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Instituto Superior De Ciências Tecnologia De Moçambique (Faculdade de Direito) Ciência Política História das Ideias Políticas Nome do discente: Reagan Miguel Rafael Prof. Doutor: Albano Cidade de Maputo, Abril de 2019 Dedicatória Dedico o presente trabalho a Deus, que com sua infinita sabedoria é um importante guia na minha trajetória. A minha mãe, que é meu maior apoio nos momentos de angústia. Também quero homenagear meu pai, que faz de tudo para a faculdade se tornar um sonho possível. Epígrafe “Toda a sociedade que não é esclarecida por filósofos É enganada por charlatães” CONDORCET (1793) Prefácio O trabalho cá patente, apresenta uma abordagem sobre A História das Ideias Políticas, expandindo-se assim sobre a Antiguidade, mais conhecida como Antiguidade clássica, a Idade Média, a Idade Moderna, o Iluminismo, e por fim, mas não menos importante a Idade Contemporânea, com os seus respectivos reagentes (Politólogos). Cada um desses politólogos, apresentam suas teses, e expões as suas ideias de como a política deve funcionar, a melhor forma de governo, e muito mais. Sendo assim, espero que aprecie o trabalho. Boa leitura. Sumário História dos Ideias Políticos…………………………………………………………..1 Antiguidade …………………………………………………………………………….2 Pensamento político de Platão Pensamento político de Aristóteles Idade Média…………………………………………………………………………….. Pensamento político de Santo Agostinho Pensamento político de São Tomás Idade Moderna Pensamento político de Maquiavel Pensamento político de Jean Bodin Pensamento político de Thomas Hobbes Iluminismo Pensamento político de John Locke Pensamento político de Montesquieu Pensamento político de Jean Rosseau Idade Contemporânea Pensamento político de Vladimir Lenine Pensamento político de Karl Marx Pensamento político de John Rawls História das Ideias Politica A História das Ideias Políticas é uma matéria altamente formativa que tem a maior utilidade para formação cultural e cívica dos cidadãos. História das Ideias Políticas é uma disciplina que se debruça sobre a política, não já na perspectiva dos factos, dos acontecimentos, das realidades vividas numa determinada comunidade, mas antes na perspectiva das ideias, das doutrinas, das teorias que vão sendo expostas por pensadores ou preconizadas por homens de acção, e que exerceram ou ainda exercem uma influência determinada no modo de entender e aplicar a política, de organizar o Estado ou outra instituição social, de encarar ou exercer o poder. Assim sendo, entendemos aqui por ideias políticas as ideias referentes a política, isto é, as ideias que dizem respeito a “actividade humana que tem por objecto a conquista e o exercício do poder”. As Ideias Políticas surgem em torno das interrogações fundamentais que, desde a Grécia antiga até aos nossos dias, os homens sempre se puseram a si próprios, na sua constante interrogação sobre o mundo, sobre a vida, sobre a verdade. As respostas que ao longo dos séculos foram sendo dadas a essas questões constituem a matéria-prima de que se ocupa a História das Ideias Políticas. Antes desta disciplina se autonomizar, no séc. XIX, como ramo independente do conhecimento, o estudo histórico da evolução das ideias, teorias ou doutrinas políticas era feito nos quadros da História da Filosofia. Foi a partir de meados do séc. XIX, e sobretudo na transição do fim deste século para o século XX, que se começou a autonomizar uma História das Ideias Políticas, desligada da filosofia e mais próxima da ciência, em que as ideias política aparecem encaradas em si mesmas, no seu significado puramente político, e não já com elementos integrantes de um dado sistema filosófico. A história das ideias políticas apresenta os seguintes períodos históricos: A Antiguidade Clássica; A Idade Média; A Idade Moderna; O Iluminismo; A Idade Contemporânea. Antiguidade Clássica O pensamento político de PLATÃO. Ideia geral Platão é o primeiro grande pensador político a apresentar o que hoje chamamos um “projecto de sociedade”, isto é, delineamento de um modelo de sociedade ideal. - Uma sociedade que possa que possa ser mais justa e mais racional do que aquela em que vivemos. Platão é ainda o primeiro que estuda as diferentes forma de governo, não apenas numa perspectiva estática, mas sobretudo numa análise dinâmica em que regimes e sistemas diversos se sucedem uns aos outros, numa evolução histórica. Platão é enfim, o primeiro grande defensor de uma sociedade colectivista, concentrada e dominada pelo Estado, como forma de resolver o problema da justiça, em busca do ideal de uma sociedade justa. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um dos autores mais importantes na história das ideias políticas. A política e os políticos- Platão joga com as palavas e brinca com as ideias são irrelevantes, tem o sentido do humor. Chega a sua primeira definição de Política: a ciência pode ser técnica ou prática; a ciência teórica divide-se em ciência do comando e ciência do julgamento. Ciência do comando abrange o comando directo e indirecto A política é, pois, uma ciência ou uma arte que consiste em criar ou educar os rebanhos. (Isto numa visão humorista) “Ele autonomiza as pessoas como o Rebanho” A política, em conclusão, será a ciência ou a arte de conduzir os rebanhos bípedes não cornudos e sem plumas – isto é, os homens. Passando do terreno humorístico ao da especulação teórica séria, Platão distingue dois sentidos em que se pode falar de Político: ou como uma forma de conhecimento, uma ciência, útil a educação dos homens; ou como uma arte, a arte de governar, a arte de conduzir os homens em sociedade. Mas acrescenta uma precisão importante – o governo assente na força é tirania, só arte de governar pela persuasão tem o nome de política. A Política é pois, para Platão, a arte de governar os homens com o seu consentimento. Segundo Platão, o melhor governo é o da sabedoria, da razão, da inteligência. O governante ideal é o filósofo. O poder deve pertencer aqueles que sabem, aos mais instruídos pelas ciências, nomeadamente pela Política e pela Filosofia. Mas não basta, para se ser um bom governante, possuir uma grande soma de conhecimentos: são indispensáveis outras qualidades de temperamento. Platão considera que os políticos não podem ser nem moderados nem violentos. Pois os moderados gostam de viver tranquilamente, são pacíficos em sua casa e querem sê-lo perante as potências estrangeiras: São incapazes de combater, ficam a mercê de quem os atacar. Os violentos também não servem porque sendo belicosos empurram o país para a guerra: suscitam inimigos e arruínam a Pátria, ou arrastam-na para submissão ao estrangeiro. O político ideal é, assim, o Rei-Filósofo, tão firme que não violento. Infelizmente, porém este ideal não existe, nunca existiu; e o que existe não presta, em sua opinião. Em busca da justiça- A obra mais importante de Platão no domínio da política é “A República” Platão procura, pois um novo conceito de justiça. E o que há de específico na ideia de justiça apresentada por Platão é que, diferentemente das concepções mais generalizadas (antes e depois dele), a Justiça não é encarada como um valor situado no plano das relações individuais, mas antes no plano colectivo, no plano do Estado. A concepção mais espalhada de justiça- que já era defendida antes de Platão e chegou até aos nossos dias- era a de que a justiça é um valor, ou uma virtude, que consiste em “dar a cada um o que é seu”, praticando cada homem, nas relações com os seus semelhantes, a igualdade, a equidade, a boa-fé. Porém para Platão, a justiça não consiste em“dizer a verdade e restituir aquilo que se recebeu”. Mas por outro lado Platão preocupa-se com as relações entre o poder dos governantes e a justiça. A Cidade Ideal- Platão afirma que a alma humana tem três partes: a primeira é a parte racional e corresponde ao plano das ideias; a segunda é a parte irascível, que compreende os impulsos e afectos de ser humano; e a terceira é a parte sensual, integra as necessidades elementares do homem. Ora bem, a Cidade deverá ter, segundo Platão, a mesma estrutura tripartida, assim haverá na Cidade ideal três classes: A classe dos magistrados (Governantes) corresponde a parte racional da alma, deve actuar segundo a razão ou sabedoria, e compete-lhe governar a Cidade; A classe dos guardas (militares) corresponde a parte insensível da alma, deve actuar segundo a coragem, e compete-lhes garantir defesa e segurança da Cidade. A classe dos lavradores e artífices em geral (trabalhadores) corresponde a parte sensual da alma, deve atuar segundo o desejo, e compete-lhe assegurar o sustento material da Cidade. A seleção dos cidadãos para as três classes- Para assegurar o bom governo, é necessário, segundo Platão garantir o recrutamento adequado de cada cidadão para a sua função. Todo cidadão deve desempenhar a actividade para que é dotado, e só essa. A virtude que mais contribui para perfeição da Cidade, é a justiça. Daí Platão formula então a célebre teoria dos metais. Cada alma tem um metal lá colocado por Deus. Em alguns cidadãos a alma contém ouro; noutra prata; noutros ferros; e bronze. Os primeiros estão indicados a ser governantes, os segundos, militares, e os terceiros, trabalhadores. Tipologia das formas de governo- Platão é o primeiro, na Grécia antiga, a formular uma tipologia (diferenciada e complexa). Ele apresenta cinco: A Monarquia, que pode ser uma sofiocracia (a descrita como forma de governa da Cidade ideal, portanto exercida pelo Rei-Filósofo) ou uma tirania (o poder absoluto de um só homem, violento e sem luzes da filosofia); Oligarquia, que pode ser uma timocracia (se o poder for usurpado pela classe dos guardas e se instalar o predomínio do espírito guerreiro sobre a sabedoria) ou uma plutocracia (governo de uma minoria de ricos, baseados na prossecução de interesses pessoais, e voltado contra os pobres); As Democracia, que são um regime pouco apreciado por Platão, porque a maioria, a multidão, as massas, segundo ele, são incapazes de possuir a Verdade, a Razão, e a Sabedoria. Platão considera que a melhor forma de governo é a Monarquia Sofiocrática (a cargo do Rei-Filósofo) e que a pior forma de governo, é a tirania. O pensamento político de Aristóteles. Ideia geral Aristóteles é partidário do bom senso, do equilíbrio, da moderação, isto é, em sentido grego, da virtude. Para ele, o ideal a atingir não é a cidade justa, mas sim o bom cidadão, o cidadão virtuoso, o cidadão justo, orientado para a felicidade por um Estado ético e tutelar. Aristóteles interessa-se mais pela análise científica do que pela proposta política: ele não foi um político, foi um politólogo. Por isso, o seu tratado assenta na observação dos factos, dos regimes, das constituições, e extrai do material recolhido nessa análise o estabelecimento da tipologia, classificações e comparações, bem como a dedução de regularidades, relações causai, leis científicas. Homem e a política- Logo no início do seu tratado sobre a política, Aristóteles profere uma das frases mais célebres, senão a mais célebre e mais conhecida, das muitas que legou a posteridade “O Homem é, naturalmente, um animal político” Explica: O Homem é um animal político porque é “feito para viver em sociedade” “O que distingue essencialmente o homem dos outros animais é que ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e dos injustos, e dos outros (sentimentos) ” O homem é, assim, animal político, feito para viver em sociedade Noção de Estado- Para os pensadores gregos e especialmente para Aristóteles era Estado o que os filósofos pediam que regulasse os casamentos (quem deve casar com quem), a educação dos filhos, o exercício das virtudes morais individuais, e até a prática da religião. A vida familiar, a moral e a religião eram assuntos de Estado: e o Estado era competente para os regular e os decidir. Aristóteles diz-nos logo em primeiras linhas da política, que “todas as sociedades são uma espécie de associação” e que “todas as associações não se formam se não em vista de algum bem, ou de alguma vantagem” pois é para seu bem, ou que lhes parece tal. Crítica das ideias de Platão-Aristóteles foi aluno de Platão mas não seu discípulo. Começa ele por perguntar “ O que é mais vantajoso para que a Cidade seja bem administrada? Ou mais vale que eles sejam admitidos a desempenhar certas funções e excluídos de algumas outras? Equacionada a questão, Aristóteles começa por responder com a proclamação de um princípio geral da maior importância- a superioridade do pluralismo social e político sobre o modelo da unidade imposto a um país. E Aristóteles faz um apelo a ideia da individualidade ímpar de cada ser humano: Aliás, a Cidade não se compõe apenas de uma multidão de homens, é composta de espécies diferentes de homens; por isso ela não subsistiria se todos eles fossem semelhantes e iguais. As classes sociais e a defesa do predomínio das classes médias- Outro aspecto muito interessante e inovador da Política de Aristóteles é a análise que faz sobre as classes sociais. O Estagirita não foi apenas o fundador da Ciência Política- entendida como Teoria Geral do Estado- mas também o fundador da Sociologia Política, e talvez mesmo da própria Sociologia Geral. Diz Aristóteles que “ Todo o Estado, ou sociedade política, se compõe de três partes ou classes de cidadãos: os que são muito ricos, os que são muito pobres e , enfim aqueles que se encontram numa situação média, ou intermediária, entre os dois primeiros. Ora, diz ele, a melhor forma de governo, a melhor espécie de sociedade política, é a que for constituída, em maioria, por cidadãos das classes médias. Porque elas se integram harmoniosamente numa sociedade equilibrada e sã. Com efeito, os homens (que estão) nesta situação submetem-se facilmente a razão. Classificação dos regimes políticos- O seu ponto de partida é simples: “O que constitui a forma de governo de um Estado é a ordem ou o estabelecimento das magistraturas, sobretudo daquela que tem a supremacia sobre as outras; pois em toda a parte a administração ou governo no supremo é o soberano no Estado ou na Cidade; e é ela propriamente que determina a forma de governo” Aristóteles admite o valor relativo dos regimes políticos; para ele não há apenas um regime legítimo ou conveniente. Então surge a sua célebre classificação: constituem formas de governos são a Monarquia, a Aristocracia e a República; e as formas de governo degeneradas a Tirania, a Oligarquia e a Democracia. A melhor forma de Governo- Aristóteles não se coíbe de apresentar um ponto de vista sobre o que é, para ele, o melhor governo. Idade Média Pensamento Político de Santo Agostinho. Ideia Geral – A vida do Bispo do Hipona decorre num período em que a igreja já mão é negada pelo Imperador Roma, nem os cristãos são perseguidos pelo poder político, mas em que o império está no fim. As invasões bárbaras começaram; Roma será conquistada por Alarico em 410. E todos se interrogaram sobre se não terá sido o Cristianismo o grande responsável pela derrocada: o povo convence-se de que todos os males derivam de já não se oferecem sacrifícios aos deuses antigos; a elite conclui que os caracteres específicos da doutrina e da práctica cristãs. Constituem fatores de amolecimento do povo e do império Romano. É neste pano de fundo que Santo Agostinho se empenha em redigir, durante catorze anos, o monumental trabalho “De Civilate Dei”, que tem como propósito principal a refutação destas teses e o repúdio de tais temores. Nesta obra, a mais importante e SantoAgostinho sob ponto de vista das ideias políticas, são tratados vários problemas de relevo. A distinção entre duas cidades, concepção sobre a natureza humana, noção do estado, a sociedade e o poder, a paz, enfim as funções da autoridade. As duas cidades-Visivelmente influenciado por alguns laivos de maniqueísmo, que aliás repudiou e critica, Santo Agostinho considera haver duas cidades: A Cidade coleste ou Civitas Dei – comunidade dos homens que vivem segundo espirito e buscam a justiça. E a Cidade terrena ou Civitas Diaboli – conjunto dos homens que vivem segundo a carne e para satisfação dos seus prazeres. Uma é a cidade do bem, outra cidade do mal. Ambas estão em luta permanente, uma contra a outra, e ambas disputam a pose do mundo. O que deu origem a cada uma das cidades? Invertendo a ordem da enumeração, o bispo de Hipona descreve o mal e o bem, e conclui que: “ Dois amores construíram, pois, duas cidades: o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus – A Cidade terrena; o amor de Deus levado até ao desprezo de si próprio – A Cidade Celeste.” Uma glorifica-se em si mesma, a outra no Senhor, uma pede a sua glória aos homens; para outra, Deus é a sua maior glória. Concepção sobre a natureza humana – Santo Agostinho apresenta-nos uma visão profundamente pessimista acerca da natureza humana. Vejamos como chegar até ela. Considera o bispo de Hipona que os primeiros homens (Adão e Eva) foram criados como seres bons, perfeitos, com todas as qualidades e sem defeitos. Mas pela desobediência (pecado original) afastaram-se de Deus e foram punidos para sempre: tornaram-se infelizes e cheios de defeitos: o Homem transformou-se num pecador. As suas características principais passaram a ser o egoísmo, a arrogância, a vontade de dominar os outros, e a tendência para procurar o bem próprio com desprezo do bem do outro. Alguns, poucos, conseguem por um grande esforço redimir-se e salvar-se; mas os outros permanecem condenados a punição eterna, e não conseguem, libertar-se da sua condição de homens pecadores. O Homem é assim um ser irreversivelmente marcado pelo pecado; é um pecador; peca por necessidade, tudo que faz neste mundo é pecaminoso. Deste modo, a minoria dos homens pertence a cidade de Deus, que é uma assembleia de santos; a grande maioria pertence a cidade terrena, que é uma assembleia de pecadores. Santo Agostinho, não acredita na ideia do progresso histórico: para ele o homem será sempre pecador. Noção do Estado – Da concepção pessimista acerca do Homem e da natureza humana, que acabamos de expor, há de resultar de uma consequência lógica uma concepção regressiva do Estado. Se o Homem é mau para o seu semelhante, o Estado deve servir essencialmente para prevenir e reprimir os erros, as injustiças, os crimes. Na concepção agostiniana, a graça de Deus não serve para a base da organização social, porquanto só liberta uma minoria pequena massa de pecadores. O principal instrumento do Estado para obter a paz e a segurança é o sistema jurídico, o Direito. O Direito, garantido pelas forças do Estado, é o mecanismo que serve para assegurar a paz e a segurança entre os Homens pecadores. O Estado – ao contrário do que defendia Aristóteles - não deve procurar (porque é impossível) tornar os Homens bons e virtuosos, apenas deve tentar fazer reinar a paz e segurança exteriores nas relações sociais entre os Homens. Funções da autoridade – Santo Agostinho analisa três funções em que se desdobra a autoridade. Das quais se destacam: imperare (comandar), providere (prover), e consulare (aconselhar). São estes os deveres dos chefes, ou de qualquer chefe – desde o pai de família do imperador – que se traduzem três funções ou “oficcia”: officium imperandi, o officium providendi, e o officium consulendi. A Igreja e o Estado – Santo Agostinho deu um contributo importante para questão das relações entre a igreja e o Estado. Santo Agostinho tinha ideias claras sobre a matéria: os poderes eclesiástico e civil são distintos e independentes. Cada um move-se na sua esfera própria de jurisdição, e actua por sua conta, só sendo responsável perante a Deus. Santo Agostinho manteve-se na posição do Cristianismo primitivo. E especifica mesmo que a igreja, por amor da concórdia civil, deve aceitar o Estado tal como ele é, com os erros e insuficiência que inevitavelmente o caracterizam, oferecendo-lhe, na pessoa dos seus fiéis, cidadãos bons e virtuosos. A igreja devia ser, assim uma verdadeira escola de civismo. O pensamento político de S. Tomás de Aquino. Ideia Geral S. Tomás de Aquino viveu, no séc. XII. Ora, no século precedente tinha-se dado um facto da maior importância cultural e histórica. De certa forma S. Tomás recebe também, em certos aspectos, alguma influência de Santo Agostinho. Visão geral do mundo e do homem. As leis – Para São Tomás o Homem e o mundo foram criados por Deus. Mas a actuação divina não se esgotou neste primeiro momento genético: continua todos dias a exercer-se, pois Deus governa o mundo. De acordo com S. Tomás, lei é uma ordem de razão imposta para o bem comum e promulgada por aquele que tem a seu cargo uma comunidade. Assim sendo para Aquinatense há quatro espécies de leis, das quais são: A lei eterna; A lei natural; A lei humana; A lei divina. Levando a definição, a: A Lei eterna é a lei geral do universo estabelecida por Deus para todos seres por ele criados. A Lei natural, por sua vez, é a participação dos seres criados na razão estabelecida pela lei eterna. A Lei humana, que é imposta pela razão para aplicar essencial da lei natural, que manda fazer o bem e evitar o mal. E finalmente, a Lei divina que é constituída pelas normas que Deus expressamente formulou para orientar a lei humana sobre questões essenciais. Homem e a sociedade – Segundo S. Tomás, e na esteira de Aristóteles, o homem é um animal social e, mais do que isso, é um animal político. Não é apenas um animal social, porque animais sociais há vários, designadamente muito dos animais irracionais – como as abelhas, que vivem em grupos graças a certos instintos naturais, que os ligam entre eles. Todos esse são animais o sociais, mas só o homem é o político, ou seja, um ser que exige, para se poder manter e desenvolver, a vida na sociedade política, no Estado, com o fim de satisfazer as suas necessidades espirituais e materiais. Assim sendo o Homem é um animal social e político, destinado mais do que todos os outros animais a viver em sociedade. Estado e os seus fins – Existem, vários tipos de sociedades: a família, o município, a associação, e outras. Mas para S. Tomás, só o Estado é a sociedade perfeita. Perfeita esta no sentido de que se basta a si própria, de que contém em si todas virtuosidades para satisfazer as necessidades fundamentais do homem. Para S. Tomás, o fim do Estado é o “bem comum” (bonum commune). S. Tomás ainda repisa que o fim do Estado não é apenas a obtenção do bem comum no sentido colectivo da expressão: porque o bem comum tem também uma dimensão e uma incidência individual. O bem comum pressupõe e exige que todos e cada um dos homens possam não apenas viver bem “quod homines non solun vivant, sed bene vivant” Pessoa e o estado - Para S. Tomás o homem não é só um individuo; o homem é pessoa, tem a natureza racional, goza de liberdade, tem direitos próprios em função da sua dignidade, por isso que foi criado a imagem e semelhança de Deus. É uma noção fundamental que decorre da essência mesma do Cristianismo. Mas daqui resulta uma consequência política muito importante: a ideia de que o homem não pode ser absorvido no Estado. S. Tomás é terminante neste ponto: o homem não se integra na comunidade política com todos os aspectos do seu ser. Quer dizer: o homem não é uma simples peça do mecanismo estadual, te, autonomia, goza da independência, é um ser com fins próprios, tem um “programa próprio de acção” directamente em ligação com Deus. A origem do poder – S. Tomás entende, como não podia deixar de ser, todo poder vem de Deus: “Omnis potesta a Deo”O Aquinatense vai, na verdade, ensinar que o poder, de origem divina é transmitido diretamente ao povo, e do povo é que vai, se ele assim o determinar, para os governantes. Regimes Políticos – S. Tomás afirma que há três formas justas de governo: a monarquia, a aristocracia e a república; e três formas desviadas ou injustas: a tirania, a oligarquia, e a democracia. E o pior regime, para São Tomás é a tirania. Pois um poder que seja unido é mais eficiente do que outro que seja dividido. Idade Moderna O pensamento político de Maquiavel. Ideia geral. Maquiavel não é um historiador, mas, na esteira de Aristóteles e de Cícero, utiliza muito bem a história para conseguir formular regras de acção dos governantes. Maquiavel é assim um inovador e, à sua maneira, um revolucionário: ele é, sem dúvida «o primeiro analista moderno do poder», ou como já alguém o chamou «o Cristóvão Colombo da política», pois descobre um mundo novo – o da política tal como ela é, e não como ela deveria ser. As fontes principais do pensamento político de Maquiavel – “a experiencia das coisas modernas” e a “leitura atenta das coisas antigas”. Maquiavel ainda apresenta um livro «O Príncipe» que não é um livro teórico, nem em rigor uma obra de filosofia política: é um guia práctico, é um manual com recomendações sobre a arte de governar. Mas o seu valor na História das Ideias Políticas é imens, pelos caminhos novos que abriu à análise dos mecanismos de poder, e também pela desfaçatez com que ousou revelar na sua crueza a maldade que os homens usam uns para os outros na actividade política. Noção de Estado – Maquiavel é o primeiro autor a utilizar a palavra “Estado” com o sentido que ela assume actualmente. É justamente na época do Estado Moderno que Maquiavel utiliza pela primeira vez a palavra “Estado” no sentido actual de comunidade política soberana na ordem interna e na ordem internacional. Sabendo que anteriormente esta palavra não era usada neste sentido: os gregos falavam antes “pólis”e os romanos em “república”. Mas, é claro, o Estado no Renascimento é um conceito que ainda se não destacou dos próprios homens que o governam. Classificação dos regimes políticos – Como vimos, os autores clássicos e medievais apresentavam classificações tripartidárias dos regimes políticos: era assim em Platão, em Aristóteles, e S. Tomás De Aquino. Maquiavel, porém apresenta pela primeira vez uma classificação bipartidária, e que na base do critério que ele adopta, nunca mais será abandonada até aos nossos dias. É a classificação em «Repúblicas» e «Principados» ou, como hoje diríamos, em «República» e «Monarquia». A monarquia é governada pela vontade de um só individuo (soberano singular), a república é dirigida por uma vontade colectiva – seja de poucos, seja de muitos (soberano colectivo). Para Maquiavel todos os regimes políticos são legítimos, não há formas de governo ilegítimas, o que há é umas mais convenientes do que outras, conforme as circunstancias. E é importante destacar que Maquiavel não faz juízos morais. Mas para sua escolha, Maquiavel afirma que a melhor forma de governo é a república, prefere-a por se tratar de um “governo livre”, isto é, do governo que melhor defende a liberdade. Política como ciência – Maquiavel é sem dúvida o segundo grande politólogo (ou cientista da política) da história, logo a seguir a Aristóteles. Porque adopta um método cientifico de observação da realidade política, porque purifica o método com que a política é analisada e porque procura estabelecer as leis políticas – ou seja, as leis que retratam a forma como os fenómenos políticos acontecem e as razões por que acontecem – em lugar de procurar deduzir os deveres morais impostos aos governantes pela Religião, pela Ética ou pelo Direito Natural. Maquiavel entende que os políticos são julgados, não pela bondade ou maldade das suas acções, mas pelo êxito ou pelo fracasso da luta pelo poder, mostrando que o resultado final – conquistar e manter o poder – é a única coisa que conta a política. A amoralidade política – Maquiavel torna-se no grande arauto da «razão de Estado», isto é, da doutrina segundo a qual o Estado deve obedecer as regras próprias de acção, diferente das que tradicionalmente foram ensinadas como regra moral aplicável aos indivíduos. Tudo que for necessário para manter o poder político é legítimo e deve ser feito, independentemente de ser ou não condenado pela moral, a qual segundo Maquiavel só pode aplicar-se aos indivíduos na sua vida privada. O pensamento político de Jean Bodin. Ideia geral. Quando Bodin se instala se instala em Paris, a situação política em França é calamitosa: de um lado, católicos e protestantes digladiam-se de morte e não reconhecem um mínimo de fundamento às ideias e concepções uns dos outros; de outro lado, o Rei tem o seu poder enfraquecido e não consegue impor a autoridade para fazer reinar a paz e a concórdia entre os seus súbditos. BODIN pretende confessadamente contribuir para construir em França um Estado forte, centrado num poder real indiscutido e eficaz. A Republica, ou o Estado Bodin começa por definir no seu livro o que é a Republica, ou seja, como diríamos hoje, o Estado. O Estado é o governo recto, isto é, um poder político que deve ser subordinado à moral, à justiça e ao Direito natural. É um domínio exercido sobre os homens livres e que portanto se contrapõe à noção de tirania e de governo tirânico, que Bodin condena veementemente. E critica Aristóteles, que propunha como finalidade do Estado “viver bem e com felicidade”, uma vez que o Estado deve visar mais alto “a contemplação das coisas naturais, humanas e divinas”. Em segundo lugar, o Estado é um governo que incide sobre várias famílias. E este ponto é importante, porque para BODIN, ao contrário da tradição grega, nomeadamente de Aristóteles, o elemento fundamental da “pólis”, da Republica, não é o indivíduo mas sim a família. Em terceiro lugar, Bodin chama a atenção para que a Republica tem a ver com o governo daquilo que é comum às famílias. E, portanto, significa o reconhecimento de que só oque é público compete ao Estado: ao Estado não compete intervir naquilo que pertence à esfera privada das pessoas; nomeadamente não compete ao Estado intervir na vida da família, e no seu esteio material, que é a propriedade. A propriedade e a família são, assim, dois limites ao poder soberano. Um conceito novo: a soberania A soberania é a ideia nova que BODIN traz para a história do pensamento politico, precisamente numa altura, o século XVI, em que desponta o Estado moderno, o Estado-nação, o Estado soberano. Não é por acaso que é no século XVI que surgem, pela mão de Maquiavel de Bodin respectivamente, o conceito de Estado e o conceito de soberania; é porque é justamente no século XVI que nasce o Estado moderno europeu, que é um Estado soberano. Para Bodin, a soberania é, o grande facto de unidade e coesão do Estado. Segundo ele, a soberania traduz-se num poder absoluto e perpetuo de uma Republica. Assim sendo, em primeiro lugar, a soberania é um poder, isto é, a faculdade de impor aos outros um comando a que eles ficam a deve obediência; Em segundo lugar, a soberania é um poder perpétuo, isto é, que não pode ser limitado no tempo; em terceiro lugar, a soberania é um poder absoluto, isto é, que não está sujeito a condições ou encargos posto por outrem, que não recebe ordens ou instruções de ninguém, e que não irresponsável perante nenhum outro poder. Atributos na concepção apresentada por Jean Bodin Podemos dizer que são os seguintes: •A soberania é una e indivisível, o que significa que não pode ser dividida por dois governantes, ou por vários órgãos, ou por muitos. Tem de estar todas nas mãos do Rei. Era a reacção viva e frontal contra a pulverização do poder político característica da Idade Média, ou seja, contra o feudalismo. •A soberania é própria e não delegada, o que significa que pertence por direito próprio ao Rei, e não provem de eleição pelo Povo ou de nomeação peloPapa ou pelo Imperador; •A soberania é irrevogável, o que significa um princípio de estabilidade politica, à luz do qual o povo não tem o direito de retirar ao seu soberano o poder politico que este possui por direito próprio; •A soberania é suprema na ordem interna, no sentido de que representa um poder que não tem nem pode admitir outro poder com quem tenha de partilhar a autoridade do Estado. •A soberania é independente na ordem internacional, o que significa que o Estado-nação não depende de nenhum poder supranacional, como o Para ou o Imperador, e só se considera vinculado pelas normas de direito internacional resultantes de tratados livremente celebrados ou de costumes voluntariamente aceites. Assim sendo, a soberania segundo, Jean Bodin, é uma força imponente e majestosa, colocada ao serviço do Estado moderno e do Rei que o personifica e governa. Conteúdo da soberania Bodin considera que o primeiro poder em que a soberania consiste, é o poder legislativo, isto é, o poder de livremente fazer leis e revogá-las. Daqui se conclui que o poder de legislar não pode ser compartilhado com as cortes ou com os Parlamentos: isso faria destes órgãos o verdadeiro soberano. Por outro lado, a lei passa a prevalecer sobre o costume: porque a lei vem do monarca e o costume vem do povo; ora, para BODIN, o soberano não é o povo, mas o Rei. Por isso as suas leis prevalecem sobre quaisquer costumes. Para além do poder de legislar, outros poderes ou faculdade integram o conceito de soberania, a saber: o poder declarar a guerra e fazer a paz, o poder de instituir cargos públicos e prove-los, o poder de julgar em última instancia, o poder de lançar impostos ou taxas, etc. Mas todos estes poderes são, para Bodin, secundários, uma vez que todos eles estão compreendidos no poder de fazer leis e revogá-las. O problema da origem do poder Bodin aparece-nos defensor, de uma teoria dupla sobre a origem do poder: Uma teoria contratualista quanto às primeiras sociedades humanas que se constituíram pacificamente em Estados, e uma teoria do primado da violência quanto às Republicas formadas por absorção de outras em resultado de uma guerra. Esta ideia da soberania como poder uno e indivisível, encabeçado no Rei, que assim detêm nas mãos a totalidade dos poderes do Estado, legislativo, executivo e judicial, iria caracterizar a realidade politica durante todo o período do absolutismo, mas seria fortemente contestada, me menos de duzentos anos, pelos teóricos libérias, defensores da separação de poderes. Bodin foi, no século XVI, em plena época da anarquia e insegurança, o interprete privilegiado da aspiração maior, que era constituir um poder forte e concentrado; veremos mais tarde que Locke e Montesquieu foram, no século XVIII, os defensores lúcidos e oportunos da necessidade de, num Estado forte e numa nação em paz, dividir os poderes do Estado para melhor garantir os direitos dos indivíduos. Melhor forma de Estado A melhor forma de Estado para Bodin, é a Monarquia. Em primeiro lugar, “o principal atributo da Republica, que é o direito de soberania, só existe e se conserva na monarquia: pois numa Republica só um pode ser soberano: sessão dois, três ou muitos, nenhum é soberano”. Em segundo lugar, há “actos que só podem ser realizados por uma única pessoa, tais como conduzir um exército, e outras coisas semelhantes”. Em terceiro lugar, é preciso não dar ouvido aos que querem que sejam os súbditos a ditar a lei ao monarca, este é que tem de ditar a lei aos súbditos. O contrario “significar a ruína não só das monarquias, mas também dos próprios súbditos”. Com efeito, cumpre ter presente esta máxima da sabedoria universal: “ há na verdade uma grande diferença entre aconselhar e comandar: o conselho de várias boas cabeças pode ser melhor que o de uma só: mas para resolver, decidir e mandar, uma só fá-lo-á sempre melhor que muitas”. A Monarquia, hereditária e masculina, é, assim, a melhor forma de Estado preferida por Bodin. Pensamento político de Thomas Hobbes. Ideia geral. Considerado, por muitos, como um grande pensador e como um dos mais vigorosos e originais filósofos da política. Hobbes formula um pensamento que facilmente se pode qualificar como autoritário e tendente, a reforçar, tanto como Maquiavel e ainda mais do que Bodin, a Monarquia absoluta dos séculos XVII e XVIII. O materialismo naturalista de Hobbes Segundo Hobbes, o objecto do desejo humano não é “gozar uma vez apenas e por um instante, mas garantir para sempre uma forma de satisfazer os desejos futuros (…) de forma a assegurar uma vida feliz”. Para o homem conseguir isso, precisa, de poder. Pois, para ele, “o poder de um homem, em geral, são os seus maios presentes de alcançar no futuro o que se lhe afigurar como bom”, tanto é poder o poder natural, por exemplo, as faculdades do corpo e do espírito, como o poder instrumental, por exemplo, a riqueza, a reputação, as amizades, a boa sorte, etc. Há, pois, uma necessidade de cada homem querer sempre mais e melhor, mesmo que seja apenas para ter a certeza de que não ficará pior. Aqui aparece pela primeira vez o homem a viver em sociedade, isto é, ao lado de outros homens, “o desejo perpétuo e sem descanso de mais e mais poder” conduz fatalmente os homens à competição uns com os outros, porque tanto as riquezas, como as honras, como o poder político, são bens escassos, que não podem pertencer a todos plenamente. Assim, “a competição pela riqueza, pelas honras, pelo governo, conduz os homens à rivalidade, à inimizade e à guerra: porque o meio de um competidor satisfazer o seu desejo é matar, submeter, suplantas ou repelir o outro”. Hobbes, não aceita da tradição clássica, a ideia de que a vida em sociedade é natural, nem a noção de que o Estado é uma realidade que se impõe ao homem sem que este tenha uma palavra a dizer sobre o assunto, nem a doutrina de que o poder político vem de Deus e os súbditos lhe devem obediência por mandato divino. Hobbes, procura sim, demonstrar que é por um acto racional e voluntario que os homens optam por viver em sociedade e por obedecer ao Estado. Fazem-no, segundo ele, porque esta solução é melhor para eles, ou menos má, do que seria a vida em anarquia ou em guerra civil. Para isso, Hobbes, descreve o que se passaria se os homens optassem por viver em anarquia ou, como ele diz, em “estado de natureza”, ou seja, um Estado sem leis e sem governo. O “estado de natureza”: uma concepção pessimista acerca da natureza humana: Para Hobbes, o ser humano é essencialmente egoísta: move-se pela procurada sua felicidade, do que seja bom para si e, a fim de não deixar piorar a sua condição, tem de procurar aumentar sempre mais e mais o seu poder, em riqueza, honras ou autoridade. Concluindo, Hobbes, que na natureza humana existem três principais causas de conflito: primeira a competição; segunda, a desconfiança; a terceira, vaidade. E remata, “ a primeira torna os homens agressivos para o ganho; a segunda, para a defesa; e a terceira, para a reputação”. Esta, é a concepção que Hobbes tem da natureza humana. O “estado de natureza”: a guerra generalizada entre os homens Hobbes não duvida um só instante do que aconteceria se os homens vivessem em “estado de natureza”. “ É manifesto, escreve ele, que durante o tempo em que os homens viverem sem um poder comum que os mantenha a todos em respeito, eles estarem naquela condição a que chamamos de guerra; e essa é uma guerra de todos contra todos”. Eis as próprias palavras do filósofo inglês: “Numa tal condição, não há lugar para as actividades produtivas, porque os seus frutos são incertos; e consequentemente não existe agricultura, nem navegação, nem utilização das riquezas que podem ser importadas pelo mar, nem conhecimento da face da terra, nem contagem do tempo, nem artes e letras, nem convivência. E o que é pior de tudo, verifica-se um medo e um risco permanente de morte violenta. E a vida do homem, é então, solitária, pobre, penosa, embrutecida e curta”. Este será, segundo, Hobbes,o panorama desolador do homem entre a si próprio, sem Estado se sem autoridade, no “estado de natureza”. Nesta guerra de todos os homens contra todos os homens, há também esta consequência: é que nada pode ser injusto. As noções decerto ou errado, justo ou injusto, não têm ali qualquer lugar; onde não há um poder comum, não há lei; e onde não há lei, não há injustiça (…). A justiça e a injustiça não são faculdades do corpo ou do espírito; são qualidades que se relacionam com o homem em sociedade, não em solidão. Descreve ainda: também é uma consequência da mesma condição (o “estado de natureza”) que ai não há propriedade, nem domínio, nem distinção entre o meu e o teu; só pertence a cada homem aquilo de que ele puder apossar-se, e só pelo tempo por que o puder manter. O “estado de natureza”: o medo da morte a primeira lei da Natureza A maior paixão do homem a sua sensação mais forte, o principal motivo das suas acções é, segundo Hobbes, o medo da morte. Como é que esse sentimento condiciona a acção do homem no “estado de natureza”? Segundo Hobbes, o principal direito natural de cada um desde logo, no “estado de natureza” é “a liberdade que cada homem tem de usar o seu poder como ele mesmo quiser, para preservar a sua própria natureza, isto é, a sua própria vida;”. Sendo isto assim, num “estado de natureza caracterizado pela guerra de todos contra todos, todo o homem tem o direito e o dever, de fazer tudo o que, segundo a sua razão, servir para “preservar a sua vida contra os seus inimigos”. E, enquanto este direito natural de todos os homens a todas as coisas se mantiver, não pode haver segurança para nenhum homem”. Como se vê, Hobbes, coloca o homem, no “estado de natureza”, perante uma alternativa fundamental: procurar a paz, mas, enquanto ela não existir, fazer a guerra e defender a vida por todos meios ao seu alcance. O “estado de natureza”: a necessidade da paz e a segunda lei da natureza. A primeira lei da Natureza impunha, o dever de procurar a paz e de a manter. E agora, Hobbes, começa abrir caminho para a ideia do Estado como criação voluntaria dos homens através de um contrato. Hobbes conclui, pois, que para sair da guerra que caracteriza o “estado denatureza1, e encontrar a paz que só é garantida pelo “estado de sociedade”, é necessário que os homens renunciem, ao menos em parte, ao seu direito a todas as coisas, à sua liberdade e o transfiram para um Poder comum a todos garanta a paz e a segurança. É o que Rousseau chamará, um século depois, o contrato social. A passagem do “estado de natureza” ao “estado de sociedade”: o contrato social. Mas então o que hão-de-fazer, os homens para passar do “estado de natureza” ao “estado de sociedade”? Hobbes, responde que: “ é necessário instituir um Poder comum, paramente-los em respeito, e para dirigir as suas acções para o bem comum”. E explica: “ a única maneira de erigir um tal Poder comum (…) é os homens conferirem todo o seu poder e força a um Homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir todas as vontade, pela maioria das vozes, a uma só vontade. Hobbes, vê no “contrato social” a fonte de diversos efeitos: a união dos homens num Estado; a renúncia de todos eles a uma parte do seu direito de se governarem e respectiva transferência para o Soberano; a instituição deste e dos respectivos poderes; a escolha da forma de governo desejada (monarquia ou republica); a constituição do conjunto como uma unidade personificada, uma pessoa colectiva; a autorização da prática dos actos necessários para atingir os fins tidos em vista; e, por ultimo, a ideia de “representação”. E portanto, para Hobbes o Estado nasce de um contrato pelo qual os homens alienam a favor do Soberano direitos seus e, em especial, o direito de se governarem a si próprios e o direito de defenderem pela força a sua vida e os seus bens. Hobbes, considera então que os homens só se obrigam perante o Soberano no âmbito dos fins que os determinam a formar o Estado, isto é, para garantir a paz e a segurança, tanto no plano externo como no plano interno. Segue-se daí que a obrigação dos súbditos tem a ver com a manutenção da paz e da segurança, mas não com a autoconservação do indivíduo: esta não faz parte da obrigação dos súbditos, mas da sua liberdade. Por outras palavras, o direito à vida é inalienável e, se alguém a ele renunciasse, tal acto seria nulo. O segundo limite do Estado: a atividades privada dos cidadãos Em Hobbes, o Estado não tem fins ilimitados: ele é uma criação humana com tarefas bem precisas e bem delimitadas. Pois, para ele, o Estado serve sobretudo para garantir a paz e a segurança dos indivíduos, quer contra o inimigo externo, quer contra as desordens e perturbações internas. A partir dai, caberá à lei determinar outras funções acessórias que devam pertencerá Estado, mas tudo o resto competirá à actividade privada dos indivíduos. O Estado hobbesiano é autoritário, mas não é totalitário. Não pretende absorver na esfera da acção pública todas as iniciativas e instituições privadas. A ideia fundamental de Hobbes é que a defesa nacional e a segurança são tarefas do Estado, ao passo que as industrias, isto é, actividades produtivas, é uma tarefa dos cidadãos, no exercício da sua liberdade. No “ estado de natureza” não há garantia da propriedade, nem protecção da divisão entre “o meu” e o “teu”; e no “estado de sociedade”, a distribuição inicial das terras pelos súbditos é um poder do Soberano, que conserva sempre a faculdade de retirar ou redistribuir a terra de forma diferente daquela por que inicialmente a distribuiu. A concepção que Hobbes tem do Direito é, pois, inteiramente positivista: no “estado de natureza” não há Direito, nem justiça; e no “estado de sociedade “só é Direito aquele que é produzido pelo Estado através da lei, cuja validade não pode ser contestada, nem pelo confronto com normas de valor superior, nem pela violação dos direitos fundamentais do cidadão. Analise das várias formas de governo Para Hobbes, tal como para Bodin, a soberania não pode ser dividida nem partilhada: pois, se houver partilha, quem tiver a última palavra é que será soberano, ou então haverá dois soberanos, o que dividira não apenas o poder mas o próprio Estado. Hobbes manifesta claramente a sua preferência pela Monarquia. Mas, trata-se da Monarquia no sentido grego originário, o governo de um só homem, enão no sentido dinástico que se tornou tradicional na Europa medieval e moderna. Para ele, o importante é que o Poder seja exercido por um só homem, não que esse poder seja considerado como recebido de Deus ou seja transmitido por via hereditária. Pois para Hobbes, é o próprio Soberano e funções que, por acto expresso ou tácito da sua vontade, tem o direito e o dever de escolher quem lhe há-de suceder, sob pena de não ser um verdadeiro soberano e com risco de graves dissensões no reino. Portanto, em Hobbes o governo de um só homem, aliás dotado de plenos poderes, não deriva da graça de Deus mas de um “contrato social” subscrito pelo Povo, não segue necessariamente a linha hereditária, e não comporta qualquer partilha com o Parlamento, nem qualquer limitação perante os súbditos. Iluminismo O Pensamento político de John Locke. Ideia geral John Locke Desenvolve as bases do liberalismo Político – Ele é o ponto de partida do liberalismo político. - Locke na sua teoria do conhecimento nega o conhecimento inato e enaltece empirismo. O conhecimento humano é profundamente dependente da experiência. O conhecimento origina-se da experiência. Quando nascemos somos iguais a uma folha em branco, paulatinamente é que o conhecimento vai se formando com base em experiências e nas demais atividades sensoriais. Teoria da tábua Rasa. Estado de Natureza Da mesma maneira como Hobbes menciona as expressões estado de natureza e estado civil, Locke o faz, porém, entendo essas expressões de modo diferente. Para Locke o estado de natureza não é belicoso como o de Hobbes. O Estado civil, o contrato social, surge como aperfeiçoamentodo estado natural, e não como forma de se limitarem as liberdades infinitamente largas dos indivíduos. Todavia, o ponto em comum de ambos é que só o estado de natureza não basta. Há limites para o exercício de toda e qualquer liberdade, apontados por Locke, quais sejam: não destruir a si mesmo, não maltratar qualquer outra pessoa, não roubar ou espoliar os bens de que os outros se servem. O estado de natureza é regido pela lei da natureza que, na teoria de Locke, é a lei da razão; Locke aponta que estado de natureza e estado de guerra foram confundidos por muitos autores. A falta de um juiz, ou de uma autoridade investida de poder decisório, é a causa da formação de um estado de guerra. Se, se é violentado, se se é molestado, e não se pode recorrer a uma autoridade que profira um julgamento, então, cada qual sente-se no direito de fazer guerra a seu agressor. Potencialmente forma-se condição em que a violência pode-se instaurar e dar início a um estado de guerra. É a ausência de um juiz que define o estado de guerra e é dessa violência instaurada que surge a necessidade de deixar o estado de natureza. 1-Condição moral neutra – Não é naturalmente bom e nem mal, nas dificuldades aparecem as habilidades distintas. 2- Necessidades materiais levam ao desenvolvimento das habilidades distintas. Laborais (trabalho) e intelectuais (estratégias). 3- As habilidades melhores formam campo para a existência da desigualdade (+ bens acumulados) 4- Sentimentos. Mais hábil (medo), menos hábil (cobiça). 5- Ausência de um juiz – Instauração do estado de guerra, isso faz com que os homens se submetam ao estado (contrato). 6- Necessidade de garantir a manutenção dos “direitos inalienáveis” – vida, liberdade e propriedade. 7- Pacto Social – Estado. Cada homem abre mão de uma parte da sua liberdade. Assim todos os homens usufruem de proteção de seus direitos inalienáveis. Locke representa nesse momento o ideal de uma classe em franca expansão no cenário político e econômico europeu: a burguesia. Estado é liberal porque não se mistura na economia, é o estado mínimo, que não intervém na economia. Todo mundo se apropria do que é da natureza. “a propriedade como direito natural”. Igualdade: todos têm o direito de explorar a natureza e ter dela o que quiser. Com o passar do tempo começa-se a ter problemas, porque as pessoas passam a tomar as coisas e não querem trabalhar para ter as coisas, aí celebra-se o contrato social, como modo de garantir os direitos naturais. A partir daí nomeia-se uma autoridade para garantir esses direitos, ou seja, uma autoridade com poder para garantir o direito de propriedade. E assim, essa autoridade garante o respeito através do monopólio. Locke descentraliza a ideia de poder, tal pensamento é importante no contexto pós-medieval, ou seja, limitar o poder do governante e dar soberania ao povo. Para Locke, os homens primitivos se uniram em comunidades e criaram um Estado a que todos obedeciam. Locke concordava com a ideia de que o Estado deveria ser organizado a partir do consenso (do acordo entre os cidadãos). Mas ele rejeitava a submissão total do indivíduo ao Estado. Para Locke o Estado tinha sido criado por um acordo entre os homens, portanto, os indivíduos tinham o direito de se rebelar contra a opressão. Locke é considerado um dos pais do liberalismo político (liberalismo= liberdade). O Estado não pode sufocar as liberdades individuais. Cada pessoa tem o direito de escolher suas próprias ideias religiosas, políticas ou filosóficas, defender suas convicções. Os liberais acreditam que o direito à propriedade é a garantia da liberdade individual, o indivíduo só é livre a partir do momento que ele tem uma propriedade e pode fazer dela o que bem entender, porém esta liberdade tem um limite, ou seja, a minha liberdade não pode sufocar, prejudicar a liberdade do outro, essa liberdade de Locke significa o respeito à lei democrática. Para Locke, os governos só existem para: - Atender aos interesses individuais - Os cidadãos têm o direito de colocar outros homens no governo - Os homens responsáveis pelo governo são escolhidos por meio do voto - A lei deve ser a mesma para todos - A lei deve representar a vontade da maioria dos cidadãos Sociedade civil: O Estado civil é considerado por Locke o estado em que se deixa o estado de natureza, para fundar-se as condições do convívio social sob o amparo das autoridades que decidem os conflitos e julgam as pendências que, no estado de liberdade pré-social, descambariam no estado de guerra, um aperfeiçoamento do estado de natureza. Para Locke existe uma divisão dos três poderes: Legislativo: elaborar as leis Executivo: executar as leis Judiciário: julgar conflitos e divergência que houver em sociedade Legislativo, Executivo e Judiciário. Para Locke, o Poder Legislativo é o mais importante, pois através dele são elaboradas as leis. A soberania estabelece objetivos que se quer alcançar, é o poder incomparável e incontrastável (irrecusável), existente no Estado por intermédio do qual são elaboradas as metas e regras a serem cumpridas e alcançadas por governantes e governados. Locke, a bem de defender o Estado liberal, defende um Estado que se baseia no governo das leis. A semelhança desse Estado liberal com o atual é que hoje continua sendo um estado com poder político centralizado, mas com órgãos distintos, legislativo, executivo e judiciário. Mudou a titularidade da soberania, hoje é um governo popular e se é governo do povo, tem que basear na vontade popular. Para Locke, o Estado de Natureza é regido pela lei da razão e o Estado Civil instaura-se como forma de evitar o Estado de Guerra, enquanto que para Hobbes, o Estado de Natureza é o Estado em que as liberdades se confrontam, gerando a guerra de todos contra um, pois o homem é o lobo do homem. Para Locke, os direitos e poderes populares são irrenunciáveis ou inalienáveis, ou seja, o povo tem o direito de escolher. O direito à resistência seria o direito do povo de se opor ao exercício ilegal do poder, para a deposição do governo rebelde. Direito este legítimo tanto para defender-se da opressão de um governo tirânico como para libertar-se do domínio de um outro país. Para Locke, a legitimidade do poder conferida ao legislativo decorre do consenso em gerar a sociedade civil, cabendo ao consenso deliberar a ilegitimidade do abuso do Poder Legislativo, ou seja, quando há abuso de poder por parte daqueles que estão investidos da autoridade legislativa, estes são destituídos de seus cargos e funções e o poder soberano retorna ao povo que irá legislar para constituir um novo governo. O pensamento de Locke de que ninguém está submetido a outro poder senão naquele contido ou previsto em lei. O que caracteriza a constituição de todos os Estados Democráticos de Direito, que se governa com base no princípio da legalidade. Este pensamento de Locke contribuiu na formação do Estado contemporâneo. O pensamento político de Montesquieu. Ideia geral. Montesquieu escreve sobre a natureza e o princípio de um governo, ou seja, os fenômenos que caracterizam as formas de governo e a relação dessas formas com as leis que regulam e criam determinadas instituições. - Influências: Montesquieu viveu em um período de transição, sofrendo, por isso, influência dos contratualistas, mas não seguiu a mesma metodologia. Leu os clássicos, principalmente Aristóteles e Maquiavel, mas não os segue de todo. Se encontra entre o racionalismo, quer dizer, se utiliza da dedução para chegar a algumas conclusões, mas procura associá-lo ao historicismo, ou seja, a observação da evolução real pela qual passou a história1. É determinista em alguns momentos, o que significa apresentar uma relação “necessária” de causa e efeito particular, mas estabelece critérios universais de caráter formal (morais e filosóficos). Em outras palavras tudo o que acontecia e que era de seu conhecimento, todas as descobertas científicas e os relatos históricos, acabaram porrepercutir em suas obras. - Estado de natureza: É por isso que ele talvez inicie sua obra pela definição e compreensão das leis. Como foi dito anteriormente, devido a influência dos contratualistas, ele se vê obrigado a considerar os homens e as leis existentes antes do estabelecimento das sociedades. Na verdade, ele, como bom historiador e leitor de Aristóteles, não acredita realmente que tenha havido homens que não vivessem agrupados, mas apenas que podemos tentar conceber, pela razão, o que é o homem, sem levar em conta a influência da coletividade que ele vive. - Características: Nesse estado hipotético, todos seriam iguais em condições, mas não fisicamente. Os homens seriam dotados de razão (contudo, possuiriam mais a faculdade de conhecer do que conhecimento propriamente dito, pois este seria cumulativo) e perceberiam antes de tudo suas principais condições – a fraqueza e o medo. Apesar de serem iguais, de todos possuírem essas mesmas condições, ninguém se sente igual, todos se sentem inferiores. Mas é devido a essa percepção que ninguém ataca ninguém (como sugeriria Hobbes, a quem ele rebate explicitamente). Nasce daí a primeira das leis de natureza - a busca pela paz. - As leis de natureza: Montesquieu identifica quatro leis naturais decorrentes desse estado de natureza. A primeira já foi citada, 1) é a busca pela paz (temor + sentimento de inferioridade = paz); as demais leis naturais são: 2) fraqueza + necessidades = busca por alimentos; 3) medo + aproximação = busca pelo sexo oposto; e, consequentemente, 4) busca do outro + conhecimento = desejo de viver em sociedade (referência direta à concepção de Aristóteles). - Das leis em geral: O que ele pretende com a descrição desse estado de natureza é explicar duas coisas - a) que todos os seres do mundo (inclusive Deus) são governados por leis (naturais ou positivas que sejam); e que b) haverá sempre o estabelecimento de leis quando houver uma relação entre dois seres. Com essas duas afirmativas, Montesquieu contribui com Maquiavel para romper de fato com a influência divina, pois para ele, então, desde que o homem passou a viver com outros homens, passou também a existir um relação causal, logo, o mundo não é governado por uma “cega fatalidade”, nem pela Providência. - Sociedade política: Após o estado de natureza, quando as leis naturais surgiram, percebeu-se que para assegurar o respeito a essas leis, os homens foram obrigados a darem-se outras leis - as leis positivas - promulgadas em todas as sociedades pela autoridade à qual incube manter a coesão do grupo (de acordo com a especificidade de cada um dos grupos). Esse é o motivo do estabelecimento da sociedade política, formalizar um tipo de organização social adequada a cada grupo, mas com o intuito geral de manter a coesão, ou melhor, a “estabilidade” dos diferentes povos. - Teoria geral da sociedade: Dessa maneira, o que Montesquieu pretende é buscar um conceito geral de princípios e naturezas (em outras palavras, de causas e efeitos) que fundamentem a organização de uma sociedade estável. Para isso ele faz uma análise histórica de todas as formas de organização social, isto é, de todas as formas de governo e as suas respectivas leis. - Causa das variedades das leis: Antes de falar dos diversos modos de organização social, vale ressaltar as causas que Montesquieu aponta para diferenciar as leis que sustem essas organizações, a saber: a) As causas “físicas” ou “naturais” (clima, solo); b) As causas “económico-sociais” (estabelecendo as seguintes relações - os povos selvagens eram caçadores; os bárbaros, pastores; os civis, primeiro agricultores e, depois, comerciantes); e, por fim, c) As causas “espirituais” (como a religião). Montesquieu completa que todas essas causas representam os princípios e natureza das coisas e a lei é uma relação entre esses princípios e naturezas. - O espirito das leis e espirito geral: “Toda lei representa um elemento da realidade física, social ou moral” o espírito das leis é a relação dessas causas com as leis. Já por Espírito Geral ele entende a resultante de todas essas relações com todo um conjunto de causas, sendo estas as constituidoras do Espírito Geral de cada nação - “governo, religião, tradições, costumes e maneiras, assim como o clima”. - Teoria das formas (ou tipos) de governo: Agora, pode-se compreender, então, “as relações das leis com a natureza e o princípio de cada governo”. A natureza é a estrutura particular do governo, enquanto o princípio é o que o faz agir, é o seu elemento dinâmico (o que move). Assim Montesquieu supera as tradições que o antecederam e influenciaram mostrando que sua distinção dos tipos de governo é, ao mesmo tempo, um distinção das organizações (fim, objetivo, mola - princípio) e das estruturas sociais (“quem” e “como” governa - natureza). Portanto, segundo Montesquieu, tem-se: a) República Democrática natureza: conjunto de cidadãos exercendo o poder soberano. princípio: interesse geral associado à virtude política (chegando a um não privatismo). b) República Aristocrática natureza: certo número de cidadãos exercendo o poder soberano. princípio: moderação na desigualdade (a fim de limitar privilégios). c) Monarquia natureza: uma pessoa exercendo o poder soberano, de acordo com as disposições das leis fixas e estabelecidas. princípio: honra (baseada na desigualdade de mérito e privilégios), o espírito de corpo e a prerrogativa (“cada um se dirige ao bem comum, julgando buscar seus interesses particulares”). d) Despotismo natureza: uma pessoa exercendo o poder acima de quaisquer leis. Princípio: o medo, o temor. - Monarquia x Despotismo: Logo, o que distingue a monarquia e o despotismo? As leis. Para se compreender então a distinção de estrutura entre essas duas formas de governo é preciso ter em mente que a Monarquia pressupõe a existência de poderes intermediários e um depósito de leis. - Poderes intermediários: São três elementos que representam as três forças sociais que limitam o poder real - a nobreza, o clero e as cidades (ou o “povo”). Cada qual deve ter sua representação no novo corpo intermediário - o Parlamento. - Deposito das leis: O Parlamento é, na verdade, o Depósito das leis, local onde as três forças sociais se encontram e se confrontam defendendo seus respectivos interesses, dando origem ao que ele chama de “pesos e contrapesos”, de contraforças. Dessa forma, é o Parlamento que sustenta o Estado monárquico e o que pode torná-lo moderado. - Teoria da liberdade política: Só os governos moderados, vai dizer Montesquieu, é que permitem o desenvolvimento e a garantia da liberdade política, fundada na distinção e relação entre os diferentes poderes. - Liberdade: Mas o que Montesquieu entende por liberdade? É fazer aquilo que se quer? Não. A liberdade (política, pois se trata aqui da sociedade política, organizada) é o poder das leis - é o poder fazer aquilo que a lei permite, garantindo a segurança aos cidadãos temerosos por natureza frente aos demais. A liberdade está em impedir que um cidadão (ou um grupo) abuse do poder sobre os outros, impedindo que os indivíduos vivam livremente respeitando as leis, como acontece no despotismo. - Mecanismo: Para que essa liberdade seja garantida é necessário que o “poder detenha o poder”, isto é, que o poder não esteja unido nas mãos de um ou de poucos cidadãos, mas distribuídos e separados, em diferentes mãos. Contudo, o que podemos dizer que seria “separar” o poder para ele? É definir diferentes funções, quais sejam – a) Fazer leis; b) Executar as resoluções públicas; c) Julgar os crimes ou as desavenças dos particulares. E o que seria distribuir o poder? É dar a cada força social - para o povo, nobreza e monarca - uma dessas funções. - Governo misto: Influenciado pelos clássicos e por John Locke, eis que Montesquieu elabora o que ele entende como sendo a estrutura da organização social que melhor alcança e mantém a “estabilidade” – uma espécie de “Governo Misto” composto por um Poder Legislativo,Executivo e outro Judiciário. Assim temos: - O poder legislativo - Representado pelo Parlamento. Este é composto por duas esferas e tem por função criar leis. Dessa maneira, o mecanismo de controle que o protege dos outros poderes é o direito de estatuir – criar e modificar leis. Defesa e recursos. - O Povo: o povo não age por si mesmo, mas por seus representantes. Montesquieu coloca que, por meio do sufrágio universal e o voto por circunscrição ou distrito eleitoral, deveriam ser eleitos os representantes do povo para constituírem o que na Inglaterra seria a Câmara dos Comuns. - A Nobreza: a nobreza tem interesses que devem se defendidos também, mas respeitando a natureza dessa força social - hereditária , Montesquieu separa a Câmara dos Lords para que ela possa discutir seus propósitos. Como é ela que detém o dinheiro é um direito dela julgar sobre esse tema (matéria de finanças, orçamento). - O poder executivo - Atende à necessidade de decisões momentâneas e imediatas. Para tal é melhor um agindo do que muitos. - O Monarca: Esse é o monarca - uma figura inviolável, sendo os sues ministros os responsáveis. (Esse ponto, mais tarde, foi alvo de muitas críticas). - O poder judiciário - É um poder nulo, “os juízes (são)... A boca que profere as palavras da lei”. O pensamento político de Jean Rosseau. Ideia geral. - O Estado de natureza - O estado de natureza de Rousseau, desenvolvido no Discurso sobre a Origem e o Fundamento das Desigualdades entre os Homens, é pacífico. A característica principal é o “isolamento” total, inclusive porque as pessoas não têm a capacidade de comunicação e são, portanto, livres. Logo, os homens vivem sob um primitivismo absoluto, onde a linguagem, veículo básico de troca de conhecimento, ainda não era conhecida. - O Homem - Nesse estado de natureza, segundo Rousseau, o homem é mais animal do que humano. Por viverem isolados os homens são movidos por seus instintos e dois seriam eles que regeriam todos os indivíduos, a saber: o instinto de auto-conservação e a piedade para com seus semelhantes. As únicas características humanas existentes são, portanto, a piedade e a capacidade de adaptar-se ao meio ambiente e utilizá-lo de forma mais habilidosa. - Igualdade - A grande vantagem, o grande valor desse estado de natureza é a igualdade que reina entre todos os indivíduos. Uma igualdade não só formal, mas, principalmente, substantiva. - Diferenças - Nesse estado de natureza três seriam as diferenças que, contudo, não chegam a gerar uma desigualdade marcante, devido exatamente ao isolamento: a inteligência, a beleza e a força. Dessa forma, mais do que bondade é o desconhecimento do vício que impede os homens de deixarem de ser virtuosos. Assim, se essas diferenças não são marcantes, se o homem é piedoso (alguns dirão o “bom selvagem”), o que o leva a se agrupar? Alguns são os fatores levantados por Rousseau que respondem a essa pergunta. - Fim do estado de natureza: Rousseau vai então dizer que as causas que levaram os homens ao fim do estado de natureza foram: 1) A busca pela segurança (não em relação aos próprios homens, mas aos outros animais e aos fenômenos naturais); e, posterior a esse primeiro momento de agrupamento, temos 2) A busca pelo conforto. Em outras palavras, depois que os homens se agruparam por segurança, surgiu a necessidade de juntos encontrar a melhor forma de se relacionarem atendendo suas necessidades. - Primeiras desigualdades- Essa saída do estado de natureza para essa situação sociável marca o surgimento das primeiras desigualdades. Por quê? - Política: - Após essa condição de sociabilidade, isto é, com a união dos homens, desperta-se a noção de vaidade, fruto da comparação entre habilidades diferentes, eis então que as desigualdades começam a ser percebidas. A busca pela segurança associada ao fato do mais forte ou mais inteligente ser escolhido como líder, gera a primeira desigualdade política. - Econômica: Já a busca pelo conforto associada às diferenças físicas que, agora, podem ser comparadas, acabam gerando uma divisão do trabalho que permite a alguns conquistarem mais do que outros (a possuírem mais), dando origem a primeira desigualdade econômica entre ricos (aqueles que terão direito à propriedade sobre aquilo que conseguiram) e pobres (os que nada possuem). Soberano – O soberano é o povo incorporado que representa, por meio da lei, a vontade geral. A soberania do povo é, então, expressa pelo Legislativo (constituído por assembleias frequentes de todos os cidadãos) e não pode ser representada, ou seja, os cidadãos não devem escolher um representante, mas devem exercer diretamente seu poder. Além disso, a soberania é indivisível, o que faz com que Rousseau seja contra a divisão dos poderes. - Governo – O governo é o Poder Executivo, delegado do poder soberano e executor fiel da vontade geral. Este poder, visto que é uma concessão do poder soberano, pode ser representado por um, poucos ou muitos. Em qualquer dessas formas ele se apresenta como um corpo intermediário encarregado da execução das leis e da manutenção da liberdade e recebe o nome de Príncipe. - Formas de governo – O objetivo de toda legislação, que é expressão do soberano, são a igualdade e liberdade entre os homens. Logo, em Rousseau, repetem-se as distinções entre Estado e governo e/ os três tipos de governo - Monarquia, Aristocracia e Democracia, visto que este pode ser representado. Idade Contemporânea O pensamento político de Vladimir Lenine. Ideia geral. Lenine era um marxista fervoroso e acreditava que sua interpretação de Marx – denominada "leninismo" por Julius Martov em 1904 – era a única autêntica e ortodoxa. De acordo com a sua perspectiva marxista, a humanidade acabaria por chegar ao comunismo puro, se tornando uma sociedade sem classes e sem Estado de trabalhadores livres da exploração e alienação, controlando seu próprio destino e respeitando a regra "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades". Segundo Dmitri Volkogonov, Lenine acreditava "profunda e sinceramente" que o caminho no qual ele liderava a Rússia levaria finalmente ao estabelecimento desta sociedade comunista. No entanto, as crenças marxistas de Lenine o levaram à visão de que a sociedade não podia se transformar diretamente do seu estado atual para o comunismo, mas deveria primeiro entrar em um período de transição socialista, e sua principal preocupação foi converter a Rússia em uma sociedade socialista. Para isso, Lenine acreditava que uma ditadura do proletariado era necessária para reprimir a burguesia e desenvolver uma economia socialista. Lenine definiu o socialismo como "uma ordem de cooperadores civilizados nos quais os meios de produção são de propriedade social", e acreditava que esse sistema econômico tinha que ser expandido até que pudesse criar uma sociedade de abundância. Para conseguir isso, Lenine considerava que centralizar a economia russa sob o controle estatal era fundamental, com - em suas palavras - "todos os cidadãos" se tornando "funcionários contratados do Estado". A interpretação de Lenine do socialismo era centralizada, planejada e estatista, com a produção e a distribuição estritamente controladas. Lenine acreditava que todos os trabalhadores em todo o país se uniriam voluntariamente para permitir a centralização econômica e política do Estado. Desta forma, seus apelos ao "controle operário" dos meios de produção não se referiam ao controle direto das empresas por seus trabalhadores, mas ao funcionamento de todas as empresas sob o controle de um "Estado operário". Isso resultou em dois temas conflituantes no pensamento de Lenine: o controle dos trabalhadores populares e um aparato estatal centralizado, hierárquico e coercivo. Antes de 1914, Lenine concordava principalmente com as teses dominantes do marxismo ortodoxo europeu. Entretanto, o leninismo introduziu revisões e inovações ao marxismo ortodoxo e adotou uma perspectiva mais absolutista e doutrinária. Da mesma forma, o leninismo se distinguiudas variantes estabelecidas do marxismo pela intensidade emocional de sua visão liberacionista e seu foco no papel de liderança de um partido de vanguarda revolucionário. As ideias de Lenine foram fortemente influenciadas tanto pelo pensamento pré-existente dentro do movimento revolucionário russo como por variantes teóricas do marxismo russo, que se concentraram estreitamente na forma como os escritos de Marx e Engels se aplicariam à Rússia. Consequentemente, Lenine também foi influenciado por correntes anteriores do pensamento socialista russo, como as dos “narodnik agrários”. Por outro lado, ele ridicularizou os marxistas que adotaram ideias de filósofos e sociólogos não-marxistas. Em seus escritos teóricos, particularmente em Imperialismo, Lenine examinou o que pensava ser os desenvolvimentos do sistema capitalista desde a morte de Marx, argumentando que o capitalismo havia atingido uma nova etapa, o capitalismo monopolista de estado. Antes de assumir o poder em 1917, Lenine acreditava que ainda que a economia russa fosse dominada pelo campesinato, a existência de um capitalismo monopolista na Rússia significava que o país estava suficientemente desenvolvido materialmente para passar ao socialismo. Lenine era um internacionalista e um fervoroso defensor da revolução mundial, considerando as fronteiras nacionais um conceito ultrapassado e o nacionalismo uma distração da luta de classes. Ele acreditava que sob o socialismo haveria "a fusão inevitável das nações" e o estabelecimento do "Governo mundial". Ele se opôs ao federalismo, considerando-o burguês, e enfatizou a necessidade de um estado unitário centralizado. Lenine era anti-imperialista e acreditava que todas as nações mereciam "o direito à autodeterminação". Ele assim apoiou a guerra de libertação nacional, aceitando que tais conflitos poderiam ser necessários para que um grupo minoritário se separasse de um estado socialista, porque os estados socialistas não são "santos ou livres de erros ou fraquezas". Lenine acreditava que a democracia representativa dos países capitalistas tinha sido usada para dar uma ilusão democrática enquanto mantinha a ditadura da burguesia. Descrevendo o sistema democrático representativo dos Estados Unidos, se referiu aos "duelos espetaculares e sem sentido entre dois partidos burgueses", ambos liderados por "multimilionários astuciosos" que exploravam o proletariado americano. Ele também se opôs ao liberalismo, exibindo uma antipatia geral pela liberdade como valor, e acreditando que as liberdades do liberalismo eram fraudulentas porque não libertavam os trabalhadores da exploração capitalista. Expressou a opinião de que "o governo soviético é milhões de vezes mais democrático do que a república democrático-burguesa", república que era simplesmente "uma democracia para os ricos". Considerou sua "ditadura do proletariado" democrática por meio da eleição de representantes para os sovietes e por trabalhadores que elegiam seus próprios funcionários, com rotação regular e envolvimento de todos os trabalhadores na administração do país. Assim, Lenine passou a se desviar da corrente dominante marxista sobre a questão de como estabelecer um Estado proletário. Sua crença em um Estado forte que excluía a burguesia entrava em conflito com as opiniões de marxistas europeus como Karl Kautsky que imaginava um governo parlamentar democrático em que o proletariado detivesse a maioria. O pensamento político de John Rawls. Ideia geral. Rawls dedicou toda sua vida na elaboração de uma teoria da justiça, esse é tema central do seu pensamento. Uma teoria da justiça que seja capaz de conjugar aquilo que nós podemos chamar de principais valores do mundo moderno. Valores esses, aparentemente inconciliáveis quando tratados sobre o prisma das ideologias dominantes do século XX. Que valores são esses? São a liberdade e a igualdade. No entanto, as grandes ideologias do século XX tornaram esses dois valores, como valores que colidem, que conflituam, valores com uma dificuldade de serem conjugados. O grande mérito de Rawls foi a tentativa de construir uma teoria da justiça que seja ao mesmo tempo, cuidadosa com o valor da liberdade como o valor supremo da vida humana, e com o valor da igualdade como o valor fundamental na convivência entre os membros de uma comunidade política. John Rawls é um autor que não abdica quaisquer desses princípios da liberdade e da igualdade, sobretudo quando ele tenta responder o grande desafio da Filosofia política. O grande desafio da filosofia política é de responder uma questão aparentemente simples, mas complexa e difícil de ser respondida, visto que não admite respostas simples. Neste caso, a pergunta é: “ o que é uma sociedade justa”? Ora, Rawls, a vida dele toda académica foi dedicada a construir uma teoria da justiça que pudesse conjugar esses dois valores supremos, como sendo a melhor e amais abrangente resposta da grande questão sobre o que é efetivamente uma sociedade justa. O pensamento de Rawls não se opera no vazio histórico, pois, o seu pensamento se constitui a partir das grandes teorias que se fazem antes dele. 2.Teoria da justiça como equidade A teoria da justiça como equidade é a teoria apropriada para responder a questão sobre o que é uma sociedade justa. Neste âmbito, encontramos três pressupostos básicos: sendo o primeiro pressuposto é justamente a escassez moderada dos recursos. De acordo com Rawls, a totalidade dos recursos a ser distribuído é menor do que a demanda, pois, há um conflito permanente entre os bens disponíveis que são escassos, e desejo ilimitado de posse na parte dos indivíduos, ou seja, a natureza não está aí para nos prover recursos infinitamente, embora nós sejamos indivíduos cujos desejos são infinitos. Esse é o pressuposto básico da teoria de Rawls. Portanto, nós para pensarmos numa sociedade justa, devemos partir não e nem dum clima de abundância total, e tão pouco num clima de escassez absoluta, mas duma escassez moderada de recursos, de tal modo que, o que se trata de distribuir são bens que, de certa maneira, todos contribuíram na vida em sociedade, e que temos pensar na justa repartição desses bens, sabendo de antemão que esses bens devem ser cuidados, zelados, porque a final das contas, não têm uma indisponibilidade absoluta, pois, eles não estão disponíveis nem para todos ao mesmo tempo e nem para todos em todos os tempos. Ademais, a nossa sensibilidade aumenta, ela se aguça à medida que nós percebemos a importância fundamental do facto de que a geração futura a vida deles nesse planeta depende também das escolhas que fazemos hoje na vida e em sociedade. Rawls pensa na ideia da justiça de que há um conflito permanente entre os bens disponíveis e o desejo ilimitado por parte daqueles que vão-se apoderar desses bens. O segundo pressuposto da justiça como equidade é o reconhecimento do facto de pluralismo, ou seja, da existência de um desacordo profundo, irredutível e intransponível entre concepções de bens defendidos por um determinado grupo de indivíduos numa sociedade moderna. As sociedades modernas são caracterizadas por pluralismo das formas de vida, portanto, nós não vivemos mais numa sociedade, na qual conjugamos uma única doutrina do bem absoluto compartilhado por todos; isto para Rawls é um dado fundamental, porque isto marca uma ruptura com os sistemas de valores tradicionais. Ora, a filosofia política clássica tinha como ideia fundamental a identificação do bem supremo. Pois para os clássicos, o bem supremo seria melhor para a organização da forma política e para que conduzisse a vida humana. Isto é mais ou menos compartilhado por todos autores clássicos – Platão (427-347), pelos Estóicos, pelos Epicuristas, pelo Aristóteles (384-322), pelos Medievais, sobretudo pelo Santo Agostinho (354-430), Santo Tomais de Aquino (1225-1274). Dum modo geral, a política clássica é pensada segundo uma concepção de bem que norteia a vida dos indivíduos que pode ser identificada como um bem supremo. No entanto, longe de a política seruma tentativa de estabelecer o reino de um bem supremo na consciência comum dos indivíduos, os teóricos modernos partem de um pressuposto diferente. Pois, segundo os quais, esse bem supremo não é compartilhado pelos indivíduos, ao contrario, as concepções do que seja o bem excelente da vida humana são objectos de profunda divergência entre os indivíduos. Entretanto, o problema é de saber quais são os princípios de justiças que podem regular a coexistência de membros, cujos pensamentos, doutrinas, concepções divergem uns dos outros. Ora, a visão dos modernos é de que o fim de toda associação política é de conservação dos direitos naturais. Por seu turno, a declaração da independência americana usa palavras próximas para defender as mesmas ideias: “ defendemos como auto-evidentes, as verdades de que todos os homens são criados iguais e dotados por seus criadores certos direitos que são inalienáveis. Dentre esses estão: a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. E para a segurar esses direitos, os governantes são instituídos entre os homens, derivando os seus justos poderes do consentimento dos governados. No entanto, sempre que a forma de governo torne destrutivo desses fins, é do direito do povo de a altera-la, ou de aboli-la. Partindo desse pressuposto, pode-se inferir que, o poder político deriva do consentimento dos cidadãos, e a função primordial é a segurar direitos que não são outorgados pelo rei, mas direitos que cada indivíduo nasce com eles, direitos que lhe pertence de modo inalienável. Portanto, o problema central da Filosofia política moderna é da legitimidade do poder político. Uma vez corrompendo-se esse destino fundamental do que seja o bom governo; logo esse governo perde a sua legitimidade. Aliás, no período moderno, o poder político não é mais imaginado como um poder emanado de um direito divino, pois, é imaginado como aquilo que congrega e agrega os indivíduos em torto duma concepção unívoca do bem. Um dos aprendizados mais dolorosos, e mais difíceis que os seres humanos fazem ao longo de um processo de modernização de uma sociedade é justamente o processo de uma convivência de tolerância, pois há uma divergência profunda de algo que talvez seja mais essencial do que a política, mas que precisa da política para sobreviver. Que algo de essencial é esse? É o sentido último da vida humana. Os clássicos salientavam que a ética e apolítica tratava exactamente desse problema fundamental: “ qual é o sentido último da vida humana, qual é o fim último das nossas acções? Qual é o modo mais excelente da vida humana? E qual é melhor colectividade senão aquela que preserva, que inculta nos seus cidadãos as virtudes que tornam o homem excelente”. Ora, no mundo moderno esse tema das virtudes, progressivamente cai em desuso, sobretudo na medida, em que os membros da sociedade moderna vão conviver com aquilo que Rawls chama de “ o facto de pluralismo.” De acordo com Rawls, não se faz uma Filosofia política séria no nosso século, se não partirmos desse facto fundamental. Neste contexto, a tendência nossa tende a divergir do que a convergir na medida, em que, em sociedade como essas, o uso livre da razão humana, o uso livre do pensamento e a capacidade dos indivíduos de poder expressar suas concepções de modo livre tende naturalmente a criar modos, e estilos de vida cada vez mais diversificada. No entanto, como estabelecer princípios de justiça no meio onde há divergência de opiniões e conflitos entre pessoas? De acordo com Rawls, para fazer uma filosofia política séria deve-se partir desse pressuposto fundamental: o primeiro é a escassez moderada dos recursos, e o segundo é o reconhecimento do facto de pluralismo. O terceiro pressuposto da justiça como equidade é o reconhecimento de que todos os membros da sociedade são indivíduos racionais e razoáveis, ou seja, indivíduos capazes de formular uma concepção de bem, e de desenvolver um senso de justiça. A racionalidade e razoabilidade constituem duas capacidades ou poderes morais intrínsecos aos indivíduos. O que é ser racional segundo Rawls? Ser racional é ser capaz de escolher fins, escolher metas e dotar-se dos meios mais eficazes para atingi-los. No entanto, isto seria aquilo que se chama de racionalidade meios fins. Todos nós escolhemos fins, e somos capazes de buscar meios para isso. E o indivíduo na medida em que vai-se desenvolvendo, ele é capaz de transformar, de modificar, de repensar quais são aqueles bens que ele antes tinha como essenciais e hoje, ele as coloca como provisórios. Ao lado dessa capacidade cada indivíduo sabe respeitar os termos equitativos da cooperação social. Pois, o facto de que eu eleja os meus fins, não dá o direito de pensar que na realização dos meus fins, eu terei que imaginar que os fins dos outros não podem ser realizados, ou os fins dos outros como obstáculos aos meus. Portanto, de acordo com Rawms, o problema da convivência em sociedade não é da eliminação dos fins de cada um, e sim da capacidade de conjugar o livre arbítrio de cada um dentro duma lei universal da liberdade em que todos possam compartilhar em comum. No entanto, ao lado da racionalidade todo indivíduo humano é capaz de exercitar um outro poder que Rawls chama de razoabilidade. O que é a razoabilidade? A racionalidade é a nossa capacidade de perceber que certos fins podem não ser os melhores. Exemplo: é racional que todos os indivíduos possam acreditar em certas concepções religiosas, mas não é razoável que certas concepções religiosas admitam sacrifícios da vida humana só porque faz parte do seu credo. O que a vida social nos impõe é que as nossas acções sejam em conformidade com as normas, neste sentido, qualquer cidadão pode utilizar uma simples razão estratégica e instrumental, e ser um bom membro da cooperação social, porém, isso não o torna um indivíduo razoável capaz de estabelecer para si e para os outros, os critérios da justiça. Baseado nesses pressupostos – escassez moderada dos recursos, o facto de pluralismo, e as capacidades morais de cada individuo é que Rawls afirma que não é possível encontrar os princípios capazes de ordenar a estrutura básica de uma sociedade, a não ser quando os procuramos no quadro duma situação altamente específica, o que chama de posição original submetida a condições restritivas, o que se chama de véu de ignorância, de modo que os indivíduos não possuam informações sobre a situação particular e as características pessoais que serão suas na sociedade para a qual elaboram os princípios da justiça. Ora, uma apresentação geral da teoria de Rawls deve levar encontra três elementos fundamentais duma concepção política da justiça: objecto/estrutura básica da sociedade, método/ posição original, conteúdo da concepção política da justiça. No entanto uma concepção política da justiça tem como objecto a estrutura básica da sociedade, e o seu método é a posição original. Desde o primeiro parágrafo a parece a tese de Rawls, a justiça é a primeira virtude das instituições sociais, assim como a verdade o é para os sistemas de pensamentos. Uma teoria por mais elegante ou parcimoniosa que seja, deve ser rejeitada ou alterada se não for verdadeira. Da mesma forma as leis as instituições se não forem eficazes devem ser reformadas ou abolidas. Rawls, no lugar de contrato social, ele imagina uma situação da posição original que seria uma situação, onde os participantes decidem os princípios de organização das instituições básicas de uma sociedade sobre o véu da ignorância, ou seja, eles são colocados nessa posição sem conhecer suas posições na vida real – a originalidade de Rawls é a famosa posição original. Os indivíduos desconhecem os seus atributos físicos e psicológicos, desconhecem também se serão homens ou mulheres. O Pensamento político de Karl Marx. Ideia geral Principais fundamentos do socialismo científico de Marx As transformações da sociedade como resultado das forças econômicas: A sociedade era formada por uma base chamada de infraestrutura (que se identificava com a economia),sobre essa infraestrutura se erguia uma superestrutura filosófica, política, jurídica, religiosa, moral, formas de governo, etc. A economia em Marx é a quem vai influenciar todas as outras instituições da sociedade. O conjunto formado pela base e pela superestrutura formava o que Marx chamava de modo de produção, ou seja, a forma como a sociedade produz numa determinada época histórica os seus meios matérias de existência. Após um período de formação e apogeu, o modo de produção existente entraria em declínio, em consequência, sobretudo de contradições internas de ordem material ou econômica, e acabaria sendo substituído por um novo, que viera se formando lentamente no bojo do anterior. Esse novo modo de produção, por sua vez, já conteria em si os germes de sua própria destruição e de sua substituição futura. Segundo Marx até aquela época os modos de produção existentes tinham sido a comunidade primitiva, o asiático, o escravista, o feudal e o capitalista. A luta de classes como força motriz imediata da história: a história da sociedade seria da luta de classes; a divisão da sociedade em classe seria determinada por fatores de ordem econômica e, sobretudo, pela existência da propriedade privada. Os interesses econômicos antagônicos estavam na base do conflito entre as classes sociais e essa luta, por sua vez, constituiria a força motriz das grandes transformações históricas. Na antiguidade a luta se travava entre amos e escravos, assim como entre patrícios e plebeus; na idade média, entre senhores e servos e também entre mestres-artesãos e jornaleiros. Nos tempos modernos, ocorrera o choque entre a nobreza e a burguesia (revolução francesa de 1789). Finalmente na era contemporânea, a luta entre burguesia e proletariado se transformara na característica fundamental da sociedade capitalista, colocando frente a frente os proprietários dos méis de produção e os detentores da força de trabalho. O proletariado como agente de transformação da sociedade capitalista: Durante o antigo regime (absolutismo) a burguesia entrara em luta com a nobreza, com a derrubada da monarquia eliminou-se os entraves do feudalismo, criando condições para o desenvolvimento do capitalismo moderno. A revolução francesa foi o modelo clássico de revolução burguesa. Na sociedade capitalista, essa classe era agora, a um tempo, econômica e politicamente dominante. O proletariado, portanto, era, a classe subalterna que deveria assumir o papel de agente transformador desempenhando pela burguesia no antigo regime. A classe operária seria, em suma, o agente de uma revolução social que criaria condições para a transformação da sociedade capitalista e burguesa em um novo tipo de sociedade. A libertação dos trabalhadores seria uma obra dos próprios trabalhadores. O advento do socialismo como fase de transição para o comunismo – A construção dessa nova sociedade far-se-ia, portanto, com a substituição do capitalismo pelo socialismo, por meio de uma revolução em que o proletariado conquistaria à burguesia o controle do Estado e implantaria uma nova forma de governo, que Marx chamou de ditadura do proletariado e que extinguiria a propriedade privada dos meios de produção. O socialismo seria a fase intermediária de transição que caracterizava a passagem Do capitalismo para o comunismo, este último baseando-se na propriedade social dos meios de produção (fábricas, terras, bancos), no fim da exploração do homem pelo homem, na construção de uma sociedade sem classes e no desaparecimento gradual do Estado. O pensamento de Marx e Engels exerceria, a partir da revolução Russa de 1917, uma profunda influência sobre as transformações históricas ocorridas no século XX Referência bibliográfica Bibliografia: ht https://pt.wikipedia.org/wiki/Lenin#Ideologia_pol%C3%ADtica tp://monitoriacienciapolitica.blogspot.com/ https://www.webartigos.com/artigos/o-pensamento-politico-de-john-rawls/155606 Manual de Diogo Freitas do Amaral https://brasilescola.uol.com.br/historiag/governo-lenin.htm Conclusão Terminado o trabalho, tomou-se nota de que o tema História das ideias políticas apresenta uma informação vasta, relembrando que ela se divide em Idade antiga, Idade média, a Idade moderna, o iluminismo, a Idade contemporânea, cada uma com os seus respectivos politólogos e seus contributos. E que é um tema que deve ser tomado com muita cautela, pois esta, ainda influencia até aos nossos dias. De um modo geral cada politólogo apresenta uma boa tese, dependendo assim da situação.