídos pela organização. Para a demanda independente, a maioria dos métodos de previsão esta- tística costuma ser eficiente e com elevado grau de confiabilidade. Conhecendo-se os tipos de demanda, é necessário conhecer os métodos para prever essa demanda, conforme se verá na sequência. Métodos de previsão de demanda Como vimos, são diferentes os tipos de demanda, o que pressupõe a existência de diferentes métodos para se prever essa demanda. Os métodos Dimensionamento e controle de estoques 147 existentes se dividem em três categorias: projeção de séries históricas, qua- litativos e causais. Cada um dos métodos, dentro de cada categoria, apresenta diferentes graus de exatidão no que se refere à exatidão relativa para previsões de longo e de curto prazos, no nível de sofisticação quantitativa utilizado e a base lógica da qual a previsão é derivada, em termos de dados históricos, opiniões de especialistas ou estudos. A seguir se apresentam alguns dos mé- todos para previsão de demanda, entre os mais utilizados e alguns de menor uso pelas organizações, embora sejam todos válidos a seu modo. Média móvel Trata-se de um método para um curto prazo no horizonte de planejamento. É um método estatístico em que se escolhe um período de tempo e cal- cula-se a sua média aritmética simples (que eventualmente, também pode ser ponderada). Essa previsão deve ser recalculada constantemente, de acordo com o período escolhido (pode ser diário, semanal, quinzenal etc), sempre despre- zando os valores mais antigos, visando eliminar os efeitos da sazonalidade e irregularidade da demanda. Exemplo: Considere seis períodos: Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho 1 000 1 500 1 500 1 800 1 900 2 000 Com esse método, pode-se escolher apenas os três últimos períodos: abril, maio e junho e teremos: 1 800 + 1 900 + 2 000 3 = 1 900 Ou seja, desprezam-se os períodos mais antigos. É móvel porque pode- mos escolher, dos seis períodos, aqueles que quisermos. E pode ser ponde- rada se atribuirmos pesos aos períodos. Decomposição de séries de tempo É um método com um horizonte de planejamento de curto para médio prazo (de três a seis meses), sendo muito eficiente para identificar pontos 148 Dimensionamento e controle de estoques de mudança. Trata-se de decompor uma série de tempo em componentes normais, de tendência e sazonais. Ponderação exponencialTrata-se de técnica semelhante à da média móvel, em que se atribuem pesos aos meses escolhidos (ou outro período de tempo), sendo que os períodos mais recentes devem receber maior peso. A nova previsão que se obtém é muito semelhante à anterior, acrescida de parcela do erro anterior de previsão. Esse método considera a tendência e a variação sazonal na série de tempo. Também tem um horizonte de planejamento de curto prazo. Projeções de tendência É uma técnica que estabelece uma linha de tendência, utilizando-se de uma equação matemática e projetando-a para o futuro através da equação. O horizonte de planejamento é de curto para médio prazo. Modelo de regressão É uma técnica que correlaciona demanda e outras variáveis que podem explicar, ou “causam”, a demanda. Selecionam-se as variáveis que sejam con- sideradas estatisticamente significativas. Em virtude da existência de pode- rosos recursos computacionais, na atualidade, esse método é um dos prefe- ridos para determinação de demanda. Seu horizonte de planejamento é de curto para médio prazo. Método Delphi Tem seu nome em homenagem ao Oráculo de Delphos e consiste em um painel de especialistas que é indagado através de vários questionários, em que as respostas a um deles são utilizadas para a elaboração do seguinte. Qualquer conjunto de informações disponível para alguns especialistas é, na sequência, repassado aos demais, permitindo que todos acessem o conjun- to de informações para previsão. Através desse método elimina-se o efeito cascata que ocorre na opinião de maiorias. Seu horizonte de planejamento é de médio para longo prazo. Dimensionamento e controle de estoques 149 Painel de consenso Também apresenta um horizonte de planejamento de médio para longo prazo e é uma técnica baseada no ditado popular de que “várias cabeças pensam melhor que uma”. O método pressupõe a discussão das ideias de todos e a comunicação é incentivada. As solicitações de opiniões de executivos são incluídas nessa categoria. É importante ressaltar que, às vezes, as previsões são influenciadas por fatores sociais e podem não refletir um consenso real. Estimativas de equipes de vendas Uma vez que os vendedores se encontram próximos dos clientes, conhe- cendo suas características e necessidades, estando em posição excelente para prever as demandas futuras dos clientes, é uma técnica com horizonte de planejamento de curto para médio prazo. Pesquisa de mercado É o método mais utilizado pelo marketing. Trata-se de um procedimento sistematizado, formal e consciente, para analisar a evolução e testar hipóte- ses sobre os mercados nos quais as organizações atuam. Tem um horizonte de planejamento de médio para longo prazo. Analogia histórica Trata-se de técnica útil para produtos no início do ciclo de vida, uma vez que é uma análise comparativa do lançamento e crescimento das vendas de novos produtos similares. A previsão de demanda, portanto, baseia-se nos padrões de similaridade e tem um horizonte de planejamento de médio para longo prazo. Análise do ciclo de vida É uma técnica de análise e previsão do crescimento de produto novo com base nas “curvas S”. A curva S, tal como a curva ABC, é uma curva de aspecto particular e característico, apresentando a soma acumulada de recursos (ma- térias-primas, materiais auxiliares, financeiros etc) aplicados na realização de quaisquer atividades. Assume tipicamente a forma de “S” porque essa é a 150 Dimensionamento e controle de estoques aparência da soma acumulada (integral) de uma distribuição de valores que crescem no início e decrescem próximo ao fim de um período. As fases de aceitação do produto por grupos como os de inovadores, pri- meiros adotantes, maioria inicial, maioria tardia, e retardatários2, são essenciais para a análise. Seu horizonte de planejamento é de médio para longo prazo. Pesquisas de intenção de compra e de antecipação São pesquisas realizadas junto ao público-alvo da organização, visando determinar suas intenções de compra para determinados produtos ou per- mitindo inferir um índice que mensura o sentimento geral sobre o presente e o futuro, estimando até que ponto esse sentimento influirá nos hábitos de compra. Trata-se de técnica com horizonte de planejamento de médio prazo. Previsão colaborativa Também chamada de Collaborative Planning Forecasting and Replenish- ment ou Planejamento Colaborativo. É uma estratégia de planejamento combinado entre parceiros, onde ambos trabalham com uma previsão em comum, bem como condições acordadas para a comunicação e reposição de estoques. Seu horizonte de planejamento é o curto prazo. Segundo Arnold (1999), existem quatro princípios fundamentais a respei- to das previsões, que devem ser seguidos por todos que as elaboram: As previsões geralmente estão erradas – como trabalham com o fu- � turo, a não ser que se tenha uma bola de cristal, sempre existe uma margem de erro nas previsões. Toda previsão deve incluir sempre uma estimativa de erro – uma vez � que as previsões, geralmente, estão erradas, é necessário estimar qual o percentual de erro. Previsões são mais precisas para famílias ou grupos de produtos do � que para itens individuais – o comportamento de itens individuais é sempre mais aleatório que o comportamento de grupos. As previsões são mais precisas para horizontes de planejamento mais � curtos – horizontes de tempo mais próximos apresentam maior previ- sibilidade que os mais distantes, ou seja, existem menos incertezas em horizontes de tempo mais próximos. 2 Esses termos são uti- lizados para relacionar os consumidores que adotam um produto em cada um dos seus estágios do ciclo de vida. Dimensionamento e controle de estoques 151 Existem, ainda, outras técnicas que permitem realizar as previsões de venda, como modelos econométricos, análise espectral, previsões focadas, filtros adaptativos, simulações dinâmicas, resposta acurada, uso de redes neurais, caminhada aleatória etc., o que demonstra a complexidade da tarefa de dimensionar o estoque. Tendo sido determinado o estoque que a organização deverá manter, é necessário realizar um rigoroso controle sobre ele; é sobre o que se discorre na continuação. Controle de estoque Inicialmente, vamos diferenciar dois termos bastante utilizados na área de materiais: estoque e inventário. Embora as duas expressões se refiram à mesma coisa, os materiais existentes na organização são diferentes, na prática, por uma simples razão: nem sempre os materiais existentes na organização são iguais em termos das duas expressões. Isso ocorre porque quando nos referimos ao estoque, estamos falando do material físico em si, algo palpável, concreto. Por outro lado, quando usamos a expressão inventário, queremos nos referir às informações relacionadas aos estoques. Ou seja, inventário é a expressão para se referir aos controles informacionais relacionados aos esto- ques. Tanto que atualmente se usa a expressão inventário físico como sinôni- mo de estoque. Feito esse esclarecimento inicial, podemos continuar. Controle é uma função administrativa representada por um fluxo de infor- mações que possibilita a comparação entre os resultados obtidos e aqueles que foram planejados. Sendo um fluxo de informações, é necessário contar com características fundamentais a essas informações, que se inicia com o chamado ciclo de gestão da informação, representado na figura a seguir. Além disso, as informações resultantes devem apresentar algumas carac- terísticas essenciais, como: precisão – devem ser corretas e fiéis ao estado dos estoques; � validade – devem refletir exatamente o que se está controlando; � compreensão – as informações devem ser simples e de fácil entendi- � mento; oportunidade – também devem estar disponíveis no momento em � que são necessárias; 152 Dimensionamento e controle de estoques completude – as informações devem oferecer compreensão de todos � os aspectos envolvidos; e unidade e coerência – não devem oferecerredundância, sendo mutu- � amente exclusivas. Ou seja, as informações devem ser notórias, oportunas, consistentes e úteis; pois, sem tais características perdem seu significado. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. 6. Utilização 4. Armazenamento 3. Tratamento 5. Disseminação 2. Coleta 1. Determinação das necessidades Ciclo da Gestão da informação Figura 6 – Ciclo de gestão da informação. A figura permite perceber as etapas a serem seguidas para que se estrutu- re um bom sistema de gerenciamento das informações, facilitando com isso o controle das atividades da área de materiais (e, por extensão, de qualquer área funcional da organização). O ciclo de gestão da informação é a essência do que se chama, generica- mente, de gestão da informação. Ou seja, para se gerenciar de forma ade- quada as informações existentes em uma organização, é necessário primeiro determinar quais são as necessidades de informação que os usuários têm e terão no dia a dia. Depois, é preciso coletar essas informações (que podem ser encontradas, geralmente, na forma de dados brutos, dentro ou fora da organização). Uma vez de posse das informações, é necessário tratá-las da forma mais adequada, o que significa transformar os dados em informações, definir uma forma de apresentação (gráficos, tabelas, quadros, textos etc.) para facilitar sua compreensão pelo usuário. Depois, é necessário definir a forma como essas informações serão armazenadas (em que tipo de mídia: Dimensionamento e controle de estoques 153 papel, CD, DVD, disco rígido de computador etc.). Por fim, precisa-se definir como as informações serão disseminadas (para quem elas estarão disponí- veis, quando, de que forma etc.) e, então, acontecerá o seu uso, dando início a um novo ciclo. Segundo Francischini e Gurgel (2002, p. 148), “para que o controle de es- toque seja eficaz é necessário, portanto, que haja um fluxo de informações adequado e um resultado esperado quanto a seu comportamento”. Além disso, os autores enfatizam a necessidade da documentação do fluxo de in- formações, através das atividades mais usuais na área, conforme se percebe no quadro a seguir: Quadro 2 – Exemplos de documentos usuais na administração de materiais Documento De Para Finalidade (F RA N C IS C H IN I; G U RG EL , 2 00 2, p . 1 48 ) Requisição de compra Estoque Compras Solicitar a aquisição de determinado item para a reposição do estoque. Requisição de fabricação Estoque Produção Solicitar a fabricação de determinado item para a reposição do estoque. Pedido de cotação Compras Fornecedores Solicitar informações sobre as condições de fornecimento de determinado item (preço, prazo, embalagens etc.). Proposta ou cotação Fornecedores Compras Informar à empresa compradora as condições de fornecimento. Pedido de compra Compras Fornecedor Solicitar a entrega de item ao fornecedor que melhor atender às condições de fornecimento. Nota fiscal Fornecedor Estoque Formalizar, por meio de um documento legal, a entrega do pedido de compra. Requisição de material Usuário Estoque Formalizar o pedido de retirada de determi- nada quantidade de um item em estoque para consumo da empresa. Solicitação de inspeção Estoque Controle de qualidade Solicitar inspeções e ensaios para a verifica- ção dos requisitos especificados do produto entregue quando necessário. Liberação para uso ou consumo Controle de qualidade Estoque Informar a conformidade ou não do produto entregue aos requisitos especificados. Para Martins e Alt (2000, p. 156-160), existem diversos “indicadores de produtividade na análise e controle dos estoques, sendo os mais usuais: di- ferenças entre o inventário físico e o contábil, acurácia dos controles, nível de serviço (ou de atendimento), giro de estoques e cobertura dos estoques”, sobre os quais se discorre a seguir. 154 Dimensionamento e controle de estoques Inventário físico O inventário físico consiste na contagem física dos itens de estoque para conferência entre o estoque (físico) e os registros mantidos no controle dos estoques (inventário = informação), para que, em se encontrando diferen- ças, se procedam aos ajustes necessários conforme as normas contábeis e tributárias. Geralmente, existem duas formas para a realização do inventário físico: o inventário periódico e o rotativo. Inventário periódico É chamado de periódico pelo fato de que se faz a contagem física de todos os materiais existentes no estoque em determinados períodos. Geralmente, a periodicidade é no final do exercício fiscal, ou duas vezes por ano. Esse tipo de inventário atende às exigências contábeis e tributárias porque inclui todos os itens em estoque e é realizado sempre no final do exercício fiscal. Ou seja, para o inventário periódico existe uma periodicidade preesta- belecida, em que se faz a contagem física de cem por cento dos materiais estocados. Inventário rotativo Trata-se de contagens físicas realizadas permanentemente dos itens de estoque. A diferença é que não se realiza a contagem de cem por cento dos materiais existentes no armazém. Geralmente, se estabelece um cronograma de trabalho em que a cada trimestre se contam 100% dos itens Classe A, 50% daqueles na Classe B e de 5 a 10% dos classificados como C. Isso leva ao fato de que, no ano, os itens classe A serão contados pelo menos quatro vezes; os materiais classe B serão contados pelo menos duas vezes e aqueles classificados como C serão con- tados pelo menos uma vez ao ano. Acurácia dos controles Uma vez que se conclui o inventário, periódico ou rotativo, é possível cal- cular a acurácia dos controles. Acurácia pode ser entendida como o grau de Dimensionamento e controle de estoques 155 cuidado (apuro) com que os dados são tratados e mensura o percentual de itens corretos que foram contados, seja em termos de quantidade como em valor. As fórmulas para a acurácia são: Acurácia = Número de itens corretos Número total de itens ou Acurácia R$ = Valor dos itens corretos Valor total de itens Nível de serviço ou nível de atendimento O nível de serviço (ou de atendimento) é um indicador da eficácia do es- toque no atendimento às solicitações dos usuários ou clientes. Dessa forma, um indicador pode ser o número de requisições atendidas, nas especifica- ções, quantidades e prazos solicitados. Assim, pode-se calcular o nível de serviço da seguinte forma: Nível de serviço q = Número de requisições atendidas completas Número total de requisições recebidas Nível de serviço e = Número de requisições atendidas conforme especificado Número total de requisições recebidas Nível de serviço p = Número de requisições atendidas no prazo Número total de requisições recebidas Assim, o nível de serviço geral seria calculado através da multiplicação de cada um dos indicadores acima (NSq x NSe x NSp = NS geral). Por exemplo, suponhamos que uma organização tenha recebido no semestre 2 450 requi- sições de materiais e as atendeu da seguinte forma: 2 390 entregues com- pletas (com todos os itens solicitados), 2 420 foram entregues conforme as especificações, e 2 430 foram atendidas no prazo; teríamos, assim, a seguinte situação em termos de nível de serviço: 156 Dimensionamento e controle de estoques NSq = 2 390 2 450 ou 97,55% NSe = 2 420 2 450 ou 98,78% NSq = 2 430 2 450 ou 99,18% Com isso teríamos o seguinte nível geral: Nível de serviço geral = 0,9755 x 0,9878 x 0,9918 = 95,57% Ou seja, o nível de serviço teria apresentado uma eficácia de 95,57%. Giro de estoques O giro de estoques é uma unidade de medida que busca mensurar quan- tas vezes o estoque se renova em determinado período de tempo (ou quan- tas vezes o estoque “girou” naquele período de tempo). Geralmente, calcula- -se o giro dos estoques para o período de um ano. Portanto, o giro é um indicador de desempenho que indica a velocidade de renovação dos estoques durante um período de tempo. Esse indicador, tanto pode ser expressono valor global dos estoques (o mais usual), quanto pode ser calculado apenas para um item isolado (geralmente de Classe A) ou grupo de itens. Esse indicador é calculado pela fórmula: Giro no período = Demanda no período ( de saídas num período) Estoque médio no período (Saldo médio no período) Nível de cobertura de estoques Também chamado de tempo médio em estoque, é um indicador calcu- lado de maneira inversa ao giro dos estoques. É um indicador que permite visualizar a disponibilidade média dos estoques, em termos de tempo, por exemplo, dias que os estoques médios serão suficientes para atender à de- manda. A fórmula para o seu cálculo é dada por: Dimensionamento e controle de estoques 157 Tempo médio em estoque = Estoque médio no período (Saldo médio no período) Demanda média no período ( de saídas num período/2) Uma outra possibilidade de cálculo do índice de cobertura ou tempo médio em estoque pode ser: Cobertura (em dias) = Número de dias do período em estudo Giro de estoque Além desses cinco instrumentos (inventário, acurácia, nível de serviço, giro e nível de cobertura) de controle dos estoques, existe uma outra fer- ramenta importante que é o acompanhamento do consumo/demanda, de forma que se reponham os estoques nas quantidades corretas e no momen- to certo (respondendo ao quanto e quando). Isso pode ser feito através da análise das chamadas curvas dente de serra. Curvas dente de serra As curvas dente de serra são uma das formas de se representar grafica- mente o comportamento dos estoques dentro da organização. Para tanto se utiliza um sistema de coordenadas cartesianas em que se representam as quantidades no eixo Y e o tempo no eixo X, conforme figura abaixo: Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Consumo / Demanda Quantidade Tempo Reposição do estoque Figura 7 – Gráfico dente de serra. 158 Dimensionamento e controle de estoques A figura permite perceber que existe uma quantidade de material em es- toque (determinado a partir dos métodos de previsão), que vai sendo de- mandado / consumido ao longo do tempo e, em determinado momento, ocorre a reposição dos estoques aos níveis anteriores. Porém, na prática, existem algumas variáveis limitantes para o modelo, como o consumo / de- manda não ser uniforme e o tempo de entrega não ser constante. Contudo, por se tratar de um modelo (uma representação simbólica da realidade), admitem-se algumas simplificações, conforme quadro a seguir. Quadro 3 – Simplificação adotadas para o gráfico dente de serra A demanda/consumo do item é constante durante o período considerado. � A administração de materiais não incorre em atrasos nos pedidos de � compras. A empresa fornecedora também não atrasa o processamento do pedi- � do e a entrega. O lote comprado chega à organização no instante em que o estoque é � igual a zero. Não há rejeição do lote comprado, pelo controle da qualidade. � A partir dessas simplificações, calculam-se duas coisas essenciais: a de- manda média e o tempo de ressuprimento. A demanda média é calculada pela fórmula: DM = D 1 + D 2 + D 3 + ... + D n N Onde: DM = Demanda Média D n = Demanda em cada período considerado (dia, semana, mês etc.) N = Número de períodos considerados O tempo de ressuprimento (ou de reposição de estoques) é calculado pela soma dos tempos incorridos desde o momento em que se constata a Dimensionamento e controle de estoques 159 necessidade de reposição pelo almoxarifado, até o momento em que ocorre a entrega da compra efetuada, pelo fornecedor. Em síntese, pode-se afirmar que o tempo de ressuprimento é a soma dos seguintes tempos: tempo de processamento de pedido de compras, tempo de processamento de pedido pelo fornecedor, tempo de transporte (trânsito) e o tempo de liberação dos materiais comprados após ensaios e inspeções pelo controle da qualidade, quando necessário. Portanto, TR = TPPc + TPPf + TT + TL Onde: TR = Tempo de ressuprimento TPPc = Tempo de processamento de pedido pela área de compras TPPf = Tempo de processamento de pedido pelo fornecedor TT = Tempo de trânsito TL = Tempo de liberação Tendo-se calculado o tempo de ressuprimento, é possível determinar o momento em que se deve efetuar o pedido (ponto de pedido ou ponto de ressuprimento), de forma que se receba o material comprado no momento em que o estoque é igual a zero, conforme se percebe na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Consumo / Demanda Quantidade Tempo Reposição do estoque Tempo de Ressuprimento Ponto de pedido Figura 8 – Gráfico dente de serra com ponto de pedido e tempo de ressuprimento. 160 Dimensionamento e controle de estoques Por fim, um último aspecto a considerar é o fato de que sempre ocorrerão atrasos, em virtude de demoras existentes em alguma das simplificações in- dicadas no quadro 3. Devido a isso, as organizações adotam o estoque de se- gurança que tem a finalidade de garantir que não ocorram interrupções no funcionamento normal das operações pela falta de estoques. Assim, a figura do gráfico dente de serra poderia ser representada da seguinte maneira: Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Consumo / Demanda Quantidade Tempo Reposição do estoque Tempo de ressuprimento Estoque de segurança Ponto de pedido Figura 9 – Gráfico dente de serra com ponto de pedido, tempo de ressuprimento e estoque de segurança. O estoque de segurança é um fator para absorver falhas, aleatoriedade ou problemas de abastecimento que são comuns no dia a dia das organizações, visando garantir a continuidade operacional. Como vimos, o dimensionamento e o controle dos estoques são duas atividades essenciais para a administração de materiais e exigem extrema cautela e responsabilidade, além de conhecimentos e experiência por parte do administrador de materiais. Dimensionamento e controle de estoques 161 Ampliando seus conhecimentos Flexibilidade e resposta rápida – uma alternativa à previsão (BALLOU, 2006, p. 262) As vendas de alguns produtos e serviços são tão imprevisíveis que a utili- zação dos tipos de métodos de previsão até aqui descritos dá como resultado tamanho potencial de erro de previsão que os torna impraticáveis. Padrões de demanda irregular são um exemplo disso, daí a necessidade de alternativas. O reconhecimento de que não há previsão melhor do que espe- rar até que a demanda se materialize é uma base para reagir apropriadamente à demanda. Se os processos de cadeia de suprimentos podem ser flexibiliza- dos e passar a reagir com rapidez às necessidades de demanda, a necessidade de previsão é pequena. Afinal de contas, a previsão estatística supõe que as observações nas séries de tempo são aleatórias, independentes, e que cada observação constitui uma pequena parte do total. Quando surge uma defasagem de tempo em re- lação ao suprimento, a previsão serve para estabelecer os níveis de produção, compras e estoques necessários para que os suprimentos estejam disponíveis quando ocorrer a demanda. Alterar a natureza da cadeia de suprimentos de maneira a que os proces- sos possam reagir com flexibilidade e eficiência às necessidades específicas de cada cliente, além de fazer tudo isto quase que instantaneamente, torna a previsão desnecessária. Onde a demanda é altamente imprevisível, esta abor- dagem alternativa deve ser explorada. Contudo, em muitos casos em que a demanda é “regular”, suprir uma de- manda prevista continua sendo a alternativa preferencial. 162 Dimensionamento e controle de estoques Atividades de aplicação 1. Imagine que você é o gerente de materiais de uma empresa atacadista de materiais de limpeza localizada em Campinas-SP, com atuação nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e você precisa decidir sobre a localização dos estoques da organização. Onde manter os estoques? Centralizados em Campinas ou dispersos nas áreas de atuação da organização? Por quê? 2. Qual a diferença entre inventário periódico e inventáriorotativo? Qual dos dois atende às exigências contábeis e tributárias? Por quê? 3. Utilize o ciclo de gestão da informação para determinar quais informa- ções são necessárias para a administração de materiais. Gabarito 1. O ideal seria manter os estoques dispersos em centros de distribuição (depósitos) regionais. Um na fábrica para atender São Paulo e, ainda, um em cada estado de atuação (uma opção alternativa seria atender Paraná e Santa Catarina a partir de um único estado – o Paraná, preferencialmen- te). Porque esse tipo de produto exige entregas completas e rápidas. 2. A diferença é que o inventário periódico apresenta uma periodicidade definida para a contagem física de todos os itens em estoque (geral- mente uma vez por ano), enquanto que o inventário rotativo é feito ape- nas para determinadas categorias ou classes de produtos de cada vez, embora seja feito permanentemente. O que atende às exigências con- tábeis e tributárias é o inventário periódico porque ele inclui todos os itens em estoque e é realizado sempre no final de um exercício fiscal. 3. É preciso determinar quais informações serão necessárias em cada subsistema da administração de materiais, definir como coletar, tratar e armazenar essas informações, estabelecer a forma como elas serão disseminadas para os interessados e quem fará uso dessas informa- ções. A partir disso, a administração de materiais deverá contar com, pelo menos, as seguintes informações: Dimensionamento e controle de estoques 163 principais materiais a serem gerenciados, a partir de uma classifi- � cação ABC; principais fornecedores e seus respectivos produtos; � histórico de fornecimento de cada fornecedor; � número de requisições de compra e materiais requisitados; � número de requisições de fabricação e materiais requisitados; � pedidos de cotações e seus respectivos resultados; � pedidos de compras e seus respectivos resultados; � análise das propostas de fornecimento recebidas; � requisições de materiais recebidas e atendidas; � resultados de inspeções de materiais; � liberações de materiais para uso ou consumo; � etc. � 164 Dimensionamento e controle de estoques Planejamento e programação da produção Introdução O planejamento e a programação da produção é uma das mais impor- tantes funções da administração de materiais, de forma a garantir que os tempos de ciclo sejam cumpridos e, com isso, atendam-se às necessidades dos usuários / clientes na hora certa. Isso implica definir prioridades e capacidade. As prioridades visam res- ponder algumas questões básicas: O que produzir? Quais os recursos ne- cessários para a produção? Desses recursos, quais a organização já possui? Quais recursos não estão à disposição da organização? Quem define prioridades é o mercado no qual a organização está inseri- da, significando que prioridade pode ser entendida como demanda. Cabe à organização atender a tais prioridades (demanda) com sua capacidade pro- dutiva (oferta). Capacidade deve ser entendida como a quantidade de trabalho que os recursos à disposição da organização podem desenvolver em dado período de tempo. Os recursos à disposição da organização podem ser entendidos como: matéria-prima e insumos, equipamentos, energia, espaço físico, tecno- logia, processos, recursos humanos e financeiros etc. Assim, o planejamento e a programação têm por objetivo estabelecer o equilíbrio entre as priorida- des (demanda) e a capacidade da organização (oferta) em atendê-las. Portanto, o planejamento e a programação da produção têm a respon- sabilidade de planejar de forma a encontrar o equilíbrio (balanceamento) entre as demandas do mercado e seus recursos e capacidade produtiva. Isso significa que são necessários planos tanto de curto (programação) quanto de longo prazo (plano-mestre), a partir da previsão de vendas, temas que são abordados na continuação. 165 166 Planejamento e programação da produção Questões introdutórias ao planejamento Planejar é desenhar um futuro desejado (um horizonte de tempo ou de planejamento) e definir os recursos que serão necessários para torná-lo realidade. No caso específico da administração de materiais, na interface com a administração da produção, significa que é necessário definir o que deverá ser produzido, como acontecerá a produção, com quais recursos, em qual momento e qual a quantidade deverá ser entregue em determinado momento no tempo. Ou seja, o processo de planejamento implica sempre responder algumas questões que influem no resultado das organizações e exigem algum tipo de controle, conforme se sintetiza no quadro a seguir. O processo de gestão exige sempre algum tipo de controle, que está evi- denciado no quadro, na última coluna. Como usamos o termo horizonte de planejamento, é necessário esclarecer que isso nada mais é que o compri- mento da linha de tempo onde se estabelecem as projeções e demais cálcu- los efetuados no processo de previsão. Também é importante esclarecer que o curto prazo é sempre mais preciso e confiável que o longo prazo, pois as in- certezas vão se somando ao longo do tempo e, com isso, propagando erros. Quadro 1 – Questões essenciais de planejamento e controle Questões Planejamento Controle O que? Determinar os produtos, especificações e os re-cursos materiais. Qualidade. Como? Alocando os recursos necessários ao processo de produção (manufatura). Eficiência e produtividade. Com que? Planejamento de materiais e recursos humanos. Custos. Quando? Planejamento e programação da produção. Prazos de execução. Quanto? Determinação de lotes de produção. Volumes produzidos. Outro aspecto importante no planejamento organizacional é a previsão de vendas, também denominada forecasting, pois é um instrumento impor- tante de planejamento das vendas dos produtos da organização e são dados projetados ao longo de um espaço de tempo futuro, uma vez que prever as vendas futuras é determinar qual será a demanda do mercado pelos produ- tos da organização. Para o processo de planejamento, existem algumas ferramentas que podem ser utilizadas, como a análise de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (SWOT, das iniciais em inglês), e o ciclo PDCA, conforme a figura a seguir. Planejamento e programação da produção 167 A ferramenta SWOT significa que, para subsidiar o ciclo PDCA, realiza- -se uma análise do ambiente organizacional interno avaliando forças (S – Strengths) e fraquezas (W – Weaknesses) e externo, analisando eventuais oportunidades (O – Opportunities) e ameaças (T – Threats) que possam afetar a estratégia da organização. Plan (Planejar) Action (Agir) Do (Executar) Check (Verificar) Figura 1 – O ciclo PDCA. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. O ciclo PDCA pressupõe um processo contínuo de planejamento, que se aplica com perfeição ao planejamento e programação da produção, uma vez que planejar e programar processos produtivos é sempre um processo con- tínuo. Inicia com o planejamento (P), parte para executar o planejado (D), exerce-se o controle sobre o executado em relação ao planejado (C) e age-se em relação aos eventuais desvios (A). Como se percebe, o processo de planejamento exige visão de futuro, além de profundo conhecimento das forças e fraquezas da organização, indican- do onde devem ser concentrados esforços em busca de melhorias e, ainda, buscar permanentemente oportunidades para novas estratégias. Além disso, a organização precisa antecipar-se às eventuais ameaças de forma pró-ativa, evitando ser surpreendida por mudanças no ambiente que possam compro- meter seus resultados futuros. Planejamento da produção O planejamento, ou plano-mestre de produção, deriva do plano estraté- gico de negócios da organização e faz parte da chamada administração da produção, que se preocupa com questões gerais como: 168 Planejamento e programação da produção Quadro 2 - Questões essenciais ao planejamento da produção Quais recursos serão necessários para atender à demanda, como equi- � pamentos,mão de obra, energia, tecnologia, processos, instalações, materiais etc.? Qual a disponibilidade dos recursos necessários? � Como? Onde? Quando obter os recursos faltantes? � Qual a quantidade de produtos deve ser fabricada para atender à de- � manda em cada período de tempo considerado no planejamento? Quais os níveis de estoques desejados pela organização? � (A RN O LD , 1 99 9, p . 3 8. A da p ta do .) Essas questões têm sua origem no momento em que são realizadas as previsões de vendas, geralmente elaboradas pela área de marketing, ou com participação de equipes de trabalho formadas por diferentes áreas funcio- nais da organização, como: finanças, marketing, produção, logística etc. O planejamento da produção deve trabalhar com horizonte de tempo vari- ável de seis a dezoito meses. Porém, depende sempre dos lead times (tempos de ciclos) de compras e de fabricação. Segundo Arnold (1999, p. 43), [...] com base no plano de marketing e nos recursos disponíveis, o plano de produção estabelece limites ou níveis de atividade produtiva por algum tempo no futuro. Integra as competências e a capacidade da fábrica com os planos de marketing e financeiros para atingir os objetivos gerais de negócios da empresa. Portanto, o planejamento da produção estabelece os níveis de produção e de estoques a serem mantidos durante o período estabelecido no hori- zonte de planejamento. O objetivo central do plano-mestre de produção é estabelecer padrões operacionais que concretizem os objetivos estabeleci- dos no plano estratégico da organização. O processo para elaborar o plano- -mestre de produção está representado na figura a seguir. Planejamento estratégico Planejamento de marketing Análise ambiental Previsões de vendas Plano-mestre de produção F e e d b a c k Figura 2 – Representação esquemática do plano-mestre de produção. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Planejamento e programação da produção 169 Como a figura permite perceber, o processo inicia com uma análise do ambiente (tanto interno quanto externo) e da previsão de vendas que ali- mentam o planejamento estratégico (ou plano de negócios) da organiza- ção. A partir daí, elabora-se o planejamento de marketing, que determina os objetivos de vendas e os mercados a serem atendidos. Isso vai determinar o quanto deve ser produzido em cada período de tempo considerado e, ainda, onde os produtos acabados deverão ser disponibilizados (em qual merca- do), resultando no plano-mestre de produção. O planejamento da produção inclui informações como os níveis de esto- ques, o backlog de pedidos (pedidos de clientes não atendidos), a demanda de mercado, o processo operacional da fábrica, o nível de serviço, recursos humanos, controle de custos das operações etc. Portanto, o plano-mestre de produção deve ter uma visão de futuro (alcance de horizonte de planejamento) que permita planejar os recursos humanos, os equipamentos, a energia, a tecnologia e os processos a serem empregados, os espaços físicos, matéria-prima e os insumos, além dos es- toques (tanto de matéria-prima e insumos quanto de produtos acabados) necessários para concretizar o planejamento. O mais importante no planejamento da produção é, portanto, planejar a capacidade, ou seja, os recursos necessários para satisfazer à demanda. Assim, a demanda por produtos acabados deve ser traduzida em demanda por capacidade. Isso significa ser necessário projetar o que será produzido, onde e como acontecerá a produção (focando nos mercados a serem atendi- dos), e quanto vai produzir, preocupando-se com os custos em que se incor- rerá para atender a demanda prevista. Ocorre que nem sempre é possível alterar significativamente a capacida- de produtiva durante o período de tempo compreendido no horizonte de planejamento da produção, uma vez que aumentar ou diminuir os recursos produtivos com rapidez é muito difícil ou praticamente impossível de execu- tar durante o tempo compreendido pelo plano-mestre de produção. Porém, alguns recursos podem ser alterados e o plano deve identificar esses aspec- tos e avaliar os impactos de suas alterações. Normalmente, as variações pos- síveis de serem concretizadas são as seguintes: ampliar os turnos de trabalho, caso haja tal possibilidade; � é possível contratar mais mão de obra; � podem ser formados estoques nos períodos de demanda mais baixa � para vender nos momentos em que a demanda supera a capacidade; 170 Planejamento e programação da produção realizar contratos de � leasing de equipamentos; subcontratar trabalho; � realizar operações de reengenharia; � etc. � Cada uma dessas variações apresenta vantagens e desvantagens, bene- fícios e custos associados que exigirão da administração da produção en- contrar as alternativas de menor custo total possível, que se enquadrem nos objetivos estratégicos da organização. Em função da demanda, existem três estratégias possíveis que podem ser empregadas no planejamento da produção: acompanhamento, nivelamen- to ou subcontratação. Para se compreender, imagine-se a seguinte previsão de demanda: Demanda Tempo Demanda Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Figura 3 – Representação hipotética de demanda em determinado período. A partir da hipótese representada na figura acima, vamos analisar cada uma das estratégias para o planejamento da produção. Acompanhamento da demanda Acompanhar ou seguir a demanda significa que a organização produz as quantidades demandadas a cada momento que se considera. Nessa es- tratégia, os níveis de estoque são mantidos constantes enquanto a produ- ção varia para acompanhar as variações da demanda. Trata-se de estratégia utilizada por empresas de produção por encomenda, mantendo estoques em níveis baixos, uma vez que os produtos são fabricados no momento em Planejamento e programação da produção 171 que a demanda acontece e não são estocados. Essa estratégia implica que, nos momentos em que a demanda diminui, ocorre ociosidade dos recursos produtivos. Porém, ocorre redução nos custos de armazenagem. A estratégia pode ser percebida na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Demanda Tempo Demanda Produção Figura 4 – Representação gráfica da estratégia de acompanhamento da demanda. Nivelamento Essa é uma estratégia em que se produz continuamente um volume para igualar a demanda média. Naqueles períodos nos quais a demanda é menor que a produção, forma-se estoques que serão utilizados naqueles momen- tos de demanda superior à produção. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Demanda Tempo Demanda Produção Figura 5 – Representação gráfica da estratégia de nivelamento. 172 Planejamento e programação da produção A estratégia de nivelamento permite um processo produtivo sem sobres- saltos, evitando os custos de alteração nos custos de produção. Como os re- cursos são utilizados permanentemente, seus custos são minimizados. Em contrapartida, os custos de armazenagem tendem a aumentar. O nivelamen- to significa que os recursos são ocupados a taxas constantes e a produção é também constante ao longo do tempo. Subcontratação Essa é uma estratégia em que a organização produz sempre ao nível mínimo da demanda prevista e atende qualquer demanda adicional atra- vés de subcontratações. Isso significa que a organização compra de tercei- ros as quantidades extras demandadas (acima da sua capacidade produtiva) ou, ainda, adota política de aumentar os preços no momento dos picos de demanda (como forma de evitar a demanda). Graficamente, a estratégia de subcontratação pode ser percebida na figura a seguir. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o.Demanda Tempo Demanda Produção Figura 6 – Representação gráfica da estratégia de subcontratação. Trata-se de estratégia que apresenta como grande vantagem o seu baixo custo operacional, uma vez que não se incorre em custos de excesso de ca- pacidade nem em custos de armazenagem. O único inconveniente é que os custos de aquisição podem sermaiores do que se a produção fosse própria. Estratégias híbridas Nem sempre cada uma das estratégias é adotada isoladamente, uma vez que cada uma apresenta vantagens e desvantagens em termos de custos e Planejamento e programação da produção 173 de operação. Na verdade é sempre possível adotar uma combinação das di- ferentes estratégias como alternativa ao atendimento da demanda e, assim, cada uma resultará numa combinação diferente de custos e benefícios. Cabe à área de produção analisar qual a melhor das alternativas em cada caso, adotando a estratégia que for mais conveniente à organização em cada instante, e isso deve se refletir no plano-mestre de produção. Programação da produção – programa-mestre de produção O programa-mestre de produção, mais conhecido como MPS (Master Production Schedule), apresenta nível maior de detalhamento que o plane- jamento da produção. Ele “quebra” (divide) o plano de produção em perío- dos de tempo menores, geralmente semanal ou mensal e é detalhado para a quantidade de cada item a ser fabricado. O MPS é elaborado a partir das previsões de vendas (demanda) e das de- mandas existentes (pedidos de clientes) para produtos individuais. Portanto, concilia a demanda e o plano de produção com os recursos disponíveis na organização, elaborando um plano que seja factível pela administração da produção. Segundo Arnold (1999, p. 76): O plano de produção e o MPS separam a previsão de vendas da produção, estabelecendo um plano de produção. Juntos, eles tentam equilibrar os recursos disponíveis de fábrica, equipamento, mão de obra e materiais com a demanda prevista. Entretanto, eles não são uma previsão de vendas, nem representam necessariamente o desejado. O MPS é um plano para o que a produção pode e irá fazer. O MPS deve ser realista com respeito ao que a produção pode e irá fazer. Se não o for, resultará em planos de capacidade sobrecarregados, programações que excedem o prazo, promessas de entrega não confiáveis, oscilações na entrega e falta de responsabilidade”. Ou seja, enquanto o planejamento da produção se ocupa de grupos ou famílias de produtos, o MPS planeja detalhadamente cada item a ser pro- duzido em termos que a administração da produção consiga efetivamente concretizar, a partir do detalhamento do planejamento de marketing em um plano de vendas, conforme se percebe na figura a seguir. 174 Planejamento e programação da produção Planejamento estratégico Planejamento de marketing Análise ambiental Previsões de vendas Plano de vendas detalhado Plano-mestre de produção MPS – Master Production Schedule F e e d b a c k Figura 7 – Esquema do programa-mestre de produção – MPS. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Seu horizonte de planejamento é fortemente dependente dos tempos de ciclo (lead times) de compras e de produção; mas, usualmente, tem uma amplitude de três a dezoito meses e, ainda, é revisado continuamente (se- manal, quinzenal ou mensalmente). As informações que alimentam o MPS são oriundas da previsão de vendas, do planejamento de produção, pedidos de vendas, estoques existentes e, obviamente, da capacidade produtiva ins- talada na organização. Segundo Ballou (1993, p. 64), o conteúdo básico de um MPS é semelhante de organização a organização, uma vez que “é simplesmente um plano para produzir certa quantidade de produto em certa data para atender a compro- missos de venda e distribuição”. Para Arnold (1999, p. 65), o MPS é um elo vital no sistema de planejamen- to da produção, pois: Forma o elo entre o planejamento da produção e o que a produção � realmente realizará. Forma a base para o cálculo da capacidade e dos recursos necessários. � O MPS orienta o � Material Requirements Plan (MRP). Como uma programa- ção de itens a ser formulada, o MPS e as listas de materiais determinam que componentes são necessários desde a produção até a compra. Mantém válidas as prioridades, pois o MPS é um plano de prioridades � para a produção. Portanto, o MPS é a fonte de informações para o MRP, posto que é respon- sabilidade do MRP planejar a programação das necessidades para os compo- nentes dos produtos finais, a partir das necessidades determinadas pelo MPS. Planejamento e programação da produção 175 Ainda segundo Arnold (1999, p. 66), o MPS estabelece um elo essencial entre a área de marketing (através das vendas) e a de produção uma vez que: Possibilita promessas válidas para encomendas. O MPS é um plano para o que deve ser � produzido e quando produzi-lo. Como tal, informa ao departamento de vendas e ao de produção quando as mercadorias estarão disponíveis para entrega. É um contrato entre o departamento de marketing e o de produção. É um plano con- � sensual. Portanto, o programa-mestre de produção (MPS) estabelece uma base para que as áreas de marketing e de produção definam o que deve ser pro- duzido, e quando. Sua finalidade não é ser rígido, mas ser um instrumento de comunicação e informações como suporte para realizar alterações que sejam “consistentes com as demandas do mercado e com a capacidade de produção” (ARNOLD, 1999, p. 66). Compreendendo-se o papel e a importância do planejamento e da pro- gramação da produção para os objetivos organizacionais, é necessário en- tender como a administração de materiais interage com a administração da produção. A administração de materiais e a produção A manutenção de estoques de todos os materiais necessários à produção pode ser uma estratégia contraproducente em termos de custos. Se algum dos materiais for, por exemplo, considerado como Classe A (de elevado custo unitário) e utilizado em um número limitado de itens de produtos acabados, comprar diretamente para o atendimento das demandas da produção, no momento em que for necessário, pode ser a maneira mais racional (econô- mica) para realizar seu suprimento. Caracteristicamente, os itens classe A fluem para o processo produtivo em quantidades pequenas se comparados aos das classes B e C (mantidos em estoques em volume maior) e necessitam receber maior atenção por parte da administração de materiais. Isso pode ser feito através de melhor gerencia- mento dos fluxos de informação e de comunicação, que permitem o acelera- mento do processamento de pedidos, reduzindo com isso seus lead times. A partir da lista de materiais críticos, oriundas do programa-mestre de pro- dução (MPS), e dos não disponíveis em estoque, os pedidos de suprimento (compras) são emitidos em antecipação às necessidades futuras da produção. 176 Planejamento e programação da produção Com isso, o responsável pela programação da produção precisa ter informa- ções confiáveis sobre os tempos de ressuprimento para assegurar que o plane- jamento do abastecimento físico seja efetuado com razoável grau de acerto. Esse processo é chamado de planejamento ou cálculo de necessidades e é fortemente suportado por recursos da tecnologia da informação, tendo como premissa central evitar a manutenção de estoques através da emissão de pe- didos de ressuprimento no momento exato, para que os materiais estejam dis- poníveis no momento programado para sua utilização pela produção. A filosofia básica por trás do cálculo de necessidades é a ideia de “puxar” a produção, eliminando a necessidade da formação de estoques ou, no mínimo, reduzindo drasticamente sua existência. É importante lembrar que, em função da variação dos tempos de ressuprimento e de que as reduções de custos em compras e em fretes não podem ser exploradas completamente pelo cálculo das necessidades, os estoques não podem ser eliminados completamente. O papel da administração de materiais para a produção pode ser percebi- do através da figura seguinte. Lista de faltas do vendedor Lista de materiais Liberação das OPs para fornecedores no caso de faltas ou reposição de estoques Se estoque menor que mínimo Suprimento de Reposição Informações Peças e Materiais sob encomenda para a produção Registro de estoques Liberaçãopara produção Início da produção Programa de produção Vendas Pedidos dos clientes Previsão de vendas Comparar Canal de Suprimento Localização dos � fornecedores Serviços de � transporte Níveis de � estoque Procedimentos � para processar pedidos Figura 8 – Relação entre o programa de produção e o suprimento de materiais. (B A LL O U , 1 99 3, p . 6 8. A da p ta do .) Planejamento e programação da produção 177 A administração de materiais relaciona-se diretamente com a produção através do abastecimento de matérias-primas, insumos, peças, partes ou subconjuntos por encomendas diretas ou pelos estoques, antecipando as necessidades de uso. O que coloca em movimento o fluxo de materiais na cadeia de suprimentos é a ordem de compra (ou pedido de ressuprimento), e o seu preparo e transmissão ao fornecedor representam a mais importante atividade do processamento de pedidos para a administração de materiais. É possível perceber como a administração de materiais é o ponto de partida para o processo de produção das organizações, uma vez que transforma os planos estratégicos e de marketing em instrumentos executáveis pela área de produção, ao prover os recursos materiais necessários para que isso aconteça. Ampliando seus conhecimentos Os limites funcionais impedem o gerenciamento do processo (CHRISTOPHER, 1997, p. 197-198) O processo para satisfazer a demanda dos clientes começa com o forneci- mento de insumos que fluem através das operações de fabricação ou monta- gem e continuam até a distribuição para os clientes. Logicamente, a maneira ideal de gerenciar este processo é considerando-o como uma entidade, e não fragmentando-o em seções estanques. Contudo, isto é mais ou menos o que acontece nas companhias tradicionais, como temos visto, o que não somen- te é ineficiente, mas realmente conduz a uma perda de eficácia em termos competitivos. Muitas das variações que ocorrem no ciclo entre o pedido e a entrega, por exemplo, são causadas pela variabilidade que, inevitavelmente, surge nos pro- cessos ineficientes que precisam ser criados para gerenciar as interfaces entre as funções. O tempo que se gasta para processar os pedidos, por exemplo, normalmente é ampliado simplesmente por causa da papelada e verificações geradas pelos sistemas convencionais. Uma vez que as organizações crescem organicamente, elas tendem a aumentar os processos existentes como uma colcha de retalhos, em vez de adotarem uma abordagem menos poluída. Como resultado, os sistemas em uso tendem a ficar mais para a história do que para qualquer conceito de gerenciamento holístico. Este fenômeno é re- forçado pela incapacidade dos gerentes de se desligarem de seus territórios 178 Planejamento e programação da produção familiares e enxergarem a empresa como um todo. Em vez disso, existe uma tendência natural de focalizar as melhorias parciais, dentro de sua área fun- cional estreita. Para se conseguir uma fluidez uniforme através do fluxo logístico, é ne- cessária uma orientação que facilite o gerenciamento do processo de ponta a ponta. O princípio pode ser comparado ao gerenciamento de um processo in- dustrial, digamos uma refinaria de petróleo, onde para assegurar a realização de uma eficiência ótima, o processo inteiro é gerenciado e controlado como um sistema, não como uma série de atividades independentes. Os custos desses processos fragmentados para uma organização, e em verdade, para a economia como um todo, somente podem ser obtidos por estimativas, mas devem ser gigantescos. Atividades de aplicação 1. Assinale verdadeiro (V) ou falso (F) para cada uma das afirmativas a seguir. O ciclo PDCA inicia-se com o planejamento (P), parte para )( executar o planejado (D), exerce-se o controle sobre o executado em relação ao planejado (C) e age-se em relação aos eventuais desvios (A). O planejamento da produção determina os objetivos de vendas )( e os mercados a serem atendidos. A subcontratação é uma estratégia em que se produz )( continuamente um volume para igualar a demanda média. O programa-mestre de produção (MPS) estabelece uma base )( para que as áreas de marketing e de produção definam o que deve ser produzido, e quando. A partir da lista de materiais críticos, oriundas do programa- )( -mestre de produção (MPS), e dos não disponíveis em estoque, os pedidos de suprimento (compras) são emitidos em antecipação às necessidades futuras da produção. A isso chamamos cálculo de necessidades. Planejamento e programação da produção 179 2. Por que se afirma que o horizonte de planejamento do MPS é forte- mente dependente dos tempos de ciclo (lead times) de compras e de produção? 3. Descreva, com suas palavras, o inter-relacionamento entre administra- ção de materiais e administração da produção. Gabarito 1. V, F, F, V, V 2. Porque ele estabelece não apenas o que deve ser produzido, mas, so- bretudo, o quando deve acontecer a produção. Portanto, os tempos de ciclo de compra e de produção podem afetar decisivamente esse quando. 3. O inter-relacionamento é total, uma vez que, sem suprimentos, a ati- vidade de produção para. Sem a liberação de matérias-primas e insu- mos para o processo produtivo, não acontece a produção dos itens demandados pelo mercado. 180 Planejamento e programação da produção Material Requirements Planning (MRP) Introdução O Material Requirements Planning (MRP), ou planejamento das necessida- des de materiais, é uma técnica de planejamento dos recursos envolvidos na administração de materiais. É um plano de curto prazo para a compra ou pro- dução dos componentes que serão utilizados para a fabricação dos itens pro- gramados pelo MPS (plano-mestre de produção). A administração de materiais depende do MRP para decidir pela compra ou produção de itens específicos. O Material Requirements Planning (MRP) foi formalizado como técnica de planejamento de necessidades, em meados dos anos 1970, para suportar o planejamento da produção, a partir da lista de materiais (bill of material), que se origina da chamada estrutura analítica do produto, também chamada árvore do produto ou, ainda, explosão do produto. Por basear-se em cálculos quantitativos, o MRP foi transformado em um programa de computador (software). A figura a seguir mostra o fluxograma do MRP, a partir do plano ou programa-mestre de produção (MPS – Master Production Schedule). Software MRP Lista de necessidades de materiais Consulta estoques Fábrica Libera Ordem de Compra (OC) Lista de materiais Libera produção Libera Ordem de Produção (OP) Fornecedor MPS Existe disponibilidade? Item fabricado ou comprado? Sim Fabricado Comprado Não Figura 1 – Esquema de funcionamento do MRP. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. 181 182 Material Requirements Planning (MRP) A figura permite perceber que o MRP, em função de uma demanda dada para um determinado produto, “explode” esse produto em seus menores componentes e calcula a quantidade de cada componente que será neces- sário para produzi-lo. Depois, o software deduz dessas quantidades as dis- ponibilidades em estoque e, finalmente, emite Ordens de Compras (OCs) ou Ordens de Fornecimento (OFs), para fornecedores, ou Ordens de Produção (OPs), para itens fabricados internamente, das quantidades faltantes. Segundo Ballou (2006, p. 346), o MRP é um “método usado principalmen- te para programar peças especiais de alto valor, materiais e suprimentos cuja demanda seja razoavelmente conhecida”. Para Gaither e Frazier (2001, p. 310) [...] o MRP é um sistema computadorizado que toma o MPS como um dado; ele explode o MPS na quantidade exigida de matérias-primas, peças, submontagens e montagens necessárias em cada semana do horizonte de planejamento; reduz essas necessidades de materiais para considerar os materiais que estão em estoque ou sob encomenda; e desenvolve um programa de pedidos de materiais comprados e peças produzidas duranteo horizonte de planejamento. Atualmente, existem dois novos software chamados MRP II e MRP III. O MRP II é denominado Manufacturing Resources Planning e diferencia-se do MRP exatamente pelo fato de “enxergar” todos os recursos necessários para a manufatura e não apenas os materiais componentes dos produtos. O MRP III é uma evolução que incorpora a ferramenta chamada Kanban1, de forma eletrônica. O nível de detalhamento no MRP é extremamente elevado, uma vez que estabelece quanto e quando os componentes (insumos e matérias-primas) deverão estar disponíveis e serão necessários para a fabricação de cada item de produto acabado. Seu horizonte de planejamento apresenta a mesma duração do programa-mestre de produção (MPS), estendendo-se de três a dezoito meses. Ainda segundo Gaither e Frazier (2001, p. 310), os motivos que levam à adoção do MRP podem ser sintetizados da seguinte forma: melhorar o serviço ao cliente; � reduzir os investimentos em estoques; e � melhorar a eficiência operacional da fábrica. � Ou seja, os objetivos da adoção do MRP são os mesmos objetivos essen- ciais de uma boa administração de materiais. Portanto, quando a organiza- 1 Kanban: Cartão em japo- nês. Trata-se de implemen- tação de ferramenta do JIT, que sinaliza o momento de movimentar estoques dentro do processo pro- dutivo, ou, ainda, para os fornecedores externos. Material Requirements Planning (MRP) 183 ção resolve implementar um software que incorpore a lógica de funciona- mento do MRP, ela está simplesmente potencializando a concretização de objetivos básicos de uma boa administração de materiais. O processo de utilização do MRP faz parte da lógica de planejamento mais amplo, do planejamento estratégico organizacional, uma vez que ele é um detalhamento do MPS. Esquematicamente, o posicionamento do MRP acontece conforme demonstrado na figura a seguir. Análise ambiental Planejamento estratégico Planejamento de marketing Previsões de vendas Plano-mestre de produção MPS - Master Production Schedule Plano de vendas detalhado Material Requirements Planning Lista de materiais (Bill of material) F e e d b a c k Figura 2 – Representação esquemática do posi- cionamento do MRP. Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. A figura demonstra a subordinação do MRP às demais etapas do planeja- mento organizacional e a inclusão das listas de materiais, que são, talvez, a parte mais importante para o bom funcionamento do Material Requirements Planning (MRP). O MRP e as informações que o alimentam Para se entender o funcionamento do MRP é necessário compreender, inicialmente, o funcionamento das árvores de produtos, uma vez que elas darão origem às listas de materiais. Além disso, precisamos retomar os con- ceitos de demanda independente e demanda dependente. Uma árvore de produto nada mais é do que o detalhamento dos componentes de um pro- duto que fazem parte do MPS. Segundo Gaither e Frazier (2001, p. 314), O MPS guia o sistema MRP, e, à medida que o MPS é atualizado, os resultados do MRP também são modificados. Pedidos de materiais são agilizados, desacelerados ou 184 Material Requirements Planning (MRP) cancelados. Quando o MPS está congelado, o plano para recebimentos de materiais decorrente do MRP também é congelado. A demanda independente é a demanda futura (portanto incerta) de um de- terminado material, originada da previsão de vendas. Segundo Corrêa e Corrêa (2004, p. 548), são exemplos de materiais com demanda independente [...] a maioria dos produtos acabados, que têm sua demanda futura amarrada a uma série de fatores alheios ao controle do planejador, como as ofertas concorrentes e seu preço, as condições climáticas, de modo, os “humores” do mercado, as condições macroeconômicas locais e globais e outros. Por outro lado, a “demanda dependente é a que, a partir de algum evento (como um programa-mestre, por exemplo) sob controle do planejador, pode ser calculada” (CORRÊA; CORRÊA, 2004, p. 548). Já para entender a árvore de produtos, o melhor é ilustrar com um exem- plo bastante simples: a fabricação de uma mesa de fórmica. Para fabricar- -se uma mesa são necessários os seguintes materiais: 4 pernas, 1 tampo, 4 chapas laterais, 1 chapa de fórmica, 12 parafusos e 1 suporte para as pernas. Visualizando-se a árvore do produto, teremos a seguinte figura: Ed el vi no R az zo lin i F ilh o. Mesa em fórmica Cola (0,3kg) Suporte para as pernas (1) Cola (0,2kg) Chapa de fórmica (1) Tampo (1) Pernas (4) Chapas laterais (4) Parafusos (12) Figura 3 – Uma árvore de produtos simplificada. A figura mostra que, para fabricar uma mesa em fórmica, são necessários vários componentes (sete) e os números entre parênteses indicam as quanti- dades de cada um dos componentes necessários para a produção da mesa. Para entender os conceitos de demanda independente e dependente, basta perceber que a mesa acabada representa a demanda independente (que somente pode ter sua demanda calculada a partir das previsões de vendas) e seus componentes representam demanda dependente (depen- dem da previsão de venda de mesas para saber quantos componentes a ad- ministração de materiais vai ter de providenciar para o processo produtivo). Material Requirements Planning (MRP) 185 O objetivo do MRP é determinar quais itens são dependentes para aten- der ao programa-mestre de produção e, então, com base nos tempos de ciclo, calcular os tempos em que tais materiais precisam estar disponíveis. Segundo Arnold (1999, p. 93), o MRP determina: o que encomendar; � quanto encomendar; � quando encomendar; e � para quando agendar a entrega. � Para responder a tais questões, o MRP depende de três insumos infor- macionais: o MPS, os registros de estoques, e as listas de materiais. Tais insu- mos de informações são introduzidos no software MRP, que gera as saídas. As principais saídas geradas pelo MRP são as programações de pedidos (inclu- sive de produção) e ajustes nos pedidos programados. Além disso, o sistema também gera relatórios de exceções, desempenho e planejamento. Vejamos detalhes dos insumos de informação. O MPS consiste na descrição dos materiais a serem fabricados, com a res- pectiva quantidade de cada um e os prazos em que devem ser entregues. Portanto, o MPS orienta o processo do MRP, fornecendo os insumos informa- cionais iniciais. O registro de estoques também é um insumo informacional essencial, posto que os estoques são o principal insumo para o MRP. No momento em que é calculado, identificando as quantidades que serão necessárias, os saldos disponíveis em estoque devem ser levados em consideração. A lista de materiais, como visto na figura anterior, detalha os componentes necessários para um produto acabado. Porém, é importante destacar que, às vezes, um item é parte componente de vários produtos e, assim, deve manter apenas uma identificação para se encomendar as quantidades de materiais necessárias para todos os itens que utilizem o mesmo material. Em relação às saídas principais (programação de pedidos e mudanças nos pedidos programados), sua caracterização se dá da seguinte maneira: Programação de pedidos � – o software gera uma relatório com a quantidade de cada material a ser encomendada em cada período de tempo (dentro do horizonte de planejamento). Esse relatório é utiliza- do pela área de compras, que faz os pedidos para os fornecedores ou 186 Material Requirements Planning (MRP) para a produção, solicitando peças, submontagens ou montagens de estágios anteriores do processo produtivo. Mudanças nos pedidos programados � – uma vez que as quantidades pedidas podem ser alteradas por diversos fatores, pedidos podem ser cancelados, aditivados, adiantados ou atrasados para outros períodos de tempo, dentro do horizonte planejado. Os relatórios secundários podem ser assim descritos: Relatório de exceções � – esses relatórios chamam a atenção para itens que exigem atenção da administraçãode materiais ou de produção, com o objetivo de garantir a quantidade exata de materiais no mo- mento em que sejam necessários (nos períodos de tempo programa- dos dentro do horizonte de planejamento). Exemplos de tais relatórios são os eventuais erros, atrasos de pedidos, produção excessiva de re- fugos ou sucatas etc. Relatórios de desempenho � – são relatórios que indicam como o sistema está operando (se bem ou mal), e os principais indicadores de desempe- nho fornecidos pelo sistema são índices de falta de estoques (stockout), giro de estoques e percentuais de promessas de entrega cumpridas. Relatórios de planejamento � – relatórios que retroalimentam o pro- cesso de planejamento, como previsões de estoques, rastreamento de fontes de demanda, relatórios de compromissos de compras e plane- jamento de necessidades de materiais de longo prazo. Outro aspecto importante a considerar em relação aos sistemas MRP é o fato de que, quando ocorrem alterações no processo de fabricação de um item, incluindo, por exemplo, mudanças de materiais, é necessário alterar a programação (lista de materiais) no MRP para que aquele item substituído não seja mais comprado e, consequentemente, não fique obsoleto no esto- que, gerando custos de armazenagem. Isso precisa acontecer porque o sis- tema funciona sempre a partir da árvore do produto. Portanto, alterando-se um “galho da árvore”, é necessário reconfigurar o seu desenho no sistema. Para se compreender o funcionamento do MRP, é necessário verificar seu fun- cionamento na prática. Portanto, vejamos um exemplo prático passo a passo. O funcionamento do MRP O MRP, de forma simplificada, funciona da seguinte forma: Material Requirements Planning (MRP) 187 Inicialmente, a partir do MPS, o sistema determina o número de itens finais que serão demandados em cada período de tempo2. Na sequência, as numerações de peças de reposição não inclusas no MPS, mas descontadas dos pedidos dos clientes, são incluídas como itens finais. Na terceira fase, o MPS e os itens de reposição são explodidos em neces- sidades brutas para todos os materiais por período de tempo no horizonte futuro de planejamento, a partir da lista de materiais. Na quarta etapa, as necessidades brutas de materiais são modificadas pela quantidade de materiais disponíveis e já pedidas para cada período, a partir de consulta aos registros de estoques. Necessidades líquidas de cada item para cada intervalo de tempo são calculadas da seguinte forma: Necessidades líquidas = Necessidades brutas – Estoque disponível – Estoque de segurança – Estoque alocado para outros fins Se as necessidades líquidas forem maiores que zero, então, os pedidos do material devem ser feitos ao fornecedor ou à produção (conforme o caso). Por fim, os pedidos são contrabalançados para períodos de tempo que antecedam as necessidades de produção, levando em conta os tempos de ciclo em cada etapa do processo produtivo e os tempos de ciclo dos fornecedores. Vamos imaginar que a Indústria de Móveis Beta tem uma previsão de vender, no mês, 2 500 mesas em fórmica, com a estrutura desenhada na figura 3. A tabela 1 mostra a posição dos estoques. Tabela 1 – Posição de estoques para a mesa em fórmica Item Código Estoque em mãos Comprado/Produzido Mesa em fórmica M1 400 un. Produzido Pernas para mesa M1 M1 A 800 un. Produzido Tampo para mesa M1 M1 B 400 un. Comprado Chapa tampo de mesa M1 M1 AB 800 un. Comprado Chapa lateral de mesa M1 M1 AC 1 200 un. Comprado Parafusos rosca fina PRF 8 000 un. Comprado Suporte para pernas mesa M1 M1 C 0 Comprado Cola para madeira/fórmica M1 ABC 80 Kg Comprado 2 Na terminologia do MRP, os intervalos de tempo são denominados buckets. 188 Material Requirements Planning (MRP) Em um segundo momento é necessária a determinação dos prazos, tanto de entrega dos fornecedores (tempo de ressuprimento), quanto de produ- ção (tempo de ciclo), para que se saiba com que horizonte de tempo deve-se programar os pedidos. Então, teríamos uma nova informação, da seguinte maneira: Tabela 2 – Tempo de atendimento para os itens da mesa em fórmica Item Código Tempo de atendimento (em semanas) Comprado/ Produzido Mesa em fórmica M1 02 (1) Produzido Pernas para mesa M1 M1 A 02 (1) Produzido Tampo para mesa M1 M1 B 01 Comprado Chapa tampo de mesa M1 M1 AB 02 Comprado Chapa lateral de mesa M1 M1 AC 02 Comprado Parafusos rosca fina PRF 01 Comprado Suporte para pernas mesa M1 M1 C 02 Comprado Cola para madeira/fórmica M1 ABC 03 Comprado (1) Tempo gasto para montar lotes de 1 500 un. A partir dessas informações é necessário calcular as necessidades para cada um dos materiais componentes da mesa, conforme a tabela a seguir. O MRP calcula as quantidades multiplicando a partir da estrutura de produtos (árvore), determinando as quantidades a serem produzidas ou compradas e quando os pedidos deverão ser efetuados para que não ocorra interrup- ção na fabricação. Isso visa evitar que se atrasem os prazos de entrega aos clientes. Tabela 3 – Cálculo das necessidades de materiais para a mesa em fórmica Código do item Demanda Estoque em mãos Necessidade (de produção ou compra) M1 2 500 un. 400 un. 2 500 – 400 = 2 100 M1 A 10 000 un. 800 un. 10 000 – 800 – 1 600* = 7 600 M1 B 2 500 un. 400 un. 2 500 – 400 – 400* = 1 700 M1 AB 2 500 un. 800 un. 2 500 – 800 – 400* = 1 300 M1 AC 10 000 un. 1.200 un. 10 000 – 1 200 – 1 600* = 7 200 PRF 30 000 un. 8.000 un. 30 000 – 8 000 – 4 800* =17 200 M1 C 10 000 un. 0 10 000 – 400 = 9 600 M1 ABC 1 250 Kg 80Kg 1 250 – 80 – 200* = 970 * Refere-se às quantidades equivalentes às 400 unidades já prontas da mesa. Material Requirements Planning (MRP) 189 Portanto, para atender a previsão de demanda (2 500 unidades da mesa em fórmica M1), são necessárias as seguintes quantidades de materiais: M1 = 2 100 unidades � M1 A = 7 600 unidades � M1 B = 1 700 unidades � M1 AB = 1 300 unidades � M1 AC = 7 200 unidades � PRF = 17 200 unidades � M1 C = 9 600 unidades � M1 ABC = 970 kilos � Supondo-se que a demanda prevista (para as 2 500 unidades) esteja dis- tribuída da seguinte forma: Tabela 4 – Distribuição da demanda mensal por semana Demanda Semana 3 Semana 4 Semana 5 Semana 6 Mesa M1 400 unidades 800 unidades 700 unidades 600 unidades Nota-se que a programação foi realizada a partir da semana 3 em virtu- de dos tempos de atendimento para produção e compra de determinados itens. Diante dessa distribuição da demanda, será necessário programar a produção e as compras da seguinte forma: Tabela 5 – Cronograma para fabricação e/ou compra de materiais neces- sários ao atendimento da demanda prevista Item Semana 1 Semana 2 Semana 3 M1 0 1 500 1 500 M1 A 3 800 3 800 0 M1 B 0 850 850 M1 AB 650 650 0 M1 AC 3 600 3 600 0 PRF 0 8 600 8 600 M1 C 4 800 4 800 0 M1 ABC 485 485 0 190 Material Requirements Planning (MRP) O número 1 500 unidades de mesa consta na tabela, pois é o tamanho do lote que é produzido a cada duas semanas. A produção do restante dos itens foi programada, considerando o total necessário para a produção de 2 100 mesas (já que temos 400 em estoque). Os valores discriminados na tabela significam a divisão da demanda necessária pelo tempo em semanas dispo- níveis para a produção. Foi dividido em partes iguais. Essa programação de aquisições e/ou produção permite que a demanda seja atendida conforme a previsão e, ao final, a organização ficará com a se- guinte posição de estoques: Tabela 6 – Posição de estoques para a mesa em fórmica ao final do período Item Código Estoque programado em mãos Mesa em fórmica M1 500 un. Pernas para mesa M1 M1 A 0 Tampo para mesa M1 M1 B 0 Chapa tampo de mesa M1 M1 AB 0 Chapa lateral de mesa M1 M1 AC 0 Parafusos rosca fina PRF 0 Suporte para pernas mesa M1 M1 C 0 Cola para madeira/fórmica M1 ABC 0 Claro que essa posição de estoques é meramente fictícia, uma vez que isso vai depender da possibilidade de se encomendar exatamente as quan-tidades previstas no cálculo de necessidades. Geralmente, as quantidades encomendadas dependem de vários fatores, como: embalagem de apresen- tação dos materiais, pedidos mínimos ou múltiplos, dos fornecedores, quan- tidade econômica de compra etc. O número 500 unidades resulta de: dois lotes de 1 500 mesas (que tota- lizam 3 000), subtraindo-se as 2 100 mesas produzidas + 400 mesas em es- toque. O valor 500 significa que 500 mesas estão em processo (programado para produção). Outras considerações sobre o MRP Existem, ainda, outros aspectos importantes do MRP que necessitam ser considerados, como a questão dos tamanhos de lotes e as políticas a res- peito dos mesmos. No cálculo de necessidades, o MRP considera apenas Material Requirements Planning (MRP) 191 as quantidades estritamente necessárias para que cheguem no último mo- mento possível, de forma a minimizar o estoque médio (dentro do objetivo de maior giro de estoques). Na prática, conforme já comentado, isso nem sempre é possível. Em nosso exemplo, não consideramos eventuais restri- ções e, portanto, adotou-se a chamada política de lotes múltiplos, com um tamanho constante para cada item. Porém, o sistema MRP permite que se adotem outras políticas (na maioria dos software comerciais disponíveis no mercado) conforme segue. Política de lotes mínimos Quando se adota essa política, o sistema indica uma quantidade mínima no momento de se abrir uma ordem de compra, permitindo aquisições de qualquer quantidade superior ao mínimo estabelecido. Política de lotes máximos Nos casos em que existem restrições físicas no processo, por exemplo, de produção ou mesmo no sistema de armazenagem, o sistema indica uma quantidade máxima de ordem de compra a ser aberta, não permitindo que se programe nada acima do máximo permitido. Política de períodos fixos É uma política que se adota quando se quer liberações de ordens periódi- cas com periodicidade predefinida. O MRP calcula todas as necessidades ao longo de períodos vindouros, de duração definida, período a período, con- centrando no início de tais períodos os recebimentos planejados do total das necessidades calculadas. Política de estoques de segurança Em virtude das incertezas dos processos, tanto no fornecimento quanto na demanda esperada de determinado item, os responsáveis pelo processo decisório podem adotar uma política de manter certos níveis de estoques adicionais como medida de precaução contra tais incertezas. Assim, o siste- ma também calcula as necessidades de manutenção das quantidades pre- definidas na política de manutenção de estoques de segurança. 192 Material Requirements Planning (MRP) Política de tempos de segurança Essa é uma variação da política de estoques de segurança. Trata-se de uma prática de adicionar “tempos extra” no cálculo dos tempos de ressupri- mento (para fornecedores) ou de produção (quando a produção de peças, componentes, submontagens ou montagens for realizada internamente). Ou seja, quando se parametriza o sistema com os tempos de ressuprimento (ou de produção, conforme o caso), se programa algum extra de antecedên- cia em relação ao tempo médio de obtenção ou de produção. Em relação a essas duas políticas, o que pode ser feito é considerar polí- tica de estoques de segurança quando as incertezas se relacionem com as quantidades de entrega, e políticas de tempos de segurança quando as in- certezas estiverem relacionadas com os tempos de entrega. Tempos de ciclo – lead times É essencial, ao se parametrizar o sistema MRP, que se estabeleçam clara- mente todos os lead times de fornecimento para cada item (comprado ou produzido), uma vez que esses tempos serão sempre computados na progra- mação dos períodos de planejamento de ressuprimento ou de produção. Por fim, ao adquirir um sistema MRP, a organização deve considerar que apenas um sistema com todos os atributos de qualidade necessários não é suficiente para o seu bom funcionamento. Existe a necessidade de compro- metimento por parte da alta direção da organização com sua implantação, que os usuários (em todos os níveis) estejam treinados e sejam capacitados permanentemente, e que ocorra um gerenciamento adequado do processo de implantação. Vejamos cada um desses aspectos. Comprometimento da alta direção � – é necessário que a alta direção se comprometa com recursos e intenções estratégicas, entendendo os pressupostos necessários à implantação do sistema, priorizando o processo de implantação e estabelecendo objetivos claros e factíveis para o período de tempo que levará para o sistema estar funcionando plenamente. Sem esse comprometimento por parte da alta direção é praticamente impossível que se obtenha êxito em um processo de implantação de um sistema como o MRP. Material Requirements Planning (MRP) 193 Treinamento em todos os níveis � – não se pode esquecer que qual- quer sistema de gestão apenas sugere decisões como saída. Porém, de- cisões são sempre tomadas por pessoas que devem estar efetivamen- te preparadas para tomá-las, tanto no que diz respeito aos aspectos filosóficos dos conceitos de gestão adotados na organização, quanto aos procedimentos específicos de cada processo organizacional. Muitas vezes, as organizações não fazem a necessária adequação de procedimentos à informatização. Isso faz com que os mesmos erros, defeitos ou vícios existentes no passado sejam simplesmente infor- matizados, esquecendo-se de que o processo de implantação de um recurso de informática exige uma mudança na forma como as pessoas realizam os procedimentos operacionais. Gerenciamento do processo de implantação � – como qualquer ou- tro procedimento de mudança, a implantação de um sistema MRP exige um planejamento detalhado para sua operacionalização, servin- do como um guia norteador das atividades. Além disso, é necessário controle rigoroso dos prazos e da execução das atividades, visando garantir que as pessoas realmente se comprometam com o plano es- tabelecido. Sem o necessário planejamento e controle da execução dos procedi- mentos de implantação, um sistema MRP pode representar uma gran- de dor de cabeça à organização. Claro que um sistema MRP exige sempre compromisso e comprometi- mento dentro da organização para atingir todo seu potencial de funciona- mento e colaborar no atingimento dos objetivos organizacionais. Ampliando seus conhecimentos Do MRP I para o MRP II e para o ERP (GAITHER; FRAZIER , 2001, p. 327-328) Os sistemas de planejamento das necessidades de recursos estão em um estado de evolução contínua. Os primeiros sistemas eram muito simples e pouco sofisticados, e o valor da informação que era gerada para as operações 194 Material Requirements Planning (MRP) era limitado. Em sua forma mais primitiva, o MRP simplesmente explodia o MPS nos materiais necessários. Então, no final da década de 1970, Oliver Wigth, George Plossl e outros começaram a conversar sobre como fechar o loop nos sistemas MRP. O termo MRP de loop fechado significa: Um sistema construído em torno do planejamento das necessidades de ma- teriais que inclui as funções adicionais de planejamento da produção (planeja- mento agregado), programa-mestre de produção e planejamento das necessida- des de capacidade. Assim que essa fase de planejamento é concluída e os planos são aceitos como realistas e realizáveis, as funções de execução entram em cena. As funções de execução incluem as funções de controle da manufatura, como a medição da entrada e saída (capacidade), programação e expedição detalhadas, além de relatórios de atrasos previstos tanto da fábrica como de fornecedores, programação do fornecedor etc. A expressão “loop fechado” implica que não so- mente esses elementos são incluídos no sistema global, mas que também há um retorno (feedback) das funções de execução a fim de que o planejamento possa se manter válido o tempo todo. Mais tarde, a necessidade de sistemas MRP mais sofisticados levou Wigth, Plossl e outros a sugeriremuma mudança do MRP I para o planejamento dos recursos de manufatura (MRP II). A expressão planejamento dos recursos de manufatura significa: Um método para o efetivo planejamento de todos os recursos de uma empresa manufatureira; ele encaminha o planejamento operacional em unidades, o plane- jamento financeiro em dólares, e tem uma capacidade de simulação para respon- der perguntas do tipo “O que acontecerá se... ?”. Ele é composto de uma variedade de funções, ligadas umas às outras: planejamento dos negócios, planejamento das vendas e operações, planejamento da produção, programa-mestre de produ- ção, planejamento das necessidades de materiais, planejamento das necessidades de capacidade e sistemas de suporte à execução para capacidade e materiais. A saída desses sistemas é integrada com relatórios financeiros, como, por exemplo, o plano de negócios, relatório de compromisso de compra, orçamento de embarque, projeções de estoques em dólares etc. Planejamento dos Recursos de Manufatura é uma consequência natural e uma extensão do MRP de loop fechado. A evolução dos sistemas de planejamento das necessidades de recursos ainda está em curso. A novidade nessa evolução, o planejamento dos recur- Material Requirements Planning (MRP) 195 sos empresariais (ERP), é ainda mais abrangente do que o MRP II. A expressão planejamento dos recursos empresariais significa: Um sistema de informação orientado para a contabilidade para identificar e planejar os recursos empresariais necessários para aceitar, fazer, remeter e cuidar dos pedidos dos clientes. Um sistema ERP difere do sistema MRP II em termos de requisitos técnicos, como, por exemplo, interface do usuário, banco de dados re- lacional, uso de linguagem de quarta geração e ferramentas de engenharia auxi- liada por computador no desenvolvimento, arquitetura cliente/servidor e porta- bilidade de sistema aberto. Os sistemas ERP consistem em muitos módulos de software que podem ser comprados separadamente para ajudar a administrar várias atividades di- ferentes em diversas áreas funcionais de um negócio. Por exemplo, o software R/3 da SAP, a maior vendedora do software ERP, oferece módulos para vendas e distribuição, contabilidade financeira, controle financeiro, administração de ativos fixos, recursos humanos, fluxo de trabalho, soluções industriais, admi- nistração de materiais, planejamento da produção (inclusive o MRP e CRP), administração da qualidade, manutenção de fábrica e sistemas de projeto. Os sistemas ERP exigem um grande compromisso e investimento, muitas vezes exigem que as empresas modifiquem alguns de seus processos para acomo- dar o software, e às vezes são necessários muitos anos para implementá-lo. Atividades de aplicação 1. Organize um quadro que relacione os aspectos semelhantes e as dife- renças existentes entre planejamento da produção, plano-mestre da produção e Material Requirement Planning (MRP). 2. Em termos de horizonte de planejamento, qual é o horizonte de pla- nejamento de um MRP? É possível utilizá-lo para períodos de tempo mais longos, por exemplo, 24 meses? 3. Qual o sentido da seguinte afirmação “considerar política de estoques de segurança quando as incertezas se relacionem com as quantidades de entrega, e políticas de tempos de segurança quando as incertezas estiverem relacionadas com os tempos de entrega”? 196 Material Requirements Planning (MRP) Gabarito 1. Quadro comparativo Semelhanças Diferenças Planejamento da produ- ção/ PMP/ MRP Planejamento da produção PMP MRP Todos apresentam um horizon- te de planejamento (embora di- ferente para cada um) Horizonte de planejamento de 6 a 18 meses. Define períodos semanais, quinze- nais ou mensais. Equaciona os pra- zos de fornecimen- to com os prazos estabelecidos no PMP. Todos dependem de lead times de compras e produção Depende do lead time de com- pras e produção. Depende das pre- visões de vendas e de demandas já existentes (pedi- dos). Depende do que for programado pelo PMP e dos prazos dos forne- cedores. Todos dependem das previsões de vendas Depende do planejamento estratégico e do planejamento de marketing. Depende do planejamento da produção. Depende do planejamento da produção e do PMP. Responde o que, onde, como e quanto produzir. Define o que a produção pode e irá produzir. Define quando acontecerá a pro- dução. Todos apresentam preocupação com custos Preocupa-se com custos totais. Preocupa-se com custos de produção Preocupa-se com custos de aquisição. Define estratégias de produção. Define táticas de produção. Define operações produtivas. 2. O seu horizonte de planejamento varia de três a dezoito meses. Embo- ra não seja usual, seria possível utilizá-lo para horizontes de 24 meses, uma vez que ocorrem revisões periódicas continuamente. 3. O sentido é que a organização deve fazer estoques de segurança quan- do não tiver certeza de entregas das quantidades exatas que são pe- didas e, por outro lado, deve gerenciar os prazos de seus pedidos, de forma antecipada, quando existir insegurança nos prazos de entrega dos fornecedores. Material Requirements Planning (MRP) 197 198 Material Requirements Planning (MRP) A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Introdução O processo de globalização dos mercados conduz a uma busca por sis- temas e processos que permitam às organizações enfrentar ambientes com uma concorrência cada vez mais acirrada. Um dos sistemas que possibilita capacitação competitiva tem sido o Just-in-Time (JIT). Porém, na prática, ob- serva-se que esse sistema de produção tem sido implantado de forma disso- ciada dos princípios da filosofia de qualidade total, porque, na maioria dos casos, não ocorre a necessária preparação da mão de obra. De uma forma sintética, existem três ideias centrais sobre as quais o siste- ma JIT está baseado: integração e otimização; melhoria contínua (Kaizen); e resposta às necessidades dos clientes. Integração e otimização Um dos objetivos do JIT é reduzir, ou eliminar completamente, sistemas, processos e funções que não sejam necessários ao processo produtivo. Assim, atividades como inspeção, manutenção de estoques, movimentações, retra- balhos etc., devem ser sempre eliminadas ou reduzidas, uma vez que muitas das atividades/funções improdutivas existentes nas organizações são cria- das em virtude de ineficiência ou incapacidade de determinadas atividades ou funções de origem. Para o JIT, a integração e otimização nascem no momento da concep- ção e projeto de um novo produto, a partir de uma visão abrangente que parte da máxima “tudo o que não agregue valor ao produto é desnecessário e deve ser eliminado”. Melhoria contínua (kaizen) A melhoria contínua (kaizen em japonês) advém de uma mentalidade de trabalho em grupo, compartilhamento de visão e valorização total do homem 199 200 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais em todos os níveis da organização. Trata-se de mentalidade que proporciona o desenvolvimento pleno do potencial das pessoas, conseguindo, com isso, comprometimento de todos os participantes do processo, através da descen- tralização do processo decisório, transparência e honestidade nas ações. Essa ideia possibilita a aquisição e manutenção de vantagens competiti- vas sustentáveis. O princípio postulado pelo JIT, nesse caso, é: “nossa missão é a melhoria contínua”. Resposta às necessidades dos clientes O terceiro postulado da filosofia JIT é entender e responder unicamente às necessidades dos clientes. Aliás, este é um dos princípios básicos da filosofia do marketing: identificar desejos e necessidades não satisfeitos, no mercado, e desenvolver produtos/serviços que possam satisfazê-los. Ou seja, esse pos- tulado implica a responsabilidade em atender os clientes nos seus requisitos de qualidade, prazos de entrega, e de custos. Isso leva a uma abordagem mais abrangente, uma vez que toda a cadeiade valor deve estar integrada e em sintonia com esta visão. Ou seja, os forne- cedores também devem se comprometer com o atendimento aos requisitos dos clientes. Assim, clientes e fornecedores passam a ser considerados como uma extensão do processo produtivo da organização. Conforme Moura (1989), o sistema JIT “é uma abordagem disciplinada para melhorar a produtividade e a qualidade total, através do respeito pelas pessoas e a eliminação das perdas”. Assim, o JIT oferece instrumentos pode- rosos no intuito de eliminar ineficiências e desperdícios nos processos pro- dutivos. A principal característica dos sistemas Just-in-Time é o fato de que eles “puxam” a produção, e sua lógica interna pressupõe um profundo grau de comprometimento dos recursos humanos envolvidos no processo. Pois as atividades cotidianas de programação da produção, inspeção da qualida- de, controle de estoques em processo, entre outras, são sempre delegadas aos operadores naquilo que se convenciona denominar “chão de fábrica”. O JIT pode ser definido como uma filosofia de manufatura baseada na eliminação permanente e planejada de todo tipo de desperdício e em me- lhoria contínua da produtividade. O Just-In-Time (JIT) é uma filosofia de pro- dução, que nasceu no interior da linha de produção da Toyota®, em meados da década de 1970 e, mais tarde, se disseminou para muitas outras organi- A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 201 zações, numa tentativa de se acelerar os lead times (tempos de ciclo) dos processos produtivos através de entregas de materiais, por parte dos forne- cedores, nos momentos exatos (in time) em que são necessários. Ou seja, o JIT preconiza que os fornecedores vão entregando os suprimentos à medida (no tempo certo) que eles vão sendo necessários ao processo produtivo. Os objetivos iniciais da Toyota® Motor Company eram obter um sistema de administração que permitisse coordenar com precisão a produção com a demanda por modelos e cores específicas dos veículos com o mínimo de atrasos nesse processo. Segundo Corrêa e Correa (2004, p. 597-598), [...] o JIT é muito mais do que uma técnica ou um conjunto de técnicas de administração da produção, sendo considerado uma completa filosofia que inclui aspectos de adminis- tração de materiais, gestão da qualidade, arranjo físico, projeto do produto, organização do trabalho e gestão de recursos humanos, entre outros. É importante esclarecer que, enquanto filosofia de produção, o JIT está muito mais voltado para os sistemas de suprimento do que para os siste- mas de distribuição, pois na área de suprimentos encontramos as deman- das dependentes, as quais, por serem controláveis, podem ser mais bem gerenciadas. Por outro lado, nos canais de distribuição (produtos acabados) as demandas costumam ser mais independentes e, por isso mesmo, menos previsível e de difícil gerenciamento em termos de tempos de ciclo. Para o JIT não existem estoques permanentes. Portanto, essa filosofia tem como princípio básico eliminar tudo o que não agrega valor ao produto ou serviço (como é o caso dos estoques), utilizando-se de baixos níveis de es- toques desde o fornecedor até o produto acabado colocado no cliente final. Portanto, a ideia do JIT não apenas melhora a qualidade do produto como, também, reduz seus custos e contribui para a agilidade no processo de dis- tribuição (entrega) dos mesmos. Essencialmente, segundo Tubino (1999), as ferramentas JIT para o chão de fábrica podem ser resumidamente caracterizadas por três aspectos: produ- ção puxada; nivelamento da produção; e manufatura celular. Além disso, os objetivos operacionais do JIT são a qualidade e a flexibilidade, e isso é conse- guido a partir de duas metas de gerenciamento que se sobrepõem a quais- quer outras: melhoria contínua e combate incansável aos desperdícios. Esses aspectos terão um melhor detalhamento nas seções seguintes. Porém, antes, é necessário esclarecer alguns aspectos iniciais sobre pré-manufatura JIT. Nos últimos anos, existe uma tendência a se assumir a expressão manu- fatura lean ou lean production em substituição ao just-in-time. Existem diver- 202 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais sas discussões acadêmicas e empresariais em torno dessa questão. Porém, a verdade é que os postulados das duas abordagens são extremamente se- melhantes. Assim, vamos usar a expressão JIT, por entendermos que é a mais utilizada e com maior referencial teórico e prático disponível. O que é necessário para implantar o JIT? A ideia básica do JIT é relativamente simples e inspirou-se na reposição dos produtos nas gôndolas dos supermercados. Uma vez que os produtos vão sendo retirados pelos clientes, os repositores percebem, visualmente, a neces- sidade de repor os estoques e o fazem rapidamente. Portanto, a ideia central é reduzir drasticamente os estoques de produtos em processo ao longo dos sistemas produtivos. Isto significa que a redução do tempo gasto em trans- porte e nos centros de trabalho de manufatura, tanto dos fornecedores até o início do processo produtivo, quanto do armazém de produtos acabados até o cliente final, representa um ganho significativo em produtividade. Como visto, o JIT pode ser definido como um sistema de manufatura que tem por objetivo eliminar os processos e procedimentos através da redução contínua de desperdícios. Entende-se por desperdício tudo aquilo que não adicione valor aos produtos finais, e tais desperdícios podem ser encontra- dos em várias áreas ou atividades da organização, como veremos a seguir. Quadro 1 – Exemplos de desperdícios em que se concentram os esforços JIT Desperdícios de superprodução. � Desperdícios de material esperando no processo. � Desperdícios de transporte. � Desperdícios de tempos de processamento. � Desperdícios de movimento nas operações. � Desperdícios de fabricar produtos defeituosos. � Desperdícios de estoques. � (O H N O , 1 99 7, p . 3 9. A da p ta do .) Os desperdícios ocorrem ao longo dos processos produtivos, nos seus diferentes estágios e, assim, estabelecem-se algumas metas que visam resol- ver a situação de tais desperdícios, que podem ser assim relacionadas: A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 203 Quadro 2 – Exemplos de metas JIT Zero transporte. � Lote unitário (uma peça). � Zero defeito. � Tempo zero de preparação ( � setup). Lead time � zero. Movimentação zero. � Quebra (de máquinas) zero. � Estoque zero. � Portanto, o JIT exige alguns alicerces: produção celular1; sistema de in- formações ajustado e confiável; balanceamento (equilíbrio) da produção; e excelente relacionamento com os fornecedores. A produção (ou manufatura) celular significa que o processo produtivo se organiza de forma que um mesmo funcionário (ou um pequeno grupo deles) inicie e termine um ou mais tipo de peça necessária para a célula a seguir. Ou seja, isso significa que são produzidos pequenos lotes (ou até mesmo lotes unitários de cada peça), de forma que não existam estoques entre as célu- las. Para que isso aconteça sem problemas é necessário que as peças fluindo entre as células não apresentem problemas de qualidade (defeito zero), de forma a garantir a continuidade do processo. Detectar erros de qualidade é mais fácil quando se produzem pequenos lotes. Ou seja, a responsabilidade pela qualidade se localiza na célula. Para que as diferentes células produtivas se mantenham conectadas, é ne- cessário um ótimo sistema de informações. Outro requisito básico é a produ- ção equilibrada, isto é, a distribuição homogênea das necessidades do dia a dia ao longo do período de planejamento programado (geralmente mensal, com revisões semanais e diárias). Se o processo posterior solicitar material de forma incerta, a etapa anterior deverá estar preparada para essa variação de pedidos. Isso só é possível com uma relação estreita e sinérgica entre a manufatura e seus fornecedores. Os fornecedores,geralmente, devem insta- lar-se próximos dos seus principais clientes e desenvolver modais de trans- porte confiáveis que garantam entregas pontuais. Para minimizar o tempo 1 Manufatura celular é um tipo de arranjo físico (layout) em que todas as operações necessárias para produzir um determinado produto ou uma família de produtos estão organi- zadas sequencialmente de forma a permitir apenas um operador (ou número reduzido de operadores), diferindo, assim, dos layout por processo, por produto ou de posição fixa. 204 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais despendido com novas encomendas, torna-se imperioso recorrer às novas tecnologias para implementar sistemas de compra on-line, uma vez que a in- tegração de sistemas de informação também é um dos requisitos do JIT. Isso reduz os custos de transação, permitindo que os fornecedores pratiquem preços competitivos. Além disso, todos os ganhos de custos são comparti- lhados entre os parceiros na cadeia de suprimentos. O just-in-time possui também alguns requisitos de caráter social relacio- nados com a valorização dos recursos humanos. Os principais responsáveis pelo êxito ou pelo fracasso da implementação do JIT são sempre os dirigen- tes da organização. Cabe à alta administração a incumbência de eliminar distâncias hierárquicas, criando clima de participação de todos, de forma a garantir o cumprimento dos objetivos relacionados ao JIT. Em um sistema de produção que adote a filosofia JIT, deve-se considerar a existência de algumas características que apresentem coerência com os princí- pios de funcionamento da filosofia JIT. Entre elas, podemos relacionar: Geralmente o JIT funciona melhor com pequenas linhas de produtos � (com um mix menor de produção). Ocorre que linhas muito extensas (com grande variação de mix de produtos) exigem uma faixa operacio- nal do sistema produtivo com elevado grau de flexibilidade, o que não é viável na filosofia JIT. Isso exige que os projetos de fábricas devam possibilitar que a produção seja focada em alguns poucos produtos, sem minimizar demais o mix de produtos que a organização oferece ao mercado. O � layout da manufatura, obrigatoriamente, tem que ser celular. Isso é possível quando os componentes produzidos são agrupados em famí- lias de produtos com formas e roteiros de produção similares. Dessa forma, é possível organizar o processo em células (pequenas linhas de produção), fazendo com que o processo produtivo seja mais eficiente e, com isso, reduzindo os tempos de preparação de máquinas (setup), bem como a movimentação interna dos materiais. Os responsáveis pelo balanceamento da linha de produção devem � possuir autonomia para organizar o processo e definir o ritmo de pro- dução, produzir mesclas de modelos e, ainda, dar autonomia para os operadores no controle da qualidade. Isso significa que os operadores podem, inclusive, paralisar a produção, se necessário, para corrigir er- ros de qualidade (ou outros). A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 205 A mão de obra tem um papel essencial no funcionamento dos siste- � mas JIT. Pois, “se não houver um profundo envolvimento da mão de obra na implementação da filosofia Just-in-Time, o processo resultará em fracasso” (RAZZOLINI FILHO, 2009). É preciso que os recursos hu- manos sejam valorizados, respeitados e tenham a necessária autono- mia (resultante da confiança neles depositada) para que o sistema fun- cione a contento. Em termos da administração de materiais, a área de suprimentos tam- � bém deve estar profundamente inter-relacionada com os princípios do JIT, uma vez que precisa garantir que os recebimentos de mate- riais apresentem confiabilidade e a necessária frequência; os tempos de ciclo (lead times) do fornecimento devem ser reduzidos; os lotes de fornecimento também devem ser pequenos (na medida do balancea- mento da produção); e, ainda, a qualidade do fornecimento deve ser assegurada pelo fornecedor, uma vez que os materiais devem entrar diretamente na linha (célula) de produção. As responsabilidades da administração de materiais também são au- � mentadas pelo risco de interrupção do processo produtivo em razão da redução dos níveis de estoques no sistema. Também devem ser considerados os riscos de paralisações por quebras de máquinas, e por problemas na gestão de pessoas (tanto na própria organização quan- to nos fornecedores), uma vez que greves podem paralisar completa- mente a produção em pouco tempo. Por fim, deve haver garantia de estabilidade da programação (carga) � diária de produção, para possibilitar o estabelecimento de fluxos con- tínuos de materiais. Isso é responsabilidade do planejamento da pro- dução, uma vez que a programação e o controle da produção estão baseados no sistema kanban2. O kanban é o sinalizador que “puxa” a produção dentro da fábrica (entre as células), garantindo a produção da quantidade necessária e programada para atender às necessidades dos processos que vem na sequência. Ocorre que o kanban pressupõe a existência de um estoque mínimo entre as diferentes unidades produtivas (células). Assim, existindo um mix muito variado de componentes e/ou produtos, o fluxo será intermitente, ge- rando elevados estoques de produtos em processo para cada item na linha de produção. Isso contraria frontalmente vários princípios da filosofia JIT e compromete o seu funcionamento. 2 Kanban é uma palavra japonesa que, em portu- guês, significa cartão. 206 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Outro aspecto a ser considerado é que a filosofia JIT exige que se estabe- leçam roteiros preferenciais para os processos produtivos em linhas contínuas de fabricação e, caso isso não seja possível, o funcionamento just-in-time fica comprometido. Segundo Gaither e Frazier (2001, p. 409), para a implanta- ção de um sistema JIT, são necessárias certas adaptações nas fábricas e nos processos gerenciais antes de se perceber os benefícios oriundos do JIT. Tais mudanças são assim resumidas: Quadro 3 – Mudanças nas fábricas para implantação do JIT 1. Estabilizar programas de produção. 2. Tornar as fábricas mais focalizadas. 3. Melhorar as capacidades de produção de centros de trabalho de manu- fatura. 4. Melhorar a qualidade do produto. 5. Fazer treinamento interfuncional de trabalhadores a fim de que eles te- nham múltiplas habilidades e sejam competentes em diversas tarefas. 6. Reduzir quebras de equipamentos por meio de manutenção preventiva. 7. Desenvolver relações de longo prazo com os fornecedores para que se- jam evitadas interrupções nos fluxos de materiais. (G A IT H ER ; F RA ZI ER , 2 00 1, p . 4 09 ) Outro aspecto importante para que o JIT seja funcional é a existência dos kanbans, conforme já se deixou perceber acima. Portanto, vamos esclarecer um pouco mais o que é, e como funciona, o kanban. Kanban O sistema kanban, segundo seu próprio criador, é o método de operação do sistema Toyota® de produção e foi criado a partir de estudos dos super- mercados americanos no final da década de 1940, pois num supermercado o cliente pede aquilo que necessita, no momento e nas quantidades neces- sárias (OHNO, 1997, p. 44-46). Segundo Shingo (1996, p. xvii), A Toyota Motors levou vinte anos para desenvolver totalmente seu sistema de produção; outras companhias necessitarão de, no mínimo, dez anos para obter resultados satisfató- rios ao copiá-lo. É possível aplicar métodos kanban, com sucesso, em um prazo de seis meses. A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 207 Ou seja, vindo do engenheiro que auxiliou o processo de implantação do sistema JIT na Toyota, deve ficar claro que o kanban pode (e deve) an- teceder o sistema JIT. Assim, o sistema kanban é um dos pilares da filosofia JIT, caracterizando-se por “puxar” os lotes de materiais dentro do processo produtivo, ao contrário dos processos tradicionais que “empurram” materiaisao longo do processo. Esse sistema fundamenta-se em medidas de trabalho adequadas, sequên- cias corretas (o processo subsequente retira do precedente apenas o que é necessário, nas quantidades e momento necessários), engenharia de métodos e layout, gerenciamento de capacidades, monitoramento constante (buscan- do eliminar defeitos no local em que acontecem) e controle de programas de produção. O sistema kanban funciona com base em sinalizadores para ativar a produção e movimentação dos materiais ao longo do processo produtivo. Normalmente, esses sinalizadores são confeccionados em cartões e painéis porta-kanbans, porém cada organização pode definir sua própria forma de sinalizar necessidades de produção/movimentação de materiais. Conforme a função exercida, os cartões kanban podem ser classificados em dois grupos: kanbans de produção e kanbans de movimentação. Por sua vez, os kanbans de movimentação podem subdividir-se em kanbans de movimentação in- terna ou kanbans de fornecedor. Os kanbans de movimentação são também chamados de kanban de requisição. Essa classificação pode ser visualizada na figura a seguir. Figura 1 – Classificação dos cartões kanban. Kanban Kanban de produção Kanban de movimentação Kanban de movimentação interna Kanban de fornecedor (T U BI N O , 19 99 , p. 8 9. A da p ta do .) Tendo visto quais as necessidades para um adequado funcionamento do JIT, podemos analisar seus objetivos operacionais e o gerenciamento dos materiais (estoques) na visão da filosofia JIT, na próxima seção. 208 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais O JIT, seus objetivos operacionais e a questão dos estoques A questão da qualidade é uma espécie de mantra sagrado para a filoso- fia JIT, aliada à necessária flexibilidade operacional que sustenta o funcio- namento do sistema. Esses objetivos conduzem a dois outros: a velocidade (rapidez) e confiabilidade do sistema. Qualidade A lógica do JIT fundamenta-se na premissa do “defeito zero”. Assim, não existe outro nível aceitável para o projeto do sistema que não seja zero defeito, visando garantir que não ocorram defeitos ao longo do processo produtivo (o operador tem autonomia para parar a linha de produção caso constate qualquer defeito). Para tanto, busca-se identificar causas de proble- mas, e soluções para eliminá-las, tão logo surjam. Para tanto, todos os recur- sos humanos nos processos produtivos são exaustivamente treinados para executarem perfeitamente todas as tarefas em suas operações, com ênfase especial à questão da qualidade. Assim, todos sabem como produzir um componente com a qualidade exigida pelo processo inteiro. Além disso, a melhoria contínua (denominada kaizen) é uma atitude comportamental que faz parte da descrição de cargos dos trabalhadores da produção, exigindo- -lhes comprometimento com o processo produtivo porque sabem que um defeito em parte do processo compromete o processo todo. Assim, a exis- tência de lotes mínimos de produção visa a não comprometer a qualidade do processo todo, uma vez que a existência de defeitos em um lote pequeno pode ser fácil e rapidamente corrigida. Flexibilidade A flexibilidade de resposta do sistema produtivo, no JIT, é possível devido à redução permanente dos tempos de ciclo existentes no processo produti- vo. Apesar de não existir a flexibilidade de mix dos processos produtivos con- vencionais, a flexibilidade da mão de obra, aliada ao layout celular, permite que o sistema JIT tenha certa flexibilidade quanto ao mix de produtos que o mercado possa exigir da organização. Como o JIT prevê a manutenção de A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 209 pequenos volumes de estoques, é possível mudar de um modelo de produto para outro sem a existência de volumes elevados de componentes obsole- tos. Como as especificações de componentes terceirizados são transmitidas aos fornecedores durante o processo de desenvolvimento, estes podem de- senvolver tais componentes de forma alinhada com seus próprios processos produtivos e, ainda, atender rapidamente às alterações nos processos. Velocidade Quando se reduzem os tempos de produção, trabalha-se com níveis de estoques reduzidos e se possui flexibilidade; o tempo de ciclo do processo produtivo é mais curto e, como consequência, mais rápido. Não basta apenas apresentar produtos com qualidade e possuir flexibilidade de processo. É necessário que tudo isso aconteça na velocidade desejada pelo mercado. Assim, a diferenciação de produtos na fase de montagem final (uma vez que se conta com componentes padronizados, que se adaptam a diferentes pro- jetos de manufatura) permite que se atinja uma velocidade significativa na entrega de produtos em prazos muito reduzidos. Confiabilidade As políticas de manutenções preventivas e flexibilidade da mão de obra tornam os processos produtivos mais robustos e, ainda, aumentam a con- fiabilidade das entregas. Isso é decorrência, ainda, do funcionamento do kanban e da visibilidade do processo que permite identificar e resolver rapi- damente problemas que poderiam afetar a confiabilidade do sistema, uma vez que tudo é resolvido imediatamente. Diante do exposto, é possível concluir que a flexibilidade de mix do sistema produtivo e variação de demandas no curto prazo são as principais limitações para o correto funcionamento dos sistemas JIT. Ocorre que, para funcionar a contento, os sistemas JIT exigem que a demanda apresente estabilidade, possibilitando um adequado balanceamento dos recursos, permitindo que o fluxo de materiais seja contínuo e sem oscilações bruscas. Quando existe ins- tabilidade de demanda, é necessário manter níveis de estoques de produtos acabados para possibilitar que a demanda sobre o sistema produtivo seja a mais estável possível, garantindo seu funcionamento equilibrado. 210 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Além desses objetivos operacionais, de forma sintetizada, pode-se afir- mar que o JIT apresenta outros objetivos importantes, que são os seguintes: Quadro 4 – Objetivos do JIT Tornar a empresa enxuta e flexível. � Produzir somente os produtos necessários no momento em que sejam � necessários. Produzir com qualidade requerida. � Reduzir o � lead time na concepção de novos produtos. Reduzir � lead time nos processos produtivos. Melhorar o nível de serviço. � Reduzir perdas agregando mais valor aos produtos. � Aumentar o retorno sobre o investimento (ROI). � Reduzir estoques em processo, de produtos acabados e, sempre que � possível, de matérias-primas. Reduzir custos de fabricação. � Reduzir o custo e o � transit time (tempo de transporte). Um dos princípios básicos do JIT é a redução de estoques, de forma per- manente e contínua, o que se trata na próxima seção. A questão dos estoques A busca pelo atingimento dos objetivos de qualidade e flexibilidade se dá, sobretudo, através do mecanismo de redução dos estoques, uma vez que os mesmos tendem a esconder os problemas do processo produtivo. Segun- do Razzolini Filho e Rodriguez (2004, p. 55), [...] as preocupações organizacionais relativas a estoques são atuais e relevantes ao pro- cesso decisório, uma vez que representam inversão de recursos financeiros em ativos operacionais e, por isso, devem competir, com outros ativos, por tais recursos que normal- mente são escassos ou limitados. Nos modelos de produção tradicionais, os estoques são mantidos para evitar que ocorram descontinuidades nos processos produtivos, em ante- A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 211 cipação às necessidades dos clientes, para fazer frente a diferentes proble- mas de produção que, de forma resumida, podem ser classificados em três grupos principais: problemas de quebra de máquina; problemas de prepara- ção de máquina; e problemas de qualidade, conforme Corrêa e Corrêa (2004, p. 599-600). Problemas de quebra de máquina Namanufatura JIT, os estoques são mantidos em um mínimo indispen- sável para o funcionamento do sistema produtivo. Porém, a lógica da ma- nutenção de níveis mínimos de estoques, entre estágios do processo, é uma exigência para que os estágios subsequentes não parem quando ocorrem paradas de máquinas decorrentes de problemas de manutenção. Ou seja, a existência de estoques entre os estágios produtivos visa gerar independên- cia entre eles. Problemas de preparação de máquina Geralmente, nos processos produtivos, uma máquina é utilizada para pro- cessar operações em vários itens ou componentes. Assim, sempre que se vai produzir um componente novo, é preciso parar a máquina para que ela possa produzir o novo item ou componente (isso é denominado setup). Esse setup implica em custos que são resultado do tempo que o equipamento e a mão de obra de operação ficam em inatividade. Assim, quanto maior o tempo de setup, maiores os custos e, como resultado, maiores tendem a ser os lotes produzidos, de forma a ratear os custos entre volumes maiores de itens ou componentes, permitindo que o custo unitário seja reduzido. Porém, não se pode esquecer que grandes lotes de produção elevam os níveis de estoques finais, uma vez que se antecipa a demanda, produzindo tais lotes que serão consumidos (demandados) em períodos posteriores. Problemas de qualidade Outra forma de gerar independência entre os estágios do processo pro- dutivo pela formação de estoques é quando qualquer estágio do processo produtivo apresenta problemas de qualidade. Ou seja, quando existem pro- blemas de qualidade, gerando itens ou componentes que serão refugos do processo, a formação de estoques entre os estágios possibilita continuidade 212 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais do processo sem interrupções decorrentes de problemas de qualidade dos estágios anteriores. Os custos no ambiente JIT Para a contabilidade de custos tradicional, existem dois tipos (ou catego- rias) de custos considerados no gerenciamento contábil em relação aos níveis de produção: os custos fixos e os custos variáveis. Segundo Neves e Viceconti (1995, p. 246), os custos fixos são aqueles que se mantêm constantes, inde- pendentemente do volume de produção, como os aluguéis, depreciações, imposto predial, prêmios de seguros etc.; são custos que estão diretamente relacionados com a capacidade instalada da organização. Por outro lado, os custos variáveis são aqueles cujos valores se alteram em função do volume de produção da organização, como a matéria-prima utilizada, os insumos, depreciação de máquinas e equipamentos produtivos (se esta for realizada em função das horas/máquinas trabalhadas), desembolsos com horas extras na produção etc. Ou seja, os custos variáveis são diretamente relacionados com produção. Outro critério adotado pela contabilidade tradicional diz respeito aos critérios de custeio que, então, são classificados em custos diretos e custos indiretos. Ainda segundo Neves e Viceconti (1995, p. 245), os custos diretos são “aqueles que podem ser apropriados diretamente aos produtos fabri- cados, porque há uma medida objetiva de seu consumo nesta fabricação”. Seus exemplos mais comuns são: a matéria-prima, a mão de obra diretamen- te aplicada no processo, os materiais de embalagens, depreciação de equi- pamentos dedicados (utilizados para a produção de um único produto), e energia elétrica das máquinas, quando é possível determinar o consumo na produção de cada produto. Os custos indiretos são aqueles que “dependem de cálculos, rateios ou es- timativas para serem apropriados em diferentes produtos”, ou seja, somente é possível atribuí-los aos produtos de forma indireta. Isso significa que tais custos exigem algum critério ou base de rateio. De forma simplificada, pode-se dizer que o custo total é a soma dos custos fixos com os custos variáveis (sejam eles diretos ou indiretos). CT = CF + CV A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 213 Uma prática contábil (ultrapassada) para determinar o preço de venda adicionava aos custos totais os tributos incidentes sobre o produto e, então, acrescia-se uma margem de lucro desejada ou esperada. Muitas organizações brasileiras adotam uma prática semelhante para determinar seus preços de venda, ao multiplicar seu custo total acrescido de tributos por um número entre dois e cinco. Na verdade, essa prática induz a pensar que tais organi- zações obterão lucros exorbitantes (principalmente quando multiplicam por cinco). Porém, na verdade, muitas vezes tais organizações poderão acabar tendo prejuízo, como veremos a seguir. Shingo (1996, p. 259-260), afirma que “o primeiro conceito desenvolvido como base para o gerenciamento da produção é o princípio da minimização dos custos”. Trata-se do chamado princípio do não custo, que analisa a origem dos lucros de uma perspectiva completamente diferente das práticas usuais, ou seja, ao invés de se adotar a fórmula Custo + Lucro = Preço de venda os fabricantes devem deixar o mercado determinar o preço de venda, ado- tando a fórmula Preço – Custo = Lucro A partir desse princípio (do não custo), a única forma se conseguir au- mento de lucros é através da redução dos custos. E a redução dos custos se dá através da eliminação total de perdas. Foi exatamente a partir desse prin- cípio que todos os demais princípios do JIT foram desenvolvidos, segundo Shingo. Na realidade, a fórmula utilizada pela contabilidade de custos é cientifi- camente correta. Porém ela não é aplicável às organizações produtivas tra- dicionais, uma vez que não considera os custos financeiros e de qualidade, decorrentes dos processos produtivos. Por isso, a visão da filosofia JIT é mais adequada aos sistemas produtivos, ao possibilitar que se ataque os proble- mas que realmente interessam: as perdas nos processos produtivos. 214 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Logística Lean: conceitos básicos (NISHIDA*, 2008) O gerenciamento da cadeia de suprimentos abrange o planejamento e a gerência de todas as atividades da logística. Inclui também a coordenação e a colaboração com parceiros da cadeia, como os fornecedores, distribuidores e clientes. Nessas atividades existem inúmeros desperdícios como, por exemplo: estoques de segurança e pulmão devido à ineficiência, falta de confia- � bilidade nos processos, variação errática e artificial da demanda; transportes a longas distâncias devido à falta de planejamento de rotas, � equipamentos subutilizados na planta pela inexistência de uma ade- quada engenharia de processos, pagamento de taxas por atraso de en- trega devido a não utilização de janelas de entregas programadas; áreas de estoques desnecessários, investimento em sistemas de arma- � zenagem caros devido aos níveis elevados de estoque; esperas com subutilização da mão de obra, equipamentos, materiais � parados; embalagens sendo solicitadas além da necessidade, ou transportando � simplesmente “ar”, além de desperdícios por embalagens danificadas; retrabalhos, entre outros. � 1. Logística Lean Para gerenciar a cadeia de suprimentos de maneira lean, com menos des- perdícios, é necessário ter uma logística lean, que está baseada em 3 concei- tos fundamentais: reduzir o tamanho do lote; � aumentar a frequência de entrega; � nivelar o fluxo de entrega. � Ampliando seus conhecimentos * Lando Nishida é instrutor e gerente de projetos do Lean Institute Brasil. A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 215 Trata-se de implementar um sistema puxado com reposição nivelada e frequente em pequenos lotes, definidos entre as plantas ao longo do fluxo de valor da cadeia de suprimentos para trabalhar de forma mais sincronizada possível com o consumo real. É comum observar empresas que são abastecidas por seus fornecedores através de entregas em grandes e inconstantes lotes, baseado em previsões de vendas. As mudanças repentinasde pedidos tanto em volume como mix, causam muitas vezes transtornos para todos os lados, gerando diversos tipos de desperdícios e aumento nos custos. Ao adotar uma logística lean, à medida que os produtos são consumidos pelo cliente, cria-se um sinal de puxada nas empresas informando a quantida- de exata de produtos para ser reposto por seus fornecedores, que por sua vez, enviarão um sinal de puxada para seus subfornecedores informando a mesma quantidade consumida para repor e assim sucessivamente ao longo da cadeia. A logística lean requer alguns elementos básicos tais como: Mecanismo de � sinais de puxada como sistemas kanban, dispositivos si- nalizadores que autorizam e dão instruções para a produção ou retirada de itens em um sistema puxado. Os cartões kanban são os exemplos mais conhecidos e utilizados. Dispositivo de � nivelamento como heijunka box em cada etapa do fluxo de valor entre plantas, nivelando a demanda em incrementos pequenos de intervalo de tempo (a cada hora ou a cada turno, dia ou semana) e também por mix, garantindo que todos os produtos sejam produzidos e reabastecidos em ritmo constante, em pequenos lotes. Planejamento de � rotas e entregas frequentes em pequenos lotes uti- lizando o milk run, um método de acelerar o fluxo de materiais entre plantas em que os veículos seguem uma rota para fazer múltiplas car- gas e entregas em diversas plantas, em vez de esperar para acumular materiais para a expedição de carga direta com caminhão cheio. Desta forma é possível reduzir os estoques e o tempo de reação ao longo de um fluxo de valor. É semelhante ao conceito de rotas de movimentação de material dentro das plantas. Muitas vezes, é utilizado também o sistema � cross dock para consolida- ção das cargas, ou seja, uma instalação que seleciona e recombina uma 216 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais variedade de itens que chegam de vários fornecedores a serem envia- dos para diversos clientes (outras plantas, distribuidores, revendedores etc.). Não é um armazém, pois sua função não é estocar materiais. Os produtos são apenas descarregados dos veículos que chegam e trans- portados aos veículos que os transportarão a outros locais. Se estas saí- das forem frequentes é possível esvaziar o cross dock a cada 24 horas. 2. Obstáculos à implementação Mas por que existem tantas barreiras em aplicar estes conceitos? Quais os pré-requisitos para implementar uma logística lean? Quais são os paradigmas a serem quebrados? Em primeiro lugar, não há logística lean que funcione se não houver certa estabilidade na demanda da cadeia de suprimentos. Tentar aplicar estes con- ceitos lidando com picos de demanda trimestral, mensal ou semanal fará com que mantenha estoque pulmão adicional para cobrir estas variações e não será possível realizar entregas niveladas e constantes. Analise o comporta- mento da demanda junto com a área de Vendas e a equipe Comercial, iden- tificando os picos e principalmente as suas causas e gerando contramedidas para evitá-los ou minimizá-los. Segundo, é necessário um esforço na redução dos tempos de setup para diminuir o tamanho dos lotes (lotes mensais para semanais, semanais para diários, diários para horários). Isto já ajudará na prática do nivelamento e a aumentar a frequência de entregas, contribuindo para a manutenção de uma estabilidade básica no sistema produtivo e no transporte. Terceiro, o custo operacional é muito questionado pela logística em rela- ção à implementação do milk run, transportando menos volume e com mais frequência. Existe uma percepção de aumento no custo operacional da lo- gística, que de fato é verdade. Como exemplo, cito o caso de uma empresa na qual os custos operacionais da logística representam 75,5% do custo total logístico e os 24,5% restantes representam os custos em manter os estoques de produtos acabados, ao reduzir o custo de estoque em 50% (resultado da implementação dos conceitos da logística lean), há um aumento de 5,1% no custo operacional, que equivale a 4,3% do custo total logístico. Porém, o custo total logístico é reduzido em 9%. Portanto, é importante analisar os benefícios trazidos para o sistema como um todo e não somente analisar o aumento de custos de um ou outro departamento. A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 217 Gráfico 1 – Redução do custo total logístico 100,0% 80,0% 60,0% 40,0% 20,0% 0,0% Antes -9% +5,1% 50% Depois Custo operacional logístico Custo de estoque + Custo total logístico 3. Sugestões para a implementação Antes de implementar uma logística lean em toda a sua cadeia produtiva, aplique os conceitos lean na produção, e depois faça sua expansão para todo o sistema a partir da necessidade. Inicie um piloto com os produtos que possuam as menores variações de demanda. Uma curva ABC por variação de demanda, onde os produtos A são aqueles com variação menor que 20% (e não os de maior volume), produtos B com variação entre 20% e 100% e produtos C maior que 100%, permitirá uma melhor visualização para escolha dos itens para o piloto. Selecione os produtos A e crie fluxo na sua produção. Dimensione o sis- tema puxado, estenda isto para o fluxo além do porta a porta de sua planta e projete as rotas e as frequências de entregas aplicando os três conceitos da logística lean, reduzindo o tamanho do lote, aumentando a frequência de entrega e nivelando o fluxo de entrega. Acompanhe os indicadores de desempenho e como sempre, realize kaizen trazendo benefícios no gerenciamento da sua cadeia de suprimentos. 218 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Atividades de aplicação 1. Realize uma pesquisa, na internet, em livros, revistas ou jornais e des- cubra o significado de TRF – Troca Rápida de Ferramentas, destacando qual o seu papel para os sistemas Just-in-Time. 2. Realize uma pesquisa, na internet, em livros, revistas ou jornais e apro- funde seus conhecimentos sobre o tema flexibilidade. Veja o que sig- nifica flexibilidade de manufatura. 3. Você concorda que JIT e lean são duas coisas semelhantes? Por quê? Gabarito 1. Troca Rápida de Ferramentas (TRF) é uma técnica desenvolvida na Toyota Corp. para possibilitar a diminuição dos tempos de ciclo nos processos produtivos, visando suportar o JIT. O papel da TRF é dimi- nuir os tempos de ciclo na produção e, com isso, contribuir para o fun- cionamento do Just-in-Time. 2. Flexibilidade é um dos parâmetros de competitividade atuais, sendo uma competência que deve ser atingida pelas organizações que de- sejarem ser mais competitivas. Atualmente, a competição baseada no tempo tem exigido das organizações um esforço adicional de rápida adaptação às alterações ambientais, o que pode ser conseguido com características de flexibilidade. Flexibilidade significa a capacidade de a organização adaptar-se às mudanças ambientais, visando atender às exigências do mercado, de forma rápida e ágil. Flexibilidade de manufatura significa a capacidade de a organização modificar sua operação de produção de alguma forma. “Pode se alte- rar o que a operação faz, como faz ou quando faz. Mudança é a ideia- -chave” (SLACK et al., 1996, p. 77). Segundo os autores, a capacidade de mudança exigida pelos clientes deve proporcionar o atendimento de quatro tipos de exigências de flexibilidade: 1.ª) de produto/serviço; 2.ª) de composto (mix); 3.ª) de volume; e 4.ª) de entrega. 3. Sim, pois o nome lean decorre do conceito de “manufatura limpa” que se encontra na raiz do Just-in-Time. A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais 219 220 A Filosofia JIT e sua importância para a administração de materiais Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades Introdução A expressão administração de materiais é uma das expressões para se referir à atividade logística das organizações. Outra expressão também uti- lizada é administração de logística, ou seja,utilizam-se essas expressões como sinônimas para o termo logística. Porém, a logística empresarial é uma atividade organizacional bem mais abrangente, conforme se discorre neste capítulo. Embora a atividade logística seja tão antiga quanto a própria humanida- de, uma vez que sempre se precisou produzir coisas (mesmo que isso fosse a caça), armazená-las, transportá-las etc., somente após a segunda grande guerra é que a logística sai do plano militar para a vida civil, ou seja, após a II Guerra Mundial, a logística ganha espaço no âmbito industrial. Segundo Vantine (1992): O exército francês usou o termo logístico pela primeira vez, ao definir o sistema de administração e distribuição de provisões às tropas. A palavra deriva do verbo “loger”, que significa alojar, prover, introduzir. Na segunda guerra mundial, ainda restrita ao âmbito militar, o conceito passou a ter conotação extremamente importante aos países aliados, como os europeus e Estados Unidos. Da eficiência das áreas de apoio dependia, afinal, o desempenho das frentes de combate. O planejamento logístico permitia a perfeita administração das remessas de alimentos, equipamentos e tropas às regiões conflagradas, através da utilização correta dos meios de transporte. A guerra acabou, mas o conceito permaneceu. Logística passou a ser definida como um modelo de análise e administração integrada, que permite otimizar o fluxo de materiais, desde sua fonte primária até a colocação nos pontos de venda como produto final. Foi com esse enfoque que passou a integrar os currículos das universidades norte-americanas, estendeu-se à indústria e comércio e começou a tomar corpo como ciência econômica. No Brasil, embora tenha se desenvolvido lentamente até os anos 1990, desse ponto em diante ganha espaço nas grandes organizações e na sua cadeia de suprimentos (seus fornecedores se obrigam a aprimorar seus sis- temas logísticos). Na década de 1990 assistiu-se a um rápido crescimento da logística em virtude do fenômeno da globalização e da instalação de plan- tas industriais modernas e competitivas, que trouxeram consigo a sua rede de fornecedores e prestadores de serviços logísticos. A partir daí, ocorreu o 221 222 Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades surgimento de cursos superiores de graduação e de pós-graduação na área de logística e, consequentemente, uma melhor qualificação dos recursos hu- manos disponíveis ao mercado. O governo, por pressões da sociedade e por estrangulamentos em ope- rações portuárias e aeroportuárias, também investiu na modernização da infraestrutura existente e criou novos recursos (como, por exemplo, os arma- zéns aduaneiros terceirizados) que impulsionaram o crescimento da logísti- ca no país. Porém, a realidade que se constata nas organizações brasileiras (sobre- tudo nas de pequeno e médio porte) é que ainda há um longo caminho a percorrer para se atingir padrões internacionais em práticas logísticas. Con- tudo, é necessário investir ainda mais na capacitação de recursos humanos e no desenvolvimento de uma infraestrutura logística mais robusta para o país; uma vez que “o correto gerenciamento dos sistemas logísticos pode determinar, inclusive, o sucesso ou o fracasso organizacional a respeito do atingimento de seus objetivos globais, e não apenas em relação aos aspec- tos logísticos” (RAZZOLINI FILHO, 2007, p. 14). Não se pode permitir que o país perca competitividade pela falta de investimentos em infraestrutura logística e na qualificação de recursos humanos para uma área de tal dinamismo e vital para a competitividade organizacional. Nas próximas seções abordam-se aspectos conceituais básicos sobre os sistemas logísticos, seus subsistemas e as atividades exercidas neles. O sistema logístico – conceitos elementares A logística, em termos conceituais, representa um paradoxo interessante. Existem duas abordagens para o sistema logístico. A primeira é a abordagem antiga e a segunda a moderna. Na abordagem antiga, a logística era vista principalmente como uma ativi- dade militar, mas, também, como uma atividade econômica. Sob a visão estri- tamente militar, a logística era uma atividade de suporte às campanhas bélicas, ocupando-se de atividades como transporte, armazenagem e gerenciamento de estoques. Porém, numa visão econômica a logística servia para suportar as trocas de bens e, para tanto, ocupava-se de atividades como o transporte, a ar- Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades 223 mazenagem e o gerenciamento de estoques. Ou seja, nas duas visões, dentro da abordagem antiga, a logística ocupava-se das mesmas atividades. Aqui reside o paradoxo, uma vez que as atividades que eram desenvolvi- das pela logística na abordagem antiga continuam existindo na abordagem moderna. Contudo, modernamente, compreende-se a logística como um conceito gerencial, devido às exigências que o ambiente contemporâneo atual impõe às organizações. Na visão de Bowersox e Closs (2001, p. 19), [...] a logística moderna também é um paradoxo. Existe desde o início da civilização: não constitui de modo algum uma novidade. No entanto, a implementação das melhores práticas logísticas tornou-se uma das áreas operacionais mais desafiadoras e interessantes da administração nos setores privado e público. Conforme a visão dos autores, a logística é “uma das áreas operacionais mais desafiadoras”. Mas, por que desafiadora? Porque, essencialmente, a lo- gística precisa desempenhar as mesmas atividades de transporte, armazena- gem e gerenciamento de estoques. Todavia, essas atividades devem ser de- senvolvidas atendendo a três exigências essenciais: velocidade, flexibilidade e nível de serviço. Ou seja, as organizações devem ser extremamente rápidas e ágeis na execução das atividades logísticas, oferecendo flexibilidade para atender às mudanças que ocorrem rapidamente no ambiente de negócios e, ainda, devem oferecer um elevado nível de serviços aos clientes. Quando o sistema logístico é desenhado de forma a atender a essas três exigências, ele passa a ser mais uma ferramenta competitiva à disposição das organizações e, assim, atende aos objetivos estratégicos de qualquer organização e, ao mesmo tempo, do próprio sistema logístico. Portanto, o sistema logístico deve ser desenhado sempre a partir de uma visão estraté- gica dos negócios organizacionais, acompanhando as constantes evoluções e mutações dos ambientes de negócios onde a organização está inserida. Porém, quais as mudanças e desafios que a logística deve enfrentar? Pri- meiramente é necessário separar as mudanças e os desafios em dois am- bientes distintos: o ambiente interno e o externo. No ambiente interno, a logística deve preocupar-se com as mudanças nos procedimentos gerenciais, que acontecem rápida e frequentemente, e nos próprios recursos de suporte administrativo, uma vez que também aí ocor- rem mudanças permanentemente. Por outro lado, as mudanças no ambiente interno estão relacionadas aos recursos das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TICs), e, ainda, 224 Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades nas pressões exercidas pelos grupos de interesse (stakeholders) que atuam constantemente junto à organização. Uma boa ferramenta a ser utilizada é a análise SWOT, para identificar as forças (S), as fraquezas (W) no ambiente interno, e as oportunidades (O) e as ameaças (T) no ambiente em que a organização está inserida. Fazendo-se o permanente monitoramento ambiental (interno e externo), a organização já estará preparada para iniciar um processo de estruturar seu sistema logístico sob a perspectiva da estratégia competitiva. Entretanto, o que é a logística? Discorremos bastante sobre a logística, até aqui, sem defini-la de forma clara e precisa. Conceito de logística Para Harrison e Van Hoek (2003, p. 24), “logística é uma grande palavra para um grande desafio”. Conforme vimos até aqui, a logística teve sua origem como uma atividade militar e, pelas mudanças permanentesno am- biente de negócios, o conceito de logística evolui constantemente, de forma a acompanhar a evolução das organizações. Aceita-se que o objetivo da lo- gística seja garantir a disponibilida- de do produto correto, na quanti- dade e condições corretas, no lugar e no momento certos, ao consumi- dor correto por um custo justo. O conceito de logística está em constante evolução, acompanhan- do a evolução das organizações. Quando a logística consegue garantir essa disponibilidade de produtos, adicionados de serviços, pode-se afirmar que se atinge o objetivo central de qualquer sistema logístico. Agora, podemos esboçar um conceito de logís- tica que nos permita compreender um pouco mais essa importante área do conhecimento humano. Podemos conceituar a logística como a função dentro de uma cadeia de suprimentos que assume a responsabilidade pelo processo de planejar, imple- mentar e controlar o fluxo e o armazenamento, de forma eficiente e econômi- ca, de matérias-primas, materiais em elaboração e produtos acabados, desde um ponto de origem até um ponto de destino (consumo), de forma a atender Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades 225 às exigências dos clientes. Além disso, a logística ainda deve gerenciar o fluxo de informações relacionadas com a movimentação física dos materiais; geren- ciar o destino final dos resíduos gerados pelos materiais (logística reversa) e preocupar-se em fazer tudo isso com o mínimo custo total possível. Portanto, a logística é uma área funcional importante para o bom fun- cionamento das organizações, uma vez que tem a responsabilidade de ge- renciar os fluxos físicos, informacionais e financeiros, relacionados com as transferências de bens (produtos / serviços) desde uma fonte de origem até um destino final. Outros conceitos de logística podem ser apresentados, demonstrando sua evolução ao longo do tempo. Inicialmente, o CSCMP Council of Supply Chain Management Professionals (que se denominava CLM – Council of Logis- tics Management), conceituava a logística da seguinte forma: O conjunto de atividades baseadas na movimentação eficiente de produtos acabados da linha de produção ao cliente final e, em alguns casos, incluem a movimentação de matérias-primas do fornecedor ao início do processo produtivo. Estas atividades incluem o transporte, armazenamento, administração de materiais, embalagens protetoras, controle de inventário, previsão de vendas e serviços a clientes. (CSCMP, 2009) Na abordagem de Ballou (1993, p. 24): A logística empresarial trata de todas as atividades de movimentação e armazenagem, que facilitam o fluxo de produtos desde o ponto de aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo final; assim como dos fluxos de informação que colocam os produtos em movimento, com o propósito de providenciar níveis de serviço adequados aos clientes a um custo razoável. Para Christopher (1997, p. 02): Logística é o processo de gerenciar estrategicamente a aquisição, movimentação e armazenagem de materiais, peças e produtos acabados (e os fluxos de informações correlatas) através da organização e seus canais de marketing, de modo a poder maximizar as lucratividades presente e futura através do atendimento dos pedidos a baixo custo. Importante destacar que tanto o conceito de Ballou, quanto o de Chris- topher, são contemporâneos, embora apresentando alguns aspectos que merecem destaque: Para Ballou, a logística se relaciona com “atividades”, enquanto que para � Christopher ela é um “processo”. Sendo processo, algo mais amplo que inclui, além das atividades, um conjunto de meios para se realizar algo. Para Ballou, a logística é algo extremamente operacional, uma vez que � objetiva “facilitar o fluxo de produtos”. Por outro lado, Christopher en- xerga a logística como “gerenciamento estratégico”. 226 Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades Christopher apresenta uma profunda inter-relação com o marketing � ao incluí-lo na sua conceituação. Ambos concordam que os custos devem ser objeto de preocupação � constante da função logística. Ambos concordam com a importância dos fluxos de informação. � Atualmente, o CSCMP (2009) conceitua a logística da seguinte forma: Logística é a parte do processo da cadeia de suprimentos que planeja, implementa e controla o fluxo e armazenamento, à jusante1 e reverso, eficientes e eficazes dos bens e serviços, bem como as informações relacionadas, desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o propósito de atender às exigências dos clientes. Como é possível perceber, pela evolução dos conceitos, a percepção que se tem da logística é de que ela é uma função essencial para o bom desem- penho organizacional. Para tanto, é necessário que se compreendam seus objetivos e outros aspectos, sobre os quais se discorre nas próximas seções. Objetivos dos sistemas logísticos Dos conceitos apresentados na seção anterior, é possível depreender (de- duzir) dois aspectos centrais que são fundamentais para o gerenciamento logístico: Quadro 1 – Objetivos operacionais da logística Oferecer aos clientes o maior nível de serviços possível. � Apresentar o mínimo possível em termos de custo operacional total. � Isso implica que a logística deve gerenciar um conflito permanente, uma vez que, para se oferecer níveis de serviços elevados, é necessário sempre incorrer em aumento de custos. Embora não seja o objetivo deste capítulo, é importante esclarecer que esse “conflito” entre os objetivos representa aquilo que se convencionou denominar de trade-off logístico. Um trade-off, nesse caso, pode ser definido como uma troca compensatória, em que se escolhe entre alternativas diferentes que conciliem os dois objetivos conflitantes, ou seja, se adota sempre a alternativa que apresente o melhor nível de serviço ao menor custo total possível. Para tanto, é necessário gerenciar sempre a relação custo-benefício, de forma que se trabalhe com a percepção de valor por parte do cliente (o cliente deve perceber valor agregado aos produtos (serviço) e se dispor a pagar o custo disso). 1 Jusante: = sentido que vaza a maré, ou um curso d’água. Os sistemas logísticos, subsistemas e atividades 227 Além disso, é possível, também, inferir dos conceitos apresentados, que a logística consegue atingir tais objetivos a partir da criação de utilidades aos clientes, que podem ser assim resumidas: Quadro 2 – Produtos dos sistemas logísticos Utilidade temporal – o produto no momento em que o cliente dele ne- � cessita. Utilidade espacial – o produto no local em que o cliente deseja. � Utilidade de uso – o produto deve estar em condições de uso / consumo. � Assim, essas utilidades podem ser consideradas como o produto dos sis- temas logísticos, posto que não se criasse tais utilidades, o sistema logístico não atingiria a necessária eficácia preconizada no conceito do CSCMP. Outro aspecto importante, mencionado em todos os conceitos, diz res- peito aos fluxos logísticos, sobre os quais se discorre na próxima seção. Fluxos logísticos Todos os conceitos apresentados mencionam dois fluxos essenciais para o gerenciamento dos sistemas logísticos: o fluxo físico (de materiais) e um fluxo de informações. Além desses dois fluxos, fica implícita a existência de um terceiro: o fluxo financeiro. Pois todos os conceitos também mencionam custos e, além disso, é razoável supor que se o cliente recebe um bem (mer- cadoria / produto / serviço), certamente vai pagar por esse bem. Portanto, sobre esses três fluxos principais se discorre na continuação. O processo logístico implica que os insumos do sistema devem ser transformados nos produtos logísticos (utilidades), entendendo-se proces- so como um conjunto de meios utilizados e de atividades executadas para transformar insumos em produtos. Os principais insumos de um processo lo- gístico são os pedidos, ordens de compra, ordens de entregas etc. Ou seja, os insumos logísticos são exatamente as informações que dão origem a todas